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Carta de Alforria de Thomaz Ribeiro

- O autor saúda a chegada da família imperial brasileira a Portugal após sua deposição, referindo-se à situação como uma "carta de alforria". - Ele expressa simpatia pela família e diz que os receberia calorosamente se também fosse deposto no Brasil. - Por fim, o autor comenta sobre possíveis rumores em torno de Pedro II ter enviado uma "proclamação incendiária" ao Brasil por meio de uma mensagem carregada por uma pomba, sugerindo cautela em acreditar nisso.

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Carta de Alforria de Thomaz Ribeiro

- O autor saúda a chegada da família imperial brasileira a Portugal após sua deposição, referindo-se à situação como uma "carta de alforria". - Ele expressa simpatia pela família e diz que os receberia calorosamente se também fosse deposto no Brasil. - Por fim, o autor comenta sobre possíveis rumores em torno de Pedro II ter enviado uma "proclamação incendiária" ao Brasil por meio de uma mensagem carregada por uma pomba, sugerindo cautela em acreditar nisso.

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b Thomaz Ribeiro

( CARTA DE ALFORRIA )i
I IOlEC~ 00 SEIa t .---_

:8=·15~
do ano de, =']~ ~~
iO
1.
çÃO
_
I
PROLOGO
« Meu querido Camillo.
Vás ficar mal commigo.
Pensaste que ao ver entrar nO Tejo o Ala·
goas, que trazIa a seu bordo a familia impprial
do Brazil, tiv'e lagrim<ls para aquelles inf)r~
tunados; enganas-te; saudei no intimo a sua
carta de aIforria ..
Eu não conheço nada mais afflietivo - ac-
tualmente - mais degradante, as vezes. do que
a sorte de quem reina, de quem preside, ou de
quem governa.
Além de que o ·Brazil em revolta, ou em
re-yolução. que n'aquelle paiz prodigioso é ra-
pida a expansão natural - nem matou o impe-
rador, nem a imperatriz, nem entregou os prin-
cipes ao sapateiro Simão.
Hosanna in excelsís et in bmsilir:is plagis.
Nunca mais human~mente, mais suave-
mente, mais ceremoniosamente, se intim'ou seno
tença dictatorial de despejo ao primeiro ci·
dadão de uma republica, ao primeiro magis-
trado de um imperio. Honra seja, e digo-o sem
ironia, aos iniciadores da revoluçãO do Brazil.
Não os appIaudo, porque a sua victoria foi
demasiado facil e facilitada, .para que fosse
heroica ou gloriosa, mas felicito-os porque não
tiveram necessidade de recorrer a scenas de
violencia.
Bastou-lhes alguma familiar aleivosia, se-
gundo o manifesto do visconde de Ouro Preto;
Eu sinto como o nosso distincto 'poeta Go-
mes Leal: não applaudo quem mare os reis,
seja republicano ou jesuita. E tambem não sou
por quem dJofficÍo ou de Írldustria os insulte
Posso respeitar quem Os combata, por
conviccão.
T~mbem sinto, como CastelIar (outro re-
l epublicano! vê bem o caminho que eu levo)
[Link] acima da republica, do rei, da propria
1iberdade, punha a existencia honrada o glo-
riosa da s,ua p'alri~: Is~o quer dizer que o meu
conhecido monarchismo não é absolutamente
incondicional.
Conheço boje mais de perto a familia im-
[Link], e, depois de me appr<?ximar
d'ella, posso dizer-te que teria vertido todas
as lagrimas que pE'n-'aste haver, noS meus
olhos, ainda felismente susceptiveis de chorar,
se em vez de portl1guez eu fosse brasileiro.'
Familia patriarchal, -adoravel! que sente
pelo seu Bra2'il o internecimento especial dos
paes e das mães pelo tilhos que lhes sahiram
ingrato~. .
No dia em qu~ do meu albergue 4a b~ira
do Tejo alonguei os olhos para o navio que
arrojava do Brazil á Europa, pros~ripta) fami-
lía qu.e só lhe havia propiciado glorias e ven-
turas, a minha tentação foi dar-lhe para bens.
E, pensei, Camillo. . na epherneridade das
realesas. .
Exçeptuando a tua, meu generoso amigo ,.
a quem agradeço, tão invaidecido da tua ami-
sade que não substituo nem illido, na tua carta,
uma só das palavras lisongeiras que me diri-
ges, e vou de braço comtigo levar o nosso
preito e homenagem ao Sr. D: Pedro d' AI-
cantara, augusto filho d'esta nação.
Feitoria, Dezembro de 1889.
T homaz Ríbeiro ~.
CARTA D'ALFORRIA
EPISTOLA DE PARABENS

A Sua Magestacle o Sr. D. Pedro d'Alcantara


t
POR T8R OBTIDO G8~E"1 )3Al1E~TE DO BRAZIL

Gumes amici mei. •


JOB.

A Stta Magestade Imperial/ . ..

- Dizendo só assim, sem dizer d'onde,


parece um cumprimento curial,
sem offensa aos ministros brazileiros,
visto que o nome de - Brazil - se esconde.
Evito alguma nota diplomatica
e salvo os meus patricios marinhei-raso
É bom ser cau~eloso na pragmatica.

.Á stta 1nlJ,gestade impe1'ictl,


minusculos agora o -'- ln - e O- i - ,,.

A.té os commandàntes do Ala,qoas, : I

entrando o Tejo e fundeando aqui,


-2-
podiam arvorar volhas bandeiras,
pondo-lhes l'scumilha nas corOas.
Eram pendões imperiaes minusculos,
visto faltar modêlo
para novo desenho, a novas côres.
IçaI-os, pois, não deshonrava os musculos
dos nobres vencedores
do bravo Paraguay, em Riachuelo.

Tambem posso dizer: - A ti, D. Ped1'o! - .••


É mais rapublicano, é mais pedestre,
o é mais patriarchal ;
a, em quanto assim o abato, eu subo e medro I...
Mas não! - é velho e bom e grande e mestre I

A Sua Magestade Impe1'ial I


E agora vai maiusculo o - I - e o - M -.

Se n'estas minudencias me demoro


é que tudo é prudente, ou - tudo treme
de dizer o que sente, - se é que sente I -
de respeito, carinho, obsequio, amor;
e singra o cumprimento entre desvios,
- oh 1femenilidade que eu deploro I -
~omo baixel pirata entre baixios:
olho no imperador,
olho em Manoel Deodoro I

Por mim, no dia em que este fOr proscripto,


se fôr, que o não desejo 1 e entrar no Tejo,
prometto ir ajuntar-me ao seu cortejo.
-3
Gritar, [Link] gritei, tambem não grito;
mas se o não vou saudar ás eminencias,
protesto não faltar ás condolencias.

II

Senhor, bem vindo I Posso emfim saudar·te


da minha obscuridade remançosa ;
eu, que fugia sempre, de buscar-te,
que sempre me ficava quedo e mudo
quand.o podias tudo,
saudo-te hoje que, prostrado, inerme,
já não pódes fazer-me
barão, conde, marquez, gran-cruz da Rosa.

Dizem que vais deixar-nos; sinto-o d'alma 1


Perdido o teu Brazil a patria é esta,
esta a casa solar de teus avós;
9 se o lar da familia a dôr acalma,
Senhor, vem para nós!

A rua da amargura é longa e mesta ;


a bahia do Tejo é elar;.L e mansa.
Martyr eternamonte violentado,
encosta a cruz aos muros de Bragança.
Arrasta'l·a a sorrir, mas vens cançado !
em casa está~, descança I

Se te pagaram mal cs teus amores


.a ti - liberal, bom, franco e leal,
-4-
prestigioso, honrado, -
foi .que o paiz das palmas e das fiõres
não se julgou de todo emancipado
emquanto houvesse um rei. .. - de Portugal.
Mais um motivo para seres nosso,
visto como de nós te veio mal.

Eu sei, Senhor, que uma policia ... nova I


te invade em chusma o lar ... - abstruso preito I -
remexe nos papeis, desmancha o leito,
o oratorio profana e espreita a alcova;
que sonda o rez do chão, a sala, os tectos,
e com sem ceremonia e riso e geito
devassa os gabinetes mais secretos I
dá-nos, em rol diario, os teus manjares;
pede intc?', " nome feio em lingua estranha r
- mote ás variações dos seus cantares! .. , -
Como a imprensa inventou praga tamanha!
Mas não fujas, Senhor, d'este castigo,
que onde tu fOres dar, vai dar comtigo.

III

Ou quer ou quiz o occidenial coloss(}


substituir as côres - ouro e verde-
á nacional bandeira.
Que tempo que eUe porde
em taes cogitaçúJl", em tal canceira !
Se consentem que estranho se intrometta
llas coisas da familia brazi loira,
-5-
-eis uma indicação amiga e franca:
- escolham a cOr branca,
<orlando-a em volta d'uma tarja preta. -

Eu podia fazer, como poeta,


;ganhando fama e gloria -de erudito,
·nma dissertação longa, completa,
um esmerado estudo
,sobre a razão de ser d'esta proposta j
mas isto 9 mais artistico.
'di: eu me explicarei, se houver conf:!icto.

"Pois que sempre era liso e raso o escudo


-de todo o cavalleiro incipiente,
~o futuro deixava emblema e distico ..•

:Não quero discretear j não é prudente.


E nem o leitor gosta
-d'ouvir ou lêr razões de facto ou dito;
pois se elle entende tudo!
.E na época actual da era presente I

Occorre-me, porém, n'este momento


relatar o que li n 'um livro raro,
lha seculos impresso em Salamanca.
.Li, - não posso dizer se vagos topicos
-ou se demonstração plena, completa,
de que, não sei por que razão, nos tropicos
muita vez a cOr preta se faz branca
-e, muitas mai!!, a branca se faz preta.
-6
Ahi fica o reparo.
Acabo de lavar
as minhas mãos, pela proposta idéa,
na presença de toda a galiléa
d'áquem e d'álém-mar.
IV
Tambem dizem, Senhor, que já do Atlantico t
mandaste, por alado mensageiro,
ao teu Brazil querido o extremo adeus ..•
- anhelo ... antigo! paternal! romantico 1
de yelho encanecido patriarcha 1-
e que viste voar a pomba da Arca
'tá se perder nos cãos,
como se perde no occidente o astro
a que o ausente confia o derradeiro
'Voto saudoso d'um perdido amor I
Se o facto é verdadeiro,
que imprudencia, Senhor I
Imagina que foi pousar no mastro
d'um navio negl'l'iro 1...

- Pois sahiu esta hypothese á ventura 1


e sinto que pareça um desprimor,
suspeita que fulgiu e que se esboça
ao de leve, e comtudo sem mysterio j
pois sendo certo que, afinal, o imperio
baniu a escravidão e a escravatura
podiam ter, a escravatura, e a roça,
ajudado a banir o imperador.
-7-
Volvamos ao papel e ao portador:

Imagina-o suspeito d'espião,


torturado, apalpado;
encontrado o papel e registrado,
no diario de bordo I prisioneiro
o misero, espantado mensageiro,
e com grilhões aos pés, como um ladrão

Pensa agora no horror do auctoridade


recebendo o suspeito documento,
lendo e relendo a cifra enigmatica,
consultando o conselho á puridade,
tendo uma iléa 1 e logo
pondo o fatal papel j unto do fogo
a vêr se encontra alli tinta sympathica!

Resolve-se por fim - tomar assento,


em sessão permanente, extraordinaria,
de qUf\ : - de subre o mar, o imperador
enviára ao Brazil ... - Revel I traidúr! -
uma proclamação incendiaria I
E para desaggravu da nação,
- acto continuo - o pombo flxecutado
por crime de traição e aleivosia,
e condemnados - vós - á revelia,
pedida a Purtugal a extradição! ...

Fugi, Senhores! ... - Não! que o portador


tendo a garganta larga, se era macho,
percebendo que o tinham por traidor
enguliu o despacho I
-8-
D'esta sorte o Brazil dormindo em calma
accorda, sem cuidados, alto dia,
e segue sem receio e sem revez,
no mais puro e ideal socego d'alma ;
e ficam ainda a salvo desta vaz
D. Pedro, e a lusitana monarchia.

v
Tudo isto o que faz
é pensar que os arroubos da poesia
são causas d'imprudencia a mais completa;
e concluir, Senhor:
- Não póde haver imperador poeta,
nem poeta que seja imperador.-

Que eu enten do que o mundo não se entende I


Se o reinante é poata, - escreva prosa!-
se escreve prosa, a opposição em pr~hende
mostrar· nos que a dicção é sU.:lpeitosa j
se falla-certa é logo a inconveniencia;
se não falla e se esconde, -é oriental
imperador da China ou do Japão j -
se amnistia, bondoso e paternal,
- tem medo! quiz matar, tremeu-lhe a mão 1-
se nos manda enforcar - é cannibal !. " -

Não entendo I Com a mão na consciencia I

Hontem diziam :-Que sagaz politico 1


como elle prevê tudo, e toma a frente
-9-
aos liberaes desejos da nação! -
Hoje: - Eu tinha previsto o dia critico
d'este desabamento, era evidente!
descer de concessão em concessão I. .. -
Os do-pr6-e do contm-os mesmos são,
e viram tudo pela mesma lente.

VI
Consola-te, Senhor! reinos e imperios,
que furam - santo ofticio - aos governados,
são hoje - santo officio - a~quem governa 1
os reis são pois aos tratos condemnados 1
seja em que l,·gar fõr dos hemispherios,
o throno deu lugar ás gemonias!
o sceptro diz: - condell1nação eterna l -
a purpura é signal de vilipendio 1
os povos andam a atear o incpndio
que devoraI-os póde entre agullias I

Feliz de ti que, protector e amigo,


sagraste aos filhos teus toda a existencia ;
coração sempre bom, mão sempre justa I
E de lá que trouxeste? - a consciencia I
do bem -fazer a recompensa augusta 1
da honra Ullico premio.

Pela real corõa a laurea cinge


de sabio, de poeta, e exulta I os sabios
esperam-te em seu gremio.
Que um sorriso te esmalte os frios labios I
- 10-

VII
Dizem que a monarchia é aggravo e insulto.
aos destinos viris d'am povo adulto!
e assim será talvez! Oh I mal peccado 1
Tudo está em saber, mas com verdade,
qual é do povo a idade,
o sexo, o nome, a filiação, o estado,
o que se não estuda nem se aprende.
nos registros civis ou nos do abbade.

Outra materia em que ningaem se entende.

Já hoje a questão magna, a questão publica,


a questão social da humanidade,
não é de rei nem roque nem republica,
é puramente e só-d'aztcto1'idade-,
o - legal empocilho,-
que ainda garante o somno aos moradores.
:Qir·se-ha, e isto. n(\s sirva dtl cautela!
que o que n'esta pendencia se revela
é propicio advento a salteadores.

Que porvir de grandezas e gloria e brilho I


No entanto uns vão de velhos a meninos,
-11-
antros, sem attingirem madureza,
vão :da infancia a senil decrepitude;
(testemunhas de lei - Camões, Castilhos)
tal é desconcertada a natureza I-
a andar o mostra e a ling"ua e os desatinos.

Mas vão lá consultar os taes ~enhores I


muitos são grandes, todos são - maiores!" ..-

Ecco, do immenso, nniversal conccrtl)


sando-te, Senhor, do fundo d'alma j
nasceste martyr e colheste a palma j
nasceste para escravo,-eis-te liberto I

VIII

Acompanho os teus votos de ventura


ao Brazil, - filho nosso, ou nosso irmão ..•
se elle nos aceitar o parentesco.
A's vezes quanta mais democracia
mais se apura a pretensa fidalguia,
no aprumo da creatura,
no porte e na prosapia das nações;
a ponto de negar-se: - tradições,
haja de fastos proprios cópia on mingua,
- avós, - a gloria herdada, - o nome} - o escudo~
- a historia, - apropria lingua...
Encontra-se de tudo;
mae no Brazil, Senhor, decerto não.
- 12

IX

Ousaste ser libertador, - escravo!


liberta emfim de ti, da monarchia,
a republica, em premio e sem aggravo!
impôz-te ... ou deu-te! a carta d'alforria.

Pois que é tornado em sambonito o arminho,


acclamo-te, Senhor, não te deploro! '"

Se me adianto mais n'este caminho,


chego a dar - vivas - a Manool Deodoro.
lN EXCELSIS
CORÔA DE SAUDADES PORTUGUEZAS SOBRE O FERETRO

DA.

PRIMEIRA. [Link] BRAZILEIRA

CARTA DE PEZAMiJ:S AO SEU AUGUSTO VJUVO

QlJe mue1'O, porq~te no 1nl~ei"O.

S,"~TA TIlEREZA DE JJ,;sos.

8(·nhor, começa a morte


a cumprir os decretos d'oxterminios,
longo da tua pa tria e teus dominios,

Quiz Deus que ElIa morresse em Portugal.


Que morresse a teu lado
o na Cidade Invicta, - a. tão Leal!
ao pé do coração do Rei-S{,ldado!
Repara na harmonia dos dostiuos:
- Os grandes que o Brazil baniu do solio,
devendo-lhes ventura e liberdade,
vieram achar lagrimas ou hymnos,
- pantheon glc,rioso ou capitolio,-
dentro dos muros tIa Leal Cidade!
-14-

II

Pobre fonte senil!


~urva·te á lei fatal da treda sorte.
A humanidade é má, sempre que é forte,
ou tal se julga ao ver-se triumphante,

III

No mysterioso instante
de libertar-se o espirito gentil
da grande, augusta Mãi, Avó, Consorte,
EUa viu, na miragem da saudade,
do desterro sem culpa, - o seu abril I
- O seu multiplo amor, - O Esposo, os Filhos ..•
sonhos de tantas glorias e venturas,
tantas prosperidades, tantos brilhos 1
~s bens que semeou por sua mão
e os pranto&, a miseria, as amarguras
Elue pôde suavisar com bem-querer I...
<e disse: - «Nunca mais en te hei de vêr I..•
c nunca mais formosissimo Brazil I, .•

E evocava a celestial visão,


n'um tremulo de voz, sorriso e pranto,
que inspirára ao pincel um novo encanto
li e t1'ansfi,qu1'ação.
E alou-se para Deus a alma gentil
e partiu-se de dõr um coração.
- 15

IV

Que mal fizestes vós? que mal fez Ena,


a quem Deus aureolou de eterna aurora?
Volve, Senhor, a mim teus olhos baços I
dize-me os crimes teus, que o mundo ignora 1
Que mal fizestes vós áquelles povos
que, nos seus pendões novos,
estrellas pintam, apagando a estrella
que tantos annos lhes guiára os passos
pelos caminhos da honra e da ventura?
Dize: qual foi o crime, a culpa, o erro
porque te condemnaram a desterro
que só tem de acabar na sepultura?

v
Inda hontem eu sorria, ao recordar-me
da ca1'ta d'alfo1"1"ia generosa
que trouxeste d'além das grandes aguas,
dada com pouco sangue e muito alarme.
Era um raio de luz na luctttOsa,
procurando uma tregoa ás tuas magoas,
pois que, menos que drama, era comedia
que se representava no teu Rio.
Porém o palco é dividido: - a um lado
ha tripudios alegres no tablado,
e no outro ha pranto e morte j - uma tragedia 1. .•
Agora já não rio.
16
VI
A humanidade é má, se em multidão
conseguir os IaUl'eis d'uma victoria
ou a ganancia vil d'uma traição.
E por mais vil que seja sempre a historia,
ha de justificar os ganhadores,
e castigar as vi~timas da sortfl.
E Sl3mpre, covardissima canção,
memhcante e servil, chamará - gloria -
ao crime collectivo e aos seus horrores!

Queres saber? - acho ventura a morte.

VII
A humanidade é má, cruel, damnillha.
A biblia diz que Deus se arrependera
de haver creado o homem. Razão tinha.
Seja Cam ou Caim a humana fera,
ou mate ou escarneça,
que lhe importa, Senhor, que uma cabeça
cáia por terra aos golpes d'um cutello ?
que n'um dia ... n'uma hora I so embranqueça
o loiro, formosíssimo cabello
d'uma fraca mulher? - Prorompam hymnos!
o povo, - o grão senhor, - o formidavol,
- a anonymo, - o inconsciente, - o irresponsavel
despenha- e, em triumpho, aos seus destinos,
em catadupa clamorosa, ingente ...
nem sempre crystallina ou transparente.
- 17-
-VIII

E a multidão applaude-se! Que póde


uma voz, fraca e s6, contra ess~s crimes?
ninguem, ninguem a escuta 110m lhe acode,
a não ser com grilhões ou com mon]aça.
- A. multidão algoz vence. Depois
chega a historia e chama-lhes: - Heroes -.
chega a epopeia e chama·lhes : - Sublimes - !. ..

Esqueceu a desgraça.

IX

Não penses que entre o povo e as monarchias


eu sej a parcial da prepotencia,
como não sou tambem das anarchias.
Por estudo e por indole, a tendencia
da minha alma leal, mas insubmissa,
pez o seu ideal n'uma trindade
que inda ha de ter direito de cidade:
- LmERTAçÃO, VERDADE e sã JUSTIÇA.-

Cahir do throno um imperante, é grave ...


E' vago o adjectivo? Quem mais sabe
que diga e que precise o que eu não sei.
- E' muito grave cahir do throno um rei j
- mais grave é cahir d'eJle a monarchia j
- mais grave é ver sem norte a ignara grey ;
e, sem respeito a si, ao mundo, á lei,
vêr a nação perdida, no outro dia.
18
x
Diz a artificial - austera cntica
que não ha coração, nem póde haver,
nos feitos e conceitos da politica,
oude ha direitos só, ou só dever,
- c A politica» - ! Mysterioso - verbo -
da moderna magia' o passaporte
de todo o crime, -:desde o roubo á morte 1
grande salvl)-condncto do protervo
que em todas as facções cabe e se ageita
e se faz serviçal e attenta e espreita
a monção de roubar ou de ferir,
em nome. .. do poder ... da autoridade ...
do fraternal amor ... da liberdade ...
de tudo que o faz rir, .
quando se vê no espelho da~con~ciencia
que já pérdeu com elle a aust~ridade,
e se vê bem:' - desmascarado e só.

Senhor, é bom morrer!


inrla que por mais nada, por nã') vêr
as ulceras da nova decadencia,
e por não aspirar mais d'este pó.

XI

- <I: A politica exige-o

<I: é mister praticar um feito ousado,


<I: prova do força, que nos dê prestigio. 1 ) -
-19 -

E pratica-se logo o acto immundo.

Esta a lei da anarchia.

- Â POLITICA' - O FACTO CONSUMMADO -.!


eis as 1'azões d'estado,
Na America, na Europa, em todo o mundo,
que republica reja ou monarchia.

XII
Que não ha coração? !.. ,
ou deve conservar-se mudo e quedo, ..
ante a fria razão,
nas maximas questões da sociedade! ? ...
Mas que mobil, que impulso, que segredo
logra convulsionar as multidões
e transmutar a face á humanidade?
é da fria razão? - E' das paixões!
E as paixões d'onde vem? ..
Dize, Senhor,
d'onde lhe vinha a ElIa tanto amor?
e a ti d'onde te vem tanta saudade?

Hypocrita doutrina a das ficções,


e coitada de ti, pobre verdade!

Vens esperar a morte no degredo


- só p8rque a tua herdtlira cri;!. em Deus! -
no Deus a que jurára [Link] .
como elIes VáCl jurar, - mas vão por .m~Jo 1 .
- 20-
Mentirosa, servil conveniencia
que inda os não deixas proclamar-se -atheus-\
Haja uma ficção mais e adopte-a o povo
que acaba d'expulsar os seus tY1"annos
e proclama e saúda o credo novo.

Como seja preciso, ainda alguns annos


conservar no Brazil d'altar e templo j
ao menos um vestigio,
ado pto um novo culto 1- E ha d'isso exemplo.

o - Nada - é complacente; o - Deus - afflige-o ?


pois busque eutra as formosas de Campinas
( Sem aggravo ao seu pejo e ao seu pudor! )
a que ostente melhor - barrete phrygio ;

que tenha o pé mais curvo e as mãos mais fin-as,


o olhar mais vivo e a face mais louçã,
as fórmas divinaes de mais primor;
e elej a a peregrina cidadã
temporaria, se quer, - Deusa do amor.

Na hora prupicia em que a Dousa o queira,


has de ir descalça, tu, varrer a esteira
da capella pagã, turma d'atheus !
tal como dizem que a Princeza herdeira
ia varrer o templo do bom Deus,
por sua p'ropria mão ...
Humildade christã, que foi virtude;
hoje, crime de tanta magnituue
que escandaliEa a terra e brada aos céos.
- 21-

Outro crime: - Abuliu a escravidão I·! !

....... ........................

Chora, Senhor I que mais p'ldes fazer?


chora, perdoa e ama, e espera a morte.
Não sondes do futuro e negro arcano.

Bem dizia Herculano


ao vêr o inferno dos baldúes da sorte:
- « Á.'s vezes dá vonlíade de morrer I ,,-

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