0% acharam este documento útil (0 voto)
3 visualizações12 páginas

Acórdão sobre Indenização da MRV Engenharia

Este documento é um acórdão de um tribunal de justiça do estado de São Paulo julgando uma apelação cível. O tribunal negou o recurso da construtora MRV e manteve a sentença condenando a empresa a pagar indenizações por danos morais e materiais ao comprador de um imóvel, Guilherme Gorga, devido a vícios de construção e propaganda enganosa.

Enviado por

Frederico Faro
Direitos autorais
© All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd
0% acharam este documento útil (0 voto)
3 visualizações12 páginas

Acórdão sobre Indenização da MRV Engenharia

Este documento é um acórdão de um tribunal de justiça do estado de São Paulo julgando uma apelação cível. O tribunal negou o recurso da construtora MRV e manteve a sentença condenando a empresa a pagar indenizações por danos morais e materiais ao comprador de um imóvel, Guilherme Gorga, devido a vícios de construção e propaganda enganosa.

Enviado por

Frederico Faro
Direitos autorais
© All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd

PODER JUDICIÁRIO

TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO

Registro: 2022.0000964907

ACÓRDÃO

Vistos, relatados e discutidos estes autos de Apelação Cível nº


1015561-57.2020.8.26.0451, da Comarca de Piracicaba, em que é apelante MRV
ENGENHARIA E PARTICIPAÇÕES S.A., é apelado GUILHERME GORGA
(JUSTIÇA GRATUITA).

ACORDAM, em sessão permanente e virtual da 10ª Câmara de Direito


Privado do Tribunal de Justiça de São Paulo, proferir a seguinte decisão: Rejeitadas
as preliminares, negaram provimento ao recurso. V. U., de conformidade com o
voto do relator, que integra este acórdão.

O julgamento teve a participação dos Desembargadores ELCIO TRUJILLO


(Presidente) E J.B. PAULA LIMA.

São Paulo, 24 de novembro de 2022.

GILBERTO CRUZ
Relator(a)
Assinatura Eletrônica
PODER JUDICIÁRIO
TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO

Apelação Cível nº 1015561-57.2020.8.26.0451


5ª Vara Cível da Comarca de Piracicaba
Apelante: MRV Engenharia e Participações S.A
Apelado: Guilherme Gorga
Magistrado sentenciante: Dr. Mauro Antonini

Voto nº 19198

APELAÇÃO PRELIMINARES Decadência e prescrição.


Inocorrência. Pleito indenizatório decorrente de propaganda
enganosa e vícios no imóvel, sujeito ao prazo decenal de
prescrição (art. 205 do Código Civil). Precedentes do C. STJ
e desta C. Câmara Cerceamento de defesa. Ausência de
manifestação sobre os documentos apresentados pela
apelante. Desnecessidade. O juiz é o destinatário da prova e
a ele compete, com exclusividade, a avaliação de sua
pertinência ou não. Decisão devidamente fundamentada
Rejeição.
MÉRITO Vícios de construção. Ação de indenização por
danos materiais e morais julgada procedente em razão de
propaganda enganosa no ato de contratação do imóvel.
Caixas de gordura e de sabão instaladas na área externa
privativa da unidade Pleito de afastamento da condenação,
ao argumento de que o apelado anuiu com o estado do bem
no momento da vistoria. Instalações previstas no projeto e
elencadas no memorial descritivo. Descabimento. Perícia
técnica que confrontou as fotografias apresentadas no
anúncio e constatou a existência de caixas de gordura e de
sabão instaladas no piso do apartamento, as quais
acumulam dejetos de outras unidades, causam mau cheiro
próximo à sala de estar e demandam limpeza trimestral
periódica mediante incursão no apartamento. Propaganda
enganosa evidente. Responsabilidade Civil configurada
Prejuízo material arbitrado pelo MM. Juízo a quo em R$
11.452,00 (onze mil, quatrocentos e cinquenta e dois reais),
na proporção de 70% (setenta por cento) do valor da área
externa. Situação que ultrapassa o mero dissabor cotidiano.
Arbitramento que deve observar a intensidade da culpa do
agente, as consequências do ato ilícito e o grau de
hipossuficiência do consumidor. Ponderação entre o caráter
pedagógico da indenização e a vedação de enriquecimento
ilícito. Precedentes do C. STJ e desta C. Câmara. Quantum
fixado em R$ 20.000,00 (dez mil reais), observadas as
peculiaridades do caso Recurso desprovido.

Trata-se de apelação contra a r. sentença de fls.


1037/1039, cujo relatório se adota, que julgou procedente a ação
indenizatória por danos morais e materiais ajuizada por Guilherme
Gorga em face de MRV Engenharia e Participações S.A. para

Apelação Cível nº 1015561-57.2020.8.26.0451 -Voto nº 19198 2


PODER JUDICIÁRIO
TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO

condenar “a ré a pagar ao autor: a) indenização por danos morais de R$


20.000,00 (vinte mil reais), corrigidos da presente data, com juros de
mora da citação; b) indenização por danos materiais de R$ 11.452,00,
com correção monetária da data do laudo e juros de mora da citação; c)
no reembolso das despesas processuais corrigidas dos desembolsos e
em honorários advocatícios de 15% (quinze por cento) sobre o valor da
condenação”.

Inconformada, a apelante arguiu preliminarmente, 1)


a decadência do direito de reclamar pelos 1.1) vícios aparentes em bens
duráveis de natureza imóvel, observado o prazo de 90 (noventa) dias nos
termos do art. 26 do Código de Processo Civil; 1.2) vícios redibitórios, eis
que ultrapassado o período de 01 (um) ano previsto no art. 501 do
Código Civil; 2) a prescrição 2.1) trienal “em razão dos supostos vícios”,
conforme art. 206, § 3º, III, do Código Civil; 2.2) quinquenal a teor do art.
27 do Código de Defesa do Consumidor; 3) Cerceamento de defesa, por
afronta ao art. 5º, LIV e LV, da CF, ao argumento de que o “contra laudo
pericial apresentado deveria ter sido analisado, garantindo as partes o
contraditório e ampla defesa”. No mérito, pugna 4) a improcedência da
ação, tendo em vista que 4.1) o empreendimento foi entregue em
perfeitas condições de uso e moradia e, de acordo com o projeto inicial;
4.2) o apelado realizou vistoria prévia e “concordou em receber o imóvel”;
4.3) as caixas de gordura “poderão ser executadas nas áreas privativas
descobertas do pavimento térreo”, nos termos da Cláusula 8.2 do
memorial descritivo; 4.4) a instalação “de referidas caixas independe do
consentimento do adquirente do imóvel, já que imprescindíveis à
construção da obra”; 4.5) a limpeza ocorre “a cada 6 (seis) meses ou 01
(um) ano”; 4.6) foram “colocados sistemas de ventilação, a fim de que
não exalasse mau odor das caixas”; 4.7) inexiste dano material,
porquanto as propagandas veiculadas “consubstanciam-se em 'Dolus
Bonus', perfeitamente possível e lícita em nosso ordenamento jurídico”;
4.8) não restou configurada a responsabilidade extrapatrimonial, pois

Apelação Cível nº 1015561-57.2020.8.26.0451 -Voto nº 19198 3


PODER JUDICIÁRIO
TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO

“não se pode considerar que permitir a manutenção das caixas a cada 01


(um) ano é fato substancialmente constrangedor ou mesmo que causa
algum obstáculo à parte apelada”. Subsidiariamente, busca 5) a redução
da indenização conforme os “princípios da proporcionalidade e da
razoabilidade”. Preparo recolhido.

A insurgência foi regularmente processada e


contrariada.

Não houve oposição ao julgamento virtual.

É o breve relato.

Prima facie, inaplicável o instituto da decadência no


presente caso, porquanto se trata de pleito indenizatório decorrente de
propaganda enganosa e vícios no imóvel, sujeito ao prazo decenal de
prescrição (art. 205 do Código Civil) conforme entendimento do C. STJ1
e desta C. Câmara em casos análogos2 o qual tampouco se vislumbra
no contexto considerando-se a entrega do imóvel em 20.12.2012 e a
propositura da ação em 14.09.2020.

Noutro vértice, a alegação de cerceamento de defesa,

1 AGRAVO INTERNO NO AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. AÇÃO DE INDENIZAÇÃO. DANOS


MATERIAIS CONJUGADOS COM RESTITUIÇÃO DE QUANTIA CERTA. COMPROMISSO DE COMPRA E
VENDA. IMÓVEL. VAGA NA GARAGEM. INADIMPLEMENTO CONTRATUAL. METRAGEM A MENOR.
VÍCIO APARENTE. PRAZO DECADENCIAL. INAPLICABILIDADE. PRETENSÃO INDENIZATÓRIA.
PRESCRIÇÃO. PRAZO DECENAL. ART. 205 DO CÓDIGO CIVIL DE 2002. 1. Recurso especial interposto
contra acórdão publicado na vigência do Código de Processo Civil de 2015 (Enunciados Administrativos nºs 2
e 3/STJ). 2. Ação de indenização por danos materiais cumulada com restituição de quantia certa em virtude de
entrega de imóvel objeto do compromisso de compra e venda entre as partes com metragem a menor do que
o contratado. 3. O Superior Tribunal de Justiça tem jurisprudência firmada no sentido de que, em se tratando
de responsabilidade civil decorrente de descumprimento de contrato de compra e venda, não há prazo
decadencial. A pretensão é de natureza condenatória e submete-se ao prazo de prescrição decenal do art.
205 do CC/2002. Precedentes. 4. Agravo interno não provido. (AgInt no AREsp nº 1.718.480/SP, Rel. Min.
Ricardo Villas Bôas Cueva, Terceira Turma, j. 18.5.2021).
2 APELAÇÃO. Vícios de construção. Indenização por danos morais. Entrega de unidade imobiliária com

diversas divergências com o apartamento decorado. Necessidade de certa similitude com a oferta de
publicidade, sob pena de caracterização de propaganda enganosa. (...) Preliminar de decadência. Afastada.
Inexistência no caso, haja vista que se aplica a prescrição decenal prevista no art. 205 do CC, por se tratar de
indenização decorrente de vícios do imóvel adquirido pelo consumidor. Sentença mantida. Adoção do art. 252
do RITJ. RECURSO DESPROVIDO. (TJSP Apelação Cível nº 1007842-87.2021.8.26.0451, Rel. Jair de
Souza, 10ª Câmara de Direito Privado; Foro de Piracicaba - 6ª Vara Cível; Data do Julgamento: 09/08/2022;
Data de Registro: 09/08/2022) No mesmo sentido: Apelação Cível nº 1011681-57.2020.8.26.0451, Rel. Coelho
Mendes, 10ª Câmara de Direito Privado, j. 31.10.2022; e Apelação Cível nº 1007115-65.2020.8.26.0451, Rel.
Márcio Boscaro, 10ª Câmara de Direito Privado, j. 13.10.2021.

Apelação Cível nº 1015561-57.2020.8.26.0451 -Voto nº 19198 4


PODER JUDICIÁRIO
TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO

em razão da necessidade de dilação probatória, não merece prosperar.

Sabido que o Juiz é o único destinatário da prova com


vista à formação de sua fundamentada convicção judicial e, por
conseguinte, a ele compete avaliar, com exclusividade, sobre quais as
provas relevantes e as impertinentes (CPC, artigos 370 e 371). Afinal, no
direito processual moderno vigora o princípio da discricionariedade
regrada ou mitigada, o qual está em perfeita consonância com o
ordenamento e as garantias constitucionais do contraditório e ampla
defesa, já que, ao decidir sobre uma prova deverá o Juiz motivar sua
decisão, o que ocorreu no caso sub judice: “A matéria debatida nos autos
dispensa a produção de outras provas e possibilita o julgamento
antecipado da lide, nos termos do artigo 355, inciso I, do Código de
Processo Civil.”.

Ultrapassadas essas questões prefaciais, no mérito, a


irresignação não comporta acolhida.

A detida análise do caso conduz à conclusão de que


a r. sentença deve ser mantida pelos seus próprios fundamentos, a teor
do artigo 252 do Regimento Interno deste E. Tribunal de Justiça, vez que
o MM. Juízo a quo bem analisou a questão, litteris:

(...) Como se vê dos folders ilustrativos elaborados


pela ré (fls. 3), ofertou ao autor apartamento térreo
com a vantagem considerável de que teria área
externa de lazer privativa, que poderia ser gramada,
utilizada com mesas e sofás, plantas, bastante
atraente pelas ilustrações apresentadas. Ao contrário
do que constou dessas propagandas, entregou área
na qual há caixa de gordura, que não pode ser
obstruída por grama e móveis, a tornar a utilização do
local inviável nos moldes da propaganda. Trata-se de
propaganda enganosa. Houve violação dos deveres

Apelação Cível nº 1015561-57.2020.8.26.0451 -Voto nº 19198 5


PODER JUDICIÁRIO
TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO

de transparência e adequada informação pelo


fornecedor do produto. A prévia ciência ao
consumidor do projeto construtivo não serve para ilidir
essa propaganda enganosa. Pois, sendo o
consumidor leigo, é seduzido pela imagem da área
constante do folder, informação que tem muito mais
destaque do que a que poderia ser percebida pelo
exame meticuloso do projeto e memorial descritivo.
Configurou-se, assim, a propaganda enganosa, mais
relevante do que informações do memorial descritivo
que não têm o mesmo destaque. O dissabor derivado
dessa situação é evidente, pois havia expectativa de
ampliação da área da unidade autônoma, com parte
externa privativa, agradável, para lazer, o que não se
confirmou. Além disso, sendo caixa de gordura que
atende todo o edifício, há necessidade de inspeções
e limpezas periódicas, com ingresso de pessoas no
apartamento, mau cheiro etc. Trata-se de dissabor
considerável, causa de inequívocos danos morais. No
arbitramento, considerando o considerável dissabor
da impossibilidade de uso da área confirme a
propaganda, situação irremediável, considero
adequada a indenização sugerida pelo autor, de R$
20.000,00.

Quanto aos danos materiais, o perito afirmou que não


teria sido possível confirmar desvalorização no valor
do imóvel, mas apurou o valor pago a maior pela área
privativa, nos moldes da propaganda enganosa acima
reconhecida, como constou da seguinte passagem do
laudo:

Após o levantamento de todas as amostras obtidas

Apelação Cível nº 1015561-57.2020.8.26.0451 -Voto nº 19198 6


PODER JUDICIÁRIO
TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO

através de imóveis localizados no mesmo


condomínio, bem como a homogeneização dos
dados, obtivemos o valor de venda da Área Privada
(45,95m2) do imóvel já considerando a variação de
entre ±1%: R$ 146.000,00 (Cento e quarenta e sei mil
reais). Sendo que para efeito de determinação do
valor da área privativa, foi utilizado o mesmo critério
quando da venda do imóvel ao Autor mencionado nos
autos fls. 3 (Fatos) que através da fração da área
equivalente se chegou à porcentagem de 11,2%
(R$10.000,00 pago a mais pela área privativa dividido
pelo total R$ 89.233,00) ou seja, atualizando o valor
da área privativa obtemos a quantia de R$ 16.360,00
(Dezesseis mil, trezentos e sessenta reais), que
servirá de parâmetro para negociação entre as partes
(fls. 887).

Como a área não é totalmente inutilizável, reputo ser


razoável considerar que a redução do valor pago é de
70%, o que resulta em indenização por danos
materiais de R$ 11.452,00 pela perda parcial do
potencial de uso, entre o que foi objeto da
propaganda enganosa e a situação da área
efetivamente entregue ao autor.

Pelo exposto, julgo PROCEDENTES os pedidos,


condenando a ré a pagar ao autor: a) indenização por
danos morais de R$ 20.000,00 (vinte mil reais),
corrigidos da presente data, com juros de mora da
citação; b) indenização por danos materiais de R$
11.452,00, com correção monetária da data do laudo
e juros de mora da citação; c) no reembolso das
despesas processuais corrigidas dos desembolsos e

Apelação Cível nº 1015561-57.2020.8.26.0451 -Voto nº 19198 7


PODER JUDICIÁRIO
TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO

em honorários advocatícios de 15% (quinze por


cento) sobre o valor da condenação. (...).

Com efeito, de acordo com as fotografias de fls. 38/43


confrontadas com as imagens capturada pelo i. perito às fls. 851/853,
mostra-se evidente a responsabilidade civil da apelante, porquanto as
caixas de sabão3 e de gordura4 ocupam espaço considerável na área
externa privativa do apartamento.

Em acréscimo, o cômodo é contíguo à sala de estar e


emite odores em razão do acúmulo de dejetos oriundos de outras
unidades, o que demanda limpeza periódica trimestral, in verbis:

(...) Caixa de Gordura: recebem gorduras e óleos


contidos na água de lavagem proveniente da pia da
cozinha;

Caixa de Sabão: recebem resíduos e espuma


provenientes da lavagem das roupas, que juntamente
com os resíduos do sabão em pedra e sabão em pó
se acumulam na parede da caixa.

6.4. Tais dejetos são provenientes de todos os


apartamentos do bloco onde localiza o apartamento
do Autor? Quantos apartamentos despejam dejetos
em tais caixas?

Resposta do Perito: Sim. Provenientes dos


apartamentos sobreposto ao dele, 04 unidades (103,
203, 303 e 403).

6.5. É necessária a realização de manutenção e


higienização periódicas nas referidas caixas?

Sim. o proprietário ou morador deve seguir as


3
Fl. 854: 45x45cm prof.=92cm com tampa de 60x60cm.
4 Fl. 854: 45X45 cm prof.=97cm com tampa de 60x60cm.

Apelação Cível nº 1015561-57.2020.8.26.0451 -Voto nº 19198 8


PODER JUDICIÁRIO
TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO

determinações contidas no Manual do Proprietário -


fls. 502 a 509, quanto ao item 2- manutenção
preventivas, a cada 3 (três) meses.

6.6. O procedimento de limpeza das caixas é


semelhante ao demonstrado nas fotos de folhas
63-69?

Resposta do Perito: Sim.

a. Em razão da existência das caixas de


armazenamento em questão, o Autor é obrigado a
abrir seu apartamento para que técnicos
especializados realizem a higienização de tais
caixas?

Resposta do Perito: Sim. Esse procedimento e


responsabilidades estão contidos na Convenção de
Condomínio item 4.2 e no manual do proprietário fls.
508.

b. É necessário que os referidos técnicos cruzem todo


o interior do apartamento do Autor com o “cano de
caminhão limpa fossa” para terem acesso as caixas?

Resposta do Perito: Sim, este é o sistema utilizado


pelo condomínio.

c. O procedimento de limpeza acarreta sujeira e mau


cheiro em todo o apartamento?

Resposta do Perito: Esse fato (sujeira) não foi


possível presenciar, mas pode ser evitado, desde que
sejam os tomados os devidos cuidados e executados
os procedimentos corretos. Sim, quanto ao cheiro,
infelizmente não há como eliminá-lo nesse processo,

Apelação Cível nº 1015561-57.2020.8.26.0451 -Voto nº 19198 9


PODER JUDICIÁRIO
TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO

pois na abertura das caixas os gases acumulados na


tubulação primária tendem a dissipar-se pelas áreas.

d. As caixas exalam mau cheiro e atraem pragas, tais


como, moscas e baratas?

Resposta do Perito: Desde que não estejam vedadas


e sifonadas como as recomendações dos detalhes
genéricos de projeto hidráulica, sim. (...).

Correta, portanto, a imputação de responsabilidade à


apelante.

No tocante ao prejuízo material, após análise de


estudos técnicos constantes no laudo (fls. 841/889), calculou-se o valor
da área privativa em R$ 16.360,00 (dezesseis mil, trezentos e sessenta
reais). O MM. Juízo, a quo, considerando as peculiaridades do caso, fixou
a indenização em 70% (setenta por cento) da avaliação do cômodo, qual
seja, R$ 11.452,00 (onze mil, quatrocentos e cinquenta e dois reais).

Anote-se, pois relevante, que em relação ao valor da


indenização moral, o Egrégio Superior Tribunal de Justiça sedimentou o
entendimento de que o ressarcimento pelo prejuízo moral deve ser
arbitrado com razoabilidade e proporcionalidade, considerando as
circunstâncias do caso concreto: “recomendável que o arbitramento seja
feito com moderação, proporcionalmente ao grau de culpa, ao nível
socioeconômico dos autores e, ainda, ao porte econômico dos réus,
orientando-se o juiz pelos critérios sugeridos pela doutrina e pela
jurisprudência com razoabilidade, valendo-se de sua experiência e do
bom senso e atento à realidade da vida e às peculiaridades de cada
caso” (AgRg no Ag 884139/SC, rel. Min. João Otávio de Noronha, j.
18.12.2007).

No contexto, para fixação do quantum indenizatório,


faz-se necessária a análise dos seguintes elementos, à luz dos artigos

Apelação Cível nº 1015561-57.2020.8.26.0451 -Voto nº 19198 10


PODER JUDICIÁRIO
TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO

944 a 954 do Código Civil c.c. 18 a 25 do Código de Defesa do


Consumidor: 1) intensidade da culpa do agente; 2) consequências do ato
ilícito; e 3) grau hipossuficiência do consumidor. Ademais, deve-se
ponderar o caráter pedagógico da indenização com a vedação de
enriquecimento ilícito da vítima, conforme posição do C. STJ5 e desta C.
Câmara a respeito6.

Lado outro, tendo em vista o prejuízo experimentado


pelo apelado, mormente em razão da área privativa ocupada por
compartimentos que causam mau cheiro próximo à sala de estar e
demandam limpeza trimestral periódica, os quais ultrapassam em muito o
mero dissabor, correto o arbitramento de indenização extrapatrimonial em

5 CIVIL. AGRAVO INTERNO NO AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. RECURSO MANEJADO SOB A


ÉGIDE DO NCPC. PROMESSA DE COMPRA E VENDA DE IMÓVEL. AÇÃO DE OBRIGAÇÃO DE FAZER
CUMULADA COM PEDIDO INDENIZATÓRIO POR ATRASO NA ENTREGA DA OBRA. SITUAÇÃO
EXCEPCIONAL QUE DEMONSTROU A EXISTÊNCIA DO DANO MORAL VINDICADO. SÚMULA Nº 7 DO
STJ. CORREÇÃO MONETÁRIA DO SALDO DEVEDOR. FALTA DE PREQUESTIONAMENTO. SÚMULAS
NºS 282 E 356 DO STF, POR ANALOGIA. APLICAÇÃO DA PENA POR LITIGÂNCIA DE MÁ-FÉ E DA MULTA
PREVISTA NO ART. 1.021, § 4º, DO NCPC. IMPOSSIBILIDADE. AGRAVO INTERNO NÃO PROVIDO. 1.
Aplica-se o NCPC a este julgamento ante os termos do Enunciado Administrativo n.º 3, aprovado pelo Plenário
do STJ na sessão de 9/3/2016: Aos recursos interpostos com fundamento no CPC/2015 (relativos a decisões
publicadas a partir de 18 de março de 2016) serão exigidos os requisitos de admissibilidade recursal na forma
do novo CPC. 2. No caso, a fixação da indenização por danos morais decorreu de situação excepcional que
configurou ofensa ao direito da personalidade dos promitentes-compradores, extrapolando a esfera do mero
inadimplemento contratual, não podendo a questão ser revista nesta via excepcional, ante a incidência da
Súmula nº 7 do STJ. 3. O Tribunal de origem não deliberou sobre a incidência de correção monetária no saldo
devedor do imóvel, a despeito do descumprimento do prazo de entrega da obra, sem que fossem opostos
embargos de declaração a fim de suscitar a discussão, ressentindo-se o recurso especial, no ponto, do
indispensável prequestionamento. Incide, à hipótese, os óbices das Súmulas nºs 282 e 356 do STF, por
analogia. 4. A litigância de má-fé, passível de ensejar a aplicação da multa e indenização, configura-se quando
houver insistência injustificável da parte na utilização e reiteração indevida de recursos manifestamente
protelatórios, o que não ocorre na hipótese. 5. A aplicação da multa prevista no § 4º do art. 1.021 do NCPC
não é automática, não se tratando de mera decorrência lógica do desprovimento do agravo interno em votação
unânime. A condenação ao pagamento da aludida multa, a ser analisada em cada caso concreto, em decisão
fundamentada, pressupõe que o agravo interno mostre-se manifestamente inadmissível ou que sua
improcedência seja de tal forma evidente que a simples interposição do recurso possa ser tida, de plano, como
abusiva ou protelatória (AgInt no AREsp 1.658.454/SP, Rel. Ministro MARCO AURÉLIO BELLIZZE, Terceira
Turma, julgado em 31/8/2020, DJe 8/9/2020). 6. Agravo interno não provido. (AgInt no AREsp nº 2.186.436/RJ,
Rel. Min. Moura Ribeiro, Terceira Turma, j. 24.10.2022).
6
COMPRA E VENDA IMOBILIÁRIA. INDENIZAÇÃO POR DANOS MATERIAL E MORAL. Rejeitadas as
preliminares de ausência de documentos indispensáveis à propositura e de cerceamento de defesa. Unidade
autônoma entregue em desconformidade com o apartamento decorado visitado. A oferta vincula o fornecedor
e integra o contrato a ser firmado. Art. 30 do CDC. Dano moral caracterizado. É certo que a alteração da
disposição de janelas e formato de paredes supera em muito dissabores do dia a dia e pequenos
aborrecimentos do cotidiano, frustrando as legítimas expectativas de o adquirente dispor os móveis e
eletrodomésticos, conforme imaginou, dada a impossibilidade de mobiliar a unidade autônoma na sua
inteireza, a gerar padecimento moral e o dever de indenizar. Indenização mantida no valor de R$ 15.000,00.
Dano material. Prova do dispêndio de quantia para o nivelamento do contrapiso. Ressarcimento devido.
Recurso desprovido. (TJSP Apelação Cível 1003480-76.2020.8.26.0451, Rel. J.B. Paula Lima, 10ª Câmara
de Direito Privado, j. 28.11.2020).

Apelação Cível nº 1015561-57.2020.8.26.0451 -Voto nº 19198 11


PODER JUDICIÁRIO
TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO

R$ 20.000,00 (vinte mil reais), valor adequado para repreender MRV


Engenharia e Participações S.A e compensar Guilherme Gorga pelo
prejuízo experimentado, sem gerar enriquecimento sem causa.

Ex positis, rejeitadas as preliminares, nega-se


provimento ao recurso.

Como consectário e levando-se em conta o trabalho


adicional desenvolvido pelo apelado em decorrência da presente
irresignação, ficam os honorários advocatícios devidos pela apelante
majorados e definitivamente fixados em 20% (vinte por cento_ sobre o
valor da condenação, com fundamento no artigo 85, § 11, do Código de
Processo Civil.

Por fim, prequestionadas as normas jurídicas


reportadas no curso do presente feito, ficam as partes advertidas de que
a interposição de recurso contra esta decisão, se declarado
manifestamente inadmissível, protelatório ou improcedente, poderá
acarretar sua condenação às penalidades fixadas no artigo 1.026, § 2º,
do CPC/15. Acrescente-se que a função do julgador é decidir a lide de
modo fundamentado e objetivo; desnecessário, portanto, o enfrentamento
exaustivo de todos os argumentos elaborados pelas partes.

GILBERTO FERREIRA DA CRUZ

RELATOR

Apelação Cível nº 1015561-57.2020.8.26.0451 -Voto nº 19198 12

Você também pode gostar