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Pregação de Santo António aos Peixes

O documento apresenta um sermão de Santo António pregado para peixes, após os homens não quererem ouvi-lo. Santo António elogia as virtudes dos peixes e critica os vícios dos homens, comparando-os aos peixes que se comem uns aos outros. Ele também repreende os peixes por se comerem mutuamente e encoraja a cooperação em vez da ambição individual.

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Pregação de Santo António aos Peixes

O documento apresenta um sermão de Santo António pregado para peixes, após os homens não quererem ouvi-lo. Santo António elogia as virtudes dos peixes e critica os vícios dos homens, comparando-os aos peixes que se comem uns aos outros. Ele também repreende os peixes por se comerem mutuamente e encoraja a cooperação em vez da ambição individual.

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Padre António Vieira - Sermão de Santo António (seleção de excertos)

- O sal não salga (parte deste princípio; os homens estão a agir em sentido contrário
aos princípios bíblicos), e os pregadores não pregam a verdadeira doutrina; ou porque
a terra se não deixa salgar e os ouvintes, sendo verdadeira a doutrina que lhes dão, a
não querem receber. Ou é porque o sal não salga (palavras proferidas pelos
pregadores não atingem o seu público), e os pregadores dizem uma cousa e fazem
outra.

A palavra (ensinamentos bíblicos) não está a passar por 3 possíveis razões:

1. Os fiéis não querem receber os ensinamentos e continuar a agir de forma


errada;
2. Os pregadores não conseguem transmitir convenientemente a mensagem;
3. Os pregadores pregam convenientemente mas agem contrariamente
(movimento de anulação).

- Pregava Santo António (modelo de virtude) em Itália na cidade de Arimino, contra os


hereges. Que fez? Retirar-se-ia? Calar-se-ia? Dissimularia? Daria tempo ao tempo? Pois
que fez? Mudou somente o púlpito e o auditório, mas não desistiu da doutrina. Deixa
as praças, vai-se às praias; deixa a terra, vai-se ao mar, e começa a dizer a altas vozes:
Já que me não querem ouvir os homens, ouçam-me os peixes. Começam a concorrer
os peixes, os grandes, os maiores, os pequenos, e postos todos por sua ordem com as
cabeças de fora da água, António pregava e eles ouviam.

- Que havemos de pregar hoje aos peixes? Nunca pior auditório. Ao menos têm os
peixes duas boas qualidades de ouvintes: ouvem e não falam.

- Dividirei, peixes, o vosso sermão em dois pontos: no primeiro louvar-vos-ei as vossas


virtudes, no segundo repreender-vos-ei os vossos vícios.

Virtudes gerais dos peixes:


- Aos homens deu Deus uso de razão, e não aos peixes; mas neste caso os homens
tinham a razão sem o uso (agem incorretamente), e os peixes o uso sem a razão (agem
corretamente).

- Ia Jonas, pregador do mesmo Deus, embarcado em um navio, quando se levantou


aquela grande tempestade; e como o trataram os homens, como o trataram os peixes?
Os homens lançaram-no ao mar a ser comido dos peixes, e o peixe que o comeu
(baleia), levou-o às praias de Nínive, para que lá pregasse e salvasse aqueles homens. É
possível que os peixes ajudam à salvação dos homens, e os homens lançam ao mar os
ministros (padres) da salvação?!

- Dos animais terrestres o cão é tão doméstico, o cavalo tão sujeito, o boi tão serviçal,
o bugio (macaco) tão amigo ou tão lisonjeiro, e até os leões e os tigres com arte e
benefícios se amansam. Dos animais do ar, o papagaio nos fala, o rouxinol nos canta, o
açor (águia) nos ajuda e nos recreia; e até as grandes aves de rapina, encolhendo as
unhas, reconhecem a mão de quem recebem o sustento. Os peixes, pelo contrário, lá
se vivem nos seus mares e não há nenhum tão grande que se fie do homem, nem tão
pequeno que não fuja dele. Peixes! Quanto mais longe dos homens, tanto melhor.

- Há filósofos que dizem que não tendes memória. No tempo de Noé sucedeu o dilúvio
que cobriu e alagou o Mundo, e de todos os animais quais se livraram melhor? Dos
leões escaparam dois, leão e leoa, e assim dos outros animais da terra; das águias
escaparam duas, fêmea e macho, e assim das outras aves. E dos peixes? Todos
escaparam.

- Perguntando um grande filósofo qual era a melhor terra do Mundo, respondeu que a
mais deserta, porque tinha os homens mais longe. Quanto mais buscava a Deus, tanto
mais fugia dos homens.

Particularização das qualidades dos peixes:

- Só uma diferença havia entre Santo António e aquele peixe (de Tobias; escorpião):
que o peixe abriu a boca contra quem se lavava, e Santo António abria a sua boca
contra os que se não queriam lavar.
- Quem dera aos pescadores do nosso elemento, ou quem lhes pusera esta qualidade
tremente, em tudo o que pescam na terra (apropriar-se daquilo que não é seu)! Muito
pescam, mas não me espanto do muito; o que me espanta é que pesquem tanto e que
tremam tão pouco. Tanto pescar e tão pouco tremer! Pois é possível que, pescando os
homens cousas de tanto peso, lhes não trema a mão e o braço?! – não têm qualquer
peso na consciência

- Peixinho quatro-olhos: dá graças a Deus, lhe disse, e louva a liberalidade de sua divina
providência para contigo; pois às águias, que são os linces do ar, deu somente dois
olhos, e aos linces, que são as águias da terra, também dois; e a ti, peixezinho, quatro.
Tantos instrumentos de vista a um bichinho do mar, nas praias daquelas mesmas
terras vastíssimas, onde permite Deus que estejam vivendo em cegueira tantos
milhares de gentes há tantos séculos! Oh quão altas e incompreensíveis são as razões
de Deus, e quão profundo o abismo de seus juízos! Têm inimigos no mar e inimigos no
ar.

- Esta é a pregação que me fez aquele peixezinho, ensinando-me que, se tenho fé e


uso da razão, só devo olhar direitamente para cima, e só direitamente para baixo: para
cima, considerando que há Céu, e para baixo, lembrando-me que há Inferno.

- Lembrai-vos de não faltar aos pobres com o seu remédio. Entendei que no sustento
dos pobres tendes seguros os vossos aumentos. Tomai o exemplo nas irmãs sardinhas.
Porque cuidais que as multiplica o Criador em número tão inumerável? Porque são
sustento de pobres. Os solhos e os salmões são muito contados, porque servem à
mesa dos reis e dos poderosos; mas o peixe que sustenta a fome dos pobres de Cristo,
o mesmo Cristo os multiplica e aumenta. Crescei, peixes, crescei e multiplicai (dádiva
aos pobres), e Deus vos confirme a sua bênção.

- Ouçam também agora as vossas repreensões. A primeira cousa que me desedifica,


peixes, de vós, é que vos comeis uns aos outros. Como os grandes comem os
pequenos, não bastam cem pequenos, nem mil, para um só grande (ambição sem
limites). Os homens, com suas más e perversas cobiças, vêm a ser como os peixes, que
se comem uns aos outros.
- Cuidais que só os Tapuias (povo índio brasileiro - canibais) se comem uns aos outros?
Muito maior açougue (matadouro) é o de cá, muito mais se comem os Brancos
(ocidentais). Comem-no os herdeiros, comem-no os testamenteiros, comem-no os
legatários, comem-no os credores; comem-no os oficiais dos órfãos e os dos defuntos
e ausentes; come-o o médico, que o curou ou ajudou a morrer; come-o o sangrador
que lhe tirou o sangue; come-o a mesma mulher, que de má vontade lhe dá para a
mortalha o lençol mais velho da casa; come-o o que lhe abre a cova, o que lhe tange os
sinos, e os que, cantando (carpideiras), o levam a enterrar; enfim, ainda o pobre
defunto o não comeu a terra, e já o tem comido toda a terra. Também os homens se
comem vivos assim como vós. São piores os homens que os corvos.

- A diferença que há entre o pão e os outros comeres, é que para a carne, há dias de
carne, e para o peixe, dias de peixe, e para as frutas, diferentes meses no ano; porém o
pão é comer de todos os dias, que sempre e continuadamente se come: e isto é o que
padecem os pequenos (que são comparados a pão). (Os pequenos) São o pão
quotidiano dos grandes; e assim como o pão se come com tudo, assim com tudo e em
tudo são comidos os miseráveis pequenos.

– Vos estais admirando e pasmando de que entre os homens haja tal injustiça e
maldade! Pois isto mesmo é o que vós fazeis. Os maiores comeis os pequenos; e os
muito grandes não só os comem um por um, senão os cardumes inteiros.

- Importa que de aqui por diante sejais mais repúblicos e zelosos do bem comum, e
que este prevaleça contra o apetite particular de cada um, para que não suceda que,
assim como hoje vemos a muitos de vós tão diminuídos, vos venhais a consumir de
todo.

- Dir-me-eis (como também dizem os homens) que não tendes outro modo de vos
sustentar. E de que se sustentam entre vós muitos que não comem os outros? O mar
(natureza) é muito largo, muito fértil, muito abundante, e só com o que bota às praias
pode sustentar grande parte dos que vivem dentro nele. Comerem-se uns animais aos
outros é voracidade e sevícia, e não estatuto da natureza.
- Toma um homem do mar um anzol, ata-lhe um pedaço de pano cortado e aberto em
duas ou três pontas, lança-o por um cabo delgado até tocar na água, e em o vendo o
peixe, arremete cego a ele e fica preso e boqueando, até que, assim suspenso no ar,
ou lançado no convés, acaba de morrer. Pode haver maior ignorância e mais rematada
cegueira que esta? Enganados por um retalho de pano, perder a vida (homens deixam-
se iludir pelas aparências)? Dir-me-eis que o mesmo fazem os homens. Não vo-lo nego.
Dá um exército batalha contra outro exército; e porquê? Porque houve quem os
engodou e lhes fez isca com dois retalhos de pano (Hitler). A vaidade entre os vícios é o
pescador mais astuto e que mais facilmente engana os homens. E depois que sucede?
O mesmo que a vós. O que engoliu o ferro, ou ali, ou noutra ocasião ficou morto.

- Vede o vosso Santo António, que pouco o pode enganar o Mundo com essas
vaidades. Sendo moço e nobre, deixou as galas de que aquela idade tanto se preza,
trocou-as por uma loba de sarja e uma correia de cónego regrante.

- Duas cousas há nos homens, que os costumam fazer roncadores, porque ambas
incham: o saber e o poder.

- Como os (peixes) voadores tenho também uma palavra, e não é pequena a queixa.
Dizei-me, voadores, não vos fez Deus para peixes? Pois porque vos meteis a ser aves?
O mar fê-lo Deus para vós, e o ar para elas. Contentai-vos com o mar e com nadar, e
não queirais voar, pois sois peixes. Aos outros peixes, do alto mata-os o anzol ou a
fisga, a vós sem fisga nem anzol, mata-vos a vossa presunção e o vosso capricho. Aos
outros peixes mata-os a fome e engana-os a isca; ao voador mata-o a vaidade de voar,
e a sua isca é o vento.

- Grande ambição é que, sendo o mar tão imenso, lhe não basta a um peixe tão
pequeno todo o mar, e queira outro elemento mais largo. Não contente com ser peixe,
quiseste ser ave, e já não és ave nem peixe; nem voar poderás já, nem nadar. Peixes,
contente-se cada um com o seu elemento. Quem quer mais do que lhe convém, perde
o que quer e o que tem. Quem pode nadar e quer voar, tempo virá em que não voe
nem nade.
- Deram-se à alma de Santo António duas asas de águia, que foi aquela duplicada
sabedoria natural e sobrenatural tão sublime, como sabemos. E ele que fez? Não
estendeu as asas para subir, encolheu-as para descer (para estar junto dos pobres).
Voadores do mar: imitai o vosso santo pregador. Se vos parece que as vossas
barbatanas vos podem servir de asas, não as estendais para subir, porque vos não
suceda encontrar com alguma vela ou algum costado; encolhei-as para descer, ide-vos
meter no fundo em alguma cova; e se aí estiverdes mais escondidos, estareis mais
seguros (não tenhais ambição).

- O polvo, com aquele seu capelo na cabeça, parece um monge; com aqueles seus raios
estendidos, parece uma estrela; com aquele não ter osso nem espinha, parece a
mesma brandura, a mesma mansidão. E debaixo desta aparência tão modesta, ou
desta hipocrisia tão santa, testemunham constantemente os dois grandes Doutores da
Igreja latina e grega, que o dito polvo é o maior traidor do mar. As cores, que no
camaleão são gala, no polvo são malícia. Sucede que outro peixe, inocente da traição,
vai passando desacautelado, e o salteador, que está de emboscada dentro do seu
próprio engano, lança-lhe os braços de repente, e fá-lo prisioneiro. Fizera mais Judas?
Não fizera mais, porque não fez tanto. Judas abraçou a Cristo, mas outros o
prenderam; o polvo é o que abraça e mais o que prende (o polvo é duplamente mau:
atraiçoa e prende; um misto de judas com romanos).

- Mares: como eles são tão esparcelados e cheios de baixios, bem sabeis que se
perdem e dão à costa muitos navios, com que se enriquece o mar e a terra se
empobrece. Importa, pois, que advirtais, que nesta mesma riqueza tendes um grande
perigo, porque todos os que se aproveitam dos bens dos naufragantes, ficam
excomungados e malditos (aqueles que se aproveitam das fraquezas dos outros, serão
excomungados aos olhos de Deus).

- Na lei eclesiástica, escolheu Deus certos animais que lhe haviam de ser sacrificados;
mas todos eles ou animais terrestres ou aves, ficando os peixes totalmente excluídos
dos sacrifícios. O motivo principal de serem excluídos os peixes, foi porque os outros
animais podiam ir vivos ao sacrifício, e os peixes geralmente não, senão mortos; e
cousa morta não quer Deus que se lhe ofereça, nem chegue aos seus altares. Oh
quantas almas chegam àquele altar mortas, porque chegam e não têm horror de
chegar, estando em pecado mortal! Os outros animais ofereçam a Deus o ser
sacrificados; vós oferecei-lhe o não chegar ao sacrifício; os outros sacrifiquem a Deus o
sangue e a vida; vós sacrificai-lhe o respeito e a reverência.

- E pois os que nascemos homens, respondemos tão mal às obrigações de nosso


nascimento, contentai-vos, peixes, e dai muitas graças a Deus pelo vosso (nascimento).

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