FENPB
FENPB
ENTIDADES NACIONAIS
ASSOCIAÇÃO BR ESQUISA E PÓS-
GRADUAÇÃO EM DOS PROJETIVOS
CFP CONSELHO ESTUDANTES DE
DA PSICOLOGIA
PSICOLOGIA FEN FLAAB FEDERAÇÃO LATINO AMERICANA
DE ANÁLISE BIOE LIAÇÃO PSICOLÓGICA IBNEC INSTITUTO
BRASILEIRA:
BRASILEIRO DE OCIEDADE BRASILEIRA DE HISTÓRIA DA
PSICOLOGIA SBP GIA HOSPITALAR SBPOT ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA
DE PSICOLOGIA BRAPA SOCIEDADE BRASILEIRA DE PSICOLOGIA
O FENPB E SUAS
E ACUPUNTURA EDITORES CIENTÍFICOS DE PSICOLOGIA ABEP
ASSOCIAÇÃO BRA ÇÃO BRASILEIRA DE ORIENTAÇÃO
PROFISSIONAL A ABPD ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA
HISTÓRIAS
DE PSICOLOGIA IAÇÃO BRASILEIRA DE PSICOLOGIA JURÍDICA ABPP
ASSOCIAÇÃO BR BPSA ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE PSICOLOGIA DA
SAÚDE ABRANE OPSICOLOGIA ABRAP ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE
PSICOTERAPIA ABRAPAV ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE PSICOLOGIA DA AVIAÇÃO ABRAPEE ASSOCIAÇÃO
BRASILEIRA DE PSICOLOGIA ESCOLAR E EDUCACIONAL ABRAPESP ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE
PSICOLOGIA DO ESPORTE ABRAPSIT ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE PSICOLOGIA DO TRÁFEGO ABRAPSO
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE PSICOLOGIA SOCIAL ANPEPP ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE PESQUISA E PÓS-
GRADUAÇÃO EM PSICOLOGIA ASBRO ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE RORSCHACH E MÉTODOS PROJETIVOS
CFP CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA CONEP COORDENAÇÃO NACIONAL DOS ESTUDANTES DE
PSICOLOGIA FENAPSI FEDERAÇÃO NACIONAL DOS PSICÓLOGOS FLAAB FEDERAÇÃO LATINO AMERICANA
DE ANÁLISE BIOENERGÉTICA IBAP INSTITUTO BRASILEIRO DE AVALIAÇÃO PSICOLÓGICA IBNEC INSTITUTO
BRASILEIRO DE NEUROPSICOLOGIA E COMPORTAMENTO SBHP SOCIEDADE BRASILEIRA DE HISTÓRIA DA
PSICOLOGIA SBPH SOCIEDADE BRASILEIRA DE PSICOLOGIA HOSPITALAR SBPOT ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA
DE PSICOLOGIA ORGANIZACIONAL E DO TRABALHO SOBRAPA SOCIEDADE BRASILEIRA DE PSICOLOGIA
E ACUPUNTURA ABECIPSI ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE EDITORES CIENTÍFICOS DE PSICOLOGIA ABEP
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE ENSINO DE PSICOLOGIA ABRAOPC ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE ORIENTAÇÃO
PROFISSIONAL ABP+ ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE PSICOLOGIA POSITIVA ABPD ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA
DE PSICOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO ABPJ ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE PSICOLOGIA JURÍDICA ABPP
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE PSICOLOGIA POLÍTICA ABPSA ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE PSICOLOGIA DA
SAÚDE ABRANEP ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NEUROPSICOLOGIA ABRAP ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE
ENTIDADES NACIONAIS
DA PSICOLOGIA BRASILEIRA:
O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
Organizadores
Filipe Degani-Carneiro - SBHP
Thatiana Helena de Lima - ABECIPSI
Sérgio S. Fukusima - IBNEC
Antônio Virgílio Bittencourt Bastos - CFP
Brasília, 2022
1ª edição
© 2022 Conselho Federal de Psicologia
É permitida a reprodução desta publicação, desde que sem alterações e citada a fonte.
Disponível também em: [Link]
Projeto Gráfico: Tatianny Fonseca
Diagramação: Ivan Júnior
Revisão e normalização: MC&G Design Editorial
2 – FENPB
Fórum de Entidades Nacionais da Psicologia Brasileira:
um registro de seus passos iniciais........................................................................................23
Ana Mercês Bahia Bock e Marcos Ribeiro Ferreira
3 – ANPEPP
Contribuições da ANPEPP para a Pós-Graduação em Psicologia......................................35
Marco Aurélio Máximo Prado, Gardênia da Silva Abbad, Patrícia Izar, Jáder Ferreira Leite
e Mary Sandra Carlotto
4 – ABRAPEE
60 Anos da Profissão de Psicólogas(os) no Brasil e a participação da Associação
Brasileira de Psicologia Escolar e Educacional (ABRAPEE)................................................52
Alexandra Ayach Anache, Fauston Negreiros, Marilda Gonçalves Dias Facci, Marilene Proença Rebello
de Souza, Roseli Fernandes Lins Caldas, Silvia Maria Cintra da Silva e Tatiana Platzer do Amaral
5 – ASBRo
Trajetória e perspectivas do Método de Rorschach e da ASBRo nos 60 anos
de Psicologia Brasileira............................................................................................................ 76
Thaís Cristina Marques dos Reis, Latife Yazigi, Sonia Regina Pasian, Ana Cristina Resende,
Sonia Liane Reichert Rovinski, Lucila Moraes Cardoso, Erika Tiemi Kato Okino, Flávia
de Lima Osório, Fernanda Aguiar Pizeta e Silvana Alba Scortegagna
6 – ABRAOPC
Orientação profissional e de carreira no Brasil: atuação e novos rumos........................90
Daniela Boucinha, Manoela Ziebell de Oliveira, Leonardo de Oliveira Barros, Fabíola
Rodrigues Matos, Lucilene Tofoli e Gustavo Henrique Martins
7 – ABPJ
Psicologia Jurídica: ABPJ, sua história e atualidade.........................................................106
João Carlos Alchieri e Cândida Helena Lopes Alves
8 – IBAP
O papel do Instituto Brasileiro de Avaliação Psicológica (Ibap) na construção
histórica da psicologia brasileira......................................................................................... 116
Daniela Sacramento Zanini, Cristiane Faiad, Makilim Nunes Baptista, Katya Oliveira,
Karina Oliveira, Fabián Javier Rueda, Hugo Ferrari e Marcelo Henklain
9 – ABPD
Psicologia do Desenvolvimento no Brasil: Desafios e Perspectivas............................... 128
Ana Cristina Garcia Dias
10 – ABEP
Formação em Psicologia: a ABEP, sua história, contribuições e desafios atuais.......... 142
Antônio Alexandre Iório Ferreira, ngela Soligo e Irani Tomiatto de Oliveira
11 – ABPP
Psicologia política: um campo interdisciplinar das ciências humanas e sociais..........149
Frederico Alves Costa e Candida Maria Bezerra Dantas
12 – SBPOT
História da Psicologia Organizacional e do Trabalho........................................................163
Daiane Rose Cunha Bentivi, Sonia Maria Guedes Gondim, Fabiana Queiroga,
Elisa Maria B. Amorim-Ribeiro e Sabrina Barros
13 – ABRANEP
O surgimento e a regulamentação da Neuropsicologia Clínica no Brasil.......................181
Kátia Osternack-Pinto
14 – FLAAB
Federação Latino-americana de Análise Bioenergética: do Pioneirismo
da Psicologia Corporal ao Compromisso Social.................................................................196
Ana Lúcia Faria, Ana Silvia Paula, Cristina Piauhy, Edna Ferreira Lopes,
Fernanda Andrade Lima e Lorene Gonçalves Soares
15 – CONEP
Movimento estudantil e a efervescência da Psicologia: A construção e história
da Coordenação Nacional de Estudantes De Psicologia (CONEP).....................................211
Jonas Marssaro
16 – ABRAP
Associação Brasileira de Psicoterapia: aspectos históricos e conceituais................... 230
Mathilde Neder, Emília Afrange e Christina Neder
17 – ABECiPsi
ABECiPsi: uma entidade em prol das revistas e editores de Psicologia.........................237
Thatiana Helena de Lima, Maria Imaculada Cardoso Sampaio,
Acácia Aparecida Angeli dos Santos e Nelson Hauck Filho
18 – ABRAPESP
Um campo diverso como é o fenômeno esportivo: marcas
da Psicologia do Esporte brasileira..................................................................................... 249
Katia Rubio e Cristiano Roque Barreira
19 – ABPSA
Psicologia da Saúde: História e Desafios........................................................................... 264
Maria Geralda Viana Heleno, Ricardo Silva dos Santos Durães,
Manuel Morgado Rezende e Miria Benincasa
20 – IBNeC
Neuropsicologia no Brasil: Retrospectiva e Prospecção................................................... 281
Izabel Hazin, Sérgio Fukusima e Jesus Landeira-Fernaández
21 – ABP+
Psicologia Positiva Brasileira: movimento científico em prol da saúde
psicológica e do bem-estar...................................................................................................295
Caroline Tozzi Reppold, Cyntia Mendes de Oliveira e Claudia Hofheinz Giacomoni
22 – ABRAPAV
A Contribuição da Psicologia no Contexto da Aviação..................................................... 305
Márcia Regina Molinari Barreto e Selma Leal de Oliveira Ribeiro
23 – SBHP
Historiografia da Psicologia no Brasil.................................................................................323
Regina Helena de Freitas Campos, Ana Maria Jacó-Vilela e Marina Massimi
24 – ABRAPSIT
Contribuições da Associação Brasileira de Psicologia
de Tráfego (ABRAPSIT) na construção da psicologia brasileira......................................347
Juliana de Barros Guimarães, Renan Soares Junior, Fábio de Cristo e Andrea dos Santos Nascimento
25 – SBHP
Notas para uma história da institucionalização científico-profissional
da Psicologia no Brasil ..........................................................................................................375
10
Conselho Federal de Psicologia
os limites de atuação profissional. Mesmo com tais limites definidos legalmente, é
evidente o crescimento, não de agora, de uma perspectiva multiprofissional como
base para atuação que se dá, crescentemente, em equipes diversas quanto à forma-
ção e habilitação para solucionar problemas sempre complexos e que demandam
múltiplos olhares.
Se, até aqui estamos tratando da Psicologia como um campo científico e profis-
sional, nos cabe assinalar que, como quaisquer outros campos, ele também se revela
múltiplo e diverso no seu interior. Assim como falamos de fronteiras disciplinares e
de interações interdisciplinares, seria pertinente falarmos de fronteiras e interações
intradisciplinares. Essa diversidade interna da Psicologia se explicita em propostas
distintas de organizar seus campos científicos e suas áreas de atuação profissional,
inexistindo uma taxonomia que descreva áreas e subáreas consensuais em todos os
países. Aqui mesmo no Brasil a divisão da Psicologia como área se diferencia entre as
duas principais agências de fomento à pesquisa e à pós-graduação (CNPq e CAPES).
O fato é que toda a dinâmica de crescimento, desenvolvimento ou mudança
no nosso campo se dá na articulação entre o que ocorre no campo da ciência (produ-
ção de novos conhecimentos, de novas tecnologias ou formas de atuação, de novos
instrumentos, com implicações imediatas sobre a formação dos alunos e futuros
profissionais) e no campo da profissão stricto sensu (na forma como vai lidando com
as demandas sociais e como tais demandas mudam em função de fatores estrutu-
rais e conjunturais da sociedade). Muito tem contribuído para essa perspectiva as
diversas políticas públicas, particularmente o SUS e SUAS, que acabam exigindo no
cotidiano práticas que desafiam pressupostos teóricos preestabelecidos. No entanto,
essa dinâmica se torna ainda mais complexa porque ocorre, também, no nível dos
diversos subcampos ou subáreas que nos constituem enquanto ciência e profissão.
O processo de institucionalização de uma disciplina ou de uma profissão
envolve o surgimento de entidades que se tornam responsáveis por organizar seu
domínio e fomentar o trabalho coletivo para o seu desenvolvimento. No caso de
profissões reconhecidas legalmente, surgem os Conselhos Profissionais cujas atri-
buições de orientação e fiscalização do exercício profissional são fixadas em Lei
aprovada pelo Congresso Nacional. No caso das áreas científicas surgem entidades,
associações de caráter privado voltadas para fomentar os avanços daquela área. E
processo similar ocorre com o campo da formação, no campo das representações
sindicais e assim por diante.
O importante nesse momento é assinalar que tais entidades se tornam atores
críticos em todos os processos pelos quais passam os campos científicos e profissionais.
11
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
Tais entidades passam a ser responsáveis por iniciativas que fortaleçam ou aprimo-
rem as contribuições de cada campo para a sociedade. Como as áreas têm desenvol-
vimentos e níveis de maturidade distintos, suas entidades também se diferenciam
em termos de estrutura, história e suporte da comunidade para as suas atividades.
Temos, portanto, uma rede de atores – entidades – também diversa ou plural
em termos de seus objetivos específicos, assim como em termos de capacidade, ca-
pilaridade e força para tornar suas comunidades específicas mais visíveis em termos
das suas contribuições para a ciência e a prática profissional.
A compreensão dessa diversidade e a visão de que, apesar dela, a Psicologia
como um todo, enfrenta desafios e demandas que se colocam para todos está na
base de criação do Fórum de Entidades Nacionais da Psicologia Brasileira (FENPB).
Entidades de diferentes portes, com diferentes histórias e cuidando de partes desse
complexo mosaico que nos constitui como ciência e profissão se reúnem para juntas
construírem ações que fortaleçam a rede como um todo. A rede é uma metáfora
bastante útil para compreender como as interações recorrentes entre as entidades são
capazes de potencializar o fortalecimento do conjunto e de cada nó em particular.
Essa rede de entidades que constitui o FENPB atua pautada em um conjunto
de valores ou princípios que poderiam ser assim enunciados:
a. O reconhecimento da legitimidade de cada entidade em termos da represen-
tação do coletivo de atores (profissionais, estudantes, docentes, pesquisadores)
que constitui a sua comunidade de interessados; tal legitimidade surge dos
processos construídos no interior da própria comunidade que representa e que
culmina com a escolha dos seus dirigentes. Esse princípio tem uma implicação
fundamental sobre as relações no interior do Fórum – apesar das diferenças de
porte, tamanho da comunidade que representa, poder econômico ou mesmo
da natureza jurídica de cada entidade, todas elas têm o mesmo peso e o mesmo
poder de moldar as decisões do Fórum; ou seja, busca-se estabelecer relações
horizontais e democráticas em parcerias que caracterizam uma atuação em
rede sem hierarquia.
12
Conselho Federal de Psicologia
Psicologia enquanto ciência e profissão. Nesse sentido, o Fórum caracteriza-se
como esse dispositivo de construção de entendimentos coletivos sobre para
onde a nossa ciência e a nossa profissão devem caminhar. Esses entendimen-
tos compartilhados nos asseguram posicionamentos mais fortes e com maior
impacto frentes aos desafios e ameaças – a toda a Psicologia ou a algum dos
seus segmentos.
13
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
contribuindo para o fortalecimento de uma cultura política não hegemonista e pro-
fundamente democrática que fortalece laços de confiança mútua. De certo modo, o
FENPB é o exercício formal e cotidiano da unidade de uma ampla frente constituída
por uma psicologia socialmente relevante, técnica e cientificamente embasada e eti-
camente posicionada pelo marco da defesa dos Direitos Humanos.
14
Conselho Federal de Psicologia
caminhavam para estabelecer um estado de bem-estar social preconizado em nossa
constituição.
O momento ainda hoje vivido caracteriza-se adicionalmente, por imensos re-
trocessos em pautas sociais que foram e continuam sendo centrais para a psicologia.
Sem sermos exaustivos, podemos citar: a convivência com as mais diversas formas
de expressão de racismo, de discriminação quanto a gênero que deixaram de contar
com o peso de políticas públicas que asseguravam o seu efetivo combate. Temos
retrocessos nos direitos das mulheres o que se associa ao crescimento espantoso dos
casos de violência contra as mulheres e feminicídios, também com a redução do
peso do Estado no combate a esses crimes. Na verdade, vemos a captura do Estado,
principalmente do Poder Executivo, mas também importantes parcelas do Poder
15
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
Legislativo e Judiciário, por forças autoritárias que têm imposto pautas anticiviliza-
tórias e protofascistas, muito além de concepções e práticas conservadoras, o que
põe em risco a própria democracia organizada nos moldes da Constituição de 1988.
Nesse cenário de graves retrocessos e ameaças, a Psicologia respondeu com a
ampliação da sua unidade interna. Essa unidade tem se expressado na participação
vigorosa da categoria nos Congressos Regionais e Congresso Nacional da Psicologia
(COREP e CNP) que definem pautas de resistência e avanços, como também se
apresenta nos processos de escolha da direção de diversas entidades do Fórum, com
destaque para o CFP. Podemos dizer que se os COREPs e o CNP são usinas de pro-
dução de teses e posicionamentos, o FENPB é uma oficina permanente de produção
de unidade na ação diante de ameaças de retrocessos inaceitáveis e frente aos quais a
Psicologia não poderia se calar. Nesses últimos 8 anos, o FENPB tem sido porta voz
de denúncias e tem sido protagonista de lutas importantes para a sociedade brasileira
e para a Psicologia em particular.
Esse protagonismo, é importante registrar, se deve fortemente ao compro-
misso assumido pelo sistema Conselhos, exercendo o princípio da equidade, de
apoiar a existência e funcionamento do FENPB. Esse compromisso se concretiza
em decisões do Congresso Nacional da Psicologia, com a aprovação de tese que
reconhece o papel que esse Fórum desempenha na área e assegura que recursos
do sistema Conselho sejam usados para viabilizar o seu funcionamento. Sem essa
decisão política possivelmente teríamos um quadro de grande fragilidade, que
já caracterizou o FENPB em momentos passados, pela discrepância dos diversos
modelos organizacionais das entidades.
Sem sermos exaustivos, alguns exemplos ilustram bem a sintonia do conjunto
das entidades da Psicologia com os graves problemas vividos nos últimos anos pela
Psicologia e pelo Brasil. No enfrentamento da pandemia, nos posicionamos critica-
mente quanto à estratégia negacionista do governo federal, defendendo as medidas de
isolamento como preventivas e a vacinação em larga escala como meio de minimizar
seus perversos efeitos sobre pessoas, famílias e organizações. Manifestamos solida-
riedade a todas e todos que perderam familiares e amigos, assim como apoiamos
todos os movimentos feitos pelas(os) psicólogas(os) de prestarem apoio psicológico
diante de tantas perdas e de um processo de luto coletivo ou social.
Para isso, contribuiu fortemente a Resolução 11/2018 que disciplinou o aten-
dimento psicológico on-line que foi revisada e adaptada pela Resolução 04/2020,
ampliando as possibilidades do atendimento remoto frente às imposições geradas
pela pandemia. Ainda na pandemia trabalhamos fortemente para pensar e orientar
16
Conselho Federal de Psicologia
as instituições formadoras a como assegurar a continuidade dos processos formativos
sem ampliar os riscos de contaminação evitados pela suspensão do ensino presencial.
No caso da Psicologia essa abrupta transição requereu grande esforço para se iden-
tificar, nas diferentes áreas ou domínios e nos diferentes momentos da formação, o
que poderia e o que não poderia ser feito.
Ainda no campo da formação, engajamo-nos em duas grandes batalhas funda-
mentais para assegurar a melhoria da qualidade com que nossa categoria é formada.
Trabalhamos na construção das novas Diretrizes Curriculares para os Cursos de
Psicologia que já foram aprovadas pelo CNE e aguarda a homologação do Ministério
da Educação. Essa nova versão das DCNs traz inovações importantes, como um
novo e complexo modelo de competências além de novas propostas de ênfases
curriculares, ampliando a nossa convicção de que os processos de trabalho são uma
dimensão fundamental para pensarmos o exercício profissional e a formação para tal.
Em um primeiro momento conseguimos assegurar no texto das DCNs a obrigatória
necessidade de que a formação em Psicologia fosse presencial. Na versão finalmente
aprovada, depois de um recuo do CNE, perdemos essa batalha. No entanto, estamos
em várias outras frentes de luta para reafirmar que nossa formação não pode se dar
na sua integralidade com o ensino à distância. A luta continua e torcemos para que
no novo cenário nacional essa questão seja retomada de forma a nos assegurar uma
vitória contra essa forma de precarização da formação que está sendo imposta por
força de interesses mercadológicos.
Outro eixo permanente de ação e posicionamento tem sido o desmonte da
área de ciência e tecnologia no atual momento. Essa área vive uma crise de finan-
ciamento sem precedentes, revelando o quanto o desenvolvimento científico e
tecnológico, fator fundamental para o desenvolvimento das nações, é algo abso-
lutamente sem importância no atual governo. Esse desmonte apareceu ao longo
do tempo em vários episódios envolvendo a CAPES e o CNPq e frente a eles nos
posicionamos pela defesa da pós-graduação, especialmente na crise vivida no
recente processo de avaliação quadrienal.
Estivemos também presentes e colaborando na construção da nova resolução
sobre a Psicoterapia, atividade tão central no exercício profissional da grande maio-
ria de psicólogas e psicólogos. Trata-se de um campo que enfrenta dificuldades pela
forma alargada com que profissionais sem formação adequada terminam ocupando
espaços da Psicologia, com consequências não mensuradas sobre as pessoas, famílias,
casais, grupos. Defender esse espaço tão central na constituição da nossa identida-
17
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
de profissional é, certamente, algo que não se esgota no que foi feito e novas ações
continuam sendo pensadas e planejadas.
O FENPB também atuou fortemente na luta que resultou na Lei 13.935/2019
que insere psicólogas(os) e assistentes sociais na Educação Básica. Abre-se, agora, a
necessidade de atuação nos níveis de Estados e Municípios de modo a que a Lei seja
de fato implantada e isso requer que nesses níveis leis específicas sejam aprovadas e
que os poderes executivos assegurem esse direito tão fundamental para a melhoria
da qualidade da formação básica de nossas crianças e adolescentes.
Vale registrar também o forte engajamento do FENPB na luta pela preserva-
ção da avaliação psicológica como espaço privativo de atuação da(o) psicóloga(o),
diante das ameaças crescentes à integridade dos nossos instrumentos de avaliação.
Liderada pelas entidades específicas do campo da avaliação psicológica, o FENPB
atuou fortemente na luta contra a ADI 3481. buscando assegurar que o conteúdo dos
nossos instrumentos de avaliação e, especialmente os seus crivos de avaliação, não
se tornassem de domínio público, como assegurou a decisão do Supremo Tribunal
Federal. Trata-se de um processo que ainda se encontra em andamento. Para além
dessa questão mais geral, também outras frentes de luta mais específicas foram tra-
vadas no campo da avaliação para o tráfego e para o porte de armas.
Ainda a título de exemplo, temos que destacar a forma como o FENPB acom-
panha todos os projetos de lei que tramitam no Legislativo e que afetam a nossa
profissão. Em conjunto com o CFP, esses projetos são monitorados em todos os seus
passos e mobilizações de profissionais são periodicamente realizadas para que possa-
mos pressionar os parlamentares, quer presencialmente quer através de documentos
onde os fundamentos científicos e técnicos são disponibilizados. Só para citar um
exemplo, temos o caso do projeto de lei que buscava regulamentar a profissão do
Constelador Familiar.
18
Conselho Federal de Psicologia
ética e o enfrentamento aos aspectos do contexto político e social que demandem
um posicionamento da psicologia como ciência e profissão.
O processo de construção do PE resultou em avanços importantes para o co-
letivo. O mais óbvio é o cumprimento do objetivo proposto ao início do PE. Como
produto, estruturou-se um documento contendo 4 grandes eixos, com os respectivos
objetivos, que se desmembram em ações a serem desenvolvidas pelas entidades da
psicologia nos próximos anos, conforme apresentados na tabela abaixo.
19
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
Diante dos eixos e ações acima apresentados, fica explícito o perfil e o campo
de interesse das entidades que compõem o Fórum: a articulação entre campo cien-
tífico e prática profissional; além do ponto de interseção entre esses dois polos, que
é a formação. Apesar dos inúmeros avanços na profissão, tanto no campo científico
quanto profissional, ainda se observam descompassos entre esses dois estatutos da
psicologia. Uma das críticas nesse sentido se dá, por um lado, na dificuldade da aca-
demia em transpor o conhecimento científico produzido nos muros das universi-
dades em produtos que podem ser aplicados para resolução de problemas reais. Por
outro lado, há o desafio dos profissionais em superar o papel de meros reprodutores
de técnicas simplistas e atualizarem constantemente suas práticas profissionais. De
acordo com Francisco & Bastos (1992), o psicólogo deve se apresentar como um
agente de mudanças e não como repetidor do conhecimento científico e técnico de
forma acrítica. Para tanto, é vital que se supere o paradigma positivista da ciência
produzida e que se restabeleça o caráter de “expert” do profissional da psicologia. No
mundo atual, torna-se imperativo que psicólogos apresentem, além das competências
ligadas à intervenção no campo psicológico, competências relacionadas ao processo
de investigação (Cruz, 2016).
Para além do PE em si, o processo de articulação teve ainda dois resultados in-
diretos significativos. O primeiro diz respeito à democratização dos debates e ações
do Fórum. A dinâmica democrática construída durante o processo proporcionou a
participação ativa e o protagonismo de todas as entidades da psicologia brasileira,
independente de seu tamanho, tempo de criação, de participação no Fórum ou
recursos. Tal dinâmica resultou na segunda conquista indireta, que foi a articulação
contínua entre as mais diversas entidades do Fórum, para além de interlocuções
pontuais, como ocorria anteriormente, na discussão de pautas para além das espe-
cialidades de cada entidade.
Em suma, pode-se dizer que o panorama atual do FENPB é de consolidação,
crescimento e estreitamento da integração entre as 27 entidades que o compõem. Tal
evolução reflete a diversidade e multiplicidade de concepções teóricas, metodológicas
e temáticas da psicologia brasileira.
20
Conselho Federal de Psicologia
Reflexões finais
Como todo projeto coletivo, o FENPB lida no seu cotidiano com diferenças
históricas que muitas vezes se traduziram em tensões e disputas internas na própria
Psicologia. Afinal, temos que reconhecer a existência e mesmo a permanência de for-
ças que apostam na divisão, na disputa por espaços de poder e decisão. Não poderia
ser diferente do que acontece em todos os coletivos sociais. No entanto, a própria
existência, continuidade e fortalecimento do FENPB é uma evidência significativa de
que, pautado nos princípios antes enunciados, é possível transformar as diferenças
em forças, em potência de ação.
Essa capacidade de ser um ator presente nos momentos em que a Psicologia
precisa ser defendida assim como nos momentos em que um projeto de país so-
berano, democrático e socialmente justo está ameaçado, faz com que divergências
menores fiquem em segundo plano e que as ações colaborativas assegurada pelo
funcionamento em rede se sobreponham a potenciais dificuldades. Nesse sentido,
é importante frisar, que todas as decisões só são assumidas pelo FENPB quando há
a concordância de todas as suas entidades. Quando isso não ocorre, as entidades
que discordam de algum encaminhamento não são pressionadas a se posicionarem
com a maioria, respeitando-se a sua autonomia. Importante frisar que a unidade do
fórum se dá apesar e por causa das diferenças de cada uma das entidades. A força e
a legitimidade de cada entidade, pelo impulso da articulação de pautas e interesses,
potencializam a força e a legitimidade do coletivo, o que seguramente acaba por
beneficiar cada uma das entidades do FENPB.
Um grande desafio do momento atual consiste na ampliação e engajamento
de mais entidades nacionais. Uma “voz” que poderia estar presente no Fórum é a
das instituições que atuam na formação profissional das psicólogas e psicólogos,
particularmente nos cursos de especialização. Até o momento, temos sido pouco
proativos na busca de agregar novas entidades. O crescimento tem ocorrido sempre
por iniciativas de entidades que submetem o pedido para se integrar. Há, como mos-
trado no planejamento estratégico, o objetivo de ampliar essa rede cuja capacidade
de ação tem se mostrado um diferencial da Psicologia em relação a outros campos
científicos e profissionais.
21
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
Referências
Cruz, R. M. (2016). Formação científica e profissional em psicologia. Psicologia: ciên-
cia e Profissão, 36, 3-5. [Link]
22
Conselho Federal de Psicologia
Fórum de Entidades Nacionais
da Psicologia Brasileira: um
Registro de seus Passos Iniciais
Ana Mercês Bahia Bock
Marcos Ribeiro Ferreira
Fórum de Entidades Nacionais da Psicologia. Foi assim que o Fórum foi bati-
zado em sua inauguração em 1997 em uma pequena sala oferecida pelo Conselho
Regional de Psicologia da 4ª Região (MG) ao grupo de dirigentes de cinco entidades.
As entidades eram: o Conselho Federal de Psicologia (CFP), ali representado pelos
autores deste texto (Ana Bock e Marcos Ferreira); a Associação Nacional de Pesquisa e
Pós-graduação em Psicologia (ANPEPP), representada por Cláudio Hutz; a Sociedade
Brasileira de Psicologia (SBP), representada por Maria Ângela Feitosa; a Federação
Nacional dos Psicólogos (FENAPSI) e a entidade estudantil CONEP. O epíteto “brasi-
leira” foi incluído no nome do Fórum no momento em que cresceu a interação com
entidades de outros países, chegando ao nome que ficou resumido na sigla FENPB.
Em comum, aquele coletivo tinha a disposição de reunir a Psicologia em um
espaço que permitisse debater as questões necessárias ao seu desenvolvimento e
amadurecimento como ciência e profissão. Sabia-se que aquelas entidades e muitas
outras iniciativas de organização no campo da psicologia se tornavam cada vez mais
necessárias para que se pudesse superar a lógica feudal que marcava o campo. Eram
guetos que se empenhavam para resolver problemas específicos (ou comuns, como
o caso da formação) da psicologia, mas andavam nestes percursos de forma dispersa.
Isto tinha como consequência não haver uma voz legítima para falar pela psicologia.
As ações das entidades baseavam-se em suas relações, na maioria das vezes pessoais,
com governantes ou políticos influentes e na intimidade com a elite dominante no país.
Constituição de legitimidade na representação da Psicologia em todos os âmbitos
e assuntos! Este foi um foco imediatamente assumido como fundamental por aquele
coletivo, nos primeiros momentos de existência do FENPB. O texto do cartaz que
anunciou a criação do novo Fórum merece atenção (era um cartaz enorme e bonito,
impossível de não ser percebido por qualquer pessoa que passasse perto dele). Ele
23
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
trazia uma avaliação sobre o longo período em que fomos representados de forma
de forma assistemática, apontava as possibilidades futuras de desenvolvimento do
FENPB e apontava como foco do Fórum o compromisso com a maioria do povo
brasileiro.
4. Com a reunião de forças que o Fórum proporciona, será possível definir políticas
e projetos voltados à melhoria da qualificação profissional dos psicólogos, ao
fortalecimento da pesquisa no Brasil, à democratização das entidades repre-
sentativas de todo o setor, à consolidação da relação entre a pesquisa e a prática
cotidiana dos psicólogos, e ao aperfeiçoamento do instrumental técnico dos
psicólogos. E, tudo isso, sempre tendo em vista o fortalecimento do compro-
misso da Psicologia com o povo brasileiro.
24
Conselho Federal de Psicologia
2. definição de que o Fórum definiria em conjunto os encaminhamentos cuja
execução seria assumida pela organização que tivesse maior facilidade ou de-
finição legal para lidar com ela;
3. criação da ABEP;
25
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
De fato, a história da Psicologia no Brasil não é diferente da história de muitas
outras profissões. Conquistava avanços pelos laços que a uniam ao poder no Brasil sem
conseguir reunir os esforços e produzir a voz que lhe daria respaldo e legitimidade
por conter o conjunto de pessoas ligadas à área. Um conjunto amplo e diversificado
de profissionais da ciência e da profissão que a partir do final dos anos 1970 e início
dos anos 1980 se apresentavam no mercado de trabalho como psicólogas e psicólogos
desejosos de atuar na profissão, mas sem encontrar o espaço necessário.
Esses e muitos outros problemas e temas da psicologia sofriam atenção inter-
mitente, ficando, muitas vezes, descobertos. A formação, o mercado, as novas áreas
de atuação, as dificuldades para o desenvolvimento da pesquisa e, principalmente,
para a circulação do conhecimento que se acumulava eram alguns destes problemas
que, tratados de forma isolada e/ou intermitente (pois dependia das gestões que
ocupavam as entidades e suas relações), não encontravam solução.
Mas sabemos que os anos 1990 trouxeram muitas esperanças e conquistas, após
a promulgação da nova carta constitucional que representou a vitória contra a ditadura
que abafou e silenciou o Brasil por vinte anos. Em todos os espaços da ciência e da pro-
fissão, a Psicologia viveu desafios que apontavam novas possibilidades, por exemplo, na
sua presença na construção do SUS. Ganhou impulso o desejo e necessidade de criação
de uma abrangente comunidade nacional que congregasse de forma democrática e
respeitosa os diferentes atores e esforços de organização presentes na área.
Em 1989, o Conselho Federal de Psicologia sob a presidência da psicóloga e
professora Yvonne Alvarenga Gonçalves Khouri, em um projeto coordenado pelo
conselheiro Marcus Vinicius de Oliveira Silva, apresentou um chamado à Federação
Nacional (que reunia os sindicatos da Psicologia) para uma ação conjunta. Realizou-
se o Congresso Nacional Unificado. O germe do FENPB estava ali: unir as entidades
para qualificar os esforços e as conquistas. A FENAPSI, o conjunto dos Sindicatos de
Psicólogos no Brasil, o CFP e o conjunto dos Conselhos Regionais se reuniram em
Brasília na primeira grande iniciativa de reunir entidades para enfrentar os problemas
da psicologia brasileira e colocá-la em dia com os novos tempos que surgiam.
O processo de construção dessa grande comunidade não foi algo fácil. O
Congresso Unificado se materializou em poucos resultados naquele momento. A
principal decisão tomada pelo coletivo foi o de combater o corporativismo que
marcava as entidades de Psicologia.
O CFP levou muito a sério as decisões do Congresso Unificado de 1989 e em 1993
convocou o Congresso Constituinte da autarquia da Psicologia, agora já sob a gestão
da psicóloga Ana Lucia Francisco. Os Conselhos Regionais apresentaram-se com suas
26
Conselho Federal de Psicologia
delegações e, ousada e corajosamente, a autarquia começou a debater sua estrutura
e organização, avançando para se tornar a entidade profissional mais democrática
do Brasil. A Lei nº 5.766/1971 foi posta sobre a mesa e todos os seus trechos foram
debatidos. Um novo Conselho de Psicologia surgia daquele esforço. Um conjunto
de acordos políticos foi estabelecido para que o processo de democratização fosse
implantado, mesmo que a lei de criação da profissão não pudesse ainda ser alterada.
O processo de democratização da Autarquia logo ganhou materialidade: eleições
diretas para o Conselho Federal, com chapas e plataforma eleitoral, instalação da
Assembleia de Políticas Administrativas e Financeiras (APAF) – que depois se torna-
ria Assembleia de Políticas, Administração e Finanças – e o Congresso Nacional da
Psicologia (CNP) foram instituídos pela Congresso Constituinte e logo começaram
a ser vividos na prática por profissionais de todo o país. Claro, restava regulamentar
todas estas ideias e iniciativas, ao menos no âmbito da arquitetura administrativa
interna à autarquia, o que foi feito em anos seguintes (1997 e 1998) sob a orientação
do conselheiro José Carlos Tourinho.
Nessa perspectiva democratizante, uma decisão do Congresso Constituinte
(que passou a ser considerado o primeiro Congresso Nacional da Psicologia) mere-
ce destaque: foi aprovado que a autarquia trabalharia para a criação de um espaço
de articulação das entidades da psicologia, por meio de um Fórum de Entidades.
Naquele momento, foram apontadas cinco organizações que deveriam ser convi-
dadas a compor esse espaço. As decisões estavam, inequivocamente, guiadas por
um compromisso com um processo de democratização que devia transbordar para
envolver todas as entidades de Psicologia.
É importante esse relato para percebermos que a criação do FENPB foi assumida,
tanto pelos atores que decidiram quanto pelos atores que se incumbiram da sua im-
plementação, como iniciativa indispensável decorrente da vontade democratizadora
presente no pensamento e nas estratégias que marcaram aqueles anos 1990.
Em 1997, o Conselho Federal de Psicologia, logo nos primeiros meses da sua
primeira gestão eleita nos moldes estabelecidos pelo processo Constituinte da
Psicologia, já sob a presidência de Ana Bock, tomou a iniciativa de convidar para
aquela pequena sala em Belo Horizonte as cinco entidades nacionais que repre-
sentavam um coletivo significativo em seus campos da profissão, da ciência, do
trabalho e dos estudantes de Psicologia.
Em 2000 o FENPB fez a sua inauguração pública realizando a I Mostra Nacional
de Práticas em Psicologia: Psicologia e Compromisso Social. É emblemática esta
primeira iniciativa. Ela carregava consigo o potencial de ampliar a profissão para
27
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
além daquelas antigas e reconhecidas áreas (Clínica, Educacional e Organizacional/
Trabalho). A I Mostra, assim como a ideia do compromisso social da psicologia que
intitulou a I Mostra, segundo Mitsuko Antunes (2011), marcaram uma nova etapa na
história da psicologia brasileira; a etapa da ampliação “(…) considerando as trans-
formações da psicologia como ciência e profissão nos últimos anos, pode-se dizer
que o momento atual constitui-se num novo período histórico, que se caracteriza
pela amplitude de suas ações e pelo compromisso social” (Antunes, 2011, p. 13). A
psicologia não só se ampliou em número de profissionais e áreas como também
se apresentou comprometida com a transformação das condições de vida de po-
pulações excluídas que viviam em condições precárias e indignas de vida. Era o
projeto do Compromisso Social da Psicologia que se estabelecia em um evento que
aglutinou milhares de pessoas, milhares de autores e trabalhos em três dias em São
Paulo, no Palácio do Anhembi.
A Psicologia não era mais a mesma. Reconhecia-se, agora, grande, bonita e
diversificada. Novas práticas trouxeram para o campo da profissão e da ciência as
urgências da sociedade brasileira. Envolvida, também, com as lutas por uma sociedade
democrática, a psicologia se apresentou à sociedade brasileira pelas mãos do FENPB
como ciência e profissão carregada de seu rigor ético e com um projeto profissional
aliado a um projeto civilizatório humanizador.
O seguinte trecho do discurso de abertura da Primeira Mostra, proferido por
Ana Bock, coordenadora do FENPB naquele momento, carrega as significações que
estavam ganhando corpo: “de agora em diante, quando profissionais da Psicologia se
encontrarem já não irão mais se perguntar em que linha ou abordagem eles atuam,
mas sim, a que problema social eles dão combate”.
O projeto do Compromisso Social da Psicologia, que teria e tem vida longa para
seu desenvolvimento e configuração, anunciado pelo FENPB, naquela oportunidade,
se impôs como uma alternativa importante para a profissão. Luane Santos (2017),
ao estudar o “compromisso social” como um projeto profissional, conclui pela sua
existência e importância na virada da psicologia no que diz respeito a sua relação com
a sociedade brasileira. Santos (2017) aponta nove campos de expressão do projeto1
1 Os nove campos indicados por Santos (2017) são: inserção e qualificação do trabalho das psicólogas
nas políticas públicas; a condição autônoma e a produção do trabalho coletivo e interdisciplinar; a
defesa dos direitos humanos: enfrentando a dominação em suas diversas expressões; ampliação e
fortalecimento das relações e instituições democráticas; combate ao colonialismo cultural; defesa e
organização da psicologia latino-americana; (re)invenção dos saberes e práticas; e a centralidade do
exercício crítico.
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Conselho Federal de Psicologia
e um deles é exatamente a “ampliação e fortalecimento das relações e instituições
democráticas” (Santos, 2017, p. 178). A autora nos diz:
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ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
O FENPB criava, definitivamente, a articulação desejada e necessária entre as enti-
dades da psicologia brasileira.
A partir da instalação do FENPB, houve pacificação nas relações entre as orga-
nizações representativas, independentemente dos temas a que se dedicam ou dos
grupamentos que representam. Agora, a psicologia possuía uma voz que, demo-
craticamente produzida e legitimada, dialogava, então, com a sociedade brasileira
e com gestores, políticos e governantes responsáveis pela orquestração social. E
assim vamos nos encontrar nos anos atuais como profissionais realizando trabalhos
importantes no SUS, SUAS, Educação, Justiça, Defesa Civil, Esportes, Comunicação,
Trabalho e Saúde do trabalhador, enfim, em muitos e diversificados campos que
abarcam a vida em nosso país.
Teses pouco representadas na ciência e na profissão rapidamente ganharam
notoriedade e passaram a ser consideradas marcas inescapáveis da Psicologia. A
ênfase na defesa dos Direitos Humanos, o destaque para as políticas públicas, o de-
bate aberto sobre as relações da Psicologia com democracia e o estado de direito e,
inclusive, o envolvimento com a luta antimanicomial, isto é, coisas que poderiam ser
consideradas arrojadas para uma categoria profissional considerada por alguns como
conservadora, ganharam amplo espaço devido à disposição do FENPB de enfrentar o
debate e implementação conjunta de iniciativas. Não importava de quem partisse as
propostas, tudo o que apontasse para o crescimento da Psicologia era bem recebido.
Além de realizar atividades e lutas conjuntas, o FENPB esteve atento a possíveis
lacunas no processo de institucionalização e atuação da Psicologia na sociedade. Foi
assim que algumas entidades se dedicaram à criação da União Latino-americana de
Entidades de Psicologia (ULAPSI); foi assim com o debate e as ações em relação à ética
na pesquisa; foi assim com a criação da Associação Brasileira de Ensino de Psicologia
(ABEP). Proposta, estruturada e organizada pelo FENPB, a ABEP tornou-se o espaço
do debate legítimo sobre a formação, reunindo as entidades que, sempre, estiveram
atentas à questão da formação.
Mais de sessenta entidades e coletivos nacionais e regionais, convidados pelo
FENPB se apresentaram para construir a ABEP. Ocorre que logo ficou reconhecido
que o tema da formação de profissionais não recebia a atenção devida e merecida.
Assim, o FENPB deliberou por propor à comunidade da Psicologia a criação de um
ator com foco específico nesse tema.
O desenho da ABEP precisa ser considerado algo ousado. Sua base incluiria
praticamente todas as pessoas representadas pelas organizações que compunham o
FENPB. Para suas deliberações, ela contava com seis diferentes setores: coordenadores
30
Conselho Federal de Psicologia
de curso, professores, estudantes, entidades, profissionais de Psicologia e profissionais
de outras áreas. As entidades do FENPB deveriam ter um papel de “stake holders”
da nova organização. O crescimento da ABEP foi vertiginoso, chegando a realizar
eventos que reuniram cerca de dez mil pessoas em todo o país, no debate sobre a
presença da Psicologia no SUS.
A criação do FENPB permitiu iniciativas impensáveis poucos anos antes. Ao
constatar a insuficiência da profissão e a necessidade de fortalecer o campo do en-
frentamento de desastres, sob a coordenação do CFP, aconteceu uma operação de
porte nacional para inserção da Psicologia nesse tema. Foram realizados eventos
nacionais, oficinas em diferentes estados do país, missões técnicas, o que culminou
com a participação efetiva de profissionais da Psicologia na construção e realização
da Conferência Nacional de Defesa Civil. Alguns colegas, como Marcus Vinícius de
Oliveira Silva e Cristina Silva, foram agraciados com a comenda da Defesa Civil, pela
qualidade da sua colaboração.
Para além da riqueza das proposições que foram estabelecidas coletivamente,
algumas iniciativas não chegaram a prosperar, como: a criação de uma organização
específica para tratar desse tema, e a decisão de que fosse produzido um plano de
contingências envolvendo as entidades da Psicologia, para os momentos de desas-
tre. O plano de contingência teria a finalidade de organizar esforços coordenados e
resolutivos da profissão na ocorrência de eventos adversos.
Da mesma forma foi impactante a decisão de tomar nas mãos a questão das
relações raciais, um problema fundamental e fundador do Brasil. O FENPB assumiu a
tarefa de apoiar a construção de uma entidade que tivesse esse foco e reunisse as psi-
cólogas e psicólogos negros. Hoje contamos com a Associação Nacional de Psicólogos
Negros e Pesquisadores (ANPSINEP) organizada em todo o país.
O papel do FENPB de fortalecer as entidades foi dirigido também ao CFP. O apoio
do Fórum para a criação do Sistema de Avaliação dos Testes Psicológicos (SATEPSI)
foi da maior importância. A despeito de se tratar de um ferramental privativo de pro-
fissionais da Psicologia, como diz a Lei nº 4.119/1962, esse assunto estava inteiramente
abandonado, do ponto de vista da garantia de sua qualidade e adequação a normas
mínimas de uso. Ficava à mercê das editoras, que não eram cobradas a atualizarem
os testes. O Instituto Brasileiro de Avaliação Psicológica (IBAP) se apresentou para
colaborar na correção de rumos que culminou com a criação do SATEPSI.
No primeiro momento do resgate da dignidade dos testes, com o apoio do esti-
mado colega Luiz Pasquali, foi possível compreender que quase nenhum teste em uso
no país naquele momento atendia a normas mínimas estabelecidas para esse tipo de
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ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
instrumento. Sempre apoiado pelo FENPB, o CFP deu um prazo para que os testes fossem
tratados até que estivessem atendendo às normas já estabelecidas na literatura. Depois
dessa data, eles não poderiam mais ser comercializados. Com o advento do SATEPSI e
contando com apoio do FENPB, esse tipo de cuidado passou a ter fluxo contínuo.
O FENPB promoveu, também, um esforço de valorização dos periódicos cien-
tíficos, por meio de campanha que incentivava profissionais a fazerem assinatura e
utilizar essa produção nacional. Esse é um outro exemplo de como as urgências da
área de conhecimento e do campo de atuação eram percebidas com mais nitidez e
enfrentadas de forma coletiva. Também a área das editoras de psicologia foi atingida
por esse esforço, como será descrito a seguir.
É importante, ainda, referir a mais estruturada e impactante iniciativa do FENPB:
a criação da BVS-PSI. A Biblioteca Virtual da Psicologia foi uma iniciativa do CFP,
mas ela só pôde ser implementada porque o FENPB assumiu o papel de conselho
editorial, o que era uma exigência para que ela pudesse ser implementada. Também
graças ao Fórum, a velocidade de implementação da Biblioteca foi impressionan-
te. Abel Packer, então diretor da BIREME, foi enfático em afirmar que a Psicologia
conseguira fazer em meses uma construção que em outras áreas levara anos. Aliás,
ele contava sempre que, ao fazer conferências sobre bibliotecas virtuais, ele utilizava
como exemplo a nossa BVS-PSI. Com o advento da ULAPSI e graças ao apoio da
Universidade de São Paulo, notadamente na persistente atuação de Maria Imaculada
Sampaio, bibliotecária do Instituto de Psicologia, outros países latino-americanos
utilizaram nosso modelo para fazer suas bibliotecas virtuais.
Esse modelo tinha uma arquitetura que contava com o FENPB como definidor
de o que devia e podia ser feito, mas a BVS só foi possível graças a um sistema coo-
perativo que reuniu mais de uma centena de instituições de todo o país, na Rede de
Bibliotecas da Área da Psicologia, criada no processo de construção da BVS. Como a
BIREME também tem um recorte latino-americano, todas as ferramentas ciberné-
ticas que foram postas à disposição da nossa biblioteca virtual foram estendidas aos
demais participantes da ULAPSI.
Para além do enfrentamento do pensamento colonizado no âmbito da Psicologia,
a biblioteca virtual teve importância no próprio reconhecimento da grandeza da pro-
dução da Psicologia no Brasil e na adequação com que essa produção foi catalogada. O
Thesaurus da BVS era, à época, cerca de uma quarta parte maior do que o Thesaurus
da American Pychological Association (APA); naquela época, a maioria dos países
se limitava a traduzir o Thesaurus estadunidense. Isto significou, por exemplo, que
32
Conselho Federal de Psicologia
nossos pesquisadores que produziam documentos sobre meninos de rua deixaram
de ser catalogados somente no descritor “infância”.
As bases de dados da BVS focaram dimensões diversificadas. Havia desde aquelas
de recorte mais acadêmico ou científico, como a base de dados bibliográficos, que
cobria desde o primeiro artigo científico de Psicologia publicado no Brasil e a base
de teses e dissertações que incluía desde textos integrais os quais, à época, não eram
fáceis de serem acessados, até bases com materiais produzidos por profissionais,
especialistas e estudantes de graduação em Psicologia.
Segundo especialistas, a BVS-PSI chegou a figurar entre as maiores fontes de
informação em Psicologia do planeta. Ela apresentava, à época, um nível de orga-
nização pouco conhecido em países centrais do mundo ocidental. A velocidade de
atualização de seus registros, em decorrência do trabalho da REBAP e do apoio finan-
ceiro ininterrupto do CFP, impressionava profissionais das ciências da informação.
O FENPB adquiriu, com tudo isso, uma enorme legitimidade, demonstrando que
as entidades que o compunham eram representativas da psicologia brasileira. Com
galhardia, a Psicologia, como ciência e profissão, havia realizado a virada do século.
O FENPB hoje, com 25 anos de existência, agrega 27 entidades de âmbito nacional
do campo da Psicologia, resultado do esforço coletivo que apoiou o desenvolvimento
e a criação de entidades nos espaços em que se faziam necessárias. São entidades
científicas, estudantis, sindicais, profissionais, de abordagem ou campo de atuação e
pesquisa na psicologia que, reunidas, buscam produzir qualidade para a ciência e para
a profissão. Hoje, não temos mais a dispersão que caracterizou o desenvolvimento
das entidades da psicologia brasileira. O FENPB tornou-se o lugar da Psicologia com
toda a sua diversidade, adquiriu reconhecimento em toda a América Latina e atua, a
partir de seu compromisso com a sociedade brasileira, para a inserção e ampliação das
contribuições da psicologia para a construção de uma sociedade democrática e justa.
33
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
Referências
Antunes, M. A. M. (2011). Psicologia e educação no Brasil: Uma análise histórica. Em
R. Azzi, & M. T. Gianfaldoni (Orgs.), Psicologia e Educação. São Paulo, SP: Casa do
Psicólogo.
34
Conselho Federal de Psicologia
Contribuições da ANPEPP para
a Pós-Graduação em Psicologia
Marco Aurélio Máximo Prado
Gardênia da Silva Abbad
Patrícia Izar
Jáder Ferreira Leite
Mary Sandra Carlotto
Introdução
A pós-graduação no Brasil tem se consolidado a partir da interação de múltiplos
atores institucionais entre o Estado e a Sociedade brasileira. As políticas de fomento,
regulação e avaliação das atividades pós-graduadas por parte de agência do estado,
a CAPES, expressam, neste sentido, os resultados de um plano nacional constituído
da interlocução de inúmeros agentes institucionais que não só representam os inte-
resses do Estado, mas também da própria Sociedade em toda a sua complexidade,
particularmente dos agentes acadêmicos e científicos.
É por óbvio considerar que essas interações não têm sido marcadas pela
simetria, nem pela ausência de conflitos. No entanto, é exatamente dessa inte-
ração que tem sido produzida uma das experiências de qualificação de recursos
humanos para as ciências e da própria produção científica e tecnológica de maior
sucesso na história do país.
Neste sentido, vislumbrar uma perspectiva de amplo olhar para a construção da
Psicologia como ciência no Brasil exige-nos uma análise do papel e lugar da Associação
Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Psicologia (ANPEPP) na contribuição da
ciência psicológica, de sua institucionalização e consolidação como um campo in-
terdisciplinar nas ciências humanas e sociais, bem como aplicadas e básicas, dadas as
suas características fronteiriças com vários outros campos do conhecimento científico.
A ANPEPP surge exatamente de um esforço concentrado de pesquisadoras, até
então localizadas nos cursos de graduação em Psicologia, que nos anos de 1980, par-
ticularmente em 1983, durante um encontro da Sociedade Brasileira para o Progresso
da Ciência (SBPC), pautam a importância de criação de uma entidade especificamente
35
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
para pós-graduação em Psicologia. Talvez antes de adentrarmos em aspectos e ele-
mentos internalistas do próprio campo, vale a pena ressaltar o contexto sociopolítico
daquele momento que, sem dúvida, foi determinante no enquadramento de um
desejo político de concertar vozes em torno de uma entidade de tonalidade própria
para o debate e reflexão acerca da pós-graduação da Psicologia brasileira.
Dois aspectos contextuais merecem destaque no âmbito deste capítulo: a) a
efervescente saída do regime ditatorial daquele momento, portanto um desejo pela
democratização da sociedade e de suas instâncias reguladoras marcam fortemente
iniciativas da sociedade brasileira na criação de canais de participação coletiva, a
ANPEPP é mais um desses veículos que emerge no seio deste desejo coletivo; e b) a
abertura para relações entre ciência e política, que muito embora sempre esteja sendo
traçada, naquele momento há um ímpeto coletivo de que a ciência seja considerada
parte da autonomização da sociedade, do desenvolvimento do país e da emancipação
dos grupos e indivíduos. A psicologia, todavia, embora encerrada em suas atividades
privativas, comparece como uma ciência de relevância nacional na constituição da
então sociedade em processo de democratização.
A ANPEPP foi criada em reunião da SBPC do dia 9 de julho 1983, Belém (Pará),
na qual foram indicadas para dirigir provisoriamente a entidade as professoras Maria
Amélia Matos (USP) – presidente –, Thereza Mettel (UnB) e Analucia Dias Schliemann
(UFPE). No ano seguinte, em 9 de julho de 1984, foi realizada a primeira eleição de
dirigentes da entidade, em reunião realizada na PUC-Rio com a participação de re-
presentantes de 25 Programas de Pós-graduação em Psicologia. Foram eleitos(as) para
a direção da entidade os(as) professoras Carolina Bori, Aroldo Rodrigues, Terezinha
Féres Carneiro e Álvaro Pacheco Duran. Havia grande necessidade e desejo de con-
gregar esforços para a consolidação e ampliação das oportunidades de formação de
mais pesquisadores e pesquisadoras da área no país.
A entidade foi criada com o objetivo de congregar Programas de Pós-graduação
em Psicologia vinculados a instituições de ensino superior para fomentar e estimu-
lar a formação de profissionais para pesquisa e pós-graduação em Psicologia bem
como para estimular a configuração de trocas e experiências em rede da produção
científica em um território de características continentais. Têm-se como propostas:
a) promover e defender medidas de apoio e incentivo aos programas afiliados con-
soantes aos interesses da pesquisa e da pós-graduação; b) promover o intercâmbio e
cooperação entre os centros de pesquisa e seus pesquisadores; c) defender o interesse
e a promoção do aperfeiçoamento de programas de pós-graduação; d) incentivar o
desenvolvimento da pesquisa em Psicologia; e) incentivar a formação de pesquisado-
36
Conselho Federal de Psicologia
res em Psicologia; f) promover a divulgação dos trabalhos científicos em Psicologia
produzidos no país, por meio da realização de congressos, seminários e reuniões
de interesse da pesquisa e da pós-graduação em Psicologia; g) colaborar com outras
sociedades científicas na defesa dos interesses nacionais, especialmente com relação
à pesquisa e à pós-graduação em Psicologia; h) colaborar com outras entidades re-
presentativas da Psicologia, com vistas ao desenvolvimento e ao fortalecimento da
ciência e da profissão de psicólogo(a).
Esses objetivos e propostas têm sido alcançados a partir de diversas atividades
promovidas pela entidade, como os simpósios, a configuração dos Grupos de Trabalho
(GTs), os Fóruns permanentes de discussão, o seminário Novos Horizontes e a par-
ticipação ativa em discussões com outras organizações como o Fórum de Entidades
da Psicologia Brasileira (FENPB), o Fórum das Ciências Humanas, Sociais, Sociais
Aplicadas, Letras, Linguística e Artes (FCHSSALLA), a Sociedade Brasileira para o
Progresso da Ciência (SBPC), a Sociedade Brasileira de Psicologia (SBP) na parceria
de representação com a International Union of Psychological Science (IUPsyS). A
ANPEPP também participa de grupos de trabalho de entidades nacionais que atuam
na interlocução com agentes públicos que elaboram e implementam as políticas
científicas, em especial as que se referem à Psicologia e suas interfaces com áreas afins.
A entidade iniciou a sua trajetória com a participação de pesquisadores(as) de
25 Programas de Pós-graduação em Psicologia de diversos estados, embora já esti-
vessem bastante concentrados na região sudeste e sul do país. Atualmente a entidade
tem representantes de 101 Programas de Pós-graduação em Psicologia vinculados a
instituições de ensino sediadas em todas as regiões do país.
Contribuições da ANPEPP
Uma das contribuições da ANPEPP para a Pós-graduação em Psicologia no Brasil
tem sido a realização de Simpósios e o fortalecimento de redes de trabalho e interlo-
cuções na avaliação do sistema de Pós-Graduação. O principal objetivo dos Simpósios
da ANPEPP é discutir pesquisas, a política científica e a formação de mestres e douto-
res pelos Programas de Pós-graduação em Psicologia no Brasil. No corrente ano será
realizado o XIX simpósio da ANPEPP, em Gramado (RS), com o tema: Psicologia em
tempos de desdemocratização: estado, políticas científicas e desigualdades.
O evento inicial, ocorrido em 1988 em Caruaru (PE), foi o primeiro a reunir
professores de diversos Programas de Pós-graduação em Psicologia para discutir
pesquisas científicas. No segundo simpósio, realizado em 1989 em Gramado (RS),
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ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
foram criados os Grupos de Trabalho (GTs) da ANPEPP, um grande marco na his-
tória da Psicologia brasileira. Os GTs, nos anos seguintes, viabilizaram a criação e a
ampliação de intercâmbios entre pesquisadores(as) de diferentes programas de pós-
-graduação, a constituição de novas parcerias interinstitucionais de pesquisa, assim
como a produção e a divulgação conjuntas de conhecimentos em diversos temas de
grande relevância social e acadêmica. Em 1990, a partir do III Simpósio, realizado
em Águas de São Pedro (SP), o evento passou a ser bienal e ter os GTs como uma das
suas atividades principais.
O I Simpósio contou com a participação de 48 pesquisadores. Nos últimos
eventos, em 2018 e 2020, este número cresceu vertiginosamente, alcançando 1.000
e 1.300 participantes, respectivamente. Os 10 Grupos de Trabalho do II Simpósio
passaram para 93 no XVIII Simpósio de 2020, totalmente realizado na modalidade
virtual, em função das medidas de distanciamento social de combate à pandemia
de COVID-19, passaram para 86 GTs inscritos no XIX Simpósio, que ocorrerá em
2022 em modo híbrido.
Os GTs que integram a ANPEPP congregam pesquisadores(as) de distintos
Programas de Pós-graduação do país no exame de temáticas e questões relativas
a diversas áreas de interesse da Psicologia, com alcance internacional, na medida
em que também deles participam docentes de vários países que estabelecem redes
de pesquisa multicêntrica.
Os GTs contribuem, sobremaneira, na atualização teórico-metodológica de
subáreas da psicologia, por meio do estabelecimento contínuo e colaborativo de
agendas de pesquisa que se voltam para temas e questões sensíveis ao contexto
sociocultural e político do país. Assim, os esforços empreendidos na produção de
conhecimento têm possibilitado avanços que dinamizam a operacionalização dos
GTs que podem, mediante os debates e campos de interesse, formar novos grupos
de trabalho que passam a se dedicar a temas mais especializados ou, por outro lado,
explorar dimensões interdisciplinares desses temas. É importante ainda salientar que
os GTs também foram se constituindo em espaços de formação e qualificação, uma
vez que deles participam pesquisadores e pesquisadoras com diferentes experiências
acadêmicas inclusive estudantes de doutorado. Nesse sentido, desde o surgimento
da ANPEPP e do funcionamento dos GTs, saltamos de 10 GTs em 1989 para 86 GTs,
que confirmaram participação no próximo Simpósio da ANPEPP em 2022.
Das parcerias de trabalho, resultam inúmeros produtos na forma de artigos
científicos, livros e capítulos de livro, relatórios de pesquisa, bem como eventos de
distintas naturezas e portes que visam a publicizar e prestar contas à sociedade do
38
Conselho Federal de Psicologia
esforço empreendido na geração de um conhecimento socialmente implicado com
vistas a contribuir com a transformação da sociedade. Os materiais de divulgação
científica produzidos pelos grupos nas últimas décadas têm contribuído também
para aprimorar a formação de novos(as) pesquisadores(as), estudantes de mestrado e
doutorado, e para oferecer oportunidades de atualização profissional a profissionais
de psicologia, a partir da construção e divulgação de saberes relevantes e aplicáveis
às realidades locais, regionais, nacionais e internacionais.
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ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
Figura 1. Seminários Novos Horizontes promovidos pela ANPEPP
em parceria com representantes da área da Psicologia na CAPES
I SEMINÁRIO NOVOS III SEMINÁRIO NOVOS V SEMINÁRIO NOVOS VII SEMINÁRIO NOVOS
HORIZONTES HORIZONTES HORIZONTES HORIZONTES
BENTO GONÇALVES CAMPINAS FORTALEZA GRAMADO
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Conselho Federal de Psicologia
parcerias internacionais e a diferenças entre bioética e ética nas ciências humanas e
sociais. Os debates sobre ética em pesquisa deram continuidade aos que foram tra-
vados anteriormente no fórum de ética, durante o XV Simpósio da ANPEPP.
O IV SNH ocorreu no RJ, em 2015. Nesse evento foram apresentados os critérios
adotados pela Comissão Qualis da CAPES para avaliar os periódicos científicos da
área de Psicologia e os critérios adotados pelo Qualis livros para a avaliação das obras
publicadas por pesquisadores ligados aos Programas de Pós-graduação em Psicologia
nos anos de 2013-2014. O evento contou com a participação de 122 pessoas e a pre-
sença de 62 dos 74 programas de Pós-Graduação e Psicologia associados à ANPEPP.
O V SNH foi realizado nos dias 16 e 17 de novembro de 2017, em Fortaleza/CE,
e teve como tema “Horizontes possíveis: A política científica e tecnológica atual e
seus efeitos para os avanços da Pesquisa e da Pós-Graduação em Psicologia no Brasil”.
O evento reuniu coordenadores e representantes de 78 dos 93 Programas de Pós-
Graduação do Brasil associados à ANPEPP, totalizando 160 participantes. Também
participaram do Seminário os representantes da área de Psicologia da CAPES, do
CNPq e de outras entidades científicas como o FCHSSALA.
Entre os objetivos do evento estava: refletir sobre as possibilidades de aperfei-
çoamento do sistema nacional de Pós-Graduação em Psicologia; discutir estratégias
de promoção de melhorias das pesquisas em âmbito nacional e internacional; e
analisar a possibilidade de aumentar o alinhamento de indicadores de implementa-
ção de políticas científicas às características e contribuições Psicologia e das Ciências
Humanas e Sociais. Foram discutidos: os avanços da pós-graduação no quadriênio; os
desafios do CA Psicologia na avaliação de pedidos de bolsas e auxílios submetidos ao
CNPq; o ambiente público de formação de pesquisadores e a investigação científica
no Brasil; e as implicações das políticas de pós-graduação para a área de Psicologia.
O VI SNH, realizado em Belo Horizonte, em 2019, reuniu coordenadores e re-
presentantes de Programas de Pós-Graduação do Brasil associados à ANPEPP. Entre
os participantes, estiveram os representantes da área de Psicologia da CAPES, do
CNPq e de outras entidades científicas como o FCHSSALA. Neste evento, um marco
importante foi a apresentação do diagnóstico das Ciências Humanas produzido pelo
CGEe e pelo FCHSSALLA, do qual a psicologia teve importante expressão. Além
disso, foi a primeira vez que em uma atividade da ANPEPP se produziu uma oficina
com técnicos de sistema da Capes para qualificação e debate sobre a produção de
dados dos PPGs por meio do Sucupira.
O evento também proporcionou o encontro dos(as) representantes de área da
CAPES com os coordenadores dos programas; analisou o Qualis como política da pro-
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ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
dução intelectual; debateu questões ligadas a políticas nacionais e diagnósticos sobre
a situação das políticas científicas nas áreas das Ciências Humanas, Sociais e Sociais
Aplicadas no Brasil; refletiu sobre a avaliação da Pós-graduação em Psicologia em con-
texto de mudança; analisou criticamente indicadores de internacionalização na área de
Psicologia, atualidades e perspectivas relacionadas ao Sistema Nacional de Pós-graduação
no Brasil; avaliou as mudanças que estavam em curso no processo de avaliação, bem
como o panorama e os caminhos futuros dos mestrados profissionais em Psicologia.
A próxima edição do evento, o VII SNH, ocorrerá em Gramado (RS), na moda-
lidade presencial, em 2022, e terá como alguns dos seus desafios analisar e debater
os efeitos da judicialização da avaliação quadrienal, da ausência de PNPG para os
próximos 20 anos, dos cortes de recursos para a pesquisa e para a Pós-Graduação,
bem como discutir as perspectivas de mudança no cenário da Pós-graduação em
Psicologia e do Sistema Nacional de pós-graduação como um todo nos próximos anos.
42
Conselho Federal de Psicologia
Reconheceu-se também a importância da ampliação de atividades de cooperação
nacional e internacionale da recomposição de quadros docentes nas universidades
públicas. Por fim, o fórum indicou maior diversificação dos critérios de avaliação dos
Programas de Pós-graduação pela CAPES.
No simpósio seguinte, ocorreu discussão importante sobre composição do
Comitê Assessor da área no CNPq. Foram feitas recomendações para aumentar a
representatividade do CA em termos de subáreas da Psicologia, ampliar o número
de sociedades científicas consultadas sobre a composição do CA, permitir a partici-
pação de pesquisadores 2 e também melhorar a atuação de pareceristas, exigindo-se
pareceres mais bem justificados. Foram também retomadas as recomendações do
Fórum de 2004 no que se referia a maior diversificação dos critérios de avaliação de
produção pela CAPES e de manutenção de Programas de Cooperação Acadêmica,
entre instituições nacionais e delas com instituições estrangeiras.
Uma revisão histórica das primeiras seis edições dos Fóruns de políticas cien-
tíficas da ANPEPP ao longo dos dez primeiros anos após sua criação, enfatizando a
segunda metade a partir do estabelecimento do VI Plano Nacional da Pós-Graduação
para 2010 a 2020 revisão feita pelo CPC do Simpósio de 2014, foi publicada na re-
vista Ciência e Profissão (Guzzo et al., 2015). Essa revisão mostra recomendações que
procuram levar em conta os seus impactos nos PPGs e na produção da pesquisa em
Psicologia. As recomendações atentaram para os objetivos do PNPG.
Quanto à Inovação, que se refere a novas metodologias, novas soluções para
problemas existentes ou novas relações entre campos de conhecimento, apontou-se a
importância de pesquisadoras(es) para identificar possibilidades de inovação em seus
campos de pesquisa e de pareceristas para garantir a qualidade das propostas. Quanto
à Internacionalização, recomendava-se incremento nas missões de treinamento em
outros países e criar formas de incentivar e aumentar a publicação e visibilidade em
periódicos internacionais. Quanto à Redução de Assimetrias Regionais, apontou-se o
estímulo e incremento da formação de redes de colaboração entre centros de pesquisa
consolidados e PPGs em formação. Quanto à Interdisciplinaridade, identificava-se
grande potencial para intercâmbio com outras áreas com temas de pesquisa seme-
lhantes, recomendava-se pressão para maior valorização e financiamento da ciência
básica psicológica para quebrar fronteiras entre essas áreas afins. Finalmente, reco-
mendava-se a consolidação da participação da comunidade acadêmica no desenho,
desenvolvimento e avaliação das políticas científicas nacionais.
O exame dos documentos produzidos pelos Fóruns de Políticas científicas da
ANPEPP permite identificar uma marcada mudança de rumo nas recomendações dos
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ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
Fóruns de políticas científicas, acompanhando as mudanças nas políticas de governo, a
partir de 2014, e que se conformaram nos anos mais recentes como mudanças nas políticas
de Estado para Ciência e Educação. O Fórum ocorrido no XVI Simpósio da ANPEPP,
em Maceió, em 2016, já se deu após a dissolução do ministério de Ciência, Tecnologia
e Inovação pelo governo Temer (fundido com o Ministério das Comunicações) e num
cenário de muita preocupação na comunidade acadêmica, pois grande parte percebeu
o processo de impeachment como real ameaça à democracia. Diante desse cenário, uma
importante recomendação feita pelo Fórum foi a atuação da ANPEPP para incrementar
as ações de divulgação científica em psicologia, tanto em instâncias públicas como no
setor privado, de forma a tornar a Psicologia uma área prioritária.
Essa percepção foi se consolidando nas duas edições seguintes do fórum.
Temos assistido a um desmonte sistemático das políticas de educação e de Ciência
e Tecnologia no país, entre outras áreas. Esse desmonte tem sido entendido como
política de Estado de fato e tem como uma das principais estratégias de implemen-
tação o corte orçamentário.
Na última edição do Fórum, ocorrida em 2020, o comitê de políticas científicas
discutiu as ameaças à ciência brasileira e ao SNPG, que não se restringem aos cortes
orçamentários. Emmanuel Tourinho salientou as ações que ameaçam a autonomia
universitária, perda de protagonismo da comunidade científica na definição das po-
líticas e na gestão das agências de regulação e fomento; além disso, as mudanças no
SPG fragilizam toda a estrutura de pesquisa com risco de colapso, isso nos leva a um
afastamento da fronteira do conhecimento e a uma perda significativa de cientistas,
porque toda capacidade de trabalho criada nos últimos anos está ociosa pela falta de
financiamento e perda de soberania.
O foco que tem sido dado em inovação e tecnologia como política científica cria
uma falsa impressão de que a ciência nacional é responsável pelos problemas na área
industrial e não há reconhecimento da necessidade de investimento na ciência básica
para atender a essa demanda. Maria de Fátima de Souza Santos e Luciana Mourão
mostraram o acirramento das desigualdades regionais em ciência. Souza Santos dis-
cutiu a adoção de parcerias entre as Fundações de Amparo à Pesquisa estaduais e a
iniciativa privada para financiamento dos PPGs, num sistema de contrapartida para
distribuição dos recursos, o que potencialmente gerará incremento das desigualdades
entre estados e regiões, já que os orçamentos das FAPs são muito desiguais. Luciana
Mourão salientou a política de cortes de bolsas recente da CAPES, com ênfase na
região norte e atingindo programas mais antigos e consolidados.
44
Conselho Federal de Psicologia
As recomendações feitas para a ANPEPP foram insistir na retomada do prota-
gonismo da comunidade científica na formulação das políticas científicas, enfrentar o
debate investimento em pesquisa básica versus inovação, trazer o tema para o debate
eleitoral e proteger o SNPG; incremento do diálogo com a sociedade, não somente
na forma de divulgação via redes sociais, o que já estamos vendo, mas como política,
envolvimento da rede de pesquisadora/res, como movimento político, em divulgar
a importância do conhecimento que geramos, envolver congressistas e governantes
na discussão, ocupação dos espaços para mostrar a relevância da Psicologia.
Em suma, os caminhos de resistência apontados são conquistar aliada/os na
sociedade, em todos os setores, por meio da divulgação do conhecimento produzido
e, ao mesmo tempo, mostrando que, mesmo para o desenvolvimento tecnológico, o
conhecimento produzido pelas ciências humanas e pela Psicologia em especial têm
um papel de alta relevância: compensar o déficit de cidadania. O crescimento a que
assistimos anteriormente ao desmonte das políticas públicas só aconteceu com a
democratização dos processos decisórios e a participação da comunidade acadêmica
na sua formulação.
Fórum de Ética
A questão da ética na pesquisa, sobretudo na grande área das humanida-
des, tem sido um dos eixos de preocupação do Fórum de Ética nos Simpósios da
ANPEPP. Embora o tema da ética na pesquisa apareça em quase todos os Simpósios
da ANPEPP desde o primeiro, em mesas-redondas, conferências etc., foi apenas
no ano de 2000, durante o VIII Simpósio da ANPEPP, em Serra Negra, que a ética
na pesquisa adentra os eventos da ANPEPP oscilando entre a organização de um
Fórum ou como Conferências de Abertura e mesas-redondas. A partir de 2004, no
X Simpósio da ANPEPP, em Aracruz, a ética na pesquisa passa a ser um dos Fóruns
permanentes da ANPEPP. Nos próximos eventos, o Fórum de Ética, embora per-
manente, atuou em formatos distintos. No ano de 2006, durante o XI Simpósio da
ANPEPP, em Florianópolis, o Fórum de Ética coordenado por Zeidi Araujo Andrade
e Heloisa Szymanski apresentou um debate a partir de pesquisa-consulta feita com
pesquisadores dos Programas de Pós-Graduação acerca do uso e manejo da Resolução
nº 196/1996, da CONEP, e da Resolução do CFP nº 16/2000 (Zeidi, & Symanski).
Esta consulta visava a compreender os principais desafios, obstáculos e problemas
enfrentados por pesquisadores da Psicologia a partir das resoluções éticas (Trindade,
& Symanski, 2006).
45
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
A partir desta consulta é que nasce a Comissão de Ética da ANPEPP, que desenha
seus trabalhos no sentido de aprimorar as reflexões críticas acerca das Resoluções
Éticas e de produzir recomendações importantes para a comunidade de pesquisa
da ANPEPP. Foi a partir deste trabalho minucioso de colegas, como Selma Leitão
e outras que a ANPEPP passa a indicar aos(às) editores(as) de periódicos científicos
da área que não deveriam mais solicitar documentação prévia de comprovação de
submissão das pesquisas ao COEP, uma vez que a responsabilidade ética deveria ser
da autoria dos artigos. O que embora na prática não tenha permanecido durante o
tempo foi naquele momento uma decisão política acerca das dificuldades com as
Resoluções bastante importantes (Leitão, & Falcão, 2008).
Em 2010, a ANPEPP com a ABRASCO já articularia uma moção instando a SBPC a
realizar um Grupo de Trabalho sobre o tema da Ética da Pesquisa em Ciências Humanas
durante o Encontro Nacional desta entidade (Duarte, 2015). Seguindo as reclamações an-
teriores da Associação Brasileira de Antropologia e de outras associações sobre o tema, a
ANPEPP em 2011 enviou uma carta documento ao Ministro da Saúde apontando os perigos
do caráter homogeneizador da Resolução nº 196/1996 e os problemas para as pesquisas
da área. Em 2013, é criado em uma reunião da SBPC o Fórum de Ciências Humanas,
FCHSSALLA (posteriormente, Fórum de Ciências Humanas, Ciências Sociais, Sociais
Aplicadas, Letras, Linguística e Artes), com o intuito de fazer frente às necessárias mu-
danças na regulação ética e dele participa representando a ANPEPP a profa. Selma Leitão.
De lá para cá, os Fóruns de Ética da ANPEPP têm refletido os últimos aconteci-
mentos legislativos acerca da regulação ética da pesquisa, os embates nacionais, mas o
mais importante é a articulação que a ANPEPP tem participado com o FCHSSALLA
e todas outras áreas das humanidades buscando pautar uma forma menos engessada
e burocrática da regulamentação ética em nosso campo.
No próximo Simpósio da ANPEPP, o Fórum de Ética vem sendo pensado em
duas frentes, tanto na necessidade de atualizarmos sobre os novos conflitos e de-
mandas legislativas e avanços impetrados pelo FCHSSALLA no que diz respeito à
interlocução com a CONEP, mas também buscará apresentar uma outra frente que
diz respeito a dilemas éticos com pesquisas não convencionais.
46
Conselho Federal de Psicologia
Fórum de Internacionalização
A primeira edição desse Fórum ocorreu em 2006, durante o XI Simpósio da
ANPEPP, em Florianópolis (SC). O Fórum abordou interfaces da Psicologia com
outras áreas do conhecimento, em especial as Ciências da Saúde, as Ciências Exatas
e as Ciências Sociais. Entre os debates travados durante o evento, foram discutidos
o papel da Psicologia brasileira para o estabelecimento de políticas públicas em
Educação e Saúde nas esferas federal, estadual e municipal.
O Fórum de Internacionalização discutiu os resultados de uma pesquisa res-
pondida por 33 Coordenadores dos PPGs filiados à ANPEPP sobre a questão de como
os Programas estavam vivenciando a Internacionalização. Os resultados do levanta-
mento foram apresentados pela comissão de internacionalização no XVI Simpósio
de Pesquisa e Intercâmbio Científico da ANPEPP, em Maceió, no dia 9 de junho de
2016. A discussão mostrou que havia consenso quanto à importância da interna-
cionalização dos Programas, porém havia dúvidas e opiniões divergentes sobre as
métricas de avaliação, os níveis de análise e as medidas necessárias para promover
a internacionalização dos Programas de Pós-graduação em Psicologia. O Fórum,
que contou com a participação de aproximadamente 100 pesquisadores, formulou
propostas e analisou desafios e dificuldades relacionadas à variabilidade de condições
de suporte institucional a atividades de internacionalização dos programas.
O Fórum de internacionalização, realizado durante o XVII Simpósio da ANPEPP, em
Brasília, em julho de 2018, analisou criticamente e debateu as formas de internacionaliza-
ção no eixo sul-sul e norte-sul, os fluxos e pressões do mercado acadêmico internacional.
Esses debates foram embasados em abordagens epistemológicas das ciências humanas.
Esses Fóruns têm levantado questões e apresentado caminhos para a interna-
cionalização dos Programas de Pós-graduação em Psicologia no Brasil, respeitando
as especificidades das áreas e de suas interfaces com outros saberes, promoven-
do debates sobre políticas que: favoreçam os fluxos bidirecionais de migração
acadêmica de docentes e estudantes de pós-graduação no eixo sul-sul, sul-norte,
norte-sul; e estimulem a ampliação de parcerias internacionais de pesquisa e en-
sino, bem como o aumento da visibilidade e do impacto da produção intelectual
de pesquisadores brasileiros vinculados aos Programas de Pós-Graduação em
Psicologia. Uma das discussões mais presentes neste Fórum é a crítica ao modelo
de internacionalização acadêmica preconizada pela Capes e a consolidação de
uma variação de ações de internacionalização na perspectiva de crítica colonial
ao conhecimento, pensando, portanto, uma posição pós-colonial sobre a política
transnacional do conhecimento científico.
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ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
Fórum de Publicações Científicas
O primeiro Fórum de Publicações Científicas ocorreu em 2016, em Maceió,
no XVI Simpósio de Pesquisa e Intercâmbio Científico, Pesquisa em Psicologia:
Dimensões éticas e produção científica. Sua criação teve como proposta ampliar o
debate sobre um dos temas transversais das discussões levadas a cabo nos fóruns
de debates em diversas edições dos Simpósios da ANPEPP. Ocupando lugar de
centralidade na avaliação de Programas de Pós-Graduação e adquirindo importante
patamar de qualificação, as publicações científicas têm merecido relevantes e inten-
sas reflexões e instauradas em ações no âmbito nacional. Os temas apresentados e
desenvolvidos no Fórum foram a análise do cenário (atual) da produção científica,
a internacionalização das produções, o processo de editoração científica e o relato
de uma pesquisa sobre esses temas realizada com os Programas de Pós-graduação.
Embora um Fórum específico ao tema tenha nascido em 2016, muitos outros ante-
riores já pautavam tal temática das publicações científicas, do Qualis e das formas
de regulação, avaliação e fomento aos periódicos científicos no Brasil e no mundo.
Em 2018, no XVII Simpósio de Pesquisa e Intercâmbio Científico, Ciência,
Cotidiano e Democracia – Desafios para a Produção do Conhecimento e Pós-
graduação em Psicologia, o Fórum de Publicações Científicas, em sua segunda
edição, pretendeu criar um espaço para promover a reflexão coletiva em torno
de desafios enfrentados por periódicos em Psicologia. A apresentação e debate
foi organizada em três eixos: 1) mapeamento e caracterização das revistas ligadas
aos Programas de Pós-Graduação e associações da área; 2) desafios da gestão e da
editoração científica; 3) a internacionalização da produção científica na área. O
terceiro Fórum, realizado em 2020, no XVIII Simpósio de Pesquisa e Intercâmbio
Científico Online foram debatidos temas como o processo editorial a partir de pes-
quisa realizada com Programas de Pós-Graduação, questões relacionadas ao novo
Qualis e a internacionalização da produção do conhecimento e Open Science. No
quarto Fórum de publicações científicas, em 2022, estão previstas discussões sobre
a importância do portal de Periódicos Eletrônicos em Psicologia (PEPSIC) para as
revistas nacionais e relevância social da defesa do acesso aberto à sociedade à pro-
dução de conhecimentos em Psicologia no Brasil.
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Conselho Federal de Psicologia
Síntese das Contribuições da ANPEPP
A ANPEPP tem cumprido o seu papel de: congregar programas; apoiar a criação
de redes de relacionamento entre pesquisadores de diferentes instituições nacionais
e internacionais; promover discussões sobre temas transversais relevantes como
políticas científicas, internacionalização, ética e publicações científicas; promover
o diálogo de coordenadores e representantes de Programas de Pós-graduação com
representantes de área da CAPES e CNPq; e participar ativamente das discussões
nacionais sobre os rumos das políticas científicas, em especial as que afetam mais
diretamente as áreas afins das Ciências Humanas, Sociais e Sociais Aplicadas, a de-
fesa de ações afirmativas, da democratização do acesso à Pós-graduação e do acesso
aberto às publicações científicas.
A entidade tem debatido os efeitos negativos: do desmonte das políticas científi-
cas; da falta de um Plano Nacional de Pós-graduação; da enorme redução de recursos
públicos para a pesquisa e a Pós-graduação; da falta de transparência dos agentes
governamentais; e do descaso do governo com ações de democratização do acesso,
ações afirmativas e inovações no campo da inclusão e permanência nos programas de
Pós-graduação. Todas as questões e práticas que comprometem o futuro do Sistema
Nacional de Pós-graduação no Brasil.
Além disso, a entidade tem se articulado por meio de outros Fóruns mais ge-
rais como FENPB e FCHSSALLA para ações de incidência política e profissionais
neste contexto de desagravo democrático e de desregulamentação governamental
da política científica. A participação da ANPEPP no FENPB, colaborando na orga-
nização do Congresso Brasileiro de Psicologia, nos debates sobre o PEPSIC, como
também na articulação política de outras entidades, tem sido fundamental para
uma presença importante no campo da Psicologia. No âmbito do FCHSSALLA, a
ANPEPP participou nos últimos dois anos (2020/2022) como uma das entidades
da comissão gestora do Fórum, assumindo responsabilidades com as entidades das
áreas de Letras, Geografia, Comunicação Social e História no gerenciamento político
e institucional do FCHSSALLA. Atualmente é notória a participação da ANPEPP
fora da Psicologia também, no diálogo e articulação com áreas das Humanidades
que somam forças e estratégias fundamentais de enfrentamento do desmonte da
política científica que temos vivido.
É importante ainda sublinhar que a ANPEPP tem pelo terceiro ano consecutivo
aportado verba para colaborar com os periódicos científicos da área. Pelo terceiro
ano, a ANPEPP lança o edital de periódicos que busca selecionar propostas e aportar
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ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
em média R$ 100.000,00 para ajudar as revistas de psicologia vinculadas a PPGs a
sobreviver neste cenário de desagravo. Este Edital tem sido importante para igual-
mente visibilizar questões sobre os periódicos científicos que precisam ser mais bem
tratadas por nós como comunidade acadêmico-científica. Neste sentido, este ano a
ANPEPP inaugura o I Fórum Permanente de Editores Científicos da Psicologia com
o intuito de fortalecer o estudo, a atualização, a crítica e novas ações em torno das
revistas científicas da área.
Além disso, a ANPEPP criou nos últimos dois anos duas comissões para refletir
e sistematizar dados e informações acerca de temas centrais em nossa entidade. Um
deles é acerca das ações afirmativas desenvolvidas nos PPGs e o outro sobre a confi-
guração e localização institucional dos GTs no âmbito da ANPEPP.
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Conselho Federal de Psicologia
Referências
Duarte, L. F. D. (2015). Ética em pesquisa nas ciências humanas e o imperialismo
bioético no Brasil. Revista Brasileira de Sociologia, 3(5), pp. 29-52.
Guzzo, R. S. L., Linhares, M. B. M., Teodoro, M. L. M., & Koller, S. H. (2015). Perspectives
and challenges regarding brazilian policies for research and postgraduate studies in
psychology. Psicologia Reflexão e Crítica, 28(S), pp. 34-9. Recuperado de [Link]
[Link]/10.1590/1678-7153.2015284006
Trindade, Z. A., & Szymanski, H. (2006). Relatório do Fórum sobre Ética em Pesquisa.
XI Simpósio de Pesquisa e Intercâmbio Científico. Florianópolis, SC, Brasil.
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ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
60 Anos da Profissão de
Psicólogas(os) no Brasil e a
Participação da Associação
Brasileira de Psicologia Escolar
e Educacional (ABRAPEE)
Alexandra Ayach Anache
Fauston Negreiros
Marilda Gonçalves Dias Facci
Marilene Proença Rebello de Souza
Roseli Fernandes Lins Caldas
Silvia Maria Cintra da Silva
Tatiana Platzer do Amaral
52
Conselho Federal de Psicologia
sou a se interessar pela área da educação, entendendo que a(o) psicóloga(o) poderia
contribuir para a transformação da realidade das escolas brasileiras. As suas interlo-
cuções com o Dr. Thomas Oakland, professor da Universidade do Texas, em ocasião
da sua visita ao Brasil, ampliou sua compreensão sobre a atuação profissional, con-
siderando as experiências de colegas de vários países, as quais serviram de base para
a construção do estatuto de uma Associação científica na área de Psicologia Escolar
e Educacional (Witter, 1996).
Assim, vários debates foram ocorrendo, com vistas à construção de uma identi-
dade para este profissional, considerando que a Psicologia Escolar poderia se constituir
tanto em área de atuação quanto em campo de saberes que oferecia subsídios para
(as)os docentes, coordenadoras(es), gestoras(es), psicólogas(os), entre outros.
As propostas de organização da Associação Brasileira de Psicologia Escolar
e Educacional foram amplamente debatidas e nas Reuniões Anuais da Sociedade
de Psicologia de Ribeirão Preto, em 1987 e 1988, foi tomada a decisão de que seria
importante sua criação, considerando duas dimensões: organização e ampliação da
produção científica da área; e contribuição para a qualificação da atuação profissio-
nal. Neste sentido, incluíram-se as(os) professoras(es) como membros elegíveis para
integrarem a Associação que então se formava, inclusive com a possibilidade de ser
composta por uma diretoria nacional e de representações regionais, assemelhando-se
à organização do Sistema Conselhos de Psicologia (Witter, 1996).
Em 1988, Wechsler, com o seu grupo de profissionais da área em que atuavam
na rede pública de Brasília, criaram a seção ABRAPEE-DF. Em seguida, em maio
de 1989, a Dra. Raquel Souza Lobo Guzzo e outros profissionais fundaram a seção
ABRAPEE-SP e, na sequência, outras seções foram sendo organizadas, com destaque
para Minas Gerais, liderada pela Dra. Eulalia Maimoni; no Pará, capitaneada pela Dra.
Raquel Bechara; e no Rio de Janeiro com a Dra. Vera Gomes. Em 1991, foi realizado
o I Congresso Nacional de Psicologia Escolar, sediado em Valinhos (SP). quando se
decidiu criar a Entidade nacional, então fortalecida pela participação das seções
representativas dos estados, agregando profissionais de outros lugares do Brasil que
não estavam vinculados a nenhuma representação desta natureza. Assim, foi criada a
Associação Brasileira de Psicologia Escolar e Educacional, decorrente das iniciativas
de Solange Wechsler, Geraldina Porto Witter, Raquel Souza Lobo Guzzo, Samuel
Pfromm Neto e Vera Gomes (Witter, 1996; Barbosa, 2011).
Desta data em diante, outras Representações Estaduais da ABRAPEE foram
criadas, a saber: Paraná (2004), Rondônia (2005), Goiás (2006), Minas Gerais (2006),
São Paulo(2010), Piauí (2017) e Rio Grande do Sul (2020).
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ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
Os Congressos desta Associação, somados aos esforços de seus integrantes
nos diversos estados do Brasil e fortalecidos pelas publicações de sua Revista, pos-
sibilitam novas configurações à entidade que, paulatinamente, se alinhou com as
perspectivas críticas do campo para o enfrentamento do processo de escolariza-
ção, de medicalização das questões escolares, dos diferentes modos de violências
e outras práticas excludentes.
A ABRAPEE sempre primou pelas interlocuções com as diversas áreas das
ciências humanas e pelo rigor das produções científicas como forma de sustentar as
práticas profissionais e ampliar a compreensão sobre os fenômenos que atravessam
o campo da educação e impactam o processo de aprendizagem dos estudantes e
de seus professores.
54
Conselho Federal de Psicologia
provocou várias reflexões na área, criticando um modelo de intervenção pautado em
uma Psicologia estigmatizante e comprometida com a ideologia dominante.
A Revista foi idealizada, segundo entrevista feita por Barbosa (2011), com uma
das fundadoras e presidente da ABRAPEE, Profa. Dra. Geraldina Porto Witter, des-
de a constituição da associação, com o apoio da Pontifícia Universidade Católica de
Campinas, que imprimiu os volumes iniciais. No Editorial do primeiro número da
Revista, editado em 1996, Guzzo (1996) ressalta a importância da proposição de um
periódico que garantisse um espaço de divulgação de temáticas da área da Psicologia
Escolar como ciência e profissão.
A Revista tem passado por várias reformulações, acompanhando as transfor-
mações e atualizações na editoração de artigos científicos. Neste sentido, destacamos
que o seu compromisso, conforme consta em seu site ([Link]
pee), é publicar artigos que seguem
55
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
Quadro 1 – Trabalhos publicados de 1996 a 2021
Resenha 83
Sugestões práticas 30
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Conselho Federal de Psicologia
os conhecimentos da Psicologia, trabalhar em prol da valorização da educação no
desenvolvimento do psiquismo, no processo de humanização.
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ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
Quadro 2 – Lista de congressos organizados pela ABRAPEE
nos últimos anos e respectivos temas:
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Conselho Federal de Psicologia
• Educação Infantil;
• Educação Informal;
• Ensino de Psicologia;
• Ensino Fundamental;
• Ensino Médio;
• Ensino Superior;
• Formação de Professores;
• Educação Indígena;
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ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
com as políticas educacionais, o que fica evidente nos eixos temáticos e nos temas que
guiaram cada edição do CONPE. Os diversos trabalhos apresentados instrumentalizam
profissionais, estudantes e pesquisadoras/es da Psicologia Escolar e Educacional e de
áreas afins, para os enfrentamentos necessários pela busca da socialização/apropria-
ção dos conhecimentos e pensar, coletivamente, em alternativas para a superação
das mazelas presentes no processo de escolarização, em uma sociedade tão desigual.
São muitas/os as/os parceiras/os que contribuem para o sucesso do evento
em todos estes anos. Além de espaço de divulgação de estudos teóricos e práticos,
o CONPE tem se consolidado como um espaço de encontro, de entrelaçamentos,
de proposições, fortalecimento e criação de grupos de pesquisa. A comunidade
acadêmica e profissionais da área beneficiam-se com o evento, seja na categoria
de ouvintes ou de expositoras/es. Além disso, os trabalhos publicados nos Anais
dos eventos têm possibilitado novas pesquisas e estudos de temáticas amplas que
envolvem o espaço educativo e a relação com a Psicologia. Em função da pandemia
de Covid-19, o evento que ocorreria em 2021 foi adiado para 2022 e ocorrerá em
julho, em Belo Horizonte, MG.
Tendo em conta estas duas formas de divulgação das pesquisas realizadas
na interface entre Psicologia e Educação, tais como a Revista Psicologia Escolar e
Educacional e os CONPEs, entendemos que ocorre a demarcação uma ação impor-
tante da ABRAPEE, coerente com um de seus objetivos, desde a sua constituição, ou
seja, fortalecer a atuação de psicólogas/os nas instituições do ensino, assim como
divulgar sua produção.
60
Conselho Federal de Psicologia
fenômenos sociais que compõem sua matéria, causa, diante dos profissionais e do
público-alvo de suas articulações (Bracht et al., 2014).
A ABRAPEE, na função de sociedade civil, “tem por finalidade incentivar o
crescimento da ciência e da profissão do psicólogo escolar e educacional, como
um meio de promover o bem-estar e o desenvolvimento humano, enfocando para
isto o processo educacional em seu sentido mais amplo” (p. 1, Nota Técnica sobre
Atribuições da(o) Psicóloga(o) Escolar e Educacional, 2021). Na função de associação
científica, tem ocupado um lugar expressivo na organização dos psicólogos escolares
e educacionais na sociedade brasileira, em especial nas esferas intelectual, política
e da prática social, com capacidade de engendrar processos/estratégias com vistas
à alteração de estruturas rígidas e conservadoras no campo científico, alastradas no
campo das práticas humanas em contextos socioeducacionais.
A organização dos profissionais da Psicologia escolar e Educacional propiciada
pela ABRAPEE oportuniza subsídios para uma participação social mais crítica e ro-
busta de coletivo, à medida que implica entender as múltiplas ações que diferentes
forças sociais presentes na consolidação de espaços educativos. E, sobretudo, que
tais ações estejam a serviço da construção de contextos educacionais includentes,
democráticos, socialmente referenciados e que funcionem de maneira cooperativa,
como fruto de diálogo entre todos os sujeitos da comunidade escolar.
A ABRAPEE tem desenvolvido articulações diversas na organização das(os)
psicólogas(os) escolares em sua participação social, com o propósito também de
participar, contribuir e influenciar a formação, execução, fiscalização e avaliação de
políticas públicas na área educacional e intersetorial, que podem ser expressos em
alguns de seus objetivos na função de entidade científica, expostos nas alíneas a seguir:
a) congregar psicólogos e entidades afins nas áreas da Psicologia Escolar e Educacional
promovendo encontros, congressos estaduais, nacionais e internacionais e outros
similares; b) incentivar o intercâmbio entre psicólogas(os) escolares e educacionais;
c) atualizar psicólogas(os) escolares e educacionais promovendo seminários, encon-
tros, conferências e palestras; d) fomentar a criação de um banco de dados sobre
estudos referentes às áreas de atuação do psicólogo escolar; e) organizar um registro
nacional sobre as(os) psicólogas(os) escolares e educacionais brasileiros; f) publicar
informativos, revistas e/ou periódicos sobre tópicos de interesse das(os) psicólogas(os)
escolares e educacionais; g) estimular e apoiar a criação de grupos de estudo sempre
que houver psicólogas(os) escolares que possam se agrupar com este fim (p. 1-2, Nota
Técnica sobre Atribuições da(o) Psicóloga(o) Escolar e Educacional, 2021).
61
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
Como fruto da organização dos psicólogos escolares e educacionais, é pos-
sível elencar alguns desdobramentos representados por lutas sociais produzidas
nos últimos anos:
Future-Se
A ABRAPEE, reunida em Assembleia no dia 30 de agosto de 2019, durante o
XIV Congresso Nacional de Psicologia Escolar e Educacional – CONPE, manifestou
seu veemente repúdio ao Projeto “Future-se”, que representa indisfarçável ataque à
autarquia das Universidades e Institutos Federais brasileiros e o sequestro do amplo
direito de acesso à universidade pública, bem inalienável da nação.
62
Conselho Federal de Psicologia
Política Nacional de Educação Inclusiva e Decreto nº 10.502/2020
Durante o XIV Congresso Nacional de Psicologia Escolar e Educacional (CONPE),
foi elaborada a Carta de Apoio à Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva
da Educação Inclusiva (PNEEPEI) de 2008, afirmando como fundamental o princípio
constitucional da educação inclusiva.
Foi assinalado que as propostas governamentais relatadas pelo Conselho Nacional
de Educação apresentam-se contrárias ao defendido nos documentos que regulam
a política vigente, à Convenção dos direitos da pessoa com deficiência – acolhida no
Brasil com status de emenda constitucional – à Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa
com Deficiência (LBI) e à Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBEN).
Posteriormente, o Decreto Presidencial nº 10.502/2020 institui uma nova política,
como aventada no CONPE, que se apresenta contrária às políticas educacionais que
asseguram a diversidade social e a igualdade de oportunidade no ambiente escolar;
pois, ao estabelecer a educação especializada como uma modalidade escolar, fragiliza
os direitos das pessoas com deficiência e consolida a discriminação com o retorno
de espaços segregados de educação.
63
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
Fórum sobre Medicalização da Educação e da Sociedade
A problemática presente na educação brasileira centrada na utilização de drogas
psicoativas para crianças e adolescentes com supostos transtornos de aprendizagem e
de comportamento tem mobilizado a ABRAPEE a participar de diversas articulações
nacionais e internacionais, para esclarecer o tema, com destaque para a constituição
do Fórum Nacional sobre Medicalização da Educação e da Sociedade. O tema passou
a ser central nos Congressos da ABRAPEE e nas atividades desenvolvidas sobre o tema
em diversos congressos nacionais e internacionais, nas lutas no legislativo contra
projetos de lei medicalizantes e na proposta de ações da psicologia na educação na
consonância com a Lei n. 13.935/2019.
64
Conselho Federal de Psicologia
4. Articulação com Entidades Nacionais e Internacionais
da Área da Educação
A ABRAPEE mantém articulações com várias entidades nacionais e internacio-
nais, fortalecendo a atuação na área de Psicologia Escolar e Educacional na América
Latina e nos demais continentes, conforme veremos a seguir.
65
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
arte nos Programas de Pós-Graduação no Brasil”. A pesquisa foi finalizada em
2019 e os resultados apresentados em coletânea (Campos et al., 2021).
66
Conselho Federal de Psicologia
sobre a prestação de serviços de psicologia e de assistência social nas escolas públicas
de educação básica”. Aprovado na Câmara, segue para o Senado Federal, onde recebe
um novo texto substitutivo, em 2007. A proposta apresentada foi uma importante
contribuição do Conselho Federal de Psicologia, ABRAPEE e Associação Brasileira
de Ensino de Psicologia.
Nesse substitutivo, o centro da Lei passa a ser o trabalho na rede pública de
educação básica, por meio de equipes multiprofissionais centradas nas questões da
aprendizagem, do desenvolvimento e de ações na comunidade escolar. Aprovado no
Senado, retornou à Câmara dos Deputados em 2010. Neste processo legislativo, são
realizadas audiências públicas, requerimentos solicitando inclusão para votação em
Plenário, reuniões com líderes dos partidos, mobilizações e diálogos com parlamen-
tares e, finalmente, em 12 de setembro de 2019 o Projeto foi aprovado no Plenário
da Câmara e enviado à sanção presidencial.
Durante todo este processo, as entidades de Psicologia e Serviço Social exerce-
ram forte pressão para que o Executivo sancionasse o PL. A luta e união das diversas
entidades resultou na instalação de uma Coordenação Nacional para a aprovação da
LEI, com a presença do Conselho Federal de Psicologia (CFP), Conselho Federal de
Serviço Social (CFESS), Associação Brasileira de Psicologia Escolar e Educacional
(ABRAPEE), Associação Brasileira de Ensino de Psicologia (ABEP), Associação Brasileira
de Ensino e Pesquisa de Serviço Social (ABEPSS), Federação Nacional de Psicologia
(FENAPSI), Conselhos Regionais de Psicologia (CRs) e Conselhos Regionais de Serviço
Social (CRESSs).
Entretanto, ao chegar às mãos do presidente Jair Bolsonaro, o PL foi vetado com
justificativa pouco consistente. A pressão por solicitações de apoio continuou com
grande mobilização para a derrubada do veto, entre cancelamentos e adiamentos
constantes de sessões, falta de quórum e insistência permanente das entidades, em
27 de novembro de 2019, com a presença maciça das(os) psicólogas(os) e assistentes
sociais, a vitória foi conquistada: o Veto da presidência da República foi derrubado,
com 384 votos. Em 12 de dezembro de 2019, a Lei n. 13.935 foi promulgada, a con-
tragosto, pela presidência da República. Este foi somente o início de um árduo tra-
balho para a regulamentação da lei. Seguiram-se discussões sobre ações estratégicas,
identificação de possibilidades de fontes de custeio, mapeamento de entidades para
diálogo, reuniões com as diversas associações municipais, estaduais e federais, com
secretários de educação e tantas outras instâncias de autoridades em busca de apoio.
Em março de 2020, inicia-se um novo processo, era preciso lutar para que as(os)
profissionais reconhecidas(os) na lei fossem incluídas(os) no FUNDEB. O Brasil e o
67
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
mundo são surpreendidos pela Pandemia da COVID-19, impedindo assim encontros e
reuniões presenciais. Entretanto, o distanciamento físico não impediu a aproximação
virtual por meio de lives e encontros remotos. Assim, mais audiências públicas, mais
reuniões e mobilizações, mais diálogos com parlamentares, ofícios, notas e outros
recursos para pressionar os parlamentares, resultaram na aprovação da Emenda da
Lei nº 14.113, de 25 de dezembro de 2020, cujo art. 26 regulamenta que:
O PRESIDENTE DA REPÚBLICA
68
Conselho Federal de Psicologia
§ 2º O trabalho da equipe multiprofissional deverá considerar
o projeto político-pedagógico das redes públicas de educação
básica e dos seus estabelecimentos de ensino.
Art. 2º Os sistemas de ensino disporão de 1 (um) ano, a partir
da data de publicação desta lei, para tomar as providências
necessárias ao cumprimento de suas disposições.
Art. 3º Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação.
69
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
para a análise e intervenção dos e das profissionais de Psicologia na Educação. Sua
atuação deve contribuir para a melhoria dos processos de ensino e aprendizagem,
contemplando estudantes, educadoras(es) e famílias, levando em consideração as
condições histórico-culturais em que estes processos educacionais se dão.
Entre as atribuições que podem ser desenvolvidas por estas(es) profissionais,
podemos destacar: subsidiar a elaboração de projetos pedagógicos, planos e estra-
tégias a partir de conhecimentos da Psicologia do desenvolvimento e da aprendiza-
gem; participar da elaboração, execução e avaliação de políticas públicas voltadas à
educação; contribuir para a promoção dos processos de aprendizagem, buscando,
com as equipes pedagógicas, garantir o direito a inclusão de todas as crianças e ado-
lescentes; orientar nos casos de dificuldades nos processos de escolarização; realizar
avaliação psicológica diante de necessidades específicas identificadas no processo
ensino-aprendizado; auxiliar equipes da rede pública de educação básica na inte-
gração comunitária entre a escola, o estudante e a família; contribuir na formação
continuada de profissionais da educação; colaborar com ações de enfrentamento à
violência e aos preconceitos na escola; promover ações voltadas à escolarização do
público da educação especial (CFP, 2021).
Nossa responsabilidade é imensa diante dos tantos desafios que vêm se pondo
sobre a Educação no Brasil. A Psicologia Escolar tem muito a contribuir em parceria
com o Serviço Social, em busca de condições concretas para o desenvolvimento de
uma educação de qualidade para todas as pessoas em nosso país.
70
Conselho Federal de Psicologia
mação, mas de toda a Psicologia e da sociedade brasileira e latino-americana, é uma
luta coletiva. Construir espaços de discussão, análise de pesquisas, troca de experiên-
cias e produção de conhecimento científico em uma perspectiva transformadora e
emancipatória são instrumentos imprescindíveis para as disputas em uma sociedade
de classes, pautada em concepções neoliberais e que visam ao lucro a qualquer custo.
A área da educação é uma das mais importantes na formação humana e, por con-
sequência, uma das áreas mais disputadas no cenário das políticas públicas. E é neste
campo de tensões que constituímos uma proposta ousada de construir nacionalmente
Referências Técnicas para a Atuação de Psicólogas(os) na Educação Básica (CFP, 2013;
2019), em parceria com o Conselho Federal de Psicologia, por meio do Centro de
Referências Técnicas em Psicologia e Políticas Públicas (CREPOP). Trata-se de documen-
to que apresenta diretrizes para a atuação de psicólogas(os) escolares e educacionais, e
é fundamental para que se possa expressar: os contextos sociais e históricos em que as
lutas pela educação estão inseridas; as dificuldades e possibilidades da escolarização; as
alternativas de trabalho de psicólogas(os) e os desafios a serem enfrentados nesse campo.
Destaca-se que este é um dos desafios presentes: o de ampliar o esclarecimento
a respeito do papel da Psicologia na educação, contribuir para a melhoria das relações
escolares; constituir espaços coletivos em que subjetividades, afetos e diversidades
sejam acolhidos, compreendidos e respeitados, rompendo com os processos de pa-
tologização, medicalização e judicialização das práticas sociais.
Outro ponto de desafio importante da inserção da Psicologia na educação refere-
-se às ações relativas às pessoas com deficiência. Nessa perspectiva, a Psicologia Escolar
e Educacional por meio das universidades, dos movimentos sociais e da ABRAPEE
têm trabalhado ativamente para a política de inclusão da pessoa com deficiência,
reconhecendo a necessidade de promoção do desenvolvimento e da aprendizagem,
em uma perspectiva histórico-crítica que venha a considerar as dimensões sociais,
afetivas e cognitivas que compõem as necessidades da escolarização.
Nesses 60 anos de profissão, é fundamental reconhecer uma conquista im-
portante da Psicologia no campo da Educação, em conjunto com o Serviço Social.
A ABRAPEE com o Sistema Conselhos de Psicologia, a Fenapsi, a ABEP, o Conselho
Federal de Serviço Social e a Associação Brasileira de Pesquisa e Estudos em Serviço
Social trabalharam arduamente, por mais de 20 anos, para a aprovação da Lei
Federal nº 13.935/2019 (BRASIL, 2019) que “dispõe sobre serviços de psicologia
e serviço social nas redes públicas de educação básica”. A promulgação desta lei
possibilita a implementação de uma política pública que consideramos de grande
contribuição para a prática docente, para a relação com a comunidade, para a vida
71
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
diária escolar e para a melhoria da qualidade das ações pedagógicas, com vistas à
garantia de direitos de crianças e adolescentes.
Ao propor a inserção de equipes multiprofissionais para atuar nas redes de
educação básica, a Lei Federal nº 13.935/2019 instala, oficialmente, o reconhecimento
da intersetorialidade como uma necessidade para a melhoria das condições de traba-
lho e de enfrentamento de questões que se encontram no campo social, tais como:
preconceito, intolerância, racismo, discriminação, violência doméstica, homofobia,
diagnósticos indevidos, entre outros aspectos.
A presença de profissionais de Psicologia e Serviço Social se faz em um mo-
mento político e econômico de grande crise no Brasil, em que se exacerbam as ações
do centradas em políticas neoliberais que retiram, cada vez mais, os direitos sociais e
trabalhistas, reduzindo aportes financeiros para as áreas de educação, cultura e saúde.
Sabemos da importância do financiamento para o avanço das políticas sociais e educa-
cionais. Portanto, nossa luta, de profissionais da Psicologia e do Serviço Social, é junto
com as(os) educadoras(es), com as(os) profissionais de educação responsáveis pelos
recursos do Estado brasileiro! Essa luta coletiva interfere intensamente na melhoria
da qualidade da escola, na erradicação do analfabetismo, na implementação das metas
do Plano Nacional de Educação, aprovado em 2014, depois de amplos debates nacio-
nais promovidos a partir da I Conferência Nacional de Educação (CONAE) 2010, com
participação ativa e comprometida das entidades da Psicologia Brasileira (CFP, 2010).
Outro desafio importante a ser destacado refere-se à formação de psicólo-
gas(os) para atuar no campo da educação, principalmente em relação ao acesso e
apropriação das contribuições do conhecimento científico da área sobre questões
fundamentais das políticas educacionais brasileiras, o contexto institucional das
escolas, as demandas que se fazem presentes e as possibilidades de atuação e de
contribuição do conhecimento e da prática das(os) próprias(os) profissionais da
Psicologia no campo da educação.
Em um processo contínuo, são sistematizadas proposições, notas técnicas,
manifestos, documentos orientadores entre outros, acerca de questões pertinentes
à área, que frequentemente são disponibilizadas nos meios de comunicação digitais
da ABRAPEE e parceiros importantes constituídos ao longo de sua trajetória, na fun-
ção de entidade. O desafio de garantir o acesso às informações e ao conhecimento
produzidos, na interface entre Psicologia e Educação, tem outro espaço significa-
tivo: os encontros científicos e de práticas. Como escrevemos, a ABRAPEE realiza
bianualmente o Congresso Nacional de Psicologia Escolar e Educacional (CONPE) e
assume o desafio, diante de docentes, estudantes e profissionais, da Psicologia e áreas
72
Conselho Federal de Psicologia
correlatas, das diferentes regiões do Brasil, de articulação, visibilidade e capilarização
de lutas e conquistas por uma educação humanizadora e libertária.
Considerações Finais
A constituição da ABRAPEE como associação de psicólogas(os) e estudantes
de Graduação e Pós-Graduação em Psicologia, bem como de profissionais de áreas
afins ao campo da educação, tornou-se um importante instrumento social para ações
acadêmicas, políticas e sociais na busca da constituição de uma Psicologia Escolar cujo
compromisso ético-político centra-se na educação inclusiva, da escola democrática
e na participação popular. A entidade não deixa de se fazer presente nas principais
lutas sociais do país e de construir e aperfeiçoar veículos de divulgação do conheci-
mento em Psicologia Escolar e Educacional, em problematizar a atuação profissional
na educação e em propor alternativas para as políticas públicas educacionais (Souza,
2010). Nesse sentido, como ABRAPEE consideramos, como Freire, em Pedagogia
da Autonomia (1996; 2002, p. 3) que “Ensinar não é transferir conhecimento, mas
criar as possibilidades para a sua produção ou a sua construção”. Assim, estamos em
constante processo de criação, de transformação, buscando superar os desafios postos
em uma sociedade de classes, desigual, racista e preconceituosa como a brasileira.
73
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
Referências
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no Brasil (Tese de Doutorado, Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo,
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74
Conselho Federal de Psicologia
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fesa da emancipação humana no processo de escolarização. (Vol. 2, pp. 11-3). CRV.
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Souza, M. P. R., Facci, M. G. D., & Silva, S. M. C. (2018). Editorial 22.1: Sobre as Diretrizes
Curriculares Nacionais para os cursos de graduação em Psicologia. Psicologia Escolar
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75
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
Trajetória e Perspectivas
do Método de Rorschach
e da ASBRO nos 60 anos
de Psicologia Brasileira
Thaís Cristina Marques dos Reis
Latife Yazigi
Sonia Regina Pasian
Ana Cristina Resende
Sonia Liane Reichert Rovinski
Lucila Moraes Cardoso
Erika Tiemi Kato Okino
Flávia de Lima Osório
Fernanda Aguiar Pizeta
Silvana Alba Scortegagna
Apresentação
A Associação Brasileira de Rorschach e Métodos Projetivos (ASBRo) é uma
associação científica que integra o Fórum de Entidades Nacionais da Psicologia
(FENPB) desde 2002. Deste modo, participa, com as demais entidades que compõem
o FENPB, dos processos reflexivos que norteiam decisões sobre importantes temas
da Psicologia no Brasil, em seus diversos campos de atuação.
A decisão do FENPB de organizar esse livro para relatos sobre o campo central
da Psicologia de cada entidade científica, ofertando marcos históricos e tendências
para o futuro, configura reconhecimento das suas contribuições para a Psicologia na
função de Ciência e Profissão. Neste capítulo, objetiva-se fazer um resgate histórico
sobre um dos ícones instrumentais da ASBRo, o Método de Rorschach. Procurar-
se-á apontar elementos históricos relativos à sua introdução e desenvolvimentos
técnico-científicos no Brasil, ilustrando a relevância dos métodos projetivos para a
76
Conselho Federal de Psicologia
área de avaliação psicológica. Posteriormente, pretende-se destacar o importante
papel realizado pela ASBRo, em conjunto com o Instituto Brasileiro de Avaliação
Psicológica (IBAP), no sentido de oferecer à Psicologia e à população do Brasil re-
cursos cientificamente embasados para a prática profissional no campo da avaliação
psicológica, com foco especial nos métodos projetivos.
77
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
do Método de Rorschach (Leão Bruno, 1944). Ele confirmou a informação de que
Leme Lopes havia sido um dos primeiros a trabalhar com o Rorschach no Brasil, a
partir de 1932. No entanto, mencionou outros três2 estudos publicados e mais anti-
gos, a saber: Tavares Bastos em Minas Gerais sobre casos clínicos em endocrinologia;
Roberto Veit, sobre o valor diagnóstico do Método de Rorschach, publicado em São
Paulo; e os cinco trabalhos de Edmur Aguiar Whitaker entre os anos de 1934 e 1935.
Esta linha histórica também é citada por Manuel Bergstrom Lourenço Filho em um
artigo de 1971.
Roberto Mange, em um artigo de 1956 intitulado “Evolução da Psicotécnica
em São Paulo” (publicado como resumo da palestra por ele proferida na ocasião da
abertura do I Seminário Latino-Americano de Psicotécnica em abril de 1955), diz que:
78
Conselho Federal de Psicologia
Universitaires, Paris) da década de 1960, no apêndice desta obra consta uma listagem
de 13 títulos de trabalhos de pesquisa realizados no Brasil (Lourenço Filho, 1971, p. 137).
Em 1968, a Sociedade de Rorschach de São Paulo, fundada no ano de 1952,
organizou o Primeiro Encontro do Psicodiagnóstico de Rorschach, coordenado por
Luiz Dias Andrade, Fernando Villemor Amaral e Lúcia S. Coelho. Nessa ocasião foi
fundada a Associação Latino-Americana de Rorschach (ALAR), com participantes
também da Argentina, Uruguai e Peru (Fazzani, 1993).
O Instituto de Seleção e Orientação Profissional (ISOP) da Fundação Getulio
Vargas (FGV), no Rio de Janeiro, foi também um importante núcleo de ensino e uso do
Método de Rorschach no Brasil. Na década de 1960, já divulgava cursos sobre o método
de Rorschach e desenvolvia processos de seleção de pessoal para empresas utilizando
este instrumento. No ISOP, trabalharam pessoas importantes para o desenvolvimento
do Rorschach no Brasil, como André Ombredane, Isabel Adrados e Monique Augras.
Monique Augras destacou que o problema mais grave do uso do Método de
Rorschach, nessa época, era a ausência de dados normativos brasileiros para a inter-
pretação do teste. De acordo com a autora, utilizavam-se no Brasil normas alemãs,
francesas, suíças e norte-americanas, mas brasileiras ainda não estavam disponíveis
por ausência de pesquisas nessa direção (Augras, 1967). Cabe mencionar que nesse
período ocorria, em larga escala, a tradução e a comercialização dos instrumentos de
testagem psicológica produzidos em outros países. Esses materiais eram utilizados,
em muitas vezes, sem adaptações para a realidade brasileira e com fundamentação
científica incipiente para embasar os resultados, inexistindo adequada fiscalização
da qualidade do material traduzido (Castro et al., 2018; Hogan, 2019). Ou seja, os
problemas de reprodução de instrumentos de avaliação psicológica sem adaptação
sociocultural e sem dados científicos específicos para o Brasil também ocorriam com
o Método de Rorschach.
Este tipo de ações profissionais acabou por promover prejuízos ao uso dos testes
psicológicos no Brasil, propiciando a sua desmoralização. Emergiram consequentes
críticas aos instrumentos de avaliação psicológica, vivenciando uma era “antitestes” na
Psicologia Brasileira (Custódio, 2007; Pasquali, 2020; Wechsler et al., 2019).
Nota-se, nesse breve histórico, que diversos profissionais faziam uso do Método de
Rorschach, tais como: médicos, bacharéis em ciências jurídicas e sociais e engenheiros.
No entanto, a partir de 1962, quando a Psicologia foi reconhecida como profissão, o
uso deste instrumento de avaliação psicológica passou a ser considerada uma prática
exclusiva dessa profissão, conforme consta no art. 13º da Lei n. 4.119 (Brasil, 1962).
79
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
Em 1967, Augras destacou o aspecto deontológico: “a quem se deve ensinar o
Rorschach? Apenas aos psicólogos, pensamos. Diariamente porém nos defrontamos
com anúncios de ‘Cursos de Rorschach’, abertos a médicos, assistentes sociais, orien-
tadores educacionais etc. É a velha questão do controle da aplicação e interpretação
do Rorschach. Acreditamos que não há, evidentemente, necessidade de ensinar a
técnica aos que, por lei, não poderão utilizá-la” (Augras, 1967, p. 108).
Na década de 1970, constituído o Conselho Federal de Psicologia (CFP) e di-
versos Conselhos Regionais de Psicologia (CRPs), bem como os primeiros cursos de
Psicologia do Brasil, foi oficializado o currículo mínimo à formação em Psicologia.
Contudo, nessa mesma década, houve a reestruturação das universidades e o incen-
tivo à privatização do ensino, o que provocou aumento significativo do número de
cursos de Psicologia. Os psicólogos ocupavam agora um bom espaço na área clínica,
diferentemente da década anterior, em que a área organizacional e do trabalho, e
depois o contexto escolar, empregava a maior parte dos profissionais (Chaves, 1992).
Entre as décadas de 1970 a 1990, eram escassos os estudos que buscavam aferir
as qualidades psicométricas dos testes psicológicos nacionais e os instrumentos in-
ternacionais eram usados sem os devidos estudos de adaptação à realidade brasileira
(Hogan, 2019; Primi, 2010). Esse contexto de desvalorização mobilizou pesquisadores
e profissionais da área a se organizarem com o objetivo de estruturar mudanças nesse
cenário. Inicialmente, por meio de grupos de trabalho e reuniões científicas, poste-
riormente com a consolidação de entidades científicas e, por fim, com a articulação
com o Sistema Conselho (Cardoso, & Zanini, 2021).
Como resultado profícuo da articulação entre professores e pesquisadores, em
22 de junho de 1993, foi fundada a Sociedade Brasileira de Rorschach e Métodos
Projetivos (SBRo) pelo Prof. Dr. André Jacquemin, com os professores Latife Yazigi,
Sonia Regina Loureiro, Cícero Emidio Vaz, Sonia Regina Pasian e Anna Elisa de Villemor
Amaral. Filiada à International Society of Rorschach (ISR), sediada em Bern (Suíça), a
entidade sempre teve o compromisso de acompanhar os avanços técnico-científicos
nacionais e internacionais na área de métodos projetivos de avaliação psicológica.
A SBRo foi criada como uma associação científica civil, sem fins lucrativos e
sem vinculações públicas, ideológicas ou religiosas. Por vários anos, ficou sediada na
Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto, da Universidade de São
Paulo, conseguindo sede própria na cidade de Ribeirão Preto (SP) em anos posteriores.
Em outubro de 2004, para acompanhar a legislação brasileira, sua denominação foi
alterada para Associação Brasileira de Rorschach e Métodos Projetivos, com a sigla
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Conselho Federal de Psicologia
ASBRo. Em 2023, a ASBRo completará 30 anos de existência e de representatividade
científica na história da Psicologia brasileira.
Na década de 1980, várias instituições de ensino superior, tais como a Pontifícia
Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ) e do Rio Grande do Sul (PUC-RS),
a Universidade de Brasília (UNB) e a Universidade de São Paulo (USP) começaram
a ofertar cursos de pós-graduação na área de avaliação psicológica para qualificar
os profissionais. É deste período o registro histórico do trabalho apresentado na
Associação Nacional de Pesquisa e Pós-graduação em Psicologia (ANPEPP), em 1988:
“A prova de Rorschach, a epilepsia temporal e a especialização hemisférica”, pela
professora Latife Yazigi.
Além da consolidação das entidades científicas, a década de 1990 foi marcada
pela organização de uma série de eventos na área de avaliação psicológica, promovi-
dos por algumas instituições de ensino superior. Fruto desse processo também foi a
criação do Instituto Brasileiro de Avaliação Psicológica (IBAP) em 1997. No empenho
de fortalecer a qualidade do trabalho realizado no campo da avaliação psicológica no
Brasil, merecem ser lembradas as atividades científicas desenvolvidas pela Universidade
de São Paulo (USP), Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS),
Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUCMG), Universidade Federal
do Rio Grande do Sul (UFRGS), Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e
Fundação Mineira de Educação e Cultura (FUMEC). Nessa década foram consolidados
e criados laboratórios de pesquisa e estudos sistemáticos de construção e adaptação
de testes psicológicos para o país, que atendessem aos critérios psicométricos de
validade, precisão e normas para a população.
Um pouco mais tarde teve início a Revista Avaliação Psicológica vinculada
ao IBAP. Trata-se de importante periódico científico nacional bem qualificado
e que oferece aos profissionais e aos pesquisadores conhecimentos e frutos de
pesquisas relevantes da área.
Outro aspecto que se destacou foi a criação do primeiro grupo de trabalho (GT)
em avaliação psicológica na ANPEPP. O grupo intitulado “Perspectivas em Avaliação
e Diagnóstico em Psicologia” foi criado em 1989 e permaneceu com este nome até
2008, quando o grupo foi desmembrado em novos GTs (Wechsler et al., 2019), sendo
um deles o GT Métodos Projetivos nos Contextos da Avaliação Psicológica.
Tudo isso culminou no I Fórum Nacional de Avaliação Psicológica em 2000,
que desenvolveu uma proposta de ações políticas com vistas o aperfeiçoamento
da Avaliação Psicológica no âmbito de sua dimensão técnica, social e ética, que foi
encaminhada ao CFP. Em seguida, o CFP organizou uma comissão de especialistas
81
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
denominada Comissão Consultiva em Avaliação Psicológica (CCAP), composta por
psicólogos pesquisadores e profissionais da área de reconhecido saber em testes psi-
cológicos, que são renovados a cada gestão do CFP, cuja função é discutir e propor
diretrizes, normas e resoluções no âmbito da avaliação psicológica. A CCAP/CFP,
por meio das Resoluções CFP nº 025/2001, 002/2003 e 009/2018, regulamenta o
Sistema de Avaliação Psicológica (Satepsi) e estabelece exigências de critérios míni-
mos de cientificidade dos testes psicológicos, possibilitando a melhoria na qualidade
dos testes psicológicos e, consequentemente, de processos de avaliação psicológica
realizados pelos psicólogos. Por conseguinte, na década de 2000, ampliaram signifi-
cativamente as publicações brasileiras a respeito dos testes psicológicos, equiparadas
ao aprimoramento na sua qualidade (Faiad, & Alves, 2018).
A partir desse momento, os sistemas técnico-científicos do Método de Rorschach
a serem utilizados no Brasil em processos de avaliação psicológica passaram por
avaliações conforme diretrizes do SATEPSI. Alcançaram parecer favorável para uso
profissional do psicólogo brasileiro as seguintes vertentes: Sistema Klopfer (Vaz,
1997; Vaz, 2006), Sistema Aníbal Silveira (Coelho, 2000), Sistema Compreensivo
(Nascimento, 2010), Sistema de Avaliação por Performance (Meyer et al., 2017) e Escola
Francesa (Pasian, 2000). A preocupação com as pesquisas psicométricas embasadoras
do Método de Rorschach no Brasil favorece a investigação com os diferentes sistemas
nas mais variadas faixas etárias, prevalecendo seu uso profissional em adolescentes
e adultos a partir dos 16 anos. Nota-se que o Método de Rorschach contou com se-
guidores proficientes; e seu sistema avaliativo, com adeptos fecundos que o mantém
atual para uso na realidade mundial, e não apenas no Brasil.
Entende-se que as possibilidades técnicas para o desenvolvimento de adequadas
investigações com Rorschach existem e estão disponíveis, mas dependem muito dos
profissionais e dos pesquisadores do método, na medida em que exigem liderança,
solicitação de recursos a agências de fomento e sustentação no esforço de colaboração
e parceria em estudos científicos (Pasian, & Loureiro, 2010). O Método de Rorschach
é um instrumento de aplicação individual, que exige disponibilidade e adequado
tempo para sua correta utilização profissional, bem como intenso treinamento para
sua aplicação, correção e interpretação cientificamente embasadas. Todos esses as-
pectos podem tornar onerosas as pesquisas científicas com esse método de avaliação
de personalidade, porém a riqueza de seus achados o sustenta numa perspectiva
mundial há mais de um século.
82
Conselho Federal de Psicologia
Contribuições Científicas da ASBRo
Desde a sua fundação em 1993 até os dias de hoje, a ASBRo mantém o compro-
misso de promover o estudo, a pesquisa e o desenvolvimento dos métodos projetivos
de avaliação psicológica em território nacional, em especial o Psicodiagnóstico de
Rorschach, em suas diferentes concepções teóricas e âmbitos de aplicação. Além disso,
tem como objetivo o aprimoramento técnico-científico dos psicólogos brasileiros para
uso dos métodos projetivos, promovendo cursos de formação e de aprimoramento
profissional, com ênfase no Método de Rorschach, buscando integrar a diversidade
metodológica e a produção científica nacional a respeito deste tema. Propõe-se tam-
bém a favorecer o intercâmbio científico entre especialistas em métodos projetivos
tanto no Brasil como no mundo.
A história de eventos científicos organizados pela ASBRo nos permite afirmar
que eles reúnem grande e expressivo número de pesquisadores da área da avaliação
psicológica, em especial as técnicas projetivas e, no decorrer desta trajetória, tem
recebido apoios de importantes agências financiadoras como: FAPESP, CAPES e
CNPq, fato este que confere crédito a esta associação científica.
Até o presente momento, a ASBRo já realizou cinco encontros científicos nos
anos de 1995, 1996, 1998 e 2008, ocorridos em Ribeirão Preto (SP) e o de 2001 em
Itatiba (SP). Realizou também dez Congressos Nacionais, o primeiro foi realizado
em conjunto com o I Congrès Internationale de Psychopathologie Phénoméno-
Structurale, em 1997, em Ribeirão Preto (SP); os dois seguintes, em 2000 e 2004,
realizados em Porto Alegre (RS), 2006, Brasília (DF). Em 2009, o V Congresso da
Associação Brasileira de Rorschach e Métodos projetivos (ASBRo) foi realizado em
conjunto com o IV Congresso Brasileiro de Avaliação Psicológica (IBAP) e a XIV
Conferência Internacional de Avaliação Psicológica, em Campinas (SP). Em 2012,
o congresso voltou a ocorrer em Brasília. Em 2014, o evento ocorreu na cidade de
Ribeirão Preto (SP), depois em Florianópolis (SC) no ano de 2016. Em 2018 teve
lugar o IX Congresso ASBRo em Goiânia (GO), fechando o ciclo em 2022 com o X
Congresso ASBRo, realizado por meio de recursos remotos, o que trouxe inovações
para a área. Usualmente, o congresso da ASBRo ocorre bianualmente, intercalando-se
com o congresso organizado pelo IBAP, à exceção do ano de 2020, cujo congresso
precisou ser cancelado em função do contexto causado pela pandemia de Covid-19.
Os trabalhos científicos apresentados nestes eventos foram registrados, bi-
bliograficamente, por meio das publicações de Livro de Anais, Livro de Programa
e Resumos e publicações científicas especializadas, na forma de Livros com ISBN.
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ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
Esses materiais têm sido utilizados como estímulos à formação e à atualização
profissional, recorrentemente consultados nos cursos de graduação em Psicologia,
compartilhando conhecimento qualificado produzido na área e de acesso público
([Link]
O compromisso da ASBRo com o desenvolvimento da área de Avaliação
Psicológica também é marcado pela representação na Comissão Consultiva de
Avaliação Psicológica (CCAP), tendo indicado representantes da entidade todas as
vezes que o CFP demandou essa indicação. Essa parceria entre CFP, IBAP e ASBRo
na composição da CCAP constituiu-se num diferencial importante ao longo dos anos,
pois possibilitou às entidades da área uma contribuição robusta e ativa na construção
da profissão no que tange à área de Avaliação Psicológica.
A título de exemplo, pode-se citar as ações do IBAP e da ASBRo e, posterior-
mente das demais entidades que compõem o FENPB, na elaboração de argumentos
e notas técnicas que foram acrescidas aos memoriais entregues pelo CFP no gabinete
dos ministros do Supremo Tribunal Federal, relativamente ao processo de embargos
de declaração da Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) nº 3.481, sobre testes
psicológicos. Durante todo o processo, a ASBRo se posicionou preocupada com a
irrestrita comercialização dos testes psicológicos, expondo os argumentos técnicos
e científicos, em especial no que se refere ao risco de falseamento de respostas caso
os testes psicológicos fossem de livre acesso (Cardoso, & Zanini, 2021).
Em 2020, impulsionada pelo desenvolvimento de tecnologias digitais de infor-
mação e da comunicação (TIDCs), a diretoria da ASBRo passou a ofertar Webinars com
temas relevantes à área. No período entre dezembro de 2020 e março de 2022, foram
realizados oito webinars com temas relacionados ao: status científico do Método de
Rorschach e os critérios neurobiológicos ou psicofisiológicos; discussão de caso clínico;
análise dos indicadores do Rorschach sob a perspectiva de dois sistemas avaliativos;
processos de orientação profissional; análise da conjuntura sobre o impacto da decisão
do Superior Tribunal Federal (STF) sobre os testes psicológicos; uso dos testes proje-
tivos no contexto forense e na Avaliação Terapêutica; ensino, pesquisa e prática com
Métodos Projetivos em tempos pandêmicos; e Histórico do Rorschach no Brasil (em
comemoração ao centenário do Método de Rorschach, completado em 2021).
Ainda em cenário nacional, há que se mencionar a ação contínua, por mais de
10 anos da ASBRo em parceria com o IBAP, no pleito para que fosse criado o Título
Profissional de Especialista em Avaliação Psicológica emitido pelo CFP. A incorpo-
ração dessa especialidade entre os títulos regulamentados pelo CFP foi consolidada
em 16 de dezembro de 2018. A aprovação representou um marco histórico para a
84
Conselho Federal de Psicologia
área, uma vez que a obtenção do título possibilitou o reconhecimento da atuação da
psicóloga ou do psicólogo na área de Avaliação Psicológica, contribuindo à qualifi-
cação da formação do profissional.
Passando para o contexto internacional, destaca-se que a ASBRo, desde sua
criação é filiada à International Society of Rorschach (ISR), acompanhando e produ-
zindo reflexões importantes que envolvem o método de Rorschach e outros métodos
projetivos no mundo. Em diferentes momentos tivemos a profa. Dra. Latife Yazigi,
membro fundador da ASBRo e, atualmente, membro de seu Conselho Consultivo,
como vice-presidente da Sociedade Internacional de Rorschach em diferentes gestões
(1987-1990; 2005-2008; 2008-2011).
No sentido do fortalecimento desta parceria, em 1987 realizou-se na cidade do
Guarujá (SP) o XII Congresso Internacional de Rorschach e Outras Técnicas Projetivas,
promovido pelo Departamento de Psiquiatria e Psicologia Médica da Escola Paulista
de Medicina e a ISR. Pela primeira vez em um país da América Latina, este encontro
reuniu renomados especialistas que utilizavam em suas investigações os métodos
projetivos de exame psicológico. O comitê organizador contou com a presidência
da Profa. Dra. Latife Yazigi, que na ocasião tomou posse como membro da diretoria
da ISR, que ficou assim constituída: Dra. Nina Rausch de Traubenberg (presidente),
Dr. John E. Exner (primeiro vice-presidente), Dra. Latife Yazigi (segunda vice-presi-
dente), Ingrid Rouselle (secretária).
Neste ano de 2022, ocorre o XXIII Congresso Internacional da ISR, com o tema
“100 anos promovendo a compreensão humana”. A Profa. Dra. Anna Elisa de Villemor-
Amaral, uma das fundadoras da ASBRo, compõe o Conselho Executivo da ISR e é
responsável pela Comissão Científica do Congresso do Centenário do Rorschach.
Em parceria com a Profa. Dra. Ana Cristina Resende, ex-presidente da ASBRo, estão
à frente de três importantes projetos que serão apresentados em julho neste evento
internacional, partindo de propostas advindas da ASBRo, a saber: a) Projeto Cartoon,
que desvela como é o imaginário popular em torno do Rorschach e a avaliação da
personalidade; b) Projeto Artístico, com vídeo de obras de artistas de destaque que
se inspiraram nas Manchas de Tinta de Rorschach; c) Projeto de Respostas Culturais
do Rorschach, que reúne a pluralidade de respostas colhidas em diferentes países,
retratando realidades socioculturais, organizado em vídeos animados que serão di-
vulgados presencialmente durante todo o Congresso.
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ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
Considerações Finais
As possibilidades de uso do Método de Rorschach são inúmeras e os campos de
sua aplicação são crescentes. À medida que novas demandas são apresentadas para
esta área, o desenvolvimento de profissionais competentes, de bons pesquisadores e
de investigações cientificamente robustas se mostram necessários e prementes; pois,
apesar dos avanços científicos e tecnológicos, muitos desafios ainda se apresentam.
Nesse sentido, para o devido e contínuo reconhecimento das contribuições científicas
do Método de Rorschach nos diferentes campos da prática profissional do psicólogo,
a trajetória e os objetivos da ASBRo se consolidam pela importância e contribuição
desta associação científica para a manutenção da cientificidade da avaliação psicoló-
gica, em especial, dos métodos projetivos.
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Conselho Federal de Psicologia
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ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
Orientação profissional e de
Carreira no Brasil:
Atuação e Novos Rumos
Daniela Boucinha
Manoela Ziebell de Oliveira
Leonardo de Oliveira Barros
Fabíola Rodrigues Matos
Lucilene Tofoli
Gustavo Henrique Martins
Introdução
Ao longo dos anos, a literatura científica vem definindo a carreira de diferentes
formas. Alguns exemplos são:
• Uma carreira é um processo de desenvolvimento de um trabalhador ao lon-
go de uma trajetória de experiência e funções em uma ou mais organizações
(Baruch, & Rosenstein, 1992).
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Conselho Federal de Psicologia
Traremos informações relevantes sobre como a área se desenvolveu no Brasil e sobre a
atuação da Associação Brasileira de Orientação Profissional e de Carreira (ABRAOPC).
Por fim, discutiremos alguns dos desafios presentes e futuros da área em nosso país.
O surgimento da área de OPC e seu desenvolvimento estão muito associados à
história do trabalho e às mudanças nas relações que se estabeleceram entre trabalhadores
e empregadores ao longo do tempo. De forma muito resumida, podemos afirmar que
há três abordagens que caracterizam a história da área, as quais serão descritas a seguir.
Enquanto as organizações podiam ser as principais responsáveis pelo desenvol-
vimento da carreira dos indivíduos (pois o contexto era previsível, a força de trabalho
e as oportunidades abundantes, e as transições menos frequentes), o objetivo dos
profissionais da área de OPC era encontrar a melhor combinação entre as carac-
terísticas dos indivíduos e os trabalhos disponíveis. Tal atuação era fundamentada
pelas teorias de traço-e-fator e tinha como principal foco o resultado do processo
de orientação vocacional.
Com o passar dos anos e o aumento da instabilidade política e econômica ao
redor do mundo, foi possível compreender que, mesmo diante de esforços por parte
das organizações e dos indivíduos, as transições de carreira seriam mais recorrentes
e desafiadoras. O entendimento de que as transições são normativas fez com que os
profissionais da área compreendessem que os indivíduos precisavam desenvolver
recursos para lidar com elas e que diferentes domínios de suas vidas impactariam e
seriam impactados por elas. Como consequência, o foco do trabalho da OPC passou
a ser de ajudar os indivíduos a fazerem escolhas de carreira capazes de refletir como
se percebiam e o que se interessavam por fazer de suas vidas. Tal atuação era fun-
damentada pelas teorias desenvolvimentistas e tinha como foco principal o próprio
processo de orientação profissional.
O ingresso no século XXI, marcado pela volatilidade, incerteza, complexidade
e ambiguidade, por negócios emergentes e novas formas de vínculo com o trabalho,
fez com que as jornadas dos trabalhadores nas organizações se tornassem menos
lineares, duradouras e previsíveis. Novos padrões de construção de carreira foram
observados nos ambientes corporativos e fora deles. E os profissionais e estudiosos
da área de OPC vêm sendo convidados a ajudar os indivíduos a: compreender e dar
sentido às suas experiências de trabalho e de vida a fim de obter trabalhos decentes,
bem como identificar e superar potenciais obstáculos para construir trajetórias coe-
rentes, significativas e satisfatórias. Diferentes teorias dão suporte a essa atuação, que
tem como foco tanto processo quanto resultado do trabalho de OPC para o próprio
indivíduo e para os diferentes contextos em que está inserido.
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ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
Considerando o histórico da área e o conhecimento teórico e técnico produzi-
do ao longo dos anos, pode-se observar diferentes modalidades de atuação, as quais
atendem a diferentes interesses que os clientes de OPC podem apresentar. As três
principais serão descritas em maior detalhe a seguir.
Intervenções de informação em Orientação Profissional: apresentam informa-
ções sobre diferentes possibilidades de trabalho, emprego e formação com o objetivo
fundamental de ajudar as pessoas a construírem uma ideia mais precisa sobre esses
temas. As intervenções desse nível são basicamente de natureza pedagógica e, por
isso, não exigem que as pessoas se comprometam a fazer reflexões aprofundadas
sobre si e suas experiências, mesmo que estejam dispostas a fazê-lo (Guichard, 2012).
Exemplos de tipos de atendimento a esse nível são: apoio na tomada de decisão e
transições ao longo de toda a vida.
Intervenções psicopedagógicas em Orientação Profissional: têm como objetivo
ajudar as pessoas a identificarem as competências necessárias no exercício de qual-
quer função profissional; a forma como as pessoas construíram essas competências;
as competências já desenvolvidas (em experiências escolares, de formação, atividades
de lazer, prática esportiva, vida em família etc.) e, enfim, as competências que possam
formar adiante, bem como a natureza das experiências que lhes serão possíveis. Essas
intervenções de orientação têm como desafio auxiliar os participantes a construírem
novas relações consigo e com suas experiências nas atividades profissionais que quei-
ram realizar. Elas podem trabalhar com as estratégias (“knowing how”) e com as redes
de relacionamentos (“knowing whom”) para o desenvolvimento de competências e
planejamento, mas só abordam marginalmente a questão do sentido ou do propósito
de uma dada escolha para as vidas dos indivíduos (“knowing why”) (Guichard, 2012). A
orientação profissional visa a combinar o cliente com um trabalho que se assemelhe a
suas características e habilidades objetivas. Nessa abordagem, o orientador de carreira
atua como um especialista em avaliação e em informações sobre o mundo do trabalho
(Savickas, 2011). Exemplos de tipos de atendimento nesse nível são: planejamento de
carreira; e oficinas de capacitação para o desenvolvimento de competências.
Aconselhamento para a construção do si: as intervenções desta categoria
propõem-se a auxiliar os participantes a enfrentarem a demanda social de serem
“empreendedores de suas vidas”. Para isso, propõem o distanciamento daquilo que
é assumido como óbvio na experiência e na rotina, permitindo percebê-las e sim-
bolizá-las de formas alternativas. Consequentemente, ajuda-os a envolverem-se em
novas experiências e a construírem futuras rotinas. O aconselhamento da construção
da carreira explora e elabora este significado para esclarecer as escolhas e reforçar
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Conselho Federal de Psicologia
a habilidade de decidir. O aconselhamento sintetiza intuição e razão por que tal
suporte ocorre em um contexto pouco estruturado e temas importantes e que não
se relacionem ao enredo ocupacional do cliente podem ser necessários se a orien-
tação se amplia para discutir relacionamentos íntimos ou outros domínios da vida
(Savickas, 2011). O principal exemplo de atendimento nesse nível é o aconselhamento
de carreira com ênfase na construção de vida.
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ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
Tabela 1 – Principais teorias de carreira
Principais construtos
Teoria Referências
/ características
Considerado o pioneiro da
Introdutória: Ribeiro e Uvaldo (2007)
Frank Parsons: Choosing a Vocation OPC, sistematizou as primeiras
Original: Parsons (1909)
ações teórico-práticas da área
Interesses profissionais
Teoria da Personalidade Vocacional e ambientes de trabalho Introdutória: Lamas (2017)
e Ambientes de Trabalho classificados no Original: Holland (1997)
modelo RIASEC
Introdutória: Oliveira et al. (2012)
Teoria Life Span, Life Space Maturidade vocacional
Original: Super (1980)
Autoeficácia para tomada Introdutória: Ambiel e Noronha (2012)
Teoria Social Cognitiva de Carreira
de decisão de carreira Original: Lent et al. (1994)
Introdutória: Ambiel (2014)
Teoria de Construção de Carreira Adaptabilidade de carreira
Original: Savickas (2005)
Experiência durante ou após Introdutória: Vieira et al. (2020)
Teoria da Aprendizagem por Acaso
a Intervenção em OPC Original: Krumboltz (2009)
Introdutória: Faria e Loureiro (2012)
Teoria do Caos das Carreiras Comportamento da carreira
Original: Pryor e Bright (2003)
Introdutória: Pires et al. (2020)
Teoria da Psicologia do Trabalhar Trabalho decente
Original: Duffy et al. (2016)
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Conselho Federal de Psicologia
2006), atualmente denominada - desde 2022 - Associação Brasileira de Orientação
Profissional e de Carreira (ABRAOPC).
De forma geral, revisões da produção científica nacional indicam que o desen-
volvimento da OPC está em constante crescimento (Aguiar, & Conceição, 2012; Ambiel
et al., 2017; Noronha, & Ambiel, 2006). Observa-se que o público-alvo de interesse das
pesquisas envolveu principalmente os estudantes de ensino médio e universitários, bem
como um aumento do foco em estudos que buscavam construir e validar testes (Ambiel
et al., 2017). Além da produção científica da área, ressaltamos também as ações conjuntas
de pesquisadores para o constante crescimento e atualização da OPC no Brasil.
Desde 2016, há na Associação Nacional de Pesquisa e Pós-graduação em Psicologia
(ANPEPP) um Grupo de Trabalho (GT) denominado de “Carreiras: informação, orienta-
ção e aconselhamento”, que visa a discutir assuntos científicos oriundos da área de OPC.
Atualmente, esse GT é formado por 27 pesquisadores de diversas regiões do Brasil e de
Portugal que têm como objetivo comum: 1) identificar, apresentar, intercambiar e orga-
nizar a produção científica e a formação em nível de Mestrado e Doutorado no campo
de estudos da construção de carreira e orientação profissional, cujos resultados esperados
foram o aumento das pesquisas multicêntricas, bem como a consolidação de núcleos e
grupos de pesquisa interinstitucionais criados anteriormente; 2) continuar o processo de
consolidação de uma agenda de pesquisa e produção científica conjunta, nacional e inter-
nacionalmente, no campo de estudos da construção de carreira e orientação profissional.
As produções e participações conjuntas dos membros do GT Carreiras foi
intensa e variada no biênio 2020-2021, destacando-se: 1) 24 artigos, três livros e
25 capítulos de livro publicados; 2) 32 participações em bancas; 3) 15 atividades no
XV Congresso Brasileiro de Orientação Profissional e de Carreira, sendo seis me-
sas redondas e nove apresentações orais; 4) dois membros do GT participaram da
Comissão Organizadora do XV Congresso Brasileiro de Orientação Profissional e
de Carreira e sete da Comissão Científica; 5) neste período o editor chefe, dois dos
quatro editoras(es) associadas(os) e cinco dos oito integrantes do conselho editorial
da Revista Brasileira de Orientação Profissional eram membros do GT. Essa grande
quantidade de produções e participações demonstra o forte trabalho conjunto dos
membros do GT para o avanço da área científica em OPC no Brasil.
Para atingir os objetivos propostos para o próximo biênio (2022 e 2023) o GT
Carreiras atuará em duas frentes: a) ação formativa com a criação e realização de
espaços coletivos de formação, e ação de produção e disseminação científica com a
divisão do GT em quatro subgrupos (1 – adaptabilidade de carreira, 2 – intervenção
e avaliação, 3 – trabalho decente e justiça social, e 4 – educação básica, juventude
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ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
e projeto de vida), e b) planejamento e realização de tarefas conjuntas (pesquisas,
publicações e eventos oriundos destes subgrupos). Assim, as atividades realizadas
no biênio anterior em cada frente serão avaliadas e, a partir disso, serão propostas
tarefas para o próximo biênio.
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Conselho Federal de Psicologia
livros que resultam do compilado de capítulos desses trabalhos. Todos os livros são
também gratuitos, on-line e de livre acesso para download no site. No último con-
gresso, em 2021, o tema abordado foi (Des)Empregabilidade, Construção de Carreira e
Justiça Social, com uma intenção de proporcionar o debate sobre temas relacionados
ao trabalho decente (ILO, 1999; 2017), tido como desafio proposto pela Organização
Internacional do Trabalho), e a Teoria de Construção de Carreira (Savickas, 2005),
com a participação do renomado pesquisador e psicólogo Mark Savickas, fundador
dessa teoria e um dos principais nomes da área no mundo atualmente.
Ao longo dos últimos anos, principalmente, a ABRAOPC tem promovido di-
versas ações no intuito de aproximar profissionais e pesquisadores que atuam com
diferentes populações e regiões do Brasil. Os webinars mensais contribuem para a
formação dos orientadores profissionais à medida que abordam temas pertinentes
e atuais para a área e, mais recentemente, o Diálogos com a ABRAOPC possibilita a
troca entre associados e profissionais sobre a prática e intervenções na OPC.
A associação está ativamente envolvida nas diferentes formas de estimular o
desenvolvimento e reconhecimento da área. Desde a participação em programas de
rádio, tv e matérias de jornais, presença nas mídias digitais, até a contribuição em
congressos de entidades parceiras. A ABRAOPC participa ativamente do Fórum de
Entidades Nacionais de Psicologia Brasileira (FENPB) e do Congresso Brasileiro de
Psicologia: Ciência e Profissão.
Tais ações estão mencionadas e descritas como uma forma de mostrar, de forma
sucinta, importantes contribuições e avanços que a associação tem proporcionado
para a área de OPC. O interesse por parte de estudantes e profissionais da psicolo-
gia vem aumentando, o que reflete no número de associados da ABRAOPC a cada
ano. O mundo do trabalho vem sofrendo importantes transformações e o papel da
ABRAOPC tem sido o de ser ponte para que os profissionais e pesquisadores possam
acompanhar e se atentar a tais mudanças e aos impactos que refletem no trabalho da
orientação profissional e de carreira. Assim, como associação, busca-se cada vez mais
a aproximação da comunidade que atua, estuda, pesquisa e se interessa pela área,
bem como a ampliação, reconhecimento e valorização da OPC no Brasil.
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ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
desenvolvimento de carreira dos indivíduos. Se até o século XX a carreira era construída
a partir de perspectiva relativamente linear, com maior grau de previsão e estabilidade,
no século XXI passou a ser desenvolvida dentro de um cenário de instabilidade, flexi-
bilização, perda de direitos e adoecimento (Savickas, 2012). Tais alterações resultaram
na necessidade de revisão das bases teóricas do campo, dos instrumentos, técnicas e até
mesmo da redefinição dos objetivos da área (Duarte, 2013). Assim, se antes as intervenções
de carreira visavam a ajudar as pessoas a encontrar e negociar um emprego assalariado,
no atual contexto passa a ter como foco o auxílio para as pessoas desenvolverem com-
petências para lidar com a flexibilidade (Savickas, 2015).
O impacto das transformações no mundo do trabalho acaba por ser maior em
países subdesenvolvidos ou emergentes, grupo no qual o Brasil está inserido. O país
que chegou a ser a 6ª maior economia do mundo, foi caindo de posições no ranking,
ocupando a 13ª posição no ano de 2021. O reflexo das condições econômicas do país
passa a ser visto nos dados oficiais do trabalho. De acordo com o Instituto Brasileiro
de Geografia e Estatística – IBGE (2022), no início de 2022, o Brasil somava 12 milhões
de trabalhadores em situação de desemprego, dos quais 4,8 milhões se afirmavam
desalentados (pessoas em situação de desemprego que desistiram de procurar um
novo posto de trabalho). É importante destacar que, entre as pessoas ocupadas, 48,7%
atuam em situação de informalidade, sem qualquer vínculo ou em situações precárias.
A exclusão de uma posição de trabalho também reforça a desigualdade sentida
na renda da população, fato que, aliado à ausência de políticas públicas efetivas, levou
27 milhões de pessoas a viver abaixo da linha da pobreza – renda de até R$ 247,00
por mês (Fundação Getúlio Vargas, 2021). No Brasil, outra variável importante para
maior acesso à renda é a escolaridade, de maneira que quanto maior o nível escolar
maior a chance de uma renda mais alta (IBGE, 2019). Assim, outra problemática a
ser enfrentada refere-se aos altos índices de evasão escolar, acentuados em função
da pandemia da COVID-19. No ano de 2020, 1,38 milhão de crianças e adolescen-
tes entre 6 e 17 anos estavam fora da escola (UNICEF, 2021). No ensino superior,
os números são ainda mais altos, pois apenas no setor privado 608 mil estudantes
evadiram do sistema (Sindicato das Entidades Mantenedoras de Estabelecimentos
de Ensino Superior no Estado de São Paulo, 2020).
Neste cenário de desigualdade social e instabilidade econômica, algumas ques-
tões podem ser postas: como o campo da OPC pode contribuir para a melhoria desta
realidade? Como ajudar as pessoas a construírem suas carreiras quando as necessi-
dades básicas não estão sendo supridas? Como desenvolver práticas que democrati-
zem o acesso aos serviços? Quem de fato tem opção de escolha sobre sua carreira? A
98
Conselho Federal de Psicologia
complexidade do cenário no qual o Brasil encontra-se parece não permitir respostas
prontas para essas questões. Todavia, algumas possibilidades estão sendo levantadas
pela área e podem ajudar na construção de possíveis direcionamentos. Por exemplo,
atuações com foco excessivo no indivíduo ou na sua adaptação (agência pessoal),
desconsiderando o contexto e seu papel na construção das opressões, podem deixar
as pessoas ainda solitárias, desamparadas ou entregues a si (Cardoso et al., 2016).
Nesse sentido, torna-se necessária uma abordagem em OPC que contribua para
a promoção da igualdade e da justiça social (Blustein, 2013; Cardoso et al., 2016; Pires
et al., 2020). O presente e futuro da OPC precisa contemplar públicos para além da-
queles historicamente mais abordados nas intervenções e pesquisas (e.g., estudantes
de ensino médio, de escolas privadas e de classes econômicas mais altas) (Barros et
al., 2019). De tal maneira, estudos e práticas realistas no campo da OPC necessitam
abordar, questionar e agir a partir de determinantes e interseccionalidades como gê-
nero, raça, etnia, classe, deficiência, renda, entre outros (Pires et al., 2020). Considerar
a interseccionalidade como eixo definidor de métodos de trabalho pode ser um
caminho para lidar com os desafios impostos à OPC que demandam cada vez mais
de um olhar psicossocial para o desenvolvimento de carreira (Ribeiro et al., 2020).
Uma outra tendência para o futuro da OPC refere-se à formação dos profissio-
nais que atuam na área. A discussão sobre as competências técnicas, práticas e éticas
de orientadoras(es) profissionais tem sido feita há algumas décadas (Barros et al., 2019;
Lassance et al., 2007). Considerando que a área, embora predominantemente com-
posta por psicólogas(os), também agrega profissionais com outras formações, torna-se
importante a definição de parâmetros formativos no intuito de qualificar os serviços
ofertados aos diferentes públicos e contextos. Alia-se a isso a demanda por atualização
profissional para haja condições de atuação adequada no cenário previamente exposto.
Vale destacar que esta tem sido uma preocupação da ABRAOPC nos últimos anos e
que atualmente um estudo nacional está sendo conduzido para auxiliar na atualização
e definição das competências necessárias para as(os) orientadoras(es) profissionais.
Por fim, cabe destacar que há uma perspectiva positiva de crescimento do cam-
po da OPC nos próximos anos. A aprovação da Lei n. 13+935/2019, que determina
a prestação de serviços de psicologia nas escolas públicas, com o chamado “Novo
Ensino Médio” e com a implementação da Base Nacional Comum Curricular (BNCC)
em todos os níveis, pode favorecer também a oferta de serviços voltados ao desen-
volvimento de carreira. A BNCC em vigor tem como princípios o desenvolvimento
de competências dos estudantes e, entre estas, encontra-se o projeto de vida. Assim,
as(os) orientadoras(es) poderão contribuir para que os alunos exercitem a competência
99
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
em questão, cujo foco é permitir que reflitam sobre conhecimentos e experiências
relativos ao mundo do trabalho, no intuito de realizarem escolhas com liberdade,
consciência crítica e responsabilidade.
Considerações Finais
A Orientação Profissional e de Carreira tem apresentado, no decorrer dos
anos, referenciais teóricos, pesquisas científicas e práticas na atuação profissional
que auxiliam no suporte às mudanças ocorridas no mundo do trabalho. No âmbito
nacional, a OPC encontra-se em constante crescimento, tanto em produção científica
como em ações conjuntas de pesquisadores para atualização da área. Ressalta-se que
este desenvolvimento é também apoiado pela Associação Brasileira de Orientação
Profissional e de Carreira, que se destaca por aproximar os orientadores profissionais
e de carreira e os estudos sobre os impactos do mercado de trabalho, além de cola-
borar para a ampliação, reconhecimento e valorização da OPC no Brasil.
100
Conselho Federal de Psicologia
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ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
Psicologia Jurídica: ABPJ,
sua história e atualidade
João Carlos Alchieri
Cândida Helena Lopes Alves
106
Conselho Federal de Psicologia
eleita representante do Brasil na AIPJ. Quando retornou ao Brasil, a colega organizou a
Comissão para preparar o III Congresso Ibero-Americano de Psicologia Jurídica, com
Margarida Calligaris Mamede, Cláudia Anaf, Dayse César Franco Bernardi, Rosalice
Lopes, Fátima França, Fernanda Lou Sans Magano e Magda Melão, com o apoio
do Sindicato dos Psicólogos de São Paulo. Com esta configuração inicial, passaram
a ocorrer diversos eventos no Brasil e em 1996 e 1997 foram realizados encontros
nacionais nos estados de São Paulo, Rio Grande do Sul, Minas Gerais e Bahia.
A organização ampliou-se com representações regionais até que se definiu uma
Comissão Organizadora do Congresso, e mais de 15 psicólogos brasileiros participa-
ram do II Congresso Ibero-Americano de Psicologia Jurídica em Cuba, onde Dayse
César Franco Bernardi foi eleita representante da AIPJ, garantindo a possibilidade
de vinda do seguinte congresso para o Brasil. Coube ao professor e psicólogo baiano
Domingos Barreto a proposição de criação da ABPJ – oficializada por meio de ata
de fundação em 15 de março de 1997. Após a fundação da ABPJ, foram convidados
psicólogos com interesse e dedicação no contexto jurídico, e que se destacavam na
área para comporem cargos na diretoria da entidade, como Dayse César Franco
Bernardi, Anna Christina Motta Pacheco Cardoso de Mello, Sônia Liane R. Rovinski,
Leila Maria Torraca de Brito, Helena Ribeiro e Maria Teresa Claro Gonzaga.
Em 1998, a ABPJ ingressou no Fórum de Entidades Nacionais da Psicologia
Brasileira e, no ano seguinte, a ABPJ realizou em conjunto com a Universidade
Presbiteriana Mackenzie o III Congresso Ibero-Americano de Psicologia Jurídica,
indicando Tânia Vaisberg, do IPUSP, representante do Brasil na AIPJ. O evento
contou com decisivo apoio do Conselho Federal de Psicologia, da Secretaria da
Administração Penitenciária de São Paulo, do Tribunal de Justiça do estado de São
Paulo, da Universidade Estadual de Maringá, entre outras organizações. O evento
ocorreu em 1999 e reuniu centenas de profissionais da área da Psicologia Jurídica
do Brasil e de outros países, principalmente da América Latina, o primeiro livro de
Anais da entidade foi publicado em 2000.
No início do novo milênio, a ABPJ não conseguiu retomar sua organização
administrativa por meio de novas gestões, tendo sido representada frente ao Fórum
de Entidade pela psicóloga Fátima França, que também manteve o compromisso de
sua representação em eventos nacionais. Buscando manter a chama acesa, foi criada
uma lista de discussão na internet em que psicólogos interessados mantiveram-se em
comunicação. Contando mais uma vez com o suporte e apoio do Conselho Federal
de Psicologia, criou-se em 2008 o Grupo Gestor Intermediário para mobilizar a
categoria em torno da Psicologia Jurídica e a reorganização da ABPJ com psicólogos
107
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
Álvaro Junior, Fátima França, Luis Fernando Galvão, Odilza Lines, Rodrigo Oliveira,
Rosalice Lopes, Sonia Liane R. Rovinski e Valdirene Daufemback.
Em abril de 2009, realizou-se em Porto Alegre o I Simpósio Sul brasileiro de
Psicologia Jurídica e a posse de uma nova diretoria para reorganizar administrativa-
mente, fomentar laços institucionais com o Sistema Conselhos, com o Conselho Federal
de Psicologia e o Fórum de Entidades Nacionais de Psicologia do Brasil (FENPB), re-
conquistando um espaço de representatividade institucional dos psicólogos jurídicos
do Brasil. Finalizando a gestão de 2009 a 2011, realizou-se o I Congresso Brasileiro
de Psicologia Jurídica (2011), com 600 participantes, em que foram desenvolvidas
atividades em temáticas diversas como sistema prisional, mediação, adoção, violência
doméstica, disputa de guarda, escuta de crianças, elaboração de documentos e ética
que permitiram discussões científicas relevantes e enriquecedoras para a pesquisa e
formação profissional em Psicologia Jurídica.
A diretoria para o biênio 2013-2015 realizou manutenção das condições ad-
ministrativas, fiscais e a realização do I Congresso Internacional de Psicologia de
Jurídica em João Pessoa (2015), seguidas pelas gestões de 2015-2017 com a organização
de eventos como I Congresso Internacional do Nordeste de Psicologia Jurídica em
Salvador (2016) e II Congresso Internacional de Psicologia Jurídica (2017) em Belém.
A gestão de 2017-2019 adaptou administrativamente site, prestação de contas,
balanço fiscal. Com vistas à configuração e a atualização institucional da entidade,
retificou-se o domínio e a página na internet, compatibilizando a constituição
da personalidade jurídica, além de nova marca da instituição congruente com os
preceitos organizativos de uma entidade não comercial. Estreitaram-se as relações
institucionais de caráter técnico com a Red Iberamericana de Asociaciones Nacionales
de Psicologia Jurídica y Forense, além de colaborar com grupo internacional da
American Psychological Association (APA) sobre terrorismo com Sociedade Brasileira
de Psicologia ao Fórum de Entidades Nacionais da Psicologia Brasileira FENPB do
Conselho Federal de Psicologia. Realizou-se o I Encontro Maranhense de Psicologia
Jurídica e Direitos Humanos e instituiu-se uma coletânea seriada de livros eletrô-
nicos: Cadernos de Psicologia Jurídica.
As gestões de 2019 a 2023 fundamentaram ainda mais as relações interinstitu-
cionais nacionais e internacionais, a publicação de mais seis volumes dos “Cadernos
de Psicologia Juridica, de Dicionário de Termos Psicológicos para Processos Periciais”,
participação em eventos nacionais e internacionais, representações em instituições
como Observatório de Psicologia da América Latina, Associacion latino-americana de
108
Conselho Federal de Psicologia
Psicologia Juridica y Forense, Instituto IBERCRIMA, e a participação de diversos eventos
internos e externos de alta qualidade na área.
109
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
amparado não mais em comparar o que foi ou se foi aprendido na formação acadê-
mica, mas sim o que pode ser aprendido e como, na função de profissional.
Paralelamente, a cooperação e o desenvolvimento técnico-científico asso-
ciado ao contexto interinstitucional com entidades científicas como a Sociedade
Brasileira de Psicologia, Sociedade Brasileira de Neuropsicologia, Associacion
Latinoamericana de Psicologia Jurídica y Forense, American Psychological Association,
Instituto Iberoamericano de Criminología Aplicada e Observatorio de la Psicología en
América Latina, ampliaram fortemente a necessidade de discutir aspectos de
desenvolvimento da expertise dos profissionais. Este é o ponto que atualmente
caracteriza a atualidade dos esforços da nossa gestão para o desenvolvimento de
processo qualificadores da competência profissional e cuja repercussão da pan-
demia covid tem seu precipitador no atual momento.
O desenvolvimento de uma política de qualificação técnico científica teve início
com a constituição da publicação seriada “Cadernos de Psicologia Jurídica em 2017,
ao possibilitar a elaboração, difusão e discussões de atividades realizadas pelos asso-
ciados em diversos contextos. Longe de constituir em uma publicação acadêmica, os
Cadernos criam espaço de apresentação de práticas e ações realizadas de psicólogos
a psicólogos, do Brasil ou exterior, que possam fundamentar outras atividades, ao
mesmo tempo sem custo ou ônus.
Acompanhando o cenário institucional internacional de valorização da qua-
lificação profissional, a ABPJ busca agora implementar ações de qualificação de
competências por meio de proposta de certificação de competência profissional, a
fim de caracterizar com denodo e critérios técnicos científicos a qualificação de seus
membros. Caracteriza-se, assim, ao mesmo tempo em que apresenta elementos
que subsidiam o processo de desenvolvimento e qualificação técnico-profissional, a
importância dos aspectos teóricos, metodológicos e de cenário internacional, com
vistas à integração com demais instituições.
Na sequência da exposição, apresentar-se-ão pontos de atenção relativos à
temática, caracterizando aspectos institucionais, normativos institucionais e diretri-
zes de atuação profissional por diversas associações técnico-científicas. Igualmente
aborda-se a necessidade de atualização de normativas e políticas de processo técni-
co-científico como a certificação profissional, e seus desdobramentos e desafios, para
os profissionais. Tais temas verificam-se atuais e relevantes na área em diversos países
e instituições latino-americanas, mantendo assim a base de integração e representa-
ção interinstitucional internacional e que foram objeto de debate em mesa redonda
internacional durante a 51ª Reunião da Sociedade Brasileira de Psicologia, em 2021.
110
Conselho Federal de Psicologia
A Psicologia Jurídica em seu papel de intervenção, assim como a Avaliação
Psicológica Forense, em suas distintas áreas de expressão na administração da
justiça, e considerando o contingenciamento laboral e social da pandemia, depa-
rou-se com um desafio emergente de desenvolver processos metodológicos que
pudessem atender à necessidade social, cumprindo as normas técnico-científi-
cas de ciência e as diretrizes legais. O exercício profissional fundamenta-se e é
orientado, a partir dos princípios da ética, da ciência e da justiça e embasado em
processos de intervenção, em diferentes áreas e contextos da psicologia jurídica,
atividades até então essencialmente presenciais.
Evidências internacionais vêm demonstrando a necessidade de uma cons-
tante exigência técnico científica como fundamento ao exercício das atividades
do profissional psicólogo, a contínua atualização científica e de base legal. Por sua
vez, as entidades técnicas discutem há décadas a possibilidade de identificação das
competências e habilidades no exercício profissional. Especificamente no contexto
internacional ibero-americano, algumas instituições estão atentas às necessidades
constantes de atualização de profissionais, sem perder foco nas dificuldades de im-
plementar processos certificadores para este objetivo. Na Ibero américa a Asociación
Latino-americana de Psicologia Jurídica y Forense, a Red Ibero-americana de Entidades
de Psicologia Jurídica e a Associação Brasileira de Psicologia Jurídica estão somando
esforços em cooperações técnicas voltadas ao aperfeiçoamento profissional e à
qualificação do trabalho do psicólogo na área jurídica.
A principal ênfase que se destaca aqui é a identificação dos elementos de carac-
terização da certificação técnico-científica e os obstáculos administrativos e legais a
ela relacionados. Busca-se desta forma identificar, descrever e caracterizar elementos
que subsidiam o processo de certificação técnico-profissional quanto aos aspectos
teóricos, metodológicos e do cenário nacional, com vistas à integração com demais
instituições da área, tanto no Brasil como no exterior.
No contexto jurídico, especificamente operado por critérios da ciência psicológica
e dos pressupostos legais, o problema não se refere apenas ao uso ou escolha de uma
técnica ou instrumento que atenda a determinadas normativas, mas também ao con-
junto de operações e análises realizadas ao longo do processo pericial. Implicitamente
ao fazer psicológico em um processo pericial encontram-se representados aspectos
como aceitação das tarefas, planejamento, desenvolvimento e análise dos dados
obtidos, registro em relatórios, a defesa oral, bem como a salvaguarda do material
coletado, são aspectos a serem atualizados, frente às necessidades que a emergência
sanitária apresenta hoje de forma a salvaguardar os direitos dos participantes.
111
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
Entidades científicas, técnicas e profissionais voltam-se para revisão de procedi-
mentos e processos de atividades técnico-científicas em seu trabalho para desenvolver
ações com o mesmo rigor científico e qualidade, a fim de garantir o exercício profissional.
As atividades do profissional no âmbito jurídico diante da pandemia evidenciam
consequências nos vínculos, ações cotidianas e do impacto na prática de diversas
ações profissionais (Alchieri, 2021). Estima-se que a pandemia de COVID-19 poderá
acelerar um processo já intenso de modificações no mundo do trabalho, mudanças
que já vinham sendo observadas e determinam-se com base na conformação do
padrão de produção, como a Indústria 4.0. Este padrão se manifesta em alterações
profundas na forma de produzir e no uso do ambiente de trabalho.
Segundo o World Economic Forum (WEF) de 2018, até 2022 as habilidades
necessárias para executar a maioria das atividades profissionais terá mudado signi-
ficativamente, estimando-se que até 54% de todos os funcionários necessitarão de
reavaliação e renovação de suas competências. Tanto nas demandas decorrentes de
ações cada vez mais qualificadas como no trabalho tradicional, a mobilização dos no-
vos conhecimentos adquire caráter estratégico para as organizações, seus respectivos
países e, também, aos próprios trabalhadores. A Psicologia Jurídica como campo de
conhecimento e de pesquisa, também tem sofrido consequências diretas e indiretas
em suas atividades devido à pandemia.
O exercício profissional no âmbito jurídico e forense é fundamentado por cri-
térios científicos e de pressupostos legais, que traduzem as adversidades do contexto
laboral, não apenas ao uso ou escolha de uma técnica ou instrumento que atenda a
normas, mas no conjunto de operações e análises realizadas ao longo do processo
pericial. Verifica-se que as entidades profissionais observam os pontos de revisão de
procedimentos, processos técnico-científicos para desenvolver ações profissionais com
o mesmo rigor científico e qualidade, a fim de garantir um pleno exercício profissional
(American Psychological Association [APA], 2020; Organización Internacional del
Trabajo, 2020; Organización Mundial de la Salud, 2019).
Desde a declaração da Organização Mundial da Saúde (OMS) de 2020 sobre
a pandemia Coronavírus SARS-CoV2 (COVID–19), medidas urgentes e eficientes
foram tomadas para proteger os direitos humanos em todos os momentos, tais
quais a Resolução nº 1/2020, da Comissão Interamericana de Direitos Humanos
(Comisión Interamericana de Derechos Humanos, 2020). A mesma questão não
é diferente do trabalho da Psicologia Jurídica e no mundo, e especialmente no
contexto da América Latina.
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Conselho Federal de Psicologia
A Psicologia Jurídica (em seu papel de intervenção, nas diferentes áreas da
administração da justiça, e considerando o contingenciamento da pandemia) tem
o desafio de desenvolver processos que atendam à necessidade atual, cumprindo
as normas de ciência e as diretrizes legais de cada país. O exercício profissional, a
partir dos princípios da ética, da ciência e da justiça, é embasado em diferentes áreas
e contextos da psicologia jurídica, em atividades essencialmente presenciais. Com
o contingenciamento social da pandemia, essa situação provocou mudanças carac-
terizando como imperativo o fornecimento de diretrizes e recomendações para a
prática/avaliação de especialistas no campo da Psicologia Jurídica, especialmente ao
exercício profissional de qualidade.
Diversas atividades foram caracterizadas por entidades como American
Psychological Association (APA, 2020), Asociacion Latinoamericana de Psicologia Juridica
y Forense (ALPJF, 2021), International Test Comission (ITC, 2014), Associação Brasileira
de Psicologia Jurídica (ABPJ, 2021) e Asociacion Argentina de Estudio e Investigacion
em Psicodiagnostico (ADEIP, 2015), sensíveis às contingências atuais, e desta forma
foram preconizadas instruções técnicas quanto ao manejo de instrumentos psico-
lógicos, procedimentos de atendimento em variados contextos (entrevistas, coleta
de dados e intervenções).
113
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
atividade profissional, elaboração de métricas de valores aos itens definidos e pro-
cessos de acompanhamento e verificação de efetividade. Não somente os aspectos
citados tornam-se importantes para elaboração, mas também a ideia de manutenção
destes valorativa e necessária ao seguimento da atuação profissional, especialmente
a possibilidade de elaboração de sistema de redefinição e qualificação profissional,
de forma a incrementar e fomentar desenvolvimento profissional.
Identificaram-se competências, habilidades e desenvolveram-se indicadores,
critérios para parametrizar um processo dinâmico de acompanhamento e qualifi-
cação técnico-científica. Seguem-se agora apropriação da temática pelos associados
para a ideia, a fim de sensibilizar sua implementação no contexto institucional, ao
mesmo tempo em que empodera o profissional quanto ao gerenciamento de um
processo de autoqualificação.
A Associação Brasileira de Psicologia Jurídica, assim como as demais institui-
ções científicas e profissionais, com psicólogos e profissionais na atuação no campo
jurídico, tem como objetivo fundamental a promoção do desenvolvimento da área
Jurídica, por meio do incentivo à pesquisa, da formação continuada, da comunica-
ção de ações e da avaliação da qualidade dos serviços profissionais dos psicólogos
no campo jurídico.
114
Conselho Federal de Psicologia
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ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
O papel do Instituto Brasileiro
de Avaliação Psicológica
(IBAP) na Construção Histórica
da Psicologia Brasileira
Daniela Sacramento Zanini
Cristiane Faiad
Makilim Nunes Baptista
Katya Luciane de Oliveira
Karina da Silva Oliveira
Fabián Javier Rueda
Hugo Ferrari Cardoso
Marcelo Henrique Oliveira Henklain
116
Conselho Federal de Psicologia
O presente capítulo tem por objetivo apresentar um breve histórico da articu-
lação do papel do Instituto Brasileiro de Avaliação Psicológica (IBAP) na construção
histórica da psicologia brasileira.
117
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
tir de 1962) em sua estruturação como categoria profissional e estabelecimento da
Psicologia como ciência e profissão e afetavam toda a psicologia assim como a AP.
Desta forma, a AP passou gradativamente, e de forma cada vez mais frequente,
a colaborar com processos de operacionalização de conceitos, organização de mo-
delos teóricos e aprofundamento de evidências para os fenômenos alvo da ciência
psicológica (Primi, 2010) para além de importantes contribuições instrumentais no
Brasil e no mundo (Reppold, Zanini, & Noronha, 2019).
A partir da década de 1970 até final da década de 1990, algumas questões foram
significativas no desenvolvimento da psicologia e mais especificamente da avaliação
psicológica e cabem destaque. A primeira diz respeito à expansão vivenciada pela
AP, ou como por vezes era denominada testagem psicológica ou psicotécnico. Em
parte, essa expansão se deveu a sua ampla utilização nos processos de seleção, seja
de pessoal, de trânsito, ou em contexto escolar. Apesar das condições, nem sempre
adequadas, sua expansão contribuiu para o estabelecimento e reconhecimento da
psicologia como ciência e profissão.
Essa expansão dos processos avaliativos trouxe como consequência o segundo
aspecto observado nesse período: o aumento significativo de testes psicológicos dis-
poníveis no Brasil. Estes eram provenientes muitas vezes de importações realizadas
por pessoas físicas ou mesmo editoras e contribuíram para a popularização da AP e,
em última instância, da psicologia. Contudo, essa expansão também trouxe pontos
adversos. Foi nesse período, principalmente no final da década de 1980, que os testes
começaram a receber sérias críticas, principalmente sobre as propriedades psicomé-
tricas e normatização para o contexto nacional. Isso porque era comum a realização
de avaliações baseadas em testes psicológicos importados e apenas traduzidos para
o português, ou seja, sem a realização de estudos de adaptação ou evidências de
validade. Esse tipo de procedimento aumentava as chances de os profissionais da
psicologia tomarem decisões equivocadas em suas avaliações. Por exemplo, quando
uma criança com dificuldades de aprendizagem era avaliada com um instrumento,
sem estudos prévios de adaptação e evidências de validade, e como conclusão se
chegava a um diagnóstico de transtorno de aprendizagem, sendo recomendada a
sua inserção em uma classe especial (Noronha, 2002).
Essas críticas ganharam força no cenário nacional e mobilizaram a área nos
anos subsequentes. De forma específica, levou os pesquisadores de AP a iniciarem a
criação de laboratórios de pesquisas e aplicações práticas em Instituições de Ensino
Superior (IES). Em meados da década de 1980, foi criado o Laboratório de Pesquisa
em Avaliação Psicológica (LabPAM) da Universidade de Brasília (UnB), em 1987, e em
118
Conselho Federal de Psicologia
1988 o Laboratório de Mensuração (LAM) da Universidade Federal do Rio Grande do
Sul (UFRGS). Com essas iniciativas, ainda incipientes, mas que denotavam em espaços
bastantes robustos de produção de conhecimento científico da área, foi que o Brasil
(com representação do professor Luiz Pasquali/LabPAM) começou sua participação
em eventos internacionais promovidos pela International Test Commission (ITC).
Notadamente, os psicólogos pesquisadores da área também iniciaram a criação de
Laboratórios de pesquisa nas IES em diferentes estados brasileiros (ver catálogo de
laboratórios em [Link]) (Silva Filho, Martins, & Silva, 2021).
Também na década de 1980, ou mais especificamente em 1981, iniciaram-se
os esforços para a organização de uma comissão de Avaliação Psicológica abrigada
pelo Conselho Federal de Psicologia (CFP). Na sequência também foram promovidas
reuniões organizadas pela Câmara Interinstitucional de Avaliação Psicológica sob o
apoio do CFP. Contudo, apesar dos esforços da área naquele momento, não houve
avanços significativos naquela década em relação à comissão em AP abrigada pelo
CFP (ver histórico em [Link]).
Apesar disso, a mobilização da área possibilitou a convergência de ações dos
pesquisadores psicólogos que passaram a se reunir para discutir os rumos da avalia-
ção psicológica no contexto nacional. Desse conjunto de reuniões e convergência de
esforços, dois aspectos significativos para a área da AP e de forma geral para história
da Psicologia brasileira cabem destaque. O primeiro foi a criação, em 1992/1993,
do Sistema de Avaliação de Testes Psicológicos (Satepsi) e a criação da Comissão
Consultiva em Avaliação Psicológica (CCAP) pelo Conselho Federal de Psicologia
(Cardoso, & Zanini, 2019). Essa medida foi significativa e está registrada em diferentes
publicações da área como sendo determinante na qualificação da atuação profissional
dos psicólogos em AP e no impulsionamento e desenvolvimento da área (ver, por
exemplo, Reppold, & Noronha, 2018).
O segundo foi a identificação da necessidade de criação de um instituto nacional
da área (ver histórico em: [Link]) e assim surgia o Instituto Brasileiro
de Avaliação Psicológica (IBAP), fundado em 1997 (Nakano, & Roama-Alves, 2019).
Um ano mais tarde, um outro marco importante para o fortalecimento da área de
AP foi a criação do Grupo de Trabalho (GT) da Associação Nacional de Pesquisa e
Pós-graduação em Psicologia (ANPEPP): “Pesquisa em Avaliação Psicológica”, que se
reuniu pela primeira vez em 1998. Esse grupo agregava os principais pesquisadores
em AP na época e que foram responsáveis pela criação do IBAP. Atualmente conta-
-se com seis GTs com área de concentração em avaliação psicológica na ANPEPP,
119
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
demonstrando um aumento significativo do interesse na área e o crescimento do
número de pesquisadores e desenvolvedores de testes psicológicos.
Um importante documento foi produzido por um grupo de pesquisadores da
área de AP, em 2002, intitulado “Em defesa da avaliação psicológica” (Noronha et
al., 2002). Momento esse que demarcou a construção de ações que evidenciaram
a importância da AP para a formação em psicologia, bem como a necessidade de
maiores investimentos para a melhoria da prática no Brasil.
120
Conselho Federal de Psicologia
prezado pelo desenvolvimento da área, estando envolvido em discussões técnico/
políticas no sentido de implementar mudanças expressivas na área da Avaliação
Psicológica. Sempre com o intuito de desenvolver e representar a vocação da área no
Brasil, o IBAP fomenta iniciativas relacionadas ao ensino, treinamento, divulgação e
formação do profissional que trabalha ou se interessa pela AP.
Diversas iniciativas históricas foram realizadas e vêm sendo pensadas nesses
25 anos do instituto, no sentido de sempre contribuir com o desenvolvimento da
Psicologia nacional, na América Latina e no exterior. Como exemplo, o Brasil pos-
sui um dos programas de acompanhamento de testes psicológicos mais respeitados
do ponto de vista mundial, a saber: o Sistema de Avaliação de Testes Psicológicos
(SATEPSI). Por meio dele, o IBAP pode contribuir no desenvolvimento e atualização
de resoluções de grande importância no processo desta iniciativa, por exemplo, com
contribuições expressivas na Resolução nº 9/2018, que estabelece as diretrizes para
a realização da Avaliação Psicológica no exercício profissional da psicologia e que
regulamenta o SATEPSI (CFP, 2018).
Um breve histórico de outras iniciativas do IBAP pode ser encontrado a seguir,
tendo em conta que o espaço de um capítulo não é suficiente para expressar todas as
ações deste instituto, tampouco as suas contribuições para a Psicologia brasileira. Por
exemplo, no aspecto de formação e divulgação de informações científicas, o IBAP
vem organizando os Congressos Nacionais de Avaliação Psicológica, que atualmen-
te se encontra em sua 11° edição, promovendo a disseminação do conhecimento
científico sobre AP para diversas regiões do Brasil, além de eventos menores com
este mesmo intuito, tais como as jornadas de AP, cursos técnicos, lives e “webinars”.
Nesses espaços, é possível fomentar tanto a formação e divulgação técnico/científica
(ex.: pôsteres, apresentações orais de pesquisas), quanto discussões sobre a AP com
autores nacionais e internacionais, bem como discussões de temáticas polêmicas da
área (ex.: avaliações compulsórias).
Ainda em termos de divulgação, a linha de livros que auxiliam os profissionais
em divulgação de conhecimento, bem como de técnicas e processos avaliativos, vem
sendo bastante preconizada pelo IBAP. Como exemplo pode-se citar o primeiro
Compêndio de Avaliação Psicológica publicado na América Latina, organizado por
todos os presidentes do IBAP até a data do lançamento da obra (Baptista et al., 2019).
Nesta mesma linha, o instituto desenvolveu o selo IBAP de qualidade em publicações
técnico/científicas e já conta com mais de quatro obras publicadas, além de várias
outras que estão sendo organizadas com a contribuição dos principais docentes, pes-
quisadores e psicometristas da área, sendo livros de referência para pesquisadores e
121
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
profissionais em formação na área de AP. Temáticas como formação e estratégias de
ensino da avaliação (Oliveira et al., 2021), guias para a prática profissional (Oliveira,
Schelini, & Barroso, 2021), avaliação em contextos de vida (Mansur-Alves et al., 2021),
psicologia positiva e tutoriais em análise de dados (Faiad, Baptista, & Primi, 2021) são
algumas das contribuições para a área.
Desde 2001, o IBAP publica a revista de Avaliação Psicológica, que periodica-
mente divulga materiais científicos e técnicos, além de ser reconhecida e indexada em
bases de dados nacionais, da América latina e Caribe e internacionais (ex.: SCOPUS),
tendo um dos impactos mais significativos da área em termos de citações científicas.
Segundo o site Scopus, no período de 2015 a 2021, a revista acumulou mais de 240
artigos publicados ([Link]
O IBAP também esteve presente na organização do ano temático da AP, que
ocorreu em 2011, com diversas atividades e textos geradores de grande expressividade
para a Psicologia brasileira, já que a avaliação psicológica permeia todos os contex-
tos da psicologia, tais como a psicologia clínica, da saúde, organizacional/trabalho,
educacional/escolar, jurídica, esporte, trânsito, entre outras.
O primeiro curso de especialização na área de AP no Brasil também foi proposto
pelo IBAP, nos anos de 2007/2008, no intuito de ampliar o oferecimento de formação
de qualidade para os profissionais da Psicologia. Também o IBAP esteve à frente do
reconhecimento da especialização da Avaliação Psicológica pelo Conselho Federal de
Psicologia, que se concretizou no ano de 2019, um outro marco para a área (CFP, 2019).
O IBAP também tem se comprometido com um plano de ação nacional para a
área de avaliação psicológica, por meio da atuação da Comissão Consultiva de Avaliação
Psicológica (CCAP) do CFP, na qual em sua composição (gestão 2017-2019 e 2020-2022)
há membros representantes indicados pelo IBAP, considerando que o instituto faz
parte FENPB. Por essa via, o IBAP tem se implicado com as regulações propostas pelas
Resoluções nº 9/2018 e 6/2019 (ambas do CFP), inclusive propondo ações formativas
oferecidas pelo instituto, nas quais instrumentalizou os profissionais na escrita de do-
cumentos psicológicos tal qual aconteceu nos anos de 2019, 2020 e 2021.
Nos últimos três anos, o IBAP também teve papel fundamental na organização
de diretrizes do ensino e formação, bem como na condução da AP durante a pande-
mia de Covid-19 (Zanini et al., 2020), momento em que várias práticas tiveram que
ser revistas, bem como métodos de ensino da AP pelos docentes (Lima et al., 2021;
Zanini et al., 2021). O instituto manteve, neste período, uma série de iniciativas no
sentido de discutir e propor estratégias de ensino e avaliação nestes novos tempos,
122
Conselho Federal de Psicologia
assim como acompanhar as novas formas de atendimento e, consequentemente,
avaliação que se associavam aos serviços on-line da Psicologia.
Atuou, ainda, na tentativa de converter a decisão do Supremo Tribunal Federal
(STF), que neste ano de 2022 julgou os embargos de declaração protocolados pelo
Conselho Federal de Psicologia na Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) nº 3.481,
proferindo decisão pela liberação da comercialização de testes favoráveis. Entre as
ações investidas, o IBAP realizou eventos públicos como a Marcha em Defesa dos Testes
Psicológicos, lives e palestras, dando visibilidade às consequências que essa decisão
poderá trazer para a sociedade. Mais ainda, em conjunto com a Associação Brasileira
de Rorschach e Métodos Projetivos (Asbro) e GTs de avaliação psicológica da ANPEPP,
formou um grupo que se reuniu para o enfrentamento da ADI nº 3.481 e levantan-
do possibilidades para a área a luz das consequências desta decisão. Essa ação foi de
fundamental importância em termos de reunir pesquisadores e desenvolvedores dos
testes e proporcionar espaço profícuo de discussão e análise do futuro da área no Brasil.
Considerações Finais
O presente capítulo buscou apresentar um histórico da articulação do papel
do Instituto Brasileiro de Avaliação Psicológica (IBAP) na construção histórica da
psicologia brasileira. Desta forma, apresentou, brevemente, o desenvolvimento e
implementação da Psicologia como ciência e profissão e sua articulação com a área de
Avaliação Psicológica no Brasil e mais especificamente o papel do IBAP nesse processo.
De acordo com o apresentado, pode-se afirmar que, se entidades como a
American Psychological Association, a American Educational Research Association, o
National Council on Measurement in Education, o International Association of Applied
Psychology, o International Union of Psychological Science e a International Test
Commission trazem parâmetros técnicos-científicos para a área de avaliação psico-
lógica (Weschler, 2019), no Brasil, o IBAP tem apresentado uma história de produção
exímia na defesa da área de AP, promovendo a produção de conhecimento e a sua
divulgação (Oliveira, Muniz, & Inácio, 2021). Pela amplitude de suas contribuições à
psicologia e, em especial, à área de AP, coube ao presente capítulo apresentar o papel
do IBAP na construção e na consolidação da área de avaliação psicológica no Brasil.
A história da avaliação psicológica brasileira e a do IBAP se fundem em muitos
momentos, como aqueles nos quais os fundadores do instituto participaram no IV
Congresso Brasileiro de Psicologia, o que culminou com a publicação das Resoluções
nº 25/2001 e 2/2003, marcos importantes para área de AP brasileira ou quanto à fun-
123
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
dação do primeiro grupo de trabalho da área de AP na ANPEPP. A história do IBAP
não é estanque, afinal a AP consiste em uma área na qual o seu desenvolvimento e
corpo são dinâmicos e a sua composição ainda está acontecendo.
Muito ainda há que ser pavimentado nesse futuro tão incerto para a avaliação
psicológica. Um futuro que convocará a transposição das barreiras impostas por con-
dições pandêmicas, um futuro no qual lidaremos com as realidades em multiversos,
em que se deverá (re)aprender que avaliação psicológica também é um processo
sensível no olhar e cuidado com o outro; um futuro no qual a ação consequencial de
uma avaliação deve ser fundada no nosso compromisso com os direitos humanos e
com a ética. Um futuro no qual certamente o IBAP continuará ajudando a construir.
124
Conselho Federal de Psicologia
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ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
Psicologia do Desenvolvimento
no Brasil: Desafios
e Perspectivas
Ana Cristina Garcia Dias
128
Conselho Federal de Psicologia
A Psicologia do Desenvolvimento frequentemente é considerada por muitos
como uma área que estuda apenas crianças e adolescentes (Mota, 2005), uma vez que
alguns manuais sobre o tema abordam apenas ou predominantemente essas etapas
do ciclo vital. Contudo, a American Psychological Association ([APA], 2014), uma das
principais associações de Psicologia do mundo, define que o campo da Psicologia do
Desenvolvimento tem como foco o crescimento humano e as mudanças ao longo
do ciclo vital, incluindo o desenvolvimento físico, cognitivo, social, intelectual, per-
ceptivo, emocional e da personalidade.
O objetivo da Psicologia do Desenvolvimento é compreender como os seres
humanos aprendem, amadurecem e se adaptam no curso da vida. Nota-se, portan-
to, que o campo é muito abrangente, o que faz com que a definição de seu escopo
seja uma tarefa complexa, uma vez que faz interface com outras áreas da Psicologia
(Biaggio, 1978) e com outras áreas do conhecimento, como a própria ciência do de-
senvolvimento humano (Dessen, & Costa Júnior, 2006).
Biaggio (1978) considera que as fronteiras que delimitam o campo não são nítidas,
podendo a definição desta área no campo da Psicologia ser uma divisão arbitrária à
medida que várias subáreas da Psicologia estudam mudanças em comportamentos
e processos, considerando a variável tempo. Para a autora, a Psicologia do desenvol-
vimento busca compreender tanto condições internas como externas ao indivíduo,
considerando as mudanças em dado momento, contextualizadas ao longo do ciclo
vital. Da mesma forma, é importante compreender que “tais mudanças podem ter
muitos pontos de partida e muitos pontos de chegada, e podem levar a várias direções
ao mesmo tempo (Biaggio, p. 22, 1978). Assim, o estudo do desenvolvimento humano
deve levar em consideração fatores individuais, interpessoais, sociais e históricos,
buscando reconhecer a diversidade humana.
A Psicologia do Desenvolvimento se constituiria em um campo próprio para
alguns autores em função de seus objetos e métodos. Biaggio (1978) propôs que três
critérios distinguem essa especialidade de outros campos da Psicologia: 1) interesse
em mudanças de comportamento que ocorrem durante um longo período do desen-
volvimento (atenção a estágios, sequências, ciclos); 2) o foco em comportamentos que
ocorrem em períodos de transição rápida e instabilidades; e 3) o foco nas mudanças que
ocorrem ao longo do ciclo vital. Observamos nessa definição que o principal critério
para estudo do desenvolvimento são as mudanças que ocorrem ao longo do ciclo vital.
Já Newcombe (1999), por sua vez, chama a atenção para três aspectos considerados
nos estudos da Psicologia do Desenvolvimento: 1) aqueles universais, compartilhadas
por todos os seres humanos ao longo de seu desenvolvimento, 2) aqueles singulares
129
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
e específicos que caracterizam o desenvolvimento de cada indivíduo e 3) aqueles
contextuais, ou seja, as influências ambientais que afetam, transformam, favorecem
ou obstruem o desenvolvimento dos indivíduos. Essa abordagem complementa a
anterior enfatizando a necessidade de consideração de variáveis contextuais para
a compreensão dos aspectos universais e singulares do desenvolvimento humano.
Em síntese, a área não apresenta uma definição única que abarque os diferentes
fatores envolvidos no Desenvolvimento Humano. Diferentes autores apontam que, em
seus primórdios, a área privilegiou o uso de métodos experimentais e observacionais
para o estudo do desenvolvimento humano. Esta metodologia, embora tenha possi-
bilitado a testagem e construção de teorias com fortes evidências empíricas, muitas
vezes negligenciou os aspectos contextuais do desenvolvimento ou as mudanças que
ocorrem ao longo do tempo, sendo que estudos longitudinais trazem informações
valiosas sobre questões específicas da área (APA, 2014; Biaggio, 1978; Dessen, & Costa
Junior, 2005; Newcombe, 1999). Publicações recentes ainda destacam que a comple-
xidade do objeto de estudo da Psicologia do Desenvolvimento implica a utilização
de métodos qualitativos ou mistos, contextualizados historicamente e socialmente
(Barros, & Coutinho, 2020; Pizzinato et al., 2021), uma vez que os processos humanos
de desenvolvimento podem estar sendo cada vez mais afetados pelas transformações
sociais e tecnológicas contemporâneas.
Parece ser um consenso também que a área de Psicologia do Desenvolvimento
é um campo eminentemente acadêmico, com os psicólogos do desenvolvimento
trabalhando em universidades e/ou centros de pesquisa, com foco principalmente
nas atividades de pesquisa ou ensino (APA, 2014). Isso também é verdadeiro para
o contexto brasileiro. Em análises realizadas por autores brasileiros (Barros, &
Coutinho, 2020; Seidl-de-Moura, & Moncorvo, 2006), embasadas em dados de
nosso sistema de Pós-graduação em Psicologia, observa-se que, apesar da inegável
importância da produção de conhecimento na área, há dificuldades tanto de se
estabelecer qual é (ou seria) o fazer do psicólogo do desenvolvimento quanto de
definir o que constitui uma linha de pesquisa em Psicologia do Desenvolvimento.
Barros e Coutinho (2020), ao analisar o Estatuto Social da Associação Brasileira de
Psicologia do Desenvolvimento, descrevem escassas referências às práticas e ao
mundo do trabalho do Psicólogo do Desenvolvimento.
Diferentes autores demonstram como os conhecimentos desse campo são
importantes para a atuação de psicólogos de outros campos aplicados (por exemplo,
psicologia da saúde, psicologia da educação, psicologia ambiental…) assim como para
profissionais de outras áreas (como saúde, educação, assistência social, entre outros).
130
Conselho Federal de Psicologia
A área tem sido percebida como um conjunto de teorias que pode ser aplicada a
diferentes contextos e especialidades (Barros, & Coutinho, 2020; Dessen, & Costa
Júnior, 2005; Mota, 2005). No entanto, a incorporação e aplicação dos conhecimen-
tos por ela produzida é isenta da proposição e legitimação de práticas excludentes
(Hillesheim, & Guareschi, 2007; Pizzinato et al., 2021).
Por fim, nesta seção destaca-se que a Psicologia do Desenvolvimento Humano
tem sido incluída como uma das subáreas que contribuem para a Ciência do
Desenvolvimento Humano. Esse é um campo multidisciplinar que “focaliza a on-
togênese dos processos evolutivos, destacando desde os eventos genéticos até os
processos culturais, desde os processos bioquímicos e fisiológicos até as interações
sociais, com os padrões de adaptação sendo entendidos mediante interações dos
níveis internos e externos ao indivíduo” (Dessen, & Costa Júnior, 2005, p. 11).
Esse paradigma interdisciplinar e multimetodológico enfatiza o caráter com-
plexo, contextual, histórico e sistêmico do desenvolvimento humano, realçando a
necessidade de diálogo e integração de diferentes saberes nesta área. Ele busca superar
a fragmentação que o estudo do desenvolvimento humano sofre em virtude de que
cada disciplina foca em aspectos específicos relacionados ao desenvolvimento. Assim,
essa conversa tanto teórica quanto metodológica entre diferentes áreas/disciplinas,
além de permitir a integração de conhecimentos, facilita a proposição de estratégias
de promoção do desenvolvimento e prevenção de problemas mais efetivas, na medi-
da em que abarcam uma compreensão global do indivíduo e seu desenvolvimento.
131
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
A fundação da sociedade surgiu do reconhecimento da importância da área para
a formação de profissionais de diferentes campos de conhecimento, da necessidade
de agregar pesquisadores interessados na produção de conhecimento nessa área de
conhecimento e na intenção de visibilizar a produção nacional e fomentar maior
intercâmbio tanto em âmbito nacional como internacional. Observa-se que tanto o
primeiro congresso (realizado no Rio de Janeiro e promovido pela professora Maria
Lúcia Seidl-de-Moura) no ano de 1996 quanto o segundo Congresso Brasileiro de
Psicologia do Desenvolvimento (realizado em Gramado e promovido pelos professo-
res Claudio Hutz e Silvia Koller no ano de 1998) estiveram associados aos simpósios
promovidos pela Associação Nacional de Pós-graduação e Pesquisa em Psicologia
(ANPEPP) (Diretorias da ABPD, 2019). Isto revela o caráter fortemente acadêmico
da ABPD, desde a sua fundação até os dias de hoje.
Algumas pesquisadoras atuaram como pioneiras da Psicologia do
Desenvolvimento no Brasil, entre elas as presidentes eméritas da associação, a
saber, as professoras Ângela Maria Brasil Biaggio, Maria Clotilde Rossetti Ferreira,
Thereza Pontual Lemos Mattel e Vera Maria Lemos Vasconcellos. Outros sócios
fundadores da associação e membros da diretoria que contribuíram e contribuem
de forma ativa para o desenvolvimento da Psicologia do Desenvolvimento no país
podem ser encontrados no site da ABPD ([Link]
A ABPD tem como missão: promover a troca de informações sobre as pes-
quisas e questões de interesse comum que possam resultar no aprimoramento da
Psicologia do Desenvolvimento; promover o aperfeiçoamento dos currículos dos
cursos de graduação e pós-graduação em Psicologia, oferecendo subsídios e pres-
tando esclarecimentos sobre os avanços da Psicologia do Desenvolvimento; cooperar
com o ensino e a pesquisa em Psicologia do Desenvolvimento, atuando como cen-
tro de referência, prestando informações sobre atualização científica, experiências
educacionais, mercado de trabalho, aplicações do conhecimento da psicologia e
outras informações que subsidiem a divulgação e o aprimoramento da Psicologia
do Desenvolvimento; promover o intercâmbio com entidades governamentais e não
governamentais (tais como: Conselho Federal de Psicologia, Conselhos Regionais de
Psicologia, Entidades Científicas, Sindicatos de Psicólogos, Associações Profissionais
de Psicologia, Associações de Estudantes de Psicologia, cursos de graduação e pós-gra-
duação em Psicologia e entidades que congreguem docentes ou discentes dos cursos
de Psicologia e áreas afins, do país e do exterior); promover a colaboração com outras
entidades interessadas no ensino e na pesquisa da Psicologia do Desenvolvimento,
podendo filiar-se a entidades nacionais e internacionais que tenham objetivos simi-
132
Conselho Federal de Psicologia
lares; celebrar convênios, acordos, contratos ou ajustes com entidades públicas ou
privadas, nacionais ou não, para a realização de seus objetivos; promover atividades
periódicas no âmbito de interesse dos seus associados; e contribuir para o cumpri-
mento de dispositivos legais relacionados a questões éticas da profissão e da pesquisa
na Psicologia do Desenvolvimento (ABPD, 2007).
Desde seus momentos iniciais, os congressos têm sido os momentos marcantes
da história da associação. Os congressos permitem reunir estudantes, profissionais,
professores e pesquisadores que buscam se atualizar em termos de conhecimento e
divulgar suas práticas e pesquisas. Eles favorecem reflexões sobre questões teóricas
e metodológicas assim como acerca da relevância social do campo de estudo, pro-
movendo a discussão sobre intervenções que visam a prevenir riscos e promover
o desenvolvimento humano. Além disso, oferecem um espaço para trocas entre os
participantes, o que permite o desenvolvimento de parcerias, intercâmbios e o de-
senvolvimento de projetos multicêntricos.
Destaca-se ainda que os temas dos congressos tanto podem oferecer um retrato
da área no momento em que são realizados como podem indicar lacunas importan-
tes nos conhecimentos produzidos por ela. Por exemplo, o tema do último evento
“Compromisso ético e político com a promoção do desenvolvimento Humano”
sinaliza que atualmente psicólogos que trabalham no contexto brasileiro devem
assumir certos compromissos, ou ao menos considerar, certas desigualdades sociais
e históricas que ocorrem e ocorreram no país em suas pesquisas e fazeres.
Os congressos têm sido realizados em diferentes cidades do país bianualmente
(1996 – Rio de Janeiro; 1998 – Gramado; 2000 – Rio de Janeiro; 2003 – João Pessoa;
2005 – São Paulo; 2007 – Vitória; 2009 – Rio de Janeiro; 2011 – Brasília; 2013 –
João Pessoa; 2015 – Belém; 2017 – Sergipe; 2019 – Florianópolis). A circulação do
congresso por diferentes regiões está relacionada à composição das diretorias da
Associação, que buscam ser compostas por pessoas de diferentes regiões do país.
Essa diversidade possibilita a circulação de diferentes ideias e fazeres referentes à
Psicologia do desenvolvimento humano, com vistas a uma constante renovação e
atualização do conhecimento. Além disso, destaca-se que essa alternância de cidades
e regiões busca facilitar que estudantes e profissionais de diferentes locais do país
possam participar do evento.
Cabe destacar que a pandemia de COVID-19 inviabilizou a realização do evento
de forma presencial com a periodicidade prevista. Esse evento levou a atual direto-
ria da associação a refletir sobre outras formas possíveis de atuação que pudessem
auxiliar no desenvolvimento e consolidação da área no Brasil. Nesse sentido, foram
133
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
promovidas ações que buscaram divulgar a produção desenvolvida por pesquisa-
dores da área de Psicologia do Desenvolvimento. Algumas delas foram o edital para
produção de e-books de disponibilização gratuita, o desenvolvimento de números
especiais de revista voltados à Psicologia do Desenvolvimento Brasileira, a chamada
e distribuição de materiais psicoeducativos e de divulgação da ciência produzidos
por associados voltados a interessados na área. Além disso, como o que ocorreu na
sociedade em geral, foram intensificadas as formas de comunicação virtual da asso-
ciação, por meio do desenvolvimento de lives, seminários virtuais e a utilização de
recursos como boletins e redes sociais. Na página da ABPD – [Link]
–, podemos observar várias produções neste período, bem como materiais voltados
à população e a profissionais relacionados à própria pandemia.
134
Conselho Federal de Psicologia
Figura 1 – Nuvem de palavras de trabalhos apresentados em simpósios e
mesas-redondas
profissionais criança
contexto sociais tecnologias promoção
programa
socialização
saúde desafios
parentalidade
estudo evidências
desenvolvimento mães
brincadeiras estratégias
qualidade moral
social
crianças
cultural autismo
relação
interação relações depressão
emocional parental
psicologia intervenção avaliação
educação
Fonte: Elaboração Própria (2022)
135
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
Figura 2 – Nuvem de palavras de trabalhos apresentados
em comunicações orais
desenvolvimento mães
transtorno estudo análise filhos
desafios
família
avaliação
perspectiva acolhimento
relações
psicológos
educação gênero partir
Fonte: Elaboração Própria (2022)
136
Conselho Federal de Psicologia
Figura 3 – Nuvem de palavras de trabalhos apresentados em pôsteres
sistemática
violência tecnologias social saúde
estudantes relação
estudo
literatura
familiar
experiência
sociais
saúde professores psicológos
adolescentes
escola vida parentais promoção
transtorno mulheres
desenvolvimento
avaliação autista
contexto comportamento filhos
avaliação
crianças
pais
contexto espectro
interação avaliação
intervenção
revisão relato
infância percepção
perspectiva
educação saúde uso projeto
Fonte: Elaboração Própria (2022)
137
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
ao conhecimento produzido e suas possíveis aplicações, questionando práticas nor-
matizadoras, universalizantes e excludentes.
Destaca-se ainda que, em termos teóricos, além da adoção de diferentes pers-
pectivas teóricas de estudo, a atenção de aspectos culturais, sistêmicos e processuais
estão sendo adotados em suas produções (XXII Congresso Brasileiro de Psicologia do
Desenvolvimento e I Conferência Internacional de Psicologia do Desenvolvimento,
2019, Pizzinato et al., 2022). Neste sentido, também há o reconhecimento da necessi-
dade de adoção de metodologias mais complexas, criativas e integradoras para abordar
os fenômenos e processos presentes no desenvolvimento humano. Isso possivelmente
decorre da atenção e ressignificação que os pesquisadores estão reconhecendo no
campo. Questionamentos éticos e políticos necessários à produção e aplicação dos
conhecimentos produzidos têm sido foco de reflexão e debate.
Apesar dos avanços, alguns desafios históricos apontados por diferentes pesqui-
sadores, desde a fundação da Associação Brasileira de Psicologia do Desenvolvimento,
ainda estão presentes e devem ser superados. O campo no Brasil ainda precisa voltar
seu olhar para outras etapas do ciclo vital. Da mesma forma, populações vulneráveis
e mais heterogêneas precisam ser pesquisadas, sem a adoção de perspectivas tradi-
cionalmente utilizadas para referendar conhecimentos já produzidos e que muitas
vezes contribuem para a manutenção de práticas normatizadoras e patologizantes.
Assim o questionamento da produção de conhecimentos, pesquisas e práticas hete-
ronormativas, eurocentricas e não racializadas, que não abordam questões culturais,
políticas, históricas e contextuais devem ser abandonadas.
Os psicólogos do desenvolvimento ainda estão muito voltados ao ensino e à
pesquisa. Os conhecimentos produzidos pela área são incorporados nas práticas
de outras áreas da Psicologia, assim como por educadores, profissionais da saúde e
da assistência. A Psicologia do Desenvolvimento, como aplicação, ainda precisa ser
desenvolvida. Nem tanto, talvez, como uma especialidade prática em si mesma, mas
como uma especialidade de conhecimento capaz de oferecer subsídios em diversos
contextos de prática, tanto da Psicologia quanto de disciplinas afins.
Além disso, a área apresenta desafios tanto no campo da pesquisa quanto da
divulgação do conhecimento. A produção de conhecimento ainda é desenvolvida,
em grande parte, por grupos isolados no país, ou seja, os grupos de pesquisa são
constituídos por um pesquisador e seus orientandos, com poucos intercâmbios com
pesquisadores e grupos de outras instituições e centros de pesquisa, sejam brasileiras
ou internacionais. Desta forma, mais intercâmbios nacionais e internacionais devem
ser promovidos. Em termos de produção, é necessário conferir maior visibilidade
138
Conselho Federal de Psicologia
à produção nacional tanto dentro quanto fora do país. Observa-se que, no Brasil,
não há um periódico de referência na área, apenas linhas editoriais em um número
modesto de revistas que trabalham com a produção acadêmica da área.
Em termos de divulgação da ciência e dos conhecimentos produzidos pelo
campo, alguns esforços iniciais estão sendo adotados. Essa atenção pode ter sido
fruto da pandemia e da busca da ABPD por esse tipo de material. A divulgação das
pesquisas é predominantemente realizada em revistas acadêmicas, adotando-se uma
linguagem formal, que nem sempre é acessível a profissionais que atuam em contextos
aplicados da Psicologia ou de disciplinas afins. Além disso, poucos estudos relatam
realizar uma devolução para os participantes das pesquisas. Assim, considera-se que
a área ainda precisa dar mais atenção à transformação e difusão de conhecimentos
para profissionais e população geral, em linguagem acessível, com materiais atrativos.
Dessa forma, a Psicologia do Desenvolvimento poderá ampliar seu impacto social e,
ao mesmo tempo, ganhar mais reconhecimento e valorização tanto nos contextos
de pesquisa e ensino quanto da sociedade em geral.
139
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
Referências
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Conselho Federal de Psicologia
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Its evolution from ecology to bioecology. Journal of Family Theory, & Review, 5(4),
pp. 243-58. doi: 10.1111/jftr.12022
141
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
Formação em Psicologia:
a ABEP, sua História,
Contribuições e Desafios Atuais
Antonio Alexandre Iorio Ferreira
Ângela Soligo
Irani Tomiatto de Oliveira
142
Conselho Federal de Psicologia
também, realizar ações de interesse regional e levar à direção nacional as demandas
de seu território. Atualmente, contamos com 11 Núcleos Regionais, organizados por
uma coordenação composta por 3 membros.
A entidade conta ainda com uma secretaria, responsável pelo trabalho admi-
nistrativo e apoio às atividades desenvolvidas.
Para efetivação de seu trabalho, a ABEP tem produzido documentos e lite-
ratura especializada, elaborado ferramentas e implementado atividades ligadas à
formação, a saber:
• Revista Psicologia e Formação – a publicação apresenta textos teóricos, resulta-
dos de pesquisa e relatos de experiência sobre formação em Psicologia e sobre
temas de interesse para a formação.
• Boletins mensais – por meio dos Boletins, a ABEP mantém um regular canal
de diálogo com a comunidade acadêmica, transmitindo notícias de interesse
da formação, apresentando textos reflexivos sobre questões relevantes, mani-
festando posições da entidade sobre temáticas que afetam o país, a educação, a
saúde e o ensino superior e informando sobre datas importantes e eventos. Os
Boletins são também canais para comunicações dos Núcleos Regionais.
• Encontro Nacional – a cada dois anos, a ABEP realiza seu Encontro Nacional
(12 até hoje), alternando o local do evento de modo a contemplar as diversas
regiões deste país de proporções continentais. No Encontro Nacional, são
apresentados conferências, mesas redondas, diálogos, rodas de conversa, mi-
nicursos, a partir de eixos definidos que refletem as demandas e princípios da
formação, abarcando discussões teóricas, pesquisas e relatos de experiência.
Também no Encontro acontecem os Fóruns ABEP – Fórum de Coordenadoras/
es; Fórum de Orientadoras/es e Supervisoras/es de Estágio e Docentes, Fórum
de Estudantes, Fórum de Núcleos e o recém organizado Fórum de Avaliadoras/
es de Curso de Psicologia. O intuito, nesses momentos, é favorecer o diálogo,
a conversação não formatada, a troca de experiências que permitam a reflexão
coletiva e o estabelecimento de metas e tarefas para os anos seguintes, bem
como o fortalecimento de vínculos entre os atores da formação.
Além do Encontro Nacional e como ação coordenada, são realizados os Encontro
Regionais, de responsabilidade dos Núcleos ABEP. Os encontros têm caráter prepa-
ratório para o Encontro Nacional e configuram momentos de trocas e incentivo à
participação na ABEP.
Outra iniciativa que se insere no contexto do Encontro Nacional é a outorga
do Prêmio Sílvia Lane, destinado a Trabalhos de Conclusão de Curso e Relatórios
de Estágio realizados por estudantes de Graduação, que se destacam pela relevância
143
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
e qualidade. O prêmio, que já está em sua 12ª. edição, é uma iniciativa que visa a in-
centivar, valorizar e divulgar os trabalhos realizados por estudantes. Periodicamente,
são publicadas edições com os trabalhos premiados.
No contexto da Pandemia da Covid-19, foram organizados dois Seminários
Virtuais, o primeiro para debater sobre as demandas decorrentes das atividades for-
mativas remotas, o segundo para pensarmos coletivamente o futuro da formação.
Os seminários tornaram-se um evento anual e regular da ABEP, a partir de 2022, em
anos alternados com os do Encontro Nacional.
Também, a partir de 2021, a ABEP oferta um curso de atualização para coor-
denadoras/es e docentes de Psicologia, ministrado por membros da diretoria, que
visa a oferecer informações sobre aspectos históricos da formação, instrumentos
reguladores, processo de construção dos Projetos Pedagógicos de Curso, produção
de documentos e conteúdos relativos à Licenciatura.
A ABEP mantém contato direto com coordenadoras/es do Curso de Psicologia
para troca de informações e diálogos sobre questões da formação, principalmente as
que surgem no cotidiano das IES e as referentes às políticas para o Ensino Superior
e para os Cursos de Psicologia.
A Associação mantém também páginas e perfis na internet, Facebook, Instagram,
Youtube, como mecanismos de comunicação, interação e transmissão de conteúdos
produzidos pela entidade ou de interesse da formação. Tais ferramentas têm a po-
tência de dialogar mais diretamente com estudantes de Psicologia.
Parcerias e Participações
As ações e iniciativas da ABEP não se configuram como ações isoladas, ao con-
trário, coerentes com a tarefa de mediação, são implementadas em parceria com
outras entidades, entre as quais destacamos: O Conselho Federal de Psicologia (CFP)
e o Sistema Conselhos de Psicologia (CRPs); a Associação Brasileira de Psicologia
Escolar e Educacional (ABRAPEE); a Federação Nacional dos Psicólogos (FENAPSI).
Na perspectiva das ações coletivas, a ABEP compõe o Fórum de Entidades
Nacionais da Psicologia Brasileira (FENPB); a Associação Latino-americana de
Formação e Ensino de Psicologia (ALFEPSI); a União Latino-americana de Entidades
de Psicologia (ULAPSI); a Comissão Intersetorial de Recursos Humanos e Relações
de Trabalho (CIRHRT), do Conselho Nacional de Saúde; o Grupo de Trabalho or-
ganizado pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), em parceria com a
Associação Brasileira de Educação Médica (ABEM), a fim de constituir uma proposta
144
Conselho Federal de Psicologia
de “Doutorado Profissional em Rede em Educação em Saúde“; o Fórum Nacional
Popular da Educação (FNPE) com CFP e ABRAPEE, em que participamos da Comissão
Organizadora das comemorações do Centenário de Paulo Freire.
Junto ao Conselho Federal de Psicologia, compomos o Grupo de Trabalho
Psicoterapia e Estágios, com vistas à produção de referências para atuação e formação
de psicólogas/os. Como produção do GT Psicoterapia, foi recentemente publicada a
Resolução CFP nº 13, de 15 de junho de 2022,1 que dispõe sobre diretrizes e deveres
para o exercício da psicoterapia por psicóloga e por psicólogo.
Ações Estratégicas
Desde sua criação, a ABEP tem trabalhado intensamente em favor da qualifi-
cação do ensino e dos estágios em Psicologia.
Em 2011 foram aprovadas as Diretrizes Curriculares Nacionais para os Cursos
de Graduação em Psicologia2, em substituição às de 2004,3 com as quais guardam
similitude, porém alteravam os regramentos sobre a Licenciatura, que passava a ser
de oferta obrigatória para as Instituições de Ensino.
Foram muitos os momentos de debates, orientações a coordenações de curso,
e realização de Seminário para discutir a Licenciatura e fazer a escuta das coordena-
ções, suas dificuldades e os caminhos encontrados.
Na perspectiva da qualificação dos estágios em Psicologia, lançamos em 2013,
em parceria com o Conselho Federal de Psicologia, a Carta de Serviços Sobre
Estágios e Serviços-Escola4, que contém referências, orientações e parâmetros para
a realização dos estágios obrigatórios e não obrigatórios, supervisão e orientação e
o funcionamento do Serviço-Escola, tendo como referências a Lei de Estágios5 e as
especificidades de nossa área.
145
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
Os anos seguintes, em especial a partir de 2016, trouxeram o avanço das políti-
cas de EaD (Educação a Distância), com propostas do MEC para sua implantação nos
cursos da área da Saúde, em que se insere a Psicologia. Foram muitas as iniciativas
da CIRHRT/CNS para refrear as investidas do MEC, que resultaram na proposição
de Diretrizes Curriculares para a formação na área de Saúde6, documento que teve
intensa participação da representação da ABEP.
Também a partir de recomendação do CNS e considerando que já era mo-
mento de reavaliar as DCN de 2011, a ABEP, o CFP e a FENAPSI organizaram um
amplo processo democrático e participativo para revisão das Diretrizes Curriculares
de Psicologia, no ano de 2018. Foram ao todo 118 Reuniões Preparatórias realizadas
em todas as regiões do país, com a presença de docentes, estudantes, profissionais
de Psicologia, que resultaram em propostas que foram compiladas e analisadas nos
Encontros Regionais. Desses Encontros, foram aprovadas propostas que, novamente
compiladas, foram discutidas no Encontro Nacional, realizado em 5 de maio de 2018.7
Do Encontro Nacional, foram aprovadas as propostas que deram origem à
Minuta de Diretrizes Curriculares que foi então colocada em consulta pública, tendo
também recebido contribuições das entidades do FENPB.
Concluído o texto da Minuta, essa foi encaminhada ao Conselho Nacional de
Saúde, obtendo total aprovação, e ao Conselho Nacional de Educação. No CNE, foi
criado um GT para análise da Minuta e, de parte das Entidades da Psicologia, no-
meada uma comissão que faria a mediação com o GT, composta pelas professoras
Dra. Irani Tomiatto de Oliveira e a Dra. Raquel Guzzo e pelo professor Dr. Antônio
Virgílio Bastos. Foi um intenso processo de negociação, que resultou no texto das
Diretrizes Curriculares aprovadas pelo CNE em dezembro de 2019.8
As novas Diretrizes Curriculares, que aguardam aprovação do Ministério da
Educação, guardam coerência com os princípios dos Direitos Humanos, democra-
cia, inclusão e atenção à diversidade humana, assim como o compromisso com as
políticas públicas garantidoras de direitos. Em seu artigo terceiro, estabelecem como
princípio a formação presencial.
Recentemente, o estabelecimento da formação presencial foi retirado do texto das
Diretrizes, por iniciativa unilateral do CNE, em obediência ao MEC, porém o parecer que pro-
põe essa alteração ainda não foi homologado e se constitui hoje uma de nossas frentes de luta.
146
Conselho Federal de Psicologia
A pandemia da Covid 19 trouxe novas demandas e preocupações. A proximida-
de da morte, sua inexorabilidade, a perda de pessoas queridas e o luto tornaram-se
presentes em nosso cotidiano. A inevitável quarentena e o longo período de afas-
tamento social impuseram a transposição das atividades educativas presenciais, em
todos os níveis, para meios remotos.
Não foi um processo tranquilo, ao contrário, demandou rápida absorção e
aprendizagem do manejo de tecnologias antes distantes da prática pedagógica, em
meio às dificuldades de acesso às tecnologias de grande contingente de estudantes,
principalmente em regiões mais carentes do país.
Para a Psicologia, cuja identidade profissional exige presencialidade, interação,
vivência da pluralidade de perspectivas teóricas e de vidas, o ensino remoto consti-
tuiu-se em grande desafio, principalmente para as atividades práticas e de estágio.
Foram meses de escuta dos problemas e dúvidas levantadas por docentes, estudantes,
coordenações de curso, que nos deram a certeza da necessidade de retomar processos
coletivos de diálogo. Em colaboração com o Conselho Federal de Psicologia, foram or-
ganizados Seminários com a comunidade acadêmica de todo o país, que resultaram na
proposição do Documento de Recomendações para Estágios e Práticas Emergenciais9,
apresentado em Seminário Nacional virtual e amplamente divulgado. Esse documento
tem sido importante referência para coordenações e cursos de Psicologia.
Foi também muito importante, nesses últimos anos, nossa participação nas
ações organizadas em parceria com o Conselho Federal de Psicologia, a Federação
Nacional dos Psicólogos, a Associação Brasileira de Psicologia Escolar e Educacional,
o Conselho Federal de Serviço Social, a Associação Brasileira de Ensino e Pesquisa
em Serviço Social, para aprovação e implementação da Lei nº 13.935,10 que institui os
serviços de Psicologia e Serviço Social na educação básica pública. A lei traz a neces-
sidade de pensarmos a formação inicial e continuada em Psicologia, na perspectiva
de melhor qualificação para o trabalho no campo educativo.
Perspectivas e Desafios
O momento político que estamos vivendo desde 2016, e especialmente a partir
de 2018, trouxe enormes desafios para a sociedade brasileira, que se vê novamente
147
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
em movimento para garantia do processo democrático, dos direitos humanos, de
justiça equânime para todas as pessoas, das políticas públicas de saúde, educação e
assistência social.
Na Educação, temos convivido com incessantes cortes de financiamento, des-
qualificação de docentes e da ciência, aceleração dos processos de precarização, entre
eles as políticas voltadas ao mercado da EaD.
Universidades públicas enfraquecidas, desinvestimento em ciência, demissões
em massa de docentes no ensino superior privado, têm marcado nossa realidade
nacional.
Na formação em Psicologia, temos o desafio de manter viva a defesa do ensino
presencial como princípio, associado aos princípios que temos historicamente de-
fendido. A garantia de um ensino ético e cientificamente fundamentado é uma de
nossas tarefas primordiais.
Por meio do diálogo com a comunidade acadêmica e com as entidades cientí-
ficas e profissionais, esperamos contribuir para a construção de uma Psicologia cada
vez mais sólida e socialmente relevante.
148
Conselho Federal de Psicologia
Psicologia política: um
campo interdisciplinar das
ciências humanas e sociais
Frederico Alves Costa
Candida Maria Bezerra Dantas
149
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
Costa (2018) aponta que Sabucedo e Rodriguez (2000) e Montero (2009) reali-
zam uma crítica à concepção da psicologia política como uma “psicologia da política”,
definição tradicional e dominante nos Estados Unidos da América. Ademais, ressalta
que na Revista Psicologia Política há também um questionamento a esta concepção,
em razão de ela propiciar uma “transposição descontextualizada de conceitos psi-
cológicos para a explicação de fenômenos políticos” (Costa, 2018, p. 228). No que diz
respeito à compreensão da psicologia política como uma “politização da psicologia”,
segundo o autor, ela se aproximaria da proposta de Montero (2009) referente à
psicologia social da libertação, entendida como uma alternativa latino-americana à
perspectiva anterior, que visa a fortalecer e facilitar a transformação social.
Os outros dois caminhos de delimitação da psicologia política apresentados
por Costa (2018, p. 228) são:
150
Conselho Federal de Psicologia
Em um outro estudo, Costa (2014) buscou analisar a dimensão do político em
parte da produção da psicologia social brasileira sobre fenômenos políticos1, publi-
cada em periódicos científicos, entre os anos de 1986 e 2011. Mais especificamente,
objetivou compreender como os autores concebiam a constituição do sujeito político
(politização das relações sociais) e a construção de uma sociedade democrática (utopia
de sociedade). A partir dessa análise, propôs quatro vertentes analíticas características
desta produção que contribuem para visualizarmos algumas perspectivas que têm
sido trabalhadas na psicologia política brasileira: fundamento último da realidade;
sujeito racional; sujeito ético-político; e antagonismo.
No que diz respeito à vertente fundamento último da realidade, segundo o
autor, as produções investigadas
151
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
a politização das relações sociais em torno da noção de cons-
ciência, mas não abordam, ao menos explicitamente, a ideia de
um fundamento último da realidade. Têm por foco o processo
do indivíduo tornar-se consciente das relações de subordinação
(perceber as injustiças sociais), opondo seus interesses pessoais e
grupais aos interesses de um outro grupo, pautado na reflexivi-
dade e/ou intencionalidade dos indivíduos (Costa, 2014, p. 169).
Esta vertente, no que diz respeito à análise das ações coletivas, pode ser entendida
em torno de uma retomada de estudos psicossociológicos nos anos 1980 e 1990 que
sustentavam uma concepção racionalista de sujeito (racionalidade instrumental), ao
mesmo tempo em que ressaltavam categorias como identidade e consciência. Nesse
sentido, a dinâmica política é pensada não apenas em torno de uma racionalidade
instrumental mas também a partir do compartilhamento de crenças e valores propor-
cionada pela construção de relações de pertença relativas a determinados atributos
como características étnico-raciais, condições socioeconômicas, região de origem,
posições ocupacionais (Costa, 2014; Costa, & Prado, 2016). Como salientam Costa e
Prado (2016), a luta política neste caso é mais próxima do campo da negociação entre
interesses particulares dos indivíduos (maximização do bem-estar) e do grupo de
pertença do que da “articulação entre diferentes grupos sociais subalternizados na
construção de um imaginário social alternativo ao hegemônico” (p. 220).
A terceira vertente, sujeito ético-político, é caracterizada por “artigos que com-
preendem a politização das relações sociais a partir de uma junção entre ética e política,
desarticulando o político do seu caráter de hostilidade/violência ao privilegiarem o
aspecto da alteridade entre os indivíduos” (Costa, 2014, p. 170). Em razão disso, Costa
(2014) e Costa e Prado (2017) ressaltam a dificuldade de se delimitar nesta vertente o
elemento mediador de constituição do sujeito político e, assim, da própria organiza-
ção da ordem social. Concebe-se a contingencialidade da realidade, fundamentada
numa ontologia imanente; mas, ao não reconhecer a divisão entre “nós” e “eles” como
constitutiva dos sujeitos, aponta-se para a compreensão do campo político como
um campo da multiplicidade, no qual não se visibiliza explicitamente o elemento
mediador que possibilita a problematização, a desestabilização e a ação dos sujeitos
ao que se encontra instituído, como se fosse natural rebelar-se contra a dominação.
A última vertente contempla produções científicas nas quais a noção de an-
tagonismo proposta nas obras de Ernesto Laclau e de Chantal Mouffe é utilizada
para a compreensão do fenômeno político investigado. Ainda que se observe nessa
vertente uma articulação entre aquele conceito e conceitos de outras perspectivas
152
Conselho Federal de Psicologia
teóricas, existindo particularidades nas análises empreendidas, ressaltamos aqui
algumas contribuições da teoria discursiva elaborada por Laclau e por Mouffe para
a psicologia política.
Prado (2001) salienta o afastamento por Laclau e por Mouffe de uma com-
preensão dos sujeitos políticos (“nós” e o “eles”) como anteriores ao conflito. Nesta
medida, ressalta-se a importância de se pensar a construção das identidades a partir
de uma relação de exterioridade, na qual o “nós” não se institui por compartilhar
algum atributo em comum, mas pela diferenciação com um “eles” na disputa pela
significação da realidade. Essa compreensão dos sujeitos políticos traz implicações
importantes para a análise dos fenômenos políticos:
a) o caráter emancipatório das ações coletivas não é possível de ser definido pre-
viamente à construção do “nós”, uma vez que o projeto político a ser proposto depende
“de como o processo de articulação de um NÓS irá localizar o elemento externo, os
elementos identitários que homogeneizam o NÓS (…) Neste processo não há uma in-
tencionalidade ética a priori, mas sim sendo traçada a partir da constituição deste NÓS e
das práticas sociais desenvolvidas de reciprocidades [com o ELES]”. (Prado, 2001, p. 168)
b) na medida em que o “eles” é constitutivo do “nós”, pois este se institui somente
na diferenciação com aquele, faz-se impossível conceber uma identidade plena, sendo
ela puramente contingente e precária. O que indica a centralidade da compreensão do
processo articulatório na análise dos fenômenos políticos e a compreensão do poder
não como uma relação externa entre duas identidades previamente estabelecidas,
mas sim como constitutiva das próprias identidades.
c) o campo de constituição do “nós” e do “eles” é o campo do político, da pu-
blicização das demandas sociais e da disputa pela significação da realidade.
Esta compreensão das identidades e do campo do político, segundo Prado
(2001, p. 170), colabora para
153
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
Costa (2012), ao debater a teoria discursiva de Laclau e de Mouffe, também
salienta alguns pontos importantes para a compreensão do campo da psicologia
política, ressaltando, como Prado (2001), a análise dos processos articulatórios de
construção dos sujeitos e da ordem social:
a) compreensão do campo político e dos sujeitos como descentrados, afastan-
do-se do privilégio a priori de uma luta política e de um sujeito político;
b) a relação entre universal e particular, na qual, ao mesmo tempo que se
defende o reconhecimento da pluralidade de sujeitos políticos, não se abandona a
construção de um universal, e sim o ressignifica como um universal sempre precário
e contingente, nomeado a partir da articulação entre diversas demandas sociais na
disputa hegemônica pela significação da realidade;
c) o entendimento que a democracia se caracteriza por esta relação entre uni-
versal e particular, pois sendo o universal contingente e precário, sem um conteúdo
próprio, faz-se possível que “diferentes grupos busquem assumir a tarefa universal,
mas como nunca a alcançam completamente, possam ser substituídos por grupos
alternativos” (Costa, 2012, p. 588).
Ainda segundo Costa (2012), a proposta teórica de Laclau e de Mouffe permite
reconfigurar noções importantes para o campo da psicologia política
154
Conselho Federal de Psicologia
O GT de Psicologia Política da ANPEPP é um dos mais antigos desta associação,
datando do II Simpósio Nacional da ANPEPP, realizado em 1989, quando se estrutura
a dinâmica de Grupos de Trabalho na programação do evento. O GT reunia pesqui-
sadores e pesquisadoras que já estavam envolvidos em pesquisas sobre fenômenos
políticos desde os anos 1970 e que atuavam na problematização de perspectivas
teóricas e metodológicas desenvolvidas no campo da psicologia social no Brasil e do
próprio contexto político do país à época, a ditadura civil-militar.
Neste sentido, é importante considerar, como apontam Costa e Machado (2020)
e Prado e Sandoval (2001), a participação de membros do GT, por exemplo: a) no
desenvolvimento da psicologia comunitária no Brasil, como se observou nos anos
1970 na Universidade Federal da Paraíba (UFPB), onde, mesmo ainda sob um governo
autoritário, se construiu um curso de pós-graduação nesta área e se desenvolvia proje-
tos de extensão com os setores populares; na construção e participação na Associação
Brasileira de Psicologia Social (ABRAPSO); c) nos encontros nacionais de pesquisa em
comportamento político organizados pelo Laboratório de Comportamento Político
da Universidade Federal de Santa Catarina.
Apesar da convergência entre pesquisadores/as que construíram o GT da ANPEPP
em relação à crítica à psicologia social hegemônica no Brasil e à ditadura civil-militar,
havia uma heterogeneidade teórico-metodológica no interior do GT, sendo a forma-
ção destas pessoas bastante diversa, como a dos primeiros coordenadores Leôncio
Camino (UFPB) e Salvador Sandoval (PUC-SP). O primeiro com formação marxista,
mas também com trajetória na psicologia social europeia, de caráter experimental
e sócio-cognitiva. Já o segundo, com uma formação na história e na ciência política
americana, inserindo-se na psicologia política a partir do interesse de estudo sobre
movimento sociais. Assim, o campo da psicologia política se constitui, no país, desde
o início, como marcado por uma importante diversidade teórica e metodológica,
presente até hoje nas suas produções.
O GT da ANPEPP teve seu nome alterado ao longo dos anos em razão dos
fenômenos políticos investigados pelos membros do GT, os quais se encontravam
relacionados ao contexto histórico vivenciado no Brasil. Segundo Camino (2001), o
primeiro nome do GT, “Psicologia dos Movimentos Sociais”, estava ligado ao sur-
gimento de vários movimentos sociais no país naquele momento histórico, tendo
eles se tornado o tema central de estudo em psicologia política. Segundo o autor,
os membros do GT na época consideravam “a Psicologia Política como o estudo
dos aspectos subjetivos dos fenômenos políticos” (Camino, 2001, p.05), procurando
sintetizar duas perspectivas de compreensão deste campo.
155
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
A primeira reivindicava o comportamento político como um campo de estudo
específico da psicologia, recorrendo a conceitos psicológicos, motivacionais, cogniti-
vos para a sua explicação. Camino (2001), contudo, ressalta que os membros do GT
eram críticos ao individualismo e ao reducionismo implícito nesta perspectiva, a
qual, como já abordamos, poderia ser nomeada de “psicologia da política”. A segunda
perspectiva propunha iniciar a análise pelo fenômeno político e não pelos aspectos
psicológicos, ressaltando o caráter simbólico das relações de poder, entendendo que
elas não apenas se desenvolvem no nível simbólico, também são constitutivas do
meio simbólico no qual as relações sociais são construídas.
Posteriormente, ainda de acordo com Camino (2001), como os membros do
GT focalizaram a investigação sobre como os cidadãos participavam do processo de
transição democrática vivido no país e se apropriavam das diferentes concepções
de política existentes na sociedade brasileira, o GT passou a ser nomeado como GT
de Comportamento Político, instituindo um debate sobre socialização política em
meados dos anos 1990.
Nos VII e VIII Simpósios da ANPEPP, 1998 e 2000, o GT retomou os temas de
estudo em psicologia política no Brasil a fim de construir um estado da arte sobre
o campo no país. Ademais, chegou-se à conclusão, segundo Camino (2001), de que
o debate sobre a psicologia política não deveria se limitar ao GT e que, apesar da
importância do campo, ele ainda era pouco difundido nos cursos de pós-graduação
brasileiros. Deste modo, deliberou-se pela construção de um Fórum que ampliasse
o intercâmbio científico em torno da psicologia política no Brasil, com a Sociedade
Internacional de Psicologia Política (ISPP, fundada em 1978) e com psicólogos políticos
de outros países da América Latina, bem como a expansão do ensino e da pesquisa
em psicologia política no país.
Com o intuito de responder a esta deliberação, foi organizado o I Seminário
Nacional de Psicologia Política, em São Paulo, em 2000, no qual se iniciou a cons-
trução de uma associação científica e de um periódico científico relativos ao campo
da psicologia política (Silva, 2012). Nesse sentido, em 2000, funda-se a Sociedade
Brasileira de Psicologia Política, a qual, em 2005, no momento de registro de seu
Estatuto, foi nomeada Associação Brasileira de Psicologia Política. De acordo com o
Estatuto da ABPP (Associação Brasileira de Psicologia Política, 2005):
156
Conselho Federal de Psicologia
Art. 1º- Associação Brasileira de Psicologia Política, também de-
signada pela sigla ABPP, pessoa jurídica de direito privado, é uma
associação, sem fins lucrativos, de duração indeterminada, com
sede no município de Belo Horizonte/MG; na Avenida Presidente
Antônio Carlos, 6627, Pampulha e com foro no município de Belo
Horizonte/MG.
Logo após a criação da ABPP, presidida inicialmente por Leoncio Camino, foi
publicado o primeiro número da Revista Psicologia Política, em 2001, tendo como
editores outros dois membros do GT da ANPEPP: Salvador Sandoval e Marco Aurélio
Máximo Prado. A ABPP e a RPP têm sido fundamentais para a construção e consoli-
dação da psicologia política no Brasil, uma vez que têm proporcionado a ampliação
deste campo para as diferentes regiões do país, a publicização de artigos científicos
sobre pesquisas e debates teóricos sobre psicologia política e a realização periódica
dos Simpósios Brasileiros de Psicologia Política.
Neste sentido, salienta-se que em 2022 já foram publicados 52 números da RPP e
que neste ano realizaremos a 12ª edição do Simpósio Brasileiro de Psicologia Política.
Uma avaliação importante construída na ABPP no decorrer da segunda década dos
anos 2000 foi, em convergência com os objetivos de fundação da associação, construir
uma política de descentralização das diretorias e dos eventos em relação ao eixo São
Paulo–Minas Gerais, tendo até 2011 todos os eventos ocorridos nestes dois Estados.
O estabelecimento desta política foi fundamental para a vinculação de mais
pesquisadores/as à ABPP e para ampliar a disseminação da psicologia política nos
157
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
cursos de graduação e pós-graduação das regiões sul, centro-oeste e nordeste. Em 2012
tivemos pela primeira vez a realização de um Simpósio fora do Sudeste. Em relação
à gestão, depois de 12 anos, em 2015, tivemos novamente na presidência da ABPP
um pesquisador vinculado a uma instituição diferente da PUC-SP e da Universidade
Federal de Minas Gerais (UFMG).
Assim, é importante destacar o papel fundamental dos grupos de pesquisa da
PUC-SP e da UFMG na construção institucional da psicologia política brasileira, ao
mesmo tempo em que se deve ressaltar o acerto da política de descentralização, ten-
do possibilitado o aumento do número de associados/as de diversas regiões do país,
com perspectivas teórico-metodológicas distintas, que investigam temáticas variadas
e que pertencem a gerações diferentes no campo da psicologia política.
Atualmente, podemos afirmar que o campo da psicologia política está presente
em diferentes universidades, nas cinco regiões do Brasil, e congrega pesquisadores/
as que estiveram na fundação do GT da ANPEPP e da ABPP e também gerações mais
novas, formadas por estes pesquisadores/as, mas também por outros e outras que, a
partir de caminhos diversos, vincularam-se à psicologia política brasileira.
158
Conselho Federal de Psicologia
americana de Entidades de Psicologia (ULAPSI), em 2020, por meio do diálogo entre
as diretorias da ABPP e da ULAPSI; a construção de aproximações institucionais entre
a ABPP, a ISPP e a Associação Ibero-Latino-Americana de Psicologia Política (AILPP);
a participação da ABPP no Fórum de Entidades da Psicologia Brasileira (FENPB) e
no Fórum das Ciências Humanas, Sociais, Sociais Aplicadas, Letras, Linguística e
Artes (FCHSSALLA). Essa participação proporciona a atuação com entidades cien-
tíficas, profissionais, sindicais e estudantis da psicologia e também com associações
científicas de diferentes áreas do conhecimento, preservando e reforçando o caráter
interdisciplinar da Psicologia Política.
Aliado ao crescimento institucional e científico da psicologia política, vive-
mos nos últimos 10 anos um importante processo de descentralização do campo
em relação ao eixo São Paulo–Minas Gerais, regiões em que a psicologia política se
fortaleceu inicialmente. Em 2022 realizaremos o Simpósio Brasileiro de Psicologia
Política novamente na UFMG. Será um momento de avaliação daquela política de
descentralização, considerando a consolidação do campo no Brasil e a importância
de continuarmos a difundir a Psicologia Política nos cursos de graduação e de pós-
-graduação brasileiros.
Entretanto, a manutenção desse crescimento esbarra em dificuldades decorrentes
do cenário político, econômico e social brasileiro de desmonte das políticas cientí-
ficas, do sistema nacional de pós-graduação brasileiro e do ensino superior público.
Tal cenário tem imposto dificuldades para a sustentabilidade financeira da ABPP e
da RPP, por exemplo, em virtude da escassez crescente de investimento público para
a sustentação dos periódicos científicos e para a realização de eventos acadêmicos.
Ademais, o desinvestimento financeiro na pós-graduação e o ataque à universidade
pública tem afetado, sobretudo, as ciências humanas e sociais, dificultando a dedicação
exclusiva de estudantes à pesquisa e o fomento a investigações de temas políticos.
Em resposta, a ABPP tem atuado, em conjunto com outras entidades científicas,
na defesa da ciência e da universidade pública, bem como da manutenção do caráter
público do seu periódico em contraposição ao movimento de mercadorização dos
canais de divulgação e acesso ao conhecimento científico.
Outra dificuldade para a continuidade do crescimento do campo é que, apesar
do aumento do número de associados à ABPP e de participantes nos Simpósios, ainda
notamos o desconhecimento sobre a psicologia política por docentes e estudantes de
diferentes áreas do conhecimento e a escassez de disciplinas obrigatórias e eletivas
de psicologia política nos cursos. Também observamos que grande parte dos/as au-
tores/as dos artigos da RPP e das/os participantes dos Simpósios têm sua formação
159
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
em psicologia, indicando a necessidade de construirmos estratégias de difusão do
campo também em outras áreas das ciências humanas e sociais importantes para a
construção de análises psicopolíticas.
Vivemos no Brasil e em outros países do mundo a emergência da extrema-
-direita, a qual explicita a relevância da consideração das dimensões simbólicas e
afetivas na análise da dinâmica política, seja para desconstruir e combater as posições
conservadoras, neoliberais e autoritárias, seja para construirmos alternativas políticas
democráticas. Assim, é cada vez mais pertinente afirmarmos o caráter interdisciplinar
da psicologia política, a fim de ampliarmos as possibilidades de entendimento da
complexidade do social, e é urgente compreender os fenômenos políticos por meio
de análises psicopolíticas, que visem a compreender historicamente a construção da
ordem social e as estratégias de resistência e de subversão considerando os processos
simbólicos como constitutivos da realidade.
Considerando que a construção do futuro depende do que fazemos no presente,
concebemos que pesquisadoras/es do campo da psicologia política brasileira tenderão:
a) a ocupar cada vez mais espaço nos fóruns científicos, compartilhados por atores
de diferentes áreas do conhecimento, uma vez que há um reconhecimento entre os
pesquisadores/as desse campo da importância da interdisciplinaridade; b) a construir
estratégias para proporcionar maior identificação de docentes e estudantes com a
psicologia política, de modo a conquistar maior inserção deste campo nos cursos
de graduação e de pós-graduação de distintas áreas do conhecimento; c) a ampliar
a relação com pesquisadores/as de outros países, pois, diante da complexidade dos
fenômenos políticos e de suas faces transnacionais, é importante produzirmos es-
tratégias de internacionalização do conhecimento, sobretudo, a partir de alianças
com grupos de pesquisa do sul global, da América Latina, que vivenciam dinâmicas
políticas semelhantes, a fim de amplificar as pistas para a construção de estratégias
democratizadoras; d) a sair dos muros da universidade, pois o enfrentamento à ex-
trema-direita e às inúmeras relações de dominação exigem que nos aproximemos
de todos os atores políticos que possam contribuir para a defesa da igualdade e da
pluralidade de formas de vida.
A psicologia política que fazemos e que continuaremos a fazer sustenta-se na
defesa da diversidade teórica-metodológica e da interdisciplinaridade e, ao mesmo
tempo, na afirmação de um horizonte político que visa a compreender os fenômenos
políticos não apenas para contemplá-los, e sim para contribuir para a construção de
um imaginário democrático que nos permita problematizar e combater cada vez
mais relações de dominação.
160
Conselho Federal de Psicologia
Referências
Associação Brasileira de Psicologia Política (2005). Estatuto da Associação Brasileira
de Psicologia Política. Recuperado de [Link]
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ça social e o lugar da ação intelectual na luta política. Estudos de Psicologia, 21(2),
pp. 216-27.
Montero, M. (2009). ¿Para que Psicología Política? Revista Psicologia Política, 9(18),
pp. 199-213.
161
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
Prado, M. A. M., & Sandoval, S. (2001). Editorial: Revista Psicologia Política. Psicologia
Política, 1(1), pp. 9-11.
162
Conselho Federal de Psicologia
História da Psicologia
Organizacional e do Trabalho
Daiane Rose Cunha Bentivi
Sonia Maria Guedes Gondim
Fabiana Queiroga
Elisa Maria Barbosa Amorim-Ribeiro
Sabrina Cavalcanti Barros
Introdução
Quando nos deparamos com um campo científico e prático existente e con-
solidado, tendemos a imaginar as práticas profissionais orientadas por evidências
de pesquisa e as pesquisas atentas às demandas advindas da sociedade em uma re-
troalimentação constante. Mas um campo de conhecimento emerge por processos
pouco lineares e sua legitimidade e futuro depende da busca permanente por essa
sintonia entre ciência e profissão. Contar essa história nos convoca a organizar uma
narrativa que nos ajude a compreender a trajetória, o momento em que estamos e
o que almejamos construir.
O desenvolvimento de uma ciência é fruto de um jogo de forças no qual
concorrem pesquisadores e diversas escolas de pensamento no intuito de fazer
avançar o conhecimento em níveis mais abstratos. Isso faz com que alguns mo-
delos teórico-metodológicos exerçam maior hegemonia na forma de se produzir
conhecimento. No âmbito da Psicologia Organizacional e do Trabalho (POT), cuja
origem remonta o início do século XX (Borges-Andrade et al., 2020), inúmeros
desafios se fizeram notar para sua consolidação como campo de conhecimento no
território nacional (Malvezzi, 2016).
Tendo seu berço nos Estados Unidos (EUA), como a maioria dos subcampos
em Psicologia, a POT brasileira, desde seus primórdios, recebeu forte influência de
modelos teóricos e metodológicos estrangeiros mais consolidados, porém pouco
aderentes à realidade cultural, social, científica e econômica nacional. É preciso ter
em conta ainda que a história da Psicologia nos EUA foi igualmente imbuída da
tradição europeia. Além de Wundt, responsável por formar muitos psicólogos ame-
163
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
ricanos que construíram suas próprias escolas no país, outros alemães, como Kurt
Lewin, migraram para os EUA na década de 1940, deixando mais evidente o aporte
da Psicologia Social e dos Pequenos Grupos nos caminhos traçados por POT no
território americano (Borges-Andrade et al., 2020; Schein, 2015). Isso não impediu
que a POT seguisse viva e dinâmica abrigando correntes de pensamento múltiplas
que tentavam galgar posições de maior legitimidade perante as demais.
A história da Psicologia Organizacional e do Trabalho (POT) como ciência e
profissão se confunde com a própria história da psicologia no Brasil, pois algumas
de suas primeiras práticas no país foram impulsionadas por questões relacionadas ao
trabalho. Como aponta Bastos e Galvão-Martins (1990), três vertentes marcam a origem
da psicologia em nosso país: a primeira, a partir da interseção com a medicina, com
ênfase na assistência psicológica a psicopatas em hospícios; a segunda, na interseção
com a pedagogia, nas escolas normais, que passou a se dedicar à compreensão de
fenômenos psicológicos ligados à aprendizagem; e a terceira, decorrente dos traba-
lhos do engenheiro Roberto Mange, que trouxe várias contribuições ao processo de
seleção e orientação profissional de ferroviários.
Desenvolvida a partir do avanço da industrialização no Brasil, a Psicologia
Organizacional e do Trabalho seguiu até os dias atuais buscando compreender
e intervir no comportamento humano no trabalho, dentro e fora do contexto
organizacional. O florescimento da POT no Brasil segue um percurso histórico
dividido em quatro momentos. O primeiro deles, é o da pré-estruturação, inicia-se
com as primeiras incursões profissionais em atividades de seleção, gradativamente
ampliadas para outras ações de gestão de pessoas e saúde do trabalhador. Esse
período coincide com a regulamentação da profissão nos anos 1960 e vai até o
final da década de 1980.
O segundo momento, que denominamos de fase de estruturação da área, vai
do ano 1980 a 2004. O surgimento dos Grupos de Trabalho (GTs) da Associação
Nacional de Pesquisa e Pós-graduação em Psicologia (ANPEPP) em 1980 e a intro-
dução da ênfase em POT no currículo dos cursos de graduação na década de 1990
fincaram as raízes para o crescimento da área. Essa fase abrigou três importantes
marcos: a criação da revista científica da área, a Revista de Psicologia Organizacional
e do Trabalho (rPOT), da associação nacional de caráter científico-profissional,
a Associação Brasileira de Psicologia Organizacional e do Trabalho (SBPOT), e a
realização do primeiro Congresso Brasileiro de Psicologia Organizacional e do
Trabalho (CBPOT).
164
Conselho Federal de Psicologia
O terceiro momento, o de consolidação da área, de 2005 a 2019, caracteriza-
-se pela consolidação da área no país. Seu marco foi a construção do Referencial de
Competências da SBPOT. Esse documento estabelece parâmetros para a formação
e atuação profissional de POT, em resposta a diagnósticos realizados em fases ante-
riores sobre a fragilidade identitária do psicólogo da área, o referencial circunscreve
quem é esse profissional, que competências precisa desenvolver e oferece um leque
abrangente de possibilidades de atuação. Associadas aos esforços de uma demarcação
identitária de POT, nesse terceiro momento enfrentaram-se tensões entre fronteiras
de áreas afins, como a Administração e Gestão de Pessoas, e a emergente difusão das
práticas de coaching, ainda não regulamentadas profissionalmente.
O quarto e último momento, o atual, é marcado por grandes transformações
resultantes da emergência pandêmica e pós-pandêmica da Covid-19, que se espalhou
pelo mundo nos primeiros meses de 2020. Esse período, que está sendo escrito, é
atravessado pela intensificação da preocupação com o futuro do trabalho e a garantia
do trabalho decente e digno; com as novas formas de trabalho derivadas da incor-
poração de tecnologias de informação e comunicação; e com as ameaças ao regime
democrático no contexto político.
165
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
e orientação vocacional, para seleção de candidatos ao curso de mecânica. Mange
também foi responsável por organizar o primeiro laboratório de psicotécnica para os
funcionários da Estrada de Ferro Sorocabana, em São Paulo. Ele ressaltava a impor-
tância do processo seletivo – e do uso da psicotécnica – para prevenção de acidentes
no sistema de transporte (Dadico & Siqueira, 2021; Weil, 1972). Em 1924, o italiano
Ugo Pizzoli veio ao Brasil para instalar o Laboratório de Pedagogia Experimental e
começou a aplicar testes no Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo.
Em 1945, o cubano Mira y Lopes chega ao Brasil para lecionar o Curso Especial
sobre Seleção, Orientação e Readaptação Profissional e Problemas Correlato, e em
1947 organiza a criação do Instituto de Seleção e Orientação Profissional (ISOP), no
Rio de Janeiro, pela Fundação Getúlio Vargas. A criação do ISOP foi um marco para
a área, contribuindo para a formação e o aperfeiçoamento técnico de psicólogos
industriais no país (Weil, 1972).
Outro francês que fez parte dessa história foi Pierre Weil, que chegou ao Brasil
em 1948 para trabalhar no treinamento das equipes que organizariam os serviços de
psicotécnicas do Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac), também no
Rio de Janeiro. Posteriormente ele se tornou chefe da Seção de Orientação e Seleção
Profissional do Departamento Pessoal do Senac, entre 1948 e 1958 (Conselho Federal
de Psicologia, 2005). Em 1958 foi convidado pelo então Banco da Lavoura de Minas
Gerais para coordenar o Departamento de Orientação e Treinamento, conduzindo
ali a construção do primeiro instrumento de avaliação psicológica genuinamente
brasileiro, o INV (teste de inteligência não verbal), voltado para seleção de pessoal.
Para além do interesse na seleção de pessoal, entre as décadas de 1930 e 1950,
surgia um movimento de busca por treinamento e aperfeiçoamento da mão de obra,
principalmente no nível gerencial. Diante dessa demanda, foi criado o Instituto de
Organização Racional do Trabalho (IDORT) em 1931, cujo objetivo era a formação
profissional de trabalhadores.
Em síntese, a migração de profissionais estrangeiros para o Brasil, alinhada aos
interesses de empresários e do Estado no desenvolvimento industrial do país difundiu
diversas práticas psicológicas. Avaliação psicológica, seleção, orientação profissional e
qualificação de mão de obra, por meio de cursos de formação e fundação de institutos
de psicologia aplicada tiveram seu escopo de atuação reconhecidos.
Inicialmente voltada para processos seletivos e treinamentos na indústria, a
prática profissional nas décadas de 1960 e 1970 passou a abranger organizações de
diferentes naturezas e ampliar ações no âmbito da gestão e do comportamento humano
no trabalho – treinamento, saúde do trabalhador e gestão de pessoas (Coelho-Lima
166
Conselho Federal de Psicologia
et al., 2011). Além disso, as movimentações diante da redemocratização do país na
década de 1980 fortaleceram as lutas sindicais e aqueceram temas ligados à psicologia
do trabalho, como assédio moral e saúde do trabalhador.
Concomitante a esses eventos associados à prática profissional, no campo po-
lítico, a psicologia brasileira vinha ganhando força, culminando na sua regulamen-
tação, em 27 de agosto de 1962. A Lei nº 4.119 aponta em seu art. 13 que “constitui
função privativa do Psicólogo e utilização de métodos e técnicas psicológicas com os
seguintes objetivos: a) diagnóstico psicológico; b) orientação e seleção profissional; c)
orientação psicopedagógica; d) solução de problemas de ajustamento”.
O reconhecimento legal da psicologia no ano de 1962 trouxe avanços no tocante
à formação e atuação dos psicólogos. No campo acadêmico, os cursos de graduação
em psicologia surgiram no Brasil no final da década de 1950 e tiveram duas expan-
sões importantes, em termos de quantidade e regionalização, nas décadas de 1970 e
1990, com grande oferta de cursos e vagas para psicologia no país (Rudá et al., 2015).
Apesar do ensino em psicologia ter se difundido ao longo do país, as limitações
na formação repercutiram em uma atuação profissional em POT igualmente limita-
da, centrada no indivíduo e com tentativas frustradas de transpor o modelo clínico
para o contexto de trabalho. Os professores atuantes na área, vindos de semelhante
formação, contribuíram para difundir uma imagem negativa e acrítica da POT como
área que atende exclusivamente a interesses econômicos.
Essas dificuldades levaram a uma forte crise frente à disseminação de práticas
pouco pautadas em teorias e evidências de pesquisas. Um outro grande empecilho
para a adequada formação é que a maioria dessas atividades de ensino, mesmo dos
estágios, foram efetivamente mais voltadas para a aquisição de conceitos do que para
o desenvolvimento de competências para intervir e avaliar (SBPOT, 2020).
167
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
de graduação em todo o país, usavam-se repetidamente uns poucos livros, que eram
traduções de publicações de autores de outros países”.
Para a estruturação de uma área de conhecimento, é necessário a criação e con-
solidação de uma cultura científica institucionalizada, que apoia-se em um tripé: a) a
formação em nível de pós-graduação, para treinar novos pesquisadores; b) a fundação de
associação científica para congregar pesquisadores e definir políticas para a área; e, por
fim, c) a criação de veículos de divulgação científica especializada (e.g. Borges-Andrade
et al., 2020). O primeiro eixo desse tripé coloca em relevo o papel da pós-graduação. É
neste nível de ensino que se assegura a qualidade da formação de futuros pesquisadores
e docentes (Gondim et al., 2018), abrindo novas perspectivas de expansão de objetos
de estudo e abordagens teórico-metodológicas para o campo, incluindo a produção
de instrumentos de medida para os fenômenos sob investigação.
No caso da POT, a organização do campo científico se deu pela via dos programas
de pós-graduação surgidos na década de 1980, seguido pela ação dos Grupos de Trabalho
(GTs) da ANPEPP. Esses grupos tiveram um papel fundamental no desenvolvimento
da POT no Brasil, especialmente porque os integrantes dos GTs estavam vinculados ou
em processo de formação de programas de pós-graduação em Psicologia. O primeiro
GT da área de POT, intitulado “Estudos de Organização e Trabalho”, fez sua reunião
inaugural em 1990, por ocasião do III Simpósio de Pesquisa e Intercâmbio Científico
da ANPEPP. Foi um marco histórico para o campo. Desde então, os GTs dedicados aos
estudos do trabalho e das organizações se tornaram cada vez mais presentes.
Desde sua criação, a ANPEPP adota ações com vistas ao fortalecimento da pesquisa
nos diversos campos da psicologia, e um de seus veículos são os Simpósios organizados
pela entidade. Boa parte de sua programação dedica espaço para as reuniões dos GTs,
cujas atividades encontram-se vinculadas a produtos quer de desenvolvimento de pes-
quisas conjuntas ou de produção científica sob a forma de livros ou artigos ([Link]
[Link]/[Link]/grupos-de-trabalho). Os GTs da ANPEPP tiveram também
um papel decisivo na expansão de redes de pesquisadores no Brasil especialmente
na área de POT, visto ser um dos critérios de composição a diversidade de filiações
institucionais dos membros inscritos na proposta dos GTs (Neiva, & Corradi, 2010).
O crescente fortalecimento dos GTs da ANPEPP em Organizações e Trabalho
reverberou tanto no desenvolvimento teórico e metodológico da área, como na for-
mação profissional a partir da preocupação dos GTs em responder lacunas apontadas
por pesquisas anteriores sobre o perfil e as práticas dos psicólogos do campo. Houve
crescente preocupação em sistematizar o conhecimento que vinha sendo produzido
no e sobre o contexto brasileiro, que culminou na elaboração de importantes livros
168
Conselho Federal de Psicologia
textos da área, como por exemplo o livro Psicologia, Organizações e Trabalho no Brasil,
organizado por Antônio Virgílio Bittencourt-Bastos, Jairo Eduardo Borges-Andrade
e José Carlos Zanelli, em 2004.
Partindo das discussões suscitadas nestes GTs, em 26 de maio de 2001 foi fundada
a Associação Brasileira de Psicologia Organizacional e do Trabalho, uma associação
de propósitos científicos e educacionais com a finalidade de promover a produção e
divulgar o conhecimento científico e tecnologias na área de Psicologia Organizacional
e do Trabalho – segundo eixo de sustentação do processo de institucionalização cien-
tífica da POT. Na ocasião, sua denominação era Sociedade Brasileira de Psicologia
Organizacional e do Trabalho (SBPOT). A mudança para Associação, mantendo a
sigla, ocorreu em 2005 e foi realizada por exigência de ajuste à legislação vigente.
Diversas ações da SBPOT contribuíram para o fortalecimento político e científico
da área no contexto brasileiro, tendo em vista a transversalidade das ações envolvendo
uma multiplicidade de pesquisadores dispersos geograficamente no território na-
cional e, principalmente, vinculados a instituições federais de ensino superior. Essa
transversalidade de ações era marcada por uma cooperação interinstitucional. Um
exemplo foi a cessão de direitos autorais para a SBPOT de diversos livros publicados
sobre o campo, como por exemplo Psicologia, Organizações e Trabalho no Brasil, já citado
anteriormente, pela editora Artmed. Esta publicação, que por muitos anos foi cam-
peã de vendas, serviu de livro-texto para disciplinas de POT no nível da graduação e
pós-graduação, e os recursos advindos dos livros são responsáveis pela manutenção
da revista científica da área, Revista Psicologia: Organizações e Trabalho – rPOT, que
se consolidou como um periódico nacional de referência na área.
A criação da rPOT, no mesmo ano de fundação da SBPOT, foi o terceiro eixo de
sustentação no processo de institucionalização de uma cultura científica da área. De
iniciativa pioneira de José Carlos Zanelli, da Universidade Federal de Santa Catarina
(UFSC), a rPOT teve um crescimento vertiginoso, contando com o apoio estratégico
das diversas gestões da SBPOT. A partir de 2007, a rPOT passou a ser coeditada por
três dos programas de pós-graduação em Psicologia, cujos membros pertenciam ao
GT da ANPEPP: UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), UnB (Universidade
de Brasília) e UFBA (Universidade Federal da Bahia) (Abbad, Gondim, & Macêdo, no
prelo). A trajetória ascendente da rPOT se fez notar pela colaboração de seus inúmeros
editores e coeditores que fizeram com que a revista alcançasse a classificação A2 no
Qualis de Periódicos da CAPES, a partir de 2015 (Bendassolli et al., 2015). Este veículo
de divulgação científica passa a responder por um volume significativo de produções
da área, sendo considerado de referência no cenário nacional.
169
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
Ainda ligado à divulgação do conhecimento científico da área, houve a criação
do Congresso Brasileiro de Psicologia Organizacional e do Trabalho. O I CBPOT foi
realizado em julho de 2004, no Hotel Othon, em Salvador. O evento foi um marco,
contando com a presença de colegas pesquisadores espanhóis e mais 1.000 participan-
tes de 23 estados da federação. A programação científica contemplou 183 atividades:
minicursos, conferências, mesas redondas, simpósios, comunicações orais, relatos
de experiência e pôsteres (Borges et al., no prelo).
A rPOT e o CBPOT abriram novas portas para fazer circular o conhecimento
produzido em POT no Brasil entre pesquisadores, docentes, profissionais e estudantes
de Psicologia e áreas afins. Sua organização foi também marcada pela colaboração com
o movimento empresas juniores de Psicologia, na ocasião do I CBPOT, a Psicojunior
da Universidade Federal da Bahia. Desde então, as empresas juniores passaram a
ocupar um lugar de destaque nos CBPOTs.
170
Conselho Federal de Psicologia
abordam as condições de trabalho e práticas de psicólogos, além de oferecer um
panorama geral dos subcampos da Psicologia no Brasil, inclusive de POT.
Apesar da estruturação e consolidação da área ao longo dos anos, a POT ainda
se deparava com grande fragmentação e ataque à sua prática, tanto de dentro da
psicologia quanto de outras áreas e práticas. Esse estado de coisas trouxe ainda mais
desafios para a POT em diversas de suas frentes de inserção como ciência e profissão.
A formação e atuação em POT tem sido alvo de muitas críticas, a princípio
ligadas a um currículo centrado na perspectiva clínica e, após a inserção desta área
como uma das ênfases curriculares, permaneceu tradição de ensino conteudista
inábil em desenvolver competências de atuação. Os ataques internos relacionam-se,
principalmente, à narrativa de cisão e dualidade entre o campo da Psicologia do
Trabalho e da Psicologia das Organizações. Esse discurso sustenta-se na suposição
de que, de um lado, está a Psicologia do Trabalho comprometida com a defesa dos
interesses e do bem-estar dos trabalhadores; e, de outro, encontra-se a Psicologia das
Organizações, voltada aos interesses do capital, tendo como alvo o lucro e atuando
contra os anseios dos trabalhadores.
Essa narrativa de dualidade se amplia na divisão de concepções teórico-me-
todológicas, ligando a Psicologia do Trabalho a uma visão mais crítica, marxista e
revolucionária; e a Psicologia Organizacional a uma visão acrítica, positivista, rea-
cionária e individualizante. Com vistas a contrariar essa dicotomia, a SBPOT lançou
em 2009 o “Manifesto Psicologia do trabalho e das organizações: não atuamos pela
cisão” (SBPOT, 2009) e defendeu a concepção de que ambos os fenômenos seriam
importantes, trazendo complementaridade para a compreensão do trabalho como
fonte de identidade social e profissional.
Em relação aos ataques externos, podemos citar dois: a prática do coaching e
as investidas pelo Conselho Federal de Administração para fechamento da área de
recursos humanos. Nesse período, cresce de maneira avassaladora as práticas de
coaching espalhando-se para os mais variados campos de conhecimento (incluindo
medicina, direito, contabilidade) e assolando campos de atuação tipicamente ocu-
pados pelo psicólogo. As práticas de coaching foram crescendo e se espalhando ao
longo dos anos até ser seu ápice em espaço televisivo de grande alcance em 2018.
Para proteger sua categoria, o CFP lança a primeira nota sobre o assunto em 2019 e
procura marcar as fronteiras da atuação do psicólogo1.
171
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
Em meio a esse cenário, também volta a se acirrar a crise de reserva de merca-
do tensionada pela área da Administração, um dos campos de maior interface com a
POT. Desde que foi regulamentada como profissão no Brasil, a Psicologia inclui no
exercício profissional a utilização de métodos e técnicas psicológicas com o objetivo de
conduzir diagnóstico psicológico, orientação e seleção profissional, orientação psicope-
dagógica e solução de problemas de ajustamento. Tais atividades podem e devem ser
legitimamente exercidas nos mais diferentes espaços em que há relações psicossociais
que exigem atuação profissional, incluindo as organizações de trabalho. Para o efetivo
exercício da profissão, o psicólogo atua de maneira inter e multidisciplinar de forma a
reconhecer a importância da formação de outras áreas do conhecimento.
Contudo, caminhando na contramão da atuação inter e multidisciplinar como
forma de complementar conhecimentos e saberes para a boa prática profissional, o
Conselho Federal de Administração (CFA), ao longo de mais de 20 anos, vem insistindo
em retirar parte das atividades do psicólogo e reservá-las para atuação exclusiva do ad-
ministrador. Várias negociações foram conduzidas ao longo do tempo, mas recorrentes
tentativas de retirada do que está legitimamente regulamentado são realizadas. Como
desdobramento dessas disputas, o primeiro artigo da resolução do CFP nº 8/1998 ex-
plicita “o psicólogo que está regularmente inscrito no Conselho Regional de Psicologia
e que exerce as suas atribuições profissionais na área de Recursos Humanos não está
obrigado a inscrever-se ou a contribuir para o Conselho Regional de Administração2”.
Todavia, a luta em defesa da POT nos espaços de gestão nunca cessou.
Em 2015, o Projeto de Lei Suplementar do Senador Donizeti Nogueira (PT-TO)
reativa essa disputa sobre o espaço de atuação no campo de Recursos Humanos. No PLS
nº 439/2015 o senador Donizeti Nogueira novamente reivindica que as atividades de
gestão sejam de atuação exclusiva por aqueles que sejam formados em Administração
e que estejam regularmente cadastrados no Conselho de Administração.
Essa pauta voltou a ocupar espaço dentro da SBPOT que, unindo forças com
Conselhos Regionais e com o CFP, seguiu em defesa da atuação profissional do
Psicólogo Organizacional e do Trabalho. Após vários meses de discussão, o CFA e
o CFP assinaram em 2017 uma nota conjunta em que as duas autarquias assumem
o compromisso de trabalharem em parceria para atenuar as consequências do
PLS nº 439/2015. Mas, apesar de toda publicidade que foi dada a esse importante
momento de discussão e diálogo, as reivindicações nos Tribunais Regionais não
cessaram e em 2019 a decisão da corte superior ratifica o veredito do Tribunal
2 A Resolução completa e os demais documentos relacionados a esse assunto podem ser acessados em:
[Link]
172
Conselho Federal de Psicologia
Regional Federal da 4ª Região (TRF4) sobre o exercício profissional na área de
recursos humanos como privativo do administrador com registro no Conselho
Regional de Administração.
A disputa entre os campos mostra a necessidade da Psicologia se fortalecer não
apenas politicamente mas também tecnicamente. Assim, no anseio de atuar nessa
lacuna há muito percebida, insere-se a decisão da SBPOT de construir, em um am-
plo processo de discussão e validação, um referencial para a formação e qualificação
profissional no Brasil3, com base em competências esperadas em POT. Esse pro-
pósito permeou a Associação desde o seu nascimento e foram muitas as mesas em
congressos em que esse debate esteve presente, assim como foram muitos os atores
que capitanearam a discussão para diversos contextos acadêmicos e profissionais.
Muito esforço foi empreendido até que, em 2016, com o apoio do Conselho Federal
de Psicologia, um primeiro encontro com um grupo de especialistas para realizar a
descrição das competências concretiza esse passo.
O processo iniciado em 2016 e findado em 2020, com a publicação do Referencial
de Competência da área de POT, é celebrado em uma cerimônia virtual com os
associados da entidade. O objetivo da SBPOT com o Referencial foi o de sinalizar,
para a comunidade, uma diretriz que guiasse a formação profissional e a atuação ética
(SBPOT, 2020). Além disso, o documento fornece elementos para a construção de
uma identidade como profissional de POT. O Referencial fortalece os contornos que
delimitam as múltiplas possibilidades de atuação profissional e sinaliza, aos agentes
formadores, os conteúdos e competências a serem desenvolvidos em quem atuará
no campo. Mas, ao se lançar como documento referencial, ele também sinaliza a
quem usará os serviços em POT o que pode ser demandado e esperado. O modelo
de competências adotado no Referencial aponta ainda na direção de um processo
de certificação profissional pela Associação, voltado para o estabelecimento de pa-
tamares mínimos de qualidade e maior reconhecimento social do trabalho dessas
pessoas que atuam em POT.
Para o desenvolvimento do documento disponibilizado pela SBPOT, foram ado-
tados princípios guias para a construção do modelo de competências adotado, a saber:
a. Promover a melhoria contínua dos serviços prestados, nos diversos âmbitos de
atuação pelo psicólogo organizacional e do trabalho, dentro de padrões éticos
e técnicos internacionalmente reconhecidos;
3 Essa descrição do Referencial de Competências para atuação em POT se baseou no documento ofi-
cial disponibilizado pela SBPOT. O documento completo pode ser acessado em: [Link]
[Link]/publicacao/e-book-competencias-para-a-atuacao-em-pot/
173
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
b. Contribuir para aprimorar a qualificação do profissional de psicologia que atua
no campo das organizações e trabalho e o compromisso com o seu aperfei-
çoamento contínuo;
174
Conselho Federal de Psicologia
Diante desse cenário, assim como outros campos da psicologia aplicada, a POT
foi convocada a atuar e refletir sobre estratégias de enfrentamento da pandemia,
tanto no campo profissional quanto no campo acadêmico. Muitos dos impactos já
eram apontados como tendências no mundo do trabalho, mas com a pandemia se
aceleraram e intensificaram.
Uma indicação sobre tais tendências pode ser encontrada na coletânea O traba-
lho e as medidas de contenção da Covid-19: contribuições da Psicologia Organizacional e do
Trabalho, publicada em 2020 pela SBPOT, a fim de orientar ações e reflexões indivi-
duais e coletivas que favoreçam a compreensão da realidade e um melhor preparo
para seu enfrentamento. A partir desse material, identificamos dez temas relevantes
de pesquisa e prática da POT que tiveram implicações por conta da pandemia, como
apresentado no quadro a seguir.
Tema Referência
Borges-Andrade, J. E., & Sampaio, N. (2020). Desenho do trabalho e aprendizagem em
contexto de pandemia. Em O trabalho e as medidas de contenção da Covid-19: Orientações
1. (Re)desenho do para o home office durante a pandemia da covid-19. Porto Alegre, RS: Artmed.
trabalho e processo
de aprendizagem Abbad, G. D. S., & Legentil, J. (2020). Novas demandas de aprendizagem dos
trabalhadores face à pandemia da Covid-19. Em Os impactos da pandemia para
o trabalhador e suas relações com o trabalho. Porto Alegre: Artmed, 45.
Sandall, H., & Mourão, L. (2020). Desempenho no trabalho: Desafios
2. Desempenho
para trabalhadores e gestores em teletrabalho compulsório. O
no trabalho
trabalho e as medidas de contenção da Covid-19, 1, 21-30.
Pérez-Nebra, A. R., Carlotto, M. S., & Sticca, M. G. (2020). Bem-estar e estresse
ocupacional em contexto de distanciamento social. Orientações para o home office
durante a pandemia da Covid-19 (1. ed., pp. 1-5). Porto Alegre, RS: Artmed.
3. Bem estar / Saúde
ocupacional
Ferreira, M. C., & Falcão, T. R. (2020). Trabalho em contexto de pandemia, saúde mental
e qualidade de vida no trabalho: Diretrizes essenciais. Em Os impactos da pandemia
para o trabalhador e suas relações com o trabalho. Porto Alegre, RS: Artmed.
175
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
Martins, L. B., Aguiar, C. V. N., Bastos, A. V. B., & Queiroga, F. (2020).
5. Relação
Covid-19: Seus impactos nas relações trabalho-família. Orientações
trabalho-família
para o home office durante a pandemia da Covid-19, 49-58.
Porto, J. B., Palacios, K., & Neiva, E. R. (2020). Ajustes e mudanças organizacionais
6. Ajuste e mudança
em tempos de pandemia da Covid-19. Em Orientações para o home office
organizacional
durante a pandemia da Covid-19. Porto Alegre, RS: Artmed, 59.
Rodrigues, A. D. A., Moscon, D. C. B., Queiroz, G. C., & Silva, J. D. (2020).
7. Vínculos com
Trabalhadores na pandemia: Múltiplas realidades, múltiplos vínculos. Os impactos
o trabalho
da pandemia para o trabalhador e suas relações com o trabalho, 1-14.
Bentivi, D. R. C., Carneiro, L. L., & Peixoto, A. D. L. A. (2020). Trabalhadores em Arranjos
Alternativos de Trabalho diante da Covid-19. Em M. M. Moraes, O trabalho e as medidas
de contenção da Covid-19: Contribuições da Psicologia Organizacional e do Trabalho.
Os impactos da pandemia para o trabalhador e suas relações com o trabalho, 2, 15-22.
8. Trabalho precário
/ Informal
Coelho-Lima, F., & Bendassolli, P. (2020). Trabalhadores e Trabalhadoras
na Informalidade: Intervenções Possíveis. Em M. M. Moraes, O trabalho
e as medidas de contenção da Covid-19: Contribuições da Psicologia
Organizacional e do Trabalho no contexto da pandemia, 35-44.
Bruno-Faria, M. de F., Nakano, T. de C., & Veiga, H. M. da S. (2020). Criando novas
soluções para o trabalho e para os trabalhadores em resposta à pandemia. Em M. M.
9. Criatividade Moraes, O trabalho e as medidas de contenção da Covid-19: Contribuições da Psicologia
Organizacional e do Trabalho no contexto da pandemia: Os impactos da pandemia
para o trabalhador e suas relações com o trabalho. Porto Alegre, RS: Artmed.
Seidl, J., Andrade, A. D., & De Fruyt, F. (2020). Os Impactos da Covid-19 nas
Carreiras dos Trabalhadores. Em M. M. Moraes, O trabalho e as medidas
10. Carreira de contenção da Covid-19: Contribuições da Psicologia Organizacional e
do Trabalho no contexto da pandemia: Os impactos da pandemia para o
trabalhador e suas relações com o trabalho. Porto Alegre, RS: Artmed.
176
Conselho Federal de Psicologia
mensurar o desempenho no trabalho, além de tensões na relação trabalho-família. Essa
nova dinâmica requer dos trabalhadores competências como resiliência e criatividade.
O risco iminente de contaminação aliado à tensão de viver em um contexto
pandêmico ampliam os problemas de adoecimento mental no trabalho, trazendo
importância a questões de bem-estar, saúde no trabalho e regulação emocional. Por
fim, como já citamos, a crise econômica e o aumento do desemprego afloram a preo-
cupação sobre precariedade de trabalhadores informais e das possibilidades de refletir
sobre a carreira.
Essas reflexões apontam para os desafios que estão afetando o mundo do traba-
lho e que direcionam o olhar e o fazer do psicólogo organizacional e do trabalho no
Brasil. Mostram a diversidade temática, teórica e epistemológica da POT e apontam
para a grande relevância social de nossa área: em momentos de crise, a POT tem
muito a contribuir, trazendo reflexões, sinalizando possibilidades de intervenções e
apontando para caminhos possíveis para o futuro do trabalho.
Considerações Finais
Ao longo deste capítulo, apresentamos a história da Psicologia Organizacional
e do Trabalho no Brasil como campo de conhecimento e de atuação profissional.
Sua evolução ao longo dos anos – desde o início até os dias atuais – seguiu a própria
evolução da psicologia, o desenvolvimento de suas práticas e o seu posicionamento
político. Por outro lado, a POT procurou acompanhar as transformações no próprio
mundo do trabalho e da sociedade brasileira, caracterizando-se assim como um campo
do saber vivo e pulsante, que reflete e atua para a transformação da realidade nacional
do trabalho, marcada pela precariedade, informalidade e grande desigualdade social.
Contar história é sempre uma tomada de perspectiva, pois são muitos os atores
que deram um pouco de si – suas reflexões, suas práticas – para que a realidade se
desenhasse desta ou daquela maneira, nem sempre todas essas visões podem ser mos-
tradas. A história de um campo científico é uma narrativa que se baseia na tentativa
de dar sentido a dados e fatos ocorridos no passado. Mas muitas são as possibilidades
de contar, de interpretar, de fazer sentido.
Alguns autores (como por exemplo Sampaio, [1998]), apresentam que a evolu-
ção da POT se deu a partir da mudança de foco e incorporações de práticas. Porém,
entendemos que o processo evolutivo da área, para além das mudanças históricas do
contexto e de fazeres, deu-se a partir do processo de estruturação e consolidação da
POT. Esse processo, iniciado a partir de práticas isoladas, foi se ampliando e se com-
177
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
plexificando, passando para a construção de um arcabouço teórico próprio advindo
das pesquisas desenvolvidas no país, pelo fortalecimento coletivo de pesquisadores e
profissionais para a estruturação do campo, e que se refletiram na maior qualificação
profissional. Superamos ainda a dualidade trabalho versus organização e seguimos na
luta pela defesa da ciência e da profissão da psicologia organizacional e do trabalho,
a fim de responder aos anseios de trabalhadores que lidam diariamente com um
mundo do trabalho cada vez mais complexo e desafiador.
178
Conselho Federal de Psicologia
Referências
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ganizacional. Psicologia: Ciência e Profissão, 10(1), 10-8.
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ções e trabalho no Brasil. Porto Alegre: Artmed.
Borges, L. O., Borges-Andrade, J. E., Tolfo, S. R., Pilati, R., & Ferreira, M. C. (no pre-
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180
Conselho Federal de Psicologia
O surgimento e a regulamentação
da Neuropsicologia Clínica no Brasil
Kátia Osternack-Pinto
181
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
Ela conseguiu obter bolsas de estudo como estagiária por meio de instituições
governamentais e, de 1954 a 1966, tornou-se capacitada a realizar avaliação neurop-
sicológica mesmo antes de se ter conhecimento desta disciplina no Brasil. Citaremos
alguns exemplos de sua trajetória neste período1:
Em outubro de 1954, estagiou na Institution Publique D’education Surveillée
de Brécourt; e, em junho de 1955, no serviço de neuropsiquiatria infantil no Hospital
da Salpetrière, em Paris. De janeiro a setembro de 1961, financiada pelo “Foreign
Leader Program”, realizou diversos cursos no Institute of Physical Medicine and
Rehabilitation (Nova Iorque, EUA). De abril a junho de 1964, foi bolsista do Conselho
Britânico para estagiar em centros de paralisia cerebral e, de julho a setembro do
mesmo ano, realizou avaliação de adolescentes com paralisia cerebral na Spastics
Society. Em julho de 1966, participou do curso sobre desenvolvimento mental e
testagem diagnóstica de crianças pequenas no Child Development Research Center
com o Prof. Dr. Griffiths, em Londres.
Conforme comentou a Dra. Maria Joaquina Marques Dias em homenagem
póstuma2, Beatriz
1 Após seu falecimento, em 2013, a família ficou com a guarda de toda a sua documentação, que sua
irmã, Rosa Maria Whitaker Ferreira Sampaio, gentilmente permitiu fotografar e digitalizar. A docu-
mentação completa foi coletada e faz parte do acervo digital em sua memória que está sendo elabo-
rado pela ABRANEP.
2 Comunicação oral proferida em sessão solene na IV Reunião do Instituto Brasileiro de Neuropsicologia
e Comportamento – IBNeC, São Paulo, SP, 2013.
182
Conselho Federal de Psicologia
Figura 1 – Estágios na Institution Publique D’education Surveillée de
Brécourt (1954) e no Hospital da Salpetrière (1955)
183
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
Figura 2 – Cursos realizados no Institute of Physical Medicine and
Rehabilitation (1961)
184
Conselho Federal de Psicologia
Figura 3 – Bolsista do Conselho Britânico para estagiar
na Spastics Society (1964)
185
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
Figura 4 – Curso sobre desenvolvimento mental e testagem diagnóstica de
crianças pequenas no Child Development Research Center (1966)
186
Conselho Federal de Psicologia
Figura 5 – Declaração de vínculo como adida do Departamento de
Neurologia do FMUSP desde 1968
187
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
diologia e medicina. Demonstrou, assim, seu envolvimento com a divulgação dos
conhecimentos que trazia do exterior e seu compromisso com a interdisciplinaridade.
No Hospital das Clínicas, sempre era rodeada de psicólogas contratadas ou
aprimorandas em Psicologia Hospitalar, curiosas e interessadas em compreender o
funcionamento cognitivo dos pacientes. Ela nunca se cansava de explicar as termi-
nologias difíceis dos neurologistas e a complexidade do funcionamento cerebral.
188
Conselho Federal de Psicologia
A Expansão e Regulamentação da Neuropsicologia como
Especialidade do Psicólogo no Brasil
A partir do pioneirismo de Beatriz Lefèvre, durante mais de 20 anos o Brasil
ainda contava com poucos psicólogos que atuavam em Neuropsicologia Clínica. Não
havia regulamentação nem instrumentos apropriados no Brasil. A literatura era, quase
que exclusivamente, internacional.
Até final dos anos 1990, o Psicólogo que escolhia trabalhar em Neuropsicologia
dependia de realizar cursos no exterior (que também eram raros) ou dos ensinamen-
tos de alguém já com experiência, pois ainda não havia cursos de formação na área.
A própria regulamentação da especialidade nos EUA só foi reconhecida pela APA
(American Psychological Association) em 1996, ano em que a Divisão de Psicologia
do Instituto Central do HCFMUSP já contava com três psicólogas atuando exclusi-
vamente na Clínica Neurológica.
Era de suma importância investir na formação apropriada destes profissionais,
em nome da qualidade e difusão da prática, já tão necessária não só nos ambientes
hospitalares mas também nas diversas áreas de atuação da Neuropsicologia Clínica.
Ciente da importância de expandir a Neuropsicologia como especialidade do
psicólogo, a Divisão de Psicologia, em uma força-tarefa que contou com a parceria
da Clínica Neurológica e o Departamento de Neurologia da FMUSP, organizaram o
primeiro Curso de Especialização em Neuropsicologia do Brasil, que teve início em
6 de agosto de 1999, formando sua primeira turma em 2001.
189
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
No mesmo período em que o Curso de especialização foi lançado, tramitava
no Conselho Federal de Psicologia o Grupo de Trabalho que culminou com o re-
conhecimento de 9 áreas de atuação como especialidades do psicólogo (Resolução
CFP n. 14/2000), abrindo também a possibilidade de novas especialidades serem
reconhecidas
190
Conselho Federal de Psicologia
.
191
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
Foi assim que, em 20/05/2003, recebemos o e-mail informando que uma reunião
entre os Conselhos, realizada em 16 de maio daquele ano, aprovou o início dos debates
sobre a regulamentação do título de especialista em Neuropsicologia3.
Formou-se então um Grupo de Trabalho para elaborar o encaminhamento da
proposta e, na reunião de 22/08/2003, presidida por Ana Bock, foi solicitado que a
ABRANEP apresentasse a definição da especialidade, texto que foi rapidamente enca-
minhado (setembro de 2003).
Em 14/12/2003, a APAF decidiu pela regulamentação do processo e, em 18/02/2004,
o plenário do Conselho vota sua aprovação e a Resolução CFP nº 002/2004, que reconheceu
a Neuropsicologia como especialidade do psicólogo, é então publicada em 03/03/2004.
3 Toda a documentação comprobatória dos e-mails trocados com o CRP, referente ao encaminhamen-
to da proposta e participação do GT para sua elaboração (exceto as reuniões telefônicas), encontram-
-se arquivados na sede da ABRANEP e estão disponíveis para consulta.
192
Conselho Federal de Psicologia
E-mails enviados ao CRP-SP solicitando a inclusão da Neuropsicologia como
especialidade do psicólogo, bem como a resposta comunicando a aprovação pela
reunião dos Conselhos e convidando a ABRANEP para compor o GT responsável
pela elaboração da proposta.
193
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
E-mails demonstrando a participação da ABRANEP em todo o processo de
elaboração da proposta para reconhecimento da Neuropsicologia como especiali-
dade do psicólogo.
194
Conselho Federal de Psicologia
Publicação no Mural do Psi – Jornal do CRP-SP, em 2004.
Considerações Finais
Neste capítulo, procurou-se registrar e documentar como a atuação clínica da
Neuropsicologia teve seu início no Brasil, ressaltando a participação da Dra. Beatriz
Lefèvre como pioneira. Procuramos também relembrar como se deu o processo de
reconhecimento da Neuropsicologia como especialidade do psicólogo, ressaltando
a iniciativa e participação da ABRANEP em todo o processo.
Muito mais teríamos para contar, muitas outras contribuições da ABRANEP
para o desenvolvimento da Neuropsicologia poderíamos descrever, incluindo orga-
nização de eventos científicos, publicação de livros, parceria em cursos de diversos
níveis, entre outras. E muitas outras coisas ainda precisam ser feitas, principalmente
em relação a métodos e técnicas de investigação e intervenção neuropsicológica,
estrutura dos cursos de especialização, relações com a multidisciplinaridade, só para
citar algumas. E, finalmente, muitos outros desafios ainda nem cogitamos e que o
futuro, certamente, nos apresentará.
Que a Neuropsicologia Clínica continue dando muitos frutos e ajudando muitas
pessoas a terem uma vida melhor!
195
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
Federação Latino-Americana de
Análise Bioenergética:
do Pioneirismo da Psicologia
Corporal ao Compromisso Social
Ana Lúcia Faria
Ana Silvia Paula
Cristina Piauhy
Edna Ferreira Lopes
Fernanda Andrade Lima
Lorene Gonçalves Soares
Introdução
A Federação Latino-americana de Análise Bioenergética, FLAAB, é uma entida-
de que agrega sociedades e institutos da mesma abordagem. A Análise Bioenergética
está associada à psicologia corporal, desenvolvida a partir de um novo campo da psi-
cologia integral, psicossomática, na qual corpo e mente, sociedade e espiritualidade
compõem o sujeito em sua visão psicocorporal.
A FLAAB continua se desenvolvendo atualmente em toda a América Latina,
sendo parte integrante do Instituto Internacional de Análise Bioenergética
(International Institute of Bionergetic Analysis – IIBA), que reúne sociedades de to-
dos os continentes em suas formações e concepção de saúde emocional com as
relações sociais, políticas e culturais.
Atualmente a FLAAB é composta por seis entidades vinculadas: Instituto
Argentino de Análise Bioenergética (IAAB); Instituto de Análise Bioenergética de
São Paulo (IABSP); Sociedade de Análise Bioenergética do Rio de Janeiro (SABERJ);
Sociedade Brasileira de Análise Bioenergética (SOBAB) – São Paulo; Sociedade
Libertas (LIBERTAS) – Recife e Sociedade Vibrare (VIBRARE) – Brasília. Mantendo
a missão de expansão e desenvolvimento contínuo da psicologia clínica e social,
196
Conselho Federal de Psicologia
a FLAAB reforça a visão de uma psicoterapia corporal por meio da e além da psi-
cologia clínica, pedagógica e sócio-política, tendo como valores o fortalecimento
democrático, o compromisso com a diminuição da desigualdade social, realizando
uma psicologia a favor das minorias.
Faz-se necessário salientar a importância do surgimento da psicologia corporal
por meio de Wilhelm Reich (1897-1957), que atuou desde 1927 como psicanalista. A
maior contribuição de Reich foi entender o sujeito não apenas como aquele que
elabora psiquicamente, mas aquele com necessidade de expressar suas emoções, ser
participante de uma sociedade transformadora e reintegrar o seu corpo em toda sua
potencialidade psicossexual e orgástica. Um pensamento recorrente na obra do autor
encontra-se sintetizado na seguinte frase: “O amor, o trabalho e o conhecimento são
as fontes da nossa vida. Deveriam, portanto, governá-la”
É importante salientar que muitos dos alunos e clientes de Wilhelm Reich de-
senvolveram trabalhos, técnicas e abordagens baseadas nas suas práticas clínica, social,
de pesquisa e em suas obras. Alexander Lowen, cliente e aluno de Reich, desenvolveu
a abordagem psicoterapêutica da Análise Bioenergética em seu próprio corpo com
o colega Jonh Pierrakos, então criaram a prática das intervenções corporais. Lowen
e Pierrakos desenvolveram uma nova metodologia com base na psicanálise, teoria e
prática da análise do caráter e função do orgasmo desenvolvida nas pesquisas clínicas
e sociais reichianas no campo da Orgonomia; tal metodologia seria o embrião da
Análise Bioenergética. (Piauhy & Lima, 2014).
Em 1956, Dr. Lowen, Dr. Pierrakos e Dr. William Walling, médicos, mantiveram
o interesse de desenvolver uma metodologia que desse continuidade a Psicologia
Corporal; criaram, então, o Institute Bionergetic Analysis na cidade de Nova York,
sem ter ainda um caráter internacional. A Análise Bioenergética está se expandindo
por todos os continentes e em diversos países. Todas as sociedades, nacionais e inter-
nacionais mantêm o vínculo com o instituto internacional, seguem seu regimento e
as mesmas bases de formação e pesquisas articulam-se entre si com o IIBA.
Em 1981, foi fundada por Myriam de Campos, Eulina Ribeiro e Odila Weigand,
brasileiras e trainers internacionais, a primeira sociedade de Análise Bioenergética
em São Paulo, SP, Brasil, dando início às especializações. A partir daí, foram se de-
senvolvendo novas Sociedades e Institutos.
Em 1996, foi fundada a Federação Latino-americana de Análise Bioenergética
idealizada por Oswaldo Guimarães, Eliana Isola, Grace Wanderley, Liane Zink
e Jayme Panerai.
197
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
Análise Bioenergética: de Reich a Lowen,
o Pioneirismo Clínico e a Diversidade
Wilhelm Reich é o precursor da psicologia corporal; era ainda psicanalista e
ousava ampliar suas intervenções em três campos que começaram a divergir da téc-
nica psicanalítica, quando, em 1934, é expulso da sociedade psicanalítica de Viena.
O primeiro dos três campos surgiu a partir da clínica; para Reich, o trabalho
interpretativo e verbal ia além do campo transferencial; pois, por mais que o cliente
tomasse conhecimento de suas neuroses, ele não conseguia atuar de maneira diferente.
Sentiu, então, que era necessária uma proposta mais ativa. Reich iniciou a nova técnica
sugerindo ao cliente que expressasse suas emoções a partir dos traumas relatados, e
observava constantemente que havia uma cisão entre corpo e mente, ou seja, o que
o cliente falava não tinha relação com sua dor ou prazer. Não havia conexão, muitas
vezes no olhar, na voz, nos movimentos, ritmos, sensações e tônus emocional. Não
havia espontaneidade no corpo e as resistências do paciente-cliente passaram a ser o
seu foco. A esse fenômeno de resistência nomeou de “processo de encouraçamento”.
No tratamento analítico, essas forças apresentam-se como resistências à elimi-
nação do recalque. Esta compreensão teórica dita uma regra básica posterior: tornar
consciente o inconsciente não deve ser feito diretamente, e sim pela quebra de resis-
tências. Isso significa que “o paciente precisa perceber primeiro que está resistindo,
depois como o faz, e finalmente para o que.” (Reich, 1995).
Em suas obras “Análise do Caráter” (1933) e a “Função do Orgasmo” (1927),
Reich descreve seus fundamentos básicos de uma nova postura como psicanalista.
O divã não era mais um lugar só de falar, mas também um novo lugar de emoção
e movimento, pois, para ele, as resistências formavam blocos de tensão em todo o
organismo reforçando as resistências psíquicas. Nessa nova perspectiva clínica desen-
volveu a vegetoterapia caractero-analítica, a Psicologia Corporal na qual o terapeuta
se torna mais ativo e propõe a expressão emocional com movimentos e toques que
possam também estimular a expressão emocional dos seus traumas.
Reich percebeu que as resistências diminuíam com as intervenções corporais e
a vitalidade genital sexual do sujeito progredia. Segundo ele, em seu livro “A Função
do Orgasmo” (1994), a vida sexual não é só consequência dos traumas infantis esque-
cidos. Os traumas congelam as emoções que se tornam defesas e tensões corporais
rígidas e ao longo do desenvolvimento passamos a ter um caráter defensivo contra
as novas dores e amores.
198
Conselho Federal de Psicologia
O segundo campo em que Reich atuou foi o social. O psicanalista e teórico
desenvolveu movimentos coletivos muito importantes, não só preocupado com a
função clínica mas também com a função educacional. Em 1933, já em Berlim, criou
um movimento denominado movimento político-sexual, o Sexpool. Dentro de um
curto espaço de tempo, existiam 40.000 filiados ligados e empenhados com as refor-
mulações sexuais que direcionavam o interesse de trabalhar com jovens e famílias
da classe proletária para questionar a repressão sexual e a ordem social (Reich, 1988).
O terceiro campo reichiano é aquele que define toda sua prática e obra, a
Orgonomia. Para Reich, orgone é uma energia celular ligada à natureza cósmica.
Segundo Raknes (1988), a energia viva libidinal encontra-se em todas as dimensões.
Se as condições de repressão pelo contexto vivido com um poder adestrador e de
alienação são capazes de excluir algumas partes do organismo do livre metabolismo
orgânico, ocorrerão bloqueios e sérios traumas também afetando toda sociedade e
cada célula. Também afetarão cada organismo em suas dimensões de passado, pre-
sente e futuro. O resultado será algum tipo de biopatia, doença de viver, como uma
neurose, uma psicose ou um câncer entre tantas consequências para a humanidade.
Vimos aqui um vasto campo de pesquisa de Wilhelm Reich, dos seus estu-
dos, e práticas. Surgiram várias teorias e novas metodologias dentro do campo
psicocorporal, entre elas a Análise Bioenergética, cujo fundador foi Alexander
Lowen, que escreveu uma vasta obra (14 livros) para aprofundar e desenvolver a
teoria e a prática desta abordagem.
O terapeuta de Análise Bioenergética aprende no corpo a corpo, nos atendi-
mentos vividos e em suas histórias vivenciadas nas formações. Traumas familiares e
sociais são trabalhados por meio dos seus relatos, emoções e desbloqueio das tensões.
É importante citar aqui o pioneirismo de Alexander Lowen, que manteve as bases
reichianas da análise do caráter, porém desenvolveu uma metodologia com diferentes
intervenções na releitura do caráter reichiano.
A Bioenergética iniciou sua expansão no Brasil a partir da década de 1980.
Segundo Piauhy (2014), a análise bioenergética no Brasil e em outros países da
América Latina sofreu fortes impactos políticos da ditadura: silenciamento, tortura e
assassinato de corpos falantes da resistência contra esse momento de terror. A autora
afirma: “Enquanto corpos estão sendo mortos e torturados nesse segmento social há
uma valorização do corpo como expressão, como lugar de vitalidade”.
Em 1970, tivemos vários movimentos no Brasil em convergência com a con-
tracultura, a exemplo do movimento tropicalista e de artistas que expressavam sua
resistência. Com a Psicologia Corporal inicia-se um movimento de workshops para
199
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
além do conhecimento e prática. Nós nos unimos na nossa potência vital contra
qualquer iniciativa ditatorial repressiva e contra a liberdade de expressão. Na in-
trodução do seu último livro, “Uma vida para o corpo, autobiografia de Alexander
Lowen”, Lowen (2007) fala:
200
Conselho Federal de Psicologia
É crescente o número de publicações em todas as sociedades e institutos filiados,
aqui daremos destaque a duas iniciativas nas quais a FLAAB tem participação ativa
e direta: a Revista Latino-americana de Psicologia Corporal (2014), criada em parceria
entre a Sociedade Libertas e a Federação Latino-americana de Análise Bioenergética
(FLAAB), que desde 2014 tem como editores Alexandre Franca Barreto e Gislene
Farias de Oliveira. O veículo tem como principal finalidade dar mais visibilidade aos
trabalhos científicos na área da Psicologia Corporal, além de divulgar outros em áreas
afins com a Psicologia. Em 2021, lançou-se uma edição especial da Revista (v. 8, n. 12,
2021) com o tema “Psicologia Corporal, pluralidade étnica/racial, gênero e sexualidade:
colonialismos, interseccionalidade e ancestralidade”. Esta edição faz jus aos anseios
desta publicação, que é abrir espaço para temáticas que venham refletir sobre nossa
realidade como latino-americanos em nossas diversidades e as implicações que se
refletem na psicologia corporal.
A União Latino-Americana de Entidades de Psicologia (ULAPSI) se constitui
como importante instituição que tem como um dos objetivos a construção de uma
psicologia comprometida com as necessidades dos países da América Latina.
A FLAAB, na função de entidade integrante e participativa, tem contribuído nas
diversas iniciativas, entre elas: a criação do grupo de trabalho “Psicologia Corporal, na
América Latina” (GT18), que tem como tema central de estudo e pesquisa o corpo na
perspectiva da Análise Bioenergética. O enfoque desses estudos se relaciona com sua
formação histórica, atravessamentos e marcas étnicas, culturais e sociais, sendo atual-
mente coordenado por Ana Sílvia Paula e colaboradoras. Para a FLAAB, é de grande
importância participar deste coletivo que pensa, fomenta conhecimentos, planeja ações
e práticas que expressam o compromisso social da psicologia com a América Latina.
201
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
Institutos formadores em Análise Bioenergética, desejando mudanças nos currículos
e na busca de novas formas de se fazer conhecimento, incluindo realidades diversas.
Este movimento fez ressonância com as inquietações que formadoras e formado-
res em Análise Bioenergética nas instituições de ensino, falando aqui especificamente
do Brasil, viviam. Embora eles sentissem e desejassem realizar mudanças, careciam
de unir o conhecimento teórico e prático já existente às profundas demandas emo-
cionais, corporais, éticas, culturais emergidas no confronto com as questões raciais,
étnicas, diversidade de gênero, de classe entre tantas outras.
Esta efervescência fez surgir ações, debates e, sobretudo, a busca por meios
que viabilizassem uma transformação efetiva na forma e no conteúdo de ensinar
Análise Bioenergética, incluindo no corpo vivido e teorizado os saberes acerca da
nossa realidade histórica, dos colonialismos, das repressões em relação às várias
diversidades sexuais e muito mais.
A clínica social em Análise Bioenergética, no Brasil, foi pioneira em relação
às sociedades internacionais pertencentes ao Instituto Internacional de Análise
Bioenergética (IIBA), sendo parte integrante nas formações de todas as sociedades e
institutos filiados à FLAAB. No entanto, o foco esteve quase sempre nas questões de
classe, principalmente sob o viés econômico, sem associar de forma direta às questões
raciais, de gênero que, neste momento histórico, se tornam parte indissociável. Este
foi um dos avanços que a comunidade da Análise Bioenergética no Brasil foi capaz
de conduzir de forma coerente e profunda.
Com a pandemia do Covid-19 se fez necessário repensar a psicoterapia corpo-
ral, revendo questões éticas, relações de vínculo, práticas corporais como também os
processos de aprendizagem nos cursos, nas especializações, realizando adaptações
criativas para um novo formato de trabalho on-line.
Citaremos algumas experiências que se apresentaram de profunda riqueza no
sentido da expansão do conhecimento da Análise Bioenergética para além da comu-
nidade de analistas em bioenergética, bem como atualizando processos históricos já
esquecidos pelo tempo e, muitas vezes, não repassados para a geração atual de estu-
dantes e analistas formados e formadas mais recentemente. E assim foram criadas
as lives, que, no campo da Psicologia Corporal, foram representadas pelos analistas
bioenergéticos Dante Moretti, Joviniano Resende e Perisson Dantas com a realização
de um trabalho maravilhoso de entrevistas on-line com profissionais fundadores da
Análise Bioenergética no Brasil e no mundo.
Analistas de diversas gerações estão formando um acervo de conhecimento
afetivo/teórico e histórico. A Sociedade Libertas lançou as “Narrativas Libertas”
202
Conselho Federal de Psicologia
com entrevistas a profissionais de diversas áreas do Brasil e da América Latina,
abordando temas contemporâneos que dizem respeito à saúde integral, direitos
humanos, entre tantos outros.
Outra experiência foi a formação do grupo “Pensar Bioenergética”, idealizado
por trainers internacionais em Análise Bioenergética: Liane Zink, Grace Wanderley
e Jayme Panerai, e composto ao todo por 13 analistas em bioenergética, incluindo
trainers internacionais e locais que se encontram quinzenalmente no formato on-line
desde o início da pandemia, em 2020. Esse grupo teve inicialmente como objetivo ser
um espaço de reflexão sobre a Análise Bioenergética em tempos pandêmicos e para
refletir sobre as inovações necessárias para acompanhar as necessidades emergentes
na clínica e nas formações. Uma das ações foi a realização do curso de atualização para
professores e formadores na clínica corporal com o tema “Corpos Diversos – negritude
e branquitude na clínica”, realizado pelo Instituto de Análise Bioenergética de São
Paulo (IABSP), Sociedade Brasileira de Análise Bioenergética (SOBAB) e Sociedade
Libertas de Pernambuco, com coordenação de Benedito Roberto Manoel (Sabará),
Maria Cristina Francisco, Marilza de Souza Martins e Sheila Gomes.
Neste terreno, a gestão do início 2020 da Federação Latino-americana de Análise
Bioenergética (FLAAB) tem a diretoria composta por: Edna Ferreira Lopes (presi-
dente); Fernanda Andrade Lima (vice-presidente); Joia Lacerda (diretoria financeira);
Lorene Gonçalves Soares (diretoria científica); Antônia Georgina Martins (diretoria
administrativa) e Marina Ricco Pedroso (diretoria social).
Primeiramente, temos como princípio os fundamentos da democracia, os
processos coletivos horizontais e uma visão política em que os direitos humanos são
a base dos nossos projetos como instituição. Estamos comprometidas a dar suporte
às iniciativas e ações em congruência com os objetivos da entidade de expandir e
impulsionar a Análise Bioenergética, seguindo os princípios do respeito e valorização
da vida. Buscamos também:
• Dar continuidade aos projetos desenvolvidos em gestões anteriores, que
apresentam valor relevante à entidade, tais como: a presença ativa da enti-
dade no Fórum de Entidades Nacionais da Psicologia Brasileira (FENPB), na
União Latino-Americana de Entidades de Psicologia (ULAPSI), na Associação
Latino-Americana para formação e ensino da Psicologia (ALFEPSI) e no
Ministério da Saúde (SUS);
203
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
• Ter como foco as pautas sociais, étnicas/raciais e ser espaço de suporte para
desenvolver ações coerentes com este propósito;
204
Conselho Federal de Psicologia
Latino-americana de Análise Bioenergética no Rio de Janeiro, cujo primeiro presidente
foi Oswaldo Guimarães. Em 2002, formalmente, a Federação passou a ser em Salvador,
cujo presidente foi Romero Magalhães. Durante a gestão deste último, aconteceu no
Brasil a 17ª Conferência Internacional de Análise Bioenergética, em 2003, um feito
importante, pois, até essa data, as conferências aconteciam apenas nos Estados Unidos
e na Europa. Com essa conferência, o Brasil passou a fazer parte do revezamento
determinado pelo Conselho Internacional de Análise Bioenergética do IIBA. A partir
disso, tivemos a 20ª Conferência em Búzios (RJ), ocorrida em 2009. A 23ª Conferência
foi realizada em Porto de Galinhas (PE), em 2015, e a 26ª, a mais recente, ocorreu em
2021, em modalidade totalmente virtual, mas com sede em São Paulo (SP).
Em 2005, a FLAAB voltou para o Rio de Janeiro tendo novamente Oswaldo
Guimarães como presidente. Em 2010, Jayme Panerai assumiu a Presidência, duran-
te seu mandato aconteceu a inclusão da FLAAB no Fórum de Entidades Nacionais
da Psicologia Brasileira (FENPB), na Associação Latino-Americana para formação e
ensino da Psicologia (ALFEPSI), e também na União Latino-Americana de Entidades
de Psicologia (ULAPSI), lugares de destaque e importância para psicologia brasileira.
Em 2017, Cristina Piauhy assumiu a Presidência e durante sua gestão aconteceu
a entrada da Análise Bioenergética nas PICS (Práticas Integrativas e Complementares
em Saúde). Essa inclusão favoreceu uma iniciativa importante nas práticas integrati-
vas sociais. A PICS, além de ser um programa que reconhece as diversas técnicas de
cuidado que fazem parte da nossa cultura, amplificou o acesso da população brasi-
leira a estes cuidados. Assim, a saúde passa a ser entendida para além da hegemonia
biomédica, da patologização e da medicalização. Conquistamos então, ao fazermos
parte do SUS, o maior sistema público universal do mundo, a possibilidade de irmos
ao encontro da maioria da população de nosso país, que sabemos que tem poucos
recursos e pouco acesso aos seus direitos básicos e essenciais.
A análise bioenergética, enquanto serviço disponível à população, está total-
mente de acordo com a Constituição Brasileira de 1988, que define a Atenção Integral
como possibilidade de tratamento. Neste modo de atenção à saúde, ultrapassamos o
campo da biomedicina no que foi possível. A instituição também participou com um
capítulo: “Bioenergética como prática integrativa e complementar no SUS: aspectos
históricos, teóricos e práticos”, do livro “Práticas Integrativas e Complementares no
SUS”, organizado por Vera Lucia Freitas e Marcio Rossato Badke (2019).
Em 2020, Edna Lopes assumiu a Presidência da FLAAB. Durante seu mandato,
estamos vivendo a pandemia do Coronavírus. A FLAAB foi, e está sendo, um polo
aglutinador de suas entidades dando suporte, apoio e criando várias possibilidades
205
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
de estarmos juntas mesmo que virtualmente. A federação teve, inicialmente, uma
reivindicação muito importante nesse período atual, que foi a redução de valores
cobrados dos professores que vinham de outros continentes para darem aulas no
Brasil. Esses valores foram equilibrados e unificados para todas as Instituições bra-
sileiras e da América Latina que levavam os ensinamentos da Análise Bioenergética,
socializando, assim, a possibilidade de oportunidades e democratizando a FLAAB.
Também nesse momento, a instituição colabora para as sociedades continuarem a
amadurecer e se desenvolver, criando maior consistência. Essa iniciativa fez com
que as sociedades brasileiras tivessem visibilidade se articulando e se fortalecendo
mais. Com a criação da Federação, as sociedades brasileiras ficaram mais presentes
e participativas nas decisões do IIBA.
Nesse processo, a FLAAB foi se transformando e se estabelecendo como
um centro científico e educacional internacional, com o objetivo de ampliação da
psicoterapia corporal e da Análise Bioenergética. Além disso, também funciona
como um espaço de acolhimento para as sociedades, hoje com um número maior
de entidades, que trabalham no sentido da ampliação dos ensinamentos da Análise
Bioenergética no Brasil e na América Latina.
Com a representatividade da FLAAB, com o Instituto Internacional da
Análise Bioenergética, tivemos uma grande conquista: pela primeira vez assumiu
a Presidência do Instituto mulheres brasileiras: em 2020, Cristina Piauhy; e em
2021, Léia Cardenuto, que permanece na gestão.
Como perspectiva futura, a FLAAB tem o compromisso de articular todas as
abordagens da Psicoterapia Corporal para a criação da integração em diversos campos.
Com o I Congresso Latino-Americano de Psicologia Corporal, em 2017, pelo Instituto
Libertas – Recife, dá-se início a esse movimento. A FLAAB participa, desde 2014, da
realização do “Congresso Brasileiro de Psicologia, Ciência e Profissão”, incentivando
seus membros, e também membros das outras abordagens corporais, a participarem
das modalidades deste congresso e principalmente da “sala do corpo”, espaço em
que profissionais trabalham com práticas e diálogos interativos com o objetivo de
promover experiências e informações sobre as abordagens corporais.
206
Conselho Federal de Psicologia
cional que viria a ter mais tarde. Alguns anos depois eles se separaram e Alexander
Lowen seguiu à frente do IIBA.
A Análise Bioenergética se expandiu nos EUA. Lowen viajou pelo país para
dar workshops tornando a prática da Análise Bioenergética uma nova referência na
psicologia. Nos anos que se seguiram, Lowen deu vários workshops em Esalen, co-
munidade terapêutica na Califórnia, em que passou a ser conhecido não só no país
como internacionalmente. Em 1976, foi criado o International Institute of Bioenergetic
Analysis (IIBA), para poder atender à crescente demanda de terapeutas certificados
em diversos países. Atualmente, temos mais de 1.400 membros ativos e cerca de 50
sociedades e institutos locais filiados, distribuídos em todo o mundo.
No IIBA, planejamos e executamos atividades que apoiam e incentivam o desen-
volvimento de nossos membros como terapeutas bioenergéticos. Também apoiamos
e aprimoramos o trabalho de nossas sociedades locais e grupos regionais, assim como
promovemos o desenvolvimento e o crescimento da Análise Bioenergética moderna,
como teoria e como movimento.
O IIBA atende seus membros concebendo, planejando e executando atividades
que fornecem fóruns de compartilhamento e ensino inovador. Nossas sociedades locais
funcionam de forma autônoma, entendendo as características únicas de suas situações
nacionais e profissionais. Estas são responsáveis por realizar treinamentos, recrutar
novos membros e oferecer programas ao público profissional e não profissional. Essas
sociedades são, com nossos membros, o terreno de nossa organização global.
Nossa missão atual se estende para o futuro, continuando a apoiar e incentivar
o desenvolvimento de novos conhecimentos e habilidades na Análise Bioenergética
moderna, bem como a síntese apropriada de conhecimento de outros campos e
teorias articulados com saberes inter e transdisciplinares nas pautas sociais, na base
de conhecimento disponível para seus membros.
O IIBA é constituído por:
1. Conselho de Curadores;
3. Comitê Executivo; e
4. Comitê de Pesquisa.
Objetivos do IIBA:
207
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
• Melhorar a expansão do método da Análise Bioenergética moderna com o
objetivo de aliviar o sofrimento humano;
• Fornecer apoio aos nossos membros e aos vários grupos dentro de nossa
comunidade, alunos professores e trainers (sociedades locais, institutos,
associações e federações regionais);
Desde 1985, o IIBA publica a revista The Clinical Journal of the International Institute
for Bioenergetic Analysis, que contém artigos de diferentes associados de todo o mun-
do. É uma publicação que congrega o pensamento da comunidade bioenergética,
assim como divulga novos estudos e pesquisas realizados por trainers nacionais e
internacionais da área, atualizando novos conhecimentos e práticas. Publica tam-
bém pesquisas empíricas, textos teóricos e estudos de caso. O “Journal” é lançado
anualmente, enviado a todos os associados do IIBA e também publicado no site do
instituto, socializando assim as atualizações da Análise Bioenergética.
Considerações Finais
A época histórica, seja de um país, povo ou até mesmo de uma instituição, apre-
senta-se interligada ao conjunto de fatores que compõem a realidade daquele momento.
Em 1996, um grupo de pessoas já citadas neste artigo, em determinada fase
da instituição IIBA, pensa a Federação Latino-americana de Análise Bioenergética
(FLAAB) movida pelo desejo de que a América Latina tivesse uma voz mais atuante,
presente e ativa frente a comunidade da Análise Bioenergética. Este movimento de
volta às nossas raízes, de forma ainda incipiente, buscou firmar bases e encontrar
208
Conselho Federal de Psicologia
parcerias. Essa expansão adquire maior sedimentação na entrada da FLAAB no Fórum
de Entidades Nacionais da Psicologia Brasileira (FENBP), União Latino-americana
de Psicologia (ULAPSI), Associação Latino-Americana para Formação e Ensino da
Psicologia (ALFEPSI), reconhecida e atuante no SUS e PICS.
Enraizar-se junto às entidades de psicologia no Brasil e América Latina era se
aquecer das questões e temas singulares da nossa realidade brasileira e ao mesmo
tempo expandir o olhar para nosso contexto mais amplo como terceiro-mundista,
latino-americano, miscigenado; isto constituiu um grande avanço.
A entrada da Análise Bioenergética no SUS consolida mais um degrau de
aprofundamento nas nossas conquistas, pois com esse passo chegamos às primeiras
raízes das quais necessitamos cuidar. Assim, chegamos ao hoje, atravessando crises
econômicas, políticas, existenciais e, nestes últimos anos, a pandemia do Covid-19. E
nos perguntamos, neste momento histórico, em quais demandas centrais a FLAAB
deverá ancorar sua energia criativa e propulsora de transformações, presente ao
longo da sua história, atuante e sendo suporte ao movimento vivo de mudanças,
atualizações, expansão e fortalecimento das Sociedades e Institutos.
Como vimos, a Federação Latino-americana de Análise Bioenergética, entre
outros pontos, se encontra envolvida em expandir o diálogo cooperativo entre os
membros filiados. Acredita na potência afetiva como propulsora de realizações e
também vem se mantendo comprometida com as pautas sociais, étnicas/raciais, de
diversidade de gênero e tantas outras que buscam a valorização da vida.
Ressaltamos estes pontos como sendo a base de todos os projetos mencionados,
fazendo jus ao aprendizado a partir das nossas bases teóricas em Wilhelm Reich e
Alexander Lowen.
Com tantas histórias vividas, provavelmente alguns lapsos aconteceram em nossa
narrativa. De toda forma, a essência do trabalho realizado pela Federação Latino-
americana de Análise Bioenergética (FLAAB), ao longo da sua existência até então,
se apresenta de forma concisa, porém com toda sua força, autenticidade e potência.
Evidenciamos a importância desta publicação pelo Fórum de Entidades Nacionais
da Psicologia Brasileira (FENPB), quando a psicologia comemora 60 anos de regula-
mentação no país e dando oportunidade de manter viva a memória, a importância
de cada entidade vinculada e seus desafios e contribuições para uma psicologia com-
prometida com a democracia, direitos humanos e a “vida-viva”.
209
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
Referências
Badke, M. R., & Freiras, V. L. (2019). Práticas integrativas e complementares no SUS.
Porto Alegre, RS: Nova Práxis Editorial.
Barreto, A. F., & de Oliveira, G. F. (Eds.). (2021). Edição especial “Corporal, pluralida-
de étnica/racial, gênero e sexualidade: Colonialismos, interseccionalidade e ances-
tralidade”. Revista Latino-Americana de Psicologia Corporal, 8(12).
Boadella, D. (1985). Nos caminhos de Reich (1. ed.). Summus Editorial: São Paulo.
Lowen, A. (2017). Uma vida para o corpo (1. ed.). Summus Editorial: São Paulo.
Reich, W. (1985). Análise do caráter (2. ed.). Martins Fontes: São Paulo.
Reich, W. (1988). Psicologia de massas do fascismo (2. ed.). Martins Fontes: São Paulo.
Stolkiner, J. (2008). Abrindo-se aos mistérios do corpo (1. ed.). Porto Alegre, RS:
Alcance.
210
Conselho Federal de Psicologia
Movimento Estudantil e a
Efervescência da Psicologia:
a Construção e História
da Coordenação Nacional
de Estudantes de
Psicologia (CONEP)
Jonas Marssaro
Capítulo dedicado a cada militante do movimento estudantil, a quem sonha por uma
educação de qualidade e a memória de Aurora Maria Nascimento Furtado
211
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
Figura 1 – Estrutura do movimento estudantil secundarista
Centro Acadêmico
Fonte: União Nacional das e dos Estudantes (UNE), 2002]; Coordenação Nacional de Estudantes
de Psicologia (CONEP), 2022; Mesquita, 2003; Hur e Aragusuku, 2008; Fonte primária.
212
Conselho Federal de Psicologia
Figura 3 – Estrutura do movimento estudantil de pós-graduandos
213
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
A década de 20 foi marcada por uma série de transformações no mundo e
no Brasil, havendo a primeira greve geral no país, a Revolução Russa, a Semana de
Arte Moderna e a política do Estado Novo. A UNE nasceu durante a era Vargas, que
começou com o golpe de 1932 e foi até 1945. É importante destacar que nesse pe-
ríodo houve um avanço significativo na industrialização brasileira, o que acarretou
a ampliação da universidade, se comparada aos séculos anteriores, no entanto, a
universidade ainda era muito distante da maioria da população brasileira (Abu-El-
Haj, 2005; Trindade, 2011).
A principal bandeira da UNE nesse período foi a luta pela exploração do petróleo
no Brasil. Essa bandeira foi conhecida como “O Petróleo é Nosso”, levando a criação
da Petrobras e tornando o Brasil um país na disputa pelo centro energético mundial,
além de atrair diversas empresas multinacionais, parte do plano de governo da Era
Vargas (Abu-El-Haj, 2005; Trindade, 2011).
Durante os governos que vão de 1945 até 1964, a UNE se tornou uma das principais
vozes da juventude, somando-se às lutas sindicais. Após a criação da Petrobras, a UNE
passou a denunciar e combater a repressão policial contra os movimentos sociais, sobre-
tudo contra os movimentos estudantis (Abu-El-Haj, 2005; Trindade, 2011; UNE, 2022).
O período de governo de Juscelino Kubitschek foi marcado pelo lema “50 anos
em 5” e o seu período desenvolvimentista acabou levando o Brasil à profunda dívida
externa. A eleição de JK foi feita a partir de uma coalizão de partidos políticos, assim
como aconteceu com a eleição de Augusto Cunha Neto para a eleição da presidência
na UNE, em 1954, em que coletivos de esquerda e direita uniram-se para eleger o
estudante de Direito (Abu-El-Haj, 2005; Trindade, 2011; UNE, 2022).
Devido às políticas para modernizar o país e aos altos empréstimos do Banco Mundial,
o governo JK se viu obrigado a lidar com a alta inflação, o que acarretou o aumento dos
preços de diversos itens e serviços, um desses foi o aumento do preço da passagem do
bonde. O presidente da UNE Carlos Velosos de Oliveira chegou a negociar pessoalmente
a baixa das passagens de bonde do Rio de Janeiro, devido às manifestações estudantis que
estavam acontecendo (Abu-El-Haj, 2005;Trindade, 2011; UNE, 2022).
Nesse momento, outra bandeira importante foi incorporada aos movimentos
estudantis: a meia-entrada livre. A carteirinha estudantil passou a ser uma bandeira,
para que estudantes tivessem a meia-entrada garantida em passagens de transpor-
te, eventos e locais culturais, científicos, esportivos e artísticos (Abu-El-Haj, 2005;
Trindade, 2011; UNE, 2022).
Desde a criação da UNE até a ditadura militar, o governo de João Goulart foi o
mais aberto a dialogar sobre políticas estudantis. “Jango” ficou conhecido por defender
214
Conselho Federal de Psicologia
reformas de base no Brasil, ou seja, reformas necessárias para que o país pudesse ter
um desenvolvimento mais acertado e sem a insegurança da inflação e do coronelismo,
muito presente no país. A UNE passa a dialogar mais com o governo sobre políticas
estudantis e culturais e sobre a necessidade de a juventude ocupar espaços de decisão
na política brasileira (Abu-El-Haj, 2005; Trindade, 2011; UNE, 2022).
A década de 1960 também foi marcada pela estruturação do movimento estu-
dantil na qual é conhecida hoje. Desse modo, a UNE ficou como entidade nacional
e as Uniões Estaduais de Estudantes (UEEs) eram entidades estaduais, nos campus,
como entidades de base do movimento estudantil ficariam os Diretórios Centrais de
Estudantes (DCEs), Diretórios Acadêmicos (DAs) e Centros Acadêmicos (CAs). A UNE,
assim como diversas entidades do movimento estudantil, nesse período começou a
brigar por mais acesso à universidade e pela criação de programas de educação que
fossem mais universalizados, defendendo a autonomia da universidade pública e sua
interiorização pelo Brasil (Abu-El-Haj, 2005; Trindade, 2011; UNE, 2022).
A UNE passou a ser protagonista de espaços importantes na luta estudantil,
como a representação em colegiados das universidades do país e participar do go-
verno de Jango, que foi interrompido pela ditadura militar. A UNE já denunciava, na
época, as diversas tentativas de intervenção políticas, administrativas e econômicas
que o Estados Unidos tinha com o Brasil, além de defender um Brasil mais desen-
volvimentista, como eixo central no combate das desigualdades (Abu-El-Haj, 2005;
Trindade, 2011; UNE, 2022).
215
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
estudantes compunham grupos de estudos, coletivos e entidades, onde discutiam a
psicologia e difundiam ela como uma ciência própria.
As associações estudantis e profissionais da época pressionaram desde antes de
1957, mas com uma campanha mais estruturada nesse ano, a criação da Psicologia
como profissão. Esse período do movimento estudantil, podemos chamar de 1ª fase
do Movimento Estudantes da Psicologia (MEPsi) (Ribeiro, 2007).
O segundo período do MEPsi é constituído como a própria construção do
estudante de Psicologia, iniciando em 1958 e terminando em 1964, estudantes e pro-
fissionais começaram a pressionar na sociedade a criação da profissão de Psicologia
e a necessidade de essa profissão estar vinculada a um curso de graduação específico
(a faculdade de Psicologia). Esse momento também é marcado pela estruturação
do curso de Psicologia e suas principais disciplinas e abordagens lecionadas nas
universidades, desse modo estudantes e professores participaram dessa construção,
além da própria construção do Conselho Federal de Psicologia (CFP) e do sistemas
conselhos, estruturando a Psicologia como uma profissão distinta e separando os
atributos e responsabilidades do profissional de psicologia das outras profissões (Hur,
& Aragusuku, 2018; Ribeiro, 2007).
No interior do movimento estudantil da Psicologia, as ideias sobre visão de
mundo e ideários políticos brotavam nos estudantes. Desse modo, estudantes ligados
ao Partido Socialista Brasileiro (PSB), Partido Comunista Brasileiro (PCdoB) e Partido
Trabalhista Brasileiro (PTB) travavam políticas com estudantes que discutiam verten-
tes liberais de mundo, ligados à União Democrática Nacional (UDN), além de visões
anarquistas sobre a política e a sociedade. Desse modo, o segundo período do MEPsi
começa a se formar não apenas pela luta da Psicologia como curso de graduação e
profissão, mas também sobre a própria visão política que a Psicologia e o movimento
estudantil da Psicologia brasileira deveriam assumir (Ribeiro, 2007).
A Ditadura Militar
O terceiro momento da história do MEPsi se inicia num momento em que o
movimento estudantil como um todo passa a ganhar destaque, ao mesmo tempo
que é criminalizado. O golpe militar, em abril de 1964 passa a criminalizar a UNE e
todas as pessoas que estivessem envolvidas com o movimento estudantil. Esse ter-
ceiro momento é marcado pelas tentativas de construir um Encontro Nacional de
Estudantes de Psicologia (ENEP), em 1976 (Hur, & Aragusuku, 2018; Ribeiro, 2007).
216
Conselho Federal de Psicologia
O terceiro momento do movimento estudantil da Psicologia tem como principal
símbolo a estudante de psicologia Aurora Maria Nascimento Furtado, que foi estudante
de Psicologia na Universidade de São Paulo (USP) e colaborava com a imprensa da
UNE. Era integrante do Partido Comunista Brasileiro (PCdoB) e fez parte da dissidência
estudantil do Partido Comunista Brasileiro (PCB/SP). A partir da publicação do Ato
Institucional nº 5 (AI-5), passou a integrar na luta armada dentro da Aliança Nacional
Libertadora (ANL), passando a viver na clandestinidade (Comissão da Verdade do es-
tado de São Paulo – Rubens Paiva [CVESP-RP], 2022; Memórias da Ditadura, 2022).
Aurora foi capturada pelo Departamento de Operações de Informação – Centro
de Operação de Defesa Interna (DOI-CODI) do Rio de Janeiro, onde foi torturada
já na sua captura, o instrumento mais utilizado foi a “coroa de Cristo”, uma fita de
aço que vai apertando a cabeça da vítima, esmagando aos poucos o crânio e cérebro.
Ela foi morta no dia 10 de novembro de 1972 e jogaram seu corpo na esquina da rua
Adriano com a rua Magalhães Couto, no bairro Méier, no Rio de Janeiro, ela teve seu
corpo atirado por várias armas de fogo, de vários calibres. As análises ainda destaca-
ram que ela passou também por espancamentos, pau-de-arara, sessões de choque,
queimaduras e afogamentos (CVESP-RP, 2022; Memórias da Ditadura, 2022).
O movimento estudantil reagiu à ditadura com guerrilhas armadas, greves e
manifestações. A repressão, por sua vez, levou muitos estudantes como Honestino
Guimarães, Aurora e Helenira Rezende de Souza Nazareth à tortura. A UNE tornou-se
protagonista na luta contra a ditadura, assim como diversos movimentos como ANL
e Guerrilha do Araguaia (Hur, & Aragusuku, 2018; Ribeiro, 2007; Trindade, 2011).
A sede da UNE foi incendiada e a entidade foi colocada na ilegalidade, logo no
início da ditadura. Com a implementação do DOI-CODI, iniciou-se a perseguição
mais ativa a militantes do movimento estudantil. Dentro do MEPsi, iniciaram-se as
discussões sobre a necessidade de uma revolução socialista, além disso os estudan-
tes buscavam disputar os espaços de estruturação do curso, exigindo visões mais
críticas da Psicologia para com o que estava acontecendo (Hur, & Aragusuku, 2018;
Ribeiro, 2007; Trindade, 2011).
No interior das universidades, as estratégias de articulação do movimento
estudantil aconteciam ora pela organização de manifestações por melhorias do
curso, ora pelos grupos de estudos (que era uma fachada para haver as reuniões do
movimento estudantil), ora pela organização estudantil nas Semanas Acadêmicas
de Psicologia – que passou a ser um espaço de organização e disputa de narrativa,
integrando mais estudantes no movimento estudantil (Hur, & Aragusuku, 2018;
Ribeiro, 2007; Trindade, 2011).
217
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
Diante dessas articulações, inicia-se um movimento de organizar o I Encontro
Nacional de Estudantes de Psicologia (ENEP), sendo realizado entre os dias 27 e 30
de outubro de 1976, na VI Reunião Anual de Psicologia, promovido pela Sociedade
Brasileira de Psicologia (USP) no campus de Ribeirão Preto da USP. Esse encontro
tinha sido tentado em 1965, mas acabou se desarticulando. Em 1970 houve um
Encontro Nacional de Estudantes (ENE), que deliberou que o movimento estudantil
precisava se organizar por áreas, para também ser mais fácil para articular o movi-
mento estudantil em grupos de estudos, como tentativa de despistar a perseguição ao
movimento estudantil (Hur, & Aragusuku, 2018; Ribeiro, 2007; Sociedade Brasileira
de Psicologia [SBP], 1976).
A organização dos ENEPs forma o quarto período no movimento estudantil
da Psicologia. Nesse momento, diversos grupos de esquerda começam a organizar e
mobilizar os ENEPs. O I e II ENEP aconteceram durante as reuniões da SBP, na USP.
O III ENEP foi formado pela Comissão Organizadora de Estudantes de Psicologia
(COEP), formada por estudantes que levaram o ENEP para a Universidade Federal de
Minas Gerais (UFMG). Nesse momento, o MEPsi está muito próximo à UNE, a COEP
então passa a se chamar Secretaria de Psicologia da UNE (SEPUNE) e se torna uma
secretaria da entidade, por conta dos grupos políticos que disputavam o ENEP e a
SUPUNE, além da própria ditadura militar, o III ENEP ficou um pouco desorganizado,
desmobilizando na construção do IV ENEP. No entanto, ele aconteceu em 1981, na
Universidade Santa Úrsula (USU-RJ). O V ENEP foi marcado pelo distanciamento com
a UNE, em 1982, desarticulando a SEPUNE (Hur, & Aragusuku, 2018; Ribeiro, 2007).
Do VI ao VIII ENEP iniciou-se um período sobre o questionamento de
quem é o estudante de Psicologia e um distanciamento do MEPsi com a UNE,
visto que a militância que articulava o ENEP entendia a UNE como uma entida-
de que agrupava partidos políticos para eles formarem seus quadros. O ENEP
passa a ser questionado se era um encontro político ou acadêmico, portanto o
questionamento passa também a ser sobre a participação, se deveria ou não abrir
para profissionais, estudantes de outros cursos e comunidade em geral (Hur, &
Aragusuku, 2018; Ribeiro, 2007).
218
Conselho Federal de Psicologia
1983 estava se desvinculando dos grupos políticos; mas, a partir de 1985, no IX ENEP,
em 1986, passam a ser disputados por grupos políticos, principalmente de esquerda
como a União da Juventude Socialista (UJS), tendências do Partido dos Trabalhadores
(PT), Juventude Socialista Brasileira ( JSB) e Juventude Socialista do PDT ( JSPDT)
(Hur, & Aragusuku, 2018; Ribeiro, 2007).
No entanto, esses grupos passam a não ganhar todos os espaços e a perder as dis-
putas nos ENEPs, desse modo o quinto período da história do MEPsi é formado pela
redemocratização do Brasil e pelo próprio questionamento sobre a função da UNE para
o MEPsi. A Executiva Nacional de Estudantes de Psicologia, que continha militantes de
grupos organizados, passa a se reaproximar da UNE nesse período, mas tendo sua auto-
nomia e não se reorganizando como SEPUNE (Hur, & Aragusuku, 2018; Ribeiro, 2007).
O sexto período do MEPsi é marcado por uma ruptura total com a UNE e uma
reorganização do movimento estudantil, priorizando a formação de Encontros Regionais
de Estudantes de Psicologia (EREPs), organizados pelos Conselhos Regionais de Estudantes
de Psicologia (COREPs). Isso se dá em 1992, com a busca pela organização do EREP-Sul
e do EREP-SP, organizados pela COREP-Sul e COREP-SP, respectivamente. Essas en-
tidades, por sua vez, buscavam se filiar nos Conselhos Regionais de Psicologia também,
organizando os estudantes de Psicologia em nível regional (Hur, & Aragusuku, 2018).
A partir desse período, que vai até 2003, os ENEPs e EREPs passam a contar com
festas e eventos culturais, bem como discussões políticas, além disso se organizam
paralelamente à UNE e às UEEs, estando distante dessas entidades. Com a aproxi-
mação do movimento feminista, antirracista e LGBT no movimento estudantil, os
ENEPs passam a discutir pautas setoriais além do movimento estudantil e política
institucional. O movimento estudantil como um todo, nessas épocas, era contra as
privatizações que ocorreram nos governos Sarney, Collor e FHC; além de defenderem
a ampliação da universidade pública e gratuita, bem como a popularização do ensino.
No entanto, nota-se nesse período que o movimento anarquista passa a ganhar cada
vez mais espaço no MEPsi, buscando estruturar esse movimento de uma forma di-
ferenciada na estrutura da UNE e UEEs. Do mesmo modo, os CAs que estavam mais
alinhados às COREPs e à Executiva Nacional de Estudantes de Psicologia seguiam
linhas de pensamento mais autonomistas (Hur, & Aragusuku, 2018).
219
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
pelo CFP. No fim da década de 1990 também houve a discussão da Lei das Diretrizes
e Bases da Educação Nacional, em que o CFP, a Associação Brasileira de Ensino da
Psicologia (ABEP) e outras entidades buscaram discutir; além de se manifestarem
contra o Provão e as medidas do governo federal, exceto a SBP manifestou-se contra
as medidas do governo federal. O Conselho Nacional de Estudantes de Psicologia
(CONEP) organizou um grande boicote ao Provão, organizado com o CFP e as demais
entidades da psicologia brasileira (Hur, & Aragusuku, 2018).
O XVIII ENEP, em 22 de novembro de 2003, foi crucial para a fundação
da CONEP e a estruturar o MEPsi como conhecemos hoje. Ele foi realizado na
Universidade Federal de Sergipe e teve grande participação de militantes do coletivo
“Kizomba” na direção da entidade. Na Plenária Final desse ENEP, ficou apontado que
o MEPsi se organizaria a partir da executiva, agora denominada de Coordenação
Nacional de Estudantes de Psicologia (CONEP), que anualmente organizaria o
Conselho Nacional de Psicologia (CONEPsi) e que bienalmente organizaria, com uma
Comissão Organizadora (COMMORG-ENEP), o Encontro Nacional de Estudantes
de Psicologia (ENEP), em que o ENEP é a instância máxima de deliberação do MEPsi
(Hur, & Aragusuku, 2018). Essa é a principal característica do sétimo período do MEPsi.
Essa aproximação da CONEP com o governo Lula logo foi rompida em 2005,
quando grande parte da direção da CONEP saiu do Kizomba e se juntou às tendências
do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), que era oposição ao governo Lula. A partir
de 2004, uma série de eventos no movimento estudantil começam a mudar. A CONEP
passa a ter uma visão crítica quanto às políticas do Programa de Apoio de Reestruturação
e Expansão das Universidades Federais (REUNI), Programa Universidade para Todos
(PROUNI) e Financiamento Estudantil (FIES), enquanto a UNE era a favor, assim como
grande parte do movimento estudantil brasileiro (Hur, & Aragusuku, 2018)
Em 2004, militantes do Partido Socialista dos Trabalhadores Unificados (PSTU)
organizam uma entidade paralela à UNE, chamada de Associação Nacional de
Estudantes Livres (ANEL), assim como dentro da UNE se organiza um movimento
forte de oposição de esquerda às políticas defendidas por setores majoritários da enti-
dade como a UJS, tendências do PT, JSB e JSPDT. Desse modo, a União da Juventude
Comunista (UJC), assim como juventudes que viriam a se organizar no PSOL e no
Partido Comunista Revolucionário (PCR), formaram um bloco chamado de “Oposição
de Esquerda”, visto que eram grupos de esquerda em oposição ao campo majoritário
do movimento estudantil (Hur, & Aragusuku, 2018).
Esse campo majoritário passou a se intitular de “campo popular”, visto que de-
fendiam medidas para sanar as desigualdades sociais de forma mais imediata, mesmo
220
Conselho Federal de Psicologia
alguns setores desse campo tendo críticas pontuais ao governo Lula. A partir de 2007,
no XX ENEP, realizado em Curitiba (PR), setores do PSOL começaram a atuar com
mais peso na CONEP, ainda que alguns militantes do Levante Popular da Juventude
(LPJ) tenham sido eleitos na diretoria e tenham sido acusados de “governistas” por
militantes do PSOL. Os coletivos que mais atuaram nesse período foram o Barricada
e o Construção, vinculados ao PSOL (Hur, & Aragusuku, 2018).
Do XXV ao XXIX ENEP, há uma intensificação em debates ligados à raça, gênero
e sexualidade dentro do MEPsi. As vivências culturais e os debates sobre a corrupção
e sobre as crises nos governos petistas e o aumento do passe passaram a caracterizar
o oitavo período do MEPsi (Hur, & Aragusuku, 2018).
A sociedade brasileira passou por intensas agitações em 2013, sobretudo ligadas
às jornadas de julho, em que os estudantes tiveram intenso protagonismo. Esse é um
período que a CONEP passa a ter mais atuação do movimento anarquista e setores do
PSOL. A CONEP passa a discutir também a atuação mais descentralizada e a neces-
sidade de uma psicologia latino-americana. Em 2015, grande parte da CONEP ainda
não fazia a leitura de que um golpe se desenhava no Brasil, enquanto setores da UNE
já vinham discutindo isso. A CONEP, por sua vez, passou a integrar as mobilizações
contra o impeachment da ex-presidenta Dilma Rousseff (PT), sendo essa uma das
principais discussões em todo o movimento estudantil.
221
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
abocanhar a Presidência da República, afastando-se do plano de governo e da aliança
petista, no qual é personificada pela figura de Michel Temer; mas quem coordena a
articulação, além de Temer, era o ex-deputado Eduardo Cunha (MDB) e o senador
Romero Jucá (MDB) (Costa, 2019).
Paralelo ao que estava acontecendo em 2016, na cúpula do governo federal em
São Paulo, iniciaram as ocupações nas escolas, organizadas pelo movimento estu-
dantil secundarista, visto que as reorganizações das escolas do estado possibilitariam
o fechamento de escolas e agravariam os problemas enfrentados pela educação
básica. Nesse momento, o movimento estudantil universitário se somava às lutas,
seja fornecendo mantimentos, participando das atividades ou promovendo debates
e culturais. O movimento estudantil brasileiro aprende uma arma de luta, inspirado
no movimento estudantil chileno. Essa ocupação, que começa em 2014 e avança em
2015, é aprendida por estudantes no país todo, usados como arma de luta em 2016,
com as ocupações das escolas, universidades e institutos federais na luta contra a
Emenda Constitucional nº 95, que na Câmara dos Deputados era a PEC nº 241 e no
Senado Federal era a PEC nº 55 (Capai, 2019).
O ano de 2016 foi cheio para o movimento estudantil como um todo. As reformas
propostas pelo governo Temer levaram o movimento a se reorganizar e unificar-se
em torno das pautas da defesa de uma educação pública, de qualidade e gratuita e
defesa dos direitos já conquistados. A reforma trabalhista, aprovada pelo governo
Temer tiraria milhares de jovens das escolas e universidades e a EC nº 95 permitiria
que os cortes na educação fossem institucionalizados, a agenda do governo federal
fez o movimento estudantil da Psicologia reorganizar-se e disputar os espaços de
centros acadêmicos no país todo; além de mobilizarem-se em torno da defesa dos
direitos já conquistados (Capai, 2019; Costa, 2019).
Paralelo à EC nº 95, a Reforma do Ensino Médio era uma outra problemática
que era discutida no Movimento Estudantil Secundarista; as duas pastas foram im-
portantes para as ocupações no Brasil inteiro, ao todo foram mais de 1.154 escolas,
institutos e universidades federais ocupadas. Esse levante do movimento estudan-
til secundarista permitiu que os estudantes de Psicologia participassem dos atos,
além de trazer esses estudantes mais mobilizados para o Movimento Estudantil
Universitário (UBES, 2022).
A Primavera Secundarista, nome intitulado para as diversas mobilizações, per-
mitiu que o MEPsi organizasse suas lutas e engajasse para o próximo ENEP, além de
trazer posicionamentos como a defesa do ensino público e das universidades públicas
pelo país. Além disso, a CONEP passa a atuar em uma agenda paralela ao movimento
222
Conselho Federal de Psicologia
estudantil como um todo na defesa dos direitos e na resistência ao governo Temer
e ao bolsonarismo, que começava a ganhar forma, em 2017.
Compreender as reverberações e dificuldades encontradas pelo MEPsi acaba
sendo a compreensão da política brasileira e a forma como ela se dá, seja no Congresso
Nacional, no Executivo, nas universidades ou no sistema conselhos. É por isso que
compreender o Brasil de 2016 permite compreender o MEPsi atualmente.
223
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
diversos motivos, inclusive pelo fato das intensas mobilizações nas universidades
que agora passam a sofrer constantes ameaças de cortes.
A UNE, com outras entidades do ME propõem uma agenda de mobilizações
nas universidades e, junto com estudantes do país todo, propões diversas ações
como ocupações e atos nas universidades em todo o país. Na política institucional,
o ex-presidente Lula estava preso, Bolsonaro subia nas pesquisas e víamos o fan-
tasma do fascismo se apresentar e personificar em uma pessoa que já apresentava
problemas com a democracia.
A CONEP se juntou às diversas mobilizações pelo #EleNão no país, pois para
a entidade Bolsonaro nunca representou os interesses estudantis e não iria ter uma
agenda de ampliação de direitos, pelo contrário, apresentaria um plano para sufocar
os direitos já conquistados, em detrimentos de agendas políticas específicas.
Fomos milhões de estudantes de Psicologia nas ruas, gritando por mais demo-
cracia, mais direitos e mais liberdades. Nem todos os estudantes de Psicologia esta-
vam convencidos de que Bolsonaro traria maiores problemas, mas grande parte dos
estudantes estavam do lado certo da história, organizando-se em coletivos, centros
acadêmicos, entidades, sindicatos e movimentos. O resultado da eleição, em 2018,
mostrou para a CONEP a necessidade de intensificar as agendas de lutas e articulações.
Em 2019, a CONEP esteve presente em diversas agendas, seja no Tsunami da
Educação, no CNP, no 57º Congresso da UNE ou na 16ª Conferência Nacional de
Saúde. No Tsunami da Educação, fomos às ruas com diversos estudantes universitá-
rios, quando o ex-ministro da educação Abraham Weintraub ameaçou cortar todas as
bolsas de pesquisas e extensão das universidades, esse apagão na ciência mobilizou
estudantes e pesquisadores, fazendo o próprio FENPB a se mobilizar nas lutas também.
Ocupamos as ruas e as redes, organizamos ocupações e fomentamos a parti-
cipação estudantil, visto que o apagão em pesquisa iria atrasar demais o avanço da
Psicologia no Brasil. O Tsunami da Educação é tema do 57º Congresso da UNE, em
que a CONEP participa com seus coletivos organizados, reafirmando a importân-
cia de uma agenda nacional de mobilização e articulação com todo o MEPsi; esse
Tsunami leva, no 57º Congresso da UNE, estudantes do Brasil inteiro à Esplanada dos
Ministérios para cobrar mais investimento da educação e gritar pelo #ForaBolsonaro.
Esse Congresso da UNE tem um momento histórico, que é a volta do PSTU
nas disputas da UNE, por meio da juventude Rebeldia; outro fato histórico é que a
Oposição de Esquerda se unificou inteiramente, conseguindo eleger um nome para
a Diretoria Executiva da entidade, além de eleger Mariana Dias presidenta da UNE.
224
Conselho Federal de Psicologia
No 10º Congresso Nacional da Psicologia (CNP), as disputas acirravam-se em
diversas chapas, a CONEP acompanhou o processo, acompanhando as 5 chapas, na
qual a Frente em Defesa da Psicologia Brasileira ganhou pelo triênio entre 2019-2022.
A CONEP também questionou a categoria, para as eleições do sistema Conselhos, a
maioria dos profissionais de Psicologia não votou, a Figura 1 apresenta o resultado,
conforme apresentado pelo CFP.
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ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
Estudantes e professores do país todo se reorganizam para lecionar e aprender
de modo remoto. Os Centros Acadêmicos de Psicologia passam a se reunir de modo
on-line, e também organizar suas pautas e democracia interna de modo remoto.
O XXXI ENEP passa a não existir, visto que a Comissão Organizadora do ENEP
(COMMORG) aponta a necessidade de manter um encontro presencial, por conta
de toda a atmosfera e qualidade no debate que um encontro presencial proporciona.
Paralelamente a isso, o governo Bolsonaro pouco provê assistência digna para
o povo, o preço dos itens de supermercado e da gasolina aumentam com o desem-
prego; a Reforma Trabalhista e Reforma da Previdência começa a apresentar os pro-
blemas, não entregando as promessas que apontavam. Isso levou diversos estudantes
a trancarem o curso e a abandonarem a universidade, mesmo que o MEPsi tentasse
articular-se não conseguiria responder às contradições, pois estas eram do governo
e do seu despreparo em gerir a pandemia.
Entre 2020 e 2021, o Movimento Estudantil Universitário gritou pelas redes e
ruas, exigindo “Vida, Pão, Vacina e Educação”; estudantes da saúde de todo o Brasil
fomentavam a busca por apoio psicossocial e por vacina, convencendo as pessoas a
pensarem suas condições de saúde e adotar as medidas preventivas contra a Covid-19.
Conforme, em 2021, a presencialidade voltava, a CONEP e o MEPsi voltavam
para as ruas e universidades. O que se coloca em questão aqui não eram apenas os
cortes e crimes de Bolsonaro e sua gestão mas também como seria o retorno, o hí-
brido, as condições sanitárias das universidades e como o movimento estudantil iria
se reorganizar e responder às contradições de seu tempo.
226
Conselho Federal de Psicologia
Além disso, é importante notar nossas bandeiras e nosso gosto por continuar acre-
ditando numa Psicologia cada vez mais próxima com o povo e com um caráter eman-
cipacionista. Esse olhar para a Psicologia deixa a CONEP com a vontade de continuar
com sua sede revolucionária e articulada com o movimento estudantil do Brasil inteiro.
Aqui no MEPsi, estamos nos reorganizando, marcando os 60 anos de regula-
mentação da Psicologia do jeito que sempre fomos: INCONFORMADES com uma
Psicologia corporativista, neutra e descolada dos sonhos de nossa gente. O com-
promisso do MEPsi tem sido de promoção da saúde mental, ampliação de direitos,
enegrecimento do saber, com um olhar anticapacitista, antirracista, antiLGBTfóbico
e feminista e com o compromisso ético-político para com o povo brasileiro.
Esse capítulo se encerra gritando, com os pulmões cheios de ar e com os sonhos
da nossa realidade:
227
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
Referências
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ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
Associação Brasileira de
Psicoterapia: Aspectos
Históricos e Conceituais
Mathilde Neder
Emília Afrange
Christina Neder
Gênese
No ano de 2001, o Departamento de Psicodinâmica do Instituto Sedes
Sapientiae1, em São Paulo (SP), realizou Jornada intitulada “O que funciona na
Prática Clínica da Psicoterapia”.
Este evento contou com o apoio de diversos membros dos vários departamen-
tos e cursos do Instituto Sedes Sapientiae e outras ilustres entidades e associações,
entre elas: o Departamento de Psicoterapia da Associação Brasileira de Psiquiatria; a
Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, o Departamento de Psicoterapia do
Hospital das Clinicas de São Paulo; e a Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro.
A Jornada suscitou em uma geração de psicólogos – éramos muitos – o desejo
de sistematizar e revigorar um trabalho conjunto com instituições brasileiras e inter-
nacionais de Psicoterapia, algo já existente, mas até então realizado de forma casual.
Para tanto, pensamos em constituir uma associação para fortalecer a identidade
do psicoterapeuta brasileiro, valorizar sua prática e facilitar o contato com trabalhos
nacionais e internacionais, promovendo a atualização de saberes.
Nos anos seguintes, continuamos a tarefa de reunir personagens e institui-
ções por meio de outras jornadas, congressos e grupos de trabalhos com o foco na
Psicoterapia e, finalmente, em 29 de maio de 2004, nasceu a Associação Brasileira
de Psicoterapia (Abrap), fruto do aporte financeiro e de articulação bastante profícua
entre o Departamento de Psicoterapia da Associação Brasileira de Psiquiatria, do
230
Conselho Federal de Psicologia
Conselho Federal de Psicologia e do Conselho Regional de Psicologia de São Paulo.
A partir de então, vimos trabalhando pela construção de uma linguagem sobre a
Psicoterapia: abrangência, competências, fronteiras, abordagens, acertos e desafios.
Nesses 18 anos de vivências, a Abrap esteve alicerçada em uma estrutura con-
sistente e comprometida com a difusão da Psicoterapia como instrumento eficaz na
promoção da saúde mental. Somos uma entidade de referência e credibilidade que
trabalha em prol da instalação do campo teórico e prático da Psicoterapia, marcado
pela diversidade. Congregamos e promovemos o intercâmbio entre psicólogos e psi-
coterapeutas das mais diversas tendências, em favor da validação do amplo espectro
de linhas psicoterápicas, com uma multiplicidade de profissionais, que concordam
em suspender suas diferenças em prol dos fatores que nos unem.
Para a Abrap, isto implica manter uma postura de mediação e de negociação,
escutando, ponderando, reunindo e oferecendo conciliação; tudo isso calcado em
argumentos demonstráveis e criteriosamente articulados. Igualmente, garantimos a
presença da Psicoterapia nos processos de transformações sociais, alargando seu al-
cance a diversas áreas e públicos, sobretudo no continente latino-americano e Caribe.
Razão de Ser
O atendimento psicoterápico é uma necessidade cada vez mais crescente e
premente. Não há saúde sem saúde mental.
O mundo, hoje globalizado e acelerado pelo desenvolvimento da tecnologia,
se caracteriza por uma persistente tensão, numa sociedade competitiva, hedonista,
que leva o indivíduo a um esforço mental devastador e acaba por corroer suas forças
vitais até o esgotamento extremo.
Atualmente, acusamos em grande escala os sintomas de uma angústia exis-
tencial, com índices epidêmicos de estados depressivos a permear as sociedades
de países ricos e países pobres.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que mais de trezentos milhões
de pessoas, no mundo todo, sofrem de depressão.
Esta e outras patologias envolvendo a saúde mental recrudesceram desde que,
em março de 2020, a OMS elevou à categoria de pandemia o estado da contaminação
de Covid-19, doença causada pelo novo coronavírus (Sars-Cov-2).
231
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
Condições Adversas
Mesmo diante dessa realidade, a última edição do Atlas de Saúde Mental da
OMS (WHO, 2021)2 aponta descompasso mundial entre os serviços de saúde mental
oferecidos à população de maneira geral e suas necessidades atuais.
O Atlas, publicado a cada três anos, é um compilado de dados de 171 países sobre
políticas de saúde mental, legislação, financiamento, recursos humanos, disponibi-
lidade e utilização de serviços e sistemas de coleta de dados.
Há uma indicação clara de que a maior atenção dada à saúde mental nos últimos
anos ainda não resultou em aumento de escala de serviços mentais de qualidade que
esteja alinhado com as demandas.
Desafios
A expansão do atendimento é uma necessidade urgente. O psicoterapeuta é
um agente de saúde, de prevenção e de transformação. Ocupa lugar primordial no
tratamento das diversas patologias da modernidade e o efeito social de sua prática
mostra ser cada vez mais producente.
Ao facilitar o resgate do indivíduo como singularidade consigo mesmo, no rela-
cionamento com o outro e com os diferentes grupos que participam de seu cotidia-
no, a psicoterapia contribui para a reintegração do ser humano à própria existência,
com uma atitude mais observadora, mais crítica e filtrada em relação ao mundo e,
portanto, com maior poder de intervenção e de transformação da sociedade.
Reconhecemos que, por diferentes abordagens, podemos chegar ao fim desejado
– no caso, o psicoterápico –, considerando não apenas a linha terapêutica envolvida
e a tendência aproximativa do paciente. Cada terapeuta em sua posição, trabalhando
segundo seus pressupostos teóricos, métodos e técnicas de seu domínio.
2 World Health Organization (WHO). (2021). Mental Health Atlas. Recuperado de [Link]
int/publications/i/item/9789240036703/
232
Conselho Federal de Psicologia
acadêmica consistente e multidisciplinar; a busca constante por conhecimento, ou
seja, estudo contínuo, em que se faz necessária a escolha da abordagem que embasa
a formação prática, treinamento profissional básico, práticas supervisionadas e está-
gios clínicos; além de clareza absoluta sobre a responsabilidade ética de sua práxis.
Isso significa que o psicoterapeuta necessita do conhecimento, do domínio do
campo teórico-prático da linha escolhida, estar em constante atualização para sua
melhor atuação, além de contar com a supervisão de um profissional experiente.
Outro aspecto imprescindível é ter sua própria análise, visto que só levamos nosso
cliente até onde fomos conosco em nosso próprio processo pessoal.
233
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
científico e mediado por profissional especializado e que irá se aprimorar por um
longo período de tempo. Um dos seus objetivos é o autoconhecimento, outro é
favorecer a capacidade de autogestão com autonomia e eficiência das dificuldades
internas e dos desafios da vida.
Também já foi definida como um método de tratamento psicológico exerci-
do por profissional especializado e que tem por objetivo ajudar na transformação
interior do cliente, levando-o a condutas mais amorosas com suas dificuldades e
dilemas (Roudinesco, & Plon, 1998).
Consoante a Resolução CFP nº 10/2000, trata-se de uma “técnica e conceitual-
mente, um processo científico de compreensão, análise e intervenção que se realiza
por meio da aplicação sistematizada e controlada de métodos e técnicas psicológicas
reconhecidas pela ciência, pela prática e pela ética profissional”.
Definir psicoterapias não é tarefa fácil, mas cheia de desafios, que vão desde
suas características essenciais às suas funções. É um campo da psicologia em que a
escuta clínica é uma de suas ferramentas mais importantes.
Para a abordagem gestáltica, por exemplo, a psicoterapia visa a restaurar os
processos inerentes ao crescimento. Já para a abordagem psicanalítica, busca-se um
ajustamento por meio da introvisão de conflitos inconscientes. Sob a perspectiva da
abordagem cognitiva, por sua vez, a psicoterapia possibilita mudar os processos de
pensamento irracional (Berni, 2010). Ou seja, o objeto de nossos esforços é consti-
tuído pelo ser humano que sofre e se encontra enfermo em termos anímicos e que
precisa de atenção biológica, emocional e espiritual.
Esse processo se dá por meio de uma relação entre cliente e profissional da área
médica ou psicológica, em sessões diárias ou semanais, por um período breve ou
prolongado. Um processo sofrido, em que a pessoa terá que render-se a si mesmo,
lidando com resistências, ambivalências, projeções e sentimentos antes não visitados,
além de gestar as suas inquietações e sustentar a pressão para que algo emerja do in-
consciente. Ele abrange, então, melhorar a capacidade da pessoa de pensar, conhecer,
ser autêntico, livre de formas de dependência, podendo experimentar mais prazer e
amorosidade com a própria vida.
Conclusão
As psicoterapias estão no campo das estratégias de autoconhecimento e mu-
dança pessoal. Elas são processos complexos de mudança pessoal, que demandam a
construção e manejo de fortes vínculos terapêuticos, para que o paciente acesse e de
234
Conselho Federal de Psicologia
conta dos vários aspectos de suas realidades psicológicas. Trata-se de um processo
de ressignificação do self e da percepção do outro.
Como qualquer medida, ela possui limites, como possível insuficiente contato
com a realidade, dificuldades em desvios sociais com defesas psicóticas e impulsividade
grave, além de situações de fase aguda de periculosidade suicida. Nestes casos os psi-
coterapeutas atuam com as equipes de saúde, orientando familiares e redes de apoio.
Mas sua possibilidade de amplo alcance merece reconhecimento, sendo de se
destacar que a psicoterapia promove um encontro único a favorecer a mudança pessoal
e o aprendizado sobre como reagir de forma diferente frente a padrões repetitivos,
na direção do autoconhecimento de melhor percepção do que seja uma vida com
qualidade e do fortalecimento egóico e de estratégias de enfrentamento, promovendo
relações humanas mais justas e generosas junto aos indivíduos, famílias e grupos.
235
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
Referências
Associação Brasileira de Psicoterapia. (2022). O que é ABRAP [Postagem]. Recuperado
de [Link]
Cordioli, A. V. (Org.). (2008). Psicoterapias: Abordagens atuais (3. ed.). Artes Médicas.
World Health Organization (WHO). (2021). Mental Health Atlas. World Health
Organization: Geneva. Retrieved from [Link]
item/9789240036703/
236
Conselho Federal de Psicologia
ABECiPsi: uma Entidade
em Prol das Revistas e
Editores de Psicologia
Thatiana Helena de Lima
Maria Imaculada Cardoso Sampaio
Acácia Aparecida Angeli dos Santos
Nelson Hauck Filho
237
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
Por algum tempo, baseado no sistema de avaliação dos programas de pós-gra-
duação assumido pela CAPES, a produtividade, ou seja, o número de publicações,
era priorizado e, por isso, houve aumento no número de submissões, principalmente
dos pesquisadores associado aos programas. Num tempo mais recente, diante de uma
objeção da comunidade científica nacional a esse produtivismo, foi incorporado ao
sistema de avaliação indicadores de qualidade do que é produzido. Um deles é o fator
de impacto, que visa a mostrar o quanto um periódico colabora para a evolução da
área, ele é medido pelo número de citações dos artigos publicados. Dessa forma, o
maior número de citações implica maior relevância na área (Abreu-Rodrigues, 2009).
Diante do que foi explanado, pergunta-se qual é o papel do editor no processo
de publicação. É importante elucidar que, embora o trabalho dos pareceristas seja
primordial, uma das principais contribuições do editor é proporcionar subsídios
para a decisão final. São diversas as atividades que são de responsabilidade do editor,
isso por conta do compromisso com a inovação e originalidade do conhecimento
(Abreu-Rodrigues, 2009). Numa série de editoriais sobre as responsabilidades éti-
cas dos componentes responsáveis pelo artigo, desde o autor até o editor, Feitosa
(1994) destaca que compete ao editor, entre outras tarefas: assumir normas de
publicação; escolher pareceristas que contribuam com o processo de avaliação;
empregar um processo de tramitação padronizado; assegurar a independência
intelectual dos autores; contornar erros de publicação; garantir a atualidade do
artigo a ser publicado.
De acordo com Lisboa (2013), a produção de conhecimento, não só ligado à
Psicologia, está conectada com a produção de mudanças sociais e de concepções,
assim como de comportamentos e atitudes. A autora mostra a importância da forma
como o conhecimento científico é apresentado, tendo em vista que a escrita cientí-
fica possui o propósito de alcançar um número elevado de leitores e, dependendo
da forma como é, pode expressar as ideias como verdades absolutas. Sabendo que a
Psicologia é uma ciência dinâmica e complexa, tal expressão pode proporcionar en-
tendimentos equivocados. Assim, o cuidado ético implica levar os leitores à reflexão,
tendo em vista que o trabalho, por mais profícuo que seja, não pode ser o fim e deve
proporcionar novos estudos. Contudo, apesar de termos e sabermos as histórias dos
nossos estudos, o desafio é ser capaz de contar aos outros. Foi pensando em tudo isso
que um grupo de pessoas envolvidas com a publicação científica criou uma associação
específica para a área de Psicologia, como veremos a seguir.
238
Conselho Federal de Psicologia
Breve Histórico e Realizações da Associação
A ABECiPsi (Associação Brasileira de Editores Científicos de Psicologia) é uma
sociedade civil, sem fins lucrativos e de duração indeterminada. Por meio de proje-
tos orientados às necessidades específicas da área de Psicologia, tem como objetivo
promover o aumento da qualidade e visibilidade da produção intelectual publicada
em periódicos científicos ([Link]
A ABECiP, primeira sigla para a ABECiPsi, foi criada em 2004, durante o I
Encontro de Editores de Revistas de Psicologia, no dia 30 de agosto. O objetivo era
o de organizar os editores de revistas de Psicologia em torno de uma Associação que
os ajudasse a melhorar a qualidade e visibilidade das revistas da área. Com muitas
revistas sendo publicadas na área e a dispersão dessas, por falta de um órgão que
reunisse e dessa voz aos editores da área, a criação de uma entidade com a finalidade
de integrar os atores responsáveis pelas revistas surgiu como uma possibilidade de
fazer o papel de mediador e orientador no processo de publicação de revistas cien-
tíficas de Psicologia.
O momento demandava uma instituição que se responsabilizasse, também, pela
capacitação dos editores e suas equipes, tanto no processo de gestão editorial como na
entrega de informações atualizadas sobre as novidades dos novos modelos editoriais,
com ênfase na publicação eletrônica e artigos digitais. Dois projetos foram apontados
como urgentes naquele encontro: a criação de um Portal temático para publicação
das revistas em acesso aberto, como complementar ao SCIELO; e a publicação de
um manual que auxiliasse editores e autores na árdua tarefa de construir revistas e
elaborar artigos científicos. A Biblioteca Virtual em Saúde-Psicologia (BVS-Psi) foi
designada como responsável por iniciar os dois projetos.
Em 2005, durante a “I Reunião Técnica de Editores”, realizada no “I Congresso
da União Latino-americana de Entidades de Psicologia (ULAPSI)”, a ABECiPsi, em
parceria com a BVS-Psi, apresentou a primeira versão do Portal de Revistas PePsic
e o estatuto da Associação. Em 2006, no “II Encontro de Editores de Revistas de
Psicologia” foram apresentados o estatuto revisto e a regulamentação da ABECiP,
assim como eleita a primeira diretoria, com gestão até março de 2008, como será
apontada a seguir.
Em 2007, a “I Reunião da Diretoria da ABECIP” discutiu sobre os encaminha-
mentos legais da ABECIP. No ano de 2008, com o apoio do Conselho Federal de
Psicologia (CFP), a ABECiP conseguiu seu CNPJ, o registro da marca no INPI e iniciou
o processo de inscrições de sócios. O ano termina com 23 associados. É importante
239
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
ressaltar que o apoio do CFP, tanto com a designação de conselheiros para trabalhar
na gestão da Associação quanto com o apoio financeiro, foram decisivos para que o
processo de formalização da entidade fosse viável. Não podemos deixar de mencionar,
também, o papel de protagonista da equipe da Biblioteca do Instituto de Psicologia da
Universidade de São Paulo (IPUSP), que foi decisivo para que a Associação nascesse
e se organizasse com os editores.
No ano de 2010, a ABECiP inicia uma empreitada mais ofensiva para cumprir
seus objetivos de apoio aos editores e autores e em busca de novos associados. Fabián
Rueda assume a Diretoria, devido ao pedido de desligamento de Marilda Lipp, e tem
início um novo modelo de gestão na Associação. A Associação já estava consolidada
como entidade da Psicologia brasileira e obteve sua afiliação na FENBP, passando a
ocupar um lugar legítimo entre as entidades de Psicologia.
Em 2011, o segundo projeto apontado no “I Encontro da ABECiP” é realizado
e o livro “Publicar em Psicologia: um enfoque para a revista científica” ([Link]
[Link]/) é entregue à comunidade, numa parceria entre
a própria ABECiP, o CFP e a Casa do Psicólogo. Os editores e autores da área passa-
ram a contar com um manual que os orientava em relação à gestão das revistas e na
produção de revistas e artigos científicos.
Em 2011, a ABECiP oferece o primeiro curso para os associados e novos sócios.
O Método Lógico para Redação Científica Internacional, ministrado por Gilson L.
Volpato, entre 15 e 16 de setembro de 2011, recebe bastante adesão. O curso foi pro-
movido nas dependências do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo.
Neste ano também a ABECiP recebe notificação da Britânica Marcas e patentes por
utilizar a mesma sigla que uma Associação Imobiliária, ABECiP. É feito um esclare-
cimento oficial e a sigla passa a ser ABECiPsi.
No ano de 2012, no “V Encontro da Associação”, por ocasião da eleição da nova
Diretoria, um importante debate com Abel Packer (coordenador do SciELO), Denise
Bandeira (editora da revista Psicologia: Reflexão e Crítica), Gilson Volpato (especialista
em escrita científica), Ivan França Junior (editor associado da Revista de Saúde Pública)
e Sueli Mara Ferreira (Diretora do Departamento Técnico do SIBi/USP) é promovido
pela Associação. Outro curso com o Gilson Volpato é oferecido e a Associação conta
com 35 associados individuais e 14 revistas associadas
Em 2012, a ABECiPsi promoveu as seguintes atividades no III Congresso
Psicologia: Ciência e Profissão; Como Preparar artigo científico, Ministrantes: Maria
Imaculada Cardoso Sampaio e Aparecida Angélica Z. Paulovic Sabadini. Ética na
Produção e na Comunicação do Conhecimento Científico em Psicologia, Ministrante:
240
Conselho Federal de Psicologia
Sebastião Rogério Goies Moreira. Formação em Psicologia e as Bases de Dados de
Psicologia, Ministrante: Célia Regina de Oliveira Rosa. Simpósio: Formação em
Psicologia e a Psicologia Baseada Evidências, Simposistas: Tamara Melnik, Gabriela
Andrade da Silva e Maria Imaculada Cardoso Sampaio.
Ainda no ano de 2012, com recursos da própria Associação, foi possível construir
um site e criar um banco de pareceristas que já tem diversos consultores cadastrados.
No início de 2013, o banco entrou em operação com o envio de senhas para a divul-
gação entre as revistas associadas. Em 2012, foi iniciado um processo para inclusão
do Digital Object Identifier (DOI) nos artigos das revistas PePSIC. O esperado era
que, no ano de 2013, o processo se efetivasse e as revistas pudessem usufruir desse
benefício que a Associação promoveria. Não foi possível fazer isso como associação,
pois era necessário que cada revista obtivesse seu próprio DOI. A ABECiPsi, então,
orientou os editores sobre os procedimentos para obter o importante número, que
se configura como o identificador do artigo na Internet.
No ano de 2015, nos dias 26 e 27 de novembro, a ABECiPsi promoveu o
“I Congresso da ABECiPsi”, chamado “INDICADORES CIENTOMÉTRICOS E
PERIÓDICOS CIENTÍFICOS DE PSICOLOGIA: DESAFIOS ATUAIS”. Além do sim-
pósio, que contou com a participação de diversos representantes científicos nacionais
e internacionais, foi oferecido pelo Dr. Wilson López-López (editor da Universitas
Psychologica) o curso “O QUE OS EDITORES E REVISORES PRECISAM SABER
PARA APROVAR ARTIGOS DE QUALIDADE”.
No ano de 2016, a sede da ABECiPsi, que desde o início fora na Biblioteca do
Instituto de Psicologia da USP, passa a ser itinerante e acompanhar o presidente da
Associação, o que marca uma nova era na gestão da entidade. Sem a participação
direta dos bibliotecários na gestão da Associação, o gerenciamento das atividades
da associação ficou mais disperso e dificultou a organização de eventos e captação
de novos sócios, pois afastava dos editores das revistas do PePSIC o contato com os
“publishers” ficou limitado.
O “II Congresso Brasileiro da ABECiPsi” aconteceu sob os auspícios da
Universidade São Francisco (USF) e foi realizado no Campus de Campinas, trazendo
o relevante tema: “A produção científica como resistência às políticas de desmonte”.
As Conferências, com grandes nomes da produção científica nacional e internacional,
assim como as palestras de autoridades na área, trouxeram conhecimentos de valor
para os editores e autores participantes do congresso. A ABECiPsi avançou rumo ao
cumprimento do seu objetivo de capacitar a comunidade para o desempenho com
qualidade da escrita científica em Psicologia.
241
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
Nos dias 21 e 22 de outubro de 2021, foi realizado o “III Congresso da ABECiPsi”,
que aconteceu no formato on-line, devido à Pandemia da Covid-19. Mesmo em
situação adversa, e com extrema dificuldade para integrar as pessoas, a Associação
manteve seu compromisso de trabalhar em prol dos editores e autores da área.
Como o explicado no site da USF: “O III Congresso Brasileiro da ABECiPsi consis-
te no principal evento nacional de diálogo entre editores, revisores de periódicos,
pesquisadores e estudantes de graduação e pós-graduação na área da Psicologia”
([Link]
ro+da+associacao+brasileira+de+editores+cientificos+de+[Link]?pre=0#.
Yo0cV6jMJPY). Os eventos da ABECiPsi buscam proporcionar o compartilhamento
de experiências exitosas de gestão de periódicos, além de desafios e potencialidades
relacionadas às publicações científicas em Psicologia no Brasil. O evento do ano de
2021 tinha como tema “A ciência como uma vela no escuro” e abordou os desafios
atuais da pesquisa na área, bem como os benefícios do desenvolvimento científico
nos mais amplos domínios sociais.
242
Conselho Federal de Psicologia
a disposição livre e pública na internet, de forma a permitir a
qualquer usuário a leitura, download, cópia, distribuição, im-
pressão, busca ou o link com o conteúdo completo de artigos,
bem como a indexação ou o uso para qualquer outro propó-
sito legal, sem barreiras financeiras, legais e técnicas outras
que não aquelas necessárias para a conexão da Internet. O
único constrangimento para a reprodução, distribuição, bem
como os direitos de cópia e seu domínio deve ser o controle
do autor sobre a integridade de seu trabalho e o direito de sua
propriedade intelectual e citação. ([Link]
243
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
Acreditamos que esses problemas em breve serão resolvidos, uma vez que es-
tamos falando de uma fonte de informação que auxiliou fortemente a mudança do
panorama das revistas científicas de Psicologia e que não pode ser descontinuada de
forma alguma. O risco de ver o portal deixar de ser publicado significa um retrocesso
para a área, que durante muitos anos esteve como exemplo como área temática, tanto
na gestão do PePSIC, como da BVS-Psi.
Diretorias
A seguir, as diretorias que orientaram a gestão e crescimento da ABECiPsi são
apresentadas.
Diretoria 2006-2008
• Presidente: Sebastião Rogério Gois Moreira. Presidente futuro: Fermino
Fernandes Sisto. Presidente passado: Aidyl Macedo de Queiroz Pérez-Ramos.
• Conselho fiscal: Ana Maria Jacó Vilela, Fuad Kyrillos Neto, Rozilda das Neves
Alves, Fabián Javier Marín Rueda. Suplentes: Alexandre Dittrich, Zélia Maria
Mendes Biasoli Alves.
Diretoria 2008-2010
• Presidente: Fermino Fernandes Sisto. Presidente futuro: Marilda Emmanuel
Novaes Lipp. Presidente passado: Sebastião Rogério Góes Moreira.
244
Conselho Federal de Psicologia
Diretoria 2010-2012
• Presidente: Marilda Emmanuel Novaes Lipp. Presidente Futuro: Fabián Javier
Marín Rueda. Presidente Passado: Fermino Fernandes Sisto.
Diretoria 2012-2014
• Presidente: Fabián Javier Marín Rueda. Presidente Futura: Maria Cristina
Trigueiro Veloz Teixeira. Presidente Passado: Marilda Lipp.
Diretoria 2014-2016
• Presidente: Maria Cristina Trigueiro Veloz Teixeira. Presidente Futura: Alessandra
Gotuzo Seabra. Presidente Passado: Fabián Javier Marín Rueda.
245
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
Diretoria 2016-2018
• Presidente: Alessandra Gotuzo Seabra. Presidente futura: Ana Paula Porto
Noronha. Presidente passado: Maria Cristina Triguero Veloz Teixeira.
• Conselho Fiscal: Danilo Suassuna, Acácia Aparecida Angeli dos Santos, Luiz
Renato. Suplentes: Rodrigues Carreiro, Thatiana Helena de Lima.
Diretoria 2018-2020
• Presidente: Ana Paula Porto Noronha. Presidente futuro: Nelson Hauck Filho.
Presidente passado: Alessandra Gotuzo Seabra.
• Conselho Fiscal: Danilo Suassuna. Acácia Aparecida Angeli dos Santos. Suplente:
Luiz Renato Rodrigues Carreiro.
Diretoria 2020-2022
• Presidente: Nelson Hauck Filho. Presidente futuro: Thatiana Helena de Lima.
Presidente passado: Ana Paula Porto Noronha.
• Conselho Fiscal: Acácia Aparecida Angeli dos Santos. Suplente: Luiz Renato
Rodrigues Carreiro.
246
Conselho Federal de Psicologia
Ações Urgentes com as Entidades de Psicologia em Prol
da Recuperação do PePsic;
• Webinars/lives mensais: convidar estudantes de mestrado e doutorado de
Programas de Pós-Graduação, falando sobre temas como ciência, redação
científica, projetos e pesquisa, bolsas e financiamentos, doutorado sanduíche,
coletas em populações especiais etc.;
• Oferecer benefícios para outras sociedades serem sócias, como por exemplo,
cursos de atualização, jornadas sem custo, congressos com desconto, livros e
materiais didáticos, webinars; e
247
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
Referências
Abreu-Rodrigues, J. (2009). A qualidade da publicação científica. Psicologia: Teoria e
Pesquisa, 25(1). Recuperado de [Link]
Lisboa, C. (2013). Notas sobre redação científica em psicologia. Psico, 44(3), 308-9.
Recuperado de [Link]
view/15804
248
Conselho Federal de Psicologia
Um campo diverso como é o
fenômeno esportivo:
marcas da psicologia do
esporte brasileira
Katia Rubio
Cristiano Roque Barreira
Introdução
A relação da Psicologia com o Esporte tem uma história de mais de um século
e está pautada tanto no desenvolvimento da psicologia como ciência, quanto no es-
porte como fenômeno social. Entre ambos, ciência e fenômeno social, enreda-se a
atuação profissional em Psicologia do Esporte, assim como é para outros campos e
especialidades da Psicologia. É aí que o conhecimento científico subsidia as diferentes
práticas socioprofissionais em variados ambientes e, muitas vezes, de onde provêm
alguns dos principais problemas a serem abordados cientificamente.
Longe desse processo de enredamento histórico ser um modo contínuo que
garantidamente avance, embora ininterrupto e nunca acabado, ele está sempre su-
jeito a retrocessos e inércias. No Brasil, o comprometimento ético com o avanço da
Psicologia do Esporte na qualidade de ciência e profissão traduziram-se na constituição
da entidade da área que veio a representá-la junto ao Conselho Federal de Psicologia
(CFP), responsável pela regulação da profissão, a Associação Brasileira de Psicologia
do Esporte (ABRAPESP). Nessa condição, por sua vez, a ABRAPESP integra, desde
sua fundação, o Fórum de Entidades Nacionais da Psicologia Brasileira (FENPB),
espaço em que a diversidade científico-profissional da área, estendendo-se às suas
representações sindical e estudantil, se reúne, norteando-se pelo mesmo compro-
metimento ético e seus desafios.
A Psicologia do Esporte pode ser descrita como o estudo do comportamento
humano no contexto do esporte e da atividade física, ou como os fundamentos psico-
249
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
lógicos, processos e consequências da regulação psicológica de atividades relacionadas
com o movimento do corpo humano, seja na busca de resultados esportivos, no de-
senvolvimento de habilidades motoras, na reabilitação ou ainda no desenvolvimento
de relações no ambiente de atividades físicas de uma ou várias pessoas atuando como
sujeito da atividade (Rubio, 2007). Sua definição compreende, de modo sucinto, o
estudo científico de pessoas e comportamentos em situação de atividade física e es-
portiva, bem como a aplicação desse conhecimento (Weinberg, & Gould, 1995). Sua
inserção acadêmico-científica tem uma dupla abrangência, podendo ser situada tanto
como uma especialidade da Psicologia como uma subárea das Ciências do Esporte.
Boa parte dos avanços da Psicologia do Esporte reside nessa interseção, posto
que a produção de seus conhecimentos informa o ensino e a aplicação desses na
atuação de profissionais da Psicologia e da Educação Física. Essa abrangência dupla se
repete em outros campos da Psicologia, como o da Educação e o da Saúde, havendo
um claro resguardo entre profissões informadas pela ciência psicológica – caso da
Pedagogia e da Medicina, que precisam da Psicologia para ampararem suas ações – e
a intervenção profissional em Psicologia propriamente dita. Quanto a isso, no Brasil,
a Psicologia do Esporte tem vicissitudes que, embora não sejam o tema central do
presente capítulo, orbitam tópicos pertinentes ao comprometimento ético-profis-
sional abraçado pela ABRAPESP.
Desenvolvida a princípio na antiga União Soviética e nos Estados Unidos da
América, a Psicologia do Esporte alcançou desenvolvimento em alguns países euro-
peus e depois foi trazida para o Brasil nos anos 1950, como um conjunto de técnicas
de estratégias de intervenção que visavam ao treinamento de habilidades mentais de
atletas. Nos anos que se seguiram a esse processo, pouco avanço foi observado tanto
no desenvolvimento da Psicologia do Esporte quanto na especialidade da psicologia,
como o respeito social por esse fazer profissional, seja por parte de técnicos, seja do
lado de atletas e mesmo da categoria profissional.
Diante da importância que o esporte adquiriu como fenômeno social, a Psicologia
do Esporte tem vivido nos últimos anos uma grande expansão como campo de in-
tervenção e área de conhecimento, demandando esforços crescentes na formação
acadêmica e na produção de conhecimento específico. O pragmatismo que caracte-
rizou o surgimento e o desenvolvimento da Psicologia do Esporte no passado ainda
deixa marcas que influenciam a produção e intervenção em Psicologia do Esporte,
com estudos e trabalhos enfocando, basicamente, a psicometria para a determina-
ção de perfis psicológicos ou ainda tipos de intervenção cujo objetivo é maximizar e
potencializar o rendimento, tendo a finalidade clara da busca da vitória. Atualmente
250
Conselho Federal de Psicologia
esse quadro vem sofrendo transformações, indicando a construção de uma Psicologia
Social do Esporte na qual o atleta e as pessoas que realizam atividades físicas e espor-
tivas são considerados no contexto de sua história de vida pessoal, bem como de seu
meio social e do momento histórico em que vivem. Essa postura altera radicalmente
o pouco reconhecimento experimentado pela área no passado.
Com efeito, a intervenção psicológica no alto rendimento jamais perde de
vista a otimização do desempenho, ou a busca da vitória, à qual se dedicam o atleta,
a instituição e toda a equipe implicada. Todavia, as transformações ocasionadas pela
construção desta Psicologia Social do Esporte passam pela crítica de pressupostos
epistemológicos naturalizados em um psicologismo técnico instrumental. Neste, a
subjetividade é demitida em favor da normatização de um funcionamento cognitivo
presumido como objetivamente ótimo. Reside nesse tecnicismo, por exemplo, o apelo
a um dever moral de excluir do âmbito esportivo problemas de ordem pessoal, o que
parece compatível com a ideia de evitar a perda de foco, evocada pelos chamados
pensamentos intrusivos. O que uma Psicologia Social do Esporte problematiza, no
que se refere a esse exemplo, não é a lógica correta de que pensamentos intrusivos
podem ocasionar perda de foco e devem preferencialmente não ocorrer, mas tanto
aquilo que vem a ser designado, caso a caso, como “problemas de ordem pessoal”,
o que pode ocultar questões pertinentes à rotina esportivo institucional, quanto a
redução a um dever moral, portanto da ordem da vontade, de um acontecimento
psíquico que sempre envolve historicidades singulares e outros recursos subjetivos
particulares (e irredutíveis à volição).
Deve-se sublinhar, entrementes, que o contexto esportivo tem exigências que
requerem do psicólogo uma lida competente com tópicos sensíveis ao desempe-
nho atlético. Na ausência dessa competência, encontram-se dois tipos de conduta,
ambas lastimáveis. De um lado, estão os mal afamados episódios de psicólogos que,
por atuarem com recursos clínicos, mas sem a especificidade esportiva, a começar
pela consideração pelo ethos esportivo (os valores e a ética de trabalho), deflagram
tamanho mal-estar que, no limite, induzem à rejeição institucional pela intervenção
psicológica. Por outro lado, descartado o profissional da área, o conhecimento psi-
cológico existente é desprovido do horizonte de suas iniciativas e perspectivas, ou
seja, de uma epistemologia adequada acerca dos processos psicológicos, aplicando-se
sob uma lógica tecnicista rudimentar que segmenta a pessoa e compartimentaliza
a subjetividade, no mais das vezes recorrendo ao dever moral como fonte exclusiva
de recurso psíquico para o enfrentamento de desafios esportivos e não esportivos.
251
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
No primeiro caso, demite-se o fenômeno esportivo como locus sócio-histórico
dos valores e práticas em que se instala e transita a subjetividade atlética. No segun-
do, é a subjetividade que vem excluída para se atribuir à adequação de um sujeito
supostamente apenas moral o dever e a responsabilidade individual de se adequar
às normas psicossociais dadas como funcionais para o bom desempenho. Assim, a
intervenção psicológica no esporte, mesmo quando orientada por relevantes co-
nhecimentos da área, envolve um saber profissional especializado que não se reduz
à instrumentalidade técnica nem se contenta com a generalidade da formação em
Psicologia, sendo fruto de uma conexão consequente de ambos.
252
Conselho Federal de Psicologia
ram daquilo que pode ser uma maneira saudável de lidar com a existência e passaram
a engrossar as fileiras de sedentários e avessos às práticas de movimento (CFP, 2019).
Embora haja evidências de que as questões psicológicas estivessem no raio
de atenção da educação física e esporte no Brasil desde o princípio do século XX
(Carvalho, 2016), a atuação e estudos de João Carvalhaes – um profissional com gran-
de experiência em psicometria, no São Paulo Futebol Clube e na comissão técnica
da seleção brasileira que foi à Copa do Mundo de Futebol de 1958 e conquistou o
primeiro título mundial para o país na Suécia (Rubio, 2000a) – são um marco fun-
damental para o campo da Psicologia do Esporte em território nacional. É curioso
ressaltar que esse trabalho se deu antes mesmo da regulamentação da profissão de
psicólogo em 1962. Sua intervenção na seleção brasileira de futebol foi amplamente
reconhecida no exterior durante os anos 1960, ganhando destaque no meio acadê-
mico com a divulgação de seu trabalho em distintos locais.
As regras que marcavam o esporte chamado olímpico na década de 1950, tanto
em âmbito nacional como internacional, caminhavam na direção do amadorismo,
ditado pela Carta Olímpica. O futebol constituía-se uma exceção nesse universo
visto que já se profissionalizara no Brasil e em outros países desde a década de 1920.
Talvez por isso ele tenha se tornado um fenômeno distinto das demais modalidades
esportivas tanto naquilo que se refere à constituição dos times e clubes – com atletas
recebendo vultosas remunerações para os padrões da época e comissões técnicas
compostas por profissionais de várias áreas –, como pela organização de seus even-
tos – campeonatos nacionais e mundiais – em que as Federações da modalidade
têm a autonomia para organizá-los e gerenciá-los conforme elas assim o desejarem
(Carrano, 2000; Costa, 1999).
Essas eram as expectativas e a realidade do futebol com que se deparava João
Carvalhaes em 1958. Essas eram as condições da Psicologia e do Esporte no Brasil de
então. E assim estava marcado o início da Psicologia do Esporte brasileira. Nos anos
que se seguiram, acumulou-se muita informação sobre indivíduos (atletas) e grupos
(times) que praticavam esporte ou atividade física, sem que isso ainda representasse
a constituição de um arcabouço teórico consistente (Rodrigues, 2006).
A criação da Comissão de Esporte do Conselho Regional de Psicologia de São
Paulo em 1998 trouxe para dentro do Sistema Conselhos a discussão sobre esse cam-
po de saber e a especificidade de uma atuação profissional. Desde então passou-se a
construir conhecimento teórico e o entendimento dos limites profissionais até então
pouco problematizados. Essa organização levou não apenas à criação da especialidade
como também contribuiu para a definição das áreas de atuação.
253
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
Vale ressaltar que o termo esporte, apesar de se referir a uma prática compe-
titiva de alto rendimento e profissionalizada ou ao espetáculo esportivo, contempla
também a atividade física de uma forma mais ampla e abrangente como as práti-
cas de tempo livre e as atividades não regulamentadas e institucionalizadas. Isso
significa um deslocamento tanto da produção do conhecimento como da atuação
profissional do psicólogo do esporte. Se na perspectiva do esporte competitivo a
intervenção visa ao melhor resultado, nas práticas de tempo livre, na iniciação es-
portiva, no esporte social e na reabilitação, o que norteia o trabalho do psicólogo
é a motivação e a adesão, o bem-estar psicológico e o manejo de pensamentos e
sentimentos que levam à busca da atividade física e esportiva em diversos contextos
sociais em cada uma dessas populações.
Ao longo de décadas, o esporte de nível olímpico foi cuidado por entidades como
a Confederação Brasileira de Desportos (CBD) e o Comitê Olímpico Brasileiro (COB).
A década de 1990 e o início do novo século foi um período de intensa mobilização na
área jurídica, que estabeleceu regras e leis para a formatação do que hoje se chama de
Sistema Nacional do Esporte. Em 1993, a Lei Zico (Lei nº 8.672/1993) pôs fim à tutela
do Estado ao esporte. As alterações pautavam-se na autonomia das entidades esporti-
vas, fortalecendo a possibilidade de clubes esportivos se tornarem empresas e na livre
iniciativa. A lógica do mercado continuou a predominar, só que agora regrado pela lei.
Segundo Angelo (2014) a conhecida Lei Pelé (Lei nº 9.615/1998) corroborou
com o destaque para o futebol e suas prerrogativas, deixando a discussão sobre a
estrutura esportiva relegada a um segundo plano. Com a aprovação em 2001 da Lei
n. 10.264, chamada de Lei Agnelo-Piva, houve alteração significativa no manejo dos
recursos para o esporte. A partir de então 2% da arrecadação bruta dos concursos de
prognósticos e loterias federais e similares passaram a ser destinados aos Comitês
Olímpico e Paralímpico Brasileiros. Destes recursos, 85% são destinados ao COB e
15% ao CPB. Contudo, deste total repassado para as duas entidades, 10% deveriam ser
investidos no desporto escolar e 5% no desporto universitário.
Embora o esporte profissional não seja a única manifestação esportiva conheci-
da, ele causa profundos impactos na organização do sistema esportivo como um
todo, incluindo os profissionais que atuam na preparação e organização de atletas
e entidades esportivas. Psicólogas e psicólogos pertencem a esse grupo. A diver-
sidade sugerida pelo amplo espectro de settings, de populações e de expectativas
sugere um suporte teórico também variado que descreva e lide com os diversos
fenômenos estudados (Rubio, 2007). Daí uma ligação estreita com a Psicologia
Clínica e a Psicologia Social. Se no esporte de alto rendimento o esforço dos vá-
254
Conselho Federal de Psicologia
rios profissionais que compõem a equipe técnica está voltado para a produção da
vitória, nos demais contextos esportivos a vitória pode estar identificada com a
formação de um grupo para a atividade, com a permanência na prática ou com
a compreensão do significado do processo que desencadeou ou culminou uma
necessidade física. Essa ação específica faz com que a Psicologia do Esporte se
diferencie da Psicologia no esporte.
O esporte chamado de alto rendimento é um tipo de prática que pode se rela-
cionar ao esporte espetáculo, protagonizado pelo atleta profissional, ou ainda a um
tipo de atividade esportiva que não é necessariamente remunerada, mas que exige
do praticante dedicação e rendimento que superam uma atividade de tempo livre ou
amadora. É no primeiro caso que a Psicologia do Esporte tem se apresentado com
maior visibilidade, levando-a a ser confundida tão somente com essa perspectiva
(Rubio, 2004). Isso porque, em busca do rendimento máximo de um atleta indi-
vidualmente ou de uma equipe esportiva, são procuradas as variáveis que podem
interferir na performance, permitindo que o objetivo maior dessa atividade, ou seja,
a vitória, seja alcançada.
Cagigal (1996) entendia que a Psicologia do Esporte deveria estudar o esporte
como um feito humano, ou seja, mais do que se preocupar com rendimento esportivo
ela deveria promover o desenvolvimento do ser humano por meio do esporte. E aqui
o esporte seria um instrumento, um meio para a descoberta e desenvolvimento de
suas potencialidades e habilidades. Na mesma linha, o conhecimento daquilo que
na própria prática esportiva ameaça o desenvolvimento humano e a saúde psíqui-
ca, como a violência (Barreira et al., 2019), em particular nas tênues fronteiras que
podem se impor entre essa e as artes marciais e modalidades esportivas de combate
(Barreira, 2017, 2019; Barreira et al., 2019; Coelho, & Barreira, 2020; Rodrigues et
al., 2021; Telles et al., 2022), é decisivo para escolhas afinadas com a ética esportiva.
O mesmo vale de modo geral no alto rendimento, em que os indicadores
de ansiedade e depressão são alarmantes (Rice et al., 2016) e no contexto de iso-
lamento social vivido no decorrer da pandemia de COVID-19 iniciada no ano de
2020 (Barreira et al., 2020).
Notadamente, quando o lema é rendimento, os esforços são direcionados
para a exploração máxima das capacidades individuais e coletivas, para a supressão
dos pontos frágeis ou negativos e maximização daqueles considerados positivos e
desejáveis. Nessa situação não existe qualquer referência à função pedagógica da
derrota (Rubio, 2004).
255
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
Para tanto são estudadas condutas dos praticantes em suas modalidades espe-
cíficas, buscando-se investigar as relações entre as situações antecedentes e a conduta
resultante no âmbito dessa atividade (Balaguer, 1994; Llave et al., 1999). E para conseguir
essa finalidade a Psicologia busca investigar, com a ajuda de procedimentos objetivos,
o funcionamento do comportamento individual e social, a fim de superar as condu-
tas inconscientes, substituindo-as pela observação e a experimentação (Feltz, 1992).
Enquanto autores do norte global compreendiam a Psicologia do Esporte como
uma técnica para conquistar resultados, Feijó (1992) caminhava na direção de outra
epistemologia. Afirma o autor que os objetivos do preparo psicológico devem coincidir
com os objetivos pessoais do atleta, uma vez que existem interesses políticos e econô-
micos investidos no atleta, com objetivos competitivos que visam a garantir vitórias,
além de expectativas dos vários profissionais que compõem a comissão técnica. Sugere
o autor que o preparo psicológico deveria estar voltado para o equacionamento de
todos os interesses em jogo. Muitas vezes esses interesses convergem para pontos em
comum como o desejo de vitória e de aperfeiçoamento. Entretanto, certas metas são
discordantes como os limites do corpo, prêmios ou a relação treinamento/lazer. E,
nesse universo tão repleto de intenções, o psicólogo acaba por desempenhar o papel
de mediador da comunicação dos distintos desejos.
A amplitude do conhecimento produzido e ensinado pela Psicologia do Esporte
mostra-se como determinante para a boa atuação dos profissionais de Educação Física
e dos profissionais de Psicologia. Entretanto, deve-se sempre alertar que o domínio
dos mesmos conteúdos temáticos da área não os faz profissionais equivalentes, antes
qualifica a atuação dos primeiros e possibilita a especificidade da atenção e escuta
interventiva dos segundos. No horizonte de formação superior destes profissionais,
residem e se destinam as abissais diferenças entre suas futuras atuações, cuja ponte
principal é nomeada Psicologia do Esporte. A grade curricular de Psicologia é atra-
vessada pela problematização da subjetividade, estando aí o pano de fundo em que
emerge o fenômeno esportivo e a intervenção no campo. Sem qualquer dúvida, o
conhecimento psicológico informa uma prática profissional em Educação Física sen-
sível aos correlatos psicológicos das diferentes atividades físicas e à singularidade de
pessoas e grupos, podendo aperfeiçoar enormemente seu trabalho. Esse potencial de
aperfeiçoamento oriundo da Psicologia não autoriza psicólogos a prescreverem e a
conduzirem treinamentos esportivos, como não autoriza profissionais de Educação
Física a fazerem intervenções psicológicas.
As entidades, instituições/associações, têm uma grande importância para os
nossos trabalhos, visto que possuem o foco principal de agregar os profissionais
256
Conselho Federal de Psicologia
e os conhecimentos dentro da referida temática. Daí a importância de se recorrer
às instituições, ou colegas, de outras “especialidades” para ajudar/orientar em uma
atuação. Às vezes existem situações que atravessam todos os saberes e práticas da
psicologia, daí a importância de se ter a união de entidades para a aproximação e o
alinhamento desses saberes. No caso desta união, em 1998, foi constituído o Fórum
de Entidades Nacionais da Psicologia Brasileira, o FENPB, o espaço que agrega as
entidades de diversas áreas da psicologia. Neste Fórum, cada entidade contribui com o
respectivo saber para a construção conjunta de políticas, projetos e posicionamentos,
com a sociedade e com o Sistema Conselhos de Psicologia, com vistas à melhoria da
qualificação profissional e o fomento da pesquisa e da prática cotidiana (Conselho
Federal de Psicologia [CFP], 2019).
Atualmente, a única entidade a representar a Psicologia do Esporte, no FENPB,
é a Associação Brasileira de Psicologia do Esporte (ABRAPESP), criada a partir do
esforço de um grupo de psicólogos preocupados em discutir e promover os estudos
e práticas profissionais da Psicologia do Esporte no Brasil. Esse grupo começou por
se reunir no Conselho Regional de Psicologia de São Paulo, denominado então de
Comissão de Esporte do CRP-SP, no ano de 1999, entendendo ser aquele um mo-
mento importante e privilegiado para discussão de uma área que despontava como
emergente na Psicologia Brasileira e que não contava com formas de organização
efetiva. Esse grupo foi responsável pela produção de várias publicações, documentos
e eventos e contribuiu significativamente para a discussão do processo de criação
das especialidades pelo Conselho Federal de Psicologia, que culminou na criação da
especialidade em Psicologia do Esporte pela resolução CFP nº 14/2000.
Desde aquele momento até o presente, os diversos componentes do grupo original
ocuparam espaços em instituições que compõem o campo da Psicologia do Esporte e
que abrangem o esporte de alto rendimento, a iniciação esportiva, o esporte escolar,
os projetos sociais, a reabilitação e as práticas de tempo livre. Esse movimento contou
com a participação de psicólogos de diversos estados brasileiros, o que certificou a
disposição dessa entidade em congregar profissionais em todo o território nacional.
No ano de 2007, durante o seu primeiro Congresso, a ABRAPESP deu um passo
importante para o desenvolvimento e o fomento da área ao lançar a Revista Brasileira
de Psicologia do Esporte; hoje, a única revista brasileira referência da área no país.
Para se ter acesso a todas as edições da revista, basta acessar o portal de revistas da
Universidade Católica de Brasília.
257
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
Perspectivas Futuras
É possível afirmar que a Psicologia do Esporte brasileira segue no presente os pas-
sos, avanços e recuos tanto da Psicologia como do Esporte. Isso representa por um lado
o compromisso com a construção rigorosa de teorias que fundamentam uma prática
em desenvolvimento, com focos distintos e não necessariamente complementares. O
desafio é hercúleo. Por outro, as instituições esportivas provam com constância pouco
desejada que o rigor da profissionalização é um desejo que nem sempre se materializa,
uma vez que ainda se convive com o amadorismo no gerenciamento dos clubes e grande
parte da Federações e Confederações esportivas.
É possível afirmar que um dos grandes desafios futuros da Psicologia do Esporte
é associá-la a outras formas de praticar o esporte e a atividade física que não seja apenas
a competição. Pouco a pouco se consolida o reconhecimento, o espaço e a força da PE
em outros contextos como os projetos sociais, o fitness, a reabilitação, a iniciação espor-
tiva, os programas de qualidade de vida e a medicina preventiva, provando-se assim tão
ampla quanto é o movimento humano.
A diversidade sugerida pelo amplo espectro de settings, de populações e de ex-
pectativas sugere a necessidade de um suporte teórico também múltiplo capaz de fun-
damentar os diversos fenômenos estudados. Daí uma ligação estreita com a Psicologia
Clínica, a Psicologia do Desenvolvimento, Psicologia Social, a Psicologia Hospitalar e
mesmo a Psicologia do Trabalho. Se o foco da intervenção no esporte competitivo está
voltado para a conquista da vitória, nos demais contextos esportivos a representação da
vitória pode estar na estruturação de um grupo para a atividade, na aderência à prática
ou na compreensão do significado do processo que desencadeou ou culminou uma
necessidade física. Essa ação específica faz com que a Psicologia do Esporte se diferencie
da Psicologia no Esporte.
Se no passado a Psicologia do Esporte brasileira seguiu proximamente as teorias
e práticas de intervenção à semelhança do que se fazia nos países em que foram desen-
volvidos, a formação de uma geração de psicólogas e psicólogos a partir do referencial
da psicologia brasileira se transformou. A especificidade do esporte e da realidade
brasileiros exigiu um olhar e uma prática profissional adequados e adaptados tanto às
condições das instituições esportivas como às variações culturais presentes na vida dos
atletas e cidadãos brasileiros.
O resultado dessa busca pela alteridade pode ser observado na diversidade de for-
mas de atuação. Partindo da psicanálise, do cognitivismo, do behaviorismo radical, do
psicodrama, da psicologia social, da psicologia analítica ou da gestalt como referencial
258
Conselho Federal de Psicologia
teórico, um grupo crescente de psicólogos tem se dedicado a desenvolver a Psicologia
do Esporte brasileira, considerando as particularidades das modalidades no país e dos
atletas que convivem com uma realidade específica.
Apesar do crescimento incontestável vivido pela área principalmente na última
década, muito ainda está para ser feito tanto no que se refere à formação específica do
psicólogo do esporte, como em relação ao reconhecimento da importância e necessidade
desse profissional nas diversas frentes em que ele pode atuar.
A extinção do Ministério do Esporte, dos benefícios criados para favorecer uma
base sólida de atletas jovens e de uma estrutura que entendia o esporte como uma prá-
tica acessível parece negar o esporte como direito constitucional. O esporte já esteve aos
cuidados do Ministério da Educação, da Educação e Cultura, já foi secretaria especial e
mesmo assim sobreviveu, não como direito mas como necessidade. Uma necessidade
tão latente que chegava a ser anunciada como vício que demandava o ópio.
Infelizes os ignorantes que pouco ou nada sabem sobre o esporte e o tratam
apenas como um vício ou espetáculo (Rubio, 2019). Aos que o tratam como vício,
falta o conhecimento sobre uma experiência que se inicia muito cedo na existên-
cia dos seres humanos, ainda de forma lúdica, e que pode vir a ser um meio de
distinção, não apenas social, mas, acima de tudo, humano. Porque essa prática
proporciona em quem a experimenta o poder da transcendência e do limite da
humanidade, seja na conquista de uma marca nunca antes atingida, seja na rea-
lização de um gesto perfeito, divino. Banalizam a existência de um fenômeno
de massa, porque, ainda que manipulável em algumas ocasiões, ele não o será
para sempre. Qualificam-no como ópio do povo por desconhecerem sua potên-
cia educativa que, no limite, também transforma a sociedade. Espetáculos são
produzidos e manipulados conforme convém ao produtor. O esporte obedece à
regra da excelência e da superação. Por isso escapa à compreensão de burocratas.
Nenhum espetáculo é mais humano do que a inclassificável emoção da derrota,
essa sim demasiadamente humana.
O que resta é acreditar na condição cíclica do tempo. Um dia tudo isso
aconteceu, por determinação de uns, insistência de outros e a crença cega na
importância disso para si, mas principalmente para as gerações futuras, atletas
e modalidades esportivas sobreviveram à escassez de recursos e à falta de res-
peito por parte de políticos e dirigentes. A ação desses abnegados, assim como a
esperança na caixa de Pandora, segue registrada, menos na história dita oficial
e muito mais nas narrativas de atletas que guardam em suas memórias o reco-
259
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
nhecimento pelo esforço em manter viva a chama de um fenômeno educativo
e social chamado esporte.
O esporte é sim para todos e também para alguns mais habilidosos, por isso
ele é democrático. E como direito ele deve permanecer na pauta política do país,
reclamando por verbas e políticas.
260
Conselho Federal de Psicologia
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263
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
Psicologia da Saúde:
história e desafios
Maria Geralda Viana Heleno
Ricardo Silva dos Santos Durães
Manuel Morgado Rezende
Miria Benincasa
264
Conselho Federal de Psicologia
tos produziram um novo paradigma social nos cuidados de saúde, pois o enfoque
foi alterado das intervenções na saúde e nas doenças para os cuidados primários de
saúde (Ribeiro, 2011). E a proposta de promoção de saúde foi concebida como pro-
dução social que não cabe apenas na área de saúde e, portanto, precisa se articular
com vários setores da gestão de um município, estado ou país (Coelho, 2001).
Além dos resultados apontados na Conferência de Alma-Ata de 1978, foi feita
a proposta de Saúde Para Todos no ano 2000 e a estratégia de Atenção Primária de
Saúde, que alcançou destaque especial na Primeira Conferência Internacional sobre
Promoção da Saúde (1986), com a promulgação da Carta de Ottawa (Ferreira, 1998).
Refletindo sobre as considerações de Coelho (2001) e Ferreira (1998) do que foi
apresentado nas conferências, nota-se que deve haver um sistema interligado para a
realização de programas de promoção de saúde e de prevenção de doenças para se
alcançar um patamar de eficiência para a saúde e bem-estar das pessoas. A Psicologia
da Saúde é uma área da psicologia que se incluiu nesse sistema, que é composto de
várias instituições em serviços públicos e privados.
A história da Psicologia da Saúde, no seu início, utilizou os conhecimentos da
psicologia clínica e essa, por sua vez, havia utilizado o modelo médico que se vincu-
lava à demanda do sujeito, e não necessariamente a uma patologia (Guerra, 2002).
Com o decorrer do tempo, a psicologia clínica avança, principalmente com Freud,
no que se refere à escuta terapêutica, à resistência e à forma de tratar os pacientes,
considerando a evolução da doença e, mais ainda, o paciente não ser tratado como
um mero objeto (Moreira et al., 2007)
No período da Segunda Guerra, principalmente na Europa, o psicólogo clínico
cuidava primordialmente dos indivíduos com doenças mentais, e a aproximação de
um outro grupo denominado Psicologia da Saúde visava essencialmente a tratar as
doenças físicas. Mas houve uma interação entre esses dois grupos, de modo a não
haver distinção entre uma e outra. Isso ocorreu em função da emergência e urgên-
cia da Psicologia da Saúde (Ribeiro, 2011). Essa associação foi defendida por Millon
(1982), sugerindo que psicologia clínica e Psicologia da Saúde fossem apenas uma e
Fox (1982), da mesma forma, defendia que ambas deveriam se preocupar em incluir
as doenças crônicas, estilos de vida não saudáveis, entre outros.
Essa ideia trouxe outras reflexões sobre os limites do campo de atuação do/a
psicólogo/a que atua na clínica, a qual pode ser uma prática individual de consultó-
rio ou, em contraposição, uma clínica social ampliada. Além disso, cabe considerar
que o local não determina a clínica, e sim a postura e os objetivos do/a profissional
psicólogo/a (Guerra, 2002). Assim, alguns conhecimentos da clínica foram agregados
265
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
à Psicologia da Saúde, mas com o cuidado de não perder a definição desta última.
Portanto, foi necessário delimitar o campo da Psicologia da Saúde.
Cabe lembrar que, na década de 1970, houve rejeições quanto à definição de
Psicologia da Saúde. Para alguns, a Psicologia Clínica continuava sendo feita no âm-
bito da saúde mental enquanto a Psicologia da Saúde era realizada na prática com as
doenças físicas, ou seja, a continuação da adoção do dualismo estrito mente/corpo.
Mas, na década supracitada, o papel da Psicologia da Saúde ultrapassa para além do
que, tradicionalmente, tendia a ser denominado Psicologia Clínica (WHO, 1985).
Desde o início, a Psicologia da Saúde não se limitou aos serviços e sistemas de
saúde, mas se envolveu em todos os aspectos dos dispositivos e produções sociais que,
de algum modo, se relacionam com a saúde. Corroborando tal afirmação, Matarazzo
(1982) define a Psicologia da Saúde como:
266
Conselho Federal de Psicologia
acadêmico ou na atuação clínica, nesse último caso com pacientes que apresentam
dificuldades para se adaptarem ao tratamento, entre outros.
Sebastiani e Maia (2005) trazem uma importante referência sobre o trabalho
do/a psicólogo/a da saúde na atenção ao paciente cirúrgico. Eles utilizam como pres-
suposto as propostas de intervenção interdisciplinar em saúde dentro do paradigma
biopsicossocial, que são relacionados aos processos desde o diagnóstico, internação,
cirurgia até a fase de reabilitação do paciente. No período da reabilitação do pacien-
te, é de fundamental importância a presença do/a psicólogo/a. Pois, caso o paciente
apresente episódios de medo e depressão, entre outros, o trabalho do/a psicólogo/a
ajudará no processo de resolução dos problemas e na reintegração à vida. Outro fator
importante é que o/a psicólogo/a precisa estar instrumentalizado adequadamente
para conquistar, pelo seu conhecimento, pelo valor do seu trabalho e pela sua dedi-
cação, seu espaço dentro das equipes cirúrgicas.
O trabalho e as estratégias utilizadas pelos profissionais da Psicologia da Saúde
são diferentes entre países e, inclusive, existem diferenças dentro de um mesmo país.
As estratégias podem ser denominadas: “Psicologia Clínica da Saúde” – intervenções
no sistema de cuidados de saúde e inspira-se no modelo biopsicossocial semelhante
ao da Psicologia Clínica; “Psicologia da saúde pública” – atividade multidisciplinar que
envolve estudos epidemiológicos, avaliação e intervenção psicológica na promoção da
saúde e na educação para a saúde; “Psicologia da saúde comunitária” – foca a investigação
comunitária e social; “Psicologia da saúde crítica analítica” – processos macrossociais
e econômicos que influenciam a saúde e os cuidados de saúde (Marks, 2002).
Cabe considerar que essa diversidade pode ser um amplo caminho que leve os
profissionais da área da Psicologia da Saúde ao aprimoramento científico e profissional.
Nos anos 2000, alguns países europeus usaram o termo psicólogo/a profissional da
saúde ou psicólogo/a da saúde, pois para exercer essa função deve ter competência
na área e formação em uma pós-graduação em Psicologia da Saúde. Esse profissional
devidamente capacitado pode trabalhar como professor/a no sistema de ensino su-
perior e em serviços de saúde. As atividades desse profissional podem ser no ensino
e pesquisa e nas intervenções para reduzir doenças e promover saúde (Ogden, 2007).
Retomando a trajetória da Psicologia da Saúde, a partir da década de 1980, como
já citado, cresce muito o interesse pela área da Psicologia da Saúde. Belar et al. (1987)
consideram que os motivos foram: a) fracasso do modelo biomédico na explicação
das doenças e da saúde; b) crescimento da preocupação com a qualidade de vida e
com a prevenção das doenças; c) mudança da atenção dos profissionais de saúde
das doenças infecciosas para as doenças crônicas, com o reconhecimento do papel
267
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
fundamental do estilo de vida; d) maturidade da investigação nas ciências compor-
tamentais; e) aumento dos custos dos cuidados de saúde e procura de alternativas
aos cuidados de saúde tradicionais.
Seguindo essa evolução, no Brasil, os estudos e programas de psicologia da saúde
iniciaram-se na década de 1980 com o Programa de Residência Hospitalar que utilizou
os conhecimentos advindos da Psicologia da Saúde. Conforme descreve Gorayeb (2010),
desse programa com mais de centenas de residentes, destacaram-se vários psicólogos/
as que gradativamente foram construindo um arcabouço teórico e prático. O autor
cita as Profas. Dras. Maria Aparecida Crepaldi e Maria Beatriz Martins Linhares, assim
como outros, a ter um papel muito importante no campo da Psicologia da Saúde no
Brasil. Nessa época, a Psicologia da Saúde se funde com a psicologia hospitalar.
Outra iniciativa que deve ser considerada como um marco importante na história
da Psicologia da Saúde no Brasil, ocorre em 1982, quando é inaugurado o primeiro
Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Saúde na Universidade Metodista de
São Paulo (Custódio, 2003; Grecchi, & Rezende, 2016).
Outro importante acontecimento ocorre no ano de 2006, quando é criada a
Associação Brasileira de Psicologia da Saúde (ABPSA), que tem como objetivos: a) de-
senvolver o status científico da área por meio do estímulo à pesquisa, à comunicação
e publicação de resultados de investigações, bem como da melhoria dos métodos e
condições de pesquisa; b) contribuir para o aprimoramento da prática profissional da
área por meio de palestras, congressos, entre outros; e c) manter intercâmbio e parcerias
com outras associações e entidades nacionais e internacionais científicas e profissionais.
No Brasil, como citado, há uma especialidade profissional reconhecida, designa-
da Psicologia Hospitalar, a qual se iniciou com o intuito de agrupar os/as psicólogos/
as que trabalhavam em hospitais e, por iniciativa do Conselho Federal de Psicologia
(CFP), constitui-se o título de especialista em Psicologia Hospitalar, sendo uma profis-
são que se define pelo contexto em que se pratica. No entanto, tem em sua definição
a integração da saúde e da doença, do físico e mental, ficando mais próximo do que
se faz em Portugal, quando comparado ao que se faz nos países anglo-saxônicos.
Cabe lembrar que Portugal tornou-se grande referência para os estudos de
psicologia da saúde no Brasil e por meio da ABPSA e da Universidade Metodista
de São Paulo foram feitos vários congressos de psicologia da saúde em parceria
com as Universidades do Porto e Algarve – Portugal. Vale lembrar que o primei-
ro congresso aconteceu no ano de 2007: “I Congresso Brasileiro de Psicologia da
Saúde”, organizado pela ABPSA e realizado na cidade de São Bernardo do Campo,
na Universidade Metodista de São Paulo.
268
Conselho Federal de Psicologia
Para a realização deste primeiro congresso, no ano de 2007 (o último que
aconteceu no ano de 2021, os congressos são realizados a cada quatro [4] anos), além
dos convidados brasileiros, que abrilhantaram os congressos, houve também grande
adesão dos profissionais da área de Psicologia da Saúde de Portugal. Cabe lembrar
as presenças no Brasil da Dra. Isabel Leal, do Dr. José Luiz Paes Ribeiro e do Dr.
Saul Neves de Jesus. A participação deles nos congressos brasileiros resultou numa
parceria muito produtiva, e os últimos congressos foram nominados de “Congresso
Brasileiro e Luso-Brasileiro de Psicologia da Saúde”.
Retomando a questão da complexidade e as dificuldades para a compreensão e
diferenciação, além da questão entre Psicologia da Saúde e Clínica, entre outras, há uma
nova questão em função da Psicologia Hospitalar. Há confusão entre essas duas últimas,
tanto no campo teórico quanto prático. Assim, nesse campo confuso se misturam e se
cruzam no que se refere, principalmente, no contexto da prática (Miyazaki et al., 2002).
Vale ressaltar que a psicologia clínica, no Brasil, é muito valorizada, dissemi-
nada e praticada, a Psicologia em Saúde é ainda uma ciência em crescimento. Mas a
Psicologia Hospitalar é a mais disseminada no Brasil, e não é sinônimo de Psicologia
da Saúde, apesar de fazer parte desta. Portanto, há que se considerar a importância
de se produzir conhecimento acerca da Psicologia em Saúde, tanto para consolidar
cada vez mais esta ciência em âmbito nacional e internacional, quanto para tornar
viável e possível a disseminação dessas produções aos/às psicólogos/as que atuam
diretamente no sistema de saúde (Gorayeb, 2010).
Há que se considerar as dificuldades tanto práticas quanto científicas nas diversas
denominações, por isso Lalonde (1974) denomina Campo da Saúde. Esse conceito
introduziu uma distinção que não era utilizada na linguagem da saúde e da doença.
Distinguiu as expressões “Cuidados de Saúde” (health care) e “Campo da Saúde”
(health field) para salientar que a primeira se referia, essencialmente, ao que se fazia
nos hospitais e em outros contextos de saúde tradicionais mais relacionados com
o tratamento. Enquanto a segunda expressava tudo o que dizia respeito à saúde: o
campo da saúde integra os cuidados de saúde.
É importante notar que há, apesar das dificuldades na intersecção das psicologias,
uma evolução no que se refere à tentativa de definição no campo da Psicologia da
Saúde tanto na prática como na teoria. Em 1983, realizou-se a conferência de Arden
House, com o objetivo de recomendar a formação na área da Psicologia da Saúde.
Olbrisch et al. (1985) concluíram que o estado atual da Psicologia da Saúde é um cam-
po genérico da psicologia, com seu próprio corpo de teoria e prática, e diferenciado
de outros dentro da psicologia. A Psicologia da Saúde tem vasto conhecimento que
269
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
se funda na interdisciplinaridade para promoção da pesquisa e prática profissionais.
Desta forma está claro que se trata de uma especialidade profissional em evolução.
Retomando a década de 1970, cabe lembrar a evolução da especialidade pro-
fissional que agrega a interface da Psicologia Clínica e da Saúde na atenção básica,
atenção primária, secundária, terciária e redução de danos. Fato que trouxe uma
mudança radical no modo dos políticos e dos cientistas pensarem sobre a saúde
(Michael, 1982; Richmond, 1979). Este período é importante pelo fato de o objetivo
estar centrado na inserção da Psicologia no campo da saúde como um todo, para
além do campo exclusivo da saúde mental. Esta revolução teve três características
essenciais: centrar-se sobre a saúde ao invés de sobre a doença; reconhecer nos países
desenvolvidos que o comportamento humano era a principal causa de morbilidade
e mortalidade e finalmente preconizar o retorno a uma perspectiva ecológica.
Cabe considerar que, na década de 1970, a primeira revolução da saúde se
centrou na prevenção das doenças; e a segunda, na área da saúde. Havia uma ideia
de que com a primeira revolução da saúde os problemas das doenças estariam re-
solvidos. No entanto, a partir de meados do século XX, surge uma nova epidemia:
a epidemia comportamental. Essas são as doenças que mais contribuíram para
a mortalidade e são doenças com etiologia comportamental. Assim, houve uma
mudança extrema na maneira de os políticos e cientistas pensarem sobre a saúde.
A perspectiva muda e os principais fatores de risco, responsáveis pela maioria das
doenças e mortes prematuras nos Estados Unidos da América, são os comporta-
mentais (Michael, 1982; Richmond, 1979).
Com base nestas evidências, a segunda revolução da saúde centrou-se em no-
vas concepções e em definir novos princípios. Assim, a segunda revolução da saúde
foi consequência das investigações que, de modo crescente, alertavam para as novas
epidemias e cujos estudos epidemiológicos somente começaram a ser conclusivos e
a ganhar notoriedade na década de 1970 (Lalonde, 1974; Michael, 1982; Richmond,
1979). Começa-se a pensar em saúde para além dos espaços hospitalares, mas como
política pública. Esse é um grande passo para a promoção da saúde que se trata de
antecipar e evitar doenças.
É muito importante lembrar, segundo McKeown, Brown, e Record (1972), que
a sociedade não utilizava de forma competente os investimentos financeiros e que
havia erros das ciências médicas. Para o autor, essas ciências estavam equivocadas,
pois partiam de premissas erradas. Assumiram que o corpo humano podia ser vis-
to como uma máquina, cuja proteção das doenças e dos seus efeitos dependia, em
270
Conselho Federal de Psicologia
primeiro lugar, das intervenções internas. Ignoravam as influências externas e no
comportamento humano estariam os determinantes primordiais da saúde.
Por outro lado, contrapondo-se a McKeown, Brown, e Record (1972), há que se
considerar que nem sempre há recursos suficientes para que os programas de atenção
à saúde sejam realizados. A reportagem realizada por Antunes (2022) mostrou que no
Brasil, no ano de 2016, foi aprovada a proibição de aumentos de gastos por um período
de 20 anos, o que significou uma perda de 22,5 bilhões para o orçamento da saúde.
Mesmo com o aumento da arrecadação, considerando a regra anterior, haveria cresci-
mento do recurso que seria destinado ao SUS. Segundo Moretti (2022), em entrevista
a Antunes, considera que: “a questão mais impactante é que há recursos, mas as regras
atuais criam limites artificiais para a alocação de recursos na saúde” (Antunes, 2022).
Há falhas e limitações no sistema de saúde do Brasil. Por exemplo, Saldiva e
Veras (2018), a partir da observação por meio de autópsia e de estudos das causas
ambientais, garantem que, apesar dos marcantes avanços no sistema de saúde pú-
blica (SUS), há ainda um grande caminho a percorrer para prover as condições de
preservar a saúde da população de nosso país. Entretanto, o mais importante nesse
estudo foi a análise detalhada desse complexo cenário. Nem sempre países com alto
valor para investimentos na área da saúde e principalmente encaminhados ao estilo
de vida conseguem ter resultados positivos. Os autores citam que, mesmo países com
as expressivas proporções de dispêndio em saúde, não seria temerário afirmar que
nenhum deles tem equidade de acesso à saúde comparável às do Canadá e do Reino
Unido, os quais gastam muito menos para o mesmo fim.
Os países mais pobres e com alto dispêndio financeiro apresentam problemas
de saúde tão graves que fazem que os recursos alocados sejam insuficientes, ao passo
que os Estados Unidos, por optarem por um sistema predominantemente mercan-
tilista, excluem dos recursos alocados aqueles menos favorecidos.
A conclusão apresentada por Saldiva e Veras (2018) é que o conjunto de infor-
mações apontou que a solução adequada para o funcionamento do sistema de saúde
de um país depende de dois fatores: financiamento suficiente e gestão adequada dos
recursos obtidos. Para os autores, o Brasil precisa melhorar nesses dois quesitos.
Este panorama em anos anteriores foi, também, reconhecido nos relatórios de
Lalonde, pois os orçamentos para a saúde, nos Estados Unidos e Canadá, atribuíam
menos de 5% ao pilar do estilo de vida (Abelin, 1991; Pelletier, 1988). As mudanças
que ocorreram, nas últimas décadas, na política, na economia, nos movimentos
sociais e nas ciências médicas, entre outros, impuseram uma nova revolução, a
Terceira revolução da saúde.
271
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
Nessa revolução, observa-se a emergência da Psicologia da Saúde, pois há
uma importante questão: a redução de custos na área da saúde (Matarazzo, 1982).
Esta afirmação reflete uma preocupação que já acompanhou o desenvolvimento
da segunda revolução da saúde e que se tornou, dez anos depois, um elemento
central. Além das mudanças na etiologia da morbilidade e mortalidade, outros
fatores contribuíram para a emergência da terceira revolução da saúde. Podem
ser citados o envelhecimento populacional; as melhorias nos sistemas de saúde
e, consequentemente, aumento dos custos; prestação de serviços comunitários e,
à medida que as pessoas começam a ter conhecimentos, exigem das autoridades
melhores condições na área da saúde (Ramos, 1988).
Ao passo que ocorre o desenvolvimento e definição dos programas de aten-
ção à saúde, observa-se a evolução tanto da teoria como da prática e das questões
financeiras necessárias para a execução dos programas. Dessa forma ocorre um
processo que deixa de forma clara todas as definições de cada setor participante
do processo. Os processos anteriores que eram confusos passam a ter uma clareza
capaz de ser mais bem compreendida.
A adequada abordagem dos problemas no nível primário, Atenção Primária
à Saúde (APS), poderia descongestionar os serviços de saúde nos níveis especia-
lizados. Nestes casos, dedicar-se-ia mais tempo para solucionar problemas mais
complexos, que necessitam maior atenção, já que muitos dos problemas seriam
solucionados primariamente. A promoção de saúde é uma intervenção anterior
à prevenção de doenças. A intervenção primária do/a psicólogo/a na equipe de
saúde, ainda que desempenhe um papel específico, deverá ser realizada numa
perspectiva interdisciplinar e multiprofissional. Portanto, todo o trabalho necessita
ser compreendido, planejado e executado em equipes multiprofissionais. Mas não
só isso. Além de trabalhar em equipe multiprofissional, a(o) psicóloga(o) deve am-
parar sua intervenção em um modelo de saúde-enfermidade-cuidado-vida-morte
compreendido como um processo construído coletivamente, ainda que se revele
nas pessoas individualmente (CFP, 2010).
Por isso, a(o) psicóloga(o), para trabalhar neste nível de atenção à saúde, necessita
ter conhecimentos psicológicos e, além desses, somar outros como: epidemiologia,
políticas sociais, antropologia da saúde, sociologia da saúde, educação para saúde,
entre outros. As intervenções da(o) psicóloga(o) na APS deverão priorizar a saúde
geral, não apenas a mental. Sabendo-se que a APS é a porta de entrada para todos
os episódios relacionados à saúde-doença, o psicólogo terá de cumprir o seu papel
acolhendo todas as pessoas que ali chegam. Entretanto, terá de ter clareza quanto
272
Conselho Federal de Psicologia
ao que fazer na APS. Os casos pertinentes à saúde mental devem ser encaminhados
aos níveis especializados de atenção à saúde, quer seja o especializado ou o de alta
complexidade (Alves, 2011).
Por se tratar de uma área complexa e com dificuldade de inserção da(o) psicó-
loga(o) da saúde, o CFP e o Centro de Referência Técnica em Psicologia e Políticas
Públicas (Crepop), em 2019, desenvolveram uma cartilha com o objetivo de apresentar
as práticas das(os) Psicólogas(os) no Campo da Atenção Básica (ABS). Na descrição
destas práticas, os/as participantes referiram a realização de diversas ações dirigidas,
principalmente, às(aos) usuários/as e a seus familiares no contexto dos serviços da
ABS. A avaliação do Crepop mostrou que o trabalho era desenvolvido em diferentes
contextos, que são: Unidades Básicas de Saúde (UBS); NASF; Ambulatórios de hospi-
tais; Escolas; Serviços públicos ligados a outras secretarias; Órgãos ligados ao poder
judiciário e na comunidade.
Observou-se que a Política Nacional de Atenção Básica no Brasil, apesar de ter
uma organização das ações de saúde, ainda é muito diferente nas diversas regiões
do país. Nesse contexto, a inserção de profissionais da Psicologia é determinada
pela gestão local da Atenção Básica à Saúde. Também notou-se que o processo de
implementação das políticas públicas relacionadas ao campo da ABS ainda não
está concluído. Faz-se necessária, assim, a releitura das necessidades e demandas
de modo a alcançar o objetivo da ABS considerando as necessidades dos usuários
e os objetivos da Psicologia da Saúde (CFP, 2019).
Um dos problemas mais difíceis para os profissionais da Psicologia da Saúde
é a falta de seguimento ou a não adesão às prescrições de saúde (Epstein & Cluss,
1982). Os tratamentos de longa duração apresentam menor adesão comparados aos
tratamentos de curta duração. Quanto mais complexas são as demandas, mais difícil
é seu cumprimento. Como é o caso de pacientes com diabetes e outras doenças
crônicas (Peck & King, 1982).
A atividade psicológica em prevenção é, para os psicólogos, um desafio; pois,
nas equipes de saúde, muitas vezes o/a psicólogo/a é inserido em situações nas quais
a equipe não conseguiu que o paciente tivesse adesão ao tratamento. Assim, a in-
tervenção do psicólogo é um último recurso, que deve ser negativamente criticado,
porque indica que o psicólogo não participou na elaboração do programa proposto
ao paciente, desde o início de seu tratamento (Peck & King, 1985).
Uma outra questão importante para a Psicologia da Saúde é o conhecimento
advindo da epidemiologia. Andrasik et al. (1999) consideram que essa disciplina é
fundamental em qualquer projeto de pesquisa em Psicologia da Saúde. São projetos
273
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
que devem ter como objetivo a análise dos riscos aos quais uma população está ex-
posta. Por meio da epidemiologia é possível examinar os aspectos comportamentais,
cognitivos, sociais, econômicos, evolutivos e fisiológicos que tenham alguma rela-
ção com a saúde/doença. Esses são importantes fatores para a promoção da saúde
e prevenção das doenças. A possibilidade de identificar a prevalência e a incidência
das doenças “permite ao pesquisador efetuar comparações entre diversos grupos de
indivíduos. Ademais, a quantificação do risco constitui um elemento fundamental
na formulação de políticas sanitárias” (Andrasik et al., 1999, p. 261).
À medida que se avança nas questões fundamentais do processo de saúde e
doença, conclui-se que o trabalho do psicólogo da saúde deveria ser composto por
uma equipe interdisciplinar. Essa teria a função de compartilhar e discutir conheci-
mentos que podem de fato construir um processo efetivo na promoção de saúde, no
tratamento das doenças e na diminuição de gastos públicos. Fato bastante discutido
na promoção da saúde e na prevenção das doenças é considerar a importante relação
entre hábitos e condutas e saúde e enfermidade. Antón e Méndez (1999) consideram a
recente preocupação dos estudiosos em submeter à investigação científica a natureza
de tais relações, cuja base é saber que
274
Conselho Federal de Psicologia
pública, restringem suas atividades ao atendimento individual que corresponde à
psicologia clínica (Sobrosa et al., 2014).
Finalmente, faz-se necessário reconhecer que a Psicologia da Saúde deverá ter
grande desenvolvimento, considerando que ela ainda é recente. Cabe, também, lem-
brar que novas práticas, a partir do desenvolvimento da teoria, serão construídas e
provocará mudanças. As novas práticas cumprirão os objetivos da psicologia da saúde:
descrever, compreender, prever e mudar comportamentos. Esse processo significa
o alcance da promoção e proteção da saúde, prevenção e tratamento das doenças.
275
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
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Conselho Federal de Psicologia
Neuropsicologia no Brasil:
retrospectiva e prospecção
Izabel Hazin
Sérgio Fukusima
Jesus Landeira-Fernandez
281
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
Experimental comporta metodologias que englobam modelos animais e inteligên-
cia artificial, enquanto a Neuropsicologia Clínica apoia-se em estratégias clínicas de
observação e intervenção em diversos grupos. A intervenção neuropsicológica con-
templa dois processos interligados, a saber, a avaliação e a intervenção/reabilitação
neuropsicológicas. Convém destacar que, para a American Psychological Association
(APA), a Neuropsicologia Clínica é um campo de especialidade dentro da psicologia
clínica, dedicado a compreender as relações entre o cérebro e o comportamento
(Hokkanen et al., 2020), embora este não seja um ponto pacífico.
Possivelmente o debate em torno da pertinência de considerar a neuropsicologia
como área de especialidade da psicologia origina-se na complexidade inerente ao seu
objeto de estudo que, como discutido, implica necessariamente a convergência de
diferentes disciplinas que, reunidas, contribuem para a fundamentação teórico-me-
todológica que embasa a prática e a pesquisa neuropsicológicas (Hazin et al., 2018).
A intensificação das relações entre a psicologia e a neuropsicologia pode ser
identificada na própria história da neuropsicologia, caracterizada por períodos
distintos, reflexos do movimento pendular das proposições da teoria psicológica
acerca da cognição humana, ora caracterizada pela prevalência da neurologia, ora
pela própria psicologia (Cubelli, 2005; Luria, 1996). Para os historiadores, um desses
períodos é caracterizado pela aproximação da Neuropsicologia com a Psicologia
Cognitiva, resultante da Revolução Cognitiva, constituindo um novo campo de estudo
denominado Neuropsicologia Cognitiva. Esta etapa é caracterizada pela proposição
de modelos teóricos de processamento da informação baseados em dados obtidos
em laboratório com indivíduos saudáveis. Este movimento ocorreu paralelamente
no Reino Unido, Estados Unidos e Canadá. Na União Soviética, Alexander Luria de-
senvolveu um marco conceitual para a interpretação dos dados neuropsicológicos,
constituindo a Neuropsicologia Histórico-Cultural, em consonância com a fisiologia
e a neurologia, mas sem negligenciar a perspectiva humanista na compreensão das
doenças envolvendo disfunções cognitivas (Kristensen et al., 2001).
Dois movimentos interdisciplinares são considerados pelos historiadores como
sendo os precursores da revolução cognitiva: o Simpósio Hixon, que aconteceu
em 1948 e que teve como meta central questionar os postulados behavioristas, em
especial o posicionamento desta escola em relação à mente; e as dez conferências,
conhecidas como Conferências Macy. Estas últimas aconteceram entre 1946 e 1953,
elas foram marcadas pelo debate entre matemáticos, lógicos, engenheiros, fisiolo-
gistas e neurologistas, psicólogos, antropólogos e economistas, que constituíram a
cibernética, com o propósito de edificação de uma ciência geral do funcionamento
282
Conselho Federal de Psicologia
da mente. Posteriormente o rótulo cibernético foi substituído pelo de ciências cog-
nitivas (Teixeira, 2004; Gardner, 1996; Dupuy, 1994).
Há um consenso entre os historiadores no que diz respeito à data de nascimen-
to das ciências cognitivas: 11 de setembro de 1956. Esta data refere-se ao segundo
dia de palestras do Simpósio sobre a Teoria da Informação que aconteceu no MIT
(Massachusetts Institute of Technology), e que foi marcado pelas contribuições de
Noam Chomsky, que palestrou acerca de três modelos da linguagem e a apresen-
tação de Newell e Simon sobre a máquina de teoria lógica. O universo das Ciências
Cognitivas foi constituído a partir da contribuição de cinco disciplinas: a Inteligência
Artificial, as Neurociências, a Linguística, a Filosofia da Mente e a Psicologia Cognitiva.
Em algumas ocasiões, a Antropologia Cognitiva e Interpretativa também é indicada
como disciplina integrante deste domínio. É interessante notar que nas diferentes
disciplinas que constituem tal domínio existiram debates entre antigas e novas
perspectivas. Na psicologia, o behaviorismo de Skinner foi diretamente confrontado
com o cognitivismo de Miller, que ressalta as semelhanças entre os computadores e
o funcionamento da mente humana.
283
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
a Neuropsicologia no Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP. Em
parceria com o Professor Raul Marino Junior, implementou a avaliação neuropsi-
cológica de pacientes com epilepsia e outros transtornos neurológicos (Haase et al.,
2012; Mendonça, Azambuja, & Schiecht, 2008).
A neurologista paulistana Irene Abromovich escreveu o primeiro trabalho sobre
apraxias bucofaciais. A fonoaudióloga gaúcha Maria Alice de Mattos Pimenta Parente
publicou em 1974 um estudo com pacientes afásicos da Escola Paulista de Medicina,
ampliando as inter-relações entre a Neuropsicologia e a fonoaudiologia, sendo essa
outra característica central da Neuropsicologia brasileira (Haase et al., 2012).
O I Congresso Brasileiro de Neuropsicologia foi realizado em 1991, na cidade de
São Paulo, conjuntamente com o II Congresso Latino-americano de Neuropsicologia.
Nesse evento compareceram representantes de outros países da América Latina e
da Europa, membros da Sociedade Latino Americana de Neuropsicologia (SLAN):
Juan Azcoaga (Universidade de Buenos Aires da Argentina), Fernando Dalmás e Dr.
Luis E. Fontan (Departamento de Neuropsicologia do Instituto de Neurologia do
Hospital das Clínicas de Montevideo – Uruguai), Alfredo Ardila (Instituto Neurológico
da Colômbia), Jean-Luc Nespoulous (Departamento de Linguística e Filosofia da
Universidade de Montreal), Yves Joanette (Laboratório Th. Alajouanine, C.H. Cote-des-
Neiges de Montreal), André Roch Lecours (Centro de Pesquisa do Centro Hospitalar
Cote-des-Neige de Montreal), Anna Basso (Instituto de Clínica Neurológica da
Universidade de Milão), Jordi Peña-Casanova (Hospital Del Mar de Barcelona-Espanha),
G. Deloche (Inserm, Divisão Clérambault, La Salpêtrière, de Paris-França) e Xavier
Seron (Universidade de Louvain, Unitê de Revalidation Neuropsychologique de
Cliniques Universitaires de Bruxelas- Bélgica).
284
Conselho Federal de Psicologia
Na América Latina, muitos países estruturaram as Sociedades Nacionais de
Neuropsicologia, tais como México, Argentina, Bolívia e Brasil (Ardila, 2009). Foram fun-
dadas duas sociedades internacionais: Asociacíon Latinoamericana de Neuropsicología
(ALAN) e a Sociedad Latinoamericana de Neuropsicología (SLAN), as quais realizam
congressos bianuais (Ardila, 2014). O Brasil participou ativamente da proposição da
SLAN, em especial por meio da pesquisadora Maria Alice de Mattos Pimenta Parente.
Atualmente o Brasil ocupa a vice-presidência na Diretoria da Sociedade com Izabel
Hazin (UFRN) e integra a Editoria Geral da Revista Neuropsicologia Latinoamericana,
fundada em 2008, com Nara Côrtes Andrade (UFJF).
A neuropsicologia brasileira é representada por três Sociedades: a Sociedade
Brasileira de Neuropsicologia (SBNp), a Associação Brasileira de Neuropsicologia
(ABRANEP), e o Instituto Brasileiro de Neuropsicologia e Comportamento (IBNeC).
A primeira foi fundada em setembro de 1988, por meio dos esforços dos neuro-
logistas e professores Norberto Rodrigues e Jayme Antunes Maciel Jr. A fundação
foi consolidada na Assembleia Geral da Academia Brasileira de Neurologia, du-
rante o XIII Congresso Brasileiro de Neurologia, em São Paulo. Foi considerado
que a denominação “Sociedade Brasileira de Neuropsicologia” era a que melhor
se enquadrava aos propósitos da associação na arregimentação multidisciplinar e
interdisciplinar dos profissionais que desenvolvem atividades clínicas e de pesquisa
na área das ciências cognitivas. Até o momento, a SBNp já realizou 20 congressos
nacionais e seis internacionais, além de simpósios, jornadas, cursos nacionais e
internacionais, publicou mais de 15 livros na área e mantém parceria com outras
sociedades internacionais. Em 2019, a SBNp realizou, com seu evento anual, a 89th
INS Meeting (International Neuropsychological Society) no Rio de Janeiro.
Por sua vez, em 14 de abril de 2002, foi realizada a Reunião para Criação da
ABRANEP por iniciativa de Kátia Osternack. Esta associação tem por missão zelar
pela qualidade teórica e técnica da especialidade, promover conhecimento cientí-
fico na área e expandir a prática da neuropsicologia em todo o território nacional.
O IBNeC foi fundado em 22 de outubro de 2009 com o objetivo de fomentar
as relações entre a psicologia e as neurociências, tanto na pesquisa básica quanto na
área clínica. Sua primeira gestão foi formada por J. Landeira-Fernandez (PUC-Rio),
Izabel Hazin (UFRN), Dora Ventura (USP) e Alcyr Alves de Oliveira (UFCSPA). Trata-se
de uma associação científica que congrega pesquisadores, profissionais e estudantes
de psicologia e áreas afins de todas as regiões do país com interesse nas diferentes
áreas da neurociência e suas intersecções com a psicologia.
285
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
Com esse enfoque, o IBNeC tem um periódico oficial, o Psychology, & Neuroscience,
que está organizado em cinco sessões temáticas, uma delas é direcionada à neurop-
sicologia clínica e experimental. O periódico foi fundado em 2008 por J. Landeira-
Fernandez (PUC-Rio), Dora Ventura (USP) e Antônio Pedro de Mello Cruz (UnB).
Atualmente, Daniel Mograbi (PUC-Rio) é o editor-chefe deste periódico, o primeiro
periódico na área da psicologia no Brasil a ser publicado totalmente em inglês. Desde
2015, o periódico Psychology, & Neuroscience vem sendo publicado pela APA.
O IBNeC já realizou onze Reuniões Anuais em diferentes regiões do território
brasileiro. Desde sua primeira Reunião Anual, o IBNeC já homenageou 15 grandes
personalidades brasileiras que contribuíram para o progresso da Neuropsicologia.
Em 2012, o IBNeC deu início a uma pequena olimpíada em neuropsicologia e neu-
rociência comportamental conhecida como NeuroBright, olimpíada essa que vem
sendo realizada em suas Reuniões Anuais desde então. A iniciativa busca promover
o diálogo entre diferentes grupos de pesquisa, estimulando o aperfeiçoamento da
formação dos alunos e premiando as equipes vencedoras. Em 2017 o IBNeC realizou,
em conjunto com a sua VII Reunião Anual, o XV Congresso da Sociedade Latino-
Americana de Neuropsicologia (SLAN), na cidade de Natal.
No ano de 2012, o IBNeC fundou o IBNequinho, por uma iniciativa liderada por
Orlando Bueno (UNIFESP). Seu objetivo maior é congregar conhecimentos científicos
entre pesquisadores, profissionais e estudantes com interesse comum nos processos de
desenvolvimento e aprendizagem na infância e adolescência. O IBNequinho realiza
encontros bienais e desde a sua fundação já realizou quatro grandes encontros.
Ainda nesse domínio, destacam-se as constituições de dois grupos de trabalho
destinados à problematização teórica e prática da neuropsicologia. Um desses grupos,
o Grupo de Trabalho (GT) de Neuropsicologia, foi criado no ano de 2016 durante
a realização do XVI Simpósio de Pesquisa e Intercâmbio Científico da ANPEPP
(Associação Nacional de Pesquisa e Pós-graduação em Psicologia) em Maceió. Esse
GT se originou no interior do GT de Psicobiologia, Neurociências e Comportamento,
consequência direta do crescimento desta área no interior desse último grupo.
Atualmente o grupo é composto por 26 pesquisadoras e pesquisadores, de 4 regiões,
9 estados e 18 instituições brasileiras de ensino. No ano de 2021, foi criado no âmbito
do Conselho Federal de Psicologia (CFP) o GT de Neuropsicologia, constituído por
representantes das três entidades que representam a neuropsicologia no país, o GT de
Neuropsicologia da ANPEPP e a Comissão Consultiva em Avaliação Neuropsicológica
do CFP. O objetivo do grupo é a produção de materiais de divulgação e orientação
à prática da neuropsicologia.
286
Conselho Federal de Psicologia
A Pesquisa e a Formação em Neuropsicologia no Brasil
A aquisição de competências e habilidades para o exercício profissional no âm-
bito de uma especialidade requer anos de formação e qualquer tentativa de abreviar
o processo pode comprometer as condições necessárias para a oferta de um serviço
de qualidade. No que tange à neuropsicologia, identifica-se diferença nas exigências
dos diversos países em termos do nível de formação científica necessária para obter
a especialidade em neuropsicologia clínica.
Nos EUA, a condição para a obtenção do título de especialista em neuropsi-
cologia clínica é ter um doutorado em pesquisa (PhD) na área de psicologia ou um
doutorado em psicologia clínica (PsyD). No Reino Unido, o processo envolve a reali-
zação de um bacharelado em psicologia (3-4 anos), depois doutorado em psicologia
clínica (3 anos), este combina prática clínica, educação e pesquisa. Uma vez qualificado
em clínica psicológica, educação especializada adicional e realizado prática clínica
supervisionada ao longo de dois anos, pode-se obter o Registro de Especialista em
Neuropsicologia Clínica.
No restante da Europa e na Austrália, o doutorado não é requisito para a espe-
cialidade em neuropsicologia clínica. Nesses países, o modelo de formação é mais
semelhante ao modelo de formação médica, consistindo principalmente de três
elementos: educação universitária básica em psicologia (5-6 anos), prática neuropsi-
cológica supervisionada em cuidados de saúde especializados por dois a cinco anos,
e cursos abrangentes de neuropsicologia clínica. No total, os candidatos despendem
em torno de sete a onze anos em diferentes níveis de educação e treinamento em
psicologia e neuropsicologia antes de obter o título e autorização para trabalhar de
forma independente dentro da neuropsicologia (Hessen et al., 2018).
De forma geral, as competências consideradas essenciais para a formação
em neuropsicologia clínica são semelhantes em todos os países: (a) Conhecimento
profundo de psicologia geral, incluindo psicologia clínica (nível de pós-graduação),
padrões éticos e legais. (b) Conhecimento especializado sobre relações cérebro-com-
portamento clinicamente relevantes. (c) Conhecimento abrangente e habilidades em
disciplinas clínicas relacionadas. (d) Conhecimento aprofundado e habilidades em
avaliação neuropsicológica, incluindo tomada de decisão e competência diagnóstica de
acordo com a classificação atual de doenças. (e) Competências na área da diversidade
e cultura em relação à neuropsicologia clínica. (f) Competência de comunicação de
achados neuropsicológicos e resultados de testes para públicos relevantes e diversifi-
287
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
cados. (g) Conhecimento e habilidades em intervenção psicológica e neuropsicológica,
incluindo tratamento e reabilitação (Hessen et al., 2020).
No Brasil, a formação e a atuação da(o) profissional psicóloga(o) em neuropsi-
cologia ganham impulso adicional a partir do ano de 2004, quando por solicitação
da ABRANEP o CFP, por meio da Resolução nº 2/2004 reconhece a neuropsicologia
como especialidade em psicologia para finalidade de concessão e registro de título de
Especialista ([Link]
De acordo com a referida Resolução, o neuropsicólogo é o profissional que:
288
Conselho Federal de Psicologia
c. usa métodos clínicos e instrumentos padronizados para avaliação das fun-
ções neuropsicológicas de atenção, percepção, linguagem, raciocínio, afeto,
comportamento, abstração, memória, aprendizagem, habilidade acadêmica,
processamento da informação, visuoconstrução, praxias, funções motoras e
executivas e personalidades;
289
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
trabalharem no contexto clínico de equipe interdisciplinar deve ser propiciada durante
a prática supervisionada, que viabiliza que as estratégias de avaliação e intervenção
sejam desenvolvidas por meio dos diferentes olhares da equipe, sendo a qualidade
da intervenção associada à qualidade da interação interdisciplinar. Em geral, a ênfase
desses currículos permanece na formação teórica e de pesquisa (Hazin et al., 2018).
No que se refere à pesquisa neuropsicológica, em consulta ao Diretório do
Grupos de Pesquisa no Brasil em abril de 2022, disponível na plataforma do CNPq
(Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), órgão vinculado
ao Ministério da Ciência e Tecnologia, foram identificados 93 grupos de pesquisa
que têm o termo Neuropsicologia como palavra-chave que os define. Destes, 52 estão
inscritos na área da psicologia, 17 na área de medicina, 8 em educação, 5 em saúde
coletiva e em fonoaudiologia e 1 nas áreas de genética, comunicação, fisiologia, mor-
fologia, engenharia elétrica, ciência da computação, serviço social e educação física.
A distribuição desses grupos nas diferentes regiões do país não é diferente
daquela referente ao quantitativo e qualitativo dos programas de pós-graduação
em psicologia, ou mesmo do número de bolsistas de produtividade em pesquisa.
Da totalidade dos grupos identificados, mais de 70% estão concentrados nas regiões
sul e sudeste. Foram identificados 151 bolsistas de produtividade em pesquisa, cuja
produção está diretamente relacionada à Neuropsicologia.
290
Conselho Federal de Psicologia
tata-se a limitação no acesso, de grande parcela da população mundial, aos serviços
neuropsicológicos (Hessen et al., 2018).
Recentemente, artigos têm sido produzidos refletindo acerca dos obstácu-
los envolvidos no crescimento da neuropsicologia no mundo, de forma geral, e na
América Latina. Na perspectiva de Ponsford (2017), avaliando os últimos 25 anos da
neuropsicologia em diferentes continentes (Ásia, África, América Central, América do
Sul e Nova Zelândia), os maiores obstáculos à expansão da neuropsicologia incluem:
restrições econômicas à prestação de serviços de saúde, limitação da disponibilidade
de métodos adequados de avaliação e tratamento, a diversidade linguística e o analfa-
betismo, o estigma e/ou falta de conhecimento acerca das alterações neurológicas, a
ausência de formação especializada nos cursos de graduação e supervisão, ausência de
credenciamento nos planos de saúde de neuropsicólogos, os baixos salários e a redu-
zida visibilidade do campo na maioria dos países (Hazin et al., 2018; Ponsford, 2017).
No que se refere de forma mais específica à América Latina, o estudo realizado
por Arango-Lasprilla, Stevens, Paresdes, Ardila e Rivera (2016) incluiu 880 profissio-
nais da neuropsicologia de 17 países da América Latina e teve como principal objetivo
compreender a formação, a situação laboral atual, procedimentos de avaliação e diag-
nóstico utilizados, técnicas de reabilitação selecionadas, população clínica atendida,
atividades de ensino e pesquisa. Os autores concluem que as principais barreiras
para o campo neuropsicológico apontadas pelos profissionais são: a falta de progra-
mas de treinamento acadêmico, a falta de oportunidades de treinamento clínico, a
pouca disponibilidade de profissionais de outras áreas para trabalho conjunto e a
falta de acesso a instrumentos neuropsicológicos. Refletem, por fim, que é urgente
a necessidade de aumentar a regulamentação da profissão, melhorar os currículos
de pós-graduação, desenvolver programas de certificação profissional, validar testes
neuropsicológicos existentes e criar novos instrumentos culturalmente relevantes
(Hazin et al., 2018; Arango-Lasprilla et al., 2016).
Um dos maiores desafios da área está no estabelecimento de relações significa-
tivas entre a neuropsicologia, as neurociências, a moderna psicometria e a tecnolo-
gia, notadamente após a pandemia de Covid-19, que redefiniu o lugar da tecnologia
para os processos de avaliação e intervenção. Porém, a neuropsicologia parece estar
ainda dependente de métodos ultrapassados, ocasionando um processo avaliativo
lento, demorado e caro, fornecendo estimativas relativamente empobrecidas no
que tange ao comportamento humano.
Destaca-se ainda que a neuropsicologia brasileira tem um outro importante
desafio a enfrentar: a necessidade de constituir uma neuropsicologia própria do
291
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
nosso país, sintonizada com os desafios e urgências de um país rico em diversidade.
A denominada neurociência sociocultural é uma subdisciplina emergente nas neuro-
ciências, embora as questões que envolvam as relações entre organização cerebral e
contextos socioculturais não tenham integrado fortemente a agenda de pesquisa da
neuropsicologia brasileira. Nesse sentido, o conhecimento acerca do papel de aspectos
históricos e culturais para o desenvolvimento de funções mentais necessariamente
se coloca como um dos grandes desafios deste século.
292
Conselho Federal de Psicologia
Referências
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ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
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Luria, A. R. (1996). Human brain and psychological processes. New York: Harper
and Row.
294
Conselho Federal de Psicologia
Psicologia Positiva Brasileira:
Movimento Científico em
prol da Saúde Psicológica
e do Bem-Estar
Caroline Tozzi Reppold
Cyntia Mendes de Oliveira
Claudia Hofheinz Giacomoni
Introdução
A Psicologia Positiva pode ser definida como um movimento científico que
propunha que os estudos no campo da Psicologia valorizassem as potencialidades
e os talentos humanos, aumentando as chances de que todos tenham uma vida
mais engajada, feliz e com sentido. A referência que demarca o início da Psicologia
Positiva como um movimento científico mundial foi a publicação, em 2000, do
artigo intitulado Positive Psychology: An Introduction, de autoria de Martin Seligman
e Mihaly Csikszentmihalyi.
O desígnio para o início desse movimento foi o fato de Seligman ter assumido,
em 1998, a presidência da American Psychology Association, tornando-se, assim, editor
do periódico American Psychologist. Como editor, Seligman observara que a maior
parte dos artigos submetidos à publicação neste periódico, como em outros, trata-
vam de temas relacionados ao tratamento de transtornos mentais e à remissão do
sofrimento humano, e que isso ocorria desde o final da II Guerra (Seligman, 2019).
Desse modo, Seligman e Csikszentmihalyi propuseram uma nova agenda à
Psicologia, a fim de resgatar valores e interesses que levassem a ciência psicológica
a promover melhores condições de vida a todos, por meio da valorização de forças
pessoais e atributos positivos. Segundo ele, a Psicologia deveria voltar seus estudos a
responder questões como “o que faz as pessoas serem mais felizes?” ou “como ajudar
as pessoas a se engajarem em atividades que aflorem valores positivos e aumentem a
295
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
oportunidade de todos terem uma vida prazerosa, engajada e com propósito?”. Além
disso, também se tornaram foco as características positivas de personalidade, bem
como as instituições, organizações e comunidades que promovem o desenvolvimento
de seus membros.
O interesse por essa agenda rapidamente ganhou espaço em diferentes países,
inclusive no Brasil. No país, nessa mesma época, pesquisadores da área da Psicologia
já voltavam seu interesse para temas que são tipicamente característicos da Psicologia
Positiva, como o bem-estar, a autoestima, a resiliência e a criatividade (Reppold et al.,
2019). Assim, não demorou para que a Psicologia brasileira se identificasse com essa agenda
e iniciasse esforços para reunir pesquisadores com trabalhos afins. Esses pesquisadores
eram oriundos, sobretudo, de grupos de trabalhos da área da avaliação psicológica.
Assim, em 2013, nasceu a Associação Brasileira de Psicologia Positiva (ABP+),
formalizada durante o VI Congresso Brasileiro de Avaliação Psicológica, em Maceió/
AL, por meio de uma assembleia de fundação da entidade, presidida pelo professor
Claudio Simon Hutz e pela professora Solange Weschler. Desde então, a entidade já
foi gerida por quatro diferentes diretorias. A primeira delas presidida pelo Prof. Dr.
Claudio Hutz, e a segunda e a terceira pela Profa. Dra. Ana Claudia Vazquez. A atual
gestão é presidida pela Profa. Claudia Giacomoni, cujo vice-presidente é o Prof. Dr.
Claudio Hutz; primeira secretária: Profa. Dra. Cyntia Mendes de Oliveira; segunda
secretária: Profa. Dra. Carolina Campos; primeiro tesoureiro: Prof. Dr. Cristian Zanon;
e segunda tesoureira: Profa. Dra. Claudia Bandeira. O atual conselho deliberativo
é constituído pela presidenta da entidade, seu vice-presidente e pelas Profas. Dras.
Caroline Tozzi Reppold e Letícia Lovato Dellazzana-Zanon.
Ao longo de nove anos de existência, a associação fora constituída, princi-
palmente, por pesquisadores que participavam do GT de Avaliação de Crianças e
Adolescentes ou do GT de pesquisa em Avaliação Psicológica da ANPEPP/2012 e
que, em 2014, ano seguinte à criação da ABP+, já formavam um GT específico nos
Simpósios Científicos da ANPEPP, intitulado GT Psicologia Positiva e Criatividade
(Nascimento, & Vasconcelos, 2016). Este GT está em funcionamento na ANPEPP
desde então (2014, 2016, 2018, 2020 e 2022).
No primeiro ano de funcionamento, o GT foi constituído por 12 pesquisadores
e uma doutoranda, vindos de três regiões diferentes do país (4 estados) e vincula-
dos a seis instituições de ensino superior distintas. No segundo ano, participaram
do GT 17 pesquisadores e 5 doutorandos, oriundos de três regiões geográficas e 6
instituições de ensino superior. No terceiro ano, foram 11 os pesquisadores partici-
pantes do GT. Em 2020, os integrantes foram 12 pesquisadores, 1 pós-doutorando
296
Conselho Federal de Psicologia
e 1 doutorando, de 4 regiões geográficas brasileiras (6 estados) e 8 instituições de
ensino superior. Em 2022, 25 pesquisadores e 1 pós-doutoranda integram o GT, o
que evidencia o crescimento da área da Psicologia Positiva como campo de pesquisa
e formação na ciência brasileira.
Essas parcerias entre os pesquisadores vinculados à ABP+ viabilizam diversos
trabalhos colaborativos, como realização de pesquisas conjuntas, publicação de livros
e artigos científicos e participações em bancas de pós-graduação, que engrandecem a
área e ampliam a representatividade científica da PP em diferentes regiões do Brasil. O
trabalho conjunto dos pesquisadores da área viabiliza também a parceria da entidade na
organização de eventos científicos de destaque à formação continuada dos psicólogos
brasileiros (como o Congresso Brasileiro da Associação Brasileira de Psicologia Positiva,
Congresso do Instituto Brasileiro de Avaliação Psicológica, o Congresso da Associação
Brasileira de Criatividade e Inovação, e o Congresso Psicologia: Ciência e Profissão).
Neste caminho de avanço científico, ressalta-se que os estudos da Psicologia
Positiva, no Brasil, como em outras partes do mundo, passaram por três momentos
distintos. O primeiro centrado na proposição de uma agenda que tinha como foco
ressaltar as potencialidades humanas, os fatores de proteção à saúde e bem-estar e ela-
borar modelos teóricos que fossem ética e epistemologicamente coerentes com a visão
de mundo que se apresentava. O segundo momento era caracterizado pelo interesse
dos pesquisadores em criar instrumentos que pudessem operacionalizar os modelos
teóricos propostos, bem como eventualmente reformular hipóteses e pressupostos que
não se sustentavam por meio de evidências empíricas obtidas por meio de avaliações
envolvendo tais instrumentos. Por fim, o terceiro momento, no qual ainda estamos, é
marcado pelo interesse dos pesquisadores em propor intervenções que apresentem
melhorias à qualidade de vida e ao bem-estar dos indivíduos, a partir de estudos empí-
ricos que avaliem a efetividade dos protocolos elaborados e o impacto que diferentes
construtos têm na predição de desfechos positivos em diferentes campos de atuação
(como clínica, escola, trabalho, hospital, esporte etc.)
Nesse sentido, destaca-se que o avanço da área da PP no Brasil ocorreu de
forma quase simultânea ao avanço em outros países, e isso possivelmente ocorreu
porque a maior parte dos pesquisadores da PP brasileira eram vinculados a estudos
do campo da avaliação psicológica e da Psicometria originalmente. Desta feita,
rapidamente já se dispunha no país, ao longo da primeira década dos anos 2000,
instrumentos com boas evidências de validade e estimativas de precisão que con-
feriam qualidade aos estudos empíricos realizados.
297
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
Cite-se que um dos primeiros estudos publicados no país sobre construtos
próprios da PP foi realizado por Hutz et al. (1996) e tinha como foco a resiliência.
Tratava-se de uma pesquisa que investigava crianças em situação de risco e discutia
fatores de proteção característicos desta população na década de 1990 e medidas de
avaliação. A resiliência infantil foi também tema do primeiro artigo científico em que
o campo da Psicologia Positiva era apresentado em um periódico científico brasileiro.
Este artigo, publicado por Yunes (2003), foi derivado da tese por ela desenvolvida ao
investigar a resiliência em famílias de baixa renda.
Em termos do desenvolvimento e adaptação de medidas, o Laboratório de
Mensuração do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal
do Rio Grande do Sul foi precursor na proposição e adaptação de instrumentos para
mensurar diferentes construtos da PP. Os primeiros instrumentos desenvolvidos e/ou
adaptados no Laboratório foram na área do bem-estar (Giacomoni, 1998; Giacomoni,
2002), ainda na década de 1990, sendo Giacomoni uma das pioneiras em estudos sobre
bem-estar subjetivo no Brasil (Giacomoni, & Hutz, 1996; Giacomoni, & Hutz, 1997;
Giacomoni, & Hutz, 2000; Giacomoni, & Hutz, 2006; Giacomoni, & Hutz, 2008).
Assim, ao longo de mais de duas décadas, o crescimento da área no Brasil foi
exponencial no campo científico, principalmente quanto ao volume de pesquisadores,
à oferta de instrumentos com evidências de validade para viabilizarem o desenho de
novas pesquisas, à diversidade dos construtos cobertos pelos estudos e ao aumento da
produção científica (Paludo, & Koller, 2007; Reppold, & Almeida, 2019; Reppold et al.,
2018a; Reppold et al., 2018b; Reppold et al., 2019; Scorsolini-Comin, & Santos, 2010).
Desse modo, pesquisadores brasileiros atualmente dispõem de instrumentos
com evidências de validade e estimativas de precisão para avaliar os principais cons-
trutos da Psicologia Positiva no Brasil, como: satisfação com a vida, afetos positivos e
negativos, otimismo, esperança, autoestima, autoeficácia, engajamento no trabalho,
qualidade de vida, resiliência, criatividade, inteligência emocional, forças pessoais,
compaixão, autocompaixão, regulação emocional, apoio social percebido, mindful-
ness, espiritualidade, gratidão, perdão, entre vários outros tantos (Hutz, 2014; Hutz,
2016; Oliveira et al., 2019; Mendes de Oliveira et al., 2021; Reppold, & Almeida, 2019;
Reppold et al., 2015). Apesar dos diversos construtos, ao analisar a produção científica
brasileira, um estudo de revisão recente identificou que, em geral, os construtos mais
trabalhados são bem-estar subjetivo e resiliência (Fernandes et al., 2021).
No momento atual, muitos dos esforços científicos envidados no campo da
Psicologia Positiva brasileira direcionam-se para a proposição de intervenções que
promovam desfechos positivos em diferentes contextos. Destacam-se neste sentido
298
Conselho Federal de Psicologia
publicações que reúnem textos apresentando protocolos e resultados empíricos de
pesquisas aplicadas de PP no campo escolar (Nakano, 2018; Oliveira, 2021; Reppold
et al., 2018a; Reppold, & Hutz, 2021; Schiavon et al., 2020), da saúde (Hutz, &
Reppold, 2018; Silva, & Giacomoni, 2021), do esporte (Nakano, & Peixoto, 2020)
ou do trabalho (Vazquez, & Hutz, 2018; Vazquez, & Hutz, 2021), por exemplo. Além
desses, podem-se destacar publicações voltadas para orientar profissionais da saúde
e o público leigo sobre técnicas baseadas em preceitos da Psicologia Positiva que
podem ajudar no enfrentamento das adversidades decorrentes da pandemia e no
desenvolvimento de habilidades emocionais que contribuem vida afora na pro-
moção de saúde mental e do bem-estar individual e coletivo (Emuno et al., 2020;
Reppold et al., 2022; Zanon et al., 2020).
Contudo, deve-se frisar que, embora a Psicologia Positiva abarque a investigação
de construtos que outrora eram distantes das discussões acadêmicas, pelas dificuldades
de operacionalizá-los e mensurá-los (como, por exemplo, espiritualidade, amor ou
compaixão), a PP é um campo de estudo que prima pela busca de evidências empí-
ricas. Assim, discussões na área enfatizam a necessidade de um olhar crítico sobre as
aplicações dos construtos, visto que práticas por leigos consideradas inócuas podem
ter consequências nefastas sobre a saúde e o bem-estar.
Nessa perspectiva, Reppold et al. (2019) chamam atenção para a necessidade de
“validade consequencial” dos estudos na área e problematizam, em termos éticos e
sociais, o uso de construtos positivos em práticas não acadêmicas, apresentando resul-
tados empíricos que demonstram que intervenções envolvendo construtos positivos
podem ter efeitos desfavoráveis em situações específicas. É o caso, por exemplo, de
intervenções relacionadas à gratidão, que quando aplicadas a vítimas de violência
doméstica ou assédio moral podem perpetuar a condição de abuso. Outro ponto a
ser considerado é a necessidade de discussões sobre “a incorporação dos preceitos
da PP pela mídia e sobre as consequências mercadológicas de uma concepção de
felicidade autocentrada e utilitarista, alheia às demandas coletivas” (Reppold et al.,
2019, p. 333). Nesse sentido, deve-se dizer que a Psicologia Positiva, mesmo sendo
recente, já modificou sua perspectiva mais de uma vez, marcadas em três ondas.
Os autores explicam que a ideia da metáfora das ondas do mar é utilizada para
representar como a PP está progredindo ao longo de três décadas. Esse progresso
tem sido visto como ondas sobrepostas, as quais informam e se complementam
mutuamente, porém distintas em termos de escopo e metodologias (Lomas et al.,
2021). A primeira onda caracteriza-se pela formulação do campo da PP, com foco
em fenômenos positivos – paradigma alternativo às narrativas de disfunção. A se-
299
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
gunda onda propõe sair de uma classificação binária do fenômeno, na qual se valo-
riza o positivo e condena-se o negativo, para uma apreciação das complexidades do
bem-estar, incluindo também as emoções negativas (Lomas, 2016). A terceira onda
amplia o foco sobre os grupos minoritários e as instituições (Lomas, 2021). Além
disso, caracteriza-se pela expansão do escopo (contextual, cultural e ético) e métodos
(qualitativo, implícito e computacional) (Lomas et al., 2020).
Considerações Finais
Conforme apontado, a maioria dos pesquisadores que iniciaram os estudos em
torno da temática da Psicologia Positiva realizam pesquisas no campo da Avaliação
Psicológica. A contribuição dessa área foi e continua sendo importante para o desen-
volvimento da Psicologia Positiva, pois a construção e adaptação de instrumentos
de avaliação de construtos positivos constitui um dos pilares do movimento da PP.
Os estudos atuais destacam, contudo, maior interseccionalidade entre a Psicologia
Positiva e diversas outras áreas da Psicologia e de outras ciências, sejam elas do campo
das humanidades, das ciências sociais ou da saúde. Nos tempos atuais, seguir estudos
no foco da Psicologia Positiva tendo em vista a promoção de uma cultura de paz e
de valores que busquem o bem-estar coletivo é um desafio muito promissor, que
depende da articulação de diferentes áreas do saber.
300
Conselho Federal de Psicologia
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Conselho Federal de Psicologia
A Contribuição da Psicologia
no Contexto da Aviação
Márcia Regina Molinari Barreto
Selma Leal de Oliveira Ribeiro
Introdução
Embora não tenha nascido com habilidades para voar, o ser humano sempre
observou os pássaros e almejou estar junto deles. E foi assim que muitos se dedi-
caram a tornar esse sonho um dia possível. Entre eles, Alberto Santos Dumont, um
brasileiro que, em outubro de 1906, realizou a proeza de pilotar o primeiro mais
pesado que o ar, o “14 Bis”, em Paris.
Desde então, diferentes áreas do conhecimento humano contribuíram para o
desenvolvimento e progresso desse setor. Essas contribuições, primeiramente foca-
das em melhorias nas questões tecnológicas, tinham como principal meta tornar o
avião um artefato com características aeronavegáveis e seguras. Porém, sem deixar
de lado a compreensão e a sua adequação às limitações e capacidades humanas para
sua efetiva utilização frente ao ambiente adverso no qual a atividade aérea acontece.
A participação da Psicologia, neste sentido, mostra-se de fundamental impor-
tância para o crescimento da aviação, tendo como principal objetivo a promoção
incondicional da segurança, eficiência e conforto de trabalhadores e passageiros
(Martinussen, & Hunter, 2018, p. 2).
Assim sendo, o objetivo deste trabalho é apresentar a evolução da participação
da Psicologia para este campo da atividade humana, suas principais conquistas e as
perspectivas de sua aplicação para o crescente desenvolvimento da aviação.
305
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
O psicólogo Jefferson M. Koonce (1984), em um artigo que trata da história da
Psicologia do período pré-guerra até os anos 1980, destaca que o início da participação
da Psicologia na aviação ocorreu durante a Primeira Guerra Mundial, quando o foco
era a seleção e o treinamento daqueles que iriam conduzir as máquinas voadoras.
O primeiro centro de testagem psicológica surgiu em 1915, na Alemanha, e
foi utilizado durante a guerra principalmente para a seleção de pilotos, operadores
de detectores de som e artilheiros antiaéreos (Fitts, 1947, p. 151 citado por Koonce,
1984, p. 499). Posteriormente, com a necessidade de fornecer melhores informações
para os pilotos, o foco dos conhecimentos da psicologia incluiu a própria aeronave,
com ênfase especial no desenvolvimento de controles e dispositivos de informação
que auxiliassem o operador em suas tarefas. Verificou-se também o incremento de
estudos sobre os efeitos dos estressores ambientais como altitude, forças G, ruído e
temperatura no operador (Koonce, 1984, p. 500).
O cenário da Segunda Guerra Mundial foi marcado pela superioridade aérea,
o que exigiu a seleção e treinamento de grande quantidade de pilotos para operar
aeronaves tecnologicamente mais complexas.
O sucesso das missões dependia das habilidades das tripulações em desempe-
nhar suas tarefas em um ambiente de extrema hostilidade, assim, também durante
esse período, a atuação das(os) psicólogas(os) enfatizou melhorar a seleção desses
profissionais e reduzir falhas no treinamento (Martinussen, & Hunter, 2018, p. 3).
Neste período, observou-se, também, o surgimento de vários programas de
pesquisa sobre temas como fadiga, vigilância e detecção de alvos (Koonce, 1984).
Edwards (1988, p. 7) aponta que, liderados pelo Professor Sir Frederic Bartlett, da
Universidade de Cambridge, em 1939, os membros do Laboratório de Psicologia
desenvolveram pesquisas direcionadas à compreensão das habilidades humanas no
adverso ambiente aéreo, que forneceram contribuições importantes para as áreas de
seleção e treinamento, além de estudos sobre os efeitos da perda de sono e fadiga e
de vários aspectos da percepção visual e de design dos displays.
Durante a Segunda Guerra, foram utilizadas de maneira efetiva, nos campos
de batalha, as primeiras intervenções psicológicas a vítimas expostas a vivências
traumáticas por meio de sessões catárticas de “desabafo”, um dos precursores do de-
briefing psicológico, técnica utilizada em diversas situações como após a ocorrência
de acidente aéreo (Toledo et al, 2015, p. 164-8). Após a Segunda Guerra Mundial, com
o crescimento da aviação civil, os estudos e a prática das(os) psicólogas(os) amplia-
ram-se e a experiência das(os) psicólogas(os) com a aviação militar foi levada para as
universidades e para a indústria aeronáutica.
306
Conselho Federal de Psicologia
Koonce (1984, p. 503) destaca que os esforços durante os anos de guerra, rea-
lizados pelo Programa de Psicologia da Aviação das Forças Aéreas do Exército dos
EUA, foram amplamente documentados em uma série de 19 livros, lançados em
1947, que mais tarde se tornaram conhecidos como os “livros azuis” (Blue Books). O
volume 1, de autoria de John Flanagan, forneceu uma visão geral de todo o programa
de Psicologia da aviação desenvolvido.
Várias disciplinas do campo da Psicologia contribuíram para a segurança da aviação.
Historicamente, de 1940 até meados de 1970, os conhecimentos advindos da Psicologia
clínica, comportamental e cognitiva, foram aplicados na elaboração de procedimentos
seletivos, design de equipamentos e métodos de treinamento (Mauriño, 1994, p. xvi).
Com a evolução tecnológica das aeronaves, principalmente no que diz respeito
às questões de automação de tarefas, tanto pela consequente inserção dos computado-
res de bordo quanto pela utilização de sistemas automatizados nos demais postos de
trabalho da aviação, como na manutenção e no controle de tráfego aéreo, os estudos
envolvendo a compreensão dos processos cognitivos necessários ao processamento
da informação e à tomada de decisão foram evidenciados.
Segundo Ribeiro (2019), ao final da década de 1970 e início da de 1980, com a
ocorrência de acidentes em que a coordenação entre os membros da tripulação se
mostrou contribuinte, o foco da atuação dos psicólogos ampliou-se para além dos
aspectos individuais da performance humana e passou a incluir as interações que se
estabelecem entre indivíduos e grupos no ambiente operacional.
Neste sentido, os conhecimentos advindos dos estudos relacionados à dinâmica
de pequenos grupos trouxeram a contribuição da Psicologia Social para metodologias
específicas nos treinamentos inicialmente denominados Cockpit Resource Management
(CRM), com o objetivo de melhorar o processo de comunicação e de tomada de decisão,
a gestão da carga de trabalho, a cooperação e a liderança no ambiente operacional.
Inicialmente focado no cockpit, o treinamento em CRM passou a incluir
outros membros da comunidade da aviação, como tripulações de cabine, des-
pachantes de voo e pessoal de manutenção, refletindo os avanços nas pesquisas
da área de fatores humanos e os ensinamentos obtidos com a investigação de
acidentes (Helmreich, & Foushee, 2010, p. 4).
Complementar à instrução técnica, o treinamento em CRM (denominado, no
Brasil, como Treinamento em Gerenciamento de Recursos de Equipes) constitui-se na
aplicação sistemática do conhecimento em fatores humanos, que objetiva aperfeiçoar a
coordenação e a comunicação de equipes, promovendo operações seguras decorrentes
do uso eficiente de todos os recursos disponíveis: humanos, materiais, tecnológicos e
307
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
da informação (Agência Nacional de Aviação Civil [ANAC], 2020, p. 2). A contribuição
significativa da Psicologia Organizacional e Social se fez presente ao final da década de
1980, quando um acidente ocorrido na cidade de Dryden – Ontário / Canadá – abriu
outra perspectiva para a investigação de acidentes aeronáuticos, trazendo um olhar para
as influências organizacionais sobre eventos dessa natureza (Mauriño et al., 1995, p. 59).
A perspectiva do acidente organizacional, desenvolvida pelo psicólogo inglês
James T. Reason, contribuiu para deslocar a análise do acidente aeronáutico para
além das ações e omissões cometidas pelo profissional no local de trabalho e incluir
dimensões mais amplas, relacionadas a fatores organizacionais e a políticas e práticas
de gestão (Reason, 2011, p. 163-4).
As décadas de 1980 e 1990 foram altamente produtivas do ponto de vista da pes-
quisa de segurança e fator humano. Neste período, muitos estudos e várias propostas
de abordagens incluíam a compreensão mais detalhada da influência da cultura cor-
porativa sobre o comportamento de indivíduos e grupos e sobre o desenvolvimento
das chamadas “culturas seguras e inseguras”, que influenciaram, significativamente,
a visão sobre a segurança operacional na aviação.
Ribeiro (2019, p. 28-9) aponta que a contribuição dos Profs. Robert Helmreich,
Ashleigh C. Merritt e James T. Reason e seus colaboradores ofereceu bases teóricas
importantes para o trabalho dos psicólogos atuantes na aviação e formaram os pi-
lares dos programas de segurança promovidos pela Organização da Aviação Civil
Internacional (OACI)1, como o de Gerenciamento da Segurança Operacional (Safety
Management System – SMS).
A aviação é um sistema sociotécnico complexo e dinâmico, uma rede de pessoas,
tecnologias e ambientes interconectados, e sujeito a eventos aleatórios e imprevisíveis
devido às múltiplas interações. Nesse sistema, é a contribuição humana que muitas
vezes fornece importantes barreiras de segurança e fontes de recuperação para si-
tuações inesperadas, variações não especificadas, projetadas ou treinadas.
A partir da primeira década do século 21, a abordagem da engenharia de resiliên-
cia, inspirada em uma variedade de disciplinas como as ciências físicas, organizacionais,
psicológicas e ecológicas, buscou identificar as possibilidades de criar segurança em
1 Organização de Aviação Civil Internacional (OACI): também conhecida por sua sigla em inglês, ICAO
(International Civil Aviation Organization), é uma agência especializada das Nações Unidas criada
em 1944, na Convenção de Chicago, com 193 países membros. Sua sede permanente fica na cidade
de Montreal, Canadá. Tem como principais objetivos o desenvolvimento dos princípios e técnicas de
navegação aérea internacional, de forma diplomática e agregadora entre seus membros, e a organi-
zação e o progresso dos transportes aéreos, de modo a favorecer a segurança, a eficiência, a economia
e o desenvolvimento dos serviços aéreos (ICAO, 2022).
308
Conselho Federal de Psicologia
sistemas complexos pela compreensão de como as próprias pessoas constroem, ou
projetam, capacidades adaptativas em seu sistema, para que eles continuem funcio-
nando sob várias circunstâncias e condições incertas e imprevistas, que as ajudam a
antecipar e absorver pressões, variações e interrupções (Dekker, 2019, p. 8).
De acordo com esta abordagem, as pesquisas na área de segurança devem focar
o trabalho cotidiano, os acidentes que não ocorreram e compreender como o desem-
penho bem-sucedido é obtido, como as pessoas aprendem, adaptam e constroem
a segurança em um ambiente de falhas, perigos, conflitos de escolha e múltiplos
objetivos (Hollnagel, Woods, & Levenson, 2006, p. 5).
Além dos muitos estudos desenvolvidos, iniciativas mundiais no sentido de organizar
o pensamento e a prática dos psicólogos atuantes no setor aeronáutico surgiram. Entre
elas, destaca-se a criação da European Association for Aviation Psychology (EAAP), em
1956, tornando-se assim o primeiro grupo formal desses profissionais, que vem, desde
então, promovendo e incentivando a Psicologia no ambiente da aviação (EAAP, 2022).
Atualmente, a Psicologia da Aviação é reconhecida em diferentes partes do
mundo, contando com cerca de catorze associações com representantes em países
de quase todos os continentes. A importância da saúde mental da tripulação para a
segurança da atividade aérea tornou-se mais evidente após o evento ocorrido em
2015, quando uma aeronave da companhia aérea Germanwings foi precipitada contra
os Alpes franceses pelo seu copiloto, ocasionando 150 vítimas fatais.
Após esta trágica ocorrência, a European Union Aviation Safety Agency (EASA)
criou um grupo de trabalho, formado por médicas(os) e psicólogas(os) de aviação,
para avaliar o relatório da investigação e fazer recomendações práticas.
Como resultado, em 23 julho de 2018, a EASA (2018) publicou as novas regras
de segurança (Regulamento EU 2018/1042) e deu um período de transição de dois
anos para que as companhias aéreas se preparassem para sua implementação, que
entraram em vigor no início de 2021.
Este regulamento estabeleceu os requisitos técnicos e procedimentos admi-
nistrativos relacionados à introdução de programas de apoio de pares, avaliação
psicológica da tripulação de voo, bem como testes sistemáticos e aleatórios de subs-
tâncias psicoativas para assegurar a aptidão médica dos membros da tripulação de
voo e de cabine.
De acordo com a nova legislação, as companhias aéreas europeias devem rea-
lizar uma avaliação psicológica de seus pilotos, antes de iniciar o voo de linha, a fim
de identificar atributos psicológicos e adequação da tripulação de voo em relação
309
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
ao ambiente de trabalho e reduzir a probabilidade de interferência negativa com a
operação segura da aeronave.
Esta avaliação psicológica não substitui a realizada nos exames periciais para
concessão da certificação médica de tripulantes. Seu foco é a adequação do profis-
sional às particularidades, complexidade, cultura e desafios do ambiente operacional
da companhia aérea empregadora, conforme definido por uma análise de trabalho e
identificação das dimensões críticas de segurança relacionadas à função e ao papel da
tripulação de voo. Deverá ser validada e realizada, diretamente ou supervisionada, por
psicóloga(o) com conhecimento de aviação e do ambiente operacional da tripulação
de voo e com experiência em avaliação psicológica.
Estabeleceu-se, também, que as empresas devem permitir, facilitar e garantir
o acesso a um programa de apoio de pares, que auxiliará e apoiará os membros
da tripulação de voo no reconhecimento, enfrentamento e superação de qualquer
problema que possa afetar negativamente sua capacidade de exercer com segurança
os privilégios de sua licença.
Com a recente ocorrência e disseminação da pandemia da COVID-19, a indús-
tria aeronáutica, assim como outras áreas de atividades econômicas, foi fortemente
afetada, não somente nas suas programações de voo, mas também nas questões que
envolveram todo o pessoal aeronáutico, em função das restrições decorrentes, além
das mudanças significativas em suas rotinas domésticas e profissionais. O tema saúde e
saúde mental dos profissionais da área foi fortemente debatido, dando origem a vários
documentos orientadores sobre o impacto da pandemia no pessoal aeronáutico e a
preparação para o retorno às atividades (EASA, 2020, 2021; Flight Safety Foundation
[FSF], 2020; International Air Transport Association [IATA], 2021a, 2021b).
310
Conselho Federal de Psicologia
Prado et al. (2016), ele desenvolveu pesquisas no campo da psicologia experimental,
coordenando o Laboratório de Psicologia da Colônia do Engenho de Dentro, no Rio
de Janeiro, posteriormente transformado em Instituto de Psicologia, em 1932.
De acordo com Centofanti (1982, p. 13), por solicitação da Diretoria de Aviação do
Exército, Radecki ministrou um curso de Psicologia para um grupo de médicos e, ao
seu final, três deles, responsáveis pela inspeção de saúde nos candidatos a piloto militar,
permanecerem no laboratório de Psicologia para realizar pesquisas relacionadas à seleção
de aviadores. Esses estudos deram origem ao trabalho “Estudo da atenção nos aviadores”
(Rocha, 1929a citado por Centofanti, 1982, p. 14) e ao relatório “Parte psicológica do re-
latório dos trabalhos referentes a seleção de candidatos à aviação militar: Bases teóricas
e descrição dos métodos” (Rocha, 1929b citado por Centofanti, 1982, p. 14).
Em 1933, foram criados os Serviços de Aviação do Exército, entre eles o
Departamento Médico de Aviação, unidade em que eram realizadas as inspeções de
saúde dos candidatos à carreira da aviação militar. Neste Departamento foi instalado
um Gabinete de Psicologia, primeiro laboratório de psicologia dentro das Forças
Armadas no Brasil ( Jacó-Vilela et al, 2019).
Em 1949, foi publicado o livro Psicologia Militar, de Emilio Mira y López, pela
Editora Biblioteca do Exército. Este livro trata de temas pertinentes à psicotécnica,
além de alguns outros mais vinculados a uma perspectiva psicossocial e apresenta
o Psicodiagnóstico Miocinético (P.M.K.), teste desenvolvido pelo autor inicialmente
para a avaliação de aviadores ( Jacó-Vilela et al., 2019).
Com a criação do Ministério da Aeronáutica, em 1941, as atividades de Psicologia
aplicada à aviação se concentraram no atual Instituto de Psicologia da Aeronáutica.
Até o ano de 1967, as atividades ocorriam de forma isolada e descontínua, e tinham
como foco a pesquisa e acompanhamento dos alunos das escolas militares. Em 1967,
foi criado o Serviço de Seleção e Orientação (SESO) com o objetivo de levantar as
bases técnicas e científicas para a seleção de candidatos aos diversos cursos ofereci-
dos, incluindo o de aviadores. Em 1970, o SESO teve sua nomenclatura alterada para
Núcleo do Instituto de Seleção e Orientação e posteriormente, 1981, para Instituto de
Seleção e Orientação (ISO). Durante este período o foco da atuação dos psicólogos
era a avaliação psicológica dos candidatos (Coelho, Barreto, & Fonseca, 2007).
A década de 1980 marcou o início da diversificação das atividades do psicólogo
no contexto aeronáutico, as quais incluíam trabalhos de diagnóstico organizacional,
avaliação de desempenho e participação na investigação de acidentes aeronáuticos. A
criação do Sistema de Psicotécnica da Aeronáutica (1982), que mais tarde (1989) veio
a constituir o Sistema de Psicologia da Aeronáutica (SISPA), bem como a mudança,
311
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
em 1988, da denominação de ISO para IPA (Instituto de Psicologia da Aeronáutica)
refletem a ampliação das atividades e o crescimento da demanda pelos trabalhos na
área de Psicologia (Coelho, Barreto, & Fonseca, 2007).
No ano de 1985, teve início a capacitação dos psicólogos para atuarem na área de
investigação e prevenção de acidentes aeronáuticos. Com a finalidade de assessorar
o Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (CENIPA), na ela-
boração do conteúdo específico de Psicologia no Curso de Segurança de Voo – Fator
Humano, que credenciava médicos e psicólogos para integrarem as comissões de
investigação de acidentes aeronáuticos, três psicólogos do Comando da Aeronáutica
realizaram o curso Human Factors na University of Southern California. A esta primeira
formação agregaram-se os referenciais teóricos e metodológicos oriundos da Psicologia
Organizacional e da Ergonomia, os quais consolidaram a atuação da Psicologia no
âmbito da Segurança de Voo (Coelho, Barreto, & Fonseca, 2007).
As autoras apontam ainda que, a partir de meados da década de 1990, ocorreu
uma ampliação das atividades dos psicólogos nesta área, para além da participação em
comissões de investigação. Neste sentido, alguns marcos significativos são: apoio à im-
plantação do programa de Gerenciamento de Recursos de Tripulação (CRM) na Força
Aérea Brasileira (FAB); realização da primeira pesquisa brasileira sobre a influência do
aspecto psicológico na ocorrência de acidentes aeronáuticos na aviação civil e militar;
a realização de pesquisas de levantamento de estressores em algumas Unidades Aéreas
e em Centros de Controle de Tráfego Aéreo da FAB; a participação na comissão de
investigação do acidente aeroespacial envolvendo o Veículo Lançador de Satélite VLS-
1V03; e, ainda, a realização do I Curso de Extensão em Psicologia Aplicada à Aviação,
no ano de 2004, destinado a psicólogas(os) atuantes ou com a intenção de atuar em
organizações militares ou civis de aviação (Coelho, Barreto, & Fonseca, 2007).
Este curso teve como finalidade compartilhar os conhecimentos e a experiên-
cia adquiridos e difundir as bases teóricas e as possibilidades de atuação na área de
Psicologia de Aviação. Dividido em três módulos, abordou a prevenção de acidentes
aeronáuticos, o processo de investigação do Fator Humano – Aspecto Psicológico
e as possibilidades de intervenção psicológica após ocorrência de acidente (Coelho,
Barreto, & Fonseca, 2007 citados por Ribeiro, 2019, p. 36).
Outra referência relacionada à contribuição da Psicologia para a aviação é a
aprovação do Teste de Aptidão para Pilotagem Militar (TAPMIL), no ano de 2009,
pelo Sistema de Avaliação de Testes Psicológicos, do Conselho Federal de Psicologia
(CFP, 2009). Uma bateria informatizada, de testes psicológicos, é realizada, que tem
por objetivo avaliar o potencial de aprendizagem à pilotagem militar do candidato.
312
Conselho Federal de Psicologia
Inicialmente desenvolvido com vistas ao aproveitamento com sucesso na instrução
de voo realizada na Academia da Força Aérea, atualmente também é utilizado para a
verificação da pilotagem no Exército Brasileiro – EB (Centro de Instrução de Aviação
do Exército [Ciavex], 2016) e na Marinha do Brasil – MB (Defesanet, 2014).
A inserção da Psicologia no meio aeronáutico também pode ser observada em
iniciativas da Marinha do Brasil (MB) e do Exército Brasileiro (EB).
No ano de 2005, a Marinha do Brasil criou o Curso Especial de Psicologia de
Aviação para Oficiais (C-Esp-PAVO), cuja primeira turma ocorreu em 2006, conce-
bido com o intuito de qualificar oficiais psicólogos a servirem em Unidades Aéreas
e capacitando-os a realizar o acompanhamento psicológico dos aeronavegantes e o
assessoramento ao Comando nos assuntos relativos à incidência do Fator Humano
nas operações aéreas (Ferraz, & Ferreira, 2017).
Em 2007, em um acordo de cooperação técnica entre a Agência Nacional
de Aviação Civil (ANAC)2, por meio do Laboratório de Psicologia da Gerência de
Estudos de Ergonomia da Aviação Civil (GEEA), e o Comando de Aviação do Exército
(CAVEX), foi conduzido o projeto de desenvolvimento e implantação do Treinamento
em Gerenciamento de Recursos de Equipes (CRM) para as unidades aéreas daquele
Comando (Cabral, Scigliano, & Ribeiro, 2019).
Desde 1967, são 55 anos de Psicologia aplicada no ambiente da aviação no
Brasil. Publicações, pesquisas e a promoção de eventos técnico-científicos, ocorridos
ao longo desse período, evidenciam o crescimento e a consolidação desta área de
atuação para os psicólogos.
Inicialmente concentrada no ambiente militar, atualmente é possível encontrar
psicólogos atuando em diferentes setores da indústria aeronáutica, tais como: em-
presas aéreas, cursos de ciências aeronáuticas, escolas de aviação, órgão regulador,
controle de tráfego aéreo, infraestrutura aeroportuária, entre outras.
Entretanto, segundo Ribeiro (2019, p. 37; 45), esta área de atuação ainda é pouco
conhecida pelos psicólogos e a inserção deste profissional no contexto aeronáutico
se dá quase que acidentalmente, quando ele presta algum concurso para os quadros
militares ou entidades do setor público, ou, ainda, quando vai trabalhar em depar-
tamento de recursos humanos de empresas ligadas ao meio aeronáutico.
2 Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC): uma das agências reguladoras federais do País, foi criada
para regular e fiscalizar as atividades da aviação civil e a infraestrutura aeronáutica e aeroportuária no
Brasil. Instituída em 2005, começou a atuar em 2006 substituindo o Departamento de Aviação Civil
(DAC). É uma autarquia federal de regime especial e está vinculada ao Ministério da Infraestrutura.
As ações da ANAC se enquadram nos macroprocessos de certificação, fiscalização, normatização e
representação institucional. (ANAC, 2022)
313
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
Não existem, até o momento no país, cursos de pós-graduação na área que
especializem formalmente os psicólogos que desejam se dedicar a este setor. Os
profissionais que já atuam na aviação, realizaram sua capacitação por meio da parti-
cipação em cursos e eventos científicos promovidos por organizações ligadas à ati-
vidade aeronáutica ou associações de Psicologia da Aviação, no Brasil e no exterior.
Por vezes, se especializaram em outras áreas, como, por exemplo, ergonomia e saúde
e segurança no trabalho e trazem o conhecimento para a aviação.
O surgimento da Associação Brasileira de Psicologia da Aviação (ABRAPAV),
em colaboração com todas as iniciativas até aqui desenvolvidas, traz expectativas
concretas para a construção de um referencial técnico e ético para a formação e
qualificação profissional das psicólogas e psicólogos que atuam na aviação, com base
no estabelecimento de competências, o que contribuiria para o reconhecimento
formal da área e seu crescimento frente aos desafios e demandas do complexo e
dinâmico ambiente da aviação.
314
Conselho Federal de Psicologia
tempo. Seu grupo de fundadores é composto por 19 psicólogos com ampla experiência
e atuação na área, contemplando representantes tanto do meio civil como militar.
A ABRAPAV é uma entidade de direito privado, de fins sociais e não econômicos,
propósitos científicos e educacionais, cuja finalidade é reunir psicólogos que se interes-
sam pelo desenvolvimento, no Brasil, da Psicologia aplicada ao ambiente aeronáutico,
em prol do incremento da segurança do transporte aéreo e do bem-estar das pessoas
que, direta ou indiretamente, estão vinculadas a esta atividade (ABRAPAV, 2017, p. 1).
“Psicologia da Aviação” é definida, pela ABRAPAV (2021), como a aplicação dos
princípios, métodos e instrumentos das diversas áreas da Psicologia ao ambiente aero-
náutico, com o objetivo de promover eficiência, eficácia e segurança operacional, bem
como saúde e bem-estar de todos os que, direta ou indiretamente, estão a ele vinculados.
A ABRAPAV pretende ser identificada como a entidade de referência no Brasil
para a Psicologia aplicada ao ambiente aeronáutico, buscando integrar e contribuir
para a capacitação dos psicólogos que atuam ou pretendem atuar neste contexto; e,
ainda, promover o fortalecimento da segurança do transporte aéreo e o incentivo à
saúde e ao bem-estar humanos (ABRAPAV, 2021).
Entre suas principais atribuições, destaca-se a de buscar o reconhecimento for-
mal do profissional que atua na área da Psicologia da Aviação. Para tal, tem investido
em divulgar, participar de diferentes fóruns, nacionais e internacionais, além de pro-
mover a capacitação dos profissionais que atuam ou pretendem atuar no setor aéreo,
por meio da realização de eventos e da promoção de três minicursos de Introdução
à Psicologia da Aviação (SP – 2017; RJ – 2018; on-line 2020).
Em 2016, foi realizado o I Congresso Nacional da ABRAPAV, em São Paulo, com
o tema “Papel do psicólogo na aviação; atualidades e perspectivas”, as palestras e mesas
redondas apresentaram a prática profissional do psicólogo em diferentes setores da
aviação, além de ser desenvolvida uma atividade de Discussão em Grupos, com os
objetivos de mapear demandas relevantes à área, planejar estratégias para auxiliar
psicólogos a minimizarem dificuldades encontradas e dar suporte a melhorias nas
organizações (Cabral et al., 2019).
Já em 2019, ocorreram simultaneamente o II Congresso Nacional da ABRAPAV
e o I Congresso Internacional de Psicologia da Aviação. O principal objetivo do
Congresso foi abrir um fórum de discussão para psicólogos e demais profissionais da
aviação, bem como atualizá-los sobre as questões que envolvem a prática psicológi-
ca no setor, tanto nacional como internacional, trocar e compartilhar experiências,
fortalecendo cada vez mais a atuação do psicólogo nesse ambiente.
315
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
Com o tema “Psicologia em Saúde e Segurança da Aviação”, as apresentações
dos palestrantes certamente proporcionaram riqueza e atualização de conteúdos
fundamentais e oportunidades de reflexão sobre nossas trajetórias profissionais.
Destacam-se a realização de dois minicursos ministrados por representantes de
associações internacionais. A representante da Associação Espanhola de Psicologia da
Aviação (AEPA), desenvolveu o tema “Atreva-se a voar um programa para superar o
medo de voar”, no qual foram apresentadas ferramentas para gerenciar a intervenção
psicológica sobre o medo de voar com tecnologias e integração de modelos, facili-
tando a compreensão do medo de voar, suas características especiais e as estratégias
de intervenção individual e em grupo (Ribeiro, 2020a).
O outro minicurso ofertado foi “Saúde mental e bem-estar psicológico de pilotos:
a implementação de programas de apoio de pares pós-Germanwings”, ministrado pela
representante da Associação Europeia de Psicologia da Aviação (EAAP), que apresentou
o programa desenvolvido na Europa e seus benefícios (Ribeiro, 2020a). Ainda como
forma de consolidação e valorização dos conteúdos trabalhados pelos psicólogos em
suas práticas profissionais, neste evento foi lançado o livro “Os Voos da Psicologia no
Brasil: estudos e práticas na aviação” (Ribeiro et al., 2019) com uma coletânea de textos
técnicos e resultados de estudos e pesquisas realizadas em diferentes setores da aviação.
Entre as atribuições previstas em seu Estatuto, a ABRAPAV pretende reunir as
publicações técnico-científicas produzidas no Brasil por psicólogos que reproduzam
o conhecimento desenvolvido no campo da aviação, para ser disponibilizada em
repositório a ser criado em seu site oficial, fornecendo assim uma base de consulta
para todos o que se interessam pela área (ABRAPAV, 2017).
Em um primeiro levantamento realizado até janeiro de 2020, foram identificadas
300 publicações, entre trabalhos de conclusão de curso (graduação e pós-graduação
lato sensu e stricto sensu), livros, capítulos, artigos em revistas e periódicos e publicações
de resumos e trabalhos completos em anais de eventos (Ribeiro, 2020b).
Ainda, de acordo com Ribeiro (2020b), os trabalhos publicados apontaram para
diferentes temas estudados pelo psicólogo no ambiente aeronáutico, demonstrando
uma gama variada de possibilidades para esse profissional. Entre eles, pode-se citar
questões relacionadas à participação humana no sistema da aviação, à investigação
e prevenção de acidentes aeronáuticos, às condições de estresse, à fadiga e à carga
de trabalho, à Ergonomia/Fatores Humanos, aos aspectos psicológicos na atividade,
entre outros.
316
Conselho Federal de Psicologia
O levantamento dos referidos materiais ainda está em andamento, mas, até o
momento ( janeiro/2022), já foram identificados cerca de 345 publicações e oito livros
relacionados ao campo da Psicologia aplicada ao ambiente aeronáutico.
A ABRAPAV tem procurado ampliar suas fronteiras para tornar-se mais visível
tanto nacional como internacionalmente, firmando parcerias nas quais o intercâmbio
de experiências e conhecimento tem auxiliado não somente seus associados como
também outros grupos profissionais relacionados ao ambiente da aviação.
Em 2019, a ABRAPAV foi aceita como membro corporativo da European Association
for Aviation Psychology, tendo uma participação ativa em algumas das atividades da-
quela entidade. No âmbito latino-americano, a ABRAPAV participou, em 2021, na
condição de membro fundador, da criação da Unión Latinoamericana de Asociaciones
de Psicología Aeronáutica (ULAPA), cujo objetivo é a maior articulação e cooperação
entre as associações da América Latina, a fim de contribuir para o desenvolvimento
científico e prática aplicada da Psicologia Aeronáutica na região.
Estas iniciativas, bem como a sua inserção no Fórum de Entidades Nacionais da
Psicologia Brasileira (FENPB), têm demonstrado a importância e o envolvimento da
ABRAPAV na ampliação do diálogo com entidades científicas, reguladoras e educa-
cionais de Psicologia para a promoção e o fortalecimento da atuação dos psicólogos
no ambiente da aviação.
317
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
automaticamente, chegando à utilização de instrumentos de estação terrestre para
pilotar aeronaves remotamente (Spravka, Moisio, & Payton, 2005).
Neste cenário operacional, novas questões se impõem à(ao) psicóloga(o) relacio-
nadas: à análise de trabalho e da tarefa para a identificação de habilidades relevantes
e diferenciadas; ao desenvolvimento de perfis de requisitos específicos para uma
seleção de pessoal válida e eficiente; ao treinamento de equipes e profissionais, com
seus conhecimentos e capacidade de adaptação, mas também com vulnerabilidades,
para operar aeronaves e sistemas a partir de salas de controle e na identificação de
fatores que podem aumentar a probabilidade de erro humano, como condições de
trabalho e estressores exclusivos desse ambiente operacional.
Há décadas a Psicologia consolidou-se como um campo de atuação diversificado
no contexto da aviação, compatibilizando as demandas do setor aeronáutico com os
avanços da ciência psicológica e a realização de estudos e pesquisas que contribuíram
para a compreensão dos fatores que afetam a segurança, o bem-estar e o desempenho
dos trabalhadores da aviação e de passageiros.
Caracterizada por abundantes inovações tecnológicas, a aviação continua sendo
um domínio desafiador para a Psicologia, impulsionando pesquisas e sua aplicação
no complexo ambiente de trabalho aeronáutico.
Neste sentido, é essencial que os psicólogos que trabalham na aviação ou que
tenham interesse de nela ingressarem, tenham conhecimento das especificidades do
complexo sistema da indústria aeronáutica, tendo em vista o impacto do ambiente
operacional sobre o desempenho dos profissionais, tanto individual quanto coletiva-
mente, e desenvolvam as habilidades necessárias para responder com competência
as demandas em seu exercício profissional.
A ABRAPAV em suas iniciativas tem reforçado a importância da adequada
qualificação do psicólogo e a necessidade de um curso formal de pós-graduação es-
pecializado em Psicologia da aviação, que favoreceria o desenvolvimento científico,
técnico e profissional neste ambiente.
318
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Historiografia da
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Regina Helena de Freitas Campos
Ana Maria Jacó-Vilela
Marina Massimi
323
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
anterior e inaugura a abordagem científica aos fenômenos psicológicos, embora
pesquisas recentes mostrem maior continuidade entre esses períodos do que se
pensava anteriormente (Gundlach, 2006; Vidal, 2006). Durante o primeiro período,
a presença de ideias psicológicas deve ser buscada nas obras de pensadores de dife-
rentes disciplinas, como filosofia ou teologia. No período moderno e contemporâneo,
a psicologia apresenta um significado mais preciso como ciência e como profissão.
No Brasil, o primeiro período começou em 1500 com a descoberta, estabeleci-
mento e colonização pelos portugueses e continuou até 1822, quando o país foi decla-
rado independente de Portugal. O segundo grande período começou com a fundação
das primeiras escolas médicas e escolas normais durante o século XIX e também pode
ser dividido em fases. De 1822 a 1889 (ano da queda do império e início do período
republicano), as teorias psicológicas estiveram presentes na obra de filósofos, médicos,
padres e políticos, com vistas a civilizar o país e construir uma crescente consciência e
identidade de nação independente. A partir de 1889, com o estabelecimento da República
e a busca pela expansão das instituições democráticas na educação e na saúde pública,
a psicologia tornou-se um campo autônomo do conhecimento, ensinado como disci-
plina independente nas escolas médicas e nas escolas normais. Foi nesse período que
foram fundados os primeiros laboratórios de psicologia em escolas de formação de
educadores e instituições psiquiátricas (Campos, 2021).
Antunes (2004a) propôs uma periodização para o desenvolvimento do cam-
po da psicologia no século XX que inclui uma fase de autonomização (1890-1930),
em que a psicologia científica tornou-se um campo específico de conhecimento,
buscando comprovação científica de suas afirmações, e uma disciplina autônoma;
a partir de então, com a fase de consolidação (1930-1962), estabeleceu-se definiti-
vamente a organização da psicologia como disciplina e como campo de atuação
profissional, principalmente por meio da atuação prática de psicólogos dedicados às
questões educacionais, ao cuidado com os aspectos psicológicos nas áreas da saúde
mental, nas organizações de trabalho e assistência social. Finalmente, a partir de
1962, pode ser identificada uma fase caracterizada pelo reconhecimento legal da
profissão, associada à expansão dos programas universitários para a formação de
psicólogos profissionais e pesquisadores da área.
Durante o período de profissionalização, quando foi instituído o Conselho
Federal de Psicologia (1972) e um código de ética para a profissão, a maioria dos
psicólogos trabalhou na clínica particular, focalizando as questões psicológicas em
uma perspectiva individual. A abordagem individualista foi fortemente criticada a
partir de meados da década de 1970, quando psicólogos encontravam dificuldades
324
Conselho Federal de Psicologia
em lidar com questões socioculturais e institucionais em ambientes educacionais,
de saúde mental e de trabalho, em que sua contribuição era esperada (Bock, 1999).
Esses estudos críticos mostraram que a psicologia no Brasil tem uma história
própria, inserida no contexto institucional, cultural e social da qual derivam suas prá-
ticas profissionais, teorias e pesquisas. Neste capítulo, levantamos os primeiros relatos
sobre o desenvolvimento da psicologia no Brasil da primeira metade do século XX e
as transformações no campo entre 1960 e 1980, e comparamos com os estudos atuais
sobre a história da psicologia em nosso país. Isso nos permite falar de uma história
da psicologia em sentido pleno, ou seja, é possível rastrear contribuições originais
de pensadores e estudos empíricos que não devem ser entendidos como aplicações
mecânicas de ideias desenvolvidas em outros lugares, mas como respostas à dinâmica
sociocultural local em diálogo com as perspectivas internacionais.
Na nossa opinião, o que inspira historiadores contemporâneos da psicologia
no Brasil é compreender o processo de produção do conhecimento que deriva de
práticas sociais e institucionais locais e das sensibilidades criativas desses autores
inseridos nessas dinâmicas nativas. Uma característica da historiografia atual da
psicologia brasileira é o esforço em compreender ideias, conceitos e práticas como
expressões de uma lógica que surge de seu contexto sociocultural e intelectual es-
pecífico. Trata-se de um esforço para evitar o risco do presentismo, definido como
a avaliação do passado a partir de categorias e intencionalidades que caracterizam
a organização atual da área, ou a compreensão do passado como preparação para
um futuro mais desenvolvido (Brozek, & Guerra, 1996; Wertheimer, 1980). Ao
contrário, a tendência dominante é estudar o passado buscando entender a dinâ-
mica entre a construção intelectual e suas aplicações em relação ao seu próprio
tempo e espaço e a lógica que inspirou homens e mulheres que trabalham pelo
desenvolvimento de conceitos e tecnologias em seu próprio contexto (Castelo
Branco, & Cirino, 2017).
Para essa abordagem, é importante compreender a história da psicologia como
parte da história maior da ciência, sobretudo tomando como referência as propostas
para superar a dicotomia internalismo / externalismo (Hacking, 2001; Latour, 2001).
Para Hacking e Latour, a divisão dos estudos históricos em uma história interna e
externa, como proposta por Lakatos (1989), deve ser complementada com essa visão
contextual, pois a produção de conhecimento científico implica uma releitura do
mundo real a partir de um conjunto de conceitos produzidos no contexto das práticas
sociais e culturais e da dinâmica das instituições que possibilitam essa releitura. Em
outras palavras, o desenvolvimento de um conjunto de conceitos científicos pressu-
325
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
põe a existência de uma cultura que promova esses conceitos e de uma linguagem
que os acolha e os transmita (Carroy, 1991).
A contribuição de Latour para esse debate concentra-se no desenvolvimento de
uma metodologia para o estudo da construção de conceitos científicos por meio de
práticas laboratoriais e estudos de campo, e a partir do estabelecimento de instituições
que promovam a existência contínua dos conceitos então construídos por meio da
criação e recuperação de demonstrações empíricas dos fenômenos descritos. No caso
das ciências humanas, é importante considerar também que a descrição científica
da realidade empírica tende a se reproduzir à medida que os próprios sujeitos da
experiência tendem a se identificar e se descrever usando conceitos desenvolvidos
por pesquisadores (Hacking, 2001). Isso ocorre quando os conceitos psicológicos
invadem e transformam as percepções dos saberes do cotidiano, como observado
por Moscovici, no caso da psicanálise (Moscovici, 1998) ou por Gergen no caso da
psicologia social (Gergen, 1973; Pickren, & Rutherford, 2010).
Inspirado por essas ideias, é apresentada a evolução da historiografia da psico-
logia no Brasil.
326
Conselho Federal de Psicologia
Conselho Federal de Psicologia. Três artigos, publicados anteriormente em diferentes
suportes científicos, são considerados centrais para a narrativa que então se constituía.
A primeira é a obra seminal intitulada “Psicologia experimental no Brasil” (Olinto,
1944/2004). Plínio Olinto (1886-1956) foi professor da Faculdade de Medicina do Rio
de Janeiro, onde se formou em 1910 com uma tese intitulada “Contribuição ao estudo
da associação de ideias”. A segunda obra é o artigo “Psicologia no Brasil”, de Annita
de Castilho Marcondes Cabral (1911-1991) (Cabral, 1950/2004). Cabral estudou nos
Estados Unidos no início da década de 1940 com Kurt Koffka (no Smith College) e
com Max Wertheimer (na New School for Social Research) e foi uma das primeiras
professoras de Psicologia da Universidade de São Paulo. O terceiro artigo, também
intitulado “Psicologia no Brasil”, foi escrito por Manoel Bergström Lourenço Filho
(Lourenço Filho, 1955/2004). Lourenço Filho conhecia os recentes desenvolvimentos
em psicologia e educação nos Estados Unidos e na Europa. A primeira observação
sobre os três autores é que nenhum deles era historiador. Eram memorialistas e
tinham uma visão otimista da psicologia no Brasil. Eles personificavam a psicologia
brasileira da época e seus textos estavam em sintonia com seu tempo.
Olinto descreve as origens e os trabalhos dos primeiros laboratórios de psi-
cologia estabelecidos no país, oito no Rio de Janeiro, três em São Paulo, um em
Belo Horizonte, Minas Gerais, e um em Recife, Pernambuco, nas primeiras décadas
do século XX. Aponta que estavam vinculados a escolas normais ou a hospitais de
saúde mental e, além de realizar pesquisas, faziam exames psicológicos buscando
estabelecer padrões acerca das características psicológicas das populações urbanas
brasileiras. Isso sugere que os estudos e serviços psicológicos eram valorizados
e procurados por grupos de áreas urbanas maiores, enquanto as universidades
estabeleciam suas escolas de filosofia e letras e se iniciava a oferta das primeiras
disciplinas de psicologia no nível superior.
Olinto argumentava que a psicologia experimental já existia no Brasil desde 1900
graças aos esforços de um grupo de pioneiros que tiveram contato com laboratórios
europeus, como os estabelecidos em Paris por Alfred Binet e George Dumas e em
Genebra por Théodore Flournoy. A imagem da pesquisa europeia sendo reproduzida
no Brasil foi expressa em uma metáfora usada por Olinto para descrever o trabalho
de Helena Antipoff (1892-1974), aluna de Claparède, que foi contratada para dirigir o
Laboratório de Psicologia da Escola de Aperfeiçoamento de Belo Horizonte: Antipoff
era a “jardineira” que semeava as teorias de seu mestre.
Annita Cabral (1950/2004) ofereceu uma perspectiva histórica mais contex-
tualizada. O artigo começa apresentando o “Brasil para estrangeiros”, explicando as
327
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
características do país como tamanho, idioma, regime político, geografia, história
econômica, e enfatizando a mistura das três raças que formaram a população brasi-
leira, o branco, o negro e o índio: “embora predominantemente branca, a população
apresenta todas as faixas de pigmentação, do branco albino ao preto retinto” (Cabral,
2004, p. 35-6). O artigo de Cabral é o único de autoria de uma mulher no livro de
Antunes. É também o único artigo do volume a observar o grande número de mu-
lheres trabalhando em escolas normais e de psicólogas que já atuavam na década
de 1940. Cabral observou ainda que, apesar desse número elevado de mulheres, “a
média dos manuais de psicologia existentes no país e escritos por brasileiros são de
autoria masculina” (Cabral, 2004, p. 59). Esse padrão de pirâmide invertida é confir-
mado por nossos dados estatísticos atuais: o número de mulheres que atuam como
psicólogas supera o de homens, mas as publicações e cargos de maior prestígio são
ocupados por homens, indicando a continuidade das relações de gênero dentro da
profissão ao longo do tempo ( Jacó-Vilela, & Barbosa, 2009).
Annita Cabral utilizou como dispositivo narrativo a apresentação de persona-
lidades marcantes da história da psicologia no Brasil, seus cargos institucionais na
Universidade de São Paulo (USP) ou na Academia Brasileira de Psicólogos, impor-
tantes instituições da época e influências estrangeiras em seu trabalho. Já a partir da
década de 1930, substituiu a narrativa da história de profissionais que se destacaram
pela história do ensino de psicologia nas instituições, predominantemente teórico.
Cabral também considerava que o Brasil era consumidor de conhecimentos produ-
zidos no exterior. O artigo conclui apontando as condições necessárias para que a
psicologia se tornasse independente da filosofia: o estabelecimento de associações
e periódicos próprios e o reconhecimento legal como profissão. Este foi o caminho
pelo qual ela travou suas batalhas pessoais, com a parceria de Lourenço Filho (1897-
1970), o terceiro autor que usamos como referência.
O texto de Lourenço Filho (1955/2004), publicado originalmente em uma
coleção sobre o desenvolvimento das ciências no Brasil, descreve como a psicologia
se constituiu como ciência e profissão no país, a partir do final do século XIX. Ele
afirma que, para o estabelecimento da psicologia científica, dois processos foram
fundamentais: a integração do conhecimento produzido em áreas afins, como a
biologia e as ciências sociais, e a necessidade de utilizar conceitos e práticas de solu-
ções para problemas de ajustamento decorrentes das crescentes tensões vividas em
sociedades modernas. O autor adota, então, uma abordagem que combina visões
internalistas e externalistas e oferece avaliação positiva da área com uma definição
mais precisa de seus objetivos e métodos.
328
Conselho Federal de Psicologia
Em seu relato, durante o período colonial (1500-1822), a contribuição das con-
gregações religiosas estabelecidas no Brasil para a catequização dos índios e para a
educação da população local teve papel importante. Já o século XIX foi o período
em que professores e alunos das primeiras escolas de medicina, interessados em
psiquiatria, produziram estudos científicos, relatados em trabalhos de conclusão de
curso (as “teses”) nas Faculdades de Medicina da Bahia e do Rio de Janeiro. No início
do século XX, surgiu o movimento de higiene mental no país e foram estabelecidos
os primeiros laboratórios de psicologia em hospitais para doentes mentais e em
escolas normais. Os resultados desses trabalhos foram publicados em periódicos
recém-criados nas áreas de Psiquiatria, de Educação ou, mesmo, de Higiene Mental.
Dessa forma, o autor estabeleceu uma história da psicologia a partir de apoios ins-
titucionais, com as contribuições mais importantes provenientes dos campos da
saúde mental, educação, engenharia e administração (as duas últimas praticamente
esquecidas em outras histórias), e das obras de religiosos das Faculdades de Filosofia
e Ciências Humanas. Ele destacou também o papel dos psicólogos estrangeiros no
Brasil, tanto aqueles que estiveram temporariamente no país quanto os que se tor-
naram residentes permanentes.
Lourenço Filho destaca o papel decisivo das universidades, a partir da década de
1930, no desenvolvimento de estudos e práticas psicológicas e para o estabelecimento
da profissão de psicólogo. Ele observou, no entanto, que a maioria das investigações
foi realizada fora das universidades, como aquelas referentes à psicologia aplica-
da às relações de trabalho, à organização escolar e aos problemas de adaptação de
crianças e adolescentes. Outra característica da psicologia brasileira destacada pelo
autor foi sua criatividade, observada na criação, desenvolvimento ou adaptação de
instrumentos de medida do desenvolvimento mental e das aptidões, de avaliação da
personalidade, relações humanas e dinâmicas de grupo.
Um ponto importante observado pelo autor foi que, até a década de 1930, as
principais fontes de influência sobre os psicólogos brasileiros eram europeias, prin-
cipalmente francesas. Durante as décadas de 1940 e 1950, influências norte-ameri-
canas tornaram-se mais fortes. Aponta-se que, da extensa bibliografia da coletânea
organizada por Otto Klineberg (1953), com diferentes autores brasileiros, 70% dos
autores são norte-americanos ou ingleses, 10% alemães, 10% franceses, 7% brasileiros
e 3% espanhóis, latino-americanos ou italianos.
Lourenço Filho afirma que o conhecimento em psicologia produzido no Brasil
havia alcançado alta qualidade e que vários periódicos com distribuição nacional já
estavam estabelecidos. Ele citou 10 periódicos nas áreas de psicologia, educação, hi-
329
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
giene mental e psiquiatria, e a existência de duas associações nacionais, a Sociedade
Brasileira de Psicologia e a Associação Brasileira de Psicotécnica, ambas filiadas
a parceiros internacionais. O autor citou também, orgulhosamente, a circulação
internacional de pesquisas em psicologia produzidas no Brasil, entre as quais seus
próprios estudos sobre um teste para avaliação da maturidade infantil para aprender
a ler e escrever e sobre o estudo experimental de hábitos.
Concluindo, percebe-se que nessa historiografia inicial, Annita Cabral enfatizou
as influências estrangeiras no desenvolvimento da psicologia no Brasil, enquanto
Olinto e Lourenço Filho se concentraram na produção local e na circulação do co-
nhecimento. Apesar das diferenças, os três autores responderam a um projeto que
estava em andamento na década de 1950 – a regulamentação da profissão de psicó-
logo. Seus textos ajudaram a psicologia como área de conhecimento e profissão a
ganhar reconhecimento e legitimação por parte do Estado, o que ocorreu em 1962
com a Lei n. 4.119 (de 28/08/1962).
Entre os anos de 1960 e 1970, poucos trabalhos historiográficos foram publicados
no Brasil, alguns dos quais incluídos no citado livro de Antunes (2004b). A situação
muda bastante a partir da década de 1980. Artigo de Isaías Pessotti, publicado em
1988, celebrando os 25 anos da regulamentação da profissão no Brasil, indica a ne-
cessidade de desenvolvimento de uma consciência ampliada sobre as tendências da
psicologia brasileira por meio da realização de estudos históricos e relaciona uma rica
série de fontes originais produzidas no país que poderiam alimentar esses estudos
(Pessotti, 2004/1988).
Historiografia Atual
Os estudos da história da psicologia efetivamente se ampliaram no Brasil,
despertando grande interesse e motivando um bom número de pesquisadores a se
dedicarem a essa área. Este é o fator-chave que diferencia o modelo atual do anterior.
Partimos aqui não de pesquisadores isolados que, por motivos específicos, principal-
mente seu prestígio no campo, são chamados a fazer uma “história”. Em vez disso,
trabalhamos principalmente com a perspectiva de pesquisadores atuantes na área,
pessoas que se dedicam ao trabalho de levantamento historiográfico das principais
tendências da psicologia brasileira em diálogo com a produção internacional.
Assim, são estudadas as obras de certas personalidades, não mais pela pers-
pectiva mítica dos grandes nomes e seus feitos, mas pelo significado de suas contri-
buições, em termos de produção teórica ou de propostas de formas de atuação no
330
Conselho Federal de Psicologia
âmbito de seu momento histórico, ou as condições institucionais que prevaleceram,
e assim por diante. Nesse processo, descobrimos que às vezes contribuições im-
portantes foram esquecidas e abandonadas por causa do viés colonial, subalterno,
que considera “de melhor qualidade” o que vem de fora. É o caso, sem dúvida,
das novas interpretações das obras de Manoel Bomfim (Antunes, 1999), Lourenço
Filho (Campos, Assis, & Lourenço, 2002), ou Helena Antipoff (Campos, 2012). Tais
narrativas, portanto, raramente são anacrônicas, internalistas, lineares ou contí-
nuas. Costumam ser externalistas ou mesmo construcionistas, e mais disruptivas
e descontinuistas do que lineares. São narrativas históricas contextualizadas que
confirmam a descontinuidade, mas com frequência retêm elementos do passado.
Uma marca, no entanto, está se tornando muito forte – uma perspectiva constru-
cionista que enfatiza a linguagem e a discursividade (Campos, 2021; Jacó-Vilela et
al., 2007; Massimi, 2021; Massimi, & Brozek, 1998).
A constituição de um campo disciplinar é visível, em parte, por sua presença
institucional. A história da psicologia no Brasil alcançou esse status principalmente
por meio da institucionalização de núcleos e grupos de pesquisa em programas de
pós-graduação existentes em universidades. O primeiro desses grupos, o Núcleo de
Estudos em História da Psicologia, foi instituído em 1982 junto ao Programa de Pós-
graduação em Psicologia Social da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo pela
professora Maria do Carmo Guedes. O Núcleo tinha por objetivos contribuir para o
melhor conhecimento da área da psicologia por mestrandos e doutorandos ligados
ao Programa, muitos deles com formação em outras áreas científicas, e ajudar na
contextualização das pesquisas com vistas à realização de dissertações de Mestrado
ou teses de Doutorado no campo da psicologia social em construção no Brasil.
A partir do grupo inicial, por iniciativa da coordenadora, pesquisadores que
atuavam em levantamentos historiográficos sobre a psicologia brasileira em ou-
tros programas de pós-graduação na própria PUC-SP (Psicologia Educacional e
Psicologia Experimental) e em outras universidades se aproximaram: a professora
Marina Massimi, da Universidade de São Paulo em Ribeirão Preto, que pesquisava
a história do pensamento em psicologia nos períodos colonial e imperial no Brasil
para sua tese de Doutorado, sob a direção do professor Isaías Pessotti (Massimi,
1989); a professora Mitsuko Antunes, que defendeu tese de doutorado sobre o pro-
cesso de autonomização da psicologia no Brasil, sob a direção de Guedes (Antunes,
1991); a professora Regina Helena F. Campos, do Programa de Pós-graduação em
Psicologia Social da Universidade Federal de Minas Gerais, que defendeu em 1989
tese sobre o pensamento de dois iniciadores da psicologia educacional no Brasil,
331
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
Helena Antipoff e Lourenço Filho, na Stanford University, nos Estados Unidos da
América, sob a orientação de Elizabeth Cohen (ex-aluna de Gordon Allport) e do
historiador David Tyack (Campos, 1989).
Em 1996, o historiador da psicologia Josef Brozek, um dos fundadores da Divisão
de História da Psicologia da American Psychological Association, visitou o Brasil a
convite de Massimi para ministrar curso sobre métodos de estudo da história da psi-
cologia, e ficou conhecendo o trabalho do Núcleo da PUC-SP e seus grupos agregados.
O coletivo então formado por Antunes, Brozek, Campos, Guedes e Massimi propôs
em 1996 a criação de um Grupo de Trabalho (GT) em História da Psicologia por
ocasião do VI Simpósio de Pesquisa e Intercâmbio Científico da Associação Nacional
de Pesquisa e Pós-Graduação em Psicologia (ANPEPP), realizado em Teresópolis, no
estado do Rio de Janeiro (Campos, 1996).
A partir dessa iniciativa, o grupo se expandiu e outros pesquisadores vieram a
ele se associar, como as/os pesquisadoras/os: Ana Maria Jacó-Vilela e Heliana Conde,
da Universidade do Estado do Rio de Janeiro; Arno Engelmann, da Universidade de
São Paulo; Nádia Maria Dourado Rocha, da Universidade Federal da Bahia; e William
Barbosa Gomes, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, entre outros, agre-
gando pesquisas sobre a história de conceitos e práticas da psicologia no Brasil e
em outros países nas áreas da pesquisa experimental, da medicina, da educação, da
psicologia social, da clínica psicológica, da organização institucional e profissional
do campo de estudos e reflexões em psicologia.
O GT ANPEPP incorporou novos membros, alunos de pós-graduação e jovens
professores universitários e em 2014 se dividiu em dois. O Grupo de Trabalho já
existente continuou sua trajetória. O novo coletivo então instituído – o Grupo de
Trabalho em História Social da Psicologia – voltou-se para o estudo da história da
psicologia com ênfase nas condições de emergência dos saberes psi e sua articulação
com questões sociais (ANPEPP, 2014; Guedes, & Campos, 1999).
Em paralelo ao avanço e progressiva institucionalização da área de pesquisa
em história da psicologia no país, em 1998 foi estabelecido o Projeto Memória da
Psicologia Brasileira pelo XI Plenário do CFP, sob a responsabilidade da professora
Ana Maria Jacó-Vilela. No âmbito do projeto Memória, foi realizada extensa pesquisa
sobre a formação da psicologia brasileira com o apoio do CFP e editados o Dicionário
Biográfico da Psicologia no Brasil (Campos et al., 2001), com 200 personagens re-
levantes nessa formação, e o Dicionário Histórico de Instituições de Psicologia no
Brasil ( Jacó-Vilela et al., 2011). Visando reunir e consolidar a documentação disponível
sobre a história da psicologia no Brasil, foram realizados vários vídeos biográficos e
332
Conselho Federal de Psicologia
também as seguintes coleções de livros: Pioneiros da Psicologia Brasileira (biografias
de personagens relevantes), Clássicos da Psicologia no Brasil (trabalhos selecionados
considerados clássicos na construção do campo de pesquisa da psicologia brasileira)
e Histórias da Psicologia no Brasil (teses selecionadas sobre aspectos específicos da
evolução da área da psicologia no país).
O trabalho desses grupos foca no caráter local das contribuições teóricas e prá-
ticas para o desenvolvimento do campo da psicologia no Brasil. Buscam compreen-
der como o processo de constituição e circulação do saber e da prática na psicologia
brasileira se apropria de conceitos, ferramentas ou métodos originados em outros
lugares ou criados no país. A riqueza do campo decorre dos debates entre diferentes
visões das questões psicológicas, de formas de pensar, e de modos de vida, que podem
gerar uma nova compreensão da problemática psicológica e psicossocial. A presente
historiografia visa a revelar o quanto a produção do conhecimento psicológico se
tornou local, ou seja, está relacionada a condições particulares de nosso país.
Outros importantes centros de pesquisa em história da psicologia no Brasil
foram criados durante a década de 1980 e nos anos seguintes, como:
• Centro de Documentação e Pesquisa Helena Antipoff (CDPHA). Esse centro
foi criado em 1980 com o objetivo de preservar a memória e divulgar a obra
da professora Helena Antipoff, educadora russa que emigrou para o Brasil e
radicou-se no Brasil a partir dessa época, tendo desenvolvido relevante trabalho
de pesquisa e atuação nas áreas da psicologia educacional, psicologia do excep-
cional e avaliação psicológica. Um grupo de pesquisadores trabalha atualmente
em pesquisas sobre o seu legado na Universidade Federal de Minas Gerais, sob
a liderança da professora Regina Helena F. Campos. Mais informações sobre o
Centro estão disponíveis em: [Link]
333
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
• Laboratório de História e Memória da Psicologia – Clio-Psyché, do Instituto
de Psicologia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Coordenado pela
professora Ana Maria Jacó-Vilela, as atividades do programa podem ser conhe-
cidas por meio do site [Link]. O nome do programa liga os
dois personagens que na Grécia antiga protegiam a história e a mente: Clio e
Psyché. Este grupo de pesquisa desenvolve atividades de ensino nos níveis de
pós-graduação e graduação e promove encontros anuais com pesquisadores
brasileiros e internacionais da história da psicologia. Além de pesquisa, ensino
e extensão, o programa tem um vasto acervo à disposição dos pesquisadores
e organizou diversos livros, entre os quais publicação comemorativa dos 45
anos do curso de Psicologia na Universidade do Estado do Rio de Janeiro ( Jacó-
Vilela, 2009). Os principais temas de pesquisa atualmente desenvolvidos pelo
grupo são a participação das mulheres na constituição do campo da psicologia
científica – para o qual publicou perfis de importantes nomes da Psicologia
brasileira no projeto do CNPq “Pioneiras da Ciência”; a história das crianças
e do movimento negro no Brasil; Psicologia e religião; Psicologia nas Forças
Armadas; Psicologia no meio médico do começo do século XX, entre outras
( Jacó-Vilela, & Barbosa, 2009; Jacó-Vilela, 2009; Jacó-Vilela, & Portugal, 2012;
Araújo, & Jacó-Vilela, 2020; Jacó-Vilela, 2021; Facchinetti, & Jacó-Vilela, 2019).
334
Conselho Federal de Psicologia
de Pesquisadores em História da Psicologia, e Centro de Documentação e
Pesquisa Helena Antipoff. O trabalho do Laboratório tem impacto nos cursos
de graduação e pós-graduação em psicologia da UFMG, à medida que incen-
tiva a produção de conhecimento por meio do desenvolvimento de projetos
de iniciação científica, de extensão e de orientações de alunos de mestrado e
doutorado na área da história da psicologia. Contribui, com suas publicações
e com os eventos que promove, para a historiografia da psicologia no Brasil,
com destaque para a historiografia da psicologia da educação.
1 A coleção Clio-Psyché inclui 154 livros sobre a história da psicologia no Brasil; coleções completas
dos periódicos Boletim de Psicologia (UFRJ), Arquivos Brasileiros de Psicotécnica e Rádice; teses e
dissertações sobre a história do conhecimento psicológico no Brasil; DVDs sobre personalidades e
instituições da psicologia no Brasil.
335
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
mento da psicologia no Brasil foi organizada pelo Conselho Regional de Psicologia
de São Paulo e está disponível em: [Link]
Os pesquisadores interinstitucionais em história da psicologia se reúnem todos os
anos nas conferências científicas promovidas pelo Centro de Documentação e Pesquisa
Helena Antipoff, pelo Clio-Psyché, ou pela Sociedade Brasileira de Psicologia. Em
18 de outubro de 2013, foi fundada a Sociedade Brasileira de História da Psicologia
(SBHP), como associação de caráter científico-cultural sem fins lucrativos, com as
finalidades de congregar pesquisadores e docentes na área da história da psicologia,
fomentando a cooperação e intercâmbio entre eles e seus congêneres em outros
países. A SBHP tem promovido congressos anuais, com vistas à difusão e discussão
de estudos e pesquisas em história da psicologia. Os congressos e outras atividades
são divulgados no site da Sociedade: [Link]
Temas que vêm crescendo na literatura são: as novas interpretações da história
dos conceitos e teorias psicológicas (Araújo, 2018; Araújo, 2021; Araújo, & Marcellos,
2022; Bastos, & Gomes, 2012; Engelmann, 2002; Castro et al., 2006; Oliveira, &
Pires, 2007; Vasconcellos, & Vasconcellos, 2007); a história da psicologia social no
Brasil, área que experimentou importante expansão na contemporaneidade com
contribuições originais advindas da perspectiva crítica da professora Silvia Lane e seu
grupo na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e da Associação Brasileira de
Psicologia Social (Bock et al., 2007; Bomfim, 2003; Bomfim, 2006; Ferreira, 2006;
Guedes, 2007; Jacó-Vilela, 2018; Sawaia, & Purin, 2018); a história do ensino de psi-
cologia no Brasil (Gauer, & Gomes, 2002; Gomes, & Frandkin, 2015; Branco et al.,
2022); a história dos laboratórios de psicologia e da análise do comportamento no
Brasil (Alves et al., 2019; Melo et al., 2016; Miranda, & Cirino, 2016; Souza Júnior et
al., 2018); a história da profissão do psicólogo no Brasil (Yamamoto, & Costa, 2010);
e a história da psicologia na educação e na educação especial (Assis et al., 2020).
Nos últimos anos, novas áreas e períodos históricos estão sendo analisados,
criando uma visão renovada e mais completa do desenvolvimento histórico da psi-
cologia no Brasil, bem como de sua relação com a sociedade e a cultura brasileiras.
Esta pesquisa vem ajudando a descobrir novos métodos e formas de compreender
nossa própria história, como será visto na próxima seção.
336
Conselho Federal de Psicologia
A Originalidade da Contribuição Brasileira à Luz da
História da Cultura
A perspectiva historiográfica permite colher a originalidade da contribuição
brasileira à psicologia. Buscaremos a seguir explicar os motivos dessa afirmação.
Ignácio Martin-Baró (1998) afirmou um pouco antes de sua morte que a tarefa
mais urgente de uma psicologia latino-americana efetivamente envolvida com o
processo de transformação sociocultural seria a recuperação da memória histórica,
da vivência cotidiana de pessoas e comunidades não reduzida pelas ideologias domi-
nantes e a retomada do potencial característico de seus povos. Ele escreveu que tais
processos estimulariam as pessoas a aprender pela experiência vivida e a encontrar
as raízes de sua identidade para interpretar a realidade presente e discernir possibi-
lidades alternativas em relação ao seu futuro.
De fato, ao abordar o processo de constituição da história da psicologia e do
conhecimento psicológico no Brasil, é possível reconhecer características de modos
de pensar específicos e originais e lidar com os processos psicológicos inerentes a esse
universo cultural e social profundamente enraizado na tradição popular. O sentido
de tradição é sugerido por Arendt (2003). Segundo a filósofa, quando existe uma
tradição que “selecione e nomeie, transmita e preserve, indique em que se encon-
tram os tesouros e qual o seu valor” (Arendt, 2003, p. 31), é possível estabelecer uma
ligação entre a herança do passado e o futuro, ou seja, a continuidade do tempo. De
outro modo, prevaleceriam o sentido da “sempiterna mudança do mundo e o ciclo
biológico”; haveria um “tesouro perdido (…) por nenhum testamento o haver ligado
ao futuro” (Arendt, 2003, p. 31). Já em 1940, o intelectual brasileiro Alceu Amoroso
Lima recomendava a importância de cuidar da preservação e transmissão da “tradição
cultural de nossa terra” (Lima, 1940, p. 465), para não incorrer no risco de “o Brasil
deixar de ser Brasil, para voltar a ser colônia” (Lima, 1940, p. 466).
Retomando a terminologia usada por Arendt, integra esse “tesouro” também
aquela bagagem de conhecimentos científicos, de saberes e práticas psicológicos,
constituída, ao longo da história da cultura brasileira, pelos aportes de povos, grupos,
comunidades e pessoas, fios de um tecido social multifacetado. Se tomarmos o tecido
da sociedade brasileira nessa perspectiva, tanto no passado quanto no presente, pode-
mos ver que nela coexistem sujeitos culturais distintos vivendo diferentes regimes de
historicidade (Hartog, 2003), construindo diversas visões de mundo (Chartier, 1990)
e possuindo diversos modos de experiência psicológica que podem ser aprendidos
de forma diacrônica e sincrônica (Massimi, 2021). Como consequência, ao contrário
337
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
da limitação positivista já mencionada, a existência e desenvolvimento da psicologia
científica, neste contexto, não exclui a presença e eficácia de outros saberes psicológicos.
Todavia, no universo sociocultural e político brasileiro, cuidar da tradição não é
nem tem sido fácil. Ao longo do tempo, inúmeras circunstâncias históricas favorece-
ram a “perda” desse “tesouro”: dentre elas, o processo colonial, as iniquas relações de
trabalho escravo; a deportação forçada dos africanos; os genocídios das populações
indígenas praticados pelas incursões dos bandeirantes e pelas guerras, ocupações e
expropriações ocorridas no período colonial mas também na fase de constituição
da nação brasileira moderna; a repressão dos movimentos populares comunitários
ao longo do século XIX e as primeiras décadas do XX. Além do mais, concorreu para
apagar esses saberes e práticas o ocultamento cultural sistematicamente praticado.
No caso específico da psicologia, a epistemologia positivista (dominante no
Brasil do século XIX e das primeiras décadas do século XX), no processo de tran-
sição entre os saberes psicológicos tradicionais e a nova ciência da mente e/ou do
comportamento, foi responsável por uma ruptura (injustificada) entre tais saberes
e a nova psicologia. As consequências dessa ruptura foram a perda da memória e o
esquecimento da história como processo de construção do conhecimento. Em pe-
ríodos mais recentes, a prevalência nas ciências humanas de novas epistemologias,
por um lado abriram o campo ao reconhecimento do valor do processo histórico e à
consciência do necessário resgate da história, mas por outro lado, ao tematizar o pro-
cesso histórico como dialética entre vencedores e vencidos, levaram a interpretações
dualistas e polarizadas do referido processo, que impediram de enxergar a existência
de apropriações criativas, resistências culturais, adaptações, mesclas e intercâmbios,
fenômenos esses que revelam um cenário complexo dificilmente redutível e com-
preensível por uma interpretação dialética (Wilde, 2014; Couchonnal & Wilde, 2014).
A mais recente tendência “decolonial”, hoje afirmada na psicologia e demais
ciências humanas é inspirada nos aportes dos estudos da antropologia e busca uma
superação dos estigmas do colonialismo, em prol de uma “indigenização” da psicolo-
gia (Pickren, & Rutherford, 2010). Todavia, quando a abordagem decolonial se valer
de um enfoque marcadamente estruturalista, este, se for usado em âmbito histórico,
leva ao anacronismo e a uma interpretação dos fatos do passado à luz dos estudos do
presente. A função crítica da história se realiza à medida que houver o distanciamento
entre o nosso presente e a alteridade do passado. É diante e por meio dos vestígios
dessa alteridade que se realiza “a operação histórica” (De Certeau, 2000).
Além do mais, a história imprime suas marcas nas vivências humanas, de modo
indelével, não podendo elas serem apagadas por meio de um processo artificial de
338
Conselho Federal de Psicologia
desconstrução. Tal desconstrução, sinalizada atualmente pela destruição material de
monumentos tidos por sinais dos processos coloniais, leva a negar o que ocorreu na
história, ou seja, a irrevocabilidade dos fatos, impossibilitando às novas gerações aquele
percurso da memória restauradora de justiça cabalmente descrito por Paul Ricoeur
(2007). Ricoeur sintetiza em algumas palavras-chave o acontecer do processo de au-
toconsciência histórica em pessoas, comunidades e povos: lembrança, luto, pedido
de perdão e restauração da justiça. Para o realizar-se desse processo de memória que
desemboca na restauração da justiça, o trabalho de reconstrução histórica, o resgate
e a preservação de fontes e monumentos são tarefas imprescindíveis.
Nessa perspectiva, buscando apontar caminhos historiográficos inovadores e
pluralistas que permitam apreender o valor e a originalidade da psicologia científica
e dos saberes psicológicos elaborados no seio da história sociocultural brasileira, es-
truturou-se e articulou-se, desde os anos 1980, o trabalho do grupo dos pesquisadores
do campo da história da psicologia no Brasil.
As investigações históricas que foram conduzidas para reconstruir o processo de
constituição de conhecimentos e ciências psicológicas no Brasil ao longo do tempo
revelaram a existência de uma presença consistente de elementos que, oriundos de
várias tradições, especialmente do Ocidente, foram aqui assimilados e reinterpretados
de forma peculiar e original.
No Brasil, a historiografia da psicologia é hoje um campo amplo e promissor
para pesquisas futuras. Este caminho pode contribuir de modo mais amplo para que
haja no País maior valorização da memória histórica, consciência renovada do valor
do rico e multifacetado patrimônio cultural e a construção de redes de pertencimen-
tos e da consciência plena da cidadania. Desse modo, a historiografia da psicologia
pode fornecer instrumentos significativos para o trabalho de “desideologização” da
experiência cotidiana recomendado por Ignácio Martin Baró.
339
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
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346
Conselho Federal de Psicologia
Contribuições da Associação
Brasileira de Psicologia
do Tráfego (ABRAPSIT)
na Construção da
Psicologia Brasileira
Juliana de Barros Guimarães
Renan Soares Junior
Fábio de Cristo
Andrea dos Santos Nascimento
Introdução
O protagonismo social da psicologia do trânsito tem sido reconhecido e am-
pliado de várias formas no contexto brasileiro ao longo da história, tanto na esfera
pública quanto privada, seja fora ou dentro da própria psicologia. Uma das formas
de reconhecimento, fora da psicologia, pode ser por meio de legislação, como é o
caso do Código de Trânsito Brasileiro (CTB). Desde o primeiro código, de 1941, a
avaliação psicológica, uma das atribuições do psicólogo do trânsito, é parte dos re-
quisitos para obter-se a Carteira Nacional de Habilitação (CNH) para dirigir veículo
automotor. A psicologia do trânsito, portanto, tem uma longa e entrelaçada história
que se desenvolve com o próprio sistema de trânsito e vai ampliando suas esferas
de ação à medida que a sociedade e o trânsito que a reflete tornam-se mais comple-
xos. No seio da psicologia, por sua vez, a área de trânsito possibilitou vários espaços
para a institucionalização e a expansão da profissão, como, por exemplo, a partir dos
Detrans entre outras entidades, conforme abordaremos.
Ao estudar cientificamente o comportamento no trânsito e os processos psico-
lógicos associados, assim como as influências recíprocas deste espaço socioambiental
em todos que dele participa (Cristo, 2019), o psicólogo fundamenta suas práticas, sendo
347
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
algumas delas também transpostas em lei e em legislações específicas. Em 2020, por
exemplo, após a última grande reforma do CTB, ficou estabelecido por lei que a reali-
zação da avaliação psicológica no processo de habilitação deverá ser feita por psicólogos
peritos com titulação de especialista em psicologia do trânsito. Reconheceu-se que um
profissional com formação própria para essa finalidade, devidamente credenciado e
fiscalizado, tende a estar mais qualificado e a prestar um melhor serviço à população.
Isso não ocorreu por acaso. Do ponto de vista institucional, houve muita organização
da categoria, trabalho incessante, tendo sido, em grande parte, articulado, coordenado
e encampado pela Associação Brasileira de Psicologia de Tráfego (ABRAPSIT). Esta foi
apenas uma ocasião que mostra como essa entidade, paulatinamente, vem colaborando
com o trânsito brasileiro e com a psicologia. Outro exemplo tem sido a participação da
ABRAPSIT no processo de expansão do rol efetivo de práticas do psicólogo do trânsito
adotando a denominação “psicologia de tráfego”, na perspectiva de incluir todos os
modais, seja terrestre, aéreo ou aquaviário.
Neste capítulo abordaremos a trajetória histórica desta importante área da psico-
logia, a psicologia do trânsito, considerando a ABRAPSIT como ponto de referência.
Serão apresentados o contexto de formação da entidade e o seu papel na própria
constituição e desenvolvimento do campo, como também na construção dos rumos
da psicologia no Brasil. Nós nos ateremos mais ao período após a regulamentação
da nossa profissão, a partir de agosto de 1962, destacando especialmente os recentes
fatos históricos do contexto do trânsito e transporte rodoviário e suas repercussões
no campo da psicologia, assim como as ações da nossa profissão com repercussões no
referido contexto (veja Silva [2012] para conhecer mais sobre as raízes da psicologia
do trânsito no país no período pré-regulamentação da profissão).
Antes, porém, de abordarmos sobre a construção dos rumos da psicologia a partir
das contribuições da ABRAPSIT, será preciso voltar um pouco no tempo, uma vez
que a necessidade da criação de uma associação de psicólogos do trânsito em nosso
país começa bem antes de 2015, ano de sua fundação. Se, do ponto de vista formal,
a ABRAPSIT nasce da reunião de psicólogas e psicólogos profissionais e acadêmicos
que decidem empreender uma associação nacional, do ponto de vista histórico, as
bases foram lançadas décadas antes, conforme veremos a seguir, destacando especial-
mente a regulamentação da nossa profissão e as primeiras associações de psicólogos
do trânsito em nosso país. Nosso itinerário (exposição) percorrerá (está organizada)
três estações (seções): Estação 1, período pré-fundação da ABRAPSIT; estação 2, fun-
dação da ABRAPSIT; e estação 3, período pós-fundação da ABRAPSIT (Veja a Figura
1). Finalizaremos com perspectivas e desafios futuros para a associação. Embarquem
348
Conselho Federal de Psicologia
conosco e acomodem-se à vontade em nossa locomotiva, porque já iremos partir.
Nesse trajeto, seremos seus guias.
ESTAÇÃO 1.
Evolução do trânsito brasileiro. Regulamentação
PRÉ-FUNDAÇÃO da profissão de psicólogo. Primeiras associações
brasileiras de psicólogos do trânsito. Eventos.
DA ABRAPSIT
349
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
das políticas de trânsito nos estados (Cristo, 2011). Segundo o autor, dentro de sua es-
trutura, deveriam ser instituídos obrigatoriamente os “serviços psicotécnicos”, fruto
da aplicação de técnicas psicológicas por outros profissionais, como engenheiros e
administradores (identificados por “psicopráticos” em muitos Detrans do Brasil, nas
décadas de 1980/90), uma vez que a profissão de psicologia havia sido recém-criada.
Portanto, além das organizações de trabalho do setor transportador (empresas de ônibus
e de trem), os psicólogos se inseriram também no Sistema Nacional de Trânsito (SNT)
(Silva, 2012), sendo uma das portas de entrada a atuação relacionada ao condutor de
veículo, que começava a ser considerada principal causa dos sinistros viários, dentro
do que consideramos atualmente de abordagem tradicional da segurança viária. Isto
é, o comportamento humano como causa das mortes e de lesões graves no trânsito.
Nessa perspectiva, portanto, o que parecia ser o lugar mais óbvio para a psicologia
prestar sua colaboração seria em alguma atividade mais próxima ao fator humano,
como o processo de habilitação de motoristas dentro dos DETRANs, realizando o
exame psicotécnico em candidatos à habilitação, como ainda hoje são chamados
esses exames, embora hoje denominada avaliação psicológica, mais especificamente
perícia psicológica. Aqui faremos um importante destaque para incentivar o uso de
uma nomenclatura. Optamos ao longo do capítulo pela terminologia “sinistro” de
trânsito, que significa todo evento que resulte em dano e/ou em lesões, em vez de
“acidente” de trânsito, que seria mais associado à um acontecimento aleatório ou
coisa do destino que não se pode evitar (ABNT, 2020).
Além dos Detrans, os CETRANs (Conselho Estadual de Trânsito) também são
espaços de inserção da psicologia. Não apenas para o julgamento de recursos de
multas de trânsito, mas também para reflexões em relação aos comportamentos
seguros nas vias públicas, espaços públicos, à qualidade do transporte público, à fis-
calização, monitoramento e acompanhamento dos acidentes de trânsito e também
à sugestão de melhorias em relação às políticas públicas. Estas devem ser pensadas,
implementadas e executadas na interseccionalidade e no diálogo entre a saúde, a
segurança pública e a educação.
Desde o início do movimento de criação do Conselho Federal de Psicologia (CFP)
e dos Conselhos Regionais de Psicologia (CRPs) nos anos de 1960 e 1970, a Psicologia
do Trânsito configurou-se como uma das primeiras áreas de atuação do psicólogo,
auxiliando no reconhecimento da Psicologia no País. Embora entre as Associações
do Brasil que auxiliaram na conformação do CFP entre 1971 e 1973 não houvesse
ainda alguma que trabalhasse especificamente com a área, um dos temas discutidos
foi da psicologia no trânsito (Rozestraten et al., 2008; Soares, 2010; Soares Jr. et al.,
350
Conselho Federal de Psicologia
2022). Já na primeira gestão do CFP houve a preocupação específica com a Psicologia
do Trânsito com a publicação das Resoluções CFP n. 19/1976 e CFP n. 20/1976 (CFP,
1976a, 1976b) que versavam sobre a atuação na área e sobre uma pesquisa que tratasse
do que deveria ser avaliado pelos psicólogos credenciados aos DETRANs (Soares,
2010; Soares Jr. et al., 2022).
Em 1980, na 10ª Reunião Anual da SPRP, na reunião da Divisão de Psicologia do
Trânsito, houve a constatação da necessidade de uma organização maior da Psicologia
do Trânsito (Pereira, 1999; Soares Jr. et al., 2022) que pareceu resultar, conforme
presente em SPRP (1981), numa divisão de Psicologia do Trânsito na SPRP, coorde-
nada pelo Prof. Reinier Rozestraten e em atuação com o CFP, com a constituição
no segundo semestre de 1981, de uma comissão ad hoc do CFP para trabalhar com
o CONTRAN do qual fizeram parte representando os psicólogos da área Reinier
Rozestraten, Efraim Rojas Boccalandro e José Augusto Della Coleta (Rozestraten, 1983;
Rozestraten et al., 2008). Trabalharam com questões ligadas à Resolução nº 584/1981,
do CONTRAN, que foram depois amplamente debatidas no primeiro Congresso
Brasileiro de Psicologia (CONPSITRAN), em 1982 (Rozestraten, 1983).
A partir de 1982, foram realizados vários Congressos Brasileiros de Psicologia
do Trânsito (CONPSITRAN), o primeiro foi em Porto Alegre, que teve como ponto
de maior destaque a fundação da Associação Brasileira de Psicologia do Trânsito
(ABRAPT), cujo primeiro presidente foi o Dr. Enis Rey Gil, eleito por aclamação
(Rozestraten, 1983). Por meio da ABRAPT, a Psicologia do Trânsito colaborou na
elaboração de documentos que influenciaram futuras políticas nacionais de segu-
rança no trânsito (Silva, 2012). Conforme esse autor, destaca-se a participação nas
reuniões de trabalho em prol da segurança de tráfego, que foram promovidas pelo
Ministério dos Transportes em 1985. Vários representantes de entidades participa-
ram dessas reuniões, resultando também em publicações de livros que reuniram
o conhecimento disponível e as formas de o Brasil enfrentar os sinistros (Empresa
Brasileira de Planejamento de Transportes, 1987). Os eventos seguiram com o segun-
do CONPSITRAN em Uberlândia (MG) em 1983, o terceiro em São Paulo (SP) em
1985, o quarto no Rio de Janeiro (RJ) em 1987 e o quinto em Goiânia (GO), em 1989
(Rozestraten et al., 2008).
Já no terceiro Congresso, Lima (1985) expressou na cerimônia de abertura a di-
ficuldade de financiamento e realização dos congressos, com comentários que diziam
que a área era incipiente e que não se justificava a iniciativa. Os CONPSITRANs foram
pensados para serem anuais como as reuniões da Sociedade de Psicologia de Ribeirão
Preto – SPRP (atual SBP que já contava com uma divisão de Psicologia do Trânsito
351
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
desde a década de 1970), e o ocorrido em SP deveria ter acontecido em 1984, mas pre-
cisou ser adiado para 1985, pela mesma dificuldade experienciada nos anos seguintes.
No início da década de 1990, mais precisamente em 1992, conforme explicou
Pereira (1999), que fez parte da diretoria científica da entidade, ocorreu a fundação da
Associação Nacional dos Psicólogos de Trânsito (ANPSITRAN). Araújo-Silva (2022)
informa que a entidade foi fundada em 23 de outubro de 1992, na cidade de São
Paulo, com representantes de vários estados do Brasil, reunindo em torno de 500
profissionais. A presidência da ANPSITRAN ficou com uma representação paulista,
pois São Paulo já tinha a Associação Paulista de Psicólogos de Trânsito desde 1986,
conforme explicitam Pereira (1999) e Port Brasil (1986).
Araújo-Silva (2022) esclarece que a entidade contribuiu com proposições
para o Código de Trânsito Brasileiro que entrou em vigor em 1997. Desde 1993, a
ANPSITRAN já trabalhava com o CRP-06 confeccionando propostas para o trânsito
brasileiro (CRP-06, 1993), oferecendo proposições para a composição do Conselho
Nacional de Trânsito (CONTRAN), com participação de um representante da
Psicologia. Também entre as propostas figurava uma sobre a divisão equitativa de
credenciamento para realização de exames nos estados e a necessidade da existên-
cia de avaliação por junta psicológica composta por psicólogos do trânsito para os
casos de interposição de recurso de avaliação realizada.
A ANPSITRAN também realizou eventos com a categoria, como o I Simpósio
Brasileiro de Psicologia do Trânsito, nos dias 1 a 3 de setembro de 1994, no Teatro
Procópio Ferreira, Guarujá (SP). O evento reuniu psicólogos e estudantes de psico-
logia interessados na área, para discussões e troca de experiências, com palestras de
diversas temáticas relativas a área do trânsito, como as proferidas pelo Professor
Reinier Rozestraten, intituladas de “Formas de atuação do psicólogo junto ao Sistema
de Trânsito Brasileiro” e “Psicologia do trânsito: abrindo novos horizontes”, além de
formulação de propostas de encaminhamento para as questões relativas ao traba-
lho e à formação do psicólogo do trânsito, conforme relatado pelo CRP 06 (1994) e
Rozestraten, Maciel e Vasconcellos (2008). A atuação junto ao CONTRAN também
tem registros, conforme sinalizam Rozestraten, Maciel e Vasconcellos (2008) em
atividade realizada junto ao CONTRAN em 29/11/1994 com conferência proferida
por Rozestraten intitulada “Novas perspectivas para o psicólogo do trânsito”.
Araújo-Silva (2022) explica ainda que, quando houve o veto do Presidente
Fernando Henrique Cardoso, em 23 de setembro de 1997, aos exames psicológicos
para motoristas, a ANPSITRAN, a Federação Nacional dos Psicólogos (FENAPSI) e o
CFP, juntamente com os diversos profissionais credenciados aos DETRANs, se mobi-
352
Conselho Federal de Psicologia
lizaram para demonstrar a importância dos trabalhos dos profissionais da psicologia,
encontrando apoio para essas ações de sensibilização dos parlamentares do Congresso
Nacional. Foram mobilizados mais de 600 profissionais de todo o Brasil, que visitaram
parlamentares na Câmara Federal e no Senado, dialogando pela volta do trabalho da
Psicologia no Trânsito e, por fim, realizaram uma passeata em Brasília. Como resul-
tado destes esforços, no dia 22 de janeiro de 1998, conseguiram a publicação da Lei
n. 9.602/1998, que incluiu a Avaliação Psicológica no processo de obtenção da CNH,
conforme pode-se ver também no Jornal do Povo (1998). A ANPSITRAN esteve em
atividade até por volta do ano 2000, segundo Araújo-Silva (2022).
Percebe-se que, desde aproximadamente o ano 2000, com a publicação da Resolução
CFP n. 12/2000 (CFP, 2000b), do Caderno de Psicologia do Trânsito e Compromisso
Social pelo CFP (2000a), as questões de relevância na Psicologia do Trânsito passaram
a ser protagonizadas pelo Sistema Conselhos de Psicologia, sem um diálogo direto com
entidades da categoria (CREPOP, 2018). No mesmo ano, a Psicologia do Trânsito constou
entre as nove especialidades da Psicologia, sendo regulamentada pela Resolução CFP n.
14/2000, uma das primeiras especialidades definidas pelo CFP para efeito de concessão
e registro do título profissional de Especialista em Psicologia (CFP, 2000c).
Os Congressos Brasileiros de Psicologia do Trânsito foram retomados em
2004 em parceria realizada pelo CRP-14 (MS), pelo CFP e pela Universidade Católica
Dom Bosco (UCDB), tendo sido realizado o VI Congresso Brasileiro de Psicologia do
Trânsito, na Universidade Católica Dom Bosco, em Campo Grande, Mato Grosso do
Sul. Em 2007, em Curitiba, na UFPR, foi realizado o VII e último Congresso Brasileiro
de Psicologia do Trânsito numa correalização da Universidade Federal do Paraná
(UFPR) com o CRP-08 (PR) e ambos os CONPSITRAN, tanto de Campo Grande
quanto o de Curitiba já ocorreram sem a participação de associações específicas da
área, pois a ABRAPT e a ANPSITRAN já se encontravam inativas.
A psicologia de trânsito brasileira buscava caminhos para seu fortalecimento
enquanto ciência e profissão, enfrentando desafios na fundação e na interrupção de
associações nacionais. A existência e a importância dessas entidades nas conquistas
em prol da psicologia e do nosso trânsito estavam demonstradas, aguardando novo
momento para florescer. A psicologia do trânsito agora tinha modelos para inspirar
novamente uma participação ativa na formulação de políticas públicas que traba-
lhassem a saúde mental, a segurança pública e a educação para um tráfego seguro e
de responsabilidade de todos durante os trajetos cotidianos de mobilidade humana.
Quinze anos depois do final das atividades da ANPSITRAN, nascia a ABRAPSIT, em
353
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
meio a uma série de acontecimentos relevantes tanto no panorama local, quanto
nacional e internacional, como abordaremos na estação 2.
354
Conselho Federal de Psicologia
Mundial de Ações para a Segurança do Trânsito – 2011/2020: Seja você a mudança
no trânsito”, focando na mudança de comportamento e atitudes como ação funda-
mental para reduzir os sinistros de trânsito.
Em novembro de 2015, o Brasil estava no centro dos debates sobre a segurança
viária, sediando a 2ª Conferência Global de Alto Nível sobre Segurança no Trânsito,
realizado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em parceria com a Organização
das Nações Unidas (ONU), e teve a participação de governos de mais de 120 países
em Brasília. O evento ocorreu, significativamente, na semana após o Dia Mundial em
Memória das Vítimas de Acidentes de Trânsito, mais conhecido como “WDR, World
Day of Remembrance”, instituído pela Organização das Nações Unidas (ONU) em
1995. Com vistas a demarcar o objetivo da primeira Década de Ação pela Segurança
no Trânsito (2011 a 2020) de salvar milhões de vidas, em uma resposta direta ao grave
problema de saúde pública que vinha (e ainda continua) comprometendo social e eco-
nomicamente todos os países e, mais especificamente aqueles de baixa e média renda.
O resultado foi a assinatura da Declaração de Brasília, aclamada pelos governos
presentes e com o apoio de representantes da academia, da sociedade civil e do setor
privado, apontando caminhos para implementar os compromissos de redução de
mortes e lesões no trânsito em sincronia com a primeira Década de Ação das Nações
Unidas para a Segurança no Trânsito 2011-2020 e os Objetivos do Desenvolvimento
Sustentável (ODS) da Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável. O documento
traz uma inovação ao promover a mobilidade e modos de transportes sustentáveis,
além de dar prioridade para a segurança dos usuários de transporte público, dos
motociclistas, dos ciclistas e dos pedestres, aqueles que respondem pela maioria das
vítimas de sinistros no trânsito no mundo (Pavarino, 2016). A Agenda 2030 para o
Desenvolvimento Sustentável, articulada pela Organização das Nações Unidas, aten-
de ao propósito de articular e colocar em prática uma agenda global mais ampla e
universal. Ela estabelece um plano de ação para as pessoas, para o planeta e para a
prosperidade, buscando fortalecer a paz universal com mais liberdade ([Link]
[Link]/pt-br/sdgs). São 17 objetivos que se desdobram em 169 metas que orientam os
planos de desenvolvimento nacionais dos países por meio de acordos internacionais
que incluem diversos temas, entre eles o trânsito e o transporte.
É neste cenário, num período de efervescência, que em 20 de dezembro de
2015 foi fundada a Associação Brasileira de Psicologia de Tráfego (ABRAPSIT), sendo
um importante marco para a categoria. A ABRAPSIT é uma entidade científica, sem
fins lucrativos, com objetivo de congregar psicólogos, pesquisadores, alunos de psi-
cologia e especialistas de nível superior para promover o desenvolvimento técnico
355
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
científico do exercício profissional na área de tráfego e circulação humana em todos
os modais: terrestre, aéreo e aquaviário (Abrapsit, 2017). Esta tem entre suas princi-
pais diretrizes a promoção da saúde no tráfego com o desenvolvimento científico,
técnico e ético da área, atuando também com o poder público para contribuir com a
gestão das políticas públicas para o tráfego de forma saudável, inclusiva, democrática,
humanizada e eficiente (Rueda & Guimarães, 2021).
A ABRAPSIT surge, portanto, num momento de grande complexidade não
só do ponto de vista social, político e econômico do país, mas também do ponto
de vista dos avanços tecnológicos, do adensamento das cidades e da necessidade de
promover a mobilidade humana, urbana e sustentável na diversificação e integração
dos diversos modais. Tal complexidade também envolve a tarefa do motorista, do
pedestre, do ciclista, dos agentes de trânsito, tais como a polícia militar e, nos mu-
nicípios que são municipalizados, os departamentos de trânsito municipais, e tudo
isso vai impactar o trabalho do psicólogo do tráfego. Nesse contexto de maior com-
plexidade, a ABRAPSIT surge com importante missão de fortalecer a psicologia, de
modo geral, e a psicologia de tráfego em seus vários modais de maneira específica,
algo que tem se expandido aos poucos e, notadamente, neste período de existência,
no contexto do trânsito rodoviário.
A ABRAPSIT tem visado também a incrementar, defender, aprimorar e mobi-
lizar a psicologia para que a psicologia do tráfego haja de uma forma comprometida
com o Código de Ética Psicológica, bem como com as resoluções, portarias e normas
técnicas do CFP que vierem a surgir, de maneira específica, mas não isolada, tendo
em vista estar atenta às diversas questões, por exemplo: raça, gênero, classe social,
idosos, criança, mobilidade da gestante, psicologia ambiental, pessoas com deficiên-
cia, desengajamento moral, comportamento de risco, a relação do consumo abusivo
de álcool e outras substâncias psicoativas com os sinistros automotivos, e como isso
reflete no espaço urbano de maneiras e formas diferenciadas, de modo a pensar
soluções com a sociedade brasileira, seja civil ou política. Devemos lembrar, ainda,
que a avaliação psicológica e seu instrumental, que é um dos fortes pilares de atuação
da Psicologia do Tráfego, vem sendo atualizada constantemente com entidades par-
ceiras, por exemplo pelo Instituto Brasileiro de Avaliação Psicológica (IBAP) (https://
[Link]/) e a Associação Brasileira de Rorschach e Métodos Projetivos
(ASBRo) ([Link]
O aperfeiçoamento constante e a integração entre a psicologia e as diversas
outras áreas do conhecimento que envolvem a mobilidade humana e urbana fazem
com que a ABRAPSIT concentre esforços em estudos e pesquisas para a saúde e a
356
Conselho Federal de Psicologia
segurança no trânsito, além de promover a atualização, reciclagem e qualificação dos
psicólogos de tráfego no intuito de preparar adequadamente esses profissionais. Dessa
forma, podemos atingir um nível de excelência que será traduzido em ações concretas
de redução da sinistralidade e de suas nefastas consequências de morbimortalidade,
sofrimento para familiares amigos, agentes da segurança, agentes da saúde e mesmo
para sociedade que é afetada direta ou indiretamente pelos sinistros de trânsito.
Atualmente com representação em todas as regiões e com associados em quase
todo o país, a entidade está presente em dezenove estados brasileiros, como: Rio Grande
do Sul, Mato Grosso, Bahia, Pernambuco, Amazonas, Ceará, Distrito Federal, Espírito
Santo, Goiás, Maranhão, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Pará, Paraíba, Paraná,
Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte, São Paulo e Sergipe. Cabe destacar a extensa
participação de mulheres na ABRAPSIT, ocupando a presidência e a vice-presidência,
desde sua formação até hoje, como também na direção científica e na representação
da ABRAPSIT nas instâncias do trânsito brasileiro (e.g., câmaras temáticas do Contran).
Adicionalmente, a ampla participação de mulheres ocorre intensamente nas regionais
da ABRAPSIT, seja nas presidências ou em outras funções, participando, elaborando
e implementando as políticas nacionais e regionais da associação.
Como vimos, a ABRAPSIT vem testemunhando e participando diretamente de
momentos decisivos para a saúde e a educação no trânsito, e da própria psicologia do
trânsito enquanto ciência e profissão. Mas quais têm sido as suas inserções práticas,
suas lutas e desafios, as suas vitórias pós-fundação desde 2015 até meados de 2022?
Agora, senhoras e senhores passageiros, retornem aos seus assentos na locomotiva,
pois iremos até a última estação deste itinerário.
357
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
ativa em câmaras temáticas continua até hoje em 2022 ([Link]
-selecionado-para-compor-camaras-tematicas-do-conselho-nacional-de-transito/).
No mesmo ano, fruto do Seminário “Proposição de indicadores comporta-
mentais de segurança e os seus impactos na avaliação psicológica para o trânsito”,
promovido pelo CFP, foi lançada a publicação: “Psicologia do Tráfego: Características
e desafios no contexto do MERCOSUL” (CFP, 2016). Profissionais da entidade partici-
param desse livro eletrônico que foi resultado de debates com o Sistema Conselhos
de Psicologia, entidades acadêmicas e de pesquisa latino-americanas (Argentina,
Uruguai e Brasil), pesquisadores e professores que atuavam no contexto, além de
membros de Instituições de trânsito do país. Debates sobre segurança viária, tráfego,
mobilidade e estratégias políticas para este contexto no Mercosul trouxeram grandes
reflexões que contribuíram para o diálogo institucional e profissional da psicologia
com o SNT (CFP, 2016).
Os anos de 2016 e 2017 seguem marcados por audiências públicas e inúmeros
debates em torno do PL nº 8.085/2014, que almejava alterar o Código de Trânsito
Brasileiro, em que novamente a psicologia se viu ameaçada, seja pelo não entendi-
mento público de nossa ciência e profissão, seja pelos enormes embates de forças
políticas dentro do cenário do trânsito, com o objetivo de desobrigar a avaliação
psicológica no processo de habilitação de condutores. Considerando esse PL também
como oportunidade para nossa profissão, foram sugeridas alterações significativas
que ampliavam a importância da psicologia e da atuação dos psicólogos de trânsito
no processo de formação de condutores e na prevenção de sinistros. Todavia, o cená-
rio político brasileiro, com impeachment, escândalos, processos políticos-judiciais,
esmoreceu a tramitação do referido Projeto de lei.
Foi em 2017 que a ABRAPSIT realizou o I Congresso Brasileiro de Psicologia
de Tráfego, de 14 a 17 de setembro, na Costa do Sauípe, na Bahia, com o objetivo de
ser bienal. Em parceria com a ABRAMET, o evento retoma a tradição de debates
e de produções científicas que haviam parado no início dos anos 2000. O evento
contou com centenas de participantes com cursos pré-congresso, conferências,
mesas-redondas e pôsteres, para um público-alvo de psicólogos, educadores, médi-
cos, engenheiros, legisladores, técnicos da área de trânsito, profissionais da área de
planejamento urbano e segurança viária.
No Congresso também foi lançado o primeiro livro da entidade, “Psicologia
no Tráfego: Questões e atualidade” (ABRAPSIT, 2017) e estabelecidos diálogos com
outras áreas do tráfego, por exemplo, com palestras da Associação Brasileira de
Psicologia da Aviação (ABRAPAV). Além disso, instituiu o prêmio Reinier Rozestraten,
358
Conselho Federal de Psicologia
atribuído aos profissionais e às instituições que contribuíram significativamente com
a psicologia de tráfego. Um reconhecimento tanto pelas justas contribuições à área
pelo eminente professor quanto aos seus ganhadores. Neste mesmo ano, a ABRAPSIT
firmou convênio como entidade parceira da Sociedade Brasileira de Psicologia (SBP),
retornando o diálogo da psicologia do trânsito às origens institucionais estabelecidas
por Rozestraten, conforme já mencionamos.
O objetivo de desenvolvimento científico e técnico da área da psicologia do
trânsito levou a ABRAPSIT a integrar, em 2018, o Fórum de Entidades Nacionais
da Psicologia Brasileira (FENPB) ([Link] Isso propiciou um
diálogo com outras áreas de atuação e continua revelando e ampliando as interfa-
ces da mobilidade humana e da psicologia do tráfego com nossa ciência e profissão
nas diversas áreas. É preciso destacar a importância do ingresso e permanência da
ABRAPSIT no FENPB que representa um locus de debates para organização, cons-
trução democrática e coletiva da Psicologia brasileira, sendo responsável inclusive
por diversas atividades, entre elas destacamos Congresso Brasileiro de Psicologia,
Ciência e Profissão que acontece a cada quatro anos.
Na perspectiva de contribuir com a qualificação e atualização dos psicólogos de tráfego,
foi feita uma parceria da entidade com o CFP, o Sistema Conselhos e os DETRANs em que
foram realizados nos anos de 2018 e 2019 palestras e treinamentos em mais de 12 estados,
para cerca de dois mil e quinhentos profissionais. Nesta caminhada pelo Brasil, dialogando
com as particularidades de cada estado e região, foi possível escutar e entender melhor os
anseios e dificuldades da categoria, mediada pela realidade das políticas públicas locais.
Nessas ocasiões, também foram lançadas sementes para incentivar a criação de regionais
da ABRAPSIT, uma vez que os profissionais se sentiam estimulados.
Seguindo sua trajetória de recolocar a psicologia do trânsito nos diálogos cien-
tíficos, a ABRAPSIT fez parte da comissão organizadora do V Congresso Brasileiro
de Psicologia: Ciência e Profissão (CBP), com o tema “Psicologia, Direitos Sociais e
Políticas Públicas: Avanços e Desafios”, de 14 a 18 de novembro de 2018 em São Paulo.
Assim, os diálogos com a categoria, os debates no seio da CTSMA na revisão
das normas para saúde no trânsito e com o SNT, trouxeram para dentro do sistema
conselhos a revisão e atualização de normas que afetavam diretamente a categoria,
trazendo a publicação das resoluções CFP n° 9/2018, CFP n° 1/2019 e CFP n° 6/2019
(CFP, 2018, 2019a, 2019b), que versam sobre a avaliação psicológica, a perícia psicológica
no contexto do trânsito e a elaboração de documentos psicológicos, respectivamente.
Tudo isso fruto de Grupos de Trabalhos, da contribuição de todo o sistema conse-
359
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
lhos, de especialistas e ratificado na Assembleia de Políticas, da Administração e das
Finanças (APAF), que é a instância deliberativa do Sistema Conselhos de Psicologia.
Seguindo a iniciativa de trazer para o foco público o debate e as produções cien-
tíficas, foi realizada a I Jornada Pernambucana de Psicologia e Medicina de Tráfego,
em 1º de dezembro de 2018, que contou com a presença de profissionais de todo o
nordeste, com representantes de todas as regiões do país, com a presença do CFP e
do Sistema Conselhos. Na ocasião foi firmada uma parceria técnico-científica com a
Associação Nacional dos DETRANs (AND), o CFP, a ABRAPSIT e a ABRAMET para
um trabalho extenso de saúde, mobilidade e prevenção de sinistros, em que foram
apresentados projetos de atualização, capacitação e desenvolvimento científico dos
profissionais de saúde que atuam no trânsito, além de um encontro sobre Educação
e Saúde que foi realizado no II Congresso Brasileiro de Psicologia de Tráfego e XIII
Congresso Brasileiro de Medicina de Tráfego, em setembro de 2019, em Brasília.
Ao longo das batalhas recentes naqueles últimos anos do ponto de vista legislati-
vo, normativo e das políticas públicas aplicadas ao trânsito, a reunião de Associados e
Representantes das diversas federadas na referida Jornada Pernambucana de Psicologia
de Tráfego levou à elaboração de propostas em defesa da psicologia de trânsito. Estas
proposições foram apresentadas pelos nossos representantes nos diversos Pré-Coreps
e Coreps (Congressos Regionais de Psicologia) pelo Brasil, com intuito de retomar
a discussão da área de tráfego, trânsito e mobilidade humana no seio do Sistema
Conselhos. Esses eventos antecedem o Congresso Nacional da Psicologia (CNP).
O CNP é considerado uma das instâncias mais importantes no processo demo-
crático e participativo pelo qual a categoria de psicólogas e psicólogos decide e delibera
sobre os rumos da profissão e conta com a participação de profissionais da Psicologia
de todo o território nacional, não apenas de conselheiros e conselheiras das gestões
dos 24 conselhos regionais. Também é composto por entidades nacionais, sejam elas
científicas, profissionais e estudantes ou sindicais ([Link]
O planejamento teve efeito de produzir um grande número de propostas para o
10º CNP, que se realizou em Brasília, entre 30 de maio e 2 de junho de 2019, no Centro
de Convenções Ulysses Guimarães, com o tema: “O (im)pertinente compromisso social
da Psicologia na resistência ao Estado de exceção e nas redes de relações políticas, eco-
nômicas, sociais e culturais”. A maior parte das propostas produzidas foram aprovadas
para integrar a agenda política da Psicologia Brasileira da gestão vindoura (CFP, 2019c).
Semelhantemente, a ABRAPSIT também estimulou junto à categoria a formulação de
propostas e participou em 2022 do 11º CNP, com o tema: “O Impacto Psicossocial da
Pandemia: Desafios e Compromissos para a Psicologia Brasileira Frente às Desigualdades
360
Conselho Federal de Psicologia
Sociais”. Na ocasião, representantes da área de trânsito estiveram presentes, continuan-
do o trabalho de manter a ciência e profissão diversa e atualizada, com foco em uma
psicologia de tráfego cada vez mais científica, ética e valorizada.
O ano de 2019 tinha se iniciado com o anúncio de um novo embate sobre o
trânsito brasileiro. Várias reuniões sobre a importância da promoção da saúde e
prevenção de sinistros de trânsito realizaram-se regularmente e, em 4 de junho de
2019, foi apresentado um Projeto de Lei que defendia mudanças no CTB que pode-
riam implicar verdadeiros retrocessos à segurança viária e, inclusive, uma possível
exclusão da especialidade em psicologia do trânsito do processo de habilitação. O
PL nº 3.267/2019 iniciou uma grande batalha para que a revisão do CTB, após mais
de 20 anos, fosse embasada na preservação da vida no trânsito.
Com a apresentação do projeto de lei na Câmara dos Deputados, a ABRAPSIT e
o CFP intensificaram os contatos com os parlamentares e partidos, elaborando notas
técnicas e debatendo a temática com os diversos parlamentares e assessores. Com a
instituição de uma Comissão Especial com 68 membros para analisar o PL de forma
conclusiva no dia 12 de junho de 2019. Em razão disso, a atuação no Congresso Nacional
se tornou semanal. Foram visitados todos os integrantes da Comissão, todos os presi-
dentes e líderes dos partidos políticos e, individualmente, mais de 500 parlamentares ao
longo de 2 anos de interlocuções para a promulgação e entrada em vigor do novo CTB.
Nesta caminhada, a psicologia se mostrou unida com o apoio efetivo, não ape-
nas da ABRAPSIT, mas também do CFP, da FENAPSI, além das outras 23 entidades
nacionais da psicologia integrantes do FENPB. A psicologia se fez representar em au-
diências públicas a convite da Comissão e trouxe à Brasília associados de quase todos
os estados do país em defesa da perícia psicológica no trânsito. A mobilização, ao longo
dos meses, inovou na organização de uma rede nacional que realizou o contato virtual
com todos os parlamentares e, sobretudo, com os psicólogos eleitores em cada estado.
Ao longo de quase dois anos de intenso trabalho em defesa da importância da
psicologia para um trânsito seguro, inclusivo, saudável e respeitoso, em 12 de abril
de 2021 entrou em vigor o CTB com as alterações trazidas pela Lei nº 14.071/2020,
decorrente do projeto de lei original. O PL, após todas as explicações técnico-cientí-
ficas apresentados e o trabalho de advocacy desempenhado no Congresso Nacional,
havia produzido uma lei que temperava os riscos apresentados nas questões iniciais.
Embora longe de uma proposta de vanguarda, com foco na promoção da saúde e na
defesa da vida, a Lei nº 14.071/2020 salvaguardava os conceitos básicos para manu-
tenção de uma atuação profissional que pudesse contribuir na prevenção de sinistros
361
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
de trânsito. Contudo, ocorre um novo veto presidencial, incidindo sobre todas as
alterações que defendiam o campo da saúde no trânsito.
A ABRAPSIT segue novos meses de batalha, em plena pandemia, com o apoio
irrestrito do CFP, do FENPB, das entidades médicas como a ABRAMET, do Conselho
Federal de Medicina e da Associação Médica Brasileira. Em mais uma conquista his-
tórica para a psicologia, a medicina e o trânsito como um todo, conquistou-se a der-
rubada de todos os vetos à saúde com ampla maioria dos votos dos parlamentares do
Congresso Nacional, faltando menos de um mês para a entrada em vigor da nova lei.
Em meio a este turbilhão de reuniões e encontros estaduais, regionais e fede-
rais, a psicologia do trânsito cresce no diálogo com o SNT e demais entidades do
setor. A ABRAPSIT é nomeada para integrar a nova Câmara Temática de Educação
e Saúde para o Trânsito (CTES) do CONTRAN pela gestão 2019–2021, continuando
os trabalhos iniciados em 2016.
O II Congresso Brasileiro de Psicologia do Tráfego, com apoio do CFP, reali-
zado em Brasília em setembro de 2019, trouxe ao centro do debate: a prevenção de
sinistros, a educação para o trânsito, as discussões a respeito das mudanças propos-
tas pelo Governo Federal no Código de Trânsito Brasileiro, e o desenvolvimento
necessário para a conquista de um trânsito que promove a saúde e a preservação da
vida. O congresso também debateu mais uma vez a participação da psicologia de
tráfego no contexto aéreo por meio de palestra, evidenciando a busca de diálogo da
ABRAPSIT com outras áreas de transporte. O referido congresso foi realizado em
parceria com o XIII Congresso Brasileiro de Medicina de Tráfego da ABRAMET, 66º
Encontro Nacional dos Detrans da AND, XII Encontro Nacional dos Conselhos de
Trânsito, num encontro que mobilizou as autoridades e técnicos da área de trânsito
de todos os órgãos, setores e estados.
Neste II congresso, além das trocas e interlocuções técnicas e científicas, a
ABRAPSIT lança seu segundo livro “Transitando pela Psicologia do Trânsito no Brasil:
Ontem, Hoje e Amanhã” (Guimarães, Sandri & Hegele, 2019). Abordou a história da
atuação da psicologia do trânsito em alguns estados, o cenário atual desta área no
Brasil, além de temáticas fundamentais e atuais a serem trabalhadas pelos psicólogos
do trânsito em todo o país. Até esse momento, a pandemia de COVID-19 ainda não
havia sido decretada, mas logo estaríamos iniciando um período estarrecedor na
história recente da humanidade.
362
Conselho Federal de Psicologia
A ABRAPSIT no Contexto da Pandemia de Covid-19
No final de 2019 e início de 2020, o mundo começa a viver uma mudança de
paradigmas da saúde física e mental, das relações interpessoais, da mobilidade e da
vida. Um acentuado problema de saúde pública mundial começa a ameaçar todos nós.
O novo coronavírus assola o planeta e a OMS declara, em 11 de março, a pandemia de
COVID-19. Algumas medidas implementadas de proteção implicaram distanciamento
social e restrições de mobilidade e de relações interpessoais para conter a disseminação
da enfermidade. O espaço de trânsito, como local de convivência e circulação, sofre
um profundo impacto. A psicologia do trânsito também teve que ampliar seu olhar e
atuação por conta dos impactos da COVID-19 na mobilidade, na acessibilidade e no
trabalho do psicólogo do trânsito (Cristo, Soares Jr., Luiz & Nascimento, 2020). Após
pouco mais de dois anos, no mundo, seriam mais de 539 milhões de casos confirma-
dos, incluindo mais de 6 milhões de mortes reportadas à OMS em 23 de junho de
2022 ([Link] No Brasil, são mais de 32 milhões de casos diagnosticados
e mais de 670 mil pessoas mortas, conforme dados do ministério da saúde em 24 de
julho de 2022 ([Link] Felizmente, hoje contamos com vacinas e
a vacinação em massa dos brasileiros, mas a pandemia ainda persiste.
Este novo cenário pandêmico também tem sido um grande e intenso catalisador
de mudanças pelos impactos que provoca no ambiente de trânsito e no comporta-
mento das pessoas e nos processos de trabalho dos psicólogos do trânsito (veja Figura
2). Isso nos exige, então, (re)pensar condutas e práticas muito rapidamente, incluindo
nossos processos formativos, avaliativos e interventivos que deverão ajustar-se reci-
procamente. Por exemplo, no caso das pessoas, têm-se as repercussões emocionais
negativas da pandemia e a mudança de comportamento com a diminuição do uso
dos transportes públicos pelo medo da enfermidade. No caso do trabalho do psicó-
logo, tem-se a adoção dos protocolos de biossegurança nos processos avaliativos, a
investigação dos impactos psicológicos da COVID-19 nas pessoas que adoeceram;
pois, mesmo curadas, ainda podem estar com sequelas que poderão afetar seus de-
sempenhos nas avaliações psicológicas.
363
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
Figura 2. Impactos da pandemia no ambiente e no comportamento
de viagem e nos processos de formação, avaliação e intervenção
do psicólogo do trânsito
PANDEMIA DE
COVID-19
FORMAÇÃO,
AMBIENTE E
AVALIAÇÃO E
COMPORTAMENTE
INTERVENÇÃO
364
Conselho Federal de Psicologia
Transportadores Autônomos (CNTA) e com o apoio da Organização Pan-Americana
de Saúde (OPAS). Objetivou prestar um serviço de acolhimento aos condutores pro-
fissionais que apresentavam dificuldades do desempenho laboral em trânsito, forne-
cendo um apoio para cuidar da saúde mental e estimular a conexão social e as relações
interpessoais em período tão inseguro (Perrelli, Telles, Guimarães & Cristo, 2020).
Mesmo em meio ao contexto pandêmico, em que pese as demandas a ele re-
lacionadas conforme mencionamos, também existem as demandas do trânsito que
não são decorrentes da pandemia propriamente e demandas que afetam a psicologia
como um todo, incluindo a área de trânsito. Nesse sentido, 2021 foi um ano bastante
movimentado, conforme os eventos que discutiremos a seguir.
Nesse ano, no panorama internacional, a OMS, com a ONU e outros parceiros
lançaram a “Década de Ação pela Segurança no Trânsito (2021-2030)”, com o desen-
volvimento de um plano global, que estabelece as ações necessárias para atingir a meta
de reduzir mortes e lesões no trânsito em 50%. Esse plano se destina não apenas aos
gestores públicos mas também à sociedade civil, às universidades, ao setor privado e à
comunidade que estejam interessados na promoção da segurança viária (OMS, 2021),
incluindo os psicólogos do trânsito. Por isso, a ABRAPSIT aderiu a esta missão, com o
Plano Nacional de Redução de Mortes e Lesões no Trânsito – Pnatrans (Contran, 2021),
com vistas a salvar vidas, promover a saúde e tornar as cidades mais inclusivas, seguras,
democráticas, resilientes e sustentáveis. Nesse alinhamento da ABRAPSIT ao cenário
internacional e nacional, ela passa a reconhecer e a adotar um novo paradigma em
detrimento da abordagem tradicional: a abordagem do sistema seguro (Contran, 2021).
Nessa nova abordagem, a responsabilidade pelas mortes e lesões graves no
trânsito é compartilhada por todos (i.e., os que desenham as vias, a operação de
tráfego, a fiscalização, os governantes, as empresas de transporte e as pessoas que
transitam), e não mais é uma responsabilidade exclusivamente individual das
pessoas, cuja causa seria o comportamento. Na abordagem do sistema seguro, re-
conhece-se que nós, seres humanos, cometemos falhas e somos vulneráveis, e que
todo o sistema deve levar isso em consideração, de modo que esteja preparado para
nos proteger quando esses erros acontecerem, uma vez que nenhuma morte ou
lesão grave é aceitável, posto que são evitáveis (sobre essa abordagem veja também
[Link]
No plano dos eventos, a ABRAPSIT realizou o III Congresso Brasileiro de
Psicologia do Tráfego, de 16 a 18 de setembro de 2021 no Rio de Janeiro, inovando
na forma híbrida (presencial e online). Foi o primeiro grande evento da psicolo-
gia desde o início da pandemia. O evento abordou as novidades da ciência e da
365
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
legislação voltadas para a preservação da vida no trânsito e promoveu a formação
continuada para psicólogos, agregando outros profissionais que atuam na área de
trânsito, como médicos, advogados, gestores e entidades do setor de trânsito. Na
ocasião, foi anunciado o IV Congresso Brasileiro de Psicologia de Tráfego, que
ocorrerá em setembro de 2023 em Santa Catarina, além de serem anunciadas as
Jornadas Estaduais e Regionais que já estão ocorrendo neste ano de 2022. A cada
ano que intercala o congresso bianual, a entidade foca seus debates nos estados e
regiões para atualizar as questões técnicas dentro das diversas realidades específicas.
Em 2022, o projeto estabelece ao menos 10 Jornadas de Psicologia de Tráfego, ini-
cialmente em: Goiás, Rio de Janeiro, Paraná, Bahia, Rio Grande do Sul, São Paulo,
Mato Grosso, Pernambuco, Amazonas, Mato Grosso do Sul e Minas Gerais.
No que concerne ao diálogo da ABRAPSIT com outras áreas de transporte, a entidade
participou em 2021, com outras entidades, do Grupo Brasileiro de Segurança Operacional
da Aviação de Helicópteros (BHEST), com o objetivo de melhorar continuamente a segu-
rança operacional no setor. Como fruto desse comitê, foi publicado um manual de boas
práticas “Fator humano na aviação: Seleção, instrução e cultura de segurança” (BHEST,
2021), por meio de discussões de temas relevantes, proposição de ações e adoção das
melhores práticas estudadas e praticadas por seus membros participantes.
No plano jurídico, a psicologia brasileira começava a entrever severo impacto de
uma decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), com implicações para as diversas
áreas, incluindo a área de tráfego. Há anos em tramitação, finalmente o STF decidia
pela inconstitucionalidade de incisos da Resolução CFP n° 2/2003 (CFP, 2003), que
definia e regulamenta o uso, a elaboração e a comercialização de testes psicológicos.
A Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) nº 3.481 questionava as restrições im-
postas a pessoas não psicólogas para o acesso a alguns livros e materiais científicos
relacionados à psicologia, como os testes psicológicos, e o STF julgou como proce-
dente (veja Rueda e Guimarães [2021] e acesse o histórico do caso em: [Link]
[Link]/testes-psicologicos/linha-do-tempo/). A ABRAPSIT, outras entidades do
FENPB e o CFP se pronunciaram coletivamente sobre as consequências dessa decisão
e defenderam a importância da restrição do acesso aos testes psicológicos (https://
[Link]/watch?v=xDQs6DJ9gmY&t=176s).
Como se pôde perceber, essa estação 3 foi repleta de informações, decorrentes
de diversos acontecimentos no panorama nacional e internacional do trânsito, de
diálogos da ABRAPSIT com diversas entidades, a participação em iniciativas e eventos
que ocorreram, notadamente on-line, por conta da pandemia da COVID-19. Diante
366
Conselho Federal de Psicologia
desses fatos, evidencia-se que os sete anos de existência da ABRAPSIT é caracterizado
por uma intensa articulação, participação, expansão pelo país deste jovem e vigoro-
sa entidade, cuja participação feminina tem sido decisiva. Ao chegarmos ao fim do
itinerário, o que pudemos juntar de experiências ao percorrermos as três estações?
Quais as perspectivas e desafios futuros para a associação?
367
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
camos particularmente as suas participações em câmaras temáticas do CONTRAN, sua
participação e organização de publicações e eventos, como também de qualificações
profissionais por meio de cursos, palestras e lives. Destacamos o diálogo institucional
e profissional dentro e fora da psicologia, como também abordamos o seu contexto
de surgimento e as repercussões da pandemia.
Como vimos, a ABRAPSIT tem uma curta, porém ativa história no trânsito brasi-
leiro. Ela vem testemunhando e participando diretamente de momentos decisivos para
a saúde e a educação no trânsito, assim como da própria psicologia enquanto ciência e
profissão. E continua propondo-se a continuar a fazer de forma democrática e coletiva.
Como perspectivas, vislumbramos muitos desafios para a jovem ABRAPSIT,
entre os quais destacamos cinco:
368
Conselho Federal de Psicologia
as práticas profissionais para orientar a formação e a prática também devem
estar no horizonte.
369
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
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Conselho Federal de Psicologia
Notas para uma história
da institucionalização
científico-profissional da
Psicologia no Brasil
Filipe Degani-Carneiro
Rodrigo Lopes Miranda
Rodolfo Luís Leite Batista
Maira Allucham Goulart Naves Trevisan Vasconcellos
Jaqueline de Andrade Torres
Fernando Tavares Saraiva
375
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
pessoas (psicólogos-cientistas e psicólogos-profissionais) que se relacionam em comu-
nidades científico-profissionais a partir de léxicos e práticas comuns. Esses, por sua
vez, negociam com outras comunidades e esferas de influência (tais como o Estado,
as instituições privadas, a opinião pública etc.) para conformarem seus campos de
atuação e de ingerência. Assim, foi a partir do século XX que a Psicologia brasileira
produziu fortemente sua disciplinarização, i.e., conformou um quadro organizado
em uma estrutura administrativa de ensino superior, programado para perpassar e
ensinar conteúdos relacionados a um conhecimento, a partir de leituras, reflexões e
discussões que afetam os planos de ações dos membros de uma classe profissional.
Nesse cenário, os saberes da Psicologia — principalmente da então denominada
Psicologia Aplicada — foram convidados a refletir e a produzir mudanças que per-
mitissem a modernização brasileira, i.e., o rompimento com um “passado atrasado”
e que vinculava o progresso social ao progresso econômico e, consequentemente, ao
cenário urbano-industrial (Antunes, 1998/2007; Coimbra, 1999; Jacó-Vilela, 2021).
Esse movimento observado no Brasil coaduna com aquele que a Psicologia fez no
mesmo período em outros países, sobretudo latino-americanos, como nos lembra
Ardila (2020, p.11 – tradução nossa):
376
Conselho Federal de Psicologia
de que aquelas pessoas criaram campos de atuação, cursos de formação, periódicos
e, também, sociedades científico-profissionais que foram vitais nos agenciamentos
envolvidos com aquela legislação (Baptista, 2009, 2010; Santos & Miranda, 2022).
Nessa perspectiva, à guisa de conclusão do presente livro acerca das entidades
nacionais da Psicologia brasileira, com este texto, propusemo-nos a historicizar a
institucionalização de determinadas associações e sociedades científico-profissionais
da Psicologia. Para tanto, examinamos a criação dessas primeiras associações e seu
papel decisivo na regulamentação da profissão pela Lei nº 4.119/1962. Então, obser-
vamos a influência das transformações que a Psicologia viveu durante o período de
redemocratização, na década de 1980, neste processo de institucionalização. Por fim,
pontuamos como a criação do Fórum de Entidades Nacionais da Psicologia Brasileira
(FENPB) foi, concomitantemente, fator de expressão e de fomento da pluralidade e
diversidade institucional do campo psicológico no Brasil.
377
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
suas associadas e associados, a SPSP buscou congregar diferentes agrupamentos de
profissionais cujas atividades estavam relacionadas à Psicologia e que se encontravam
dispersos à época. Em 1949, sob uma das gestões de Annita Cabral, foi publicada a
primeira edição do Boletim de Psicologia, importante publicação da SPSP para veicu-
lação de diversos tipos de materiais (artigos, resenhas, notícias etc.) sobre psicologia
neste período (Angelini, 2011; Sá, 2012).
Ainda na referida década, mais precisamente em setembro de 1949, foi criada no
Rio de Janeiro a Associação Brasileira de Psicotécnica (ABP) – que viria a se chamar
Associação Brasileira de Psicologia Aplicada (ABPA) a partir de 1959 –, cuja atenção
voltava-se para as contribuições e a relevância do papel que a Psicologia poderia
exercer no contexto de industrialização do país. Seu planejamento e organização
foram liderados por Emilio Mira y López (1896-1964), psiquiatra que, à época, dirigia
o Instituto de Seleção e Orientação Profissional (ISOP) da Fundação Getúlio Vargas
(FGV) e que foi também o primeiro secretário-geral da nascente ABP.
A atuação de Mira y López foi central nos movimentos e articulações que levaram
à regulamentação da profissionalização da profissão de psicólogo no Brasil. Entre as
décadas de 1940 a 1960, Mira y López agregou em torno do ISOP um grande número
de profissionais interessados no estudo e no treinamento profissional em Psicologia
(Silva et al., 2021). Uma vez que somente a partir dos anos 1950 foram iniciados os
primeiros cursos de graduação em Psicologia no país (e que estes se disseminaram
a partir da regulamentação da profissão, em 1962), tais profissionais aglutinados em
torno do ISOP se originavam de distintas profissões, com claro predomínio da for-
mação em Educação oferecida à época pelas Escolas Normais e pelas Faculdades de
Filosofia. Os cursos ministrados pelo ISOP fomentaram a constituição de uma nova
classe profissional, os então chamados “psicologistas” ou “psicotécnicos”. Ainda que
a atuação do ISOP estivesse voltada de modo mais direito às práticas de seleção e
orientação profissional no contexto das organizações de trabalho (função precípua
daquele Instituto), neste Instituto foram desenvolvidos cursos de formação, pesqui-
sas, estágios profissionais e prestações de serviços em uma diversidade de campos
da então denominada “psicologia aplicada”, como: psicologia educacional, avaliação
psicológica, psicologia do trânsito, psicologia do esporte e psicoterapia.
Não somente por meio dos cursos e estágios oferecidos pelo ISOP, mas
especialmente a divulgação do saber psicológico que Mira y López realizava por
meio da instituição trouxe grande visibilidade à Psicologia como novo campo de
conhecimento e campo profissional emergente (Martins, 2014). Assim, a criação da
ABP esteve diretamente vinculada às atividades fomentadas pelo ISOP enquanto
378
Conselho Federal de Psicologia
núcleo divulgador e articulador nos interessados pelas práticas profissionais em
Psicologia então emergentes.
Devido a esta relação estreita entre entidades, a divulgação dos trabalhos cientí-
ficos associados à ABP ocorria no periódico instituído pelo ISOP em 1949, os Arquivos
Brasileiros de Psicotécnica – que posteriormente viria a se chamar Arquivos Brasileiros de
Psicologia Aplicada (1969) e Arquivos Brasileiros de Psicologia (1979). Também em decor-
rência desta influência do ISOP, a ABP se associou ao processo de regulamentação da
profissão de psicólogo no Brasil (Castro & Alcântara, 2011). Foi da autoria de filiados da
ABP o primeiro anteprojeto de lei sobre regulamentação da profissão e da formação
em Psicologia apresentado ao MEC em novembro de 1953. Este primeiro anteprojeto
previa uma formação em duas etapas: uma básica de cunho teórico, a ser cumprida em
uma faculdade de Filosofia; e outra técnica, que seria realizada em instituições cujas
atividades estivessem voltadas a contextos de aplicação da Psicologia (Baptista, 2010).
Estas primeiras sociedades civis acadêmico-profissionais fundadas nos anos
1940 (tanto a SPSP em São Paulo, quanto a ABP no Rio de Janeiro) viriam a contri-
buir diretamente com a discussão deste anteprojeto que conduziu a regulamentação
da profissão (Angelini, 2011; Castro & Alcântara, 2011; Sá, 2012). Observa-se que o
objetivo prioritário de tais associações – o desenvolvimento e expansão do campo
científico e profissional psicológico – conduziu ao envolvimento de tais atores pes-
soais e institucionais no lobby político pela regulamentação da profissão.
Concomitantemente, no contexto da Psicologia paulista, foi criada em 1954,
também com destacada participação de Annita Cabral, a Associação Brasileira de
Psicólogos, a qual reuniu um restrito grupo de psicólogos que já possuíam formação
acadêmica e interesse em tomar parte no processo de regulamentação da profissão
– tais como Arrigo Angelini (1924), Carolina Bori (1924-2004), Dante Moreira Leite
(1927-1976) e Oswaldo de Barros Santos (1918-1998) (Castro & Ghiringhello, 2011).
Observa-se neste processo a incidência de tensões regionais entre os grupos do Rio
de Janeiro e de São Paulo, as quais também expressavam posições distintas. Enquanto
o grupo vinculado ao ISOP e à ABP no Rio de Janeiro, proveniente dos espaços de
prática profissional existentes, buscava imprimir uma ênfase mais prática à profissão,
tal visão era criticada pelo grupo de São Paulo – que contava, entretanto, com um
importante apoio carioca: Nilton Campos (1898-1963), catedrático de Psicologia na
Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil (UB). Tal crítica proveniente
de personagens ligados às cátedras universitárias de Psicologia (USP e UB) se sustentava
numa visão pejorativa acerca da ênfase prática do ISOP – preocupada especialmente
com a realização da psicoterapia por profissionais não médicos. Postulava assim o
379
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
desejo por uma formação em Psicologia com maior base teórica na chamada “ciência
pura”, tanto de viés filosófico quanto experimental.
Tais tensões se configuraram no Projeto Substitutivo de Lei elaborado em 1958
pela Associação Brasileira de Psicólogos, conjuntamente à SPSP e aos professores
da USP. Apresentado ao Congresso Nacional, tal projeto assinalava a necessidade
de legislar a formação e atuação profissional do psicólogo no Brasil. No corpo de
tal documento, lemos:
380
Conselho Federal de Psicologia
O Projeto Substitutivo redundou na Lei nº 4.119, promulgada em 27 de Agosto
de 1962, que dispôs sobre os cursos de graduação em Psicologia e sobre a regula-
mentação da profissão de psicólogo. Como vimos, evidentemente, a regulamentação
não criou ou inaugurou o exercício profissional em Psicologia – justamente pois só
faz sentido em uma regulamentação legal de uma atividade que já alcançou uma
percepção social de existência, utilidade, relevância e que já tenha demonstrado
capacidade de organização e articulação em torno dos direitos e responsabilidades
de seu fazer profissional.
Nesse sentido, observa-se como estas primeiras entidades acadêmico-profissio-
nais em Psicologia foram atores centrais não somente na luta pela regulamentação da
profissão, como também nos esforços de organização das diretrizes e instituições de
regulação do exercício profissional, notadamente na década de 1960 e no início dos anos
1970. A esse respeito, destacam-se os anteprojetos do Código de Ética Profissional e da
criação do Conselho Federal e Regionais de Psicologia (Castro & Ghiringhello, 2011).
381
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
Tais atos de repressão política impactaram sensivelmente a universidade brasileira
com controle e censura sobre as atividades docentes e de pesquisa, além de diversas
demissões e aposentadorias compulsórias. Isso impactou, também, a organização
científico-profissional da Psicologia no país.
À revelia da categoria profissional, o governo militar instituiu o Sistema Conselhos,
i.e., o Conselho Federal de Psicologia (CFP) e os Conselhos Regionais de Psicologia (CRPs),
a partir da Lei nº 5.766, de 20 de dezembro de 1971. A criação deste Sistema impactou
a definição do que seria um psicólogo e de quais seriam suas atribuições. Em 20 de
dezembro de 1973, foi instalado o CFP, com a eleição de seus primeiros conselheiros.
No ano seguinte, em 27 de agosto de 1974, foram instalados os primeiros sete Conselhos
Regionais de Psicologia, cujas jurisdições abarcavam todo o território nacional, a saber:
CRP-01 (com sede no Distrito Federal), CRP-02 (com sede em Pernambuco), CRP-03
(com sede na Bahia), CRP-04 (com sede em Minas Gerais), CRP-05 (com sede no Rio
de Janeiro), CRP-06 (com sede em São Paulo) e CRP-07 (com sede no Rio Grande do
Sul). Apesar da maneira como o Sistema Conselhos de Psicologia foi estabelecido, faz-se
mister destacar que: “as sociedades de Psicologia se dedicaram às tarefas de organi-
zação da categoria profissional, das diretrizes de atuação do profissional de Psicologia
e da formação do primeiro plenário do Conselho Federal de Psicologia” (Silva, 2011,
p. 437). Ou seja, uma vez criado o Sistema, a categoria se apropriou do mesmo para
refletir sobre sua atividade profissional e trajetória formativa.
Concomitantemente, as associações de psicólogos já em atividade participaram
da conformação da Resolução CFP 008/1975 que aprovava aquele que ficou conhe-
cido como o primeiro Código de Ética Profissional do Psicólogo (CEPP). A partir de
um documento produzido por Pierre Weil (1924-2008), Amendola (2014) indica que
382
Conselho Federal de Psicologia
Como o trecho destaca, houve participação de entidades vinculadas à Psicologia
e, também, de departamentos de Psicologia que já haviam sido instalados em IES
brasileiras. Outrossim, nos parece que, com o estabelecimento de princípios éticos
e a conformação do Sistema Conselhos, findaram os últimos aspectos necessários
para a profissionalização da Psicologia no país. Com aqueles documentos, haveriam
princípios norteadores de um grupo profissional que serviriam como diretriz para
avaliação e julgamento das ações da categoria profissional em relação à sociedade.
Paralelamente, instituiu expectativas de padrões éticos, com a previsão de potenciais
penalidades para a infração de tais princípios.
No campo acadêmico, neste período, observa-se o surgimento e fortalecimen-
to dos primeiros cursos de pós-graduação (Mestrado e Doutorado) em Psicologia.
Parte das condições deste fortalecimento se vinculam ao mote de que a ciência era
considerada imprescindível para redenção dos atrasos sociais do Brasil, pois ela
permitia o progresso industrial, urbano e social (Schwartzman, 2002). Os métodos
de ensino e o desenvolvimento de pesquisas tornaram-se uma tônica frequente nos
discursos sobre a universidade brasileira (Cunha, 2007). Isso implicava na promoção
e no fortalecimento da comunidade científica brasileira – e.g., em 1948, havia sido
criada a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC); em 1951, o Conselho
Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e a Coordenação de
Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES); e, em 1960, a Fundação de
Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP). Essas agências investiam na
formação de cientistas e na promoção da ciência nacional que coincidiam com as
demandas dos cientistas brasileiros.
Assim, particularmente vinculado à Psicologia, vemos a criação de um Mestrado
em Psicologia Clínica na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ)
em 1966. Em 1970, criou-se um Mestrado em Psicologia Experimental na Universidade
de São Paulo (USP) e, na mesma instituição, em 1974, estabeleceu-se o doutorado na
mesma área. Assim, essa expansão da Psicologia na graduação e na pós-graduação é um
exemplo do desenvolvimento das universidades no Brasil, impulsionadas exatamente a
partir de 1950. (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior, 2013).
De igual modo, outro marco institucional do desenvolvimento da pesquisa
científica em Psicologia nesse período foi a criação da Sociedade de Psicologia de
Ribeirão Preto (SPRP) em 1970, por docentes e estudantes da Faculdade de Filosofia,
Ciências e Letras da USP de Ribeirão Preto (Gorayeb, 2011). No entanto, sua abran-
gência logo se tornou nacional, notadamente por conta do êxito das Reuniões Anuais
de Psicologia, congresso realizado anualmente a partir de 1971. Assim, em 1991 a
383
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
SPRP deu lugar à Sociedade Brasileira de Psicologia (SBP), uma das mais longevas
entidades científicas em Psicologia no país.
Esse período também marcou o desenvolvimento mais acentuado de diferentes
perspectivas teóricas na Psicologia brasileira, assumindo compromisso com o ensino
e a pesquisa, bem como com o retorno à sociedade civil. Nesse último quesito, chama
atenção os ecos entre nós da chamada crise de relevância da Psicologia Social, cuja
emergência enfocava fundamentalmente a dependência dos modelos de atuação
vigentes da Psicologia brasileira de teorias estadunidenses e europeias, questionando
o seu descolamento com a realidade local. No entanto, os efeitos desta “crise” se fize-
ram sentir por todo o campo da Psicologia, a partir de uma autocrítica dos psicólogos
em relação ao que identificavam como um fazer psi de natureza elitista, privatista
e conservadora, centrado na clínica privada individual e consumido hegemonica-
mente pelas classes médias urbanas ( Jacó-Vilela et al., 2016). Tal questionamento
foi bem sintetizado em célebre texto do final da década de 1970 do psicólogo Silvio
Paulo Botomé “A quem nós, psicólogos, estamos servindo de fato?” Naturalmente,
tais discussões estavam influenciadas e entremeadas pela luta em curso para a rede-
mocratização da sociedade brasileira.
Na década de 1980, em meio ao processo de aproximação da categoria dos psi-
cólogos ao processo de redemocratização, novas sociedades científicas foram criadas,
com especial destaque para a Associação Brasileira de Psicologia Social (ABRAPSO)
e a Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Psicologia (ANPEPP).
Vale lembrar que neste período havia um profundo descontentamento em relação
à Psicologia Social estabelecida na América Latina. Dessa forma, Silvia Lane (1933-
2006) liderou no Brasil o movimento que levou à fundação da ABRAPSO. A proposta
feita por Lane e uma comissão de pesquisadores foi efetivada na 32ª Reunião Anual
da SBPC, ocorrida na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), em 1980.
A criação da ABRAPSO visava não só uma Psicologia contextualizada à realidade
latino-americana, mas também levava em conta os processos históricos, culturais,
materiais, econômicos e políticos do nosso país. Sua proposta basilar tinha como
objetivo intervir sobre os “aspectos psicossociais da população brasileira, em uma
perspectiva crítica e transformadora, e levariam ao aprofundamento de métodos
de intervenção psicossocial comprometidos com a emancipação e autonomia das
camadas sociais menos favorecidas” ( Jacó-Vilela, 2011b, p. 48).
É também no contexto do processo de redemocratização do Brasil na década
de 1980 e de expansão na quantidade e variedade de programas de pós-graduação
em Psicologia que se funda a Associação Nacional de Pesquisa e Pós-graduação em
384
Conselho Federal de Psicologia
Psicologia (ANPEPP), especificamente no ano de 1983. Esta entidade surge a partir
de uma proposição do CNPq de reunir sob associações nacionais as representações
de programas de pós-graduação das diversas áreas do conhecimento. No caso da
Psicologia, esta ideia foi gestada a partir de 1981 por Carolina Martuscelli Bori
(1924-2004), que à época era responsável pela área de Ciências Humanas e Sociais
no CNPq. Inicialmente, a ANPEPP foi indispensável para coletar dados sobre a
produção e o funcionamento de programas de pós-graduação em Psicologia, já
que, dada a pluralidade deste campo de estudo, havia um entendimento de que
o conhecimento gerado poderia estar descentrado ao ponto de dificultar a com-
preensão de sua relevância social para o desenvolvimento da área no país. Desta
forma, a partir de dados coletados sobre as pesquisas desenvolvidas nos programas
e em seus variados grupos e linhas de pesquisa, foi possível pensar em uma melhor
forma de organizar e discutir a produção de conhecimento em Psicologia visando
o seu fortalecimento (Macedo, 2011).
Ainda na década de 1980, observa-se ainda um movimento mais intenso de
articulação, a nível nacional, entre as entidades sindicais de psicólogos e associações
profissionais visando a defesa dos direitos trabalhistas da classe, notadamente no en-
frentamento diante de projetos que ameaçavam a atividade profissional dos psicólogos,
como o Projeto Julianelli (PL nº 2.726/1980), de autoria do então deputado federal
José Salvador Julianelli (1917-1990). Este projeto buscava legislar sobre as profissões do
campo da saúde, retirando autonomia e colocando sob a égide médica a supervisão
das práticas de várias áreas, inclusive da Psicologia. Porém, depois de repercussões
e reivindicações o próprio Julianelli retirou a proposta (Scarparo & Ozorio, 2009).
Após discussões realizadas em Encontros Nacionais das Entidades Sindicais de
Psicólogos, que ocorreram entre os anos de 1981 a 1984, foi lançada a necessidade
de se engajarem também com o movimento sindical nacional. Assim, em 1985 foi
fundada a Federação Nacional dos Psicólogos (FENAPSI) que, desde seu início, se
filiou à Central Única dos Trabalhadores (CUT), possibilitando o reconhecimento
dos psicólogos não só como liberais, mas também como uma classe de trabalhadores
que deveria ter condições melhores de vida e trabalho. A FENAPSI então organiza e
representa os sindicatos filiados da categoria, assegurando seus direitos e fortalecendo
a organização coletiva da categoria (Federação Nacional dos Psicólogos, 2009, s.d.).
385
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
FENPB: Institucionalização e articulação da Psicologia
brasileira
A criação do Fórum de Entidades Nacionais da Psicologia Brasileira (FENPB)
ocorreu em 1997. O contexto de sua constituição nos anos 1990 é marcado por um
período de intensas transformações na Psicologia brasileira, tanto no que se refere
à sua expansão institucional quanto por transformações na identidade profissional
e no imaginário da categoria dos psicólogos acerca dos sentidos éticos e políticos
inerentes ao exercício profissional.
No campo da formação e da pesquisa em Psicologia, nos anos 1990 ocorreu um
processo de crescimento quantitativo dos cursos e programas de pós-graduação, bem
como maior qualificação da pesquisa desenvolvida nos mesmos e das publicações
científicas dela decorrentes (Borges-Andrade et. al., 2015; Costa & Yamamoto, 2008,
2016). Como vimos anteriormente, a articulação entre pesquisadores proporcionada
pela criação da ANPEPP e seus grupos de trabalho, bem como pelo desenvolvimento
dos programas e suas respectivas linhas de pesquisas, fez surgir núcleos e redes de
produção de conhecimento, que foram (em diversos casos) base para a consolidação
de coletivos em campos e áreas de atuação/investigação específicas.
Se, por um lado, a agência do CFP foi central na indução, apoio político e su-
porte operacional para a criação de um fórum de reunião e articulação das entidades
científico-profissionais da Psicologia, por outro lado, decerto as condições de desen-
volvimento institucional já estavam em curso. Assim – conforme explicitado nos dois
primeiros capítulos desta obra – a criação do FENPB se demonstrou uma proposta
ambiciosa para uma área caracterizada pela dispersão do saber e pela pluralidade.
Destaca-se ainda o recorte de inclusão para ingresso e composição do Fórum
– entidades nacionais da Psicologia –, abrangendo não somente as entidades de
natureza científica, como também as entidades profissionais e aquelas vinculadas
à formação, de âmbito nacional. Um significativo desafio vivenciado nos anos 1990
para expansão da Psicologia – notadamente no campo da pesquisa e da pós-gra-
duação – era a interiorização e desconcentração do eixo Sudeste-Sul; deste modo,
a articulação pretendida com o FENPB também visava a um alcance efetivamente
nacional das entidades e suas atividades.
Conforme já mencionado – e conforme o FENPB e suas histórias narradas neste
livro apontam – a caminhada da institucionalização da Psicologia não começou com
a criação deste Fórum, ainda que essa tenha fomentado maciçamente esta expansão
386
Conselho Federal de Psicologia
institucional. A Tabela 1 apresenta a distribuição das 27 entidades que atualmente
compõem o FENPB por período de criação.
Período Número
1970-1979 1
1980-1989 3
1990-1999 8
2000-2009 11
2010-2019 4
Total 27
Enquanto a primeira delas – o CFP – foi criada nos anos 1970 e outras três mais
longevas foram criadas nos anos 1980 – a saber, a ABRAPSO (1980), a ANPEPP (1983)
e a FENAPSI (1985) –, observa-se que nas duas décadas seguintes este número sofre
marcado incremento: oito, nos anos 1990, e dez, nos anos 2000.
Por sua vez, a Tabela 2 distingue cada uma destas 27 entidades por ordem cres-
cente de ano de criação.
387
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
Tabela 2. Entidades do FENPB por ordem crescente de ano de criação
Dentre aquelas entidades criadas nos anos 1990, destaca-se a Associação Brasileira
de Psicologia Escolar e Educacional (ABRAPEE) – uma das áreas mais tradicionais e
de marcada importância para a profissionalização da Psicologia do Brasil. O mesmo se
verifica com a área da Avaliação Psicológica, com a criação de três entidades associa-
388
Conselho Federal de Psicologia
das a este campo, a saber: a Associação Brasileira de Rorschach e Métodos Projetivos
(ASBRo), a Associação Brasileira de Orientação Profissional e de Carreira (ABRAOPC)
e o Instituto Brasileiro de Avaliação Psicológica (IBAP). Destacam-se ainda outros
campos profissionais em que se verifica a demanda de inserção da Psicologia nestes
espaços, anteriormente à própria regulamentação: caso da Associação Brasileira de
Psicologia Jurídica (ABPJ), da Sociedade Brasileira de Psicologia Hospitalar (SBPH),
da Associação Brasileira de Psicologia do Desenvolvimento (ABPD).
Completa a relação a Associação Brasileira de Ensino de Psicologia (ABEP),
que se trata, peculiarmente, de uma entidade cuja criação foi iniciativa do próprio
FENPB, em seus anos iniciais. Tal iniciativa partiu da percepção de necessidade de
uma instituição que se dedicasse ao tema da formação em Psicologia, considerando
não somente a importância fundamental que a formação possui para a atuação pro-
fissional e científica em Psicologia, como sobretudo da complexidade de interfaces
que a formação mantém com múltiplos atores: as instituições de ensino superior,
o Sistema Conselhos de Psicologia e demais entidades científicas de nosso campo.
No primeiro decênio dos anos 2000, observa-se não somente um aumento na
criação de entidades, como também é possível perceber a institucionalização de áreas
emergentes da Psicologia, cuja consolidação ocorreu em períodos históricos mais
recentes. É o caso da Associação Brasileira de Psicologia Política (ABPP), da Associação
Brasileira de Neuropsicologia (ABRANEP), da Sociedade Brasileira de Psicologia e
Acupuntura (SOBRAPA), da Federação Latinoamericana de Análise Bioenergética
(FLAAB) e do Instituto Brasileiro de Neuropsicologia e Comportamento (IBNEC).
No entanto, áreas clássicas de atuação também passam a contar com sua entidade
representativa, tais como a Sociedade Brasileira de Psicologia Organizacional e do
Trabalho (SBPOT), a Associação Brasileira de Psicoterapia (ABRAP), a Associação
Brasileira de Psicologia da Saúde (ABPSA) e a Associação Brasileira de Psicologia do
Esporte (ABRAPESP). Ainda no mesmo período, ocorre a criação e organização da
Coordenação Nacional dos Estudantes de Psicologia (CONEP), entidade do movimento
estudantil, assim como da Associação Brasileira de Editores Científicos de Psicologia
(ABECIPSI), em um contexto de maciça criação de novos periódicos científicos e
maior profissionalização da gestão nos mesmos.
Por fim, na década de 2010, observamos também um menor número de en-
tidades criadas e sua vinculação a temáticas mais emergentes, como a Associação
Brasileira de Psicologia Positiva (ABP+), a Associação Brasileira de Psicologia da
Aviação (ABRAPAV) e a Sociedade Brasileira de História da Psicologia (SBHP).
Exceção feita à Associação Brasileira de Psicologia de Tráfego (ABRAPSIT), uma
389
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
vez que a inserção profissional da Psicologia nas questões do trânsito/tráfego tem
precedentes históricos mais antigos, tendo este campo sido já representado ante-
riormente por outra associação extinta (como visto no capítulo correspondente).
Percebe-se assim como a criação do FENPB não somente foi expressão da plu-
ralidade e diversidade institucional do campo psicológico no Brasil, como ela própria
também fomentou a criação de entidades representativas de mais áreas e atuações da
Psicologia no Brasil e, especialmente, a sua articulação em torno de agendas conjuntas
que atravessam tanto a formação, a pesquisa e a atuação profissional em Psicologia
quanto processos sociopolíticos maiores na sociedade brasileira, quais sejam aqueles
relacionados à defesa dos sistemas públicos de educação, saúde e assistência social e
à ampla efetivação e garantia dos direitos humanos e da democracia.
Considerações Finais
Como vimos, a conformação científico-profissional da Psicologia brasileira
foi produtora e produto do cenário de “modernização” brasileira, que vinha arti-
culada com mudanças no ensino superior, na organização das escolas, na formação
“qualificada” para o mercado de trabalho em mudança, dentre outros. Parte dessa
conformação se deu, como vimos ao longo das páginas deste livro, pela organização
daquelas pessoas envolvidas com Psicologia em associações e sociedades científico-
-profissionais, inauguradas a partir dos anos 1940.
Chama especial atenção o papel fundamental destas primeiras entidades na
articulação da nascente categoria em todo o processo político e organizativo da regu-
lamentação da profissão e da própria construção do CFP – instituição que adquiriria,
pelo seu caráter de autarquia federal, uma importância central para os caminhos
da profissão. Ainda que a criação dos Conselhos de Psicologia tenha ocorrido em
meio ao regime de exceção da ditadura civil-militar, observa-se a presença de um
envolvimento ativo de setores da categoria tanto na política da profissão, quanto na
luta pela redemocratização – no país e, internamente, na Psicologia. De igual modo,
observa-se o envolvimento maciço da categoria no fazer ciência e na construção
de políticas científicas para a nossa aérea. Aqui se insere a quase totalidade dos me-
canismos que nos levaram às entidades de que fazemos parte. Dessa diversidade
conceitual, teórica, metodológica e profissional deriva o caleidoscópio institucional
que compõe o nosso campo.
390
Conselho Federal de Psicologia
Nesses 60 anos de nossa profissão regulamentada, acreditamos ser importante
saudar o FENPB como a grande representação concreta do esforço de unidade das
Psicologias brasileiras, em meio à pluralidade e à diversidade institucional, bem como
da aliança de distintos atores pessoais e institucionais para o intercâmbio cada vez
mais profícuo, ética, técnica e politicamente, entre nossa ciência e nossa profissão.
391
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
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395
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
Sobre os autores
Acácia Aparecida Angeli dos Santos
396
Conselho Federal de Psicologia
Ana Maria Jacó-Vilela
Psicóloga Especialista Clínica - Diretora Social FLAAB na gestão atual, Local Trainer
- IABSP.
397
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
Cândida Helena Lopes Alves
Cristiane Faiad
398
Conselho Federal de Psicologia
Cristiano Roque Barreira
Cristina Piauhy
Daniela Boucinha
399
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
Edna Ferreira Lopes
Emília Afrange
Fabiana Queiroga
400
Conselho Federal de Psicologia
Fábio de Cristo
Fauston Negreiros
401
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
Filipe Degani-Carneiro
402
Conselho Federal de Psicologia
Irani Tomiatto de Oliveira
Izabel Hazin
Jesus Landeira-Fernandez
Psicólogo pela PUC-Rio, mestre em Psicologia experimental pela USP e PhD pela
UCLA. Professor Titular do Departamento de Psicologia da PUC-Rio. Foi um dos
fundadores do IBNeC.
403
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
Jonas Marssaro
Kátia Osternack-Pinto
Katia Rubio
404
Conselho Federal de Psicologia
Latife Yazigi
Psicóloga, Mestre e Doutora em Psicologia Clínica pela PUC - São Paulo. Diretora
Científica da FLAAB na gestão atual, Local Trainer SOBAB.
Lucilene Tofoli
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ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
Makilim Nunes Baptista
Marcelo Henklain
406
Conselho Federal de Psicologia
Marcos Ribeiro Ferreira
Marina Massimi
407
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
Mary Sandra Carlotto
Mathilde Neder
Miria Benincasa
Patrícia Izar
408
Conselho Federal de Psicologia
e Pesquisa Helena Antipoff (CDPHA). Foi suplente do Conselho Fiscal da Sociedade
Brasileira de História da Psicologia – SBHP.
Rogério Giannini
409
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
Psicologia da UPM. Presidente atual da Associação Brasileira de Psicologia Escolar e
Educacional – ABRAPEE – gestão 2021 – 2023.
Sabrina Barros
Sérgio Fukusima
Psicóloga pela PUC Campinas, Mestre e Doutora em Educação pela Unicamp. Pós-
doutorado pelo Instituto de Psicologia da USP e pelo Programa de Psicologia da
Educação da PUC - SP. Professora Titular da Universidade Federal de Uberlândia -
UFU. Primeira Secretária da Associação Brasileira de Psicologia Escolar e Educacional
(ABRAPEE) – gestão 2020-2022.
410
Conselho Federal de Psicologia
Sonia Liane Reichert Rovinski
Psicóloga pela USP Ribeirão Preto, especialista em Psicologia da Saúde pela UNIFESP,
mestre pela UNIFESP e doutoranda na USP. Atualmente é docente na PUC-SP e
membro da diretoria da ASBRo.
411
ENTIDADES NACIONAIS DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: O FENPB E SUAS HISTÓRIAS
ABECIPSI ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE EDITORES CIENTÍFICOS DE PSICOLOGIA ABEP ASSOCIAÇÃO
BRASILEIRA DE ENSINO DE PSICOLOGIA ABRAOPC ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE ORIENTAÇÃO
PROFISSIONAL ABP+ ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE PSICOLOGIA POSITIVA ABPD ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA
DE PSICOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO ABPJ ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE PSICOLOGIA JURÍDICA ABPP
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE PSICOLOGIA POLÍTICA ABPSA ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE PSICOLOGIA DA
SAÚDE ABRANEP ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NEUROPSICOLOGIA ABRAP ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE
PSICOTERAPIA ABRAPAV ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE PSICOLOGIA DA AVIAÇÃO ABRAPEE ASSOCIAÇÃO
BRASILEIRA DE PSICOLOGIA ESCOLAR E EDUCACIONAL ABRAPESP ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE
PSICOLOGIA DO ESPORTE ABRAPSIT ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE PSICOLOGIA DO TRÁFEGO ABRAPSO
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE PSICOLOGIA SOCIAL ANPEPP ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE PESQUISA E PÓS-
GRADUAÇÃO EM PSICOLOGIA ASBRO ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE RORSCHACH E MÉTODOS PROJETIVOS
CFP CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA CONEP COORDENAÇÃO NACIONAL DOS ESTUDANTES DE
PSICOLOGIA FENAPSI FEDERAÇÃO NACIONAL DOS PSICÓLOGOS FLAAB FEDERAÇÃO LATINO AMERICANA
DE ANÁLISE BIOENERGÉTICA IBAP INSTITUTO BRASILEIRO DE AVALIAÇÃO PSICOLÓGICA IBNEC INSTITUTO
BRASILEIRO DE NEUROPSICOLOGIA E COMPORTAMENTO SBHP SOCIEDADE BRASILEIRA DE HISTÓRIA DA
PSICOLOGIA SBPH SOCIEDADE BRASILEIRA DE PSICOLOGIA HOSPITALAR SBPOT ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA
DE PSICOLOGIA ORGANIZACIONAL E DO TRABALHO SOBRAPA SOCIEDADE BRASILEIRA DE PSICOLOGIA
E ACUPUNTURA ABECIPSI ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE EDITORES CIENTÍFICOS DE PSICOLOGIA ABEP
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE ENSINO DE PSICOLOGIA ABRAOPC ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE ORIENTAÇÃO
PROFISSIONAL ABP+ ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE PSICOLOGIA POSITIVA ABPD ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA
DE PSICOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO ABPJ ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE PSICOLOGIA JURÍDICA ABPP
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE PSICOLOGIA POLÍTICA ABPSA ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE PSICOLOGIA DA
SAÚDE ABRANEP ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NEUROPSICOLOGIA ABRAP ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE
PSICOTERAPIA ABRAPAV ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE PSICOLOGIA DA AVIAÇÃO ABRAPEE ASSOCIAÇÃO
BRASILEIRA DE PSICOLOGIA ESCOLAR E EDUCACIONAL ABRAPESP ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE
PSICOLOGIA DO ESPORTE ABRAPSIT ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE PSICOLOGIA DO TRÁFEGO ABRAPSO
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE PSICOLOGIA SOCIAL ANPEPP ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE PESQUISA E PÓS-
GRADUAÇÃO EM PSICOLOGIA ASBRO ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE RORSCHACH E MÉTODOS PROJETIVOS
CFP CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA CONEP COORDENAÇÃO NACIONAL DOS ESTUDANTES DE
PSICOLOGIA FENAPSI FEDERAÇÃO NACIONAL DOS PSICÓLOGOS FLAAB FEDERAÇÃO LATINO AMERICANA
DE ANÁLISE BIOENERGÉTICA IBAP INSTITUTO BRASILEIRO DE AVALIAÇÃO PSICOLÓGICA IBNEC INSTITUTO
BRASILEIRO DE NEUROPSICOLOGIA E COMPORTAMENTO SBHP SOCIEDADE BRASILEIRA DE HISTÓRIA DA
PSICOLOGIA SBPH SOCIEDADE BRASILEIRA DE PSICOLOGIA HOSPITALAR SBPOT ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA
DE PSICOLOGIA ORGANIZACIONAL E DO TRABALHO SOBRAPA SOCIEDADE BRASILEIRA DE PSICOLOGIA
E ACUPUNTURA ABECIPSI ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE EDITORES CIENTÍFICOS DE PSICOLOGIA ABEP
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE ENSINO DE PSICOLOGIA ABRAOPC ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE ORIENTAÇÃO
PROFISSIONAL ABP+ ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE PSICOLOGIA POSITIVA ABPD ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA
DE PSICOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO ABPJ ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE PSICOLOGIA JURÍDICA ABPP
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE PSICOLOGIA POLÍTICA ABPSA ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE PSICOLOGIA DA
SAÚDE ABRANEP ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NEUROPSICOLOGIA ABRAP ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE