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Vida

peça de teatro, monólogo
Direitos autorais
© All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
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PANOS 2015

Só há uma vida e nela quero ter tempo para construir-me e


destruir-me
de Pablo Fidalgo Lareo

A única coisa que importa verdadeiramente é o que acontece entre duas pessoas
que estão no mesmo quarto
Francis Bacon

Pagaste o teu bilhete e isso dá-te direitos


Levantem a mão todos os que vieram enganados
Todos os que foram convidados
Levantem a mão as famílias
Levantem a mão os filhos de pais separados
Levantem a mão os filhos de comunistas
Levantem a mão os que se tentaram matar
Levantem a mão os que acreditam que os corajosos morrem primeiro
Levantem a mão os que sentem que pertencem a uma geração falhada

Tu sabes que eu sei que os melhores ficam para trás


Mas eu sigo em frente como se não fosse nada
Eu sei que tu achas que sabes quem eu sou
Mas a minha missão é lembrar-te até morreres
Porque não sabes
Porque não me conheces como se me tivesses parido

Na hora da verdade viras a cara


Porque a minha destruição é mais do que tinhas imaginado
É mais do que tinhas tentado
Não tens autoridade moral para me olhar

1
PANOS 2015

Nem para estar orgulhoso nem decepcionado comigo


Pagaste o teu bilhete e isso faz-te sentir mais idiota
Pagaste para que eu faça alguma coisa
Não há relação possível entre ti e mim
A não ser o mútuo desejo de nos matarmos

O autor desta obra já não existe


O autor desta obra foi desprezado e linchado em praça pública
Milagrosamente salvou-se e escreveu esta carta a partir do exílio
Não há nenhuma pose no meu desprezo
O desprezo vive no meu coração e cultivo-o a cada dia
Para não esquecer o que aconteceu
Estou de pé atrás não confio em vocês
Durmo com os olhos abertos

Pagaste o teu bilhete e vieste ver o que se passa aqui


Eu no teu lugar já estaria decepcionado
Os escândalos estão na tua cabeça
Pagaste o teu bilhete para o mesmo de sempre
Para te mudar a vida
Mas tu e eu já nos conhecemos
Eu já te mudei a vida muitas vezes
E tu nunca te lembras da minha cara

Pensei que nunca mais nos veríamos


Que afastarias a cara que não me cumprimentavas
Mas não o fizeste porque não tens força
Para te opores nem às mais fracas convenções
Não podes com a tua vergonha
No meu desprezo não há nenhuma pose
Desprezo a tua vida como se fosse menos que um bicho
Eu sou o teu país e sofro aquilo a que não estás disposto

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PANOS 2015

Faço os teus deveres

Pagaste o teu bilhete e sentes-te um falhado


Esperas uma explicação que nunca chegará
As tuas incertezas apodrecem
Estou em plena destruição desprezo os que estão cheios de vida
Pede o teu dinheiro ao sair alguém te dará a conclusão
Não insistas mais, ficaste sem nada
Só há uma vida e nela quero ter tempo para construir-me e destruir-me

Pagaste o teu bilhete e isso converte-te num ser vulnerável


Levante a mão quem desejou ter outro corpo
Levantem a mão os adultos que desejaram uma adolescente
Levantem a mão os que iriam para a prisão se realizassem todos os seus desejos
Levantem a mão os que acreditam que a lucidez é devastadora
É assim não é preciso iludirmo-nos mais
Ao menos um ser desta sala desejou ter outro corpo
Homens que desejavam ser mulheres
Mulheres que desejavam ser homens
Todos pensaram na construção
Mas ninguém na destruição

Pagaste o teu bilhete e achas que isso te dá o direito de falar


Mas aqui as regras são outras
Aqui o teu bilhete tira-te o direito ao silêncio
Tira-te o direito a que outros te divirtam
Exige-te que olhes nos olhos a geração que aí vem
Uma geração de futuros pobres
Uma geração que terá de pagar uma dívida
De que nunca desfrutou
Que aceitará leis que nunca votou

3
PANOS 2015

Pagaste o teu bilhete para aceitar as tuas limitações


Tu que és egoísta que te custa dar ou receber
Que construíste a vida no lugar errado
Que construíste o que és sem ter limpado
Os restos da destruição
Pagaste o teu bilhete porque ninguém te aceita
Tiveste de pagar para ouvir a geração que aí vem
Para ouvir o mundo que deixaste
Esta peça é para maiores de 30 só isso
Porque ninguém te contaria
Ninguém confiaria na tua cara se te visse na rua
Ninguém te contaria um segredo nem uma verdade
Pagaste o teu bilhete porque não serves para outra coisa
Aquilo de que gostas é pagar sempre
Sacar do dinheiro e mostrar que o ganhaste

Pagaste o teu bilhete e não te vais embora antes de resolver algumas perguntas
Achas que a nossa alegria será imortal?
Que conseguiremos dá-la a alguém?
Se trabalhas para que os outros esqueçam o mal que fizeste
Pode haver algo mais triste do que consegui-lo?
Disseram-te um preço e tu acreditaste
Mas esse preço é uma ficção
Poder estar com um adolescente não tem preço
Estar ao pé de nós é algo que não poderás pagar nunca
É como se nós os vivos nos aproximássemos dos mortos
Só para os lembrar de que não queremos ser iguais
Que vamos fazer o possível para não sermos adultos trabalhadores
Que não pagaremos bilhetes porque arrombaremos as portas
Que não aceitaremos actos nem convenções
Que esta noite vamos até ao fim Estás a ouvir?
Pagaste o teu bilhete porque és um inútil

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PANOS 2015

Porque és demasiado grande para entrares sem pagar


Pagaste o teu bilhete porque é a tua forma de te conformares
E não gostamos dos que se conformam
De modo que te vamos devolver tudo
Vamos dar-te dinheiro para ires comprar alguma coisa
Porque a vida é cara
Vamos consentir que faças o que quiseres
Damos-te por perdido não vais crescer
Fizeste mal a seres como nós e vens pelo teu perdão
Claro que o terás como é que o queres?
Queres que o assinemos todos?
Queres as nossas moradas saber onde podes encontrar-nos?
É uma piada não te perdoamos

O meu plano no amor é nunca procurar o amor


O meu plano é criar uma obra literária musical tão grande
Que todos se emocionem e venham ter comigo
De certeza que já pensaram nisso
Não há nada mais sujo e penoso do que o amor de hoje
A procura aproximares-te de alguém conhecê-lo que preguiça
O amor ideal é a admiração é que alguém se renda diante de ti
Por isso estudo tanto
Um dia escreverei um livro tão estranho e tão belo
Que haverá uma selecção natural
E a pessoa certa tocará à minha porta

Não serei como os meus pais ou os meus amigos


Não vou andar a experimentar vou procurar a obra perfeita que saia de mim
E vou pô-la no mundo
Vou deixá-la na rua
E vou esconder-me a vigiá-la
Alguém parará diante dela e virá procurar-me

5
PANOS 2015

Eu vou esconder-me e verei como vem dia após dia para ver a minha obra
Sou um ser mais evoluído do que os restantes
É o que penso e muita gente mo diz
Estou noutro lugar no lugar de fazer uma obra
No lugar sagrado de ter que cumprir diante de deus
Mas sabendo que a sua vinda ao mundo terá forma humana
Que me vai reconhecer pelos meus actos

Levante a mão aquele que conheceu pessoas pela internet


Levante a mão aquele que achar que o amor da sua vida virá da internet
Levante a mão aquele que acha que amará os dois sexos
Levante a mão aquele que fala com desconhecidos
Levante a mão aquele que teve medo da sua beleza
Levante a mão quem acha estar a fazer da sua vida uma obra de arte

O meu plano é criar uma obra tão grande


Que toda a ideia de amor seja destruída
Que a minha obra contagie as outras
Que venham procurar-me a casa e que comece uma grande perseguição
Que alguém me diga já podes descansar
Não me vou ficar pela primeira ideia
Vou trabalhar a inspiração e tocá-la de madrugada quando acordar
Irei mais além do que foram todos com as palavras
Farei algo superior ao livro
Para te dizer que o nosso amor não será como os outros
Não se poderá ler não ficará registado
Farei uma grande obra e tu vais saber mas não ficará rasto
Vamos encontrar-nos numa margem num espaço sem nome
O meu plano é desaparecer com aquele que me reconheça
Como se reconhece um filho de deus
O meu plano é escapar com aquele que quiser ser contagiado por mim
Isto é possível?

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PANOS 2015

O meu plano baseia-se em não conhecer o mundo nem querer conhecê-lo


Confio em que não me contes o que é possível e o que não é
Confio no teu juízo e em que não aplaudas
E me deixes fazer aqui dentro a minha grande obra
Rezo para que em algum lugar do mundo estejas a nascer
Rezo para que te estejas a construir
O meu plano para o amor é construir-me sozinho e destruir-me contigo

Um dia quis que os meus pais saíssem à rua para olhar o céu
Para lhes contar quem eu era sem ter que os olhar
Quis uma noite que os meus pais se detivessem no mundo comigo
Para lhes lembrar as consequências do seu amor
Levante a mão quem acha que pude dizer-lhes quem era
Quem achar que consegui que olhassem o céu
Levantem a mão os meus pais
Levantem a mãos os que acham que tiveram sorte na vida
Levantem a mão os que acreditam no trabalho

Gosto de cortar a onda dos outros


Gosto de fazer os outros conscientes de que vão morrer
Gosto de os fazer pensar que um dia vão ficar doentes
E vão passar por períodos de dor física e mental
Gosto de lembrar a parte má da vida
Acho que sei fazer isto bem tenho-o sempre presente
Fizeram-me mais mal do que a vocês todos juntos
Não sei como posso atrever-me a dizer isto
Não sei como é que o medi mas medi-o
Vi que a família é uma doença impossível de extirpar
Em minha casa tratavam-me mal e então pensei
Que essa era a regra e que no mundo te tratavam mal
E ainda carrego este peso dentro e vou carregá-lo até ao fim
E não me envergonha porque isso também me distingue

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PANOS 2015

Acostumas-te a ser maltratado em casa


E parece-te lógico que te tratem mal na rua
E que te tratem mal na escola
E que algumas vezes te batam ou te chamem um nome que não é o teu
E achas que o teu corpo é imperfeito
Quando na verdade é perfeito como nenhuma outra coisa na terra
Acostumas-te a ser feio a ser diferente
E vais-te separando da terra sem te aperceberes
Toda a infância é um inferno
Diz-me tens medo deste vocabulário que aqui se escolhe?
Que ideia do mundo se passa aqui?
Que amor se propõe? Persegue-se a diferença?
Já percebeste sobre que é esta peça?
Que mundo achas que pode nascer de adolescentes que passam o seu tempo
assim?
É o que tu escolheste
São as palavras que formam o mundo e diante das quais estás imóvel

Estamos a fazer isto porque queremos


Sai-nos de dentro como nos sai procurar o amor
Sai-nos porque achamos que nascemos com algo que é preciso proteger
Com algo que precisa de medidas especiais
Com algo que precisa de uma excepção
Não tentes aplicar a lógica
Da próxima vez que te pedir para olhar o céu
Sai comigo de casa e olha o céu
Porque vai ser uma questão de vida ou de morte
Falo em nome de todos nós
Temos uma luz que não é deste mundo
Temos uma luz porque encontrámos os seres certos
Temos luz porque continuámos quando os outros se aborreciam

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PANOS 2015

Porque confiámos no olhar da incerteza do medo

Estamos aqui porque decidimos ter medo juntos


Quanto nós quisermos e não quando outros nos digam
Porque decidimos mudar os nossos corpos juntos
Porque decidimos ferir-nos e transformar-nos
E levantar a mão sobre nós mesmos
Estamos aqui como mais uma possibilidade
E não te vamos perguntar se queres vir connosco
Ou se te convencemos
Vamos simplesmente esperar um gesto claro
Que não nos faça pensar que não és um traidor
Que só te deixaste levar que não viste o teu limite

Vamos simplesmente esperar que olhes o céu


Que hoje está aos nossos pés
Vamos esperar que vejas a estrela fugaz
Para que possas pedir um desejo
Como fazem os homens que provocaram dor

E ontem quando eu tinha de pedir um desejo


Pedia para ser perdoado
Mas agora que estou convosco
Que percebi a natureza humana
Agora que olho o céu
E que vejo estrelas todos os dias
Peço para não ser perdoado peço para ser lembrado
A diferença é essa
Deixar de sentir culpa
Para sentir tudo o resto

Levantem a mão aqueles que vieram destruir os seus pais

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PANOS 2015

Aqueles que acham que os seus pais não suportam a vida


E por isso tiveram filhos
Aqueles que acreditam que a destruição se herda
Levantem a mão aqueles que neste momento se sentem vigiados

Sou uma estrela


Olho o céu e penso que tudo é uma festa
Demasiado bem feita com música demasiado boa
Que acreditámos no engano que nos demorámos demasiado
Que esta diversão não é deste mundo
Sou uma estrela e nada me pode fazer sombra
Porque a minha luz é de um mundo que ainda não chegou
É uma luz que viajou mais depressa que todas as outras
O meu corpo é uma aceleração do tempo e do espaço
Explorei-o e vocês não
Todo o homem aspira a mudar a forma
Que a humanidade tem de perceber o mundo
Todo o homem aspira a que uma estrela tenha o seu nome

O homem é a maior construção


Por muito que se destrua dia e noite
O homem é o único ser que não esquece que há tempo para tudo
Que temos o dever de experimentar tudo
A alegria da acção e o fogo
E a destruição até à morte
O homem é o único ser que pode ganhar a sua morte
Que a trabalha que a planifica
Levante a mão quem alguma vez pensou
Que a sua vida seria uma obra de arte incomparável
Levante a mão quem comeu o mundo
Levante a mão quem quiser voltar aos 3 anos

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PANOS 2015

Sou muito novo para perder já os meus pais


Para perder os meus irmãos e os meus avós
E no entanto sei que os perdi
Que me viram separar-me silenciosamente
Para me dedicar dia e noite à minha dor e ao meu desejo
E não puderam fazer nada
Sou uma estrela
Sou alguém que obedece a ordens de outro mundo
Sou alguém que raciocina aqui mas que vive além
Sou muito novo para ser já recusado
Sou muito frágil para a imensa mensagem que trago
E em verdade te digo que não sei o que pode acontecer a alguém como eu
Quando acabar a peça
A minha alegria não vai morrer nunca
Vim ao mundo para estar para ser visto para ser tocado para ser experimentado
E não tenho uma missão não sou tão fácil de resumir
Pertenço a um género que está a nascer

Fui educado por seres que achavam que me podiam ensinar


Por seres que me julgaram impossível
Educaram-me corpos mortos e mentes moribundas
Por isso cheguei até aqui fugindo deles
Fui educado para uma época que não chegará
Fui educado com uma linguagem
Que vi morrer na boca dos meus pais
Casas carros viagens filhos projectos de vida

Sacrifico tudo por ser uma estrela


Em vez de me salvar por baixo salvo-me por cima
Quebro as regras e levanto a mão
Levante a mão quem for um náufrago numa ilha
Levante a mão quem acha quem acha que assim

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PANOS 2015

Tem mais possibilidades de ser resgatado


Levante a mão quem gosta de cantar e tocar
Sacrifico tudo para não voltar a ser incomodado
Sou a estrela deste fim de festa que ninguém quer organizar
Sou a estrela de todos aqueles
Que viveram acima das suas possibilidades
Sou a estrela de todos os filhos abandonados à sua sorte

Estou perdido entre tantas solidões


Entre tantos seres que tentam educar-me sem um plano
Que dizem que não há tempo para tudo
Estou perdido entre tantas contradições
Levante a mão quem achar que há tempo para tudo
E se não há tempo para tudo hei-de construir-me ou destruir-me
Se não há tempo que hei-de escolher
Os meus pais querem ver-me construído
E eu quero mostrar-lhes a minha destruição o meu corpo imperfeito
O meu desejo selvagem
Que hei-de fazer se não há tempo para construir-me e destruir-me
Que hei-de fazer se não há tempo
Que hei-de fazer se vejo que dormi demais
Que hei-de fazer se não dei o melhor e o pior de mim
Que hei-de fazer se estou diante de ti meu único amor
E já te apercebeste de que não fiz os trabalhos de casa
Que não sei como entregar-me àquilo que amo
Que só sei destruí-lo

É preciso acabar com o trabalho com as escolas com o profissional


É preciso fazer as coisas por amor por intuição
Só há uma vida e nela só há tempo
Para fazer um pouco de teatro amador
Para ser a estrela de todos os amadores do mundo

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PANOS 2015

Para não ter medida

Aqueles que não exigem a si próprios exigem-nos a nós


Aqueles que não se julgam julgam-nos
Não reconheço a autoridade deste tribunal
De forma nenhuma
A minha palavra está iluminada por deus
Fiz o que tinha de fazer
Era um gesto claro épico era um gesto deste mundo
Que tornava a vida mais bela

Estou sozinho com a minha imaginação


Sozinho com aqueles que se riram de mim
Sozinho com a minha diferença de nascimento
Sozinho com os meus genes e a minha imperfeição
Nunca hás-de perceber a minha vida
O meu objectivo não é ganhar dinheiro para o gastar
O meu objectivo é ganhar dinheiro para pagar a outros
Para matarem os que se riram de mim na escola
Ganhar dinheiro para pagar a um advogado
Que justifique bem que eles me deram cabo da vida
Não quero viagens nem carros nada
Quero ter dinheiro para fazer justiça e consertar a minha história

Quero ter dinheiro para convidar mil palhaços para a minha festa de anos
Para poder pagar às pessoas que venham à minha festa de anos
Quando tinha 10 11 12 13 anos convidava pessoas para o meu aniversário
Mas ninguém vinha e a minha mãe consolava-me
Não achava que se passasse algo de grave
Apenas que as crianças são cruéis
E alguém tem de pagar
Paguei eu

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PANOS 2015

Sei que as acções absurdas são as que têm êxito


Porque são as únicas que param o tempo dos outros
As únicas que os fazem pensar
Portanto fazem falta palhaços aqui dentro
Quando havia palhaços nos aniversários
Eu perseguia-os e entrava na casa-de-banho
Para que se apercebessem de que eu os tinha descoberto
Que faziam um papel
Que não eram sempre assim

O meu objectivo é ganhar dinheiro para o queimar


Viste O Sétimo Continente de Haneke?
Nesse filme uma família alemã inteira suicida-se
Em tudo o que fazem seguem um ritual muito limpo
A dada altura tiram toda a sua fortuna do banco
E atiram-na toda sanita abaixo
Só nesse momento te apercebes de que não há volta atrás

Quero que paguem e que se faça justiça


A vingança pode ser reparadora
O meu objectivo é deixar dinheiro a desconhecidos
É deixar dinheiro a pessoas da lista telefónica
O meu objectivo é ganhar a minha morte
O palhaço fechava-me sempre a porta
Não queria ser reconhecido porque de qualquer forma
Era um palhaço por hobby ou amador
Sabia que não era suficientemente bom
Para enganar uma geração como a nossa

A quem terá ocorrido a ideia de chamar palhaços amadores?


A quem terá ocorrido a ideia de dar cabo dos ofícios um por um?

14
PANOS 2015

A quem terá ocorrido fazer o dinheiro tão frágil?


Isto é uma peça sobre o dinheiro
Sobre o que alguém pode pagar a desconhecidos
Para realizar as suas fantasias
Esta é um peça sobre pais que nos perdem sem se aperceberem
Esta é uma peça sobre seres de idades diferentes
Apaixonando-se para sempre sem se aperceberem
Esta é uma peça para aqueles que ainda têm medo dos palhaços e dos disfarces
Esta é uma peça para meter medo sem saber porquê
Esta é uma peça para aqueles que só desejam vozes
Que só beijam vozes
Que só procuram a voz do outro para ficarem com ela
Esta é uma peça para os que acham que roubar é o mínimo que se pode fazer

Não nos salvarão os nossos pais nem os nossos avós nem os nossos irmãos
Não nos salvarão os estudos nem os contactos
Não nos salvará uma vida demasiado abstracta nem demasiado real
Não nos salvará aprender como funciona o mundo
E movermo-nos nele como os demais
Não nos salvará estar no sítio certo no momento preciso
Vai salvar-nos a nossa impaciência
Vai salvar-nos o vento o ar o mar o fogo

Não nos salvará o passado nem o presente


Não nos salvará o trabalho nem o clima nem os mortos
Não nos salvarão os amigos nem os amores
Não nos salvarão como povo nem como raça

Estamos aqui para garantirmos


Que na próxima hora vão estar cheios de vida e de tudo o que pode acontecer
Estamos aqui para vos contagiarmos com a nossa energia excessiva
Que nunca compreenderam de todo

15
PANOS 2015

Estamos aqui para brincar a sério


Estamos aqui para ensaiar o futuro

Levante a mão quem tiver perdido o amor por não saber falar
Levante a mão quem tiver perdido todos os amores
Por não saber falar por não saber explicar-se
Levante a mão aquele que alguma vez na vida
Desejou a maneira de falar de outro
Levante a mão quem odiar o seu povo
Quem achar que se o seu povo desaparecesse da terra
Não se perderia nada de valioso
Levante a mão quem se tiver sentido mais querido pelos avós do que pelos pais
Levante a mão quem prefere a noite ao dia
Levantem a mão os que vivem à espera do fim-de-semana e das férias de verão

Levante a mão o que tiver limpado merda a um doente


Levante a mão quem se tiver prostituído
Levante a mão quem achar que há razões para ser violento
Os rancorosos, os exigentes, os autodestrutivos, os autodidactas,
Os que quando dizem toda a verdade
Têm a sensação de mentir
Levantem a mão os que sentem que nasceram na agonia do mundo
Os que pensam diariamente na altura em que a terra não existir
Os que acham que ainda não sabem fazer amor
Os que não são capazes de seguir uma história convencional
Os que acham que uma imagem diz mais que mil palavras

Levantem a mão os que acham que nunca terão um filho


Nem plantarão uma árvore
Nem escreverão um livro
Os que por convicção acham que não se deve ter filhos
Os que acham que os filhos devem a vida aos pais

16
PANOS 2015

Os que acham que é cruel pôr os pais num lar


Levantem a mão os que acharem que esta é uma peça exigente
Os que estão a ficar aflitos
Levantem a mão os que tiverem pensado no fim da peça
Os que preferem ser agredidos a encerrados
Os que acham que o amor é uma luta
Que serve para melhorar

Levante a mão quem achar que o amor


Tem de pôr em causa as nossas bases
Os que estão fascinados pelo Japão
Pela Itália
Pela Rússia
Pelos Estados Unidos
Os que vêem pornografia na internet com regularidade
Os que sentem que a sua cabeça defende um mundo e o corpo outro
Levante a mão quem tiver conhecido o seu par pela internet
Os que não têm vergonha e querem aprender a falar
Os que acham que a comédia é superior ao drama
Os que acham que a vida já tem tristeza suficiente

Levantem a mão os que se arrependem de ter vindo


Os que acreditam no sexo sem amor
Os que se fecharam num quarto durante dias com o seu par
Para se construírem e destruírem e gritarem e fazerem amor
Levantem a mão os que tiverem mudado de opinião a meio da discussão
Os que mudaram as regras a meio do jogo
Os que atacaram pelas costas
Os que desejam ser julgados mas não encontram ninguém
Com quem possam falar como um igual

Levante a mão quem não quer dormir sozinho esta noite

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PANOS 2015

Levantem a mão os que vão dormir sozinhos


Levante a mão quem esteve a peça toda a olhar sempre para a mesma pessoa
Levante a mão quem pensa que seria perfeito apaixonar-se aqui dentro
Levantem a mão os que acham que a vergonha é revolucionária
Levantem a mão os que pensaram que isto ia ser fácil

Repete comigo: nunca mais vou desejar que as coisas sejam fáceis.

Levante a mão quem nunca tiver estado numa assembleia


Quem achar que o bom desenrolar de uma assembleia
Fala sobre a cultura democrática dos que nela participam
Levante a mão quem questionar a ideia de democracia
Quem achar que há tantas palavras sem valor
Que deveríamos inventar outra vez a língua portuguesa
Esta peça parece feita a pensar em ti
Parece que nos importa realmente o que pensas

Agora acaba a tua voz e começa a crua realidade


Levante a mão quem tiver visto a Joana d’Arc de Bresson
Todos os adolescentes somos a Joana d’Arc
E só temos a palavra para nos defendermos
O nosso próprio Deus
Quando tinha nove anos começaram a rir-se de mim
E chamavam-me um nome de que eu não gostava
Foi só uma disciplina mas nunca o esqueci
E continuo a viver como um perseguido
Como se pudesse voltar a acontecer-me

Pergunto-me se a minha família se apercebeu


Ou se assobiaram para o lado
Agora percebo que algumas vidas
São perseguidas desde a escola

18
PANOS 2015

E os adultos admitem essa perseguição


Porque não suportam o que é diferente
Porque não suportam as vidas que não entram nas categorias
E ameaçam a ordem da mediocridade

Se se quiser sobreviver a isso


É preciso apaixonar-se pela sua própria história
É preciso iluminar-se a si próprio
É preciso limpar o sangue e inventar tudo
Identificar-se constantemente em qualquer situação
E então vestes o disfarce de juiz
E chama-los a depor
A reconhecerem-se culpados
E assim entras no mundo dos adultos
Isto é esgotante
Muito poucos sobrevivem

Este tribunal não tem legitimidade para me julgar


Porque não é capaz de aguentar a pressão
Sou um exilado
Só falo na presença de um advogado
E o meu advogado é deus
E assim acabarão a chamar-te mal-agradecido
Por lhes falares de todos os seus erros
E não é verdade
Estou agradecido por me terem fodido a vida
E por ter sobrevivido à escola à minha família
Estou agradecido aos meus colegas de escola
Por não me terem matado
Mas não posso dizer que vim a ser a quem sou
Graças a eles

19
PANOS 2015

Estou agradecido a todas as bestas


Por me terem ensinado como é a cara
De um juiz que não tem legitimidade

Levante a mão quem pensar que isto está quase a começar


Quem deixou de votar
Quem não votará nunca
Quem quiser deitar-se com alguém deste círculo
Levante a mão quem achar que fará do seu desejo a arte da sua vida
Levante a mão quem teve um namorado maior de idade
Quem deixou esse namorado ir ao portão da escola
Quem o mostrou com orgulho
O autor desta peça foi perseguido e denunciado
Só pode ser salvo por alguém
Que não conheça a lógica desumana das relações
Por alguém que confunda tudo

Suponho que já se aperceberam


De que estão a assistir a uma história de amor imensa
Uma verdadeira história política
Grandes gestos que defendem grandes palavras
Levante a mão o autor desta peça
Levante a mão quem quiser dançar comigo enquanto fico mais velho
O autor desta peça está disposto a trocar a história da literatura
Trocar todo o Pessoa e todo o Herberto Helder
Por um minuto a ver-me dançar
Por ver-me durante um minuto a tocar no cabelo
A minha missão é falar-vos dele
Porque a ele não o deixam passar a sua mensagem

Enviei ao autor disto um vídeo a dançar no meu quarto


Sem parar de mexer-me durante horas

20
PANOS 2015

Para que se inspirasse em mim


Para que visse que eu estava salva
E entregue ao que vier
Enviei-o como antigamente se enviavam fotos
Aos soldados que estavam na guerra
Para que não se esquecessem da sua vida verdadeira
A minha vida está constantemente em perigo
Por causa da minha beleza da minha inteligência da minha falta de cuidado
Por causa do desejo de que me acontecem mais coisas do que aos restantes
Por causa da minha vontade de ser olhada desejada
Está em perigo por causa de todos os que não vêem o limite
O autor desta obra é um exilado
É um homem que tenta pôr o seu desejo doente
Num lugar onde não faça mal a ninguém
Que tenta dar palavras à imensa dificuldade de continuar
Sem ser um medíocre
Que tenta contagiar todos com a necessidade de não cumprir a lei
Levante a mão quem quiser receber um beijo

Às vezes imagino que vou pela rua


E os maiores de 30 pedem-me desculpa
Por não terem lutado o suficiente
Que entro nesta sala e todos os maiores
De 30 anos me pedem desculpa
Por não terem sido corajosos por não lutarem por um país um pouco melhor
E então digo-lhes assim sim
Assim vamos poder entender-nos

Agora para acabar vamos ser um pouco mais claros


Levante a mão quem achar que não fomos claros
É preciso comer como bestas é preciso tocarmo-nos como bestas
Como animais selvagens como seres por fazer

21
PANOS 2015

Devemos morrer com o olhar brilhante


Como degenerados como depravados
Como os que procuram no seu corpo um corpo mais profundo
Porque alguns temos que ser outra vez os primeiros

Agora para acabar vais ver-nos comer


Vais ver-nos devorar a carne
Não compreendo que alguém não coma carne
De onde lhes vem a raiva aos que não comem carne?
Agora vamos reconhecer que alguém nos marca o caminho
Para que o nosso desejo seja mais autêntico e belo
O desejo do final de uma época
Levante a mão quem continua sem respostas
Levante a mão quem tem medo
Levante a mão alguém
Só pelo prazer de levantar a mão

Tenho 15 anos
A Europa já me morreu demasiadas vezes nos braços
Vocês não têm essa sensação?
A sensação de que os vossos pais vos beijam e vos morrem nos braços?
A sensação de que os vossos amores e amigos vos morrem?
Desde que fiz 10 anos ouço que vamos viver pior que os nossos pais
Que tudo o que foi conquistado numa luta de anos se perdeu
Desde os 10 anos ouço que devo estudar, competir, emigrar
Que não ame o que tenho aqui

Até aos 10 anos educaram-me como se fosse deus


E desde então meteram-me tanto medo
Que não sei a que parte devo ligar
Desde os 10 anos tenho medo de acabar na rua
De perder tudo

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PANOS 2015

Vejo os vagabundos e sinto-me um igual


Não se vêem ali daqui a uns anos, pagando pelos pecados de outros?
Tenho 15 anos e o medo está tão entranhado
Que nenhuma ideia que tenha vai crescer livre

Cada ideia que tenha vai ser filha do medo e da contradição


Desde os 10 anos que vejo ofertas de trabalho
Desde os 10 anos que poupo dinheiro
Quem vai conseguir os seus objectivos é quem tiver mais medo
O que viver menos e o que competir mais
O que compreenda que o inimigo fala a sério
O que aprenda a falar a língua do medo
O que assuma que somos um estorvo

Tenho 15 anos no sul de Portugal


No sul do sul
E sei que o dinheiro é lixo
E sei que os meus pais só falam de lixo
Porque não são capazes de viver a sério
Que a nossa vida nunca se vai medir pelo dinheiro
E sim por algo muito menos tangível
Os nossos avós lutaram em guerras
Estavam a favor ou contra alguma coisa
Os nossos pais já não
Não acredito no mundo deles
Não acredito na dívida
Não acredito nessa vida dividida em dois
Antes e depois da crise
Alguém virá a morrer nos vossos braços
Deixem-no morrer dizendo
Que não tinha idade para fazer uma coisas dessas
Que não tinha que arcar com isso

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PANOS 2015

Nós nascemos numa época sem nome


Por isso procuro mais além que os outros
E não pergunto o que posso ou não posso fazer
O que posso ou não posso ler

Tenho 15 anos na Europa


Cada minuto que passa o meu país fica pior
E eu fico cada vez melhor
Porque de alguma forma quero a ruína deste sítio
A ruína do senso comum aplicado a tudo
Amo o meu país mas não posso aceitar a sua inocência
Amo a Europa mas não posso aceitar a sua música repetida

Dizem que me prepare para o pior


Mas como imaginar que o pior para eles é o pior para mim
Tenho 15 anos e se me vissem agora a comer mijar ou fazer amor
Perceberiam que a minha lógica é outra
E que eu não vou pagar a dívida de ninguém

Vou-te explicar o mundo


De tanto em tanto tempo os homens precisam de um manifesto da pureza
Se não tenho para comer vou roubar
Sei roubar sei entrar sem pagar em comboios e autocarros
Sei fazer com que a roupa mais feia pareça bonita
Dizem-nos para estudar para não acabarmos na rua
Mesmo que eu tenha visto o meu avô na rua
O destino de um homem é voltar ali
Pôr lá fora a cadeira à porta de casa e conversar e jogar com os amigos
E olhar o horizonte mesmo que às vezes seja uma rua

Para que é que fomos feitos?


Nascemos de amores verdadeiros?

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PANOS 2015

Fomos criados porque havia um amor?


Nascemos de uma coisa explicável ou inexplicável?
Imaginei para ti uma coisa que se parece com a vida
Mas que a supera
Saio à rua e penso que acabarei ali
Porque sou frágil e o meu amor e o meu medo
Não me vão deixar proteger a minha economia
O amor louco vai impor-se a tudo e vai destruir-me
Eu sei e tu sabes e por isso tens tanto cuidado

Viste-me dançar na rua


Viste-me nas minhas contradições
Nem as compreendes nem gostas delas
Mas também não as tentas matar
Para viver preciso de me imaginar o tempo todo
Diante de alguém que é capaz de me julgar
E só alguém que vive na rua tem essa autoridade
Tenho a palavra porque sou bela
Sou bela porque tomo a decisão de falar antes dos outros
Tomo a decisão porque aprendi a ser rápida
A mexer-me como um animal selvagem com medo
Só sei agitar o que vejo
Não sei tirar o melhor dos outros
Não sei fazer com que os outros pensem ou sintam mais
Só sei agitar
Disparar contra a imobilidade
Dançar e destruir
Ataco onde dói mais
Não tenho outra vocação para além de falar ouvir fugir
Queres saber onde aprendi a mexer-me assim
Aprendi sozinha
Queres uma fórmula para perceber

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PANOS 2015

Queres saber o que vem detrás

Aprendi tudo sozinha


A minha virtude é passageira
Não se pode estabelecer nem comprovar
Só a vê quem tem tempo e paciência
Portanto estou disposta a dar a vida por uma coisa qualquer
Estamos a renascer
Pais quero viver aqui sempre
Agito-te porque sou a única que não quer estar noutro lugar
A única que não quer ter a vossa vida
A única que se atreve a dizer-vos que quero uma vida pior que a vossa
Porque vocês que tiveram tudo
Ainda não me conseguiram explicar porque é que estou aqui
Vivo cada vez pior para ser o começo
De um renascimento que não vou ver

Tenho 15 anos
Pergunto-me o que é que ainda espero
Para além de ser um mártir e de ser a verdade
De trazer comigo uma lucidez que ninguém tem
Espero que alguém venha ter comigo e me diga
Que quer construir uma vida comigo?
Dir-lhe-ei só vou construir o que se possa destruir

Tenho 15 anos
Vocês ficariam conformados ao saber que depois disto
Vou ter uma vida feliz
Mas não acho sinceramente que vá ter uma vida feliz
Terei uma vida exemplar
Uma vida de lutadora
Mas não uma vida feliz

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PANOS 2015

Vocês ficariam conformados ao saber que vou trabalhar


Vou ter filhos criar uma família e viver uma longa vida
Mas eu não me conformo

Estou convencida de que as únicas vidas que valem alguma coisa


São as que transformam o presente
E para isso não faz falta ter pais
Que te façam sentir a melhor
Para mudar as regras é preciso estudá-las uma a uma
Não chega roubar ou dançar ou fazer teatro
É preciso fazer política verdadeira na rua

Eu vejo-vos e penso que são a lei e que estão contagiados


Mas se me der tempo penso que talvez não estejam
Viajei sozinha escapei
A minha vida toda nestes 15 anos foi um esforço
Para dizer que existo
Sou só desejo mas está tudo morto
E quanto mais sinto a morte de tudo mais desejo tenho

Talvez o conflito de gerações seja saudável


Mas desde que sou pequena sei que não posso esperar nada de ninguém
O que não encaixa é que vivam como inúteis
Deixando tudo para depois
Eu nasci no fim da civilização
Vejo o fim em cada uma das vossas caras

Sei o que se faz aos miúdos como eu


Guerreiros sem guerra crentes sem deus
Ardem numa fogueira invisível como a Joana d’Arc
Este discurso parece que não vos leva a lado nenhum
Sei disso porque pensei muito no que estou a dizer esta noite

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PANOS 2015

Espera-se que deixe de pensar como penso


Ninguém espera que os seus filhos venham despojá-los da verdade
Mas isto é uma absoluta despossessão

O mundo está todo morto


Só alguns adolescentes no sul do sul
Vivem ainda e lutam pela sua vida
Digo-te que nunca deixes de falar aos teus pais
Mesmo que saibas que não te podem ouvir
Está tudo mal feito é preciso recomeçar
Pergunta-lhes
Como é a cara de alguém que acha que é preciso ser melhor
De alguém que acredita na educação
De alguém que aposta em viver?
Como é a cara de um humanista?
A cara de alguém que acha que isto é apaixonante?
Como é a cara de alguém que quer vir ao mundo?
Não sabes? Será porque ninguém quer vir?
Diz-me tenho cara de ter pedido para vir a este mundo?

As coisas só se partem
Quando há um acidente uma doença ou uma guerra
Nada se parte com as ideias
Esta noite algo feito com palavras
Vai mudar a tua ideia do medo
Olhas-me e perguntas-te se sei o que estou a fazer
Se sei o que estou a tocar
Se sei o risco que assumo

Se sei o risco que assumo


Porque sei que a tua inocência é o cancro de hoje
E não se pode curar

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PANOS 2015

Pensa em todas as vezes em que durante esta peça


Quiseste levantar a mão e não o fizeste
Levantem a mão os que tiveram vergonha
Os que choraram durante esta peça
Levantem a mão os que não tiveram sorte na vida
Levantem a mão os que levaram pancada quando eram crianças
Levantem a mão os que na rua se afastam sempre
Levantem a mão os pobres
Levantem a mão os que nunca fizeram amor
Levantem a mão os que nasceram num corpo errado
Levantem a mão os que ainda têm forças
Levantem a mão os que sabem a resposta

Pagaste o teu bilhete não levantaste a mão e isto é o que há


Repete comigo: Só tenho uma vida e com ela tapo-me quando já não posso mais
Só há uma vida e nela quero ter tempo para construir-me e destruir-me

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