0% acharam este documento útil (0 voto)
190 visualizações5 páginas

Análise de Poemas de Fernando Pessoa

O texto descreve como a obra de Fernando Pessoa é frequentemente citada nas redes sociais de forma inadequada, com citações falsas ou fora de contexto. A autora critica esta apropriação superficial da obra do poeta e sugere substituir uma citação pessoana por versos de um rapper que expressam melhor a história e identidade portuguesa.

Enviado por

alexmelo28
Direitos autorais
© All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato DOCX, PDF, TXT ou leia on-line no Scribd
0% acharam este documento útil (0 voto)
190 visualizações5 páginas

Análise de Poemas de Fernando Pessoa

O texto descreve como a obra de Fernando Pessoa é frequentemente citada nas redes sociais de forma inadequada, com citações falsas ou fora de contexto. A autora critica esta apropriação superficial da obra do poeta e sugere substituir uma citação pessoana por versos de um rapper que expressam melhor a história e identidade portuguesa.

Enviado por

alexmelo28
Direitos autorais
© All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato DOCX, PDF, TXT ou leia on-line no Scribd

ESCOLA

GRUPO I

Apresente as suas respostas de forma bem estruturada.

PARTE A

Leia o poema.

XXIV – O que nós vemos das coisas são as coisas


 
O que nós vemos das coisas são as coisas.
Porque veríamos nós uma coisa se houvesse outra?
Porque é que ver e ouvir seria iludirmo-nos
Se ver e ouvir são ver e ouvir?
 
5 O essencial é saber ver,
Saber ver sem estar a pensar,
Saber ver quando se vê,
E nem pensar quando se vê,
Nem ver quando se pensa.
 
10 Mas isso (triste de nós que trazemos a alma vestida!),
Isso exige um estudo profundo,
Uma aprendizagem de desaprender
E uma sequestração na liberdade daquele convento
De que os poetas dizem que as estrelas são as freiras eternas
15 E as flores as penitentes convictas de um só dia,
Mas onde afinal as estrelas não são senão estrelas
Nem as flores senão flores,
Sendo por isso que lhes chamamos estrelas e flores.
“O Guardador de Rebanhos”. In Poemas de Alberto Caeiro. Fernando Pessoa.
(Nota explicativa e notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor)
Lisboa, Ática, 1993.
  

1. Proceda à divisão do poema em duas partes, explicitando o conteúdo de cada uma delas.

É possível dividir o poema em duas partes. A primeira corresponde às


duas primeiras estrofes, onde o sujeito poético reafirma os
pressupostos do sensacionismo, uma vez que aí se defende o princípio
de que é pelas sensações que se compreende a realidade e se chega à
verdade. Num segundo momento, introduzido pela conjunção
adversativa “Mas”, descreve-se o que é necessário fazer para alcançar
os objetivos apresentados no primeiro momento.

Página 1
2. Comprove que para alcançar a realidade não é necessário pensar.

Atendendo a que Caeiro recusa o pensamento, ele expressa essa


convicção ao longo do poema, começando por questionar o porquê de
nos interrogarmos sobre as coisas. Esta atitude implica o uso do
pensamento, daí que o “eu” critique quem assim procede. Além disso,
na segunda estrofe, faz a apologia do saber ver e ver sem estar a
pensar, o que exige “uma aprendizagem de desaprender”, isto é,
aprender a ver, dado que isto é suficiente para alcançar o
conhecimento que a realidade nos proporciona.

3. Explique o sentido da expressão parentética presente no verso 10.

A expressão parentética aponta para os preconceitos e convicções de


que humanos se vestem. Efetivamente, a nossa essência é complexa e
não conseguimos aprender a desaprender, isto é, a despir-nos para que
a alma fique limpa e recetiva à realidade tal qual ela se nos apresenta
aos olhos. Assim, quando afirma “que trazemos a alma vestida”, quer
dizer que não somos inocentes e que, por isso, não estamos preparados
para ver a verdade, única e exclusivamente, através dos sentidos,
porque o pensamento parece estar impregnado na nossa alma.

4. Justifique o desejo expresso nos versos 11 e 12.

Nesses versos, o sujeito poético defende que é urgente estudar o


modo de nos libertarmos do pensamento. É preciso uma nova
aprendizagem, que nos ensine a despir-nos de alguns preconceitos que
exigem que tenhamos perante a realidade uma atitude reflexiva e uma
permanente questionação do mundo. Logo, o “eu” pretende que
aceitemos a sua filosofia de vida, sendo necessário aprender a ver o
mundo de uma forma simples, imediata e pelo recurso às sensações, o
que implica que abandonemos o nosso pendor racional.

Página 2
PARTE C

5. A encenação poética a que Fernando Pessoa nos habituou resulta de uma consciência
hipertrofiada do ser que viveu torturado pela inteligência e que explorou várias temáticas
suscetíveis de se interligarem.

Escreva uma breve exposição na qual comprove a presença de uma consciencialização


permanente e visível nos poemas trabalhados.

A sua exposição deve incluir:


 uma introdução ao tema;
 um desenvolvimento onde comprove a racionalidade excessiva de Fernando Pessoa e
o modo como se manifesta no “fingimento poético”, na “dor de pensar” e na
“nostalgia da infância”;
 uma conclusão adequada ao desenvolvimento do tema.

Fernando Pessoa parece destinado para a infelicidade, uma vez que


nunca conseguiu ser feliz devido ao uso permanente da inteligência.
Nos poemas “Autopsicografia” e “Isto”, considerados os textos
teorizadores do “fingimento poético”, o sujeito lírico regista a
necessidade de usar a imaginação para alcançar a arte. É preciso fingir e
essa atitude implica o uso da inteligência. Contudo, ao intelectualizar
sistematicamente as emoções, o poeta acaba por cair na “dor de
pensar”, da qual não se consegue libertar, apesar de ter consciência dos
danos causados na sua personalidade, desejando, por isso, ser como a
ceifeira ou como o gato, que são inconscientes e, portanto, felizes. Pode
ainda interpretar-se a temática da “nostalgia da infância” à luz desta
consciencialização que o poeta atingiu na idade adulta e que lhe
permite, agora, valorizar o tempo em que era inconsciente, sem
responsabilidades nem deveres, e que lhe terá proporcionado a alegria
que no presente não tem (“Pobre velha música”).
Sendo assim, é possível perceber a interligação que as temáticas
exploradas pelo autor estabelecem, e que resultam, efetivamente, da
tendência para racionalizar tudo.

Página 3
GRUPO II
Leia o texto.

A falsa, a revista, a démodé, o provérbio e a verdade absoluta

Não é preciso ser um estudioso da obra de Fernando Pessoa para perceber que há
citações pessoanas para todos os gostos e momentos. A obra de Pessoa está para as redes
sociais como um oráculo1 de pensamentos a partilhar. Serve de legenda de foto, serve para
acompanhar o perfil do tinder2, para postar com uma paisagem de fundo, ou mesmo como
5 indireta para o ex. E se esta é a manifestação menos nobre e prestigiante do génio pessoano,
não deixa de ser a mais corriqueira e omnipresente nos quotidianos do século que agora
atinge a maioridade.
Entre as categorias de frases-de-Pessoa-para-partilhar, a mais recorrente é a falsa-citação.
Nomeadamente aquela que, na verdade, não pertence ao poeta, mas muita gente parece
10 acreditar que sim. É o caso do apócrifo3 Pedras no caminho? Guardo-as todas! Um dia vou
construir o meu castelo. Quem nunca se cruzou com este clássico nas redes? Partilhado por
aquela pessoa sofrida que enfrenta a vida com estoicismo 4, mas não percebe nada de
literatura. E nunca, com pena minha, pela classe dos nefrologistas 5. Os únicos para quem esta
frase faz mais do que sentido, já que ganham dinheiro com pedras nos rins alheios, na
15 esperança de comprar uma casita de praia antes da meia-idade.
Outra recorrente citação (esta mesmo) de Pessoa, é a do mar salgado e de quanto do seu
sal são lágrimas de Portugal. Um expressivo verso, que descreve eficazmente a ligação
histórica do povo português ao mar, como ponto de partida, fonte de saudade, separação e
angústia. E que entretanto tem vindo a ser “substituído” no Brasil por uma rima do rapper
20 Emicida que, sem saber da existência dessa frase de Pessoa, “respondeu-lhe” com igual
eficácia, angariando a identificação de toda uma geração de ouvintes de Rap afro-brasileiros.
Assim sendo, e porque me parece mais verdadeira e justa esta nova versão, proponho que
passemos a citar antes Emicida, escrevendo no mural que O tempero do mar foi lágrima de
preto!

Capicua, in revista VISÃO, nº 1334, de 27 de setembro de 2018 (com supressões).

Notas:
1
resposta da divindade consultada; 2 do incendiário; 3 que não é do autor a quem se atribui;
4
indiferença; 5 especialistas das doenças dos rins.

1. Na opinião da cronista, a obra pessoana


(A) é divulgada nas redes sociais e por vários intelectuais.
(B) é desvirtuada devido a uma apropriação indevida.
(C) serve para enviar mensagens indiretas e desadequadas.
(D) é conhecida pelos portugueses graças às redes sociais.

2. De acordo com o conteúdo do segundo parágrafo, encontram-se, nas redes sociais, citações
(A) pessoanas para toda e qualquer situação.
(B) de Pessoa que podemos partilhar com toda a gente.
(C) atribuídas indevidamente a Fernando Pessoa.

Página 4
(D) que só devem ser usadas pelos nefrologistas.

3. No último parágrafo, são citados versos pessoanos para


(A) dar conta da inferioridade do poeta português.
(B) elogiar a sensibilidade do poeta face à nossa história.
(C) demonstrar que a nossa história é feita de lágrimas.
(D) elogiar uma nova versão de um rapper luso-brasileiro.

4. O valor aspetual configurado na afirmação “A obra de Pessoa está para as redes sociais como
um oráculo de pensamentos a partilhar.” (ll. 2-3) é
(A) genérico.
(B) habitual.
(C) perfetivo.
(D) imperfetivo.

5. A oração “que agora atinge a maioridade” (ll. 6-7) classifica-se como subordinada
(A) substantiva relativa.
(B) substantiva completiva.
(C) adjetiva relativa restritiva.
(D) adjetiva relativa explicativa.

6. Identifique o mecanismo de coesão assegurado pelo pronome pessoal presente em “ Guardo-as


todas” (l. 10).

7. Indique a função sintática desempenhada pelo constituinte sublinhado em “Quem nunca se


cruzou com este clássico nas redes?” (l. 11). Complemento oblíquo

GRUPO III

Há quem considere que as redes sociais são uma fonte credível de informação. Por isso,
estas estão a substituir os contactos diretos e a leitura de obras de referência. Contudo, não se
pode nem deve confiar cegamente no que aí se lê e muito menos desprezar outras meios de
alcançar conhecimentos.

Num texto de opinião bem estruturado, com um mínimo de duzentas e um máximo de


trezentas e cinquenta palavras, defenda uma perspetiva pessoal sobre a importância de saber
usar comedidamente as redes sociais.

Página 5

Você também pode gostar