— Não acha que deveríamos intervir? — Duas figuras olhavam os eventos do Bar do Fives.
A primeira, com curvas femininas, tinha um semblante preocupado.
— As ordens do chefe estão sendo claras. Observando e podendo ver a força atual dele… só
intervindo caso necessário.
A segunda figura era um homem de cabelos brancos e olhos azuis. Estalou os dedos e
chamas azuis acenderam o cigarro que pendia na boca. Ambos portavam mantos com capuzes.
Apagou o fogo, a fumaça do cigarro fez com que a mulher contraísse o nariz.
— Ele vai morrer se não agirmos!
Isso era claro para os dois, visto que um humano normal não conseguiria enfrentar um Nor.
— Justo, mas sendo as ordens do chefe, não podemos desobedecer. — Apenas podiam
observar o que aconteceria, por mais que isso a frustrasse. Nisso, voltaram a atenção para o bar.
Mesmo com as paredes, o sentido astral deles era forte o bastante para conseguirem ver além
da madeira.
— Mate-os e devore a carne deles, meu filho. — A voz carregava um tom autoritário, porém
paterno. O ser falava com Faraday com o carinho e ternura que um pai teria para com sua criança.
Teve que pegar a mulher no colo e desviar de um soco que rachou o chão. Colocou-a numa
cadeira enquanto olhava para os dois monstros e para a saída. Teria que lutar.
Sem tempo de lembrar o que leu sobre carniceiros, girou os pés e desviou de outro soco.
Deu um cruzado no rim do monstro, que tentou um ataque contra a têmpora do rapaz.
“Certo, o ataque afetou ele um pouco.”
Correu contra o ser e deu um forte direto no peito. Usou da fraqueza momentânea para dar
uma série de Jabs no estômago do Carniceiro e então um Gancho contra o rim esquerdo.
Estava para continuar, mas uma cadeira foi jogada contra si. Conseguiu recuperar o
equilíbrio e se virar para o outro inimigo, que olhava desinteressado para aquela cena.
— O que está fazendo? Mandei você matá-lo!
Lewnard se moveu e deu vários socos no antigo humano. Tentou uma vez mais atacar o rim
várias vezes, o que fez com que o inimigo perdesse a força nas pernas. Desviou de outra cadeirada.
“Droga… aquele cara está quase entrando na luta.” Não era apenas a vantagem numérica
que o preocupava. O outro era inteligente o suficiente para não servir como saco de pancada.
Desviou de um soco e de outro. Deu um forte Cruzado no queixo do oponente, que caiu no
chão. Isso o fez lembrar de um detalhe importante sobre a anatomia.
“Se tiver uma pancada precisa o suficiente no queixo, o inimigo perde a capacidade de
movimento…” Estava para continuar quando percebeu algo fundamental. “Esses caras… por mais
diferentes que pareçam, ainda tem uma anatomia semelhante a um humano!”
Não podia vencer um monstro, mas o assunto era outro quando se tratava de um humano.
Não tinha dúvidas que podia os derrotar pois já fizera isso no passado.
Num instante, desviou de um punho e tentou contra-atacar mas sentiu como se socasse um
muro de ferro. Uma dor irradiou no peito e foi lançado para longe.
Pôs as mãos na costela quebrada e se levantou com uma mistura de desespero e
determinação no rosto. — Patético… não lhe ensinaram que, quanto mais velho for um Nor, mais
forte ele é? O que estava lutando até então era apenas um recém-nascido.
Avançou e tentou vários socos, que não surtiram efeito algum.
“Isso é insano…” Blair Smith olhava a cena com um rosto incrédulo. “O que raios está
acontecendo? O que são esses monstros?”
Nenhuma pergunta era respondida, nenhum som proferido, apenas havia um homem contra
uma besta, palavras não eram necessárias, visto que ambos os lados ansiavam a morte do outro com
todo o seu ser.
Os golpes eram trocados, Lewnard mostrava ter vantagem pela velocidade, os ataques eram
fracos e em baixo número graças à diferença de forças. “Droga…” A raiva consigo mesma
começara a crescer. “Eu que devia cuidar dele, não o contrário!”
Lewnard deu dois Cruzados e um Direto, percebeu que o estranho começara a demonstrar
sinais de fatiga. Estava para lançar mais um Jab quando sentiu que devia desviar.
Uma transformação começara a ocorrer. Avançou e tentou um soco no rosto mas a boca do
homem abriu de forma impressionante, e, de dentro, saiu o focinho de um rato imenso.
O Cruzado impactou, mas não teve efeito e teve que se afastar de novo. Os músculos
rasgaram e as roupas seguiram o exemplo, de forma que revelasse a verdadeira forma. O Carniceiro
lambeu o rosto, que tinha um pouco do sangue de sua casca ali.
Era um imenso rato, com um exoesqueleto abaixo dos tufos. Olhos vermelhos denotavam
uma visão infernal, o rosto, semelhante a uma mistura de morcego com rato, encarava-o com os
dentes pontiagudos molhados pela saliva. As enormes orelhas de morcego pareciam captar qualquer
som feito.
Não pôde processar o que viu, pois a criatura estava sobre si. Sentiu o braço ser puxado e
impactou contra a parede, que cedeu. Sentiu o frio das ruas úmidas enquanto tentava se levantar…
Olhou para o ser, que tinha fome nos olhos. Não conseguia nem se mover. A criatura deu
alguns passos e deu um forte pisão no peito do rapaz.
— Qual o problema? — A voz distorcida, junto ao sorriso na face bizarra, mostravam todo o
sadismo que a criatura portava. Girou o pé, e o grito despertou Blair dos pensamentos e do medo.
— Vamos, use seus punhos! Esquive do ataque!
— Gahh! — Conforme fazia pressão, ouvia pequenos estouros vindo das costelas e lambia
os lábios, ansioso por esmagar aquela presa.
A visão à frente era assustadora e revoltante, o que mais a irritava, no entanto, era sua
fraqueza em não fazer nada. Ela era a adulta ali mas não conseguia sequer se mover.
Pôs a mão nos bolsos e tirou de lá uma pistola.
O cano era longo, o modelo arcaico, mas acreditava servir para algo. Apontou a arma para a
cabeça da criatura e atirou na nuca dele. O disparo foi ouvido, mas a criatura não caiu. Apenas
resmungou de dor, enquanto coçava o lugar que a bala impactou.
— Merda, esqueci completamente da mulher… — Deu um forte pisão nas costelas do
garoto, que gritou de dor e tossiu um pouco de sangue. Virou-se e foi até ela, que tremia de medo ao
ver o olhar, que continha fome e luxuria. — Vamos nos divertir, querida?
Assim que saiu de cima de si, o rapaz não pôde mais pensar. Apenas pegou um pedaço de
madeira que havia próximo de si e, com um grito gutural, fincou a estaca no olho do monstro e, para
ter certeza que o mataria, girou-a até ouvir o som de algo molhado se partir.
O ser perdeu as forças e caiu para frente. O rapaz rolou para a direita, enquanto tentava
respirar e não engasgar no próprio sangue.
— Lewnard! — Aliviada, levantou-se e foi até si. Contudo, a dose de adrenalina estava
passando e então se colocou no chão e vomitou as doses de bebida que tomou. Aquilo arrancou uma
risada de Lewnard.
— Viu… falei para… não beber… tanto…
Tossiu um pouco de sangue e riu de novo. Lembrou das aulas de anatomia enquanto avaliava
a situação do corpo. “Talvez seja a adrenalina…” pensou ao notar que não sentia dor alguma fora o
peito.
— Ei… senhorita Smith… — A voz saiu fraca mas a mulher pôde ouvir bem. — Eu… eu
não… não quero morrer…
A mulher não tinha resposta, apenas pôde observar enquanto a respiração ficava mais e mais
fraca, conforme a vida deixava seu corpo.
Naquele momento, onde a morte batia à porta de Lewnard, duas sombras se aproximaram. A
primeira começou a aplicar primeiros socorros no rapaz enquanto a segunda se dirigiu até Faraday,
que gritou quando as chamas azuis o devoraram.
— Tome, vai lhe fazer bem. — Pôs um líquido na boca do garoto, que engoliu
involuntariamente. Era estranho, visto que não conseguia respirar direito, mas o líquido era guiado
pela garganta e forçava a entrada até o estômago.
Naquele momento, caiu na inconsciência. Sentia que não estava mais em perigo e pôde
relaxar.
Antes que Blair conseguisse piscar, a mulher estranha estava a sua frente, sussurrou algo que
fez com que caísse na inconsciência.
— Bem, tendo concluído a missão, estarei indo beber algo. Encontro-te na cantina?
— Shiki! Por que eu tenho que entregá-lo para Zozolum?
— Porque eu tenho que ficar fazendo seu trabalho nos fins de semana, sendo que estarei
ganhando o mesmo salário? — O albino fitou a ruiva, que não teve como responder. O luar
iluminara a forma de ambos e revelou um homem alto, musculoso, com pele alva e olhos azuis,
quase brancos.
A mulher ruiva tinha pele cor de chocolate e olhos verdes, isso a dava uma aparência exótica
e rara. Mostrou a língua para o companheiro, que a deixou com os dois.
Algumas horas depois, Blair Smith não se lembraria de nada da noite anterior.
O loiro abriu os olhos e encarou um telhado de metal. A primeira coisa que lhe veio a mente
foi que tudo não passou de um sonho, um gemido de dor escapou dos lábios ao tentar se mover, o
que o fez descartar a hipótese. Tentava pensar no que aconteceu e encontrar alguma lógica.
Nada fazia sentido. O Carniceiro que enfrentou não parecia em nada com a fera mitológica
que lembrava ter lido sobre. Outro problema era que aquela coisa não devia existir.
Mesmo assim, era real. Em uma noite, teve a visão de mundo abalada e nada mudaria tal
fato. Revisou a luta, notou que devia ter morrido. Contudo, ali estava.
Era uma situação maluca e estranha para si, contudo, de alguma forma, sentia certo
pertencimento a essa realidade que lhe fora imposta, algo de fato preocupante.
“É quase como se eu estivesse acostumado a esse tipo de coisa… acostumado…”
— A estar prestes a morrer? Bem, eu não estranharia. — Olhou para o lado, surpreso com a
voz sardônica, que se assemelhava a sua. Só viu uma cortina, que o separava dos outros pacientes
da ala médica em que estava. — Afinal, alguém tão fraco como você deve entrar em situações de
vida ou morte com facilidade.
Estreitou os olhos, a ofensa gratuita fazia com que desejasse se levantar e ter uma conversa
com o dono da voz, porém era incapaz disso, visto que ainda tinha dificuldades para respirar.
— Quem está aí?
— Acordou, enfim?
Uma outra voz soou do lado de fora, as cortinas foram abertas. A atenção de Lewnard foi
tomada pelo estranho homem a sua frente. Vestia um jaleco de médico, por baixo tinha uma camisa
de praia, junto a uma bermuda e chinelos. Mantinha um cigarro na boca.
— Ótimo, agora dê o fora daqui. Tente não ter um pulmão perfurado, moleque de merda.
Não conseguiu responder ou pensar em nada, visto que a atitude do homem era estranha
demais. Naquela hora, uma segunda voz, que o rapaz havia reconhecido de algum lugar, soou.
— Sabe bem que o garoto não está pronto ainda, Riverdale.
A mulher que apareceu atrás do doutor era a que lhe salvara ontem, não que soubesse. —
Lewnard precisa descansar.
O rapaz arqueou uma sobrancelha. Incapaz de se levantar, ficou deitado enquanto ouvia os
dois discutir. — Qual é, Reide! Eu não quero um pirralho aqui enquanto eu…
Parou ao receber um olhar de censura da mulher. O suor corria frio ao perceber seu erro.
— Enquanto o quê?
— Nada não… — Dirigiu um olhar furtivo a uma das revistas pornô, que estava num
armário. Virou-se e foi até sua cadeira, enquanto tentava não parecer suspeito para a mulher, que
olhava para si com raiva.
— Bem, acho que já pode ir… vou fazer alguns exames ainda, ver se está tudo em ordem,
sabe? Hahaha.
Reide ainda tinha suas suspeitas, mas decidiu deixar o assunto de lado. Tinha coisas a fazer e
bebidas a degustar. Nisso, deixou os dois a sós, o médico arrastou a cadeira até a cama de Lewnard,
puxou um trago do cigarro e deixou a fumaça escapar na direção do rapaz.
— Coff coff… Pra que isso?
Apenas riu com a indignação, aproveitou que não tinha ninguém ali que pudesse o impedir e
levou a cadeira até o armário, então pegou a revista e começou a ler, com um sorriso abobalhado.
Murmurou um xingamento, voltou aos pensamentos e revisou as memórias de antes. Tentou
levantar-se enquanto ignorava a dor e olhou para o médico.
— Ei. Onde estou? — Ouviu a pergunta, mas não desgrudou os olhos da revista. — Ei?
— Céus, que garoto chato. Não vê que estou fazendo algo importante? — Os olhos não
desgrudavam na revista pornô, mas o rosto mostrava leve irritação com a interrupção.
— Apenas repouse um pouco. Vai te fazer bem.
Estava para dar uma resposta grossa, mas segurou a língua. Não estava bem, e não sabia o
que raios estava acontecendo ali. Podia muito bem ter sido sequestrado.
Sim, mesmo que os eventos da noite fossem reais, não conseguia acreditar no que houve.
Descansou a cabeça no travesseiro, pensava no que aconteceria agora, e cada possibilidade fazia o
sentimento de ansiedade crescer no estômago.
Seria torturado? Ou quem sabe executado? Não tinha como saber nem se a senhorita Smith
estava bem, visto que pensava em como Grace reagiria as notícias. Certamente ficaria triste.
Irritado, tentou chamar a atenção do médico de novo, mas apenas foi ignorado.
As horas passaram. Cada segundo o deixava mais e mais tenso mas sentia que recuperava as
forças. A forma como cada músculo do corpo era movido enquanto os ossos quebrados voltavam a
posição original tornava toda a experiência ainda mais surreal.
Suspirou após três horas, coisa que se tornou normal. Após a sexta hora, o médico se
levantou e foi na direção em que Reide saiu antes. Sussurros irritados foram ouvidos.
Alguns segundos se passaram e alguém finalmente apareceu. Invés de Riverdale, surgiu um
homem na frente de Lewnard. Vestia um terno negro, que balançava, como um teatro de sombras.
Um sorriso se encontrava no rosto, os olhos, cor de sangue, tinham um belo contraste com o
cabelo escuro. Abriu a boca delicada e pronunciou apenas duas palavras. — Olá, Lewnard.