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Mobral: História e Impacto na Alfabetização

O documento descreve (1) o método de alfabetização de Paulo Freire e como foi substituído pelo regime militar com a criação do Mobral, (2) os objetivos do Mobral de erradicar o analfabetismo funcionalmente, e (3) as críticas ao método do Mobral e sua expansão na década de 1970.
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Mobral: História e Impacto na Alfabetização

O documento descreve (1) o método de alfabetização de Paulo Freire e como foi substituído pelo regime militar com a criação do Mobral, (2) os objetivos do Mobral de erradicar o analfabetismo funcionalmente, e (3) as críticas ao método do Mobral e sua expansão na década de 1970.
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O Mobral e a alfabetização de adultos: considerações


históricas

1. Introdução

No início do Regime Militar de 1964, houve uma ruptura na proposta de Freire.


O novo governo, de caráter ditatorial, decidiu pela implantação de um modelo mais
apropriado para a formação de mão de obra, adotando uma educação de concepção tecnicista.
Diante deste quadro de mudanças na Educação de Jovens e Adultos no Brasil, surgem
algumas indagações:
1- Como se caracterizava o método de alfabetização desenvolvido por Paulo
Freire?
2- Porque houve um rompimento na utilização deste método com a implantação
da ditadura?
3- Qual a intenção do novo regime com a criação do Mobral?
4- Quais foram os resultados do Mobral e como ficou a EJA no Brasil com o fim
da ditadura?

Para responder a estas e outras questões, no desenvolvimento deste trabalho abordaremos


inicialmente a concepção educacional para a Educação de Jovens e Adultos de Paulo Freire e
na sequência a que fora implantada no Regime Militar.
Na seção seguinte analisamos a criação do Mobral e o desenvolvimento da sua proposta de
educação, considerando possíveis avanços ou retrocessos.

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2. O Mobral e a Educação de Jovens e Adultos no regime militar

O Movimento Brasileiro de Alfabetização - Mobral - surgiu no dia 15 de dezembro


de 1967, de acordo com a Lei n° 5.379, quando o governo assumiu o controle da alfabetização
de adultos voltando-a para a faixa etária de 15 a 30 anos. Meses depois, foi designada a
comissão que seria encarregada de elaborar os estatutos da instituição. Neste mesmo ano, no
dia 29 de março os estatutos do Mobral foram aprovados, segundo o Decreto de nº 62.484
(RANGEL, 2011, p. 14).
No que se refere à presidência do Mobral, segundo o artigo 8º, primeiramente ficaria
por conta do diretor do Departamento Nacional de Educação, porém após algumas
modificações no Decreto-Lei de nº 665 do dia 02 de julho de 1969, passando a presidência da
instituição do Mobral para um presidente que era nomeado pelo próprio presidente da
República.
Segundo Niskier (1989, p. 368), para que a instituição continuasse a progredir tinham
que mantê-la com recursos que vinham de contribuições de parte da arrecadação da Loteria
Esportiva e de 1% dos impostos de renda da população jurídica.
O Mobral foi fundado com algumas metas consideradas de grande importância para
toda a população adulta analfabeta da época. Na concepção educacional do regime militar,
tinha como seus principais objetivos: erradicar o analfabetismo, integrar os analfabetos na
sociedade, dar oportunidades a eles através da educação, buscando assim, benefícios para a
população menos favorecida economicamente e principalmente a alfabetização funcional, com
a aquisição de técnicas elementares de leitura, escrita e cálculos matemáticos. Porém, como
toda instituição, o Mobral possuía objetivos gerais.

[...] proporcionar alternativa educacional, através de atendimento numa linha


de autoditaxia, às camadas menos favorecidas da população; e ampliar a
atuação do Posto Cultural, imprimindo-lhe características de uma agência de
educação permanente, com programas voltados para um aperfeiçoamento
constante da população (CORRÊA, 1979, p. 358 apud RANGEL, 2011, p.
14).

Da mesma forma, o Mobral possuía também alguns objetivos específicos,

[...] possibilitar a aquisição/ampliação de conhecimentos, tomando-se como


base o Programa de Educação Integrada e o reingresso no sistema regular de

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ensino; e colocar ao alcance da clientela materiais que despertem e


favoreçam o desenvolvimento de mecanismos necessários a uma educação
permanente, proporcionando ao alfabetizador, já atuante, aprimoramento
profissional (CORRÊA, 1979, p. 358 apud RANGEL, 2011, p. 14).

De acordo com os métodos que foram utilizados no ensino do Mobral, segundo


Aranha (1996, p. 207), pode-se dizer que eram praticamente os mesmos adotados por Paulo
Freire, porém de maneira deformada e com algumas particularidades, pois o governo oferecia
o seu avesso; portanto não muito completo, pois se utilizava do método das fichas de leitura,
mas não considerava o conhecimento prévio do aluno e tampouco existia o processo de
conscientização, tão defendido pelo educador Paulo Freire.

Acreditamos que o “método” de Paulo Freire e o MOBRAL baseiam-se em


filosofias e metodologias totalmente opostas - enquanto o primeiro procura
partir dos conhecimentos prévios dos alunos, levando em consideração suas
experiências de vida, suas particularidades, e a partir destes pontos ocorre o
trabalho com os conteúdos de ensino, no segundo, houve uma massificação e
imposição dos conteúdos, sem atentar às diferenças regionais e
singularidades dos alunos (HORIGUTI, 2009, p. 04).

No decorrer da década de 1970, o Mobral teve uma considerável expansão, tanto na


continuidade de sua proposta como na área territorial alcançada, além de também ter sido
reconhecida, como de grande importância pela UNESCO (Organização das Nações Unidas
para a Educação, Ciência e Cultura), o que possibilitou a efetivação de diversos acordos de
cooperações técnicas de alfabetização com outros países, como Paraguai, Bolívia, Jamaica,
Senegal, Guatemala e Espanha, entre outros.

Com o passar dos anos, o MOBRAL se expandiu de forma tal que


acrescentou outras atividades a seu antigo sistema. A experiência brasileira
foi reconhecida pela UNESCO e sua importância realçada (NISKIER, 1989,
p. 368).

Com a consolidação do Mobral, muitas foram as críticas realizadas à suas propostas


por educadores como Anísio Teixeira, Lourenço Filho e Célia da Rocha Reufels (NISKIER,
1989, p. 369/371). Os educadores criticavam os métodos de alfabetização utilizados, dizendo
que os mesmos, produziam males; que os alunos voltariam a ser analfabetos e que o governo
não queria educar nenhum indivíduo. Porém, o Mobral também foi muito reconhecido com
alguns prêmios, entre eles o Prêmio Mohammad Reza Pahlavi, outorgado pela UNESCO em
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1973; o Prêmio Internacional Iraque de Alfabetização, de 1982; a Menção Honrosa, pela


Associação Internacional para a Leitura da UNESCO, em 1983.
Ainda na década de 70, segundo PORCARO (2007), a Lei n. 5692, de 1971, no que
se refere às Diretrizes e Bases da Educação Nacional, implantou o ensino supletivo para
jovens e adultos, que passou a ser reconhecido como um direito de cidadania, apesar de não
ser oferecido na dimensão necessária para atender à demanda então existente por este
segmento de ensino.

Durante o período militar, a educação de adultos adquiriu pela primeira vez


na sua história um estatuto legal, sendo organizada em capítulo exclusivo da
Lei nº 5.692/71, intitulado ensino supletivo. O artigo 24 desta legislação
estabelecida com função do supletivo suprir a escolarização regular para
adolescentes e adultos que não a tenham conseguido ou concluído na idade
própria (VIEIRA, 2004, p. 40 apud LOPES, [20--], p. 06).

No ano de 1974, o MEC (Ministério da Educação e Cultura) propôs a implantação


dos CES (Centros de Estudos Supletivos) que se organizam em função do tempo, do custo e
principalmente da efetividade. Neste contexto, ocorreu também a assinatura de inúmeros
acordos MEC-USAID (Ministério da Educação e Cultura e United States Agency for
International Development) buscando, segundo Romanelli (2005, p. 196), uma reforma no
ensino de alfabetização através de assistência técnica e cooperações financeiras.
Foi desenvolvida então uma nova política: a de diversificação de propostas, com a
implementação de alguns programas, segundo Niskier (1989, p. 370), o PRODAC (Programa
de Desenvolvimento de Atividades Comunitárias), ACISO (Programa de Ação CívicoSocial),
PAF (Programa de Alfabetização Funcional), PEI (Programa de Educação Integrada),
Programa de Autodidatismo, Programa Cultural, Programa de profissionalização, PETRA
(Programa de Educação Comunitária para o Trabalho), PES (Programa de Ação Comunitária
para a Saúde) e os balcões e postos de empregos. Além destes Programas, também foram
assinados alguns convênios: LBA (Legião Brasileira de Assistência), FEFIERJ (Federação das
Escolas Federais Isoladas do Estado do Rio de Janeiro) e também houve a criação da
Mobralteca.
Em 1980, as finalidades do Mobral foram alteradas, anunciando que sua política
passaria a dar prioridade às ações comunitárias e aberturas políticas às experiências de
alfabetização que são desenvolvidas de maneira mais crítica.

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Em 1980, o presidente do MOBRAL anunciou que seria modificada toda a


política da instituição, passando ela a dar prioridade à ação comunitária,
principalmente nas áreas de educação, cultura, saúde, nutrição, saneamento,
treinamento profissional, lazer, ecologia e previdência social (NISKIER,
1989, p. 370).

Segundo Arlindo Lopes Corrêa - presidente do Mobral no ano de 1974 - o Mobral já


havia extinguido o analfabetismo, porque o mesmo se reduziria a taxa internacional para a
erradicação total do analfabetismo, que compunha o valor de 11%; porém esta taxa não foi
aceita, tendo sido contestada pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística),
LBA(Legião Brasileira de Assistência) e o BNH (Banco Nacional de Habitação), que eram
contra as novas finalidades e os objetivos da instituição do Mobral.
Segundo NISKIER (1989, p. 371), o ensino a adultos continuou, porém o ensino
básico, mais precisamente o pré-escolar, passou a ser prioridade do Mobral, quando em 31 de
março de 1981 o então presidente da instituição foi exonerado do cargo e com a nomeação de
um novo presidente o trabalho do Mobral passou a ser suplementar e complementar. Desta
forma, um ano após a nova nomeação do presidente, em 1982 as novas finalidades e objetivos
do Mobral eram atender a 400 mil crianças de 04 a 06 anos no programa pré-escolar e 1
milhão e 700 mil adolescentes e adultos no programa supletivo.
No ano de 1985 o Brasil contava com cerca de aproximadamente 30 milhões de
jovens e adultos analfabetos. Neste mesmo ano o Mobral foi extinto e substituído pela
Fundação Educar. Esta nova instituição era como se fosse uma extensão do Mobral, porém
com um novo nome e também com uma significativa mudança dos métodos de ação.
Vicente Barreto, professor e presidente do Mobral, responsável pelas mudanças
ocorridas na transformação do Mobral em Fundação Educar, acreditava que a Fundação era
uma solução para o ensino básico, mesmo que para isso necessitasse de uma reformulação
geral das estruturas e adequação das condições da Fundação. Conforme Niskier, a nova
presidência,

[...] promoveu o acesso a metodologias alternativas e mais modernas,


requalificando o corpo docente, dignificando a sua formação, reforçando as
estruturas municipais, resgatando a sua função educativa e valorizando o
magistério (1989, p. 482-483).

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Pelo fato de que a criação e a implementação de um programa de alfabetização e


educação básica para jovens e adultos era necessário, de acordo com o Decreto n.º 91.980 de
25 de Novembro de 1985 (RANGEL, 2011, p. 15) foi determinado que o Mobral passaria a
ser denominada “Fundação Nacional para Educação de Jovens e Adultos– Educar”, destinado
às pessoas que foram privadas do ensino educacional por qualquer que seja o motivo.

Art. 1.º – A Fundação Movimento Brasileiro de Alfabetização – MOBRAL,


instituída pelo Decreto n.º 62.455, de 22 de março de 1968, nos termos do
Art. 4.º da Lei n.º 5.379, de 15 de dezembro de 1967, passa a denominar-se
Fundação Nacional para Educação de Jovens e Adultos – Educar, com o
objetivo de fomentar a execução de programas de alfabetização e educação
básica destinados aos que não tiveram acesso à escola ou que dela foram
excluídos prematuramente (BRASIL, 1985 apud NISKIER, 1989, p. 484).

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