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Fundamentos do Direito Internacional Público

O documento discute a noção de Direito Internacional Público e sua diferença em relação a outros sistemas normativos. Aborda também a natureza e fundamentação da obrigatoriedade do Direito Internacional, incluindo as teorias anarquista, voluntarista e objetivista. Por fim, analisa os sujeitos de Direito Internacional como Estados e Organizações Internacionais.
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Fundamentos do Direito Internacional Público

O documento discute a noção de Direito Internacional Público e sua diferença em relação a outros sistemas normativos. Aborda também a natureza e fundamentação da obrigatoriedade do Direito Internacional, incluindo as teorias anarquista, voluntarista e objetivista. Por fim, analisa os sujeitos de Direito Internacional como Estados e Organizações Internacionais.
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DIREITO INTERNACIONAL PUBLICO

A - Noção de Direito Internacional Público e a sua Diferença Relativamente a Outros


Sistemas Normativos
B - Natureza e Fundamento da Obrigatoriedade do Direito Internacional Público
C - Relações Entre o Direito Internacional e o Direito Interno: O Problema Na
Constituição De 1976
D - A qualificação das normas de incorporação
E - A hierarquia entre as fontes de direito
F - Fontes de Direito Internacional Público: O Costume Internacional e as Convenções
Internacionais
G - As Convenções Internacionais
H - As Restantes Fontes de Direito Internacional Público
I - Os Sujeitos de Direito Internacional Público. Generalidades. O Estado.
J - Elementos Constitutivos do Estado
L - A População
M - Responsabilidade Internacional do Estado

Bibliografia:
•Soares, Albino Azevedo: Lições de Direito Internacional Público, Coimbra Editora Lda.

A - Noção de Direito Internacional Público e a sua Diferença Relativamente a


Outros Sistemas Normativos.

1. Delimitação do conceito de Direito Internacional Público.

A Sociedade Internacional não segue um modelo homogéneo de organização: é assim


que, enquanto na sua maior parte impera um tipo de relações de coordenação –
ditadas pelo peso da soberania justa postas, em modernas sociedades de integração
económica, como a União Europeia, prevalecem as relações de subordinação.
Não existe, quanto à origem, qualquer comparação possível entre as vulgares normas
que constituem o Direito Internacional de coordenação e aquelas normas de Direito
Privado, de Direito Processual, de Direito Penal e de Direito Administrativo referentes à
actividade dos funcionários das Organizações Internacionais. Enquanto as primeiras
têm uma origem interestadual, estas últimas, que constituem aquilo a que se
convencionou chamar Direito Interno das Organizações Internacionais, tem uma origem
centralizada num órgão de uma Organização Internacional e a sua estrutura e garantia
é sobremaneira semelhante à das normas de Direito Interno de qualquer Estado
aplicáveis.
A definição de Direito Internacional Público não é fácil de fazer a partir dos respectivos
sujeitos. O recurso a este critério apresenta dificuldades de monta:
A primeira consiste na enumeração de tais sujeitos, que varia consideravelmente entre
os autores de Leste e Ocidentais, verificando-se assinaláveis divergências entre estes
últimos.
Depois, nem todas as actividades desenvolvidas por tais sujeitos subordinadas ao
Direito Internacional Público, mas apenas as que aqueles levam acabo enquanto tais,
ou seja, na qualidade de sujeitos de tal ramo da ordem jurídica.
O Direito das Gentes regula as relações entre Estados, entre Organizações
Internacionais, ou entre Estados e Organizações Internacionais. Mas não será correcto
afirmar que regula as relações entre Estados e Indivíduos nem as relações entre
Indivíduos: umas e outras são subordinadas a um qualquer Direito Interno e não ao
direito ora em apreço.

2. Tipos de Direito Internacional Público


É usual, na Doutrina e na Jurisprudência, falar-se de Direito Internacional Geral ou
Comum e de Direito Internacional Particular.
O primeiro, formado pelo Costume geral, pelos Princípios de Direito Reconhecidos
pelas Nações civilizadas e pelas Convenções universais, é de aplicação universal. O
segundo é de aplicação restrita a um certo número de sujeitos de Direito Internacional
Público e formam-no o Costume regional e local e a grande maioria dos Tratados e
Acordos Internacionais.

3. Distinção entre Direito Internacional Público e Direito Internacional Privado


Há alguns pontos de contacto entre ambos. Primeiro, há um grande número de
Convenções de Haia e de Genebra sobre direito de conflitos. Depois, há certos
princípios ou normas de Direito Internacional Geral em matéria de Direito Internacional
Privado, como acontece com a lei reguladora da forma dos actos com a lei aplicável
aos crimes e delitos, com a lei aplicável ao regime jurídico dos imóveis e ainda quanto
à lei definidora do estatuto das pessoas. Verifica-se, além do exposto, uma semelhança
notável entre as regras de conflitos e o direito consular sobre matérias de Direito
Privado.
O chamado Direito Internacional Privado ou Direito de Conflitos não passa de Direito
Interno. Só é “internacional” pela simples razão de regular actos ou factos do comércio
jurídico internacional. De resto, é construído por um conjunto de regras ditadas por
cada Estado para que, quando surja uma relação conectada com duas ou mais ordens
jurídicas, se possa escolher a lei material de uma delas que indique a solução mais
apropriada ao problema suscitado.

B - Natureza e Fundamento da Obrigatoriedade do Direito Internacional Público


4. A tese Anarquista
Anarquistas e Voluntaristas negam a existência do Direito Internacional Público.
Os primeiros fazem-no frontalmente. Dos acordos, actos livremente revogáveis pelo
Estado mais forte, não pode nascer Direito. Falar em segurança colectiva é insistir
numa utopia.
Embora frequentemente o panorama internacional se possa pintar com cores tão
negras, há um aspecto essencial à questão que urge pôr em relevo: quando surge um
litígio internacional, logo se tentam utilizar métodos e fórmulas jurídicas na sua
resolução, citam-se precedentes judiciais, procura-se saber qual o sentido do Costume
ou do Tratado aplicável ao caso, que se trata como jurídico, como relevante para uma
certa ordem jurídica e que é exactamente a ordem jurídica internacional. Quer dizer, o
exagero dos Anarquistas está em ligarem demasiado às violações espectaculares do
Direito Internacional e não ao cumprimento de que muitíssimas vezes é objecto de uma
forma espontânea. É certo que há violações constantes do Direito Internacional. Mas
então a metodologia Anarquista peca pelo alvo que escolhe para sua crítica: o
problema em causa é mais de imperfeição de grau, do que de inexistência.
Corrigidas as proporções da Tese Anarquista, há todavia conceder o que se segue.
Por um lado, os Estados só se submetem à jurisdição dum Tribunal Arbitral
Internacional ou do Tribunal Internacional de Justiça se quiserem.
Em segundo lugar, e embora o nascimento de normas jurídicas internacionais não
constitua um problema real, dado o seu contínuo surgimento sobre tudo por meio de
Tratados Bi e Multilaterais e para não falar em competência “legislativa” das
organizações de carácter supranacional, é óbvio que a inexistência de órgãos
internacionalmente instituídos para a execução forçada de sanções leva cada Estado a
munir-se individualmente de medidas de auto protecção que, para fazermos nossas as
palavras de Truyul Y Serra, pecam por “dois grandes defeitos: por um lado, há
frequentes desproporções entre o direito tutelado e a força que há-de aplicar-se para a
sua satisfação; por outro lado, o êxito depende, em última análise, da distribuição de
forças entre os respectivos Estados ou outros sujeitos internacionais, pelo que, de
facto, a coacção será dificilmente operante contra grandes potências”.

5. As doutrinas Voluntaristas
Também a Doutrina Voluntarista, em qualquer das suas variantes, acaba por negar o
Direito Internacional Público. Mas fá-lo duma forma sub-reptícia. Afirmando o Estado
como entidade soberana e omnipotente, conclui muito logicamente que a obrigação
internacional só pode derivar da sua própria vontade. Ou seja, a vinculação depende
da vontade obrigada. Melhor dizendo, não existe obrigação.

a) As doutrinas de Autolimitação e do Direito Estadual Externo:


O Estado, como poder independente e supremo, situa-se acima de todo e qualquer
princípio ou norma jurídica. De forma que qualquer obrigação que surja só pode
basear-se no seu consentimento, quer dizer, só pode ser uma auto-obrigação, já que
nenhum órgão internacional nem nenhum outro Estado podem ditar leis que se
imponham a um outro ente supremo que para tal não manifestou o seu consentimento;

b) A doutrina do Tratado-lei ou da Vontade Colectiva (“Vereinbarung”):


Quando se juntam duas ou mais vontades num acordo, pode ser para satisfazerem
interesses antagónicos ou para prosseguirem finalidades comuns. Quando os Estados
querem prosseguir um interesse comum, manifestam um único feixe de vontades no
mesmo sentido, originando obrigações idênticas para todos, assim surge Verinbarung,
acordo colectivo ou Tratado-lei. Nesta figura não se distinguem partes mas antes
legisladores.

c) A teoria Marxista-leninista:
Para esta teoria, cada Estado é caracterizado por uma formação social, de cuja super
estrutura também faz parte o Direito Internacional, condicionado e determinado pela
infra-estrutura económica e influenciando ainda pelo Direito Constitucional, pela moral,
pela filosofia, etc. O Direito Internacional não surge, portanto, dum vogo comunitarismo,
mas é antes o resultado de um complexo processo em que actuam sistemas sociais
opostos. De forma que, se são diferentes as vontades dos Estados, por representarem
interesses de classes diferentes, o Direito Internacional deixa de ser um Direito
Universal. Começa então a distinguir-se o Direito Internacional do Sistema Capitalista e
o Direito Internacional do Sistema Socialista.
Foi sobretudo a partir de 1958 que Tunkin, começou a desenvolver a ideia e os
princípios do Direito Internacional Socialista. Os Estados Sociais estão ligados por
relações diferentes das que os ligam os Estado Capitalistas. A base económica dessas
relações é a propriedade social dos meios de produção; o regime político é dirigido pela
classe trabalhadora; a ideologia é o Marxismo-leninismo; e o interesse da defesa das
conquistas revolucionárias contra os ataques do Capitalismo é o comum dos indivíduos
de todos os Estados Socialistas: o internacionalismo proletário torna-se o princípio
fundamental do Direito Internacional Socialista.
A teoria Marxista-leninista, leva a uma contradição no campo dos princípios e a outras
consequências práticas que apenas podem ser justificadas pela legitimação do uso da
força.

6. A teoria Objectivista de Kelsen


Conclui-se pois, que a obrigatoriedade do Direito Internacional provém doutra fonte que
não a vontade dos Estados. A vontade só produz efeitos jurídicos na medida em que
uma norma anterior e superior a essa vontade determina qual o seu relevo jurídico.
Para o internacionalista Vienense, a validade de uma norma não depende da vontade
que a cria mas antes da norma que lhe é imediatamente superior. Num sistema
jurídico, as normas escalonar-se-iam de tal forma que cada uma encontraria o seu
fundamento naquela de que procede e, no vértice da pirâmide, encontrar-se-ia a
“Grundnorm”, a norma fundamental, de carácter hipotético, na qual o sistema
encontraria a sua unidade.

7. O Neojusnatoralismo
Fundamenta o Direito Internacional naquele conjunto de “normas que resultam da
natureza racional e social do homem”, isto é, naqueles princípios objectivos que se
sobrepõem à vontade humana e que são inerentes à comunidade político-social a que
se destinam.

8. Posição Adoptada
O fundamento do Direito Internacional Público não é diferente do Direito em geral.
Portanto, a diferença entre o Direito Internacional e o Direito Interno pode ser uma
diferença de grau mas nunca de natureza. É que, tal como para regular as relações
entre indivíduos no quadro estadual há normas de determinado conteúdo que se
impõem naturalmente, também as exigências da consciência pública impõem regras
adequadas, em cada época, à cooperação, ao progresso e ao desenvolvimento dos
povos.
Não há normas ou princípios necessários, a não ser os princípios constitucionais da
comunidade internacional, mas há um certo conteúdo que é necessário em todas as
normas e princípios. E só esse conteúdo de justiça evitará que tais normas e tais
princípios pequem pela sua transitoriedade e sobretudo que sejam alvo de uma
contestação prematura.

C - Relações Entre o Direito Internacional e o Direito Interno: O Problema Na


Constituição De 1976

9. Enunciado da questão
Ora, do conceito de soberania não se pode extrair um tipo de soberania absoluta. Esta
só é absoluta na medida em que afirma que todos os Estados são iguais “enquanto
sujeitos de direito e legisladores em Direito Internacional”.
A soberania levanta ainda um problema importante: uma vez estabelecidas as regras
jurídicas na comunidade internacional, impõe-se automaticamente aos órgãos
estaduais ou devem, pelo contrário, sofrer qualquer transformação antes de se
revelarem na ordem jurídica interna?

10. Terá relevo prático o momento “especulativo”?


Perante a concepção do Direito Internacional como um direito coordenador e a do
Direito Interno como uma expressão da soberania interna do Estado, qualquer solução
aparece, de princípio, como defensável. E a verdade é que percorremos a literatura
internacionalista, vemos as várias teses serem defendidas sucessivamente com o
mesmo ardor pelos diversos doutrinadores, sendo sobremaneira importante deixarmos
aqui expressa a ideia de que os mais recentes pensadores de Direito Interno e o Direito
Internacional se sentem incapazes de optar, duma forma absoluta, por uma ou outra,
acabando por se declarar Monistas ou Dualistas moderados.
O abandono do conceito de soberania absoluta, foi posta de lado a ideia da
irresponsabilidade do Estado, com a consequência de relevo que é a de obrigar o
legislador ordinário a harmonizar a legislação interna com as normas de Direito
Internacional, de tal modo que, sempre que o Direito Estadual se lhes opõe, a
constituição em responsabilidade internacional terá como resultado a anulação das
normas emanadas do legislador interno.
O problema da relação Direito Interno – Direito Internacional é tido como puramente
especulativo e teórico, não se afigurando, portanto, legítimo inferir conclusões práticas
duma pura tentativa de explicação mental da realidade. A posição relativa de todas as
normas de Direito Internacional e de Direito Interno só pode ser determinada pelo
poder constituinte.
11. Tese Dualista
O Direito Internacional só vale na esfera estadual depois de recebido ou transformado
em Direito Interno, não havendo possibilidade de conflitos entre sistemas, dado que o
Direito Internacional e o Direito Interno não regem o mesmo tipo de relações
Esta doutrina tem sido atacada de várias formas.
Por um lado, apresenta uma fundamentação insuficiente e errada para o Direito
Internacional Público, esquecendo que a doutrina da Vereinbarung, como Voluntarista
que é, acaba por negar a natureza real daquele direito, não conseguindo explicar,
mesmo que tal não acontecesse, a validade do Costume Internacional. Depois, além de
ignorar a personalidade jurídica internacional das Organizações Internacionais,
apresenta apenas o indivíduo “fundamentalmente mediatizado”.
Todo o Direito Internacional necessita de recepção ou de transformação para revelar na
ordem interna, dado que o juiz só aplicaria directamente o Direito Interno, embora se
pudesse servir do Direito Internacional para obter a disciplina jurídica de uma questão
prévia ou de uma questão incidental, desde que as premissas, de facto ou de direito,
de uma norma jurídica interna não se estabelecessem senão através do recurso às
normas de Direito Internacional.
A Doutrina Dualista é categórica em afirmar a inexistência de conflitos entre os dois
sistemas, pois que o objecto das normas de um e de outro seriam coincidentes.

12. Tese do Monismo do Direito Interno


Tendo as suas raízes especialmente na concepção Hegliana do Estado, surge outra
tese das relações Direito Internacional – Direito Interno, que dá nome ao Monismo de
Direito Interno, ou de Monismo com um primado na ordem jurídica interna.
Ela sustenta não a existência de duas ordens jurídicas diferentes mas apenas de uma,
que é justamente a ordem jurídica estadual. De forma que o chamado Direito
Internacional Público não passaria de um “direito estadual externo”, quer dizer, uma
obrigação surgida na livre vinculação do Estado (tese moderada), ou reduzir-se-ia até a
uma declaração de intenções sobre o comportamento futuro, não resultando qualquer
tipo de responsabilidade para o Estado que, fosse qual fosse o motivo, acabasse por
fazer letra morta do prometido (tese radical).
A ideia geral é, pois, a de que “o Direito Internacional obriga, porque provém da própria
vontade do Estado, vincula porque é, todo ele, Direito Interno”.

13. Tese do Monismo de Direito Internacional


A ordem jurídica é homogénea e não são as normas internas que se situam num plano
superior, mas são antes as normas internacionais, que, estendendo a sua eficácia
directamente ao interior dos Estados, não podem ser contrariadas pelas primeiras, sob
pena de nulidade das mesmas. Desenvolvendo este ponto de vista, os Monistas de
Direito Internacional chegam a conclusões como esta: o poder dos órgãos estaduais é-
lhes delegado pela comunidade internacional, sendo o Estado um ente não soberano,
dado a soberania residir, em última análise, naquela comunidade, que seria a
“detentora da competência das comunidades”.

14. Teses Conciliatórias


A ordem jurídica interna é independente da ordem jurídica internacional, estando,
todavia, ambas coordenadas pelo Direito Natural – trata-se portanto, de uma
coordenação hierárquica, sob uma ordem jurídica comum.

15. Posição adoptada


A “comunidade internacional é mais do que uma sociedade de justaposição, mas bem
menos do que uma sociedade de integração” o direito segundo o qual os Estados se
regem terá necessariamente de reflectir as características de indefinição dessa dita
sociedade, o mesmo será dizer, dessa sociedade em evolução.
São em regra os Estados que descentralizadamente, através de manifestações de
vontade ou através de certos tipos de comportamento, criam a ordem jurídica
internacional. Isto, claro, para além daquelas normas que a própria natureza da
sociedade internacional lhes impõe.
Há matérias que são autêntica reserva de Direito Internacional, enquanto outras só o
não o são se a própria ordem jurídica internacional delegar a competência nas ordens
jurídicas internas e, finalmente, a maior parte das matérias são de competência
concorrente entre o legislador interno e o legislador internacional.
Estão no primeiro caso as norma sobre vícios do consentimento, os princípios sobre a
aquisição e perda de Território estadual, os princípios sobre a interpretação dos
Tratados, as normas sobre as condições necessárias para a criação do Costume e
para a conclusão de Tratados, o princípio pacta sunt servanda.
Nenhuma ordem jurídica interna está apta a modificar unilateralmente estes princípios
constitucionais do Direito Internacional; se o fizer, ao acto ou norma em questão não
poderá ser reconhecido qualquer efeito jurídico. O art. 27º da Convenção de Viena
sobre o Direito dos Tratados estipula que “nenhuma parte contratante poderá invocar
as disposições do seu Direito Interno para justificar a não execução de um Tratado”.
Portanto, logo que um Estado se compromete de maneira contrária a estes princípios
mínimos de convivência internacional, incorrerá nos termos gerais do Direito das
Gentes, em responsabilidade internacional.
A profusão nas modernas Constituições de cláusulas de inserção do Direito
Internacional nas respectivas ordens jurídicas internas e de fixação da hierarquia das
normas jurídicas prova-nos que não existe nenhuma regra ou princípio de Direito
Internacional que impeça o legislador constituinte de atribuir na ordem jurídica interna o
valor que entender aos compromissos internacionais que os órgãos estaduais
assumirem, por meio de Convenções.
Ao assumir um compromisso internacional, o sujeito de Direito Internacional obriga-se a
actuar, na ordem jurídica interna, de acordo com tal compromisso. Se, por imperativos
constitucionais, não pode cumprir as suas obrigações internacionais, está a violar o já
enunciado princípio pacta sunt servanda. Ou seja, um Estado deve cumprir pronta e
integralmente as suas obrigações. Se as não cumprir, não as deve assumir, sob pena
de ser internacionalmente responsável pela desconformidade dos seus actos ou
omissões com o Direito das Gentes.

16. Técnicas de incorporação


A denominação da Cláusula de Incorporação varia conforme as exigências técnico-
constitucionais para a relevância do Direito Internacional na ordem jurídica interna.
Estamos perante uma cláusula de recepção plena, quando o Direito Internacional
adquire relevância, no espaço jurídico interno, independentemente do seu conteúdo,
por meio de uma norma que habitualmente não exige uma outra formalidade que não
seja a publicação.
Encontramos uma cláusula de recepção semi-plena, quando a Constituição,
consagrando um sistema misto, permite que as normas com dado conteúdo revelem no
espaço jurídico interno sem outra formalidade que não seja a publicação, exigindo para
a relevância das restantes técnicas: a transformação.
Há transformação, se a Constituição exige que o legislador ordinário reproduza, um
acto da sua competência, a norma surgida no espaço internacional. A transformação
pode ser explícita ou implícita, conforme se exija um acto normativo expresso pelo
legislador ordinário ou se assente em que o processo de formação da norma
internacional se incluem actos de carácter internacional se incluem actos de carácter
legislativo ou parcialmente legislativo de órgãos competentes para tornarem relevante
na ordem jurídica interna a norma internacional.
Por vezes, as normas de Direito Internacional são directamente aplicáveis na ordem
jurídica interna dos Estados, ou seja, impõem-se sem que os órgãos estaduais tenham
sequer que proceder à sua publicação. Neste caso, parece ser correcto falar-se de
cláusula de incorporação automática.

17. Razões da escolha das várias técnicas de incorporação


Quanto ao Direito Internacional Geral, não é necessário qualquer acto de recepção ou
de transformação para que o juiz interno o aplique.
Quantos aos Tratados, é usual dizer-se que o “juiz só conhece o Direito Interno”. Quer-
se, com isto, significar que é sempre necessário um acto de recepção ou de
transformação para que as normas convencionais se imponham aos tribunais.

18. Hierarquia fixada pelas constituições


A posição relativa das várias Fontes de Direito é, fixada, sempre que o Direito
Internacional o permite, pela Constituição de cada Estado, a qual deve, portanto, ser
objecto de uma interpretação cuidada, dado o relevo prático que este aspecto assume.
Podem encontrar-se vários sistemas:
• Sistemas que consagram a igualdade entre Lei Ordinária e o Direito
Internacional;
• Sistemas em que o Direito Internacional prevalece sobre a Lei Ordinária;
• Sistemas que consagram a superioridade do Direito Internacional à própria
Constituição.

D - A qualificação das normas de incorporação

19. A Cláusula de Incorporação Automática do art. 8º/1 CRP


O art. 8º/1 da Constituição (“As normas e os princípios de Direito Internacional Geral ou
Comum fazem parte integrante do Direito português”) consagra uma cláusula de
incorporação automática do Direito Internacional Geral ou Comum.
Quer dizer, o legislador constituinte considerou que tanto as normas e princípios de
Costume geral como os Princípios de Direito Reconhecidos pelas Nações civilizadas
são directamente aplicáveis na ordem jurídica portuguesa. E tal aplicação será ainda
imediata se tais normas e princípios tiverem carácter self-executing; caso contrário, os
indivíduos só se poderão prevalecer dos mesmos depois de o legislador ordinário ter
tomado as medidas legislativas necessárias para os tornarem exequíveis.
O legislador constituinte tomou em consideração, no art. 8º da Constituição, três tipos
ou três grandes categorias de Direito Internacional Público: o Direito Internacional Geral
ou Comum (art. 8º/1 CRP), o Direito Internacional Particular (art. 8º/2 CRP) e um direito
especial, que é o Direito Derivado (art. 8º/3 CRP).

20. A Cláusula de Incorporação Plena do art. 8º/2 CRP


Da conjugação do art. 169º/2 CRP (requerida a apreciação de um decreto-lei elaborado
no uso de autorização legislativa, e no caso de serem apresentadas propostas de
alteração, a Assembleia poderá suspender, no todo ou em parte, a vigência) e do art.
161º-i CRP, ressalva que a aprovação dos Tratados que versassem matéria da
competência exclusiva da Assembleia da República, dos Tratados de participação de
Portugal em Organizações Internacionais, dos Tratados de amizade, de paz, de defesa
e de rectificação de fronteiras e ainda quaisquer outros que o Governo entendesse
submeter-lhe era feita por meio de lei. Por outro lado, depreendia-se do art. 169º/5 CRP
(se, requerida a apreciação, a Assembleia não se tiver sobre ela pronunciado ou,
havendo deliberado introduzir emendas, não tiver votado a respectiva lei até ao termo
da sessão legislativa em curso, desde que decorridas quinze reuniões plenárias,
considerar-se-á caduco o processo) que a aprovação dos Tratados Internacionais seria
feita sob a forma de resolução. Esta resolução teria de ser promulgada.
As rectificações, só ultimamente começaram a ser publicadas em Diário da República,
sob a forma de avisos, não se compreendendo que não seja publicado sob a mesma
forma o momento de entrada em vigor da Convenção na ordem internacional, quando é
certo que, a Convenção só revela na ordem interna portuguesa após o decurso do
período da vacatio legis, o qual deve ser contado, não a partir da data de publicação do
instrumento de aprovação, mas sim a partir do momento da entrada em vigor da
Convenção no espaço internacional.
O processo de transformação é característico dos sistemas jurídicos que, consagrando
a divisão estrita de poderes, não permitem ao poder executivo a edição, sob a forma de
Tratados, de regras que, materialmente, constituem verdadeiras leis. Ora, tal não
sucede entre nós, onde o art. 198º da CRP (art. 197º/1-b), c)/2 CRP), atribui uma
extensíssima competência legislativa ao Governo. Quando muito, tal sistema justificar-
se-ia quanto a uma categoria de Tratados então enunciados no art. 161º-i CRP: os
Tratados que versavam matéria da exclusiva competência legislativa da Assembleia da
República.
O sistema jurídico português consagrava uma Cláusula de Recepção Plena. Quer
dizer, o título que legitimava a relevância do Direito Internacional Convencional no
espaço interno português era a cláusula do n.º 2 do art. 8º da Constituição, e não o
acto de aprovação da Convenção, revestisse ele a forma que revestisse.
Definido, como uma cláusula de recepção plena, o art. 8º/2 CRP, atribui relevância na
ordem interna portuguesa, após a sua publicação oficial e enquanto vincularem
internacionalmente o Estado português, às normas constantes de Convenções
Internacionais regularmente ratificadas ou aprovadas.
Quer dizer: as normas constantes de Convenções Internacionais válidas e em vigor
internacionalmente e que obedeçam ao requisito constitucional da publicação oficial
constituem fonte imediata de Direito Interno português: se se trata de Convenções self-
executing, são directamente aplicáveis pelo juiz português; se o juiz depara com
normas non self-executing, só as aplicará após a competente “regulamentação”.
Mas, note-se bem, a norma de Direito Internacional convencional nunca entrará em
vigor na ordem interna antes de entrar em vigor na ordem internacional.
O período da vacatio legis deverá ser contado, não a partir da data da publicação do
acto de aprovação ou ratificação da Convenção Internacional. Mas a partir da data da
sua entrada em vigor na ordem internacional.
Para surgir a responsabilidade internacional do Estado, têm de existir normas
internacionais susceptíveis de violação, quer por acção, quer por omissão. Ora, se o
direito ainda não entrou em vigor, não é internacionalmente obrigatório.
Segundo o Direito Constitucional português, a publicação oficial do instrumento de
aprovação ou ratificação não obsta a que a Convenção Internacional só revele na
ordem jurídica portuguesa após ter entrado em vigor na ordem internacional.

21. A cláusula de incorporação automática do art. 8º/3 CRP


“As normas emanadas dos órgãos competentes das Organizações Internacionais de
que Portugal seja parte vigoram directamente na ordem interna, desde que tal se
encontre expressamente estabelecido nos respectivos Tratados constitutivos”.
Assim se obstou à prática de futuras inconstitucionalidades, já que, autorizando
determinado resultado – a aplicabilidade directa de determinadas normas na ordem
jurídica portuguesa – implicitamente se tem como adquirido que a Constituição autoriza
a delegação de competências a tal necessária.
Como será fácil verificar, esta norma constitucional reproduz uma cláusula de
incorporação automática.
A esta possibilidade de relevância não mediatizada pelo Estado dá-se, portanto, o
nome de aplicabilidade directa.
De acordo com a Constituição, de momento, só os regulamentos comunitários estarão
aptos a ser directamente aplicáveis em Portugal. Com efeito, estipulando aquela que só
vigoram directamente na ordem jurídica interna as normas emanadas de organizações
de que Portugal faça parte e cujo Tratado constitutivo tal expressamente estabeleça,
decorre do texto do art. 189º do Tratado de Roma, de 25 de Março de 1957, que
instituiu a CEE, que só os regulamentos é expressamente reconhecido aplicabilidade
directa.
O regulamento tem carácter geral. É obrigatório em todos os seu elementos e
directamente aplicável em todos os Estados membros.
A directiva vincula o Estado membro destinatário quanto ao resultado a alcançar,
deixando no entanto, às instâncias nacionais a competência quanto à forma e quanto
aos meios.
A decisão é obrigatória em todos os seus elementos para os destinatários que ela
designar.
O art. 189º do Tratado de Roma atribui expressamente aplicabilidade directa aos
regulamentos comunitários, parece que, em rigor, a Constituição não deve obstar a que
o interesse comunitário essencial seja posto em causa só por causa da mera questão
de forma que o acto comunitário reveste.
Os regulamentos entram em vigor na ordem jurídica comunitária na data neles fixada
ou, nada dizendo sobre o assunto, no vigésimo dia posterior ao da publicação, e se as
directivas e as decisões entraram em vigor a partir do momento em que são notificados
os interessados, tal significa que nenhum destes actos pode ser publicado no jornal
oficial de qualquer Estado membro da comunidade.

E - A hierarquia entre as fontes de direito

22. O Direito Internacional Geral ou Comum, a Lei ordinária e a Constituição


Em relação ao Direito Internacional Geral, não temos a menor dúvida em atribuir-lhe
carácter supra-legal. Mesmo quando se defende que o Costume geral possui uma
posição hierárquica coincidente com a da lei ordinária (por exemplo na Inglaterra),
sempre se tem prescrito que esta lei deve ser interpretada no sentido de ser
harmonizada com o Direito Internacional comum, dado se presumir ter sido intenção do
legislador não o violar.
A Constituição seguiu, a melhor solução. Ao dizer que “as normas e os princípios de
Direito Internacional Geral ou Comum fazem parte integrante do Direito português” (art.
8º/1 CRP), não terá querido o legislador constituinte afirmar que eles “se transformam”
ou “entram” na ordem jurídica interna portuguesa, porque, conservam o seu carácter de
normas internacionais. A sua intenção terá sido portanto, a de significar, com as
palavras fazem parte integrante, a prevalência do Direito Internacional comum sobre o
Direito português infra-constitucional.
O Direito Internacional Geral ou Comum faz parte integrante da ordem jurídica
portuguesa, enquanto existir na ordem jurídica internacional como tal; e não pode,
deste modo, deixar de fazer parte integrante do Direito português prevalecendo assim,
sobre as normas ordinárias, enquanto o Estado português a ele estiver vinculado.
Há normas e princípios internacionais aplicáveis às relações entre os Estados que, por
terem recebido ao longo dos tempos um consenso universal, se transformaram em
direito que constitui património comum da uma unidade e se impõe, como tal, a todos
os Estados

23. O Direito Internacional Convencional, a Lei ordinária e a Constituição


Não se pode argumentar a favor da superioridade das Convenções Internacionais
invocando o argumento da dignidade e da solenidade dos compromissos por esse meio
assumidos. A Constituição de muitos Estados fixa a paridade hierárquica entre lei e
Tratado ou Acordo Internacional e nem, por isso esses Estados se vinculam com
menos dignidade nem com menos solenidade do que outros cuja a Constituição atribui
valor supra-legal às normas internacionais.
Também não parece que possa argumentar-se contra tal superioridade, afirmando que
a soberania do Estado ficaria restringida ou limitada em termos constitucionalmente
inaceitáveis. De facto, o direito de concluir Tratados constitui justamente um dos
elementos característicos dos Estados soberanos e também não consta que os
Estados que atribuem primazia ao Direito Internacional convencional sobre as suas leis
internas se sintam ou sejam considerados menos soberanos do que os restantes.
Concluímos, portanto, que a solução a seguir há-de ser obtida a partir das disposições
normativas do nosso texto constitucional.
Portanto, as normas convencionais só vigorarão internamente desde que vigorem
internacionalmente e também podem deixar de vigorar internamente enquanto vigoram
internacionalmente.
A vigência internacional é, assim, condição de vigência na ordem interna num duplo
sentido. Ora, uma norma convencional só pode deixar de vigorar internacionalmente
nos termos do Direito Internacional, ou seja, nos termos previstos pela própria
Convenção ou nos termos gerais.
Se as Convenções Internacionais podem ser declaradas inconstitucionais, é porque as
suas normas têm de se conformar à Constituição, sendo-lhes esta logicamente
superior.

24. O Direito Comunitário Derivado, a Lei ordinária, a Constituição e as


Convenções Internacionais
O Direito Comunitário tem primado sobre o Direito Interno e esta qualidade é-lhe
reconhecida por todas as jurisdições dos Estados membros da Comunidade Europeia.
Embora não possa ser apreciada previamente a constitucionalidade das normas
comunitárias, já que estas são incorporadas na ordem jurídica portuguesa sem
qualquer intervenção dos órgãos estaduais, os Tribunais Ordinários e o Tribunal
Constitucional não podem, nos termos dos arts. 204º, 277º, 280º e 281º da
Constituição, deixar de apreciar a constitucionalidade sucessiva, em concreto e em
abstracto, das normas comunitárias.

F - Fontes de Direito Internacional Público: O Costume Internacional e as


Convenções Internacionais
25. Noção de Fontes Formais e Fontes Materiais
A expressão Fontes de Direito pode ser tomada em duas acepções: como Fontes
Formais, ou seja, como processos de formulação do conteúdo de certa regra; e como
Fontes Materiais, isto é, como razões do surgimento do conteúdo das fontes formais,
por exemplo, as necessidades sociais.
Apenas as Fontes Materiais criam Direito, enquanto as Fontes Formais se limitam a
revelá-lo.

26. O Costume Internacional e a doutrina do “Tacitum Pactum”.


O Costume é uma prática reiterada e constante com convicção de obrigatoriedade. É
uma concepção Voluntarista, reduzindo toda a regra consuetudinária aos Costumes
particulares, fundamenta a obrigatoriedade do Direito Internacional do acordo
interestadual, que, quanto ao Costume, revestiria a forma de um Tacitum Pactum.
A doutrina do Tacitum Pactum, destrói completamente o fundamento do Costume
Internacional e diverge em pleno do seu entendimento clássico.

27. A Doutrina Clássica sobre a natureza jurídica do Costume Internacional


O elemento objectivo, que consiste na recepção geral, constante e uniforme da mesma
atitude, ou seja, sempre que os Estados se encontram em dada situação, todos eles
praticam ou omitem certo acto, fazendo-o da mesma forma.
O elemento subjectivo ou psicológico, por seu turno, consiste na convicção de que, se
adopta aquela atitude, se está a agir segundo o Direito. Sem este segundo elemento, a
prática internacional não passa de mero uso, uma vez que lhe falta a consciência da
sua jurisdicidade.

28. Relevo do Direito Internacional Público consuetudinário, apesar dos seus


defeitos. O “Ius Cogens”
Não podemos de forma alguma, negar a preponderância que assumiu o Direito
convencional como Fonte de Direito Internacional. É impensável pôr lado a lado a mole
das normas que diariamente surgem de fonte convencional e de fonte Costumeira.
Aliás, é importante verificar que os Tratados Multilaterais vão desempenhando uma
certa função de Direito Consuetudinário, ao mesmo tempo que a necessidade de
rapidez de formação e regulação dos vínculos internacionais faz surgir “modelos”
menos solenes e menos formais, como são os acordos em forma simplificada.
As normas consuetudinárias, integradas em Convenções Internacionais, conservam a
sua natureza de Direito Costumeiro.
O Direito Internacional consuetudinário tem ainda um relevo importantíssimo na
formação de normas de Ius Cogens, ou seja, das normas de direito imperativo que
regulam as relações entre os sujeitos da nossa disciplina. O art. 53º da Convenção de
Viena define a norma de Ius Cogens como “a que for aceite e reconhecida pela
comunidade internacional dos Estados no seu conjunto como norma à qual nenhuma
derrogação é permitida e que só pode ser modificada por norma de Direito
Internacional da mesma natureza”.

29. Hierarquia entre as fontes e hierarquia entre as normas de Direito


Internacional Público
O Princípios de Direito Reconhecidos pelas Nações civilizadas constituem fonte
subsidiária de Direito Internacional Público, só se devendo recorrer aos mesmos não
existindo Costume ou Tratado aplicáveis.
Não existe, porém, qualquer hierarquia entre Costume e a Convenção. O Tratado pode
revogar ou modificar o Costume, se bem que esta hipótese seja menos usual, dado
que normalmente o Tratado prevê o processo de modificação.
Verifica-se, contudo, uma hierarquia entre normas, não podendo as de Ius Cogens ser
contrariadas por outras quaisquer de natureza diferente.
O Costume Local é aquele que se estabelece entre Estados concretos, normalmente
só dois, constituindo um verdadeiro pacto tácito.
Perante a existência de um Direito Geral e um Direito Particular, ninguém vai,
certamente, negar a unidade do Direito Internacional Público, pois “o particular só se
manifesta nos limites fixados pelo geral”. A relação entre ambos não pode deixar de ser
de subordinação do Direito Regional ao Direito Geral.

G - As Convenções Internacionais

30. Delimitação do conceito de Tratado Internacional. Os termos “Convenção” e


“Acordo” Internacional
O art. 2º/1-a da Convenção de Viena, sobre o Direito dos Tratados, de 23 de Maio de
1969, põe-nos logo de sobreaviso quanto ao alcance da palavra Tratado e da palavra
Convenção, em Direito Internacional: “a expressão Tratado designa um Acordo
Internacional, quer esteja consignado num instrumento único, quer em dois ou vários
instrumentos conexos, e qualquer que seja a sua denominação particular”. Quer dizer,
o acto jurídico plurilateral, concluído entre sujeitos de Direito Internacional e submetido
por estes à regulamentação específica deste Direito, tanto pode ter a designação de
carta, acordo, estatuto, pacto, convenção, tratado, protocolo, declaração, etc. o que
define, portanto, esta nossa Fonte de Direito é o seu carácter plurilateral, a submissão
da sua regulamentação ao Direito Internacional e a sua conclusão entre sujeitos deste
ramo de Direito, que nada importando, internacionalmente, a designação que lhe seja
atribuída, em cada caso concreto.
A Convenção de Viena, só se aplica aos Tratados Internacionais concluídos por escrito
entre Estados e não aos Acordos Internacionais concluídos entre Estados e outros
sujeitos de Direito Internacional, nem aos Acordos Internacionais, concluídos em forma
não escrita (art. 3º CV). Daqui se podem tirar várias conclusões.
Primeira, é clara a divergência entre o termo Acordo na Convenção de Viena, e na
Constituição, o que, de resto, acontece também com o termo Tratado. De facto a
Constituição utiliza o termo genérico Convenções Internacionais para abranger tanto os
Tratados solenes como os acordos em forma simplificada. Quando se quer referir
especificamente aos Tratados solenes, usa o termo Tratado. Quando se quer referir
aos acordos em forma simplificada, utiliza apenas a expressão Acordo Internacional.
Segunda, a Convenção de Viena, não se aplica aos Tratados verbais.
Terceira, os acordos entre um Estado e uma Organização Internacional não são
regidos pela Convenção de Viena, embora ela se aplique ao acto constitutivo dessa
organização e aos Tratados concluídos e adoptados no seu âmbito e às relações entre
Estados regidas por Acordos Internacionais escritos dos quais também sejam parte as
Organizações Internacionais. O Tratado Internacional é a forma normalmente utilizada
para a criação de relações entre Estados soberanos. O estabelecimento de qualquer
relação económica, comercial ou financeira entre Estados pressupõe habitualmente um
Tratado de cooperação.
Os Tratados sobre o comércio também se limitam geralmente a enunciar umas quantas
regras muito gerais, a observar em trocas ulteriores, das quais a mais importante não
deixa de ser a cláusula da nação mais favorecida.
As relações entre Estados e Organizações Internacionais também são habitualmente
regidas pelo Direito Internacional Público, se bem que, por vezes, seja difícil a
qualificação da forma do acto que reveste o estabelecimento de tais relações. Há quem
considere, Convenção Internacional, o acordo entre dois Estados submetidos ao Direito
Interno de um deles, argumentando que, mesmo assim, sempre estaria subordinado
aos Princípios de Direito Reconhecidos pelas Nações civilizadas. Ora, de duas uma: tal
acordo ou está submetido ao Direito Interno ou ao Direito Internacional. Não sendo
regulado, por via principal, por este último, não pode qualificar-se como Convenção
Internacional. Estaremos perante um simples contracto de Direito Interno.
Uma outra hipótese muito frequentemente verificada na prática consiste em uma
Convenção Internacional concluída entre Estados remeter, quanto à sua execução,
para acordos a concluir por organismos públicos ou privados daqueles mesmos; neste
caso, é habitual ainda que aquela Convenção considere tais acordos executivos sua
“parte integrante”.
Bastante semelhantes às Convenções Internacionais são ainda os acordos celebrados
por pessoas privadas de vários Estados com vista a adoptarem regras jurídicas visando
suprir lacunas ou melhorar determinados sectores da ordem jurídica internacional
existente.
As Convenções Internacionais tem por objectivo criar normas jurídicas vinculativas dos
sujeitos intervenientes. Por esta mesma razão, é habitual excluir do campo do Direito
Internacional os acordos que dão pelo nome de gentlemen's agreements. Estes
acordos de cavalheiros são concluídos entre representantes governamentais em seu
próprio nome, ou seja, sem intenção de vincular os respectivos Estados.

31. Classificação de Convenções Internacionais


Se atendermos à forma que revestem, podemos classificar as Convenções
Internacionais em escritas e orais, conforme constam de um documento ou de um
comportamento verbal; e em Tratados (solenes) e Acordos (em forma simplificada).
Uma segunda classificação releva para efeitos de Direito Constitucional e de Direito
Internacional, em virtude do maior ou menor número de actos necessários à sua
perfeição. De facto, enquanto os Tratados Solenes carecem de ratificação, tal não
sucede com os Acordos de forma simplificada.
A mesma Convenção pode apresentar simultaneamente a forma de Tratado para uma
parte e a de Acordo simples para outra. Isto, claro, no caso da própria Convenção não
prever a necessidade da sua ratificação.
De acordo com o número de partes, pode a Convenção ser Bilateral ou multilateral,
conforme tenham participado, na sua conclusão, duas ou mais partes.
Tratados Multilaterais Gerais, significando-se com isso que os estes tendem para a
universalidade, sendo, portanto, irrelevante o número de partes que venham a ter;
chamam-se Tratados Multilaterais Restritos àqueles que apresentam como ponto
essencial o número de partes que nele participam. Todavia, é impossível dizer apenas
pelo número de partes se a Convenção Multilateral é restrita ou não.
A qualidade das partes também origina uma classificação das Convenções, que tem
expressão no art. 3º da CV, sobre o Direito dos Tratados. Tem-se assim, Tratados
concluídos entre Estados, acordos concluídos entre Estados e Organizações
Internacionais e acordos concluídos entre Organizações Internacionais.
É habitual falar-se ainda da distinção entre Tratados-leis e Tratados-contractos.
Enquanto estes seriam semelhantes aos contractos de Direito Interno, criando
situações opostas de carácter subjectivo, nos primeiros, as partes emitiram, não
vontades convergentes e contrapostas, mas antes um único feixe de vontades
paralelas, no mesmo sentido, criando, assim regras gerais e objectivas, tal como
acontece com os actos normativos de Direito Interno.

32. Processo da conclusão das Convenções Internacionais


a) Processo geral ou comum às Convenções Bilaterais e Multilaterais
A primeira peça do processo de conclusão de uma Convenção Internacional é a
negociação. Falamos de negociação no seu sentido mais amplo, abrangendo quer a
discussão do texto-projecto, apresentado por peritos, quer a redacção e adopção do
texto da futura Convenção.
Em Portugal, nos termos do art. 197º/1-b CRP – negociar e ajustar Convenções
Internacionais. Sendo esta, competência do Governo, devendo os Governos regionais
participar na negociação de todas as que digam respeito às Regiões Autónomas (art.
227º/t - participar nas negociações de Tratados e Acordos Internacionais que
directamente lhes digam respeito, bem como nos benefícios deles decorrentes da
Constituição).
Depois de redigido o texto, a Convenção Internacional apresenta-se com a seguinte
contextura: preâmbulo, dispositivo ou corpo da Convenção e anexos.
À negociação segue-se a fase de autenticação do texto, depois da qual este não pode
mais ser alterado (art. 10º CV).
A autenticação do texto da Convenção Internacional cria, para o Estado signatário, um
dever geral de Boa Fé e o direito de exercer certos actos para a defesa da sua
integridade.
Após a autenticação, vem, nos Tratados solenes, a manifestação do consentimento à
vinculação.
Segundo o art. 11º da Convenção de Viena, “o consentimento de um Estado a estar
vinculado por um Tratado pode manifestar-se pela assinatura, pela troca de
instrumentos constitutivos de um Tratado, pela ratificação, pela aceitação, pela
aprovação ou pela adesão, ou por qualquer outro meio convencionado”. Nos Tratados
solenes, a vinculação do Estado dá-se através da ratificação, que é o acto mediante o
qual o órgão competente segundo o Direito Constitucional manifesta a vontade de o
Estado se declarar obrigado em relação às disposições daqueles.
Pode dar-se o caso de a ratificação (art. 14º CV) vir a ser feita antes de se dar
cumprimento a algumas formalidades anteriores previstas pela Constituição estamos,
então, perante as chamadas ratificações imperfeitas, a respeito das quais rege o art.
46º da Convenção de Viena.
Quer o Acordo em forma simplificada quer os Tratados solenes têm de ser objecto de
um acto de aprovação, a praticar pelo Governo, em relação a ambos, sob a forma de
Decreto simples, art. 197.º/1-c CRP – aprovar os Acordos Internacionais cuja
aprovação não seja da competência da Assembleia da República ou que a esta não
tenham sido submetidos. Ou pela Assembleia da República, só em relação aos
Tratados, sob a forma de resolução art. 161º/i CRP – aprovar os Tratados,
designadamente os Tratados de participação de Portugal em Organizações
Internacionais, os Tratados de amizade, de paz, de defesa, de rectificação de fronteiras
e os respeitantes a assuntos militares, bem como os Acordos Internacionais que
versem matérias da sua competência reservada ou que o Governo entenda submeter à
sua apreciação.
Teremos uma ratificação imperfeita se o Presidente da República proceder à ratificação
de um Tratado solene sem que o Governo ou a Assembleia da República o tenha
aprovado.
Mas o art. 46º da Convenção de Viena sobre o Direito dos Tratados tem um campo
mais amplo de aplicação do que o das ratificações imperfeitas e diz respeito à violação
de qualquer regra de Direito Interno relativa à competência para a conclusão de
Convenções Internacionais. Quer dizer, tal disposição tem em vista ainda as
inconstitucionalidades orgânicas, abrangendo, por exemplo, os casos em que o
Governo aprova Tratados de competência do Parlamento.
De facto, pode dizer-se que um Tratado nunca está regularmente ratificado se não for
regularmente aprovado, ou seja, se sofrer de inconstitucionalidade formal.
O Tratado tem o seu momento de entrada em vigor. A tal respeito, rege o art. 24º CV.
Uma Convenção pode, nos termos do art. 25º da CV, aplicar-se a título provisório,
antes de entrar em vigor. Advirta-se também que há disposições das Convenções que
vinculam um Estado mesmo antes de essas Convenções terem entrado em vigor
relativamente a esse Estado, isto é, vinculam-no desde a adopção do texto.
Finalmente, as Convenções Internacionais são registadas e publicadas. A norma que
tal impõe é o art. 102º da Carta das Nações Unidas, completada pelo art. 80º da CV.
b) Especificidade do Processo de Conclusão das Convenções Multilaterais
A negociação é colectiva e feita numa conferência internacional onde os textos são
adoptados por maioria, ou no seio de uma Organização Internacional, por meio de um
seu órgão permanente.
Aparece-nos a distinção entre Convenções Multilaterais abertas e Convenções
Multilaterais fechadas. Enquanto, nas primeiras, podem vir a participar membros
diferentes dos contratantes originários, nas Convenções fechadas, só é admitida a
participação dos contratantes originários.
A participação nas Convenções abertas pode dar-se, quer pela assinatura diferida, quer
pela adesão.
A assinatura diferida, é aquela que podem fazer os Estados, quer tenham quer não
tenham tomado parte na negociação, durante um prazo fixado na própria Convenção. A
adesão, consiste no acto pelo qual um Estado não-signatário duma Convenção
Internacional, concluída entre outros Estados, em relação aos quais ela se encontra em
vigor, se torna parte nesta, tenha ou não tenha participado na sua negociação (art. 15º
da CV). As Convenções Multilaterais Gerais deveriam estar abertas à adesão de todos
os Estados. Tal não é, contudo, a prática seguida, dado que, muitas vezes, se
pretendem retirar efeitos políticos colaterais da mera possibilidade de participação
numa Convenção Internacional.
Como a adesão não é precedida de assinatura, a aprovação parlamentar ou
governativa da Convenção, por acaso, necessária deverá ser feita antes do envio do
instrumento de adesão.
Quando um Estado adere, sob reserva de ratificação, o depositário deve entender que
não se manifesta uma vontade definitiva de aderir, mas sim uma mera intenção de
aderir, sem qualquer efeito jurídico diferente daquele que provoca a assinatura dum
Tratado solene.
A entrada de um Estado para uma Convenção Multilateral é ainda facilitada pela
possibilidade de formulação de reservas.
A reserva é, segundo o art. 2º/1-d da CV, “uma declaração unilateral, qualquer que seja
o seu conteúdo ou uma designação, feita por um Estado quando assina, ratifica, aceita
ou aprova um Tratado ou a ele adere, pela qual visa excluir ou modificar o efeito
jurídico de certas disposições do Tratado na sua aplicação a este Estado”.
Pela formulação da reserva, modifica-se a Convenção nas relações entre o Estado que
a formulou e o Estado que a aceitou; não sem modificar as relações das outras partes
entre si; a Convenção entra em vigor entre o Estado que formulou a reserva e a parte
que a ela objectou e não se opôs a que a Convenção entrasse em vigor entre ambos,
embora as disposições sobre que incide a reserva não se apliquem entre os dois
Estados, na medida do que foi previsto pela reserva. A formulação de uma reserva nem
a objecção à mesma têm carácter definitivo, podendo ser unilateralmente retiradas (art.
22º da CV).
As Convenções Multilaterais obrigam à instituição de um depositário, que evita as
trocas excessivas de instrumentos de ratificação, enviando-se, assim, apenas um
instrumento de ratificação que é depositário ou no Estado no Território do qual se
desenrolaram as negociações ou no secretariado de uma Organização Internacional,
quando a Convenção é negociada sob os auspícios ou no seio dessa Organização. O
depositário notifica os restantes Estados do depósito das ratificações que se forem
operando.

33. Condições de validade das Convenções Internacionais


a) Capacidade das partes
Só têm capacidade para celebrar Convenções Internacionais os sujeitos activos de
Direito Internacional.
Face ao art. 6º da CV (“todo o Estado tem capacidade para contrair Tratados”), a
incapacidade de um Estado só pode resultar de um Tratado anterior
A sanção da incapacidade internacional é a nulidade da Convenção.
b) Regularidade do consentimento
1. Irregularidades formais
Estas irregularidades dizem respeito à competência e ao processo para a conclusão
das Convenções.
2. Irregularidades substanciais.

I. ERRO
Art. 48º da CV. Tanto se pode tratar de um Erro de facto como de direito. O Erro pode
ser determinante e desculpável.
O Erro de redacção da Convenção não afecta a sua validade, dando apenas lugar à
sua rectificação, segundo o art. 79º da CV.
Não se faz, no art. 48º CV, qualquer distinção entre Erro Bilateral e Erro Unilateral.
Também o Erro provoca uma nulidade relativa, só podendo o vício ser invocado pela
parte que dele é vítima.

II. DOLO
O Dolo encontra-se muito próximo do Erro. Simplesmente, no Dolo, há artimanhas da
contra-parte, que induzem a vítima em erro. Sucede, por isso, que também só a vítima
o pode arguir (nulidade relativa), ou pode sanar o vício expressa ou tacitamente, art.
49º da CV.

III. CORRUPÇÃO DO REPRESENTANTE DE UM ESTADO


A Corrupção produz a nulidade do Tratado. Para que tal vício possa ser imputado a um
Estado, basta que o acto que lhe dá origem emane de uma pessoa que age por conta
desse Estado ou sob seu controlo, art. 50º da CV.

IV. COACÇÃO EXERCIDA SOBRE O REPRESENTANTE DE UM ESTADO E


COACÇÃO EXERCIDA SOBRE UM ESTADO PELA AMEAÇA OU PELO EMPREGO
DA FORÇA
São casos de nulidade absoluta regulados pelos arts. 51º e 52º da CV.
c) Licitude do objecto
Segundo o art. 53º da CV, “é nulo todo o Tratado que, no momento da sua conclusão, é
incompatível com uma norma imperativa de Direito Internacional Geral”.
Segundo o art. 64º da CV, “se sobrevier uma nova norma imperativa de Direito
Internacional Geral, todo o Tratado existente que seja incompatível com esta norma
torna-se nulo e cessa a sua vigência”.

34. Processo de anulação das Convenções Internacionais


O processo de anulação de uma Convenção Internacional vem regulado nos arts. 65º,
66º e 67º da Convenção de Viena.
A parte que pretende arguir a nulidade ou a anulabilidade de uma Convenção deve
notificar a sua pretensão à outra ou outras partes. Não há prazo de caducidade para o
exercício deste direito, sendo ele exclusivo das partes, não podendo, portanto,
qualquer terceiro Estado invocar o vício, mesmo que se trate de um caso de
anulabilidade absoluta.
De acordo com o art. 44º da CV, a arguição da nulidade só pode ser feita em relação a
toda a Convenção e não apenas em relação a certas cláusulas, salvo se:

a) Essas cláusulas são separáveis do resto do Tratado, no que respeita à


execução;

b) Resulta do Tratado ou foi por outra forma estabelecido que a aceitação das
referidas cláusulas não constituiu para a outra parte ou para as outras partes no
Tratado uma base essencial do seu consentimento a estarem vinculadas pelo
Tratado no seu conjunto;

c) E não for justo continuar a executar o que subsiste do Tratado.

Tratando-se de dolo ou corrupção do representante dum Estado, o Estado lesado tanto


pode arguir a nulidade de todo o Tratado, como pode invocar apenas a nulidade de
certas cláusulas. Caso a nulidade tenha origem na coacção ou na incompatibilidade da
Convenção com uma norma de “Ius Cogens”, apenas pode ser invocada a nulidade de
toda a Convenção.
35. Consequências das nulidades das Convenções Internacionais
As consequências das nulidades variam conforme a espécie de nulidade em causa.
As disposições duma Convenção nula não têm força jurídica, mas, se tiverem sido
praticados actos nulos com fundamento numa tal Convenção:

a) Qualquer parte pode pedir a qualquer outra parte que restabeleça, tanto quanto
possível, nas suas relações mútuas, a situação que teria existido se esses actos não
tivessem sido praticados

b) Os actos praticados de Boa Fé, antes de a nulidade haver sido invocada, não são
afectados pela nulidade do Tratado.

Quer dizer: os actos praticados devem, tanto quanto possível, desaparecer. Todavia,
como foram praticados de Boa Fé, não originam, a Responsabilidade Internacional do
Estado.
Quando a nulidade resulta da oposição da Convenção a uma norma de Ius Cogens, as
partes são obrigadas:

a) A eliminar, na medida do possível as consequências de todo o acto praticado com


base numa disposição que seja incompatível com a norma imperativa de Direito
Internacional; e

b) A tornar as suas relações mútuas conformes à norma imperativa de Direito


Internacional geral.

Quando tal norma surge posteriormente à conclusão da dita Convenção, a cessação da


sua vigência:

a) Liberta as partes da obrigação de continuar a executar a Convenção;

b) Não afecta nenhum direito, nem nenhuma obrigação, nem nenhuma situação
jurídica das partes, criados pela execução da Convenção, antes de se extinguir.
36. Execução de Convenções Internacionais
Uma Convenção Internacional deve ser executada de acordo com o princípio de Boa
Fé, abstendo-se o Estado de reduzir a nada o seu objecto e o seu fim, e, salvo
disposição em contrário, não se aplica retroactivamente, nem apenas a uma ou
algumas partes do Território de um Estado.
O art. 30º da CV, fixa uma ordem de prioridade. Assim, e não falando, de novo, da
prioridade absoluta das normas de Ius Cogens:
As normas de uma Convenção que violem as normas da Carta das Nações Unidas
deverão ceder perante estas;
Se uma Convenção estabelece que está subordinada a outra anterior ou posterior ou
não deve ser considerada incompatível com essa outra Convenção, as disposições
desta prevalecem sobre as daquela;
Se estamos em face de duas Convenções sucessivas com identidade de partes, sem
que a primeira tenha deixado de vigorar, as disposições da primeira, que sejam
incompatíveis com a segunda, não se aplicam.

Se não se verifica a identidade das partes:

a) Nas relações entre Estados-partes em ambas as Convenções, aplicam-se as


disposições da primeira, que sejam compatíveis com a segunda;

b) Nas relações entre um Estado-parte nas duas Convenções e um Estado-parte


apenas numa dessas Convenções na qual os dois Estados são partes rege os seus
direitos e obrigações recíprocos.

37. Efeitos das Convenções Internacionais


De acordo com o Princípio da Relatividade das Convenções Internacionais, “um
Tratado não cria obrigações nem direitos para um terceiro Estado sem o consentimento
deste último”.
Uma Convenção também pode atribuir um direito a um Estado terceiro, através daquilo
a que habitualmente se chama estipulação a favor de outrem, mediante a qual, as
partes, com o consentimento, mesmo presumido, do terceiro, lhe concedem tal direito,
que permanece irrevogável e imodificável a não ser com o consentimento deste último,
desde que tal tenha sido estatuído.
A cláusula da nação mais favorecida é outra das técnicas destinadas a criar direitos a
favor de Estados terceiros com o seu consentimento.

38. Interpretação das Convenções Internacionais


O art. 31º da CV, manda interpretar de Boa Fé, segundo o sentido comum atribuível
aos termos da Convenção no seu contexto e à luz dos respectivos objecto e fim.
Como meio complementar de interpretação, as partes podem lançar mão dos trabalhos
preparatórios e das circunstâncias em que foi concluída a Convenção, desde que a
utilização dos meios descritos tenha conduzido a um sentido ambíguo, absurdo ou não
razoável.

39. Extinção ou suspensão da vigência das Convenções Internacionais


A extinção distingue-se da suspensão, porque, pela primeira, uma Convenção perde
definitivamente a vigência e a potencialidade de produzir os seus efeitos jurídicos,
enquanto pela segunda, tal só acontece duma forma provisória, retomando a
Convenção a sua vigência logo que cesse o motivo que tenha determinado a
suspensão.
A extinção e a suspensão podem resultar das próprias disposições da Convenção,
expressas, ou implícitas.
Podem ainda resultar da conclusão duma Convenção posterior.
Uma terceira ordem de fundamentos para a extinção (ou suspensão, quando possível)
é constituída por:
Nascimento de uma norma de Ius Cogens com a qual a Convenção seja incompatível;

Nascimento de um Costume derrogatório;

Violação culposa pela contraparente;

Impossibilidade superveniente de execução;

Mudança radical e imprevisível das circunstâncias;


Extinção das partes contratantes;

Estado de Guerra.

O processo para se invocar uma causa de suspensão ou extinção duma Convenção


Internacional é semelhante ao da arguição da nulidade e encontra-se nos arts. 65º e
seg. da Convenção de Viena.
As consequências da extinção encontram-se reguladas no art. 70º e as da suspensão
no art. 72º da Convenção de Viena.

40. Revisão e modificação das Convenções Internacionais


Os termos Modificação, Revisão e Emenda são juridicamente equivalentes.
A necessidade de consentimento unânime vigora como regra, quanto à revisão das
Convenções Bilaterais e Multilaterais restritas.
Nas Convenções Multilaterais, podem dar-se dois casos:

a) Ou as Convenções contêm cláusulas de revisão, que fixam as condições e o


processo a seguir na revisão, sendo tais cláusulas de observância imperativa;

b) Ou tais cláusulas não existem e, então, o acordo que revê a primeira Convenção
não necessita de ser aprovado por unanimidade; basta que o seja por maioria.

41. Fiscalização da constitucionalidade das Convenções Internacionais


São possíveis, nos termos dos arts. 280º e 281º da Constituição, de ser submetidas à
fiscalização sucessiva concreta e abstracta. Se forem declaradas inconstitucionais,
serão, na primeira hipótese, desaplicadas ao caso sub iudice e deixarão, na segunda
hipótese, de vigorar desde a data da sua entrada em vigor (se a inconstitucionalidade
for originária) ou desde a entrada em vigor de norma constitucional posterior com
aquelas incompatível (se a inconstitucionalidade for superveniente).
O Presidente da República pode requerer ao Tribunal Constitucional a apreciação
preventiva da constitucionalidade de qualquer norma constante de Tratado
Internacional que lhe tenha sido submetido para ratificação, de Decreto que lhe tenha
sido enviado para promulgação como Lei ou como Decreto-lei ou de Acordo
Internacional cujo decreto de aprovação lhe tenha sido remetido para assinatura (art.
278º/1 CRP).
Se o Tribunal Constitucional se pronunciar pela inconstitucionalidade de norma
constante de qualquer Decreto ou Acordo Internacional, deverá o diploma ser vetado
pelo Presidente da República ou pelo Ministro da República, conforme os casos, e
devolvido ao órgão que o tiver aprovado (art. 279º/1 CRP).

H - As Restantes Fontes de Direito Internacional Público

42. Os princípios de Direito reconhecidos pelas nações civilizadas


A alínea c) do art. 38º do Estatuto do Tribunal Internacional de Justiça manda aplicar,
nas controvérsias submetidas a este órgão jurisdicional, “os Princípios de Direito
Reconhecidos pelas Nações civilizadas”.
As posições sobre este assunto são três: ou se trata de princípios de Direito
Internacional Público, ou de princípios de Direito Interno, ou de princípios que tanto
podem ser de Direito Internacional Público como ao Direito Interno.
Temos por correcta a segunda posição, por vários motivos.
Por um lado, sendo os princípios gerais de direito considerados fonte subsidiária de
Direito Internacional, impeditiva de um non liquet, que só funcionará quando falharem
as normas convencionais e consuetudinárias, não se compreende que se confundem
com os próprios princípios de Direito Internacional a cuja lacuna pretendem obviar.
Além disso, a formulação do art. 38º coloca esta fonte, sem ambiguidade, ao lado das
restantes, com perfeita autonomia.
Em terceiro lugar, os trabalhos preparatórios da alínea c) mostram que se quis
consagrar apenas os princípios de Direito Interno (Público ou Privado) e não quaisquer
princípios de Direito Internacional.
Entendemos pois, os Princípios de Direito Reconhecidos pelas Nações civilizadas
como fonte autónoma e directa de Direito Internacional, embora com carácter
subsidiário, visando possibilitar ao juiz a resolução de todos os diferendos que lhe
sejam submetidos. O art. 38º/1-c funciona, não como regra constitutiva, mas como
norma puramente declarativa duma prática que já vinha de 1794.
O princípio do abuso do direito, significa que o Estado exerce uma competência de
forma a iludir uma obrigação internacional ou leva-a a cabo com desvio de poder, isto
é, desenvolve-a com vista a prosseguir um fim diferente daquele em virtude do qual a
dita competência lhe foi reconhecida.
O princípio segundo o qual a lei especial prevalece sobre a lei geral, é de fácil
apreensão: se entre os Estados de uma região do globo se forma um Costume
regional, ele prevalece, nas relações entre tais Estados, sobre o Costume geral.
O princípio do estoppel, significa que uma parte num processo vê precludido o direito
de adoptar uma atitude que contradiz o que ela expressa ou implicitamente admitiu
anteriormente, se da adopção da nova atitude resulta prejuízo para a contra-parte.

43. A Jurisprudência e a Doutrina


“Sob reserva do disposto no art. 59º, as decisões judiciais e a doutrina dos publicista
mais qualificados das diferentes nações, como meio auxiliar para a determinação das
regras de direito” serão também tidas em conta pelo Tribunal Internacional de Justiça.
Devemos assentar nisto: nem a Jurisprudência nem a Doutrina são Fontes Imediatas e
Formais de Direito Internacional Público. De modo que a decisão que o Tribunal
Internacional de Justiça venha a emanar não pode apoiar-se senão nas regras das três
alíneas do n.º 1 do art. 38º do seu estatuto. O papel da Jurisprudência e da Doutrina é
apenas o de servirem de meios auxiliares na determinação do sentido daquelas regras.

44. A Equidade
Nenhum Estado se obrigará a submeter, duma forma geral, todos os seus diferendos a
julgamentos segundo a equidade. Casos raros existem, contudo, em que as partes
atribuem ao juiz arbitral ou ao tribunal permanente o papel de legislador, chegando
mesmo a afastar o direito que, em princípio, seria aplicável ao caso sub iudice. De
acordo com o exposto, o n.º 2 do art. 38º reconhece expressamente “a faculdade de o
juiz decidir ex aequo et bono, se as partes estiverem de acordo”.

45. Os actos jurídicos unilaterais


Tais actos podem produzir efeitos jurídicos, mas não são criadores de regras atributivas
de direitos e obrigações aos sujeitos de Direito Internacional.
Achamos que o Acto Jurídico Unilateral autónomo deve ser considerado como
autêntica Fonte Formal de Direito Internacional. Não o é, portanto, quer o acto
unilateral que consiste na concretização duma Convenção, quer o acto unilateral, para
a validade do qual foi necessário o concurso de outra manifestação de vontade seja ela
Bilateral, Multilateral ou Unilateral.
Para que um Acto Unilateral se considere uma Fonte Formal de Direito Internacional,
tem de constituir um acto jurídico anterior. Respeitam estes pressupostos o protesto, o
reconhecimento a promessa, a renúncia e a notificação.
I - Os Sujeitos de Direito Internacional Público. Generalidades. O Estado

46. Discordância da doutrina quanto ao número e natureza dos sujeitos de Direito


Internacional Público
São três correntes, que se têm defrontado neste campo.
Para uma delas, chamada Clássica ou Estadualista, apenas os Estados são sujeitos de
Direito Internacional. Estado e pessoa jurídica internacional são duas noções que se
identificam, portanto, a não ser que se verifiquem quaisquer anomalias históricas, a
personalidade jurídica internacional deriva da reunião de todos os atributos da
soberania.
Foi ultrapassada por uma dupla de acontecimentos. Por um lado, verificou-se uma
certa “sublimação” das soberanias na Constituição das várias Organizações
Internacionais, dotadas de autonomia e capacidade de agir. Por outro lado, as
circunstâncias levaram a reconhecer certas capacidades jurídicas aos insurrectos e aos
movimentos de libertação nacional, assim como a reconhecer um verdadeiro locus
standi internacional à pessoa humana e a certas minorias.
A Tese Individualista, situa-se no pólo oposto: não é já o Estado o único sujeito de
Direito Internacional, mas é antes o indivíduo. Partindo do pressuposto de que o
indivíduo é o verdadeiro sujeito numa sociedade qualquer, a conclusão não pode
modificar-se na sociedade internacional.
O verdadeiro sujeito na ordem jurídica internacional será todo o indivíduo que em cada
Estado tenha a seu cargo a direcção das relações internacionais ou que intervenha
activamente nelas.
É de rejeitar esta doutrina.
Na verdade, faz caber no Direito Internacional Público muitas normas ou instituições
cuja a verdadeira sede é Direito Internacional Privado. Por outro lado, não compreende
a personalidade jurídica do Estado e das Organizações Internacionais, que confere a
tais entidades a qualidade de verdadeiros centros autónomos de direito e deveres.
No surgimento das Teorias Ecléticas ou Heteropersonalistas. Para estas, o âmbito dos
sujeitos de Direito Internacional é muito vasto.
Os sujeitos, aqui, são o Estado, as Organizações Internacionais e o próprio indivíduo.
É a que se encontra mais próxima da realidade.
É a verdade que os Estados e as Organizações Internacionais são os principais actores
internacionais. O indivíduo vai-se afirmando cada vez mais como pessoa jurídica
internacional.
47. O Estado
a) O Reconhecimento declarativo do Estado
Os Estados são as pessoas jurídicas internacionais por excelência. Ao contrário de
outros sujeitos de Direito Internacional, cuja a personalidade é criada e cuja capacidade
é delimitada por Tratado e muito raramente pelo Costume Internacional, “os Estados
são sujeitos imediatos ou primários da ordem jurídica internacional”. O Estado é hoje a
forma política essencial por meio da qual toda a colectividade tem acesso à vida
internacional.
O reconhecimento é um acto unilateral e livre pelo qual um Estado manifesta ter
tomado conhecimento da existência de outro, como membro da comunidade
internacional.
Nesta definição está já pressuposto um modo de ver quanto ao problema da natureza
do reconhecimento como declarativo ou constitutivo. De facto, quem considerar o acto
de reconhecimento como unilateral, enfileira na tese dos defensores do seu carácter
declarativo, acontecendo o contrário com os defensores do reconhecimento como acto
bilateral.
Além do voluntarismo inerente a esta concepção, repudiamos a doutrina do efeito
constitutivo por várias razões: primeiro, porque a prática internacional é justamente no
sentido do efeito declarativo; por outro lado, se o reconhecimento tivesse efeito
constitutivo, seria um acto retroactivo, e só perante ele o Estado reconhecido assumiria
em face do reconhecedor os seus deveres e responsabilidades desde o momento em
que constituiu e nunca os assumiria se não fosse reconhecido.
A personalidade jurídica do Estado não surge com o reconhecimento, mas antes
quando se reúnem todos os elementos constitutivos. O reconhecimento apenas
consigna um facto preexistente.
O reconhecimento de um Estado pode ser expresso ou tácito. No primeiro caso, há
uma declaração explícita numa nota ou num Tratado. O reconhecimento tácito é aquele
que resulta de um acto que, implicitamente, mostra a intenção de tratar o novo Estado
como membro da comunidade internacional.
O facto de um Estado ser membro de uma Organização Internacional não implica que
tenha reconhecido todos os Estados da mesma.
Costuma-se falar ainda em reconhecimento de iure e de facto, considerando-se o
segundo como um reconhecimento provisório, ou apenas referente a certo número de
relações, enquanto o primeiro é definitivo e completo.

b) O Reconhecimento constitutivo dos Beligerantes e dos Insurrectos


O reconhecimento como Estado pode ser precedido do reconhecimento como grupo
beligerante ou insurrecto.
Um grupo é Beligerante quando uma parte da população se subleva, dando origem a
uma guerra civil, pretendendo desmembrar-se do Estado de que faz parte ou ocupar
definitivamente o poder. Neste caso, quando o grupo sublevado constitui um Governo
estável, mantém um exército organizado com o qual domina uma parte considerável do
Território nacional e se mostra disposto a respeitar os deveres de neutralidade de
qualquer Estado atingido pela luta ou que não possa ficar indiferente perante ela pode
reconhecer-lhe o carácter de beligerante. Reconhecidos, os beligerantes adquirem, de
facto, os direitos e deveres de um Estado.
Por vezes, tem sucedido que uma esquadra se amotina contra o Governo legal,
exercendo sobre o mesmo uma grande pressão política.
Nestes casos, se os Estados estrangeiros ou o Governo legal reconhecerem os
amotinados como Insurrectos, obrigam-se a não os tratar como piratas ou malfeitores,
desonerando-se ainda o Governo legal da responsabilidade dos seus actos.
Todavia, tais insurrectos, mesmo quando reconhecidos, não podem exercer direitos de
visita, de captura de contrabando de guerra, etc.
O Direito Internacional não se impõe às legislações internacionais quanto aos efeitos
do reconhecimento, porque não regula as consequências na ordem jurídica estadual da
atitude do poder executivo perante uma entidade que possui todas as características
dum Estado.

J - Elementos Constitutivos do Estado

48. Generalidades. Os vários elementos que compõem o Território


A importância do Território como elemento constitutivo do Estado é muito grande. Por
um lado, marca o domínio dentro do qual o Estado exerce a sua soberania. Em
segundo lugar, e referindo-se agora a sua extensão, é factor de defesa militar e de
defesa económica, sobretudo quando à extensão se alia a fertilidade do solo ou a
riqueza do subsolo.
Todo o Estado deve obstar a que o seu Território seja utilizado para a prática de actos
contrários aos direitos de outros Estados.
O Território deve ser bem demarcado. A demarcação segue normalmente os acidentes
naturais, quando só há, ou acompanha um paralelo, um meridiano, etc., quando
aqueles não existem. As fronteiras chamam-se naturais, no primeiro caso, e artificiais,
no segundo.
Podemos dividir o Território em Domínio Terrestre, Domínio Fluvial, Domínio Marítimo,
Domínio Lacustre e Domínio Aéreo.
49. Domínio Terrestre
O Domínio Terrestre é a parte do Território que faz parte o solo e o subsolo situados
dentro das fronteiras do Estado. O subsolo, seja qual for a profundidade, é considerado
pertencente ao Estado que exerce soberania sobre o solo correspondente.

50. Domínio Fluvial


O Domínio Fluvial é constituído por todos os cursos de água ou pela parte dos mesmos
que correm no Território de um Estado e pela parte dos cursos de água que o separam
de outro ou outros Estados e sobre o qual exercem soberania.

51. Domínio Marítimo Tradicional


O Domínio Marítimo do Estado abrange tradicionalmente as águas interiores, o mar
territorial, a zona contígua, a plataforma continental, os mares internos, os estreitos e
os canais.

52. Domínio Lacustre


Os lagos são superfícies maiores ou menores de água doce totalmente rodeados de
terra.
Em princípio, aplicam-se-lhes as normas que vigoram quanto aos mares internos. Não
lhes aplicam tais regras quando o lago comunica com o mar por meio de um curso de
água que se situa no Território de mais que um Estado. Neste caso, parece que a
jurisdição sobre cada parte da extensão de águas deve ser da exclusividade de cada
Estado ribeirinho. Aplicam-se, pois as normas do domínio fluvial.

53. Domínio Aéreo e Espaço Exterior


O Direito Aéreo é formado por uma série de acordos Bilaterais e Multilaterais, que o
fazem contrastar com muitas regras de origem consuetudinária vigentes em direito
marítimo.
Cada Estado exerce soberania sobre o espaço aéreo suprajacente ao seu domínio
terrestre, fluvial, lacustre e suprajacente ao mar territorial e águas interiores.

L - A População
54. Jurisdição do Estado sobre nacionais. A Nacionalidade
A População é o “agregado de indivíduos de ambos os sexos que vivem em conjunto,
formando uma comunidade”.
A população de cada Estado é objecto da jurisdição deste. Assim, todas as pessoas
residentes num Território estão submetidas, em princípio, à competência do respectivo
Estado.
Portanto, a jurisdição do Estado exerce-se sobre os seus nacionais. A nacionalidade
pode definir-se como a “pertença permanente e passiva” de uma pessoa a determinado
Estado, sob cuja autoridade directa se encontra, reconhecendo-lhe estes direitos civis e
políticos e dando-lhe protecção quando se encontra além-fronteiras.
A nacionalidade pode classificar-se em originária e adquirida. É originária, aquela que o
indivíduo toma pelo nascimento. É adquirida a que resulta de facto posterior ao
nascimento.
A nacionalidade originária pode obter-se segundo o ius sanguinis, isto é, o indivíduo
receba a nacionalidade dos seus pais independentemente do local em que nasceu; e
pode obter-se segundo o ius soli, ou seja, o local do nascimento é que determina a
nacionalidade.
Normalmente sucede que as leis internas combinam os dois sistemas, resultando daí
um sistema misto. Geralmente nenhum Estado adopta de modo exclusivo o sistema ius
sanguinis ou ius soli. Se um predomina, sempre aparecem excepções na legislação,
que se afastam da regra geral, devendo todavia realçar-se que predomina este último
critério nos Estados carecidos de população.
Deve notar-se que nenhum Estado é obrigado a permitir que um estrangeiro tome a
sua nacionalidade, mesmo depois de preenchidos os requisitos legais.
Para efeitos de naturalização, as pessoas ficam geralmente equiparadas aos nacionais
originários em matéria de direitos civis, o mesmo não acontecendo no campo os
direitos políticos (art. 15.º - Estrangeiros, apátridas, cidadãos europeus:

1. Os estrangeiros e os apátridas que se encontrem ou residam em Portugal gozam


dos direitos e estão sujeitos aos deveres do cidadão português.

2. Exceptuam-se do disposto no número anterior os direitos políticos, o exercício das


funções públicas que não tenham carácter predominantemente técnico e os direitos e
deveres reservados pela Constituição e pela lei exclusivamente aos cidadãos
portugueses.
3. A lei pode atribuir a estrangeiros residentes no Território nacional, em condições de
reciprocidade, capacidade eleitoral activa e passiva para a eleição dos titulares de
órgãos de autarquias locais.

A naturalização pode não fazer perder a nacionalidade de origem. E quando faz, não
tem efeitos retroactivos.

M - Responsabilidade Internacional do Estado

55. Casos de responsabilidade subjectiva e de responsabilidade objectiva


A Responsabilidade Internacional do Estado tanto pode resultar duma omissão, como
dum acto positivo. Qualquer destas violações da ordem jurídica internacional pode ter
como fonte quer o Costume quer os Tratados Internacionais.
A Responsabilidade Internacional do Estado advém, em primeiro lugar, dos actos do
seu órgão. Deve, contudo ficar explícito que nem sempre a actividade de um órgão
produz a responsabilidade de um Estado: basta que ele aja num domínio em que é
incompetente e essa incompetência seja manifesta.
Por actos do poder legislativo, que possam tornar o Estado responsável, entende-se
geralmente a promulgação duma lei contrária ao Direito Internacional, ou a não
publicação de uma norma exigida para o cumprimento dos seus compromissos
internacionais, ou a sua aprovação de uma forma defeituosa.
Igualmente os actos dos órgãos administrativos podem responsabilizar o Estado.
É também muito frequente a responsabilização do Estado por actos do seu aparelho
judicial. Em primeiro lugar, pode ser recusado o acesso do estrangeiro ao tribunal. Por
outro lado, pode fazer-se uma má administração da justiça quer recusando-se o
tribunal a decidir, quer retardando-se inexplicavelmente o processo, quer submetendo o
estrangeiro a um tribunal de excepção ou irregularmente constituído. A mesma
responsabilidade advém ainda dos julgamentos manifestamente injustos, quer porque
violam leis destinadas a proteger estrangeiros, quer porque fazem interpretações
abusivas e que lesam a pessoa que recorreu ao tribunal.
O Estado não é responsável apenas pelos actos dos seus órgãos. Há também certos
actos praticados pelos indivíduos que podem responsabilizar: são sobretudo os actos
praticados contra o Estado estrangeiro ou seus representantes.
Para além da responsabilidade por actos dos seus órgãos, o Estado pode ser
internacionalmente responsável por actos de entidades públicas territoriais, por actos
de entidades não integradas na estrutura do Estado, mas habilitadas pelo Direito
Interno a exercer prerrogativas de poder público, e por actos de órgãos de um Estado
ou de uma Organização Internacional postos à disposição do Estado territorial.
Um Estado pode também ser responsável pelos actos de outro quando o representa
internacionalmente. A sua responsabilidade não ultrapassa os actos em que representa
o outro no exterior.
A Responsabilidade Internacional dum Estado pode ainda advir da prática de crimes
contra a paz.

56. O recurso à protecção diplomática


A Protecção Diplomática consiste na acção diplomática levada a cabo pelo Estado
nacional do indivíduo prejudicado junto do Governo ou do Estado que
internacionalmente é presumível responsável. Esta acção tem em vista obter a
reparação do dano causado ao nacional do Estado reclamante, é empreendida pelos
canais diplomáticos normais e termina, ou por uma solução política, ou pela sentença
dum tribunal arbitral ou dum tribunal internacional a que ambos os Estados resolverem
submeter o diferendo.
Ora, tanto a jurisprudência como a doutrina, têm sustentado que é considerada
extemporânea qualquer reclamação diplomática feita antes do indivíduo lesado ter
esgotado todos os recursos ou instâncias de Direito Interno postas ao seu dispor pelo
Estado onde sofre o dano.
Quer dizer, para além da produção de um dano a um indivíduo e da existência de uma
relação de casualidade adequada entre a violação de uma norma ou princípio de
Direito Internacional e a produção de tal dano, o recurso à protecção diplomática tem
um terceiro pressuposto: é necessário que o lesado tenha agido de acordo com o
princípio do esgotamento dos recursos ou instâncias de Direito Interno.
Este princípio parece justificado por três ordens de razões.
Em primeiro lugar, deve dar-se ao Estado-réu a possibilidade de demonstrar que não
houve dano em relação ao estrangeiro ou a possibilidade de o reparar quando ele
existe.
Para além disso, um delito internacional só muito tardiamente é colocado à disposição
dos árbitros ou juízes internacionais, os quais normalmente também não estão muito
apetrechados para conhecerem até à exaustão o Direito Interno dos Estados
intervenientes. Daí que o princípio do esgotamento funcione também como resposta a
exigências de carácter técnico.
Podem os Estados interessados renunciar à exigência do esgotamento dos recursos de
Direito Interno através do compromisso arbitral ou através da Convenção de
reclamações.
O princípio admite excepções. Ora, o princípio nunca as poderia admitir, se não
constituísse uma regra processual, porque doutro modo, estar-se-ia a ficcionar, nos
casos constitutivos de excepções, uma responsabilidade também antecipada.
O princípio só tem aplicação nos casos em que a vítima do acto ilícito é uma pessoa
privada. Compreende-se que a condição do esgotamento dos recursos locais não se
verifique sempre que os lesados gozam de imunidade de jurisdição.
Mesmo quando a vítima é uma pessoa privada, o princípio não se aplica quando já
houve pedidos iguais rejeitados pelos tribunais locais, quando se verifica um grave
perigo na demora do processo, quando os tribunais internos são constitucionalmente
incompetentes e, ainda, quando os particulares podem fazer valer o direito à protecção
directamente num, Tratado e não o direito que consuetudinariamente lhes é
reconhecido.
Também se admite que o particular se abstenha de seguir aquele princípio quando há
grave perigo na demora.
Outra excepção verifica-se habitualmente quando um Estado emana uma lei de
nacionalização ou pratica actos políticos que lesam o estrangeiro
A excepção preliminar de não-esgotamento dos recursos de Direito Interno pode ser
convencionalmente dispensada. Basta que os Estados interessados a ela renunciem
expressamente.
Outra regra para que se possa recorrer à protecção diplomática é a da necessidade de
um vínculo de nacionalidade efectiva entre o indivíduo lesado e o Estado reclamante.
Quer isto dizer, pelo menos duas coisas: que nenhum Estado, salvo disposição em
contrário, faz reclamações a favor de estrangeiros e apátridas; e que nenhuma
reclamação é aceite se se verificar uma mera nacionalidade técnica entre o lesado e o
Estado reclamante.
Deverá fazer a reclamação diplomática o Estado que mais possa mostrar interessado
na causa. Deste modo, não será difícil concluir que o Estado reclamante deverá ser o
novo Estado, nos casos de acesso à independência, o mesmo acontecendo nos casos
de anexação territorial. Sempre que a nova nacionalidade resulte de um acordo
voluntariamente celebrado entre dois Estados, não há óbice a que o mesmo acordo fixe
as regras a seguir.
O vínculo da nacionalidade deve existir no momento da produção do dano, devendo
manter-se até à reclamação, sendo irrelevante que já não exista no momento em que é
proferida a sentença. Seria manifestamente injusto que um particular deixasse de obter
reparação de um dano sofrido, depois de ter sido feita a queixa por um Estado. Na
verdade, uma vez abandonada a dita queixa, muito dificilmente outro Estado
secundária a reclamação do primeiro.
Refira-se que o Estado não exerce apenas a protecção diplomática a favor de
cidadãos. Pode exercê-la também a favor de pessoas colectivas que tenham a sua
nacionalidade.
57. Formas de reparação da responsabilidade internacional
Constitui princípio geral de Direito reconhecido pelas nações civilizadas aquele
segundo o qual sempre que um Estado seja internacionalmente responsável por
negligência deve repara o dano a que a sua conduta deu lugar.
A reparação é devida que em relação aos danos materiais quer em relação aos danos
morais.
A primeira forma de reparação é a restitutio in integrum, que consiste no
restabelecimento da situação anterior.
Sempre que este restabelecimento é possível materialmente ou juridicamente, o
Estado internacionalmente responsável deve repor as coisas no seu estado primitivo.
Por vezes, muito embora seja materialmente possível a restituição material ou jurídica,
o certo é que ou o lesado está mais interessado numa indemnização ou a reposição da
situação jurídica anterior causa tais problemas internos que constitui manifesto abuso
do direito a inexistência da restituição jurídica.
Nestes casos, nada obsta o que a indemnização substitua a restitutio in integrum.
Sempre que os danos são de natureza moral ou política, a forma de reparação adquire
o nome de satisfação.
A satisfação pode constituir na apresentação de desculpas por via diplomática, no
julgamento e punição dos culpados pelos danos morais ou políticos, etc.
Finalmente, a reparação pode consistir numa indemnização, ou seja, na entrega duma
quantia pecuniária à vítima do delito internacional.
A indemnização é utilizada, sempre que a restitutio in integrum é material ou
juridicamente impossível.

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