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Sistema Semiótico Literário e Códigos

O documento discute o conceito de sistema semiótico literário e seus componentes principais. Explica que um sistema semiótico literário permite a produção e compreensão de textos literários através de regras e combinações de signos. Também descreve os principais códigos que compõem o sistema semiótico literário, incluindo o código fônico-rítmico, métrico, estilístico, técnico-compositivo e semântico-pragmático.
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Sistema Semiótico Literário e Códigos

O documento discute o conceito de sistema semiótico literário e seus componentes principais. Explica que um sistema semiótico literário permite a produção e compreensão de textos literários através de regras e combinações de signos. Também descreve os principais códigos que compõem o sistema semiótico literário, incluindo o código fônico-rítmico, métrico, estilístico, técnico-compositivo e semântico-pragmático.
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Conceito de sistema semiótico literário

Depreendendo-se que um sistema corresponde à combinação de partes coordenadas


entre si, para o mesmo fim, assume-se que no fazer e no produzir uma obra literária
como um processo de significação e de comunicação e que resulta num texto e permite
a sua funcionalidade como mensagem, estará subjacente um determinado sistema, o
qual será conhecido como sistema semiótico literário.

Neste quadro, compreender-se-á que sistema semiótico, na esteira de AGUIAR e


SILVA (2004:57), será “uma série finita de signos interdependentes entre os quais,
através de regras, se pode estabelecer relações e operações combinatórias, de modo a
produzir-se semiose.”.

Assim, um texto, definido em conformidade com AGUIAR e SILVA (1988:75) é uma


“sequência de elementos materiais e discretos, seleccionados dentre as possibilidades
oferecidas por um determinado sistema semiótico e ordenados em função de um
determinado código” só será funcional se a sua produção se fundamentar em
determinado sistema, portanto, o sistema semiótico literário.

Decorrente disto, o sistema semiótico literário afigura-se como um sistema ligado ao


texto, surge como elemento que permite a transmissão de comunicações peculiares, não
transmissíveis com outros meios.

Sistema semiótico literário como sistema modelizante

Como se expôs no parágrafo anterior, antes do sistema de comunicação/significação, se


situa um outro sistema, o sistema modelizante primário, sendo que se entende como
sistema de significação como sistema modelizante secundário. Isto pressupõe que num
texto literário considerar-se-ão dois sistemas: um que será a base para compreensão do
segundo, equiparado à língua natural, e outro que se “constitui e se organiza”, segundo
Aguiar e Silva (2004: 58), a partir do primeiro.

Desta feita, embora discutível, o sistema semiótico literário configura-se como uma
semiótica conotativa, ou corresponde a afirmar que o primeiro é uma semiótica
denotativa. Portanto, como advoga Hjelmslev apud Aguiar e Silva (1988: 82/83),
existirão igualmente dois planos diferentes: o plano da expressão e o plano do conteúdo,
sendo que, na esteira de Aguiar e Silva (1988:95/96), o sistema modelizante secundário
desenvolver-se-á em indissolúvel interacção com o plano de expressão e o do conteúdo
da língua natural e a sua existência é que possibilita a produção do texto literário e é que
fundamenta a capacidade de estes textos funcionarem como objectos comunicativos no
âmbito de uma determinada cultura, pois a literatura é um sistema modelizante
secundário e é também, consequentemente, um corpus de textos que representam a
objectivação e a realização concreta e particular daquele sistema semiótico.

Conceito de código

Como se fez referência na definição de texto, a sequência de elementos seleccionados


dentre as possibilidades oferecidas por um determinado sistema semiótico é ordenada
em função de um determinado código, sendo que se afigura como importante definí-lo.

Assim, de acordo com o Dicionário da Língua Portuguesa (2003:371), o termo código


deriva do latim codice e, de entre várias interpretações, é sinónimo de “norma, colecção
de preceitos e regras que permite a combinação e interpretação de sinais.” Ademais, o
Grande Dicionário da Língua Portuguesa (2004:350) acrescenta que, sob ponto de vista
linguístico, código corresponde ao “sistema de relações estruturadas entre signos ou
conjunto de signos que possibilitam a codificação e descodificação de mensagens.”

Conceito de código literário

Se uma determinada mensagem é codificada e descodificada através de um determinado


código, é justo que se afirme que um texto literário também será estruturado por meio
da operação de determinadas normas, decorrendo disto o nascimento do código literário.

O código literário, de acordo com Aguiar e Silva (2004:57), é definido como “conjunto
finito de regras e convenções que permitem ordenar e combinar unidades discretas, no
quadro de um determinado sistema semiótico, a fim de gerar processos de significação e
de comunicação que se consubstanciam em textos.” Portanto, na linha dos mesmo autor,
código irá representar “o instrumento operativo que possibilita o funcionamento do
sistema, que fundamenta e regula a produção de textos e que, por si mesmo, assume
uma relevância nuclear nos processos semióticos.”

Da definição anteriormente feita, na esteira de Aguiar e Silva (1988:78), depreende-se


que o código literário se configura como “uma rede de opções, de alternativas, de
possibilidades, na qual as permissões, as injunções e a eventualidade de práticas
transgressivas se co-articulam de modo vário e em função de múltiplos factores
endógenos e exógenos ao sistema.”
Portanto, será com base no código literário que, retomando a definição de código na
esteira do Grande Dicionário de Língua Portuguesa (2004:350), se codificará ou
descodificará um texto literário, ou melhor, o texto literário só será como tal se se tiver
em conta um determinado conjunto de opções combinatórias para o efeito.

Código literário como policódigo

Em primeiro lugar, refira-se que a abordagem do código literário como policódigo, será
feita com base em Aguiar e Silva (1988).

Em segundo, é importante que se sublinhe que o código literário como resultado da


interacção dos diferentes códigos e sub-códigos pertencentes ao sistema modelizante
secundário configura-se como policódigo. Nele distinguem-se os seguintes códigos:

 Código fónico-rítmico

O código fónico-rítmico regula aspectos importantes do enredo do texto literário,


mantém uma imediata e fundamental relação de interdependência com o código
fonológico e ainda com o código léxico-gramatical, com o código semântico do
sistema linguístico, para além das que mantém com o código grafemático e a
interdependência com o código métrico e com o estilístico.

 Código métrico

O código métrico regula a organização particular da forma de expressão dos textos


poéticos, considerados sub-conjunto dos textos literários, quer no concernente à
constituição do verso quer na combinação e agrupamento dos versos em estrofes. À
semelhança dos outros códigos este tem relações com o código fonológico. Tem
também relações de interdependência com o código léxico-gramatical, visto que a
distribuição dos acentos exigida pelo modelo do verso pode impor, por exemplo,
modificação na estrutura frásica. Finalmente relaciona-se com o código semântico.

 Código estilístico

O código estilístico regula a organização das formas do conteúdo e da expressão do


texto literário, considerando a sua relação de interdependência com o código léxico-
gramatical e suas sensíveis variações diacrónicas e sincrónicas. Relaciona-se ainda
com os códigos: semântico, fonológico, pragmático e técnico-compositivo.
Este código é responsável pela organização da coerência textual a nível semântico
(estrutura profunda) como a nível de textura (estrutura de superfície), mediante
microestruturas que operam no âmbito dos constituintes textuais próximos.

 Código técnico-compositivo

O código técnico-compositivo orienta e ordena a coerência textual, mediante regras


opcionais ou constritivas de aplicação transtópicas. Tem uma elevada autonomia
perante o código linguístico. Desenvolve relações de interdependência com o código
métrico, com o código estilístico e com o código semântico-pragmático.

Segundo USPENSKY apud Aguiar e Silva (1988:105), as influências exercidas


sobre o sistema semiótico literário por outros sistemas modelizantes secundários de
natureza estética, sobretudo a música, a pintura e o cinema, embora verificáveis a
qualquer nível do policódigo literário, ocorrem muito frequentemente ao nível do
código técnico-compositivo.

 Código semântico-pragmático

Designação justificada pela simples razão de ser impossível estabelecer uma rígida
linha divisória entre os factores semânticos e os pragmáticos, considera-se que a
substância do conteúdo quer no âmbito sintagmático como no pragmático é sujeita a
específicos processos de semiotização até que seja conteúdo numa forma peculiar.

É assim que, como escreve GREIMAS citado por Aguiar e Silva (1988:105/106):

O código semântico-pragmático regula, no plano pragmático, a produção das unidades e


dos conjuntos semioliterários, resultantes da interacção de factores lógico-semânticos,
histórico-sociais e estético-literários, que manifestam ou o universo semiótico
cosmológico ou o universo semiótico antropológico ou o universo semiótico social ou
um universo semiótico configurado pelas inter-relaçõesdos três universos antes
referidos.

Este código correlaciona-se, através do código semântico, com os códigos religiosos,


míticos, éticos e ideológicos actuantes num determinado espaço geográfico e social e
num tempo histórico, manifestando assim, de forma primordial e privilegiada a visão do
mundo, o modelo do mundo, consubstanciados ao texto literário.
Segundo DIJK apud Aguiar e Silva (1988:106), o código semântico-pragmático
desempenha uma função dominante no policódigo literário, porque a estrutura profunda
do texto é de natureza semântica e só a partir desta estrutura, considerada programa, se
pode analisar e compreender adequadamente a estrutura superficial do texto, as regras e
as convenções fónicas, prosódicas, grafemáticas, métricas, estilísticas, técnico-
compositivas e semântico-pragmáticas que a organizam

Texto literário

O texto literário é aquele que usa a linguagem literária, um tipo de linguagem que
atende fins estéticos para suscitar o interesse do leitor. O autor de literatura procura as
palavras adequadas para expressar as suas ideias de forma cuidada e segundo um certo
critério de estilo.

Esta estética irá depender do próprio autor e poderá obter-se através de diversos
recursos linguísticos e técnicas literárias. Entre estes recursos destacaremos os recursos
gramaticais (acrescentando, suprimindo ou repetindo estruturas), os semânticos (a partir
da alteração do sentido das palavras, como a metáfora ou a metonímia) e os fónicos
(jogos com os significados das palavras). [Link] . acessado
aos 18/10/2022, as 15:08

Por exemplo: “Se conduzir, não beba. Cuide da sua família” é um texto informativo que
transmite uma mensagem mas sem nenhuma intenção estética. No entanto, um texto do
género “Se um copo de néctar sedutor se atravessar no seu caminho, agradeça com
pompa e recuse educadamente o convite, pois essa substância pode ter sido preparada
pelo próprio demónio com o intuito de pôr em risco a existência dos seus entes
queridos” é literário: a mensagem é comparável à anterior em termos de conteúdo, mas
a linguagem utilizada é bastante diferente.

Conceito de Semiótica

A Semiótica é a ciência que se dedica ao estudo de todos os signos, nos processos de


significação na natureza e na cultura. Por outra, a semiose é um termo que foi
introduzido pelo filósofo e matemático norte-americano CHARLES SANDERS
PEIRCE (1839-1914) para designar o processo de significação e a produção de
significados, ou seja, a maneira como os seres humanos usam «um signo, seu objeto (ou
conteúdo) e sua interpretação» Por outro lado, a semiótica é o estudo dos símbolos e
da semiose, que estuda todos os fenómenos culturais como se fossem sistemas sígnicos,
isto é, sistemas de significação.

Caracteristicas do sitema semiótico literário

A semiótica PEIRCEANA ou a ciência dos signos ao mesmo tempo que nos fornece um
complexo dispositivo de indagação das possibilidades de realização e classificação dos
signos num corpo teórico sistematizado, também exige de nós uma atividade de
descoberta, quando pretendemos aplicar esse corpo teórico a sistemas concretos de
signos. Aliás, não é hoje novidade para ninguém o fato de que uma ciência não se define
como corpo de dogmas cristalizados, nem como receituário metodológico aplicável a
qualquer objeto. A relação teoria aplicação prática não se processa, portanto, como mera
reiteração ritualística de fórmulas sagradas, visto que, ao se defrontar com seu objeto na
actividade metodológica de sua aplicação prática, a teoria pode sofrer retificação de
seus conceitos.

A questão da aplicação é pois indagação dupla: a teoria desvendando seu objecto e o


objecto testando os conceitos que o falam. Nada é mais apropriado à natureza da
linguagem literária do que um antimétodo – isto é, um aparato teórico que fundamenta
as análises de textos sem, no entanto, uniformizá-las – uma vez que a literatura se
caracteriza justamente pela transgressão de códigos, pela invenção constante de formas,
repelindo os esquemas fechados, prescritivos. E isto nada tem a ver com subjetivismo
ou falta de rigor científico: as bases conceituais da teoria peirceana são, ao contrário,
bastante objetivas, além de possuírem uma finalidade precisa, como explica
PIGNATARI (1979, p.12):

A Semiótica Serve para estabelecer as ligações entre um código e outro código, entre
uma linguagem e outra linguagem. Serve para ler o mundo não-verbal: “ler” um quadro,
“ler” uma dança, “ler” um filme – e para ensinar a ler o mundo verbal em ligação com o
mundo icônico ou não verbal. PEIRCE (1990, p.64)

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