DEMOCRACIA E ROUSSEAU
Professor – Filosofia – IFAL
Josuel de Omena Gusmão
RETRADO TIRADO POR LA TOUR – CONSERVADO NO MUSEU DE GENEBRA .
ILUMINISMO
A razão na cultura iluminista.
Iluminismo Francês:
A enciclopédia.
D’Alembert – A filosofia como ciência dos fatos.
Denis Diderot – Do deísmo à hipótese materialista.
Condillac – a sensação é o único princípio determinante do conhecimento.
La Mettri – O homem é uma máquina.
Hevétius – A sensação fundamenta a vida mental.
D’holbach – O homem é obra da natureza.
Voltaire – A prática da tolerância.
Montesquieu – As condições da liberdade e o estado de direita.
JEAN-JACQUES ROUSSEAU
Rousseau: Uma figura complexa e controvertida
• Iluminista e romântico, individualista e coletivista, antecipador de Kant e precursor de
Marx, foi alvo de diversas interpretações e muitos estudos, a ponto de, a partir dos anos
50 do século XX, se chegar a falar de uma “Rousseau-Renaissance” .
• Definido por Kant como o “Newton da moral” e sem dúvida, considerados por muitos, o
maior pensador do século XVIII.
• “Para alguns é o teórico do ‘sentimento interior’ como único guia da vida, para outros é o
defensor da ‘absorção total do indivíduo na vida social’, contra as renascentes fraturas
entre interesses privados e interesses coletivos; para alguns liberal, para outros é o
primeiro teórico do socialismo; para alguns iluministas, para outros é ‘antiluminista’;
para todos é ‘o primeiro grande teórico da pedagogia moderna’”. (COUTINHO, 2011)
Estátua do Filósofo Jean-
Jeacque. Rousseau no
Lago de Genebra.
JEAN-JACQUES ROUSSEAU
Processo educativo do jovem Rousseau
• Nasceu em genebra, em 28 de junho de 1712. Tendo perdido a mãe no momento do
parto, transcorreu sua infância com o pai Isac, relojoeiro e homem que amava a boêmia.
• Confiado primeiro a um pastor calvinista e depois a um tio, recebeu uma educação
bastante desordenada.
• Encontrou refúgio em Les Charmettes, nas proximidades de Chambéry, junto de madame
de Warens, que lhe foi mãe, amiga e amante.
• “Uma casa isolada sobre o declive de um vale foi nosso refúgio: lá, durante quatro ou
cinco anos, desfrutei de um século de vida e felicidade pura e plena, que oculta com seu
esplendor tudo aquilo que a minha situação presente tem de horrível” (ANTESERI, apud
ROUSSEAU, 2007)
CASA DO MONT-LOUIS - MONTMORENCY
JEAN-JACQUES ROUSSEAU
• Em 1741 se instala em Paris, onde estabelece amizade com Diderot e, por seu intermédio,
com os enciclopedistas
• Não acostumado com a vida nos salões, não se sentia à vontade na Paris culta.
• O conflito entre seu eu profundo e o mundo circundante aguçou-se a ponto de explodir na
condenação daquele mundo e daquela cultura, em nome da natureza, que lhe reservava as
alegrias mais belas e inesquecíveis. (Leitura da citação de Rousseau na página 278; parágrafo
4 - ANTESERI, apud ROUSSEAU, 2007)
• Recordando esse período, Diderot escreveu que Rousseau era como um barril de pólvora que
teria ficado sem explodir se não fosse a centelha que partiu de Dijon.
• Em seguida o filósofo rompeu com Diderot e os iluminista mudando-se para o castelo do
marechal de Luxemburgo, onde viveu um período fecundo. Em 1761 publicou “Nova
Heloisa”, em 1762 o “Contrato social”e, em 1763 “Emílio”. As duas últimas representam o
rompimento de Rousseau com os iluministas, as obras foram condenadas pelas autoridades
civis e eclesiásticas, tanto em Paris como em Genebra, por uma espécie de conjuntura entre
crentes, ateus e deístas.
CASTELO LUXEMBURGO - PARIS
JEAN-JACQUES ROUSSEAU
O Homem no “Estado de Natureza”
• Crítico radical da vida civil da sua época.
• Nostálgico de um modelo de relações sociais voltado para recuperação dos
sentimentos mais profundos do espírito humano, ele levantou a hipótese do
homem natural, originalmente íntegro, biologicamente sadio e moralmente reto, e
portanto, justo, não mau e não opressor.
• O homem não era corrupto, mas tornou-se mau e injusto. Seu desequilíbrio,
porém, não é originário, como considerava Pascal na esteira da Bíblia, e sim um
desequilíbrio derivado e de ordem social.
JEAN-JACQUES ROUSSEAU
“A sanidade moral, o sentido da justiça e o amor são parte da
natureza do homem, ao passo que a máscara, a mentira e a densa
rede de relações alienantes são efeitos daquela superestrutura que
foi se formando ao longo de um caminho de afastamento das
necessidades e das inclinações originárias” (ROUSSEAU, 1979)
JEAN-JACQUES ROUSSEAU
Mas do que uma realidade histórica, o estado de natureza é uma hipótese sobre
o trabalho.
Trata-se de uma teoria onde o homem volta-se para si mesmo.
O objetivo do autor era elucidar a essência humana que foi obscurecida e
reprimida pela efetiva caminha história.
“Quando falamos de um estado natureza em Rousseau, muito mais do que um
período histórico ou de uma particular experiência histórica, trata-se de uma
categoria teórica que facilita a compreensão do homem presente e suas
contrafações” (STAROBINSKI, 1982)
JEAN-JACQUES ROUSSEAU
O valor normativo do “estado de natureza”
• Na economia do pensamento de Rousseau, o estado natural tem valor normativo,
constituindo um ponto de referência na determinação dos aspectos corrompidos
que se insinuaram em nossa natureza humana.
• O tema do retorno à natureza permeia e sustenta todo pensamento filosófico de
Rousseau.
• É claro a influência do pensamento do autor nas artes e na literatura. Temos como
exemplo: o mito do “bom selvagem”, o gosto pelo exótico e o fascínio por tudo
que parecia estranho a cultura europeia.
JEAN-JACQUES ROUSSEAU
“Os selvagens não são precisamente maus, porque não sabem o
que seja ser bons; não é o aumento das luzes nem o freio da
lei que lhes impede de fazer o mal, mas as calmas das
paixões e a ignorância do vício” (ROUSSEAU, 2005)
DETALHE DO QUADRO HISTÓRICO NEOCLÁSSICO THE DEATH OF GENERAL
WOLFE (1771), RETRATANDO UM ÍNDIO NORTE-AMERICANO IDEALIZADO.
JEAN-JACQUES ROUSSEAU
• Trata-se, portanto, de um estado aquém do bem e do mal.
• Deixada ao seu livre desenvolvimento, a natureza leva ao triunfo dos
sentimentos, não da razão; do instinto, não da reflexão; da
autoconservação, não da opressão.
• O homem não é somente razão, alias, originalmente o homem não é razão,
mas sentimentos e paixões.
JEAN-JACQUES ROUSSEAU
O “estado de natureza” como estímulo de mudança para o homem
moderno.
“Vagando pela floresta, sem trabalho, sem palavra, sem domicílio, sem
guerra e sem laços, sem qualquer necessidade de seus semelhantes, como
também sem nenhum desejo de incomodá-los, talvez também sem nunca
algum deles individualmente, o homem selvagem, sujeito a poucas
paixões e bastando-se a si mesmo, nada mais tinha que sentimentos e os
conhecimentos próprios daquele estado, só experimentava as
necessidades verdadeiras, olhava apenas o que lhe interessava ver, e sua
inteligência não ia além da sua vaidade. Se por acaso fazia alguma
descoberta, nem podia transmiti-la, visto que sequer reconhecia seus
filhos. A arte parecia com o seu inventor. Não havia educação nem
progresso. As gerações se multiplicavam em vão e, partindo cada uma do
mesmo ponto, os séculos transcorriam e a rudeza da era primitiva
mantinha-se inalterada; a espécie já estava velha, mas o homem ainda era
criança” (ROUSSEAU, 1993)
JEAN-JACQUES ROUSSEAU
Contra os iluministas
• Rousseau é contra cultura, assim como ela se configura historicamente, porque ela
deturpou a natureza.
• Rousseau pronunciou um juízo severo e radical sobre tudo que o homem fez e
disse, como por exemplo, sobre a redução do homem à realidade racional e sobre a
exaltação dos seus produtos culturais, porque não fizeram a humanidade progredir,
e sim regredir.
• Nem toda ignorância deve ser combatida. Há uma ignorância que deve ser
cultivada.
JEAN-JACQUES ROUSSEAU
“Há uma ignorância feroz e brutal, que nasce de um espírito perverso e de
uma mente falsa; existe em suma, uma ignorância criminal que degrada a
razão, multiplicando os vícios. Mas há, salienta Rousseau, uma ignorância
que podemos dizer razoável, pois delimita a curiosidade ao âmbito das
faculdades recebidas; uma ignorância modesta, indiferente a tudo que não
é digno do homem; uma ignorância doce e preciosa, típica de um ânimo
puro e contente consigo mesmo” (STAROBINSKI, 1982)
JEAN-JACQUES ROUSSEAU
O que se chama “progresso” é um “regresso”
• Visão impactante por criticar a ciência e as artes dos iluministas, tão aclamada
por muitos filósofos, como sendo viciosas e decadentes.
• Quanto mais o homem “conhece”, mas ignorante se torna, portanto é razoável
nos perguntarmos, qual a origem de tal decadência?
Visão pessimista da história
• A visão de Rousseau, portanto, é uma visão radical da história e de seu curso,
bem como dos seus produtos culturais.
• Voltaire desqualificou o “Discurso sobre a desigualdade social” como sendo “um
libelo contra o gênero humano.
MADAMES DA SOCIEDADE FRANCESA – SÉCULO XVIII - PARIS
INDUMENTÁRIAS DAS CRIANÇAS NO SÉCULO XVIII
JEAN-JACQUES ROUSSEAU
É preciso melhorar a sociedade “renaturalizando” o homem
• Podemos dizer que Rousseau é contra os iluministas, não contra o
iluminismo, do qual é intérprete e fautor inteligente; ele é contra
os jusnaturalistas, não contra o jusnaturalismo.
JEAN-JACQUES ROUSSEAU
Não basta reformar as ciências e melhorar as técnicas
• Não será a técnica e a ciência a solução do problema humano.
• É preciso uma transformação no espírito do povo, uma reviravolta completa,
uma mudança total das instituições.
• É preciso recuperar o sentido da virtude, entendida como constante
transparência e inter-relação entre interior e exterior.
• Rousseau não é contra a razão ou contra a cultura. Ele é contra um modelo de
razão e contra certos produtos naturais, porque lhes escapou aquela
profundidade ou interioridade tipicamente humana.
JEAN-JACQUES ROUSSEAU
O Contrato Social – O novo arranjo da vida social
“O homem nasceu livre, mas, entretanto, está acorrentado em todo lugar”
• Tal contrato não projeta o retorno a natureza originária, mas exige o modelo de uma
construção social.
• Também não guia-se pela razão
• Mas funda-se na voz da consciência global do homem, aberto para a comunidade.
• O princípio que legitima o poder e garante a transformação social é constituído pela
vontade geral amante do bem comum.
JEAN-JACQUES ROUSSEAU
A natureza e o fundamento da vontade geral
Mas afinal, o que é a vontade geral? reponde-nos Rousseau:
“Só a vontade geral pode dirigir as forças do estado segundo o fim pelo qual foi
instruído, isto é, o bem comum. Com efeito, se foi o contraste dos interesses
privados que tornou necessário a instituição da sociedade, por outro lado foi o
acorde entre eles que a tornou possível. O vínculo social decorre daquilo que há
de comum nesses interesses diferentes; se não houvesse algum ponto no qual
concordam todos os interesses, a sociedade não poderia existir. Ora é unicamente
sobre a base desse interesse comum que a sociedade deve ser governada”
(ROUSSEAU, 1993)
JEAN-JACQUES ROUSSEAU
Eliminação do privado e coletivização do global
“Estamos diante de uma socialização radical do homem, de sua total
coletivização, para impedir que emerjam e se afirmem os interesses privados”
(ROUSSEAU, 1993)
• Trata-se da fundamentação da moral na política.
JEAN-JACQUES ROUSSEAU
A obra Emílio ou da Educação, sendo o Emílio um personagem fictício ou
literário, e a obra divide-se em cinco partes. Cada uma delas trata de uma
maneira particular da aprendizagem da criança e de uma fase específica do
seu desenvolvimento.
Primeira Fase – Idade da Necessidade - Do nascimento aos dois anos.
Nessa fase, o autor se preocupa, entre outras questões, com a amamentação,
com a escolha de uma ama sadia de corpo e alma, para que o leite seja bom,
natural e forte. Afirma que a Educação ideal deve ser recebida pela ama ou
quem amamente e pelo pai ou governante estando os dois em pleno acordo,
representando para a criança uma só pessoa. Indica que o banho seja
inicialmente morno e que a temperatura da água seja gradativamente reduzida,
para que a criança possa se acostumar com todas as temperaturas.
JEAN-JACQUES ROUSSEAU
Segunda Fase – Idade da Natureza – Dos dois aos doze anos.
Nessa fase, Rousseau enfatiza que é o momento de exercitar o corpo e os
sentidos da criança, evitando-se os sermões que a criança ainda não
compreende, e mantê-la “tão somente na dependência das coisas”
(ROUSSEAU, 1995). Para ele a criança ainda não está apta a raciocinar, é
preciso deixá-la gozar sua infância.
CRIANÇAS BRINCANDO NO SÉCULO XVIII
JEAN-JACQUES ROUSSEAU
Terceira fase – Idade da força – Dos doze aos quinze anos.
Nessa fase, o Emílio poderá entrar em contato com a educação intelectual e
técnica, quando ele aprenderá Física, Geografia, Cosmologia, etc. É o
começo de um preparo para a vida social, por meio da aprendizagem de um
trabalho manual, ligado às artes mecânicas. Assim o aprendiz será
despertado para a ideia da interdependência dos homens, da utilidade, da
igualdade, da necessidade de trabalhar.
JEAN-JACQUES ROUSSEAU
Quarta fase – A idade da razão e das paixões – Dos quinze aos vinte anos.
Para Rousseau, essa fase representa um segundo nascimento, pois o Emílio
entraria para o mundo moral e religioso, num aprendizado conjunto entre o
corpo e espírito, entre razão e sentimento. “É preferível favorecer as paixões
naturais que tornam o homem sociável (a amizade, a compaixão, a simpatia) e
afastar a vaidade, a ambição, a inveja, o ódio, que são obras da sociedade”
(BROSSE, 1990). Começa o estudo da sociedade, da religião, da igualdade,
da justiça através de histórias e de fábulas.
JEAN-JACQUES ROUSSEAU
Quinta fase – A idade da Sabedoria – Dos vinte aos vinte e cinco anos.
Trata da educação política de Emílio e sua inserção na ordem civil e também
discorre sobre a educação feminina. A formação do aprendiz nessa etapa se
dará por meio de viagens a outros países, e será exigido um estudo mais
aprofundado dessas culturas e lições de direito político. Ressalta-se que o
recurso “viagem de formação”, principalmente para aquelas regiões berço
da civilização ocidental como Itália (Roma e Florença especialmente) e
Grécia (Atenas), era um recurso pedagógico bastante usual na época,
(sé[Link]) para os jovens de famílias de recursos.