Fonte: Macagno, L. (s.d.).
Franz Boas e Kamba Simango: epistolários de um diálogo etnográfico
[PDF].
Pág. Tema: Franz Boas e Kamba Simango: epistolários de um diálogo Obs.
etnográfico
De Chiloane a Nova York
Kamba Simango nasceu em 1890, na il)a de C)iloane, próxima à cidade da
Beira, no atual Moçambique. Em 1913, aos 23 anos de idade, Kamba é
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enviado para estudar nas instituições que a American Board mantin)a na
África do Sul. Devido ao seu bom desempen)o, Kamba recebe apoio dos
missionários para prosseguir seus estudos nos Estados Unidos, mais
especificamente, no hampton Institute em Virginia, ali permanecendo até
1919.
No hampton Institute conhece a musicóloga e folclorista Natalie Curtis.
130 É uma
Com ela, Kamba começa a desenvolver, pela primeira vez, um interesse
história muito
etnográfico incipiente. Mais tarde, Natalie Curtis elabora, com a inspiradora a
trajectória de
colaboração de Kamba, um projeto de gravação e transcrição de músicas
Simango, dá a
ndaus. Nessa altura, a musicóloga já conhecia o trabal)o de Franz Boas. entender que
tudo é
Após sua passagem pelo hampton Institute, Kamba Simango é enviado,
possível
131 em 1919, ao Teachers College, na Universidade de Columbia. Nesta quando
simplesmente
instituição iniciaria, nas vésperas de estabelecer contato com Boas, seus
focamos para
estudos sob a supervisão de Mabel Carney, uma especialista em os objectivos
que
“educação rural” que acabara de ser nomeada professora.
queremos
Em 24 de novembro de 1919, Natalie Curtis finalmente envia uma carta alcançar.
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na qual apresenta Kamba Simango a Boas. Curtis descreve Kamba como
alguém profundamente interessado no livro The Mind of Primitive Man,
que Boas publicara em 1911. Em sua recomendação, Curtis não poupa
adjetivos para elogiar Kamba, a quem apresenta como um “nativo puro
da tribo vandau”.
Depois da carta de apresentação de Natalie Curtis, Kamba Simango e
Franz Boas se encontram para conversar sobre seus respectivos planos.
Entre março e Abril de 1920, Kamba começaria a desenvolver algum
trabal)o com Boas, concentrando-se sobretudo no estudo da gramática
da língua ndau.
133
Em 5 de maio de 1920, Boas escreve a George Foster Peabody a fim de
angariar fundos para desenvolver um projeto sobre a “cultura” Ndau,
com a colaboração de Simango.
O plano de Boas consiste, literalmente, em “poder capturar e sistematizar
tudo o que Simango com)ece [sobre África] e, em continuidade, redigi-lo
para, finalmente, devolvê-lo sob a forma de uma análise antropológica
mais refinada”. Assim, Simango poderia retornar à África com os
resultados desse material, cujos aspectos pouco claros ou duvidosos
serviriam como um guia para o seu trabalho. Em sua carta a Peabody,
Boas elogia Simango, qualificando-o como “muito inteligente” e
“profundamente interessado”.
No final de abril de 1920, George Foster Peabody e Kamba Simango já
haviam conversado pessoalmente acerca das questões mencionadas por
Boas em sua carta. A resposta – positiva – à proposta de Boas foi
imediata.
Em 20 de setembro de 1920, Boas e Kamba começariam a trabal)ar neste
novo projeto. Em julho de 1920, Kamba escreve a Boas comunicando que
seu vínculo e compromisso com o Hampton Institute terminaria em 22 de
134 agosto.
No entanto, uma pequena mudança de planos ocorreria no mês de
setembro. Em virtude de outros compromissos, Boas não poderá
começar a trabalhar imediatamente com Simango. Este já )avia decidido
se instalar em Nova York a partir de 24 de agosto, mas Boas só poderia
iniciar os trabalhos após 10 de Setembro. Era necessário encontrar uma
atividade para Simango nesse ínterim. De qualquer forma, e suspeitando
que talvez fosse difícil para o jovem ndau mudar seus planos no último
momento, Boas deixa aberta a possibilidade de manter a data
previamente estipulada e a disponibilidade de recebê-lo antes de 10 de
setembro.
Em 18 de agosto de 1920, Boas recebe uma carta do secretário de G. F.
135 Peabody confirmando sua anuência para que Kamba comece a trabal)ar
com Boas a partir da segunda metade de setembro.
Seguindo a solicitação de Peabody, Boas elabora um detalhado plano
orçamentário. Esse orçamento corresponderá a um cronograma total de
36 semanas, começando nesse setembro e finalizando em maio de 1921.
Os itens que Boas inclui no seu orçamento são: hospedagem,
alimentação, limpeza de roupas, transporte, livros e vestimenta. O valor
total de todos os items correspondia a U$ 700 (ou seja, setecentos
dólares da época).
Da colaboração antropológica entre Boas e Simango resultaram cinco
artigos. Um deles foi assinado por ambos: Tales and Proverbs of the
Vandau of Portuguese South Africa (1922). Os outros quatro artigos
foram assinados por Boas: três deles foram publicados em alemão, e
versam sobre religião, parentesco e vida cotidiana.
No entanto, essa colaboração teria outros desdobramentos, que seriam
decisivos para o desenvolvimento da antropologia norte-americana e dos
estudos africanos naquele país. No início de 1923, quando Melville
herskovits chega a Columbia, Boas o coloca em contato com Kamba
Simango. Do diálogo entre ambos resultará a tese de doutorado de
herskovits.
Contribuição de Kamba Simango a essa etapa incipiente da antropologia
da África não se limitará ao diálogo mantido com Boas e herskovits.
Alguns anos mais tarde, Henri-Philippe Junod obterá preciosas
136 informações de Kamba, quando este já )avia retornado a Moçambique.
O retorno: Londres, Lisboa, Gogoi
Em 1º de junho de 1922, Kamba Simango se casa com Kathleen Easmon
filha do médico John Farrell Easmon, originário de Serra Leoa. A esposa
de Kamba também teria recebido uma profunda influência educativa e
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política de sua tia Adelaide Casely-hayford.
As autorizações e os passes para frequentar a escola da American Board
são cancelado e Bunker decide fechar a escola. Realiza uma consulta aos
seus alunos para saber quais deles estariam dispostos a se deslocar até
Mount Selinda, do lado da Rodesia, onde a American Board mantinha
outra sede. Entre os 18 jovens africanos do grupo que decidem sair da
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Beira estava Kamba Simango.
Por volta de 1923 e já formado, Kamba retorna a Moçambique para
inaugurar e supervisionar a nova sede missionária em Gogoi. Mas, para
tanto, a administração portuguesa exigia que Kamba aprendesse
português. Como jovem saído cedo de Moçambique, e tendo primeiro
estudado na África do Sul e depois nos Estados Unidos, Kamba não falava
português fluentemente. Os missionários financiariam uma breve
passagem do casal por Londres, onde Kamba e Kathleen estudariam
gramática portuguesa para, em seguida, passarem um período em Lisboa,
a fim de aperfeiçoarem seus estudos nessa língua. Kamba e Kathleen
chegaram em Londres em 3 de junho de 1923.
Em novembro desse ano, Kamba participa do III Congresso Panafricanista,
organizado em Londres, com a presença de Du Bois. Uma segunda seção
desse congresso realizar-se-á em Lisboa, também com a participação de
Kamba.
Primeiro viajaria Kamba, em janeiro de 1924. Um mês depois, Katlleen
chegaria acompanhada por sua mãe. Em Lisboa, Kathleen e Kamba
aprendem português e vivem em uma casa cedida pelos missionários,
com outros dois jovens missionários da American Board que estão
prestes a partir para Angola.
Em outubro de 1924, Kamba envia, a partir de Lisboa, uma longa carta a
Franz Boas, na qual, além de lhe comunicar o falecimento de Kathleen,
141
mostrasse preocupado com o futuro da colaboração etnográfica entre
ambos.
Em março de 1925, oito meses depois do falecimento de sua primeira
esposa, Kamba Simango se casa novamente com Christine Mary Coussey
142 prima de Kathleen.
Antes de se instalarem em Moçambique, Kamba e Christine passaram
alguns meses na Missão Evangélica de Chisamba, no planalto central de
Angola. Finalmente, em 11 de setembro de 1926, chegam à Beira,
143 Moçambique.
Em 1927, com a anuência das autoridades coloniais portuguesas,
instalam-se em Gogoi (Gogoyo), que seria a única base de apoio
permanente da Missão nos territórios de Manica e Sofala. Em Gogoi
Kamba dirige, em colaboração com Christine e Bede Simango,30 uma
escola frequentada por 100 alunos, que se dedicava, sobretudo, ao
ensino do português e artes “industriais”.
Em 10 de maio de 1927, Franz Boas, que não )avia desistido de suas
investidas antropológicas em relação a Kamba, envia uma carta à sede de
Gogoi. Boas queria saber se Kamba ainda desejava dar continuidade aos
144 trabalhos etnográficos iniciados em Columbia. Simango ainda
demonstrava interesse em continuar colaborando com Boas. Em sua
resposta ao mestre, Kamba informa que, nos arredores da Missão, o povo
permanecia “primitivo”, intocado por qualquer influência da “civilização
ocidental”.
O início da decepção e da revolta
Durante seu período de treinamento em Portugal, Kamba recebera um
salário integral, equivalente àquele de um missionário efetivo. Quando
retorna a Moçambique, em 1926, seu salário )avia sido reduzido à
147 metade, sob o argumento de que a política da American Board não visava
elevar seus funcionários africanos muito acima dos seus compatriotas.
Era o início de um conflito irreversível. Kamba mais tarde acusaria seus
superiores de serem incoerentes com seus princípios cristãos. Existiria,
por detrás dessa discriminação salarial, uma discriminação racial. A
revolta de Kamba e o “atrevimento” em relação aos dirigentes da
American Board tinham chegado longe.
Na transição de 1934 para 1935, e após uma série de recíprocas
acusações e desavenças, a ruptura de Kamba com os missionários se
consuma. Funda-se, nesse momento, na cidade da Beira, o Grêmio
Negrófilo de Manica e Sofala.
Em face desse novo desafio, e sem poder contar com a tutela dos
missionários, Kamba se vê obrigado a tomar novos rumos a fim de
garantir a sobrevivência de sua família. Por volta de 1940, gerenciara um
148 pequeno hotel na cidade da Beira. Pouco tempo depois, abandona
definitivamente Moçambique e se instala, com sua mulher e seus dois
filhos, em Gana.
Em 1964, chega a se encontrar com Eduardo Mondlane, que passava, na
qualidade de representante da Frelimo, uns dias na capital ganense.
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Sobre essa reunião, as fontes consultadas pouco nos informam.35 Em
1967, Kamba Simango morre, vítima de um atropelamento de carro.