L N G U A S D O B R A S I L /A R T I G O S
AS FORMAS DE EXPRESSO NA LNGUA AFRICANA DO CAFUND*
Carlos Vogt Peter Fry
verbais segundo o paradigma dessa conjugao. Alm disso, onze dos quinze verbos incorporam no seu radical a forma nominal - cu que aparece de modo geral nas lnguas da famlia banto. Do ponto de vista sinttico propriamente dito, esse aportuguesamento se manifesta de vrias formas. Transcrevemos abaixo alguns exemplos de frases do Cafund em que as palavras e os morfemas grifados pertencem ao portugus: 1. Vimbundo est cupopiando no inj do tata. O homem preto est falando na casa do pai. 2. O nhamanhara cuendou para cuumbar a cuppia. O homem andou para ouvir a conversa. 3. O cafombe cuendou da ambara para cunuar avero com nhapecava. O homem branco veio da cidade para beber caf com leite. As variaes de tempo na lngua do Cafund reduzem-se s formas do pretrito perfeito, do presente e do futuro do indicativo. As duas primeiras recebem as marcas morfolgicas caractersticas do pretrito perfeito e do presente prprias da primeira conjugao. O futuro expresso atravs de uma forma perifrstica, formada pelo auxiliar ir mais o gerndio do verbo principal. Outra ocorrncia que ainda se verifica no Cafund o uso desse esquema para expressar tambm o presente contnuo. Neste caso, o auxiliar estar e o verbo principal aparece tambm na forma do gerndio. As expresses abaixo constituem exemplo desses procedimentos: 4. Nhamanhara cuendou no ngombe do andaru. O homem foi de carro. 5. Curimei vavuro. Trabalhei muito. 6. O mdico o que cuumba o maiembe. O mdico aquele que receita o remdio. 7. O delegado fica bravo e cuenda ele pro chitungo. O delegado fica bravo e o leva para a cadeia. 8. No quilombo que vai cuendar. No dia que vai vir (amanh). 9. Hoje eu vou cuumbar o mambi no orofim. Hoje eu vou passar o machado no mato (cortar lenha). 10. Angutu est cuendando mafingue. A mulher est vertendo sangue (menstruada). 11. Vimbundo est cupopiando na marrupa. O homem preto est falando no sono (est sonhando). Outras formas parafrsticas tambm so utilizadas. Assim, o pretrito perfeito do verbo ir (auxiliar) mais o infinitivo do verbo principal: 12. Eu fui cuendar. Eu fui ir (eu fui). 13. Ele foi cuendar orofim l no sengue. Ele foi buscar lenha l no mato. Uma variao do presente contnuo aquela em que o verbo auxiliar aparece no imperfeito:
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Cafund um bairro rural situado no municpio de Salto de Pirapora. Est a doze quilmetros dessa cidade, a trinta de Sorocaba e a no mais de cento e cinqenta quilmetros de So Paulo. Sua populao, predominantemente negra, divide-se em duas parentelas: a dos Almeida Caetano e a dos Pires Pedroso (1). Cerca de oitenta pessoas vivem no bairro. Destas, apenas nove detm o ttulo de proprietrios legais dos 7,75 alqueires de terra que constituem a extenso do Cafund. So, conforme voz corrente na comunidade, terras doadas a dois ancestrais escravos de seus habitantes atuais pelo antigo senhor e fazendeiro, pouco antes da Abolio, em 1888. A doao feita s duas irms Ifignia e Antnia, que esto na origem das duas parentelas teria sido muito maior. A especulao imobiliria, a ambio dos fazendeiros circunvizinhos e a falta de documentao legal por parte de seus legtimos donos foram encolhendo a propriedade para as propores que hoje tem. Nela, seus moradores plantam milho, feijo e mandioca principalmente. Nela, criam galinhas e porcos. Tudo em pequena escala, apenas para atender parte de suas necessidades de subsistncia. Fora dela, trabalham como diaristas, bias-frias e, s vezes, no caso das mulheres, como empregadas domsticas. Assim, participam de uma economia de mercado. Sua lngua materna o portugus, uma variao regional que sob muitos aspectos poderia ser identificada ao chamado dialeto caipira, tal como o apresenta, por exemplo, Amadeu Amaral (1976). Usam, alm disso, um lxico de origem banto, quimbundo principalmente, cujo papel social , sobretudo, de represent-los como africanos no Brasil. Em relao aos usos que ainda se fazem de vocabulrios africanos no Brasil, a lngua do Cafund mostra um aspecto ativo que esses outros usos, em geral muito cerimoniais, no oferecem. A lngua do Cafund utilizada em situaes sociais mais ou menos corriqueiras, de forma que o seu emprego independe de um calendrio de festas ou comemoraes. A pergunta que imediatamente o leitor dever estar se fazendo de que modo, com o vocabulrio to limitado, possvel ser efetivamente ativo nessa lngua? O que imediatamente sobressai quando se ouve o pessoal do Cafund falando africano que as estruturas gramaticais que sistematizam o uso do vocabulrio, dando-lhe uma certa consistncia de emprego, so estruturas tomadas emprestadas do portugus. Os quinze verbos que integram o vocabulrio so todos morfologicamente marcados pela desinncia da primeira conjugao, e so flexionados tanto nas formas normais como nas formas propriamente
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14. O cumbe j estava cuendando. Osol j estava indo (se pondo). Quanto variao de pessoa, as formas verbais em geral aparecem sistematicamente na distino de primeira e terceira pessoas do singular, estendidas quando necessrio para a expresso das demais pessoas. Todos esses fatos, aqui apresentados de maneira puramente exemplificadora, so, quanto s caractersticas gramaticais que os distinguem, prprios no apenas da lngua africana do Cafund, mas mais genericamente do portugus falado na regio. Nas gravaes que fizemos, os dois verbos mais utilizados e com maior abrangncia de significaes so em primeiro lugar o verbo cuendar e, em segundo lugar, o verbo coumbar. As formas perifrsticas com ir e estar so tambm muito freqentes. Apesar do lxico extremamente limitado, o sistema do Cafund vivo e produtivo. Do ponto de vista estritamente lexical, observa-se de fato uma constante expanso do vocabulrio atravs do uso de expresses formadas por processos metafricos e analgicos. Essa expanso se d em geral atravs do uso de palavras do lxico africano, que concorrem para a formao de novas expresses cuja estrutura gramatical , grosso modo, a de nome + preposio + nome. Para expressar um novo significado, parte-se de um nome e particulariza-se, atravs do genitivo portugus, gramaticalmente falando, um novo significado. 15. tenhora da mucanda enxada da escrita (caneta) 16. camberer do vava carne da gua (peixe) 17. mutombo do injequ mandioca do saco (amendoim) 18. inj da marrupa casa do sono (quarto) 19. ngombe do andaru boi de fogo (carro) 20. nanga do vis roupa dos olhos (culos) 21. injequ do vava saco de gua (nuvem) 22. obiquanga do avero tijolo de leite (queijo) 23. obiquanga do vava tijolo de gua (sabonete) 24. sanje do tqui frango da noite (morcego) 25. obiquanga do pepa tijolo de farinha (po) 26. obiquanga do ture tijolo de terra (tijolo) 27. injequ do andaru saco de fogo (panela) 28. injequ do variar saco de comida (panela) 29. coumbador do cuppia
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fazedor de fala (lngua) 30. pepa da cuipa p de matar (veneno em p) 31. vava do cuipa gua de matar (veneno lquido) Em outras expresses alm do esquema gramatical do portugus, um dos itens lexicais tambm tirado dessa lngua como, por exemplo, em: 32. respeito do ngombe respeito do boi (arame farpado) 33. chamar no quinamba chamar na perna (levantar e ir embora) Em (33) aparece a preposio em, que tambm muito freqente como recurso formador de expresses e de novas significaes na lngua africana do Cafund. Assim, por exemplo: 34. tata vavuro no godema homem forte no brao 35. tata vavuro no orongombi homem forte no dinheiro (rico) 36. tata nni no orongombi homem fraco no dinheiro (pobre) 37. no quilombo que vai cuendar amanh 38. no quilombo que j cuendou ontem 39. nni de coumbar no quinamba usar pouco a perna (perto) Alm desse fenmeno de expanso, a limitao do vocabulrio est na base de um outro fenmeno caracterstico da lngua africana que o da homonmia bastante generalizada. Alm dos verbos que tm significao muito variada, principalmente cuendar e coumbar, outros itens lexicais apresentam tambm mais de uma significao, em geral determinada ou pelo contexto mais amplo do uso, ou pelos mecanismos de qualificao dos quais o genitivo o principal. Assim, camria significa rosto, lbio e boca; mutombo significa mandioca, cabea; godema significa brao, mo, dedo e medida; nni significa no, perto, pouco, fraco, magro, baixo, quase, menos e, em geral, tudo que negativo. Por outro lado, vavuro significa sim, longe, muito, forte, gordo, alto, mais e, em geral, tudo que positivo. Nni e vavuro, alm de servirem para reforar a negao e a afirmao respectivamente, so usados como elementos que exprimem a restrio e a ampliao do que se est dizendo. Assim, na expresso 40. cumbe nni do tqui que significa lua nova, o morfema nni, embora invarivel quanto ao gnero e ao nmero, parecendo ser dessa forma advrbio, fun-
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ciona como um adjetivo. A traduo literal de (40) seria sol pequeno da noite; a traduo literal de 41. cumbe vavuro do tqui seria sol grande da noite, isto , lua cheia. Outras vezes, atravs de mecanismos de restrio, como por exemplo em 42. nhamenhara curima nni cujo sentido literal o homem trabalha pouco, o que se expressa uma negao, ou seja, o homem no trabalha. Para dizer algo de positivo ou de negativo, muitas vezes basta usar vavuro ou nni depois de um nome. Em 43. palul vavuro e em 44. palul nni o sentido respectivamente sapato bom e sapato ruim. O uso de vavuro e de nni permite tambm fazer uma outra observao sobre a concordncia de gnero na lngua do Cafund. J dissemos que vavuro e nni mesmo quando usados como adjetivos, so invariveis. Em muitas expresses h contudo concordncia de gnero, concordncia esta calcada sobre o gnero da palavra que d em portugus o significado da expresso na lngua do Cafund. o que ocorre em mutombo do injequ, tenhora da mucanda, obiquanga do avero. No o que ocorre em expresses como snji do tqui, obiquanga do pepa e inj da marrupa. Os mecanismos de concordncia de gnero tendem a obedecer aos padres do portugus, embora o que se possa de fato dizer que eles so bastante aleatrios e que isto talvez tenha a ver com a confluncia de dois tipos diferentes de lngua na lngua africana do Cafund: uma opera a concordncia atravs de prefixos classificatrios (banto) e a outra atravs de sufixos de masculino e feminino, com variaes de singular e plural (portugus). Algumas vezes os processos metafricos de expresso so mais sofisticados, como por exemplo na expresso 45. o que cuenda vavuro no vis o que anda muito nos olhos que tanto pode se referir a uma regio montanhosa como a um dia claro. A metfora, como se v, constituda sobre a possibilidade de se enxergar distncia. Neste sentido, associa elementos de altura e de luz. Figuras por associao de utilidade, de contigidade, de funcionalidade, de localizao, construdas sobre o universo da experincia do meio rural so tambm comuns. Assim, a palavra chipoqu significa feijo e a expresso para garganta
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46. o que cuenda o chipoqu o que anda o feijo (o que engole o feijo). Neste caso poder-se-ia falar mais apropriadamente de processos metonmicos de expanso do lxico. Sem sombra de dvida um processo desse tipo que permite, a partir da palavra chipoqu estender o significado de feijo para a palavra chipocu e com ela significar nus. A explicao de Otvio Caetano, j falecido e lder na poca dos Almeida Caetano, para essa palavra descreve a metonmia de que estamos falando. Segundo ele, chipocu significa nus porque ele toma conta do feijo, porque o feijo sai por ali. Da mesma forma, a palavra arambu significa co e, metonimicamente, rabo, ou viceversa. Mas a extenso aqui vai mais longe. Quando perguntamos aos Almeida Caetano como era ndegas na lngua, eles nos disseram a mesma palavra arambu, e Otvio se apressou em dar um exemplo: 47. cuendar o godema no arambu do camanaco andar o brao no traseiro do menino (bater na bunda) Mais uma vez, Otvio se encarregou de explicitar o mecanismo: Arambu bunda porque a maneira que um cachorro carrega para trs. Ele carrega para trs, n? Da fica cachorro. Vavuro assim de bunda, da tratam ela o cachorro, quando grande. A sintaxe dessa lngua procede na maior parte das vezes por simples justaposio de palavras invariveis. Assim: 48. Nhamanhara nni de anguto homem sem mulher (solteiro) 49. Anguto nni de nhamanhara mulher sem homem (solteira). Esse procedimento, aliado ao recurso constante a figuras de linguagem como a metfora e a metonmia, torna muitas vezes difcil acompanhar o que que os moradores do Cafund esto dizendo, mesmo quando j se conhece o vocabulrio e os mecanismos estruturais de sua expanso. verdade que em vrias ocasies tivemos a impresso de que, falando entre si, eles tambm no se compreendiam e o uso da lngua parecia ser, nessas ocasies, um exerccio ldico para divertir o pesquisador ou para que eles se divertissem com o pesquisador. Mas o mais provvel que, dadas as caractersticas apontadas para essa lngua como homonmia, significaes metafricas, eles mesmos tenham dificuldades de detectar imediatamente as intenes do falante e os contextos que permitiriam descodificar adequadamente o que ele pretende dizer. Sempre se chega a esses contextos, no sem passar por uma grande variedade de circunlquios que do a impresso de uma verdadeira ciranda de obsquios e de comportamentos rituais ligados s formas de representao de sua africanidade e de sua brasilidade pela linguagem.
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Carlos Vogt professor titular de semntica do Departamento de Lingstica, e coordenador do Laboratrio de Estudos Avanados em Jornalismo (Labjor) da Unicamp; presidente da Fapesp e vice-presidente da SBPC. Peter Fry professor titular de antropologia do Instituto de Filosofia e Cincias Sociais da UFRJ. Foi tambm professor de antropologia da Unicamp.
LNGUAS DE IMIGRANTES
Carmen Zink Bolognini Maria Onice Payer
INTRODUO Na histria brasileira, a representao dos imigrantes, ao lado dos indgenas, dos africanos e do colonizador portugus, teve um lugar significativo como parte da constituio do povo brasileiro. Nas Cincias Humanas, o tema da imigrao foi desde cedo abordado por trabalhos de socilogos e historiadores, por exemplo. Mas a anlise da questo a partir da lingstica, focalizando a diversidade das lnguas introduzidas no Brasil pelos imigrantes, no foi considerada at recentemente com a fora histrica que teve, capaz de produzir em certos momentos estremecimentos na imagem de unidade da lngua nacional brasileira. Os trabalhos recentemente desenvolvidos sobre a Histria das Idias Lingsticas no Brasil e a Constituio da Lngua Nacional e sobre tica e Poltica Lingstica, bem como a elaborao da Enciclopdia das Lnguas no Brasil (1) vm interpelando os pesquisadores a discutir a constituio histrica do pas por meio da linguagem. Nesse sentido, estudar as lnguas atravs da histria, de modo a considerar a relao do portugus, na sua condio de lngua oficial do pas, com as outras lnguas faladas neste territrio, enquanto lnguas maternas que constituem os sujeitos (Orlandi, 2001) permitir reler o significado da presena da diversidade de lnguas no Brasil a partir do fenmeno imigratrio. Apresentaremos, neste artigo, dados referentes a algumas lnguas de imigrantes e exporemos temas relacionados ao modo de presena e de ensino destas lnguas na constituio histrica do sujeito brasileiro. Discutiremos tambm questes relativas relao entre lngua materna, lngua estrangeira e lngua nacional, no mbito dessa histria e do ensino de lnguas. Como o sujeito e o sentido se constituem simultaneamente, pela lngua (Orlandi, 2001), essas relaes so significativas para o brasileiro. Pois, a lngua oficial determina a relao que os sujeitos tm com o pas, no caso, o Brasil (Guimares, 2004). Falamos em estremecimento na imagem de unidade da lngua nacional, na medida em que h um imaginrio de unidade, sciohistoricamente construdo, que sobrepe as imagens de lngua oficial, lngua nacional e lngua materna. Desde a constituio de 1988, o portugus enunciado como a lngua oficial do Brasil, como nota Guimares (1996). Para o autor, esta formulao reconhece a existncia de outras lnguas, faladas por outros grupos, como os indgenas, por exemplo. O que no quer dizer que no houvesse em funcionamento a presena de uma lngua nacional. E, sendo assim, h de se considerar a possibilidade da no-confluncia entre lngua oficial e lngua materna no Brasil. No caso especfico da imigrao, a distncia entre elas ainda mais flagrante. E essa distncia constitutiva do Brasil e do brasileiro, como veremos a seguir.
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* Este artigo uma refuso de parte de captulos do livro Cafund a frica no Brasil, So Paulo: Companhia das Letras, 1996, de nossa autoria.
NOTA
1. O termo parentela traduz a expresso e o conceito em ingls descending kindred, de acordo com o trabalho de Freeman (1961). Referese a um grupo corporativo (corporate group), no qual a incluso dos membros depende, em primeiro lugar, de sua descendncia do antepassado fundador (neste caso, Joaquim Congo) e tambm do fato de seus membros permanecerem moradores nas terras pertencentes ao grupo.
BIBLIOGRAFIA CITADA
Amaral, A. O dialeto caipira. 3 edio. So Paulo: Hucitec, 1976. Freeman, D. The concept of the kindred. Journal of the Royal Antropological Institute, vol. 91, Londres, 1961.