ABORDAGENS
METODOLÓGICAS
DO ENSINO DA
EDUCAÇÃO FÍSICA
Diogo Silveira Heredia Y Antunes
Educação física inclusiva
Objetivos de aprendizagem
Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados:
Conceituar os termos exclusão, segregação, integração e inclusão.
Discutir a importância da inclusão nas aulas de educação física.
Empregar estratégias de inclusão nas aulas de educação física.
Introdução
A inclusão das pessoas com deficiência na escola regular é uma conquista
histórica da luta de movimentos sociais engajados nessa temática. Isso é
parte da busca para que esse grupo de pessoas possa ter sua participação
social garantida, tendo acesso às diferentes instituições — em suma, que
tenham seu direito à vida respeitado.
Neste capítulo, você vai estudar os conceitos que estão envolvidos
com o processo de inclusão de alunos com deficiência na escola regular.
Você vai verificar a relação entre inclusão e exclusão e o caminho que
há entre uma e outra, separado pela segregação e pela integração. Você
também vai compreender a importância do processo de inclusão nas
aulas de educação física, tanto para o aluno com deficiência quanto
para os demais alunos que convivem com ele. Por fim, você vai conferir
estratégias que podem ser usadas nas aulas de educação física para
promover a inclusão de alunos com diferentes tipos de necessidades
especiais. Você vai poder refletir sobre como a adaptação das práticas e
dos espaços, a participação social e os relacionamentos entre os alunos
e a capacidade de cada sujeito são elementos que devem ser levados
em conta para planejar as aulas de educação física.
1 Principais conceitos
A exclusão social designa um processo de privação de determinados indivíduos
ou de grupos sociais em diversos âmbitos da estrutura da sociedade; no caso
2 Educação física inclusiva
das pessoas com deficiência, estas eram privadas de acessar qualquer forma de
escolarização. A segregação é o processo de dissociação no qual indivíduos
e grupos perdem o contato físico e social com outros indivíduos e grupos.
No caso da educação de pessoas com deficiência, estas eram separadas em
escolas especiais. A integração consiste no processo de participação de to-
dos os indivíduos em uma sociedade. No caso das pessoas com deficiência,
esperava-se delas que se adaptassem à sociedade “normal”. A inclusão implica
criar uma sociedade igualitária, empregando os recursos necessários, de modo
a garantir a todo indivíduo igual oportunidade de participação e acesso aos
bens, serviços e benefícios da vida em sociedade.
A forma como a sociedade lida com as pessoas portadoras de deficiência
é uma construção cultural que se transforma ao longo da história. Os sentidos
que são atribuídos aos sujeitos portadores de deficiência, assim como o modo
de produção dessa comunidade, são alguns dos elementos fundamentais que
determinam que tipo de atitude será tomada com relação a eles. Por exemplo,
no Egito Antigo, acreditava-se que uma deficiência era um bom agouro, e o
indivíduo, um portador de benesses; em virtude disso, essas pessoas eram
divinizadas. Já na Grécia Antiga e no Império Romano, acreditava-se que a
deficiência era um presságio de males futuros; com isso, as crianças deficien-
tes eram mortas ou abandonadas. Na Europa, no período medieval, quando
a sociedade era dominada pela religião, a deficiência era associada a forças
demoníacas ou à bruxaria, e muitas pessoas com deficiência eram perseguidas
e até mortas (SILVA, 2009).
A exclusão e a inclusão social são conceitos complexos, assim como é a
sociedade contemporânea, e não há compreensões absolutamente fechadas para
se tratar desses termos. Podemos dizer que excluídos são todos aqueles que
são rejeitados em nosso sistema social e cultural, por não se enquadrarem nas
concepções de valores dominantes. São rejeitados física, geográfica, cultural e
materialmente e impedidos de acessar plenamente a convivência, o trabalho, as
relações, enfim, as diversas instâncias da vida humana (WANDERLEY, 2001).
Tem-se atribuído a René Lenoir a invenção dessa noção em 1974. Homem
pragmático e sensível às questões sociais, [...] teve, com sua obra, o mérito de
suscitar o debate, alargando a reflexão em torno da concepção de exclusão,
não mais como um fenômeno de ordem individual mas social, cuja origem
deveria ser buscada nos princípios mesmos do funcionamento das sociedades
modernas (WANDERLEY, 2001, p. 23).
Olhando mais uma vez para a história, veremos que, durante o período
medieval, um período até então claramente marcado pela exclusão das pessoas
Educação física inclusiva 3
com deficiência, iniciaram-se as primeiras atitudes de caridade por parte de
ordens religiosas e nobres para com pessoas portadoras de deficiência. Esse
fato marcou o início da segregação, já que foram criados locais para abrigar
esses sujeitos — esses locais foram os precursores de hospícios e albergues.
Em paralelo a essa atitude piedosa, havia também uma ideia de que os de-
ficientes representavam uma ameaça para as pessoas e para a sociedade. A
reclusão dos sujeitos nesses espaços se dava em condições desumanas; eles
eram impedidos de sair ou ter contato social com outras pessoas fora do local
onde moravam e viviam em condições de miséria e abandono (SILVA, 2009).
Essa condição perdurou por muito tempo; a situação de manicômios no Brasil
e em diversos países do mundo, até a metade do século passado, possuía essas
mesmas características. Essa postura social exemplifica o conceito de exclusão
das pessoas com deficiência.
No período pós-renascentista, novas concepções passaram a determinar
a forma como a sociedade lida com essa questão. Primeiro, passou-se a ter
consciência de que não se pode confundir as deficiências, em especial, a
deficiência mental, com desordens ou doenças mentais. Isso implicou em uma
radical transformação, implantando a noção de que esses sujeitos não deviam
mais ser foco de tratamento, por meio da reclusão em manicômios, mas, sim,
ser foco da educação. Nesse mesmo período, surgiu o movimento da escola
nova, que, a partir de uma perspectiva mais ampla, criticou fundamentalmente
a concepção de infância e o método de trabalho da escola convencional e
elaborou conceitos como “criança ativa” e “trabalho psicológico”, em con-
traposição à ideia de aluno passivo e instrução escolarizada. Posteriormente,
esse movimento passou a debater também a escola democrática e seu papel na
construção de uma sociedade verdadeiramente democrática (BASTINI, 2000).
Com relação às pessoas com deficiência, médicos educadores fundadores
desse movimento passaram a dar atenção à educação desse grupo de sujeitos,
acreditando na sua possibilidade de desenvolvimento. Entre alguns nomes,
podemos citar Jean Marc Gaspard Itard, Édouard Séguin e Maria Montessori.
A partir desse momento, começaram a surgir instituições que se dedica-
vam ao ensino específico de pessoas com deficiência. “Apesar da crescente
preocupação com a educação destes alunos, cuja intervenção decorria de um
diagnóstico médico-psicopedagógico, o processo de colocá-los numa escola
de ensino especial ou numa classe especial não deixava de ser um processo
segregativo” (SILVA, 2009, documento on-line).
Cabe uma pequena pausa para nos debruçarmos um pouco sobre estes
dois conceitos que são intermediários entre a exclusão e a inclusão, a saber:
a segregação e a inserção social. A segregação diz respeito ao ato de separar,
4 Educação física inclusiva
marginalizar, isolar o contato ou distanciar indivíduos e grupos considera-
dos diferentes. O próximo passo histórico foi, então, buscar uma atitude de
integração social, que pode ser entendida como uma abertura à participação
desses sujeitos na sociedade. De acordo com Silva (2009), esse movimento
incluiu o questionamento da institucionalização das pessoas com deficiência e
se desenvolveu por meio do fortalecimento de associações de pais, deficientes
e voluntários, além de documentos como a Declaração dos Direitos Humanos
e a Declaração dos Direitos da Criança.
[…] defendia-se um atendimento educativo diferenciado e individualizado,
de forma que cada aluno pudesse atingir metas semelhantes, o que implicava
a necessidade de adequar métodos de ensino, meios pedagógicos, currículos,
recursos humanos e materiais, bem como os espaços educativos, tendo em
conta que a intervenção junto destes alunos, respeitando a sua individualidade,
deveria ser tão precoce quanto possível e envolver a participação das famílias
(SILVA, 2009, documento on-line).
Apesar dos muitos avanços em virtude da busca de integração social de
pessoas com deficiência, esse movimento exigiu um pouco da sociedade e
não conseguiu atender plenamente às necessidades sociais de convivência,
desenvolvimento e participação no mundo do trabalho desse grupo. Isso por-
que se esperava das pessoas com deficiência que se adaptassem à sociedade
“normal”, e não o contrário — criar uma sociedade realmente acolhedora
das diferenças e com oportunidades para todos. Com isso, surgiu um novo
movimento, que busca a inclusão social desses indivíduos, entendendo que:
A aceitação e a valorização da diversidade, a cooperação entre diferentes e a
aprendizagem da multiplicidade são, assim, valores que norteiam a inclusão
social, entendida como o processo pelo qual a sociedade se adapta de forma a
poder incluir, em todos os seus sistemas, pessoas com necessidades especiais
e, em simultâneo, estas se preparam para assumir o seu papel na sociedade
(SILVA, 2009, documento on-line).
Esse movimento está em pleno desenvolvimento, e cabe a nós, professores,
quando nos depararmos com alunos que possuem alguma deficiência, estar
cientes dos princípios que o embasam, da relevância social do nosso trabalho,
assim como da relevância para a vida desse indivíduo que se coloca à nossa
frente. Trabalhar para a inclusão dos alunos na sociedade, assim como na turma
em que damos aula e da qual eles participam, traz benefícios não apenas para
esse sujeito ou para a sua família, mas para todos que convivem com ele. Esse
é o ponto que veremos a seguir.
Educação física inclusiva 5
2 Benefícios da inclusão
Para defendermos a inclusão de alunos com deficiência na escola regular, é
necessário que tenhamos claro qual é a importância de esse sujeito participar
desse espaço social. Quando nos deparamos com um aluno que possui uma
deficiência em nossa turma, isso traz novas complexidades, uma vez que
aumenta a diversidade dos sujeitos com os quais vamos trabalhar. Que tipo
de atitude você assumiria em virtude disso?
Há basicamente duas opções. Uma delas é ver essa diversidade como um
complicador para o seu trabalho; nesse caso, a relação professor-aluno será
bastante prejudicada, a possibilidade de desenvolvimento do aluno ficará
muito reduzida e será muito mais difícil estabelecer uma relação que permita
a inclusão social desse sujeito, pois o professor colocou a facilidade de seu
trabalho à frente da necessidade de seus alunos. A segunda opção é, em pri-
meiro lugar, reconhecer o direito desse sujeito à educação, à convivência com
pessoas da sua idade, ao brincar — enfim, uma série de elementos compõem a
vida humana, e diversos deles ocorrem na escola. A partir disso, você pode ver
esse desafio como uma possibilidade de crescimento não só para esse aluno,
mas para todos que estão envolvidos na relação com esse sujeito.
Alguns professores são mais sensíveis ao tema da inclusão ou se sentem
mais preparados para trabalhar com esses alunos. Mas o fato é que a inclusão
é uma realidade nas escolas brasileiras, um direito desses sujeitos e um impe-
rativo ético da sociedade. Se levarmos em conta que o aluno com deficiência
poderia estar em uma escola específica para pessoas com deficiência, então,
o aprendizado de elementos formais, como escrita, leitura e matemática, e a
capacidade de desenhar ou de jogar não seriam, a princípio, um elemento que
diferenciaria a sua presença na escola regular. Mas entrevistas com professoras
indicam que:
os alunos com deficiência aumentam suas capacidades de atenção, de comu-
nicação e […] da participação ativa em atividades educativas em um espaço
de tempo muito menor do que se fossem educados em salas de aula especiais,
reclusos à convivência com colegas que estão no seu mesmo nível de desen-
volvimento no que tange a aspectos cognitivos, afetivos e sociais (BERETA;
VIANA, 2014, p. 11).
Assim, a escola deve oferecer uma educação de qualidade baseada nas
necessidades e possibilidades desse aluno com deficiência. Ao mesmo tempo,
para esse aluno, ao estudar em uma escola regular, quando as relações se
desenvolvem de forma inclusiva, ao se relacionar com sujeitos diversos, que,
6 Educação física inclusiva
em geral, são chamados de “normais”, isso se torna uma oportunidade de
ampliação dos vínculos sociais. No caso da educação física, esses processos
de socialização recebem um ambiente especial, em que ocorrem por meio da
participação das crianças em jogos, brincadeiras, esportes, enfim, nas diversas
práticas corporais que são realizadas coletivamente nas aulas.
A educação inclusiva (EI) é uma orientação dominante na maioria dos países que
assinaram a Declaração de Salamanca, em 1994. Ao se definir a EI como "para todos e
para cada um", procura-se desenvolver e construir modelos educativos que rejeitem
a exclusão e promovam uma aprendizagem livre de barreiras. Porém, encontra-se na
prática da educação física grande dificuldade de realizar a inclusão real dos alunos
(RODRIGUES, 2003).
Entrevistas com fisioterapeutas que atendem crianças com paralisia cerebral
e que frequentam a escola regular afirmaram que identificavam melhora:
[…] da autoestima e da linguagem, além da melhora do relacionamento com o
terapeuta e com outras crianças como consequências da vivência em ambiente
escolar comum [...] Os fisioterapeutas A e B concordam que a auto comparação
com os colegas sem deficiência faz com que a criança deficiente se engaje na
sua reabilitação, facilitando, assim, a sua participação nos eventos escolares
tais como festas e educação física (SILVA; MAZZOTTA, 2009, p. 19-20).
A educação física também tem uma participação importante no processo
de desenvolvimento físico-motor dos sujeitos. Em muitos casos, alunos porta-
dores de deficiências realizam algum tipo de acompanhamento específico, em
virtude de problemas motores ou da necessidade de fortalecimento muscular
e da melhora da flexibilidade, da resistência e do equilíbrio. É importante que
o professor conheça esse acompanhamento e saiba quais são as necessidades
de seu aluno. Ainda que o seu trabalho não seja de reabilitação desse aluno, a
participação na aula de educação física poderá servir de forma complementar
ao seu desenvolvimento físico-motor. Para o aluno, a convivência com sujeitos
que são diferentes dele e que não possuem a sua condição de deficiência,
tendo, assim, algumas habilidades mais desenvolvidas, permite, quando essa
relação de comparação é bem trabalhada, que ele se motive e se engaje em sua
Educação física inclusiva 7
reabilitação. Esse é o caso, por exemplo, de crianças com paralisia cerebral
(SILVA; MAZZOTTA, 2009).
Para a família dessa criança, a escola pode tornar-se uma comunidade de
convivência e troca de experiências, assim como é para as outras famílias
cujos filhos não possuem uma deficiência. Acompanhar seu filho participando
da vida em sociedade é uma experiência que desenvolve a segurança e a
autoestima na família, pois é natural que os pais se preocupem com o futuro
de seus filhos e com a sua necessidade de desenvolver a autonomia. Mas
autonomia na vida em sociedade não é um fenômeno isolado, é um elemento
individual e relacional.
Há professores que acreditam que a presença de um aluno com deficiência
atrasa o aprendizado dos conteúdos formais da turma, pois este não consegue
acompanhá-la. Não existe qualquer evidência científica de que isso ocorra; na
realidade, cada aluno aprende determinado conteúdo no seu ritmo e de forma
mais ou menos aprofundada. Isso é um elemento natural da educação; essa
característica apenas fica mais evidente quando há um aluno com deficiência
no grupo. Por outro lado, é certo que, para a turma que convive com essa pessoa
com deficiência, sua presença é uma rica oportunidade para o aprendizado
da resiliência, da perseverança, da paciência e do respeito às diferenças. Com
relação a essa questão, é importante ressaltar que alguns autores têm apontado
a educação socioemocional como um elemento no mínimo tão importante para
o desenvolvimento da vida adulta dos indivíduos quanto o desenvolvimento
do intelecto (WATSON; PRANIS, 2015).
A inclusão de pessoas com deficiência na escola regular também reforça
o debate do tema da inclusão social de uma forma mais ampla. A sociedade
contemporânea é extremamente complexa, e convivem nela diversos e di-
ferentes grupos. Hoje, é uma realidade na escola, pelo menos nos grandes
centros urbanos, a presença de crianças imigrantes, a diversidade de gênero
entre os jovens, a diversidade de cor e classes sociais, a presença de crianças
que vieram de um contexto rural para estudar na cidade ou que têm em suas
famílias diferentes matrizes religiosas. Nessa perspectiva mais abrangente,
estamos nos referindo, então, à necessidade de desenvolvermos valores que
sejam capazes de reconhecer e aceitar a diversidade humana.
Para esse aluno com deficiência, estar na escola regular abre uma porta
para a inclusão na sociedade ao longo de toda a sua vida. Lembre-se de que
a inclusão é uma via de mão dupla; ela não depende apenas da capacidade do
sujeito de se adaptar à sociedade em que vive. Mais do que isso, trata-se de
uma capacidade da sociedade de se adaptar e aceitar as condições desse sujeito,
8 Educação física inclusiva
para permitir a convivência e a vida em coletivo na diversidade humana. De
acordo com Alves e Duarte (2014, documento on-line):
A inclusão necessita ser compreendida como uma experiência única, sub-
jetiva e associada com as crenças, percepções e sentimentos do aluno com
deficiência. [...] O atendimento às necessidades do aluno com deficiência
pressupõe formação profissional de qualidade, não apenas para os professores
da disciplina, mas para todos os que trabalham na escola. Sentir-se incluído
ultrapassa as barreiras da sala de aula, sendo necessário que o aluno tenha
atendidas e reconhecidas suas necessidades em todo o ambiente escolar.
Essa reflexão nos aponta, então, o caminho para que passemos a discutir
sobre possibilidades de implementação da inclusão na prática da educação
física.
A inclusão ainda é um desafio que está em processo de implementação. Mesmo com
a presença crescente de alunos com deficiência nas escolas regulares, isso não garante
que as relações que vão ser estabelecidas sejam, de fato, de inclusão. Pesquisas com
professores de educação física mostram que é comum não se sentirem preparados,
não gostarem ou não quererem trabalhar com inclusão. Por vezes, mesmo estando
sensíveis à temática da inclusão, professores adotam posicionamentos segregadores,
possivelmente por não estarem capacitados para trabalharem com esse público
(GORGATTI et al., 2004; SOUZA; BOATO, 2009).
3 Caminhos para a inclusão
A escola é uma instituição social marcada por quatro invariantes, a saber:
o tempo, o espaço, o saber e o currículo, bem como pelas relações de poder
(BARRERA, 2016). Segundo Bastini (2000), essas invariantes se manifestam
na escola tradicional:
pela organização rígida dos tempos;
pela arquitetura pouco ou nada acolhedora, com portões e grades nas
janelas, paredes de cores homogêneas, pés-direitos altos e uma estru-
tura imponente, com classes e cadeiras desconfortáveis e de tamanho
Educação física inclusiva 9
inadequado, o que confere uma estrutura de uma “grande instituição”,
distante de um ambiente “familiar e acolhedor”;
por estabelecer conteúdos a priori, ensinando-os da mesma forma a
todos os alunos, sendo muito centrada no desenvolvimento da racio-
nalidade e da competitividade;
por utilizar métodos de ensino ainda centrados na “transmissão” de
conhecimentos, na divisão por idades e nas formas autoritárias de
lidar com a criança.
Esse modelo de escola vem sendo contraposto há pelo menos 150 anos.
A primeira onda de contraposição à escola tradicional se deu a partir do mo-
vimento da escola nova. A partir daí, novas perspectivas de educação, mais
centradas no aluno, na construção do conhecimento e nas relações humanas,
passaram a ser desenvolvidas. Essa busca por mudanças no modo de ser escola
amplia a reflexão que estamos realizando, não só pensando nos alunos com
deficiência, mas nas necessidades e potencialidades de cada aluno. Nesse
sentido, então, quando debatemos o tema da inclusão, estamos fortalecendo
mais um ponto de necessárias transformações no modelo de escola regular.
No caso da inclusão, podemos inferir que:
A escola como espaço inclusivo tem sido alvo de inúmeras reflexões e debates.
A ideia da escola como espaço inclusivo nos remete às dimensões físicas e
atitudinais que permeiam a área escolar, onde diversos elementos como a
arquitetura, engenharia, transporte, acesso, experiências, conhecimentos,
sentimentos, comportamentos, valores etc. coexistem, formando este locus
extremamente complexo. A partir disto, a discussão de uma escola para todos
tem suscitado inúmeros debates sobre programas e políticas de inserção de
alunos com necessidades especiais. A grande polêmica está centrada na questão
de como promover a inclusão na escola de forma responsável e competente
(CIDADE; FREITAS, [2020], documento on-line).
Uma das reações mais comuns dos professores é afirmar que não estão
preparados para enfrentar as diferenças nas salas de aulas (MANTOAN,
2003). A questão é que nunca se está plenamente preparado para lidar com a
diversidade do educar. É certo que possuímos um arcabouço de experiências
que constrói um alicerce para lidarmos com situações, mas, a todo momento,
surgem situações novas e algumas tão desafiadoras que exigem que busque-
mos constantemente novos conhecimentos e alternativas. Em certo sentido,
poderíamos dizer que a educação se faz ao vivo, e, quando se trata de educação
inclusiva, essa atitude se torna ainda mais pertinente. O ponto, então, é, mais
10 Educação física inclusiva
do que estar preparado a priori, estar aberto a lidar com as adversidades, as
diferenças e o imprevisto. Com essa atitude, então, buscamos o conhecimento
necessário para lidar com as situações desafiadoras que encontramos no dia
a dia do educar.
De acordo com Alves e Duarte (2014), há três fatores relevantes para a
inclusão nas aulas de educação física:
1. adaptação;
2. participação social;
3. capacidade.
Eles agem de forma dependente e complementar para a construção de um
senso de pertencimento, aceitação e valor dentro do grupo. Vamos conferir
brevemente alguns elementos em relação a cada um deles e quais estratégias
podem ser empregadas para colocá-los em prática nas aulas de educação física.
A adaptação se refere às adequações necessárias às aulas de educação
física e à escola como um todo, para atender às necessidades de cada aluno.
Há questões estruturais, como rampas para cadeirantes, e pedagógicas, como
adaptações de jogos e materiais — por exemplo, a utilização de uma bola com
guizo com alunos surdos. Essas adaptações devem ocorrer de acordo com a
necessidade, as limitações e as capacidades de cada aluno com deficiência
(ALVES; DUARTE, 2014).
É importante você ter em mente que não serão necessárias adaptações para
todas as práticas. Por exemplo, alunos cadeirantes que tenham movimentos
nos braços podem jogar boliche, bocha ou frisbee sem qualquer adaptação
que altere os jogos e a participação dos alunos. É relevante levar isso em conta
quando são planejadas as aulas, pensando se há atividades que o aluno possa
realizar de “igual para igual” com os demais alunos. Não é necessário que o
professor de educação física mude os conteúdos da aula, no sentido de deixar
de trabalhar determinado conteúdo; mas se deve sempre adaptar as práticas a
serem realizadas para as possibilidades dos alunos, mesmo que essa adaptação
seja oferecida para um aluno em específico. As adaptações podem dizer respeito
às regras do jogo ou aos papéis assumidos pelos jogadores.
Educação física inclusiva 11
Vamos tomar como exemplo um aluno com paralisia cerebral, que consegue ficar em
pé com o auxílio de um andador e que movimenta os braços e as pernas. Ainda que
caminhe com certa dificuldade, ele pode jogar golfe, se tiver o apoio de um adulto
ou colega que o auxilie para manusear o taco. Esse mesmo aluno tem dificuldade
de lançar uma bola acima da altura dos ombros, mas pode jogar nilcon se tiver um
adulto ou colega a seu lado, que o auxilie a receber a bola, e se puder se aproximar
da rede (que deve ser instalada mais baixa do que o usual) para lançar a bola para o
campo adversário. No caso de um jogo de futsal, ele terá grande dificuldade de jogar
na linha, pois se movimenta mais devagar do que os colegas e não consegue chutar,
mas poderá jogar como goleiro, ficando sentado e combinando com o grupo que as
bolas devem ser chutadas no gol até uma determinada altura máxima.
O segundo ponto, a participação social, refere-se à convivência do aluno
com deficiência com as outras crianças na escola. Esse aspecto está associado
com dois fatores principais: a aceitação pelo grupo e a interação social com
o grupo no qual está inserido. É fundamental que o grupo compreenda as
necessidades especiais desse aluno, para que assumam uma postura de afeto
e auxílio e que compreendam que as alterações feitas nos jogos não são para
beneficiar esse sujeito em relação a seus colegas, mas para permitir que ele
participe das atividades.
Por fim, a capacidade é uma característica que varia de aluno para aluno,
em todos os indivíduos, mas fica mais evidente em alunos com deficiência. Por
exemplo, se temos em uma turma um aluno cego, um cadeirante (paraplégico),
um cadeirante com paralisia cerebral e um aluno autista, as capacidades e as
dificuldades de cada um deles serão peculiares. Veja que:
A percepção de inclusão em alunos com deficiência nas aulas de educação
física também é influenciada pelo sentimento de sentir-se capaz de realizar
as atividades da aula. [...] Dentro deste contexto é fundamental que o aluno
com deficiência desempenhe papéis e funções semelhantes a seus colegas
de classe sem deficiência nas atividades de aula (ALVES; DUARTE, 2014,
documento on-line).
De acordo com Mantoan (2003, documento on-line), “O sucesso das pro-
postas de inclusão decorre da adequação do processo escolar à diversidade
dos alunos, e, quando a escola assume que as dificuldades experimentadas por
12 Educação física inclusiva
alguns alunos são resultantes, entre outros, do modo como o ensino é minis-
trado, a aprendizagem é concebida e avaliada”. Sendo assim, ao ministrar as
aulas e ofertar para seus alunos práticas ligadas às seis unidades temáticas que
fazem parte dos conteúdos da educação física escolar — a saber: brincadeiras
e jogos, esportes, ginásticas, dança, lutas e práticas corporais de aventura —,
você deverá sempre estimular a participação dos alunos (em especial, dos que
possuem alguma deficiência) e realizar adaptações nas práticas e metodologias
utilizadas, em virtude da capacidade de cada aluno.
Por exemplo, na realização de atividades de ginástica como rolamentos e pirâmides
humanas, alunos com paralisia cerebral, dependendo de sua condição, poderão realizar
essas práticas com o auxílio do professor. Caso você avalie que ele não deve realizar um
rolamento de frente ou de costas, ou ele sinta medo, ele pode iniciar também deitado,
com rolamentos laterais no solo. Esse é um exemplo de uma adaptação pedagógica. Em
outro caso, no ensino de lutas, um aluno cadeirante pode realizar jogos de oposição com
um colega sentado, para que estejam em uma situação mais parecida na realização da
atividade. Alunos do espectro autista, por vezes, sentem-se mais confiantes em realizar
alguma atividade com colegas com quem possuem vínculo; isso deve ser levado em
conta na realização de atividades em duplas ou pequenos grupos.
Cada aluno com deficiência traz condições específicas dentro de suas
possibilidades de participação, e elas variam dependendo da prática que será
realizada. Como trazido anteriormente, algumas práticas não necessitarão de
nenhum tipo de adaptação, enquanto outras vão exigir do professor criatividade
e conhecimento.
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14 Educação física inclusiva
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