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Evolução do Direito Processual Penal

O documento apresenta um resumo histórico do direito processual penal, descrevendo os modelos inquisitório, acusatório e misto. Também aborda as fontes do direito processual penal português e os princípios subjacentes, como a oficialidade do processo.

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Evolução do Direito Processual Penal

O documento apresenta um resumo histórico do direito processual penal, descrevendo os modelos inquisitório, acusatório e misto. Também aborda as fontes do direito processual penal português e os princípios subjacentes, como a oficialidade do processo.

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Módulo B: Direito Processual Penal

1 Breve nota histórica

1.1 Modelo Inquisitório


Competia simultaneamente ao juiz inquirir, acusar e julgar, pertencendo-lhe o
domínio discricionário do processo.
É um tipo de processo que é característico dos Estados absolutistas, com o poder absoluto
dos Reis e da Igreja e ainda dos Estados totalitários, em que se verifica uma posição de
supremacia total do Estado sobre o indivíduo.
Há uma prevalência total da verdade material (a real) sobre a verdade formal. A
confissão era a rainha das provas: bastava o arguido confessar o seu crime para que se fosse
condenado. É a chamada verdade formal.
Prescindia-se da iniciativa particular (da queixa do particular) (diferente da denuncia).
Há investigação oficiosa (Ex oficio).
A repressão criminal era de indispensável interesse público e competia em exclusivo ao
Estado.
Ao arguido não eram reconhecidos direitos. O arguido era uma coisa, era um objeto a
quem era feito o processo.
Por conseguinte era admitida a tortura para obter a confissão do arguido.

1.2 Modelo acusatório


Separação entre a entidade que investiga e acusa e a entidade que julga, sendo a
acusação condição e limite do julgamento.
O Juiz que julga está tematicamente vinculado aos factos que lhe são trazidos pela
entidade que acusa.
Iniciativa processual é do ofendido.
Não é um processo comprometido com a verdade, a verdade é a processual (o que se
consegue apurar no processo e no confronto).
Debate em moldes contraditórios (uma parte arrola testemunhas e a outra pode
contrainterrogar).
Juiz assiste ao debate para formar o seu juízo.
Há igualdade de armas.
Exige-se a publicidade do processo.

1.3 Processo Reformado ou Misto


Intermediário entre o sistema acusatório e o inquisitivo - pois ao mesmo tempo que há
observância das garantias constitucionais, mantem-se alguns resquícios do sistema
inquisitivo, como exemplo a faculdade de o juiz quanto a produção probatória.
Princípios da contrariedade, da publicidade e da oralidade do julgamento e da livre
convicção probatória.
Figura do júri ao lado da criação do Ministério Público como o órgão judicial de
acusação.

1.4 Processo Mitigado


Criado em Portugal durante a vigência do Estado Novo.
Cria-se o Ministério Público mas com subordinação ao juiz.

1
A competência da instrução preparatória era do juiz, finda a qual ele ordenava ao
Ministério Pulico que acusasse. Se o juiz não concordasse com a acusação do MP podia
ordenar que fizesse nova acusação e depois julgava.
Defensor é o colaborador da realização dos interesses da administração da justiça e que
vai assistir tecnicamente o arguido.

1.5 Sistema processual penal atual


Características do processo reformado ou misto.
Juiz não assiste apenas ao debate, pode desenvolver investigação.
Procura-se a verdade material.
Julgamento com modelo acusatório, mas com princípio de investigação.
Fase de instrução com modelo inquisitório.
Nos termos do nº 5 do artigo 32º da Constituição da República Portuguesa (CRP), o
processo penal português tem estrutura acusatória. Não corresponde a um modelo acusatório
puro, mas antes ao chamado modelo misto.
Existência de um princípio não inquisitório, mas um princípio de investigação, integrado
numa fase secreta que é chamado Inquérito e que tem como finalidade esclarecer e instituir
autoritariamente o facto que deve ser sujeito a julgamento.
É vedado ao Ministério Público, transigir, fazer qualquer acordo com o arguido ou com o
defensor, no sentido de deixar de deduzir aquela acusação.
Caracteriza-se ainda pela existência de certas limitações à liberdade do arguido.
Ministério Público atuará em todo o processo segundo princípios de estrita objetividade
(art. 53º/1 CPP) e vinculado ao princípio da legalidade.
Concebe o processo penal como parte da ordenação comunitária. Ele está ao serviço da
comunidade e não ao serviço do Estado, sendo função do Estado a proteção da ordem social.

Nulla puena sine processum


(art. 29.º n.º1 CRP; art. 32.º CRP; art. 2.º CPP)
a) Garantia para o cidadão: respeito pelos direitos do arguido;
b) Limite à função punitiva do Estado que é exercida através de um processo penal.

O Processo Penal: compreende o conjunto de atos que tendem a investigar e a esclarecer a


prática de um crime, encontrar o seu agente, a responsabilidade que lhe cabe e determinar e
determinar a legislação que pune esse ato.

O Fim do Processo Penal – descoberta da verdade material dos factos e a realização da


justiça.

Objeto do Processo Penal


a) Conjunto de factos humanos;
b) Situados no tempo;
c) Situados no espaço.

2 Fontes do Direito Processual Penal Português


A. A Lei
A Lei internacional
Declaração dos Direitos Humanos e do Cidadão;

2
Convenção Europeia sobre os direitos do Homem;
Convenção Europeia para a repressão do terrorismo;
A Lei nacional
Constituição da República Portuguesa;
Código de Processo Penal;
Lei Orgânica dos Tribunais;
Lei Orgânica do Ministério Público;

B. A Jurisprudência
C. A Doutrina

3 Interpretação/Integração/Aplicação

3.1 Interpretação da lei processual penal

As Normas da Constituição – estas têm que estar sempre subjacente a qualquer interpretação
da lei processual penal.

3.2 Integração da lei processual penal

1.º Aplicação da legislação processual – preceitos do processo civil.

2.º Princípios gerais do processo penal – art. 4.º CPP.

3.3 Aplicação pessoal no tempo e no espaço

a) Aplicação pessoal;

b) Aplicação no espaço – art. 6.º CPP;

c) Aplicação temporal – art. 5.º CPP.

tempus regit actum – o tempo rege o ato. Exceções: alíneas a) e b) do n.º 2 do art. 5.º
CPP.

4 Princípios do Direito Processual Penal

4.1 Princípios relativos ao impulso processual

• Princípio da oficialidade
Em causa está saber a quem compete a iniciativa ou o impulso processual, portanto, o
impulso de investigar a infração, e quem compete também a decisão de submeter ou não
o infrator a julgamento.
Tem-se que considerar que tal iniciativa é tarefa estatal e ela é realizada
oficiosamente, em certos casos mesmo à margem da vontade e da atuação dos
particulares.
Em determinado tipo de crime, o Estado age oficiosamente: não necessita da
participação, ou do impulso particular, para que se desencadeie todo o processo de
investigação, com vista a determinar quem foram os agentes e a decisão de os submeter

3
ou não a julgamento. O exercício da ação penal compete ao Ministério Público –
princípio da oficialidade.
Ao lado do Ministério Público, tem-se determinadas entidades oficiais que podem
promover e realizar certas diligências, mas sempre atos que são ou delegados pelas
autoridades judiciárias, ou sempre em coordenação com o Ministério Público – os
chamados órgãos de polícia criminal (arts. 55º e 56º CPP).
Esta subordinação às autoridades judiciárias advém do art. 248º CPP. O art. 242º
CPP, refere os casos de denúncia obrigatória, mas só para os órgãos de polícia criminal,
como também para os magistrados – entidades judiciárias (juiz ou Ministério Público).
Com esta denúncia obrigatória, com esta obrigação de comunicação dos atos, com o
levantamento dos autos de notícia e porque, nos termos do art. 48º CPP, é o Ministério
Público que tem legitimidade para promover o processo penal, a partir do momento em
que o Ministério Público tem conhecimento de um crime inicia toda a parte do inquérito.
Desde a notícia do crime que é dada ao Ministério Público, até ao julgamento, tudo se
vai desenvolver oficiosamente, através de órgãos ou entidades em que o Estado, detentor
do poder soberano de investigar, de esclarecer determinados factos praticados pelos
agentes e de sentenciar. Quer-se dizer, que se impede, se proíbe, a atuação de particulares
na investigação dos factos que constituem crime.
É nisto que se traduz o princípio da oficialidade, é o carácter público da promoção
processual.
Há limitações ao princípio da oficialidade:

a) Crimes particulares:
São constituídos por infrações de pequena gravidade, de infrações que, não se
relacionando com bens jurídicos fundamentais da comunidade, apenas atingem a pessoa
visada e a comunidade em si própria não se sente lesada, e por conseguinte, não sente
necessidade de reagir.
Deixa-se ao particular que tome a iniciativa de dar conhecimento, e depois ele
próprio, se quiser, após a diligência do inquérito, que deduza acusação.
Se o ofendido por um crime particular, quiser que haja procedimento criminal, dá
conhecimento ao Ministério Público e tem de declarar que se quer
constituir assistente, mas não é ele que vai fazer o inquérito, quem o faz é o Ministério
Público.
Simplesmente, depois de submeter o arguido ou não a julgamento, através da dedução
de acusação, essa decisão última pertence ao particular, se ele não o fizer o processo é
arquivado.

b) Crimes semi-públicos:
Aqui a comunidade já se sente lesada, sente que os seus valores fundamentais foram
violados. No entanto, põe acima dos valores comunitários os valores individuais que
foram infringidos, que foram violados, porque entende que a reação contra essa infração
depender a vítima, do ofendido.
Se o ofendido entende que não deve queixar-se, então a comunidade também não o
faz, mas se o fizer, a partir do momento em que o ofendido se queixou, então o Estado
assume nos seus ombros todo o processo, sem mais intervenção do ofendido: já não se
torna necessário ele constituir-se assistente e deduzir acusação particular.
A lei deixa nestes casos o direito de denúncia ao particular. Se ele quiser queixar-se,
então prossegue tudo como se fosse um crime público, como se a comunidade se sentisse
violada. O Estado assume todo o processo, desde o inquérito até ao julgamento.

4
A queixa, a constituição de assistente, e a dedução de acusação por particular, são
momentos distintos.
1º Momento: a pessoa queixa-se e tem de declarar que se vai constituir assistente (art.
246º CPP).
2º Momento: a pessoa constitui-se assistente. Para tanto precisa de advogado para assinar
o requerimento[2]. Têm que estar reunidos os pressupostos processuais, como a
personalidade, a legitimidade, etc. e tem de pagar a taxa de justiça.
3º Momento: dedução da acusação particular é o momento ainda mais posterior, só surge
depois de feito o inquérito.
Nos crimes particulares, se o ofendido não declarar na queixa que se quer constituir
assistente, vai ser notificado pelo Ministério Público para o fazer. Só após a constituição
de assistente é que o Ministério Público inicia o inquérito.
No final do inquérito o particular é notificado para deduzir acusação particular (art.
285º CPP). Se o assistente não deduzir acusação particular, o processo é arquivado.

c) Crimes públicos:
Aqueles que pela sua gravidade e consequência, atingem de tal maneira os valores da
comunidade que esta não pode ficar inativa. E por conseguinte, basta a notícia do crime
para que o Ministério Público desencadeie todo o processo. E mais: é obrigado a deduzir
acusação, e durante o julgamento, tem que a sustentar (art. 53º/2-c CPC), tem que
mantê-la. Só poderá deixar de o fazer no final do julgamento, quando se passa à fase das
alegações gerais.

• Princípio da legalidade
Surge como forma de controlo da atividade do Ministério Público, que é um órgão
hierarquicamente dependente e responsável. Como é que o Ministério Público desencadeia o
processo? (art. 262º CPP)
Tem de haver, a chamada notícia do crime: se o crime for semi-público ou particular, tem
de ser o ofendido ou a pessoa a quem a lei confere legitimidade para tal a queixar-se, tem de
haver uma queixa.
Se o caso se trata de um crime público, basta que alguém dê a notícia ao Ministério
Público, basta o conhecimento por parte do Ministério Público para que ele desenvolva a ação
penal.
O princípio da legalidade, traduz-se, desde logo em processo penal, na obrigatoriedade
de o Ministério Público proceder, dar ou deduzir a acusação e sustentá-la efetivamente (art.
53º CPP), por todas as infrações de cujos os pressupostos tenha tido conhecimento e que
tenha logrado recolher no Inquérito indícios suficientes.
O princípio da legalidade não é apenas aplicado ao Ministério Público. Os juízes e os
órgãos de polícia criminal também estão sujeitos a este princípio.
Se quanto ao impulso inicial basta a notícia do crime, já para o impulso processual
sucessivo, imediato, que será a dedução da acusação, torna-se necessário que durante o
inquérito tenham sido recolhidos indícios suficientes de se ter verificado o crime e quem foi o
seu agente.
Após dedução de acusação, não acabou ainda a obrigação do Ministério Público respeitar
a legalidade. Durante a fase de julgamento ele deve não só manter essa acusação, como
sustentá-la efetivamente (art. 53º/2-c CPP).

5
Esta expressão “sustentar efetivamente”, quer dizer que o Ministério Público, perante a
prova que está a ser produzida em audiência de julgamento, não pode pura e simplesmente
desistir.
Terminada aquela fase de julgamento em que se faz a prova dos factos, então já o
Ministério Público fica liberto da obediência ao princípio da legalidade.
Nos crimes particulares, o princípio da legalidade não existe, o Ministério Público, não é
obrigado a deduzir acusação; apenas está obrigado a fazer o inquérito: a partir do momento
em que há queixa, declaração de constituição de assistente, então o Ministério Público é
obrigado a fazer inquérito. Mas uma vez findo, não está obrigado a deduzir acusação porque
isso é um direito que compete em exclusivo ao particular.
Nos crimes semi-públicos, pode acontecer que ao Ministério Público seja retirada a
legitimidade para continuar. Mas aqui não se tem nenhuma ofensa ao princípio da legalidade,
o que acontece é que o ofendido, até à sentença pode desistir da queixa, da instância.

• Princípio da oportunidade
Consiste este princípio numa certa margem de discricionariedade concedida ao Ministério
Público para que ele desde logo resolva determinados casos, os arquive, não lhes dê
seguimento (arts. 277º segs. CPP). Estas situações:
- Ou é desde logo afastada, porque se trata daquelas bagatelas penais, e por conseguinte,
nem há lugar à promoção do processo.
- Ou então há indícios da prática do crime, houve toda uma investigação, mas não se
determinam os agentes, ou determinam-se os agentes mas eles são irresponsáveis ou
inimputáveis, ou estão isentos de aplicação de pena – no final do inquérito o processo é
arquivado.
Concede-se ao Ministério Público a faculdade de dispor do processo: concede-se portanto
um certo poder discricionário para resolver desde logo o processo. É o chamado princípio da
oportunidade, concedido ao Ministério Público e que certa forma constitui uma limitação ao
princípio da legalidade. Este princípio é aceite em casos muito restritos no Código de
Processo Penal – arts. 277º e 280º.
Uma outra situação em que se verifica o princípio da oportunidade é no art. 281º CPP –
suspensão provisória do processo. Aí também, desde que se verifiquem todos os requisitos,
isto é, desde que haja indícios suficientes da prática do crime, desde que seja conhecido o
agente e determinada a sua responsabilidade, se o crime não for punível em abstrato com pena
superior a 5 anos, se o arguido for primário, se for diminuta a culpa na sua atuação, se houver
a concordância do assistente e do próprio arguido e também do Juiz de Instrução Criminal, o
Ministério Público numa situação destas, pode decidir-se não pelo arquivamento, mas
pela “suspensão provisória do processo”. Isto é, o processo fica latente, fica suspenso: aplica-
se ao arguido certas injunções e normas de conduta. Esta situação mantém-se durante um
certo prazo (até 2 anos) art. 282.º; se ele cumprir, no fim do prazo o processo é arquivado; se
não cumprir, volta tudo ao princípio e, porque há indícios suficientes, é deduzida acusação.
Mas, se o legislador está a conceder ao Ministério Público a possibilidade de, em certas
situações, não deduzir acusação, não obedecer ao princípio da legalidade, então há que
controlar a própria legalidade do Ministério Público; ou seja, controlar a sua atuação sempre
que o Ministério Público não obedece à lei.
Uma das formas de controlar a sua atuação é através da chamada intervenção
hierárquica: quer isto dizer que o processo é levado ao conhecimento de um superior (art.
278º CPP).
A instrução é uma fase facultativa, em que se requer a intervenção do Juiz de Instrução
Criminal. O assistente é a pessoa ofendida, vítima do crime (...) que requereu ao juiz a sua

6
intervenção como tal, e por tanto quer também colaborar no processo, ao lado do Ministério
Público.
O assistente pode requerer ao Juiz de Instrução Criminal que venha fazer uma
reapreciação do processo, é nisto que consiste o requerimento de abertura do processo o
assistente chama ao juiz de instrução, através de um requerimento em que expõe as razões
porque discorda da atuação do Ministério Público, eventualmente pode requerer que ele faça
certas diligências e requerer que ele aprecie a conduta do arguido no sentido de o submeter a
julgamento através de um despacho de pronúncia, tem-se aqui, também, uma forma de
controlo da atividade do Ministério Público.
As formas de controlo do Ministério Público são:
- Pelo superior hierárquico (art. 278º CPP);
- Pelo assistente (art. 287º/1-b CPP).

• Princípio da acusação
Com a adoção deste princípio, pretende-se assegurar o carácter isento, objetivo, imparcial
e independente da decisão judicial.
Com o processo penal pretende-se atingir uma determinada finalidade, e essa finalidade
será atingida com objetividade, com imparcialidade e mediante um órgão independente[3].
Para que isto seja assim, torna-se necessário que a entidade julgadora não possa ter
também funções de investigação e da acusação da infração, por conseguinte:
➢ O Ministério Público investiga e acusa;
➢ O juiz julga, aprecia a conduta do arguido.
Ao lado desta distinção entre entidade julgadora e entidade acusadora há que estipular e
postular um princípio de igualdade de “armas” entre a acusação e defesa. Ambos devem ter
mesmos direitos e os mesmos poderes.
Mas o Ministério Público tem mais poderes, tem uma máquina investigatória ao seu
dispor. Esta igualdade de direitos só será relevante nas fases seguintes ao Inquérito, na fase de
Instrução (quando houver) e na fase de julgamento. Nesta fase o Ministério Público e o
arguido têm os mesmos direitos, está assegurado pelo princípio do acusatório.
Se ambos têm os mesmos direitos e os mesmos poderes, então ambos participam na
realização do direito, na administração da justiça. É uma chamada participação
constitutiva dos sujeitos processuais afetados na decisão do caso em apreço, ambos
contribuem na definição do direito ao caso:
➢ O Ministério Público acusando, imputando ao arguido à prática de determinados
factos;
➢ O arguido defendendo-se, se o quiser fazer, impugnando, contestando, trazendo
justificações para a sua prática.

4.2 Princípios relativos à prossecução processual

• Princípio do contraditório e da audiência.


O juiz penal, no desenvolvimento da sua atividade, por tanto na prossecução processual
deve ouvir quer a acusação, quer a defesa. E mais: deve fazer ressaltar e sobressair, quer as
razões da acusação, quer as razões de defesa.
Incumbe ao Tribunal, ao juiz penal, fazer sobressair as razões, quer de acusação, quer da
defesa.
Nenhum arguido poderá ser condenado sem que lhe tenha sido dada a possibilidade de se
fazer ouvir, de se defender.

7
Daí que a última pessoa a ser ouvida, a pronunciar-se num julgamento e após as
alegações finais é o arguido. Resultando, que o juiz só pode proferir a sua decisão depois de
dar ao arguido a possibilidade de contestar, de contrariar as razões ou os factos que lhe são
imputados.
Este princípio do contraditório está diretamente relacionado com o princípio da audiência.
A oportunidade que é conferida a todo o participante no processo de influir através da sua
audição na decisão do caso concreto.
Através do princípio da audiência tem-se o reconhecimento da dignidade pessoal do
homem, impedindo que ele se torne num objeto do processo. O arguido, como qualquer outro
sujeito processual, é um sujeito ativo, é um sujeito participativo em todo o processo. Por
conseguinte, deve ser ouvido porque através das suas declarações ele contribui para a decisão
do caso concreto.

• Princípio da investigação
O processo penal português será de estrutura basicamente acusatória, mas integrado
por um princípio da investigação.
Com este princípio da investigação permite-se ao juiz recolher provas sobre os factos já
constantes da acusação e da pronúncia.
Trata-se ainda, numa fase de inquérito, na possibilidade que é dada ao Ministério Público
de investigar autonomamente a prática do crime, após a denúncia, após o conhecimento ou
após a notícia do crime.

• Princípio da suficiência
No processo penal vão-se resolver todas as questões que interessam à decisão daquela
causa (art. 7º CPP).
Atribui-se ao juiz penal a competência para conhecer de todas as questões. Mas por vezes
os juízes deparam-se com determinadas questões no processo penal que, ou porque têm um
objeto diferente, ou porque têm uma natureza distinta da questão principal a resolver no
processo penal, ou ainda porque se revelam de uma complexidade extrema, a sua resolução
terá de ser decidida noutro Tribunal.
Estas questões que condicionam e por vezes, limitam o conhecimento do juiz penal são
aquilo a que se chama: questões prejudiciais em processo penal.
Questões de natureza civil, duas teses:
a) Tese do conhecimento obrigatório: o juiz penal é obrigado a conhecer todas as
questões; bem ou mal, o juiz penal tem delas conhecer. Em processo penal, o juiz deve
conhecer de tudo.
b) Tese da devolução obrigatória: sempre que aparece uma questão prejudicial, há que
devolvê-la para o Tribunal competente.
c) Tese eclética ou intermediária ou tese da devolução facultativa:
Há questões que pelo seu relevo, pela sua complexidade ou pela especialidade de que se revestem,
impõem que a sua decisão seja tomada por um Tribunal mais qualificado para o seu conhecimento
No nosso CPP concede-se um certo poder discricionário quanto à devolução ou não
devolução da questão prejudicial para outro Tribunal. É a tese da devolução facultativa, que
é uma tese intermediária: o juiz analisa a questão e se entender que não se sente à vontade
para a resolver em conformidade, devolve-a para o Tribunal que considere competente para a
resolver (art. 7º/2 CPP).

Requisitos para a devolução de uma questão prejudicial surgida em processo penal


a) Requisitos de natureza substancial

8
Que esta questão seja de resolução necessária para se conhecer da infração penal. Isto é
torna-se necessário conhecer da questão prejudicial para se prosseguir a ação penal –
necessidade.
Entende-se pois que a questão de natureza não penal seja importante para a decisão da
causa em processo penal, isto é, que a questão prejudicial implique o conhecimento de um
elemento constitutivo da infração. Mas não um elemento qualquer: tem que ser um elemento
de tal modo relevante que possa decidir sobre a absolvição ou a condenação do arguido, não
basta uma mera circunstância atenuante.
Outro requisito – conveniência da sua resolução em processo penal – é que essa questão
possa ser resolvida convenientemente no processo penal. Isto é, o Tribunal penal só deverá
deixar de ordenar a devolução quando no processo penal tiver prova segura de todos os
elementos da infração.
Por conseguinte, conjugando com o primeiro requisito (da necessidade), ou decide pela
absolvição ou pela condenação, isto é, o Tribunal já tem elementos estão dependentes do
conhecimento da questão prejudicial e ela pode resolver-se convenientemente no processo
penal. Então, deve ser devolvida.

b) Requisitos de natureza formal


A questão só pode resolvida após o termo do inquérito. O Ministério Público conhece a
infração, para determinar quem foram os seus agentes e outros meios de prova.
Legitimidade para a suspensão do processo (art. 7º/3 CPP).
A legitimidade para a suspensão é oficiosa ou pode ser requerida pelo Ministério Público,
pelo assistente ou até pelo próprio arguido. São estes os sujeitos processuais com
legitimidade para se pronunciarem sobre a suspensão ou, eventualmente, a requerem, o
regime está previsto no art. 7º/4 CPP.

Limites ao conhecimento de questão de natureza civil


a) Caso julgado
O Tribunal penal não pode decidir uma questão prejudicial se esta já está definitivamente
resolvida, se já há um caso julgado sobre a questão.
b) Litispendência
Se a questão está a ser resolvida noutro Tribunal, se já está uma ação pendente não vai
agora o Tribunal Penal pedir a outro que a resolva. Aguarda, em princípio que seja decidida a
questão no Tribunal competente.
São estas as questões que se levantam à chamada suficiência do processo penal. Ao
falarmos da suficiência do processo penal diz-se que ou a questão se resolve no processo
penal ou o processo se suspende para resolver esta questão prejudicial.
Princípios relacionados:
· Princípio da concentração, tudo se deve resolver em processo penal;
· Princípio da imediação, o juiz penal toma conhecimento direto com o facto na
própria audiência.

• Princípio da economia processual.


Tal princípio é a busca constante do resultado útil do processo (julgamento de mérito),
com o dispêndio de um esforço mínimo processual. Assim, o princípio da economia
processual ou da economicidade repele a prática de atos desnecessários e inúteis, durante a
tramitação do processo, a exemplo da realização de provas desnecessárias ou a repetição de
atos processuais dispensáveis, apenas em razão de não ter seguido, o ato já praticado, o

9
modelo legal, apesar não ter causado, a realização do ato em desconformidade com a lei,
prejuízo algum às partes no processo.

4.3 Princípios relativos à prova

• Princípio in dubio pro reo


Aceita-se este princípio como princípio de ónus da prova material e não como ónus da
prova formal.
Não é um mero princípio relativo à prova; é um princípio autónomo, é um princípio geral
de direito. E isto tem consequências várias, desde logo, a nível de recursos (por ex.).
Quando se invoca este princípio, significa que a prova foi feita; só que não foi suficiente,
o Tribunal, com os elementos de prova que consegui recolher, não ficou convencido de que o
arguido tenha praticado o crime. E sendo assim, na dúvida favorece-se o arguido, é absolvido.
A aplicação do princípio in dúbio pro reo: a sua relevância quanto à questão de facto e à
ausência de limites:
a) É relevante desde logo quanto aos elementos em que se baseou e fundamentou a
acusação;
b) É relevante quanto às causas de exclusão da ilicitude (ex. legítima defesa);
c) É relevante quanto às causas de exclusão de culpa (ex. estado de necessidade);
d) Ainda quanto às causas de exclusão de pena.

• Princípio de inocência.
Enunciado primeiramente, a 10 de Dezembro de 1948, na D.U.D.H, o princípio da
presunção de inocência foi igualmente elevado à categoria de princípio fundamental na
C.R.P. de 1976, vigorando até aos dias de hoje, como um dos mais relevantes institutos de
defesa da posição do arguido, em processo penal. Diz o art. 32º nº 2 da C.R.P. que todo o
arguido se presume inocente até ao transito em julgado da decisão de condenação, devendo
ser julgado no mais curto prazo compatível com as garantias de defesa. Resulta pois do
exposto que só através da produção de prova inequívoca e infalível por parte da entidade
acusadora é que se pode produzir sentença acusatória contra o arguido, acompanhada de uma
determinada sanção penal (pena de prisão e/ ou pena de multa).

• Direito ao silêncio e à não auto-incriminação.


O direito à não auto-incriminação implica que quem é alvo de um processo-crime, dada a
gravidade da sua situação, tenha o direito de recorrer à estratégia do silêncio. É sobre a Justiça
do Estado que recai o ónus de demonstrar os factos da acusação. A primeira razão do direito
ao silêncio é, deste modo, a própria presunção de inocência do arguido. Não é o arguido que
tem o ónus de provar que não existe fundamento para a sua responsabilização. Aliás, uma tal
prova negativa seria muito difícil Além disso, o direito à não auto-incriminação decorre da
conceção de que o arguido não é objeto do processo, como sucedia com a inquisição. O
arguido é um sujeito processual e, em regra, não pode ser utilizado, contra a sua vontade,
como fonte de prova contra si mesmo.

• Princípio da prova livre.


A valoração da prova indireta não é apenas um assunto do juiz. No processo de estrutura
acusatória em que o dominus do inquérito é (quase) soberano na decisão de arquivar ou de
submeter um arguido a julgamento, a apreciação das provas é também um problema do
Ministério Público. Cabe-lhe, logo no inquérito, a correta valoração dos indícios, sendo certo
que vinga hoje a interpretação de que o juízo para arquivar ou para acusar se aproxima cada

10
vez mais do juízo sobre a absolvição e sobre a condenação. É sempre da formação de uma
convicção que se trata. Para tanto, na nomenclatura do Código de Processo Penal (art. 127º), a
entidade competente aprecia a prova segundo as regras da experiência e a livre convicção,
salvo quando a lei dispuser diferentemente. A livre apreciação é, então, o princípio máximo,
base e transversal de prova, que rege no processo desde o início deste. Ele “vale para todo o
decurso do processo penal e para todos os órgãos da justiça penal”. Substitui o sistema das
provas legais, que se baseava numa falta de confiança generalizada nos juízes. “O novo juiz
criado depois da revolução francesa é um funcionário do Estado, treinado profissionalmente e
um decisor neutro e responsável”. “Já não é necessário evitar que o juiz tenha uma ampla
discrição na sua decisão sobre os factos”.
Logo nas lições escritas em 1956, Cavaleiro de Ferreira fala em “livre convicção como
meio de descoberta da verdade” e não como “uma afirmação infundada de verdade”. 4
Esclarece que “o julgador, em vez de se encontrar ligado a normas prefixadas e abstratas
sobre a apreciação da prova, tem apenas de se subordinar à lógica, à psicologia e às máximas
da experiência.” Mas previne que “a convicção por livre não deixa de ser fundamentada” e
manifesta apreensão relativamente ao que chama de mutismo da jurisprudência de então:
“somente a supressão das provas legais tornou praticamente mudas a jurisprudência e a
doutrina a este respeito” (Cavaleiro de Ferreira refere-se à necessidade de fundamentação) “e
criou por isso o grave perigo dum puro subjetivismo na apreciação das provas”.
Nas lições escritas em 1975, Figueiredo Dias, realça a “deslocação do fulcro de
compreensão do próprio direito das normas gerais e abstratas para as circunstâncias concretas
do caso”. Ensina que livre apreciação significa ausência de critérios legais prefixados e,
simultaneamente, “liberdade de acordo com um dever – o dever de perseguir a chamada
verdade material – de tal sorte que a apreciação há-de ser, em concreto, recondutível a
critérios objetivos e suscetíveis de motivação e controlo”.5 Não poderá tratar-se de uma
convicção puramente subjetiva ou emocional. Curando-se sempre de uma convicção pessoal,
ela é necessariamente objetivável e motivável. Esclarece ainda Figueiredo Dias que a verdade
que se procura é uma verdade prático-jurídica, resultado de um convencimento do juiz sobre a
verdade dos factos para além de toda a dúvida razoável.

• Princípio da investigação ou da verdade material.

O processo penal português tem uma natureza essencialmente acusatória, não obstante a
existência de alguns afloramentos do princípio do inquisitório Como o juiz não pode ficar
com dúvidas resultante das provas produzidas pelas partes, é imperativo ultrapassar esse
obstáculo, esse estado de incerteza. Nessa medida, a existir ónus da prova, este recai sobre o
juiz que fica assim incumbido de providenciar as diligências necessárias ao apuramento dos
factos. “Não há lugar para um juiz passivo, impávido e sereno, a assistir ao duelo judiciário
entre a acusação e a defesa, que esgrimem as suas armas”.
Deste modo, além dos meios de prova oferecidos pela defesa e pela acusação em
momento oportuno, nada obsta a que o juiz possa ordenar oficiosamente (ou a requerimento)
outros meios de prova que se lhe afigurem necessários à descoberta da verdade e,
consequentemente, à boa decisão da causa. Isto significa, pois, que o juiz não se contenta para
a formação da sua convicção com o material probatório recolhido pelos demais sujeitos
processuais.
Contudo, esse poder autónomo de investigação depara-se com um limite: o objeto do
processo. Desta feita, o juiz só poderá investigar dentro do âmbito do objeto do processo, que
é fixado pelas partes (acusação e defesa). Resumindo: “ (…) o princípio da investigação
pretende-se traduzir antes o poder-dever que ao tribunal incumbe de esclarecer e instruir

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autonomamente, mesmo para além das contribuições da acusação e da defesa, o «facto»
sujeito a julgamento, criando aquele mesmo as bases necessárias à sua decisão”

4.4 Princípios relativos à forma

• Princípio da publicidade;

O processo penal é presentemente caracterizado pelo princípio da publicidade porque, de


acordo com o art. 86.º, n.º 1 do Código do Processo Penal (CPP), “o processo penal é, sob
pena de nulidade, público, ressalvadas as exceções previstas na lei”.
Atualmente o princípio da publicidade é aplicável a qualquer fase do processo penal,
inclusive a fase de inquérito (até à reforma do CPP de 2007, a fase de inquérito era dominada
pelo segredo de justiça).
Do princípio da publicidade decorrem os direitos de:
a) Assistência, pelo público em geral, à realização do debate instrutório e dos atos
processuais na fase de julgamento;
b) Narração dos atos processuais, ou reprodução dos seus termos, pelos meios de
comunicação social;
c) Consulta do auto e obtenção de cópias, extratos e certidões de quaisquer partes dele
(art. 86.º, n.º 6 do CPP).
No entanto, atente-se que o princípio da publicidade não é absoluto, seja porque não
abrange os dados relativos à reserva da vida privada que não constituam meios de prova (art.
86.º, n.º 7 do CPP), seja porque o tribunal pode decidir sujeitar o processo a segredo de justiça
(nomeadamente para proteção dos direitos de algum dos sujeitos ou participantes processuais
- como os do arguido, do assistente ou do ofendido -, ou, no decurso da fase de inquérito, para
tutela dos interesses da investigação ou dos direitos dos sujeitos processuais - art. 86.º, n.ºs 2 e
3 do CPP)

• Princípio da oralidade;

O princípio da oralidade significa que os atos processuais do processo penal devem ser
praticados oralmente na presença dos participantes processuais (arts. 96.º, n.º 1, e 298.º, n.º 1
e arts. 348.º a 350.º do Código do Processo Penal - CPP), em especial no que respeita à
produção de prova em sede de audiência de discussão e julgamento (art. 96.º, n.º 1 do CPP).
O princípio da oralidade não impede (e até aconselha) que os atos praticados oralmente
fiquem documentados ou registados (através do respetivo auto e registo áudio ou audiovisual
– art. 99.º do CPP), de modo a permitir um controlo de prova, o que se revela importante para
efeitos de uma eventual interposição de recurso.
O princípio da oralidade tem vantagens e inconvenientes. Quanto às vantagens, para além
da celeridade, aponta-se sobretudo a descoberta da verdade (a inquirição, o diálogo e a
perceção da reação dos depoentes permite ou ajuda na realização de tal tarefa), embora se
possam apontar como desvantagens a subjetividade e perenidade decorrentes da oralidade e a
eventual falta de registo (mas esta desvantagem já não pode ser apresentada enquanto tal,
devido à documentação dos atos praticados oralmente, que anteriormente referimos).

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• Princípio da imediação;

O princípio da imediação significa que a decisão jurisdicional só pode ser proferida por
quem tenha assistido à produção de prova e à discussão da causa entre a acusação e a defesa e
que esta seja proferida o mais rápido possível após o término da audiência de discussão e
julgamento, bem como à necessidade de, na apreciação da matéria probatória, ser dada
preferência aos meios de prova que estejam em relação mais direta com os factos probandos
(os meios imediatos).
O princípio da imediação exige, assim, uma relação de proximidade (física e temporal)
entre os intervenientes processuais e o tribunal, de modo a que este possa ter uma perceção
própria (e autorizada) dos elementos que servirão de base para a fundamentação da decisão
jurisdicional.

• Forma escrita e língua dos atos;

Nos atos processuais tanto escritos como orais utiliza-se a língua portuguesa. Quando
houver de intervir no processo pessoa que não conhecer ou não dominar a língua portuguesa,
é nomeado, sem encargo para ela, intérprete idóneo – ver art. 92.º CPP.
Os atos processuais que tiverem de praticar-se sob a forma escrita são redigidos de modo
perfeitamente legível, não contendo espaços em branco que não sejam inutilizados, nem
entrelinhas, rasuras ou emendas que não sejam ressalvadas – ver art. 94.º CPP.

5 Estrutura do Processo Penal

5.1 Participantes e sujeitos processuais


As pessoas e as entidades que atuam no processo penal chamam-se de um modo
geral participantes processuais. São aquelas pessoas ou entidades que sendo investidas das
mais diversas funções atuam juridicamente no processo.
A estes participantes processuais a quem competem determinados direitos e deveres,
chamam-se sujeitos processuais, e têm-se:
- O Tribuna/O Juiz;
- O Ministério Público, e na sua dependência os órgãos de polícia criminal;
- O arguido e o defensor, ligado ao arguido está sempre o defensor, nunca poderá
haver audiência de julgamento sem a presença do defensor. Poderá excecionalmente,
nalguns casos, haver audiência de julgamento sem a presença do arguido,
nomeadamente nos casos punidos apenas com multa, ou ainda nos acasos do art.
334º/2 CPP. O arguido poderá não estar presente, mas estará sempre o defensor.
- Assistente[2], é o ofendido que, quando quer intervir no processo, adquire essa
qualidade, desde que reúna determinados requisitos. Se o não fizer, está lá o Ministério
Público que defenderá mas se ele quiser também intervir e colaborar no processo,
adquire a qualidade de assistente.
- A Vítima, pessoa que, em consequência de ato ou omissão violadora das leis penais em
vigor, sofreu um atentado à sua integridade física ou mental, um sofrimento de ordem
moral ou uma perda material; o conceito de vítima abrange também a família próxima
ou as pessoas a cargo da vítima direta e as pessoas que tenham sofrido um prejuízo ao
intervirem para prestar assistência às vítimas em situação de carência ou para impedir
a vitimação. Nos crimes públicos a vítima é o ofendido.
- As partes civis, são aquelas pessoas ou entidades que, embora não sofrendo
diretamente com o crime[3] no entanto sofreram danos.

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Tem-se depois aqueles a que se chama simples participantes processuais. São pessoas
que intervêm no processo, mas que de forma alguma vão co-determinar a sua
tramitação. Eles intervêm e com a sua intervenção contribuem para a boa decisão da
causa, são eles:
- As testemunhas;
- Os peritos;
- Os intérpretes.
Quanto aos órgãos de polícia criminal (art. 55º CPP) têm por função coadjuvar as
autoridades judiciárias com vista à realização das finalidades do processo.

5.2 Processo penal como conceito forma de parte


Conceito formal, adjetivo ou processual de parte em processo penal, são aqueles sujeitos
processuais que discutem a causa e esperam do juiz uma apreciação de mérito.
O conceito adjetivo está ligado ao conceito formal de parte, isto é, dois sujeitos: o
acusador e o acusado, que exercem funções formalmente contrapostas. O acusador pretende a
condenação do arguido: o arguido pretende afastar essa mesma condenação.

a) Posição da parte acusadora


O Ministério Público não poderá ser visto como uma verdadeira parte em sentido formal,
isto é, ele não tem como finalidade pura e exclusiva obter a condenação do arguido na medida
em que toda a sua atuação é conduzida sob critérios de estrita objetividade. O Ministério
Público não poderá ser uma verdadeira parte em processo penal, só o seria se ele pudesse
dispor do processo e sempre pretendesse o custo obter uma condenação.

b) Posição do arguido, a parte acusada


O arguido seria parte em processo penal se ele em vez de ter um direito de defesa, tivesse
um dever de defesa, isto é, se o arguido perante uma acusação tivesse obrigatoriamente de se
defender sob pena de se considerarem provados os factos que ele não contestasse. Ele não é
uma verdadeira parte, não tem o dever de se defender, ele tem o direito de se defender.
Do ponto de vista formal não se tem nem uma verdadeira parte acusadora nem uma
verdadeira parte defensora, na medida em que um não tem um dever de defesa, mas apenas
um direito de defesa.
Conceito de parte em sentido material: são titulares de interesses contrapostos que no
processo se discutem e que se encontram concretamente em jogo.

5.3 No Direito Processual Penal português


Não se pode falar em partes processuais no processo penal português. O Ministério
Público e o arguido por um lado, não se encontram ao mesmo nível jurídico e faticamente o
Ministério Público tem todo um aparelho investigatório ao seu dispor.
Na fase do inquérito, o arguido não tem um direito igual ao do Ministério Público. O
Ministério Público vai fazer a investigação exaustivamente, o arguido suporta essa mesma
investigação e inclusivamente não se pode opor a ela. Apenas poderá, depois de ouvido,
carrear provas para o Ministério Público, no sentido de afastar a queixa ou os factos que
eventualmente lhe poderão ser imputados.
Nem o Ministério Público, nem o arguido dispõe do processo.
O processo penal português é um processo sem partes.
É um processo penal basicamente acusatório mas integrado por um princípio de
investigação.

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E é esta característica do processo penal, de se dar ao Tribunal a possibilidade de,
independentemente do concurso das partes em julgamento, de investigar os factos constantes
da acusação e de valorar a prova adquirida e introduzida em julgamento, que confere ao
processo penal a estrutura de um processo sem partes.
Deve-se falar, sim, em sujeitos processuais.

5.4 Estrutura do processo penal comum


- Inquérito;
- Instrução (que é facultativa);
- Julgamento.
O inquérito é uma fase processual da competência do Ministério Público (art. 262º CPP)
e com ele se pretende investigar a existência de um crime, determinar os seus agentes, a
responsabilidade deles, descobrir e recolher as provas. Tudo isto com uma finalidade:
submeter ou não o arguido, ou o suspeito (autor da infração), a julgamento.
Primeiro há que determinar se realmente houve crime, depois, tentar descobrir o agente.
Depois de descoberto o agente, saber a responsabilidade que lhe cabe, saber se se trata de
um indivíduo que agiu com dolo ou se porventura se trata de um inimputável, uma vez isto
feito o Ministério Público deduz acusação (art. 283º CPP). Com a acusação pretende-se
submeter o arguido a julgamento (art. 262º CPP).
Esta acusação é notificada ao arguido. E aqui, entre a decisão de submeter o arguido a
julgamento – que é a acusação – e o julgamento propriamente dito, pode surgir uma fase
intermédia, que é uma fase facultativa – a instrução.
A instrução é presidida, é levada a cabo e é da competência do Juiz de Instrução Criminal.
Vem prevista nos arts. 286º segs. CPP e tem como finalidade comprovar ou não a acusação.

5.5 O Tribunal
É um órgão de soberania, é um órgão independente, que tem como função administrar a
justiça em nome do povo (art. 202º – 110º CRP).
Como característica dos Tribunais tem-se a independência, (art. 203º CRP), os tribunais,
como órgãos de soberania que são, têm que ser independentes.
Independência também perante a organização hierárquica judicial. Isto é, o juiz não está
obrigado a aceitar ordens ou instruções de outros juízes a que deve obediência hierárquica.
Esta hierarquia apenas é relevante em matéria de organização judiciária, o juiz é
independente, não está obrigado a aceitar ordens ou instrução de outros juízes.
Relacionado com esta independência tem-se o carácter inamovível (art. 216º/1 CRP) dos
juízes. Juntamente com a inamovibilidade, tem-se a irresponsabilidade judicial (art. 216º/2
CRP), querendo isto dizer, que os juízes não respondem pelos seus julgamentos, pelas suas
decisões.
A lei processual penal criou um sistema de suspeições que têm como finalidade garantir
imparcialidade das decisões judiciais e defender o próprio juiz contra a suspeita de não ser
imparcial na sua decisão.
Os impedimentos traduzem-se na impossibilidade que o próprio juiz declara de participar
num processo, invocando qualquer das situações previstas no art. 39º CPP.
Depois temos as situações de recusas e escusas do art. 43.º CPP. Aí o arguido, o
Ministério Público, ou o assistente podem levantar a suspeita e requerer que aquele juiz seja
retirado do processo.
Portanto:

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- Impedimento (art. 39º CPP) é o próprio juiz que declara estar impedido de participar
de acordo com as situações nele constantes;
- Escusa ou recusa (art. 43º CPP), é a suspeição que qualquer sujeito processual (até
mesmo o próprio juiz) tem de ter daquele juiz para participar no processo. Quando for
solicitado ao tribunal competente pelo próprio juiz o mesmo pode ser escusado. O MP,
o arguido, o assistente ou as partes civis podem requerer a sua recusa.

5.5.1 Princípio do juiz natural


Os cidadãos têm direito de exigirem que uma determinada causa seja julgada pelo
Tribunal previsto como competente por lei anterior ao conhecimento da infração, e não por
um Tribunal que seja especialmente criado para o julgar.
Os Tribunais têm competência para julgar todo e qualquer tipo de crime, com a exceção
dos Tribunais militares. Todos têm direito a ser julgados por um Tribunal que já existe no
momento do cometimento da infração, com isto se prevê o princípio do juiz natural. Com este
princípio, pretende-se salvaguardar os direitos da pessoa.
Está diretamente ligado a este princípio de Direito Penal “nullum crimen sine
legem”, nenhuma prática de determinado facto pode ser considerado crime se não for
previsto na lei como tal.

5.5.2 Consequências do princípio do juiz natural


Só a lei pode instituir o Tribunal e fixar-lhe a competência, a fixação do Tribunal e da sua
competência tem que ser feita por uma lei vigente ao tempo da prática do facto, princípio da
irretroatividade.
Outra consequência é a proibição do desaforamento de qualquer causa, isto é, um
Tribunal é competente para julgar uma causa e essa causa não lhe pode ser retirada.
Outra consequência é a proibição da suspensão discricionária de qualquer autoridade,
nenhuma autoridade poderá, proibir o Tribunal de continuar a apreciar determinada causa.

5.5.3 Competência do Tribunal


Quanto à competência do Tribunal no exercício da sua jurisdição, define-se
a competência, como o âmbito de atuação de cada Tribunal, o que ele abrange na sua
atuação, qual a jurisdição que ele abrange. Isto é, a atuação de cada Tribunal de forma, a que
cada caso penal concreto seja julgado, seja deferido a sua apreciação a um único Tribunal (e
não a vários).
a) Competência material: define o Tribunal que segundo a sua espécie é competente
para julgar um determinado crime, ou para julgar determinadas pessoas (art. 10º segs.
CPP);
b) Competência funcional: atende-se, em face do desenvolvimento do processo, à fase
em que ele se encontra, assim:
· Para a instrução, é competente o Tribunal de Instrução Criminal;
· Para o julgamento, é competente o Tribunal de 1ª Instância (é a regra);
· Para a fase de recurso, será competente o Tribunal da Relação ou o Supremo
Tribunal de Justiça.
c) Competência territorial: define qual o Tribunal, de entre vários da mesma espécie,
que é competente para julgar uma determinada causa, atento o local onde foi cometido
o crime – arts. 19º segs. CPP.

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5.5.4 Conexão
Define-se conexão como a relação que intercede entre vários processos pendentes que se
encontrem na mesma fase, ou se vão instaurar, relação essa que poderá levar à unificação ou
apensação dos vários processos, sem que seja de atender às normas sobre a competência
material ou territorial[6]. Nunca há conexão em relação a processos que se encontrem em
fases distintas: se um se encontra na fase de instrução e outro na fase de inquérito, não é
possível haver conexão; se um se encontra na fase de instrução e outro em fase de
julgamento, também não; se um se encontra na fase de julgamento e outro na fase de recurso,
também não. Portanto, só não se atende à competência material ou territorial do Tribunal.
Para haver conexão (arts. 24º segs. CPP), torna-se necessário:
- Que o mesmo agente tenha cometido vários crimes;
- Que o mesmo crime tenha sido cometido por vários agentes em comparticipação; ou
- Que vários agentes tenham cometido diversos crimes em comparticipação;
- E destinando-se uns a continuar ou a ocultar os outros.

5.5.5 Requisitos para a existência da conexão


Tem de haver dois ou mais Tribunais competentes para julgar o caso.
Tem que haver dois ou mais processos distintos, quer sejam distintos sobre o ponto de
vista formal, quer mesmo quanto ao objeto específico[7].
Tem de haver derrogação da regra geral da competência do Tribunal, isto é, um dos
Tribunais tem de ceder em relação ao outro: ele é competente porque o crime foi cometido na
sua área, ou é competente materialmente porque é o Tribunal coletivo ou porque é o Tribunal
singular que deve julgar aquele crime, mas outro é também competente. Há uma derrogação
da competência de um dos Tribunais.
Os processos têm que se encontrar todos na mesma fase – inquérito, julgamento ou
instrução. No recurso não há conexão.

5.6 Ministério Público


É característico de um sistema acusatório a existência de uma identidade investigadora e
acusadora e de uma entidade julgadora.
Com a criação do Ministério Público visa-se obter a estrutura acusatória do processo
penal, na medida em que se obtém (ou pretende obter-se) a separação entre a entidade a quem
compete presidir e dirigir o inquérito e elabora a acusação.
O inquérito, tem como finalidade investigar a existência de um crime, determinar quem
foram os seus agentes e a responsabilidade que lhes cabe. Findo o inquérito, cabe ao
Ministério Público, sempre que existirem indícios suficientes da prática de um crime e
determinados que sejam os seus agentes, deduzir acusação.
Portanto, compete ao Ministério Público não só a promoção do processo e a direcção do
inquérito, como também elaborar a acusação, tem-se aqui uma entidade investigadora e
acusadora.
Entre o Ministério Público e o Tribunal há uma separação funcional e institucional. No
entanto, estão estritamente correlacionadas.
A atuação do Ministério Público no processo penal não se deixa conduzir por critérios de
discricionariedade e oportunidade, como é característico da administração pública, mas antes
segundo critérios de objetividade e em obediência estrita ao princípio da legalidade.
O Ministério Público é um órgão autónomo da administração da justiça, exerce as suas
atividades independentemente, não está vinculado a qualquer poder, exerce a sua atividade de
forma autónoma (art. 53º CPP).

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Critérios de estrita objetividade
Compete ao Ministério Público investigar e trazer para o processo tudo o que possa
demonstrar a culpabilidade do arguido, mas também lhe compete carrear para o processo
todos os indícios que possam conduzir à minoração da pena do arguido, ou inclusivamente à
prova da sua inocência.
O Ministério Público deve ser isento, imparcial na sua investigação e na dedução da
acusação. Daí que se aplique também ao Ministério Público todo o sistema de impedimento e
suspeições relativo aos juízes (arts. 39º/43º/54.º CPP). Mas o pedido de escusa não é feito ao
Tribunal, mas ao seu superior hierárquico.

5.6.1 Estrutura (Estatuto do Ministério Público, Lei n.º 68/19, de 27/08)


A estrutura do Ministério Público constitui uma magistratura orgânica e estruturalmente
dependente, inamovível, responsável e hierarquicamente organizada e subordinada. Os
magistrados do Ministério Público são responsáveis disciplinar e criminalmente. Se o
Ministério Público não promover o processo a sua conduta poderá ser sancionada em termos
penais e certamente o será em termos disciplinares. Encontra-se hierarquicamente organizado.
O Ministério Público exerce funções junto dos tribunais, sendo assim, a sua área de jurisdição
está subordinada à área de jurisdição dos Tribunais.
A propósito do inquérito, tem competência para o promover o Ministério Público que
exerce funções junto do Tribunal da área onde foi cometido o crime. Donde pode surgir
conflitos de competência, vale para aqui o mesmo relativo aos Tribunais, nomeadamente
quanto à competência por conexão.
O crime é cometido num determinado local: será competente o delegado do Ministério
Público que exerce funções junto do Tribunal da área onde o crime foi cometido.

5.6.2. Legitimidade
O art. 50º CPP, relativamente a crimes particulares, em que é necessário haver queixa do
ofendido e constituição de assistente.
Quanto aos crimes semi-públicos, o Ministério Público só promove o processo quando
há uma queixa do ofendido ou das pessoas que tenham legitimidade para se queixar (art. 49º
CPP).
Ao Ministério Público não compete definir o direito ao caso, porque é uma atividade
própria dos Tribunais. No entanto, as funções exercidas pelo Ministério Público verifica-se
que em determinados casos ele quase que tem funções jurisdicionais.
A lei processual penal fala indiferentemente em denúncia, queixa, e em participação.
Entende-se que entre estes conceitos haverá alguma diferença.
a) A queixa
Refere-se essencialmente a crimes particulares e a crimes semi-públicos.
Têm legitimidade para a fazer os ofendidos ou as pessoas a quem a lei confere
legitimidade para tal.
A queixa refere-se ao crime pelo qual não se pode promover oficiosamente o processo
penal. É o ofendido que dá a notícia do crime ao Ministério Público. A partir desse momento
ele tem legitimidade para promover o processo.
b) A denúncia
Entende-se que se refere aos crimes públicos (art. 242.º e art. 244.º CPP). Tem
legitimidade para a fazer obrigatoriamente os órgãos de polícia criminal e as autoridades
judiciárias e ainda qualquer pessoa que tenha a faculdade de denunciar um crime.

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c) A participação
É mais um ato administrativo, ou um ato do Governo, através do qual se vai transmitir ao
Ministério Público a notícia dum crime ocorrido no exercício das funções ou por causa delas
(art. 242º/1-b CPP).
A denúncia, a queixa e a participação podem ser feitas oralmente. Serão depois reduzidas
a escrito pelas entidades competentes, dando com isso origem aos autos de denúncia – art.
246.º

5.7. Inquérito
A seguir à receção das queixas, denúncias e/ou participações, compete ao Ministério
Público dirigir o inquérito (art. 53º/2-b CPP).
Vem definido no art. 262º CPP, e constitui um conjunto de diligências levadas a cabo pelo
Ministério Público, ou por ele delegadas nos órgãos de polícia criminal, que têm a finalidade
investigar a prática de um crime[9], de determinar os seus agentes[10] e a responsabilidade que
lhes cabe para que, apurado tudo isto, se decida se deve ou não deve submeter-se o autor da
infração a julgamento.
Os atos de inquérito vêm regulados nos arts. 267º segs. CPP. Com o encerramento do
inquérito o Ministério Público pode tomar uma de quatro posições:
- Deduz acusação;
- Arquiva o inquérito;
- Suspende provisoriamente o processo;
- Arquivamento em caso de dispensa de pena.

5.7.1 Arquivamento do Inquérito


No arquivamento do Inquérito, a que se referem os arts. 277º e 280º CPP, pode-se falar
em dois tipos de arquivamento:
1) Arquivamento por falta de indícios suficientes da prática do crime ou pela não
determinação de quem foram o (s) agente (s) (art. 277º CPP);
2) Arquivamento porque se verifica uma situação dispensa de pena (art. 280º CPP). Os
casos de dispensa de pena são aqueles em que o arguido confessa o crime, colabora
com a justiça e a lei prevê que ele seja dispensado de pena. E em relação a ele o
processo é arquivado. Nesta situação exige-se a concordância do Juiz de Instrução
Criminal (art. 280º CPP).

Arquivando o Inquérito pode acontecer duas situações:


1) Ou a pessoa que se queixou – o ofendido – (a pessoa cujos interesses foram violados)
– se constitui assistente e requer a abertura da instrução criminal no prazo de vinte dias
após a notificação do arquivamento, conforme se prevê no art. 287º CPP;
2) Ou não há requerimento para a abertura da instrução criminal, os autos seguem para o
superior hierárquico do Ministério Público e este tem vinte dias, a contar da data em
que a abertura da instrução já não poder ser requerida, para se pronunciar, podendo
dizer ao seu subordinado que prossiga as investigações, ou que deduza a acusação. A
isto se refere o art. 278º CPP.

5.7.2 Acusação
O Ministério Público, através de indícios que o levam a convencer-se de que a pessoa
teria cometido o crime. Não precisa de ter uma certeza, basta que haja indícios, passar-se-á

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eventualmente à fase seguinte ao inquérito – a fase do julgamento – em que se produzirão
provas e examinarão todas as provas.
E então, submete o arguido a julgamento, isto é, deduz contra ele, uma acusação.
O Ministério Público convence-se de que o arguido cometeu o crime. E mesmo que ele
tenha dúvidas quanto à prática desse crime, como aqui não poderá funcionar por analogia o
princípio in dubio pro reo, então ele deve acusar. É isso que lhe é imposto pelo princípio da
legalidade (art. 283º CPP).
É esta possibilidade razoável que forma a convicção do Ministério Público quanto à
suficiência dos elementos que recolheu para submeter o arguido a julgamento.
Em conclusão, os indícios serão suficientes quando o Ministério Público conclui que os
elementos de prova já recolhidos por si ou conjuntamente com outros que depois advenham
ao processo, numa fase posterior, possam conduzir à aplicação ao arguido de uma pena ou de
uma medida de segurança.

5.7.3 Conteúdo da acusação


Tem de haver a identificação do arguido.
Após a identificação, vem a narração dos factos que são imputados ao arguido.
A seguir, vêm as disposições legais aplicáveis; aliás, constitui uma nulidade a sua não
inclusão.
Depois, vem a indicação da prova, remetendo então para os autos; indica-se também a
prova testemunhal.
Finalmente, coloca-se a data e assina-se.
A tomar a posição de “atendendo ao comportamento anterior do arguido, não lhe deve
ser aplicada uma pena de prisão superior a três anos”, o Ministério Público está desde logo
a determinar a competência do tribunal, dizendo que aquele caso será julgado pelo tribunal
singular e não pelo tribunal coletivo, como aconteceria se ele nada dissesse.
A acusação é notificada ao arguido, ao assistente se já o houver e também ao denunciante
(art. 283º/5 e 277º/3 CPP), sendo como refere estes artigos para crimes públicos e semi-
públicos. Nos crimes particulares não tem aplicação o art. 277º/3 CPP, quanto ao assistente,
porque quem deduz acusação é o próprio assistente.
A notificação que é feita ao arguido é uma notificação penal.
A lei processual penal não fala em citação: fala na notificação que reveste no entanto as
características de uma verdadeira citação:
- Ou o arguido é chamado ao tribunal e é notificado diretamente da acusação, se ainda
não foi constituído como tal;
- Ou então já está constituído como arguido no processo.
Ao assistente cabe recorrer (interpor recurso), requerer a abertura de instrução, etc. Ora,
não é qualquer indivíduo que pode praticar esses atos. Tem de estar assessorado por um
advogado, por um técnico inserido nos meios de justiça. Daí que se lhe exija que ele esteja
representado por um advogado.
A partir do momento em que se encontrem preenchidos estes requisitos, o juiz admite-o
como assistente: ele adquiriu a qualidade de sujeito processual.
O ofendido/vítima e o assistente são a mesma pessoa, em momentos diferentes e com
qualidades diferentes.
No entanto tratando-se de crime particular, o indivíduo tem de declarar que se vai
constituir assistente. Isto faz com que a queixa siga logo para o Ministério Público (art. 246º/4
CPP).

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Uma vez constituído como assistente, o Ministério Público inicia o inquérito. Chegando
ao fim do inquérito, há que deduzir a acusação. Quem vai acusar em primeiro lugar é o
assistente (art. 285º/1 CPP).
O assistente vai dirigir a acusação ao Tribunal. Pois, não pode ser ao Ministério Público,
porque foi ele que fez o inquérito; já terminou as suas funções, não tem competência para
apreciar a acusação.
O objetivo da acusação é submeter o arguido a julgamento. Portanto, a acusação é
dirigida ao Tribunal. A acusação segue os mesmos termos que a acusação feita pelo
Ministério Público.

5.7.4 Suspensão provisória do processo


Pode acontecer que o Ministério Público tenha recolhido indícios suficientes da prática do
crime mas, atendendo a determinadas circunstâncias, lhe seja permitido não deduzir acusação,
lhe seja permitido decidir-se por outra forma diferente da acusação.
Então:
· Se durante o inquérito tiverem sido recolhidos indícios suficientes da prática do
crime;
· Se o crime abstratamente for punível com pena não superior a 5 anos;
· Se se tratar de um delinquente primário, desde que haja uma culpa diminuta.
· E depois, desde que haja concordância do arguido, do assistente e também do Juiz de
Instrução Criminal.
A lei, no art. 281º CPP, permite ao Ministério Público que, em vez da acusação, se decida
pela suspensão provisória do processo, mediante a imposição ao arguido de injunções e regras
de conduta.
Se as injunções e as regras de conduta que são oponíveis ao arguido, contêm limitações
aos seus direitos, então exige-se a concordância Juiz de Instrução Criminal.
Estas regras de conduta (art. 281º/2 CPP), não se mantêm indefinidamente. Estão
condicionadas a um certo tempo, num prazo máximo de 2 anos. Por isso, fala-se em
suspensão provisória do processo: o processo parou, suspendeu-se, para ver se o arguido
cumpre aquilo que lhe foi imposto.
Mas, se o arguido não cumprir com as regras que lhe foram impostas pelo art. 281º/2
CPP, então volta-se ao momento em que o processo se suspendeu: há indícios suficientes,
então necessariamente tem de se seguir a acusação – o Ministério Público vai deduzir a
acusação.
A suspensão provisória do processo, sendo uma decisão que cabe ao Ministério Público,
apenas pode ter lugar nos crimes públicos e semi-públicos, nunca nos crimes particulares. Aí
a decisão compete ao assistente, ao particular, e ele não tem poderes para propor a suspensão
provisória do processo.

5.8 Instrução
A instrução, não é um novo inquérito, mas tão-só um momento processual de
comprovação.
Trata-se de uma fase dotada de uma audiência rápida e informal, mas oral e contraditória,
destinada a comprovar judicialmente a decisão do Ministério Público de acusar ou de não
acusar, e que portanto termina por um despacho de pronúncia ou de não pronúncia.
É óbvio, por outro lado, que, tratando-se já de uma fase judicial, a sua estrutura
eminentemente acusatória deverá apresentar-se integrada pelo princípio da investigação; não
terá por isso o Juiz de Instrução Criminal de limitar-se, em vista da pronúncia, ao material

21
probatório que lhe seja apresentado pela acusação e pela defesa, mas deve antes – se para
tanto achar razão – instruir autonomamente o facto em apreciação com a colaboração dos
órgãos de polícia criminal.
Tem como finalidade, comprovar judicialmente a decisão de deduzir a acusação ou de
arquivar o inquérito com o fim último de submeter ou não o arguido a julgamento sendo a sua
natureza facultativa (art. 286º/2 CPP).

5.8.1 Legitimidade
Têm legitimidade para requerer a abertura da instrução o arguido ou assistente, nunca o
Ministério Público.
a) O arguido (art. 287º/1-a CPP)
Tem legitimidade para requerer a abertura da instrução em caso de acusação: ou de
acusação formulada, pelo Ministério Público ou acusação formulada pelo particular que se
constitui assistente.
O arguido vai requerer ao juiz que examine novamente os autos do inquérito, porque ele
discorda da atitude do Ministério Público ou do assistente. Entende que os elementos de
prova que constam do processo não são relevantes de forma a preverem que ele seja
condenado, ou que lhe possa ser aplicada uma pena ou medida de segurança.

b) O assistente (art. 287º/1-b CPP)


Pode requerer a abertura da instrução em caso de arquivamento do inquérito nos termos
do art. 277º CPP; ou por factos pelos quais o Ministério Público não tiver deduzido acusação.
Mas, tal como o Ministério Público não pode requerer a abertura da instrução, também,
nos crimes particulares, o assistente não pode requerer a abertura da instrução.
Portanto, uma vez requerida a abertura da instrução pelo arguido ou pelo assistente, o juiz
pratica os designados atos de instrução: vai fazer novas diligências, vai ouvir novamente as
testemunhas, eventualmente vai requerer exames.

5.8.2 Debate instrutório


É uma audiência em que o juiz vai expor sumariamente o que é que se pretende atingir
com o requerimento para a abertura da instrução: vai expor as diligências que fez, e depois
pergunta a cada um dos sujeitos processuais se tem mais provas para apresentar naquele ato.
Findo o debate, é dada a palavra a cada um dos sujeitos processuais, para que tirem as
suas conclusões.
A instrução termina com a decisão do juiz, proferindo um despacho de pronúncia ou
despacho de não pronúncia (art. 308º CPP).
O juiz pronúncia, o arguido, pelos factos respetivos, que são os descritos na acusação ou
no requerimento para a abertura da instrução e através deste despacho vai-se submeter o
arguido a julgamento.
Caso contrário, se durante a instrução o juiz atender que não foram trazidos aos autos
elementos suficientes para modificar a decisão do Ministério Público, então o juiz profere
um despacho de não pronúncia, isto é, mantém a não submissão do arguido a julgamento.
Se o arguido vai ser submetido a julgamento, vai ter a possibilidade de se defender. Como
não se está a limitar nenhum direito, o despacho de pronúncia é irrecorrível (art. 310.º/400º/1-
g CPP).

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Mas já é possível recurso quando seja um despacho de não pronúncia (art. 310º CPP).
Uma vez que o assistente vê desde logo afastada a possibilidade de ver a sua posição ser
apreciada por um Tribunal, então pode recorrer do despacho.
O princípio do acusatório impede que seja o juiz a tomar a iniciativa de alterar a
acusação; por isso, se entender que se provam indiciariamente factos que alterem
substancialmente os da acusação, limitar-se-á a não receber a que foi deduzida, proferindo
despacho de não pronúncia e comunicando ao Ministério Público os factos para que, quanto a
eles, abra inquérito.
Mas se Juiz de Instrução Criminal vier a pronunciar o arguido por outros crimes, ou venha
agravar o crime cometido, estar-se-á numa situação de alteração substancial dos factos
descritos na acusação e então essa decisão era nula (art. 309º CPP).

5.9 O arguido
Sujeito processual essencial para o processo, de tal maneira que se não houver arguido
não há acusação, não pode haver julgamento.
O condenado é a pessoa contra quem já foi proferida uma sentença de condenação.
O suspeito, será toda a pessoa relativamente à qual exista um indício (não muito forte) de
que praticou um crime, ou se prepara para cometer um crime, ou nele participou ou se prepara
para participar.
O arguido, será a pessoa singular contra quem foi deduzida acusação, contra quem foi
requerida a abertura da instrução penal ou que veio a ser constituída como tal nos autos.
Com a notificação da acusação a pessoa, ao tomar conhecimento, assume a qualidade
de arguido.
Tem-se de distinguir:
· Por um lado a assunção da qualidade de arguido;
· Por outro lado, a constituição dessa pessoa como arguido (art. 58º CPP).
A partir do momento da comunicação (art. 58º/2 CPP), adquire-se a qualidade de sujeito
processual. Se faltar essa comunicação, oral ou escrita, as consequências são desde logo que
tudo quanto o arguido disse até esse momento não pode ser usado contra ele. Ou seja, se ele
confessou o crime, se disse como o preparou, o que fez, etc., tudo isso é como que apagado,
não pode ser usado contra ele (art. 58º/5 CPP).
As outras formas de constituição da qualidade de arguido encontram-se enumeradas nos
arts. 57º e 59º CPP.
Quando uma pessoa formula o pedido de que se quer constituir arguido (art. 59º/2 CPP),
adquire essa qualidade a partir do momento em que lhe é notificado o despacho que o admite
como tal.
Pretende-se com a constituição de arguido, desde logo dar conhecimento tempestivo à
pessoa de existência de um processo contra ela, e possibilitar-lhe a faculdade de ela ir em
tempo útil preparando a sua defesa.

5.9.1 Estatuto jurídico do arguido


O arguido é um sujeito processual: reconhecem-se-lhe direitos e cabem-lhe também
deveres (art. 61º CPP).
A pessoa deixou de ser um mero objeto do processo e tem todos os direitos, liberdade e
garantias que a Constituição lhe prevê e assegura.
Pretende-se com isso a consagração da verdade material, na medida em que este sujeito
processual goza da proteção do direito.

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Há que notar, que a aquisição – quer por assunção, quer por constituição – da qualidade
de arguido pressupõe a intervenção do Ministério Público.
a) Direitos do arguido:
1) Direito a todas as garantias de defesa, estabelecido no art. 32º/1 CRP.
2) Presunção de inocência até trânsito em julgado da decisão de condenação (art.
32º/2 CRP).
3) Direito a julgamento no mais curto prazo compatível com as garantias de defesa
(art. 32º/12 CRP).
4) Direito à escolha de defensor, a ser por ele assistido em todos os atos do processo
e a comunicar, mesmo em privado, com ele (art. 32º/3 CRP e 61º/1-e) e f) CPP).
Porém enquanto o arguido pode constituir defensor em qualquer altura do processo,
o juiz é obrigado a nomear-lho nos casos em que a lei determina a obrigatoriedade
de assistência do defensor (art. 64º CPP).
5) Direito de estar presente nos atos processuais que diretamente lhe disserem
respeito (art. 32º/7 CRP; art. 61º/1-a CPP). Os atos que dizem respeito ao arguido,
são todos aqueles relativamente aos quais vale em geral o princípio da
contrariedade. Quer-se dar ao arguido a mais ampla possibilidade de tomar
posição, a todo o momento, sobre o material que possa ser feito valer
processualmente contra si, ao mesmo tempo que garantir-lhe uma relação de
imediação com o juiz e com as provas.
6) Direito de audiência pelo Tribunal ou pelo Juiz de Instrução Criminal sempre que
eles devam tomar qualquer decisão que pessoalmente o afete (art. 61º/1-b CPP).
7) Direito de não responder a perguntas feitas relativamente a factos que lhe são
imputados (art. 61º/1-d CPP).
8) Direito de intervir no inquérito e na instrução, oferecendo provas e requerendo
diligências (art. 61º/1-g CPP).
9) Direito à informação dos direitos que lhe assistem (art. 61º/1-h CPP; vide também
arts. 141º/4 e 144º CPP).
10) Outros direitos previstos no artigo 61.º n.º 1 CPP.

b) Deveres processuais do arguido:


1) Dever de comparência perante o juiz, o Ministério Público ou os órgãos de polícia
criminal, sempre que a lei o exija ou que tenha sido para isso devidamente
convocado por alguma dessas entidades (art. 61º/3-a CPP, vide também arts.
116º/2; 208º CPP).
2) Deve de responder com verdade às perguntas feitas sobre a identidade (arts. 61º/3-
b; 141º/3 CPP).
3) Sujeição de diligências de prova e a medidas de coação e de garantia patrimonial
especificadas na lei e ordenadas e efetuadas por entidade competente (art. 61º/3-d
CPP). Estas medidas de coação têm de ser as especificadas na lei, decorrência do
princípio da legalidade, e só devem ser utilizadas quando absolutamente
necessárias (princípio da necessidade), vide arts. 191º segs. CPP.

5.9.2 O defensor
A função do defensor será não só de carrear para os autos tudo quanto seja favorável à
posição do arguido mas também e sobretudo fazer realçar no processo tudo o que for útil de
modo a favorecer a posição do arguido.

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A função do defensor é, conjuntamente com o Tribunal e com o Ministério Público trazer
provas que possam afastar a imputabilidade, ou minorar a pena a aplicar ao arguido, como
também dar realce a essas situações.
O art. 62º CPP, indica quem tem legitimidade para ser defensor. Em princípio deve ser
advogado ou advogado estagiário.
A falta de nomeação de defensor constitui uma mera irregularidade, o Tribunal não
nomeou, ainda está a tempo de o fazer. A falta de assistência, designadamente nos atos em
que é obrigatória a assistência do defensor constitui uma nulidade insanável. Essa nulidade
será invocável a todo o tempo, até ao trânsito em julgado da sentença, obrigando à repetição
de todos os atos que se praticaram a partir daí.

O Código de Processo Penal submete o arguido a três tipos de interrogatório, como ainda
lhe concede uma alegação final no fim da audiência de julgamento, quanto aos
interrogatórios:
- Um interrogatório não judicial, que é feito pelo Ministério Público e eventualmente
pelos órgãos de polícia criminal a quem foram delegadas essas funções (art. 143º
CPP);
- Um interrogatório judicial, que é feito pelo Juiz de Instrução Criminal (art. 141.º);
- Um interrogatório judicial feito pelo juiz de julgamento.
Durante qualquer um dos interrogatórios judiciais só o Tribunal é que pode fazer um
interrogatório direto ao arguido. Os outros sujeitos processuais farão esse interrogatório
através do Tribunal, a não ser que este consinta um interrogatório direto (arts. 141º/6; 345º/2
CPP)

5.10 O assistente
Para se falar em assistente é necessário distinguir:
a) Ofendido: titular de interesses que a lei especialmente quis proteger com a
incriminação, desde que maior de 16 anos (art. 68º/1-a CPP), ou seja, titular dos
interesses que a lei quis especialmente proteger quando formulou a norma penal;
b) A Vítima: é um conceito que vai para além do conceito de ofendido, uma vez que
nele alberga quer as vítimas de um crime público (ofendido), quer as vítimas de
crime semi-público ou particular.
c) Lesado: o titular de um interesse de natureza civil. É a pessoa (singular ou coletiva)
que sofreu danos ocasionados com a prática do crime (art. 74º/1 CPP);
d) Partes civis: são as pessoas (singulares ou coletivas) que por terem legitimidade para
deduzirem (lesados) ou contra eles ser deduzido, em processo penal um pedido de
indemnização de natureza cível derivado da prática de um crime, intervêm ou são
chamadas a intervir no processo, são sujeitos processuais;
f) Assistente: é a pessoa (s) (singular ou coletiva) que, por serem ofendidas ou porque a
lei lhes confere legitimidade para se constituírem como tal (art. 68º/1 CPP),
requereram ao juiz a sua intervenção no processo penal para ai fazerem valer os seus
interesses (de natureza penal e conjuntamente de natureza cível), quer em colaboração
com o Ministério Público (crimes públicos e semi-públicos), quer autonomamente nos
casos previstos na lei (crimes particulares), e que por despacho judicial foram
admitidas como tal. É um sujeito processual.

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5.10.1 Legitimidade
Torna-se necessário que a pessoa tenha mais de 16 anos, que seja titular de um interesse
que a lei penal quis proteger (art. 68º CPP).
Se o ofendido nada fizer, tratando-se de um crime público; ou se apresentar meramente
uma queixa, tratando-se de um crime semi-público, os seus interesses serão defendidos pelo
Ministério Público. Se quiser intervir no processo, então, tem de adquirir a qualidade de
sujeito processual. O ofendido adquire essa qualidade requerendo a constituição como
assistente, isto é, vai pedir ao juiz que o admita a intervir nos autos como sujeito processual,
na qualidade de assistente. O assistente tem de ser representado por advogado (art. 70º CPP).
O ofendido pode requerer a sua constituição como assistente desde o início do processo
até um determinado momento, que difere consoante seja ou não requerida a abertura da
instrução – requisito de tempestividade (art. 68.º n.º 3 CPP):
- Se houver Instrução, é até cinco dias antes da data marcada para o debate
instrutório;
- Não havendo instrução, passando-se logo para a fase de julgamento, então é desde
que o requeira até cinco dias antes do início da audiência de julgamento.
- Nos casos de acusação pelo assistente (art. 284.º CPP), e de abertura de instrução
pelo assistente (art. 287.º n.º 1 b) CPP), nos prazos previstos para a prática destes atos
(art. 68.º n.º 2 b).
- No prazo para interposição do recurso da sentença (art. 68.º n.º 2 c).

a) Requisitos formais:
- É necessário que tenha legitimidade, e para isso tem de ser o ofendido ou alguma
das pessoas a que se refere o art. 68º CPP;
- Tem que fazer um requerimento ao juiz (Juiz de Instrução Criminal, ou juiz de
julgamento, dependendo da fase em que requerer) – art. 68º/2 CPP;
- Tem que fazer esse requerimento em tempo quanto a crimes particulares – 10 dias a
contar da advertência do n.º 4 do artigo 246.º. (art. 68º/2 CPP);
- O art. 70º CPP; faz referência à representação judiciária dos assistentes.

b) Requisitos substanciais:
Não ter existido renúncia à queixa, se houver renúncia, a pessoa não pode depois vir a
constituir-se assistente.
Também não se pode constituir assistente quem tenha comparticipado num crime.
O requerimento é acompanhado da respetiva procuração que constitui o mandatário e é
depois levado à apreciação do juiz para proferir um despacho de admissão ou de
indeferimento.
Se faltar algum dos requisitos enunciados, então o juiz deverá proferir um despacho de
indeferimento.

5.10.2 Posição jurídico-processual do assistente


Nos crimes públicos e semi-públicos, o prosseguimento do processo penal está assegurado
pelo Ministério Público. O assistente pode também participar mas a entidade principal é o
Ministério Público, logo, o assistente apenas intervirá no processo em colaboração com o
Ministério Público, mas será sempre uma atuação subordinada.
É uma atuação (do assistente) subordinada à atividade do Ministério Público, de quem o
assistente é um mero colaborador. Dir-se-á por conseguinte que ele é um sujeito processual
subordinado.

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Há contudo uma exceção, em que se invertem os termos, em que o assistente passa a
sujeito principal e o Ministério Público passa a sujeito subordinado e que decorre dos crimes
particulares.
Nestes, o procedimento criminal só tem lugar se houver queixa, constituição de assistente
e só há julgamento se o assistente acusar (acusação particular). O Ministério Público poderá
acusar depois de o assistente o ter feito (art. 285º CPP).
Direitos do assistente:
- Direito de intervenção no inquérito, oferecendo provas, requerendo diligências;
- Direito de deduzir acusação: quer o art. 69º/2 b) CPP, quer o art. 284º CPP, se
referem à acusação do assistente;
- Pode também interpor recurso (art. 69º/2 c) CPP)
O assistente pode ainda na audiência de julgamento:
- Inquirir as testemunhas, diretamente.
- Inquirir o arguido, através do Tribunal (art. 345º/2 CPP);
- Tem direito de requerer a consulta dos autos (art. 89º/1 CPP).

5.11 A Vítima
Vítima de crime é uma pessoa que, em consequência de ato praticado contra as leis penais
em vigor, sofreu um ataque contra a sua vida, integridade física ou mental, um sofrimento de
ordem emocional ou uma perda material. Consideram-se também vítimas os familiares
próximos ou as pessoas a cargo da vítima direta, bem como as pessoas que tenham sofrido
algum tipo de dano ao intervirem para prestar assistência às vítimas ou para impedir a
vitimação.
A maior parte dos atos que em Portugal são considerados crime estão descritos no Código
Penal, mas há alguns, como por exemplo o tráfico de droga ou a detenção de arma proibida,
que se encontram previstos noutras leis.
No processo-crime, a vítima é quase sempre chamada para participar como testemunha,
pois o conhecimento direto que tem do que aconteceu é muito importante para a descoberta
da verdade.
Mas se a vítima quiser apresentar um pedido de indemnização contra o arguido por causa
dos danos que o crime lhe causou, pode, para além de testemunha, intervir no processo
como parte civil. Enquanto parte civil, a vítima vai apresentar um pedido de indemnização e
respetivas provas dos prejuízos que sofreu.
Se a vítima quiser intervir de forma mais ativa no processo, pode constituir-se como
assistente, apesar de a lei lhe conferir, com este artigo 67.º-A – CPP, o direito de colaborar
com as autoridades policiais ou judiciárias competentes prestando informações e facultando
provas que se revelem necessárias à descoberta da verdade e à boa decisão da causa. O
assistente tem como papel colaborar com o Ministério Público e, ao assumir esse estatuto, a
vítima tem a possibilidade de participar mais ativamente no processo.
O assistente pode, por exemplo, opor-se à suspensão provisória do processo ou participar
ativamente na proposta de decisão das injunções necessárias para a sua aceitação, requerer
diligências que considere necessárias, pedir a abertura da fase de instrução caso não concorde
com a decisão do Ministério Público no final da fase de inquérito, apresentar recurso das
decisões que o afetem, entre outras.
A Lei n.º 130/2015, de 4/09, aprovou o estatuto da vítima, incluindo o da vítima
especialmente vulnerável.

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5.12 As Partes civis – o lesado
O lesado é aquela pessoa que não sofre diretamente o crime, mas por efeito dele sofre
danos (art. 74º CPP).
Lesado deve ser considerada toda a pessoa que, segundo as normas de Direito Civil tenha
sido prejudicada em interesses seus juridicamente protegidos, desta perspetiva se alcançando
um conceito lacto ou extensivo de ofendido, que abrangerá todas as pessoas civilmente
lesadas pela infração penal.
Em suma, dever-se-á considerar lesado, para os efeitos do art. 74º CPP, todo aquele que
perante o Direito Processual Penal tiver legitimidade para formular o pedido de
indemnização.
O lesado, quando só é lesado, porque não é o ofendido, nunca se poderá constituir como
assistente, a lei não lhe confere legitimidade, a não ser que se encontre previsto no art. 68º
CPP.
O assistente tem que estar sempre numa relação direta com o crime; o lesado, apenas
nessa qualidade, nunca se pode constituir assistente. Quando ofendido e lesado se fundam
numa única pessoa então, nesse caso, como ofendido, já poderá constituir-se como assistente.

5.12.1 Posição jurídico-processual das Partes Civis (lesado)


O lesado sofre danos indiretamente com o crime.
Quando a pessoa é só lesada ou mesmo quando é assistente, a indemnização cível só será
atribuída se for requerida. E tem de ser requerida no processo penal.
A figura do lesado está diretamente relacionada com o pedido de indemnização cível.
Mas uma vez que o ofendido é ao mesmo tempo lesado, quando o ofendido se constitui
assistente tem igualmente legitimidade para formular um pedido de indemnização civil.
Quanto a este pedido, diz a lei que ele é deduzido obrigatoriamente no processo penal, a
não ser que a lei, em casos tipificados, permita que seja o Tribunal civil (art. 71º CPP,
exceção do art. 72º CPP).
Que razão levou o legislador a tornar obrigatória a dedução do pedido de indemnização
no processo penal (art. 71º CPP)?
Em princípio, haveria uma economia de tempo, porque o processo penal devia ser mais
rápido.
Uma outra razão é a de que o ofendido economiza dinheiro, porque o processo penal é
mais barato.
Depois, outra razão é o aproveitamento das provas carreadas para o processo pelo
Ministério Público, consagradas com elementos de prova que são produzidos na própria
audiência de julgamento, principalmente as declarações do ofendido.
Uma razão de ordem geral é a prevenção geral da criminalidade.
O princípio da obrigatoriedade da dedução do pedido de indemnização civil em processo
penal apenas é válido em toda a sua plenitude nos crimes públicos, embora com as limitações
do art. 72º/1 CPP.
Para os crimes particulares e para os crimes semi-públicos, vigora o princípio da opção.
Mas opção com estas consequências: é que se o ofendido ou o assistente quiserem optar pelo
processo civil, isso equivale a uma renúncia ao prosseguimento do processo penal.
O pedido de indemnização é de natureza exclusivamente civil. Não há indemnizações de
ordem penal.
Vigora o princípio da necessidade, na medida em que o pedido de indemnização é
deduzido pelo lesado (art. 74º CPP). Quer isto dizer que só haverá atribuição de uma
indemnização se a mesmo for requerida.

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5.12.2 Legitimidade para intervir no pedido de indemnização
Do lado passivo, tem-se duas pessoas:
- O arguido, o infrator contra quem é imputada a prática de um crime: ele será
responsável pelo pagamento da indemnização;
- Pode haver também um responsável meramente civil, que é a pessoa singular ou
coletiva que está obrigada ao ressarcimento do dano que é ocasionado pelo crime - O
responsável meramente civil poderá ser demandado ou poderá ele próprio fazer a sua
intervenção porque, nomeadamente se houver um direito de regresso contra o arguido,
tem interesse em discutir se houve ou não houve causas de exclusão da sua
responsabilidade.
Quanto à legitimidade ativa, essencialmente pertence ao lesado. O lesado, se quer intervir
no processo, se quer formular um pedido de indemnização, faz-se representar por advogado
(art. 76º/1 CPP) ou então é representado pelo Ministério Público (art. 76.º/3). Mas poderá
pertencer também a uma parte civil. Neste conceito cabem não só as pessoas singulares, como
também as pessoas coletivas.
A posição do lesado no processo restringe-se ao exercício dos poderes de sustentação e da
prova em matéria cível quanto ao pedido de indemnização.
O lesado pode exercer o seu direito, a partir da sua intervenção no processo, ou a partir do
momento em que as autoridades judiciárias lhe comuniquem esses direitos.
É-lhe comunicado esses direitos quando, num processo penal o Ministério Público ou o
juiz se aperceber que há alguém que foi afetado pela prática do crime, isto é, que sofreu danos
ocasionados pelo crime, deve notificá-lo e informá-lo de que tem um direito a ser
indemnizado pelos prejuízos sofridos (art. 75º CPP) – dever de informação.
O arguido pode contestar o pedido de indemnização. Daqui, não decorre nenhuma
consequência, na medida em que a falta de contestação não implica a condenação no pedido
de indemnização.

5.12.3 Natureza do pedido de indemnização civil


O pedido de indemnização cível é exclusivamente civil. O que se pretende é obter uma
compensação, um ressarcimento pelos danos sofridos, com a aplicação das normas de Direito
Civil substantivo, no que respeita à formulação e à atribuição dessa indemnização.
Também, a decisão penal que conhecer do pedido de indemnização civil constitui caso
julgado, isto é, não se pode formular o pedido de indemnização no processo penal e depois,
porque se ficou insatisfeito, formular novo pedido no Tribunal civil - forma-se caso julgado
mesmo no que diz respeito à matéria civil em processo penal.·
É obrigatório a formulação do pedido de indemnização no processo penal, quando isso
não acontecer, o Tribunal não conhece desse pedido.

5.12.4 Formulação do pedido de indemnização


Rege esta matéria o art. 77º CPP. Neste artigo tem-se que ter bem presente quem formula
o pedido de indemnização: se é o Ministério Público, se é o assistente, ou se é o lesado.
Quando formulado pelo Ministério Público o pedido de indemnização é deduzido na
acusação.
Isto quer dizer que o lesado deve fornecer ao Ministério Público os elementos de facto
que fundamentam o seu pedido antes do termo do inquérito, isto é, antes do Ministério
Público formular a acusação.

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Quando formulado pelo assistente o pedido de indemnização é deduzido na acusação ou
no prazo em que esta deva ser formulada. Em dez dias, após a notificação da acusação do
Ministério Público, o assistente pode também deduzir acusação (art. 284º CPP).
Esta alternativa, aplica-se aos crimes públicos e semi-públicos, em que o assistente pode
não acusar, pode pura e simplesmente fazer sua a acusação do Ministério Público, ou seja,
pode aderir à acusação do Ministério Público, a formulação do pedido em requerimento
articulado, no prazo em que deva ser deduzida a acusação. (art. 77.º n.º 1)
Significa isto que se o assistente não deduzir acusação então deve, nesses dez dias,
formular o pedido de indemnização, sob pena de o mesmo depois não ser conhecido.
Nos crimes particulares o pedido deve ser formulado na acusação.
Se não houver acusação não há prosseguimento do processo penal nos crimes
particulares, em que é obrigatória a acusação por parte do assistente. Portanto, quando ele
deduz a acusação, formula também o pedido de indemnização, na mesma peça processual.
O art. 77º/2 CPP, refere-se ao pedido de indemnização feito pelo lesado, que intervém no
processo através de advogado – art. 76.º n.º 1 CPP.
Quando à data do despacho de pronúncia ou da data do julgamento ainda não são
conhecidos os danos, então poder-se-á deixar a formulação do pedido para uma execução de
sentença.

6 A PROVA

CONSIDERAÇÕES GERAIS

6.1 Conceito de prova - enquadramento geral


O artigo 341.º do Código Civil dispõe que: «…as provas têm por função a demonstração
da realidade dos factos».
«…o fim da prova é a demonstração da verdade dos factos, ou seja, a justificação sobre a
sua existência, enquanto elas constituem pressupostos da aplicação da lei, formando o
fundamento de facto da sentença, quer absolutória, quer condenatória e determinam a
graduação da responsabilidade»
São nulas todas as provas obtidas mediante tortura, coação, ofensa da integridade física
ou moral da pessoa, abusiva intromissão da vida privada, no domicílio, na correspondência ou
nas telecomunicações (art.º 32/8 da CRP).
Ninguém pode ser submetido a torturas, nem a penas ou tratamentos desumanos ou
degradantes (Convenção Europeia dos Direitos do Homem (C.E.D.H.)).
A recolha de provas tem os seus limites traçados na Constituição e não na lei, com uma
aplicação jurisprudencial concretizada.
Em casos concretos de dúvida não suprível pela urgência, valerá sempre o princípio
aplicável a todas as restrições de direitos fundamentais, ou seja, in dúbio pró libertatis.

6.2 O ónus da prova


Do conceito ónus da prova, parte-se do princípio que toda afirmação precisa de
sustentação, de provas para ser levada em consideração. Se tais provas e argumentos não são
oferecidos, essa afirmação não tem valor argumentativo e deve ser considerada apenas como
um raciocínio lógico.

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O problema surge, muitas vezes, no momento em que se tenta definir a quem cabe o ónus
da prova e é nessa altura que muitas pessoas se confundem. O risco aqui é atribuir esse ónus à
pessoa errada, invertendo assim a lógica do raciocínio e destruindo a sua sustentação.
O ónus da prova tem assento constitucional no artigo 32.º, n.º 2 da CRP: …«todo o
arguido se presume inocente até ao trânsito em julgado da sentença de condenação». Portanto,
não é o arguido que tem de provar os factos que demonstrem a sua inocência, mas é a
acusação que tem de provar os factos de onde resulte a sua culpabilidade.

6.3 Objeto da prova


Constituem objeto de prova nos termos do artigo 124.º, n.º 1: «… todos os factos
juridicamente relevantes para a existência ou inexistência de um crime, a punibilidade ou não
punibilidade do arguido e a determinação da pena ou da medida de segurança aplicáveis»
Estes factos deverão ser delineados em função do objeto do processo. Nessa medida, o
investigador deverá apenas recolher os meios de prova que são juridicamente relevantes, isto
é, que interessam à descoberta da verdade material.
Não carecem de prova os factos notórios, tais como, uma insurreição, uma tempestade
climatérica, entre outros.
A prova indiciária é prova indireta; dela se induz por raciocínio alicerçado em regras de
experiência comum, de ciência ou técnica, o facto probando. Esta prova reside na inferência
do facto conhecido ou provado, para o facto desconhecido ou a provar. Como tal, constitui
uma prova em segundo grau.

6.4 Considerações gerais sobre a prova


A investigação criminal tem como objetivo último a descoberta da verdade material de
factos ocorridos e que se traduz pela reconstituição histórica de eventos passados. Contudo,
não basta investigar e descobrir; é necessário provar, ou seja, demonstrar a identidade entre o
evento ocorrido no passado e a respetiva reconstituição feita no presente. Assim, a verdade
processual não se pode confundir com a verdade dos factos, pois esta pode ser conhecida por
inúmeras formas, muitas delas não admissíveis na dita verdade processual.
O Direito Processual Penal pode ser entendido como o sismógrafo do estado de direito
democrático, evoluindo historicamente por razões de natureza social, cultural e política.
A Constituição da República Portuguesa concilia os princípios éticos jurídicos
fundamentais, aparentemente contraditórios: a defesa da comunidade e o respeito pela
liberdade e dignidade do cidadão. O Código de Processo Penal consagra, por sua, vez os
meios excecionais de investigação, que coartam direitos e garantias individuais, dando-se, em
princípio, prioridade à defesa da sociedade.

6.5 - Breves notas sobre a evolução histórica da prova


Foi com os novos ideais nascidos com a Revolução Francesa, há muito ensaiados pelos
iluministas, que se iniciou a alteração do pensamento jurídico-penal.
Foi com Beccaria, Benthan e outros pensadores do direito, que se desenharam as primeiras
tentativas abolicionistas no que respeita à pena capital. Propõe-se o fim da tortura e das penas
infames. Procura-se a humanização do Direito.
No que respeita às regras da prova, três novos princípios vêm alterar o sistema das provas
legais:
a. O princípio do in dúbio pró réu;
b. O recurso aos meios científicos de prova;

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c. O princípio da livre convicção do juiz ao invés da prova tarifada e da íntima convicção,
ou do intimo convencimento do juiz”.

6.6 Recurso aos meios científicos de prova


Até ao aparecimento dos meios científicos, a prova girava em torno da chamada prova
pessoal ou subjetiva. O acusado, invariavelmente, confessava o crime não sendo necessário
qualquer outro meio de prova para ser condenado.
A evolução do conhecimento científico veio permitir a introdução progressiva da prova
material ou real, apoiada em dados objetivos, conseguidos por intermédio da medicina, da
química e física. São os denominados métodos científicos.
Nos finais do séc. XIX, a fotografia viria igualmente a dar um contributo decisivo à
investigação criminal e foi nessa altura que se começaram a resolver diversas dificuldades até
então insolúveis, com o contributo multidisciplinar de várias ciências, técnicas e saberes.
Passaram a ser utilizados métodos de identificação (desenvolvimento da lofoscopia,
criminalística e polícia cientifica), poderosos auxiliares da investigação criminal.

6.7 - A legalidade da prova


O legislador consagrou o sistema da admissibilidade de qualquer meio de prova, fazendo
apenas exclusão daqueles meios considerados proibidos, consignados no artigo 126.º.
Da conjugação dos artigos 125.ºe 126.º, pode-se concluir que não são só os meios de
prova tipificados pela lei que são admitidos mas, pelo contrário, todos aqueles que não forem
proibidos, mesmo que sejam atípicos.

6.8 - Métodos proibidos de prova


Os artigos 32.º, n.º 8 da CRP e 126.º do CPP, fixam e regulamentam o que consideram
métodos proibidos em matéria de prova. Em causa está a dignidade da pessoa humana, no
todo da sua personalidade (integridade física e moral). «As proibições de prova são
verdadeiros limites à descoberta da verdade, barreiras colocadas à determinação dos factos
que constituem objeto do processo”.
A consagração de um regime de proibições de prova resulta, entre outras coisas, do
fracasso dos processos de matriz inquisitória, que padecia de diversas limitações,
designadamente ao nível da credibilidade das provas obtidas.
Com o advento do Estado de Direito, passou a incidir sobre o estado, a exigência de que
este conduzisse a ação penal sem desrespeitar os direitos, liberdades e garantias, que
constituem o seu núcleo essencial (no fundo, sem desrespeitar a dignidade da pessoa
humana). Ou seja, foi incorporado, no sistema processual penal, o princípio de que a justiça
não pode ser alheia ao processo onde é gerada.
Ora, para manter a superioridade ética que este novo paradigma exigia da ação penal, o
estado ficou impedido de combater o crime através do cometimento de outros crimes. Foi
precisamente como expressão desta conceção, que as proibições de prova foram introduzidas
no nosso ordenamento jurídico, como garantias incontornáveis de que a ação penal do estado
não viola a dignidade da pessoa humana.
As proibições de prova têm assento constitucional no n.º 8 do artigo 32.º CRP.
No artigo 126.º, n.º 1 e 2 o legislador enuncia os métodos de prova que considera
proibidos em termos absolutos. Os métodos proibidos de prova incluem, por sua vez, os
meios de prova e os meios de obtenção de prova, designadamente:
1. Proibição de utilização das provas obtidas mediante tortura:

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Para se densificar o conceito de tortura, devemos recorrer ao n.º 3 do artigo 243.º do
Código Penal, nos termos do qual tipifica como tortura: «…o tratamento cruel, degradante ou
desumano, o ato que consista em infligir sofrimento físico ou psicológico agudo, cansaço
físico ou psicológico grave ou no emprego de produtos químicos, drogas ou outros meios,
naturais ou artificiais, com intenção de perturbar a capacidade de determinação ou a livre
manifestação de vontade da vítima».
Também o artigo 1.º da Convenção contra a Tortura e outros Tratamentos ou Penas
Cruéis, Desumanos ou Degradantes.
2. As proibições de utilização das provas obtidas mediante coação (artigo 154.º do
Código Penal);
3. Densificação do conceito de ofensivas à integridade física ou moral.
A utilização de polígrafos e de técnicas de narcoanálise também são consideradas
impeditivas do domínio da vontade (em virtude de conduzirem uma exposição aos
pensamentos do examinando que não é medida pelo consciente deste), devendo apenas ser
admitido (de acordo com Costa Andrade e Quirino Soares) em benefício do arguido.
4. «…a força» constitucionalmente tolerável será apenas aquela que seja necessária para
neutralizar a resistência do sujeito e assegurar o cumprimento dos deveres a que está
obrigado».
A concretização do conceito de ofensa à integridade física ou moral das pessoas,
constante do n.º2 do artigo 126.º do CPP, não pode deixar de ser considerada meramente
exemplificativa, admitindo a proibição de provas que contendam com a integridade física e
moral de formas que não se encontrem expressamente previstas nessa norma;
5. A promessa de vantagem legalmente inadmissível;
A promessa de vantagem legalmente inadmissível poderá ocorrer em situações em que a
confissão é fruto de promessas ou vantagens não previstas na lei e, por isso, inadmissíveis.

6.9 - Proibições de prova relativas e absolutas


Na limitação constitucional consagrada no artigo 32.º, n.º 8, da CRP, o legislador
ordinário foi sensível à maior relevância de alguns direitos constitucionais, em face a outros.
Com efeito, há uma dimensão objetiva de certos direitos individuais, que faz com que estes se
afirmem como valores estruturantes da própria comunidade e que os torna essenciais à
sobrevivência do próprio estado de Direito.
A circunstância de a própria comunidade reconhecer a importância do respeito de certos
direitos faz com que não se atribua relevo ao consentimento do respetivo titular, pois isso
implicaria atribuir ao indivíduo a capacidade para alterar, unilateralmente, princípios
essenciais da sociedade e do estado. São os casos das proibições absolutas, previstas nos n.ºs
1 e 2 do artigo 126.º.
Por sua vez, as situações descritas no n.º 3 do artigo 126.º, o consentimento afasta a
ofensa aos direitos constitucionalmente consagrados, sendo designadas pela doutrina e
jurisprudência como proibições relativas.
O artigo 126.º, n.º 3, refere «…não podendo ser utilizadas…», deixando de fazer sentido
as dúvidas existentes, quanto ao regime de proibição de prova declarada neste n.º 3 do artigo
em questão. O legislador quis assim deixar claro que as provas obtidas mediante intromissão
da vida privada, no domicílio, na correspondência ou nas telecomunicações, sem o
consentimento do respetivo titular, seguem o regime da proibição de prova absoluta.

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6.10 O consentimento
Para que estejamos perante um consentimento válido, no que concerne ao n.º3 do artigo
126.º do CPP, este deve:
a. Ser dado pelo efetivo titular do direito e não da pessoa que tiver disponibilidade sobre
ele;
b. Dizer respeito a direitos disponíveis (como o direito à não intromissão na vida privada,
no domicílio, na correspondência ou nas telecomunicações);

6.11 Regime das proibições de prova


A Jurisprudência dos Tribunais Superiores e do Tribunal Constitucional tem evoluído a
um ritmo significativo, numa tendência marcadamente mais garantista, para maior tutela dos
direitos liberdades e garantias dos cidadãos. Esta evolução é um reflexo da própria evolução
de um Estado de Direito.
Consequentemente, essa evolução obriga a uma permanente atualização de saberes e
métodos no trabalho de investigação e recolha de prova, sob pena dos resultados obtidos
virem a ser inquinados, através de nulidades ou inconstitucionalidades não previstas pelo
investigador. A finalidade da recolha de meios de prova, em sede de inquérito, traduz um
inequívoco programa processual e constitucional orientado para a subsequente sustentação da
prova em julgamento.

6.12 Distinção entre nulidades processuais e proibições de prova


Como se indicia na ressalva feita pelo n.º 3, do artigo 118.º «As disposições do presente
título não prejudicam as normas deste Código relativas a proibições de prova», e pela
inserção sistemática das disposições relativas às nulidades (Título V do Livro II relativo aos
Atos Processuais), bem como às proibições de prova (Título I do Livro III relativo Prova),
através de uma análise atenta do regime das proibições de prova, rapidamente se revela que
estas se encontram sujeitas a um regime diverso do regime das nulidades.
Ao contrário do que sucede com os atos nulos, que produzem efeitos até à declaração da
nulidade, a tutela relativa às proibições de prova foi antecipada, encontrando-se vedada a
própria produção dessas provas e, caso as mesmas tenham, ainda assim, sido produzidas, a
sua valoração e junção ao processo não deverá ser admitida.
Para além da referência genérica a métodos proibidos de prova enumerada no artigo
126.º, existe um elenco de disposições ao longo do Código, que preveem especificamente
outras proibições, nomeadamente:
a. Omissão ou violação de formalidades na constituição de arguido (art.ºs 58.º, n.º
5 e 59.º, n.º 3 CPP);
b. Depoimento de quem se recusou, ou não estava em condições de indicar a
pessoa ou a fonte através das quais tomou conhecimento dos factos (art.º 129.º,
n.º 2);
c. Reconhecimento de pessoa e de objetos feito com a violação das formalidades
(art.ºs 147.º, n.º 7 e 148.º, n.º 3);
d. Intromissão na esfera da vida privada, respetivamente nas conversas havidas
entre o arguido e defensor (art.º 92.º, n.º 5);
e. Proibição de apreensão de correspondência entre arguido e o seu defensor,
salvo se o juiz tiver fundadas razões para crer que aquela constitui objeto ou
elemento de um crime (art.º 179.º, n.º 2);
f. Proibição na valoração da prova que não tenha sido examinada em audiência de
julgamento, para efeitos de formação da convicção do tribunal. (art. 355.º, n.º
1);

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6.13 Livre convicção na apreciação da prova
Como anteriormente já foi salientado, o princípio da livre apreciação da prova (art.
127.º) foi uma das grandes alterações no sistema das provas legais.
A livre apreciação da prova assenta pois nas regras da experiência e da livre convicção
da entidade competente. É na audiência de julgamento que tal princípio assume particular
relevo, tendo sempre presente a motivação ou fundamentação da convicção que dela emerge.
Também os atos decisórios são obrigatoriamente fundamentados (art.º 97.º, n.º 5).
As limitações a este princípio encontram-se nos casos previstos nos artigos 169.º
(documentos autênticos e autenticados) e 163.º (prova pericial).
Importa salientar, por último, que a liberdade do julgador, consagrada na livre apreciação
da prova, não o liberta das provas que se produziram nos autos, pois é com elas que terá que
decidir, não podendo, no entanto, estender essa liberdade até ao ponto de cair no puro arbítrio.

7 OS MEIOS DE PROVA

A PROVA PESSOAL E REAL

7.1 Generalidades
A prova, como demonstração da realidade, distingue-se dos meios de prova ou meios
para atingir essa realidade
Os meios de prova podem ter a sua origem em pessoas ou coisas e por isso a prova é
denominada, respetivamente, de prova pessoal ou subjetiva e prova real ou material.
A prova é pessoal quando resulta de um ato de uma pessoa, como seja o depoimento de
uma testemunha, as declarações do arguido, a acareação, o reconhecimento e a reconstituição
do facto. Na prova pessoal as pessoas relatam factos de que têm conhecimento direto e que
constituem objeto de prova. A prova pessoal consiste, por sua vez, num ato de comunicação
que tem lugar entre um determinado sujeito processual, que transmite a informação, e uma
autoridade judiciária ou órgão de polícia criminal que a recebe.
A prova é real quando resulta da observação de coisas como, por exemplo, um
documento ou um instrumento que serviu para a prática de um crime.
O homem também poderá ser objeto de prova real, quando é tomado como objeto de
observação ou exame como, por exemplo, no exame pericial sobre ferimentos que sofreu em
resultado do crime sobre si praticado.
A prova real resulta assim da observação, análise e interpretação de factos, lugares,
coisas ou pessoas.

7.2 – A Prova Testemunhal


A prova testemunhal é considerada por alguma doutrina como a rainha das provas. Não
obstante ser considerada a prova das provas, a prova testemunhal é muitas vezes falível; ou
porque, propositadamente, a testemunha presta depoimento falso, ou porque a forma como
captou o facto não corresponde à realidade.
Por testemunha pode ser considerada «…toda a pessoa que, não sendo parte na causa
nem seu representante é chamado a dizer o que sabe acerca de todos ou de alguns factos em
litígio»

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Quando se afirma que a testemunha não é parte na causa significa isto dizer que a
testemunha não tem qualquer interesse nos factos em discussão, tendo obrigatoriamente que
ser isenta e imparcial. Acontece porém que na realidade, por situações diversas, nem sempre
isso acontece.

7.3 Objeto e limites do depoimento


O artigo 128.º define qual deve ser o objeto do depoimento e quais os respetivos limites.
De acordo com o artigo, o depoimento fica condicionado aos factos de que a testemunha tem
conhecimento direto e que segundo o disposto no artigo 124.º constituam objeto da prova.
Segundo o artigo 124.º, a testemunha fica, assim, limitada aos factos de que possua
conhecimento direto e que constituam objeto de prova. Ficam assim de fora, porque
proibidos, os depoimentos alicerçados em conclusões, juízos de valor e convicções pessoais
(art. 130.º).
O n.º 2 do artigo 128.º estabelece a possibilidade da inquirição sobre os factos
relacionados com a personalidade, carácter, condições pessoais e conduta anterior do arguido,
a efetuar antes da determinação da pena ou de uma medida de segurança. São as denominadas
testemunhas abonatórias que são ouvidas, em regra, em sede de julgamento.

7.4 Depoimento indireto


Como dispõe o artigo 129º, «se o depoimento resultar do que se ouviu dizer a pessoas
determinadas, o juiz pode chamar estas a depor». Se não o fizer, o depoimento produzido não
pode, naquela parte, servir como meio de prova, salvo se a inquirição das pessoas indicadas
não for possível por morte, anomalia psíquica superveniente, ou impossibilidade de serem
encontradas».

7.5 Vozes públicas e convicções pessoais


O n.º 1 do artigo 130.º estabelece a inadmissibilidade, como depoimento, a reprodução
de vozes e rumores públicos, sendo este normativo um afloramento do artigo 128.º, n.º 1,
quando estabelece que a testemunha apenas pode ser ouvida sobre factos de que possui
conhecimento direto e que constituem objeto de prova. Nestas situações, há uma proibição
absoluta do meio de prova.
Há uma proibição relativa do meio de prova, no que diz respeito à manifestação de meras
convicções pessoais sobre os factos e a sua interpretação, quando se verifique alguma das
circunstâncias previstas no n.º 2, do artigo 130.º.

7.6 Capacidade e dever de testemunhar


O artigo 131.º, n.º 1 consagra a regra de que qualquer pessoa tem o dever de testemunhar
em processo penal, excluindo-se apenas quem se encontre interdito por anomalia psíquica e
os casos previstos nos artigos 133.º (impedimentos) e 134.º (recusa de depoimento) ou ainda
abrangidas por algum tipo de segredo (art.ºs 135.º, 136.º e 137.º)
A autoridade judiciária competente decide sobre a necessidade de submeter a testemunha
a perícia. A perícia é facultativa e depende da existência de uma dúvida razoável sobre a
capacidade da testemunha para realizar o depoimento.
Tratando-se de depoimento de menor de 18 anos em crimes contra a liberdade e
autodeterminação sexual de menores (art. 131.º n.º 3 e art.ºs 171.º e segs. do C.P.), pode haver
lugar a perícia sobre a personalidade.
A recusa de testemunhar, sem justa causa, enquadra o ilícito penal previsto no artigo
360.º n.º 2 do C.P. (falsidade de testemunho, perícia, interpretação ou tradução)

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O legislador proibiu que determinadas pessoas prestem declarações na qualidade de
testemunhas, por entender que, face à qualidade em que surgem no processo, haveria sempre
um interesse na causa pela qual iriam testemunhar (art. 133.º). Por esse motivo, foram
declaradas impedidas de testemunhar.
Por razões diversas, neste caso de natureza familiar, o legislador veio permitir a recusa
do depoimento aos parentes do arguido, designadamente aqueles que se encontram referidos
nas alíneas a) e b) do artigo 134.º CPP. Estas pessoas não estão impedidas de depor, podendo
sim exercer o direito de se recusarem a fazê-lo. A entidade que elabora o auto de inquirição
de testemunha está obrigada, sob pena de nulidade do depoimento, a informar o direito que
lhes assiste.
No caso de testemunha menor de 16 anos, a lei não abre qualquer exceção quando ao
dever de testemunhar (art. 131.º), apesar de nestes casos não existir responsabilidade penal
derivada de uma eventual recusa de depoimento. (art. 19.º do CP).
Nos casos de haver necessidade da audição de menor de 18 anos, a respetiva notificação
deverá ser sempre feita através dos seus legais representantes (pais ou tutores), uma vez que
os menores ainda não têm capacidade jurídica (artigos 122.º e seguintes do Código Civil).

7.7 Direitos e deveres da testemunha


O artigo 132º enumera os seguintes direitos e deveres da testemunha:
a. O dever de comparecer e de se manter disponível até ser desobrigada por quem foi
convocada;
b. O dever de prestar juramento quando ouvida pela autoridade judiciária (art.º 91.º, n. 1
e 3);
c. O dever de responder com verdade;
d. O dever de guardar segredo sobre os elementos do processo que tomar conhecimento,
em consequência da sua audição;
e. O direito à assistência de advogado e em qualquer outro ato processual em que
participar;
f. O direito de indicar o local para efeitos de notificação. Este local poderá ser a
residência civil, profissional ou qualquer outra que a testemunha escolha.
g. O direito a não responder a perguntas quando alegar que das respostas resulta a sua
responsabilidade penal;

7.8 Regras da inquirição


Nos termos do artigo 138.º, o depoimento é um ato pessoal, não podendo ser realizado
através de procurador. De acordo com o princípio da oralidade, previsto no artigo 96.º, a
testemunha tem que prestar as suas declarações de forma oral, podendo, em casos
excecionais, permitir-se que se socorra de apontamentos escritos como adjuvantes de
memória. Quando tal suceda, deverá ficar a constar no auto de inquirição da testemunha.
Em momento prévio ao depoimento, o funcionário que procede à inquirição deve
questionar a testemunha sobre os elementos de identificação, relação de parentesco, interesse
com os outros intervenientes no processo ou circunstâncias de relevo para avaliar a
credibilidade do depoimento.
Às testemunhas não podem ser feitas perguntas sugestivas, entendendo-se estas como as
que sugerem a resposta, isto é, são perguntas insinuantes que provocam sugestão ou
associação mental. Também não podem ser feitas perguntas impertinentes, estranhas ao
processo, e que têm por finalidade induzir o depoente em erro ou confundi-lo sobre os factos
que testemunha.

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Às testemunhas podem ser mostrados peças do processo (como por exemplo objetos
aprendidos, documentos, fotografias de locais, entre outros), desde que essa exibição seja
conveniente para a descoberta da verdade.
Quando a testemunha, no momento do seu depoimento, se faz acompanhar de
documento, ou objeto que tenha interesse como meio de prova, deverá ficar a constar esse
facto no auto de inquirição, lavrando-se igualmente o respetivo auto de junção daquele meio
de prova.

7.9 Segredo profissional de funcionário e de estado


O exercício de certas profissões e o funcionamento de determinados serviços exigem,
pela sua própria natureza e necessidades que tais profissões ou serviços visam satisfazer, que
os indivíduos que nela desempenham funções guardem segredo.
Estão contempladas com o dever e direito a guardar segredo, para além das profissões
previstas no artigo 135.º, todas aquelas que vejam reconhecida nas respetivas leis que
regulamentam a atividade a obrigação de guardarem segredo.
O direito a guardar segredo não é absoluto. Apenas no segredo religioso assim acontece.
A quebra do segredo depende da verificação de determinados requisitos que o
justifiquem, segundo o princípio da prevalência do interesse preponderante, designadamente a
imprescindibilidade do depoimento para a descoberta da verdade, a gravidade do crime e a
necessidade de proteção de bens jurídicos.
Quando existe a necessidade de ouvir uma testemunha que se encontra a coberto de um
qualquer segredo profissional, ocorre sempre um conflito entre dois interesses: o da guarda do
segredo e o da descoberta da verdade.
Havendo dúvidas fundadas sobre a legitimidade da escusa, o Ministério Público
procederá às averiguações necessárias e, se concluir pela ilegitimidade, requer ao Tribunal
que ordene a prestação de depoimento (art.ºs 135º n.º2 e n.º3 e 136.º n.º2).
A questão de fundo – quebra do segredo profissional - caberá ao Tribunal da Relação ou
ao pleno das secções criminais. A mesma situação se coloca quanto ao segredo de
funcionário.
O n.º 1 do artigo 137.º, contempla a proibição de revelação de factos que estejam
abrangidos pelo segredo de Estado, independentemente da qualidade da testemunha. O n.º 2
define segredo de estado como «…os factos cuja revelação, ainda que não constituam crime,
possa causar dano à segurança, interna ou externa, do estado Português ou à defesa da ordem
constitucional». O regime do segredo de estado é regulado pela Lei n.º 6/94, de 07.04.
O n.º 3 do artigo 137.º regula o processamento do incidente quando é invocado segredo
de estado.
Suscitado este incidente e não sendo o segredo confirmado pela autoridade competente
(Ministro da Justiça), decorrido o prazo para a confirmação, a testemunha fica obrigado a
depor.

7.10 Regime especial da quebra do segredo profissional - A Lei 5/2002, de 11.01


A Lei n.º 5/2002, de 11.01, veio estabelecer um regime especial, respetivamente quanto à
quebra do segredo profissional, perda de bens a favor do Estado e recolha de registo de voz e
imagem.
Para que possa operar esse regime especial, é necessário que esteja a ser investigado um
dos crimes catálogo, mencionados no artigo 1.º, da referida lei.
Nos termos do artigo 2.º, da citada lei, o segredo profissional dos membros dos órgãos
sociais das instituições de crédito e sociedades financeiras, dos respectivos empregados e das

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pessoas que às mesmas prestem serviços, assim como o segredo dos funcionários da
administração fiscal, cedem perante ordem da autoridade judiciária titular da direcção do
processo.
A partir do momento em que a autoridade judiciária profira o despacho a ordenar a
quebra do segredo profissional e quando não for conhecida a pessoa ou pessoas titulares das
contas intervenientes, pode-se bastar com a indicação das contas e transacções relativas às
quais devem ser obtidas informações.
O pedido de quebra de segredo bancário é feito diretamente às instituições em questão,
as quais são obrigadas a fornecer os elementos pretendidos no prazo de cinco dias, quanto a
informações disponíveis em suporte informático ou de trinta dias, quanto aos respectivos
documentos de suporte e a informações não disponíveis em suporte informático, prazo este
reduzido a metade quando existam arguidos detidos ou presos (art. 3.º da Lei 5/2002).
Foi também atribuído ao Ministério Público e à Polícia Judiciária o acesso às bases de
dados da administração fiscal, nos termos do nº 6 do artigo 2º do diploma em análise, acesso
este que poderá revestir-se de essencial importância, atento o novo regime de perda de bens a
favor do estado, pois que, nos termos do n.º 1 do artigo 7º, «…presume-se constituir
vantagem da atividade criminosa a diferença entre o valor do património do arguido e aquele
que seja congruente com o seu rendimento lícito».
Nos termos do artigo 4º, prevê-se o controlo de contas bancárias, consubstanciado na
obrigação imposta à entidade bancária junto da qual a mesma se encontre aberta, de
comunicar quaisquer movimentos sobre a conta à autoridade judiciária ou Polícia Judiciária,
dentro das 24 horas subsequentes à respectiva realização. Este controlo das contas bancárias
depende de despacho do juiz, devendo ser apenas emitido quando tiver grande interesse para
a descoberta da verdade, sendo que, como resulta do nº 3 da mesma norma, pode ser imposta
a obrigação de suspensão de movimentos a especificar no despacho que a determine,
«…quando tal seja necessário para prevenir a prática do crime de branqueamento de
capitais».

7.11 Imunidades, prerrogativas e medidas especiais de proteção


Nos termos do artigo 139.º, as imunidades são privilégios que certas categorias de
pessoas gozam, devido ao cargo que ocupam, permitindo-lhes recusar prestar depoimento.
As prerrogativas são privilégios concedidos a certas pessoas, quando chamadas a prestar
depoimento e que se traduzem quer na forma, quer no local e momento da prestação.
As medidas especiais de proteção, designadamente para as testemunhas e outros
intervenientes no processo contra formas de ameaça, são reguladas em lei especial.

AS DECLARAÇÕES DO ARGUIDO

7.12 Generalidades
As declarações de arguido constituem um meio de defesa desse sujeito processual em
sede de inquérito. Partindo-se do princípio que o processo se encontra em segredo de justiça,
o arguido apenas pode ter conhecimento dos factos de que é suspeito, e defender-se, no
momento em que presta declarações.
Em regra, o arguido presta declarações livre na sua pessoa, isto é, não se encontrando
algemado, salvo em situações de perigo de fuga ou de prática de atos de violência, que
obriguem àquela medida de segurança.

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De acordo com as regras gerais previstas no artigo 140.º, n.º 2, o arguido deverá ser
questionado sobre factos que possua conhecimento direto e que constituam objeto de prova
(art.º 128º). A audição deverá ser efetuada de acordo com as regras da inquirição (art. 138.º).
O arguido tem a obrigação de responder com verdade às perguntas sobre a sua
identidade, sob pena de incorrer na prática do crime de falsidade de declaração, previsto no
artigo 359.º, n.º 2, do C.P. – art. 61.º n.º 3 b).
O arguido tem o direito de não prestar declarações e no caso de as querer prestar não tem
a obrigação de dizer a verdade.
O arguido nunca presta juramento.

7.13 Tipos de interrogatório de arguido


O Código de Processo Penal consagra vários tipos de interrogatórios,
designadamente:

i. Primeiro interrogatório judicial de arguido detido


Este interrogatório, previsto nos artigos 28.º, nº 1, da CRP e nos artigos 141.º, n.º 1º e
268.º, al. a), do Código de Processo Penal, é realizado pelo Juiz de Instrução Criminal, no
prazo máximo de 48 horas, após a detenção do arguido, quando o detido não for julgado
imediatamente e o Ministério Público entenda que lhe deve ser aplicada uma medida de
coação diferente do Termo de Identidade e Residência.
O prazo de 48 horas que a lei estabelece, refere-se à apresentação dos autos ao Juiz de
Instrução Criminal, tendo em vista a confirmação da legalidade da detenção e não ao próprio
interrogatório, podendo este ser efetuado em prazo posterior, quando devidamente justificado.
Esta situação poderá ocorrer, por exemplo, em caso de elevado número de detenções
ocorridas num mesmo dia, em caso de doença do arguido ou outros casos devidamente
justificáveis.
O primeiro interrogatório de arguido detido é sempre feito com a assistência do defensor
e, no caso de não conhecer ou não dominar a língua portuguesa, de intérprete (art. 64.º, n.º 1,
al. a) e art. 92.º).
O interrogatório apenas pode ser efetuado entre as 0 e as 7 horas, em ato seguido à
detenção resultante de atividade enquadrada nos conceitos de terrorismo, criminalidade
violenta ou altamente organizada (art. 103.º, n.º 3 + art. 174.º n.º 5 a) ou no caso de ser o
próprio arguido a solicitar.
O interrogatório não pode exceder 4 horas, podendo ser retomado no mesmo dia, por
igual período, apenas uma vez, sendo obrigatória uma pausa de 1 hora.
O juiz está obrigado a comunicar ao arguido os factos que lhe são concretamente
imputados, incluindo, sempre que conhecidas, as circunstâncias de tempo, lugar e modo da
prática do crime (al. d), do n.º 4 do art. 141.º), bem como os elementos do processo, que
indiciam os factos imputados (al. e., do n.º 4). Esta última comunicação sobre os elementos
do processo deverá ser ponderada pelo juiz, tendo em vista decidir se tal comunicação é
possível ou conveniente, uma vez que a comunicação de tais elementos do processo que
sustentam indiciariamente os factos imputados, não pode por em causa a investigação,
dificultar a descoberta da verdade, nem criar perigo para a vida, a integridade física ou
psíquica ou a liberdade dos participantes processuais ou das vítimas do crime. Trata-se, no
fundo, de saber se deverá haver ou não uma abertura do segredo de justiça interno.

ii. Primeiro interrogatório não judicial de arguido detido


O Ministério Público limita-se a verificar a legalidade da detenção e da constituição de
arguido, tomando posteriormente uma das seguintes decisões:

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a. Caso a aplicação do TIR seja suficiente, ordena a libertação imediata do arguido;
b. Entendendo o Magistrado do Ministério Publico que é necessária a aplicação de uma
medida de coação mais grave do que o TIR, ou de medida de garantia patrimonial, requer ao
juiz a realização de primeiro interrogatório judicial do arguido, para esse efeito.
O primeiro interrogatório não judicial de arguido detido obedece às mesmas regras do
interrogatório judicial.
O arguido deverá ser sempre presente na comarca onde se tiver consumado o crime. No
entanto, em caso de urgência, poderá o detido ser ouvido pelo Ministério Público da comarca
onde se realizou a detenção, apesar do processo ter sido aberto em comarca diferente. (art.
264.º, n.º 1 e 4).

iii. Interrogatórios subsequentes


Os interrogatórios subsequentes de arguido preso ou em liberdade podem ser feitos pelo
Ministério Público ou pelos órgãos de polícia criminal, a quem tenha sido delegada
competência para investigar, nos termos do artigo 270.º, n.º 1. Deverá proceder-se à
constituição de arguido, (art.º 58.º, n.º 1, al. a), momento em que se comunica os direitos e
deveres que lhe assistem (art. 58.º, n.º 2), bem como os factos que lhe são concretamente
imputados, incluindo, sempre que conhecidas, as circunstâncias de tempo, lugar e modo como
foi praticado o crime. Pode também comunicar-se os elementos do processo que indiciam os
factos imputados, nos termos do artigo 141.º, n.º 4, al. d), caso se entenda conveniente para a
estratégia da investigação. Não há, contudo, a obrigação legal de comunicar os elementos do
processo em sede de primeiro interrogatório de arguido em liberdade. Esta obrigação existe
unicamente para os casos de primeiro interrogatório de arguido detido, em que o juiz entende
que se deve aplicar uma medida de coação. Mesmo nestes casos, a comunicação pode não
existir quando ela puser em causa a investigação, dificultar a descoberta da verdade, criar
perigo para a vida, a integridade física ou psíquica ou a liberdade dos participantes
processuais ou das vítimas do crime (art. 144.º n.º 2 + art. 141.º, n.º 4, d)).
À semelhança da inquirição de testemunhas, quando for conveniente para a investigação,
podem ser mostradas ao arguido quaisquer peças do processo, nomeadamente escutas
telefónicas, documentos, instrumentos utilizados no cometimento do crime, bem como
objetos apreendidos no processo (art. 140.º, n.º 2 e 138.º, n.º 4).
São feitos com a presença de defensor os interrogatórios de arguido em liberdade quando
o interrogado seja menor de 21 anos, surdo, mudo ou analfabeto, bem como quando
desconhece a língua portuguesa ou se coloque a questão da sua inimitabilidade (art.º 64º nº1
al. d).
O arguido preso tem o direito a comunicar em privado com o defensor, previamente ao
interrogatório (art. 61.º, n.º1, al. f)).
Os interrogatórios de arguido preso são sempre feitos com assistência do defensor (art.
64.º, n.º 1, al. a) e art. 144.º, n.º 3).
A notificação ao arguido para estar presente em interrogatório, acareação, ou
reconhecimento, deve ter a antecedência mínima de 24 horas, com a indicação do dia hora e
local. Quando haja defensor constituído, este é notificado para a diligência com a mesma
antecedência (art. 272.º, n.º2 e n.º4), salvo se o arguido se encontrar preso, nos casos de
extrema urgência, e no caso de interrogatório previsto no artigo 143.º, segundo a al. b), do n.º
3 do artigo 272.º.
Para as situações previstas no artigo 64.º, n. 1, al. c), a nomeação de defensor é feita pelo
Ministério Público ou pela autoridade de polícia criminal (art. 2.º e 3.º, da Portaria 10/2008).

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7.14 Procedimentos sobre interrogatório
Previamente ao interrogatório é perguntado ao arguido pelo nome, filiação, naturalidade,
data de nascimento, estado civil, profissão, residência, local de trabalho, sendo-lhe exigido, se
necessário, documento oficial de identificação. Deve ser advertido previamente que a falta de
resposta a estas perguntas ou a sua falsidade pode faze-lo incorrer em responsabilidade penal
(141º nº 3 + art. 143.º n.º 2 e 144º n.º 1 art. 61.º n.º 3 b));
Em seguida, é informado dos seus direitos (previstos no art. 61.º, n.º1), nomeadamente
que tem o direito de ser assistido por advogado (no caso de arguido em liberdade) e que tem o
direito a não responder às perguntas sobre os factos que lhe são imputados.
a. São expostos ao arguido os factos que lhe são concretamente imputados, incluindo
sempre que forem conhecidas as circunstâncias de tempo, lugar e modo. Após esta
informação, o arguido declara se pretende ou não prestar declarações e, em caso afirmativo,
poderá ainda optar por responder apenas a um tipo de perguntas.
b. Todas as informações e advertências ao arguido devem ficar a constar no auto de
interrogatório, ainda que por súmula (art. 99.º, n.º 3, al. c) e 275.º, n.º 1);

7.15 Valor probatório das declarações do arguido


Caso o arguido exerça o direito de não responder a perguntas, esta sua opção não poderá
ser valorada pois está legitimada como exercício de um direito de defesa e, por isso, em nada
o poderá desfavorecer (art. 343.º, n.º 1 e 345, n.º 1).
Caso o arguido venha a confessar o crime em sede de inquérito, deverá existir o cuidado,
por parte do OPC, de não se bastar com esta confissão. Ou seja, quem investiga o crime
deverá ter a perceção da fragilidade daquele meio de prova, pois como se sabe, caso o arguido
decida alterar a sua posição confessória em sede de julgamento, aquelas declarações não
poderão ser tidas em conta pelo juiz (artigo 357.º) e, consequentemente, não poderá
fundamentar a sua convicção de culpabilidade do arguido com base naquele meio de prova
(art.º 355.º).
A confissão tem, no entanto, grande relevo pelos novos caminhos que abre à própria
investigação, nomeadamente à descoberta e recolha de prova material e, porventura, à
identificação de co-autores no crime.
As declarações do arguido, prestadas perante a Autoridade Judiciária, com a presença do
seu defensor, podem ser utilizadas no processo, mesmo que seja julgado na ausência, ou não
preste declarações em audiência de julgamento, estando sujeitas à livre apreciação da prova
(art.º 141.º n.º 4 al. b), 143, 144.º e 357.º n.º 1 al. b)).
O arguido e os co-arguidos no mesmo processo ou em processos conexos, estão
impedidos de depor como testemunhas, enquanto mantiverem aquela qualidade (art. 133.º, n.º
1, al. a)).
No caso de já ter existido separação de processos, os arguidos de um mesmo crime ou
de um crime conexo, mesmo já condenados por sentença transitada em julgado, apenas
podem depor como testemunha se assim o consentirem expressamente (art. 133.º, n.º 2).

7.16 Intervenção de defensor no interrogatório de arguido


Durante o interrogatório, o defensor abstém-se de qualquer interferência, sem prejuízo de
ter direito a arguir nulidades do ato. Poderá ser permitido, pelo investigador que realiza o
interrogatório, que o advogado suscite pedidos de esclarecimento das respostas dadas pelo
arguido, devendo esses esclarecimentos ficarem a constar no respetivo auto de interrogatório.
Não deverá, contudo, ser permitido ao advogado do arguido a realização de exposições
(art. 98.º), para que estas fiquem a constar no auto de interrogatório. Estas exposições deverão

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ser realizadas em sede própria, isto é, autonomamente, e remetidas ao magistrado titular do
processo (art. os 141.º, n.º 6 e 144.º).

AS DECLARAÇÕES DO ASSISTENTE E DAS PARTES CIVIS

7.17 O regime das declarações do assistente e das partes civis


O regime que disciplina as declarações do assistente e das partes civis não reveste
qualquer dificuldade, sendo idênticas ao regime da prestação da prova testemunhal (art.145.º,
n.º 3).
As declarações não são precedidas de juramento, embora o assistente e partes civis se
encontrem sujeitos ao dever de verdade e sob responsabilidade criminal pela sua violação (art.
145.º, n.º 4).
As declarações do assistente ou das partes civis podem ter lugar a requerimento dos
próprios, a requerimento do arguido ou quando a autoridade judiciária o entender
conveniente.
O órgão de polícia criminal, a quem foi delegada a competência investigatória, poderá
também proceder à audição de algum destes sujeitos processuais, caso o entenda útil para a
descoberta da verdade material.

PROVA POR ACAREAÇÃO

7.18 O regime da prova por acareação


Este meio de prova é subsidiário dos meios de prova declaratórios, porquanto apenas é
admissível quando houver contradição entre as declarações de quem as prestar no processo,
com exceção dos peritos, ou no caso de se afigurar útil para a descoberta da verdade
(art.146.º).
Raramente se extraem resultados diretos deste meio de prova, já que, a maior parte das
vezes, as contradições integram uma versão dos factos assumida pelos intervenientes, que
previsivelmente irão manter.

7.19 Estrutura da acareação


a. Aos participantes processuais devem ser recordadas as suas declarações anteriores,
bem como referido o concreto ponto de contradição, encontrado entre umas e outras.
b. O participante processual pode confirmar as suas declarações, infirmá-las ou
contraditar a existência da própria contradição. Quando necessário, a autoridade que presidir
ao ato pode permitir aos acareados que contestem as declarações uns de outros. Quem realiza
a acareação pode ainda formular perguntas aos acareados.
c. O arguido está obrigado a participar na acareação, mas não está obrigado a depor sobre
os factos, nem esclarecer os pontos que estão em contradição.
d. Na acareação, valem as restrições relativas à prova testemunhal, designadamente nos
artigos 129.º, 130.º, e 133.º, 134.º, 135.º e 139.º.
e. Tratando-se de acareação com arguido preso, deverá estar presente o seu defensor, por
interpretação extensiva dos artigos 64.º, n.º 1 al. a) e 144.º, n.º 3.

PROVA POR RECONHECIMENTO

7.20 O regime da prova por reconhecimento

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A prova por reconhecimento pode conduzir diretamente a resultados de importância
determinante na descoberta da verdade e contribuir para a convicção do julgador na valoração
do material probatório.
Face à importância deste meio de prova, deverá proceder-se com o máximo de cautela e
rigorosa observação das regras descritas no artigo 147.º., sob pena de perder todo o seu valor
como meio de prova.

7.21 As regras do reconhecimento


Como já foi referido anteriormente, face à importância da prova por reconhecimento, as
regras do reconhecimento deverão ser escrupulosamente cumpridas, tendo em vista a sua
valoração em tribunal.
a. A testemunha, no momento em que é ouvida em declarações, deverá descrever o
identificando com a indicação de todos os pormenores de que se recorda (denominado
reconhecimento intelectual);
b. Durante a inquirição, a testemunha tem que ser questionada se já tinha visto antes o
identificando e em que circunstâncias;
c. A testemunha deverá acrescentar (caso existam) possíveis circunstâncias que
possam influir na credibilidade da identificação;
d. Cumpridas as diligências acima indicadas, e caso a identificação não seja cabal (no
caso em que a testemunha desconhece quem é o identificando), chamam-se, pelo menos, duas
pessoas, que apresentem as maiores semelhanças possíveis com a pessoa a identificar,
designadamente, de altura e estatura física. A testemunha é chamada e perguntada sobre se
reconhece algum dos presentes e, em caso afirmativo, qual deles.
e. O reconhecimento presencial deverá ser sempre feito de modo que a testemunha
não seja vista pelo identificado;
f. A autoridade que dirige a diligência pode dar ordens às pessoas que estão diante da
testemunha para se colocarem em diferentes posições (de frente, de perfil, de costas), que
exibam certas partes do corpo (com o respeito pelo pudor dos presentes), que falem em voz
alta ou outras circunstâncias que permitam facilitar a identificação.
g. É obrigatória a presença de defensor no reconhecimento de arguido preso, por
interpretação extensiva dos artigos 64.º, n.º 1 al. a) e 144.º, n.º 3.
h. Nos casos de identificação de arguido em liberdade, a obrigatoriedade da presença
de defensor não existe. No entanto, caso o arguido em liberdade tenha defensor
constituído no processo valem as regras do artigo 272.º n.º 4.
i. A Lei n.º 48/2007, de 28.08 criou novos mecanismos no reconhecimento de
pessoas, tendo em vista o aumento da credibilidade deste meio de prova, consagrando a
possibilidade das pessoas que intervêm no reconhecimento poderem ser fotografados. As
fotografias podem ser juntas aos autos mediante consentimento dos visados (art. 147.º n.º 6)
j. As fotografias ou filmes das pessoas que não foram reconhecidas podem ser juntas
aos autos, também mediante consentimento.

7.22 O reconhecimento fotográfico


As regras do reconhecimento fotográfico, constam no nº 5 do artigo 147.º .
Reconhecido que era pela doutrina e jurisprudência que o reconhecimento fotográfico
não era um meio de prova propriamente dito, mas antes, uma técnica policial de investigação,
tendo em vista conduzir a verdadeiras provas, nomeadamente à prova por reconhecimento em
sentido técnico.

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7.23 Reconhecimentos de objetos
Com as devidas adaptações, são correspondentemente aplicáveis as regras do
reconhecimento pessoal (art.º 148).
Não está previsto o reconhecimento de objetos por fotografias ou gravações.

7.24 Pluralidade de reconhecimentos


O artigo 149.º vem estabelecer que o reconhecimento plural tem um duplo sentido:
Várias pessoas chamadas a identificarem (n.º 1) e várias pessoas ou objetos a serem
identificados (n.º 2).
Se o reconhecimento houver de ser feito por mais do que uma pessoa, cada uma deve
fazê-lo separadamente, impedindo-se a comunicação entre elas, antes que o reconhecimento
seja feito por todos, de modo a evitar que discutam as suas perceções.
O reconhecimento de várias pessoas ou de vários objetos também é feito separadamente
para cada pessoa ou para cada objeto.

A RECONSTITUIÇÃO DO FACTO

7.25 A reconstituição do facto


A reconstituição do facto é o meio de prova mediante o qual a entidade investigante
verifica diretamente se um facto podia ou não ter acontecido de determinada maneira (art.
150.º).
Segundo a definição legal, a reconstituição do facto «…consiste na reprodução, tão fiel
quanto possível, das condições em que se afirma ou se supõe ter ocorrido o facto e na
repetição do modo de realização do mesmo».
A reconstituição do facto deve obedecer ao princípio da necessidade, isto é, deverá ser
realizado apenas quando a análise dos vestígios e demais indícios recolhidos não se tenham
mostrado suficientemente esclarecedores ou, de algum modo, existam duvidas quanto ao
cometimento do crime ou ao seu testemunho.
A reconstituição pode ser destinada a verificar se uma testemunha, nas concretas
condições de tempo e lugar, poderia ter visto ou percecionado determinado facto, ou ainda se
o arguido poderia ter praticado o crime da forma que o confessou, em sede de interrogatório.
Quando a reconstituição é realizada com a colaboração do arguido é de todo
aconselhável que este seja acompanhado por defensor, para que seja assegurado o efetivo
exercício do seu direito de defesa.
Tratando-se de reconstituição do facto com arguido preso, é obrigatória a assistência de
defensor, por interpretação extensiva dos artigos 64.º, n.º 1, al. a) e 144.º, n.º 3.
Não obstante o n.º 2 do artigo 150.º referir «…o despacho que ordenar a reconstituição
do facto», esta frase não pode ser interpretada no sentido de que a reconstituição apenas possa
ser realizada quando precedida de despacho. O investigador a quem tenha sido delegada
competência para investigar poderá entender necessária a realização de uma reconstituição de
facto, tendo em vista a descoberta da verdade, sem necessitar de despacho prévio, quer da
autoridade de polícia criminal, quer da autoridade judiciária.
Poderá, contudo, existir um despacho da autoridade judiciária a determinar a realização
da reconstituição do facto, caso o investigador não tenha decidido praticar esse acto no
decorrer da investigação.
A reconstituição do facto deverá ser uma prática comum nos casos em que o arguido
confessa o crime e principalmente nos casos em que a prova material é escassa.

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A reconstituição do facto tem como finalidade sedimentar os meios de prova já
existentes no processo, uma vez que a confissão do arguido é instável, podendo vir a não ter
qualquer valor em sede de julgamento.
Poderão ser utilizados meios audiovisuais na reconstituição do facto (art.ºs 101.º, n.º 1),
tendo em vista o seu visionamento em fase de instrução ou julgamento (art. 356.º, n.º 1, al.
b)).
A publicidade da diligência deve ser evitada, na medida em que prejudique a descoberta
da verdade.

A PROVA PERICIAL

7.26 Generalidades
A perícia é a «…atividade de perceção ou apreciação dos factos probandos efetuada por
pessoas dotadas de especiais conhecimentos técnicos, científicos ou artísticos»;
O artigo 151.º diz-nos quando tem lugar a prova pericial. Haverá sempre lugar a perícia
«…quando a perceção ou apreciação dos factos exigirem especiais conhecimentos técnicos,
científicos ou artísticos».
A prova pericial distingue-se do exame: O exame é um meio de obtenção de prova e visa
a deteção de vestígios. A perícia visa a avaliação desses mesmos vestígios. O exame não
supõe a existência de especiais conhecimentos técnicos, ao contrário da perícia.
O investigador deverá averiguar e informar sobre a necessidade de realização de uma
perícia, tendo em vista os esclarecimentos de determinado facto, bem como a sua valoração.
A perícia é feita por técnicos de estabelecimentos oficiais ou de laboratórios aprovados
pelo Instituto de Medicina Legal, Laboratório de Polícia Cientifica e Laboratório de Polícia
Técnico-Científica.
As perícias sobre características físicas ou psíquicas são realizadas por médico, ou outra
pessoa legalmente autorizada, não podendo criar perigo para a saúde do visado (art. 156.º, n.º
6).

7.27 A nomeação do perito


Quando houver impossibilidade por parte dos estabelecimentos oficiais, ou segundo
critérios de conveniência processual, o perito pode ser nomeado entre as pessoas constantes
de listas próprias que existem na maior parte das comarcas. No caso de tais listas não
existirem e devida à urgência da resposta solicitada, a autoridade judiciária ou a autoridade de
polícia criminal pode nomear pessoa que possua honorabilidade e competência reconhecida
(art.s 91.º, n.º 1 e 2, 152.º, 154.º do [Link]. e 10.º, n.º 1, al. a) da Lei 97-A/2009, de 03.9.
A perícia sobre características físicas ou psíquicas de pessoa que não haja prestado
consentimento, deverá ser ordenada pelo juiz e feita por médico ou pessoa legalmente
autorizada (art. 154.º, n.º 2).
O perito está sujeito ao regime de impedimentos, recusas e escusas, previsto no artigo
47.º. A razão de ser desta extensão deve-se em querer assegurar a credibilidade da justiça,
evitando situações que possam pôr em causa a imparcialidade daqueles intervenientes no
processo.
O perito presta compromisso, salvo se for funcionário público e intervier no exercício
das suas funções (art. 91.º, n.º 6, al. b).

46
7.28 O despacho a ordenar a perícia
Para que a atividade de perceção ou apreciação dos factos probando se possa considerar
uma perícia, deverá ser precedida de um despacho que a ordene. Caso contrário, o ato de
perceção ou apreciação será considerado um mero exame, sujeito à livre apreciação da prova.
O despacho deverá ser sempre fundamentado (art. 97.º, n.º 5), pois trata-se de uma
decisão, cujo conteúdo, pode afetar o arguido, o assistente ou as partes civis.
O despacho que ordena a perícia é comunicado, mediante notificação, ao arguido,
assistente e às partes civis (art. 154.º, n.º 4)
A lei prevê duas exceções ao dever de notificação, que resultam do possível prejuízo
para a investigação, designadamente as previstas no n.º 5 do artigo 154.º.
O despacho que ordena a perícia deverá conter:
a. A definição do objeto da perícia;
b. A identidade do perito;
c. A formulação de quesitos, caso se entenda importante mencioná-los em sede de
despacho;
d. A autorização para destruir ou alterar o objeto que tenha de ser submetido a
perícia;
e. Sendo a perícia ordenada em sede de inquérito, a justificação da ausência do
arguido, assistente ou partes civis, com um dos fundamentos mencionados no n.º 5 do artigo
154.º.
Em sede de inquérito a perícia é ordenada:
a. Pelo juiz de instrução, quando a perícia se debruce sobre uma das matérias
mencionada no artigo art. 154, n.º 2; 178
b. Pelo Ministério Público, em todos os outros casos, desde que não se debruce sobre
as matérias indicadas no artigo 154.º, n.º 3;
c. Pela Autoridade de Polícia Criminal (art. 10.º, n.º 1, al. a), da Lei 97-A/2009, de
03.9.), exceto a realização da perícia médico-legal (art. 270.º, n.º 3), e sobre as matérias
indicadas no artigo 154.º, n.º 3.
d. Pela autoridade de polícia criminal, nos casos indicados no artigo 270.º, n.º 3.

7.29 Consultores Técnicos


O consultor técnico é um participante processual, à semelhança do perito. Não presta
juramento nem compromisso, com a exceção do consultor convocado pelo Ministério
Público, que é remunerado pelo Tribunal.
O consultor deve ter, pelo menos, a mesma qualificação técnica do perito.
O consultor técnico é uma pessoa da confiança do sujeito processual que o designa. Tem
como primordial função garantir a qualidade técnica do resultado pericial.
A autoridade judiciária que ordenou a perícia pode rejeitar o consultor, ou afastá-lo da
perícia, caso não estejam reunidos os requisitos da sua participação, designadamente, se não
tiver, pelo menos, a mesma qualificação técnica do perito ou se tiver sido determinado que a
publicidade da diligência poderia prejudicar as finalidades da investigação (art. 155.º e 156.º).

7.30 O relatório pericial


Após a apresentação do relatório, podem ser pedidos esclarecimentos pela autoridade
judiciária, pelo arguido, pelo assistente, pelas partes civis e pelos consultores técnicos – art.
157.º n.º 1. O relatório é elaborado logo em seguida à realização da perícia, ou no prazo de 60
dias, se não puder ser apresentado de imediato, podendo ainda ser prorrogado por mais 30
dias, com o fundamento de existir especial complexidade (art. 157.º, n.º 2 e 3).

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7.31 Valor da prova pericial
A prova pericial é uma das excepções à livre apreciação da prova, prevista no artigo
127.º. O juízo técnico, científico ou artístico presume-se subtraído à livre apreciação do
julgador. Quer isto dizer que o próprio julgador não pode funcionar ele mesmo como perito,
afastando deliberadamente o parecer contido no relatório, substituindo-lhe, sem o
fundamentar, outros elementos de convicção. Ninguém pode, efectivamente, ser ao mesmo
tempo juiz e perito.

PROVA DOCUMENTAL

7.32 Generalidades
Documento é «…a declaração, sinal ou notação corporizada em escrito ou em qualquer
outro meio técnico», nos termos do artigo 259.º do Código Penal.
Em regra, os documentos têm que ser juntos ao processo no decurso do inquérito ou da
instrução. Excecionalmente, provada a impossibilidade de junção numa daquelas fases do
processo, pode o documento ser junto até ao encerramento da audiência.
Todo o documento que tenha por objetivo a descoberta da verdade deverá ser junto aos
autos (art. 267.º).
A equipa de investigação que tem a seu cargo uma investigação, pode juntar documentos
ao inquérito, sem embargo desses mesmos documentos poderem vir a ser restituídos ao seu
titular (186.ºn.º 2).

7.33 Valor probatório dos documentos autênticos e autenticados


Como disciplina o artigo 169.º, «…consideram-se provados os factos materiais
constantes de documento autêntico ou autenticado, enquanto a autenticidade do documento a
veracidade do seu conteúdo não forem fundadamente postas em causa». É sempre garantida a
possibilidade de contraditar o conteúdo do documento, em sede de audiência de julgamento.

7.34 Tradução, decifração e transcrição de documentos


O documento escrito em língua estrangeira é ordenada a sua tradução (art. os 166.º, n.º 1
e 92.º, n.º 6.)
O documento cifrado é submetido a perícia para obter-se a sua decifração.
Se o documento for de difícil leitura, é obrigatória a sua transcrição (art. 166.º, n.º 2).
Os documentos fonográficos (como por exemplo a gravação de escutas telefónicas), são
obrigatoriamente transcritas em autos, no prazo mais curto. O funcionário que procedeu à
gravação está obrigado, no prazo de 48 horas, a entregar uma cópia da gravação, a qualquer
sujeito processual que a requeira e que entregue suporte técnico necessário para a operação
(art.s 101.º, n.º 2 e 3 e 166.º, n.º 3).
Quando seja registada por gravação magnetofónica ou audiovisual, a prova não terá de
ser transcrita em auto, devendo o tribunal superior proceder ao controlo desta prova, por via
da audição ou da visualização dos registos gravados.

7.35 Valor probatório das reproduções mecânicas


As fotografias, gravações vídeo e outras reproduções mecânicas valem como prova
documental, desde que não sejam ilícitas, nos termos da lei (art. 167.º, n.º1).
Há uma proibição de prova resultante de intromissão na vida privada. A violação desta
proibição tem o efeito da nulidade das provas obtidas, salvo se houver o consentimento da
pessoa visada (art. 126.º n. 3).

48
7.36 A gravação de imagem em locais públicos
A fotografia, como vem previsto no artigo 167.º, enquadra-se como meio prova
documental.
A partir de finais do séc. XX, a utilização deste meio de prova passou a ser uma
ferramenta fundamental, quer na prevenção de crimes, quer na recolha de prova.
Dadas as crescentes preocupações sociais geradas pelo aumento da criminalidade grave,
pela própria globalização e incremento de processos tecnológicos na execução de crimes, de
que é exemplo o atentado terrorista de 11 de Setembro, em 2002, foi aprovada a Lei que
estabelece medidas de combate à criminalidade organizada e económico-financeira (Lei nº
5/2002 de 11.01).
Esta lei teve por objetivo dotar a investigação criminal de maior eficácia e agilidade no
combate às novas formas de criminalidade organizada, permitindo o uso de novos meios
tecnológicos de obtenção de prova.
Recorda-se que a recolha de imagem, para efeitos de investigação criminal, apenas se
encontrava prevista no artigo 167.º do CPP e no artigo 79.º n.º 2 do Código Civil, norma que
têm por finalidade proteger o direito à imagem.
Da leitura do artigo 6.º, da lei 5/2002185, parece ter havido por parte do legislador
apenas a preocupação de abordar a questão das denominadas escutas ambientais, matéria que
também não se encontrava regulamentada até à entrada em vigo da referida lei. Acontece,
porém, que não foi acautelada e individualizada a simples recolha de imagem em local
público, para efeitos de investigação.
A doutrina e principalmente jurisprudência não têm sido uniformes quando à
interpretação a dar a simples recolha de imagem, em local público, para efeitos de
investigação.
Devido a preocupações de natureza mais garantistica na preservação dos direitos
individuais, a jurisprudência mais recente tem invertido o entendimento a dar sobre os
pressupostos formais da recolha de imagem, em locais públicos, entendendo a mais recente,
ser agora necessário a autorização do juiz, para a simples recolha de imagem de um suspeito
que se encontre na via pública, mesmo para os casos em que se investiga um dos crimes
catálogo, previstos no artigo 1.º da citada lei 5/2002
De acordo com o art. 6º, n.º 3 da Lei 5/2002, são também aplicáveis à recolha de
imagem, as formalidades constantes no artigo 188.º, n.ºs 3 e 4 do Código Processo Penal,
designadamente, os prazos indicados para o órgão de polícia criminal levar ao conhecimento
do Ministério Público e juiz de instrução, as respetivas fotografias.

7.37 A vídeovigilância
A recolha de imagem através de vídeo vigilância pode ser utilizada com fim de
prevenção ao crime e como meio de prova.
O princípio fundamental a reter em relação à jurisprudência do Tribunal Constitucional é
o de que, envolvendo os sistemas de videovigilância restrições de direitos, liberdades e
garantias (direito à imagem, liberdade de movimentos, direito à reserva da vida privada),
caberá à lei fundamental (art. 18.º, n.º 2 da CRP), definir em que medida estes sistemas
poderão ser utilizados e, especialmente, assegurar, numa situação de conflito de direitos
fundamentais, que as restrições se limitem ao mínimo necessário para salvaguardar outros
direitos ou interesses fundamentais.

49
O objetivo foi marcadamente o de assegurar a proteção de pessoas e bens, proteção de
edifícios, instalações e prevenção da prática de crimes em locais em que exista razoável risco
da sua ocorrência (art. 2º, n.º 1 da Lei 1/2005, de 10.01).
O sistema de videovigilância apenas poderá ser autorizado pelo membro do Governo que
tutela a força ou serviço de segurança, após parecer da Comissão Nacional de Proteção de
Dados (CNPD), quando tenha um dos fins previstos no artigo 2.º da citada Lei.
O pedido de autorização de instalação de câmaras fixas é feito pelo dirigente máximo da
força ou serviço de segurança, ou ainda pelo presidente da Câmara (art. 5.º, n.º 1 e 2, da Lei
1/2005, de 10.01).
A utilização das câmaras de vigilância deverá reger-se pelos princípios orientadores
previstos no artigo 7.º, da Lei 1/2005, de 10.01.
Quando a gravação realizada registe relevância criminal, no prazo de 72 horas após o
conhecimento dos factos, a força ou serviço de segurança que utiliza o sistema, elaborará auto
de notícia, que remeterá ao Ministério Público, juntamente com a fita ou suporte original das
imagens e sons, (art. 8.º, da Lei 1/2005 de 10.01).
As gravações obtidas pelo sistema de videovigilância são obrigatoriamente conservadas
pelo período de um mês, tendo em vista uma eventual utilização, para efeitos de investigação
criminal (art. 9.º, da Lei 1/2005, de 10.01).
A recolha de imagem na Lei 1/2005 de 10.01 tem uma filosofia diversa da
estabelecida na Lei 5/2002, de 11.01, caracterizando-se pela utilização destes meios em
circunstâncias específicas, nomeadamente:
a. Para atingir, exclusivamente, as finalidades indicadas no artigo 2º n.º 1, da
Lei 1/2005, de 11.01;
b. Nos locais objeto de vigilância é obrigatória a afixação, em local bem
visível, de informação sobre a existência de tratamento, finalidade e
responsável pelo tratamento
(art. 4º, Lei 5/2002, de 11.01). Este aspeto é relevante e corresponde às
exigências de transparência/informação que deve ser assegurada em qualquer
tratamento de dados pessoais (art.10º, da Lei n.º 67/98, de 26.10);
c. A instalação de câmaras depende de autorização prévia do membro do
Governo que tutela a força ou serviço de segurança requerente (câmaras fixas
– art. 3.º, n.º 1) ou, em situações de urgência, do “dirigente máximo da força
ou serviço de segurança” em relação a câmaras portáteis (art. 6.º n.º 2, Lei
5/2002, de 11.01);
d. A Comissão Nacional de Proteção de Dados (CNPD) emite parecer sobre o
pedido de instalação. No caso de o parecer ser negativo, a autorização não
pode ser concedida (nas situações previstas no artigo 3.º, nº 2 da Lei 1/2005
de 10.01), ou será imediatamente destruído o material gravado nas situações
previstas no artigo 6.º nº 3, da Lei 1/2005, de 10.01.
e. A nota que merece maior realce, claramente diferenciador da previsão da
Lei 5/2002, tem a ver com o facto de estas imagens e sons só poderem ser
recolhidos com o conhecimento do público.

50
8 OS MEIOS DE OBTENÇÃO DA PROVA

8.1 Generalidades
Os meios de obtenção de prova assumem um dos pontos mais delicados e conflituantes
do processo penal. Isto porque, se por um lado existe o interesse comunitário na prevenção e
repressão da criminalidade, por outro, existe o interesse legítimo das pessoas não serem
afetadas na esfera das suas liberdades pessoais, para além do que seja indispensável à
prossecução do referido interesse comunitário. Será na conciliação dos interesses em presença
que deverá buscar-se o ponto de equilíbrio para uma aplicação eficaz do direito processual
penal num Estado de Direito.

DOS EXAMES

8.2 Definição do termo «exame»


Muitas das vezes o conceito exame confunde-se com o conceito de perícia, sendo o
próprio legislador pouco claro do pondo de vista sistemático. Um exemplo deste facto é o
conceito de «exame médico-legal». Ora o exame médico-legal não é um exame, na
terminologia usada pelo legislador no artigo 171.º, mas sim uma verdadeira perícia realizada
ao corpo de alguém, por pessoa dotada de especiais conhecimentos técnicos.

8.3 Espécies de exames


O exame, como meio de obtenção de prova, pode incidir sobre pessoas, lugares ou
coisas, tendo por fim a recolha de meios de prova (art. 171.º, n.º 1).

i. O exame pessoal
O exame pessoal pode ocorrer, por exemplo, quando em sede de violência carnal, se
verifica a existência de sinais de violência na vítima. Neste caso, o exame destina-se a
descrever o eventual ferimento com a ajuda, se necessário, do registo fotográfico.
O exame poderá ocorrer também sobre o suspeito para a recolha de meios de prova
como, por exemplo, a realização de uma zaragatoa bocal, tendo em vista determinar o ADN
do suspeito, após a realização de uma perícia. O exame é muitas das vezes instrumental,
relativamente à perícia.
O exame que se debruce sobre as características físicas ou psíquicas de pessoa que não
haja prestado o seu consentimento é sempre realizado por médico ou outra pessoa legalmente
autorizada. O despacho que ordena este tipo de exame é da competência do juiz e a sua
realização não pode criar perigo para a saúde do visado (art. 156.º, n.º 6 e 171.º, n.º 2).

ii. O exame ao local


O exame ao local visa a fixação, descrição e recolha dos vestígios, bem como a
reconstituição do estado em que se encontrava.
Não obstante alguma doutrina entender que os exames em casa habitada ou sua
dependência fechada deverão seguir o mesmo regime das buscas, em termos práticos, quem
aborda o local do crime, em primeiro lugar, é sempre a polícia de proximidade, a quem lhe é
facultada a entrada na residência. Em segundo lugar, caso não se verificasse essa permissão,
haveria sempre a possibilidade de entrada na residência, com os fundamentos previstos no
artigo 177.º, n.º 3, al. a), ou b).

51
Por sua vez, a jurisprudência mais recente tem entendido ser legítima a entrada da equipa
de investigação, independentemente do consentimento do arguido, após à morte de uma
pessoa, tendo em vista examinar o local onde os factos ocorreram e apurar todo o
circunstancialismo e recolha de prova.

iii. O exame a coisas


Durante o exame ao local importa examinar e interpretar os objetos que ali se encontram,
designadamente averiguar a relação desses objetos com o crime e qual a sua proveniência.
Sendo certo que há vestígios que não suscitam quaisquer dúvidas, quanto à sua interpretação,
outros existem que necessitam de especiais conhecimentos técnicos, científicos ou artísticos.
Nesse caso, será necessária a realização de uma perícia.

8.4 Objeto e finalidade dos exames


O objeto do exame consiste em fixar documentalmente todos os vestígios encontrados no
local do crime ou permitir a observação direta de pessoas, coisas e lugares. Por essa razão,
são realizados no local do crime, o “croqui” e a reportagem fotográfica, para que mais tarde
possam ser avaliados como meios de prova documental.
Os exames das pessoas, lugares e coisas têm por finalidade a inspeção de possíveis
vestígios, que possam ter sido deixados no local do crime, tais como os relativos ao modo e
ao lugar onde aquele foi praticado e às pessoas que o cometeram ou sobre as quais foi
cometido.
Após a notícia do crime, o órgão de polícia criminal competente deve a evitar, quanto
possível, que os seus vestígios se apaguem ou alterem, antes de ser objeto de exame,
conferindo a lei a faculdade de, em caso de necessidade, proibir a entrada ao trânsito, ou de
pessoas estranhas ao local do crime, bem como a prática de quaisquer outros atos por parte de
estranhos que, de algum modo, possam prejudicar a descoberta da verdade (arte. 171.º, n.º 2 e
173.º).
Nas situações de morte violenta ou de causa ignorada, quando o óbito for verificado fora
das instituições de saúde, deve proceder-se de acordo com o artigo 16.º da Lei 45/2004, de
19.08.
Os artigos 171.º, 172.º, 173 e 249.º, n.º 1 e n.º 2, preveem medidas cautelares e de polícia
para preservação dos vestígios, designadamente:
a. A guarda dos vestígios de modo a que se não apaguem ou alterem;
b. A proibição da entrada ou trânsito de pessoas estranhas que possam prejudicar o
exame;
c. A detenção de pessoas no local do exame, enquanto o exame não terminar e a sua
presença for indispensável.
d. A descrição do estado em que se encontrarem os vestígios e a reconstituição do
estado em que se encontravam se forem alterados ou tiverem desaparecido.

8.5 O «Auto de exame»


O auto de exame ou auto de exame ao local são os nomes que devem ser dados à peça
processual onde se descrevem todos os vestígios encontrados no local, onde ocorreu o crime,
que é também designado, em sede policial, de inspeção ao local do crime.
Após o tratamento da prova material, onde se incluem a sinalização dos vestígios e a
fotografia de pormenor e do geral, no preciso local em que os vestígios são detestados, a
interpretação dos vestígios e o estabelecimento de correlações, terão de integrar o auto de
exame ao local (art. 99.º), que deverá conter obrigatoriamente:
a. O dia e hora em que começou e terminou a diligência;

52
b. O local onde decorreu o exame;
c. A descrição de como foi realizado o exame, com indicação dos lugares e coisas
examinadas;
d. A descrição dos vestígios do crime encontrados durante o exame e do estado em que
foram encontrados;
e. A descrição de declarações prestadas por pessoas que tenham informações úteis para
a recolha de prova;
f. O registo de quaisquer outros factos que importa relevar como, por exemplo, o uso da
força física ou a proibição de entrada de pessoas estranhas ao local;
g. A data da elaboração do auto e assinatura;

8.6 Sujeição a exame


Caso o visado não dê o seu consentimento para a realização de um exame, a autoridade
judiciária pode compeli-lo a sujeitar-se a esse exame, tendo em vista a recolha de prova (art.
172.º, n.º 1).
A ordem para realização de exames que se debrucem sobre características físicas ou
psíquicas de pessoa, que não haja prestado consentimento, passou a ser da exclusiva
competência do Juiz (art.s 172.º n.º 2, 154.º n.º 3 e 269.º n.º 1 al. a) e b). No seu despacho, o
Juiz está obrigado a ponderar a necessidade da realização dos exames e perícias sobre
características físicas e de personalidade, tendo em conta o direito à integridade pessoal e à
reserva da intimidade do visado.
Os exames que possam ofender o pudor das pessoas, deve-se respeitar a dignidade dos
visados e, na medida do possível, o pudor de quem a eles se submete. O visado no exame
poderá indicar, para presenciar a diligência, pessoa da sua confiança, desde que não haja
perigo na demora. O visado deverá ser sempre informado de que possui essa faculdade (art.
172.º, n.º 3).
A jurisprudência mais recente dos tribunais superiores tem entendido que não é
inconstitucional a interpretação dada ao artigo 172, n.º 1, no sentido de que é legítimo o uso
da força física para a realização de um exame. A utilização da força terá sempre como limite a
integridade física do visado.
Os exames também podem ser realizados pelos órgãos de polícia criminal, desde que a
pessoa examinada ou o proprietário do lugar ou da coisa examinada o consentirem (art. 249.º,
n.º 2, al. a) e 172.º, n.º 1).

8.7 Pessoas no local do exame


O artigo 173.º disciplina o regime a instaurar no local do exame.
De acordo com a norma em questão, existe uma obrigação de permanência no local do
exame para determinadas pessoas. Caso se verifique o não acatamento da ordem de
permanência no local (desde que legítima), poderá haver lugar ao recurso da força pública
por parte da autoridade policial. A utilização da força deverá ser utilizada, tendo sempre os
princípios basilares de toda a atuação policial: necessidade, proporcionalidade e adequação.
Caso a desobediência persista, poderá haver necessidade de se proceder à detenção do
faltoso, pelo crime de desobediência, sujeitando-o depois a julgamento sob a forma sumário.
Esta detenção terá um fim preventivo, devendo manter-se enquanto o exame não terminar ou
enquanto a presença de certa pessoa for indispensável.

53
DAS ESCUTAS TELEFÓNICAS

8.8 O controlo das comunicações


De acordo com o artigo 27º, da lei 53/2008, de 28/8 (Lei de segurança interna), o
controlo das comunicações é feito mediante autorização judicial e é da exclusiva competência
da Polícia Judiciária.
Ao contrário dos regimes denominados «anglo-saxónicos», os regimes «continentais»
pautam-se por seguir um regime mais garantis tico, ao permitir apenas a interceção telefónica
através de prévia autorização do juiz, mesmo nos casos que estejam em causa valores
superiores aos violados com a interceção telefónica, como são da vida ou a integridade física.
Mesmo em alguns regimes denominados continentais, como é o caso alemão e belga, é
permitido, em caso de urgência, a interceção telefónica por determinação do Ministério
Público, sujeita a posterior validação pelo juiz.
O regime português, quase singular nesta matéria, permite apenas a ingerência nas
telecomunicações em sede de processo criminal, de acordo com o artigo. 34.º, n. 4, da CRP.,
não sendo assim possível a outros serviços de segurança do estado recorrerem a esta
ferramenta.

8.9 Requisitos de admissibilidade – Especificidades


As interceções telefónicas são consideradas pela doutrina e jurisprudência um dos meios
de obtenção de prova mais intrusivos, uma vez que invadem a intimidade do visado e,
consequentemente, os direitos, liberdades e garantias constitucionalmente consagrados, como
são o direito à reserva da intimidade da vida privada e a ingerência nas telecomunicações.
Por esse motivo, nos termos do artigo 187.º, n.º 1, o juiz deverá atender a determinados
circunstancialismos, antes de autorizar a interceção telefónica. Nesta medida, deverão constar
nos autos, previamente à autorização de interceção telefónica, as razões concretas da
indispensabilidade daquele meio de obtenção de prova, devendo estar demonstrado nos autos
que:
a. Não é possível efetuar vigilâncias, recolha de informação ou outros meios de
recolha de prova para o inquérito, através dos meios tradicionais de investigação,
devido aos locais onde praticam os crimes, ou;
b. Devido aos meios de transporte que os suspeitos utilizam (viatura de alta
cilindrada) não são viáveis para efetuar qualquer tipo de seguimentos.
O alvo da interceção telefónica poderá ser o arguido, suspeito, pessoa que sirva de
intermediária, relativamente à qual haja fundadas razões para crer que recebe ou transmite
mensagens destinadas, ou provenientes, do suspeito ou arguido.
O alvo da interceção poderá ser ainda uma vítima de crime, mediante o despectivo
consentimento, efetivo, ou presumido. O consentimento só poderá ser presumido quando a
vítima estiver incontactável (art. 187.º, n.º 4).
A escuta telefónica só pode ser autorizada quando a investigação diga respeito a um dos
crimes «catálogo» previstos no artigo 187.º n.º1 e n. 2:
Qualquer conhecimento fortuito da prática de outro crime, que não se inclua nesse
«catálogo», não poderá ser valorado como prova, mas apenas como notícia de crime (art.
187.º, n.º 7);

54
8.10 Limites à admissibilidade das interceções telefónicas
É proibida a interceção de comunicações entre arguido e defensor, salvo se as
conversações constituírem objeto de crime (catálogo - 187º n.º5).
Só o juiz pode pôr fim a uma escuta telefónica, mediante requerimento do Ministério
Público.
O Juiz poderá indeferir o pedido de escutas sobre determinados suspeitos, ou deferir a
escuta por um prazo inferior ao solicitado.
As escutas telefónicas só podem ter lugar durante o inquérito, fixando-se o prazo máximo
de 3 meses, prorrogáveis.

9 MEDIDAS DE COAÇÃO E GARANTIA PATRIMONIAL

9.1 Noção
São providências de natureza cautelar e processual, limitadoras da liberdade do arguido
que têm em vista assegurar que o processo penal decorra sem incidentes.
Pela sua natureza, só excecionalmente é que elas podem ser aplicadas para limitar a
liberdade das pessoas, estão sujeitas ao princípio da legalidade (artes. 27º CRP e 191º CPP).
De acordo com o crime, com a infração cometida pelo arguido, assim o juiz irá ponderar
qual a medida de coação a aplicar ao arguido, dentro daquelas que estão previstas na lei;
depois será também proporcional à gravidade do crime (art. 193º CPP).

9.2 Pressupostos
É obrigatória a prévia constituição de arguido, quanto tenha de ser aplicada uma medida
de coação (art. 58º/1-b; 192º/1 CPP).
Só o Juiz de Instrução Criminal ou o juiz de julgamento, poderá decidir qual a medida de
coação a ser aplicada ao arguido (art. 194º/1 CPP).
Há apenas uma, chamada termo de identidade e residência (art. 196º CPP), que pode ser
aplicada pelo Ministério Público e pelo OPC. É a única medida de coação que foge à regra de
aplicação por parte do juiz, pode ser aplicada pelo Ministério Público e pelo OPC.
Todas as restantes medidas de coação são aplicadas mediante despacho de juiz, porque o
poder judicial é próprio do juiz e não do Ministério Público. Apenas o juiz tem o poder de
limitar os direitos do cidadão.
Por isso é que, sendo as medidas de coação limitadoras da liberdade das pessoas, apenas
poderão ser aplicadas por despacho de juiz.
Se uma medida de coação for aplicada (pelo juiz) durante o inquérito, faltando o
requerimento do Ministério Público, entende-se que se está perante uma nulidade insanável,
que poderá ser invocada a todo o tempo. Conduzirá portanto à anulação de tudo quanto se
processou a partir daquela data.
O juiz não está vinculado à medida de coação solicitada pelo Ministério Público. Isso iria
limitar a catividade do juiz no processo; a atividade judicial como que ficava subordinada a
um órgão que não é judicial e que, além do mais, é hierarquicamente dependente.

9.3 Termo de identidade e residência (art. 196.º)


É uma medida obrigatória para todos os processos que devam continuar após o
interrogatório do arguido:
- É aplicável a todos aqueles que forem constituídos arguidos;
- Sempre cumulável com outra medida de coação;

55
- Implica para o arguido as obrigações previstas no artigo 196º do CPP;
- O arguido é informado de que em caso de incumprimento será representado pelo seu
defensor incluindo a audiência de julgamento (art. 333º CPP).
A não sujeição do arguido a termo de identidade e residência, quando o processo
contínua após o primeiro interrogatório, constitui irregularidade processual, sujeita ao
regime do art. 123º CPP. Nos termos do art. 123º/2 CPP, a reparação da irregularidade deve
ser ordenada mesmo oficiosamente, logo que dela se tome conhecimento, determinando-se
que o arguido preste termo.

9.4 Caução (carcerária) (art. 197.º)


O arguido é obrigado a depositar uma determinada quantia que irá ser fixada pelo juiz
para que aguarde em liberdade os ulteriores termos do processo.
Tem como consequência que se o arguido deixar de cumprir as obrigações que lhe são
impostas perde esse dinheiro que depositou.
Pode ser cumulada com outra, com exceção da prisão preventiva, pressupostos:
- Crime punível com pena de prisão;
- Possibilidade de cumulação com outras que não seja a obrigação de permanência na
habitação e a prisão preventiva (art. 205º CPP);
- Possibilidade da sua substituição por outra ou outras em cumulação por dificuldades
(económicas) do arguido;
- Deve atender-se:
· Aos fins a que se destina;
· À gravidade do crime;
· À condição sócio-económica do arguido.
- Reforço da caução (art. 207º CPP);
- Se o arguido não prestar a caução ou não proceder ao reforço pode ser decretado o
arresto preventivo (art. 206º/4 e 228º CPP);
- Quebra da caução (art. 208º CPP).

9.5 Obrigação de apresentação periódica (art. 198.º)

9.6 Suspensão do exercício de profissão, de função, de atividade e de direitos (art.


199.º)

9.7 Proibição e imposição de condutas (art. 200.º)

9.8 Obrigação de permanência na habitação (art. 201.º)


O arguido não poderá sair da sua habitação.
Existência de fortes indícios de crime punível com pena de prisão de máximo superior a
três anos.
Possibilidade de utilização de meios de controlo à distância para fiscalização.

9.9 Prisão preventiva (art. 202.º)


É a medida de coação mais grave de todas (engloba todos os requisitos das restantes), é
uma medida de coação limitadora em absoluto da liberdade das pessoas.
Tem como sujeito passivo o arguido e tem como requisitos gerais para a sua aplicação os
previstos no art. 204º CPP.

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São toda uma série de circunstâncias que se podem verificar independentemente umas das
outras, estes requisitos não são cumulativos: basta que se verifique um, ou que haja a
possibilidade de ser verificar um, para que as mediadas de coação possam ser aplicadas.
A prisão preventiva, para além dos requisitos gerais do art. 204º CPP, tem também
requisitos especiais previstos no art. 202º CPP.
É uma medida de natureza excecional e tem também natureza subsidiária, isto é, só se
aplica se os fins que com ele se pretendem atingir não poderem ser conseguidos com a
aplicação de outra medida de coação menos gravosa (art. 28º/2 CRP; arts. 193º/2 – 204º
CPP).
Exceção ao princípio da subsidiariedade da prisão preventiva, é o art. 210º CPP.
Quanto ao prazo de duração máximo, vem previsto no art. 215º CPP.
Quanto à impugnação da prisão preventiva, vêm previstos nos art. 219º e 222º CPP.
A prisão preventiva é aplicada por despacho do juiz é um despacho judicial, suscetível de
recurso. Na generalidade, a decisão é impugnada mediante recurso para o Tribunal
imediatamente superior – Tribunal da Relação – a julgar no prazo de 30 dias.
Pode-se invocar o habeas corpus (art. 222º CPP), nas situações de prisão ilegal.
Verificada qualquer das situações referidas no art. 222º CPP, qualquer pessoa poderá
impugnar esta situação de prisão preventiva e fazer uma petição dirigida ao Presidente do
Supremo Tribunal de Justiça em que dá conta da situação em que se encontra e requerer que
seja posto de imediato em liberdade (ex. art. 220º CPP, ultrapassadas as 48 horas).

9.10 Revogação substituição e extinção da prisão preventiva


A prisão preventiva pode ser suspensa (art. 211º CPP). Mas a suspensão apenas se
verifica em situação de doença grave do arguido, ou tratando-se de arguida, numa situação de
gravidez ou de parto (puerpério).
A revogação vem prevista no art. 212º CPP. O juiz de três em três meses, ou a solicitação
do arguido, poderá revogar pura e simplesmente a prisão preventiva.
Poderá também, a solicitação ou a requerimento do arguido ou do seu defensor, substituir
a prisão preventiva por qualquer outra medida de coação.
No art. 214º CPP preveem-se os casos de extinção:
- Com o arquivamento do inquérito, se não for requerida abertura da instrução;
- Com o trânsito em julgado do despacho de não pronúncia;
- Com o trânsito em julgado do despacho que rejeita a acusação, nos termos do art.
311º/2-a CPP;
- Com a sentença absolutória, mesmo que dela tenha sido interposto recurso; ou
- Com o trânsito em julgado da sentença condenatória.

9.11 Medidas de garantia patrimonial, finalidade


Pode acontecer que no decurso do processo penal o arguido, receoso de vir a sofrer uma
condenação (de natureza penal), pense em salvaguardar o seu património.
Sempre que exista um receio fundado de que o arguido possa dissipar os seus bens e
depois não seja possível obter o pagamento da indemnização civil nem das custas do processo
pode o Tribunal oficiosamente ou a requerimento impor ao arguido a prestação de
uma caução económica (art. 227º/2 CPP).
Uma outra medida é o arresto preventivo (art. 228º CPP), características:
- Ele é aplicado quando falta a caução económica, quando o arguido não cumpre a
caução económica.
- Poderá ser decretado mesmo contra comerciantes divergindo aqui do arresto cível;

57
- Poderá haver uma oposição a este arresto, deduzida ou pelo arguido ou pelo
detentor dos bens; só que esta oposição, se for feita através de recurso, este será
devolutivo, nunca suspensivo, o arresto manter-se-á sempre;
- Também se mantém o arresto quando há dúvida relativamente à titularidade dos
bens.

9.12 Detenção
Figura próxima das medidas de coação, até porque também ela se vai prender com a
limitação, embora temporária da liberdade do arguido (arts. 254º segs. CPP).
A finalidade imediata da detenção é garantir que o arguido seja julgado no prazo máximo
de 48 horas, ou ser presente ao juiz competente para primeiro interrogatório judicial, ou para
aplicação ou execução de uma medida de coação, ou para assegurar a presença imediata do
detido perante autoridade judiciária em ato processual. Ninguém pode estar detido mais de 48
horas, sob pena de a detenção se tornar ilegal. Tem-se que distinguir na detenção:
Detenção em flagrante delito, qualquer autoridade judiciária, qualquer órgão de polícia
criminal, pode proceder à detenção. Exige-se uma certa conexão temporal, uma certa
decorrência natural dos factos, eles devem estar estritamente ligados uns com os outros, de
outra maneira quebrar-se-ia o elo de ligação e poder-se-ia ir para uma detenção numa situação
que já não era considerada flagrante delito.
A detenção em flagrante delito relaciona-se estritamente com a existência do processo
sumário, pelo que não deve ser dada às autoridades judiciárias ou policiais a
discricionariedade quanto à detenção, pois que isso poderá suscitar dúvidas quanto à sua
atuação e possibilitaria que fossem essas entidades a decidir sobre a forma de processo a
seguir.
O art. 255º/3 CPP, relativamente ao caráter semi-público do crime, dispõe que, se
verifiquem os pressupostos da detenção, esta é levada a cabo, mas só se mantém se, logo em
ato seguido, haver queixa por parte de quem para isso tem legitimidade. Cumpre, para efeito,
às autoridades ou às entidades policiais às quais é o detido entregue ouvir imediatamente os
titulares do direito de queixa. Se estes o exercerem, mandam levantar o auto, em que fique
registada; se a não exercerem, soltam o detido sem qualquer procedimento.
O art. 255º/4 CPP, é reflexo do carácter particular do crime. Aqui não haverá, em
qualquer caso, lugar a detenção, mas apenas à identificação do infrator, sem qualquer outro
procedimento, pois haverá que aguardar uma eventual iniciativa do titular do direito de
acusação.
Não sendo em flagrante delito (art. 257º CPP), a detenção só pode ser efetuada
por mandado emanado do juiz ou também do Ministério Público, quando ao crime cometido
for admissível a sua aplicação de prisão preventiva.
As autoridades de polícia criminal podem proceder à detenção fora do flagrante delito, só
que aqui terão que estar reunidos três pressupostos que vêm previstos no art. 257º/2 CPP.
a) Se tratar de caso em que é admissível a prisão preventiva;
b) Existirem elementos que tornem fundado o receio de fuga ou de continuação de
atividade criminosa; e
c) Não for possível, dada a situação de urgência e de perigo na demora, esperar pela
intervenção da autoridade judiciária
Tendo que se verificar estes requisitos cumulativamente, então poderá por iniciativa
própria proceder à detenção.
Também na detenção há a possibilidade de reagir através do habeas corpus. A petição é
dirigida ao Juiz de Instrução Criminal, e ele deverá deferi-la no mais curto espaço de tempo,

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ou seja, deve de imediato pôr a pessoa em liberdade, ou então, ouvi-la – art. 220.º. Ver
também artigo 261.º - a libertação é da iniciativa da entidade que tiver ordenado a detenção.

9.13 Comparação entre detenção e prisão preventiva


a) Quanto à sua natureza
A prisão preventiva é uma medida de coação processual mais grave.
A detenção, é uma medida de natureza cautelar, que não pressupõe tão pouco a
existência de um processo.
b) Quanto às suas finalidades
Na prisão preventiva, pretende-se evitar o perigo de fuga, ou o perigo de perturbação do
inquérito, ou o perigo da continuação da atividade criminosa (art. 204º CPP).
Com a detenção, pretende-se assegurar apenas a presença do arguido em ato judicial:
primeiro interrogatório, ou outros interrogatórios por parte do Ministério Público, ou ainda
para ser julgado sumariamente, por exemplo.
c) Quanto à duração
A prisão preventiva poderá atingir um máximo de quatro anos.
A detenção, nunca poderá ultrapassar as 48 horas.
d) Competência para a sua aplicação
A prisão preventiva será sempre aplicada pelo Juiz de Instrução Criminal na fase do
inquérito ou da instrução, ou pelo juiz de julgamento em qualquer outra fase, mesmo na fase
de recurso.
No caso da detenção, será competente qualquer entidade judicial (juiz ou Ministério
Público), qualquer autoridade de polícia criminal e até qualquer pessoa, em flagrante delito.
e) Sujeitos passivos
No caso da prisão preventiva, obrigatoriamente a pessoa tem que já estar constituída
como arguido, previamente deve ser constituída como arguido a pessoa a quem a prisão
preventiva deva ser aplicada.
A detenção é aplicada a qualquer suspeito ou até a um interveniente processual.

10 DAS MEDIDAS CAUTELARES E DE POLÍCIA

10.1 Considerações gerais


Foi através da consagração das medidas cautelares e de polícia, introduzidas no Código
de Processo Penal de 1987, que o legislador explicitou a sua preferência pela eficácia da ação
policial, em detrimento do rigor dos princípios. O legislador, ao tomar esta opção, assumiu
claramente que a realização de uma investigação criminal, para ser eficaz, necessita de ter ao
seu dispor meios de atuação rápida para a aquisição da prova, bem como para prevenir o
eventual delito. O Código de Processo Penal veio assim legalizar estes meios de atuação,
embora com a consciência de que eles representam um risco para os direitos fundamentais,
designadamente, se forem utilizados de forma abusiva. Daí que os critérios que legitimam os
órgãos de polícia criminal a intervir em sede de medidas cautelares e de polícia são restritos.
As medidas cautelares e de polícia podem impor limites à liberdade individual do
cidadão, com fundamento em razões de segurança interna, designadamente para prevenir um
atentado à ordem pública ou para proteger pessoas e bens. Essas medidas, com assento
constitucional (art.º 272.º, n.º 2 da CRP), têm que estar tipificadas na lei e respeitem os
princípios da proporcionalidade, necessidade e adequação.

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Por sua vez, a Constituição da República legitima as restrições dos direitos, liberdades e
garantias em determinadas circunstâncias, submetendo-as a determinados requisitos materiais,
previstos no artigo 18.º, n.º 2 da CRP, designadamente:
a. Que a restrição esteja expressamente admitida ou eventualmente imposta pela
Constituição (n.º 2, 1ª parte);
b. Que a restrição vise salvaguardar outro direito ou interesse constitucionalmente
protegido (n.º 2, in fine);
c. Que a restrição exigida se limite à medida necessária para alcançar esse objetivo (n.º
2, 2ª parte);

10.2 Finalidade das medidas cautelares e de polícia


As medidas cautelares e de polícia, para o acautelamento dos meios de prova, têm como
finalidade:
a. O acautelamento dos meios de prova propriamente dito (art.º 55.º, n.º 2 e 249, n.º 1);
b. A identificação de suspeito e pedido de informação (art.º 250.º);
c. A realização de revistas e buscas (art.º 251.º);
d. A apreensão de correspondência (art.º 252.º).
e. A localização celular (art.º 252.º- A);
As medidas cautelares e de polícia têm uma finalidade bem específica e delineada: são
medidas que os órgãos de polícia criminal devem tomar para assegurar os meios de obtenção
de prova sempre que tiverem notícia de um crime. Trata-se, em suma de realizarem uma
competência própria, como vem expressamente referido nos artigos 55.º, n.º 2 e 249.º, que
lhes permite uma primeira intervenção de caráter fundamentalmente cautelar.
Esta competência cautelar dos órgãos de polícia criminal para fins do processo pode ser
exercida antes de instaurado o inquérito (o que acontece na maior parte dos casos), ou já com
inquérito aberto, designadamente nos casos previstos nos n.ºs 1 e 3 do artigo 249.º
Os atos cautelares que o legislador tipificou no Código de Processo Penal, para assegurar
os meios de prova, não são os únicos que os órgãos de polícia criminal podem utilizar. Dito
de outro modo, aos órgãos de polícia criminal apenas está vedada a prática de atos cautelares
e urgentes que pertençam à reserva de competência exclusiva do Juiz de Instrução, ou do
Ministério Público, e que não sejam proibidos por lei (art.º 125.º), permitindo assim a
realização de qualquer outro ato, no âmbito da cláusula geral de competência, fixada no artigo
249.º, n.º 2, designadamente: «...Compete-lhes, nomeadamente, nos termos dos números
anteriores:»

10.3 A convalidação das medidas cautelares e de polícia


Os atos praticados ao abrigo das medidas cautelares e de polícia deverão ser
convalidados pelo Ministério Público ou Juiz de Instrução, conforme a fase do processo em
que essas medidas são praticadas, ou o tipo de ato praticado, na primeira intervenção que nele
tenha.
No caso, respetivamente, de suspensão de correspondência (art.º 252.º, n.º 2), revistas e
buscas, (art.º 174.º, n.º 4, al. a) e n.º 6), revistas de suspeitos, em caso de fuga iminente ou de
detenção, ou buscas não domiciliárias (art.º 251.º, n.º 1, al. a), a sindicância pertence
exclusivamente ao Juiz de Instrução, independentemente da fase em que o processo se
encontre, ou mesmo não havendo ainda processo. Em relação ao segundo tipo de atos
previstos no artigo 251.º, n.º 1 al. b), «…revistas de pessoas que tenham de participar ou
pretendam assistir a qualquer ato processual ou que, na qualidade de suspeitos, devam ser

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conduzidos a posto de polícia», o legislador continuou a onerar o Juiz de Instrução, à
sindicância deste tipo de atos, nos termos do n.º 2 do artigo 251.º.
Os restantes atos cautelares realizados pelos órgãos de polícia criminal são descritos em
relatório dirigido ao Magistrado do Ministério Público, tendo em vista a respetiva validação
(art.º 253.º, n.º 1). Este relatório deve descrever as investigações feitas e os resultados das
mesmas, isto é, os meios de prova recolhidos e os factos apurados, não obstante a descrição
dos atos realizados nos respetivos “autos”, nos termos do artigo 99.º.

10.4 Providências cautelares quanto aos meios de prova


Logo que haja notícia de um crime, compete aos órgãos de polícia criminal, nos termos do
artigo art.º 249.º, n.º 1:
a. Proceder a exames dos vestígios do crime, o que significa inspecionar e preservar o
local onde ocorreu o crime;
b. Impedir que as pessoas se afastarem do local do crime, enquanto a sua presença for
indispensável, proibindo-se, em caso de necessidade, a entrada ou trânsito de pessoas
estranhas ao local do crime, ou quaisquer outros atos que possam prejudicar a
descoberta da verdade (art.º 171.º, n.º 2, 173 e 249, n.º 2 al. a). Estas medidas têm por
finalidade assegurar a manutenção do estado das coisas e dos lugares (art.º 249.º, n.º 2,
al. a)).
c. Colher informações das pessoas que facilitem a descoberta dos agentes do crime, e a
sua reconstituição (art.º 249.º, n.º 2, al. b)), nível lhes impende, tanto quanto possível,
não só descobrir circunstâncias fundamentadoras ou agravantes da responsabilidade
criminal, como todas aquelas que, porventura, dirimam ou diminuam essa
responsabilidade. Só assim estes atos de iniciativa própria são compatíveis com uma
competência de coadjuvação e com a dependência funcional.
d. Proceder a apreensão no decurso de revistas ou buscas, em caso de urgência, ou
perigo na demora, bem como adotar as medidas cautelares necessárias à conservação ou
manutenção dos objetos apreendidos (art.º 249.º, n.º 2 al. c)). Estas apreensões são
sujeitas a validação pela Autoridade Judiciária, no prazo de 72 horas (art.º 178.º, n.º 6)
e. Em situações de morte violenta, deverá proceder-se de acordo com o estabelecido no
artigo 16.º, da Lei 45/2004 (Lei que estabelece o regime jurídico das perícias médico-
legais e forenses).

10.5 - Identificação de suspeitos e pedido de informações


Os órgãos de polícia criminal podem proceder à identificação de suspeito, em lugar
público, aberto ao público, ou sujeito a vigilância policial (art.º 250.º, n.º 1).
A Lei Constitucional n.º 1/97, de 20.09, veio introduzir a al. g), do n.º 3, do artigo 27.º da
Constituição, passando este artigo a consagrar a permissão de detenção de suspeitos para
efeito de identificação, pelo tempo estritamente necessário para o efeito. No entanto, em
termos processuais, a privação da liberdade para fins exclusivos de identificação não é
considerada uma detenção, mas sim uma medida cautelar de polícia, tendo em vista dotar o
órgão de polícia criminal de um instrumento legal que lhe permita a identificação de pessoas
suspeitas, quando as mesmas não estão na posse dos documentos de identificação previstos no
artigo 250.º, n.º 3.

61
10.6 - Requisitos respeitantes ao pedido de identificação
Nos termos do artigo 250.º os órgãos de polícia criminal apenas tem legitimidade para
solicitar a identificação quando:
a. O suspeito se encontre em lugares públicos, abertos ao público, ou sujeitos a
vigilância policial;
b. E sobre a pessoa a identificar, existam fundadas suspeitas da prática de um crime, ou
se encontre pendente processo de extradição ou de expulsão, ou haja mandado de
detenção;
Verificados os dois requisitos, os órgãos de polícia criminal devem previamente comprovar a
sua qualidade, exibindo a identificação e comunicando ao suspeito as circunstâncias que
fundamentam a obrigação da sua identificação, indicando-lhe os meios pelos quais se pode
identificar (n.º 2 do art.º 250.º).

10.7 Prerrogativas dadas ao suspeito para se identificar


Nos termos do n.º 3, 4 e 5, do artigo 250.º, o suspeito pode identificar-se mediante a
apresentação dos seguintes documentos:
a. Através de bilhete de identidade, no caso de ser cidadão português;
b. Através de título de residência, passaporte ou documento que substitua o passaporte,
no caso de ser estrangeiro;
Na impossibilidade de apresentar um dos documentos acima indicados, pode ainda
identificar-se mediante documento original, ou cópia autenticada, que contenha o seu nome
completo, a sua assinatura e fotografia;
Caso o suspeito não seja portador de nenhum documento anteriormente referido, pode
ainda identificar-se através dos seguintes meios:
a. Através de pessoa que venha a apresentar os seus documentos;
b. Ser acompanhado por órgãos de polícia criminal ao local onde possua os seus
documentos;
c. Através do reconhecimento da sua identidade, feita por pessoa que já fora
identificada nos termos do nº 3 do art.º 250.º, e que garanta a veracidade dos dados
pessoais indicados pelo identificado.

10.8 Condução do suspeito ao posto policial


Na impossibilidade de identificação, nos termos dos n.ºs 3, 4 e 5 do artigo 250.º o
suspeito pode ser conduzido ao posto policial mais próximo (n.º 6, do art.º 250.º), onde
poderá permanecer no máximo de 6 horas. Neste período de tempo, poderão ser realizadas,
caso necessário, provas dactiloscópicas, fotográficas, ou de natureza análoga, tendo em vista
apurar a sua identificação. Nessa altura, o identificado deverá fornecer uma residência onde
possa ser encontrado e receber comunicações das autoridades.

10.9 Formalidades legais da identificação


As diligências realizadas, tendo em vista a identificação do suspeito, são sempre
reduzidas a auto. No caso da suspeita não se confirmar, as provas de identificação do suspeito
deverão ser destruídas na presença dele, a seu pedido.
No período em que o suspeito se encontra no posto policial, é obrigatório faculta-lhe a
possibilidade de contactar com pessoa da sua confiança (n.º 9 do art.º 250.º).

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Os órgãos de polícia criminal podem pedir ao suspeito informações relativas a um crime,
tendo em vista a sua descoberta e respetiva conservação dos meios de prova (art.º 250.º, n.º
8).
Neste caso, não existindo ainda inquérito aberto, o suspeito deverá ser constituído
arguido – nos termos do art. 59.º. De entre as várias formas possíveis de identificação, poderá
verificar-se que o cidadão se identifique com um cartão de um qualquer clube desportivo ou
de uma associação, bastando-se tão só que tal documento contenha a fotografia do titular e a
sua assinatura tendo em vista a sua possível audição em declarações. Neste sentido ver
Circular 6/2002 da PGR).
Caso a audição do suspeito não seja formalizada no respetivo auto de declarações de
arguido, as declarações informais poderão vir a ser declaradas inexistentes.
Este tipo de diligência será entendida como uma fase de colheita de informações
relativas a um crime e que se prendem com a urgência relativamente à descoberta e
conservação dos meios de prova, no domínio da autonomia policial, o que não invalida a
obrigação imediata da transmissão da noticia do crime à entidade a quem cabe a direção do
inquérito (art.º 248.º).

10.10 A realização de provas dactiloscópicas e fotográficas - finalidades


O suspeito, ou arguido, poderá ser sujeito a resenha dactiloscópica e fotográfica, por três
ordens de razões:
a. Tendo em vista a confirmar ou não a suspeita, quando se encontre em lugar público,
aberto ao público ou sujeito a vigilância policial e não tenha possibilidade de se
identificar por uma das formas previstas no artigo 250.º, n.º 3, 4 e 5.
b. Para se sujeitar aos meios de prova admissíveis (art.º 61.º n.º 3 al. d);
c. Para submissão a registo policial, incluindo fotografia e resenha dactiloscópica para a
realização da ficha policial. (art.º 7.º da Lei 97-A/2009).

10.11 - A recusa de identificação de suspeito


Sendo a identificação inviabilizada pelo visado, com o seu não acatamento a uma ordem
de identificação, deverá ter-se em atenção se essa mesma ordem, face a uma situação
concreta, é ou não legitimada pela lei. Estando preenchidos os requisitos da identificação,
previstos no artigo 250.º, n.º 1 e 2, a ordem é legal fazendo incorrer o visado no crime de
desobediência previsto no art.º 348.º, n.º 1, al. b), do C.P.

10.12 As revistas e buscas


Contrariamente ao regime geral, onde as revistas e as buscas são autorizadas ou ordenadas
pela autoridade judiciária competente (art.º 174.º, n.º 3), no âmbito das medidas cautelares e
de polícia, o legislador consagrou casos excecionais ao regime regra, dispensando os órgãos
de polícia criminal da devida autorização judicial.
O artigo 251.º consagra poderes cautelares dos órgãos de polícia criminal quanto aos meios de
prova e poderes cautelares quanto à segurança dos atos processuais, permitindo-lhe,
designadamente:
a. Proceder a revista de suspeito, em caso de fuga iminente, podendo-se enquadrar esta
fuga nos casos em que o suspeito, após cometimento de um delito, tente ludibriar as
autoridades para não ser detido.
b. Realizar revistas, após a detenção de um suspeito. Nos casos da detenção ser
efetuada fora de flagrante delito, deverá aplicar-se o artigo 251.º, n.º 1, al. a). Quando a

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detenção for em circunstâncias de flagrante delito, a revista será a prevista no artigo
174.º, n.º 5, al. c). Ambas são consideradas de revistas de segurança.
c. Proceder a revistas de pessoas que tenham de participar ou pretendam assistir a
qualquer ato processual, ou que, na qualidade de suspeitos, devam ser conduzidos a
posto policial, sempre que houver razões para crer que ocultam armas ou outros objetos
com os quais possam praticar atos de violência (art.º 251.º, n.º 1, al b));
d. Proceder a buscas (não domiciliárias), devendo, para o efeito, estarem preenchidos os
seguintes requisitos, nos termos do artigo 251.º, n.º 1, al. a)):
i. O suspeito encontrar-se no local onde se vai realizar a busca;
ii. Haver fundada razão para crer que no interior do local onde se vai realizar a
busca, se ocultam objetos relacionados com o crime e que sejam suscetíveis de
servir de prova;
iii. Existir urgência na realização da busca, isto é, caso a busca não fosse realizada
nesse momento, a utilidade da mesma poderia perder-se.

10.13 Suspensão da remessa de correspondência


No caso de se estar perante a possibilidade de perda de informação útil à investigação, o
órgão de polícia criminal pode ordenar a suspensão da remessa de qualquer correspondência,
mesmo entre o arguido e o defensor, ou vice-versa. Esta suspensão de correspondência, em
estação de correios, será mantida pelo período máximo de 48 horas. Caso o Juiz não venha a
decretar a sua apreensão, esta será remetida ao destinatário.

10.14 Apreensão de correspondência em sede de medidas cautelares e de polícia


Em sede de medidas cautelares e de polícia, coloca-se a questão de saber se, nos casos
em que haja urgência ou perigo na demora, nomeadamente em caso de flagrante delito, ou no
decurso de buscas ou revistas, e em horário em que é impossível contactar com o Juiz, é ou
não possível ao órgão de polícia criminal apreender a correspondência, para a sujeitar a
posterior validação pelo Juiz, no prazo de 72 horas (art.º 178.º, n.º 5).
A resolução desta questão poderá ser obtida através de duas vias:
a. O órgão de polícia criminal pratica os atos necessários e urgentes para assegurar
aquele meio de prova, conservando a correspondência na sua posse, (sem utilizar o
instituto da apreensão), até contactar com o juiz, que poderá, ou não, ordenar a sua
apreensão (art.º 249.º, n.º 1 e 179.º e 269.º, n.º 1, al. d));
b. Proceder a apreensão da correspondência, independentemente de autorização para
agir (art.º 249º, nº 1 e 2, al. c) e art.º 178º, nº 4 CPP), sujeitando-a à validação do juiz,
no prazo máximo de 72 horas (art.º 178.º, n.º 5). Neste sentido, Acórdão do. STJ, de
18.05.2006).
Apesar da jurisprudência citada legitimar o órgão de polícia criminal a realizar a
apreensão de correspondência, nos moldes aí indicados, com o devido respeito pelo Douto
Acórdão, não somos da mesma opinião. Isto porque, nos termos dos artigos 178.º, n.º 1, a
apreensão de correspondência apenas pode ser efetuada através de ordem ou autorização do
Juiz, sendo, inclusivamente, um ato da sua exclusiva competência (269.º, n.º 1, al. d)).
Excecionalmente, nos termos do artigo 252.º, o Juiz pode autorizar os órgãos de polícia
criminal a suspenderem a remessa da correspondência ou a procederem à abertura imediata de
encomendas, ou valores fechados, que sejam suscetíveis de serem apreendidos.

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10.15 A localização celular
A localização celular, como meio de obtenção de prova, passou a estar regulada no
Código de Processo Penal, a partir da reforma operada em 2007. O artigo 252.º-A, contempla
duas situações distintas: uma relativa a matéria de prevenção criminal e outra relativa à sua
utilização como meio de prova.
O n.º 1 do artigo 252.º-A estipula o âmbito de aplicação da localização celular, sendo
pressuposto da sua utilização, estar em causa a lesão de bens jurídicos eminentemente
pessoais, designadamente a vida ou a integridade física.
Os n.ºs 2 e 3 preveem, respetivamente, as formalidades do pedido de localização celular,
consoante se esteja no âmbito de um processo-crime ou nos casos de prevenção criminal.
Neste último caso, a autoridade de polícia criminal pode ordenar às operadoras de
telemóveis que lhes seja facultada a informação referente à localização celular de um
determinado telemóvel, desde que obedeça ao princípio da necessidade e que estejam em
causa a violação dos bens jurídicos acima citados. Acontece, porém, que tecnicamente não é
possível efetuar uma localização celular, sem se proceder à interceção da comunicação
(escuta telefónica).
Uma vez que, os dados de localização celular são considerados abrangidos pelo âmbito
da norma constitucional prevista no artigo 34.º, n. 4, os dados obtidos através deste meio de
obtenção de prova deverão ser comunicados ao juiz, no prazo máximo de 48 horas (art.º
252.º- A, n.º 2).
A obtenção de dados sobre a localização celular só pode ser ordenada ou autorizada, em
qualquer fase do processo, por despacho do Juiz, quanto a crimes indicados no catálogo a que
se refere o n.º 1 do artigo 187.º e, em relação às pessoas enumeradas no n.º 4 do mesmo
preceito, entre as quais o suspeito ou o arguido.

10.16 O relatório
Todos os atos cautelares realizados ao abrigo das medidas cautelares e de polícia são,
obrigatoriamente, descritos em relatório, dirigido à Autoridade Judiciária competente, para a
respetiva validação.
O relatório deve descrever, de forma sucinta, todas as diligências realizadas e os
resultados das mesmas.
Quando forem realizadas revistas, buscas, ou quaisquer outros atos tendentes a
preservação da prova, deverão ser realizados os respetivos autos, que serão juntos ao
relatório.

11 VÍCIOS PROCESSUAIS

11.1 Inexistência
Traduz-se no facto de o ato não ser idóneo a produzir quaisquer efeitos de natureza
processual.
Ex. sentença proferida pelo Ministério Público. Este ato inexiste, não pode produzir
quaisquer efeitos; por conseguinte é insuscetível de ser sanado.
A inexistência tão pouco precisa de ser declarada. Verifica-se o vício da inexistência
quando ao ato faltam elementos que são essenciais à sua própria substância, de modo que em
caso algum pode produzir efeitos jurídicos.

11.2 Nulidade e irregularidades

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A nulidade consiste na inobservância da disposição da lei (processual penal).
Se a lei prevê que o ato deva ser feito de determinada maneira, e se não é temos um vício.
Esse ato, conforme as suas gravidades e as suas consequências, será considerado nulo ou
irregular.
Sabe-se que se trata de um ato nulo quando a lei expressamente o disser. Se a lei nada
disser, o ato é irregular.
Consagra-se no art.º 118º CPP, o princípio da legalidade no domínio das nulidades dos
atos processuais. Assim, para que algum ato processual relativamente ao qual tenha havido
violação ou inobservância das disposições legais do processo penal padeça do vício a
nulidade é necessário que a lei o diga expressamente; de outro modo o ato viciado sofrerá do
vício menor da irregularidade, submetido ao regime do art.º 123º CPP, mas não será nulo.
As nulidades podem ser sanáveis e insanáveis. Estas – as nulidades insanáveis – são
taxativas. Estão enumeradas no art.º 119º CPP, acrescendo-lhes as que assim são cominadas
em outras disposições legais. Desde que não cominadas como insanáveis, as nulidades
consagradas na lei serão sanáveis segundo o regime dos arts. 120º e 121º CPP.

11.3 Características das nulidades


As nulidades são sanadas:
-Ou pelo trânsito em julgado da sentença final;
-Ou pelo decurso do tempo.
A nulidade tem de ser declarada:
-Pode sê-lo oficiosamente;
-Ou pode ser através de arguição por parte dos interessados.
Poderá ser oficiosamente no caso das nulidades absoluto[1].
O próprio Tribunal pode aperceber-se de que foi cometida uma nulidade daquele género,
conhece dela, e por conseguinte, anula todos os atos praticados a partir daí.
As nulidades relativas, têm prazos para serem arguidas e só podem sê-lo pelos próprios
interessados.
- Ou pelo arguido, se se tratar de ato que ofenda os seus interesses e os seus direitos;
- Ou pelo assistente;
- Ou eventualmente pelo Ministério Público.

a) Nulidades gerais
São aquelas que a lei prevê num determinado artigo para determinados casos – art.º 119º
CPP (nulidades insanáveis).
Como consequência ou efeito das nulidades, anula os atos inválidos e ordena a sua
repetição. Abrange todos os atos que dependam deste e que com ele estejam conexos.
Portanto, o que está para trás não interessa.
O despacho que conhecer oficiosamente de uma nulidade (o caso de se tratar de uma
nulidade absoluta) deve indicar quais os atos que devem ser declarados nulos.

b) Nulidades relativas (art.º 120º CPP)


É a própria lei que vem dizer em que circunstância é que o ato é nulo.
Diferente é também a forma de arguição. Neste caso das nulidades relativas, rege o art.º
120º/3 CPP: ou a nulidade é praticada durante o ato em que está presente o interessado
(defensor do arguido, assistente ou Ministério Público) e portanto deve ser arguida até ao
final desse ato; ou então é praticado o ato e o interessado só toma conhecimento dele através
duma notificação.

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Nas formas de processo especial (sumário e sumaríssimo) a nulidade dever ser arguida no
início da audiência de julgamento.
Quando o ato não for considerado por lei como nulo, o ato é considerado como irregular
(art.º 118º/2 CPP).
A irregularidade não é tanto um vício, mas é uma imperfeição, o ato é menos perfeito.
Daí que o seu regime também seja diferente e venha previsto no art.º 123º CPP.
- A irregularidade tem que ser arguida no próprio ato, quando os interessados estejam
presentes; ou
- Não estando presentes os interessados nos três dias seguintes ao seu conhecimento
(art.º 123º/1 CPP)
A irregularidade do ato apenas afeta o ato em si e, eventualmente, outros cuja validade
possam decorrer dele. Mas, não será a anulabilidade de tudo quanto se fez.

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