Evolução do Direito Processual Penal
Evolução do Direito Processual Penal
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A competência da instrução preparatória era do juiz, finda a qual ele ordenava ao
Ministério Pulico que acusasse. Se o juiz não concordasse com a acusação do MP podia
ordenar que fizesse nova acusação e depois julgava.
Defensor é o colaborador da realização dos interesses da administração da justiça e que
vai assistir tecnicamente o arguido.
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Convenção Europeia sobre os direitos do Homem;
Convenção Europeia para a repressão do terrorismo;
A Lei nacional
Constituição da República Portuguesa;
Código de Processo Penal;
Lei Orgânica dos Tribunais;
Lei Orgânica do Ministério Público;
B. A Jurisprudência
C. A Doutrina
3 Interpretação/Integração/Aplicação
As Normas da Constituição – estas têm que estar sempre subjacente a qualquer interpretação
da lei processual penal.
a) Aplicação pessoal;
tempus regit actum – o tempo rege o ato. Exceções: alíneas a) e b) do n.º 2 do art. 5.º
CPP.
• Princípio da oficialidade
Em causa está saber a quem compete a iniciativa ou o impulso processual, portanto, o
impulso de investigar a infração, e quem compete também a decisão de submeter ou não
o infrator a julgamento.
Tem-se que considerar que tal iniciativa é tarefa estatal e ela é realizada
oficiosamente, em certos casos mesmo à margem da vontade e da atuação dos
particulares.
Em determinado tipo de crime, o Estado age oficiosamente: não necessita da
participação, ou do impulso particular, para que se desencadeie todo o processo de
investigação, com vista a determinar quem foram os agentes e a decisão de os submeter
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ou não a julgamento. O exercício da ação penal compete ao Ministério Público –
princípio da oficialidade.
Ao lado do Ministério Público, tem-se determinadas entidades oficiais que podem
promover e realizar certas diligências, mas sempre atos que são ou delegados pelas
autoridades judiciárias, ou sempre em coordenação com o Ministério Público – os
chamados órgãos de polícia criminal (arts. 55º e 56º CPP).
Esta subordinação às autoridades judiciárias advém do art. 248º CPP. O art. 242º
CPP, refere os casos de denúncia obrigatória, mas só para os órgãos de polícia criminal,
como também para os magistrados – entidades judiciárias (juiz ou Ministério Público).
Com esta denúncia obrigatória, com esta obrigação de comunicação dos atos, com o
levantamento dos autos de notícia e porque, nos termos do art. 48º CPP, é o Ministério
Público que tem legitimidade para promover o processo penal, a partir do momento em
que o Ministério Público tem conhecimento de um crime inicia toda a parte do inquérito.
Desde a notícia do crime que é dada ao Ministério Público, até ao julgamento, tudo se
vai desenvolver oficiosamente, através de órgãos ou entidades em que o Estado, detentor
do poder soberano de investigar, de esclarecer determinados factos praticados pelos
agentes e de sentenciar. Quer-se dizer, que se impede, se proíbe, a atuação de particulares
na investigação dos factos que constituem crime.
É nisto que se traduz o princípio da oficialidade, é o carácter público da promoção
processual.
Há limitações ao princípio da oficialidade:
a) Crimes particulares:
São constituídos por infrações de pequena gravidade, de infrações que, não se
relacionando com bens jurídicos fundamentais da comunidade, apenas atingem a pessoa
visada e a comunidade em si própria não se sente lesada, e por conseguinte, não sente
necessidade de reagir.
Deixa-se ao particular que tome a iniciativa de dar conhecimento, e depois ele
próprio, se quiser, após a diligência do inquérito, que deduza acusação.
Se o ofendido por um crime particular, quiser que haja procedimento criminal, dá
conhecimento ao Ministério Público e tem de declarar que se quer
constituir assistente, mas não é ele que vai fazer o inquérito, quem o faz é o Ministério
Público.
Simplesmente, depois de submeter o arguido ou não a julgamento, através da dedução
de acusação, essa decisão última pertence ao particular, se ele não o fizer o processo é
arquivado.
b) Crimes semi-públicos:
Aqui a comunidade já se sente lesada, sente que os seus valores fundamentais foram
violados. No entanto, põe acima dos valores comunitários os valores individuais que
foram infringidos, que foram violados, porque entende que a reação contra essa infração
depender a vítima, do ofendido.
Se o ofendido entende que não deve queixar-se, então a comunidade também não o
faz, mas se o fizer, a partir do momento em que o ofendido se queixou, então o Estado
assume nos seus ombros todo o processo, sem mais intervenção do ofendido: já não se
torna necessário ele constituir-se assistente e deduzir acusação particular.
A lei deixa nestes casos o direito de denúncia ao particular. Se ele quiser queixar-se,
então prossegue tudo como se fosse um crime público, como se a comunidade se sentisse
violada. O Estado assume todo o processo, desde o inquérito até ao julgamento.
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A queixa, a constituição de assistente, e a dedução de acusação por particular, são
momentos distintos.
1º Momento: a pessoa queixa-se e tem de declarar que se vai constituir assistente (art.
246º CPP).
2º Momento: a pessoa constitui-se assistente. Para tanto precisa de advogado para assinar
o requerimento[2]. Têm que estar reunidos os pressupostos processuais, como a
personalidade, a legitimidade, etc. e tem de pagar a taxa de justiça.
3º Momento: dedução da acusação particular é o momento ainda mais posterior, só surge
depois de feito o inquérito.
Nos crimes particulares, se o ofendido não declarar na queixa que se quer constituir
assistente, vai ser notificado pelo Ministério Público para o fazer. Só após a constituição
de assistente é que o Ministério Público inicia o inquérito.
No final do inquérito o particular é notificado para deduzir acusação particular (art.
285º CPP). Se o assistente não deduzir acusação particular, o processo é arquivado.
c) Crimes públicos:
Aqueles que pela sua gravidade e consequência, atingem de tal maneira os valores da
comunidade que esta não pode ficar inativa. E por conseguinte, basta a notícia do crime
para que o Ministério Público desencadeie todo o processo. E mais: é obrigado a deduzir
acusação, e durante o julgamento, tem que a sustentar (art. 53º/2-c CPC), tem que
mantê-la. Só poderá deixar de o fazer no final do julgamento, quando se passa à fase das
alegações gerais.
• Princípio da legalidade
Surge como forma de controlo da atividade do Ministério Público, que é um órgão
hierarquicamente dependente e responsável. Como é que o Ministério Público desencadeia o
processo? (art. 262º CPP)
Tem de haver, a chamada notícia do crime: se o crime for semi-público ou particular, tem
de ser o ofendido ou a pessoa a quem a lei confere legitimidade para tal a queixar-se, tem de
haver uma queixa.
Se o caso se trata de um crime público, basta que alguém dê a notícia ao Ministério
Público, basta o conhecimento por parte do Ministério Público para que ele desenvolva a ação
penal.
O princípio da legalidade, traduz-se, desde logo em processo penal, na obrigatoriedade
de o Ministério Público proceder, dar ou deduzir a acusação e sustentá-la efetivamente (art.
53º CPP), por todas as infrações de cujos os pressupostos tenha tido conhecimento e que
tenha logrado recolher no Inquérito indícios suficientes.
O princípio da legalidade não é apenas aplicado ao Ministério Público. Os juízes e os
órgãos de polícia criminal também estão sujeitos a este princípio.
Se quanto ao impulso inicial basta a notícia do crime, já para o impulso processual
sucessivo, imediato, que será a dedução da acusação, torna-se necessário que durante o
inquérito tenham sido recolhidos indícios suficientes de se ter verificado o crime e quem foi o
seu agente.
Após dedução de acusação, não acabou ainda a obrigação do Ministério Público respeitar
a legalidade. Durante a fase de julgamento ele deve não só manter essa acusação, como
sustentá-la efetivamente (art. 53º/2-c CPP).
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Esta expressão “sustentar efetivamente”, quer dizer que o Ministério Público, perante a
prova que está a ser produzida em audiência de julgamento, não pode pura e simplesmente
desistir.
Terminada aquela fase de julgamento em que se faz a prova dos factos, então já o
Ministério Público fica liberto da obediência ao princípio da legalidade.
Nos crimes particulares, o princípio da legalidade não existe, o Ministério Público, não é
obrigado a deduzir acusação; apenas está obrigado a fazer o inquérito: a partir do momento
em que há queixa, declaração de constituição de assistente, então o Ministério Público é
obrigado a fazer inquérito. Mas uma vez findo, não está obrigado a deduzir acusação porque
isso é um direito que compete em exclusivo ao particular.
Nos crimes semi-públicos, pode acontecer que ao Ministério Público seja retirada a
legitimidade para continuar. Mas aqui não se tem nenhuma ofensa ao princípio da legalidade,
o que acontece é que o ofendido, até à sentença pode desistir da queixa, da instância.
• Princípio da oportunidade
Consiste este princípio numa certa margem de discricionariedade concedida ao Ministério
Público para que ele desde logo resolva determinados casos, os arquive, não lhes dê
seguimento (arts. 277º segs. CPP). Estas situações:
- Ou é desde logo afastada, porque se trata daquelas bagatelas penais, e por conseguinte,
nem há lugar à promoção do processo.
- Ou então há indícios da prática do crime, houve toda uma investigação, mas não se
determinam os agentes, ou determinam-se os agentes mas eles são irresponsáveis ou
inimputáveis, ou estão isentos de aplicação de pena – no final do inquérito o processo é
arquivado.
Concede-se ao Ministério Público a faculdade de dispor do processo: concede-se portanto
um certo poder discricionário para resolver desde logo o processo. É o chamado princípio da
oportunidade, concedido ao Ministério Público e que certa forma constitui uma limitação ao
princípio da legalidade. Este princípio é aceite em casos muito restritos no Código de
Processo Penal – arts. 277º e 280º.
Uma outra situação em que se verifica o princípio da oportunidade é no art. 281º CPP –
suspensão provisória do processo. Aí também, desde que se verifiquem todos os requisitos,
isto é, desde que haja indícios suficientes da prática do crime, desde que seja conhecido o
agente e determinada a sua responsabilidade, se o crime não for punível em abstrato com pena
superior a 5 anos, se o arguido for primário, se for diminuta a culpa na sua atuação, se houver
a concordância do assistente e do próprio arguido e também do Juiz de Instrução Criminal, o
Ministério Público numa situação destas, pode decidir-se não pelo arquivamento, mas
pela “suspensão provisória do processo”. Isto é, o processo fica latente, fica suspenso: aplica-
se ao arguido certas injunções e normas de conduta. Esta situação mantém-se durante um
certo prazo (até 2 anos) art. 282.º; se ele cumprir, no fim do prazo o processo é arquivado; se
não cumprir, volta tudo ao princípio e, porque há indícios suficientes, é deduzida acusação.
Mas, se o legislador está a conceder ao Ministério Público a possibilidade de, em certas
situações, não deduzir acusação, não obedecer ao princípio da legalidade, então há que
controlar a própria legalidade do Ministério Público; ou seja, controlar a sua atuação sempre
que o Ministério Público não obedece à lei.
Uma das formas de controlar a sua atuação é através da chamada intervenção
hierárquica: quer isto dizer que o processo é levado ao conhecimento de um superior (art.
278º CPP).
A instrução é uma fase facultativa, em que se requer a intervenção do Juiz de Instrução
Criminal. O assistente é a pessoa ofendida, vítima do crime (...) que requereu ao juiz a sua
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intervenção como tal, e por tanto quer também colaborar no processo, ao lado do Ministério
Público.
O assistente pode requerer ao Juiz de Instrução Criminal que venha fazer uma
reapreciação do processo, é nisto que consiste o requerimento de abertura do processo o
assistente chama ao juiz de instrução, através de um requerimento em que expõe as razões
porque discorda da atuação do Ministério Público, eventualmente pode requerer que ele faça
certas diligências e requerer que ele aprecie a conduta do arguido no sentido de o submeter a
julgamento através de um despacho de pronúncia, tem-se aqui, também, uma forma de
controlo da atividade do Ministério Público.
As formas de controlo do Ministério Público são:
- Pelo superior hierárquico (art. 278º CPP);
- Pelo assistente (art. 287º/1-b CPP).
• Princípio da acusação
Com a adoção deste princípio, pretende-se assegurar o carácter isento, objetivo, imparcial
e independente da decisão judicial.
Com o processo penal pretende-se atingir uma determinada finalidade, e essa finalidade
será atingida com objetividade, com imparcialidade e mediante um órgão independente[3].
Para que isto seja assim, torna-se necessário que a entidade julgadora não possa ter
também funções de investigação e da acusação da infração, por conseguinte:
➢ O Ministério Público investiga e acusa;
➢ O juiz julga, aprecia a conduta do arguido.
Ao lado desta distinção entre entidade julgadora e entidade acusadora há que estipular e
postular um princípio de igualdade de “armas” entre a acusação e defesa. Ambos devem ter
mesmos direitos e os mesmos poderes.
Mas o Ministério Público tem mais poderes, tem uma máquina investigatória ao seu
dispor. Esta igualdade de direitos só será relevante nas fases seguintes ao Inquérito, na fase de
Instrução (quando houver) e na fase de julgamento. Nesta fase o Ministério Público e o
arguido têm os mesmos direitos, está assegurado pelo princípio do acusatório.
Se ambos têm os mesmos direitos e os mesmos poderes, então ambos participam na
realização do direito, na administração da justiça. É uma chamada participação
constitutiva dos sujeitos processuais afetados na decisão do caso em apreço, ambos
contribuem na definição do direito ao caso:
➢ O Ministério Público acusando, imputando ao arguido à prática de determinados
factos;
➢ O arguido defendendo-se, se o quiser fazer, impugnando, contestando, trazendo
justificações para a sua prática.
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Daí que a última pessoa a ser ouvida, a pronunciar-se num julgamento e após as
alegações finais é o arguido. Resultando, que o juiz só pode proferir a sua decisão depois de
dar ao arguido a possibilidade de contestar, de contrariar as razões ou os factos que lhe são
imputados.
Este princípio do contraditório está diretamente relacionado com o princípio da audiência.
A oportunidade que é conferida a todo o participante no processo de influir através da sua
audição na decisão do caso concreto.
Através do princípio da audiência tem-se o reconhecimento da dignidade pessoal do
homem, impedindo que ele se torne num objeto do processo. O arguido, como qualquer outro
sujeito processual, é um sujeito ativo, é um sujeito participativo em todo o processo. Por
conseguinte, deve ser ouvido porque através das suas declarações ele contribui para a decisão
do caso concreto.
• Princípio da investigação
O processo penal português será de estrutura basicamente acusatória, mas integrado
por um princípio da investigação.
Com este princípio da investigação permite-se ao juiz recolher provas sobre os factos já
constantes da acusação e da pronúncia.
Trata-se ainda, numa fase de inquérito, na possibilidade que é dada ao Ministério Público
de investigar autonomamente a prática do crime, após a denúncia, após o conhecimento ou
após a notícia do crime.
• Princípio da suficiência
No processo penal vão-se resolver todas as questões que interessam à decisão daquela
causa (art. 7º CPP).
Atribui-se ao juiz penal a competência para conhecer de todas as questões. Mas por vezes
os juízes deparam-se com determinadas questões no processo penal que, ou porque têm um
objeto diferente, ou porque têm uma natureza distinta da questão principal a resolver no
processo penal, ou ainda porque se revelam de uma complexidade extrema, a sua resolução
terá de ser decidida noutro Tribunal.
Estas questões que condicionam e por vezes, limitam o conhecimento do juiz penal são
aquilo a que se chama: questões prejudiciais em processo penal.
Questões de natureza civil, duas teses:
a) Tese do conhecimento obrigatório: o juiz penal é obrigado a conhecer todas as
questões; bem ou mal, o juiz penal tem delas conhecer. Em processo penal, o juiz deve
conhecer de tudo.
b) Tese da devolução obrigatória: sempre que aparece uma questão prejudicial, há que
devolvê-la para o Tribunal competente.
c) Tese eclética ou intermediária ou tese da devolução facultativa:
Há questões que pelo seu relevo, pela sua complexidade ou pela especialidade de que se revestem,
impõem que a sua decisão seja tomada por um Tribunal mais qualificado para o seu conhecimento
No nosso CPP concede-se um certo poder discricionário quanto à devolução ou não
devolução da questão prejudicial para outro Tribunal. É a tese da devolução facultativa, que
é uma tese intermediária: o juiz analisa a questão e se entender que não se sente à vontade
para a resolver em conformidade, devolve-a para o Tribunal que considere competente para a
resolver (art. 7º/2 CPP).
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Que esta questão seja de resolução necessária para se conhecer da infração penal. Isto é
torna-se necessário conhecer da questão prejudicial para se prosseguir a ação penal –
necessidade.
Entende-se pois que a questão de natureza não penal seja importante para a decisão da
causa em processo penal, isto é, que a questão prejudicial implique o conhecimento de um
elemento constitutivo da infração. Mas não um elemento qualquer: tem que ser um elemento
de tal modo relevante que possa decidir sobre a absolvição ou a condenação do arguido, não
basta uma mera circunstância atenuante.
Outro requisito – conveniência da sua resolução em processo penal – é que essa questão
possa ser resolvida convenientemente no processo penal. Isto é, o Tribunal penal só deverá
deixar de ordenar a devolução quando no processo penal tiver prova segura de todos os
elementos da infração.
Por conseguinte, conjugando com o primeiro requisito (da necessidade), ou decide pela
absolvição ou pela condenação, isto é, o Tribunal já tem elementos estão dependentes do
conhecimento da questão prejudicial e ela pode resolver-se convenientemente no processo
penal. Então, deve ser devolvida.
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modelo legal, apesar não ter causado, a realização do ato em desconformidade com a lei,
prejuízo algum às partes no processo.
• Princípio de inocência.
Enunciado primeiramente, a 10 de Dezembro de 1948, na D.U.D.H, o princípio da
presunção de inocência foi igualmente elevado à categoria de princípio fundamental na
C.R.P. de 1976, vigorando até aos dias de hoje, como um dos mais relevantes institutos de
defesa da posição do arguido, em processo penal. Diz o art. 32º nº 2 da C.R.P. que todo o
arguido se presume inocente até ao transito em julgado da decisão de condenação, devendo
ser julgado no mais curto prazo compatível com as garantias de defesa. Resulta pois do
exposto que só através da produção de prova inequívoca e infalível por parte da entidade
acusadora é que se pode produzir sentença acusatória contra o arguido, acompanhada de uma
determinada sanção penal (pena de prisão e/ ou pena de multa).
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vez mais do juízo sobre a absolvição e sobre a condenação. É sempre da formação de uma
convicção que se trata. Para tanto, na nomenclatura do Código de Processo Penal (art. 127º), a
entidade competente aprecia a prova segundo as regras da experiência e a livre convicção,
salvo quando a lei dispuser diferentemente. A livre apreciação é, então, o princípio máximo,
base e transversal de prova, que rege no processo desde o início deste. Ele “vale para todo o
decurso do processo penal e para todos os órgãos da justiça penal”. Substitui o sistema das
provas legais, que se baseava numa falta de confiança generalizada nos juízes. “O novo juiz
criado depois da revolução francesa é um funcionário do Estado, treinado profissionalmente e
um decisor neutro e responsável”. “Já não é necessário evitar que o juiz tenha uma ampla
discrição na sua decisão sobre os factos”.
Logo nas lições escritas em 1956, Cavaleiro de Ferreira fala em “livre convicção como
meio de descoberta da verdade” e não como “uma afirmação infundada de verdade”. 4
Esclarece que “o julgador, em vez de se encontrar ligado a normas prefixadas e abstratas
sobre a apreciação da prova, tem apenas de se subordinar à lógica, à psicologia e às máximas
da experiência.” Mas previne que “a convicção por livre não deixa de ser fundamentada” e
manifesta apreensão relativamente ao que chama de mutismo da jurisprudência de então:
“somente a supressão das provas legais tornou praticamente mudas a jurisprudência e a
doutrina a este respeito” (Cavaleiro de Ferreira refere-se à necessidade de fundamentação) “e
criou por isso o grave perigo dum puro subjetivismo na apreciação das provas”.
Nas lições escritas em 1975, Figueiredo Dias, realça a “deslocação do fulcro de
compreensão do próprio direito das normas gerais e abstratas para as circunstâncias concretas
do caso”. Ensina que livre apreciação significa ausência de critérios legais prefixados e,
simultaneamente, “liberdade de acordo com um dever – o dever de perseguir a chamada
verdade material – de tal sorte que a apreciação há-de ser, em concreto, recondutível a
critérios objetivos e suscetíveis de motivação e controlo”.5 Não poderá tratar-se de uma
convicção puramente subjetiva ou emocional. Curando-se sempre de uma convicção pessoal,
ela é necessariamente objetivável e motivável. Esclarece ainda Figueiredo Dias que a verdade
que se procura é uma verdade prático-jurídica, resultado de um convencimento do juiz sobre a
verdade dos factos para além de toda a dúvida razoável.
O processo penal português tem uma natureza essencialmente acusatória, não obstante a
existência de alguns afloramentos do princípio do inquisitório Como o juiz não pode ficar
com dúvidas resultante das provas produzidas pelas partes, é imperativo ultrapassar esse
obstáculo, esse estado de incerteza. Nessa medida, a existir ónus da prova, este recai sobre o
juiz que fica assim incumbido de providenciar as diligências necessárias ao apuramento dos
factos. “Não há lugar para um juiz passivo, impávido e sereno, a assistir ao duelo judiciário
entre a acusação e a defesa, que esgrimem as suas armas”.
Deste modo, além dos meios de prova oferecidos pela defesa e pela acusação em
momento oportuno, nada obsta a que o juiz possa ordenar oficiosamente (ou a requerimento)
outros meios de prova que se lhe afigurem necessários à descoberta da verdade e,
consequentemente, à boa decisão da causa. Isto significa, pois, que o juiz não se contenta para
a formação da sua convicção com o material probatório recolhido pelos demais sujeitos
processuais.
Contudo, esse poder autónomo de investigação depara-se com um limite: o objeto do
processo. Desta feita, o juiz só poderá investigar dentro do âmbito do objeto do processo, que
é fixado pelas partes (acusação e defesa). Resumindo: “ (…) o princípio da investigação
pretende-se traduzir antes o poder-dever que ao tribunal incumbe de esclarecer e instruir
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autonomamente, mesmo para além das contribuições da acusação e da defesa, o «facto»
sujeito a julgamento, criando aquele mesmo as bases necessárias à sua decisão”
• Princípio da publicidade;
• Princípio da oralidade;
O princípio da oralidade significa que os atos processuais do processo penal devem ser
praticados oralmente na presença dos participantes processuais (arts. 96.º, n.º 1, e 298.º, n.º 1
e arts. 348.º a 350.º do Código do Processo Penal - CPP), em especial no que respeita à
produção de prova em sede de audiência de discussão e julgamento (art. 96.º, n.º 1 do CPP).
O princípio da oralidade não impede (e até aconselha) que os atos praticados oralmente
fiquem documentados ou registados (através do respetivo auto e registo áudio ou audiovisual
– art. 99.º do CPP), de modo a permitir um controlo de prova, o que se revela importante para
efeitos de uma eventual interposição de recurso.
O princípio da oralidade tem vantagens e inconvenientes. Quanto às vantagens, para além
da celeridade, aponta-se sobretudo a descoberta da verdade (a inquirição, o diálogo e a
perceção da reação dos depoentes permite ou ajuda na realização de tal tarefa), embora se
possam apontar como desvantagens a subjetividade e perenidade decorrentes da oralidade e a
eventual falta de registo (mas esta desvantagem já não pode ser apresentada enquanto tal,
devido à documentação dos atos praticados oralmente, que anteriormente referimos).
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• Princípio da imediação;
O princípio da imediação significa que a decisão jurisdicional só pode ser proferida por
quem tenha assistido à produção de prova e à discussão da causa entre a acusação e a defesa e
que esta seja proferida o mais rápido possível após o término da audiência de discussão e
julgamento, bem como à necessidade de, na apreciação da matéria probatória, ser dada
preferência aos meios de prova que estejam em relação mais direta com os factos probandos
(os meios imediatos).
O princípio da imediação exige, assim, uma relação de proximidade (física e temporal)
entre os intervenientes processuais e o tribunal, de modo a que este possa ter uma perceção
própria (e autorizada) dos elementos que servirão de base para a fundamentação da decisão
jurisdicional.
Nos atos processuais tanto escritos como orais utiliza-se a língua portuguesa. Quando
houver de intervir no processo pessoa que não conhecer ou não dominar a língua portuguesa,
é nomeado, sem encargo para ela, intérprete idóneo – ver art. 92.º CPP.
Os atos processuais que tiverem de praticar-se sob a forma escrita são redigidos de modo
perfeitamente legível, não contendo espaços em branco que não sejam inutilizados, nem
entrelinhas, rasuras ou emendas que não sejam ressalvadas – ver art. 94.º CPP.
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Tem-se depois aqueles a que se chama simples participantes processuais. São pessoas
que intervêm no processo, mas que de forma alguma vão co-determinar a sua
tramitação. Eles intervêm e com a sua intervenção contribuem para a boa decisão da
causa, são eles:
- As testemunhas;
- Os peritos;
- Os intérpretes.
Quanto aos órgãos de polícia criminal (art. 55º CPP) têm por função coadjuvar as
autoridades judiciárias com vista à realização das finalidades do processo.
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E é esta característica do processo penal, de se dar ao Tribunal a possibilidade de,
independentemente do concurso das partes em julgamento, de investigar os factos constantes
da acusação e de valorar a prova adquirida e introduzida em julgamento, que confere ao
processo penal a estrutura de um processo sem partes.
Deve-se falar, sim, em sujeitos processuais.
5.5 O Tribunal
É um órgão de soberania, é um órgão independente, que tem como função administrar a
justiça em nome do povo (art. 202º – 110º CRP).
Como característica dos Tribunais tem-se a independência, (art. 203º CRP), os tribunais,
como órgãos de soberania que são, têm que ser independentes.
Independência também perante a organização hierárquica judicial. Isto é, o juiz não está
obrigado a aceitar ordens ou instruções de outros juízes a que deve obediência hierárquica.
Esta hierarquia apenas é relevante em matéria de organização judiciária, o juiz é
independente, não está obrigado a aceitar ordens ou instrução de outros juízes.
Relacionado com esta independência tem-se o carácter inamovível (art. 216º/1 CRP) dos
juízes. Juntamente com a inamovibilidade, tem-se a irresponsabilidade judicial (art. 216º/2
CRP), querendo isto dizer, que os juízes não respondem pelos seus julgamentos, pelas suas
decisões.
A lei processual penal criou um sistema de suspeições que têm como finalidade garantir
imparcialidade das decisões judiciais e defender o próprio juiz contra a suspeita de não ser
imparcial na sua decisão.
Os impedimentos traduzem-se na impossibilidade que o próprio juiz declara de participar
num processo, invocando qualquer das situações previstas no art. 39º CPP.
Depois temos as situações de recusas e escusas do art. 43.º CPP. Aí o arguido, o
Ministério Público, ou o assistente podem levantar a suspeita e requerer que aquele juiz seja
retirado do processo.
Portanto:
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- Impedimento (art. 39º CPP) é o próprio juiz que declara estar impedido de participar
de acordo com as situações nele constantes;
- Escusa ou recusa (art. 43º CPP), é a suspeição que qualquer sujeito processual (até
mesmo o próprio juiz) tem de ter daquele juiz para participar no processo. Quando for
solicitado ao tribunal competente pelo próprio juiz o mesmo pode ser escusado. O MP,
o arguido, o assistente ou as partes civis podem requerer a sua recusa.
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5.5.4 Conexão
Define-se conexão como a relação que intercede entre vários processos pendentes que se
encontrem na mesma fase, ou se vão instaurar, relação essa que poderá levar à unificação ou
apensação dos vários processos, sem que seja de atender às normas sobre a competência
material ou territorial[6]. Nunca há conexão em relação a processos que se encontrem em
fases distintas: se um se encontra na fase de instrução e outro na fase de inquérito, não é
possível haver conexão; se um se encontra na fase de instrução e outro em fase de
julgamento, também não; se um se encontra na fase de julgamento e outro na fase de recurso,
também não. Portanto, só não se atende à competência material ou territorial do Tribunal.
Para haver conexão (arts. 24º segs. CPP), torna-se necessário:
- Que o mesmo agente tenha cometido vários crimes;
- Que o mesmo crime tenha sido cometido por vários agentes em comparticipação; ou
- Que vários agentes tenham cometido diversos crimes em comparticipação;
- E destinando-se uns a continuar ou a ocultar os outros.
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Critérios de estrita objetividade
Compete ao Ministério Público investigar e trazer para o processo tudo o que possa
demonstrar a culpabilidade do arguido, mas também lhe compete carrear para o processo
todos os indícios que possam conduzir à minoração da pena do arguido, ou inclusivamente à
prova da sua inocência.
O Ministério Público deve ser isento, imparcial na sua investigação e na dedução da
acusação. Daí que se aplique também ao Ministério Público todo o sistema de impedimento e
suspeições relativo aos juízes (arts. 39º/43º/54.º CPP). Mas o pedido de escusa não é feito ao
Tribunal, mas ao seu superior hierárquico.
5.6.2. Legitimidade
O art. 50º CPP, relativamente a crimes particulares, em que é necessário haver queixa do
ofendido e constituição de assistente.
Quanto aos crimes semi-públicos, o Ministério Público só promove o processo quando
há uma queixa do ofendido ou das pessoas que tenham legitimidade para se queixar (art. 49º
CPP).
Ao Ministério Público não compete definir o direito ao caso, porque é uma atividade
própria dos Tribunais. No entanto, as funções exercidas pelo Ministério Público verifica-se
que em determinados casos ele quase que tem funções jurisdicionais.
A lei processual penal fala indiferentemente em denúncia, queixa, e em participação.
Entende-se que entre estes conceitos haverá alguma diferença.
a) A queixa
Refere-se essencialmente a crimes particulares e a crimes semi-públicos.
Têm legitimidade para a fazer os ofendidos ou as pessoas a quem a lei confere
legitimidade para tal.
A queixa refere-se ao crime pelo qual não se pode promover oficiosamente o processo
penal. É o ofendido que dá a notícia do crime ao Ministério Público. A partir desse momento
ele tem legitimidade para promover o processo.
b) A denúncia
Entende-se que se refere aos crimes públicos (art. 242.º e art. 244.º CPP). Tem
legitimidade para a fazer obrigatoriamente os órgãos de polícia criminal e as autoridades
judiciárias e ainda qualquer pessoa que tenha a faculdade de denunciar um crime.
18
c) A participação
É mais um ato administrativo, ou um ato do Governo, através do qual se vai transmitir ao
Ministério Público a notícia dum crime ocorrido no exercício das funções ou por causa delas
(art. 242º/1-b CPP).
A denúncia, a queixa e a participação podem ser feitas oralmente. Serão depois reduzidas
a escrito pelas entidades competentes, dando com isso origem aos autos de denúncia – art.
246.º
5.7. Inquérito
A seguir à receção das queixas, denúncias e/ou participações, compete ao Ministério
Público dirigir o inquérito (art. 53º/2-b CPP).
Vem definido no art. 262º CPP, e constitui um conjunto de diligências levadas a cabo pelo
Ministério Público, ou por ele delegadas nos órgãos de polícia criminal, que têm a finalidade
investigar a prática de um crime[9], de determinar os seus agentes[10] e a responsabilidade que
lhes cabe para que, apurado tudo isto, se decida se deve ou não deve submeter-se o autor da
infração a julgamento.
Os atos de inquérito vêm regulados nos arts. 267º segs. CPP. Com o encerramento do
inquérito o Ministério Público pode tomar uma de quatro posições:
- Deduz acusação;
- Arquiva o inquérito;
- Suspende provisoriamente o processo;
- Arquivamento em caso de dispensa de pena.
5.7.2 Acusação
O Ministério Público, através de indícios que o levam a convencer-se de que a pessoa
teria cometido o crime. Não precisa de ter uma certeza, basta que haja indícios, passar-se-á
19
eventualmente à fase seguinte ao inquérito – a fase do julgamento – em que se produzirão
provas e examinarão todas as provas.
E então, submete o arguido a julgamento, isto é, deduz contra ele, uma acusação.
O Ministério Público convence-se de que o arguido cometeu o crime. E mesmo que ele
tenha dúvidas quanto à prática desse crime, como aqui não poderá funcionar por analogia o
princípio in dubio pro reo, então ele deve acusar. É isso que lhe é imposto pelo princípio da
legalidade (art. 283º CPP).
É esta possibilidade razoável que forma a convicção do Ministério Público quanto à
suficiência dos elementos que recolheu para submeter o arguido a julgamento.
Em conclusão, os indícios serão suficientes quando o Ministério Público conclui que os
elementos de prova já recolhidos por si ou conjuntamente com outros que depois advenham
ao processo, numa fase posterior, possam conduzir à aplicação ao arguido de uma pena ou de
uma medida de segurança.
20
Uma vez constituído como assistente, o Ministério Público inicia o inquérito. Chegando
ao fim do inquérito, há que deduzir a acusação. Quem vai acusar em primeiro lugar é o
assistente (art. 285º/1 CPP).
O assistente vai dirigir a acusação ao Tribunal. Pois, não pode ser ao Ministério Público,
porque foi ele que fez o inquérito; já terminou as suas funções, não tem competência para
apreciar a acusação.
O objetivo da acusação é submeter o arguido a julgamento. Portanto, a acusação é
dirigida ao Tribunal. A acusação segue os mesmos termos que a acusação feita pelo
Ministério Público.
5.8 Instrução
A instrução, não é um novo inquérito, mas tão-só um momento processual de
comprovação.
Trata-se de uma fase dotada de uma audiência rápida e informal, mas oral e contraditória,
destinada a comprovar judicialmente a decisão do Ministério Público de acusar ou de não
acusar, e que portanto termina por um despacho de pronúncia ou de não pronúncia.
É óbvio, por outro lado, que, tratando-se já de uma fase judicial, a sua estrutura
eminentemente acusatória deverá apresentar-se integrada pelo princípio da investigação; não
terá por isso o Juiz de Instrução Criminal de limitar-se, em vista da pronúncia, ao material
21
probatório que lhe seja apresentado pela acusação e pela defesa, mas deve antes – se para
tanto achar razão – instruir autonomamente o facto em apreciação com a colaboração dos
órgãos de polícia criminal.
Tem como finalidade, comprovar judicialmente a decisão de deduzir a acusação ou de
arquivar o inquérito com o fim último de submeter ou não o arguido a julgamento sendo a sua
natureza facultativa (art. 286º/2 CPP).
5.8.1 Legitimidade
Têm legitimidade para requerer a abertura da instrução o arguido ou assistente, nunca o
Ministério Público.
a) O arguido (art. 287º/1-a CPP)
Tem legitimidade para requerer a abertura da instrução em caso de acusação: ou de
acusação formulada, pelo Ministério Público ou acusação formulada pelo particular que se
constitui assistente.
O arguido vai requerer ao juiz que examine novamente os autos do inquérito, porque ele
discorda da atitude do Ministério Público ou do assistente. Entende que os elementos de
prova que constam do processo não são relevantes de forma a preverem que ele seja
condenado, ou que lhe possa ser aplicada uma pena ou medida de segurança.
22
Mas já é possível recurso quando seja um despacho de não pronúncia (art. 310º CPP).
Uma vez que o assistente vê desde logo afastada a possibilidade de ver a sua posição ser
apreciada por um Tribunal, então pode recorrer do despacho.
O princípio do acusatório impede que seja o juiz a tomar a iniciativa de alterar a
acusação; por isso, se entender que se provam indiciariamente factos que alterem
substancialmente os da acusação, limitar-se-á a não receber a que foi deduzida, proferindo
despacho de não pronúncia e comunicando ao Ministério Público os factos para que, quanto a
eles, abra inquérito.
Mas se Juiz de Instrução Criminal vier a pronunciar o arguido por outros crimes, ou venha
agravar o crime cometido, estar-se-á numa situação de alteração substancial dos factos
descritos na acusação e então essa decisão era nula (art. 309º CPP).
5.9 O arguido
Sujeito processual essencial para o processo, de tal maneira que se não houver arguido
não há acusação, não pode haver julgamento.
O condenado é a pessoa contra quem já foi proferida uma sentença de condenação.
O suspeito, será toda a pessoa relativamente à qual exista um indício (não muito forte) de
que praticou um crime, ou se prepara para cometer um crime, ou nele participou ou se prepara
para participar.
O arguido, será a pessoa singular contra quem foi deduzida acusação, contra quem foi
requerida a abertura da instrução penal ou que veio a ser constituída como tal nos autos.
Com a notificação da acusação a pessoa, ao tomar conhecimento, assume a qualidade
de arguido.
Tem-se de distinguir:
· Por um lado a assunção da qualidade de arguido;
· Por outro lado, a constituição dessa pessoa como arguido (art. 58º CPP).
A partir do momento da comunicação (art. 58º/2 CPP), adquire-se a qualidade de sujeito
processual. Se faltar essa comunicação, oral ou escrita, as consequências são desde logo que
tudo quanto o arguido disse até esse momento não pode ser usado contra ele. Ou seja, se ele
confessou o crime, se disse como o preparou, o que fez, etc., tudo isso é como que apagado,
não pode ser usado contra ele (art. 58º/5 CPP).
As outras formas de constituição da qualidade de arguido encontram-se enumeradas nos
arts. 57º e 59º CPP.
Quando uma pessoa formula o pedido de que se quer constituir arguido (art. 59º/2 CPP),
adquire essa qualidade a partir do momento em que lhe é notificado o despacho que o admite
como tal.
Pretende-se com a constituição de arguido, desde logo dar conhecimento tempestivo à
pessoa de existência de um processo contra ela, e possibilitar-lhe a faculdade de ela ir em
tempo útil preparando a sua defesa.
23
Há que notar, que a aquisição – quer por assunção, quer por constituição – da qualidade
de arguido pressupõe a intervenção do Ministério Público.
a) Direitos do arguido:
1) Direito a todas as garantias de defesa, estabelecido no art. 32º/1 CRP.
2) Presunção de inocência até trânsito em julgado da decisão de condenação (art.
32º/2 CRP).
3) Direito a julgamento no mais curto prazo compatível com as garantias de defesa
(art. 32º/12 CRP).
4) Direito à escolha de defensor, a ser por ele assistido em todos os atos do processo
e a comunicar, mesmo em privado, com ele (art. 32º/3 CRP e 61º/1-e) e f) CPP).
Porém enquanto o arguido pode constituir defensor em qualquer altura do processo,
o juiz é obrigado a nomear-lho nos casos em que a lei determina a obrigatoriedade
de assistência do defensor (art. 64º CPP).
5) Direito de estar presente nos atos processuais que diretamente lhe disserem
respeito (art. 32º/7 CRP; art. 61º/1-a CPP). Os atos que dizem respeito ao arguido,
são todos aqueles relativamente aos quais vale em geral o princípio da
contrariedade. Quer-se dar ao arguido a mais ampla possibilidade de tomar
posição, a todo o momento, sobre o material que possa ser feito valer
processualmente contra si, ao mesmo tempo que garantir-lhe uma relação de
imediação com o juiz e com as provas.
6) Direito de audiência pelo Tribunal ou pelo Juiz de Instrução Criminal sempre que
eles devam tomar qualquer decisão que pessoalmente o afete (art. 61º/1-b CPP).
7) Direito de não responder a perguntas feitas relativamente a factos que lhe são
imputados (art. 61º/1-d CPP).
8) Direito de intervir no inquérito e na instrução, oferecendo provas e requerendo
diligências (art. 61º/1-g CPP).
9) Direito à informação dos direitos que lhe assistem (art. 61º/1-h CPP; vide também
arts. 141º/4 e 144º CPP).
10) Outros direitos previstos no artigo 61.º n.º 1 CPP.
5.9.2 O defensor
A função do defensor será não só de carrear para os autos tudo quanto seja favorável à
posição do arguido mas também e sobretudo fazer realçar no processo tudo o que for útil de
modo a favorecer a posição do arguido.
24
A função do defensor é, conjuntamente com o Tribunal e com o Ministério Público trazer
provas que possam afastar a imputabilidade, ou minorar a pena a aplicar ao arguido, como
também dar realce a essas situações.
O art. 62º CPP, indica quem tem legitimidade para ser defensor. Em princípio deve ser
advogado ou advogado estagiário.
A falta de nomeação de defensor constitui uma mera irregularidade, o Tribunal não
nomeou, ainda está a tempo de o fazer. A falta de assistência, designadamente nos atos em
que é obrigatória a assistência do defensor constitui uma nulidade insanável. Essa nulidade
será invocável a todo o tempo, até ao trânsito em julgado da sentença, obrigando à repetição
de todos os atos que se praticaram a partir daí.
O Código de Processo Penal submete o arguido a três tipos de interrogatório, como ainda
lhe concede uma alegação final no fim da audiência de julgamento, quanto aos
interrogatórios:
- Um interrogatório não judicial, que é feito pelo Ministério Público e eventualmente
pelos órgãos de polícia criminal a quem foram delegadas essas funções (art. 143º
CPP);
- Um interrogatório judicial, que é feito pelo Juiz de Instrução Criminal (art. 141.º);
- Um interrogatório judicial feito pelo juiz de julgamento.
Durante qualquer um dos interrogatórios judiciais só o Tribunal é que pode fazer um
interrogatório direto ao arguido. Os outros sujeitos processuais farão esse interrogatório
através do Tribunal, a não ser que este consinta um interrogatório direto (arts. 141º/6; 345º/2
CPP)
5.10 O assistente
Para se falar em assistente é necessário distinguir:
a) Ofendido: titular de interesses que a lei especialmente quis proteger com a
incriminação, desde que maior de 16 anos (art. 68º/1-a CPP), ou seja, titular dos
interesses que a lei quis especialmente proteger quando formulou a norma penal;
b) A Vítima: é um conceito que vai para além do conceito de ofendido, uma vez que
nele alberga quer as vítimas de um crime público (ofendido), quer as vítimas de
crime semi-público ou particular.
c) Lesado: o titular de um interesse de natureza civil. É a pessoa (singular ou coletiva)
que sofreu danos ocasionados com a prática do crime (art. 74º/1 CPP);
d) Partes civis: são as pessoas (singulares ou coletivas) que por terem legitimidade para
deduzirem (lesados) ou contra eles ser deduzido, em processo penal um pedido de
indemnização de natureza cível derivado da prática de um crime, intervêm ou são
chamadas a intervir no processo, são sujeitos processuais;
f) Assistente: é a pessoa (s) (singular ou coletiva) que, por serem ofendidas ou porque a
lei lhes confere legitimidade para se constituírem como tal (art. 68º/1 CPP),
requereram ao juiz a sua intervenção no processo penal para ai fazerem valer os seus
interesses (de natureza penal e conjuntamente de natureza cível), quer em colaboração
com o Ministério Público (crimes públicos e semi-públicos), quer autonomamente nos
casos previstos na lei (crimes particulares), e que por despacho judicial foram
admitidas como tal. É um sujeito processual.
25
5.10.1 Legitimidade
Torna-se necessário que a pessoa tenha mais de 16 anos, que seja titular de um interesse
que a lei penal quis proteger (art. 68º CPP).
Se o ofendido nada fizer, tratando-se de um crime público; ou se apresentar meramente
uma queixa, tratando-se de um crime semi-público, os seus interesses serão defendidos pelo
Ministério Público. Se quiser intervir no processo, então, tem de adquirir a qualidade de
sujeito processual. O ofendido adquire essa qualidade requerendo a constituição como
assistente, isto é, vai pedir ao juiz que o admita a intervir nos autos como sujeito processual,
na qualidade de assistente. O assistente tem de ser representado por advogado (art. 70º CPP).
O ofendido pode requerer a sua constituição como assistente desde o início do processo
até um determinado momento, que difere consoante seja ou não requerida a abertura da
instrução – requisito de tempestividade (art. 68.º n.º 3 CPP):
- Se houver Instrução, é até cinco dias antes da data marcada para o debate
instrutório;
- Não havendo instrução, passando-se logo para a fase de julgamento, então é desde
que o requeira até cinco dias antes do início da audiência de julgamento.
- Nos casos de acusação pelo assistente (art. 284.º CPP), e de abertura de instrução
pelo assistente (art. 287.º n.º 1 b) CPP), nos prazos previstos para a prática destes atos
(art. 68.º n.º 2 b).
- No prazo para interposição do recurso da sentença (art. 68.º n.º 2 c).
a) Requisitos formais:
- É necessário que tenha legitimidade, e para isso tem de ser o ofendido ou alguma
das pessoas a que se refere o art. 68º CPP;
- Tem que fazer um requerimento ao juiz (Juiz de Instrução Criminal, ou juiz de
julgamento, dependendo da fase em que requerer) – art. 68º/2 CPP;
- Tem que fazer esse requerimento em tempo quanto a crimes particulares – 10 dias a
contar da advertência do n.º 4 do artigo 246.º. (art. 68º/2 CPP);
- O art. 70º CPP; faz referência à representação judiciária dos assistentes.
b) Requisitos substanciais:
Não ter existido renúncia à queixa, se houver renúncia, a pessoa não pode depois vir a
constituir-se assistente.
Também não se pode constituir assistente quem tenha comparticipado num crime.
O requerimento é acompanhado da respetiva procuração que constitui o mandatário e é
depois levado à apreciação do juiz para proferir um despacho de admissão ou de
indeferimento.
Se faltar algum dos requisitos enunciados, então o juiz deverá proferir um despacho de
indeferimento.
26
Há contudo uma exceção, em que se invertem os termos, em que o assistente passa a
sujeito principal e o Ministério Público passa a sujeito subordinado e que decorre dos crimes
particulares.
Nestes, o procedimento criminal só tem lugar se houver queixa, constituição de assistente
e só há julgamento se o assistente acusar (acusação particular). O Ministério Público poderá
acusar depois de o assistente o ter feito (art. 285º CPP).
Direitos do assistente:
- Direito de intervenção no inquérito, oferecendo provas, requerendo diligências;
- Direito de deduzir acusação: quer o art. 69º/2 b) CPP, quer o art. 284º CPP, se
referem à acusação do assistente;
- Pode também interpor recurso (art. 69º/2 c) CPP)
O assistente pode ainda na audiência de julgamento:
- Inquirir as testemunhas, diretamente.
- Inquirir o arguido, através do Tribunal (art. 345º/2 CPP);
- Tem direito de requerer a consulta dos autos (art. 89º/1 CPP).
5.11 A Vítima
Vítima de crime é uma pessoa que, em consequência de ato praticado contra as leis penais
em vigor, sofreu um ataque contra a sua vida, integridade física ou mental, um sofrimento de
ordem emocional ou uma perda material. Consideram-se também vítimas os familiares
próximos ou as pessoas a cargo da vítima direta, bem como as pessoas que tenham sofrido
algum tipo de dano ao intervirem para prestar assistência às vítimas ou para impedir a
vitimação.
A maior parte dos atos que em Portugal são considerados crime estão descritos no Código
Penal, mas há alguns, como por exemplo o tráfico de droga ou a detenção de arma proibida,
que se encontram previstos noutras leis.
No processo-crime, a vítima é quase sempre chamada para participar como testemunha,
pois o conhecimento direto que tem do que aconteceu é muito importante para a descoberta
da verdade.
Mas se a vítima quiser apresentar um pedido de indemnização contra o arguido por causa
dos danos que o crime lhe causou, pode, para além de testemunha, intervir no processo
como parte civil. Enquanto parte civil, a vítima vai apresentar um pedido de indemnização e
respetivas provas dos prejuízos que sofreu.
Se a vítima quiser intervir de forma mais ativa no processo, pode constituir-se como
assistente, apesar de a lei lhe conferir, com este artigo 67.º-A – CPP, o direito de colaborar
com as autoridades policiais ou judiciárias competentes prestando informações e facultando
provas que se revelem necessárias à descoberta da verdade e à boa decisão da causa. O
assistente tem como papel colaborar com o Ministério Público e, ao assumir esse estatuto, a
vítima tem a possibilidade de participar mais ativamente no processo.
O assistente pode, por exemplo, opor-se à suspensão provisória do processo ou participar
ativamente na proposta de decisão das injunções necessárias para a sua aceitação, requerer
diligências que considere necessárias, pedir a abertura da fase de instrução caso não concorde
com a decisão do Ministério Público no final da fase de inquérito, apresentar recurso das
decisões que o afetem, entre outras.
A Lei n.º 130/2015, de 4/09, aprovou o estatuto da vítima, incluindo o da vítima
especialmente vulnerável.
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5.12 As Partes civis – o lesado
O lesado é aquela pessoa que não sofre diretamente o crime, mas por efeito dele sofre
danos (art. 74º CPP).
Lesado deve ser considerada toda a pessoa que, segundo as normas de Direito Civil tenha
sido prejudicada em interesses seus juridicamente protegidos, desta perspetiva se alcançando
um conceito lacto ou extensivo de ofendido, que abrangerá todas as pessoas civilmente
lesadas pela infração penal.
Em suma, dever-se-á considerar lesado, para os efeitos do art. 74º CPP, todo aquele que
perante o Direito Processual Penal tiver legitimidade para formular o pedido de
indemnização.
O lesado, quando só é lesado, porque não é o ofendido, nunca se poderá constituir como
assistente, a lei não lhe confere legitimidade, a não ser que se encontre previsto no art. 68º
CPP.
O assistente tem que estar sempre numa relação direta com o crime; o lesado, apenas
nessa qualidade, nunca se pode constituir assistente. Quando ofendido e lesado se fundam
numa única pessoa então, nesse caso, como ofendido, já poderá constituir-se como assistente.
28
5.12.2 Legitimidade para intervir no pedido de indemnização
Do lado passivo, tem-se duas pessoas:
- O arguido, o infrator contra quem é imputada a prática de um crime: ele será
responsável pelo pagamento da indemnização;
- Pode haver também um responsável meramente civil, que é a pessoa singular ou
coletiva que está obrigada ao ressarcimento do dano que é ocasionado pelo crime - O
responsável meramente civil poderá ser demandado ou poderá ele próprio fazer a sua
intervenção porque, nomeadamente se houver um direito de regresso contra o arguido,
tem interesse em discutir se houve ou não houve causas de exclusão da sua
responsabilidade.
Quanto à legitimidade ativa, essencialmente pertence ao lesado. O lesado, se quer intervir
no processo, se quer formular um pedido de indemnização, faz-se representar por advogado
(art. 76º/1 CPP) ou então é representado pelo Ministério Público (art. 76.º/3). Mas poderá
pertencer também a uma parte civil. Neste conceito cabem não só as pessoas singulares, como
também as pessoas coletivas.
A posição do lesado no processo restringe-se ao exercício dos poderes de sustentação e da
prova em matéria cível quanto ao pedido de indemnização.
O lesado pode exercer o seu direito, a partir da sua intervenção no processo, ou a partir do
momento em que as autoridades judiciárias lhe comuniquem esses direitos.
É-lhe comunicado esses direitos quando, num processo penal o Ministério Público ou o
juiz se aperceber que há alguém que foi afetado pela prática do crime, isto é, que sofreu danos
ocasionados pelo crime, deve notificá-lo e informá-lo de que tem um direito a ser
indemnizado pelos prejuízos sofridos (art. 75º CPP) – dever de informação.
O arguido pode contestar o pedido de indemnização. Daqui, não decorre nenhuma
consequência, na medida em que a falta de contestação não implica a condenação no pedido
de indemnização.
29
Quando formulado pelo assistente o pedido de indemnização é deduzido na acusação ou
no prazo em que esta deva ser formulada. Em dez dias, após a notificação da acusação do
Ministério Público, o assistente pode também deduzir acusação (art. 284º CPP).
Esta alternativa, aplica-se aos crimes públicos e semi-públicos, em que o assistente pode
não acusar, pode pura e simplesmente fazer sua a acusação do Ministério Público, ou seja,
pode aderir à acusação do Ministério Público, a formulação do pedido em requerimento
articulado, no prazo em que deva ser deduzida a acusação. (art. 77.º n.º 1)
Significa isto que se o assistente não deduzir acusação então deve, nesses dez dias,
formular o pedido de indemnização, sob pena de o mesmo depois não ser conhecido.
Nos crimes particulares o pedido deve ser formulado na acusação.
Se não houver acusação não há prosseguimento do processo penal nos crimes
particulares, em que é obrigatória a acusação por parte do assistente. Portanto, quando ele
deduz a acusação, formula também o pedido de indemnização, na mesma peça processual.
O art. 77º/2 CPP, refere-se ao pedido de indemnização feito pelo lesado, que intervém no
processo através de advogado – art. 76.º n.º 1 CPP.
Quando à data do despacho de pronúncia ou da data do julgamento ainda não são
conhecidos os danos, então poder-se-á deixar a formulação do pedido para uma execução de
sentença.
6 A PROVA
CONSIDERAÇÕES GERAIS
30
O problema surge, muitas vezes, no momento em que se tenta definir a quem cabe o ónus
da prova e é nessa altura que muitas pessoas se confundem. O risco aqui é atribuir esse ónus à
pessoa errada, invertendo assim a lógica do raciocínio e destruindo a sua sustentação.
O ónus da prova tem assento constitucional no artigo 32.º, n.º 2 da CRP: …«todo o
arguido se presume inocente até ao trânsito em julgado da sentença de condenação». Portanto,
não é o arguido que tem de provar os factos que demonstrem a sua inocência, mas é a
acusação que tem de provar os factos de onde resulte a sua culpabilidade.
31
c. O princípio da livre convicção do juiz ao invés da prova tarifada e da íntima convicção,
ou do intimo convencimento do juiz”.
32
Para se densificar o conceito de tortura, devemos recorrer ao n.º 3 do artigo 243.º do
Código Penal, nos termos do qual tipifica como tortura: «…o tratamento cruel, degradante ou
desumano, o ato que consista em infligir sofrimento físico ou psicológico agudo, cansaço
físico ou psicológico grave ou no emprego de produtos químicos, drogas ou outros meios,
naturais ou artificiais, com intenção de perturbar a capacidade de determinação ou a livre
manifestação de vontade da vítima».
Também o artigo 1.º da Convenção contra a Tortura e outros Tratamentos ou Penas
Cruéis, Desumanos ou Degradantes.
2. As proibições de utilização das provas obtidas mediante coação (artigo 154.º do
Código Penal);
3. Densificação do conceito de ofensivas à integridade física ou moral.
A utilização de polígrafos e de técnicas de narcoanálise também são consideradas
impeditivas do domínio da vontade (em virtude de conduzirem uma exposição aos
pensamentos do examinando que não é medida pelo consciente deste), devendo apenas ser
admitido (de acordo com Costa Andrade e Quirino Soares) em benefício do arguido.
4. «…a força» constitucionalmente tolerável será apenas aquela que seja necessária para
neutralizar a resistência do sujeito e assegurar o cumprimento dos deveres a que está
obrigado».
A concretização do conceito de ofensa à integridade física ou moral das pessoas,
constante do n.º2 do artigo 126.º do CPP, não pode deixar de ser considerada meramente
exemplificativa, admitindo a proibição de provas que contendam com a integridade física e
moral de formas que não se encontrem expressamente previstas nessa norma;
5. A promessa de vantagem legalmente inadmissível;
A promessa de vantagem legalmente inadmissível poderá ocorrer em situações em que a
confissão é fruto de promessas ou vantagens não previstas na lei e, por isso, inadmissíveis.
33
6.10 O consentimento
Para que estejamos perante um consentimento válido, no que concerne ao n.º3 do artigo
126.º do CPP, este deve:
a. Ser dado pelo efetivo titular do direito e não da pessoa que tiver disponibilidade sobre
ele;
b. Dizer respeito a direitos disponíveis (como o direito à não intromissão na vida privada,
no domicílio, na correspondência ou nas telecomunicações);
34
6.13 Livre convicção na apreciação da prova
Como anteriormente já foi salientado, o princípio da livre apreciação da prova (art.
127.º) foi uma das grandes alterações no sistema das provas legais.
A livre apreciação da prova assenta pois nas regras da experiência e da livre convicção
da entidade competente. É na audiência de julgamento que tal princípio assume particular
relevo, tendo sempre presente a motivação ou fundamentação da convicção que dela emerge.
Também os atos decisórios são obrigatoriamente fundamentados (art.º 97.º, n.º 5).
As limitações a este princípio encontram-se nos casos previstos nos artigos 169.º
(documentos autênticos e autenticados) e 163.º (prova pericial).
Importa salientar, por último, que a liberdade do julgador, consagrada na livre apreciação
da prova, não o liberta das provas que se produziram nos autos, pois é com elas que terá que
decidir, não podendo, no entanto, estender essa liberdade até ao ponto de cair no puro arbítrio.
7 OS MEIOS DE PROVA
7.1 Generalidades
A prova, como demonstração da realidade, distingue-se dos meios de prova ou meios
para atingir essa realidade
Os meios de prova podem ter a sua origem em pessoas ou coisas e por isso a prova é
denominada, respetivamente, de prova pessoal ou subjetiva e prova real ou material.
A prova é pessoal quando resulta de um ato de uma pessoa, como seja o depoimento de
uma testemunha, as declarações do arguido, a acareação, o reconhecimento e a reconstituição
do facto. Na prova pessoal as pessoas relatam factos de que têm conhecimento direto e que
constituem objeto de prova. A prova pessoal consiste, por sua vez, num ato de comunicação
que tem lugar entre um determinado sujeito processual, que transmite a informação, e uma
autoridade judiciária ou órgão de polícia criminal que a recebe.
A prova é real quando resulta da observação de coisas como, por exemplo, um
documento ou um instrumento que serviu para a prática de um crime.
O homem também poderá ser objeto de prova real, quando é tomado como objeto de
observação ou exame como, por exemplo, no exame pericial sobre ferimentos que sofreu em
resultado do crime sobre si praticado.
A prova real resulta assim da observação, análise e interpretação de factos, lugares,
coisas ou pessoas.
35
Quando se afirma que a testemunha não é parte na causa significa isto dizer que a
testemunha não tem qualquer interesse nos factos em discussão, tendo obrigatoriamente que
ser isenta e imparcial. Acontece porém que na realidade, por situações diversas, nem sempre
isso acontece.
36
O legislador proibiu que determinadas pessoas prestem declarações na qualidade de
testemunhas, por entender que, face à qualidade em que surgem no processo, haveria sempre
um interesse na causa pela qual iriam testemunhar (art. 133.º). Por esse motivo, foram
declaradas impedidas de testemunhar.
Por razões diversas, neste caso de natureza familiar, o legislador veio permitir a recusa
do depoimento aos parentes do arguido, designadamente aqueles que se encontram referidos
nas alíneas a) e b) do artigo 134.º CPP. Estas pessoas não estão impedidas de depor, podendo
sim exercer o direito de se recusarem a fazê-lo. A entidade que elabora o auto de inquirição
de testemunha está obrigada, sob pena de nulidade do depoimento, a informar o direito que
lhes assiste.
No caso de testemunha menor de 16 anos, a lei não abre qualquer exceção quando ao
dever de testemunhar (art. 131.º), apesar de nestes casos não existir responsabilidade penal
derivada de uma eventual recusa de depoimento. (art. 19.º do CP).
Nos casos de haver necessidade da audição de menor de 18 anos, a respetiva notificação
deverá ser sempre feita através dos seus legais representantes (pais ou tutores), uma vez que
os menores ainda não têm capacidade jurídica (artigos 122.º e seguintes do Código Civil).
37
Às testemunhas podem ser mostrados peças do processo (como por exemplo objetos
aprendidos, documentos, fotografias de locais, entre outros), desde que essa exibição seja
conveniente para a descoberta da verdade.
Quando a testemunha, no momento do seu depoimento, se faz acompanhar de
documento, ou objeto que tenha interesse como meio de prova, deverá ficar a constar esse
facto no auto de inquirição, lavrando-se igualmente o respetivo auto de junção daquele meio
de prova.
38
pessoas que às mesmas prestem serviços, assim como o segredo dos funcionários da
administração fiscal, cedem perante ordem da autoridade judiciária titular da direcção do
processo.
A partir do momento em que a autoridade judiciária profira o despacho a ordenar a
quebra do segredo profissional e quando não for conhecida a pessoa ou pessoas titulares das
contas intervenientes, pode-se bastar com a indicação das contas e transacções relativas às
quais devem ser obtidas informações.
O pedido de quebra de segredo bancário é feito diretamente às instituições em questão,
as quais são obrigadas a fornecer os elementos pretendidos no prazo de cinco dias, quanto a
informações disponíveis em suporte informático ou de trinta dias, quanto aos respectivos
documentos de suporte e a informações não disponíveis em suporte informático, prazo este
reduzido a metade quando existam arguidos detidos ou presos (art. 3.º da Lei 5/2002).
Foi também atribuído ao Ministério Público e à Polícia Judiciária o acesso às bases de
dados da administração fiscal, nos termos do nº 6 do artigo 2º do diploma em análise, acesso
este que poderá revestir-se de essencial importância, atento o novo regime de perda de bens a
favor do estado, pois que, nos termos do n.º 1 do artigo 7º, «…presume-se constituir
vantagem da atividade criminosa a diferença entre o valor do património do arguido e aquele
que seja congruente com o seu rendimento lícito».
Nos termos do artigo 4º, prevê-se o controlo de contas bancárias, consubstanciado na
obrigação imposta à entidade bancária junto da qual a mesma se encontre aberta, de
comunicar quaisquer movimentos sobre a conta à autoridade judiciária ou Polícia Judiciária,
dentro das 24 horas subsequentes à respectiva realização. Este controlo das contas bancárias
depende de despacho do juiz, devendo ser apenas emitido quando tiver grande interesse para
a descoberta da verdade, sendo que, como resulta do nº 3 da mesma norma, pode ser imposta
a obrigação de suspensão de movimentos a especificar no despacho que a determine,
«…quando tal seja necessário para prevenir a prática do crime de branqueamento de
capitais».
AS DECLARAÇÕES DO ARGUIDO
7.12 Generalidades
As declarações de arguido constituem um meio de defesa desse sujeito processual em
sede de inquérito. Partindo-se do princípio que o processo se encontra em segredo de justiça,
o arguido apenas pode ter conhecimento dos factos de que é suspeito, e defender-se, no
momento em que presta declarações.
Em regra, o arguido presta declarações livre na sua pessoa, isto é, não se encontrando
algemado, salvo em situações de perigo de fuga ou de prática de atos de violência, que
obriguem àquela medida de segurança.
39
De acordo com as regras gerais previstas no artigo 140.º, n.º 2, o arguido deverá ser
questionado sobre factos que possua conhecimento direto e que constituam objeto de prova
(art.º 128º). A audição deverá ser efetuada de acordo com as regras da inquirição (art. 138.º).
O arguido tem a obrigação de responder com verdade às perguntas sobre a sua
identidade, sob pena de incorrer na prática do crime de falsidade de declaração, previsto no
artigo 359.º, n.º 2, do C.P. – art. 61.º n.º 3 b).
O arguido tem o direito de não prestar declarações e no caso de as querer prestar não tem
a obrigação de dizer a verdade.
O arguido nunca presta juramento.
40
a. Caso a aplicação do TIR seja suficiente, ordena a libertação imediata do arguido;
b. Entendendo o Magistrado do Ministério Publico que é necessária a aplicação de uma
medida de coação mais grave do que o TIR, ou de medida de garantia patrimonial, requer ao
juiz a realização de primeiro interrogatório judicial do arguido, para esse efeito.
O primeiro interrogatório não judicial de arguido detido obedece às mesmas regras do
interrogatório judicial.
O arguido deverá ser sempre presente na comarca onde se tiver consumado o crime. No
entanto, em caso de urgência, poderá o detido ser ouvido pelo Ministério Público da comarca
onde se realizou a detenção, apesar do processo ter sido aberto em comarca diferente. (art.
264.º, n.º 1 e 4).
41
7.14 Procedimentos sobre interrogatório
Previamente ao interrogatório é perguntado ao arguido pelo nome, filiação, naturalidade,
data de nascimento, estado civil, profissão, residência, local de trabalho, sendo-lhe exigido, se
necessário, documento oficial de identificação. Deve ser advertido previamente que a falta de
resposta a estas perguntas ou a sua falsidade pode faze-lo incorrer em responsabilidade penal
(141º nº 3 + art. 143.º n.º 2 e 144º n.º 1 art. 61.º n.º 3 b));
Em seguida, é informado dos seus direitos (previstos no art. 61.º, n.º1), nomeadamente
que tem o direito de ser assistido por advogado (no caso de arguido em liberdade) e que tem o
direito a não responder às perguntas sobre os factos que lhe são imputados.
a. São expostos ao arguido os factos que lhe são concretamente imputados, incluindo
sempre que forem conhecidas as circunstâncias de tempo, lugar e modo. Após esta
informação, o arguido declara se pretende ou não prestar declarações e, em caso afirmativo,
poderá ainda optar por responder apenas a um tipo de perguntas.
b. Todas as informações e advertências ao arguido devem ficar a constar no auto de
interrogatório, ainda que por súmula (art. 99.º, n.º 3, al. c) e 275.º, n.º 1);
42
ser realizadas em sede própria, isto é, autonomamente, e remetidas ao magistrado titular do
processo (art. os 141.º, n.º 6 e 144.º).
43
A prova por reconhecimento pode conduzir diretamente a resultados de importância
determinante na descoberta da verdade e contribuir para a convicção do julgador na valoração
do material probatório.
Face à importância deste meio de prova, deverá proceder-se com o máximo de cautela e
rigorosa observação das regras descritas no artigo 147.º., sob pena de perder todo o seu valor
como meio de prova.
44
7.23 Reconhecimentos de objetos
Com as devidas adaptações, são correspondentemente aplicáveis as regras do
reconhecimento pessoal (art.º 148).
Não está previsto o reconhecimento de objetos por fotografias ou gravações.
A RECONSTITUIÇÃO DO FACTO
45
A reconstituição do facto tem como finalidade sedimentar os meios de prova já
existentes no processo, uma vez que a confissão do arguido é instável, podendo vir a não ter
qualquer valor em sede de julgamento.
Poderão ser utilizados meios audiovisuais na reconstituição do facto (art.ºs 101.º, n.º 1),
tendo em vista o seu visionamento em fase de instrução ou julgamento (art. 356.º, n.º 1, al.
b)).
A publicidade da diligência deve ser evitada, na medida em que prejudique a descoberta
da verdade.
A PROVA PERICIAL
7.26 Generalidades
A perícia é a «…atividade de perceção ou apreciação dos factos probandos efetuada por
pessoas dotadas de especiais conhecimentos técnicos, científicos ou artísticos»;
O artigo 151.º diz-nos quando tem lugar a prova pericial. Haverá sempre lugar a perícia
«…quando a perceção ou apreciação dos factos exigirem especiais conhecimentos técnicos,
científicos ou artísticos».
A prova pericial distingue-se do exame: O exame é um meio de obtenção de prova e visa
a deteção de vestígios. A perícia visa a avaliação desses mesmos vestígios. O exame não
supõe a existência de especiais conhecimentos técnicos, ao contrário da perícia.
O investigador deverá averiguar e informar sobre a necessidade de realização de uma
perícia, tendo em vista os esclarecimentos de determinado facto, bem como a sua valoração.
A perícia é feita por técnicos de estabelecimentos oficiais ou de laboratórios aprovados
pelo Instituto de Medicina Legal, Laboratório de Polícia Cientifica e Laboratório de Polícia
Técnico-Científica.
As perícias sobre características físicas ou psíquicas são realizadas por médico, ou outra
pessoa legalmente autorizada, não podendo criar perigo para a saúde do visado (art. 156.º, n.º
6).
46
7.28 O despacho a ordenar a perícia
Para que a atividade de perceção ou apreciação dos factos probando se possa considerar
uma perícia, deverá ser precedida de um despacho que a ordene. Caso contrário, o ato de
perceção ou apreciação será considerado um mero exame, sujeito à livre apreciação da prova.
O despacho deverá ser sempre fundamentado (art. 97.º, n.º 5), pois trata-se de uma
decisão, cujo conteúdo, pode afetar o arguido, o assistente ou as partes civis.
O despacho que ordena a perícia é comunicado, mediante notificação, ao arguido,
assistente e às partes civis (art. 154.º, n.º 4)
A lei prevê duas exceções ao dever de notificação, que resultam do possível prejuízo
para a investigação, designadamente as previstas no n.º 5 do artigo 154.º.
O despacho que ordena a perícia deverá conter:
a. A definição do objeto da perícia;
b. A identidade do perito;
c. A formulação de quesitos, caso se entenda importante mencioná-los em sede de
despacho;
d. A autorização para destruir ou alterar o objeto que tenha de ser submetido a
perícia;
e. Sendo a perícia ordenada em sede de inquérito, a justificação da ausência do
arguido, assistente ou partes civis, com um dos fundamentos mencionados no n.º 5 do artigo
154.º.
Em sede de inquérito a perícia é ordenada:
a. Pelo juiz de instrução, quando a perícia se debruce sobre uma das matérias
mencionada no artigo art. 154, n.º 2; 178
b. Pelo Ministério Público, em todos os outros casos, desde que não se debruce sobre
as matérias indicadas no artigo 154.º, n.º 3;
c. Pela Autoridade de Polícia Criminal (art. 10.º, n.º 1, al. a), da Lei 97-A/2009, de
03.9.), exceto a realização da perícia médico-legal (art. 270.º, n.º 3), e sobre as matérias
indicadas no artigo 154.º, n.º 3.
d. Pela autoridade de polícia criminal, nos casos indicados no artigo 270.º, n.º 3.
47
7.31 Valor da prova pericial
A prova pericial é uma das excepções à livre apreciação da prova, prevista no artigo
127.º. O juízo técnico, científico ou artístico presume-se subtraído à livre apreciação do
julgador. Quer isto dizer que o próprio julgador não pode funcionar ele mesmo como perito,
afastando deliberadamente o parecer contido no relatório, substituindo-lhe, sem o
fundamentar, outros elementos de convicção. Ninguém pode, efectivamente, ser ao mesmo
tempo juiz e perito.
PROVA DOCUMENTAL
7.32 Generalidades
Documento é «…a declaração, sinal ou notação corporizada em escrito ou em qualquer
outro meio técnico», nos termos do artigo 259.º do Código Penal.
Em regra, os documentos têm que ser juntos ao processo no decurso do inquérito ou da
instrução. Excecionalmente, provada a impossibilidade de junção numa daquelas fases do
processo, pode o documento ser junto até ao encerramento da audiência.
Todo o documento que tenha por objetivo a descoberta da verdade deverá ser junto aos
autos (art. 267.º).
A equipa de investigação que tem a seu cargo uma investigação, pode juntar documentos
ao inquérito, sem embargo desses mesmos documentos poderem vir a ser restituídos ao seu
titular (186.ºn.º 2).
48
7.36 A gravação de imagem em locais públicos
A fotografia, como vem previsto no artigo 167.º, enquadra-se como meio prova
documental.
A partir de finais do séc. XX, a utilização deste meio de prova passou a ser uma
ferramenta fundamental, quer na prevenção de crimes, quer na recolha de prova.
Dadas as crescentes preocupações sociais geradas pelo aumento da criminalidade grave,
pela própria globalização e incremento de processos tecnológicos na execução de crimes, de
que é exemplo o atentado terrorista de 11 de Setembro, em 2002, foi aprovada a Lei que
estabelece medidas de combate à criminalidade organizada e económico-financeira (Lei nº
5/2002 de 11.01).
Esta lei teve por objetivo dotar a investigação criminal de maior eficácia e agilidade no
combate às novas formas de criminalidade organizada, permitindo o uso de novos meios
tecnológicos de obtenção de prova.
Recorda-se que a recolha de imagem, para efeitos de investigação criminal, apenas se
encontrava prevista no artigo 167.º do CPP e no artigo 79.º n.º 2 do Código Civil, norma que
têm por finalidade proteger o direito à imagem.
Da leitura do artigo 6.º, da lei 5/2002185, parece ter havido por parte do legislador
apenas a preocupação de abordar a questão das denominadas escutas ambientais, matéria que
também não se encontrava regulamentada até à entrada em vigo da referida lei. Acontece,
porém, que não foi acautelada e individualizada a simples recolha de imagem em local
público, para efeitos de investigação.
A doutrina e principalmente jurisprudência não têm sido uniformes quando à
interpretação a dar a simples recolha de imagem, em local público, para efeitos de
investigação.
Devido a preocupações de natureza mais garantistica na preservação dos direitos
individuais, a jurisprudência mais recente tem invertido o entendimento a dar sobre os
pressupostos formais da recolha de imagem, em locais públicos, entendendo a mais recente,
ser agora necessário a autorização do juiz, para a simples recolha de imagem de um suspeito
que se encontre na via pública, mesmo para os casos em que se investiga um dos crimes
catálogo, previstos no artigo 1.º da citada lei 5/2002
De acordo com o art. 6º, n.º 3 da Lei 5/2002, são também aplicáveis à recolha de
imagem, as formalidades constantes no artigo 188.º, n.ºs 3 e 4 do Código Processo Penal,
designadamente, os prazos indicados para o órgão de polícia criminal levar ao conhecimento
do Ministério Público e juiz de instrução, as respetivas fotografias.
7.37 A vídeovigilância
A recolha de imagem através de vídeo vigilância pode ser utilizada com fim de
prevenção ao crime e como meio de prova.
O princípio fundamental a reter em relação à jurisprudência do Tribunal Constitucional é
o de que, envolvendo os sistemas de videovigilância restrições de direitos, liberdades e
garantias (direito à imagem, liberdade de movimentos, direito à reserva da vida privada),
caberá à lei fundamental (art. 18.º, n.º 2 da CRP), definir em que medida estes sistemas
poderão ser utilizados e, especialmente, assegurar, numa situação de conflito de direitos
fundamentais, que as restrições se limitem ao mínimo necessário para salvaguardar outros
direitos ou interesses fundamentais.
49
O objetivo foi marcadamente o de assegurar a proteção de pessoas e bens, proteção de
edifícios, instalações e prevenção da prática de crimes em locais em que exista razoável risco
da sua ocorrência (art. 2º, n.º 1 da Lei 1/2005, de 10.01).
O sistema de videovigilância apenas poderá ser autorizado pelo membro do Governo que
tutela a força ou serviço de segurança, após parecer da Comissão Nacional de Proteção de
Dados (CNPD), quando tenha um dos fins previstos no artigo 2.º da citada Lei.
O pedido de autorização de instalação de câmaras fixas é feito pelo dirigente máximo da
força ou serviço de segurança, ou ainda pelo presidente da Câmara (art. 5.º, n.º 1 e 2, da Lei
1/2005, de 10.01).
A utilização das câmaras de vigilância deverá reger-se pelos princípios orientadores
previstos no artigo 7.º, da Lei 1/2005, de 10.01.
Quando a gravação realizada registe relevância criminal, no prazo de 72 horas após o
conhecimento dos factos, a força ou serviço de segurança que utiliza o sistema, elaborará auto
de notícia, que remeterá ao Ministério Público, juntamente com a fita ou suporte original das
imagens e sons, (art. 8.º, da Lei 1/2005 de 10.01).
As gravações obtidas pelo sistema de videovigilância são obrigatoriamente conservadas
pelo período de um mês, tendo em vista uma eventual utilização, para efeitos de investigação
criminal (art. 9.º, da Lei 1/2005, de 10.01).
A recolha de imagem na Lei 1/2005 de 10.01 tem uma filosofia diversa da
estabelecida na Lei 5/2002, de 11.01, caracterizando-se pela utilização destes meios em
circunstâncias específicas, nomeadamente:
a. Para atingir, exclusivamente, as finalidades indicadas no artigo 2º n.º 1, da
Lei 1/2005, de 11.01;
b. Nos locais objeto de vigilância é obrigatória a afixação, em local bem
visível, de informação sobre a existência de tratamento, finalidade e
responsável pelo tratamento
(art. 4º, Lei 5/2002, de 11.01). Este aspeto é relevante e corresponde às
exigências de transparência/informação que deve ser assegurada em qualquer
tratamento de dados pessoais (art.10º, da Lei n.º 67/98, de 26.10);
c. A instalação de câmaras depende de autorização prévia do membro do
Governo que tutela a força ou serviço de segurança requerente (câmaras fixas
– art. 3.º, n.º 1) ou, em situações de urgência, do “dirigente máximo da força
ou serviço de segurança” em relação a câmaras portáteis (art. 6.º n.º 2, Lei
5/2002, de 11.01);
d. A Comissão Nacional de Proteção de Dados (CNPD) emite parecer sobre o
pedido de instalação. No caso de o parecer ser negativo, a autorização não
pode ser concedida (nas situações previstas no artigo 3.º, nº 2 da Lei 1/2005
de 10.01), ou será imediatamente destruído o material gravado nas situações
previstas no artigo 6.º nº 3, da Lei 1/2005, de 10.01.
e. A nota que merece maior realce, claramente diferenciador da previsão da
Lei 5/2002, tem a ver com o facto de estas imagens e sons só poderem ser
recolhidos com o conhecimento do público.
50
8 OS MEIOS DE OBTENÇÃO DA PROVA
8.1 Generalidades
Os meios de obtenção de prova assumem um dos pontos mais delicados e conflituantes
do processo penal. Isto porque, se por um lado existe o interesse comunitário na prevenção e
repressão da criminalidade, por outro, existe o interesse legítimo das pessoas não serem
afetadas na esfera das suas liberdades pessoais, para além do que seja indispensável à
prossecução do referido interesse comunitário. Será na conciliação dos interesses em presença
que deverá buscar-se o ponto de equilíbrio para uma aplicação eficaz do direito processual
penal num Estado de Direito.
DOS EXAMES
i. O exame pessoal
O exame pessoal pode ocorrer, por exemplo, quando em sede de violência carnal, se
verifica a existência de sinais de violência na vítima. Neste caso, o exame destina-se a
descrever o eventual ferimento com a ajuda, se necessário, do registo fotográfico.
O exame poderá ocorrer também sobre o suspeito para a recolha de meios de prova
como, por exemplo, a realização de uma zaragatoa bocal, tendo em vista determinar o ADN
do suspeito, após a realização de uma perícia. O exame é muitas das vezes instrumental,
relativamente à perícia.
O exame que se debruce sobre as características físicas ou psíquicas de pessoa que não
haja prestado o seu consentimento é sempre realizado por médico ou outra pessoa legalmente
autorizada. O despacho que ordena este tipo de exame é da competência do juiz e a sua
realização não pode criar perigo para a saúde do visado (art. 156.º, n.º 6 e 171.º, n.º 2).
51
Por sua vez, a jurisprudência mais recente tem entendido ser legítima a entrada da equipa
de investigação, independentemente do consentimento do arguido, após à morte de uma
pessoa, tendo em vista examinar o local onde os factos ocorreram e apurar todo o
circunstancialismo e recolha de prova.
52
b. O local onde decorreu o exame;
c. A descrição de como foi realizado o exame, com indicação dos lugares e coisas
examinadas;
d. A descrição dos vestígios do crime encontrados durante o exame e do estado em que
foram encontrados;
e. A descrição de declarações prestadas por pessoas que tenham informações úteis para
a recolha de prova;
f. O registo de quaisquer outros factos que importa relevar como, por exemplo, o uso da
força física ou a proibição de entrada de pessoas estranhas ao local;
g. A data da elaboração do auto e assinatura;
53
DAS ESCUTAS TELEFÓNICAS
54
8.10 Limites à admissibilidade das interceções telefónicas
É proibida a interceção de comunicações entre arguido e defensor, salvo se as
conversações constituírem objeto de crime (catálogo - 187º n.º5).
Só o juiz pode pôr fim a uma escuta telefónica, mediante requerimento do Ministério
Público.
O Juiz poderá indeferir o pedido de escutas sobre determinados suspeitos, ou deferir a
escuta por um prazo inferior ao solicitado.
As escutas telefónicas só podem ter lugar durante o inquérito, fixando-se o prazo máximo
de 3 meses, prorrogáveis.
9.1 Noção
São providências de natureza cautelar e processual, limitadoras da liberdade do arguido
que têm em vista assegurar que o processo penal decorra sem incidentes.
Pela sua natureza, só excecionalmente é que elas podem ser aplicadas para limitar a
liberdade das pessoas, estão sujeitas ao princípio da legalidade (artes. 27º CRP e 191º CPP).
De acordo com o crime, com a infração cometida pelo arguido, assim o juiz irá ponderar
qual a medida de coação a aplicar ao arguido, dentro daquelas que estão previstas na lei;
depois será também proporcional à gravidade do crime (art. 193º CPP).
9.2 Pressupostos
É obrigatória a prévia constituição de arguido, quanto tenha de ser aplicada uma medida
de coação (art. 58º/1-b; 192º/1 CPP).
Só o Juiz de Instrução Criminal ou o juiz de julgamento, poderá decidir qual a medida de
coação a ser aplicada ao arguido (art. 194º/1 CPP).
Há apenas uma, chamada termo de identidade e residência (art. 196º CPP), que pode ser
aplicada pelo Ministério Público e pelo OPC. É a única medida de coação que foge à regra de
aplicação por parte do juiz, pode ser aplicada pelo Ministério Público e pelo OPC.
Todas as restantes medidas de coação são aplicadas mediante despacho de juiz, porque o
poder judicial é próprio do juiz e não do Ministério Público. Apenas o juiz tem o poder de
limitar os direitos do cidadão.
Por isso é que, sendo as medidas de coação limitadoras da liberdade das pessoas, apenas
poderão ser aplicadas por despacho de juiz.
Se uma medida de coação for aplicada (pelo juiz) durante o inquérito, faltando o
requerimento do Ministério Público, entende-se que se está perante uma nulidade insanável,
que poderá ser invocada a todo o tempo. Conduzirá portanto à anulação de tudo quanto se
processou a partir daquela data.
O juiz não está vinculado à medida de coação solicitada pelo Ministério Público. Isso iria
limitar a catividade do juiz no processo; a atividade judicial como que ficava subordinada a
um órgão que não é judicial e que, além do mais, é hierarquicamente dependente.
55
- Implica para o arguido as obrigações previstas no artigo 196º do CPP;
- O arguido é informado de que em caso de incumprimento será representado pelo seu
defensor incluindo a audiência de julgamento (art. 333º CPP).
A não sujeição do arguido a termo de identidade e residência, quando o processo
contínua após o primeiro interrogatório, constitui irregularidade processual, sujeita ao
regime do art. 123º CPP. Nos termos do art. 123º/2 CPP, a reparação da irregularidade deve
ser ordenada mesmo oficiosamente, logo que dela se tome conhecimento, determinando-se
que o arguido preste termo.
56
São toda uma série de circunstâncias que se podem verificar independentemente umas das
outras, estes requisitos não são cumulativos: basta que se verifique um, ou que haja a
possibilidade de ser verificar um, para que as mediadas de coação possam ser aplicadas.
A prisão preventiva, para além dos requisitos gerais do art. 204º CPP, tem também
requisitos especiais previstos no art. 202º CPP.
É uma medida de natureza excecional e tem também natureza subsidiária, isto é, só se
aplica se os fins que com ele se pretendem atingir não poderem ser conseguidos com a
aplicação de outra medida de coação menos gravosa (art. 28º/2 CRP; arts. 193º/2 – 204º
CPP).
Exceção ao princípio da subsidiariedade da prisão preventiva, é o art. 210º CPP.
Quanto ao prazo de duração máximo, vem previsto no art. 215º CPP.
Quanto à impugnação da prisão preventiva, vêm previstos nos art. 219º e 222º CPP.
A prisão preventiva é aplicada por despacho do juiz é um despacho judicial, suscetível de
recurso. Na generalidade, a decisão é impugnada mediante recurso para o Tribunal
imediatamente superior – Tribunal da Relação – a julgar no prazo de 30 dias.
Pode-se invocar o habeas corpus (art. 222º CPP), nas situações de prisão ilegal.
Verificada qualquer das situações referidas no art. 222º CPP, qualquer pessoa poderá
impugnar esta situação de prisão preventiva e fazer uma petição dirigida ao Presidente do
Supremo Tribunal de Justiça em que dá conta da situação em que se encontra e requerer que
seja posto de imediato em liberdade (ex. art. 220º CPP, ultrapassadas as 48 horas).
57
- Poderá haver uma oposição a este arresto, deduzida ou pelo arguido ou pelo
detentor dos bens; só que esta oposição, se for feita através de recurso, este será
devolutivo, nunca suspensivo, o arresto manter-se-á sempre;
- Também se mantém o arresto quando há dúvida relativamente à titularidade dos
bens.
9.12 Detenção
Figura próxima das medidas de coação, até porque também ela se vai prender com a
limitação, embora temporária da liberdade do arguido (arts. 254º segs. CPP).
A finalidade imediata da detenção é garantir que o arguido seja julgado no prazo máximo
de 48 horas, ou ser presente ao juiz competente para primeiro interrogatório judicial, ou para
aplicação ou execução de uma medida de coação, ou para assegurar a presença imediata do
detido perante autoridade judiciária em ato processual. Ninguém pode estar detido mais de 48
horas, sob pena de a detenção se tornar ilegal. Tem-se que distinguir na detenção:
Detenção em flagrante delito, qualquer autoridade judiciária, qualquer órgão de polícia
criminal, pode proceder à detenção. Exige-se uma certa conexão temporal, uma certa
decorrência natural dos factos, eles devem estar estritamente ligados uns com os outros, de
outra maneira quebrar-se-ia o elo de ligação e poder-se-ia ir para uma detenção numa situação
que já não era considerada flagrante delito.
A detenção em flagrante delito relaciona-se estritamente com a existência do processo
sumário, pelo que não deve ser dada às autoridades judiciárias ou policiais a
discricionariedade quanto à detenção, pois que isso poderá suscitar dúvidas quanto à sua
atuação e possibilitaria que fossem essas entidades a decidir sobre a forma de processo a
seguir.
O art. 255º/3 CPP, relativamente ao caráter semi-público do crime, dispõe que, se
verifiquem os pressupostos da detenção, esta é levada a cabo, mas só se mantém se, logo em
ato seguido, haver queixa por parte de quem para isso tem legitimidade. Cumpre, para efeito,
às autoridades ou às entidades policiais às quais é o detido entregue ouvir imediatamente os
titulares do direito de queixa. Se estes o exercerem, mandam levantar o auto, em que fique
registada; se a não exercerem, soltam o detido sem qualquer procedimento.
O art. 255º/4 CPP, é reflexo do carácter particular do crime. Aqui não haverá, em
qualquer caso, lugar a detenção, mas apenas à identificação do infrator, sem qualquer outro
procedimento, pois haverá que aguardar uma eventual iniciativa do titular do direito de
acusação.
Não sendo em flagrante delito (art. 257º CPP), a detenção só pode ser efetuada
por mandado emanado do juiz ou também do Ministério Público, quando ao crime cometido
for admissível a sua aplicação de prisão preventiva.
As autoridades de polícia criminal podem proceder à detenção fora do flagrante delito, só
que aqui terão que estar reunidos três pressupostos que vêm previstos no art. 257º/2 CPP.
a) Se tratar de caso em que é admissível a prisão preventiva;
b) Existirem elementos que tornem fundado o receio de fuga ou de continuação de
atividade criminosa; e
c) Não for possível, dada a situação de urgência e de perigo na demora, esperar pela
intervenção da autoridade judiciária
Tendo que se verificar estes requisitos cumulativamente, então poderá por iniciativa
própria proceder à detenção.
Também na detenção há a possibilidade de reagir através do habeas corpus. A petição é
dirigida ao Juiz de Instrução Criminal, e ele deverá deferi-la no mais curto espaço de tempo,
58
ou seja, deve de imediato pôr a pessoa em liberdade, ou então, ouvi-la – art. 220.º. Ver
também artigo 261.º - a libertação é da iniciativa da entidade que tiver ordenado a detenção.
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Por sua vez, a Constituição da República legitima as restrições dos direitos, liberdades e
garantias em determinadas circunstâncias, submetendo-as a determinados requisitos materiais,
previstos no artigo 18.º, n.º 2 da CRP, designadamente:
a. Que a restrição esteja expressamente admitida ou eventualmente imposta pela
Constituição (n.º 2, 1ª parte);
b. Que a restrição vise salvaguardar outro direito ou interesse constitucionalmente
protegido (n.º 2, in fine);
c. Que a restrição exigida se limite à medida necessária para alcançar esse objetivo (n.º
2, 2ª parte);
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conduzidos a posto de polícia», o legislador continuou a onerar o Juiz de Instrução, à
sindicância deste tipo de atos, nos termos do n.º 2 do artigo 251.º.
Os restantes atos cautelares realizados pelos órgãos de polícia criminal são descritos em
relatório dirigido ao Magistrado do Ministério Público, tendo em vista a respetiva validação
(art.º 253.º, n.º 1). Este relatório deve descrever as investigações feitas e os resultados das
mesmas, isto é, os meios de prova recolhidos e os factos apurados, não obstante a descrição
dos atos realizados nos respetivos “autos”, nos termos do artigo 99.º.
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10.6 - Requisitos respeitantes ao pedido de identificação
Nos termos do artigo 250.º os órgãos de polícia criminal apenas tem legitimidade para
solicitar a identificação quando:
a. O suspeito se encontre em lugares públicos, abertos ao público, ou sujeitos a
vigilância policial;
b. E sobre a pessoa a identificar, existam fundadas suspeitas da prática de um crime, ou
se encontre pendente processo de extradição ou de expulsão, ou haja mandado de
detenção;
Verificados os dois requisitos, os órgãos de polícia criminal devem previamente comprovar a
sua qualidade, exibindo a identificação e comunicando ao suspeito as circunstâncias que
fundamentam a obrigação da sua identificação, indicando-lhe os meios pelos quais se pode
identificar (n.º 2 do art.º 250.º).
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Os órgãos de polícia criminal podem pedir ao suspeito informações relativas a um crime,
tendo em vista a sua descoberta e respetiva conservação dos meios de prova (art.º 250.º, n.º
8).
Neste caso, não existindo ainda inquérito aberto, o suspeito deverá ser constituído
arguido – nos termos do art. 59.º. De entre as várias formas possíveis de identificação, poderá
verificar-se que o cidadão se identifique com um cartão de um qualquer clube desportivo ou
de uma associação, bastando-se tão só que tal documento contenha a fotografia do titular e a
sua assinatura tendo em vista a sua possível audição em declarações. Neste sentido ver
Circular 6/2002 da PGR).
Caso a audição do suspeito não seja formalizada no respetivo auto de declarações de
arguido, as declarações informais poderão vir a ser declaradas inexistentes.
Este tipo de diligência será entendida como uma fase de colheita de informações
relativas a um crime e que se prendem com a urgência relativamente à descoberta e
conservação dos meios de prova, no domínio da autonomia policial, o que não invalida a
obrigação imediata da transmissão da noticia do crime à entidade a quem cabe a direção do
inquérito (art.º 248.º).
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detenção for em circunstâncias de flagrante delito, a revista será a prevista no artigo
174.º, n.º 5, al. c). Ambas são consideradas de revistas de segurança.
c. Proceder a revistas de pessoas que tenham de participar ou pretendam assistir a
qualquer ato processual, ou que, na qualidade de suspeitos, devam ser conduzidos a
posto policial, sempre que houver razões para crer que ocultam armas ou outros objetos
com os quais possam praticar atos de violência (art.º 251.º, n.º 1, al b));
d. Proceder a buscas (não domiciliárias), devendo, para o efeito, estarem preenchidos os
seguintes requisitos, nos termos do artigo 251.º, n.º 1, al. a)):
i. O suspeito encontrar-se no local onde se vai realizar a busca;
ii. Haver fundada razão para crer que no interior do local onde se vai realizar a
busca, se ocultam objetos relacionados com o crime e que sejam suscetíveis de
servir de prova;
iii. Existir urgência na realização da busca, isto é, caso a busca não fosse realizada
nesse momento, a utilidade da mesma poderia perder-se.
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10.15 A localização celular
A localização celular, como meio de obtenção de prova, passou a estar regulada no
Código de Processo Penal, a partir da reforma operada em 2007. O artigo 252.º-A, contempla
duas situações distintas: uma relativa a matéria de prevenção criminal e outra relativa à sua
utilização como meio de prova.
O n.º 1 do artigo 252.º-A estipula o âmbito de aplicação da localização celular, sendo
pressuposto da sua utilização, estar em causa a lesão de bens jurídicos eminentemente
pessoais, designadamente a vida ou a integridade física.
Os n.ºs 2 e 3 preveem, respetivamente, as formalidades do pedido de localização celular,
consoante se esteja no âmbito de um processo-crime ou nos casos de prevenção criminal.
Neste último caso, a autoridade de polícia criminal pode ordenar às operadoras de
telemóveis que lhes seja facultada a informação referente à localização celular de um
determinado telemóvel, desde que obedeça ao princípio da necessidade e que estejam em
causa a violação dos bens jurídicos acima citados. Acontece, porém, que tecnicamente não é
possível efetuar uma localização celular, sem se proceder à interceção da comunicação
(escuta telefónica).
Uma vez que, os dados de localização celular são considerados abrangidos pelo âmbito
da norma constitucional prevista no artigo 34.º, n. 4, os dados obtidos através deste meio de
obtenção de prova deverão ser comunicados ao juiz, no prazo máximo de 48 horas (art.º
252.º- A, n.º 2).
A obtenção de dados sobre a localização celular só pode ser ordenada ou autorizada, em
qualquer fase do processo, por despacho do Juiz, quanto a crimes indicados no catálogo a que
se refere o n.º 1 do artigo 187.º e, em relação às pessoas enumeradas no n.º 4 do mesmo
preceito, entre as quais o suspeito ou o arguido.
10.16 O relatório
Todos os atos cautelares realizados ao abrigo das medidas cautelares e de polícia são,
obrigatoriamente, descritos em relatório, dirigido à Autoridade Judiciária competente, para a
respetiva validação.
O relatório deve descrever, de forma sucinta, todas as diligências realizadas e os
resultados das mesmas.
Quando forem realizadas revistas, buscas, ou quaisquer outros atos tendentes a
preservação da prova, deverão ser realizados os respetivos autos, que serão juntos ao
relatório.
11 VÍCIOS PROCESSUAIS
11.1 Inexistência
Traduz-se no facto de o ato não ser idóneo a produzir quaisquer efeitos de natureza
processual.
Ex. sentença proferida pelo Ministério Público. Este ato inexiste, não pode produzir
quaisquer efeitos; por conseguinte é insuscetível de ser sanado.
A inexistência tão pouco precisa de ser declarada. Verifica-se o vício da inexistência
quando ao ato faltam elementos que são essenciais à sua própria substância, de modo que em
caso algum pode produzir efeitos jurídicos.
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A nulidade consiste na inobservância da disposição da lei (processual penal).
Se a lei prevê que o ato deva ser feito de determinada maneira, e se não é temos um vício.
Esse ato, conforme as suas gravidades e as suas consequências, será considerado nulo ou
irregular.
Sabe-se que se trata de um ato nulo quando a lei expressamente o disser. Se a lei nada
disser, o ato é irregular.
Consagra-se no art.º 118º CPP, o princípio da legalidade no domínio das nulidades dos
atos processuais. Assim, para que algum ato processual relativamente ao qual tenha havido
violação ou inobservância das disposições legais do processo penal padeça do vício a
nulidade é necessário que a lei o diga expressamente; de outro modo o ato viciado sofrerá do
vício menor da irregularidade, submetido ao regime do art.º 123º CPP, mas não será nulo.
As nulidades podem ser sanáveis e insanáveis. Estas – as nulidades insanáveis – são
taxativas. Estão enumeradas no art.º 119º CPP, acrescendo-lhes as que assim são cominadas
em outras disposições legais. Desde que não cominadas como insanáveis, as nulidades
consagradas na lei serão sanáveis segundo o regime dos arts. 120º e 121º CPP.
a) Nulidades gerais
São aquelas que a lei prevê num determinado artigo para determinados casos – art.º 119º
CPP (nulidades insanáveis).
Como consequência ou efeito das nulidades, anula os atos inválidos e ordena a sua
repetição. Abrange todos os atos que dependam deste e que com ele estejam conexos.
Portanto, o que está para trás não interessa.
O despacho que conhecer oficiosamente de uma nulidade (o caso de se tratar de uma
nulidade absoluta) deve indicar quais os atos que devem ser declarados nulos.
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Nas formas de processo especial (sumário e sumaríssimo) a nulidade dever ser arguida no
início da audiência de julgamento.
Quando o ato não for considerado por lei como nulo, o ato é considerado como irregular
(art.º 118º/2 CPP).
A irregularidade não é tanto um vício, mas é uma imperfeição, o ato é menos perfeito.
Daí que o seu regime também seja diferente e venha previsto no art.º 123º CPP.
- A irregularidade tem que ser arguida no próprio ato, quando os interessados estejam
presentes; ou
- Não estando presentes os interessados nos três dias seguintes ao seu conhecimento
(art.º 123º/1 CPP)
A irregularidade do ato apenas afeta o ato em si e, eventualmente, outros cuja validade
possam decorrer dele. Mas, não será a anulabilidade de tudo quanto se fez.
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