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O Fogo da Transformação Pessoal

O artigo descreve a pipoca como uma metáfora para a transformação humana através das provações da vida. A pipoca começa como um grão duro de milho, mas quando aquecido no fogo, explode em uma flor macia e comestível. Da mesma forma, as pessoas só se transformam para melhor quando passam pelo "fogo" das dificuldades da vida. Aquelas que se recusam a mudar, como os "piruás" que não estouraram, permanecem duras e não aproveitam a oportunidade de crescimento.
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O Fogo da Transformação Pessoal

O artigo descreve a pipoca como uma metáfora para a transformação humana através das provações da vida. A pipoca começa como um grão duro de milho, mas quando aquecido no fogo, explode em uma flor macia e comestível. Da mesma forma, as pessoas só se transformam para melhor quando passam pelo "fogo" das dificuldades da vida. Aquelas que se recusam a mudar, como os "piruás" que não estouraram, permanecem duras e não aproveitam a oportunidade de crescimento.
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Publicação: Bons Fluidos

Data: 01/08/2005
Edição: 75
Página(s): 44-47
Seção: Conversa Com o Sábio
Autor: Rubem Alves

O fogo que nos transforma

Como o milho duro que vira pipoca macia, só mudamos para melhor quando passamos pelo
fogo: as provações da vida

A culinária me fascina. De vez em quando, eu até me até atrevo a cozinhar. Mas o fato é que
sou mais competente com as palavras do que com as panelas. Por isso, tenho mais escrito
sobre comidas que cozinhado. Dedico-me a algo que poderia ter o nome de “culinária
literária”. Já escrevi sobre as mais variadas entidades do mundo da cozinha: cebolas, ora-pro-
nobis, picadinho de carne com tomate, feijão e arroz, bacalhoada, suflês, sopas, churrascos.
Cheguei mesmo a dedicar metade de um livro poético-filosófico a uma meditação sobre o
filme A Festa de Babette, que é uma celebração da comida como ritual de feitiçaria. Sabedor
das minhas limitações e competências, nunca escrevi como chef. Escrevi como filósofo, poeta,
psicanalista e teólogo – porque a culinária estimula todas essas funções do pensamento.

As comidas, para mim, são entidades oníricas. Provocam a minha capacidade de sonhar. Nunca
imaginei, entretanto, que chegaria um dia em que a pipoca iria me fazer sonhar. Pois foi
precisamente isso que aconteceu. A pipoca, milho mirrado, grãos redondos e duros, me
pareceu uma simples molecagem, brincadeira deliciosa, sem dimensões metafísicas ou
psicanalíticas. Entretanto, dias atrás, conversando com uma paciente, ela mencionou a pipoca.
E algo inesperado na minha mente aconteceu. As minhas idéias começaram a estourar como
pipoca.

Pensamentos que estouram

Percebi, então, a relação metafórica entre a pipoca e o ato de pensar. Um bom pensamento
nasce como uma pipoca: estoura de forma inesperada. A pipoca se revelou a mim, então,
como um objeto poético. Poético porque, ao pensar nelas, o meu pensamento se pôs a dar
estouros como aqueles das pipocas dentro de uma panela.

A pipoca é um milho mirrado. Fosse eu agricultor ignorante, e se no meio dos meus milhos
graúdos aparecessem aquelas espigas nanicas, eu ficaria bravo e trataria de me livrar delas.
Pois o fato é que, sob o ponto de vista de tamanho, os milhos da pipoca não podem competir
com os milhos normais. Não sei como isso aconteceu, mas o fato é que houve alguém que teve
a idéia de debulhar as espigas e colocá-las numa panela sobre o fogo, esperando que assim os
grãos amolecessem e pudessem ser comidos. Havendo fracassado a experiência com água,
tentou a gordura. O que aconteceu, ninguém jamais poderia ter imaginado. Repentinamente
os grãos começaram a saltar dentro da panela com uma enorme barulheira. Mas o
extraordinário era o que acontecia com eles: os grãos duros quebra-dentes se transformavam
em flores brancas e macias que até as crianças podiam comer.

O estouro das pipocas se transformou, então, de uma simples operação culinária em uma
festa, brincadeira, para os risos de todos.

Pois não é que o candomblé elegeu a pipoca como coisa sagrada? A razão? É que a
transformação do milho duro em pipoca macia é símbolo da grande transformação por que
devem passar os homens para que eles venham a ser o que devem ser. O milho da pipoca
somos nós: duros, quebra-dentes, impróprios para comer, mas que pelo poder do fogo
podemos, repentinamente, voltar a ser crianças!

A dor de dentro ou de fora

Mas a transformação só acontece pelo poder do fogo. O milho de pipoca que não passa pelo
fogo continua a ser milho de pipoca. Assim acontece com a gente. As grandes transformações
acontecem quando passamos pelo fogo. Quem não passa pelo fogo fica do mesmo jeito, a vida
inteira. O fogo é quando a vida nos lança em uma situação que nunca imaginamos. Pode ser
fogo de fora: perder um amor, perder um filho, ficar doente, perder um emprego, ficar pobre.
Pode ser fogo de dentro. Pânico, medo, ansiedade, depressão – sofrimentos cujas causas
ignoramos. Há sempre o recurso aos remédios que apagam o fogo. Sem fogo o sofrimento
diminui. E com isso a possibilidade da grande transformação.

Imagino que a pobre pipoca, fechada dentro da panela, lá dentro ficando cada vez mais
quente, pense que a sua hora chegou: vai morrer. De dentro de sua casca dura, fechada em si
mesma, ela não pode imaginar destino diferente. Não pode imaginar a transformação que está
sendo preparada. Aí, sem aviso prévio, pelo poder do fogo, a grande transformação acontece:
pum! – e ela aparece como outra coisa, completamente diferente, que ela mesma nunca havia
sonhado.

Tem gente que é piruá

Em Minas, todo mundo sabe o que é piruá. Falando sobre os piruás com os paulistas, descobri
que eles ignoram o que seja. Alguns, inclusive, acharam que era gozação minha, que piruá é
palavra inexistente. Cheguei a ser forçado a me valer do Aurélio para confirmar o meu
conhecimento da língua. Piruá é o milho de pipoca que se recusa a estourar.

O meu amigo William, extraordinário professor-pesquisador da Unicamp, especializou-se em


milhos e desvendou cientificamente o assombro do estouro da pipoca. Com certeza ele tem
uma explicação científica para os piruás. Mas no mundo da poesia as explicações científicas
não valem. Por exemplo: em Minas piruá é o nome que se dá às mulheres que não
conseguiram casar. A minha prima, passada dos 40, lamentava: “Fiquei piruá!” Mas acho que o
poder metafórico dos piruás é muito maior.
Piruás são aquelas pessoas que, por mais que o fogo esquente, se recusam a mudar. Elas
acham que não pode existir coisa mais maravilhosa do que o jeito de elas serem. Ignoram o
dito de Jesus: “Quem preservar a sua vida perde-la-á.” A sua presunção e o seu medo são a
dura casca do milho que não estoura. O destino delas é triste. Vão ficar duras a vida inteira.
Não vão se transformar na flor branca macia. Não vão dar alegria para ninguém. Terminado o
estouro alegre da pipoca, no fundo a panela ficam os piruás, que não servem para nada. Seu
destino é o lixo.

Quanto às pipocas que estouraram, são adultos que voltaram a ser crianças e que sabem que a
vida é uma grande brincadeira...

Rubem Alves, 71 anos, nasceu no interior de Minas Gerais e é escritor, pedagogo, teólogo e
psicanalista.

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