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RESlIRREICÀO
NOVA ED IÇ Ã O
H. GARNIER, LIVREIRO-EDITOR
71, Rua do Ouvidor
RI O DE JANEIRO
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ADVERTENCIA DA NOVA EDICÃO
Este foi o meu primeiro romance, escripto alii
vão muitos annos. Dado em nova edição, não lhe
altero a composição nem o estylo apenas troco
dous ou très vocábulos, e faço taes ou quaes
correcções de orthographia. Como outros que
vieram depois, e alguns contos e novellas de
então, pertence á primeira phase da minha vida
literaria.
1905. M. DE A.
Machado de A s s is - - Resurreiçao
ADVERTÊNCIA DA PRIMEIRA EDIÇÃO
Não sei o que deva pensar deste livro ; ig’noro
sobretudo, o que pensará delle o leitor. A bene
volência com que foi recebido um volume de con
tos e novellas, que ha dous annos publiquei, me
animou a escrevel-o. É un ensaio. Vai despreten-
ciosamente ás mãos da critica e do publico, que o
tratarão com a justiça que merecer.
A critica desconfia sempre da modéstia dos pro
logos, e tem razão. Geralmente são arrebiques de
dama elegante, que se vê ou se crê bonita, e quer
assim realçar as graças naturaes. Eu fujo e benzo-
me tres vezes quando encaro alguns desses prefá
cios contrictos e singellos, que trazem os olhos
no pó da sua humildade, e o coração nos pincaros
da sua ambição. Quem só lhes vê os olhos, e Ihes^
diz verdade que amargue, arrisca-se a descair no
conceito do autor, sem embargo da humildade
que elle mesmo confessou, e da justiça que
pediu.
Ora pois, eu atrevo-me a dizer á boa e sisuda
critica, que este prologo não se parece com esses
prologos. Venho apresentar-lhe um ensaio em
IV ADVERTÊNCIA
L> >
[fi genero novo para mim, e desejo saber se alguma
qualidade me chama para elle, ou se todas me
faltam, — em cujo caso, como em outro campo já
tenho trabalhado com alguma approvação, a elle
volverei cuidados e esforços. 0 que eu peço á crí
‘ I
tica vem a ser — intenção benevola, mas expres
são franca e justa. Applausos, quando os não fun
damenta o mérito, aífagam cerlamente o espirito,
e dão algum verniz de celebridade ; mas quem tem
vontade de aprender e quer fazer alguma cousa,
prefere a lição que melhora ao ruido que lison-
jea.
No extremo verdor dos annos presumimos mui
to de nós, e nada, ou quasi nada, nos parece
escabroso ou impossivel. Mas o tempo, que é bom
mestre, vem diminuir tamanha confiança, deixan
do nos apenas a que é indispensável a todo o ho
mem, e dissipando a outra, a confiança pérfida e
céga. Com o tempo, adquire a reflexão o seu impé
rio, e eu incluo no tempo a condição do estudo,
sem o qual o espirito fica em perpetua infancia.
Dá-se então o contrario do que era d’antes.
c
Quanto mais versamos os modelos, penetramos
as leis do goslo e da arte, comprehendemos a
extensão da responsabilidade, tanto mais se nos
acanham as mãos e o espirito, posto que isso
mesmo nos experte a ambição,não já presumpçosa,
senão reflectida. Esta não é talvez a lei dos gênios,
a quem a natureza deu o poder quasi inconsciente
I \
das supremas audacias; mas é, penso eu, a lei
ADVERTÊNCIA
das aptidões médias, a reg'ra geral das intellig’en-
cias mini mas.
Eu cheguei já a esse tempo. Grato ás aíTaveis
palavras com que juizes benevolos me tem ani
mado, nem por isso deixo de hesitar, e muito.
Cada dia que passa me faz conhecer melhor o
agro destas tarefas literárias, — nobres e conso
ladoras, é certo, — mas difficeis quando as perfaz
a consciência.
Minha ideia ao escrever este livro foi pôr em
acção aquelle pensamento de Shakespeare :
Our doubts are traitors,
And make us lose the good vve oft might win,
By fearing to attempt.
Não quiz fazer romance de costumes ; tentei o
esboço de uma situação e o contraste de dons
caracteres ; com esses simples elementos busquei
o interesse do livro. A critica decidirá se a obra
corresponde ao intuito, e sobretudo se o operário
tem geito para ella.
E o que lhe peço com o coração nas mãos.
RESURREICAO
NO DIA DE ANNO BOM
Naquelle dia, — já lá vão dez annos ! — o
Dr. Félix levantou-se tarde, abriu a janella
e comprimenlou o sol. O dia estava esplen
dido ; uma fresca bafagein do mar vinha
quebrar um pouco os ardores do estio ;
algumas raras nuvenzinhas brancas, finas
e transparentes se destacavam no azul do
ceu. Chilreavam na chacara vizinha á casa
do doutor algumas aves aíTeitas á vida
semi-urbana, semi-silvestre que lhes póde
offerecer uma chacara nas Laranjeiras.
Parecia que toda a natureza collaborava
na inauguração do anno. Aquelles para
quem a edade já desfez o viço dos pri-
pieiros tempos, não se terão esquecido do
^ RESURRKÍÇAO
fervor com que esse dia é saudado na me
ninice e na adolescência. Tudo nos parece
melhor e mais bello, — fructo da nossa
illusão, — e alegres com vermos o anno
que desponta, não reparámos que elle é
também um passo para a morte.
Teria'esta ultima ideia entrado no espi
rito de Felix, ao contemplar a magnificên
cia do ceu e os esplendores da luz ? Certo
é que uma nuvem ligeira pareceu toldar-
lhe a fronte. Felix embebeu os olhos no
horizonte e ficou largo tempo immovel e
absorto, como se interrogasse o futuro ou
revolvesse o passado. Depois, fez um gesto
de tedio, e parecendo envergonhado de se
ter entregue á contemplação interior de
alguma chimera, desceu rapidamente á
prosa, accendeu um charuto, e esperou
tranquillamente a hora do almoço.
Felix entrava então nos seus trinta eseis
annos, edade em que muitos ja são paes
de familia, e alguns homens de Estado.
Aquelle era apenas um rapaz vadio e
desambicioso. A sua vida tinha sido uma
singular mistura de elegia e melodrama;
passára os primeiros annos da mocidade
.-^1
RESURREIÇÃO
a suspirar por cousas fugitivas, e na occa-
sião em que parecia esquecido de Deus e
dos homens, caiu-lhe nas mãos uma ines
perada herança, que o levantou da pobreza.
So a Providencia possue o segredo de não
aborrecer com esses lances tão estafados
no theatro.
Pelix conhecera o trabalho no tempo em
que precisava delle para viver; mas desde
que alcançou os meios de não pensar no
dia seguinte, entregou-se corpo e alma á
serenidade do repouso. Mas entenda-se
que não era esse repouso aquella existên
cia apathica e vegetativa dos anirnos indo
lentes , era, se assim me posso exprimir,
um repouso activo, composto de toda a
especie de occupações elegantes e intel-
lectuaes que um homem na posição delle
podia ter. j
iSão direi que fosse bonito, na significa
ção mais ampla da palavra ; mas tinha as
feições correctas, a presença sympathica,
e reunia á graça natural a apurada elegân
cia com que vestia. A côr do rosto era um
tanto pallida, a pelle lisa e fina. A physio-
nomia era placida e indifférente, mal alu-
Machado de A s s is — Ilesurreiçao 1.
■M
10 r e s u r r e iç ã o
miada por um olhar de ordinário frio, e
não poucas vezes morto.
Do seu caracter e espirito melhor se
conhecerá lendo estas paginas, e acompa
nhando o heroe por entre as peripécias da
singelissima acção que emprehendo narrar.
Não se trata aqui de um caracter inteiriço»
nem de um espirito logico e egual a si
U mesmo ; trata-se de um homem complexo,
incohérente e caprichoso, em quem se
reuniam oppostos elementos, qualidades
exclusivas, e defeitos inconciliáveis.
Duas faces tinha o seu espirito, e com
quanto formassem um só rosto, eram
todavia diversas entre si, uma natural e
espontânea, outra calculada e systematica.
Ambas porém se mesclavam de modo que
era difficil discriminal-as e definil-as.
‘-Naquelle homem feito de sinceridade e
affectação tudo se confundia e baralhava.
Um jornalista do tempo, seu amigo, cos
,f
tumava comparal-o ao escudo de Achilles,
— mescla de estanho e ouro, — « muito
menos solido », accrescentava elle.
Af|uelle dia, aurora do anno, escolhera-
o o nosso heroe paraoccaso de seus velhos
l-V
Ír!
amores. Não eram velhos; tinham apenas
seis mezes de edade. E contudo iam acabar
sem saudade nem pena, não só por que já
lhe pesavam, como também porque Félix
lêra pouco antes um livro de Henri Murger,
em que achára um personnagem com o
sestro destas catastrophes prematuras. A
dama dos seus pensamentos, como diria
um poeta, recebia assim um golpe moral
e literário.
Havia meia hora já que o doutor saira
da janella, quando lhe appareceu uma
visita. Era um homen de quarenta annos,
vestido com certo apuro, gesto ao mesmo
tempo familiar e grave, estouvado e dis
creto.
— Entre, Sr. Vianna, disse Félix
quando o viu apparecer á portada sala.
Vem almoçar commigo, já sei ? >
— Esse é um dos très motivos da minha
visita, respondeu Vianna; mas affirmo-lhe
que é o ultimo.
— Qual é o primeiro ?
0 primeiro, disse o recem-chegado.
é dar-lhe o comprimento de bons annos
Folgo que lhe corra este tão feliz como o
hlr'I').
12 r e s u r r e iç ã o
passado. 0 segundo motivo é entregar-lhe
uma carta do coronel.
Vianna tirou uma cartinha da algibeira
e entregou-a ao doutor, que a leu rapida-
Iïl6IltG.
— Creio que é um convite para o sarau
í Ù’1 de hoje ? perguntou Vianna quando o viu
dobrar a carta.
_E’ ; transtorna-me um pouco, porque
I eu tencionava ir para a Tijuca.
_Não caia nessa, acudiu Vianna ; eu
era capaz de deixar todas as viagens do
mundo só para nSo perder uma reunião
do coronel ; é um excellente homem, e dá
boas festas. Vae?
*» I l
Felixhesitou algum tempo.
— Olhe que eu venho incumbido de lhe
destruir todas as objecções que fizer,
t disse Vianna.
_Nao faço nenhuma. 0 convite trans
torna-me o programma; mas, apezar disso,
acceito.
— Ainda bem !
Um moleque veiu dar parte de que o al
moço estava na mesa. Vianna descalçou
as luvas e acompanhou o amphytrião.
•ít'.
RESURREIÇAO
— Que novidades ha? perguntou Felix
sentando-se á mesa.
— Nada que me conste, respondeu
Vianna imitando o dono da casa; o Rio de
Janeiro vae a peor.
— Sim ?
— E verdade; ja não apparece um es
cândalo. Vivemos em completa abstinên
cia, e chegou o reinado da virtude. Olhe,
eu sinto o nostalgia da immoralidade.
Vianna era um homem essencialmente
pacato com a mania de parecer libertino,
mania que lhe resultava da frequência de
alguns rapazes. Era casto por principio e
temperamento. Tinha a libertinagem do
espirito, não a das acções. Fazia o seu eph
gramma contra as reputações duvidosas,
mas não era capaz de perder nenhuma. 0
todavia, teria um secreto prazer se o ac-
cusassem de algum delicto amoroso, e
não defenderia com extremo calor a sua
innocencia, contradicção que parece algum
tanto absurda, mas que era natural.
Como Felix não lhe animasse a conversa
no terreno em que elle a poz, Vianna en
trou a elogiar-lhe os vinhos.
14 RESURREIÇÃO
— Onde acha o senhor vinhos tão bons?
perguntou depois de esvasiar um calix.
— Na minha algibeira.
— Tem razão ; o dinheiro compra tudo,
inclusive os bons vinhos.
A resposta de Felix foi um sorriso am-
biguo, que podia ser benevolente ou malé
volo, mas que pareceu não produzir im
pressão no hospede. Vianna era um para
sita consummado, cujo estomago tinha
mais capacidade que preconceitos, menos
sensibilidade que disposições. Não se sup-
ponha, porém, que a pobrera o obrigasse
ao officio ; possuia alguma cousa que her
dara da mãe, e conservara religiosamente
intacto, tendo até então vivido do rendi
mento de um emprêgo de que pedira de
missão por motivo de dissidência com o
Ëi' seu chefe. Mas estes contrastes entre a
SrÈi'
fortuna e o caracter não são raros. Vianna
era um exemplo disso. Nasceu parasita
como outeos nascem anões. Era parasita
por direito divino.
Não me parece provável que houvesse
lido Sá de Miranda; todavia, punha em
' ii pratica aquella maxima de um persona-
gem do poeta : « boa cara, bom barrete
e boas palavras, custam pouco e valem
muito... ))
Chamando-lhe parasita não alludo só á
circumstancia de exercer a vocação gastro
nômica nas casas alheias. Vianna era tam
bém o parasita da consideração e da ami-
sade, o intruso polido e alegre, que, á
força de arte e obstinação, conseguia
tornar-se acceitavel e querido, onde a
principio era recebido com tedio e frieza,
um desses homens mettidiços e dobra
diços que vão a toda a parte e conhe
cem todas as pessoas, « boa cara, bom
barrete, boas palavras ».
Parecendo-lhe que Félix estaria preoc-
cupado, Vianna entendeu não dizer pala
vra antes de achar occasião opportuna.
Veiu o café, e o primeiro que rompeu o
silencio foi o doutor. Vianna aproveitou
habilmente o ensejo para reatar o fio dos
louvores, tão asperamente quebrado pelo
dono da casa. Não lhe elogiou desta vez
os vinhos, mas as qualidades pessoaes ;
affirmou-lhe que ninguém era mais que
rido na casa do coronel Moraes, e que elle
.'/r
:-7Í
'.''t
16 RESURREIÇAO
íi ■'■f
proprio não se recordava de pessoa a quem
mais estimasse neste mundo.
^— O senhor é tão feliz a este respeito,
terminou o hospede,queaté as pessoias que
o não veem ha muito conservam em toda
a integridade o affecto que o senhor lhes
inspirou. Adivinha de quem lhe falo?
Ê'ií — Não.
— Bem, sabelo-ha de noite ; lá verá em
casa do coronel uma pessoa que o admira,
e que o não vê ha muito. Sejamos francos;
é minha irmã Livia.
— Admira-me isso, porque eu apenas a
vi duas vezes.
— Não épossivel, insistiu Vianna. Lem
bra-me que eu mesmo os apresentei um ao
outro. Se não me engano foi em dia da
Gloria, ha dous annos...
— Eu descia o outeiro, continuou Felix,
quando os encontrei. Estivemos parados
cinco minutos. Á noite encontrámo-nos em
um baile ; comprimentámo-nos apenas e
'I ■' nada mais.
— Só isso ?
— Nada mais.
— N’esse caso, concluiu Vianna, cuido
que o senhor possue o segredo de fascinar
as moças, só com cinco minutos de con
versa e um comprimento de sala. Minha
irmã fala muito no senhor; pelo menos
depois queveiu de Minas...
— Ah ! ella esteve em Minas ?
— Foi para lá ha perto de dous annos,
depois que lhe morreu o marido. Veiu ha
oito dias ; saboo que me propõe?
— Não.
— Uma viagem á Europa.
— E vão ?
— Os desejos de Livia são ordens para
mim. Comtudo era talvez melhor que eu
fosse só, porque uma senhora é sempre
obstáculo aos desmandos de um peccador
como eu. Não lhe parece?
— E’ então uma viagem de recreio ?
perguntou Felix.
— Ou de romance ; Livia tem esse defeito
capital : é romanesca. Traz a cabeça cheia
de caraminholas, fructo naturalmente da
solidão em que viveu nestes dous annos,
e dos livros que ha de ter lido. Faz pena,
porque é boa alma.
— Vejo que tem todas as condições
18 RESURREIÇAO
necessárias a um poeta, observou o doutor;
lembra-me que era bonita.
— Oh ! a esse respeito a viuvez foi para
ella uma renovação. Era bonita quando o
li I
senhor a viu ; hoje está fascinante. Ha oc-
casiões em que eu sinto ser irmão delia ;
tenho impeto-s de a adorar de joelhos. Com
franqueza, assusta-me. . 'll
Leve sorriso encrespou os lábios de
Felix, em quanto Vianna proseguiao pane-
gyrico da irmã, com um enthusiasmo que
;'i,.
podia ser sincero e interessado ao mesmo
tempo. Ao fim de um quarto de hora levan
tou-se este para sair.
— Até á noite ? disse apertando a mão
do dono da casa.
rr^:. — Até á noite.
Felix ficou só.
— Que mulher será essa, perguntou a si
mesmo, tão bellaque mette medo, tão fan
tasiosa que causa lastima ?
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I'm9-
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^Onfe'.' .
LIQUIDÇÃO DO ANNO VELHO
:-n
Meia hora depois apeava-se Félix de um
tilbury á porta de uma casa no Rocio.
Subiu lentamente as escadas; a portado
fundo estava aberta ; Félix deu uma volta
pelo interior da casa, e foi até ásala, sem
que o sentisse uma moça, que estava assen
tada perto da janella, com o rosto voltado D
para a rua.
— Cecilia ! disse elle.
 moça estremeceu e voltou-se.
— Ah ! es tu. Tão tarde !
Félix approximoLi-se, deu-lhe um beijo,
e tirou-lhe o livro da mão.
^ Tarde ? disse elle folheando o livro ;
20 RESURREIÇÃO
não pôde ser mais cedo ; tive visitas em
casa.
A moça contentou-se com a resposta;
levantou-se e pondo-lhe os braços á roda
do pescoço, perguntou :
— Jantas hoje com alguém ?
— Janto lá em casa.
— Lá em casa? repetiu ella ; e porque
W/, não cá em casa ?
— Não posso.
— Tens visitas ?
— Não.
— Jantas só?
— Janto.
— Preferes isso á minha companhia ?
murmurou emíim a moça com voz triste.
ft — Cecilia, respondeu Félix dando á voz
toda a doçura compativel com a rigidez da
sua resolução, ha circumstancias que me
obrigam a não jantar cá nem hoje nem
nunca.
Cecilia empallideceu. Félix procurou
tranquillisal-a dizendo que ia explicar-se
melhor. Insensivel ás suas palavras, foi ella
sentar-se no sophá e ahi permaneceu
alguns instantes silenciosa. Félix deu
i.
RESURREICAO 21
alguns passos na sala, aspirou as flores que
tinham sido postas n’uma jarra, naquelle
mesmo dia, talvez para recebel-o melhor;
acendeu um charuto, e foi sentar-se em
frente de Cecilia. A moça fitou nelle os
olhos húmidos de lagrimas. Depois, como
se os lábios tivessem medo de romper uma
cratera á chamma interior, murmurou estas
palavras :
— E porque nunca mais ?
— Cecilia, disse o doutor deitando fóra o
charuto apenas èncetado, eu tenho a infe
licidade de não comprehender a felicidade.
Sou um coração defeituoso, um espirito
vesgo, uma alma insipida capaz de fideli
dade, incapaz de constância. 0 amor para
mim é o idylio de um semestre, um curto
episodio sem chammas nem lagrimas. Ha
seis mezes que nos amamos ; porque per
derás tu o dia em que começa o anno novo,
se podes também começar uma vida nova?
Cecilia não respondeu ; fitava nelle os
olhos, que, se eram ternos e boliçososnas
horas de alegria, eram naquelle momento
sombrios e profundos. Felix pegou-lhe na
mão. Estava fria.
È'
ii-A 22 RESURREIÇAO
— Não fiques abatida ; o que faço agora
'iií.:
não é novidade; ouviste-me dizer muita
vez que a nossa affeição era um capitulo
curto. Rias então de m im ; fazias mal,
porque era alimentar uma esperança vã.
— Era, interrompeu Cecilia com voz
trem ula; reconheço agora que era. Espe
rava, com effeito, que eu pudesse, com a
minha constância, resgatar os erros que
me pesavam na consciência. Agarrei-me
I».. ■!. a ti como a uma taboa de salvação; a ta-
íi í boa não comprehendeu que salvaria uma
ILfi vida e deixa-se levar pela onda que a arre-
bata das minhas mãos. Enganei-me. Não
te faço recriminações ; espero que me farás
justiça.....
mê — Faço-te toda a justiça, redarguiu
elle; accuso-meeu mesmo de estar abaixo
Ip p
ií:iSl do papel de redemptor.
Cecilia não prestou attenção ao tom iro-
nico destas palavras, nem sequer as ouviu.
Levantou-se, deu alguns passos, encostou-
se ao piano e pondo a cabeça entre as
mãos soluçou á vontade. Mas essa ex
plosão foi quasi silenciosa e durou pouco.
h Meia hora depois despedia-se Felix de
■1
t\ESURRElÇAO
Cecilia declarando-lhe que saia dalli como
um gentleman, e que ella receberia os
meios necessários para viver até que o es
quecesse de todo.
Cecilia recusou esse acto de generosi
dade. Espantou-o immensamente tamanho
desinteresse; concluiu que ella teria al
gum amor em perspectiva.
Saiu.
Na rua do Ouvidor encontrou o doutor
Menezes, joven advogado com quem entre
tinha relações.
— Vem jantar commigo, disse.
— Não jantas com Cecilia?
— Acabei o capitulo; Cecilia está livre.
— Houve choro?
— O choro pertence ao ceremonial da se
paração. Era indispensável. Cecilia verteu
algumas lagrimas, que eu procurei enxu
gar, promettendo-lhe os meios de viver
algum tempo. Recusou ; mas eu não lhe
acceito a recusa.
— Fizeste mal em separar-te delia ; Ceci
lia amava-te.
— Menezes, disse Felix, eu nunca faço
mal quando quebrouma cadeia: liberto-me.
Ii‘h’
24 RESURREIÇAO
— Talvez tenhas razão.
— Mas vem jantar commigo, continuou
Felix, dando-lhe o braço.
— Não posso, vou jantar com minha
mãe.
— Ah !
— São apenas duas horas; passearei
comtiffo até ás tres. Ou vaes para casa ?
— Não.
Deram o braço e desceram a rua.
— Se não é indiscrição, Felix, disse
Menezes ao cabo de alguns minutos, houve
algum arrufo serio entre vocês?
— Não.
— Desconfiavas delia?
♦ — Também não.
— Nem te arrufaste, nem tinhas des
confiança. Sei que ella gostava de ti, e tu
c
mesmo me affirrnastequenãoera nenhuma
desperdiçada. Havia portanto um milheiro
Hi . iV de razões para que vocês proseguisscm
neste romance. Dar-se-ha que tenhas cm
vista algum casamento?
Felix riu-se e lavantou os hombros.
— Então, não comprehendo, concluiu
Menezes.
.-ti
RESURREIÇÃO 25
Eu te digo, respondeu Felix; os
meus amores são todos semestraes ; du
ram mais que as rosas, duram duas esta
ções. Para o meu coração um anno é a
eternidade. Não ha ternura que va alêm de
seis mezes; ao cabo desse tempo, o amor
prepara as malas e deixa o coração como
um viajante deixa o hotel; entra depois o
aborrecimento — mau hospede.
Menezes ouviu as palavras de Felixcom
os olhos postos no chão; sorriu ligeira-
mente quando elle acabou.
— Queres ouvir uma cousa? perguntou.
— Dize.
— 0 teu cynismoparece-me hypocrisia.
— Não é hypocrisia nem cynismo; é
temperamento.
— Não creio.
— Porquê ?
Menezes não respondeu.
— Quasi me arrependo de ser teu
amigo, disse elle depois de algum tempo.
— Es meu amigo ? perguntou Felix com
ar de mofa.
Menezes parou e encarou o compa
nheiro.
Machado de A s s is Resurreiçao
26 RESURREIÇAO
— Duvidas ? disse.
— Nao duvido; mas ignorava isso até
agora; sabes que as nossas relações datam
de pouco tempo.
— Que importa o tempo ? Ha amigos
de oito dias e indifférentes de oito annos,
— Ha.
Â| conversa tomou outra direcção. Me
nezes ainda tentou falar da moça, mas
b"elix não lhe prestouattenção. Ás 3 horas
separaram-se, Felix para as Laranjeiras,
xMenezes para o Rocio.
Menezes era uma boa alma, compassiva
e generosa. Tinha em flor todas as illusões
da juventude; era enthusiasta e sincero;
estava totalmente limpo da menor eiva de
calculo. Podia ser que com os annos per
desse algumas das suas qualidades nativas,
que nem todos resistem a estes dous ter-
riveis dissolventes : os lances da fortuna
e o attrito dos caracteres. Mas naquelle
tempo ainda não era assim.
A situação de Cecilia tinha-o commo-
vido. Resolveu ir ter com ella.
Cecilia ficára resignada, mas triste.
Ouando Menezes entrou na sala estava ella
RESURREIÇÃO 27
ao piano, tinha apoiada a cabeça em uma
das mãos, e corria os dedos pelo teclado.
Contou-lhe tudo o que sepassára; confes
sou que não esperava a súbita mudança
de Felix ; que a sua dor fora immensa, e
que daria tudo para fazer reviver o recente
passado; mas que não nutria nenhuma es
perança de reconciliação.
— E se eu tentar fazer alguma cousa ?
— Tentará em vão, respondeu ella. Alêm
de que, eu não tenho nenhum direito de m
prolongar uma felicidade incompatível com
a vontade delle. Errei, confiando de mais ;
errarei se tiver ainda uma esperança...
— Quem sabe, Cecilia? disse o moço,
pondo-lhe a mão no hombro ; é possivel
que Felix tenha cedido a um capricho. Virá
a arrepender-se depois, mas o seu orgulho
não lhe deixará dar o primeiro passo.
N’esse caso uma pessoa influente póde
convencel-o de que a primeira gloria é a
reparação dos erros.
Cecilia levantou os hombros; foi a sua
unica resposta.
Menezes perguntou se haveria alguma
razão de ciúmes.
28 RESURREIÇÃO
— Posso jurar-lhe que durante todo
este tempo pertenci-lhe exclusivamente.
0 juramento de Cecilia não devia valer
muito aos olhos de um homem que co
nhecesse bem todos os recursos de uma
mulher naquellas condições. Mas o nosso
Menezes era ingênuo em cousas taes.
Í7\ Saiu de lá cheio de piedade. Nessa mesma
tarde mandou uma carta ás Larangeiras,
Wv
justamente na occasião em que Felix aca
bava de ler outra carta de Cecilia. A carta
da moça era tranquilla e até certo ponto
nobre. Não lhefazianenhumarecriminação,
nem implorava nenhum favor. Defendia-se
apenas, retirando de si a responsabilidade
t da separação.
A carta de Menezes era cavalheiresca :
V' ■;i■
descobria o estado da alma de Cecilia e
1’ "I.-1■ não hesitava em chamar ingrato ao profugo
.'',-’1•i‘ dardanio. Menezes sorriu dendo ambas as
II’‘iir
'1‘ missivas; depois atirou-as a uma cesta e
■1
1r’V•i ^'l» nunca mais as viu.
f^‘i•
.-;ru’
m " í,
pt vi)
AO SO M DA VA LSA
A casa do coronel podia conter o triplo
das pessoas convidadas para o sarau
daquella noite ; mas o coronel preferira
convidar apenas as pessoas mais intimas
e familiares. Era homem pouco cerimo
nioso, gostava sobretudo da intimidade.
Quando Félix entrou dansava-se uma
quadrilha. 0 coronel foi ter com elle e
levou-o para onde estava a mulher, que já
o esperava com anciedade, pela razão,
dizia ella, de que era um dos poucos ra
pazes que ainda conversavam com velhas,
estando entre moças. Félix sentou-se ao
pé de D. Mathilde. Estava então de bom
Machado de A s s is
30 RÈSURREIÇAO
humor e conversou alegremente até que a
musica parou.
A mulher do coronel era o typo da mãe
de familia. Tinha quarenta annos, e ainda
conservava na fronte, embora sêccas, as
rosas da mocidade. Era uma mistura de
austeridade e meiguice, de extrema bon
dade e extrema rigidez. Gostava muito de
conversar e rir, e tinha a particularidade
V de amar a discussão, excepto em dous
pontos que para ella estavam acima das
controvérsias humanas : a religião e o
marido. A sua melhor esperança, affirmava,
seria morrer nos braços de ambos. Dizia-
lhe Félix ás vezes que não era acertado
jul gar pelas apparencias, e que o coronel,
excellente marido em reputação, fora na
realidade peccador impenitente. Ria-se a
boa senhora destes inúteis exforços para
abalara boa fama do esposo. Reinava uma
santa paz naquelle casal, que soubera sub
stituir os fogos da paixão pela reciproci
dade da confiança e da estima.
A conversa com a dona da casa roubou
algum tempo ás moças, segundo a expres
são do coronel. Era necessário que Félix y.
Pi!?.î^
'-.Î:''..
5.Ü.;
H
se dividisse com as senhoras que ainda
tinham amor aos exercicios choregraphi-
cos. Recusou, pretextando a presença de
D. Mathilde.
— Oh! pormimnão! respondeuaboasen
hora; o direito das velhas tem um limite no
direito das moças. Va, doutor*, e mais tarde
volte cá, se o não agarrarem por ahi...
Valsava-se. Felix levantou-se e foi bus
car um par. Não tendo preferencia por
nenhuma senhora, lembrou-lhe ir pedir a
filha do coronel. Atravessava a sala para
ir buscal-a defronte, quando foi abalroado
por um par valsante. Com quanto fosse
navegante pratico daquellcs mares, não
pôde evitar o turbilhão. Susteve o equili-
brio com rara felicidade e foi procurar
melhorcaminho, costeando a parede. Nesse
momento os valsantes pararam perto delle.
Pareceu-lhe reconhecer Livia, irmã de
Vianna. Com as faces avermelhadas e o
seio offegante, a moça pousava mollemente
o braço no braço do cavalheiro. Murmu
rou algumas palavras, que Felix não pôde
ouvir, e depois de lançar um olhar em roda
de si, continuou a valsar.
32 RESURREIÇÃO
Durou isto minutos.
Félix, apenas se achou livre, foi buscar
a filha do coronel, interessante criança de
i .ir desesete annos, figura delgada, rosto
angélico, formas graciosas, toda languidez
e effluvios. Era uma dessas mulheres que
fazem o mesmo effeito que um vaso de
porcelana fina ; toca-se-lhes com medo de
as quebrar. Rachel era o seu nome; tinha
grandes pretenções a mulher, que lhe não
ficavam mal naquella edade de transição ;
mas o que Félix lhe achava melhor era jus
tamente o seu aspecto de criança, mal dis
farçado pela formação do seio. Como
caracter, fazia-lhe a mãe grandes elogios,
e eram fundados, posto fossem de mãe.
Rachel acceitouo convite. Félix passou-
lhe o braco á roda da cintura, e ella estre
meceu da cabeça aos pés depois ; entregou-
se-lhe toda com aquelle abandono que a
valsa prescreve ou permitte, e voaram
pela sala no turbilhão geral. A agitação
coloriu um pouco as faces da moça, com-
mummente descoradas. Quando pararam
estava offegante.
'— Sentemo-nos, disse Félix.
M
Não; passeemos um pouco. Porque
nao apparece ca
— Receio não os encontrar ; estão sempre
fóra...
— Não; hadousmezesestamosnacidade.
Mamãe diz que já não está para estas via
gens continuas, e eu acho que tem razão.
Também me cansam a mim ; o mais influido
é papae.
— Não gosta da roça ?
— Eu não tenho preferencias; gosto
tanto da roça como da cidade; comtudo...
dou-me melhor cá. Está olhando para
aquella moça? não a acha bonita?
— Quem? Eu não olhava para nin
guém.
— Pois fazia mal; porque valia a pena
olhar : Livia é a rainha da noite.
Comquanto Rachel, na opinião de Félix,
fosse uma menina, não deixou este de es
tranhar que tão facilmente cedesse a rea
leza da noite a outra mulher; mas, por
outro lado reflectia que esta abdicação
bem podia ser uma affectação de mo
déstia. Comtudo, o limpido olhar de moça
revelava a mais absoluta ingenuidade.
I, ^ 34 RESURREIÇÃO
Fez-1 he um comprimento á belleza della,
e entrou a admirar de longe a belleza
de Li via.
Livia tinha effectivamente um ar de
rainha, uma natural majestade, que nao
era rigidez convencional e affectada, mas
uma grandeza involuntária e sua. A im
pressão de Felix foi boa e má ; achou-lhe
u uma belleza deslumbrante, mas pareceu-
Ihe ver atravez daquelle rosto senhoril
V1
uma alma altiva e desdenhosa.
— Será a rainha da noite, disse elle
voltando-se para Rachel; mas não serei
t[if ' ■•'.ii'n::'l, '
eu quem lhe faça corte.
— Porquê?
— Parece-me orgulhosa; hade tratar a
todos como vassallos seus. Não vê com
que desdem ouve ella as palavras do ca
valheiro que lhe dá o braço ?
O cavalheiro era o mesmo rapaz que
ji; valsára com a viuva, um Dr. Baptista,
descendente em linha recta do Leonardo
de Camões, « manhoso e namorado ».
— Oh ! isso não é razão, disse Rachel;
Livia não gosta deite.
Pouco tempo depois foi servida a ceia.
RESURREIÇAO
Felix dirigiu-se para uma sala interior,
onde o coronel tinha os livros, e que servia
temporariamente de refugio aos fumantes.
Felix accendeu um charuto e começou a
correr os olhos pelos livros.
' Alli foram ter alguns rapazes que fala
ram enthusiasticamente da irmã de
IVianna. Era o objecto de todas as atten-
cões da noite. E foi no meio das apologias
daquelles cortezãos da belleza, que ella
appareceu pelo braço do coronel, atraves
sando a sala, para ir ter ao toucador.
— Doutor 1 disse Vianna, aproximando-
se de Felix.
E voltando-se para a irmã :
— 0 Dr. Felix quer falar-te.
— Ah ! disse a moça, voltando-se para
o medico.
Felix approximou-se.
— Não sei se se lembra de mim? per
guntou eile.
— O Dr. Felix ? Perfeitamente : foi-me
apresentado ha muito tempo, mas eu tenho
boa memoria. De mais, só se esquecem
as pessoas vulgares.
Felix agradeceu-lhe o comprimento.
36 RESÜRREIÇAO
.
Ella estendeu-lhe a ponta dos dedos ele-
p^antemente apertados na pellica dèi luva.
Trocaram algumas palavras mais. Dahi a
pouco, tendo-se ouvido o prelúdio de uma
quadrilha, toda agente se retirou. Fica
ram na sala Felix e Moreirinha.
Moreirinha tinha cerca de trinta annos,
um bigode espesso, uma apparencia agra-
davel e um espirito frivolo. Confessou que
estava impressionado pela viuva, mas que
eram muitos os seus rivaes.
— Mas não são temiveis esses rivaes ?
perguntou Felix.
— Não ; um apenas.
"’P ’iil:. — Qual?
— 0 Baptista.
lílf I É o que está nas graças?
— Não sei; mas é o mais valente de V
todos, eo que dispõe demais tempo, posto
vi;i:. seja casado.
— Casado ?
n ’J)■
— Com um anjo.
Felix procurou reanimar o pretendente,
pondo em relevo todas as suas qualidades
merecedoras de admiração. Inventou-lhe
algumas que não tinha; reconheceu-lhe
h.i:‘
vi
RESURREIÇAO
outras que possuia realmente, inda que de
um merecimento relativo ou duvidoso.
Não se podia negar a influencia do Morei-
rinha entre senhoras. Era elle galanteador
por indole e por systema; tinha, alêm
disso (cousa importante) a plena convicção
de que a sua conversa era preferida pelas
damas. Ninguém melhor do que elle
sabia lisonjear o amor proprio feminino ;
ninguém prestava com mais alma esses
leves serviços de sociedade, qne consti
tuem muita vez toda a reputação de um
homem. Dirigia os piqiie-niqiies^ comprava
o romance ou a musica da moda, encom-
mendava os camarotes para as represen
tações de celebridades, levava os pianistas
aos saraus, tudo isso com um modo tão
serviçal que era de se hear morrendo por
elle.
Felix voltou á sala quando se dansavam
os últimos passos da quadrilha. Livia es
tava esplendida de graça e elegancia. Ne
nhuma affectação nem acanhamento; seus
movimentos eram a um tempo desemba
raçados e modestos. 0 medico procurou
ver se o doutor pretendente estaria nas
, MACHADO DE ASSIS — Resurpeiccio 3
.38 RESURREIÇAO
graças da moça; mas elle dansava do
mesmo lado em queella estava; os olhares
não podiam encontrar-se. Um sobrinho
do coronel indicou-lhe a mulher do Bap-
tista; era uma moça de vinte annos, loura,
assaz bonita e digna de inspirar amores.
Porque motivo, o marido, casado ha pouco,
1/ •» I queria ir queimar a um templo estranho
os perfumes que a esposa merecia ?
Algum tempo depois de finda a quadrilha,
dispoz-se Felix a deixar a casa do coro
nel, que lhe interceptou a passagem em
nome, disse elle, da mulher e das moças.
Felix respondeu-lhe que estava incommo-
dado.
— Pretextos de peraltice, disse o velho,
rindo alegremente; não o deixo sair nem
que me caia morto na sala. Faz favor,
minha senhora?
Estas ultimas palavras eram dirigidas á
irmã de Vianna, que ia atravessando a
saleta onde se achavam os dous.
— Que me quer, coronel ? disse ella
parando.
— Um favor apenas. Retenha-me este
rr senhor, que se quer ir embora. Não tenho
.
li ip
RESURREIÇÃO
forças para tanto. Veja se m’o consegue.
Comece dando-lhe uma quadrilha.
— Dou-lhe a próxima, que é a minha
ultima.
— Também se vae embora ?
— Também.
— E uma debandada geral. Vou man
dar trancar as portas.
O coronel affastou-se depois desta
ameaça. Felix deu o braco a Livia e foram
o
sentar-se n’um sophá que ficava proximo.
— Meu irmào c muito seu amigo, disse
Livia accomodando as ondas de seda do
vestido. Fala-me muito no senhor.
— E muito meu amigo, repetiu Felix,
fazendo interiormente uma careta.
— Não admira, observou ella ; o senhor
merece ser estimado.
— Como sabe disso ?
— Todos o afíirmam.
— Nem todos serão sinceros, observou
Felix.
Felix não se illudia a respeito da estima
de Vianna. Sem negar que o irmão da viuva
lhe tivesse alguma amizade, dava-lhe toda
via, limitado valor, Livia asseverava entre-
'l'
40 RESURREIÇÃO
tanto, que o irmão falava dellc com grande
enthusiasmo,e até certo ponto o enthusia-
mo era*- sincero. Félix tinha sobre Vianna
certa ascendência moral; alem disso, eia
um homen franco e hospedeiro, lude mas
serviçal.
Dentro de pouco tempo a conversa entre
o medico e a viuva foi perdendo a frieza
ceremoniosa do começo. Passaram a falar
líííiîif do baile, e Livia manifestou com expansiva
alegria as suas excellentes impressões,
S
r.'î -Bi j:#
E^ ' •' 1'i sobretudo porque, dizia ella, vinha da roça,
||i |’ onde tivera uma vida reclusa emonastica.
it:l Falaram naturalmente da viagem que ella
pretendia fazer. Confessou ella que eia
^í| |f-': um desejo antigo e varias vezes differido.
f'tlí'
Cir
;í,4! I'l';
■'/
— Não pense, accrescentou Livia, que
í4'fl. '^liT me seduzem unicamente os esplendores
i" ! de Paris, ou a elegancia da vida europea.
i
Eu tenho outros desejos eambições. Quero
conhecer a Italia e a Allemanha, lembrar-
i! 'lí'
me do nosso Guanabara juncto ás ribas do
Arno ou do Rheno. Nunca teve eguaes
desejos ?
— Estimaria poder fazel-o, se me suppri-
misseni os incommodos da viagem ; mas
Bir^
RESURREIÇÃO 41
com os meus hábitos sedentários difficil-
mente me resolvería a isso. Eu parti
cipo da natureza da planta ; fico onde m
nasci. V. Ex. será como as andorin
has...
— E sou, disse ella reclinando-se mol-
lemente no sophá ; andorinha curiosa de
ver o que ha alem do horizonte. Vale a
pena comprar o prazer de uma hora por
alguns dias de enfado. ■
— Não vale, respondeu Felix, sorrindo;
esgotta-se depressa a sensação d'aquelle
momento rápido; a imaginação ainda póde
conservar uma leve lembrança, até que
tudo se desvanece no crepúsculo do tempo.
Olhe, os meus dous polos estão nas Laran
jeiras e na Tijuca ; nunca passei destes
dous extremos do meu universo. Confesso
que é monotono, mas eu acho íelicidade
nesta mesma monotonia.
Livia entrou a combater isto que lhe
parecia um insigne paradoxo, mas sem que
nenhuma de suas palavras mostrasse a
mais leve sombra de pedantismo. Tinha
uma maneira natural e simples de dizer as
cousas menos vulgares deste mundo. Sabia
l ' -
i l
i j l í
i l q
42
>. l ,
RESURREIÇÃO
■ I ;
/' '
: >1. exprimir assuasideias em phrase elegante,
f ’ ‘
í
l " '
;
mas despretenciosa.
0 prelúdio de uma valsa chamou a
attençao dos dous para o baile. Félixcon-
vidou-a para valsar ; ella desculpou-se,
dizendo que se achava cansada.
— Vi-a valsar quando entrei, disse
Félix, e affirmo que poucas pessoas val
sarão tão bem. Creia na sinceridade do
elogio, porque eu não os faço nunca.
A moça acceitou este comprimento com
ingênua satisfação.
— Gosto muito da valsa, disse ella. Não
admira : é a primeira dansa do mundo.
— Pelo menos é a unica dansa em que
ha poesia, accrescentou Félix. A quadri
lha tem certa rigidez geométrica ; á valsa
tem todo o abandono da imaginação.
— Justamente! exclamou Livia, como
se Félix lhe tivesse reunido em poucas
riOi palavras todas as suas idéias a respeito
d’aquelle assumpto.
— Demais, continuou odoutor,animado
pelo enthusiasmo da viuva, a quadrilha
franceza é a negação da dansa, como o
vestuário moderno é a negação da graça,
RESURREICAO 43
e ambos são íilhos deste século, que é ne
gação de tudo.
— Oh ! murmurou ella sorrindo.
E o protesto não foi só com os lábios,
foi também com os olhos — uns olhos
avelludados e brilhantes, feitos para os
desmaios de amor. Felix começou a sentir-
se bem ao lado d’aquella moça, e esque
cendo de boa vontade a festa em que só
apparentemente figurava, alli se demorou
longo tempo com ella, alheio aos commen-
tarios extranhos, todoentregue ao capricho
do seu proprio pensamento.
Todavia, escapou-lhe, no meio da con
versa, não sei que phrase de melancólico
scepticismo que fez estremecer a moça.
Livia olhou paraelle e depois para o chão,
parecendo tão absorta que nem deu pelo
silencio que se seguiu ao seu gesto e ás pa
lavras de Felix. Este aproveitou a circum-
stancia para examinal-a melhor.
Livia representava ter vinte e quatro
annos. Era extremamente formosa; mas
o que lhe realçava a belleza era um senti
mento de modesta consciência que ella
tinha de suas graças, uma cousa seme-
iff fir lhante á tranquilliclacle da força. Nenhum
gesto seu revelava o amor proprio ge
ralmente inseparável das mulheres bonitas.
Sabia que era formosa, mas tinha para si
que, se a natureza se havia esmerado com
Si ella, era por uma razão de harmonia e de
ordem nas cousas terrestres. Afeiar as
suas graças, parecia-lhe um crime; tirar
orgulho d’ellas, frivolidade.
Felix examinou-lhe" detidamente a ca
beça e o rosto, modelo de graça antiga. A
tez, levemente amorenada, tinha aquelle
macio que os olhos percebem antes do
contacto das mãos. Na testa lisa e larga,
parecia que nunca se formára a ruga da
reflexão ; não obstante, quem examinasse
n’aquelle momento o rosto da moça veria
que ella não era estranha ás lutas inte
riores do pensamento : os olhos, que
eram vivos, tinham instantes de languidez;
n’aquella occasião não eram vivos nem
lânguidos ; estavam parados.
Sentia-se que ella olhava com o espirito.
Felix contemplou-lhe longo tempo
aquelle rosto pensativo e grave, e invo
luntariamente foram-lhe os olhos des-
1'
RESURREIÇÃO 45
cendo ao resto da figura.0 corpinho aper
tado desenhava naturalmente os contornos
delicados e graciosos do busto. Via-se on
dular lige ira mente o seio t urgido, compri
mido pelo setim; o braço escpierdo,atirado
mollemente no regaço, destacava-se pela
alvura sobre a cor sombria do vestido, como
um fragmento de estatua sobre o musgo de
uma ruina. Félix recompoz na imaginação
a estatua toda, e estremeceu. Livia acordou
da especie de lethargo em que estava. Gomo
também estremecesse, caiu-lhe o leque da
mão. Félix apressou-se a apanhar-lh’o.
— Obrigada, murmurou ella distrahida.
Depois, parecendo envergonhada
d’aquelle longo silencio, pretextou um
incommodo nervoso; levantaram-se e diri-
giram-se ao salão. Alli, no meio da con
versa e do bulicio, readquiriu ella o im
pério de si mesma, e conversaram larga
mente com volubilidade e galanteria.
A viuva era um pouco sarcastica, mas
d’aquelle sarcasmo benevolo e anodino,
que sabe misturar espinhos com rosas.
Pela primeira vez Félix a conhecia, por
quanto apenas atinha visto duas vezes,
MACHADO D E A S S IS — Besuppeiçao 3.
46 RESURREIÇÃO
e não basta ver uma mulher para a co
nhecer, é preciso ouvil-a também; ainda
que muitas vezes basta ouvil-a para a não
conhecer jamais-.
Livia demorou-se em casa do coronel
mais tempo do que promettera, milagre
devido ao doutor, dizia Vianna. 0 certo é
que o resto da noite quasi não existiram
para ninguém mais.
Não passou isto sem que o notassem
alguns lábios despeitados. Um cava
lheiro disse a uma senhora :
— Não lhe parece que D. Livia tem um
gosto deplorável ?
A senhora arregaçou levemente a ponta
esquerda do labio superior, e respondeu :
— 0 Félix não o tem melhor.
A viuva saiu no meio de um geral mur
múrio de curiosidade. Félix não se demo
rou muito tempo mais ; metteu-se no
carro e foi para as Laranjeiras.
Uma hora depois o baile, a viuva, a
dansa, tudo se lhe desvaneceu do espirito,
graças a um somno tranquilloe profundo,
como essas nuvens douradas do occaso
que a noite absorve ou dissipa.
IV
P R E L U D IO
No dia seguinte partiu Felix para a
Tijuca, onde tinha uma casa de recreio e
refugio ; regressou duas semanas depois.
Durante esse tempo nada soube do que
occorrera na cidade : não leu jornaes nem
abriu cartas de amigos.
Alguma cousa, entretanto, haviaoccorri-
do : a primeira noticia com que o saudaram
os amigos, apenas elle chegou á cidade,
foi que Cecilia conquistára o coraçãò de
Moreirinha.
0 successor de Felix, pouco depois que
este chegou, não deixou de lhe ir partici
par a sua boa fortuna, não sei se por fatui
dade, se por despicar a dama.
.’■4’/* ‘V. 48 RESURREICAO
■^>Î5,■■■
Il
— Dou-Ihe os meus parabéns, respon
deu Felix ; conquistou uma repari^a soce-
t1l*'/':.■ gada, carinhosa, capaz de o compreheii-
der...
— Tanto melhor! acudiu o rapaz. O que
me faltava era isso mesmo ; uma mulher
que me comprehendesse. Cecilia não é
positivamente uma alma perdida ; não está
na linha dessas outras mulheres com quem
>:fh tenho despendido o meu dinheiro sem
I#
ïii'lî f|U colher nada mais que alguns tardios remor
llf'f
Í lifi-
sos. uma moça de bons sentimentos,
conserva certa dignidade no vicio, tem uma
|îU :fill alma nobre, elevada...
/'/<•fi' k.{<1I
î. |l 1
IVVi, A ii ■ il,
Este panegyrico durou alguns minutos
Il'A U mais. Dentro de tão pouco tempo desco-
brira-lhe Moreirinha qualidades desco
lia' nhecidas para o antecessor. Seria mais
néscio ou mais perspicaz ? Cecilia não era
hypocrita quando dizia gostar deumhomem;
[■ IlI, qualquer que fosse a natureza dos seus
m I affectos, ella os sentia sinceramente; mas
'-te era raro que sobrevivessem vinte e quatro
||l
horas á causa que Ih’os inspirara. Não se
*1^). nV4l
>Il fe lhe desmentira a constância durante os seis
mezes de intimidade com Felix ; mas se
RESURREIÇÃO 49
ella era amante para querer a um só
homem, era independente para o esquecer
depressa. Tinha uma íidelidade filha do
costume; a sua maxima era não esquecer
o amante presente, não recordar o amante
passado, nem se preoccupar com o amante
futuro.
Moreirinha era o amante presente ; podia
contar com a íidelidade da rapariga, ao
menos com as suas boas intenções.
Quando Menezes soube deste desenlace
ficou attonito. Julgou a principio que era
apenas uma affectação de Moreirinha ;
mas logo verificou que não. Foi ter com o
medico.
— Meu amigo, disse : peço-te que me
desculpes a carta ridicula que te escrevi.
— Que carta ?
— A respeito de Cecilia. Nunca pensei
que fossem fingidas aquellas lagrymas que
me entraram pelo coração. Aprendi a não
crer tão superficialmente.
— Não aprendeste cousa nenhuma,
retorquiu Felix, encolhendo os hombros;
não é em terra que se fazem os marinheiros,
mas no oceano, encarando a tempestade.
50 RESURREICAO
0 episodic dos amores de Cecilia foi
assumpto de conversa no circule dos
rapazes que aquelles frequentavam. Nem
tardou que passasse alem. No fim de algum
tempo, pouca gente ignorava que a more-
ninha que passeava todas as tardes em
carro descoberto pela praia de Botafogo
era o altar em que o Moreirinha fazia os
seus sacrifícios diários e pecuniários. Felix
admirou-se ao principio desta mania de
passear tão contraria aos hábitos pregui
çosos de Cecilia ; mas atinou logo com a
chave do enigma. Moreirinha não compre-
hendia o que era ser feliz sem publicidade.
Para elle, a ilha de Cythera não podia ser
jamais a ilha de Robinson.
Entretanto, passara um mez desde o
sarau do conselheiro. Felix não se havia
aproveitado do convite que a viuva lhe
fizera, nem cedido ás instâncias deVianna.
Encontrou-os, porém, uma noite no Gym-
nasio. Estava elle nas cadeiras quando os
viu n'um camarote da 2 .^ ordem. No fim
do 2 .^ acto Felix subiu ao camarote.
Teve excellente recepção, posto que a
viuva, sem deixar de ser cortez e graciosa,
RESURREIÇÃO õl
parecia um pouco reservada e preoccupa-
da. Não falava com a mesma volubilidade
da noite do baile. Esquecia-se ás vezes de
si e dos outros. Duas vezes lhe aconteceu
dar uma resposta sem pergunta e deixar
uma pergunta sem resposta.
A conversa, portanto, não foi muito ani
mada. Felizmente Vianna encarregou-se
de preencher os intervalloscom a sympho-
nia das suas reflexões.
Quando se levantou o panno para o ter
ceiro acto, Felix quiz sair, mas tanto a
viuva como o irmão pediram-lhe que ficasse.
Acceitou o convite e ficou. Do que houve
em scena durante esse acto póde-se affir-
mar que Felix nada soube absolutamente.
0 acto era curto, e Felix empregou todo o
tempo em observar a moça, que, molle-
mente reclinada na cadeira, acompanhava
distrahida o dialogo dos actores.
— Em que estará pensando, esta mo
ça ? dizia Felix comsigo. Evidentemente,
não lhe importam os suspiros do galan,nem
as facecias do gracioso. Olha, mas não vê a
scena. Estará á espera de algum namorado
remisso ? Mas quem é então esse lorpa
'f / í< í ■•j
52 RESURREIÇÃO
,U;
que deixa entristeceruns olhostãobonitos?
A ingênua da peça, que desde o acto
anterior se saJ3Ía estar apaixonada pelo
galan, como é de geito no theatro e no
mundo, entrou precipitadamente em scena
S:i :: -í’.
e lançou-se nos braços do amado. iVlgu-
mas palmas do publico premiaram essa
resolução inesperada e energica. Então
começou entre a dama e o galan um dia
logo de sentimento e paixão, um duellode
suspiros, um protestar de fidelidade e
constância, que a platéia ouviu com de
monstrações de enthusiasmo.
'^hí — Ama, não ha duvida, continuou Felix
L' ■)'%■,'■.■-A
^;.1 íi|l'-: a dizer entre s i; basta ver como lhe bri
3'' lham os olhos a cada phrase do dialogo.
Agradam-lhe os protestos do namorado e
as lagrimas da dama. Creio que sorri ; é
de approvação. Oh ! como está divina !
ip P Emfim, caiu o panno ; e a viuva, que já
I:
'?nli no fim do acto, parecêra ter jvoltado á sua
'*■'1:|f
kl anterior preocupação, levantou-se, dizendo
'^''li m que se ia embora.
i'
Vianna pediu-lhe para ficar até o fim da
peça; ella insistiu, e era forçoso ceder.
Felix accompanhou-os até o carro.
*1.;.:| k'
*í'
■ if
i
RESURREIÇÃO 53
— Até quando ? perguntou Livia, accei-
tando a mão que Félix llie offerecia.
— Até breve.
Seria acaso ou illusão? Félix sentiu
uma forte pressão dos dedos da moça, em
quanto esta subia rapidamente para o
carro, e ia responder com um aperto
ainda mais forte; mas era tarde; a moça
já estava sentada, e Vianna punha o pé no
estribo para subir.
Illusão era de certo ; illusão ou casuali
dade. Mas o medico não o percebeu logo,
e foi um primeiro erro na maneira de
julgar a viuva.
Poucos dias depois do encontro no
theatro, dirigiu-se Félix a Caiumby onde
elles moravam. Não os achou. Quando
Livia voltou para casa soube da visita de
Félix pelo cartão que a mucama lhe deu.
Tão apressadamente descalçou as luvas
queas rasgou ; e como o irmão fizesse um
reparo a este respeito, a moça respondeu
com azedume. Vianna estava acostumado
ás asperezas da irmã, levantou os hom-
bros e saiu.
Félix encontrou-a dous dias depois na rua
RESURREIÇAO
do Ouvidor, fazendo compras para a viagem.
— Se adivinhasse a sua visita, nãoteria
ti- saido de casa, disse a viuva.
Félix incIinou-se.
— Por outro lado, estimo ter estado
fora ; morando eu tão longe, não teria o
prazer de recebêl-o segunda vez, e nesse
caso antes nada.
— 0 tilbury encurta as distancias, ob
servou Félix ; procurarei desempenhar-me
da obrigação em que estou.
— Da obrigação já se desempenhou ;
agora...
— Perdão ; o seu comprimento cons
titue uma obrigação nova.
Despediram-se.
Menezes, queestava na calçada opposta,
durante as poucas palavras trocadas entre
'i.'
Félix e a viuva, atravessou a rua e veiu ter
com o amigo.
,11f ;|:; Quemé aquella moça?
— E a irmã do Vianna.
— Bravo ! élindissima.
r
— E realmente bonita, o que lhe merece
a admiração geral. Vê como todos lhe
estão com os olhos em cima...
í'-
RESURREIÇÃO 55
— Se não ha indiscrição, disse Menezes
depois de a ver entrar em uma loja, quei
mas os teus perfumes naquelle altar?
— Não. Para què ?
—Talvez algum casamento incumbado...
— Casar?... disse Felix rindo. A per
gunta é tão original que merece um sor
vete. Vem ao Carceller.
No Carceller contou-lhe Menezes que
andava incommodado e triste. Vivia elle
marilalmente com uma perola que pouco
antes encontrara no lodo. Na véspera des
cobrira em casa vestimos
O de outro ama-
dor de pedras finas. Estava certo da infi
delidade da amante ; pedia-lhe conselho.
— Não te dou conselho nenhum, res
pondeu o medico ; resolve tu mesmo.
Mas, se eu podesse resolver alguma
cousa no estado em que estou, não viria
falar a um amigo...
— Lisongea-rne a escolha ; mas não
passa disso. Imita-me, se podes; mas não
me peças reflexões.
— Mas, no meu caso, que farias tu ?
— Cousa nenhuma; pegava no chapéu e
saia.
56 RESURREIÇÃO
— E se o não podesses fazer sem dor ?
— Hypothèse absurda.
— Para ti.
— Naturalmente.
Houve uma pausa.
— Dou-te emfim um conselho, disse
Félix.
Menezes levantou os olhos com ancie-
dade.
— Qualquer que seja a resolução que
tomares, continuou Félix, não recues um
passo.
— Onde acharei esta resolução ?
o
— Aqui, disse Félix pondo-lhe o dedo
na testa.
— Oh ! não ! suspirou Menezes ; a ca
beça nada tem com isto; todo o mal está
no coração.
— Recorre á cirurgia : corta o mal pela
,'pr'“-:t raiz.
— Como?
— Supprime o coração.
5i 1li? V
■
f'
FICO
Doiis dias depois, estando Felix a vestir-
se para ir a Catumby, entrou-lhe Menezes
por casa. Vinha pallido e abatido, olhos
vermelhos, passo tremulo. Não se sentou,
deixou-se cair n’uma cadeira.
— Oue é isso ? perguntou Felix.
— Está tudo acabado, respondeu ellc :
romperam-se os vinculos falaes. Custou-
me muito, mas era necessário ; foi agora
ha pouco; corri para cá; precisava de
alguém com quem desabafasse. Isto é ridi-
culo, bem sei ; mas que queres ? Eu
soffro... tenho um coração miserável, e
deixo-me levar por elle...
Felix pareceu condoer-se da situação do
M l , . ,'l
58 RESURREIÇAO
1,4/'
rapaz, e disse-lhe algumas palavras de
animação, que elle ouviu com reconheci
;í;í: mento.
y i!wr’
— Eu ja desconfiava, disse Menezes, de
que era trahido; só tive a certeza hontem.
í
[Link]' ' I; ^'
5 O que mais me doe em tudo isto, conti
nuou elle depois de alguns instantes de
silencio, é que, para servir ao homem que
me trahiu, desfazia-me eu em obséquios, e
até, confesso-te aqui, era seu credor.
— E por isso que eu não empresto di
nheiro a ninguém, respondeu Felix, pen
teando as suiças.
— Mas quem pode adivinhar o mal,
quando nos apresentam uma physionomia
ti V risonha ? Eu confiava em ambos.
Felix encolheu os hombros.
— Toma um charuto, disse.
— Não quero fumar.
‘‘lllfc' — Fuma ; eu já observei que o fumo
impede as lagrymas, e ao mesmo tempo
I ’1r leva ao cerebro uma especie de nevoeiro
salutar.
— Vás sair ? perguntou Menezes,
vendo que o outro punha o chapéu na
cabeça.
, 'v' ^V; r. . ‘
Èá Mi
RESURREIÇÃO 59
— Vou á casa do Vianna. Ouores vir ?
— Não posso.
— Dévias vir commigo ; apresentava-te
cá irmã d’elle, e passavamos algumas horas
em companhia amavel. Esquecerías de-
pi^cssa as tuas penas.
Menezes l’ecusou ; Félix levou-o no carro
ate á rua do Lavr^adio, onde elle mor^ava.
Em canrinho conver"sar*arn dos seus
extinctos amores. Menezes jur*ava que era
a ultima aventura a que expunha o seu
coração ; achava-se curado de uma vez.
— Não affirmes nada, Menezes ; podes
err*ar. Sabes o que te falta ? Têmper*a.
Amanhã, entr-e duaslagr^ymas, apparece-te
um raio de sol; e eis-te de novo narnor^ado,
confiado e arrdscado.
— Oh ! não ! protestou Menezes.
— Ouern der^a que não ! Mas eu estou a 1er
iro teu rosto que a unica maneir^a de te con
solar deste nauíragio é dar*-te outi'o navio.
Só muilo tar^de te convencerás de que viver
não é obedecer ás paixões, mas aborrecel-
as ou suffocal-as. Os marícas, como tu,
chor^am ; os homens, esses ou não sentem
ou abafam o que sentem. Isto não tem
60 RESURREIÇÃO
replica^ meu... amigo, diria eu, semenão
lembrasse do teu afortunado rival, que
é positivamente um mariola. Vem á casa do
Vianna; has de gostar da Livia; parece-se
comtigo.
— Não posso, respondeu Menezes, que
só ouvira as ultimas palavras de Felix.
— Mas has de ir depois?
— Sim, depois.
— E se te apaixonas por ella?
Menezes sorriu tristemente ; o carro
parou; despediram-se um do outro,eFelix
seguiu para Catumby.
Livia estava só em casa. Fora convida
da a um jantar, mas respondeu pretextando
um incommodo que não tinha. O irmão
encarregou-se de ir represental-a.
— Tinha o presentimento, disse ella de
pois de referir estas cousas ao doutor, tinha
o presentimento de que o senhor vinha cá
hoje, e não desejava que lhe acontecesse
I í''i a mesma cousa que da primeira vez.
*; >* ' — E acredita [em presentimentos? per
guntou Felix.
Não os explico, mas acredito nelles.
]'• í' !■ Livia parecia mais bella que das outras
RESURREIÇÃO 61
vezes. Não só a luz natural dizia melhor
com a sua tez, como também a simplicidade
do vestuário era para ella um realce. Felix
nao dissimulou a impressão que lhe causava
aquelle novo aspecto da moça. Livia, que,
como toda a mulher bella, e posto não fosse
vaidosa, sabia mirar-se na physionomia
dos outros, não deixou de perceber a im
pressão do doutor.
A scena da portinhola do carro não havia
sahido do espirito de Felix, que se conven
cera de duas cousas : primeiro, que a
viuva gostava delle; depois, que era facil
triumphar da viuva. As ajiparencias davam
fundamento á opinião de que a moça o
amava. Felix aproveitou a situação edispoz-
se a tirar delia todo o proveito possivel.
Pouco se demorou, entretanto, naquelle
dia. Quando annunciou que se ia embora,
pediu-lhe a viuva que não esquecesse a
casa.
— Aproveitarei o tempo, observou Felix,
emquanto não embarcam para a Europa.
Seu irmão diz-me que a viagem é breve.
— Se não houver transtorno. Em todo o
caso, venha, e não faça visitas de medico.
MACHADO DE A S S IS — R esurreiçüo 4
62 RESURREIÇAO
— Eu fui medico; fiquei com esse cos
tume, respondeu Felix sorrindo.
— ,la não é medico.
— Do corpo, não.
'li-- — Mas da alma?
—Talvez. Deixeiagora mesmo um doente
í» 11
da alma, que eu desejaria apresentar-
lhe, por que estes ares dão saude, creio eu.
iç — De que soffre o seu doente?
Felix sorriu-se.
— Victima de uma inconstância, mo-
lestia vulgar. Está no periodo agudo. E
um pobre rapaz, innocente e singelo, que
vai buscar as regras da vida nos compên
j i .«Syiüi dios da imaginação. Maus livros, não lhe
IM
■,f’kí iíM
.iv.;'í; parece?
' I ?;i|l
Livia não respondeu; estava embebida
IS
ts.í» ?à
íáí a ouvil-o.
— Menezes não conhece outros, conti
iíEíi-i- nuou Felix. Parece íilho d’aquelle astro-
logo antigo que, estando a contemplar os
)■W- astros, caiu dentro de um poço. Eu sou
da opinião da velha, que apostrophou o
astrologo : « Se tu não vês o que está a
teus pés, porque indagas do que está acima
da tua cabeça? »
RESURREIÇÃO 63
— 0 astrologo podia responder, obser
vou a viuva, que os olhos forão feitos para
contemplar os astros.
— Teria razão, minha senhora, se elle
podesse supprimir os poços. Mas que é a
vida senão uma combinação de astros e
poços, enlevos e precipicios? 0 melhor
meio de escapar aos precipicios é fugir
aos enlevos.
Livia ficou pensativa alguns instantes.
— 0 pensamento é melancólico, disse
ella; comtudo póde ser verdadeiro. Mas
porque razão condemnaremos a vida con
templativa dos que não conhecem a vida
positiva? Os livros da imaginação... esses
livros não são detestáveis, como o senhor
disse; não os ha detestáveis nem optimos.
Deus os dá conforme a sciencia de cada
um.
Felixdespediu-se deLivia, não enlevado,
não palpitante, mas disposto a uma aven
tura. Amiudou as suas visitas a Catumby,
a grande aprazimento de Vianna, que sus
peitou alguma affeição entre os dous, e ima-
ginára uma alliança de familia.
A presença de Félix era até vantajosa
' ^1 f!l
i ‘’'.iii'’ 64 RESÜRREIÇÃO
naquella casa. Entre a viuva e o irmão
. .1'
havia um abysmo. Eram dissimilhantes
"I nos sentimentos, nos hábitos de viver, na
maneira de pensar. Livia tinha alterna
tivas de affabilidade e rispidez, ao passo
que o irmão era de uma inalterável paz de
espirito. Vianna tinha cousas más e boas,
sendo que as cousasboaserão justamente as
que se oppunham ao genio especulativo da
viuva. Era homem essencialmente pratico;
o seu reino era todo deste mundo. Apezar
das suas pretençOes a rapaz estouvado e
P l #? extravagante, tinha hábitos de ordem e
economia. Livia era a este respeito negli
gente e (( meia douda », como lhe chamava
o irmão; alheiava-se muitas vezes das cou
sas que a cercavam para subir a um
mundo superior e chimerico. O medico era
entre ambos uma especie de mediador
plástico. Não pertencia á esphera de
nenhum delles, mas sabia a maneira de
os conciliar.
Felix encontrou algumas vezes em Ca-
tumby o Dr. Baptista, que elle vira dansar
com a viuva em casa do coronel. Livia não
parecia prestar-lhe attenção, nem o pre-
V<1 :
:;íl 'IrV,:!
R E S U R R E IÇ Ã O 65
tendente magoar-se por isso. Era um mo
delo de dissimulação e calculo. Conhecia
todos os artifícios da campanha amorosa,
a indifferença, o desdem, o enthusiasmo,
e até a resignação.
Uma noite em que sairam de lá juntos,
Felix procurou sondar-lhe o espirito a res
peito da moça.
— Nada ha, respondeu Baptista coM
indifTerença; nem eu pretendo cortejal-a.
Mas, se o pretendesse, triumpharia; a
paciência é a gazua do amor.
— Não lhe parece que essa sua maxima
é immoral?
— Effectivamente é assim; mas ó por
isso mesmo queestes amores são deliciosos.
Quinze dias depois appareceu Vianna
em casa de Felix. Deu-lhe parte de que a
irmã já não ia para a Europa.
— Porque motivo? perguntou Felix.
- E j ustamente o que eu desejava sa
ber, disse Vianna com um gesto de mal
contido despeito ; mas estou certo de
que o não saberei jamais. Aquella minha
irmã não me parece ter a cabeça no seu
logar.
machado de A S S IS — Resurreiçao 4.
1?«' ifef.
ti 66 RESURREIÇAO
lií!-
;i^ — Alguma razão haveria. Estará
doente?
— Está deparfeita saude.
— Quem sabe se... algum namoro ?
— Já pensei nisso, disse Vianna ; póde
ser algum namoro.
'tft — Naquella edade as paixões são so
■F" ' beranas. Seria inútil querer dissuadil-a,e
■^
ainda que não fosse inútil, seria desar
■ili! razoado, porque uma viuva moça... Ella
; liiFF
amava muito o marido, não ?
— Antes de casar, muito ; très mezes
depois muitissimo ; ao cabo de alguns
mezes, nem muito nem pouco. Toda essa
historia é mysterio para mim...
— Não lhe vejo mysterio nenhum ; o ca
"i| ilt samento é justamente isso: acalma os
affectos para os tornar mais duradouros.
Se a paixão de sua irmã se tornou mais
ii calma...
— Não se trata disso. Livia não amava
menos ; aborrecia o marido... Mas porque
nos demoraremos nestas cousas que não
J! podemos explicar? A unica explicação que
lhe acho é o seu caracter exquisito. O
senhor não imagina bem que eterna varia-
lÆSURREIÇAO
ção de genio é aquella moça. Ha dias em
que se levanta meiga e alegre, outros em
que toda ella é irritação e melancolia.
Ninguém a entende, e eu menos que nin
guém.
— Não esteja o senhor a exagerar uma
cousa naturalissima. Todos temos essa
mesma alteração de humor. Ha manhãs
tristes e aziagas. Quer que lhe dê um con
selho? Não a contrarie nunca, é o melhor.
— Mas o senhor hade concordar que
quando a gente já preparava os beiços para
ir saborear a vida parisiense...
— Ha tempo para tudo, disse Félix, eo
senhor ainda está moço. Iremos juntos
daqui a um anno.
— Palavra ?
— Palavra.
U
VI
DECLARACAO
— Então, já não vae para a Europa?
perguntou Félix á viuva nessa mesma
tarde.
— Ouem lh’o disse ?
— Seu irmão.
— Desfiz a viagem, bem contra a von
tade delle, que me chamou caprichosa e
não sei que mais. Talvez tenha razão. Eu
mesma não me entendo ás vezes. Esta via
gem, que era um desejo ardente, acha-me
agora fria. Que lhe parece isto?
— Alguma razão ha de haver, ponderou
o medico ; e eu sentiria se o motivo...
— Se o motivo? repetiu a moça.
Calaram-se e ficaram algum tempo a
70 RESURREIÇÃO
olhar um para o outro. Â explicação, que
já os lábios não pediam nem davam, co
meçaram a pedil-a e a lel-a os olhos de
ambos.
Livia abaixou os seus.
— Vamos para o terraço, disse ella por
fim; a tarde esta bonita.
A tarde estava realmente linda. Felix,
entretanto, cuidava menos da tarde que da
moça. Nao queria perder o ensejo de lhe
dizer, como se fora verdade, que a amava
I * loucamente. Encostada ao parapeito do
terraço que dava para a chacara, a viuva
simulava contemplar os esplendores do
Ji-ítÉ: occaso; na realidade, afiava o ouvido para
ÍÉ làiii escutar a confissão amorosa.
m': Felix olhava para ella e nao ousava rom
per o silencio. Quasi a soltar dos lábios a
palavra decisiva, a si mesmo perguntava
se ella nao iria pesar no seu destino mais
do que imaginava então, e se daquelle
capricho de momento não resultaria o mal
de toda a sua vida. Mas a hesitação foi
curta; Felix ia emfim lançar a sorte, quando
um escravo appareceu no terraço, a annun-
t í 'í'í'l ciar a visüa do Dr. Baptista.
Íilí'
1/ rMi
RESURREICAO 71
— Nao quero falar a ninguém, João,
disse a moca; estou incommodada.
— Que resposta é essa ? perguntou Félix,
baixinho, quando o escravo voltou as
costas.
— João! disse a moça.
0 escravo voltou.
— Eu hoje só posso receber as pessoas
mais intimas de casa, os amigos de meu
irmão. As outras dize que estou incommo-
dada.
O escravo saiu.
— Adopta esta explicação?
— Antes essa, respondeu Félix; é
melhor para a senhora ; sinto-a comtudo
por mim ; não quizera ser envolvido entre
os Íntimos da casa.
— Quer que eu corrija a ordem quedei?
— Não peço tanto; não tenho direito a
isso ; e todavia...
— E todavia?...
Houve um curto silencio.
— Não me comprehende? disse Félix
com voz quasi sumida.
— Comprehendo, murmurou ella, depois
de uma pausa; mas receio enganar-me.
■r.
' 1j 72 RESURREIÇÃO
— Não se engana, insistiu Felix com
calor; amo-a, e seria impossivel negal-o,
porque a minha voz e o meu rosto hão de
tel-o dito melhor do que as minhas pala
vras. Não percebe isso ha muito tempo?
Não adivinhou já que a esperança do seu
amor é para mim toda a felicidade de
amanhã ? Diga ! diga uma palavra só, cruel
ou benevola, mas uma e definitiva.
Livia escutara-o enlevada, e a sua res
[1V!# posta íbi mais eloquente que a declaração
do doutor; estendeu-lhe a mão tremula e
fria, e embebeu nos olhos delle um longo
olhar de agradecimento e felicidade.
— Ama-me também? perguntou Felix,
1
depois de alguns minutos de muda con
1' i ■'I'
.■I templação.
— Oh ! muito ! suspirou a moça.
MM E ambos alli ficaram silenciosos, offe-
fWi' sísF itI
gantes e namorados, nesse extasis dulcis-
simo que é porventura o melhor estado da
alma humana. Ambos, porque o coração,
do medico, naquelle instante ao menos, pal
pitava com egual fervor.
— Muito I repetiu Livia, como se essa
palavra fosse apenas um eco do seu pensa
•: I
I.
RESURREIÇÃO
mento ou uma resposta á muda interro
gação dos olhos do medico.
Félix passou-lhe o braçq á roda da cin
tura e puxou-a docemente para si; depois
segurou-lhe a cabeça entre as mãos, e in
clinou os lábios para lhe imprimir um
beijo na fronte. Deteve-o um rumor extra-
nho, uma voz infantil e desconhecida.
Instantes depois appareceu no terraço
um menino de cinco annos, criança gentil
e esperta, rosada e gorda, como os anjos e
os cupidos que a arte nos representa em
seus painéis.
— Mamãe! mamãe! gritava o pequeno,
correndo a abraçar-se com a mãe e fugindo
á mucama que vinha atraz delle.
Livia recebeu a criança nos braços ; bei
jou-a e pol-a ao collo.
— Apresento-lhe meu íilho, disse ella
ao medico ; esta^va em casa da madrinha ;
veiu hontem pai:à cá.
E voltando-se para o menino :
— Luiz, conheces o Dr. Félix?
0 menino olhou para o medico com a
expressão pasmada e interrogativa das
crianças que veem uma pessoa pela pri-
MACHADO D E A S S IS — R e s u r r d ç a o 5
lÍ p il:'
iií ':í^:r
74 RESURREIÇAO
P'il^:
iá'K.1-
, ,, ':i|í''r iTi6Íra V6Z, 6 voltou-s6 pars R niã6, sem
pyí;;(^
'’l’ ssfiií'
;;,'[Link]:. parecer impressionar-se muito. Livia en-
m
*'i-ï In.!i!ipp cheu-lhe as faces de beijos. A criança,
rindo de prazer, repelliucomas mãosinhas
i ÍM aquella chuva de caricias maternas.
i'|,;
Íi p". — Ora bem, disse a viuva, quem te deu
ii<V» Ü Ji!
i-r ordem de andar a correr por aqui?
_ Ninguém, respondeu o menino, eu
pedi a Clara para me deixar vir; ella não
quiz, mas eu vim. Não fiz bem, mamãe?
_ Fizeste mal. Vae brincar, vae, mas
não corras.
— Quem é este moço? perguntou Luiz,
olhando outra vez para Félix.
— Ja te disse : é o Dr. F'elix.
■i:■' — Ah!
Luiz encarou o medico; depois olhou
para a mãe, e fez um gesto para descer.
0
^; 'vfíp" Livia pol-o no chão.
y i ‘iíP
— Posso ir á chacara?
ï'iÇ
Jp'»ypîiî;' — Podes; leva-o, Clara.
íit Luiz deitou a correr seguido pela mu-
ípVk
«Íif'/L*íi,í'íí* i.r'1.'
cama. A mãe acompanhou-o com os olhos
até velo desapparecer do terraço.
Durante esta scena, Félix parecêra com
pletamente extranho a tudo que o rodeava.
RESURREIÇÃO 75
Não ouvia as repreherisOes da moça, nem
a tagarelice da criança ; ouvia-se a si
mesmo. Contemplava a quel le quadro com
deleitosa inveja, e sentia pungir-lhe uiii
remorso. ✓
— E mãe, repetia o moço comsigo; émãe!
— Olhe, dizia a moça, debruçada sobre
o parapeito que dava para a chacara ; veja
como elle vae correndo...
Félix debruçou-se também; o menino
corria effectivamente adiante de Clara que
o accompanhava de longe. De quando em
quando, parava o menino aguardando a
mucama ; mas tão depressa esta se lhe
approximava, a criança negaceava o corpo,
e deitava a correr outra vez. A mãe pare
cia esquecida de tudo mais; Félix contem
plava-a com religioso respeito. Estiveram
assim calados alguns segundos. De re
pente, Livia voltou-se para o medico :
—Vê?disse ella ; apoucose reduzaminha
felicidade : o senhor e aquella criança.
Dizendo isto, deixou pender a fronte ;
Félix beijou-a ardentemente, mas não pôde
dizer nada. A commoção embargou-lhe a
voz; a reflexão irnpoz-lhe silencio.
{■
XII
o G A V IA O E A EOMBA
Iniciando affoutamente esta aventura,
era natural que Felix saisse de Catumby
com a vaidade satisfeita de um triumpha-
dor. Não era elle amado, e amado sem
esforço seu, sem resistência nem com
bate? E a mulher que lhe acabava de dar
francamente o coração não tinha todas as
qualidades que podem seduzir um homem
e lisongear-lhe o amor proprio ?
Qualquer outro teria motivo de se julgar
superior ao resto dos mortaes; mas era a
natureza mesma da victoria que vinha tra
var a felicidade de Felix. A que proposito
interviria o coração neste episodio, que
devia ser curto para ser hello, que não
78 RESUBRÉIÇÃO
devia ter passado nem futuro, arroubos
nem lagrymas?
,!-' — Fui longe de mais, ia elle dizendo
comsigo; não devia alimentar uma paixão
que hade ser uma esperança, e uma espe
rança que não póde ser outra cousa mais
que um infortúnio. Que lhe posso eu dar
que corresponda ao seu amor? 0 meu es
pirito, se quizer, a minha edicação, a minha
ternura só isso... porque o amor... Eu
amar? Pôr a existência toda nas mãos
de uma créatura extranha... e mais do que
a existência, o destino, sei eu o que isso é?
mM Neste ponto, parece que alguma ideia
vaga e remota lhe surgiu no espirito e o
levou a uma longa excursão no campo da
memória. Quando Voltou á realidade pre
sente tinha o carro entrado no largo do
c Machado. Apeou-se e seguio a pé para
casa.
A viuva tornou a occupar-lhe o espirito.
Recapitulou então tudo o que se passara
em Catumby, as palavras trocadas, os
olhares ternos, a confissão mutua ; evocou
.dh-lf'-'-'''' a imagem da moça e vio-a junto delle, pen
àJili '■ dente de seus lábios, palpitante de senti-
RESURREIÇAO 79
mento e ternura. Então a pliantasia come-
cou a debuxar-lhe uma existência futura,
não romanesca nem legal, mas real e pro
saica, como elle suppunha que não podia
deixar de ser com um homem inhabil para
as affeicões do ceu.
o
— E que outra cousa quer ella? dizia
o medico a si mesmo. Era, sem duvi
da, melhor que houvesse menos senti
mento naquella declaração, que tivesse-
mos navegado mais junto á terra, em vez
de nos lançarmos ao mar largo da imagi
nação. Mas, emfim, é uma questão de
fórma : creio que ella sente da mesma ma
neira que eu. Devia tel-o percebido. Fala
com muita paixão, é verdade ; mas natu
ralmente sabe a sua arte ; é colorista. De
outro modo pareceria que se entregava
por curiosidade, talvez por costume. Uma
paixão louca póde justificar o erro; pre
para-se para errar. Não me anda ella a se
duzir ha tanto? E positivo; mette-se me
pelos olhos. E eu a imaginar que...
Quando Felix chegou a casa, estava
plenamente convencido de que a affeição
da viuva era uma mistura de vaidade, ca-
80 RESURREIÇÃO
pricho e pendor sensual. Isto lhe parecia
melhor que uma paixão desinteressada e
sincera, em que, aliás, não acreditava. Não
admira pois que ainda desta vez a lem
brança de Livia lhe não perturbasse o
somno, e que o primeiro clarão da aurora,
atravessando os vidros da janella da alco-
va,alumiasse o rosto do medico, tão grave
e plácido como na vespera.
Félix voltou a Catumby naquelle mesmo
dia. A viuva estava radiante de felicidade,
tremula de alegria. Estendeu-lhe a mão,
que elle apertou, não palpitante como ella,
mas cheio de delicadeza e graça. A pre
sença de Vianna, alêm disso, impedia
qualquer outra manifestação exterior. O
parasita, que parecia empenhado em pre
parar uma alliança de familia com o me
dico, dispoz-se a não ser cruel para os
dous namorados ; fechou os olhos, cerrou
os ouvidos, e, se em todo o caso foi im
portuno, não o deveu á vontade, mas á
situação, porque em taes circumstancias
nem todo o engenho de Voltaire póde fazer
um homem interessante.
Amiudaram-se ainda mais as visitas de
I .■
h
RESURREIÇÃO 81
Felix, que alli encontrou algumas vezes a
familia do coronel Moraes, e outras, pou
cas, da intimidade de Livia. D. Mathilde
sentia enthusiasmo pelo medico ; quanto a
Rachel olhava para elle com uma especie
de adoração. Dos homens alguns o detes
tavam cordialmente, outros tinham-lhe
medo, não raros inveja, e alguns poucos
sympathia.
Felix, entretanto, parecia indifférente
aos sentimentos que inspirava, e deste
modo obedecia a um systema não menos
que á disposição do seu espirito. 0 mesmo
practicava em relação ao amor. Evitava,
quanto podia, animar as esperanças da
moça, e posto soubesse a fundo a rheto-
rica da paixão, não a empregava sem uma
parcimônia, que lhe parecia economia
razoavel.
Livia, porém, não dissimulava nem hesi
tava; deixava transparecer no rosto o que
sentia no coração. Jogava com as cartas
na mesa sem previsão nem calculo. Expan
siva e discreta, energica e delicada, enthu-
siasta e reflectida, Livia possuia esses
contrastes apparentes, que não eram mais
O*
82 RESURREIÇAO
que as harmonias do seu caracter. Os pró
prios defeitos delia nasciam de suas qua
lidades. Era crédula á força de ser con
fiante, rispida com tudo o que lhe parecia
baixo ou futil. Tinha a imaginação chime-
rica, ás vezes — o coração supersticioso,
a intelligencia austera, mas compensava
estes defeitos, se o eram, por qualidades
capitaes e raras.
Um diai]^, em que ambos conversavam
do unico assumpto que lhes podia interes
sar — pelo menos do unico que lhe inte
ressava a ella, Felix pediu-lhe explicação
de uma cousa que lhe parecia obscura.
— Obscura? repetiu Livia.
— Lembra-se da noite em que a encon
trei no Gymnasio? disse o medico. Estava
preoccupada e alheia a tudo. Conversou
mal e distrahida, interessavam-lhe as sce-
nas amorosas, tudo mais parecia abor-
recel-a. No íim do terceiro acto levantou-
se e foi-se embora. Diz-me, entretanto,
que desde o sarau do coronel já começava
a sentir este amor que é a sua vida. Pois
^ I1/ bem, não estava eu lá, a seu lado, no thea-
^i'L'
Iro?
— Não.
— Oh!
— Estava outro homem, mui diverso
deste que eu vejo, agora ao pé de mim,
porque ainda me não amava. Mas não era
só isso ; era mais. Pensa que os seus actos,
sentimentos e pessoa, não são objecto dos
commentarios extranhos ?
— Importam-me tão pouco os commen
tarios ! iííiK
li-ílir■
— Pois bem, falaram-me muito mal do
seu coração naquelle dia.
— Que lhe disseram desse viajante inco
gnito ?
— Viajante ? perguntou Livia.
— Que foi, emendou Félix.
— Disseram-me muitas cousas más.
— Deu-lhes credito ?
— Não ; mas fiquei triste. Eu estava acos J
tumada a admiral-o de longe. Conhecia-o
pouco, mas meu irmão falava-me muita
vez a seu respeito nas cartas que me escre
via para Minas, e Rachel fazia côro com
elle.
— Seu irmão tem certo enthusiasmo
por mim, disse Félix ; é natural que exga-
84 RESURREIÇÃO
gere os meus meritos. Quanto á filha do
^1'Í' coronel, é uma criança, que se acostumou
4:;:||| a ver-me com olhos de irmã mais moça.
■Í — Quer então que eu acredite antes nas
cousas más?
— Nem más nem boas, Livia; conheça-
me primeiro ; fará depois juizo seguro.
— Oh ! conheço-te ! exclamou ella.
A entrada de Vianna interrompeu o col-
loquio. Felix dirigiu-se á mesa e abriu um
album, emquanto Vianna referia á irmã
as peripécias de um jantar a que assis
tira. 0
0 album da viuva, que o medico abria
pela primeira vez, estava já alastrado de
prosa e verso. Nem tudo era bom, como
acontece nesses livros, que são ás vezes
verdadeiros asylos de inválidos do Parnaso,
onde as musas rheumaticas e manetas vão
soltar os seus gemidos. Uma pagina havia
que lhe pareceu mysteriosa : era uma
declaração de amor sem assignatura. Leu-a,
e não pôde deixar de sorrir : só havia
uma cousa peior que a fórma, era o pen
samento.
— De que se ri? perguntou a viuva.
' ,,.i
Viannaapproximou-se de Felix e lançou
OS olh OS j j a r a a pagina aberta.
— Ah ! disse elle estouvadamente; isto
é de meu defunto cunhado.
Livia estremeceu e corou.
— Viuva de um néscio! pensou Felix.
Estava pedindo um homem intelligente.
VIII
QUÉDA
0 desenlace desta situação desegual
entre um homem frio e uma mulher apaixo
nada, parece que devera ser a quéda da
mulher : foi a quéda do homem. Para
triumphar da viuva, Félix contava apenas
com a sua resolução ; mas a viuva, alêm í ‘I
do seu amor, tinha dous auxiliares actives
e latentes : o tempo e o habito. Cada dia
que passava caia como uma gota d’agua
no coração do medico, e ia cavando fundo
com a fria tenecidade do destino.
Ironia da sorte chamará o leitor a este
desfecho de uma situação que, algumas
semanas antes, tão outra se lhe affigurava.
Çhame-lhe antes lógica da natureza, porque
88 RESURREIÇÃO
O coração de Felix, que apparenta va ser de
mármore, era simplesmente da nossa com-
mum argila. Não era seguramente um co
ração virginal e puro ; tinha uma certa
dose do egoismo que a natureza maternal
mente repartiu por todos os homens, e
não se póde dizer que não fosse algum
tanto sceptico ; mas estes senões [exagge-
rava-os elle de maneira que veiu a perder,
na imaginação dos outros, a sua phisio-
nomia original.
As armas com que lutava eram certa
mente de boa tempera, mas se valiam
muito para esgrimir, valiam pouco para
pelejar. Com uma mulher que apenas
tivesse a somma de affecto necessária para
dissimular o erro, o nosso heroe ficaria
na altura da reputação ; mas o amor da
viuva era um verdadeiro combate. Quando
Felix chegou a encarar-lhe o coração,
sentiu a fascinação do abysmo, e caiu
nelle.
Esta quéda, como disse, foi lenta ; o me
dico começou a sentir que a presença da
moça era para elle uma necessidade. Pesa-
ill0 ■ vam-lhe as ausências mais longas, e, o
KI]H ■1
que era mais, vinham suavizar-lh’as umas
saudades, que elle definia por outro modo,
mas que, em summa, eram saudades.
Quando a ia ver, e á proporção que se
approximava delia, sentia bater-lhe alguma
cousa dentro do peito ; o medico dizia que
era o sangue ainda juvenil e irrequieto.
Seria uma razão physiologica ; mas havia
também uma razão m oral; era a lava da
paixão que se ia formando e subindo até
romper a garganta do volcão. Longa foi a
gestação do amor; mas quando o medico
descobriu o estado de sua alma, não era
centelha que se podesse abafar, mas incên
dio que lavrava e consumia tudo.
Decidam lá os doutores da escriptura
qual destes dous amores é melhor, se o que
vem de golpe, se o que invade a passo
lento o coração. Eu por mim não sei de
cidir, ambos são amores, ambos teem
suas energias. O de Felix parecia ter criado
no silencio ama força invencivel.
Um potro arisco e selvagem, quando a
mão do homem lhe pôe o freio pela pri
meira vez, não se irrita mais do que o
nosso heroe no dia em que sentiu vio-
90 RESUHREIÇÃO
lada a liberdade do seu coração. Cólera
singular e insensata, mas amarga e sin
cera. Planeou desde logo uma separação
violenta, que lhe desse tempo e armas para
vencer-se a si proprio. A execução seguiu
de perto a ideia; e o medico cessou repen
tinamente as suas visitas a Calumby.
A ausência, porém, foi ainda um auxiliar
da viuva. 0 despeito do medico não se
applacou, transformou-se; nãoaccusava já
a fraqueza do coração, mas a rebeldia
delle. 0 que a principio lhe parecera neces
sário para restituir-lhe a paz do espirito,
começou a ter a seus olhos o caracter de
ingratidão. Ingratidão, era já confessar
muito, mas o medico foi além, achou-se
ridiculo. Aqui já não era possivel a resis
tência. Algum homem póde gloriar-se de
ser ingrato; dirá, com um moralista scep-
■i tico, que é uma maneira de ser indepen
dente. Mas ninguém é ridiculo convencido;
convencer-se é emendar-se.
A essas razões que o medico dava a si
proprio, e que eram filhas da consciência,
' t
1
accresciam outras que elle não articulava,
).(4'
mas sentia, as saudades, as recordações.
RESUBREIÇÃO 91
OSdesejos, a voz mysleriosa e constante que
lhe sussurrava aos ouvidos o norne de Livia.
Demais, a bella viuva escreveu-lhe.
Felix, como um verdadeiro namorado,
jurára não abrir as cartas que ella lhe
mandasse, e correu á porta para receber
a primeira. Não era carta de recrimina
ções, mas de sorpresa e de lagrimas.
Quando veiu segunda carta, já o medico
sabia a outra de cór. A segunda era a ulti
ma, dizia Livia ; eram já recriminações,
mas não contra elle, nem contra o des
tino; eram recriminações contra si mesma.
A melancólica resignação da moça commo-
veu o medico ; no íím de uma semana es
tava aos pés delia fazendo acto de sincera
contricção.
Livia perdoou-lhe as lagrimas choradas
durante aquelles oito dias de angustiosa
incerteza. Perdoou-lh’as como sabem per
doar as almas verdadeiramente boas, —
sem resentimento. Mas a causa da ausên
cia não a explicou Felix.
— Não me perdoou já? disse o medico,
quando ella lhe fez uma pergunta directa I
a este respeito. Isso basta ; não queira ?rl
92 RESURREIÇÃO
saber a razão desta singular loucura, que
me levou tão longe do unico logar em que
me é possível a felicidade. Para minha
expiação basta o que soffri também nestes
oito dias e a vergonha de ter...
Calou-se; receiava dizer tudo. A moça
ouviu aquellas palavras com manifesta
satisfação, e murmurou :
— Ciúmes?
Félix estremeceu. Uma sombra ligeira
pareceu toldar-lhe os olhos. Livia inclinou
para elle o rosto como querendo ler-lhe na
physionomia a verdade que elle forcejava
por esconder.
— Não, disse Félix, não foram ciúmes.
Ciúmes de que e de quem?
— De ninguém, bem sei; mas está-me a
parecer, Félix, que o seu amor é um pouco
visionário e melindroso. Oh! não me lasti
mo por tão pouco ; agradeço-lhe até. Que
perdería eu com isso? Alguns dias de paz,
talvez; mas a certeza de ser amada é uma
grande compensação. 0 purgatório não é
uma porta que abre para o ceu ? Cada qual
llí sabe amar a seu modo ; o modo pouco
importa ; o essencia) é que saiba amar.
\ r
1
* J . i ■■’i p í í
ifi''
Póde ser que eu me engane, continuou ella
pondo-lhe as mãos na fronte, mas eu creio
que ha nesta cabeça muita imaginação, e
imaginação doente. Ou então...
— Ou então? repetiu o medico, vendo
que ella fazia uma pausa.
— Ou então, a doença está aqui, concluiu
Livia apontando-lhe para o coração. Não
importa; eu supportarei tudo, contanto
que me ame.
— Oh ! Livia, exclamou Félix, depois de
lhe beijar ternamente a fronte, essa reso
lução será o penhor do nosso futuro. Con
sulte o seu coração ; veja se ha nelle bas
tante misericórdia para mim, e prometto-
Ihe que seremos felizes.
— Tudo lhe perdoarei, contanto que me
ame, disse a moça.
Comprehenderia ella então que dolorosa
e pesada obrigação contrahira ? Talvez não.
Confiava em si mesma, no prestigio do seu
amor, no coração de Félix, para vencer tudo,
erealisaro queeraagora o sonhodasuavida.
0 caminho melhor para isto era segura
mente o da egreja. Que obstáculo podia
haver? Um e outro dependiam exclusiva-
94 RESÜRHEIÇÃO
mente de si; o casamento era o desfecho lo-
gico e sacramental daquelleromance. Mas
nem a viuva o insinuava, nem o medico o
propunha, e nesta situação mal definida al
guns dias correram detranquillafelicidade.
Aos olhos extranhos buscavam ambos
esconder o seu segredo; mas a reserva de
Livia era apenas a que bastava para acatar
as conveniências, ao passo que a de Felix
era tão completa e calculada que á propria
moça illudia. Esta facilidade de dissimu
lação desconsolou-a. Achava-a perfeita de
mais. Era um symptoma de tranquillidade
que desdizia com o amor impetuoso de
Felix. Demais, que razão haveria para
esconder tão mysteriosamente dos olhos
dos outros, uma cousa que deveria e não
Ki} tardaria a ser publica?
A indifferença de Felix, entretanto, não
era tão completa como parecia, era uma
indifferença vigilante. Quando os olhos da
viuva procuravam os do medico, este des
viava cautelosamente os seus; mas olhava,
digamo-lo assim, por baixo da palpebra.
Foi então que começou para ella uma
vida de luta.
LUTA
0 amor de Félix era um gosto amargo,
travado de duvidas e suspeitas. Melin
droso lhe chamara ella, e com razão ; a
mais leve folha de rosa o magoava. Um
sorriso, um olhar, um gesto, qualquer
cousa bastava para lhe turbar o espirito.
0 proprio pensamento da moça não esca
pava ás suas suspeitas : se alguma vez lhe
descobria no olhar a atonia da reflexão,
entrava a conjecturar as causas delia, re
cordava um gesto da vespera, um olhar
mal explicado, uma phrase obscura e am-
bigua, e tudo isto se amalgamava no animo
do pobre namorado, e de tudo isto brotava,
authentica e luminosa, a perfídia da moça.
96 RESURREIÇAO
Livia prefiria de certo uma confiança
honesta e leal, mas a desconfiança estava
longe de lhe amargurar o coração, acei
tava-a com alegria.
— Antes isto, dizia-lhe depois de uma re
conciliação; vejo que me ama. A confiança
também se parece com a indifferença, e a
indifferença é o peior de todos os males.
Esta philosophia teve seus instantes de
desmaio. Não bastava a força do amor
para resistir á suspeita de todos os dias^
que se apagava ás vezes logo, mas que
renascia depois, para de novo se apagar e
renascer. Livia começou a fugir dos loga-
res que até então frequentava habitual
mente. Raras vezes apparecia no theatro
ou n’uma reunião. Felix comprehendeu a
causa desta reserva e disse-lh’a. A moça
negou ; mas, como elle insistisse em affir-
yi
mar e pedir que ella não alterasse os seus
hábitos, respondeu :
— E bom de dizer, Felix; assim vamos
melhor; lá fóra como aqui, lá peior do
que aqui, a menor cousa basta para lhe
t’í i .i'!!('àíj^ transviar o espirito.
u-nÍV. — Juro-lhe que não.
rSESURREIÇÃO 97
Jurava, mas quebrava o juramento. 0
espirito não ratificava as promessas do
coração.
De que lhe servia a ella a maxima pru
dência nas suas relações com as demais
pessoas, se tudo era pouco para obter a
confiança de Felix? Uma hora de inalte
rável felicidade era comprada á custa de
muitas horas de tedio, ás vezes de lagri
mas. Elle as sentia de certo, e pagar-lh’as-
hia com sacrifícios, se precisos fossem;
mas eram curtos esses lúcidos instantes.
Livia não se acostumou a ler logo na
physionomia do medico. Elle possuia em
alto grau a faculdade de esconder o bem
e o mal que sentisse. Era uma faculdade
preciosa, que o orgulho educara, e se for
tificou com o tempo. 0 tempo, entretanto,
a pouco e pouco lhe foi adelgaçando essa
couraça, á medida que se prolongava e
multiplicava a luta. Então os olhos da
viuva aprenderam a soletrar-lhe no rosto
os terrores e as tempestades do coração.
A s vezes, no meio de uma conversa indif-
ferente, alegre, pueril, os olhos de Livia
se obscureciam e a palavra lhe morria nos
MACHADO DE A S S I S — fíesurreiçüo G
98 r e s u r r e iç a o
lábios. A razão da mudança estava n uma
ruga quasi imperceptivel que ella desco-
brbi no rosto do medico, ou n’um gesto
mal contido, ou n’um olhar mal distar-
çado.
Esta situação pôde esconder-se aos olhos
de todos, menos aos de Luiz Baptista.
Observador e perspicaz, eao mesmo tempo
sem paixões nem escrúpulos, percebeu
este fjue cjuanto mais o amor de helix se
Mf tornasse suspeitoso e tyranico, tanto mais
Ií perderia terreno no coração da viuva, e
assim, roto o encanto, chegaria a hora das
Í H il' reparações generosas com que elle se pro
punha a consolar a moça dos seus tardios
,J V .
,: ".-,m‘-b'i]}■
- '0 arrependimentos.
V
■h . I . f -■ Para alcançar esse resultado, era mister
multiplicar as suspeitas do medico, cavar-
- 5 r p t ■ - 'N i
íí' S8 t
lhe fundamente no coração a ferida do
ciume, tornal-o em summa instrumento de
sua propria ruina. Nãoadoptou o methodo
de Yago, que lhe parecia arriscado e pue
ril ; em vez de insinuar-lhe a suspeita pelo
ouvido, metteu-lh’a pelos olhos.
A difficuldade era certamente maior e
mais delicada, mas o pretendente tinha
RESURREIÇÃO 99
em larga escala as qualidades precisas
para ella. Era-lhe necessário affectar com
a moça uma intimidade mysteriosa, mas
discreta, sem apparato, antes cercada de
infinitas cautellas, tão liabil que ella não
percebesse, mas tão claramente dissimu
lada que fosse direito ao coração de Felix.
Mas a mulher delle? A mulher delle,
amigo leitor, era uma moça relativamente
feliz. Estava mais que resignada, estava
acostumada á indifferença do marido. Dera-
lhe a Providencia essa grande virtude de
se affazer aos males da vida. Clara havia
buscado a felicidade conjugal com a ancia
de um coração que tinha fome e sede de
amor. Não logrou o que sonhara. Pedira
um rei e deram-lhe um cepo. Acceitou o
cepo e não pediu mais.
Todavia o cepo não o fora tanto antes
do casamento. Paixão não a teve nunca
pela noiva; teve, sim, um sentimento todo
pessoal, mistura de sensualidade e fatui
dade, especie de enthusiasmo passageiro,
que os primeiros raios da lua de mel abran
daram até apagal-o de todo. A natureza
readquiriu os seus aspectos normaes ; a
RESURREIÇÃO
pOijre Clarinha, que havia icleiado um pa
raíso no casamento, viu desfazer-se em
turno a sua chimera, e acceitou passiva
mente a realidade que lhe deram, — sem
esperanças, é certo, mas também sem re
morsos.
Faltava-lhe, — e ainda bem que lhe tah
tava, — aquella curiosidade funesta com
que o amphibio clássico, desenganado do
cepo, entrou a pedir um rei novo, e veiu
a ter uma serpente que o engoliu. A vir
tude salvou-a da queda e da vergonha.
Lastimava-se, talvez, no refugio do seu co
ração, mas não fez imprecações ao des
tino. E como nem tinha força de aborrecer,
a paz domestica nunca fora alterada; am
bos podiam dizer-se creaturas felizes.
Ora, pois, em quanto Clarinha nenhum
lugar occupava no espirito do marido, este
executou o plano que havia organisado. 0
resultado foi lento, mas certo. 0 coração
de Felix bebeu aos poucos o veneno que
lhe propinava tranquillamente o astuto
rival; mil circumstancias fortuitas vieram
favorecer a obra de Luiz Baptista. 0 espi
rito de Felix era apropriado terreno para
RESURREIÇÃO 101
ella ; a suspeita rara vez lhe morria em
embryão; uma vez lançada a semente,
germinava com força, crescia^ apoderava-
se delle, e então batia a hora da crise, a
hora que o seu rival pacientemente espe
rou, e conseguiu.
Desta vez assentou Felix n’uma resolu
ção heróica : romper o encanto que o pren
dia á bella viuva. Tinham já passado al
guns mezes, todos elles assim entremea
dos de felicidade e amargura. Cem vezes
se convencera das suas injustiças ; mas a
cada suspeita nova resurgiam as anteriores,
as que ella perdoára, e a ultima confir
mava então as primeiras, e o pobre rapaz
achava-se sinceramente ludibriado e ridi-
culo.
Escreveu uma carta longa e violenta,
em que accusava a moça de perfídia e dis
simulação. Havia amargura na carta, mas
havia também odio e desprezo, tudo quanto
podia ferir para sempre um coração que
até alli soubera amar e soffrer, mas que
emfim podia cançar e desprezar.
Enviada a carta, deixou-se elle entregue
á sua dor, disposto a não voltar a Ca-
0.
RESURREIÇAO
tumby. Ninguém viu então uma lagrima
que o desespero lhe arrancou, e que elle
se apressou de enxugar com vergonha de
si mesmo. Recapitulou então todos os suc-
cessos dos últimos dias; nunca lhe pare-
cêra mais evidente a traição da moça, nem
mais cruel a situação do seu espirito. Um
raio de esperança vein entretanto projec-
tar-se na sua noite de duvidas. Imaginou
que tudo podia sererro e illusão, e esperou
que a resposta de Livia tudo viesse escla
recer.
Nada esclareceu a resposta da moça,
porque o portador da carta voltou sem
ella. Ao ciume que o devorava, veiu mis
turar-se o despeito; complicou-se a dor
com o ogulho offendido. Livia appareceu-
Ihe com todos os caracteres de uma lou-
reira vulgar, e loureira não traduz bem o
pensamento do moço.
Nesse estado passou Felix o resto do
dia. Longas lhe correram as horas, fria
mente longas como ellas são, quando o
coração padece ou espera. Emfim, caiu a
tarde, apagou-se de todo o sol, as sombras
da noite começaram a lutar com os derra-
deiros lampejos do crepúsculo, até que de
todo dominaram o çeu.
A melancolia da hora insinuou-se no co
ração do medico, e a pouco pouco lhe
aquietou o desespero do dia. Felix medi
tou longo tempo na situação que as cir-
cumstancias lhe haviam creado. Viu o im
mense espaço que aquelle amor lhe tomára
na vida, e a t^rrivel influencia que poderia #
exercer nella,' caso não achasse forças para
resistir á separação. Qual seria o meio de
escapar a esse desenlace, peer que tudo?
Felix pensou n’uma viagem, como o meio
mais facil e prompto. Dispunha mental
mente as cousas para esse fim, quando
ouviu parar um carro.
Dahiapouco entrou um escravo dizendo
que uma pessoa insistia em falar-lhe : era
uma senhora.
— Uma senhora! repetiu Felix.
Era Livia. Quando Felix, chegou á sala,
estava ella á porta, com o rosto coberto
por um veu que arragaçou immediata-
mente. Felix não pôde reter um grito de
sorpresa.
Livia trazia pela mão um menino : era
104 RESURHEIÇÃO
o filho. Camiahou para o medico depois
de alguns instantes de absoluto silencio, e
estendeu-lhe a mão.
— Não esperava a minha visita? disse
ella com tranquilidade.
— Confesso que não.
— Devia esperar, porque eu não havia
respondido á sua carta, e alguma cousa
cumpria que lhe dissesse.
— Não receiou que os olhos da socie
dade... disse elle.
— A sociedade está tomando chá, ata
lhou a viuva procurando sorrir-se. Era
V- preciso que eu èà viesse e vim.
Félix fez um movimento.
— Sim, era preciso, insistiu Livia. Uma
carta seria já inútil ; entre nós as cartas
perderam a virtude, Félix. Eu ja não sei,
ja não tenho palavras com que lhe restitua
a confiança ao coração. Esta ousadia tal
vez...
A luz batia de chapa no rosto da moça ;
Félix viu tremerem-lhe duas lagrimas nos
olhos, hesitarem um instante, e rolarem
depois na face, levemente corada de agi
tação e de pejo.
RESURREIÇAO lOõ
— Fui talvez cruel no que lhe es
creví, disse elle, e quero crer que fosse
tarnbem injusto, mas amo-a, étodo o meu
crime...
Livia suspirou.
— Não o amo eu também? disse ella.
Nem por isso sou cruel ou injusta. Mas
não a accuso ; se a accusasse não viria
aqui. Venho por que sei que padece, e a
despeito de tudo devia vir.
Felix conduziu-a para o sophá, e sentou-
se n’uma cadeira. -Luiz ficou de pé entre
elle e ella, meio indifferente, meio curioso
do que ouvia sem entender.
— Não receiou que este menino pudesse
dizer alguma cousa? perguntou Felix.
— Não pensei n’isso. Fui visitar Rachel,
que está muito mal; fui só com elle.
Tinha a ideia de vir ás Laranjeiras : isso
dominava tudo. Se conseguir dissipar-lhe
as novas duvidas que o affligem, pouco me
importam as consequências. Que quer?
Eu sou assim. Vejo no mundo o meu
amor e a sua felicidade; tudo o mais me
é extranho ou nullo.
Livia dizia estas palavras com um tom
/M; 1 'I
106 RESURREIÇÃO
singello e verdadeiramente d’alma, que
commoveu o medico.
— Oh! para isso basta uma cousa, disse
Félix com impetuosidade. Jura-me que
nenhuma razão havia para suspeitar?
Livia abriu muito os olhos como espan
tada do que ouvira; depois, abanando
tristemente a cabeça.
— O senhor hade quebrar todo o meu
orgulho, disse com amargura. Eu arrisco
tudo para lhe restituir a felicidade e a paz ;
o senhor recompensa-me este sacrifício
com a humilhação. Jurar-lhe ! De que serve
um juramento mais entre nós? Se o que
acabo de fazer não é bastante, Félix, con
cluamos aqui o nosso romance ;e oxalá que
alguma pagina d’elle possa algum dia lem
brar-lhe com saudade.
Dizendo estas palavras, a moça voltou
o rosto para esconder a sua commoção.
Félix sentiu pungir-lhe üm remorso, e
teve Ímpeto de cair ao pés da bella viuva.
Murmurou algumas palavras, que ella
não percebeu ou não ouviu, até que o
menino chamou a attenção de ambos,
dizendo,
UESURREIÇÃO 107
— Vamos, mamãe?
Livia levantou-se e desceu o veu sobre o
rosto.
— PerdOe-me tudo, disse Félix; ainda
uma vez lhe peço perdão. Não me julgue
como os outros fariam, se conhecessem
esta triste historia de alguns mezes. Não
sou mau; falta-me confiança; algum dia
lhe direi porquê. Por agora, perdõe-me
outra vez. Injuriei-a, bem sei ; não devia
pedir-lhe nada mais, por que me deu gene
rosamente a maior consolação que o meu
espirito ousaria esperar.
— Esse homem? disse a viuva, depois de
um instante.
— Por que me pergunta?
— Quero affastal-o de minha casa, sc
elle lá vai, ou evitar as occasiões de me
encontrar com elle.
— E’ um homem que a não respeita, se
quer, um libertino, cuja mulher é um
anjo...
— O Dr. Baptista ?
— Esse.
Livia estendeu-lhe a mão. Félix quiz
ainda falar-lhe, mas a viuva observou que
108 RESURREIÇÃO
era tarde e dirigiu-se para a porta. Felix
acompanhou-a até o jardim. Ao despedir-
se deila pela ultima vez, o medico aper
tou-lhe fervorosamente a mão.
— Perdoa-me?
— Sim! disse ella.
E pela primeira vez nessa noite era a
sua voz terna e amorosa como de cos
tume.
■
líf' ' Felix viu-a entrar no carro que partiu
P.'
immediatamente. Voltou para a sala. Es
tava irritado contra si mesmo. Reconhecia
a sua precipitação; achava-se grosseira
mente injusto. Se lhe houvera lembrado a
visita da moça, tel-a-ia pedido como o
meio unico de lhe desvanecer de todo as
m suspeitas. Agora que ella o deixava, accu-
w>.
sava-se de a haver obrigado áquelle extre
mo recurso.
A noite pareceu-lhe ainda mais longa
que o dia. Velava e remordia-lhe a cons
ciência. Ouviu bater uma por uma as
horas todas, ancioso por que viesse o dia
seguinte para ir a Catumby resgatar á
força de ternura e respeito a injustiça com
que tratára a viuva. Cerrou os olhos
>1
quando a arraiada despontou no ceo;
pouco dormiu, entretanto. Ao levantar-se
tinha o espirito mais socegado, e pôde
apreciar melhor a situação.
— 0 casamento me restituirá a confian
ça, pensava elle; quando estivermos jun
tos os dous, affastados da convivência e do
contracto de estranhos, a paz morará no
meu coração ; só então seremos felizes sem
amargura nem remorso.
MACHADO DE A S S IS — Resurveiçao
X
A FNFERMA
A doença de Rachel era grave ; durante
alguns dias chegaram a receiar um desen-
lace funesto. Os velhos paes quasi enlou
queceram, quando o medico os preparou
para a terrível catastrophe. A menina per
cebeu o seu estado, mas nem o medo dai
morte, nem a saudade da terra lhe fez doer
o coração. Morria como flor que era. A
magna era toda para os que a viam assim
condernnada sem remedio.
0 medico assistente dera á moléstia um
nome tirado não sei se do grego, se do
latim. Na opinião da mãe, havia alguma
cousa mais do que o nome e a moléstia ;
havia uma inexplicável melancolia, ante-
112 RESURREIÇAO
rior á doença, uma especie de tedio precoce
da vida, se não era antes alguma espe
rança malograda, — ou mais claramenle,
alguma affeição sem esperança.
Para obter delia a confissão que ima
ginava, tinha D. Mathilde o necessário
tacto e doçura: era mulher e mãe. Mas,
ou por que nada houvesse realmente, ou
porque quizesse levar comsigo o segredo
da sua melancolia, Rachel nenhuma con
4í l’ fissão lhe fez.
Dous dias depois da visita de Livia,
Felix foi á casa do coronel. 0 coronel es
tava na sala, mergulhado n’uma poltrona,
* \
com os olhos parados e as feições abatidas
'
(
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y
i' f j l .
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I; v'
'u-iL ;■
' pela vigilia e pela dor. Quiz levantar-se
quando Felix appareceu á porta, mas este
■Jií' correu para elle e impediu o movimento.
— Soube ante-hontem do estado de sua
filha, disse Felix sentando-se ao lado do
velho pae, Disseram-me que estava mal...
— Mal, repetiu o coronel, definitiva
mente mal. A pouca esperança que tinha-
V ^.F;
L' . ' “i
mos vein tirar-no-la o medico. O senhr
Ii'fí;''y ;
‘ r’ c.» . í
não sabe o que é perder assimmetade da
alma.
{
wm
RESURREIÇÃO 113
Félix disse algumas palavras banaes de
consolação, e chegou até a falar de espe
rança ; mas ainda que a esperança fala
sempi*e ao coração dos desgraçados, o
bom velho em outra cousa não acreditava
mais que na morte,
Algum tempo estiveram calados ; emfim
o coronel rompeu o silencio :
— Rachel é muito sua amiga, disse elle.
Duas vezes perguntou pelo senhor.
— Desde quando está doente?
— De cama está ha quinze dias; mas já
soffria antes disso. A principio não me
deu muito cuidado ; a moléstia, porém, ag-
gravou-se rapidamente, e tem ido a peior.
Foram interrompidos pelo medico assis
tente. Tinha este sido companheiro de Félix
na escola. Ao vel-o alli suspeitou que o
tivessem mandado chamar; Félix apres
sou-se a explicar o motivo da sua visita.
— Em todo o caso, doutor, disse o outro,
aproveito as suas luzes, e façamos, se lhe
parece, uma conferência.
0 coronel foi ver se Rachel estava accor-
dada ; voltou pouco depois e acompanhou
os dous médicos á alcova da doente.
114 RESURREIÇAO
Felix foi O primeiro que assomou á
porta parou alguns instantes, impres
sionado com o espectáculo qusse lhe offe-
recia.
Sentada á cabeceira da cama estava
D. Mathilde, descorada e abatida, com os
olhos tumidos, e por ventura cançados de
chorar. Aos pés da cama via-se uma moça
amiga da infancia de Rachel, e sua dedi
cada enfermeira nesta occasião. Ambas,
triste e silenciosamente, contemplavam a
doente.
Rachel estava branca como a fronha do
travesseiro em que descançava a formosa
cabeça. Tinha os lábios entreabertos e a
respiração curta e difficil. O pequeno
rumor que fizeram os médicos ao entrar
um pouco a sobresaltou. Rachel abriu os
olhos, que ardiam de febre.
Quando Felix se aproximou do leito e
tomou o pulso da moça esta olhou para elle
e fez um gesto de espanto. Olhou depois
em volta de si, como se duvidasse do logar
em que se achava. D. Mathilde inclinou-se
])ara a (ilha e disse :
— É o Dr. Felix,
I , ,.i
RESURREIÇÃO 115
Rachel olhou outra vez para Felix; com
aquelle sorriso apagado e triste dos doentes
e murmurou :
— Obrigada !
— Como se sente? perguntou Felix.
— Melhor, disse ella com uma voz tão
7 I
fraca que parecia um suspiro.
— Devéras melhor ?
Rachel fez um gesto de indifferença e
não respondeu :
— Vamos lá, não desanime, disse Felix,
e sobretudo não faça entristecer seus paes,
que lhe querem tanto.
Felix examinou a doente, fazendo-lhe
algumas perguntas, a que ella debilmente
respondia. Quando elle cessou de a inter
rogar, a moça murmurou :
— Morro, não é?
— Não, disse Felix, não hade morrer,
não deve morrer. Tem ainda vida larga,
mas é preciso animo.
Rachel fez um gesto de quem não acre
ditava nas boas palavras do medico, e vol
tou os olhos para a mãe. D. Mathilde
tinha os seus cravados em Felix, como se
lhe quizesse 1er no rosto a sentença da
116 RESURREIÇÃO
fillia. A doente pareceu adivinhar o pensa
mento, e disse com esforço :
— Porque não dá as suas consolações
a mamãe?
A conferencia não durou muito tempo.
Félix começou opinando por uma modifi-
caçãono tratamentoatéalli seguido,edecla-
rou que não julgava todas as esperanças per
didas. 0 collega concordou facilmente na
alteração pedida por Felix, tanto mais, disse
elle, quanto as esperanças eram nenhumas.
Em sua opinião, Rachel estava irreme
diavelmente perdida. Não era opinião aerea
e infundada ; elle podia demonstral-a com
augmentos cabaes e irrefutáveis. Demons
trou-o effectivamente, durante vinte mi
nutos, com a justa apreciação dos factos,
os dados seguros da sciencia, e uma dia-
lectica tão cerrada que era impossivel
fazer-lhe a menor objecção.
Quinze dias depois, entrava Rachel em
convalescença.
No sentir dos paes,era Félix o salvador
na filha. Fôra elle quem lhes restituirá a
esperança, e a realisára cornos seus bons
conselhos e diligente desvello.
RESURREIÇÃO
0 collega de Félix, para quem o resta
belecimento da moça era a destruição de m
todas as noções medicas recebidas, ficou
profundamente sorprehendido com esse
resultado. Em todo caso, era impossivel
negal-o ; limitou-se a applaudil-o, e quando
a moça entrou em convalescença aconse
lhou aos paes que a mandassem para al
gum arrabalde da cidade, afim de respirar
ares melhores.
Não podia vir mais a proposito o con
selho. Livia mudara-se para as Laran-
geiras. A ideia da mudança era de Vianna,
que um dia a propoz á irmã,e fora appro-
vado por ella. A casa ficava pouco acima
da de Félix, do lado opposto.
Era um prédio elegante, levantado no
meio de uma chacara, não extensa nem
esmeradamente tratada. Vianna, entre
tanto, organisára um programma de re
forma, que promettia executar pontual
mente. Seu contentamento parecia não ter iin
limites ; alem de preferir aquelle bairro ao >'if
outro em que morava, havia a circuns
tancia de ir ficar ao pé da casa de Félix,
— o que era já meia felicidade, dizia elle.
7.
118 RESURREIÇÃO
Livia approvára a mudança sob a in
fluencia de egual ideia. Aquelles últimos
dias tinham sido de plena e deliciosa paz.
Seus projectos de futuro eram immensos;
delineava uma vida independente de todas
as escravidões sociaes, vida exclusiva
delles, cheia de todos os prestigios da
poesia e do amor. A's vezes receiava que
esses sonhos fossem apenas sonhos. Ainda
assim não os dera por nenhum preço deste
mundo.
Estavam então nos primeiros dias de
outubro; o casamento fora marcado para
meiado de janeiro. Marcado, entenda-se
bem, apenas entre os dous, por que Felix
conseguira da viuva a promessa de que
a noticia seria dada nas verperas do acon
tecimento. .
— Mas a razão deste segredo ? pergun
tou Livia depois de lhe prometter o que
pedia.
— Um capricho.
A razão verdadeira era a vacillação do
seu espirito ; mas a que elle deu contentou
perfeitamente a moça.
— Se eu tivesse o teu coração, disse
RESURREIÇAO 1J9
ella, desconfiava desta exigencia; mas, vê
lá, eu creio em ti.
Estavam sós na chacara ; Vianna, fiel
ao seu programma de não perturbar os
dous namorados, foi meditar a alguma dis
tancia nas reformas que pretendia fazer.
Caminhavam os dous calados e distrahidos, /
ou melhor, concentrados em si mesmos.
De repente, a viuva levantou a cabeça e
disse como continuação das suas anteriores
palavras :
— Ha comtudo occasiões em que esta
confiança parece abalar-se, não porque eu
duVide de ti, mas porque duvido do destino.
Já te disseque sou supersticiosa, — defeito
das mulheres e das crianças. Estremeço
algumas vezes, quando encaro o futuro,
e, semsaberporque, perguntoa mim mesma
qual será o fim de tudo isto. Desmaios
apenas, e raros, de um coração que ambi
ciona, talvez, mais do que poderia ob
ter.
— Não te parece que eu esteja emendado ?
disse Felix sorrindo. Ha quantos dias não
ha sequer...
— Cala-te! interrompeu Livia tocando-
120 RESURREIÇÃO
lhe OS lábios com os dedos. Tenho medo
de te ouvir falar assim.
E depois de um instante de silencio :
— Não é o teu coração que me faz
trem er; o teu coração é bom. Não é também
o teu espirito, apesar de caprichoso, visio
nário, inconstante. Receio do futuro, á
vista do passado.
— Do passado ! perguntou Felix esta
cando o passo.
Livia suspirou.
— Que houve de mau no teu passado ?
continuou o medico fitando nella um olhar
prescrutador.
— Tudo.
Havia perto um velho sophá de vime.
Livia encaminhou-se lentamente para elle
e sentou-se. jFelix contemplou-a algum
tempo do logar ém que ficára. Já não
sorria ; a duvida ensombrava-lhe os olhos.
Emfim, deu alguns passos e parou em
frente delia.
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V -4
H'.fi
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XI
O PASSADO
— Serei indiscreto perguntando que
passado foi esse? disse Félix depois de
alguns instantes.
— Oh ! descança ! Não me peza nada
na consciência ; mas no coração...
— Amaste alguém ?
— Amei a meu marido.
A esta resposta de Livia seguiu-se novo
e longo silencio. A memória do passado a
que ella tão mysteriosamente alludira pa
recia doer-lhe na alma. Arfava-lhe o seio,
e as mãos, em que o medico amorosa
mente tocou, estavam geladas e tremulas. ■;ó; f :í
— Não acreditas que eu possa compre-
122 RESURREIÇAO
hender-te melhor qiic os outros? pergun
tou finalmente o medico.
— Talvez não.
Felix fez um gesto de despeito. A moça
arredou o vestido e abriu espaço no sophá,
onde o medico se sentou a um signal
d’ella.
— Talvez me não comprehendas melhor
que os outros, continuou Livia, e com isto
não quero dizer que sejas tão vulgar como
os mais d’elles. Não o é s ; mas ha cousas
que um homem difficilmente comprehen-
derá, creio eu.
— Nem quando ama? perguntou Felix.
Livia não n^.spondeu ; Felix continuou :
— Mas que passado foi esse? Posso
não comprehender-te, como dizes, mas
saberei dizer-te algumas palavras de con
solação, e dissipar com ' ellas a tristeza
que te ficar desta confidencia, que não é
um remorso, de certo.
— Amei a meu marido, começou Livia,
e toda a minha confidencia se resume nes
sas poucas pakvras. Tive uma paixão da
primeira edade, quando o amor vem sor-
prehender a ignorância do caração. Será
RESURREIÇÃO 123
esse o amor mais forte? Ha quem diga que
o primeiro amor nasce apenas da neces
sidade de amar. Póde ser. Hoje que te
amo sinto que póde ser assim. Em todo o
caso, aquelle affecto do minou-me toda ;
cobrei uma vida que me parecia immortal.
— E elle?
— Amava-me, creio, mas não enten-
diamos o amor do mesmo modo; tal foi o
meu doloroso e tardio desencanto. Para
mim era umextasis divino, umaespecie de
sonho em acção, uma transfusão absoluta
de alma para alma; para elle o amor era
umsentimento moderado, regrado, umpre-
texto conjugal, sem ardores, sem azas, sem
illusões... Errariamos ambos, quem sabe?
— Vejo que eram incompativeis, inter
rompeu Felix; mas, porque exigir de todos
essa maneira dever e sentir, que é mais
da imaginação que da realidade?
Livia levantou os hombros.
— Estou explicando a situação da
minha alma, continuou ella. Foi afflictiva
c triste; não lh’a occultei. Riu-se de mim
Era um homem apathico e frio ; honesto,
ó verdade, e bom coração, mas falavamos
124 RESURREIÇÃO
lingua diversa e não nos podiamos enten
der. Confiei todavia na influenciado amor.
Emprehendi a tarefa de o trazer á atmos-
phera dos meus sentimentos, errada tenta
tiva, que só me produziu attribulação e
cançasso. Fatigava-o com isso a que elle
chamava pieguices poéticas; da fadiga
passou á exasperação, da exasperação ao
tedio. No dia em que o tedio appareceu
conheci que o mal estava consummado.
Quiz emendal-o e não pude. Tinha feito
da nossa vida conjugal um deserto ; e se
a minha alma clamava contra o destino,
minha consciência me accusavade um erro,
o erro de haver pertubado a paz domes
tica, a troco de um sonho que não veiu.
Não me faço melhor do que sou, bem vês;
mas uma parte da culpa não será da natu
reza que me fez tão pueril ? Tal é o meu
receio agora, continuou Livia depois de
alguns segundos de silencio; ás vezes
cuido que não vim ao mundo [j^ra ser feliz
nem para dar a felicidade a ninguém.
Nasci defeituosa, parece. Serás tu capaz
de desfazer a apprehenção ou corrigir o
defeito?
RESURREICAO 125
A viuva concluiu estendendo-lhe a mão
que o medico apertou entre as suas. Um
sorriso desympathia ou de commiseração,
\ ou de ambas as cousas juntas, entre-abriu
os lábios de Felix. Nemhum delles falou ;
ambos pareciam conversar comsigo mesmo
Emfim, a viuva repetiu a pergunta.
—Talvezpossadissipar-teaapprehensão,
respondeu Felix; mas, creio que não será
facil. Tens um coração ainda muito cre-
ança, e que o ha de ser até a morte, penso
eu.
Felix calou-se, e contemplou á vontade
a physionomia da viuva, que tinha os
olhos postos no chão, absorta e pensativa.
A pouco e pouco o rosto do medico se foi
egualmente fechando, e ambos, durante
largo espaço, se deixaram ir na corrente
de seus pensamentos sombrios. Felix foi o
primeiro que despertou do lethargo.
— Naufragaste á vista de terra, disse
elle, e do'naufragio trouxeste apenas hú
midos os vestidos. Sabes o que é naufra
gar em mar alto e solitário, e perder tudo,
até a vida ? Foi assim commigo.
— Sim ? disse Livia com um tom em
126 RESÜRREIÇAO
qne a alegria se misturava á curiosidade.
Felix não pôde reter um sorriso.
— 0 infortúnio é egoista, pensou elle.
E continuou :
— Sim, perdi muito mais. Abraçar um
cadaver, que é isso para quem já abraçou
uma serpente ? Tu perdeste apenasalguns
annos de amor mal comprehendido; não
perdeste um bem precioso, que o tempo
me levou : a confiança. Podes hoje ser
feliz do mesmo modo que o querias ser
então ; basta que te ame alguém. Eu não,
minha querida Livia, falta-me a primeira
condição da paz interior : eu não creio na
sinceridade dos outros.
Aqui parou como se esperasse alguma
observação da viuva; ella, porém, olhava
para elle tranquilla e até risonha. Felix
continuou as suas confidencias do passado.
Eram historias de affeições malogradas e
trahidas, contadas com sincera expansão,
como se estivesse falando a si mesmo. A’s
vezes a commoção fazia tremer-lhe a voz,
e nessas occasiOes, sobretudo, lia-se nos
olhos da moça o enlevo com que ella ouvia
falar-lhe o coração.
RESURREIÇÃO 127
— Ninguém esperdiçou mais generosa-
mente os affectos do que eu, continuou o
medico, ninguém mais do que eu soube
ser amigo e amante. Era crédulo como tu ;
a hypocrisia, a perfídia, o egoismo nunca
me pareceram mais que lastimáveis aber
rações. Meu espirito creára um mundo
seu, uma sociedade platônica, em que a
fraternidade era a lingua universal, e o
amor a lei commum. Deixei-me ir assim,
rio abaixo dos annos, gastando a seiva
toda da juventude, sem calculo nem arre
pendimento, até que me bateu a hora das
decepções funestas.
Calou-se. Sentira um rumor proximo;
era Vianna que passeava na checara en
tregue ás suas combinações de horticul
tura. Ouviria elle a voz de Felix ? Parece
que sim, porque a pouco e pouco se foi
affastando do logar. Os dous ficaram outra
vez sós. 0 médico proseguiu :
— Não me caíram as illusões como
folhas sêccas que um debil sopro desprega
e leva, foram-me arrancadas no pleno vigor
da vegetação. Não me deixaram essas doces
recordações, que são para as almas enfer-
128 RESURREIÇÃO
mas como que uma aura de vitalidade. Meu
espirito ficou arido e sêcco. Invadiu-me
eutão uma cruel mysanthropia, a principio
irritada e violenta, depois melancólica e
resignada. Calejou-se-me a alma a pouco
e pouco, e o meu coraçao litteralmente
morreu.
Félix continuou a narração por este
mesmo tom elegiaco e triste. Foi longa e
fiel. Se a viuva não o escutasse só com o
coração, poderia perceber alguma cousa
mais do que resentimento e amargura.
Félix não era virtualmente mau; tinha,
porém, umscepticismo desdenhoso ou hy-
pocrita, segundo a occasião. Não percebería
só isso ; veria também que a natureza fora
um tanto complice na transformação moral
do medico. A desconfiança dos sentimentos
edaspessoas não provinha só dasdecepções
que encontrara; .tinha também raizes na
mobilidade do espirito e na debilidade do
coração. A energia delle era acto de von
tade, não qualidade nativa : elle era mais
que tudo fraco e volúvel.
Livia não percebia nada disto ; escutava-
o com a fé pia de um coração amante.
RESURREIÇÃO 129
Sabendo que a razão do actual abatimento
eram os infortúnios passados, ella confiava
de si mesma o renovar aquella alma que
envelhecêra antes do tempo. Taes foram
as suas consolações quando o medico ter
minou a longa confidencia. Elle agradeceu-
Ih’as commovido, não sem lhe perguntar
se ella teria força bastante para concluir
essa missão piedosa.
— Tenho, affirmou Livia.
— E certo quemeresuscitaste, continuou
o medico; e se o futuro me guarda ainda
alguns dias de felicidade sem mescla, a ti
só os deverei, minha boa Livia; tu só
haverás feito o milagre. Mas...
— Mas? repetiu a moça com impaciên
cia.
— A obra não está completa, continuou
Felix; metade apenas. Fizeste brotar
d’entre as ruinas uma flor solitaria, mas
bella; unica neste arido terreno do meu co
ração. Não basta ; é preciso agora um raio
que a anime e lhe conserve o perpetuo
viço; essa é a confiança, não de uma hora,
mas a de todos os dias, a que não fallece
nunca e nos restitue a serenidade dos pri-
130 RESURREIÇÃO
meiros tempos. Sem ella,omeu amor será
um largo e inútil martyrio.
Dizendo isto, conchegou-a ao seio; to
cavam-se quasi os rostos, que a ternura,
não a voluptuosidade, enlanguecia. Não
foi longo esse instante de mutua contem
plação, mas valeu por muitas horas de
pratica. Se a vida pudesse ser eternamente
aquillo, é provável que o coração de Felix
adquirisse a paz que almejava. Emfim, a
moça deixou cair o corpo, como se lh’o
debilitasse o peso de commoções tão vivas,
e a palavra affluiu aos lábios de ambos.
Falaram então em prosa; conversaram
de seus projectos de futuro, dos arranjos
do casamento, de uma viagem que fariam
logo depois. Iam levantar-se quando ao
longe lhes appareceu o irmão de Livia.
Caminhava apressadamente e alegre, ao
encontro dos dous namorados. Felix
compoz o rosto coma expressão que o caso
pedia; Vianna approximou-se, e disse á
irmã que o coronel Moraes estava na sala
com a filha.
Livia pediu licença ao medico e dirigiu-
se para a casa. Felix deu o braço a Vianna.
RESURREIÇÃO 131
— Falavamos das suas reformas, disse
elle, e fazíamos prosaicamente o orça
mento da despeza que vai ter.
Vianna sorriu-se á socapa, mas não
deixou cair o assumpto no chão. Falou
com volubilidade dos seus planos, que
eram vastos e originaes, concluindo por
uma singella confissão, acompanhada de
um olhar indagador.
— Receio, disse elle, que a Livia se
case mais tarde ou mais cedo.
Félix limitou-sé a sorrir com indiffe-
rença ; entravam ambos na sala.
XII
UM PO NTO N EG R O
Livia e Rachel estavam assentadas no
sophá ; O coronel, encostado a uma cadeira,
consultava o relogio. Não consultava;
tinha o relogio na mão, diante dos olhos,
mas os olhos reviam-se na filha, em quanto
esta respondia ás perguntas da viuva.
— Aqui está a doente, disse Livia ape
nas viu assomar á porta da sala o medico
e o irmão.
Rachel voltou a cabeça, e não pôde reter
uma exclamação de sorpreza e de alegria.
Félix adiantou o passo e foi apertar-lhe a
mão.
— Então? não está salva? disse elle
I
MACHADO DE ASSIS — R esurreiçüo 8
134 RESURREIÇÃO
olhando alternadamente para as duas mo-
ças.
— Foi o senhor que a salvou, disse o
coronel chegando-se ao grupo.
— Não fui; auxiliei a natureza, nada
mais.
— Havemos de pol-a totalmente boa e
viva como era antes, disse Lívia dando um
beijo na convalecente.
Rachel ouviu este dialogo com um sor
riso triste que parecia ainda mais triste na-
quclles lábios sem côr. Estava extrema
mente pallida e magra ; os olhos, agora
que o fogo da febre se apagára nelles pare
ciam amortecidos e fundos. Ainda assim,
não perdera ella a sua natural gentileza.
Mais: a propria morbidez do aspecto como
1I'^S ■ que lhe dava realce maior.
c
Talvez essa circunstancia influisse na
impressão que o medico agora recebia;
pela primeira vez lhe pareceu Rachel uma
mulher.
O coronel respirava felicidade por todos
os poros. A alegria que perdera durante a
l'’"» J' moléstia da ülha, voltava agora mais que
nunca ruidosa e communicativa. Era um
'^
RESURREIÇÃO 135
velho palreiro e jovial, amigo da palestra
e deanedoctas, antes gracioso qiiechocar-
reiro, tendo aquellaamavel gravidade com
que a gente se familiarisa sem perder o
respeito. De quando em quando olhava
para a filha com olhos paternalmente na
morados, então parecia esquecer-se do
resto do rnundo, porque o mundo inteiro,
ao menos parte delle, que a outra parte
lhe ficára em casa, estava alli resumida
naquellafranzina,e alquebrada creatura.
— E promette-me que m’a restituirá,
disse elle á viuva, não corada, que ella
nunca o foi, mas com aspecto de saude,
viva como era, e alegre, e até se quizer
través sa?
— E por que não? Os ares são bons;
os carinhos serão fraternacs, e melhor
que os ares e os carinhos, ha de cura-la
a natureza, e creio também que a boa von
tade delia. Não é assim ? disse Livia
batendo na face de Rachel.
A resposta de Rachel foi dar-lhe um
beijo, e sorrir, não já tristemente como da
primeira vez. A tarde caira de todo. O co
ronel fez algumas rccommendaçOes derra-
deiras á filha, agradeceu á viuva e ao me
dico, metteu-se no carro e voltou para Ca-
tumby. Livia foi mostrar á amiga o seu
aposento; Felix despediu-se de ambas e
dirigiu-se para a porta.
Volta? perguntou Livia.
— Talvez nao, minha senhora, respon
deu Felix cuja intenção positiva era ir lá
tomar chá.
A presença de Rachel veiu de algum
modo alterar as relações dos dous namo
rados. Já não podiam ser frequentes as
entrevistas solitárias em que ambos se es
queciam do mundo e de si. Mais que nunca,
procurou Felix recatar o seu amor das
vistas alheias, por modo que, apezar da
convivência que tinha com os dous, Rachel
nada suspeitou entre elles. Algumacousa
advinharia se reparasse que a viuva, quando
estava com ella, quasi que só falava do
medico; mas, como ella também não falava
de outra pessoa, parecia-lhe que era antes
a viuva quem a imitava.
Por esse tempo começou Menezes a fre
quentar a casa de Vianna, com quem tra-
vára relações alguns mezes antes. Felix
RESURREIÇAO 137
fez a respeito delle um elogio sincero e
merecido. 0 parasita acompanhou a boa
opinião do medico com um enthusiasmo
que cheirava a bons jantares. 0 advogado
correspondeuá expectação da viuva, enão
tardou que se tornasse familiar na casa.
Estava curado da sua malfadada paixão.
Curado e vexado, dizia elle, quando Felix
o interrogou a esse respeito.
— Estes amores são as licçOesda escola
de meninos, concluiu Menezes sorrindo.
Já saiste da primeira escola ; porque não
sobes de estudos?
A esta metaphora, um tanto rebuscada,
respondeu Felix com um sorriso que podia
confessar e negar ao mesmo tempo.
Menezes, que não tinha nenhuma intenção
occulta nas suas palavras, não se deu a
averiguar qual das duas expressões convi
nha ao sorriso do amigo. As relações de am
bos pareceram estreitar-se mais. Com um
pouco mais de expansão e confiança, teria
o medico referido ao amigo os seus amores
e a sua felicidade próxima. Não o fez, nem
Menezes lh’o adivinhou. Teve suspeitas
uma noite em que surprend eu os olhos da
8.
138 RESURREIÇÃO
viuva amorosamente cravados no medico,
mas a indifferença com que este se levantou
para ir gracejar com Rachel de todo o
dissuadiu.
Os dias foram assim passando, longos
para osdous amantes, breves para Menezes
e Rachel que achavam naquella caza a
mais deliciosa companhia deste mundo.
Aqui podia acabar o romance muito na
tural e sacramentalmente casando-se estes
dous pares de corações e indo desfructara
sua lua de mel em algum canto ignorado
dos homens. Mas para isso, leitor impa
ciente, era necessário que a filha do coro
nel e o Dr. Menezes se amassem, e elles
não se amavam, nem se dispunham a isso.
Uma das razões que desviavam da gentil
menina os olhos de Menezes era que este
os trazia namorados da viuva. De admira
ção ou de amor ? Foi de admiração pri
meiro, e depois foi de amor ; cousadeque
nem elle, nem o autor do livro temos
culpa. Que quer? Ella era formosa e moça,
elle rapaz e amoravel, e de mais a inexpe
riente ou cego, que não adivinhava a situa
ção anterior da viuva e do medico, ainda
RESURREIÇÃO
por entre os vens com que lh’a occiil-
tavam.
Ao inverso de Felix, cujo espirito só
engendrava receios e duvidas, Menezes era
antes de tudo propenso ás fantasias cor de
rosa. Irmanavam-se no ponto de serem
joguetes de sua imaginação. Menezes facil
mente entreviu um mundo de esperanças.
A affabilidade com que a viuva o tratava
pareceu-lhe auspiciosa; o mais innocente
de todos os sorrisos servia-lhe de base a
um castello de vento ; uma expressão qual
quer, simples cortezia de sala, afigurava-
se-lhe cheia de mil promessas de futuro.
Nem futuro nem esperanças havia; havia
a candura delle, que era botão de flor, ainda
entrefechado á corrupção da vida.
Tal era o contraste desses dous carac
teres, que a estrella da viuva, não sei se
boa ou má estrella, reuniu aseuspés. Um,
se viesse a adorar um rosto hypocrita, des-
ceria na escala das degradações, com os
olhos fitos na chimera da sua felicidade;
outro, ardendo pela mais angelica dascrea-
turas humanas, quebraria comas próprias
mãos a escada que o levaria ao ceu.
140 RESURREIÇÃO
Felix percebeu, erníim, o que se passava
no coração do amigo. Sua primeira im
pressão foi de cólera, não porque duvidasse
logo da moça, mas por isso mesmo que
outro homem se atrevia a amal-a. E não
havia perigo em tal situação ? A simples
pergunta era sufficiente para dar largas ao
espirito de Felix. Veiu imrnediatamente a
ideia de que á moça não fosse desagradá
vel o amor de Menezes. A vaidade, primeiro,
depois o habito, erníim a curiosidade do
coração, os levariam um para outro. Talvez
os houvessem levado já.
Aconteceu uma vez que, falando delia,
a physionomia de Menezes, de risonha que
estava, se tornasse subitamente séria.
Felix era mais habil que elle, não lhe foi
difíicil sondar-lhe o coração. O amigo con
tou-lhe tudo, como fervor que lhe era pro-
prio, e a singelesa de um homem ainda
pouco conversado nas cousas do mundo.
O medico escutou-o com soffreguidão,
mas apparentemente quieto.
— E esperanças ? disse elle.
— Poucas ou muitas; não sei bem o que
seja. Ha occasiOes em que tudo se me aíi-
li
RESURREIÇAO 141
gura facil e decisivo ; outras vezes desa
nimo e descreio de mim mesmo. Ella é
affavel commigo, mas também o é contigo
e com o os mais. Adivinharia já alguma
cousa ? Quero crer que sim, e visto que se
não agasta, é bom signal, penso eu. 0
peior de tudo é que eu rne não atrevo a
dizer-lhe o que sinto.
Uma só palavra bastava ao medico para
arredar do seu caminho aquelle rival nas
cente; Felix repelliu essa ideia, metade
por calculo, metade por orgulho, — mal
entendido orgulho, mas natural delle. 0
calculo era cousa peior ; era uma cilada,
— experiencia, dizia elle; — era pôr em
frente uma da outra, duas almas que lhe
pareciam, por assim dizer, consanguineas,
tental-asa ambas, aquilatar assim a cons
tância e a sinceridade de Livia.
Assim pois, era elle o artifice do seu
proprio infortúnio, com as suas mãos reu
nia os elementos do incêndio em que viria
a arder, senão na realidade, ao menos na
fantasia, porque o mal que não existisse
depois, elle mesmo o tiraria do nada, para
lhe dar vida e acção.
RESURREIÇAO
Menezes explicou ainda mais o estado
de sua alma ; não era amor violento que
sentia, era affeição serena e branda :tran-
quilla, mas irresistivel fascinação. 0 me
dico, por um sentimento de pudor que lhe
ficára, não animou abertamente as espe
ranças d,o amigo; entretanto, a sua pala
vra era tão alegre, o riso de tão boa feição,
que o espirito de Menezes para logo sentiu
reflorirem-lhe as esperanças, seéqueellas
haviam seccado alguma vez.
Imi'ruj'i'v. t’
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XIII 'I
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CRISE
Livia não percebeu logo o amor de Me
nezes; mas, era impossível que tarde ou
cedo o não suspeitasse. Não se fingiu
admirada quando elle lh’o confiou depois
de algum tempo de assiduidade nas Laran
jeiras. Nem se admirou nem se irritou;
além de não ser motivo para cólera, havia T I.
entre ambos, como Felix dissera um dia,
certa conformidade de sentir e pensar, que
de algum modo os vinculava.
A resposta que lhe deu foi certamente
fria e decisiva, não desdenhosa nem severa.
Ouando viu porém a tristeza que lhe cau
f tí
sou, esqueceu de todo as formalidades
convencionaes e necessárias; procurou
144 RESURREIÇÃO
suavisar as penas do moço. Tirou-lhe toda
a esperança presente ou futura; não pode
ria amal-o nunca. A amizade, porém, que
lhe tinha, talvez o consolasse do desen
gano. Isso apenas; não devia simular
um amor que não sentia nem acenar-lhe
com uma felicidade que lhe não podia
dar.
— Que me não pode d a r! repetiu Me
nezes apegando-se ainda a uma esperança
fugitiva; e se eu esperar que algum dia
soe a hora da felicidade que me nega?
Nada depende de nós ; os proprios movi
mentos do coração parecem nascer de mil
circumstancias fortuitas, se não é que os
rege uma lei mysteriosa, e essa... Quem
sabe? um dia, talvez, — ouso crel-o, —
um dia sentirá, que a sympathia que lhe
inspiro se transforma, e...
— Basta ! interrompeu Livia em tom
imperioso.
Menezes calou-se ; ella continuou :
— 0 amor não é isso que o senhor diz;
não nasce de uma circumstancia fortuita,
nem de uma longa intimidade, é uma
harmonia entre duas naturezas, que se
RESURREIÇAO 145
reconhecem e completam. Pormaisseme-
Ihante que seja o nosso espirito, sinto que
Deus não nos fez para que o amor nos
unisse.
Menezes não estava para estas ave
riguações theoricas ; é até duvidoso que
prestasse attenção ás ultimas palavras
da viuva. 0 chimerico edifício que tão la
boriosamente construíra via-o elle desfa
zer-se em fumo,e esta só impressão o do
minava agora.
Decorreu algum tempo de completo e
acanhado silencio. Estavam encostados á
janella que dava para o jardim. Menezes
não ousava levantar os olhos para ella;
não era só natural vexame da posição em
que se achava, era também medo de com-
templar ainda uma vez o bem que perdia. 0)
Livia comprehendia esse estado da alma
do moço. Lastimava, quem sabe? não ser
elle o escolhido do seu coração. Era o mais
que lhe podia dar, e era muito. Emfim:
— Fiquemos amigos, disse ella. A ami
zade lhe fará esquecer o amor; é mais se
rena que elle, e talvez menos exposta a
perecer. Conheço que sou egoista ; peço-
MACHADO DE ASSIS — R esurreiçüo 9
146 RESURREIÇAO
lhe uma cousa que só a mim aproveitará.
Amigos, não lhe será difficil achal-os; eu
não os acharia tão facilmente nem taes
como o senhor.
Menezes tocou levemente na mão que
ella lhe estendeu ao terminar estas pa
lavras. 0 pedido que ella lhe fazia era mais
affectuoso que judicioso; a um coração
desenganado não ha immediatamente com
pensações possiveis nem cfficazes conso
lações. A bondade da viuva o commoveu
todavia; ia agradecer-lhe quando Rachel
entrou na sala.
Rachel estacou. Ambos estavam .aca
nhados. A viuva foi a primeira que rompeu
o silencio chamando afilha do coronel. Que
queria dizer o sorriso benevolo, mas sonso
o que lhe pairava nos lábios? Não o viu
Menezes que olhava para fóra, mas viu-o
a viuva e estremeceu.
Menezes não voltou lá durante uma se
mana ; prolongaria a ausência, se o amor,
fecundo de illusões, lhe não houvesse en
chido o peito de esperanças novas. Livia
m. ;•
tratou-o com a acostumada affabilidade,
talvez com affabilidade maior. Como
{ ' r* i
RESURREIÇAO
O
147
a conüançade Félix não se havia alterado,
Livia usava assim uma dissimulação ho
nesta, por simples motivo de piedade e
gratidão. Estava no seu caracter este modo
de interpretar as cousas, e de as tratar
assim sem grande respeito ás conve
niências sociaes. Profanas, diría eu
antes, se quizesse exprimir os verdadeiros
sentimentos da viuva, que achava naqueila
obra de sympathia uma especiede missão
espiritual.
As missionárias d’aquella especie, se as
ha, desejo-lhes maior perspicácia ou mais
feliz estrelia. Nem a estrella nem a pers
picácia da nossa heroina estavam acima do
seu coração. 0 sentimento que a impei lia
era bom; o procedimento é que era errado.
Ella não attentava nisso. Interrogava o
rosto do medico, mais confiante e alegre
que nunca, e só isto lhe bastava a seus
olhos. Fossem elles menos namorados, e
veriam que a tranquillidade de Félix era
tão exaggerada efóradelle, que não podia
ser sincera.
A esses erros e illusões, que podiam
conter os elementos de um drama não re-
148 RESURREIÇÃO
moto, veiu juntar-se ainda a illusão de
Rachel. Esta applaudia sinceramente os
sentimentos que attribuia á viuva em re
lação a Menezes ; o sorriso com que os
sorprehendera não queria dizer outra cou
sa. Fel-o sentir um dia á viuva; a energia
com que ella lhe respondeu mais a per
suadiu ainda. Livia quiz então referir-lhe
tudo, o verdadeiro objecto do seu amor e
o seu proximo casamento; mas, posto que
a edade não as separasse muito, Livia con
siderava-a ainda creança e reprimiu o seu
primeiro impulso.
Rachel ficou com as suas suspeitas.
Perdoemos agora á inexperiencia da boa
moça, — creança, como dizia a viuva — a
leviandade com que insinuou ao medico as
suspeitas que alimentava. Fel-o por meio
de allusão delicada e fina n’uma occasião
em que o pedia a conversa. 0 golpe foi
profundo; a prova pareceu decisiva d’esta
vez.
Rachel notou a impressão do medico. O
sorriso innocente ebrincãoque lhe entrea
bria os lábios repentinamente se lhe. apa
gou. Felix olhava para ella sem ver a mu-
RESURREIÇÃO 149
dança que se lhe havia operado. Viu-a
emfim, mas nãoa entendeu. Tentou fazer-
se galhofeiro como sempre fora com ella ; {;■
conseguiu-a fazel-a sorrir.
Os dias que se seguiram a este foram
de triste provação para a viuva. Sabemos
já que o ciuine de Félix era ás vezes ris-
pido. Nunca o fôra mais que desta vez.
{‘lí
Longas cartas trocaram ambos, amargas
as delia, as delle friamente cruéis e cho- \ ê
carreiras. Félix não lhe disse logo a causa
desta nova crise: adivinhou-a Livia, etudo
lhe contou lealmente, sem lhe negar a boa
intençãocom que tratava o coração de Me
nezes Era mostrar-se muito pouco mulher.
Félix viu em tudo aquillo um tecido de
absurdos.
0 que lhe disse então foi o transumplo
das cartas que lhe escrevera. Grosseiro,
ironico, incohérente, tudo isso foi nas
palavras com que fulminou a pobre se
nhora.
Livia não protestava, Quiz interrompel-o
uma vez; quando elle acabou nada achou
que lhe merecesse resposta. Estavam na
sala. Olhou assustada para todas as por- \
ê
las, deixou-se cair frouxamente n^uma ca
deira e tapou o rosto com as mTios.
Felix deu um passo para ella ; o movi
mento era bom, maso arrependimento veiu
logo,
— Adeus! disse elle.
A moça descobriu o rosto,
— Felix! exclamou ella.
0 medico parou alguns instantes. Livia
levantou-se e foi a elle arrebatadamente.
Chegou a pegar-lhe n’uma das mãos, aba
tida e lacrimosa ia começar uma ultima
supplica. Elle porém puxou a mão violen
tamente, olhou para cila, e depois de longo
silencio, repetiu :
— Adeus !
ou C A PITU LO DO ACASO
Félix chegou a casa cheio de colera e
desespero. Entrou iinpetuosonasala ; como
se precisasse de vingar em alguma cousa
a supposta injuria, lançou mao do primeiro
vaso que se lhe deparou e deitou-o ao chão.
0 vaso fez-se em estilhas.
— Que é isso ? disse uma vozextranha.
Félix estacou espantado; olhou para o
vão de uma janella, donde viera a voz, e
deu com a figura de Moreirinha, commo-
damente sentado, com um livro de gra
vuras aberto sobre os joelhos.
— Sou eu, disse o visitante levantando-
se e indo apertar a mão ao dono da casa.
Admira-se de me ver aqui ? Tomei a liber-
152 RESURRETÇAO
dade de o esperar, a despeito das obser
■3, r
vações que me fez o seu creado.
Felix não pode encobriro desprazer que
lhe causava a visita. Moreirinha leu-lhe
isso claramente nos olhos, e continuou :
— Talvez não lhe seja agradavel aminha
presença, sobretudo porque me parece ter
alguma cousa que o molesta nesta occa-
sião ; mas não podia ser de outro modo...
Felix levantou os hombros.
— E maior será ainda o seu desgosto,
continuou Moreirinha, quando souber que
não lhe peço asylo só por uma hora, mas
até amanhã.
Dizendo isto, estendeu-lhe a mão. Felix
estendeu-lhe a sua, e friamente lhe disse
que podia ficar o tempo que quizesse.
Quando o coração padece não ha maior
importuno que um conversador indiffe-
rente e frivolo. Esta circumstancia veiu
ainda azedar mais o espirito de Felix. A
solidão lhe daria talvez um balsamo salu
tar, se o havia para elle. 0 acaso deparou-
lhe, entretanto, uma testemunha diante de
quem lhe era forçoso aparentar a serenidade
que não tinha.
RESURREIÇÃO
O hospede comprehencleu a situação, e
francamente lhe disse que o não queria
perturbar; viera como asylado, não como
visita; não tinha direito ás attenções do
dono da casa. Felix respondeu o melhor
que pôde a esta cortezia, que aliás o obri
gava ainda mais. Não havendo meio de
escapar, procurou ao menos ser egual-
mente cortez. Demais, Moreirinha não era
tão importuno como pareceria, porque
falava sempre, e não tinha o sestro dessa
outra casta de importunosqueinterrompem
a cada passo os discursos com perguntas...
de boca e de gesto.
Não se demorou o hospede em dizer a
causa que o trouxera alli : era Cecilia.
Apesar da situação em que se achava, Felix
não pode deixar de lhe prestar attenção.
— Cecilia ? perguntou elle.
— E verdade : é o meu mau anjo. Lem-
bra-se dos elogios que lhe fiz delia ? Eram
sinceros, e eram também justos naquelle
tempo. Até então não havia encontrado
docilidade egual. Não sou piegas, sabe;
mas gosto de um episodio assim. Não sei
que lhe fizeram á boa rapariga, que de todo
MACHADO DE ASSIS — R e s u r r e iç a o 9.
154 RESURREIÇÃO
mudou e veiu a ser um verdadeiro diabo.
Aquellas cadeias tão leves que nos pren
diam um ao outro, e que eu chamava
cadeias de rosas, tornaram-se de ferro
pesado, Quero fugir-lhe e não posso ;
tenho tentado tudo para escapar-lhe, mas
em vão. Escondo-me em casa, na casa dos
amigos, nos hotéis; onde quer que esteja
lá irá buscar-me, e então Deus sabe o que
soíTro. Hoje lembrou-me vir passar aqui o
resto do dia e anoutecom o senhor;estou
certo de que não dará commigo.
Felix ouvira attentamente a exposição
do Moreirinha, não sem achar alguma re
lação entre o estado delle e o seu. Morei
rinha referiu então muitos episodios do
que elle chamava sua escravidão.
— E não conhece nenhum meio de lhe
escapar por uma vez ?
— Nenhum ; ainda quando eu pudesse
sair da corte, estou certo de que ella iria
buscar-me abordo do navio ouáportinhola
do carro que me levasse.
Tão notável mudança no caracter de
Cecilia não deixou de chamar a attenção
de Felix. Comprehendeu facilmente que era
R E S U R R E IÇ A O 155
obra do proprio amante. A rôla fizera-se
gavião, pela unica razão de que Moreirinha
lhe dera ensejo de conhecera propria força.
De abatimento em abatimento chegára
Moreirinha á miserável posição actual.
Não era elle homem de salutares reacçDes
nem de resignações philosophicas : era,
sim, homem de fugir e adiar, -— caracter
feito de inércia e medo, maravilhosamente
disposto para os desesperos inuleis e as
capitulações vergonhosas.
— Mas, porque não sae da corte algum
tempo? disse Félix após alguns minutos.
Sempre ha de haver meio de fugir...
Moreirinha reflectiu um instante.
— Por duas razões, disse elle: a pri
meira é que, apesar de tudo, não deixo de
gostar, delia, e se pudesse escapar-lhe du
rante trinta dias, ia no trigesimo-primeiro
procural-a...
— A segunda razão, interrompeu Félix
a quem parecia incommodar essa ingênua
confissão.
— A segunda razão, respondeu Morei
rinha com hesitação, é que.,, não posso.
Félix desceu os olhos ao vestuário do
156 RESURREIÇÃO
rapaz, e viii nelle o commentario das pala
vras que acabava de ouvir. Elegancia ainda
havia, mas já pobre e rafada; os botins
tinham signaes delongo serviço; o paletó
aliás bem lançado, era de fazenda visivel
mente inferior. Trazia luvas cor havana,
mas ao olhar curioso de Felixnão escapou
a circumstancia de que as pontas dos de
dos já estavam assignalados por uma leve
pasta de cor preta, vestigio de aturado uso.
Não era preciso grande perspicácia para
comprehender que aquillo tudo era obra
de Cecilia. Nem ficaria longe da verosimi
lhança quem affiançasse que Moreirinha
estava eternamente condemnado ao capri
cho daquella mulher. Não tinha de certo
o rapaz com que lhe satisfazer todas as vai
dades e necessidades; ella incumbia-se de
abrir outras verbas no orçamento da re
ceita, mediante um bem combinado sys-
tema de impostos.
Felix comprehendeu tudo isso de re
lance, e procurou trazer o espirito de Mo
reirinha a ideias mais alegres, menos
ainda por elle que por si.
Não foi cousa difficil. Ao espirito de
RESURREIÇÃO 157 ' .1
Moreirinha repugnavam as preoccupa-
ções graves. Aproveitou o ensejo que o
medico lhe offereceu e entrou a falar das
cousas correntes do dia. Dos mil episó
dios da vida de certa classe, nao havia
gazeta melhor informada que o amante
de Cecilia. Os novos amores de uma, os
arrufos de outra, o dito chistoso desta, a
aventura daquella, tudo elle sabia em pri i\
meira mão. Não lhe perguntassem por
estreas litterarias nem crises politicas;
mas a mobilia com que Fulano presen
teara a certa dama, a ceia equivoca em
que Sicrano chegára a beber champagne
por uma botina, esse era dominio seu,
desde que os amores de Cecilia de todo o
separaram da sociedade.
Isto não recreiava nem interessava, mas
enchia o tempo, e desde que estava obri
gado a soffrer o hospede, era melhor sof-
frel-o assim.
Era impossivel, entretanto, não volver
o espirito á sua propria situação. De
quando em quando o medico esquecia o i|
narrador, e o seu pensamento ia esvoaçar
em derredor da viuva. Foi n’uma dessas
158 RESURREIÇAO
occasiõesque lhe chegou uma carta delia.
Felix abriu-a soffregamente e leu-a duas
vezes. Era longa; recapitulava a historia
da quel les últimos mezes, e concluia fazendo
um appello á razão do medico. Adivinhava-
se que a moça escrevera com lagrimas,
mas já não havia o tom supplice com que em
analogasoccasiõeslhepedia a reconciliação.
0 tempo alguma obra havia já feito no
espirito de Felix; a cartaveiuconsummal-
a Felix não estava ainda certo da innocen-
cia da viuva, mas já estava certissimo da
brutalidade da sua explosão, e este reco
nhecimento era uma dor nova, quasi tão
profunda como a outra.
Seu primeiro impulso foi ir ter com Li-
via ; desistiu delle e preferiu escrever-lhe
uma carta. Très vezes a começou sem lo-
o
grar chegar ao fim. Vacillava entre ser
aíTectuoso ou severo;n’um caso lembrava-lhe
a perfídia possivel, n’outro, a provável inno-
cencia ; temia ser injusto ou ridiculo. Como
todos os caracteres indecisos, não achou
mais recurso que uma inútil desesperação.
Anoitecêra; Moreirinha estava mais ale
gre que nunca, e pagava a hospitalidade
RESURREIÇÃO 1Õ9
do medico com as suas galliofas costuma
das. Não contava com Cecilia, mas adi
vinhou que era ella quando ouviu parar
um carro á porta.
— Estou perdido! disse elle desatando
um longo suspiro.
Era ella.
Cançada de esperar que lhe levassem
resposta do recado que dera, Cecilia desceu
do carro e entrou em casa. Ao checar O á
porta relanceou os olhos pela sala, onde
não viu desde logo o amante; Moreirinha
mettera-se no vão de uma janella. Felix
olhou severamente para Cecilia, como quem
lhe estranhava a liberdade que tomara. Mas
onde iam já as flores de antanho? A docil
rapariga de outro tempo tornara-se mulher
desgarrada e solta. Caminhou affouta-
mente para o medico e estendendo-lhe mão:
— Como estás, mon meiix'l disse com
um risinho de mofa.
Nessa oceasião descobriu o amante, que
parecia entretido em contar as estrellas.
Foi a elle, e soltava já as primeiras pala
vras de uma vehemente apostrophe,
quando Felix julgou prudente intervir a
RESURREIÇÃO
tempo de evitar um escandalo: reconciliou-
os como pôde, e seccamente os despediu.
Livia estava á janella desconsolada e
triste, em quanto Rachel, não menos triste
que ella, executava no piano uma melodia
adequada á situação de ambas. Não viera
resposta do medico ; a viuva sentia des-
vanecer-se-lhe a esperança de tantos mezes,
e com ella o futuro que tão perto se lhe
afigurava. Estas eram as suas melancó
licas reflexões, quando viu parar á porta
de Felix um carro, descer uma mulher,
entrar, sair depois com um homem e par
tirem ambos.
0 golpe foi terrivel e mais profundo que
nunca. A viuva não temia de certo uma
rival triumphante; mas via e sentia o des
prezo do homem por quem tantas lagrimas
chorara naquelle dia. Se o medico lhe
apparecesse então, ella reconheceria o seu
engano, e a alegria de se sentir estimada,
lhe daria forças contra a dor de se ver
offendida. Felix não veiu. Livia mal pôde
resistir a humilhação. Uma lagrima, — a
ultima que lhe restava, — foi a unica ex
pressão do seu immense desespero.
XV
ENFANT TERRIBLE
No dia seguinte, logo cedo, Vianna foi
á casa do medico. Não ia almoçar com
elle ; ia convidal-o para jantar.
— Faço annos hoje, disse o parasita, e
quizera ter á mesa alguns amigos, poucos.
0 senhor é dos primeiros, não pode
faltar.
— Não faltarei, respondeu Felix.
Vianna emittiu em seguida algumas
idéias a respeito da maneira por que en
carava . um jantar de annos. Não devia
comprehender senão amigos intimos, por
ser festa do coração, alegria domestica, em
que tudo o que não falasse a lingua da
amizade seria extrangeiroou talvez inimigo.
162 RESURREIÇAO
Não bastava gosto para a escolha de taes
amigos; era preciso geito e sagacidade
para discernir os que se prendiam pelo
affecto dos que adheriam pelo costume. Es
queceu-lhe oprincipal; esqueceu-lhe dizer
que, no seu ponto de vista, um jantar de
annos era também um jantar a juros.
Felix acceitou o convite com soffre-
guidão ; esperava um pretexto para voltar
á casa de Livia. Pungia-o ainda o ciume,
mas a irritação passára, e em lugar delia
nascêra o desejo de ver restabelecida a
harmonia antiga, não por acto de vontade
própria, mas por uma completa justificação
da amada.
Com taes sentimentos saiu de casa. Livia
estava á janella quando o viu chegar; foi
recebel-o no patamar da escada que dava
para o jardim. Ao apertar-lhe a mão, entre
triste e risonha :
— Era eu que devia perdoar-lhe, disse;
mas seria offender o seu orgulho.
— 0 meu orgulho?Perdoar-me ?repetiu
Felix.
— Sim, disse ella fazepdo um gesto
affirm ati vo.
RESURREIÇÃO 163 i3
Leu-lhe Felix no rosto tão sincera tran-
quillidade, que esteve quasi a acceitar a
reconciliação. Hesitou algum tempo; dei
tou os olhos á sala, e viu atravessal-a na
direcção da escada a figura de Rachel.
Então lembrou-lhe a semi-confidencia que
esta lhe fizera, e amargamente respondeu
á viuva :
— Sejamos serios.
Livia empallideceu. Quiz responder
alguma cousa, e não pôde ; Rachel estava
com elles.
Pouco depois chegat^am o coronel e D.
Mathilde ; Menezes não tardou muito. Al
gumas pessoas mais completavam o pessoal
da festa. A presença de extranhos cons
trangia a viuva e o medico ; era forçoso ser
alegre como os outros, e isso custava a
ambos, mais ainda a ella que a elle.
0 jantar passou sem novidade de vulto.
As pilhérias do coronel, e os brindes repe
tidos deVianna entretiveram a sociedade.
Felix tentou seguir a corrente da alegria
e logrou obtel-o. Não reparava, — ainda
mal! — que a fronte da viuva parecia entris-
tecer-se mais; seus olhos procuravam
I
antes os de Menezes que os della. Menezes
tinlia os seus embebidos nella.
Nofim do jantar Viannapropozquefossem
conversar na chacara. Menezes pediu que
a filha do coronel tocasse primeiro uma
melodia que lhe ouvira alguns dias antes.
Rachel consentiu. A melodia era extrema
mente melancólica, e Rachel tocava-a com
alma. O tom da musica influiu nos ânimos;
não havia só o simples silencio da attenção,
mas o recolhimento da tristeza.
Em alguns dos convivas esta impressão
ei-a mais natural e foi mais prompta. 0
medico, entretanto, forcejava, não só por
sacudir a extranha influencia, como por
affectar completa isenção de espirito.
Luiz estava em pó diante delle, com os
cotovelos fincados nos seus joelhos. Felix
brincava-lhe com os cabellos, e ambos sor
riam um para o outro, como se fossem os
únicos extranhos á commoção geral.
Ora, no meio do absoluto silencio da
sala, apenas interrompido pelas notas soltas
e magoadas que os dedos de Rachel tira
vam do piano, o íilhinho de Livia fez esta
singela pergunta ao medico :
r e su r r e iç ã o 165
_Porque é que o senhor não se casa
com mamãe ?
Livia estremeceu. Rachel cessou de
tocar e volveu rapidamente a cabeça para
o grupo donde partira a voz. Dos outros
convivas uns sorriam da innocente indis
crição do menino, outros observavam a
viuva, ninguém reparava em Rachel.
A íilha do coronel deixou immediala
mente o piano. Vianna lembrou então o
passeio da chacara. Todos acceitaram o
alvitre e saíram da sala. A especie de aca
nhamento que a pergunta do menino
deixára em todos, para logo desapareceu
de alguns.
Livia não saíra logo. A alguma distancia
repararam na falta delia,e Rachel piopoz-
se a ir buscal-a. Achou-a a abraçar e beijai
o filho. Com quanto ella fosse mãe extre
mosa, não havia razão immediata para
aquelÍa explosão de ternura. Rachel esta
cou sem comprehender nada.
A viuva olhou para ella conchegando o
filho ao coração.
— Que queres? perguntou.
Rachel não respondeu. A pouco e pouco
1G6 RESURREICÃO
se lhe ia alumiando o espirito. Olhou longo
tempo para ella, como se á força quizesse
arrancar-lhe a explicação, que o seu
coração presentia. Emfim, pareceu adi
vinhar tudo.
— Ama-o então ? perguntou ella com os
lábios trêmulos.
— Creio que o amei, respondeu Livia
baixando tristemente a cabeça.
Se o espirito de Rachel não fosse ainda
o regaço da castidade, aquella confissão
mentirosa da viuva, porque ella ainda
amava, podia fazer-lhe nascer alguma desai
rosa suspeita. Mas Rachel não viu naquel-
las palavras mais do que um amor medroso
e não comprehendido. Sua eloquente res
posta foi apertal-a nos braços.
Livia apertou-a com força. Era a pri
(• meira vez que o acaso lhe deparava uma
confidente. Alteava-se-lhe o seio, túmido
de suspiros; duas lagrimas lhe romperam
‘Pi■ dos olhos e foram morrer na espadua de
Rachel. 0 menino interrompeu essa doce
effusão. Livia respirou largamente, e bei
jando com ternura a moça, disse :
— Vamos.
‘■'i
r- 'V'Ã
RESURREIÇÃO 167
Mas Rachel não se movia. Tinha os
olhos postos nella, os lábios apertados, os
braços pendentes. Livia saccudiu-lhe bran
damente os hombros.
— Que tens? disse.
— Nada, suspirou Rachel.
Livia estremeceu. Súbito relampago lhe
atravessou as sombras do espirito. Inter-
rogou-a de novo, mas foi em vão. Então
sentiu em si todas as energias do seu tem
peramento, e com um grito, que a cólera
abafava, exclamou :
— Ah! tu o amas também !
Rachel não lhe respondeu. Se a viuva
lhe houvera falado com brandura é prová
vel que lhe fizesse plena confissão de seus
sentimentos. iVlas, ás palavras coléricas de
Livia, a pobre moça começou a tremer.
— Tu o amas também ! respondeu Livia
com voz surda e concentrada.
Rachel curvou o corpo, pôz as mãos
em attitude de supplica, emurmurou com
voz tremula :
— Perdão !
Pairou nos lábios da viuva um sorriso
I
sarcástico. Rachel repetiu ainda muitas
1'íf
168 BESÜRREICÃO
vezes a palavra perdão ; mas a unica res
posta da sua rival loi pegar-lhe do braço
e indicar-lhe a porta.
— Vae ter com elle ! exclamou.
Depois saiu arrebatada da sala. Rachel,
magoada pela violência do gesto da viuva,
acompanhou-a com o olhar até á porta. Os
ÿï.9'■ olhos da corça offendida não chamejavam
^ív:M‘- odio contra a leoa irritada.
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XVI
RACHEL
^4Vi
T: H - <^S
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Quando Rachel ficou só attirou-se ao
sopha, tremula, fria, com os olhos seccos,
sem comprehender hem aquelle drama
inlimo, mas sentindo-lhe já algum terrível
desenlace. 0 que 'ella via claro é que a I
outra amava o mesmo homem, e com tal
força que cedêra a um impulso de cólera,
tão contrario aos seus hábitos de bran
dura.
As reflexões de Rachel não passarão
dahi. Nem todas as almas podem encarar ikj
as grandes crises. Quer-se um espirito
robusto para estas situações complexas.
Rachel ficou simplesmente attonita e aba
tida.
MACHADO DE ASSIS — R e s u r r e iç ü o 10
170 RESURREIÇÃO
Na í^hacara foi notada a ausência das
duas. Vianna deixou os hospedes e foi á
sala.
— Oue faz aqui ? perguntou elle á filha
do coronel.
Rachel ficára perturbada com a presença
de Vianna, e ainda mais com a pergunta.
Emíim, balbuciou uma resposta infantil.
— Estava pensando n’uma cousa, disse
ella.
— Onde está Livia ? perguntou Vianna
sem attender á resposta da moça nem ao
sorriso forçado que lhe entreabria os lá
bios.
— Creio que está incommodada ; foi para
dentro.
— Cousa de cuidado?
■í> ' d ft í
— Parece que não.
Vianna deu duas voltas na sala e saiu
para a chacara, pedindo á moça que lá se
fosse reunir aos outros.
Felix, entretanto, viera até o jardim,
que ficava em frente da casa. Mal havia
dado alguns passos quando viu encostada
á porta da sala a filha do coronel, com os
olhos postos no ceu, acaso pedindo a Deus
RESURREIÇÃO
que lhe estendesse a mão para subir até là.
Era sol posto, hora de melancolia; tudo
alli em volta assumia a cor pardacenta e
luminosa dos últimos instantes da tarde.
Félix caminhou cautellosamente para a
casa, subiu por um dos lanços da escada,
e sorprendeu a moça, dizendo-lhe :
— Está linda assim ; mas nós precisa
mos vel-a cá fóra.
Rachel retraliiu o corpo sem ousar dizer
uma só palavra. Félix estendeu-lhe a mão
convidando-a a descer. A moça entrou
para dentro ; o medico deu ainda um passo,
mas ella, fazendo um gesto supplicante,
disse com voz afflicta :
— Pelo amor de Deus, saia !
Félix não resistiu ; desceu ao jardim e ca
minhou para a chacara a reunir-se ás ou
tras pessoas. Em vão buscava conjecturar
a causa daquella supplica. Era impossivcl
conciliar o procedimento de Rachel com a
familiaridade e a conliança que entre am
bos havia. A razão da differença devia ser
grave. Mas qual seria ella?
Os convidados retiraram-se cedo. Me
nezes e Félix foram os últimos que saíram.
172 RESURREIÇAO
ao lado um do outro, ambos entregues a
reflexões diversas, por que Felix pensava
nas palavras de Rachel, Menezes na per
gunta do menino.
A filha do coronel desceu ao jardim. Era
noite fechada. Sentou-se n\im banquinho,
e alli ficou em triste meditação. A pobre
moça tremia de susto, de incerteza, de
apprehensão. Não ousava encontrar os
olhos de Livia ; tinha-lhe medo, medo
pueril, excusado, sem razão, mas emfim
medo, e nada havia que tranquillisasse a
sua alma franzina e pusillanime.
Como beneficio celeste, entraram-lhe a
correr as lagrimas, até então retidas pela
presença de estranhos. Ninguém Ih’as viu,
que a noite era fechada e o sitio ermo ;
mas a aura estiva, que começava a bafejar
C
a folhagem resequida, do sol, acaso lhe
ouviu os soluços, acaso Ih’os levou ao seio
de Deus. Veiu então, de influxo divino,
uma doce consolação ás suas magnas soli
tárias.
Não ousando voltar para dentro, de
terminou esperar alli o irmão da viuva,
que fora acompanhar um amigo da vi-
RESURREIÇÃO 173
sinhança. Pedir-lhe-hia então para a le
var no dia seguinte á casa de seus paes.
Não hesitava entre a ternura delles e o
odio de Livia.
Assim reflectia ella, quando sentiu pas
sos no jardim. Voltou-se; era a viuva,
— Ah! exclamou Rachel levantando-se,
tremula e assustada ; pelo amor de Deus!
eu não lhe fiz mal nehum !
Livia acercou-se de Rachel ; travou-lhe
hrandamente das mãos, apesar do esforço
com que ella buscava esquivar-se, e disse :
— Que mal me farias tu, creança? A
culpada sou eu; sou eu que te peço per
dão, porque fui cruel e injusta, e cedi
ao egoismo do meu coração... Per
doa-me I
— Perdoo-lhe tudo! respondeu Rachel.
Cairam nos braços uma da outra. Ja
mais duas rivaes se estreitaram mais sin
ceramente amigas do que essas duas.
Largos minutos correram sem que nenhu
ma délias falasse; reflectiam talvez, tal
vez não pudessem vencer o acanhamento
da sua posição. Livia foi a primeira que
rompeu o silencio :
MACHADO DE ASSIS — B esurreiçao 10.
174 RÉSURREIÇÃO
— Como é que vieste a ainal-o? pergun
tou ella.
— Nao sei, respondeu ingenuamente
Rachel; nasceu-me o amor sem que eu
reparasse nelle. Nem sei se nasceria ; creio
que foi apenas transformação, por que eu
de pequena me accosutmei a admiral-o.
Foi talvez a admiração que se fez amor
quando eu cresci.
— Nunca lh’o déste a entender?
— Oli! nunca.
— E elle?
— Percebi que me queria. Brincava
commigo, como quando eu era creança :
nada mais.
— E resignavas-te á sorte?
— Que poderia fazer senão isso? Algu
ma esperança tive nestes últimos tempos;
em que a fundava, não sei; talvez na cir-
cumstancia de nos vermos mais a iniudo.
Enganava-me; penso que não nasci para
ser feliz.
— Quem sabe? disse a viuva. Nem
sempre o nosso coração acerta; pode ser
que mais tarde te appareça outro a quem
ames do mesmo modo...
RESURREIgÃO 175
— Do mesmo modo? interrompeu Ra
chel com sorpresa.
Livia pegou-lhe nas mãos.
— Não te parece que assim seja? per
guntou.
— Oh! não. Chame-me creança, se lhe
parece ; a senhora ha de saber mais do que
eu, naturalmente ; mas o meu coração me
diz que eu não poderia amar a ninguém
mais.
— A ninguém mais 1 murmurou a viuva
amargamente. Concentraste então toda a
seiva do teu coração neste amor silencioso
e chimerico? Não digas isso; amarás
mais tarde a outro que te amará também,
e serás feliz, creio eu. Murchará esta pri
meira flor do teu coração, mas, ha seiva
nelle para dar vida a outra flor, tão bella
talvez, e com certeza mais afortunada. 0
contrario, Rachel, seria injustiça de Deus.
0 amor é a lei da vida, a razão unica da
existência. Encher de uma só vez a alma,
sem que ninguém lhe beba o licor divino,
e regressar ao ceu sem ter conhecido a
felicidade na terra, nem o quererá Deus,
nem o temerás tu. Falas pela bocea da tua
l' ■í'’fl
1
amargura de hoje; espera a acção do
tempo, que é bom amigo.
Í'i;.íé Rachel meditava. Era a primeira vez
]-)'..'!&.
i®• que ella ouvia falar daquelle modo em
!.É ;
5^ cousas do coração. A linguagem da viuva
servia-lhe a um tempo de consolação e de
luz.
Livia falou ainda muito tempo, sem
preconceito nem reserva; não falou como
ÍSli
I't' rival, senão como amiga c mãe. Não repa
rava sequer que lhe dava armas contra si.
Falaria talvez de outro modo se se consi
derasse feliz; mas, como a situação de
ambas era egual, ella entornou na alma de
Rachel todo o sentimento de que a sua
alma estava cheia, e foi eloquente, porque
■
1íM foi sincera.
— Sim, disse Rachel, quando ella aca
bou ; comprehendo tudo isso que me está
dizendo. A senhora sabe amar... E ainda
o ama, não?
Livia calou-se.
— Que lhe custa dizer? insistiu a don-
zella.
— Custa-me lagrimas. Eu não te pode-
h.'5-f ria explicar nunca este sentimento que me
V
RESURREIÇÃO 177
nasceu como herva ruim para me envenenar
a existência, e que eu tanto tempo suppuz
il
que seria a coroa de minha vida... Nào te
quero enfadar, que são tristezas para isso.
— Mas então elle? aventurou Rachel.
— Não me perguntes mais; affirmo-te
só que o amei, que talvez tornasse a
amal-o...
— E que ainda o ama, concluiu a rival.
Livia esteve calada alguns instantes,
procurando ler-lhe no rosto, apesar das
sombras da noite, as impressões que lhe
iriam na alma;
— Não ! já o não amo! disse a viuva com
esforço.
Seguiu-se um longo silencio.
— E se o amasse, disse enfim Livia,
que farias tu ?
— Nada ! respondeu resolutamente Ra
chel.
— Deveras, nada?
— Pediria a Deus que a fizesse feliz, e
estou que Deus me ouviria.
— Eras capaz disso? perguntou a viuva
segurando-lhe nos pulsos e fitando-lhe os
olhos em cheio.
Era, respondeu ingenuamente a don-
Livia não disse palavra. Se das commo-
çoes da sua alma, algum vestigio lhe
subiu ao rosto, disfarçou-lh’o a noite ás
vistas de Rachel. Ambas ficaram pensati
vas algum tempo. Uma forte rajada fel-as
estremecer. Era signal de chuva próxima;
nuvens negras começavam a povoar o ceu.
As duas recolheram-se a casa.
— Vales mais do que eu, dizia a viuva
entrando com Rachel na sala. Eu sou
apenas egoista ; egoista e nada mais.
Guarda essas flores evangélicas do sacri
fício, do perdão e do amor. São raras; e
por isso é que és um anjo.
Foi differente a noite que ambas passaram
Rachel estava mais tranquilla depois da
conversa no jardim ; mas, que destino teria
a flor de sua alma, lyrio transformado em
goivo, vivido de lagrimas, medrado no
silencio? Não lhe appeteciam lutas. Falta
vam-lhe as armas de combate : — a astú
cia ou a energia ; faltava-lhe principal-
mente o desejo de despertar um coração
que sabia não ser seu.
RESUmiEIÇÃO 179
Mas esse coração possuia-o acaso Livia ?
Parecia-lhe que não; o mysterio, porém,
a reticência, a indecisão das palavras da
rival, tudo se lhe affigurava cobrir um
drama que ella não comprehendia nem
conjectura va.
No animo de Livia outras foram as
prcoccupações. Para ella, a situação era
mais clara. Sentia desvanecer-se o amor
de Félix, e via surgir uma rival perigosa.
Tinha medo da ignorância de Rachel;
receiava que a innocencia dessa alma
ainda em flor podesse dominar o espirito
rebelde de Félix ; e tal seria a catastrophe
das suas esperanças.
E quando todas essas sombras lhe po
voavam o espirito, e o coração lhe pulsava
com mais força, perguntava-lhe a cons
ciência se lhe era licito oppor algum obs
táculo á felicidade da donzella, dado que
esta vencesse o coração do seu noivo.
Livia não dormiu a noite toda. No dia
seguinte, apenas a claridade da manhã
lhe entrou no quarto, a viuva levantou-se,
vestiu á pressa um roupão, e foi ao quarto
de Rachel.
180 RESURREIÇÃO
A íilha do coronel dormia profunda
mente. Repousava de suas longas reflexões.
Livia abriu o cortinado muito ao de leve,
contemplou-lhe o rosto sereno e risonho,
os olhos cerrados, e os lábios semi-aber
tos como se em sonhos murmurasse pa
lavras de amor. Os cabellos esparsos lhe
serviam de resplendor á sua cabeça ange
lica.
— Não! pensava Livia, o amor não
dorme assim tranquillo em dias de infor
túnio e desespero. Creança inconsciente
que te suppões alar ás regiões do sol, que
sabes tu dos precipícios da viagem, que
conheces tu das voragens do coração?
— Ah! estava aqui! exclamou Rachel
acordando; ainda bem !
(0 — Porque?
— Sonhei que morria, e que era rece
bida no ceu. Fôra bom morrer assim;
mas eu sempre tinha pena de deixar a
terra. Acordou hoje muito cedo.
— Queria dar um passeio, disse Livia
indo abrir a janella, mas a manhã já está
quente,
Rachel olhou para ella; viu-lhe os olhos
RESURREIÇÃO 181
pisados e o rosto desfeito. Gomprehendeu
que não havia dormido,e que chorata.
— Ama-o então muito ? perguntou ella
a si mesma.
MACHADO DE ASSIS — R e s u r r e iç a o 11
Hi
XVII
)irr
sa c r ifíc io
A situação das duas moças demandava
um termo. Rachel foia primeira que resol
veu deixar completamente o campo ; tinha
no seu restabelecimento uma excellente
razão para regressar a casa.
Livia comprehendeu a intenção da amiga
quando esta lhe communicou a sua reso .'■fti
lução. Era tão simples e tocante o sacri
fício, que a viuva não resistiu a um im
pulso generoso. Respondeu-lhe com um
beijo. 0 beijo era de admiração ; Rachel ..r
acreditou fosse de agradecimento, e sor
riu com tristeza.
Ficou assentado que Rachel iria no do-
184 RESURREIÇÃO
mingo proximo, e nesse sentido foi avisado
o coronel.
Estavam ainda no dia seguinte ao do
episodio do menino. Nenhuma das suas
circumstancias esquecera ao medico. A es
quivança de Rachel continuava a preocu
par-lhe o espirito, não menos que a infun
dada suspeita que nutria a respeito da
viuva. Era meiado o mez de dezembro. A
data do casamento estava próxima. Tudo
exigia um desenlace a tempo.
Não tardou que o medico descobrisse
os sentimentos que a filhado coronel nutria
a seu respeito. Sorprehendeu-a perto de
uma janella interior, a beijar uma pagina
de um album de retratos. Approximou-se
cautelloso, lançou os olhos á pagina e viu
nella o seu proprio retrato.
A descoberta fel-o sorrir. Seria aquillo
a razão da mudança que notara nella ?
Nesse caso sabia já da affeição que o li
gava á viuva, talvez do projectado casa
mento. Era possivel também que a volta
delia á casa de seus paesnão tivesse outro
motivo.
Por mais isento que seja o espirito de
RESURREÍÇÃO 185
um homem, ó raro que o não lisonjêe uma
affeição assim, medrosa e silenciosa, nas
cida e vivida na soledade da alma. Felix
sentiu primeiro essa impressão de egoismo.
Vein depois outro sentimento melhor, —
o de uma respeitosa admiração. Seu pen
samento entrou a conjecturar a data da-
quelle singular am or; á proporção que se
internava nos dias do passado, ia combi
nando uma serie de episodios esparsos,
apparentemente vagos, agora significativos
e eloquentes. Não era recente a affeição
delia; era talvez anterior á sua enfermi
dade.
Che gára o sabbado, vespera da partida
de Rachel. Era de noite. Felix estava em
casa da viuva, e ambos, e Rachel, e até
Vianna todos pareciam preoccupados e
tristes. 0 medico olhava para a filha do
coronel, sem reparar que os olhos de Livia
seguiam os seus ecomo que buscavam ler
por elles os sentimentos do coração.
Rachel esquivava-se ás attenções do
medico. Em certa occasião, porem —
achando-se Felix mais affastado, — appro-
ximou-se delle com um livro.
186 RESURREÍÇAO
Já leu este romance? perguntou
ella.
— Deixe ver, disse Felix, convidando-a
com um gesto a sentar-se.
Rachel não se sentou ; estendeu-lhe o
livro, e olhou com insistência para o medico.
Felix pegou no livro e consultou pri
meira pagina; ia voltar distrahidamentea
segunda, quando lhe caiu nos joelhos um
papelinho dobrado. Rachel voltou assus
tada a cabeça para o lado deLivia, que de
pé, junto do piano, tirava notas soltas do
teclado, sem olhar para o grupo. Rachel
fez ao medico um signal de silencio e affas-
tou-se delle. Felix guardou o papel no
bolso.
— Quasi umacreança! ia elle pensando
quando se retirava para casa depois do
chá.
Quando alli chegou não se deu ao tra
balho de tirar o chapeo. Abriu a carta logo
na sala.
Dizia a carta :
(( Pela memória de sua mãe, não seja
cruel! Livia ama-o muito. Não afaça mor
rer, que seria um peccado? »
RESURREIÇÃO
Felix esfregou OS olhos e releu o bilhete.
Não havia negal-o ; a letra era de Rachel
e o conteúdo era uma supplica a favor da
rival. Não sorria o medico ; estava attonito.
A verdade, tão inverosimil desta vez, met-
tia-se-lhe pelos olhos, singella, eloquente,
expontânea. Expontânea seria? Felix fez
essa pergunta a si mesmo, e affirmativa-
mente lhe respondeu ; não attribuia á
viuva tamanha influencia, nem á donzella
tamanha submissão, que uma inspirasse e
a outra escrevesse aquella carta. A cousa
pareceu-lhe o que realmente era : um sa
crifício de Rachel.
Felix não era homem de grandes expan
sões; mas, se Rachel estivesse diante delle
naquella occasião, era capaz de cair-lhe
aos pés. Abafar uma affeição silenciosa, a
primeira talvez, para pedir a felicidade
de outra mulher, era abnegação rara, que
o sorprehendia.
A acção de Rachel fez-lhe esquecer por
algum tempo a viuva, objecto da carta que
acabava de 1er. Rachel não affirmaria tão
claramente os sentimentos da amiga, se
não tivesse plena certeza delles. Como
188 RESURREIÇÃO
conciliaria, entretanto, a affirmação de
hoje com a suspeita de hontem? A mesma
Rachel lhe insinuára diversa inclinação da
viuva. Naturalmentereconhecêra o contra
rio. A ideia da rehabilitação de Livia para
logo dominou o espirito de Félix. Seu
amor existia no mesmo estado de força e
viço ; facil de desmaiar, não era menos
facil de se restabelecer. No dia seguinte
parecia desfeita a nuvem que por alguns
dias o abafára.
Foi á casa da viuva; era uma hora da
tarde. Tinha curiosidade de encarar a filha
do coronel. Achou-a tão alegre e travessa
como era d’antes. Era assim apparente-
mente; os olhos extranhos não viam a
magoa interior e encoberta que lhe roia o
coração. Seu infortúnio tinha pudor.
Ao medico era impossivel encobrir esse
estado. A tocante generosidade da moça
fez-lhe bem ao coração. Teve elle a deli
cadeza de não tratar a viuva por modo que
magoasse a donzella; mas, tão outro se
mostrava do que fora até então, que a
viuva não pôde resistir-lhe, e aquelle dia
foi muito menos triste que os outros.
RESURREIÇÃO 189
As travessuras de Luiz faziam coro com
as de Rachel. A porta da sala estava aberta.
Luiz desceu os de^Taus que communi-
cavam da sala com o jardim, na occasião
em que Livia fechava uma pulseira de
Rachel. Quando a viuva deu por falta do
filho, correu á porta. 0 menino corria na
direcção da porta da rua. A mãi desceu
atraz delle.
Rachel ia descer também; Felix pegou-
lhe na mão. A moça estremeceu toda; afo-
guearam-se-lhe as faces, e ella balbuciou :
— Leu a minha carta?
— Li, respondeu Felix cravando nella
um olhar que era a um tempo de sympa-
thia e de pena; li, e não sei se deva crer o
que lá me diz.
— E a verdade.
— Mas então suppõe?...
— Que ella o ama; affirmo-lh’o.
— E que eu a amo também? perguntou
com hesitação.
— Isso... creio, assentiu Rachel, abai
xando os olhos.
Felix calou-se. Decorreram dous ou tres
minutos de silencio. Rachel continha com
11 .
RESURRETÇAO
difíiculdade os movimentos do coração.
Preferia estar a cem legoas dalli, mas
lembrava-se da outra e isso lhe dava
animo.
0 medico foi o primeiro que falou :
— Como sabe que ella me ama?
— Sei, respondeu Rachel sorrindo com
affectação, e é quanto basta. Demais, ne
nhuma moça escreveria semelhante carta,
a um homem se não tivesse certeza do que
affimava. Só lhe peço uma cousa : destrua
essa carta. Nada vale, mas eu não quizera
que a conservasse.
Livia approximava-se; sentiram passos
na escada de pedra. Rachel correu á porta,
em quanto Felix tirava a carteira do bolso,
e procurava o bilhete de Rachel. Foi nessa
occasião que o coronel e a esposa chega
ram. As duas moças desceram a recebel-
os. Felix desceu também, e caminhou a
alguns passos de distancia, com o coração
dividido entre o amor de Livia e a admira
ção de Rachel.
Os paes da moça jantaram nas Laran
jeiras. Livia acompanhou depois toda a
familia á cidade. Na occasião de se des-
RESURREIÇAO 191
peclir do medico, a filha do coronel sentiu
que as forças lhe iam faltando. Reagiu, vj.
porém, sobre si mesma, e sem olhar para
elle, estendeu-lhe a mao, que o medico
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respeitosamente apertou. Ao voltar-lhe as
costas um suspiro lhe saiu do peito; par
tira-se o ultimo vinculo da esperança.
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XVIII
RENOVAÇÃO
Livia não ignorou muito tempo a exis
tência da carta de Rachel. Felix mostrou-
Iha no dia seguinte, desejoso de saber
como havia nascido no espirito da moça a
convicção tão generosamente affirmada.
— Contei-lhe tudo, disse a viuva, quando
suppunha que tudo estivesse morto no teu
coração. Ella condoeu-se de mim, e vejo
agora que não era sentimento esterilo que
me revelara. Pobre Rachel !
— Esta carta foi excellente consolação,
Livia, por que eu sentia uma duvida cruel
a teu respondeu... Mas a que proposito lhe
falaste ?
Livia hesitou alguns instantes. Ou
194 RESURREIÇAO
melhor, reprimiu o seu primeiro impulso,
que foi referir ao medico o amor e a con
fissão de Rachel. Estaria no seu caracter se
o fizesse ; mas um vislumbre de reflexão
atalhou essa confidencia prestes a subir-
lhe aos lábios. Recearia que a noticia de
um amor tão generoso o desviasse delia ?
Póde ser. A explicação que lhe deu foi
breve.
— Já lhe disse, respondeu a moça; con-
íiei-lhe a causa das minhas magoas, n’um
dia em que mostrava condoer-se de mim.
Se errei a culpa é sua.
Felix não insistiu. Pela sua parte,
deixou também de referir a razão da recente
frieza nas suas relações com ella. A viuva,
que o sabia, achou mais acertado não lhe
falar nisso.
Tantas vezes apagada no ceu, reappare-
cia emfim a estrella da felicidade, e para
sempre ? Era caso de duvida, á vista do
passado; mas a credulidade da viuva estava
acima da sua experiencia. A ternura de
Felix nunca fora mais expontânea e viva
do que então. 0 coração como que se lhe
renovara. 0 sacriíicio de Rachel não era
RESURREIÇÃO
extranho a essa reacção, que fazia revivei
todas as esperanças da amada.
A alegria tornou a florir no rosto e no
peito da viuva. Ella possuia a memória da
felicidade, não a das tristezas. 0 que eram
reminiscencias de infortúnio apagaram-se
com o tempo; a serenidade dos primeiros
dias foi só o que lhe ficou.
Houve em certa occasião uma leve nuvem
passageira; foi a presença de Menezes, que
ainda frequentava a casa da viuva. A ma
neira por que Felix recebera o amigo fez
comprehender á moça que no coração delle
havia ainda um travo de amargura. Não
lhe foi difficil extinguil-o de todo. Referiu-
lhe ingenuamente tudo o que se passara
entre ella e Menezes, a branda austeridade
com que respondera ás suas declarações
amorosas, emfim o procedimento honesto
do rapaz.
Felix abanou a cabeça.
— Censuras-me ? inquiriu a moça.
— Não, affirmou o medico. Lastimo-te.
— A intenção era boa.
— Seria; mas a vida não é fabrica de
sentimentos : não se vive como se roman-
196 RESURREIÇÃO
ceia. ímpetos de generosidade são muito
bons, quando se não corre perigo nenhum.
Quem te affiançava a honestidade desse
moço ?
— Oh! advinha-se !... Queres uma prova?
Elle não voltará cá.
— Porque ?
— Creio que percebeu tudo.
0 medico ficou algum tempo pensativo.
Duas vezes tentou falar e conteve-se. Em-
fim disse:
—■Não é preciso perceber aquillo de que
ha de ter certeza amanhã. Casamo-nos na
segunda semana de janeiro. A noticia será
publica desde já.
Felix esperava um movimento expansivo
da viuva, ao ouvir esta declaração. Livia
não se alterou; apenas empallideceu.
— Tens razão, disse Felix depois de
olhar para ella algum tempo ; eu não tenho
direito a mais. Tantas vezes te illudi, que
é legitimo o teu receio.
No dia seguinte fez o medico official-
mente o seu pedido na presença de Vianna,
que abraçou com enthusiasmo o futuro
cunhado.
RESURREIÇÃO 197
— Isto devia acabar assim mesmo, disse
elle; ha muito que eu previa e desejava o
casamento. Nasceram um para o outro ;
estão na força da edade ; não podia haver
melhor união. Pela minha parte desistirei
até, se for preciso, da viagem que o senhor
me prometteu. Lembra-se ? Não faz mal.
0 que eu quero é vel-os felizes. Eu logo
vi que tramavam alguma cousa, mas gabo-
lhes a habilidade. Dê-me outro abraço,
doutor.
Felix prestou-se ás espansões do para
sita. Livia contemplava o noivo com ado
ração. Para ambos elles o mundo inteiro
havia desapparecido. Inteiro não ; Vianna
fez casualmente allusão a Rachel, e essa
intempestiva recordação entristeceu a
moça. Ella via que a sua felicidade era
causa da desventura da amiga, e agora
que a tinha quasi realisada, sentia morder-
lhe um piedoso remorso.
Adiantaram-se os preparativos do casa
mento. Livia pediu ao medico a suppres-
são de todo apparato, para não ferir o
coração de Rachel, pensava ella. A publi
cidade seria apenas a necessária. Nãocon-
RESURREIÇAO
tava com o irmão, que se encarregou de dar
ao consorcio proporções de acontecimento.
A nolicia foi referida por elle na rua do
Ouvidor, esquina da rua Direitav Dahi a
dez minutos chegara á rua da Quitanda.
Tão depressa correu que um quarto de
hora depois era assumpto de conversa na
esquina da rua dos Ourives. Uma hora
bastou para percorrer toda a extenção da
nossa principal via publica. Dalli espalhou-
se em toda a cidade.
Foi geral o espanto. Ninguém acredi
tava que Felix se determinasse ao casa
mento. Falava-se, é verdade, no namoro ;
mas, além de ser boato sem importância
nem generalidade, alguns não attribuiam
ao medico mais do que a intenção de um
passatempo, ao passo que outros davam
ás relações entre elle e a viuva um carac
ter absolutamente intimo, sem nenhuma
aspiração de legalidade.
A convicção entrou em fim no espirito
publico. Moreirinha attribuia o caso a um
desconcerto cerebral do medico. 0 Dr. Luiz
Baptista não deu opinião; parecia-lhe in-
differente o casamento da viuva.
RESURREIÇÃO 199
Rache! recebeu a noticia sem admiração,
mas com magoa. Esperanças não as tinha
já ; o mal que nos não espanta não nos
comtudo doe menos por isso. Quem lhe
deu a noticia foi xMenezes, que a recebeu
com philosophica resignação. 0 amor deste
tinha-se convertido n’uma especie de ado
ração religiosa. Achava na mulher amada
todas as qualidades que podiam seduzir
um homem como elle. Havia, além disso,
aquelle vinculo sympathico de duas crea-
turas que viviam mais da imagição que da
vida pratica. A recusa de Livia não rom
pera, transformára as cadeas que o pren
diam aella.
Não acontecia o mesmo a Rachel, e esta
circunstancia não escapou ao rapaz, que
habilmente a interrogou, e adivinhou tudo.
Menezes sacudiu lentamente a cabeça, mas
não lhe disse palavra. Apenas pensou com-
sigo que, se o acaso ou a providencia hou
vesse disposto as cousas de outro modo.
ambos elles podiam ser felizes.
Menezes repelliu a ideia de fazer confi
dencias á filha do coronel; tanto, porém,
lhe falou da viuva, que a outra alguma
200 RESURREIÇÃO
cousa desconfiou. Sabedores, emfim, do
que padeciam interiormente, a commum
■■ítl"îj; desventura os vinculou de algum modo. ,
Como as relações eram antes cortezes'
.ï ■' que familiares, nenhum d’elles falou com
a effusão que lhes pedia o sentimento;
advinharam-se, o que era muito, e apie
F; ü-M' davam-se um do outro, o que era quasi
tudo.
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XIX jI
■f-.r
•rv|:- í-
ÉíÉ■
■
A PORTA DO CEU <ii.
'W ■.■
Dous dias antes do casamento, Liviafoi
jantar á casa do coronel, a convite deste
que reunira algumas pessoas de amizade. ■i
Felix não compareceu, apesar de instante
mente chamado; cedera a um sentimento
de delicadeza, não querendo mortificar
com a sua presença a filha do coronel, nem
perturbar de algum modo o espirito da
viuva.
A primeira ideia de Livia foi não acce-
der ao convite, afim de não affrontar a dor
de Rachel. Instaram tanto os paes da moça ^ií
que lhe foi impossivel recusar.
As duas moças encararam-se commovi-
daes; adifferençara que Rachel pôdeoccultar
202 RERURREICAO
melhor o seu abalo do que a viuva. Essa
victoria da donzella sobre si mesma fez
redobrar a admiração da rival. Entendeu-
lhe a delicada intenção, e agradeceu-lh’a
na primeira occasião que se lhe deparou.
— Sei tudo, accrescentou Livia; sei da
tua carta, que foi a chave com que de novo
se me abriram as portas da fortuna. Eu
não sei se poderia ser tão heróica como
tu. Separa-nos o destino ; deixa-me beijar-
te as mãos.
O gesto acompanhou estas palavras:
Rachel recusou ceder ao desejo da viuva,
— Seja feliz! murmurou ella.
Taes foram as ultimas palavras que houve
entre ambas. Quando a viuva saiu troca
ram um beijo, a que não se podiam recu
sar, e que da parte de Rachel foi muito
menos expontâneo que da outra. Livia o
sentiu e sinceramente lh’o perdoou.
Ao entrar no carro, com o irmão, a
viuva ia desconsolada e triste. Seu cora
ção sabia amar, e a ideia de que a sua fe
licidade custaria lagrimas a alguém fun
damente lhe doia.
— Por que razão, pensava ella, me ha
RESURREIÇÃO 203
de lançar a Providencia esta gotta amarga
nea taça das minhas delicias? Se eu ao me
nos o ignorasse... a minha felicidade não
seria travada de remorsos... Felicidade?
continuou ella dirigindo o pensamento a
uma nova ordem de idéias ; será deveras
felicidade? O sonho, tantas vezes dissi
pado, realisar-se-ha, emfim?... Ha quasi
um anno que eu puz toda a minha exis
tência nesta vaga probabilidade ; está proxi-
mo o termo, não sei que sorte avessa me
repelle para longe. Não a mereço talvez,
ou então ambiciono de mais... Chamam-me
bella; devia talvez contentar-me com ser
admirada...
Neste ponto foi a moça interrompida
por uma observação banal do irmão, que
tinha um thermometro infallivel nos pés e
annunciou que havia trovoada imminente.
A irmã olhou silenciosamente para elle, e
admirou comsigo mesma a ventura da-
quelles para quem as tempestades do ar
importam mais que as tempestades da
vida. Vianna faria provavelmenie a re
flexão inversa se adivinhasse as preoccu-
pações da irmã.
_ '.aÉTJ
r 204 RESURREIÇÃO
l-if '
Quando chegaram ás Laranjeiras acha
ram Félix na sala, conversando infantil
mente com o filho de Livia, que lhe pedia
a explicação do mecanismo do relogio.
Félix applicava todos os recursos da ima
ginação para satisfazer a curiosidade do
menino. Como ouvisse parar um carro, e
logo depois rumor de passos no jardim, o
medico disse ao menino que a mamãe es
tava ahi, e aproveitou a occasião para lhe
annunciar que ia casar com ella.
Ao ouvir esta notícia, o menino subiu
aos joelhos do medico, e perguntou ale
gremente se era verdade o que dizia.
— Sim, é verdade, repetiu Félix.
— O senhor casa com mamãe?
— Caso, já disse.
<0 Neste momento assomou á porta a fi
gura de Livia. O menino desceu dos joe
lhos de Félix e correu a abraçar a mãe.
— E verdade que mamãe casa com o
doutor Félix? disse elle depois de receber
um beijo de viuva.
— E, meu filho, respondeu esta en
trando e estendendo a mão ao medico.
A presença de Félix e a alegria de Luiz
RESURREIÇÃO 205
mudaram o curso ás reflexões da moça.
Cinco minutos bastaram para fazer esque
cer a tristeza propria e o infortúnio da ri
val abatida. Rachel verteria naquella occa-
sião, no silencio da sua alcova, uma la
grima de saudade? Nenhum delles pensou
nisso, nem a viuva a quem ella tão gene
rosamente servira, nem Felix que era o ob-
jecto daquellas dores solitárias.
Felix estava mais jovial que nunca. Per
dera de todo as maneiras friamente poli
das; tornara-se expansivo, garrulo, terno,
quasi infantil. O coração parecia-lhe cheio
do presente e do futuro. Não era só a si
tuação que explicava esta mudança ; era
também a volubilidade do espirito.
A viuva lia-lhe na alma, que, emfim, re
surgira, um poema de ineffaveis venturas.
Houve um momento em que lhe lembra
ram as mesmas alegrias da vespera do seu
primeiro casamento, e estremeceu; mas a
impressão durou pouco ; o segundo ma
rido não era, como o primeiro, uma crea-
tura sem alma, era, sim, uma alma sem
acção. Mas o amor não começava já a rea-
nimal-a ?
MACHADO DE ASSIS — Retàurreiçüo 12
RESURREICAO
Mais quarenta e oito horas, e elles uni
riam para sempre os seus destinos. Esse
acto decisivo e grave da vida do homem, jó
o medico o encarava com a tranquillidade
de animo resoluto, sem tropeçar na res
ponsabilidade, nem arrecear-se das conse
quências. Antolhava-se-lhe o lar domes
tico como a cidade da paz e da concordia.
Não via ás portas delia o livido espectro da
duvida; ílores e folhas verdes, não morti-
feras, senão vivificantes, pareciam alcati
far-lhe o caminho e convidal-o a descan
çar emfim da vida que tão mal vivêra.
Livia saboreava esse renascimento do
amante. Estavam sós e iam dar o penúl
timo beijo de despedida. 0 ultimo seria o
da noite seguinte. As mãos delia pousavam
nos hornbros de Felix, e os olhos de am
bos procuravam fundir as duas almas no
mesmo raio de luz.
0 ceu não dava razão aos receios de
Vianna ; tinham-se dissipado as nuvens
que annunciavam próxima borrasca. Não
havia luar, mas a noite estava clara; e as
vivissimas estrellas que luziam no ceu,
algum poeta imaginoso as compararia a
RESURREIÇAO 207
lingvias de fogo daquelle pentecostes de
amor.
— Jura-me ainda uma vez que m eam as!
dizia elle. E doce á minha alma ouvir-te
essa confissão !
— Pelo ceu, por meu filho, por ti, juro
que te amarei sempre ! Amava-te ainda
quando eras indifferente ao meu affecto,
quando o negavas, quando me pagavas
com o desdem. Por que te não amaria
agora que és todo meu... todo, não?
— Duvidas?
— En não sei duvidar; receiar, sim. Já
te disse porque razão. Mas hoje não re
ceio, não ; sinto que sou verdadeiramente
amada. Quaesquer que fossem as minhas
queixas, eu tudo te perdoaria agora, que
me abres a porta do ceu.
— Oh ! tu es um anjo !
— Adeus!
— Adeus ! Amas-me muito, não?
— Muito!
E um beijo casto, longo, quasi divino,
sellou esta confissão tantas vezes repetida •i|
entre elles. Depois apertaram as mãos, e
Felix saiu.
*>
208 RESURREIÇÃO
A rua estava deserta, o silencio era pro
fundo. Félix entrou em casa exaltado e
alegre. Não tinha somno; recorreu aos
livros, mas não lhe aproveitou o recurso,
por que se os olhos corriam no papel, o
espirito estava ausente, no tempo e no es
paço : buscava a amada e planeava futu
ros.
Com a fadiga veiuo somno. Félix ador
meceu nos braços dos anjos.
Batiam oito horas quando elle accordou
e abriu as janellas. O dia estava triste.
Caía uma chuva fina e constante, que ha
via começado pouco antes dos primeiros
albores da manhã. Que lhe importava a
elle a melancolia da natureza, se tinha
dentro d’alma uma fonte de ineffaveis ale
grias?
Assentou-se á escrevaninha, e durante
duas horas fez o inventario da sua vida de
solteiro, rasgando com indifferença uma
immensidade de cartas que lhe lembra
vam affeições extinctas ou simples relações
passageiras. Varria o templo em que de
via entrar a escolhida de seu coração.
Quando relia algumas dessas epistolas,—
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RESURREIÇÃO 209
folhas cahidas da estação que se fora, — »•' L
desenhava-se-lhe nos lábios um sorriso 'd
'M
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ironico, mas tranquillo, tal era a transfor
mação de sua alma já indifferente ás lutas I:
do passado.
As dez horas levantou-se para almoçar.
Acabava de sentar-se á mesa quando lhe
vieram dizer que uma pessoa o procurava.
Era o Dr. Luiz Baptista.
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cS. *J?K “ V;Vrt'i ~-v' i'
m
UMA VOZ M Y ST E R IO SA
Félix estacou á porta da sala. Luiz Bap-
tista deu dous passos para elle.
— Nunca me offereceu a sua casa, disse,
e a minha indiscrição vem reparar o seu
esquecimento.
Era um gracejo ou um remoque? Félix
limitou-se a apertar a mão que o outro lhe
estendia e convidou-o a sentar-se.
— Disseram-me qne estava almoçando,
observou Baptista ; não quero de nenhum
modo interrompel-o Vá, e eu ficarei aqui
folheando algum livro.
— Ia começar a almoçar, respondeu o
medico ; se quizer almoçaremos juntos.
— Não ; se me consente, visto que ainda
212 RESUUREIÇÃO
está solteiro, irei familiarmente assistir ao
seu almoço, e então lhe exporei o motivo
que aqui me traz.
Félix convidou-o a entrar e ambos se
sentaram á mesa. As primeiras phrases
trocadas foram acanhadas e frias, mas as
maneiras livres do hospede conseguiram
abalar a reserva do dono da casa.
— E verdade, disse Baptista, ouvi dizer
que ia casar...
— Amanha.
— Assisto portanto ao seu penúltimo
almoço de rapaz solteiro. Ha muita gente
que ainda não acredita. Creio que o senhor
tinha fama de celibatário convencido, e
pela regra, um celibatário convencido é um
noivo á mão. Também eu era assim ; e
rr%. comtudo... 0 casamento é bom ; tem seus
inconvenientes, como tudo neste mundo ;
mas é bom, com a condição unica de o
acceitarmos como elle deve ser...
— Um pouco livre? disse Félix sor
rindo.
— Não sei se pouco ou muito, é questão
de temperamento. 0 essencial é que seja
livre. Eu assim o entendo e pratico ; sou
iWftÖ
RESURREIÇÃO 213
um peccador miserável, confesso, mas
tenho ao menos o mérito de não ser hypo-
if'
crita, e agora mesmo...
— Agora mesmo? repetius Felix depois
de alguns instantes de silencio.
— Não sei se deva contar-lhe isto ; o
senhor é ainda neophyto, vaenaturalmente
aborrecer-me e amaldiçoar-me... Mas, em
summa, é indispensável que eu lhe diga ,,,, • jí i|
tudo, porque isso prende com o motivo que
me traz á sua casa.
Baptista acceitou uma chicara de café
que o medico lhe offereceu. Depois, com
um modo acintemente leviano, referiu ao ■iÿ'Air
dono da casa uma aventura amorosa da- lli
quelles últimos dias. Tratava-se de uma
mulher caprichosa e requestada. Seu
triumpho era portanto duas vezes glorioso.
Como belleza, desafiava ao proprio medico
a resistir-lhe depois de meia hora de con
templação. Achar-se-hiam, talvez, outras
mulheres mais formosas ; nenhuma, porém,
tinha como essa o mysteriöse encanto que
sabe agrilhoar a vontade mais rebelde.
Quando ella me fita os seus grandes
olhos, continuou pintorescamente Luiz
éaè:
il ■
214 RESURREIÇAO
) •4■
Baptista, é o mesmo que se me entor
nasse chumbo derretido nas veias.
Todo o estylo da sua descripção era
)! ^ assim, — galhofeiro e sensual. Falou du
‘i rante vinte minutos com o enthusiasmo
f 1^1: proprio da sua situação. Felix ouvia pa
cientemente a narração do hospede, sem
.1 .' atinar com a relação que teria aquillo com
;f o pedido que lhe ia fazer. Interiormente
i; estava aborrecido. Não fora o medico em
sua longa vida de rapaz solteiro nem casto
nem cauto; mas a atmosphera do noivado
começava a arejar-lhe o espirito, e seme
lhante confidencia, naquella occasião, lhe
parecia de todo ponto extravagante.
— Não desconheço, disse Luiz Baptista
quando concluiu a sua expansão amorosa,
k' U’ não desconheço que uma aventura destas,
I 'i:tii: em vespera de noivado, produz egual
effeito ao de uma aria de Offenbach no
meio de uma melodia deWeber. Mas, meu
v»3 caro amigo, é lei da natureza humana que
cada um trate do que lhe dá mais gosto. A
r ■ ^
vida é uma opera bufa com intervallos de
musica seria. 0 senhor está n\im inter
valle; delicie-se com o seu Weber até que
m.
RESURREIÇÃO 215
se levante o panno para recomeçar o seu
Offenbach. Estou certo de que virá canca-
near commigo, e affirmo-lhe que achará
bom parceiro.
Dizendo isto, Luiz Baptista engoliu o
resto, ja frio, do café que tinha nachicara,
acendeu de novo o charuto, e recostou-se
na cadeira. Félix teve tempo de reassumir
a attitude tranquilla que as ultimas pala
vras de Baptista lhe haviam alterado. ■íi
— Emíim, disse elle, que ligação ha
entre essa aventura e o pedido que me vae
fazer ?
— Toda, respondeu Baptista; se ella
não existisse, eu não viria pedir-lhe ne
nhum favor. 0 senhor sabe o que é um ca
pricho de mulher amante ; não ignora tam
bém que o menor desejo delia é uma or
dem para o cavalheiro seu escolhido.
Félix fez um gesto afíírmativo.
— Pois bem, continuou Baptista. Esta
mos nesse caso. Ella é extremamente
caprichosa, e mais ainda que caprichosa,
é amante de cousas d’arte. Ha dias fui
achal-a aborrecida. Interroguei-a ; nada
me quiz dizer. Pela conversa adiante falou-
216 RESURREIÇÃO
me duas ou tres vezes n’uma gravura que
vira na rua do Ouvidor, e que o dono ven
dera quando ella lá voltou, disposta a
compral-a. 0 assumpto era o mais ortho-
doxo possivel : a israelita Bethsabé no
banho e o rei David a espreital-a do seu
eirado. Não lhe parece galante? A gravura
creio que era finissima ; mas tinha, além
disso, um merecimento para a pessoa de
quem lhe falo : é que a figura de Bethsabé
era a copia exacta das suas feições. Vai
dade de moça bonita. Mostrava-se tão des
consolada quando falava naquillo, que fa
cilmente percebi não ser outro o motivo
do aborreccimento em que a fui encontrar.
— E então?
— Fiz o que faria qualquer outro. Era
necessário que a todo o trance ella pos-
suisse um exemplar da gravura. Fui pro-
cural-o, e não achei. Gastei dous longos
dias nessas pesquizas, e quando voltei á
casa delia não tive remedio senão tirar-lhe
a ultima esperança. Ella apertou-me affec-
tuosamente as mãos, e agradeceu-me o
trabalho, dizendo-me que era mais uma
prova de amor que lhe dava ; concluiu.
RESURREIÇAO 217
porém, tudo isso com um suspiro. Eu não
me atrevo a dizer ao senhor o que quer
dizer um suspiro neste caso; aquelle sus il
piro era uma insistência do desejo.
— Parece que sim, disse Felix que já
adivinhára o final da exposição.
— Dir-me-ha o senhor, continuou Bap-
tista, que eu devia aproveitar o paquete
que partiu hontem e mandar vir da Europa
a gravura. Não duvidaria fazel-o, e ella
esperaria de boa vontade; mas quempóde
affirmar que o meu amor dure até á volta
do paquete? Tive então uma ideia salva
dora.
— Ah !
Voltei á loja onde ella vira a gravura e
inquiri do dono da casa quem lh’a havia
comprado. Depois de algum trabalho de
memória disse-me que fora o senhor. A
principio hesitei se devia importunal-o. 0
pedido não seria indiscreto em qualquer
outra occasião; mas, quando o senhor
está para tomar um estado moral, rogar-
lhe que me ajude a enxugar as lagrimas
de uma bella peccadora, émais que indis
crição, é atrevimento. Hesitei, a voz da
MACHADO DE ASSIS — R esum eiçao 13
RESURREIÇAO
1 ’azão era mais fraca que a do peccado, e
venceu o peccado.
I^uiz Bapüsta calou-se e esperando a
resposta do medico. Houve un largo si
lencio. Levantaram-se da mesa e foram
para a sala, sem que Félix désse a res
posta. Luiz Baptista foi o primeiro que
tornou ao assumpto.
— Não me pode fazer o que lhe peço ?
disse elle.
— Tenho estado a perguntar a mim
mesmo se me é licito fazel-o, respondeu
Félix sorrindo, e se ao entrar nas fileiras
do matrimonio devo ajudar a deserção de
um camarada.
Luiz Baptista estava naquelle dia singu
larmente falador. A simples observação do
medico deu azo a um largo discurso a res-
])eito do regimen matrimonial. Era meio
dia; Felix estava já fatigado da visita e da
palestra. Aproveitou um intersticio para
dizer ;
— Em summa, tem grande desejo de
possuir a gravura ?
— Queria que m’a cedesse.
— Faço-lhe presente delia.
RESURREIÇAO 219
— Eu não desejava de nenhum modo
prejudical-o, disse Baptista ; ha de con
sentir então que eu lhe faça um presente
de noivado. r,1
Félix não respondeu ; foi buscar a dis
putada gravura e trouxe-lh’a. Luiz Bap
tista não pode reter um grito de sorpresa.
A figura de Bethsabé, dizia elle, parecia
realmente uma copia da sua dama. A dama
era talvez mais formosa do que a copia.
Foi nesse momento que trouxeram ao :ii-|
medico uma carta, entregue pelo correio.
Félix abriu-a distrahidamente, mas tanto
que lhe leu o conteúdo ficou muito pallido
e encostou-se a uma cadeira. Com a mão
tremula approximou o papel dos olhos,
em quanto os dentes mordiam os lábios
até deitar sangue. Luiz Baptista approxi-
mou-se rapidamente de Félix e perguntou-
lhe o que tinha.
— Nada, disse o medico, uma verti
gem apenas... Hade dar-me licença, pre-
cizo estar só.
0 hospede curvou-se, sorriu e saiu.
Félix encerrou-se no seu quarto. Do
que lá se passou ninguém de casa soube:
' f.
220 RESURREIÇÃO
algum rumor se ouvia de quando em
quando, mas abafado, e uma ou outra,
exclamação vaga e solta. Eram quatro ho
ras quando o medico saiu á sala.
^ O tempo tinha melhorado. O sol reapa
recera entre duas nuvens, dando de chapa
nas arvores molhadas de chuva e nos te
lhados que escorriam um resto de agua.
Dissera-se que a natureza queria fazer ou
tro contraste ao inverso do da manhã, por
que, se a tarde sorria alegre, o homem
dava signaes de tempestade interior. Tinha
os olhos vermelhos, a boca contrahida, os
cabellos em desordem. Saiu com passo va-
cilçmte. De quando em quando, colhia o
alento com a expressão de quem lhe custa
respirar. Um escravo, a quem elle deu al
gumas ordens, reparou no estado do se
nhor, e perguntou-lhe se estava doente.
Felix respondeu seccamente que não. O
escravo abanou a cabeça e saiu.
Felix escreveu em seguida uma carta
que sobrescriptou para a viuva. Vestiu-se
depois. Não tardou que lhe parasse um
carro á porta. Metteu-se nelle e mandou
tocar para a cidade.
XXI
='■'.V■
'
U L T IM O G O LPE
M
Era já sobre tarde quando a carta che I.
gou ás mãos da viuva. Vianna descera á
chacara, emquanto a irmã dividia a atten-
ção entre os gracejos do filho e o seupro-
prio pensamento. 0 menino enchia toda a
sala com a sua pessoa; as travessuras delle
não eram enfadonhas. Livia não o contem
plava só com olhos de mãe ; via nelle como
que o elo de ouro entre uma chimera des
feita e uma chimera realisada. Taes eram
as suas reflexões quando a mucama lhe
vein trazer a carta de Felix. Entregou-lh’a
e saiu.
Livia estremeceu; a letra do sobres-
cripto revelava o estado febril da mão que
<-r.
222 RESURREIÇAO
O escrevera. Abriu rapidamente a carta e
leu-a.
Quando Luiz, n’uma das suas voltas, se
chegou á mãe, achou-a com os olhos cra
vados no chão, tremula e pallida* Chamou
por ella, inutilmente. Agarrou-lhe as mãos
e a moça pareceu accordar de um le-
thargo.
— Oue tem, mamãe? perguntou o me
nino affagando-a com voz lacrimosa.
Livia não respondera o principio. A voz
da creanca chamou-a einfim á realidade.
Olhou vagamente á roda da sala, e como
se a pouco e pouco lhe voltasse a cons
ciência, dirigiu lentamente os olhos á
carta fatal. Tinha-a ainda entre as mãos.
Releu-a com anciedade, levantou-se arre
batadamente, deu alguns passos e denovo
se deixou cair na cadeira. 0 menino cor
reu á porta assustado. 0 tio entrava nesse
momento.
— Queé ? disse Vianna vendo o ar assus
tado do menino, e as feições descompos
tas da irmã.
Livia entregou-lhe a carta.
A carta dizia assim:
RESURREIÇAO 223
(( L ivía
(( 0 que vou fazer é indigno, bem o sei;
mas é ainda mais cruel do que indigno. 0
nosso casamento é fatalmente impossivel.
Não tens nenhuma culpa directa nem indi
recta na minha resolução. Físta carta, que
me condemna, será a tua cabal defesa.
Adeus.
(( F elix. »
Quando Vianna acabou de 1er este
extranho e mysteriöse documento, ficou
tao pallido como a irmã. Não comprehen-
di’a nada do que se passava ; indignava-o,
todavia, o procedimento de Felix. Suffocou
a cólera a ver se evitava a explosão da
viuva. Olharam-se ambos silenciosamente
alguns instantes ; o menino tinha-se appro-
.fi
ximado e segurava uma das mãos da mãe,
olhando para o tio como se esperasse delle
alguma explicação.
— Recusa, disse emfim Vianna^ e ne 'ii
nhuma explicação nos dá do seu procedi
mento. 0 acto é tão indigno que não te
deve mortificar; quando um homem dá este
triste documento da sua lealdade, penso
224 RESURREIÇÃO
que a mulher que o ama pode dar graças
a Deus de o não ter acompanhado até o
altar. Espero que penses como eu,..
Vianna não pode acabar. As lagrimas,
tanto tempo sustidas, romperam emfim
dos olhos da viuva, impetuosas eamargas.
A dor, de tão concentrada que fora a prin
cipio, fez-se violenta e explosiva; mas o or
ganismo estava tão abalado por tantas
commoções, que a infeliz moça perdeu os
sentidos.
Quando ella voltou a si era noite; achou-
se no seu proprio leito, tendo ao pé de si
o irmão e um medico. '
0 medico falou-lhe e ella respondeu sem
saber o que dizia nem o que ouvia. A febre
era intensa, mas o medico esperava que no
dia seguinte cedesse á energia do remedio
que lhe ia applicar.
Vianna ficou só com a irmã, e procurou
distrahil-a do successo da tarde, tarefa
inútil porque a viuva não pensava nelle ; o
olhar vago indicava que ainda se não ha
via feito luz no seu espirito. Ás vezes con-
trahia os sobr’olhos e fitava o olhar no
espaço como se estivesse a recordar-se.
RESURREIÇÃO 225
N’uma dessas vezes volveu os olhos pelo
quarto parecendo procurar alguém. A au
sência de Felix de todo lhe alumiou o espi N
rito.
Deu um grito abafado e desatou a cho !'
rar. »
Accorreuo irmão, com palavras de bran-
dura e conselho, dizendo-lhe que nem tudo
estava perdido, e que erapossivel remediar
o mal. Livia não prestava fé a essas vans
consolações ; estava entregue ao seu deses
pero. Abafada com soluços, lavada em la
grimas, soltava gritos de angustia, e con
vulsivamente se revolvia no leito.
Vianna teve medo desse grave estado e
mandou chamar o medico. Quando este
chegou, já a doente havia socegado ; mas,
com as lagrimas, tinha-se ido a razão. 0
delirio durou toda a noite e parte da manhã
seguinte. De tarde a febre declinou um
pouco e a doente adormeceu.
Só no dia seguinte, quando o abatimento
veiu substituir a exaltação, pode a moça
reflectir no recente infortúnio. Debalde
perguntava a si mesma a causa daquelle
súbito rompimento do noivo ; nada lh'o
13.
RESURREIÇÃO
explicava. Algum mysterio haveria, alguma
razão apparentemente legitima, porque á
viuva nada lhe dizia o coração que fosse
contrario á lealdade de Felix.
Contou-lhe o irmão que havia ido á casa
do medico, e não o encontrara, nem lá
lhe quizeram dizer para onde fora. Agora,
depois de maduro exame, pensava em ir
pedir-lhe uma explicação do procedimento.
Livia desapprovou-lhe a resolução.
— Mas, disse Vianna, não podemos
ficar assim...
— Podemos, interrompeu a viuva ; em
quanto estou doente a explicação será na
tural para os outros. Quando me levantar
da cama direi que eu mesma desfiz o casa
mento. Achaste-me sempre singular; é
provável que os outros me vejam com
eguaes olhos ; e tudo se explicará do me
lhor maneira.
— Mas a explicação delle...
— A explicação delle não ó precisa*
Rachel, apenas soube da doença de Li
via, foi passar alguns dias com ella. Na-
quellas circumstancias o encontro de am
bas foi profundamente triste. A viuva ilão
RESURREIÇÃO 227
lhe confiou logo a causa verdadeira da sua
t;
enfermidade, mas durou pouco a reserva,
porque a ausência de Félix fez impressão
na moça, e Livia julgou melhor dizer-lhe ;.
tudo. Era a segunda vez que ambas acha líi
i!
vam no seio uma da outra, não a conso Vt
lação, que não a ha para as desillusões
recentes, mas o adormecimento momen
tâneo de coração.
Livia entrou a convalecer do abalo que
lhe dera a fatal carta. Rachel tornara-se
enfermeira dedicada e continuou a ser o :t ;■
que sempre fora, amiga affectuosa. A
viuva não acreditava na realidade do seu
restabelecimento. Em sua opinião, era uma
apparencia que a realidade desfaria em
pouco tempo.
Dez dias depoisdo rompimento de Félix,
appareceu Menezes nas Laranjeiras. Tinha
ouvido algumas perguntas relativas ao
casamento do medico, que sabia não se ter «
effectuado, sem que até então transpirasse
a causa verdadeira. Soube, porém, damo- ■ ' ‘
lestia de Livia, e a isso attribuiu a demora
do casamento.
A moça abafou um suspiro quando o viu
22^ HESURREIÇÃO
entrar. Não era arrependimento; era tal
vez lastima de si propria, que não pudera
acceitar esse coração mais confiante e me
nos escabroso que o do outro.
Mas se era já impossivel uma alliança
que a natureza não aconselhára, ainda que
o pedira a razão, vinha de molde o amigo
a quem confiaria os seus infortúnios. Esse
foi o primeiro impulso ; o segundo foi, não
de orgulho, mas de pudor. 0 coração teve
pejo de ir confessar o seu erro diante da-
quelle mesmo a quem rapellira um dia.
Era difficil que semelhante situação se
escondesse aos olhos de Menezes. A au
sência do noivo era inexplicável; Menezes
suspeitou a verdade e Rachel lh’a confir
mou. 0 fim com que a donzella delatou o
segredo confiado foi ainda um sacrifício;
pediu a intervenção de Menezes para a
reconciliação do medico com a viuva.
— Peço-lhe uma cousa difficil, concluiu
ella alludindo pela primeira vez ao amor
de Menezes, mas é uma boa acção.
— E uma boa acção, e não é difficil,
replicou Menezes olhando para ella fixa-
mente para ella.
H
resu r r eiçã o 229
Rachel abaixou severamente os olhos.
Um expectador attento concluiria, talvez,
que a ferida delle não estava longe de cica
trisai’, mas que, pelo contrario, a delia
continuava a deitar sangue.
Menezes dispoz-se a tentar alguma cousa.
Reconhecia que o procedimento de Felix
era mysteriöse ; mas não desesperou de
lhe descubrir a causa e confiava em que
poderia removel-a. Conseguiu saber que
o medico se refugiara na Tijuca. Quando
estava prompte a ir ter com elle, hesitou, t
refletiu e recuou da primeira resolução.
Foi preciso que uma nova crise o empu
xasse para lá. Â viuva recahíra enferma,
não tendo podido resistir ás longas vigí
lias e mal dormidas noites. A moléstia 11
desta vez trouxe um caracter menos vio
lento que da primeira vez, mas pertinaz ;
a febre não era intensa, era constante.
0 medico assistente não achou que hou
vesse perigo *, recomendou o mais desve
lado tratamento, e repouso absoluto de
espirito.
Menezes não hesitou ; partiu para a li-
juca.
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XXII
ii'
K
A CARTA
.Il «■
Quando Menezes chegou á Tijuca eram
quatro horas da tarde. A casa de Félix li.
ii
ficava affastada do caminho. 0 portão es
tava aberto ; Menezes atravessou rapida
mente o espaço que ia da esb’ada a casa e
bateu. Veiu um moleque abrir-lhe a porta.
Menezes entrou precipitadamente e pei-
guntou ;
— Onde está o senhor?
_ Senhor não fala a ninguém, respon
l-'i deu o moleque com a mão na chave como
i:
se o convidasse a sair.
f _pla de falar commigo, insistiu resolu
tamente Menezes.
O t o m decidido do rapaz abalou o escra-
vo, cujo espirito, costumado àobediencia,
não sabia quasi distinguil-a do dever. Se
guiram ambos por um corredor, cbega-
1am diante de outra poz'ta, e abi o moleque,
antes de a abrir, recommendou a Menezes’
que esperasse fora. Perdida recommenda-
ção, porque, apenas o moleque abriu a
porta, Menezes entrou aífoutamente atraz
delle.
Era um gabinete pequeno com quatro
janellas que o encbiam de luz. Perto de
uma janella havia uma rede estendida.
Sobre a rede via-se um homem negligen
temente deitado com um livro nas mãos.
Era Félix.
Félix levantou a cabeça, deu com os
olhos em Menezes, e empallideceu. Me
nezes não dera um passo mais. Ficaram
assim alguns segundos a olhar um para o
outro. Enfim, o medico disse ao escravo
que se retirasse, e os dous ficaram sós.
0 silencio prolongou-se ainda mais. Da
parte de Félix era confusão ; da parte de
Menezes desappontamento. Viep^ elle em
todo o caminho a descrever na imagina
ção o estado de Félix, acabrunhado por
r esu r r eiçã o 233
'ti
alguma grande dor, e em vez disso acha
va-o a 1er pacificamente um livro. Quiz
lançar mâo do livro, para conhecer bem
até que ponto a sua desillusão era com-
•pleta ; mas o medico rapidamente o affas-
tou. :»
— Não attendeste á ordem geral que eu
havia dado, disse emfim o dono da casa,
e creio que só alguma razão poderosa te
obrigaria, a isso.
_A.SS1IÏ1 ora, r 6 torc[uiu Menozos, mas iíl
a razão acabou e eu volto para a cidade.
Dizendo isto, poz o chapéu na cabeça e
dirigiu-se para a porta. Parouuminstante,
caminhou de novo até a rede e profeiiu
seceamente estas palavras :
— Tens consciência do que fizeste?
_Tenho, respondeu Félix; fiz o que
3
me cumpria fazer. Mas, antes de mais
nada, vens aqui por inspiração tua ou por
mandado de...
_Venho porque era um dever da minha
i i
parte livrar-te da vergonha, e a ella da
morte. o
_Da morte ! exclamou Félix levantan
do-se de um pulo.
RESURREIÇÃO
0 terror que se lhe pintára no rosto fez
boa impressão no amigo. Suspeitou este
que nem tudo estivesse perdido. Senta
ram-se ambos, e Menezes referiu ao me
dico os acontecimentos que deixo narra
dos no capitulo anterior. Felix escutou a
narração do amigo com um interesse que
não podia vir senão do amor. Menezes
concluiu pintando-lhe com as cores que o
caso pedia a baixeza do seu procedimento,
o desaire que recaía sobre a viuva, e o
remorso que o havia de accompanhara elle,
ainda quando daquelle triste episodio não
saisse nenhuma fatal consequência.
Felix mostrou-se profundamente com-
movido com a narração de Menezes e as
reflexões que lhe fizera.
— Tens razão, disse elle quando o amigo
acabou de falar; procedi covardemente.
Ella ainda me ama... E perdoa-me, não é?
Sim, hade perdoar-me... Pobre Livia! Se
tu soubesses como ella tem soffrido por
minha causa !__
Menezes, satisfeito, disse-lhe que era
indispensável voltar á cidade. Emquanto
falava, porém, o rosto de Felix mudou de
r e su r r e iç ã o 235
expressão. A unica resposta do medico foi:
__ i^^ão ! o cjue está feito, está feito ,
agora é impossivel recuai.
_Impossivel ! gritou Menezes.
• _Impossivel, repetiu placidamente Fe-
lix.
Menezes levantou-se impaciente e co
meçou a passear. A serenidade do medico
mais lhe doía do que indignava, porque al
guma razão poderosa devia elle ter para , f o
cortar tão peremptoriamente toda a tenta
tiva de reconciliação. Quizera sabel-a e
tremia de o interrooar.
0 medico, entretanto, deixara-se estar
sentado, quasi tão tranquillo como na oc-
casião em que Menezes Ine entrára no ga-
binete.
Não era fingida essa tranquillidade,
que durava já de alguns dias, depois de H
outros, — os primeiros, — que foram de
afflictiva tempestade.
0 homem não se esconde de si mesmo
e~o^maior infortúnio dos corações pusilâ
nimes é sentirem que o são. Quando Fehx ;“iF
chegou á Tijuca tinha passado a excitação i1tS
do primeiro momento ; o espirito, fraco de
RESURREIÇÃO
si, e abatido pela immensidade do abalo,
não achou na solidão o allivio que lhe pe
dira. Vieram então muitos dias de luta e
de febre, em que elle, para fortalecer o
animo, lia e relia a mysteriosa carta que*
trouxera consigo. 0 remedio era antes ve
neno para a sua alma ulcerada ; lembrava-
lhe a felicidade que perdera.
Era isto o que padecia o coração. A cons
ciência padecia também, porque a socie
dade, que elle não vira no primeiro ins
tante, agora lhe apparecia como um juiz
inflexivel, a pedir-lhe conta de uma injuria
sem explicação. Ás vezes arrependia-se do
acto; outras vezes, não se arrependia, mas
accusava-se de precipitado e louco. Nunca
mais tristemente se revelara a inconsis
tência do espirito.
Com o tempo a consciência foi calando
as vozes, e com o tempo, e a distancia, ea
sua Índole variavel, se lhe foi aquietando
o coração. Aquelle homem, que alguns
dias antes chorava de desespero, nenhum
I;
vestigio guardara de suas lagrimas. Não
se lhe apagara o amor da viuva, mas no
logar da paixão vehemente, como que ficara
RESURREIÇÃO 237
apenas uma recordação remota e suave.
Esta mudança era em parte obra do seu
esforço, que buscava no esquecimento um
«efugio ; mas em grande parte era um ef-
feito natural delle.
Tal foi a situação em que o achou Me
nezes. A presença d’este trouxe á memó
ria do medico a ultima crise do coração. A i
impressão foi grande, não longa; a face
do lago, que uma rajada encrespara, vol-
tau á serenidade primitiva.
Menezes passeava de um lado para ou
tro, a observar de quando em quando o
medico. Ao seu espirito repugnava a ideia
de que Felix recorresse a um meio extraor
dinário para sair de uma situação difíicil,
não sanccionada pelo coração. Uma causa
havia, decerto, que se lhe afigurava grave,
e que elle a todo custo queria conhecer.
Seus esforços convergiram para esseponto. r ,
Instado pelo amigo. Felix alludiu acarta
que recebera, mas recusou mostral-a.
— Ha n ’ella um segredo, disse elle, que
me impede de a communicar a ninguém.
Livia tem jus ao meu respeito e possue
ainda o meu amor.
238 RESURREIÇÃO
Estas ultimas palavras foram ditas com
certa commoção. Menezes não perdeu a
t'!
esperança de o vencer. A sinceridade era
a sua eloquência ; podia-se dizer que elle
falava com o coração nas mãos. O espirito
de Felix ia cedendo ao encanto ; elle mesmo
recordava as horas felizes do passado e as
saudosas esperanças do futuro. O coração
palpitou-lhe com mais força e a imagina
ção fez o resto. À carta, porém, a fatal
carta lhe occupou logo o pensamento, e a
fronte descaiu diante do insuperável ob
stáculo.
Cançado de lutar, Menezes resolveu par
tir para a cidade.
— Não sei o que pensarão os outros,
disse elle ; eu levo a suspeita de que não
lr< a amaste nunca, e que esse rompimento
estrepitoso foi um meio de salvar a tua
liberdade.
Ouvindo estas palavras, Felix não pôde
conter um gesto de cólera. A attitude
quieta de Menezes o fez cair em si.
— Tens razão, disse elle depois de
algum tempo. Quero que pelo menos al
guém me reconheca innocente e digno.
RESURREIÇÃO 239
Dás-me a tua palavra de honra que nada
revelarás do que vas ler?
— Dou.
, Felix foi buscar a carteira, tirou delia a f■
carta, e entregou-a a Menezes.
Menezes leu o que se segue:
v( Misero moço! Es amado como era o
outro; seras humilhado como eAle. No fim
de alguns mezes teras um Cyreneo para te .0;
ajudar a carregar a cruz, como teve o ow-
fro, por cuja razão se foi desta para a me
lhor. Se ainda é tempo, recüa 1 »
A carta não tinha assignatura.
Menezes ficou attonito; mas foi obra de
alguns instantes, poucos. Sua indole gene
rosa repellia a ideia de acreditar na reve
lação que acabava de ler.
— É impossivel 1disse elle.
Felix ergueu a cabeça, que apertava
entre as mãos, e replicou:
— Essa é a tua convicção ; eu quizera
que fosse a minha. Mas que testemunho
tens tu contra o que ahivês escripto?
— Não sei, respondeu Menezes com
calor, mas é o que me diz o coração. Re ; *1
pugna-me crer que essa pobre senhora...
■n
240 RESURREIÇAO
— Não, é impossível! Demais, uma carta
anonyma!
— Põe o nome quizeres ahi embaixo
não lhe augmentas nem lhe tiras o valor, ^
se a revelação é verdadeira.
— Quem te diz que é verdadeira?
— Quem me diz que o não é? A duvida
era já bastante para justificar o que fiz.
Não foi só o receio do futuro que me im-
pelliu, foi principalmente a lembrança do
passado. A traição delia, se a houve, não
deve doer nada ao marido que se foi; mas
ao marido que vem, a ideia da perfídia
anterior, destroe pela base toda a con
fiança, que é a condição da felicidade. Não
sei o que farias tu no meu caso; eu segui
o impulso do coração e da razão.
Menezes ouvira attentamente o amigo.
Ouando elle acabou:
— Creio-te sincero, disse; e com-
prehendo que soffreste.
— Muito !
— Mas recusarás uma reflexão? Quem
escrevería esta carta? Não foi um amigo,
de certo. Um amigo, se lhe pezasse o teu
acto, viria falar-tecara a cara. Um indiffe-
rente também não foi. Resta, pois, um
inimigo, teu ou delia...
— Delia ?
— Ou um interessado : escolhe.
Felix reflectiu um instante.
— Inimigo, não sei se os tinha ; interes
sado... em que ?
— Ella é rica ; algum pretendente...
— Não havia nenhum.
Menezes não fraqueou na defeza da sua
hypothèse. Quanto mais attentava na reve
lação da carta, mais o coração lhe bradava
contra ella. Para elle a innocencia deLivia
era clara como o sol. Felix sentia-lhe a
convicção, e lastimava-se de a não ter, tão
viva e tão profunda.
A noite caíra de todo. Menezes declarou
que só voltaria á cidade no dia seguinte.
Felix comprehendeu que o amigo não
perdera a esperança de o converter, é
longe de se irritar agradeceu-lhe a inten
ção. Era a primeira vez que elle se expan
dia com alguém a respeito do seu amor ;
fel-o com abundancia e sinceridade. Não
lhe lembrara sequer que Menezes também
amara a viuva.
MACHADO DE ASSIS — fíesu r r e içü o 14
242 RESURREIÇÃO
Muitas vezes falaram a carta. Menezes
perguntou ao medico em que circumstan-
cias a recebêra. Felix referiu a visita de
Luiz Baptista, o objecto delia, a conversa
travada entre ambos, até que a carta Ihê
chegou ás mãos.
A singularidade da visita de Luiz Bap
tista não escapou a Menezes.
— Visitava-te esse homem? perguntou
elle.
— Nunca.
— Eras amigo delle?
— Havia mais razões para sermos ini
migos que outra cousa.
Menezes hesitou ; não se atrevia a des-
posar uma suspeita. Mas o espirito do me
dico era terreno fecundo para ella. Ape
nas as perguntas de Menezes lhe deitaram
o germen, para logo foi lançando raizes e
cresceu.
— Crês então que elle?... aventurou o
medico.
— Não sei; mas, não te parece curiosa
toda essa historia de gravuras?
Feliz reílectiu algum tempo. Como
quando os olhos se vão acostumando á
meia luz de um sitio, e começam a distin
guir a pouco e pouco os objectos, o espi
rito do medico entrou a recordar e a exa
minar todos os incidentes daquella fatal
manhã. 0 que elle a principio não vira,
appareceu-lhe então claro e evidente. 0
tom ameno e jovial de Luiz Baptista, a sua
extranha verbosidade, o episodio dos i i.
amores tão levemente contados a um ho
mem que não era seu natural confidente,
tudo isto com a circunstancia da humilha
ção que recebera quando a viuva lhe fechou
a sua sala, emfim a má reputação delle,
eram indícios de sobejo para não achar
natural a visita que lhe fizera. Mas, como
deduzir daqui a autoria da carta?
Menezes resolveu a duvida natural
mente.
— Se não desses credito á carta, disse
elle, o ultimo de quem te lembrarias seria
Luiz Baptista, por que ninguém faz mal a
um homem no mesmo instante em que lhe
vae pedir um favor.
Félix acceitou esta explicação; mas o
que acabou de o convencer foi uma cir-
cumstancia até então deslembrada eagora
: li
i "
244 RESURREIÇAO
decisiva. 0 medico levantou-se rapida
mente da cadeira; deu alguns passos na
sala e parou em frente de Menezes.
— E verdade, disse; foi elle com cer
teza ! Quando eu li a carta fiquei fulminado. ’
Elle approximou-se de mim; eu pedi-lhe
que me deixasse só. Obedeceu, mas um
sorriso, que então me pareceu feroz in-
differença, mas que hoje vejo que era de
triumpho, lhe roçou os lábios. Foi elle;
oh ! sinto que foi elle!
Entendamo-nos, leitor ; eu, que te estou
contando esta historia, posso affirmar-te
que a carta era effectivamente de Luiz Bap-
tista.A convicção porém do medico,— sin
cera, de certo, — era menos solida e pau
sada do que convinha. A alma delle deixa
va-se ir ao sabor de uma desconfiança nova,
que as circumstancias favoreciam e justi
ficavam.
Quando Menezes viu que o maior tra
balho estava feito, não teve mais que falar
outra vez de Livia. A placidez do medico
desapparecêra ; todo elle era agora amor
e odio, arrependimento e vingança. A noite
foi mal dormida, e quando a aurora os
RESURREIÇAO 245
convidou a sair do leito, Felix era total
mente outro. Ardia por ir fazer aos pés da i j
viuva plena confissão da sua indignidade.
Era o nome que lhe dava; dar-lhe-hia ou ^IM
tro, se os acontecimentos o fizessem duvi ??
dar outra vez. ii!
■ Apressaram a viagem ; Menezes estava
alegre com o resultado da missão; lamen
tou com o medico a fatalidade do caso,
mas estava certo de que tudo ia acabar
como devia. Mil ideias cor de rosa en
chiam o cerebro de Felix, e ambos desce
ram rapidamente na direcção da cidade.
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TJUe-sär*^'
XXI II
ADEUS
Apenas chegaram á cidade, Felix des
pediu-se de Menezes e seguiu para as La
ranjeiras. Ia palpitante e receioso ; pela
primeira vez nesse dia lhe lembrou a do
ença da viuva. Temeu que fosse tarde.
Não era; as janellas estavam abertas.
Entrou no jardim; subiu as escadas, ca
bisbaixo ; quando levantou os olhos viu
Rachel diante de si.
Rachel^ cujo coração era menos philo-
sophico, posto soubesse resignar-se como
o de Menezes, não viu o medico sem al
gum abalo interior. Fel-o entrar e foi ter
com a enferma.
Quando Livia soube que Felix alli es-
ta va, sorriu tristemente e fechou os olhos.
Abriu-os para contemplar a boa amiga que
esperava ao pé do leito. Não estavam
molhados. Cobria-os um veu de serena
melancolia.
— Agradece-lhe por mim, Rachel, e
dize-lhe que me verá quando eu puder sair
daqui.
Felix recebeu o recado e sentiu a frieza
delle, apezar da doçura da voz que lh’o
transmittia. Era muito comtudo; não es
taria longe a reconciliação.
A convalecença de Livia foi maisrapida
do que se devera esperar. 0 intervallo foi
aproveitado por Felix em se reconciliar
com Vianna, que achou dentro de si
bastante misericórdia para perdoar o cul
pado. A submissão do medico o lisonjeou,
e o seu arrependimento lhe pareceu o que
realmente era,— sincero. Era natural per
guntar-lhe a razão do rompimento. Vianna
achou melhor calar-se; o que elle queria
antes de tudo era a reparação do erro.
Livia consentiu fmalmente em receber
o medico. Estava na sala, envolvida n'um
roupão branco, com um resto de'pallidez
I. ,
RESURREIÇÃO 249 'f:
que a enfermidade lhe deixara no rosto.
(>
Nas circumstancias em que ambos se tor
navam a ver não podia ella estar melhor.
0 ar da moça não era risonho, mas tam
bém não era severo. Felix caminhou len
tamente para ella, timido e fascinado ao
mesmo tempo. De novo sentia o império
que a viuva sempre exercêra em seu espi
rito.
Quando Felix confessou á viuva todo o
seu arrependimento e lhe implorou o per
dão da culpa que commettêra, escutou-o
Livia com grande serenidade, e affectuosa M.
lhe respondeu:
— Não lhe nego o perdão que m epede;
seria duvidar do seu arrependimento, e eu
creio que é sincero. Podia talvez exigir
que me dissesse a causa que o levou...
— A causa é triste de confessar, inter
rompeu Felix.
— Não lh’a ' peço. Mas quer ouvir o
resto? f•
Felix curvou a cabeça.
— Creio no seu arrependimento, e não
duvido do seu amor, apesar de tudo o que ii|
se ha passado. Isto lhe deve bastar. 0 des-
'I.í
250 RESURREIÇAO
tino OU a natureza não nos fez um para o
outro. 0 casamento entre nós seria uma
ceremonia apenas. Seria m ais; seria o
nosso infortúnio, e mais vale sonhar com
a felicidade que poderiamos ter do que*
chorar aquella que houvéssemos perdido.
Felix ouviu as palavras da moça cabis
baixo e abatido. Não ousava responder-
lhe, nem interrogal-a; mas do seu mesmo
silencio colhia a moca a sinceridade da dor
o
e do arrependimento.
— Se isto lhe doe, continuou ella, vê
bem que a culpa não é minha. Eu aceito
uma situação não creada por mim, nem
também pelo senhor, mas, — como eu
lhe dizia, — pela natureza ou pelo destino.
No ponto a que chegámos é ésta a resolu
ção melhor.
— Não é, interrompeu Felix com impe
tuosidade, não é a melhor porque ambos
perderemos com ella, e nada nos impede
a resolução contraria. Creio que não du
vide do meu amor; mas digo-lhe que o
não comprehende, nem avalia. Eu não teria
animo de lhe propor nas circumstancias
emquenosachamos, um rompimento que...
RESURREIÇÃO 251 li
O sorriso com que a moça o ouvia cor
tou-lhe a palavra neste ponto. Caiu em si, 'i j
u
lembrou-lhe, — que elle facilmente esque
cia tudo, —lembrou-lhe que lhe não cabia
íl
falar de rompimento, e murmurou :
-— Não tenho direito de falar assim, e M
vejo que mereço um castigo...
— Nãoé castigo, atalhou a viuva, é ne
cessidade. Se alguma consolação pode
levar desta ultima entrevista, leve a cer
teza de que o amo como d'antes, e de que
o meu padecimento será ainda maior do que
o seu. 0 casamento é já agora impossivel.
Eu não sei o que motivou a sua carta, mas
imagino que foi alguma duvida nova a
meu respeito. Se nos casássemos, cessa
riam ellas?
— Sim ! por que eu hoje creio e vejo o í)
que padeceu por mim. Para duvidar do
seu amor seria preciso que houvesse per !(
dido a razão. Demais, continuou Félix
emquanto Livia abanava tristemente a ca
beça, —- viveremos só para nós, fechare
mos a nossa casa aos olhos extranhos...
— Ainda assim o irá perseguir esse mau
genio, Félix; seu espirito engendrará nu- I (
n
252 RESURREIÇÃO
vens para que o ceu não seja limpo de
todo. As duvidas o acompanharão onde
quer que nos achemos, por que ellas mo
ram eternamente no seu coração. Acredite o
que lhe digo; amemo-nos de longe ; seja- *
mos um para o outro como um traço lumi
noso do passado, que atravesse indelevel
o tempo, e nos doure e aqueça os nevoei
ros da velhice.
Livia proferiu estas ultimas palavras
com a voz tremula, e uma lagrima lhe ro
lou pela face pallida.
— Porque nos separaremos agora que
estamos á porta do ceu ? perguntou Felix.
Não me cabe o direito de exigir uma feli
cidade que repelli tantas vezes ; mas, se
pudesse entrar na minha alma veria que
os meus erros, por maiores que sejam, e
são grandes, anima-os sempre um senti
mento de amor, e que emíim eu cedo
sempre ao grito de minha consciência. A
mais bella acção seria perdoar-me esque
cendo, e o unico modo de esquecer seríà
voltarmos ao tempo de nossas esperanças.
— Perdoei tudo, e tudo esqueci; apagou-
se o passado e nenhum resentimento me
RESURREIÇAO 253
ficou. 0 que se não apaga é o futuro.
Félix torcia as mãos. Era patente o seu
desespero. A viuva mal podia encaral-o.
Seguiu-se um longo silencio, interrom
pido pela chegada de Luiz. 0 menino poz
termo á entrevista. Félix olhou ainda
algum tempo para a moça ; mas leu-lhe na t fà
physionomia que a resolução era inabala-
vel. Levantou-se para sair.
— Conservaremos a estima reciproca,
disse Livia entendendo-lhe a mão, e espero
que me conserve também alguma cousa th
mais... como eu.
%
Eram as ultimas palavras da moça, vie 'iiÍTl
ram entercortadas de soluços. Feliz quiz
pegar-lhe nas mãos e aproveitar esse pas
sageiro desmaio para conseguir a retrata
ção das palavras. Mas a moça abraçou-
se ao filho em cujo seio escondeu o rosto.
— Não faça chorar mamãe, disse Luiz ' 11
enlaçando com os bracinhos o pescoço da
viuva.
Felix retirou-se lentamente, com os olhos
annuviados, turvo o espirito, o passo vacil
lante, e transpoz a custo a soleira daquella
porta que se lhe ia fechar para sempre.
MACHADO DE ASSIS — Resuppeiçao 15
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XXIV
HOJE -■ÍP
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i.
.11
Dez annos volveram sobre os aconteci
mentos deste livro, longos e enfastiados
para uns, ligeiros e felizes para outros, ..ti ? I
que é a lei uniforme desta mofina socie
dade humana.
Ligeiros e íelizes foram elles para Ra
chel e Menezes, que eu tenho a honra de
apresentar ao leitor, casados, e amantes
ainda hoje. A piedade os uniu ; a união os
fez amados e venturosos. T
A pouco e pouco, o primeiro amor de Ra ji'í
chel se foi apagando, e o coração da moça !4
não achou melhor convalescença quedespo-
sar o enfermeiro. Se lh’o dissessem no
L^, .
256 RESURREIÇÃO
tempo em que el la adoecera por amor do me
dico, levantaria desdenhosamente os hom-
hros, e com razão. Donde se colhe quão
acertado é aquelle provérbio oriental que
diz — que a noite vem pejada no dia se
guinte. Qual fosse a aurora que a sua noite
trazia no seio não o advinhára Rachel, mas
a sua actual opinião é que não a podia
haver mais bella em toda a escala do
tempo.
0 coronel e D. Mathilde, com [Link]
mezes de intervallo, foram continuar na
eternidade a doce união que os distinguira
'i- ,i ' neste mundo.
Livia entra serenamente pelo outono da
vida. Não esqueceu até hoje o escolhido
de seu coração, e á proporção que volvem
os annos, espiritualisaesanctifica a memó
c
ria do passado. Os erros de Felix estão
esquecidos ; o traço luminoso, de que ella
lhe falara na ultima entrevista, foi só o que
lhe ficou.
No tempo em que os mosteiros anda
vam nos romances, — como refugio dos
heroes, pelos menos, — a viuva acabaria
os seus dias no claustro. A solidão dacella
4!!
RESURREIÇÃO 257
seria o remate natural da vida, e como a
olhos profanos não seria dado devassar o N
sagrado recinto, lá a deixaríamos sozinha
e quieta, aprendendo a amar a Deus e a
esquecer os homens.
Mas o romance é secular, e os heroes
que precisam de solidão são obrigados a
buscal-a no meio do tumulto. Livia soube
isolar-se na sociedade. Ninguém mais a
viu no theatro, na rua, ou em reuniões.
Suas visitas são poucas e intimas. Dos que
a conheceram outr’ora, muitos a esquece í •'
ram mais tarde; alguns a desconheceriam
agora.
Talvez o tempo lhe respeitasse a bel-
leza, a não ser a catastrophe que lhe enlu
tou a vida. .Já na meiga e serena physio-
nomia vão apontando signaes de decadên
cia próxima. Os poucos que lhe frequentam
a casa não reparam n’isso, por que a alma
não perdeu o encanto, e é ainda hoje a
mesma feiticeira amavel de outro tempo.
Ella, sim, ella vê que a flor inclina o collo,
íí
e que não tarda o vento da noite a disper-
sal-a no chão. Mas do mesmo modo que a :t
belleza lhe não acordara vaidades, assim
258 RESURREIÇÃO
a decadência lhe não inspira terror.
Para consolo e companhia de sua velhice
tem ella o filho, em cuja educação concen
tra todos os esforços. Luiz possue as gra
ças da mãe, apenas modificadas por uns
toques varonis. Tem só quinze annos ; mas
como herdou a indole austera da viuva, e
pouco, muito pouco, da viveza de imagina
ção, parece menos um adolescente que
um homem.
Félix é que não iria parar ao claustro. A
dolorosa impressão dos acontecimentos a
que o leitor assistiu, se profundamente o
abateu, rapidamente selheapagou. Oamor
. I
extinguiu-se como lampada a que faltou
oleo. Era a convivência da moça que lhe
nutria a chamma. Quando ella desappare-
ceu, a chamma exhausta expirou.
Não foi só isto. A‘sagacidade de Livia adi
vinhara as provações que lhe daria o casa
mento. Quando de todo se lhe calou o co
; <íi f ração, Félix confessou ingenuamente a si
proprio que o desenlace de seus amores,
por mais que o mortificasse outr’ora, foi
ainda assim a solução mais razoavel. 0
amor do medico teve duvidas posthumas.
■^1
H
RESURREIÇÃO 259
A veracidade da carta que impedira o casa N
mento, com o andar dos annos, não só lhe
pareceu possivel, mas até provável. Me
nezes disse-lhe um dia ter a prova cabal
de que Luiz Baptista fora o auctor da carta ;
Felix não recusou o testemunho nem lhe
pediu a prova. 0 que elle interiormente
pensava era que, supprimida a vilania de
Luiz Baptista, não estava excluida a vero-
semelhança do facto, e bastava ella para lhe
dar razão.
A vida solitaria e austera da viuva não AP.
pôde evitar o espirito suspeitoso de Felix.
Creu nella a principio. Algum tempo de h
pois duvidou de ‘que fosse puramente um
refugio; acreditou que seria antes uma
dissimulação.
o
Dispondo de todos os meios que o po
diam fazer venturoso, segundo a socie-,
dade, Felix é essencialmente infeliz. A na
tureza o poz nessa classe de homens pusi
lânimes e visionários, a quem c^be a
reflexão de poeta : « perdem o bem pelo Vr
receio de o buscar. » Não se contentando
com a felicidade exterior que o rodea, jííí
quer haver essa outra das affeições inti-
260 RESÜRREIÇÃO
mas, duráveis e consoladoras. Não a ha
de alcançar nunca, porque o seu coração,
se resurgiu por alguns dias, esqueceu na
sepultura o sentimento da confiança e
memoria das illusões.
FIM
INDICE
^ D V E R T E N C IA DA N O VA E D IÇ A O............................ 3
I. — No dia de anno b o m ................................ 7
II. — Liquidação do anno vellio....................... 9
III. — Ao som da valsa.................................... 29
IV. — Prelúdio.................................................. 47
V. — Fico........................................................... 57
VI. — Declaração............................................. 69
VII. — O gavião e a pom ba........................... 77
VIII. — Q uéda.................................................. 87
IX. — L u t a ...................................................... 95
X. — A enferma...................................................... 111
XI. — O p a ssa d o ...................................................121
XII. — Um ponto negro.......................................... 133
XII. — Crise............................................................143
XIV. ~ Ou capitulo do a c a s o ............................ 151
XV. — Enfant te rrib le ........................... • • 161
XVI. — Rachel....................................................... 169
XVII. — Sacrifício.................................................. 183
XVIII. — Renovação.............................................. 193
XIX. — A porta do c e u ........................................ 201
XX. — Uma voz m ysteriosa.................................211
XXL — Ultimo g o l p e ......................................... 221
XXII. — A c a r t a ................................................... 231
XXIIÍ. — Adeus...................................................... 247
XXIV. — H o je ....................................................... 255
21-1-05 — Typ. H. Garnier, Paris.
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