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Antropologia da Alimentação no Brasil

O documento discute a visão antropológica do alimento, desde os antepassados do homem até os dias atuais. A professora Rozane destaca como a alimentação se tornou um comportamento cultural e analisa os movimentos Fast Food, Slow Food e Comfort Food. Ela defende que a alimentação deve ser tratada como um fato social e cultural, não apenas fisiológico.

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Antropologia da Alimentação no Brasil

O documento discute a visão antropológica do alimento, desde os antepassados do homem até os dias atuais. A professora Rozane destaca como a alimentação se tornou um comportamento cultural e analisa os movimentos Fast Food, Slow Food e Comfort Food. Ela defende que a alimentação deve ser tratada como um fato social e cultural, não apenas fisiológico.

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TEXTO COMPLEMENTAR

Disciplina: Antropologia da Alimentação


Professora: Nathalia Scrafide

VISÃO ANTROPOLÓGICA DO ALIMENTO

As pessoas estão, cada vez mais, consumindo alimentos não saudáveis. O


alimento, que deveria ser a ferramenta para a busca de qualidade de vida,
transforma-se no vilão da obesidade atualmente. Visando resgatar alguns
conceitos sobre o alimento, quando este passou a receber atenção da ciência de
Nutrição, a revista do CRN-2 conversou com a nutricionista Rozane Marcia Triches,
CRN-2 4247, que ministra a disciplina de Antropologia da Alimentação no curso de
Nutrição da Unipampa. Ela falou sobre a trajetória da ciência da Nutrição desde os
antepassados do homem – que possuíam mecanismos para permitir a incorporação
de alimentos novos e, ao mesmo tempo, tentar diminuir os riscos dos
desconhecidos –, passando pela Grécia Antiga, onde estudiosos já observavam os
hábitos alimentares, e pela era químico-analítica, entre 1750 e 1900, até os dias
atuais. Rozane ressaltou as teorias nutricionais de Halbwachs (1912), que
indicavam que a mecânica digestiva estava sob a dependência das “disposições
mentais”, resultantes dos hábitos, da imaginação, do meio, das crenças e
preconceitos relativos à excelência ou ao bom gosto dos alimentos”. A professora
também destacou a utilização do fogo pelo homem, uma vez que, conforme
mencionado por Levi-Strauss (1968), a diferença entre o cru e o cozido foi um
processo determinante da emergência da humanidade. “Este simples feito faz da
alimentação de uma sociedade um comportamento cultural”. Rozane analisa,
ainda, os movimentos Fast, Slow e Comfort Food.

CRN-2 – O aumento da obesidade tem alguma relação com o homem antigo?


Rozane – Poderíamos dizer que tendemos a responder ao alimento e à atividade
física como se vivêssemos em um mundo com escassez de alimentos e com
exigência de altos níveis de atividade física. No entanto, atualmente, verificamos
um cenário oposto, com uma grande disponibilidade de alimentos com alta
densidade energética e modos de vida cada vez mais sedentários. Somados os
elementos evolutivos, ambientais, sociais e culturais, não é de estranhar que o
problema de sobrepeso tenha adquirido grande destaque em nossa sociedade
contemporânea.

Quais são os fenômenos socioculturais que integram a atividade biológica da


alimentação? Qual é sua relação com a Nutrição?
Comer envolve seleção, escolhas, ocasiões e rituais, está envolvido com ideias e
significados, com as interpretações de experiências e situações. Para serem
comestíveis, os alimentos precisam ser elegíveis, preferidos, selecionados e
preparados pela culinária, e tudo isso é cultural. Até pouco tempo atrás, a
alimentação era um fato considerado cotidiano, biológico, restrito à esfera privada.
Portanto, para entender um “simples” ato alimentar, é necessário entender também
a cultura, a política, a economia, a sociedade e o ambiente em que ele está
envolvido.

Como está a diversidade alimentar do brasileiro? Quais as vantagens


nutricionais de alimentos regionais?
É difícil falar sobre cozinhas num tempo de globalização e padronização alimentar.
Creio que perdemos muito de nossa diversidade e costumes alimentares
tradicionais. Quanto aos alimentos regionais, não os julgaria apenas pelo ponto de
vista nutricional, mas sim pela sua riqueza cultural. Reduzir o alimento a apenas
seu componente nutricional é tirar a sua dimensão enquanto comida. Por isso,
defendo que, ao invés de tratarmos da alimentação puramente como fato fisiológico
e com objetivo de saúde, devemos começar a tratá-la como um fato social e cultural
em que o simples ato de se alimentar pode ter muitos outros objetivos e efeitos.

Quais os benefícios, então, do consumo de alimentos regionais?


A escolha por produtos regionais, mais frescos, naturais, e, portanto, mais
nutritivos, é também uma opção por um modelo de produção e de abastecimento
que beneficia pequenos agricultores/extrativistas, por exemplo, ao invés das
grandes indústrias alimentares. Acho que, nesse sentido, a busca deve ser não
apenas por uma “alimentação saudável”, mas principalmente por uma “alimentação
adequada” do ponto de vista social e ambiental.

Falando em padronização, como a sociedade aderiu ao Fast Food? Quais as


consequências para a saúde?
A partir do momento em que começa a ocorrer a industrialização, a modernização
e a urbanização, há mudanças drásticas na forma com que nos alimentamos. Aí já
ocorre a primeira consequência, o aumento dos riscos alimentares. Outro efeito é
o consumo exagerado de alimentos com grande densidade calórica e pobres em
nutrientes, além da redução da diversidade alimentar. Todas as campanhas
publicitárias e os investimentos realizados destas indústrias são imensamente
maiores que os investimentos dos governos para incentivar a alimentação
adequada da população. Consequência disso é o que vem sendo demonstrado no
Brasil pelos últimos inquéritos alimentares – aproximadamente 50% dos adultos
estão com sobrepeso, e conjuntamente, todas as doenças correlatas estão em
ascendência. Na contramão do fast, temos o slow food.

Qual a filosofia deste movimento?


É um movimento que promove alimentos bons, limpos e justos. Alimento bom é
entendido como o reflexo de modos de produção e de processamento que tenham
o objetivo de preservar ao máximo a naturalidade deles. Alimento limpo é aquele
produzido sem uso de agrotóxico e processado, preferencialmente, com o mínimo
emprego de aditivos químicos. Alimento justo é aquele que, durante todo o
processo produtivo, oferece condições justas de trabalho para os produtores.
Dessa forma, quanto menos industrializado for, melhor. Atualmente, estes
contramovimentos podem ser percebidos, entre outros, pelo maior afluxo de
pessoas indo às feiras livres, maior consumo de alimentos orgânicos. Outro
exemplo que podemos dar, e que à primeira vista soa estranho, é do próprio Estado
quando promulga uma lei que obriga a utilizar no mínimo 30% dos recursos da
alimentação escolar na compra de produtos da agricultura familiar. O poder público,
desse modo, está praticando o slow food, incentivando o consumo de alimentos
bons, limpos e justos para mais de 47 milhões de alunos no Brasil e favorecendo
milhares de agricultores.

E o comfort food?
O termo “comfort food” ainda não é muito conhecido no Brasil. Está associado ao
conforto emocional, às lembranças boas que determinados alimentos nos trazem e
que nos dão prazer. Muitas vezes, tratamos esses alimentos apenas como
frustrantes das dietas de emagrecimento. Por outro lado, não podemos esquecer o
quanto o conteúdo psicológico e cultural interfere na alimentação e o quanto o
prazer e as boas sensações devem ser mantidos, principalmente se quisermos
alcançar os objetivos da dieta.

REFERÊNCIA:

CONSELHO REGIONAL DE NUTRICIONISTAS. Visão antropológica do alimento


Revista CRN2, nº 27, jun.-dez., 2011, Gestão 2010-2013, p. 08.

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