Mito e Filosofia: A Origem do Pensamento
Mito e Filosofia: A Origem do Pensamento
Alagoinhas-BA
Módulo 01
FILOSOFIA
1. O Mito e a Filosofia
A força da mensagem dos mitos reside, portanto, na capacidade que eles têm de
sensibilizar estruturas profundas, inconscientes, do psiquismo humano.
Por isso, para Vernant, a razão grega é filha da pólis, e o nascimento da filosofia
relaciona-se de maneira direta com o universo espiritual que então surgiu:
02) Por que se pode dizer, baseado no estudo do helenista Jean-Pierre Vernant, que o
surgimento da filosofia foi engendrado em “praça pública”?
03) Acredita-se ou não nele [o mito], conforme a própria vontade, mediante um ato de fé,
caso pareça “belo” ou verossímil, ou simplesmente porque se quer acreditar. (GrimaL, A
mitologia grega, p. 89.) reflita sobre essa afirmação, procurando relacioná-la com alguns
mitos do mundo atual. Depois, compartilhe com a classe suas reflexões e descobertas e
escute as de seus colegas.
Como examinaremos ao longo deste percurso filosófico , o senso comum não é refletido e se
encontra misturado a crenças e preconceitos. É um conhecimento ingênuo (não-crítico),
fragmentário (porque difuso, assistemático e muitas vezes sujeito a incoerências) é conservador
(resiste às mudanças). Com isso não queremos desmerecer a forma de pensar do homem comum,
mas apenas enfatizar que o primeiro estádio de conhecimento precisa ser superado em direção a
uma abordagem crítica e coerente, características estas que não precisam ser necessariamente
atributos de formas mais requintadas de conhecer, tais como a ciência ou a filosofia.
Em outras palavras, o senso comum precisa ser transformado em bom senso, este entendido
como a elaboração coerente do saber e como explicitação das intenções conscientes dos indivíduos
livres. Segundo o filósofo Gramsci, o bom senso é "o núcleo sadio do senso comum". Qualquer
pessoa, não sendo vítima de doutrinação e dominação, e se for estimulada na capacidade de
compreender e criticar, torna-se capaz de juízos sábios porque vitais, isto é, orientados para sua
humanização.
Não é só isso. Mesmo aqueles que frequentam escolas submetem -se à perversa divisão em
que, para alguns, é reservada a formação humanística e científica, enquanto outros recebem apenas
preparação técnica, mantendo -se a dicotomia trabalho intelectual/trabalho manual. Com isso é
garantida a dominação daqueles que são obrigados a se ocupar apenas com o fazer . A superação de
tal estado de coisas decorre não só da democratização do acesso à escola e da negação da escola
dualista (formação acadêmica versus formação técnica) como também depende da conquista de
espaços possíveis de atuação nos sindicatos e nas organizações representativas dos mais diversos
tipos.
No entanto, não são apenas os trabalhadores manuais que não têm conseguido passar do
senso comum para o bom senso. Funcionários de empresas, empresários, especialistas de qualquer
área, inclusive cientistas, podem estar restritos a formas fragmentárias do senso comum quando se
acham presos a preconceitos, a concepções rígidas, quando sucumbem à ação massificante dos
meios de comunicação de massa.
Outras vezes, renunciamos ao exercício do bom senso quando nos submetemos ao poder dos
tecnocratas, seduzidos pelo "saber do especialista". Basta observar a timidez de decisão dos pais
que, ao educarem os filhos, delegam poderes a psicólogos, pedagogos e pediatras. Não
pretendemos, ao dizer isso, desvalorizar a contribuição tão importante da ciência, muito ao
contrário! Apenas ressaltamos que o homem leigo não precisa permanecer passivo diante do saber
do técnico, demitindo-se das ações que ele próprio poderia exercer. Ele tem o direito de informar-se
ativamente a respeito do tratamento a que se acha submetido e dos seus efeitos.
De maneira geral, os vários modos da consciência coexistem, maior ou menor grau, quando
emitimos algum juízo sobre a realidade. Isso nos leva a fazer outra distinção em relação a certo tipo
de saber.
Em nossa conversa diária com as pessoas é comum surgir uma série de opiniões sobre os
mais variados assuntos. Muitas dessas opiniões frequentemente conseguem um consenso, isto é,
obtêm a concordância da maioria das pessoas de um grupo. Essas opiniões podem também se tornar
concepções aceitas por diversos segmentos de uma sociedade. Esse vasto conjunto de opiniões,
aceitas como verdadeiras, mas sem fundamentação de sua validade, recebe o nome de senso
comum. O filósofo belga Chaim Perelman ( 1912 - 1984) define senso comum como uma série de
crenças admitidas por um determinado grupo social, cujos membros acreditam serem
compartilhadas por todos os homens.
O senso comum reflete o entendimento médio, comum das pessoas. São usualmente
generalizações, cuja origem ou fundamentação inicial já se perdeu. Muitas dessas concepções
podem ser encontradas em frases feitas ou em ditados populares, como “amigos, amigos, negócios à
________________________________________________________________________________
________________________________________________________________________________
________________________________________________________________________________
________________________________________________________________________________
________________________________________________________________________________
________________________________
• aparência – de forma intuitiva, parece não haver nenhum problema com a noção de que o
Sol nasce a leste, cruza o céu diurno e se põe a oeste. todos podem comprovar esse fenômeno, que é
uma experiência diária, permanente e universal;
Assim, essa noção do senso comum está errada (é falsa), e nós devemos ativar nossa
consciência crítica a fim de não cair na tentação de defender ideias “tão óbvias” como essa sem
buscar uma boa fundamentação para elas. Ocorre, no entanto, que a consciência crítica tende a ser,
como dissemos, crítica de si mesma, tendo a capacidade de produzir uma reviravolta: ela percebe
que é possível relativizar a importância dada à visão astronômica do fenômeno (consciência
racional) e resgatar o valor da vivência direta (consciência intuitiva). Veja que, apesar de a
explicação astronômica (a teoria) ser incontestável, na prática (que se diz práxis no jargão
filosófico) o que nós percebemos e vivemos diariamente de forma intuitiva é o Sol movimentando-
se de leste para oeste, e é isso o que importa conhecer em nossas vidas cotidianas, de modo geral.
Por exemplo, para buscar a melhor insolação e decidir o posicionamento de uma casa, é mais útil
saber o lado onde o Sol “nasce” do que o lado para o qual a terra gira, embora uma coisa explique a
outra.
Isso quer dizer que, de outra perspectiva, o senso comum está correto. Há noções do senso
comum que, do ponto de vista da práxis, podem ser tão proveitosas quanto as do meio científico,
dependendo do contexto em que se aplicam.
Vimos, nesse exemplo, como a consciência, ao ser crítica, é capaz de perceber o mundo
externo e realizar um diálogo interno, em um pingue-pongue ou vaivém dialético entre esses
processos mentais e diferentes modos de consciência. Isso nos indica que o desenvolvimento da
consciência crítica também depende do crescimento harmonioso de duas operações básicas de nossa
consciência: a atenção para o mundo e a reflexão sobre si. Se apenas uma delas progride, há uma
deformação, um abalo no processo de conscientização e de conhecimento. Como filosofou o
escritor alemão Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832), o ser humano só conhece o mundo
dentro de si se toma consciência de si mesmo dentro do mundo. Trata-se de um processo dialético,
A filosofia não tem apenas a importantíssima função crítica (analítica). Ela realiza também
uma função construtiva (sintética), pois trata de considerar e relacionar todos os elementos de uma
totalidade, tentando organizar uma visão de mundo verdadeira ou, pelo menos, mais próxima da
verdade. Observe que você domina todos os conceitos contidos nessa definição. E já começou a
trabalhar no desenvolvimento de suas habilidades críticas e a filosofar, em um processo que almeja
fundamentalmente a sabedoria. Então, vamos lá…ampliar as nossas concepções sobre
conhecimento e sabedoria.
Conhecimento é uma palavra que tem vários significados, mas podemos sintetizá-los em
dois:
Os filósofos também buscam o conhecimento stricto sensu. aliás, foram eles que começaram
a sistematizar essa busca há mais de 24 séculos, quando não havia separação entre filosofia e
ciência. Foram eles que iniciaram esse processo de tentar explicar os fenômenos naturais e humanos
sem o auxílio dos deuses e mitos, apoiando-se progressivamente na razão. Mas os filósofos
procuravam igualmente um tipo de saber superior, uma espécie de “conhecimento por detrás do
conhecimento”, bem como um “conhecimento que vai além do conhecimento”, que permite estar
lúcido em meio ao turbilhão da existência. É a esse conhecimento integrador – que conduz à vida
boa – que damos o nome de sabedoria.
________________________________________________________________________________
________________________________________________________________________________
________________________________________________________________________________
________________________________________________________________________________
________________________________________________________________________________
________________________________
Vemos então que, embora hoje em dia a filosofia e a ciência sejam entendidas como duas
áreas de estudo muito distintas e separadas, nem sempre foi assim. Desde a Grécia antiga, o saber
filosófico reunia o conjunto dos conhecimentos racionais desenvolvidos pelo ser humano:
matemática, astronomia, física, biologia, lógica, ética, política etc. Não havia separação entre
filosofia e ciência. Elas estavam fusionadas, eram a mesma coisa.
Até mesmo a investigação sobre Deus (a teologia) fazia parte das especulações dos
filósofos. Essa visão integradora perdurou até o fim da Idade Média. A partir da idade Moderna,
com o desenvolvimento do método científico, aplicado primeiro pela física, a realidade a ser
conhecida passou a ser progressivamente dividida, recortada, atomizada em setores independentes.
Desse modo, surgiram as diversas áreas de investigação científica que conhecemos hoje, como a
matemática, a física, a química, a biologia, a geografia, a antropologia, a psicologia, a sociologia,
entre outras. Acabava, assim, a antiga unidade do conhecimento.
Mas esse processo de especialização não parou aí, pois cada uma dessas grandes áreas
científicas também se subdividiu em outras mais específicas, sobretudo a partir do século XX. Por
isso se diz hoje que vivemos a “era dos especialistas”. No contexto dessa separação, a filosofia não
abandonou seus vínculos com o campo hoje denominado científico, mas passou a relacionar-se com
ele de outro modo. Ela realiza atualmente – notadamente o setor da filosofia da ciência – o trabalho
de reflexão sobre os conhecimentos alcançados pelas diversas áreas científicas, questionando a
validade de seus métodos, critérios e resultados. Nesse sentido, ela fornece uma importante
contribuição para os estudos epistemológicos de cada ciência. Ao mesmo tempo, por sua
abordagem abrangente, a filosofia ainda representa, em certo sentido, a possibilidade de integração
de todos esses saberes.
02) Algumas noções do senso comum escondem ideias falsas, parciais ou preconceituosas,
enquanto outras revelam profunda reflexão sobre a vida. Como você explica essa contradição?
03) Identifique, entre as afirmações a seguir, aquelas que podem ser consideradas noções do senso
comum e as que constituem meras opiniões ou crenças pessoais. Justifique.
05) (UFMG) Leia este trecho: “Eu quero dizer que o mal [...] não tem profundidade, e que por esta
mesma razão é tão terrivelmente difícil pensarmos sobre ele [...] O mal é um fenômeno superficial
[...] Nós resistimos ao mal em não nos deixando ser levados pela superfície das coisas, em parando
e começando a pensar, ou seja, em alcançando uma outra dimensão que não o horizonte de cada dia.
Em outras palavras, quanto mais superficial alguém for, mais provável será que ele ceda ao mal.”
(ARENDT, H. Carta a Grafton, apud ASSY, B. Eichmann, banalidade do Mal e Pensamento em
Hannah Arendt. in: Jardim, e.; BIGNOTTO , N. (org.). Hannah Arendt, diálogos, reflexões,
memórias. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2001. p. 145.)
A partir da leitura desse trecho, redija um texto, argumentando a favor de ou contra esta afirmativa:
“Para se prevenir o mal, é preciso reflexão”.
De acordo com a tradição histórica, a fase inaugural da filosofia grega é conhecida como
período pré socrático (isto é, anterior a Sócrates ou à sua filosofia). Assim, esse período abrange o
conjunto das reflexões filosóficas desenvolvidas desde Tales de Mileto, no século VII a.C., até o
séc. V a.C. cabe ressaltar, porém, que alguns filósofos chamados “pré-socráticos” foram
contemporâneos de Sócrates, sendo assim designados porque mantiveram o tipo de investigação de
seus predecessores, centrado na natureza.
Sócrates, por sua vez, inaugurou outro tipo de reflexão, voltado ao ser humano, dando início
à tradição clássica da filosofia grega . É difícil conhecer o pensamento do período pré-socrático em
toda a sua dimensão, pois são poucos os escritos encontrados de seus pensadores, e até mesmo suas
datas de nascimento e morte são incertas.
Quando afirmamos que a filosofia nasceu na Grécia, devemos tornar essa afirmação mais
precisa. Afinal, nunca houve na antiguidade um estado grego unificado. O que chamamos de Grécia
nada mais era que o conjunto de muitas cidades-estado (pólis), independentes umas das outras e
a) Tales: a água
Tales de Mileto (c. 623-546 a.c.) é tido como o pensador que deu início à indagação racional
sobre o universo. Inspirando-se provavelmente em concepções egípcias, acrescidas de suas próprias
observações de corpos hídricos – como rios e mares –, bem como da vida animal e vegetal, ele
dizia: “tudo é água”.
b) Anaximandro: o indeterminado
Outro filósofo de Mileto, Anaximandro (c. 610- -547 a.c.), discípulo de Tales, procurou
aprofundar as concepções do mestre sobre a origem única de todas as coisas e resolver os
problemas que Tales lançara.
Ele buscou em meio aos diversos elementos observáveis e determinados no mundo natural –
especialmente os tradicionais pares de contrários que se “devoram entre si” (água, terra, ar e fogo)
–, mas não lhe foi possível identificar entre eles o princípio único e primordial de todos os seres.
Anaximandro pensou, então, que deveria haver alguma substância diferente, ilimitada, e que dela
nascessem o céu e todos os mundos nele contidos. Foi assim que o filósofo chegou à conclusão de
que a arché é algo que transcende os limites do observável, ou seja, que não se situa em uma
c) Anaxímenes: o ar
A discussão sobre o problema da arché prosseguiu com um terceiro milésio, Anaxímenes (c.
588 -524 a.c.), discípulo de anaximandro. ele concordava que a origem de todas as coisas era
indeterminada, mas recusou-se a atribuir a essa indeterminação o caráter de arché.
Para Anaxímenes, a substância primordial não poderia ser um elemento situado fora dos
limites da observação e da experiência sensível, como o ápeiron de Anaximandro. Em discordância
com aspectos do pensamento dos dois mestres anteriores, mas buscando uma síntese entre eles,
anaxímenes incorporou argumentos de ambos e propôs o ar como princípio de todas as coisas:
“como nossa alma, que é ar, soberanamente nos mantém unidos, assim também todo o cosmo sopro
e ar o mantêm” (ANAXÍMENES, em Souza, Pré-socráticos, p. 51).
Ele considerou o fato de que o ar, quase inobservável, é um elemento mais sutil que a água,
mas que ao mesmo tempo nos anima, nos dá vida, como testemunha nossa respiração. Infinito e
ilimitado, penetrando todos os vazios do universo, o ar constituiria uma arché menos indeterminada
que o ápeiron. Também seria um princípio ativo, gerador de movimento, como nos ventos.
Segundo Anaxímenes, pelos processos de rarefação e condensação se formariam os outros
elementos – que para os antigos eram a terra, a água e o fogo, além do próprio ar – e, a partir destes,
todos os demais. a terra, por exemplo, seria o estado mais condensado (isto é, de menor volume) do
ar, enquanto o fogo seria o mais rarefeito (de maior volume). Nascido do ar e movido por ele, o
cosmo seria uma espécie de respiração gigante.
A epígrafe deste capítulo se refere ao esforço constante que anima o homem a compreender.
Diante do caos - que não significa vazio, mas desordem - procuramos estabelecer semelhanças,
diferenças, contiguidades, sucessão no tempo, causalidades, que possibilitem "pôr ordem no caos".
Mesmo porque só assim será possível ao homem também agir sobre o mundo e tentar transformá -
lo.
O conhecimento é o pensamento que resulta da relação que se estabelece entre o sujeito que
conhece e o objeto a ser conhecido. A apropriação intelectual do objeto supõe que haja regularidade
nos acontecimentos do mundo; caso contrário, a consciência cognoscente nunca poderia superar o
caos. Por exemplo, Kant diz: "Se o cinábrio [minério de mercúrio] fosse ora vermelho, ora preto,
ora leve, ora pesado (...), minha imaginação empírica nunca teria ocasião de receber no pensamento,
com a representação) da cor vermelha, o cinábrio pesado".
O conhecimento pode designar o ato de conhecer, enquanto relação que se estabelece entre a
consciência que conhece e o mundo conhecido. Mas o conhecimento também se refere ao produto,
ao resultado do conteúdo desse ato, ou seja, o saber adquirido e acumulado pelo homem. Na
verdade, ninguém inicia o ato de conhecer de uma forma virgem, pois esse ato é simultâneo à
transmissão pela educação dos conhecimentos acumulados em uma determinada cultura. No correr
A razão é histórica e vai sendo tecida na trama da existência humana. Então, a capacidade
que o homem tem, em determinado momento, de discernir as diferenças e as semelhanças, e de
definir as propriedades dos objetos que o rodeiam, estabelece o tipo de racionalidade possível
naquela circunstância. (Deleuze e Guattari) A apreensão que fazemos do mundo não é sempre
tematizada, sendo inicialmente pré-reflexiva. E isso vale tanto para o homem das sociedades tribais
e para a criança como para nós, no cotidiano da nossa vida. Não é sempre que estamos refletindo
sobre o mundo (ainda bem!), e a abordagem que dele fazemos se encontra primeiro no nível da
intuição, da experiência vivida.
Se de início o homem precisa de crenças e opiniões prontas (nas formas de mito ou do senso
comum), a fim de apaziguar a aflição diante do caos e adquirir segurança para agir, em outro
momento) é preciso que ele seja capaz de "reintroduzir o caos", criticando as verdades
sedimentadas, abrindo fissuras e fendas no "já conhecido", de modo a alcançar novas interpretações
da realidade. Todo conhecimento dado tende a esclerosar -se no hábito, nos clichês, no preconceito,
na ideologia, na rigidez das "escolas". Esse conhecimento precisa ser revitalizado pela construção
de novas teorias (no caso da filosofia e da ciência) e pelo despertar de novas sensibilidades (no caso
da arte). Pelo esforço resultante do questionamento, a razão elabora o trabalho de conceituação, que
tende a se tornar cada vez mais complexo, geral e abstrato.
A ação do homem, inicialmente "colada" ao mundo, é lentamente elucidada pela razão, que
permite "viver em pensamento" a situação que ele pretende compreender e transformar. Com isso
não estamos dizendo que o pensar humano possa ficar separado do agir (já vimos como essa relação
é dialética), mas que o próprio pensamento torna-se objeto do pensamento: instala-se a fase de auto-
reflexão e crítica do conhecimento anteriormente recebido. Os diversos modos de conhecer, apenas
indicados neste item, serão analisados em outros capítulos deste livro: o mito, o senso comum, a
ciência, a arte e a filosofia.
Se perguntarmos "de que modo o sujeito que conhece pode apreender o real?", a resposta
imediata que nos vem à mente é que o homem conhece pela razão, pelo discurso. Mas nós
apreendemos o real também pela intuição, que é uma forma de conhecimento imediato, isto é, feito
sem intermediários, um pensamento presente ao espírito. Como a própria palavra indica (tueriem
latim significa "ver"), intuição é uma visão súbita. Enquanto o raciocínio é discurso e se faz por
- intuição sensível - é o conhecimento imediato que nos é dado pelos órgãos dos sentidos: sentimos
que faz calor; vemos que a blusa é vermelha; ouvimos o som do violino
- intuição intelectual é a que se esforça por captar diretamente a essência do objeto. Por exemplo, a
descoberta de Descartes do cogito (eu pensante) enquanto primeira verdade indubitável.
Para tanto, a razão precisa realizar abstrações. Abstrair significa "isolar", "separar de". Fazemos
uma abstração quando isolamos, separamos um elemento de uma representação, elemento este que
não é dado separadamente na realidade (representação significa a imagem, ou a ideia da "coisa"
enquanto presente no espírito).
Quando vemos um cinzeiro, temos inicialmente a imagem dele, uma representação mental de
natureza sensível e de certa forma concreta e particular. Porque se refere àquele cinzeiro
especificamente (por exemplo, de forma hexagonal e de cristal transparente).
A lei científica também é abstrata. Quando concluímos que o calor dilata os corpos, fazemos
abstração das características que distinguem cada corpo para considerar apenas os aspectos comuns
àqueles corpos, ou seja, o corpo em geral" enquanto submetido à ação do calor.
Ora, quanto mais tornamos abstrato um conceito, mais nos distanciamos da realidade
concreta. Esse artifício da razão é importante enquanto possibilidade de transcendência, para a
superação do "aqui e agora" e construção de hipóteses transformadoras do real. No entanto, toda
vez que a razão se distancia demais do vivido, a teoria se petrifica e o conhecimento é empobrecido.
A teoria do conhecimento é uma disciplina filosófica que investiga quais são os problemas
decorrentes da relação entre sujeito e objeto do conhecimento, bem como as condições do
conhecimento verdadeiro. Embora os filósofos da Antiguidade e da Idade Média tratassem de
questões referentes ao conhecimento, não se pode dizer que a teoria do conhecimento existisse
enquanto disciplina independente, pois essas questões se achavam vinculadas aos textos de
metafísica. Surge como disciplina autônoma apenas na Idade Moderna, quando os filósofos se
ocupam de forma sistemática com as questões sobre a origem, essência e certeza do conhecimento
humano, a partir de Descartes, Locke, Hume, e culminando com a grande crítica da razão levada a
efeito por Kant.
Se dizemos que o colar ou o dente são falsos, devemos reconhecer que o "falso" colar é uma
verdadeira bijuteria e o dente um verdadeiro dente postiço. Isso porque a falsidade ou veracidade
não estão na coisa mesma, mas no juízo, e portanto no valor da nossa afirmação. Há verdade ou não
dependendo de como a coisa aparece para o sujeito que conhece.
Por isso dizemos que algo é verdadeiro quando é o que parece ser. Assim, ao beber o líquido
escuro que me parecia café, descubro que o "falso" café é uma verdadeira cevada. A verdade ou
falsidade existe apenas no juízo "este líquido é café", no qual se estabelece o vínculo entre sujeito e
objeto, típico do processo do conhecimento. Resta portanto saber o que é a verdade enquanto juízo
a respeito da realidade. Para os escolásticos, filósofos medievais, "a verdade é a adequação do nosso
pensamento as coisas". O juízo seria verdadeiro se a representação fosse cópia fiel do objeto
representado. Essa definição sofreu posteriormente inúmeras críticas, sobretudo quando, a partir da
Idade Moderna, rompeu -se a crença de que a realidade do mundo aí está para ser conhecida na sua
transparência.
Afinal, a questão é mais complexa: como julgar a verdade da representação do real pelo
pensamento? Ou seja, como saber se a definição mesma de verdade é verdadeira? Além disso, a
filosofia moderna vai questionar a possibilidade mesma de conhecimento do real. Isso nos remete
para a discussão a respeito do critério da verdade. Qual o sinal que permite reconhecer a verdade e
distingui-la do erro? Não pretendemos analisar passo a passo as discordâncias dos autores a respeito
do assunto, devido à complexidade e à necessidade de aprofundamento da questão. Algumas
referências serão feitas nos capítulos que se seguem; por enquanto, bastam-nos algumas pistas.
Para Descartes, o critério da verdade é a evidência. Evidente é toda ideia clara e distinta, que
se impõe imediatamente e por si só ao espírito. Trata-se de uma evidência resultante da intuição
intelectual. Para Nietzsche é verdadeiro tudo o que contribui para fomentar a vida da espécie e falso
tudo o que é obstáculo ao seu desenvolvimento. Para o pragmatismo (William James, Dewey,
Peirce), a prática é o critério da verdade. Nesse caso, a verdade de uma proposição se estabelece a
partir de seus efeitos, dos resultados práticos. Nos dois últimos casos (Nietzsche e pragmatismo), o
critério da verdade deixa de ser um valor racional e adquire um valor de existência, que pode ser
sintetizado na frase de Saint -Exupery: "A verdade para o homem é o que faz dele um homem. Há
Essa é a verdade típica da matemática. Afirmar que por um ponto fora de uma reta só passa
uma paralela a essa reta pode ser verdadeiro se admitirmos os postulados de Euclides, mas falso se
adotarmos os princípios da geometria não-euclidiana. A verdade pode ainda ser entendida como
resultado d o consenso, enquanto conjunto de crenças aceitas pelos indivíduos em um determinado
tempo e lugar e que os ajuda a compreender o real e agir sobre ele. É difícil e complexa a discussão
a respeito dos critérios da verdade, mesmo porque são diferentes as posturas que temos diante do
real quando nos dispomos a compreendê-lo.
Por exemplo, alguém poderá dizer- bem na linha dos positivistas que só a ciência nos dá o
conhecimento verdadeiro, uma vez que os critérios de verificabilidade (pelo menos das ciências da
natureza, como a física) nos levam a conclusões seguras, objetivas, aceitas pela comunidade dos
cientistas e que, ainda por cima, com o desenvolvimento da tecnologia, resultam em eficácia no
agir.
Por outro lado, não há como deixar de reconhecer que a ciência, sendo um conhecimento
abstrato, seleciona o que lhe interessa conhecer e reduz as infinitas possibilidades do real, excluindo
o sujeito com suas emoções e sentimentos. Nesse sentido, por que recusar um outro tipo de verdade,
aquela intuída pelo sentimento? E não se poderia falar na verdade que resulta da experiência
artística, já que também a arte é uma forma de conhecimento? Entre os dois extremos do
conhecimento, das ciências da natureza e do conhecimento pela arte, convém lembrar as
dificuldades na busca da verdade das ciências humanas e das novas exigências para se estabelecer o
estatuto epistemológico do conhecimento do homem pelo homem.
Pelo menos semelhante no gosto pelas viagens, o filósofo renascentista Montaigne retoma
os temas do ceticismo. Contrapõe-se às certezas da escolástica decadente e à intolerância de um
período de lutas religiosas, analisando nos Ensaios a influência de fatores pessoais, sociais e
culturais na formação das opiniões. Skeptikós, em grego, significa "que observa", "que considera".
O cético tanto observa e tanto considera que conclui, nos casos mais radicais, pela impossibilidade
do conhecimento; e nas tendências moderadas suspensão provisória de qualquer juízo. Portanto, há
gradações no ceticismo.
Os filósofos gregos tinham uma concepção realista do conhecimento, pois para eles não era
problemática a existência do mundo. O mundo é considerado inteligível, isto é, tudo no mundo é
compreensível pelo pensamento. O conhecimento se faz pela formação de conceitos, que são
verdadeiros enquanto adequados à realidade existente. Na Idade Moderna, a partir de Descartes, o
realismo metafísico dos gregos é colocado em questão.
a) Isto é vermelho.
d) É comunicável.
f) Exige demonstração.
h) É inexprimível.
04. Leia a citação a seguir e, a partir dela, distinga verdade e realidade: “Van Meegeren é um dos
mais ilustres falsários de toda a história da arte. Vários quadros desse pintor foram comprados pelos
museus holandeses e colocados entre autênticos Vermcer e Pieter de Hooch. Toda uma comissão
formada por especialistas altamente competentes concluíra pela autenticidade dessas obras, O
escândalo teve um final estranho: o Museu de Washington comprou do governo holandês a quase
totalidade dos Van Meegeren. Os falsos Vermeer eram verdadeiros Van Meegeren." (Huisman e
Vergez)
05. Faça uma pesquisa para distinguir os diferentes estados de espírito em relação à verdade:
ignorância; erro; falsidade; opinião; dúvida; probabilidade; certeza; crença.
06. Faça uma dissertação sobre o tema: "A verdade é filha do tempo".
07. "O filósofo é crítico, embora não seja cético. Não desespera da verdade, mas recusa todas as
certezas, considerando-as provisórias e sujeitas a serem relativizadas por novos argumentos ."
(Rouanet)
COTRIM, Gilberto. Fundamentos da Filosofia - História e grandes temas. [Link]: Saraiva, 2006.