O século I a. C/d. C.
, o século de Augusto
Nos séculos V e IV a.C., iniciada a República, Roma lançou-se na conquista da Península Itálica, cujo século
II a.C., foi o período das Guerras Púnicas que trouxeram a vitória ocidental e o início da conquista da
Península Ibérica. No século II A.C., Roma dirigiu a expansão para oriente e depois para norte.
A coesão deste vasto império foi conseguida pelo poder centralizado, divino e autocrático dos seus
imperadores; pela modernidade das suas leis (sistema jurídico), raiz do Direito Ocidental; pela imposição
de uma língua comum (o latim); pela organização e disciplina militares das legiões; e pela sua cultura
eclética (resultante da influência das culturas grega, etrusca, helenística e de outros povos conquistados,
que Roma estendeu ao império por ação da romanização)
Roma atingiu a sua época de ouro com o governo de Octávio César Augusto, que mercou de tal forma o
seu tempo que o Senado, logo após a sua morte, designou este período como o século de Augusto.
Dotado de extraordinário sentido político, Octávio chegou ao poder por delegações do povo romano e
atingiu uma autoridade absoluta, de carácter quase divino, que originou o culto imperial, fator de
propaganda e união do Império.
A sua ação manifestou-se a vários níveis:
• No plano militar, restabeleceu a ordem e a disciplina; conquistou e pacificou as províncias,
estendendo a todas a pax romana.
• No plano político, reformou o aparelho administrativo, reforçou os seus poderes de imperador,
criando novos órgãos de apoio (o Conselho Imperial, a Guarda Pretoriana e um novo corpo de
funcionários dele dependente) e reduziu os poderes do Senado, das magistraturas e dos
comícios.
• No plano social, estabeleceu a paz social, reordenando a população com base numa igualdade
(teórica) perante a lei e fazendo depender do montante do imposto pago (o censo) a
possibilidade de ser eleito para postos políticos. Com estas medidas, o imperador garantiu a
coesão da sociedade, mantendo-a hierarquizada a partir da cúpula, formada por si e pela sua
família.
• No plano cultural, o imperador, formado na tradição helenística e amante das letras e das artes,
protegeu sábios e artistas, iniciando o proporcionando o desenvolvimento da literatura latina.
Octávio patrocinou inúmeras obras públicas como estradas, pontes, aquedutos e termas,
contratando arquitetos e artesãos gregos para reformular ou contruir templos, teatros,
mausoléus, arcos de triunfo, e para rasgar um novo fórum – O Forum Augustum, a ele dedicado;
contruiu e equipou bibliotecas públicas e fundou escolas.
• No plano religioso, restabeleceu a religião tradicional, ligando-a ao culto do imperador (o que
lhe proporcionou ser eleito, pelo povo como sumo pontífice), fiscalizou a ação dos sacerdotes e
viu reconhecida a sua capacidade de interpretar a vontade dos deuses.
A atividade expansionista continuou até ao século III da era cristã, fazendo crescer o Império. A
partir do século III d.C., o Império começou a dar indício de decadência. Em 395, dividiu-se
definitivamente em Império do Oriente e Império do Ocidente; em 476, o Ocidente caiu às mãos
dos Bárbaros, iniciando-se a Idade Média.
Roma, o modelo urbano no Império
Roma era o centro e a sede do poder político, esta evoluiu da monarquia para a república e desta para
um regime imperial.
Dominado, pela sua posição central, o Mediterrâneo (que designou por Mare Nostrum), Roma foi o ponto
de chegada e partida das rotas marítimas e terrestres que unia todas as partes do Império, possibilitando
a circulação e intercâmbio de produtos e notícias, veiculados por políticos, soldados, comerciantes,
colonos, escritores e artistas.
Preocupados com a qualidade de vida na urbe, os governantes romanos rasgaram vias e praças,
mandaram construir aquedutos para o abastecimento de água, estabeleceram regras construtivas para
os edifícios civis e públicos e embelezaram a cidade com monumentos e estatuárias que lhe deram a
grandiosidade e o fausto correspondentes ao domínio e ao poder que Roma exercia.
As primeiras preocupações deste género datam do final da República, no tempo de Sila, Pompeu e Júlio
César que intervieram na construção do primeiro fórum, a praça pública central da cidade, onde se
localizavam os edifícios mais importantes ligados ao exercício do poder político e religioso.
Capital de um vasto império, Roma – a urbe ou a cidade por excelência – cresceu como uma cidade
cosmopolita, modelo administrativo, urbanístico e civilizacional das cidades do Império.
Nas províncias, os Romanos utilizaram as cidades como sedes do seu governo político-militar e fizeram da
vida urbana o mais rápido processo de aculturação das populações. Com efeito, por todo o Império do
Oriente ao Ocidente, as cidades, embora com estatutos jurídicos regional e estruturavam-se
internamente usando as mesmas instituições e órgãos governativos de Roma (cada uma com o seu
senado, a sua cúria e a sua basílica).
Roma foi, portanto, o paradigma para as novas cidades por todo o Império e inspirou as reformas e
melhoramentos nas cidades que já existiam.
Estas características explicam que Roma funcionasse também como modelo para a vida sociocultural das
cidades do Império.
O Senado: os senadores e o cursus honorum
O Senado foi a mais velha instituição do Estado romano, tendo existido desde a monarquia até finais do
Império.
Durante a República (510 a 27 a.C.) foi o órgão fulcral da vida política romana. Era composto por ex-
magistrados, nomeados e escolhidos primeiro pelos cônsules e depois pelos censores. Os senadores
começaram por ser em número de 300, mas Sila duplicou este número e Júlio César triplicou-o.
Inicialmente, teve apenas funções consultivas, mas foi ganhando um espaço cada vez mais amplo na
política romana, passando a dominar todos os assuntos da vida pública com carácter deliberativo e
normativo.
Como funções ordinárias, cabiam-lhe a política externa, as decisões de guerra e paz, a gestão das festas e
solenidades religiosas, a administração das finanças e as deliberações relativas à ordem pública.
Como funções extraordinárias, podia declarar o estado de sítio, suspender os tribunais, intervir no
governo das províncias, na gestão do exército e na preparação das leis que os comícios deviam votar, etc.
O Senado entrou em decadência durante o Império. Augusto reduziu o número dos seus membros, fez
depender a sua nomeação da escolha do imperador e retirou-lhes parte dos seus poderes. Contudo, os
seus pareceres legislativos continuaram a ter força da lei e eram os senadores que detinham a
administração local em Roma, no resto da Itália e em algumas províncias pacificadas e mais bem
integradas.
A retórica
As funções do Senado, associadas ao prestígio dos senadores (quase todos grandes latifundiários, de
origem patrícia), fizeram das reuniões na Cúria o palco quotidiano da vida política. Aí, a arma de persuasão
era sobretudo a palavra, a retórica ou arte de bem-falar; esta era determinante no sucesso dos oradores
e na condução das discussões e votações.
A Lei – da República ao Império
Desde a República, a centralização política usou como um dos instrumentos de coesão do Estado a Lei
Romana, um conjunto de normas de Direito superiormente definidas, que, aplicadas igualmente no
mundo romano, uniformizaram os procedimentos da justiça e dos tribunais, sobrepondo-se à diversidade
dos direitos locais.
A superioridade das leis romanas residia: na racionalidade e na lucidez dos princípios gerais que
enunciavam; no pragmatismo e na experiência que colocavam na análise das situações do quotidiano; na
complexidade das situações que contemplavam e que eram as vividas a todos os níveis (económico,
social, familiar, étnico, político).
O Direito Romano, reconhecido como um dos principais legados desta civilização, resultou da recolha e
compilação de várias fontes jurídicas usadas pelos Romanos como: a Lei das Doze Tábuas, a principal e
mais antiga compilação escrita das leis consuetudinárias (baseadas nos Costumes) do povo romano (cerca
de 450 a.C.); as leis promulgadas pelos órgãos políticos da República com poder legislativo, como as
emanadas do Senado e as proclamadas pelos comícios; e as leis promulgadas pelos imperadores. Durante
o Império, os imperadores tornaram-se os supremos legisladores. O seu trabalho legislativo foi apoiado
por juristas especializados, os jurisconsultos, escolhidos entre a aristocracia “intelectual”. Cabia também
aos imperadores a chefia dos tribunais, o que lhes permitiu controlar o poder judicial.
O direito de apelação, reconhecido a todos os cidadãos, só podia ser resolvido nos tribunais presididos
pelo Senado ou pelo Imperador, e a este pertenciam todos os casos de última instância.
O Direito Romano consignava já, inclusive, a separação entre o direito público, que se ocupava das
questões do Estado, e o direito privado, que regulamentava as questões dos particulares.
A língua latina: a construção do latim; o latim de Cícero; o latim do limes
Os Romanos falavam latim, língua de origem indo-europeia que se afirmou na Itália central e meridional.
Aí absorveu influências de outros falares mediterrânicos: do etrusco (falado pelos Etruscos que, contudo,
adotaram o latim aquando da sua fixação na Península Itálica), do gaulês, do dialeto cartaginês e
sobretudo do grego (falado na Magna Grécia desde o século VIII a. C.).
Segundo os peritos, o seu período de formação do latim dura até à República, atingindo o seu apogeu a
partir do século I a. C., no tempo de Júlio César e de Cícero. Nessa época, por ação de vários intelectuais
de renome, o latim depura-se, liberta-se de arcaísmos e de influências estrangeiras de modo a tornar-se
modelo de civilidade e de civilização.
Os Romanos haveriam de espalhá-lo pelo Império como língua oficial (língua da administração e dos
tribunais) e elemento de união entre as províncias e Roma.
Paradoxalmente, é a partir deste período de ouro que o latim vai começar a sofrer uma mutação decisiva.
Enquanto entre a elite (políticos, filósofos, poetas) a língua se refinava em torno de apertados critérios de
pureza e rigor – o latim erudito -, no quotidiano do Império em contacto com outros povos e idiomas, o
latim do povo era contaminado pelos falares locais, deturpando-se.
Assim, o latim do limes (isto é, das zonas periféricas) era um latim adulterado, espécie de vulgata do latim
erudito; este era cada vez mais restrito a uma pequena elite de sábios puristas e só verdadeiramente
encontrado na versão escrita.
A partir do século III d. C., a decadência intelectual e cultural em que o Império caiu aprofundou a cisão
entre a língua erudita e a língua falada pelas populações comuns; enquanto a primeira se restringia aos
livros, deixando de se falar no quotidiano, a segunda vingou, dando origem às atuais línguas novilatinas,
derivadas da vulgata do latim que se pulverizou nos vários romances (falares) medievais.
O ócio: os tempos do lúdico; os jogos do Circo; a preocupação com as artes
No século de Augusto, a paz e a prosperidade económica proporcionadas pelas conquistas possibilitaram
ao Romanos o usufruto do ócio, isto é, do tempo livre.
Contudo, as conquistas haviam alterado substancialmente esses velhos costumes, Roma e toda a Itália
foram invadias por gentes de todas as partes do Império com diversas culturas. De todos, os mais
influentes na alteração de hábitos e costumes foram os Gregos que, como escravos de luxo ou imigrantes
convidados, afluíram à Itália. Os Romanos apreciaram-lhes o falar elegante, os conhecimentos e a cultura
refinada e copiaram-nos: a língua grega, falada e escrita, foi adotada pelas elites cultuas como uma
segunda língua – mãe.
Entre ricos, o luxo invadiu as residências; a moda do exotismo dominou o vestuário e os penteados; os
banquetes e os salões privados tornaram-se frequentes e a ida às termas um hábito indispensável e cada
vez mais praticado como ritual social.
Durante o Império, entre os divertimentos públicos popularizaram-se os jogos, inicialmente considerados
“divertimentos para os deuses ofertados pelos humanos”, e cuja realização obedecia a programas e rituais
rigorosamente estipulados.
Os mais antigos compunham-se de corridas de cavalos que, em Roma, se realizavam no Grande Circo (ou
Circo Máximo).
Eram também tradicionais em Roma as representações teatrais que tiveram origem nas Grandes
Procissões (durante as quais grupos de bailarinos mascarados representavam, em frente às estátuas dos
deuses, mimos ou peças curtas do género farsa, com poucas personagens). Foi juntando esta tradição à
influência do teatro grego que nasceu o teatro romano. Este preferiu as comédias às tragédias. Plauto e
Terêncio foram os comediógrafos mais célebres, com obras que satirizavam o seu tempo.
Muito apreciados na época imperial foram os combates nos anfiteatros. Estes tiveram origem em certas
cerimónias fúnebres em que se representavam pequenos atos nos quais o morto interagia com os seus
maiores (os antepassados) e com os deuses. Esses atos associavam, por vezes, combates rituais entre
gladiadores que, entretanto, se popularizaram.
Inicialmente, os combates envolviam apenas feras contra feras (combates referenciados, pelo menos,
desde o século II a. C.), mas em pouco tempo começaram a aparecer caçadas nas arenas e combates entre
homens e animais.
A partir do imperador Nero, os cristãos perseguidos foram obrigados a lutar contra os animais nas arenas
dos anfiteatros.
A variedade de que os jogos romanos se foram revestindo ao longo do Império dependeu da imaginação
dos magistrados encarregados de os organizar, os quais, preocupados em agradas ao povo e ao poder,
deram largas à fantasia e ao exagero, tornando-os cada vez mais burlescos e cruéis. E, na verdade, a plebe
urbana demonstrou apreciar estes espetáculos violentos e sanguinários, descarregando nos jogos parte
do descontentamento resultante da falta de emprego, do alargamento do fosso entre ricos e pobre e da
política dissoluta dos imperadores.
Contudo, entre as classes mais cultas e sobretudo entre a aristocracia provinciana, as práticas citadinas
eram vivamente repudiadas. Estas classes preferiam o refúgio nas villae (casas de campo), rodeadas de
conforto e bucolismo.
A arquitetura: entre o belo e o útil
A arte romana, e particularmente a sua arquitetura, filiou-se diretamente nas artes italo-etruscas e na
grego-helenísticas, embora tenha captado influências um pouco por todo o Império, daí o seu ecletismo.
Da primeira, os Romanos herdaram o sentido prático e funcional direcionado para construções como
pontes, túneis, esgotos e estradas.
Os Romanos adotaram, na arquitetura, as plantas dos templos retangulares e circulares, alguns princípios
formais e a decoração das ordens, pois não respeitaram os princípios construtivos e métrico das mesmas.
Foi em meados do período republicano que a arquitetura atingiu uma língua própria e original. Pragmática
e funcional, preocupou-se essencialmente com a resolução dos aspetos práticos e técnicos da arte de
construir.
O carácter específico da arquitetura romana expressa-se pelas seguintes particularidades:
• A variedade e plasticidade dos materiais utilizados: os Romanos usaram os materiais
tradicionais (pedra, mármore, tijolo, madeira), mas também outros, mais económicos em meios
e mão de obra.
O mais importante foi o opus caementecium espécie de argamassa de cal e areia a que se
adicionavam pequenos pedaços de calcário, pozolana, cascalho e restos de materiais cerâmicos,
semelhante ao atual cimento ou ao betão. A sua utilização, que remonta ao século IV a.C., tornou
mais fácil e rápida a construção de coberturas abobadadas ou cupuladas e de paredes curvas.
O uso de sistemas construtivos que tinham por base o arco e as construções que dele derivam:
os diferentes tipos de abóbodas, as cúpulas e as arcadas.
• O desenvolvimento das técnicas e dos instrumentos de engenharia assumidos como suporte da
arquitetura. Nesse sentido, desenvolveram conhecimentos de orografia e topografia, técnicas de
terraplenagem, novos processos de embasamento e de suporte.
• Por último, o exagero da decoração que substituiu o equilíbrio ornamental helénico. Com efeito,
usaram as ordens gregas (colunas, entablamentos e frontões) apenas como elementos
decorativos, modificando-as nas proporções e nas formas, chegando a criar duas novas ordens:
a toscana e a compósita. As mais usadas foram a coríntia, agora aumentada de tamanho e muito
mais decorada, e a compósita, precisamente pelas suas maiores potencialidades ornamentais.
A arquitetura religiosa
Os edifícios religiosos assinalavam, pelo seu valor simbólico, os lugares mais importantes das cidades e
possuíram, igualmente, funções políticas e sociais. Em todas as cidades romanas havia vários templos,
pois, para além dos dedicados aos deuses protetores de cada uma delas, existia ainda o templo dedicado
ao culto do imperador e outros para as divindades maiores da sua religião.
Nesta área da arquitetura destacam-se os templos, altares e os santuários.
Tirando alguns exemplos mais antigos (como o Templo de Vesta do Fórum Boário), o modelo mais comum
de templo romano, marcado por influências ítalico-etruscas e gregas. Era de planta retangular,
geralmente com uma só cella fechada e estava orientado no terreno pelos pontos cardeais segundo o eixo
axial da cella. Erguia-se sobre um podium que possuía um único acesso frontal (assinalado pelo pórtico e
escadaria de acesso).
Em regra, não tinha peristilo e era falsamente períptero, sendo as colunas laterais adossadas ou
embebidas nas paredes exteriores. As colunas e o entablamento possuíam uma função meramente
decorativa.
Em Roma, os exemplos mais bem conservados são os do Fórum Boário, do tempo da República, onde é
visível a influência da estética grega, como é o caso do Templo da Fortuna Virilis. Do período imperial
citamos o Templo de Baalbek, no Líbano, entre outros.
Mas foi no Alto Império que surgiram os modelos mais sumptuosos e monumentais, como o Panteão de
Roma
As aras ou altares eram pequenas construções em forma de mesa onde se realizavam sacrifícios e
oferendas aos deuses, encontrando-se um pouco por todo o Império.
Mais grandiosos eram os santuários, constituídos por anfiteatros abertos para a paisagem e rodeados de
arcadas, atrás das quais havia templos, alojamentos para sacerdotes e crentes, loas e outras
dependências. Um dos mais conhecidos é o da Fortuna Primigénita.
A arquitetura pública
As construções públicas foram aquelas em que os Romanos melhor expressam o seu engenho técnico e
originalidade. Também traduziam o desejo de poder e de grandeza do Estado romano, pelo seu sentido
monumental e comemorativo.
Do tempo da República salientam-se principalmente as grandes obras de engenharia civil, com carácter
prático e utilitário: as estradas, as pontes e os aquedutos. Destaca-se, pela sua beleza, estrutural, o
Aqueduto-ponte do Gard.
O período imperial deu ênfase a construções com formas mais grandiosas e imponentes. Estes eles
destacam-se as basílicas, grandes salas retangulares, divididas em três ou cinco naves cobertas com
abóbodas de aresta e de berço e semicúpulas sobre as absides. Eram construções multifuncionais, pois
podiam albergar tribunais e cúrias que ladeavam os fóruns, ou fazerem partes de termas, mercados,
bolsas de mercadores e palácios imperiais. As fachadas eram ornamentadas e combinavam
entablamentos e colunas, à maneira grega, com arcadas, à maneira romana. Esta decoração exterior,
inaugurada no Tabalarium (edifício do arquivo central romano, erguido no século I a.C. e já desaparecido)
passou a ser aplicada também nos teatros, anfiteatros e termas. As basílicas mais conhecidas são as
basílicas Júlia e Emília, do período republicano, e a Úlpia e a de Maxêncio, do tempo do Império.
Na arquitetura do lazer salientam-se as seguintes construções:
• Os teatros. Seguiram os seus congéneres gregos nas formas, mas basearam-se num sistema
construtivo totalmente novo, já que se suportavam a si próprios graças aos complexos sistemas
de abóbodas das radiais e concêntricas que sustentavam as bancadas, podendo ser erguidos, por
isso em qualquer ponto das cidades. As bancadas elevavam-se à altura da cena e ligavam-se a
ela, fechando o recinto. A decoração exterior imitava a das basílicas.
• Os anfiteatros foram talvez os edifícios mais populares da arquitetura romana do lazer, devido à
sua função sociorrecreativa com a realização dos “jogos circenses”. De planta circular ou elíptica,
erguiam-se à altura de três ou quatro andares (usando a mesma técnica construtiva dos teatros),
sendo descobertos. Sob a arena, existiam variadíssimas dependências que poderíamos
considerar como os bastidores destas extraordinárias “salas de espetáculo”.
Ligados aos anfiteatros podemos também considerar os estádios- hipódromos, igualmente
chamados “circos”, onde se realizavam as corridas de cavalos.
• As termas ou balneários públicos – destinados a um grande número de pessoas -, foram
importantes locais de encontro e de convívio social. Frequentadas por ambos os sexos, mas em
áreas separadas, continham piscinas (de água quente – caldário, tépida – tepidário e fria –
figidário, e uma ao ar livre - natatio), vestiários (apoditério), saunas, ginásios, estádios,
hipódromos, salas de reunião, bibliotecas, teatros, lojas e escritórios (na galeria que contornava
externamente as termas), amplos espaços verdes ao ar livre onde se podia apanhar sol e assistir
a debates, concertos e recitais.
Com múltiplas funções (desportivas, culturais, sociais, lúdicas, de higiene e terapêuticas) que
exigiam uma construção de escala monumental, as termas foram notáveis pelo apurado sentido
de ordem e simetria das suas plantas, pela estruturação dinâmica e funcional dos seus interiores,
pela conjugação harmoniosa das várias volumetrias, pelas arrojadas coberturas abobadadas ou
cupuladas e pela articulação entre interiores e exteriores.
Símbolos do poder político, ostentavam ricas decorações com revestimento a mármore
policromo, belas composições de mosaicos, estuques dourados e muita estatuária artística.
A arquitetura comemorativa
O espírito histórico e triunfalista dos Romanos levou-os a edificar construções com o fim exclusivo de
assinalar, pela sua presença evocativa, as façanhas militares ou políticas dos grandes oficiais ou
imperadores. Estão neste caso as colunas honoríficas, como as de Trajano e de Marco Aurélio e,
sobretudo, os arcos do triunfo. Estes apresentavam um ou três fórnices (vãos) e eram ornamentados com
esculturas e relevos historiados.
A arquitetura privada
Na arquitetura privada, menos importante, mas igualmente inovadora, merecem destaque tipologias
distintas: a domus e a insula.
• A domus era a casa de família. Apesar de, ao longo do tempo, ter sofrido algumas variações – na
planta, nas dimensões e nos materiais -, antevê algumas variações – na planta, nas dimensões e
nos materiais -, manteve algumas características básicas. Era geralmente baixa e de um só piso,
por vezes dois, e tinha um telhado ligeiramente inclinado para o interior, coberto com telhas de
cerâmica. Tinha poucas aberturas para o exterior, para além da porta principal. Estava, por isso,
virada para si própria e as várias dependências organizavam-se em torno de um ou dois pátios
interiores (atrium e peristilo), através dos quais se fazia a circulação das pessoa, a ventilação e a
iluminação.
A decoração interior era feita com pavimentos de mármore policromo ou de mosaicos e as
paredes das divisões nobres (triclinium ou sala de jantar, e tablinum ou escritório) eram
decoradas com frescos.
• As villae eram variantes da domus, contruídas fora das cidades, em aprazíveis locais rurais e
rodeadas de grandes e belos jardins. Os imperadores e a suas famílias mandaram contruir villae
grandiosas – autênticos palácios -, que também albergavam os criados, as milícias e as comitivas
políticas.
A outra tipologia consistia em prédios urbanos de rendimento, destinados a alojar as famílias
mais pobres – as insulae. Tinham, em média, três a quatro andares, mas algumas chegaram a
atingir, na época de Augusto, seis a sete andares, com cerca de 21 metros de altura. Os rés do
chão, normalmente recuado, era destinado ao comércio com lojas viradas para a rua. Os andares
superiores tinham uma multiplicidade de pequenos apartamentos – os cenacula.
Verdadeiras colmeias humanas, as insulae eram construídas em materiais mais povres – tijolo,
madeira, taipa -, faltando-lhes abastecimento direto de água e esgotos (estes só existiam ao nível
do rés do chão).
Estavam sujeitas a incêndios, difíceis de combater porque os acessos eram estreitos e impediam
uma evacuação rápida. Os pés-direitos de pouca altura e o exagerado número de andares,
associados à estreiteza das ruas, prejudicavam o arejamento e a exposição solar.
O urbanismo
Motivado por necessidades políticas, militares económicas – passagem dos cortejos triunfais,
movimentação das tropas e dos abastecimentos dentro das cidades -, o urbanismo romano teve carácter
ornamental e monumental.
A preocupação urbanística centrava-se no traçado das vidas principais, que atravessavam as cidades
quase em linha reta, e no arranjo dos fóruns, centros políticos, religiosos e económicos das urbes.
Foi nos fórus que os Romanos edificaram as construções mais importantes. Eles constituem o síntese da
arquitetura e civilização romanas, formando conjuntos orgânicos, únicos e grandiosos, repletos de
significado e História.
Do maior arrojo urbanístico foram os traçados para as cidades que os romanos construíram de novo, em
várias partes do império onde a vida urbana se encontrava menos desenvolvida – Gália, Germânia e
Hispânia.
Estes derivaram principalmente da organização dada aos acampamentos militares.
Caracterizaram-se pelo traçado em retícula, ou seja, em rede ortogonal, das ruas e dos quarteirões,
atravessado por duas vias principais que seguiam a direção dos pontos cardeais – o cardo (sentido norte-
sul) e o decumano (sentido este-oeste).
A escultura: o Homem enquanto indivíduo
A escultura romana revelou, desde sempre, características realistas, centradas na personalidade do
indivíduo, o que decorre das suas raízes estéticas etruscas. A arte etrusca usava o retrato nos túmulos,
modelando as efígies dos mortos, e daí o verismo e gosto pelo detalhe que é muito evidente.
Assim, no período republicano, a escultura romana eternizou a memória dos homens através de retratos,
imagens reais, que evidenciavam o carácter e a psicologia dos retratados, pela descrição dos traços
distintivos e únicos, até por vezes acentuado impiedosamente os “defeitos” e as características
fisionómicas: olhos, sobrancelhas, boca, barba e cabelo, bem como as marcas do tempo e do sofrimento
humano. Este efeito era realçado pela pintura que cobria todas as peças.
Estas regras de representação estiveram ligadas, inicialmente, à função religiosa do culto dos
antepassados, herdados dos Etruscos, e às práticas funerárias. Era próprio das famílias patrícias
mandarem fazer máscaras de cera dos seus mortos ilustres – imagines maiorum -, que depois eram
conservadas nos altares de culto doméstico – Penates.
O retrato fúnebre concretizava-se em cabeças, bustos ou figuras de corpo inteiro, consoante a vontade
e/ou o poder económico das famílias. A partir de Octávio, os retratos-estátuas dos imperadores passaram
a exercer um importante papel político e propagandístico, levando a imagem do poder a todas as partes
do Império.
O Alto Império foi não só a época de maior produção escultórica, como também o tempo em que melhor
se desenvolveu o gosto pelo colecionismo de esculturas gregas para decorar casas, jardins e balneários.
Assim, as oficinas produziram obras em série que se disseminavam por todo o território romano.
(Baixo Império) com a decadência do Império, o retrato tornou-se mais simplificado sofrendo influências
de estéticas helenístico – oriental, sendo, por isso, mais frontal e hierático. O cristianismo, com os seus
conceitos de imortalidade e espiritualidade, reduziu a representação a símbolos.
Por vezes, o retrato dos imperadores podia ser feito sob a forma de estátuas equestres que seguiram a
tradição grega. Foram usadas por Roma no intuito de servirem as suas intenções documentais,
celebratórias e comemorativas.
O relevo, subordinado à arquitetura, teve fins ornamentais, narrativos e propagandísticos (ou
comemorativos), relatando a História de Roma e a vida dos homens. Esteve presente em estelas
funerárias, sarcófagos, altares, frisos, arcos de triunfo e colunas.
Hierático - estilo que obedece aos parâmetros religiosos, sempre com acentuada rigidez
Tecnicamente, os artistas exploraram a profundidade através da gradação de planos e combinaram
diferentes tipos de relevo – alto, médio e baixo, até ao relevo esmagado (relevo negativo, isto é, escavado
abaixo do nível da superfície trabalhada), obtendo efeitos de perspetiva e construção espacial. A técnica
usada na narrativa e contínua foi a repetição da figura principal no decorrer das cenas; esta é colocadas à
frente e as restantes em planos secundários e postas lado a lado, numa disposição paratática. Como na
Grécia, os relevos romanos eram pintados.
Os melhores exemplos estão nos arcos de triunfo de Tito e de Constantino, nas colunas de Trajano e
Marco Aurélio e na Ara Pacis de Augusto.
A decoração dos sarcófagos desenvolveu-se a partir do século I.
Tinham inicialmente um medalhão com um retrato do defunto, mas posteriormente, passaram a ser
decorados com cenas mitológicas ou da vida do morto. Tornaram-se frequentes com o crescimento do
cristianismo.
A pintura e o mosaico: a vida enquanto forma de arte
A pintura foi praticada nas paredes interiores (pintura mural), feita a fresco ou encáustica; ou em painéis
móveis de madeira (pintura móvel), feita e encáustica/ou têmpera.
As origens da pintura romana encontram-se nos Etruscos (século VI a V a.C.), que tinham o hábito de
pintar as paredes interiores dos túmulos e, mais tarde, das duas casas. Nessa civilização, a pintura teve
duas funções, a de proteção e a de embelezamento. Possuía uma grande vivacidade narrativa e uma
plástica expressiva, linear e vigorosa.
A influência egípcia fez-se sentir, sobretudo, na época imperial, após a conquista deste território,
marcando especialmente a arte do retrato.
Entre as temáticas mais usadas destaca-se a pintura triunfal, relatando cenas históricas, que era usada
com funções documentais e comemorativas. Data do século III a a.C. e tem origem etrusca. Tal como
aconteceu nos relevos, a pintura triunfal recorre estilisticamente, à narrativa contínua, cheia de
pormenores formais. Um exemplo desta temática é a pintura que celebra o casamento de Alexandre
Magno.
Outros temas muito frequentes foram os mitológicos que relatavam os mistérios e a vida dos deuses.
As cenas, às vezes muito fantasiadas, são-nos contadas em composições ricas de personagens e de
colorido.
Aparecem também algumas paisagens de carácter bucólico e poético. A representação é ora sonhadora
ora fantasista e, por vezes, realista.
Outros temas são as naturezas-mortas e as cenas de género, pequenas obras obras-primas de realismo
técnico e atenção ao pormenor.
Os retratos, tão caros ao individualismo romano, foram abundantes nas habitações. Eram executados
sobre diversos suportes (madeira, metal e parede), usando diferentes técnicas (frescos e encáustica).
Estas pinturas tiveram funções simbólicas, alegóricas e, sobretudo, decorativas.
Nas casas, a pintura revestia as paredes de várias divisões – atrium, peristilo, triclinium, tablinum…. –
Tornando-as um lugar aprazível, acolhedor e fresco, o local de refúgio dos seus proprietários, de gosto
requintado e amantes das artes.
Locais privilegiados para a observação da pintura romana são as ruínas das cidades de Pompeia, Herculano
e Stabias soterradas pelas cinzas do vulcão Vesúvio em 79 d.C. Nas diferentes casas de Pompeia
encontram-se os quatro estilos de pintura romana datados de entre o século II a.C. e a data da catástrofe.
A diversidade da pintura de Pompeia revela a mestria dos pintores romanos, quer na veracidade da
representação, quer na composição e seu efeito na ampliação dos espaços arquitetónicos, construindo
ilusões (trompe-l’oeil) e fazendo as primeiras tentativas da representação perspetivada do espaço.
A tradição do mosaico esteve ligada à pintura e é desta arte que retira o estilo e o colorido. O mosaico é
feito com pequenas tesselas de materiais de cores varias (mármores, pedras e vidro), aplicadas sobre a
argamassa fresca que cobria os locais de suporte – inicialmente o chão, depois as paredes exteriores e até
os tetos de pequenas cúpulas.
A mais típica decoração em mosaico data dos séculos III e II a.C e é formada por uma espécie de tapetes
que recobrem, parcial ou totalmente, o chão de algumas divisões com composições complexas de motivos
geométricos, servindo de moldura a pequenos motivos figurativos: aves, pássaros, peixes, deuses.
Os grandes temas dos mosaicos são os mesmos da pintura. Desenvolveram-se em composições figurativas
– episódios históricos, mitológicos, cenas de caça, jogos, cenas de género, naturezas mortas e,por vezes,
passagens humorísticas e cenas em trompe-l’oeil.
O mosaico mural romano espalhou-se por todo o Império e atingiu o seu apogeu no século IV, sendo
posteriormente continuado nas artes paleocristãs, bizantina e românica.