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Pneumonia Associada à Ventilação Mecânica

O documento discute a pneumonia associada à ventilação mecânica (PAV), que é uma infecção pulmonar comum em pacientes em ventilação. A PAV aumenta o tempo de internação, ventilação e letalidade. Estudos no Brasil mostraram altas taxas de PAV, e fatores de risco incluem comorbidades pré-existentes e permanência prolongada em ventilação. Melhor entendimento da epidemiologia da PAV pode levar a intervenções para reduzir suas taxas.

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Aline Lacerda
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Pneumonia Associada à Ventilação Mecânica

O documento discute a pneumonia associada à ventilação mecânica (PAV), que é uma infecção pulmonar comum em pacientes em ventilação. A PAV aumenta o tempo de internação, ventilação e letalidade. Estudos no Brasil mostraram altas taxas de PAV, e fatores de risco incluem comorbidades pré-existentes e permanência prolongada em ventilação. Melhor entendimento da epidemiologia da PAV pode levar a intervenções para reduzir suas taxas.

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Editorial

Pneumonia associada à ventilação mecânica


Ventilator-associated pneumonia

CARLOS ROBERTO RIBEIRO DE CARVALHO

Nos últimos 50 anos, o uso do suporte venti- tórias foram as mais freqüentes, correspondendo a
latório invasivo, sem nenhuma dúvida, foi um 58,5% dos casos. (1)
avanço no tratamento da insuficiência respirató- Um outro estudo, conduzido em 99 hospitais
ria. Apesar de salvar muitas vidas, a aplicação de brasileiros, demonstrou que a pneumonia foi res-
uma pressão positiva nos pulmões, através de uma ponsável por 28,9% de todas as infecções nosoco-
prótese colocada nas vias aéreas, pode gerar uma miais e, destas, 50% ocorreram em pacientes ven-
série de efeitos adversos. São bem reconhecidas: tilados mecanicamente. (2) Esses dois estudos dão
a instabilidade hemodinâmica, principalmente nos uma idéia da importância desse problema: muito
pacientes hipovolêmicos; a maior freqüência de freqüente, com alta morbidade, que gera enorme
infecções respiratórias, devido à redução dos custos hospitalares e alta mortalidade.
mecanismos de defesa locais pela presença do Uma dificuldade para a realização desse tipo de
tubo; e, mais recentemente, a lesão induzida pela avaliação reside na falta de um critério diagnóstico
ventilação mecânica, que está associada às altas preciso. A PAV é definida como uma infecção pulmo-
pressões alveolares que são atingidas em algu- nar que surge 48 a 72 h após intubação endotraque-
mas unidades decorrentes de um pulmão doente, al e instituição da ventilação mecânica invasiva.(3) A
bastante heterogêneo. suspeita de PAV ocorre quando do aparecimento
Essas alterações estão relacionadas a uma de infiltrado pulmonar novo ou progressivo à radio-
maior morbidade, devido às repercussões sistê- grafia do tórax, associado à presença de sinais clí-
micas que provocam, gerando um aumento dos nicos e alterações laboratoriais definidos como:
custos da internação hospitalar, assim como a uma febre (> 38 oC), leucocitose (> 10.000/mm3) ou leu-
maior mortalidade desses pacientes. copenia (< 4.000/mm3) e presença de secreção tra-
Nesse contexto, a pneumonia associada à ven- queal purulenta.(4) Porém, a acurácia desses critérios
tilação mecânica (PAV) encontra-se como um dos é baixa. Assim, deve ser valorizada a presença de
efeitos adversos mais temíveis no ambiente da mais de um critério clínico associado ao critério
terapia intensiva. Para podermos aplicar alguma radiológico para aumentar a sensibilidade e a es-
intervenção terapêutica, o primeiro passo é o re- pecificidade. A utilização apenas de critérios clínicos
conhecimento da extensão do problema. Porém, pode incorrer em erro diagnóstico e em tratamentos
existem poucos estudos avaliando a epidemiologia inadequados. Note-se que esses critérios são bas-
da PAV no Brasil. tante inespecíficos e podem estar presentes numa
Um estudo transversal (prevalência de um dia) série de situações às quais os pacientes graves es-
realizado em dezenove unidades de terapia in- tão expostos, como atelectasias, edema pulmonar
tensiva (UTI) (170 camas - 126 pacientes inter- cardiogênico, infarto pulmonar, síndrome do des-
nados) de um hospital universitário terciário em conforto respiratório agudo e hemorragia alveolar.
São Paulo avaliou a prevalência das infecções Visando a melhorar a probabilidade da presença
adquiridas na UTI. No dia do estudo, 69% dos de PAV, Pugin et al. criaram o Clinical Pulmonary
pacientes tinham diagnóstico de infecção e rece- Infection Score (CPIS) baseando-se, além dos acha-
biam tratamento com antimicrobianos. Cerca de dos clínicos no momento da suspeita diagnóstica,
31% dos pacientes adquiriram essa infecção du- na bacterioscopia e nos cultivos do aspirado tra-
rante a internação na UTI e 33% a adquiriram no queal. (5) Trata-se de um índice de no máximo doze
hospital, porém fora da UTI. As infecções respira- pontos, que quando for superior a seis revela uma

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alta probabilidade de PAV (sensibilidade de 93% e ram diagnóstico de PAV e os que não o tiveram.
especificidade de 100%). Esses resultados iniciais Através de regressão logística, os fatores relacio-
altamente positivos não se confirmaram em estudos nados ao desenvolvimento de PAV foram sinusite
posteriores, em que se observou acurácia seme- aguda, atelectasia, imunodepressão, síndrome do
lhante à dos critérios clínicos. desconforto respiratório agudo e permanência em
Recentemente, um estudo conduzido em seis ventilação mecânica por mais de dez dias. (7)
hospitais de Buenos Aires, Argentina, demonstrou Este trabalho possibilita à equipe assistente da
que a utilização prospectiva e seriada de uma ver- UTI o reconhecimento dos agentes infecciosos mais
são simplificada do CPIS (máximo de dez pontos) comuns naquela unidade. Assim, as comissões de
identificou precocemente o desenvolvimento de controle de infecção hospitalar de cada centro
PAV, antes do aparecimento dos sinais clínicos clás- médico devem, periodicamente, informar a chefia
sicos da doença.(6) Neste estudo, os pacientes tra- da respectiva UTI o perfil de sensibilidade aos an-
tados com antibiótico adequado e dentro de 24 h timicrobianos dos micróbios mais freqüentes, pois
da suspeita clínica pelo CPIS apresentaram menor se sabe que o tratamento inicial com antibióticos
mortalidade. Novos estudos necessitam ser reali- adequados está associado ao maior sucesso no
zados para validação deste conceito. controle da PAV (menor mortalidade).
Os fatores de risco para o desenvolvimento da Outro dado fundamental é a definição dos fa-
PAV podem ser classificados em modificáveis e não tores associados ao desenvolvimento de PAV na-
modificáveis. Fatores de risco não modificáveis são: quela unidade. Após este tipo de estudo, inter-
idade, escore de gravidade quando da entrada do venções podem ser programadas para reduzir a
paciente na UTI e presença de co-morbidades (in- freqüência deste tipo de infecção hospitalar que,
suficiência cardíaca, doença pulmonar obstrutiva neste estudo,(7) foi de 35,7 casos/1.000 dias de
crônica, diabetes, doenças neurológicas, neopla- ventilação mecânica. Essa taxa está bem acima das
sias, traumas e pós-operatório de cirurgias). taxas encontradas mais recentemente nos hospi-
Os fatores modificáveis estão relacionados ao tais norte-americanos. Para uma UTI geral (com
ambiente (microbiota) da própria UTI. Dessa forma, pacientes clínicos e cirúrgicos) de um hospital
o conhecimento dos germes mais freqüentes na universitário nos EUA, a mediana de PAV é de 4,6
unidade é fundamental. Isto favorece a prescrição PAV/1.000 dias de ventilação mecânica e o per-
racional e dirigida dos antimicrobianos, uma vez centil 90% é de somente 9,9. (8)
que, frente a uma suspeita de PAV, o tratamento Creio que mais estudos epidemiológicos sobre
empírico deve ser prontamente instituído. PAV em diferentes hospitais brasileiros devem ser
Neste número do Jornal Brasileiro de Pneumo- conduzidos para que nossa realidade fique mais
logia, Guimarães e Rocco apresentam o resultado transparente e para que medidas corretivas pos-
de um estudo observacional conduzido na UTI de sam ser implementadas quando isto se justificar.
um hospital universitário, no Rio de Janeiro, que
visou a obter a prevalência de PAV em pacientes CARLOS ROBERTO RIBEIRO DE CARVALHO
submetidos à ventilação mecânica por um período Professor Associado; Livre Docente de Pneumologia;
Chefe da UTI - Respiratória do Hospital das Clínicas da
superior a 24 h. Visou ainda à definição de quais
Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo -
fatores estariam associados ao desenvolvimento de FMUSP - São Paulo (SP) Brasil
PAV, assim como seu prognóstico hospitalar.(7)
Durante dezoito meses, ocorreram 808 inter-
nações e 278 pacientes foram incluídos no estudo
REFERÊNCIAS
e, destes, 38,1% desenvolveram PAV. Quase metade
das pneumonias foi por bacilos Gram negativos 1. Toufen Junior C, Hovnanian AL, Franca SA, Carvalho
CRR. Prevalence rates of infection in intensive care
(45,3%) e 43,4% por germes multi-resistentes. units of a tertiary teaching hospital. Rev Hosp Clin Fac
Observaram que a PAV aumentou o tempo de venti- Med Sao Paulo. 2003;58(5):254-9.
lação mecânica dos pacientes, e sua permanência 2. Prade SS, Oliveira ST, Rodrigues R, Nunes FA, Netto
na UTI e no hospital. Porém, apesar de uma alta EM, Felix JQ, et al. Estudo brasileiro da magnitude das
infecções hospitalares em hospitais terciários. Rev Contr
letalidade no grupo (45,3% na UTI e 55,8% no Infec Hosp. 1995;2:11-24.
hospital), não houve diferença entre os que tive- 3. Pereira CA, Carvalho CRR, Silva JLP, Dalcolmo MMP, Messeder

J Bras Pneumol. 2006;32(4):xx-xxii


OHC. Parte II - Pneumonia [Link] Brasileiro 6. Luna CM, Aruj P, Niederman MS, Garzon J, Violi D,
de Pneumonias em indivíduos adultos imunocompetentes. Prignoni A, et al. Appropriateness and delay to initiate
J Pneumol. 2001;27(Supl 1): S22-S40. therapy in ventilator-associated pneumonia. Eur Respir
4. Johanson WG Jr, Pierce AK, Sanford JP, Thomas GD. J. 2006;27(1):158-64.
Hospital-acquired respiratory infections with gram- 7. Guimarães MMQ, Rocco JR. Prevalência e prognóstico
negative bacilli. The significance of colonization of the dos pacientes com pneumonia associada á ventilação
respiratory tract. Ann Intern Med. 1972;77(5):701-6. mecânica em um hospital universitário. J Bras Pneumol.
5. Pugin J, Auckenthaler R, Mili N, Janssens JP, Lew PD, 2006;32(4):339-46.
Sutter PM. Diagnosis of ventilator-associated pneumonia 8. National Nosocomial Infections Surveillance (NNIS)
by bacteriologic analysis of bronchoscopic and System Report, data summary from January 1992
nonbronchoscopic “blind" bronchoalveolar lavage fluid. through June 2004, issued October 2004. Am J Infect
Am Rev Respir Dis. 1991;143(5 Pt 1):1121-9. Control. 2004;32(8):470-85.

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