Protestantes na Literatura de Cordel
Protestantes na Literatura de Cordel
1
Doutora em História pela Ponticífia Universidade Católica de São Paulo. Tutora no Centro de
Educação a Distância do Polo Recife da Universidade Anhanguera de São Paulo. Vice-Coordenadora
do Grupo de Trabalho Histórico Ecumênico Organizado – GTHEO, onde coordena a pesquisa sobre a
catalogação e digitalização de fontes de instituições religiosas no Recife. E-Mail:
<mrdevasconcelos@[Link]>.
2
SLATER, Candece. A vida no barbante: a literatura de cordel no Brasil. Tradução de Octavio Alves
Velho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1984, p. XIII.
3
CURRAN, Mark. J. A literatura de cordel. Recife: UFPE, 1973, p. 32.
4
MEYER, Marlyse. Autores de cordel. São Paulo: Abril Educação, 1980, p. 08-09.
5
TERRA, Ruth Brito Lemos. Memória de lutas: primórdios da literatura de folhetos do Nordeste (1890-
1930). Dissertação (Mestrado em Linguística e Línguas Orientais). Universidade de São Paulo. São
Paulo, 1978, p. 44-45.
SÆCULUM - REVISTA DE HISTÓRIA [36]; João Pessoa, jan./jun. 2017. 45
ocorreu em 1855, quando o casal Robert Reid Kalley e Sarah Poulon Kalley chegou
ao Rio de Janeiro. As denominações presbiteriana e batista também virão se
estabelecer no Brasil. A Junta de Missões Estrangeiras da Igreja Presbiteriana do
Norte dos Estados Unidos envia em 1859 seu primeiro missionário ao Brasil; pouco
depois, Ashbel Green Simonton começa seu trabalho como capelão. Por sua vez, os
primeiros missionários batistas a atuar no país foram o casal Willian Buck Bagby e
Anne Luther Bagby, que chegam ao país somente em 1881. Assim como os
metodistas e episcopais, de modo que, no final do século XIX, as principais
denominações protestantes já se encontravam no território nacional.
A atuação destes missionários não passou despercebida por Gustavo Barroso,
autor contemporâneo, que relatou suas impressões da penetração dos protestantes
pelo Nordeste:
Deste modo, foi com estas figuras – missionários e neófitos – que os cordelistas
devem ter tido contato, ouvindo suas pregações ou, pelo menos, lendo os impressos
que aqueles distribuíam. A partir da nossa pesquisa sobre a caracterização do
protestante por estes cordelistas, quatro aspectos serão destacados: a presença da
Bíblia, o debate em torno do culto a Maria, as discussões sobre o uso de imagens
sacras e, por fim, a descrição física dos indivíduos adeptos do cristianismo reformado.
O livro do nova-seita
Uma das formas populares de referir-se àqueles que professavam algumas das
denominações protestantes é a expressão nova seita, como esclarece Barroso:
6
BARROSO, Gustavo. Ao som da viola. Rio de Janeiro: Leite Ribeiro, 1921, p. 506.
7
BARROSO, Ao som da viola, p. 506.
46 SÆCULUM - REVISTA DE HISTÓRIA [36]; João Pessoa, jan./jun. 2017.
A expressão aparece em diversos folhetos de cordel, os quais passamos a citar em
seguida, destacando as características que se atribuem aos “nova seita”. A partir das
estrofes de alguns cordéis, nota-se a presença da Bíblia como uma referência
característica da ação dos protestantes. É o que se percebe no cordel O diabo
confessando um nova seita, no qual as personagens são as do título:
Como se vê, o diabo, apresentado como o “padrasto” (em oposição ao Deus Pai)
dos nova-seitas, é caracterizado, entre outros aspectos, por portar “um livro na
mão”, provavelmente uma Bíblia. Neste folheto não fica claro se o poeta mostra um
relativo desconhecimento das práticas dos protestantes ou se usa de ironia, uma vez
que descreve um nova-seita confessando-se, norma que não se observa nas
denominações protestantes.
Note-se, além disso, que a frase “Trazendo um livro na mão”, relaciona-se a um
aspecto recorrente nos cordéis: a caracterização dos protestantes com portadores de
uma Bíblia.
Em A Alma de uma Sogra, de autoria do mesmo cordelista, um velho tabelião
descreve as características de cada uma das cinco sogras que teve. Para caracterizar
uma delas, os versos dizem assim:
Ou seja, o que indicava que a mesma era “nova seita” é a posse de uma Bíblia.
O destaque conferido às Escrituras pelos cristãos reformados relaciona-se com os
graus diversos de importância da cultura escrita para cada uma das vertentes cristãs.
A relação entre protestantismo e leitura tornou-se tão peculiar que no decurso de
algumas gerações, o abismo entre protestantes e católicos havia se ampliado a ponto
de gerar culturas literárias e modos de vida contrastantes10.
8
BARROS, Leandro Gomes de. O diabo confessando um nova seita. Recife: Imprensa Industrial, [s/d.],
p. 2. Instituto de Estudos Brasileiros - IEB/USP, Arquivo. Fundo Villa Lobos, no 09.
9
BARROS, Leandro Gomes de. A alma de uma sogra. S/l: s/n, s/d, p. 8.
10
EISENSTEIN, Elizabeth L. A Revolução da Cultura Imprensa. Os primórdios da Europa Moderna.
Trad. São Paulo: Ática, 1998, p. 174.
SÆCULUM - REVISTA DE HISTÓRIA [36]; João Pessoa, jan./jun. 2017. 47
Note-se, porém, que há indício diverso da presença da leitura de trechos da Bíblia,
juntamente com outros de teor religioso, entre os nordestinos ainda no século XIX.
Trata-se de uma versão impressa, resumida e em linguagem popular chamada Missão
Abreviada que, tendo sido introduzida em Portugal, circulou no Nordeste desde a
segunda metade do Dezenove11. De acordo com Câmara Cascudo, edições da Missão
Abreviada, cujo autor era o padre Manuel Couto, tinham tiragens de 12.000 volumes.
Da Missão provinham recursos de orações, explicações de fácil teologia, resposta às
curiosidades irreverentes, regimes de jejuns, dietas sagradas, abstinências, catecismo,
regras morais12.
Estas publicações eram distribuídas pela Santa Missão, levada a cabo pelos
lazaristas franceses e, principalmente, pelos frades capuchinhos italianos, no século
XIX, os quais, além de pregarem e ministrarem os sacramentos, coordenavam
trabalhos coletivos de “obras públicas”, isto é, de benfeitorias para uso da população,
tais como pontes, estradas, açudes, etc13. Estas missões tinham por fim afervoramento
religioso, ocasião de conversões, e regularização de vida, reconciliação de ódios,
afastamento dos abusos e superstições, volta aos sacramentos14.
Os capuchinhos e suas missões no interior do Nordeste, especialmente entre
Alagoas e Pernambuco, foram reintroduzidos nos anos 1840, com o fim de pacificar
indígenas e camponeses sublevados. Seus membros eram recrutados no sul da
península itálica, dentre os camponeses, treinados em Roma pela Propaganda Fide a
respeito das peculiaridades da língua e da sociedade brasileira. Desta forma, os
capuchinhos e outras ordens mendicantes, especialmente capacitados para o convívio
com os “rústicos” e “simples” camponeses — aos quais falavam na sua própria e rude
língua e traduziam a “palavra de Deus”15 contribuíram para a construção de [uma]
cultura religiosa popular oralmente transmitida no sertão nordestino que guarda forte
relação com tradições católicas16.
É provável, igualmente, que a imprensa tenha sido outra forma pela qual os
cordelistas tenham tido contato com as disputas entre católicos e protestantes. No
período do qual tratamos, as polêmicas religiosas se deram com maior evidência na
imprensa secular, proporcionando um momento também marcado pelo surgimento
de vários jornais católicos e protestantes17. Mas vale ressaltar que essas polêmicas já
11
ANTONACCI, Maria Antonieta. “Tradições de oralidade, escritura e iconografia na literatura de
folhetos: nordeste do Brasil, 1890/1940”, Projeto História. São Paulo, PUC-SP, n. 22, jun. 2001, p.
117.
12
CASCUDO, Luís da Câmara, Vaqueiros e catadores. São Paulo: Itatiaia; EDUSP, 1984, p. 131.
13
HOORNAERT, Eduardo. O cristianismo moreno do Brasil. Petrópolis: Vozes, 1991, p. 50, p. 52.
14
FRAGOSO, Hugo. “A igreja-instituição”. In: BEOZZO, José Oscar (coord.). História da Igreja no Brasil.
Petrópolis: Vozes, 1989, p. 209.
15
PALACIOS, Guillermo. “Campesinato e Escravidão: uma proposta de periodização para a história dos
cultivadores pobres livres no Nordeste Oriental do Brasil: c. 1700-1875”. Dados – Revista de Ciências
Sociais, Rio de Janeiro, vol. 30, n. 3, 1987, p. 344-345.
16
BRITO, Gilmário M. Cultura e linguagem em folhetos religiosos do Nordeste. Tese (Doutorado em
História). Pontifica Universidade Católica de São Paulo. São Paulo, 2001, p. 170.
17
Ver, por exemplo: “EM AÇÃO!”. A Provincia. Recife, Columna Religiosa, n. 221, 28 set. 1902, ano
XXV, p. 01. FREI CELESTINO. “Combate ao protestantismo. Carta Aberta”. A Provincia. Recife, n.
221, 28 set. 1902, ano XXV, n. 01.
48 SÆCULUM - REVISTA DE HISTÓRIA [36]; João Pessoa, jan./jun. 2017.
estavam presentes no período Imperial, como resultados de embates com o
ultramontanismo católico.
Ao incentivar a leitura da Bíblia por parte dos fiéis sem a intermediação
eclesiástica, os missionários reformados estariam estimulando a livre interpretação.
Esta, por sua vez, seria ainda mais perigosa, segundo as autoridades católicas, se
feita sobre um texto dito “adulterado” ou “truncado”. A referência constante pela
prédica oficial católica à 'adulteração' sofrida pela Bíblia nas mãos dos protestantes
diz respeito à ausência dos sete livros do Velho Testamento, considerados apócrifos
pelos protestantes: Baruc, dois livros de Macabeus, Judite, Tobias, Eclesiásticos e
Sabedoria.
Tomemos, ainda sobre este aspecto, duas estrofes de outro cordel de Leandro
Gomes de Barros, chamado O debate do ministro nova-seita com o urubu18. Este
folheto inclui-se no gênero “peleja e discussão”. A peleja reproduz disputas poéticas
entre cantadores, sendo a maior parte imaginada pelo cordelista. A “discussão” é uma
paródia da peleja, onde reproduz um debate entre duas partes com diferentes
opiniões ou visões de mundo19. A disputa em torno da leitura da Bíblia pelos
protestantes ganha ênfase na discussão entre as personagens:
18
Apud BARROSO, Ao som da viola, p. 506-13.
19
MEYER, Marlise. Autores de cordel. Seleção de textos e estudo crítico por M. Meyer. São Paulo: Abril
Educação, 1980, p. 98.
20
PELIKAN, Jaroslav. Maria através dos séculos: seu papel na história da cultura. São Paulo: Companhia
das Letras, 2000, p. 210.
21
DREHER, Martin. A crise e a renovação da igreja no período da Reforma. São Leopoldo: Sinodal,
1996, p. 55.
SÆCULUM - REVISTA DE HISTÓRIA [36]; João Pessoa, jan./jun. 2017. 49
o ministro aponta que a fonte de sua crença é única e exclusivamente a leitura da
Bíblia.
E porque a nova-seita
Detesta Nossa Senhora?
Sendo mais clara que o dia,
Sendo mais pura que a aurora?
O nova-seita morrendo,
Não vê o céo nem por fôra.
..................................................
Eu sou urubú, mas creio,
Juro por fé e verdade,
Que Maria nasceu pura,
E faz parte da divindade,
Deu a luz a Jesus Christo,
Conservando a virgindade.
...........................................
22
MEGALE, Nilza Botelho. 107 Invocações da Virgem Maria no Brasil: História, folclore e iconografia.
Petrópolis: Vozes, 1980, p. 13, p. 112-113.
23
In: BARROSO, Ao som da viola, p. 506-513.
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Então, disse o nova-seita:
Eu creio em meu Salvador,
Pois foi quem morreu por mim,
Foi elle o meu redemptor.
Perguntou-lhe o urubú:
Não teve mãe o senhor?
Nestas estrofes, percebemos que o que mais incomoda ao urubu é a negação pelos
“nova-seitas” dos dogmas católicos, a exemplo da imaculabilidade de Maria e do seu
culto. Foi o papa Pio IX o proclamador do dogma da Imaculada Conceição, como
podemos ver em um trecho da encíclica Ineffabilis Deus de 1854:
24
COSTA, Lourenço. (org.). Documentos da Igreja: documentos de Gregório XVI e Pio IX. São Paulo:
Paulus, 1999, p. 184.
25
BARROS, L. G. de. O diabo na nova-seita. Instituto de Estudos Brasileiros – IEB/USP: Fundo Villa
Lobos, no 09.
SÆCULUM - REVISTA DE HISTÓRIA [36]; João Pessoa, jan./jun. 2017. 51
ou para o catimbó, referências ao protestantismo e aos cultos afro-brasileiros no
Nordeste. O diabo-pai, no entanto, adverte-o que ambas seriam más escolhas. Sem
dar ouvidos ao pai, o diabo filho convida alguns animais a participar da nova-seita
com ele. As estrofes seguintes narram o mal que aconteceu aos animais que já haviam
freqüentado o culto dos nova-seitas. Por fim, convencido do mal que seria aderir à
nova-seita, conclui o diabo filho:
26
BARROS, O diabo na nova-seita, p. 05.
27
In: LITERATURA Popular em Verso. Antologia, tomo V. Leandro Gomes de Barros – 3. Rio de
Janeiro: Ministério da Educação e Cultura, Fundação Casa de Rui Barbosa; João Pessoa:
Universidade Federal da Paraíba, 1980, p. 58-64.
52 SÆCULUM - REVISTA DE HISTÓRIA [36]; João Pessoa, jan./jun. 2017.
mantém como um divisor entre cristãos católicos e os reformados, até os nossos dias.
A característica mais óbvia — diz-nos Jaroslav Pelikan — da posição que Maria
ocupou na Reforma protestante foi a crítica e a rejeição daquilo que fora considerado
como devoção e ensinamento medievais excessivos28. Na forma em que aparece nos
cordéis aludidos, percebe-se a relevância deste aspecto na perspectiva dos cordelistas
acerca da prédica protestante.
Ressalte-se, porém, que este poeta, ao defender os dogmas marianos, não tem em
vista a defesa da religião católica enquanto instituição. Voltemos ao cordel intitulado
Debate entre o ministro nova-seita com o urubu: nele, a figura que representa o padre
é a do urubu, devido à indumentária de cor preta usada pelos clérigos seculares; tal
alegoria denota a ironia em relação à hierarquia oficial da Igreja Católica, à qual o
autor devotava aguda ojeriza29.
Vale destacar a utilização da figura do urubu como o defensor do catolicismo. O
urubu é uma ave agoureira e pouco simpática no folclore, egoísta, orgulhosa, solitária,
esperta, astuta e raramente enganada30. O uso do urubu como representante do
catolicismo no debate nos revela uma das características da obra de Leandro G. de
Barros que era o anticlericarismo, apesar de ser católico, o autor criticava a postura
desmoralizada de alguns padres.
28
PELIKAN, Maria através dos séculos, p. 208.
29
MAYA, Ivone. In: WERNECK, Alexandre, “Os donos da voz”, Nexo – Revista da FAPERJ. Rio de
Janeiro, n. 31, set. 2003, p. 04.
30
CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro – Vol. 2. Ed. Rev. São Paulo: Global,
2002, p. 762.
31
PELIKAN, Maria através dos séculos, p. 209-10.
32
DREHER, Martin. A crise e a renovação da igreja no período da Reforma. São Leopoldo: Sinodal,
1996, p. 53-54.
SÆCULUM - REVISTA DE HISTÓRIA [36]; João Pessoa, jan./jun. 2017. 53
dos protestantes falar em alcançarem salvação certa por serem “nova-seita”, na
contestação dos dogmas católicos e de suas práticas pelos devotos.
33
In: BARROSO, Ao som da viola, p. 508-9.
34
AZZI, Riolando. O catolicismo popular no Brasil: aspectos históricos. Petrópolis: Vozes, 1978, p. 13-21.
54 SÆCULUM - REVISTA DE HISTÓRIA [36]; João Pessoa, jan./jun. 2017.
cordel o Debate do ministro nova-seita e o urubu, nos dão uma idéia de como esta
divergência se desdobra e foi percebida pelos cordelistas:
O fim da peleja (pois não deixa de ser neste estilo que o urubu e o nova-seita se
confrontam), é bem significativo, trazendo elementos católicos caros aos seus fiéis
para condenar o nova-seita e valorizar a “vitória” do urubu. Quem dá o aval final é
um santo, mais um elemento do catolicismo negado pelos reformados; e, para que
não reste dúvida sobre quem está certo, diz o próprio diabo: “Amém!”.
Numa das estrofes da Segunda peleja do capitão protestante com João Melchiades
no novo testamento sendo a nova seita vencido pelo Catholico em todos seus
argumentos a polêmica em torno do uso de imagens pelos católicos é, também,
relevante. Pela pena de Melchiades, o protestante diz ao poeta:
35
In: BARROSO, Ao som da viola, p. 512-513.
36
Apud: CANTEL, Raymond. “As querelas entre protestantes e católicos na literatura popular no
nordeste brasileiro”. In: ________. Temas da atualidade na literatura de cordel. São Paulo: USP/ ECA,
1972, p. 67.
SÆCULUM - REVISTA DE HISTÓRIA [36]; João Pessoa, jan./jun. 2017. 55
Uma das características centrais concernentes ao catolicismo popular, no que se
refere as manifestações de fé, é a relação entre o fiel e o seu santo de devoção. Esta
ligação traz a marca da pessoalidade, do contato direto entre o devoto e o santo, não
apenas representado, mas personificado em imagens. Observam-se duas formas pelas
quais se dá tal relação entre os fiéis e os devotos, ou melhor, entre um fiel e seu santo
de devoção, o que se chama de a “privatização” do catolicismo37.
A relação “devocional” caracteriza-se pela fidelidade do devoto ao santo, que é
tido em conta de “padrinho celestial”. Trata-se, todavia, de uma relação de
reciprocidade: o devoto deve prestar um culto ao seu santo de devoção de modo
regular. O santo, por sua vez, deve proteger seu devoto nesta vida e facilitar seu
acesso à vida eterna38.
A segunda modalidade de relação, embora também pessoal, é menos rígida que
aquela outra. Trata-se da relação “contratual”, que põe o devoto e o santo em
relação visando a uma graça específica requerida pelo primeiro. Por meio do
“contrato” o fiel se obriga a cumprir uma promessa feita ao santo, que deve conceder
a graça antes. Esta ordem também pode ser invertida, sendo o fiel a executar a
“paga”, como uma novena, pela qual o santo torna-se “devedor” do fiel. O caráter
provisório desta relação específica revela-se pelo que se segue ao contrato cumprido:
mas desde que as duas partes contratantes estejam quites, o contrato está terminado,
podendo a relação ser desfeita: o fiel não tem mais qualquer obrigação para com o
santo ao qual recorreu39.
Seja por qualquer uma destas formas em que se efetive a devoção católica dita
popular, voltada para o culto dos santos e santas (mesmo os que não são canônicos),
revela-se a importância destes nesta vertente do catolicismo. O caráter pessoal desta
relação que acabamos de expor faz do santo e da santa de cada devoto um ente
próximo ao qual se pode recorrer direta e concretamente. Os santos e santas são,
portanto, parte indelével da fé católica, dita popular, por fazerem parte da experiência
cotidiana dos fiéis.
De acordo com a análise freyreana, esta forma de catolicismo “doméstico” é
constitutiva mesmo da formação social brasileira, estando presente nas relações
interpessoais e refletindo-se na relação “familiar” entre os devotos e os santos40. Ao
contrário da Europa pós-Trento e da América hispânica, na América portuguesa teria
vingado um catolicismo mais maleável, “doce”, “lírico e festivo”. Em lugar do
predomínio da religiosidade no âmbito das igrejas, o catolicismo do Brasil colonial
vicejou dentro das casas, sob a autoridade patriarcal dos senhores de terras e homens.
37
OLIVEIRA, Pedro A.; VALLE, Edênio & ANTONIAZZI, Alberto. Evangelização e comportamento
religioso popular. Petrópolis: Vozes, 1978, p. 28.
38
OLIVEIRA, VALLE & ANTONIAZZI, Evangelização e comportamento..., p. 29.
39
OLIVEIRA, VALLE & ANTONIAZZI, Evangelização e comportamento..., citações nas p. 30-31.
40
FREYRE, Gilberto. Casa Grande & Senzala. 12. ed. Brasília: Editora da UnB, 1963, p. 15, p. 86.
Notemos, de passagem, que essa marca do catolicismo só se cingiu ao âmbito popular no período
republicano, pois, até o império, era um traço devocional da maioria dos católicos brasileiros. Veja-se,
por exemplo, a personagem machadiana Flora, em Esaú e Jacó, que reza para o seu Jesus particular,
de marfim, que mantém no quarto, crendo que a intimidade com ele o faz mais solícito a suas orações.
ASSIS, Machado de. Esaú e Jacó. São Paulo: Martin Claret, 2003, 174-175.
56 SÆCULUM - REVISTA DE HISTÓRIA [36]; João Pessoa, jan./jun. 2017.
Esse catolicismo “doméstico” manifestava-se na relação com os “santos compadres,
[e] santas comadres dos homens, [com] Nossas Senhoras madrinhas dos meninos”41.
Os cordéis dos quais nos utilizamos permitem-nos lançar algumas suposições. Uma
dela é a de que os cordelistas mostram diferente grau de conhecimento quanto aos
preceitos dos cristãos reformados, como, por exemplo, a querela em torno da imagem
da cruz evidencia que alguns deles devem ter tido contato com denominações de
protestantes similares (relembremos que nem todas rejeitavam o símbolo da cruz),
como a dos batistas. O que efetivamente é rejeitado por todos os protestantes é a
representação de Cristo na cruz, ou seja, o crucifixo, enquanto algumas
denominações, como os presbiterianos, apresentam cruzes em seus templos, embora
vazias, isto é, sem a imagem de Cristo crucificado.
O nova-seita já nasce
Triste, amarello e sem cor,
A vista sempre espantada
Com aspecto aterrador,
Sem alma e sem conciencia,
Sem prazer e sem amor.
.............................................
41
FREYRE, Casa Grande & Senzala, p. 396.
SÆCULUM - REVISTA DE HISTÓRIA [36]; João Pessoa, jan./jun. 2017. 57
O sapo disse eu tambem
Era animal assiado
Tinha um corpo tão bonito!
O cabello cachiado
O nova-seita illudiu-me
Olhe como estou pellado.
............................................
Mais uma vez, no folheto O diabo confessando um nova-seita apresenta teor tal
qual dos demais, o que se pode confirmar pelas duas estrofes abaixo:
42
BARROS, Leandro Gomes de. O diabo na nova-seita. Instituto de Estudos Brasileiros – IEB/USP:
Fundo Villa Lobos, no 09.
43
BARROS, Leandro Gomes. A confissão de Antônio Silvino. São Paulo: Luzeiro, 1980, p. 08.
58 SÆCULUM - REVISTA DE HISTÓRIA [36]; João Pessoa, jan./jun. 2017.
Um desses que vem ao mundo
Fazer semente de tinha
Que só teve por herança
A sorte ingrata e mesquinha;
Trata a crise por mamãe;
Chama a desgraça madrinha.44
Em A Alma de uma Sogra, do qual já citamos uma estrofe, das cinco sogras
descritas de um velho tabelião, a pior delas foi a última, que, ainda depois de morta,
perturbou o genro. O segredo de suas maldades é desvelado na última estrofes:
Perguntou o urubu:
De onde veio esta derrota?
Empestar o nosso campo,
Com essa enorme marmota?!46
44
In: LITERATURA Popular em Verso, p. 59.
45
BARROS, Leandro Gomes de. A alma de uma sogra. S.l.: s.n., 19-, p. 8.
46
In: BARROSO, Ao som da viola, p. 507.
47
ALMEIDA, Horácio de. Dicionário popular paraibano. João Pessoa: Ed. Universitária/ UFPB, 1979, p.
111.
SÆCULUM - REVISTA DE HISTÓRIA [36]; João Pessoa, jan./jun. 2017. 59
do missionário congregacional M'Call, que explicou a origem da expressão de
zombaria: Acontece que eu tenho uma barba grande e bem loira, algo raro no Brazil,
e me chamam de Frei Bode48.
Por sua vez, o historiador Émile Leonard fornece outra possível origem para o
apelido jocoso, o qual se originou da barbicha do Rev. Smith, presbiteriano, que, em
1874, tentou uma obra de evangelização em Maceió, e que, realmente, usava
“cavagnac” 49.
A expressão bode é muito utilizada na fala nordestina, como bem lembrou Mauro
Mota. De bode classifica-se o homem mulherengo, o valete de baralho, o nova-seita,
o almoço de trabalhador rural que é servido no campo, a alteração, a
[Link]ém são denominados de bode preto os maçons, o indivíduo afônico,
de bode rouco. Ainda é dito de quem se comporta mal, de quem se mete em
aventuras e bagunças, que pinta o bode; e de um trabalho bem feito, se diz: certo que
só beiço de bode; e sem vergonha que só bode criado em casa, diz-se de pessoa sem
contenção e pudor; quem menos pode é quem paga o bode, sobre as dificuldades
dos mais fracos. O caprino surge ainda em defesa do bigode: homem tem bigode,
quem tem cavanhaque é bode. Podemos, por fim, mencionar a advertência popular:
“prendam suas cabras que os bodes andam soltos”50.
Câmara Cascudo também comenta o uso e os sentidos da palavra bode para os
nordestinos, ao informar que:
Para finalizar, também podemos mencionar mais um possível elemento para o uso
do apelido de bode dado aos cristãos reformados, ou seja, o uso da palavra inglesa
brother. Possivelmente essa palavra era utilizada pelos missionários norte-americanos,
para se referirem uns aos outros, pois, como se sabe, os protestantes costumam se
chamarem de irmãos.
Sabedores da importância do uso difundido do termo “bode” na fala nordestina e
das possíveis origens do apelido de bode para denominar os protestantes, fica mais
compreensível sua ocorrência nos cordéis que tem o protestante por tema, uma vez
que, além do uso da barba pelos missionários, aparece em vários cordéis a referência
ao protestantismo como coisa do diabo. Como nas estrofes abaixo, a primeira do
folheto O diabo confessando um nova-seita e a segunda retirada de O azar e a
feiticeira. No primeiro cordel lemos:
48
EVERY-CLAYTON, Joyce E. W. Um grão de mostarda... documentando os inícios da Igreja Evangélica
Pernambucana, 1873-1998. Recife: Igreja Evangélica Pernambucana, 1998, p. 64.
49
LEONARD, Émile G. O protestantismo brasileiro. 3. ed. São Paulo: ASTE, p. 121, nota 16.
50
MOTA, Mauro. “O bode no Nordeste”. In: SOUTO MAIOR, Mário & VALENTE, Waldemar (orgs.).
Antologia pernambucana de folclore. Recife: FUNDAJ; Massangana, 1988, p. 203-206.
51
CASCUDO, Luis da Câmara. Coisas que o povo diz. Rio de Janeiro: Bloch, 1968, p. 78-80.
60 SÆCULUM - REVISTA DE HISTÓRIA [36]; João Pessoa, jan./jun. 2017.
Pois bem retorquio o negro:
Se quizer ficar commigo,
Não afrocha a nova seita,
Tenha Deus como inimigo,
Faça o que frei bôde faz,
Contra si não ha perigo.52
E no segundo:
O mau aspecto físico também se combina com a desdita moral, como o nova-seita
que, além de amarello e barbado, tem por herança a sorte ingrata e mesquinha.
Vejamos outra estrofe, na qual podemos ver um aspecto “moral” pejorativamente
relacionado ao protestante. O cordel versa sobre a feiticeira às voltas com o azar;
como indica o título, não é um protestante que é representado, mas o azar. A velha
recebe em sua casa um passante, sem saber quem ele é de fato. Depois de acolhê-lo,
sucedem-se uma série de acidentes domésticos. Ela então indaga quem é o seu
hóspede, que se revela ser o Azar. Eis, então, como ela reconhece a procedência do
mesmo:
52
In: LITERATURA Popular em Verso, p. 62.
53
BARROS, Leandro Gomes de. O azar e a feiticeira, p. 03. Instituto de Estudos Brasileiros — IEB/USP:
Coleção Leandro Gomes de Barros, no 08.
SÆCULUM - REVISTA DE HISTÓRIA [36]; João Pessoa, jan./jun. 2017. 61
Foi ela acudir a roupa
E caio numa cisterna
Saiu e com um pouco mais
Desconjuntou uma perna
Murmurou ela consigo:
Esta caipora é moderna.54
54
Ibidem, p. 02.
55
COSTA, F. A. Pereira da. Vocabulário pernambucano. 2. ed. Recife: Secretaria de Educação e Cultura,
1976, p. 160, grifo do autor.
56
CANTEL, “As querelas entre protestantes...”, p. 68.
62 SÆCULUM - REVISTA DE HISTÓRIA [36]; João Pessoa, jan./jun. 2017.
Foi o diabo com raiva
Que tomou essa dispeita,
Tomando inveja de Deus
Fez essa infernal receita,
Despachou-a no inferno
Fez com ella a nova seita.57
Neste caso, o próprio diabo se surpreende e reprova sua obra, ou seja, o nova-
seita é pior que o diabo. A associação entre a fé reformada e o diabo denota a recusa
pelo autor em considerar o protestantismo como um dos cultos legítimos entre os
cristãos.
Na análise das querelas entre católicos e protestantes nos cordéis, Raymond Cantel
resume a representação construída pelos cordelistas sobre a figura do protestante. Diz
o autor que:
57
In: LITERATURA Popular em Verso, p. 63-64.
58
CANTEL, “As querelas entre protestantes...”, p. 68.
59
CURRAN, Mark. História do Brasil em cordel. 2. ed. São Paulo: EDUSP, 2001, p. 48.
SÆCULUM - REVISTA DE HISTÓRIA [36]; João Pessoa, jan./jun. 2017. 63
Este “protestante típico” é, portanto, contrastado com as tradições católicas do
Nordeste do Brasil, evidenciando-se aquilo que ele apresenta de estranho à cultura
em que se formou o cordel. Assim, destaca-se a associação permanente entre os
protestantes e seu apego à (sua versão da) Bíblia, a negação do culto à Maria, a
rejeição de imagens (os santos, o crucifixo) e, em consonância com o caráter jocoso
dos folhetos, faz parte desta caracterização a descrição pejorativa dos aspectos físicos
do protestante.
RESUMO ABSTRACT
O artigo aborda a produção de cordel de dois The paper treats on the production of the chap-
autores da primeira geração de cordelistas, books of two authors of the first Brazilian
Leandro Gomes de Barros e João Melchiades “cordelistas” generation, Leandro Gomes de
Ferreira da Silva, entre as décadas de 1890 e Barros and João Melchiades Ferreira da Silva,
1930, cujos folhetos traziam como tema, entre between the 1890s and 1930s, whose
outros assuntos, discussões entre católicos e pamphlets included topics such as discussions
protestantes. Os estudos que trataram da between Catholics and Protestants. The studies
penetração protestante no Brasil, do início do dealing with Protestant penetration in Brazil,
Oitocentos à primeira metade do séc. XX, from the beginning of the 19th century to the
ainda não contemplaram o uso dos cordéis first half of the 19th century, XX, have not yet
como fontes históricas, que nos permitem uma contemplated the use of cords as historical
aproximação da perspectiva, em parte, popular sources, which allow us to approach the
do contato com formas de religiosidade que perspective, in part, of popular contact with
eram novas para a sociedade brasileira. Pela forms of religiosity that were new to Brazilian
análise dos folhetos, percebemos uma society. Through the analysis of the leaflets, we
caracterização específica dos protestantes feita noticed a specific characterization of Protestants
pelos cordelistas, os quais destacavam a by the cordelistas, who emphasized the
rejeição do culto a Maria, aos santos, o uso de rejection of the cult of Mary, the saints, the use
imagens (a crucifixo), a polêmica em torno da of images (the crucifix), the controversy
posse e leitura da Bíblia protestante e a surrounding the possession and reading of the
descrição pejorativa dos protestantes. Protestant Bible, and pejorative description of
Palavras Chave: Cordel; Protestantismo; Protestants.
Catolicismo. Keywords: Chap Book; Protestantism;
Catholicism.