Reflexões de Aniversário e Autodescoberta
Reflexões de Aniversário e Autodescoberta
"Contra o que se sóe julgar, é a criatura de seleção, e não a massa, quem vive em essencial
servidão. Não saboreia sua vida se não a faz consistir em serviço para algo transcendente.
Porisso não considera a necessidade de servir como uma opressão. Quando esta, por azar lhe
falta, sente desassossego e inventa novas normas, mais difíceis, mais exigentes, que o oprimam.
Isto é a vida como disciplina - a vida nobre -. A nobreza define-se pela exigência, pelas
obrigações, não pelos direitos." (Ortega y Gasset, A Rebelião das Massas)
Todos os que proclamam algum processo de elevação espiritual como algum tipo de processo
mágico jamais poderão ser capazes de sentir a satisfação e o efeito das pequenas ações
cotidianas que marcam o caminho longo deste processo e estão acessíveis a qualquer um capaz
de um mínimo de disciplina. Falo isto para justificar este meu post de aniversário, afinal uma
das ações que tem sido mais relevantes para a minha vida tem sido planejar minha ações a cada
dia e fazer o balanço do que consigo ou não realizar e porque no final do dia.
Esta contabilidade da vida, seguindo os fluxos naturais de dia, semana, mês, ano, nos ajudam a
assumir o controle da própria vida, a não ser apenas reativo ao que ocorre, mas tomar a frente de
nosso destino. Ao mesmo tempo a avaliação constante nos ajuda a ver onde e porque falhamos -
partindo do princípio, claro, que somos capazes de sermos sinceros conosco, o que por si só é
um desafio. Libertar-se da postura estéril de culpar-se para tomar a posição de avaliação do que
precisa ser corrigido e melhorado é por si só um elemento de separação entre elite e massa,
afinal nada mais simples que culpar-se, portanto se punir, ao invés de fazer o esforço para
corrigir-se.
Penso que em poucos momentos da minha vida evolui tanto quanto neste período entre meus
dois aniversários. Passei a compreender de fato, no coração, questões que compreendia só em
tese. Libertei-me de boa parte das ambições e ao livrar-me delas, suponho, coloquei-me à altura
de enfrentar desafios maiores. Penso que me libertei também de muitas fraquezas, como o
desejo de agradar e a preocupação excessiva - diria quase "nipônica" lembrando-me do livro de
Ruth Benedict "O Crisântemo e a espada", que ando relendo - com a reputação. Ser capaz de
livrar-me destas cadeias me deixou mais sincero comigo mesmo e com os outros, infenso a
tentar temperar minhas opiniões e ações segundo a vontade alheia. Esta servidão à própria
imagem não deixa de ser ao mesmo tempo uma escravidão e uma idolatria ao próprio ego,
concluí.
Penso que estas reflexões tiveram um papel fundamental nesta imensa parte de mim que sempre
foi a vocação política ter voltado a ser um território habitado. Foi preciso que eu a tivesse
deixado de lado, como mera tarefa profissional - a ser cumprida da melhor forma como
qualquer tarefa, mas sem paixão - tivesse resistido a todos os cantos de sereia do Coronel Kurtz,
já tivesse optado por ser outra coisa, enfim tivesse me libertado desta paixão. Então as
circunstâncias atropelaram minhas opções com novas e jamais pensadas oportunidades.
Ao mesmo tempo em que surgiram oportunidades já esquecidas, eram resgatados pelas
circunstâncias estes sonhos, tudo parecia ao mesmo tempo novo e inesperado e renascido do
passado. Mas, por paradoxal que seja, e como se eu soubesse que seria assim, cada passo foi
imaginado, previsto, construído. Não imagino que este processo pode ser descrito de forma
adequada, mas achei uma descrição bem satisfatória revendo a série de entrevistas de Joseph
Campbell - que tem o título de seu livro mais conhecido "O Poder do Mito" - quando o
antropólogo fala de um momento em nossa vida que parece justificar nossa existência até então,
que dá ordem a todo processo caótico que nos levou até aquele momento, como se toda nossa
vida tivesse a finalidade de nos preparar para aquele momento.
A Márcia tem sido a grande parceira neste processo todo, juntos enfrentamos os momentos ruins
e os bons momentos, as vitórias e conquistas. E sem dúvida às vezes estes últimos são muito
mais difíceis de serem enfrentados. Ainda mais quando as vitórias exigem um grau de dedicação
ao trabalho e esforço muito acima da que seria exigida de um trabalho qualquer. A tranquilidade
que ela me dá para cumprir meu destino é mais do que extraordinária ou imaginável.
Curioso que jamais tenhamos discutido, nem nos bons nem nos melhores momentos destes
meses todos. E esta ausência de discussão por menor que seja não é pelo motivo esperado, pela
nossa capacidade mútua de dialogar sobre tudo, de conversar com calma, não se chegou jamais
a um momento no qual esta disposição para o diálogo teve de ser sacada e utilizada. Bastou a
empatia, a capacidade de sentir o outro e identificar-se com ele para que tudo fluísse com
incrível calma e naturalidade - toda tensão colocada no lugar certo, no momento certo, aonde ela
realmente é útil. Em outras palavras, há calma não pela frieza ou ausência de emoções ou
excesso de racionalidade, há calma justamente porque se transcende tudo isto em um outro grau
de via compartilhada. Nem estranho quando tantos comentam nossas semelhanças, até físicas.
Mas houve metas nas quais fracassei e falhas. A principal delas foi, na minha avaliação, não ser
capaz ainda de atingir aquela superação da raiva e do ódio, até da vingança. Sei que o bom
guerreiro é capaz de lutar sem nenhuma paixão, sem ódio àquele que enfrenta. Aliás nenhuma
religião tradicional elimina a luta, o conflito, mesmo o extremamente pacífico Jesus que prega
santidade diz que não veio trazer a paz, mas a espada. Todas as fés nos ensinam a lutar contra o
mal, a começar pelo mal dentro de nós. Mas todas exigem a disciplina de não lutar com ódio ou
medo, porque neste caso estaríamos de fato lutando nas fileiras contrárias.
A satisfação toda que senti, por exemplo, com a queda e humilhação de pessoas que me
perseguiram, por exemplo, não pode ser um sentimento positivo. Eu ter expressado claramente
minha satisfação e até participado de algumas correntes de comentários e boatos foi algo que fez
com que depois eu me sentisse fraco e indigno do papel que imagino para mim. Certamente não
devia ter sido hipócrita somando-me a muitos que aparentavam um pesar que não tinham, mas
também não deveria ter me somado aos que festejavam cada notícia envolvendo o nome do
perseguidor em um escândalo.
Deveria, antes, ter me considerado contemplado e protegido por ter sido afastado de um lugar
onde os relâmpagos da desonra caíram muitas vezes. Eu mesmo sempre havia dito a vários
amigos, em especial à Renilde, que Deus havia sempre me concedido servir apenas a pessoas
sérias e jamais ter sido confronto com algum dilema ético. No nível racional compreendi que
todos os dissabores que passei tinham uma finalidade maior, mas creio que no coração a lição
não foi totalmente absorvida.
Ao mesmo tempo cheguei a um grupo político no qual este tipo de compreensão é
absolutamente essencial. Grupo perseguido, humilhado, traído, atacado duramente pelos últimos
quinze anos, só será capaz de obter a vitória na medida em que se liberte dos ódios e
ressentimentos. Também tem o grande mérito de ser um grupo que passou por todos os filtros
que a vitória e ainda mais a derrota podem oferecer, aqueles que sobraram resistiam a todas as
tentativas de cooptação, não sucumbiram ao desânimo, não abriram mãos de ideais e só fizeram
crescer a vontade de fazer diferente e criar o novo. É ao mesmo tempo um orgulho fazer parte
não só do grupo como de seu núcleo formulador, assim como é enorme desafio a mim mesmo
estar á altura da tarefa. Mas para isto terei de ser capaz de enfrentar minhas fraquezas e ser bem
sucedido onde falhei.
Por fim em meio a tantos aspectos positivos e grandes vitórias a vaidade, que andava há anos
sob controle, vai achando espaço para ressurgir e eu penso que tenho falhado muito além do
aceitável em controlá-la. Vaidade baseada às vezes no medo, às vezes no sentimento de
vingança, enfim, naqueles sentimentos inferiores. Reconhecer estas fraquezas me ajuda também
a ser mais tolerante, outro problema com o qual tenho lidado mal, afinal se eu que deveria ter
uma consciência muito maior da importância da autodisciplina falho com tanta frequência como
posso cobrar melhor desempenho de outros.
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A primeira vista este aparente paradoxo de livros infantis com conteúdo se degradando e filmes
para crianças em uma escalada positiva de aprimoramento sugere a hipótese de uma mudança
de linguagem e meio no qual a linguagem multimídia substitui a escrita.
Talvez ainda seja cedo para afirmar isto, mas há vários aspectos que apontam para que esta
hipótese não seja de todo descartada.
O mundo vai se tornando mais complexo, mas muito do que se tenta escrever para crianças
segue fórmulas antigas, está repleto de pretensões pedagógicas – portanto carente de
sinceridade.
Ao mesmo tempo uma coisa que me chama atenção nos roteiros de vários filmes infantis
recentes é justamente a complexidade das tramas e dos dilemas éticos e morais dos personagens.
Ainda que sem dispensar os finais felizes recomendados para filmes infantis, vários deles não
tem aquela postura maniqueista, aquela separação clara entre bem e mal. Tenho 38 anos e os
filmes infantis que assisti quando criança em geral tinham estas imagens simplistas e
estereotipadas. Heróis e burocratas: O burocrata submetendo o herói em um contexto quase
nietzschiano em "Os Incríveis".
Apenas para citar alguns exemplos simples o dilema entre natureza e cultura no leão de
Madagascar, os conflitos éticos do guaxinim e a guerrilha anti-consumista em “Os Sem
Floresta” - diria que a tradução do título "Over the hedge" para "os Sem Floresta" foi mais do
que feliz e apropriada na versão brasileira -, o paradoxo do pirata em “Piratas do Caribe 2” que
tem uma bússola que aponta para o que ele mais deseja, mas que não funciona porque ele não
consegue decidir o que mais quer, os conflitos da inveja em “Toy Story”, a oposição entre o
heroico e o burocrático – que nos bons aspectos lembra Weber e nos nem tão positivos
Nietzsche. Por sinal até mesmo com o direito à cólera heroica – em “Os Incríveis” com seus
super-heróis aposentados pelos processos judiciais, para não falar das maravilhosas
desconstruções. Claro que nem sempre as desconstruções são felizes, como prova a tentativa, a
meu ver infeliz, de recontar a história de Chapeuzinho Vermelho em "Deu a louca na
Chapeuzinho" - infeliz até no título traduzido - como história policial, dos contos de fada e do
consumismo nos dois filmes de Shrek. Também me chamam a atenção algumas citações
elaboradas, como a de “Beleza Americana” em “Madagascar” ou de “Cidadão Kane” em “Os
Sem-Floresta”, as quais pelo menos falam bastante sobre a formação das pessoas que trabalham
nestas produções.
Um aspecto curioso a ser notado é que também as histórias infantis tradicionais tinham um
conteúdo nas entrelinhas muito mais complexo, bastante explorado mas não esgotado pela
psicanálise, e só nas fases mais recentes é que acabaram tornando-se assépticos e “morais”.
Mesmo Lobato, por sinal, nada tem deste moralismo insosso e mesmo que escreva com a
finalidade também de ensinar algo às vezes o faz sem pedantismo e com o desejo de ensinar a
audácia de duvidar, criticar e pensar por si próprio.
Mais vale ser um ogro feliz: Discussão sobre individualidade e diversidade em Shrek.
Como os modernos raramente entendem os símbolos, acabam perdendo a capacidade de
escrever para crianças, através deles, chateiam ao invés de divertir, até porque as crianças hoje
tem um acesso a informação muito maior. Ao mesmo tempo, penso eu, certa visão
evolucionária não permite compreender que as crianças tem um outro tipo de sensibilidade –
que com o tempo e a educação/adestramento se perde - que permite que elas compreendam as
coisas de forma muito mais profunda do que se possa imaginar, decifrem os sinais e até acessem
certas noções simbólicas nem sempre muito evidentes para nós adultos, que já temos a mente
meio adormecida.
Conformismo vilão: Adultos infantilizados e consumistas como antagonistas em "Shrek" e
"Over the Hedge".
A capacidade do ser humano de manter e ouvir os anciãos foi um elemento essencial na nossa
evolução. Hoje em dia, em especial com a informática, Internet e a civilização eletrônica como
um todo é comum que haja certa inversão com os filhos e netos ensinando aos pais e avós, o que
pode ter alguns aspectos negativos. Contudo é preciso notar também que em um mundo de
adultos cada vez mais infantilizados não deixa de ser alvissareiro que as crianças sejam
estimuladas de uma forma mais elevada, inclusive contra o consumismo que é um dos aspectos
essenciais desta infantilização dos adultos. Note-se que em diversos destes filmes, citaria em
especial Shrek com sua fada-madrinha-perua e “Os Sem Floresta” com a síndica-perua, o
antagonista da história é justamente o adulto infantilizado, porta-voz do consumismo.
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Um dos meus filmes preferidos sempre foi “O Planeta dos Macacos” de 1968. Ainda era criança
a primeira vez que assisti mas me impressionou muito e a cada vez que assisto me chama a
atenção um outro ângulo. Caso raro no qual os roteiristas e o diretor conseguiram produzir um
resultado muito melhor e mais profundo do que o livro no qual foi baseado alterando quase
tudo. Para ter uma ideia do livro basta dizer que a infeliz versão mais recente de “O Planeta dos
Macacos” é relativamente fiel à obra literária original, por isto não estava lá a maioria dos
elementos que tornaram a versão de 68 um clássico, mesmo nestes tempos de efeitos especiais.
O primeiro ângulo que me chamou a atenção no filme, ainda quando tinha uns 6 anos, foi a
questão dos maus-tratos aos animais, a vivissecção, as caçadas, as quais ganham uma força
significativa através da inversão de papéis. Como até hoje esta é uma questão relevante para
mim e uma das minhas batalhas pessoais, profissionais e políticas sinto a importância daquele
filme. Outro aspecto que vi com interesse algum tempo depois foi a manipulação e o controle da
informação e do conhecimento. No filme uma das mais relevantes cenas neste sentido é aquela
na qual o promotor prova que o humano não tem raciocínio porque é incapaz de citar ou expor o
significado das escrituras sagradas dos macacos.
Islam, Islam, Pessoal, Pessoal, Arte, O futuro, Sociologia e cia., Política, Política
Maquiavel, Ibn Khaldun, Karl ClausewitzPP
Referência Original: [Link]/portal/54
O SENHOR DAS MOSCAS
Para ser absolutamente sincero irrita-me ouvir tantos comentários e queixas sobre os
políticos. Não porque acredite nas mentiras deslavadas contadas nas CPIs ou nos
dossiers e cartilhas que tentam explicar o inexplicável, também perdi muito da fé, das
esperanças, daquelas certezas que nos fazem engolir as histórias e os sapos em nome da
causa ou de necessidades táticas.
O que me irrita é ver que as pessoas, pelo seu comportamento em inúmeros casos, não
seriam distintas dos piores políticos – e creiam, há inúmeros que são bons. Eu deixei de
acreditar que qualquer sistema possa melhorar automaticamente as pessoas. Pelo
contrário, chego a conclusão que as pessoas são capazes de degradar a mais bem
elaborada das utopias.
A internet é um meio onde isto pode ser facilmente percebido. É só olhar a violência
com que se referem aos políticos, facilmente também transposta para qualquer um na
comunidade, lista de discussão, fórum, página ou blog que ouse contestar suas verdades
absolutas, para verificar que por pior que seja o político aquele indivíduo que o critica é
um tirano ainda pior. Digo sempre que governar a utopia é muito fácil, porque ali existe
uma única vontade, uma só pessoa que decide como todas as demais vão viver, já as
sociedades concretas onde há outra pessoa além do autor são coisa bem diferente.
Retirei-me de uma comunidade dedicada a espichaçar este símbolo do que é mais
desprezível neste país – a deputada Angela Guadagnin, aquela que há zombou de todo o
país executando a dança da pizza e que caso se reeleja comprovará a tese hegeliana de
que todo povo tem o governo que merece e que merecemos não só ser roubados, mas
que os corruptos ainda zombem de nós.
Sai porque no meio de toda a brutalidade da ação dela, todo o sentido político da dança
da pizza a única coisa que os débeis que participam da comunidade conseguiam dizer
era que ela era uma balofa, uma baleia e coisas do tipo, como se a a feiúra e a
repugnância interior da deputada não dispensasse qualquer outro comentário, como se
fosse uma questão estética ao invés de ética. Enfim, os que estavam lá eram pelo menos
tão desprovidos das qualidades morais quanto a própria deputada, companheiros na
mediocridade e no nojo que causam.
A internet, que é sempre meu assunto das sextas, é muito pródiga neste tipo de
personagem que encarna a escória da humanidade, extravasa toda sua prepotência, vive
das aparências, dos chavões, da cultura de almanaque. Talvez isto possa ser explicado
pela rapidez e brevidade das comunicações – que facilitam o trabalho dos impostores
intelectuais – e o anonimato ou ao menos a ausência de contato direto – que permite que
o ego se veja livre de limites – ajudem a explicar estes comportamentos, mas há também
os pescadores de águas turvas que transformam o desvio de personalidade - próprio e
alheio – em ideologia.
O que me entristece ás vezes é que poderia ser diferente. Barato, rápido, seletivo, a
Internet oferece um meio interessante de se estabelecer um outro parâmetro de
comunicação. Ao mesmo tempo é também um argumento para demonstrar a tese
principal, de que qualquer sistema é falho porque depende das pessoas e não de alguma
resposta brilhante de seus mecanismos.
Imagine-se o cenário de uma comunidade ideal. Um grupo de pessoas pequeno o
bastante para se conhecerem e tomarem as decisões em conjunto, mas suficiente para
dar conta das tarefas básicas. Sem contato com algum meio externo ou tendo qualquer
um deles com algum elemento de coerção sobre os demais. Poderia até incluir a
condição adicional de serem crianças ou adolescentes, imagens de inocência ou
rebeldia, para garantir que aqueles que não confiam em ninguém com mais de 30
também pudessem ter uma visão mais idílica da situação.
Em geral esta situação seria vista pelas pessoas como uma espécie de paraíso, de
sociedade ideal. Mas o escritor William Golding escreveu em 54 um livro –
transformado duas vezes depois em filme, só assisti a de 90 - “O Senhor das Moscas”
no qual o resultado da experiência não é um paraíso, mas um inferno. Sem nenhuma
regra de autoridade o que ocorre é o poder da força, o crime, a maldade em uma forma
quase pura. Um sonho, talvez, para aqueles que dizem admirar Nietzsche, mas um
pesadelo para todos os seres humanos normais, aqueles que não integram a escória da
humanidade.
Há algo do “Senhor das moscas” em quase toda comunidade que se organiza através da
internet e quem assistir ao filme ou ler o livro – o primeiro me parece mais brutal e
portanto mais adequado – não deixará de reconhecer os personagens. Um tipo de
comunidade, em particular, tem o costume de transformar-se em algo muito similar, o
assim chamado micronacionalismo (como disse o nome é infeliz e pouco esclarecedor
mas não fui eu quem criou, refere-se à simulação de países virtuais), não pela repetição
do cenário – adolescentes, na maioria, quase sempre em uma ilha.
As diferenças de cenário só aguçam as semelhanças, pois não se podendo usar a força
bruta, visto que o contato é virtual, utilizam-se de outros meios em especial da
capacidade de adular, fazer demagogia, das alianças do vulgar contra o diferente de que
fala Gasset, a inexistência de regras transforma-se na multiplicação delas até o infinito,
sempre, claro, podendo ser modificadas ou alteradas segundo as conveniências. Não
deixa de ser mais terrível que o “Senhor das Moscas”, não só por ser real, mas por se
saber que as pessoas que estão lá infelizmente não vão ficar isoladas em uma ilha mas
sairão de lá para o mundo real tendo aprendido a utilizar a truculência e a fazer qualquer
coisa pelo poder. Enfim, ao invés de tornar-se uma escola da elite que ensine a buscar a
autoridade que dispensa qualquer coerção ou símbolo – por sinal eram de uma os jovens
do livro – transforma-se em uma universidade para formar a escória que só pensa no
próprio ego e em todos os meios de atingir o poder e manter-se lá.
Não poderia deixar de dizer, antes que todos fiquem horrorizados e não passem nem
perto destas comunidades, que a esperança na humanidade também pode ser restaurada
por algumas delas, nas quais existe um ambiente saudável, produtivo, de respeito e
trabalho, nas quais em geral até se consegue ter um ambiente tão sólido que os egoístas
que ali caem acabam se sentindo mal e indo procurar os seus semelhantes em outras
plagas, tal como os espíritos de Swedenborg ou, na expressão de Attar: “pássaros de
mesma plumagem andam juntos”.
S E X T A - F E I R A, 2 J U N H O , 2 0 0 6 - 1 5 : 2 6
“Ó Deus, se eu oro, jejuo e dou esmolas, porque quero ganhar o céu, não me deixe
entrar lá nunca. E, se eu faço todas essas coisas, porque tenho medo do inferno, lance-
me lá agora!” (Teresa d'Avila)
Com o tempo fui deixando de escrever sobre religião, principalmente porque as pessoas
tendem a ser muito passionais nesta questão e nem sempre querem entender o que é
dito, postura que leva ao pior tipo de desentendimento e ao mais desagradável dos
debates, aquele no qual a meta dos que discutem não é retirar o véu da verdade mas
ganhar a parada. Com isto acabei preferindo só debater estas questões de forma privada,
através de correspondências principalmente.
Hoje, contudo, abri uma exceção, talvez pela necessidade de organizar o pensamento e
tantas coisas que tenho debatido. Espero não me arrepender mais uma vez, ainda mais
porque tento escrever não sobre estas tantas manifestações concretas da religião que
existem por aqui, mas em uma tentativa de alcançar ou ao menos vislumbrar num
relance aquela idéia de religião que existe nos mundos superiores.
Acredito que a fé ou está no coração ou não está em lugar algum. Por isto é muito mais
fácil converter aos outros que a si mesmo e talvez por isto o Profeta do Islam tenha
chamado a primeira a pequena Jihad e a segunda de Grande Jihad. A hipocrisia, que
como disse Voltaire, é a homenagem do vício à virtude, ou seja, a ação daqueles que
incapaz de transformar-se contentam-se com a aparência da correção.
É desta necessidade de aparentar que vem toda a aparência de zêlo com tudo que é
externo, visível. Ninguém, também, é mais preocupado com a ortodoxia do que o
hipócrita, quem sabe porque os grandes problemas para ele não sejam realmente
importantes, então nunca surgem dúvidas na sua vida, porque sua essência não está
realmente motivada.
Porque a tarefa mais difícil de todas é converter-se – e aprendi que infalivelmente as
falhas que vejo nos outros na verdade estão em mim e é por um zelo hipócrita que elas
me chocam – acho que a religião, qualquer uma, é uma questão profundamente pessoal.
Não falo aqui desta idéia corrente de uma religião pessoal, no qual cada um pega o que
quer das várias fés – como se estivesse em um supermercado – e quase invariavelmente
pega os direitos de cada uma e raramente os deveres.
Falo de questão pessoal porque se trata acima de tudo de uma relação pessoal, íntima,
com Deus. Não nego a relevância dos rituais, dos símbolos, das restrições cujo sentido
mais elevado as pessoas não são capazes de vislumbrar, ainda mais neste nosso mundo
desencantado no qual as portas para o que não existe de forma sensível estão fechadas
porque poucos as querem abrir.
Mas nenhum este métodos todos – e só consigo ver uma grande consistência neles nas
mais variadas fés e regras – pode ter valor se não houver a condição prévia da
sinceridade no coração. Falo isto por imaginar, por intuir, por enxergá-la nas ações de
santos de todas as fés, por ter um dia a esperança deste estado, não por experiência
própria.
Não sou uma pessoa religiosa, sempre me sinto um pouco hipócrita quando falo do
assunto porque como todos penso muito mais em Deus quando preciso da ajuda dele do
que quando ele me abençoa. Só de vez em quando me lembro que os dons que tenho são
muito mais dádivas dele do que mérito meu. O que seria da minha cultura de que me
envaideço tanto, pro exemplo, se não fosse a memória que ele me deu.
Não tenho dúvidas que os homens são iguais em seus direitos, mas são também muito
diferentes em seus deveres, porque de cada um será cobrado segundo aquilo que
recebeu e às vezes me angustia pensar do que fiz dos meus dons. Mas a grande
dificuldade para além desta constatação é ser capaz de atingir um dia o ponto
mencionada pelas duas santas que cito na epígrafe, de não fazer isto pelas recompensas
deste ou do outro mundo, mas só e apenas só pelo amor a Deus.
T E R Ç A - F E I R A , 6 J U N H O, 2 0 0 6 - 1 3 : 3 9
Islam, Comunicação, Pessoal, Arte, Sociologia e cia., Política, Filosofia e cia, Religião
René Guénon, Carl SaganDT
Referência Original: [Link]/portal/10556
AS CRUZADAS
Cruzadas completam 901 anos
No dia 27 de novembro completou-se 901 anos do apelo do Papa Urbano II aos nobres europeus
para a libertação da Palestina ocupada pelos muçulmanos. O chamamento do Papa, realizado
durante um torneio de cavalaria em Clermont, França, deu início ao que se poderia chamar de
Primeira Guerra Mundial de fato.
Durante duzentos anos cavaleiros e peregrinos plebeus lutaram em 8 expedições que saindo da
Europa atacaram territórios no Oriente Médio. Todas com exceção da primeira destas
expedições foram derrotadas e algumas delas sequer chegaram a atingir a Palestina, preferiram
ficar pelo caminho e saquear a Bizâncio ortodoxa.
As motivações para movimento de tamanha envergadura até hoje escapam a compreensão dos
historiadores. Provavelmente não houve uma única razão, mas uma mistura de muitos motivos
diferentes indo de interesses políticos e econômicos até uma fé sincera mas fanática.
Os nobres europeus desejavam terra, em especial aqueles que não eram primogênitos e portanto
não tinham direito a herança, mas muitos nobres abonados deixaram tudo para se dedicar a
conquista da Terra Santa. Nas duas pontas extremas das tropas cruzadas encontram-se exemplos
de motivações não econômicas ou políticas. Entre as tropas de elite, em especial a Ordem dos
Templários encontravam-se soldados das mais nobres e ricas famílias europeias que faziam voto
de pobreza. Entre os miseráveis, em especial os que participaram de duas cruzadas extra-
oficiais, a "dos mendigos" e a "das crianças" encontra-se mais traços de messianismo do que
intenções concretas.
Divisões da fé
A fé pode ter desempenhado um papel importante como motivação de boa parte dos Cruzados,
mas a Quarta Cruzada, por exemplo, preferiu saquear o porto de Zara e Bizâncio ao invés de se
encaminhar à Palestina. Também é importante destacar que os Cruzados sempre violaram os
acordos firmados com as potências muçulmanas, alguns dos quais garantiam a posse de
Jerusalém, Belém e de um corredor do litoral até as duas cidades. Curiosamente entre os
Templários ocorreram diversas conversões ao Islam, como a de Sir Robert de Saint Albans.
As Cruzadas sempre encontraram o mundo islâmico dividido e os comandantes cruzados não
raro se aproveitaram politicamente destas divisões, embora para o ocidente até hoje estas
alianças não sejam claras. Até para legitimar o ataque ao Oriente Médio era necessário imaginar
os muçulmanos como um bloco.
Mas os cruzados também se encontravam bastante divididos entre interesses religiosos e
políticos muito distintos. A rivalidade entre o Papado e o Sacro Império Romano Germânico
chegou a ser uma das motivações para as Cruzadas, da mesma forma que a Cruzada dos reis
desintegrou-se por conta da disputa entre Ricardo Coração de Leão da Inglaterra e Felipe
Augusto da França, para não falar da própria disputa intestina pelo trono entre Ricardo e seu
irmão João Sem Terra.
Além disto o pano de fundo da batalha era a disputa entre o Papado e a igreja ortodoxa grega.
Apesar de inicialmente ter apoiado as ações cruzadas o Império Bizantino foi uma das grandes
vítimas da ação dos cruzados que chegaram a apoiar um golpe de Estado contra Bizâncio e
saqueado a cidade.
Matança em nome de Deus
Tanto as fontes cristãs como muçulmanas mostram que longe de representarem os ideais
cavalheirescos os cruzados implantaram o domínio da barbárie nas batalhas que travaram e
ainda mais nas terras que conquistaram. Comentando a tomada de Jerusalém pela Primeira
Cruzada o cristão Guillaume de Tiro afirma: "Correram para lá (detrás das muralhas do templo)
todos juntos, conduzindo atrás de si uma imensa multidão de cavaleiros e infantes, atacando
com suas espadas todos os que se apresentavam, não perdoando ninguém e inundando a praça
do sangue dos infiéis".
Atos ainda mais abomináveis foram registrados, como os casos de canibalismo dos Cruzados
em Maara. O cronista da época, Raoul de Caen não deixa dúvidas: "Em Maara os nossos faziam
ferver os pagãos adultos em caldeiras, fincavam as crianças em espetos e as devoravam
grelhadas". Outro cronista cruzado consegue ser tão cruel na descrição como no que descreve:
"Os nossos não repugnavam em comer não só a carne dos turcos e dos sarracenos mortos como
também a carne dos cães", de onde se depreende que comer cães era menos horripilante que
devorar a carne humana.
Muçulmanos e cristãos ortodoxos não eram poupados nos ataques cruzados independentemente
da idade e sexo. O plano daqueles que guerreavam em nome de Deus parecia ser realizar uma
ampla limpeza étnica que exterminasse a população palestina e judaica para substituí-la por
colonos europeus.
Os cristãos de rito oriental, que viviam em "simbiose" com os governantes muçulmanos, muitas
vezes ocupando altos cargos administrativos, também estiveram entre as vítimas preferenciais
dos cruzados, ao mesmo tempo que passavam a ser olhados com reservas pelos governantes
árabes e turcos da região.
Nestorianos, jacobitas, armênios, maronitas, ortodoxos gregos e outras seitas cristãs sofreram
grande perseguição nos territórios tomados pelos cristãos. Quando Jerusalém foi ocupada pelos
cruzados foram expulsos da cidade os sacerdotes não católicos e a praxe da missa ser oficiada
na Igreja do Santo Sepulcro por sacerdotes de todas as denominações cristãs foi abolida para
favorecer os católicos romanos.
A marca da perseguição católica aos cristãos orientais permaneceu tão viva que até hoje, na
mais sagrada Igreja do cristianismo as chaves são guardadas por uma família muçulmana que só
pode abrir a igreja na presença de sacerdotes de todas as oito denominações presentes.
É certo que os códigos de honra atribuídos aos Cruzados também não foram respeitados por
eles. Ao longo das Cruzadas diversos tratados de paz foram propostos pelos comandantes
muçulmanos, todos eles foram aceitos pelos cristãos para serem desrespeitados logo que os
Cruzados recuperavam alguma força.
O governante egípcio de origem curada, Sales ad-Din (que passou à história ocidental como
Saladino) firmou diversos tratados com os europeus. Saladino buscava uma pacificação da
região e por mais de uma vez aceitou a formação de um domínio cristão sobre Jerusalém e parte
da Palestina, incluindo um corredor até o porto de Haffa. Sua piedade com os derrotados chegou
a garantir a ele uma visão simpática do mundo ocidental, Dante e Ariosto lhe traçam uma
imagem romântica em suas obras.
Atraso ocidental
As Cruzadas, contudo, representaram um grande passo do Ocidente rumo a Idade Moderna. As
gerações de Cruzados nascidas no Levante se demonstraram capazes de aprender com a cultura
islâmica mais desenvolvida e levar para a Europa conhecimento tanto filosófico e científico
como tecnológico.
O aprendizado mais rigoroso da Medicina fornece um bom exemplo disto. No início das
Cruzadas os conhecimentos médicos europeus iam pouco além das mais brutais superstições
como descreve o médico cristão árabe da corte do emir de Chazyar, Thabet, enviado ao
governador cruzado de Muneitra, aliado do emir.
Convocado a corte de um dos senhores feudais europeus no Oriente Médio o médico do emir
descreve sua experiência: "Fizeram vir a minha presença um cavaleiro que tinha um abcesso na
perna e uma mulher desnutrida e definhada. Coloquei um emplastro no cavalheiro e o tumor
abriu e melhorou. Para a mulher prescrevi uma dieta. Mas um médico franco chegou e disse:
'este homem não sabe tratar deles!'. E dirigindo-se ao cavaleiro perguntou-lhe: 'Você prefere
viver com uma perna só ou morrer com as duas?'. O cavaleiro tendo respondido que preferia
viver com uma só perna, o médico ordenou que viesse a ele um cavaleiro bem forte e um
machado bem afiado. O médico ordenou que colocassem a perna do paciente sobre um cepo e
disse ao recém chegado que desse uma boa machadada para corta-la de uma só vez. Sob meus
olhos o homem descarregou o primeiro golpe na perna, depois como ela continuasse presa,
bateu uma segunda vez. O tutano da perna esguichou e o ferido morreu no mesmo instante.
Quanto a mulher, o médico franco a examinou e disse: 'Ela tem um demônio na cabeça que está
apaixonado por ela, Cortem-lhes o cabelo'. A mulher recomeçou então a comer seu alimento
com alho e mostarda, o que agravou seu definhamento. ' Foi o diabo que lhe entrou na cabeça' ,
afirmou o médico. E pegando uma navalha, fez-lhe uma incisão em forma de cruz, deixando
aparecer o osso da cabeça, que lhe esfregou com sal. A mulher morreu imediatamente".
Ordálios e cidadania
Também chocaram aos muçulmanos do Oriente Médio a justiça europeia. Acostumados a uma
longa tradição de julgamentos baseados em provas, argumentações, jurisprudência, enfim, a um
processo racional de decisão, os muçulmanos chocavam-se com os Ordálios, "julgamentos de
Deus" dos europeus.
O historiador árabe Ussama Sultan narra suas impressões sobre a justiça dos cruzados a quem
chamavam "franj": "O jovem que era objeto das suspeitas foi atado, suspenso pelas omoplatas a
uma corda e lançado no tonel. Se fosse inocente, diziam eles, ele se afundaria na água, e seria
retirado por meio de uma corda. O infeliz, quando o jogaram dentro da barrica, fez esforço para
ir até o fundo, mas não conseguiu e teve de se submeter aos rigores da sua lei. Então lhe
passaram pelos olhos um buril de prata, avermelhado no fogo, e o cegaram".
Porém os ocidentais aprenderam ao longo de algumas gerações na Palestina com os
muçulmanos, coisa que estes não conseguiram fazer. Na opinião do historiador contemporâneo,
Amin Maalouf, de cuja obra "As Cruzadas vistas pelos árabes" são retiradas a maior das
citações acima, os ocidentais tinham instituições estáveis e reconhecidas por todos, já entre os
governantes muçulmanos prevalecia a vontade absoluta do soberano. O mesmo Ussama que se
revoltou com os Ordálios reconhece que "quando os cavaleiros proferem uma sentença, esta não
pode ser modificada pelo rei". Outro historiador da época, Ibn Jubair, ficou admirado com o
respeito ao domínio dos bens de raiz, mantido mesmo pelos servos muçulmanos dos nobres
ocidentais, garantindo a manutenção e exploração das áreas.
Divisão dos muçulmanos fortaleceu Cruzados
Quando as primeiras tropas de cavaleiros cruzados chegaram ao Levante não encontraram um
território unificado. Apesar de nominalmente toda a região estar submetida ao Califado
Abássida de Bagdá, o califa era praticamente um refém dos sultões turcos seldjúcidas que
haviam dominado de fato a região vindos das proximidades da Mongólia.
Mas mesmo o sultão não tinha mais do que uma autoridade também nominal sobre as centenas
de pequenos emirados governados por generais turcos geralmente dados a uma vida luxuosa e à
bebida, além de a constantes disputas entre eles, além de em geral agirem com extrema
crueldade. Não tivessem sido os Cruzados tão violentos em sua entrada no Levante e a maioria
árabe da população os teria preferido aos generais turcos.
As regiões ocupadas pelos Cruzados, da Asia Menor à Palestina, eram um rosário de cidades-
estado praticamente autônomas em relação a qualquer poder central. A maior parte delas era
governada pelos turcos, sempre em guerra com os emirados vizinhos, de dominação recente
perante a população árabe que em geral os detestava.
A única região relativamente forte em todo o Oriente Médio Muçulmano na época era o
Califado Fatímida do Egito, rival de Bagdá, os califas de Bagdá haviam transformado o credo
xiíta em religião de Estado e tentavam dominar o resto da região, de fé sunita. Entretanto os
califas fatímidas como os abássidas também eram apenas uma autoridade nominal, ficando o
poder efetivo nas mãos dos vizires. O mais importante destes vizires no período das Cruzadas
será justamente um cristãos armênio, Chewar.
Unidade
A reação muçulmana aos cruzadas só conseguiu se articular quando surgiram governantes fortes
o suficiente para em primeiro lugar unificar pela conquista os emirados muçulmanos para em
seguida enfrentar os cruzados. Depois de sucessivas tentativas e derrotas o primeiro emir turco a
constituir um reino unificado, embora ainda sob a suserania de Bagdá, foi Zinki.
Este era um general turco convocado pela população de Alepo para liderar a luta pela expulsão
dos ocidentais. Carregando o título turco de Atabeg, "pai do soberano", Zinki conseguiu unificar
a Síria central e a Armênia impondo as primeiras derrotas significativas aos Cruzados. Ao
contrário dos outros generais preferia dormir na palha com seus soldados e desprezava os
palácios e o luxo, apesar de estar constantemente embriagado.
Um novo passo rumo a vitória será dado pelo seu filho, Nur-ad-Din, que conquistará o Egito
fatímida extinguindo o califado xiíta. Mais virtuoso que o pai Nur-ad-din conseguirá ser mais
respeitado pela população árabe, mas seus filhos acabarão sendo suplantados depois da sua
morte por um de seus generais, Salah-ad-din, destinado a ser o grande herói muçulmano das
cruzadas.
Rei pobre
O pai de Salah-ad-din, Ayuub, um militar curdo, entrará para o serviço de Zinki quando salva a
vida do general durante uma derrota na guerra contra um califa que tentava recuperar o poder
efetivo de mando. Criado na corte Salah-ad-Din é levado ao Egito por seu tio e acaba se
tornando vizir do último califa fatímida e soberano vassalo de Nur-ad-Din.
Com a morte deste, Saladino guerreia contra os herdeiros e consegue unificar o Oriente Médio
muçulmano e impor derrotas significativas aos Cruzados retomando a maior parte das cidades
costeiras dominadas por eles. Contudo Saladino tenta insistentemente firmar uma trégua com os
ocidentes, tendo como principal interlocutor Ricardo Coração de Leão. Infelizmente a maior
parte dos tratados não são respeitados e as guerras são reiniciadas.
Ao contrário de seus antecessores, Saladino é um governante piedoso, que não tenta se igualar
em crueldade aos adversários. Seus atos de misericórdia alcançaram e fascinaram o ocidente a
tal ponto que fica difícil separar a realidade da lenda. Nem sempre contudo suas ações
diplomáticas eram bem vistas pela população árabe que controlava que as consideravam
excessivamente condescendentes.
Também era avesso ao luxo, tendo vivido a maior parte da sua vida numa tenda ao invés dos
palácios que conquistou. Quando morreu sua família foi obrigada a emprestar os objetos para o
funeral porque o mais poderoso governante do Oriente Médio não tinha nada de seu.
200 anos de conflito
Segue um quadro resumindo os principais acontecimentos dos 200 anos de combates entre
cruzados e muçulmanos da convocação das Cruzadas a tomada de São João D'Acre, último
bastião cruzado.
1095 - O papa Urbano II convoca os europeus a libertarem a Terra Santa do domínio dos infiéis
num torneio de cavalaria em Clermond, França. Diversos fanáticos propagam a ideia pela
população e antes mesmo da cruzada oficial ser lançada forma-se uma cruzada de mendigos e
camponeses pobres que largam tudo para ir a Terra Santa.
1096 - A Cruzada dos Mendigos é derrotada ainda na Ásia Menor em Nicéia, no território onde
se localiza a atual Turquia, pelo emir turco seldjúcida Kilij Arslan.
1097 - A Cruzada dos barões marca a primeira expedição oficial que toma Nicéia e expulsa
Kilij Arslan dominando a Ásia Menor.
1098 - Os cruzados tomam Edessa e Antióquia e derrotam o exército de Karbuka, senhor de
Mossul. Na tomada da aldeia de Maara são relatados atos de canibalismo dos cruzados.
1099 - Queda de Jerusalém, exército egípcio é destruído. O cádi (juiz muçulmano) de Damasco
vai a Bagdá pedir ao Califa a decretação da Jihad contra os invasores europeus, sem ser
atendido.
1100 - Baudoin, do Condado de Edessa, um dos domínios cruzados do Oriente Médio, escapa
de uma emboscada perto de beirute - provocada pela desunião entre os emires turcos, e se
proclama Rei de Jerusalém.
1104 - Vitória muçulmana em Harran, desencorajando a expansão cruzada para o leste.
1108 - Batalha em Tell Bacher revela a desunião entre os líderes dos dois lados. Tanto em um
campo como no outro se encontram cruzados e muçulmanos lado a lado contra cruzados e
muçulmanos.
1109 - Queda de Trípoli depois de 2 mil dias de sítio.
1110 - Queda de Beirute e Saida.
1111 - O cádi de Alepo, Ibn al-Khachab, organiza uma rebelião contra o califa de Bagdá para
exigir sua intervenção contra os cruzados.
1112 - Resistência vitoriosa em Trípoli.
1115 - Aliança dos emires muçulmanos e nobres cruzados da Síria contra uma expedição
enviada pelo sultão turco de Bagdá.
1119 - Ilghazi, senhor de Alepo na Síria, derrota os cruzados em Sarmada.
1124 - Os cruzados tomam Tiro, passando a controlar toda a costa com exceção do enclave de
Ascalon.
1125 - Ibn al-Khachab, cádi de Damasco e principal defensor ideológico da unidade muçulmana
contra os cruzados é morto por um membro da seita dos Assassinos.
1128 - Fracassa um ataque cruzado a Damasco. O general turco Zinki torna-se senhor de Alepo.
1135 - Zinki fracassa na tentativa de tomar Damasco.
1137 - Zinki captura Fulque, rei de Jerusalém, mas o solta em troco de um resgate.
1138 - Zinki anula uma coalizão entre os cruzados e os bizantinos na batalha de Chayzar.
1140 - Aliança entre a Damasco muçulmana e a Jerusalém cruzada contra Zinki.
1144 - Zinki retoma Edessa e completa a destruição dos quatro reinos cruzados no Levante.
1146 - Zinki morre sendo sucedido por seu filho Nur-ad-Din, "Luz da religião".
1148 - Uma expedição cruzada comandada por Conrad, imperador alemão e Luís VII, da
França, é derrotada ao tentar tomar Damasco.
1154 - Nur-ad-Din assume o poder em Damasco unificando o território sírio sobre o seu
controle.
1163-1169 - Cruzados e as tropas de Nur-ad-Din lutam pelo Egito, cabendo a vitória a Chirkuh,
general curdo a serviço de Nur-ad-Din. Mas Chirkuh morre dois meses depois de ser
proclamado vizir, sendo sucedido por seu sobrinho Iussef Ibn Ayuub, conhecido como Salah-
ad-Din, "benção da religião", que ficou conhecido nas canções de cavalaria ocidentais como
Saladino.
1171 - Saladino proclama o fim do califado fatímida e governa o país em nome de Nur-ad-Din,
este vê com desconfiança o crescente poder de seu general.
1174 - Nur-ad-Din morre, Saladino em luta contra os herdeiros dele apodera-se de Damasco.
1183 - Saladino apodera-se de Alepo unificando o Egito e a Síria sob o seu comando.
1187 - Saladino derrota os cruzados em Hittin, reconquista Jerusalém e a maior parte das
cidades sob o domínio cruzado limitados agora a Tiro, Trípoli e Antióquia.
1190-92 - Negociações entre Saladino e Ricardo Coração de Leão permitem aos cruzados
recuperarem diversas cidades, persiste a disputa por Jerusalém.
1193 - Saladino morre lançando o império aiúbida em guerra civil, até ser reunificado pelo seu
irmão, al-Adil, "O justo".
1204 - A quarta cruzada toma o porto de Zara do rei cristão da Hungria para pagar aos
venezianos pelo transporte. Depois tomam e saqueiam Constantinopla substituindo o imperador
bizantino por um títere e criando o Império latino, de duração efêmera.
1218-21 - Os cruzados invadem o Egito e tomam Damieta ameaçando o Cairo, O sultão al-
Kamal, "o perfeito", filho de al-Adil, expulsa os invasores.
1129 - Al-Kamal faz um tratado de paz com o imperado Frederico II entregando aos cruzados o
controle de Jerusalém, de uma faixa costeira na Palestina e de um corredor entre as duas áreas.
Ocorrem tumultos entre a população muçulmana, em especial a de origem árabe, que se indigna
com os termos do acordo.
1244 - Depois dos cruzados desrespeitarem o tratado Jerusalém é retomada.
1248-50 - São Luís tenta ocupar o Egito mas é derrotado e capturado. Os sultões aiúbidas são
depostos pelos mamelucos, escravos brancos da Ásia Central que comandavam a administração
e o exército.
1258 - Os mongóis saqueiam Bagdá e eliminam o último califa abássida.
1260 - O general mameluco Baibars derrota e expulsa os mongóis, com a vitória consegue apoio
para derrubar o sultão e tornar-se o soberano mameluco.
1269 - Baibars toma Antióquia e massacra a população.
1270 - São Luís morre ao tentar a conquista de Túnis na África do Norte.
1289 - Qalaun, sultão mameluco, se apodera de Trípoli.
1291 - Depois de 196 anos de luta os cruzados se retiram da Palestina com a perda de São João
d'Acre.
O risco de uma Nova Cruzada
Para mim a incompreensão entre a cultura ocidental e a Islâmica pode levar a um novo
enfrentamento tão cruel como as Cruzadas. Muitas circunstâncias são semelhantes até demais,
só que naquela época o mundo islâmico era mais desenvolvido culturalmente que o europeu, ao
contrário do que ocorre hoje.
Reina entre os ocidentais uma incompreensão quase total do que seja o Islam, como existia na
Europa Medieval. Esta quase total ignorância em relação ao mundo islâmico faz com o
ocidental médio não tenha mais que uma "visão confusa e estereotipada" do muçulmano.
Outra semelhança é o estado de profunda divisão dos muçulmanos, quase sempre baseada em
questões que nada tem a ver com a fé. Tanto de um lado como do outro o que existem são
interesses políticos e econômicos muito concretos que não tem nada a ver com fé, religião e
muito menos com Deus.
O campo preferencial da Nova Cruzada é a informação. Quem controla a produção, organização
e distribuição da informação pode voltar para onde quiser os seus canhões e exércitos. Existe
um esforço da mídia em tentar, tal como nos tempos medievais, excluir os muçulmanos da
espécie humana e com isto tornar mais aceitável perante a opinião pública o seu extermínio.
Interesses políticos e econômicos fazem com que as incompreensões se ampliem e podem levar
a legitimação de um conflito que hoje já é latente. O estereótipo do árabe terrorista, mal
encarado e fanático ameaçando civis está se enraizando no imaginário ocidental, embora não
tenha correspondente na realidade.
O verdadeiro caráter da Jihad - chamada pelos ocidentais de Guerra Santa - por exemplo, não
tem nada a ver com a impressão que o noticiário internacional dá dela todos os dias. A Jihad é
basicamente defensiva e só pode ser convocada pelo consenso de todos os muçulmanos quando
existe uma agressão ou ameaça eminente de agressão.
Também existe grande interferência das potências ocidentais nas regiões muçulmanas e em
especial no Oriente Médio. A Guerra do Líbano é alimentada desde o século passado pelo
imperialismo ocidental e existem evidências de ligações da CIA em um sem número de
conflitos dos muçulmanos.
Espero que a facilidade de comunicação entre os povos permita em tempo curto um maior
contato entre a cultura ocidental e a islâmica. Só ambos se compreendendo e respeitando mais
poderemos criar a cooperação ao invés da guerra.
LEIA MAIS
As informações utilizadas neste textos foram retiradas das seguintes fontes:
As Cruzadas vistas pelos árabes - Amin Maalouf - Editora Brasiliense.
História das Cruzadas - Joseph François Michaud - Editora das Américas
Prolegômenos - Ibn Khaldun - Sociedade brasileira de Filosofia.
Uma história dos Povos Árabes - Albert Hourani - Companhia das Letras.
Orientalismo, o Oriente como criação do Ocidente - Edward Said - Companhia das Letras.
Atlas da História do Mundo Folha - The Times.
Revista Superinteressante nº 10, outubro 1995.
Caderno de Domingo do Estado de São Paulo, 19 de novembro de 1995.
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Ao mesmo tempo a comédia não ironiza tanto os valores tradicionais em si, mas antes a
hipocrisia de uma aristocracia corrompida que já não faz jus aos valores de educação,
temperança e piedade que embasam sua posição superior, invocando assim apenas os direitos,
mas não os deveres devidos a sua posição.
Lisístrata reclama que se fosse para um bacanal nem precisaria ter convidado as mulheres, mas
como as chamava pra discutir assunto sério poucas apareceram, sem dizer que ao final vence a
todos pelo apelo ao prazer. Assim Estrepsíades o pai que contrata Sócrates, n'As Nuvens para
tentar treinar o filho preguiçoso para a carreira na política lamenta-se:
Pelos deuses! As coisas por aqui\Eram bem diferentes, certamente\Nos velhos tempos, antes
dessa guerra! \Maldita guerra! Arruinou Atenas.\Não se pode sequer, de agora em diante,\
Chibatear sem dó nossos escravos
Para Hauser há um progressivo avanço das tendências democráticas tanto na comédia quanto na
tragédia, o qual reflete-se sobretudo na transição do formalismo característico de uma visão de
mundo aristocrática para o naturalismo mais ao gosto burguês. Particularmente ele destaca a
importância das fontes de financiamento seja através dos cofres públicos ou de doações dos
particulares ricos a qual acaba resultando na exclusão da massa de um poder decisivo no
processo de escolha. Para ele há uma contradição latente, em especial na tragédia, na medida em
que ela parte de um fundo mitológico tradicional mas deve agradar a uma massa popular ainda
que em um certo sentido também elitizada, particularmente em Atenas por conta dos recursos
do imperialismo.
É preciso notar, contudo, que a Medeia de Eurípedes não foi bem aceita tanto pelo público
quanto pela crítica por romper diversos cânones formais da tragédia. E entre esta tragédia de
transição e o Édipo Rei de Sófocles em certo sentido seu oposto na medida em que é o padrão
há apenas 3 anos de diferença.
Também não deixa de ser fato curioso que Sócrates seja um personagem favorito a ser ironizado
nas comédias, ao mesmo tempo que a crítica moderna em especial Nietzsche e em menor escala
Ortega y Gasset o apontem como o representante da anti-tragédia, na medida em que invocaria
um papel central à razão deslocando aquilo que Nietszche chama de amor ao destino.
Postura esta que não deixa de parecer paradoxal porque a menos nos momentos pré-Eurípedes
os infortúnios do herói jamais são casuais, mas antes marcados por uma lógica que, mesmo
arbitrária, faz sentido. Um dos cânones da tragédia que Eurípides viola, por sinal, é exatamente
a noção de que a desventura do herói no momento da peripécia não deve ser casual, mas
provocada por uma ação dele mesmo em algum grau não deliberada. Correndo o risco de
estender demais para além do assunto parece relevante notar que as consequências funestas da
inobservância de algum rito, mesmo quando esta omissão é involuntária é tema recorrente de
inúmeras mitologias.
Depois de alguns dias fui me acostumando a ver as palavras também como um conjunto de
ondas. Eu que me importo quase que só com o conteúdo delas passei a me interessar por elas
também enquanto formas puras. Eu, que gosto de pensar mais na eternidade do que no tempo,
me vi lidando com milésimos de segundo e vendo como eles são relevantes na edição de uma
entrevista.
Imaginar que as palavras também são apenas ondas mecânicas, compostas de quase infinitas
frações mínimas de tempo, ao invés de conceitos mágicos que ao menos enquanto tendência
visam a eternidade não prejudicou minha relação com elas. Deu-me, talvez, a dimensão do
caráter meio mágico que elas tem.
Logo que tive tempo para aproveitar em outros campos o conhecimento recentemente adquirido
passei a vasculhar arquivos de músicas, recitações religiosas e outras fontes de áudio tentando
ver se esta mágica era perceptível no formato das ondas ou nas frações de milésimos de
segundo. Sempre acreditei no simbolismo sonoro, intangível e inexplicável, que recheia
recitações devocionais diversas – como digo sempre já pude sentir com clareza o efeito da
leitura do Sagrado Alcorão mesmo sendo uma língua que eu compreendo pouco.
É evidente que o segredo não está no formato das ondas, mas não deixa de ser curioso a
obediência a certas regras, as amplitudes, as frequências, até mesmo é possível enxergar as
rimas em uma onda que se repete com impressionante regularidade na voz de um recitador de
qualidade. Impossível descrever a sensação de ver uma rima em sua forma pura, livre do
convencionalismo humano e sujeita apenas à regularidade da forma totalmente abstrata.
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Pessoal
DT
Referência Original: [Link]/portal/10477
ÉTICA E ESTÉTICA
Mergulhei em textos díspares nestes dias para tentar subir um degrau na compreensão das
relações entre ética e estética, uma das muitas questões nas quais oscilo de paradoxo em
paradoxo sem conseguir chegar a uma conclusão objetiva. De um lado parecem-me razoáveis as
formulações tradicionais que ressaltam a beleza como esplendor da verdade – na frase famosa
de Platão – mas considero pobre as formulações que estacam a harmonia, o equilíbrio, a
proporção, como “sintomas” do que é belo.
A meu ver este tipo de concepção acaba levando a uma estagnação, à produção que acaba se
prendendo a fórmulas e por não ousar perde o sentido, vira imitação e com isto perde seu caráter
de arte e em conseqüência sua beleza. Particularmente neste mundo que se torna cada vez mais
caótico estas concepções que ressaltam a ordem e a harmonia parecem se tornar extemporâneas
e incapazes de sensibilizar.
Lembro de duas reflexões absolutamente distintas. De um lado São Bernando criticando “estas
terríveis coisas belas” referindo-se à arte sacra medieval repleta de fórmulas grandiosas,
defendendo uma volta a uma concepção mais naturalista e na qual se voltasse a ver na natureza
uma imagem do sagrado. Curioso que qualquer coisa “bucólica” hoje em dia soa
fundamentalmente como fals, pois a natureza não faz mais parte do cotidiano da imensa maioria
de nós, quantos pro exemplo já viram uma ovelha para serem capazes de imaginar um pastor?
De outro me lembro de Henry Muller, com seu texto caótico, grosseiro – penso particularmente
no Trópico de Câncer, por exemplo – no qual, contudo, há um desejo de se enxergar para além
das convenções.
Parafraseando Borges, para o qual toda arte “engajada” era lamentável e segundo o qual “a
única arte reacionária é a medíocre”, penso também que o maior sinal de que qualquer limite
facilmente acaba levando à mediocridade proque de tanto tentar prender a inspiração acaba
afastando-a. Mas, paradoxalmente, nem sempre me agrada este certo pessimismo que tende para
o niilismo do que é contemporâneo, que tenta convencer as pessoas da inutilidade da vida.
Curiosamente eu diria que eu próprio me policio bastante e costumo deixar de lado tudo que
escrevo que não me parece “bom”.
Há, claro, dois tipos de negação da realidade e nem sempre é fácil distingui-las, talvez proque
nem mesmo o autor as distinguia. De um lado a negação dos sentidos humanos, terrenos, da
vida, concepção que embora pareça às vezes pessimista não é de fato para quem tem alguma
compreensão de que não estamos restritos à existência física. De outro lado, porém, há a
compreensão dos desejos constantemente frustrados de um ser humano cuja realidade é sofrer e
morrer e pronto. Mas esta não é uma distinção objetiva, varia conforme quem lê, até em que
época lê.
Talvez um pouco por isto me lembre de Henry Muller, em cuja “obscenidade” há o mérito de
buscar o rompimento com as fórmulas estabelecidas e em cuja “grosseria” há uma dúvida sobre
o mundo ter sentido ou o ser humano ser apenas um “piolho”. Como todo bom escritor de
verdade ele não chega a conclusões, apenas formula questões. Curioso que só por este traço é
possível distinguir a literatura e a sabedoria dos infinitos textos de auto-ajuda que circulam por
aí – sempre lembrando que os grandes mestres de todas as tradições em geral não escreviam,
motivo pelo qual seriam odiados hoje pela indústria editorial que fatura milhões com a
prolixidade daqueles que se dizem discípulos deles.
Mas como “medir” se uma obra de arte atinge este ideal subjetivo de arte que é fazer pensar,
transcendendo a mera percepção sensível para atingir diretamente a consciência?
Ao mesmo tempo como não falar de angústia, de pessimismo, de falta de sentido em um mundo
no qual o ser humano está insulado, desligado de tudo que diga respeito ao outro e desligado de
tudo que é transcendente. As fórmulas estéticas dos tradicionalistas, como Schuon e ainda mais
como Guénon, parecem ser absolutamente insatisfatórias, artificiais, quase inúteis e
absolutamente improdutivas e “mediocrizantes” quando aplicadas neste mundo contemporâneo.
Certamente são válidas para se examinar uma miniatura persa ou uma catedral gótica, mas estas
são expressões que não fazem mais parte do nosso mundo, “recriá-las” seria produzir uma
falsidade e portanto um objeto desprovido de verdade, portanto de real beleza.
Ao mesmo tempo também vejo falta de sentido no extremo oposto, naquela criação que é feita
com o intuito exclusivo de chocar, cujo único conteúdo está contido na violação das regras, em
ser “novo” como se isto bastasse. Ao mesmo tempo que certa dose de “absurdo” e “assombro” é
essencial á arte – e mesmo o conservador Aristóteles reconhece este elemento como essencial –
ele tem de ser ferramenta, não é capaz de substituir por si só o conteúdo.
Mas é impossível definir os limites claros entre estes dois extremos – que na verdade é um
limite só, entre o sincero e o artificial e assim os redutos “academicistas” e “ultra-pós-
vanguardistas” são em essência a expressão do mesmo tipo de mediocridade. Qualquer
teorização sobre o assunto só pode desviar a atenção do verdadeiro foco – e aqui me lembro
deste personagem contemporâneo cada vez menos raro do pseudo-artista que produz para a
crítica – porque a utilidade da Beleza é justamente ser capaz de transcender o conhecimento
discursivo. Daí, penso eu, será que toda esta reflexão que fiz até aqui não é absolutamente
inútil?
S E G U N D A - F E I R A, 6 N O V E M B R O , 2 0 0 6 - 1 2 : 1 3
E será tomada pelos votam por impulso seu próprio ou de terceiros ou for fatores totalmente
alheios à política ou, ainda pior, por aqueles que estão no último degrau da condição humana e
transformam o voto em mercadoria. Por mais difícil que seja é necessário votar, ainda mais nas
eleições parlamentares onde há imenso leque de opções, mesmo que a maioria dos candidatos
esteja abaixo do lamentável.
Costumo dizer que pior que o político profissional, aquele para a qual a política não é um
exercício de nobreza, mas vil fonte de recursos, só o político amador, ou seja, aquele que não
tem nenhum preparo, formação e às vezes nem afinidade com a atividade política. Esta
atividade exige calma, reflexão, disposição para o diálogo, estudo e dedicação, qualidades que
certamente não são encontradas na imensa maioria das pessoas que aparecem no show de
horrores que se tornou o horário eleitoral dos candidatos aos parlamentos.
Acredito também que mesmo esta massa disforme que é a multidão pode aprender com o
tempo. Espero que o momento de registrarem seu protesto votando em aberrações políticas já
foi, assim como o de votar em celebridades de ocasião. Vai ficando evidente o quanto estes
tipinhos comportam-se depois de eleitos exatamente como os piores de todos os políticos
profissionais.
Por conta destas questões acho que sempre que possível é melhor reeleger um bom homem
público do que fazer experiência com amadores. Há um conceito neste comportamento que
merece ser destacado. Uma das cosias que mais se houve nos bastidores dos parlamentos é que
dedicar-se a fazer a grande política, exercer um mandato pleno, é uma grande bobagem e um
erro, porque há dezenas de bons deputados e vereadores que não se reelegeram enquanto há
milhares de maus elementos que retornam com um sorriso debochado no rosto. Assim reeleger
um bom parlamentar é demonstrar que vale a pena dedicar-se à política.
Colocado tudo isto, quero dizer que na cidade de São Paulo voto em José Police Neto no.
45000, do PSDB.
Netinho é um velho amigo desde a adolescência. Mas certamente não recomendaria um voto
baseado em laços pessoais, mesmo que em momentos difíceis com o que a política nacional
vive hoje nos voltemos para o pouco que sobra que são os laços afetivos. Ele tem sido um
parlamentar dedicado, competente, colocado a inteligência a serviço do interesse público e
trabalhado de acordo com as boas práticas da grande política.
Para que esta minha avaliação possa ser julgada de forma mais objetiva, destaco que ele foi
apontado como O MELHOR VEREADOR pelo Movimento Voto Consciente, ONG que há 21
anos fiscaliza o trabalho da Câmara Municipal de São Paulo, segundo critérios técnicos.
Pessoal, Política
PP
Referência Original: [Link]/portal/10704
RELIGIÃO, IDEOLOGIA E CIÊNCIA
"Não, definitivamente a religião não é uma simples 'secreção' da vida em sociedade. Porventura
não existe na alma humana, seja qual for a estrutura do grupo social, uma necessidade de
elevação, uma aspiração à transcendência, tão bem expressa pela noção do sagrado, e que a vida
em sociedade não é suficiente para explicar?" (Armand Cuvillier, Sociologia da Cultura)
Em conferência realizada pela Sociedade Brasileira de Sociologia em 1997, na UNB, o
sociólogo Antônio Flávio Pierucci, da USP, avaliou como fracassados os esforços da Sociologia
da Religião se consolidar como disciplina acadêmica. Diz ele: "No apelo à factualidade
empírica da revanche de Deus, que identificam na nova visibilidade pública da efervescência
das culturas e subculturas religiosas, aplaudem o alegado retorno do sagrado como se
representasse o fim do processo de secularização. Uma profecia a mais, das clássicas, a não se
cumprir".
Embora justa no sentido apresentado por ele - que enxerga o evidente comprometimento, no
sentido afetivo-emocional, dos próprios pesquisadores com o tema - a observação parece
ignorar o caráter ainda nascente de uma Sociologia da Religião. É preciso notar que todo o
aparato teórico e metodológico utilizado para estudar o fenômeno social de base religiosa sofre
de alguns problemas sérios, dentre os quais se destaca a indefinição dos conceitos e o caráter
dependente que todos os modelos clássicos atribuem a esfera do religioso.
Mas ao fazerem isto acabam por simplesmente empurrar o problema à frente, pois passa a ser
necessário definir o que seria o sagrado. Qualquer definição que defina religião em função do
sagrado - e praticamente todas as definições clássicas o fazem - acaba sendo contaminada por
uma certa tautologia remetendo o leitor a ficar preso em um círculo vicioso do qual dificilmente
ele pode escapar.
Talvez o motivo do equívoco apontado por Pierucci nos sociólogos da religião se deva não tanto
ao comprometimento dos mesmos como "revanchistas de Deus", mas muito mais devido à
imprecisão dos conceitos que levam muitos a considerar as manifestações religiosas visíveis - o
aumento do público nos cultos, a ampliação de publicações e produtos religiosos, o
desenvolvimento dos fundamentalismos - como um Ressurgimento religioso.
Parece evidente que uma definição suficiente de Religião deveria ser capaz de englobar não só
as religiões propriamente ditas, mas também as tendências secularistas, o ateísmo e mesmo
aquilo que Garaudy chamou de cientificismo. Isto porque de certa forma estas visões de mundo
tem um elevado grau de correspondência com os fenômenos religiosos, dialogam com eles e de
certa forma pretendem substitui-los. Se tomando, apesar das limitações mencionadas, a noção
da religião como definidora do que é sagrado ou profano, há igualmente no secularismo uma
definição do espaço e tempo do sagrado.
Ao mesmo tempo parece ser inevitável desdobrar o que se vem tentado definir como religião em
múltiplos conceitos. Parece evidente que, por mais que sejam termos relacionados numa mesma
equação, existe uma distinção fundamental entre Religião e religiosidade, entre Religião e Igreja
Institucionalizada, entre Religião e Fé. Todas as teorias clássicas tentam fundir todos estes
conceitos e criar um sistema que os harmonize e parecem ter falhado.
Marx, seguindo a tradição da filosofia clássica alemã, a despeito do seu "a religião é o ópio do
povo" (ironizado por Aron que disse ser o marxismo "o ópio dos intelectuais") contribui de
forma significativa - e pouco percebida - para a definição do termo ao entender a religião como
uma visão de mundo, uma cosmovisão.
Bourdieu retoma a ideia no seu "Economia das trocas simbólicas" dando à religião a
característica de uma estrutura estruturante, ou seja, uma estrutura social que contribui para a
definição das outras estruturas. É uma tentativa de harmonizar os conceitos dos três autores
clássicos e contribuições posteriores simultaneamente retirando a noção de coerção social de
Durkheim - transformada em coerção hierática - a noção de monopólio hierático e banalização
do sagrado institucionalizado em Igreja de Weber e a noção de religião como ideologia, como
forma de organizar os dados da realidade sensível de Marx.
Escapa a este sistema qualquer maior autonomia do fenômeno religioso em relação ao conjunto
do social. É evidente que existe uma interação entre o religioso, o social, o econômico e o
político que é inegável, mas, à exceção de Weber o conteúdo próprio de uma doutrina não teria
vida própria para nenhum dos outros teóricos. Mas mesmo para Weber o papel da religião é
sempre dependente do social, já que ele vê o social como "selecionador" das ideias religiosas.
Aqui é preciso aplicar as teorias a si mesmas, "mobilizar contra a ciência que se faz a ciência já
feita" como defende Bourdieu, para verificar que como produtos de um determinado período
histórico nenhum dos três autores seria capaz de produzir uma teoria do fenômeno religioso
capaz de dar a ela uma certa autonomia e, principalmente, dar à esfera religiosa qualquer papel
ativo e primordial em qualquer fenômeno religioso.
Um dos personagens abordados de forma mais injusta pelo senso comum é o bobo da corte.
Com o tempo a imagem que se fez dele transformou-o justamente no seu contrário. O bobo não
era a figura caricata que tenta agradar o soberano para colher algumas migalhas do banquete do
poder. É, pelo contrário, aquele que diz verdades tão profundas a ponto de precisarem ser
travestidas de pantomimas para serem apresentadas aos mortais. Só o bobo, pela sua loucura, é
capaz de contrariar todos os interesses, deixar de lado todas as manobras, desvelar-se de tudo
que é subterrâneo portanto seguro para dizer na cara do rei as coisas desagradáveis.
É esta dimensão que torna o bobo um sucessor dos personagens trágicos. Não há como não
relacionar o bobo medieval, por exemplo, com o adivinho Tirésias, em Édipo Rei ou Antígona
de Sófocles. Também Tirésias é a ponte entre mundos diversos trazendo aos homens as
mensagens terríveis nos momentos cruciais. A mensagem das divindades, do mundo superior,
trazida por Tirésias é a mesma expressa na fala final do Corifeu da Antígona: Não formules
desejos... Não é lícito aos mortais evitar as desgraças que o destino lhes reserva! O dilema
fundamental de Édipo em Édipo Rei nada tem a ver com o sentido dado à história por inúmeros
comentaristas que não leram o texto e baseiam-se apenas em algum sentido captado de forma
fugaz em algum texto de popularização psicanalítica. O castigo de Édipo e seus pais vem da
tentativa dos três de burlar os desígnios divinos.
Acho pouco explorado o fato de que a punição tripla, extensiva a toda a família, jamais teria
ocorrido não somente se Jocasta e Laio não tivessem tentado escapar aos oráculos. Tivesse
Édipo ficado na casa de seus pais adotivos e se conformado com seus augúrios infelizes e o fado
não teria se confirmado. Da mesma forma não tivessem Laio e Jocasta tentado dar um jeitinho
de escapar à previsão do oráculo o desenrolar da história seria outro. Há neste ponto não só uma
noção da impossibilidade de escapar do destino, mas um sentido de omnisciência da divindade,
sentido este que por sinal lembra trechos do Sagrado Alcorão mencionando as andanças de
Moisés junto com o Khidr, além de várias outras passagens de histórias tradicionais.
Ainda assim é fundamental destacar que o desastre dos heróis não é casual, fortuito, mas um
resultado direto de suas ações, assim se o destino é arbitrário em vários pontos, o desenlace da
história jamais é. Voltando à questão do Bobo, há algo que falta em Tirésias para encaixá-lo
neste papel. A verdade na língua de Tirésias queima inclusive a ele próprio, é um fardo, algo
desagradável. Ele implora a Édipo em Édipo Rei quando é chamado:
TIRÉSIAS - OH! TERRÍVEL COISA É A CIÊNCIA, QUANDO O SABER SE TORNA INÚTIL!
EU BEM ASSIM PENSAVA; MAS CREIO QUE O ESQUECI, POIS DO CONTRÁRIO NÃO
TERIA CONSENTIDO EM VIR ATÉ AQUI. E, AINDA DE FORMA MAIS DRÁSTICA, PARA
NÃO SER FORÇADO A ESCLARECER A HISTÓRIA:
TIRÉSIAS - JAMAIS CAUSAREI TAMANHA DOR A TI, NEM A MIM! POR QUE ME
INTERROGAS EM VÃO? DE MIM NADA OUVIRÁS! E POR FIM SÓ FALA SOB INTENSA
COAÇÃO, AOS SER AMEAÇADO DE SER ELE PRÓPRIO ACUSADO PELO CRIME DE
ÉDIPO:
TIRÉSIAS - SERÁ VERDADE? POIS EU! EU É QUE TE ORDENO QUE OBEDEÇAS AO
DECRETO QUE TU MESMO BAIXASTE, E QUE, A PARTIR DESTE MOMENTO, NÃO
DIRIJAS A PALAVRA A NENHUM DESTES HOMENS, NEM A MIM, PORQUE O ÍMPIO QUE
ESTÁ PROFANANDO A CIDADE ÉS TU!
Para não me estender não comento a suspeita, desde a primeira vez que li Édipo Rei, de que há
um conluio entre Tirésias e Creonte. Ressalto apenas que achei a hipótese mais consistente a
despeito de Tirésias também profetizar o castigo a Creonte pela tirania - depois de ter lido
Antígona, na qual é dito:
CREONTE - TODA A RAÇA DOS ADIVINHOS É CÚPIDA!. TIRÉSIAS - E A DOS TIRANOS
ADORA OS PROVEITOS, POR MAIS VERGONHOSOS QUE SEJAM.
CREONTE - SABES QUE É A UM REI QUE DIRIGES TAIS PALAVRAS? TIRÉSIAS - BEM O
SEI. GRAÇAS A MIM PUDESTE SALVAR O ESTADO.
CREONTE - ES UM ADIVINHO ESPERTO: MAS TENS PRAZER EM PROCEDER MAL.
TIRÉSIAS - TU ME OBRIGAS A DIZER O QUE TENHO EM MENTE!
CREONTE - POIS FALA! CONTANTO QUE A GANÂNCIA NÃO TE INSPIRE !
Bem diferente é a invocação do Bobo do Rei Lear, de Shakespeare, talvez a personagem do tipo
melhor acabada, ao lado do Bobo do filme Ran de Kurosawa que é inspirado no primeiro.
Quando Lear reclama que seu bobo é um bobo amargo o Bobo responde com mordacidade
dizendo que o verdadeiro bobo é o rei:
LEAR - UM BOBO AMARGO.
BOBO - SABERÁS DIZER, MEU RAPAZ, QUE DIFERENÇA HÁ ENTRE UM BOBO AMARGO
E UM BOBO DOCE?
LEAR - NÃO, MENINO; ENSINA-MA.
BOBO - QUEM O CONSELHO TE DEU DE DOAR TODAS AS TUAS TERRAS PÕE AQUI AO
LADO MEU, E O DELE TOMA; NÃO ERRAS: VERÁS LOGO, LADO A LADO, O DOCE
BOBO E O AMARGOSO; UM AQUI, SARAPINTADO, O OUTRO AÍ MESMO, ACHACOSO.
LEAR - COM ISSO QUERES DIZER QUE EU SOU BOBO, MENINO?
BOBO - JÁ ABRISTE MÃO DE TODOS OS OUTROS TÍTULOS; ESSE É O ÚNICO QUE TE
VEIO DO BERÇO.
E para não deixar dúvidas, mesmo quando lamenta a posição de Bobo ele coloca-se acima do
rei:
BOBO - NÃO POSSO COMPREENDER QUE TU E TUAS FILHAS SEJAIS APARENTADOS;
ELAS ME AÇOITAM POR EU DIZER A VERDADE, ENQUANTO TU PRETENDES FAZER O
MESMO NO CASO DE EU MENTIR, SEM CONTARMOS QUE ALGUMAS VEZES TENHO
SIDO AÇOITADO POR ESTAR QUIETO. QUISERA SER TUDO NESTE MUNDO, MENOS
BOBO, MAS NÃO DESEJO SER O QUE ÉS, TIO; DOS DOIS LADOS RASPASTE O ESPÍRITO,
SEM DEIXAR NADA NO MEIO...
É este aspecto, senão de felicidade de destemor frente ao poder, que torna próximos os
personagens da Antígona e do Bobo. Ambos priorizam uma fidelidade a valores superiores,
tradicionais, e confrontam o poder estabelecido em nome destes ideais elevados. É digno de
nota que há identidade de valores nas duas peças, em ambos os casos está em cheque a
fidelidade e amor devido aos familiares, norma cujo desrespeito desgosta a justiça do universo.
Também é importante reafirmar que um certo estado de loucura serve como justificativa a
ambos, como no trecho da Antígona mencionado na epígrafe. Nos dois casos a loucura é antes
uma forma superior de ver as coisas que se confronta com a visão limitada e interesseira do
senso comum.
É esta definição que faz os loucos de Deus dotados de uma visão que ultrapassa a dos homens
comuns e faz com que o Bobo do Rei Lear seja aparentado ao sábio zen - aspecto enfatizado na
versão de Lear realizada por Kurosawa, de Nasrudin e de personagens de quase todas as
tradições. É neste sentido que muitas vezes Antígona é interpretada com certo equívoco na
medida que é vista como a revolucionária que confronta o poder. Se esta leitura tem certa
consistência na medida em que ela coloca seus ideais acima do teor do Estado e contesta com a
própria vida um decreto cujo conteúdo é injusto, por outro lado seu motivo não é a tomada do
poder ou a implantação de alguma nova ordem, mas a retomada da ordem tradicional. Não é em
nome da individualidade que ela confronta Creonte, mas do seu senso de dever com a tradição,
inclusive sem buscar por isto qualquer recompensa, nem mesmo a de fugir ao castigo imposto a
sua família pelo fado, como destaca a parte final do texto:
ANTÍGONA - Ó CIDADE DE MEUS PAIS, TERRA TEBANA! Ó DEUSES, AUTORES DE
MINHA RAÇA! VEJO-ME ARRASTADA! CHEFES TEBANOS, VEDE COMO SOFRE A
ÚLTIMA FILHA DE VOSSOS REIS, E QUE HOMENS A PUNEM, POR HAVER PRATICADO
UM ATO DE PIEDADE!
O crime de Creonte ou mais propriamente a sua ação que gera a Hibrys resultando na sua
desgraça é tentar colocar seus desígnios acima daqueles determinados pelos deuses. A luta de
Antígona, na qual ela não tem prazer além de cumprir o que considera um dever, não é para
destituir o tirano, apenas este cumprimento de um dever que ela considera sagrado.
Da mesma forma o Bobo de Shakespeare, portanto também o de Kurosawa, também não espera
alguma recompensa senão o cumprimento do seu dever de fidelidade ao rei, mesmo quando isto
resulta em seu prejuízo pessoal e no ódio do restante da corte. O Bobo é aquele que se arrisca a
ser o bom conselheiro, ainda que numa linguagem criptográfica e confusa. É curioso o paralelo
com algumas referências de Thomas Morus na parte inicial da Utopia, na qual ele recomenda a
quem tem talento e visão não se tornar um áulico:
Quanto aos conselhos dos reis, eis aproximadamente a sua composição: Uns se calam por
inépcia, e teriam mesmo grande necessidade de ser aconselhados. Outros, são capazes, e sabem
que o são; mas partilham sempre do parecer do preopinante, que está em melhores graças, e
aplaudem, com entusiasmo, as pobres imbecilidades que este entende desembuchar; esses vis
parasitas só têm uma finalidade: ganhar, por uma baixa e criminosa lisonja, a proteção do
primeiro favorito. Os outros, são escravos de seu amor próprio e escutam apenas a própria
opinião, o que não é de admirar, pois a natureza insufla cada um a afagar com amor os produtos
de sua invenção. É assim que o corvo sorri à sua ninhada, e o macaco aos seus filhotes.
É a incapacidade da razão, dos valores elevados, da análise desvinculada dos interesses pessoais
e imediatas que torna o Bobo necessário, já que traz à tona como uma ação demente as únicas
respostas que tem ligação com o sentido universal das questões. Em particular numa sociedade
dessacralizada, tecnocrática, na qual não há qualquer tipo de transcendência, não é de se admirar
que este papel de guardião da verdade mais elevada do Bobo seja incapaz de ser compreendido
e ele seja visto apenas como mais um áulico tentando agradar aos poderosos, assim como certa
singeleza da ação de Antígona, a perder a vida apenas para cumprir um dever sagrado seja
tampouco compreendido em sua simplicidade, geralmente confundido com alguma postura
revolucionária.
Q U A R T A - F E I R A , 1 7 S E T E M B R O, 2 0 0 8 - 1 3 : 3 3
MUTILAÇÃO NECESSÁRIA
Em sua História da Filosofia, Will Durant, dedica uma única linha para falar da filosofia
islâmica, ainda assim para dizer apenas que "no Século XIII, toda a Cristandade ficou assustada
e estimulada por traduções árabes e judaicas de Aristóteles". Outros atribuem um papel
grandioso à filosofia e a Cultura islâmica e a colocam de forma exagerada como motor do
Renascimento Europeu, como Asin Palácios ao atribuir a Divina Comédia a um plágio de Dante
a um poeta persa.
Não é estranho, portanto que Dante tenha colocado no Limbo, no setor onde havia um grande
clarão, junto com Sócrates, Platão e Aristóteles os dois principais filósofos árabes, ibn Sina
(Avicena) e Rushd - Inferno, Canto IV, versos 142 a 144. E que ainda por cima tenha
acrescentado ao nome de Rushd o epíteto de autor de grandes obras numa referência aos seus
comentários de Aristóteles.
O verdadeiro papel da Filosofia Islâmica parece estar entre estes extremos, nem o exagero da
mera tradução, nem o do "plágio renascentista". Ao mesmo tempo herdeira do legado clássico,
mas não apenas sua copiadora, afinal os paradigmas platônicos e aristotélicos precisaram ser
"reconstruídos" para se incorporarem - e não sem dor - ao universo muito próprio do
pensamento islâmico. Ao mesmo tempo esta "reconstrução" preservou os ensinamentos
originais e os consolidou, a ponto de ibn Rushd ser chamado pelo título de O Comentador, por
sua interpretação de Aristóteles, O Filósofo, por São Tomas de Aquino, grande tributário dele.
O objetivo deste texto é apresentar grosso modo a filosofia islâmica de seu período considerado
"clássico" segundo a maioria dos autores, de al-Kindi a ibn Khaldun, enfocando - por razões de
economia - apenas os autores principais e mais influentes (al-Kindi, al-Farabi, ibn Sina, al-
Ghazali, ibn Ruchd e finalmente ibn Khaldun que não se considerava um filósofo mas evidente
tem sue papel junto aos outros por sua notável contribuição pioneira à filosofia da história).
Diversos outros autores são deixados de lado, não significando que sejam menos importantes,
mas apenas que não tiveram a mesma importância paradigmática dos citados para a filosofia
propriamente dita, nem reflexos sobre o pensamento ocidental posterior como estes tiveram.
Uma notável omissão, perceberá o observador mais atento, é a dos matemáticos como al-
Khwarism e Khaiyyam.
Também é significativa a ausência dos teólogos, à exceção de Ghazalli e breve referência a ibn
Taimyya, tendo em vista que o objetivo do seminário é sobretudo realçar o papel da filosofia
islâmica como sucessora da filosofia clássica e precursora da renascentista, legado ao qual estes
pensadores são alheios, para não dizer antagônicos.
Estas mutilações, bem como as inúmeras simplificações do texto se devem de um lado a
necessidades didáticas e de outro ao fato do público alvo ser formado não de especialistas ou
pessoas com interesse específico na Filosofia Islâmica, mas de um público apenas com
interesses gerais em filosofia. A meta, portanto, é dar uma ligeira noção sobre o tema e indicar
fontes nas quais, mais conhecido, pode ser buscado.
A essência do seminário, portanto, são as persistências e rupturas entre a filosofia clássica e a
Islâmica enfocando-se essencialmente o que houve de mais significativo na "reconstrução"
Islâmica da filosofia grega de Aristóteles e, em menor escala, de Platão e dos neoplatônicos, em
especial Plotino.
INTRODUÇÃO
Islam, Pessoal, Poesia, Educação, Literatura, Sociologia e cia., Política, Filosofia e cia,
Religião
Albert Hourani, al-Kindi, ibn Khaldun, Ghazalli, Ibn Sina, Sócrates, Aristóteles, Platão,
Will Durant, Asin Palácios, Dante,DT
Referência Original: [Link]/portal/6
COSMOGONIAS, MITOS E O
DEFEITO DO TAPETE
Não tenho nenhuma simpatia por estas tendências contemporâneas que tentam justificar ou
legitimar a religião a partir de seu cotejamento com os dados científicos do momento. Grosso
modo foi este tipo de disparate que fez com que várias passagens de vários livros sagrados
fossem interpretadas literalmente e os conhecimentos científicos da época transformados em
questão de fé, transformando – só para citar um dos exemplos mais famosos – a hipótese
científica antiga da terra ser o centro do universo em uma verdade teológica.
Ciência e Religião pertencem a universos e ordens de grandeza distintas, uma fala do efêmero e
outra do eterno, a mistura das duas certamente não produz nada de produtivo. Para quem
acredita que um determinado mito – e mito não significa como usualmente se usa hoje, mentira,
mas uma verdade cuja expressão transcende tempo e espaço e não pode ser descrita com
precisão através de palavras - ajuda a compreender o universo é irrelevante saber se há pontos
de contato entre esta história e as últimas modas científicas.
No sentido oposto desta relação, os mitos até podem ajudar a orientar a ciência, não quando
tratados como hipóteses, mas orientando a pesquisa segundo a linguagem e as técnicas próprias
da pesquisa. Contudo como este é um terreno meio pantanoso é melhor deixar uma longe da
outra.
Isto não me impede, porém, de observar com interesse os avanços científicos e as sucessivas
teorias – diria que certo conhecimento tradicional faz com que não só eu não me surpreenda
como até espere alguns resultados. Em particular as hipóteses sobre a criação do universo – em
certo sentido é justamente das cosmogonias que o mitos são feitos e reatualizados – oferecem
algumas oportunidades de reflexão bem interessantes.
Não entro em detalhes muito específicos porque estes a todo instante mudam, mas me prendo
particularmente a um dos fatos. O Universo não surgiu por ser um todo harmônico – como
creem todos aqueles que por uma leitura muito literal imaginam a ordem de outras esferas como
algo que se espelha aqui também.
Aquilo que é perfeito e está em ordem não se movimenta. É justamente a imperfeição, um ponto
de caos, um desequilíbrio mesmo que mínimo, que faz com que as coisas funcionem. A mínima
dimensão dos desequilíbrios que puseram o universo em movimento e o fizeram ser o que é não
pode deixar de lembrar de certas teses tradicionais, como as que destaquei no post “O Defeito
do Tapete” – porque também o tapete persa é uma imagem cosmogônica.
Nada disto tem a ver com o dualismo – como dizem aqueles que só entendem o Tao
superficialmente, por exemplo – e muito menos com algum maniqueísmo. As forças de criação
e destruição não são coisas distintas, mas parte intrínseca de tudo. Não fosse uma mínima
desproporção entre matéria e anti-matéria e o universo não existiria, assim como outros
mínimos desequilíbrios produziram as várias outras etapas que acabaram levando as coisas a
serem como são. Também a luz, as estrelas, os elementos, os planeta e enfim a vida chega a
existir pelos desequilíbrios, pelos defeitos do processo que criam em algum momento uma
situação nova, uma crise que não pode ser respondida pelo funcionamento normal. Como a
ciência que lhe espelha, o universo é a sucessão de modelos que fracassam e de novos ajustes
que surgem.
Estes desequilíbrios, estas interações entre ordem e caos – como está em moda dizer hoje,
esquecendo-se que todas as religiões e doutrinas tradicionais já mencionam isto e nos mitos o
mundo sempre é fundado pela luta das personificações de ambos – enfim, este movimento não é
bom, nem ruim, é apenas necessário para que o universo e tudo que há nele exista. Isto não
impede nem prova que haja outras esferas nas quais o movimento não exista, um mundo de
ideias platônicas, de arquétipos. A ciência nos fala deste mundo que se compõe e decompõe, os
mitos daquele outro mundo e de como a partir dele se criou este.
Há fascínio e espaço suficiente nos dois para que se deseje empobrecer algum dele com
explicações simples. Acho que é mais uma “dualidade” minha a ser encontrada nesta dupla
fascinação.
T E R Ç A - F E I R A, 1 3 F E V E R E I R O , 2 0 0 7 - 0 5 : 5 3
Nunca esperem de mim alguma explicação acadêmica sobre o assunto. Não ligo para
contextos, datas e coisas do tipo, apenas para a impressão que este ou aquele autor causa
em mim, a forma como eu o entendi – que pode até ser a errada, mas e daí, já que o
importante é a imagem dele em mim.
Para explicar Rumi ao invés de ir buscar algum poema dele eu prefiro pegar algo bem
contemporâneo – bom, já ouvia quando era criança, mas acho que dá pra dizer que é
contemporâneo – a letra de Pedaço de Mim, de Chico Buarque. O sentimento mais
essencial de Rumi é o mesmo desta música tão triste. Cito um verso, meio ao acaso
porque poderia citar qualquer outro:
O tema central de Rumi é a saudade, a dor da separação, que ele expressa de várias
formas uma das mais belas é quando diz que o canto da flauta é triste pela saudade que
sente do junco do qual foi cortada. Também expressa esta saudade na ausência de seu
mestre Shams al-Tabrizi ou mencionando a história corânica da paixão escandalosa de
Zuleika, esposa de Potifar, por José.
Esta saudade, este sentimento de insaciedade, estas buscas todas, diz Rumi, são na
verdade uma transferência, uma expressão de um sentimento que não somos capazes de
alcançar de imediato: a dor da alma por estar separada do Uno. Para ele somos como a
flauta que lembra e sofre por não estar mais ligada ao junco e por isto canta.
Não é estranho, assim, que diversas ordens sufis – bem como instituições semelhantes
da mais variadas fés – busquem entre aqueles que outros julgam perdidos, porque de
uma forma estranha entre esses às vezes é possível encontrar corações despertos
incapazes de encontrar o caminho. Os corações, contudo, não podem ser despertados à
força e sempre acho que fazem mais bem do que mal aqueles que tentam fazê-lo
assombrando os infelizes com ameaças terríveis se não despertarem, situação que só
serve para causar inútil ansiedade.
Os simples mortais com suas vidas sem inquietudes só tem um coração que dorme,
portanto não imagino que qualquer um possa entender Rumi. Talvez possam achar belo,
repetir alguns versos, até colocá-lo entre seus autores preferidos – como eu próprio fiz
tantas vezes – mas para entender realmente Rumi é preciso vê-lo com os olhos que
Majnun – o apaixonado – vê Laylat – o objeto da sua paixão (curioso que a palavra
tenha a mesma raiz de Lilith).
O próprio Rumi não entenderia sua poesia e sua música se não tivesse sido iluminado
pelo Sol de Tabriz, o pobre derviche que um dia o visitou, arrancou de suas mãos o
manuscrito que ele escrevia, mostrou como tudo que ele vivia era vaidade e ilusão e o
convidou a atender ao chamado de seu coração, despertando-o. Um viu no outro algo
distinto do que todos os demais viam. Reza a lenda que Shams havia ofertado a alma a
Deus em troca de ser capaz de despertar um coração.
É na superação da dor da perda de seu mestre desaparecido que Rumi consegue desvelar
aquele amor profundo, aquele amor que não é reflexo nem emanação, o Amor Divino,
único que é capaz de reparar esta sensação de ter um pedaço de si separado do todo.
Mas aqueles que estão entre os pobres mortais e não sentiram o amor não conseguirão
despertar para aquele Amor mais profundo, aquele Amor que permite transcender a
identidade.
Um amigo me pede um texto sobre Monteiro Lobato e os modernistas após alguma polêmica
sobre o assunto. Se eu precisasse reduzir todo o comentário a uma frase diria que Lobato é que
era verdadeiramente moderno naquele momento. Se pudesse ainda acrescentar algo comentaria
que a crítica de Lobato aos modernistas não é pela inovação proposta por eles, mas pela falta de
novidade e sinceridade do movimento.
O que ocorria de mais moderno no país, naquele momento, era justamente a superação dos
modelos copiados das últimas modas europeias, francesas em particular. Moderno de fato era a
crença profunda de Lobato que o pensamento brasileiro deveria refletir sobre os problemas do
país, usando a linguagem do povo e jogando no lixo os academicismos, elitismos e sectarismos
todos.
Talvez na sua fonte os movimentos que pretendiam revolucionar as linguagens artísticas
tivessem na sua origem um elemento inovador, mas quando desembarcaram aqui ao Brasil eram
só mais uma forma de academicismo vulgar de burgueses sem ter mais o que fazer para
salientar-se. Pouca coisa pode demonstrar o caráter de "farsa"da Semana de 22 com o fato de
que os modernistas pagaram a estudantes para vaiá-los e atirar coisas no palco, já que falharam
até em provocar o choque que desejavam, mas tinham dinheiro sobrando para comprar mídia.
Infelizmente pouca gente hoje lê os originais, os textos fontes. Contentam-se em pontificar com
o que ouviram falar do amigo do primo que ouviu alguém comentar sobre o que leu na orelha
do almanaque citando um comentarista que leu uma resenha de um livro mencionando a obra
original, às vezes até conformam-se com algo ainda mais vago como as teses e dissertações de
crítica literária.
Garanto que qualquer um que ler o artigo Paranoia ou Mistificação de Lobato - fruto do mito
que ele era contra a "modernização das artes" poderá ver claramente que a crítica "emiliana"
concentra-se sobre dois pontos:
É preciso incluir aí os próprios modernistas que deram certo, porque a oposição entre Lobato e
os modernistas é parte mito e parte mistificação. Mario e Oswald de Andrade, por exemplo,
logo deixaram de lado a bobagem "modernosa" voltada para a forma e a técnica, que é o centro
da crítica de Lobato, para incorporar através do Movimento Antropofágico uma proposta que é
muito similar aquilo que Lobato lhes recomendava fazer vários anos antes.
Não nego que Lobato, até como pintor frustrado que era, tenha algumas visões antiquadas sobre
as artes plásticas em especial. Neste ponto não foi capaz de compreender a mudança na
linguagem do meio que ocorria. Em parte a crítica não é completamente inadequada porque a
mesma falta de transcendência é apontada como a chave para a desumanização da arte por
Ortega y Gasset, filósofo espanhol que alguns anos depois tenta fazer com o pensamento
espanhol a mesma revolução de compreensão original.
Uma das questões importantes a se guardar é que este debate entre os verdadeiros modernos -
aqueles que de fato inovam, acrescentam algo ao que já existe - os modernistas - aqueles que
fazem do novo profissão de fé simplesmente porque é novo então deve ser necessariamente bom
- e os modernosos - impostores e charlatões de toda espécie que se escondem por detrás das
cortinas de fumaça sectárias, todo este embate, ainda está acontecendo por todo lado, não
acabou em 22. Até por isso vale a pena reler os textos de Lobato comentando o assunto, no
original, é claro.
S E X T A - F E I R A , 1 7 O U T U B R O, 2 0 0 8 - 1 4 : 3 2
Um dos meus maiores esforços pessoais ao escrever nestes últimos tempos é garantir a
sinceridade do que escrevo, não me autocensurar pelo fato das coisas que escrevo agora passam
em certo grau a serem compromissos maiores, quase um programa de governo. Nem sempre é
fácil porque tendo a fazer propostas radicais - no sentido original do termo de atacar a raiz das
questões - em um momento no qual as pessoas tendem à superficialidade.
Revolto-me com o gosto das pessoas pela quantidade. Acho que há certo aspecto infantil nestas
soluções quantitativas. Para a criança é relevante ter dezenas de brinquedos, ou livros e revistas,
ou roupas, que jamais usará, porque ela confunde a posse com o usufruto.
Também a maioria da população pensa de forma quantitativa, acha que ter grandes prédios ou
aumentar as verbas para isto ou aquilo será capaz de resolver o problema. Querem um grande
prédio para uma escola, um hospital gigantesco, um enorme centro cultural - para só usar alguns
exemplos concretos com os quais me deparei nos últimos meses - sem se importar se a escola
realmente ensinará, se os postos de saúde locais não dariam um atendimento mais adequado ou
se pequenos grupos ativos de cultura não teriam melhor efeito.
A imensa maioria dos homens públicos mima a criança-povo não só dando o que ela pensa que
deseja, mas incentivando este desejo quantitativo. Às vezes por sem-vergonhice mesmo, porque
grandes prédios significam cifrões na equação com as empreiteiras, mas às vezes pensam em
construir o óbvio por pura falta de imaginação e criatividade mesmo.
Quando comecei na vida política a esquerda era, talvez, mais inteligente e menos esperta.
Denunciava as "obras faraônicas" dos governos como sendo más respostas às reais necessidades
da população. Por malandragem ou covardia este discurso sumiu, assim como o que criticava o
assistencialismo, o clientelismo, o paternalismo, todos devidamente legitimados.
Revolta-me que a "grande ideia" corrente para educação seja construir prédios, dar merenda,
uniforme e material escolar. Lamentável que o mesmo Anísio Teixeira que me dá alento para
pensar a educação seja usado como álibi para esta preocupação estritamente material. É típico
do nosso tempo que ao sentido múltiplo de "Educação Integral" seja dado só o se sentido
material, mas não é de forma alguma inevitável.
Quando Philip Coombs - que foi da Unesco como Teixeira - escreveu em 1968 sobre a crise
mundial da educação já antevia muitas dificuldades que seriam geradas pelo processo de
universalização do ensino que corria pelo mundo. Uma das chaves das suas propostas era
criatividade e outra avaliação permanente, ao lado disso falava de combater a inércia tanto
interna como externa ao sistema, destacando que a relação entre escola e sociedade deveria ser
dialética, ou seja a escola deveria não só atender às demandas da sociedade, mas ser capaz de
contribuir para que estas demandas fossem as mais adequadas.
Julgo que um dos mais graves erros da esquerda em termos de educação foi menosprezar e
desmantelar a educação técnica de qualidade. Há um grande esforço nos últimos anos para
recuperar isto, mas só muito recentemente se pensa no assunto de uma forma mais adequada.
Mas a crise da educação é também sintoma da crise de autoridade generalizada. Resgatar o
papel e a autoridade do mestre, que tanto descaso de um lado, teorias pretensamente
"alternativas" e desvalorização profissional de outro desgastaram.
O corporativismo, que é a espécie mais danosa da inércia interna, tem sido o grande elemento
de reação a qualquer mudança. Em uma máquina do tamanho da educação estadual em São
Paulo imagino que é uma força incapaz de ser enfrentada com eficiência. Certamente é uma
pena, mas se houver meio de evitar que as boas experiências,as iniciativas pessoais e os esforços
das pequenas minorias de mestres já se conseguirá muita cosia. Infelizmente a boa vontade, a
dedicação e até a abnegação não tem como serem induzidos por políticas públicas, mas cabe
esperar que ao menos elas não sejam punidas, o que já é grande coisa.
Avaliações, as temos aos montes, mas elas são hoje apenas números mortos, atestados de óbito
da nossa educação e futuro. Resta esperar que sejam exumadas para servir de ferramenta às
mudanças que são necessárias. Nem que seja para demonstrar o que não está funcionando e a
inutilidade de merendas, uniformes e prédios.
T E R Ç A - F E I R A, 3 1 J U L H O , 2 0 0 7 - 0 5 : 0 7
[Link]
S E X T A - F E I R A, 1 1 A G O S T O , 2 0 0 6 - 1 5 : 0 8
Os mestres do conto de terror, seus pais, foram certamente Nathaniel Hawthorne e Edgar Allan
Poe, dois americanos do século passado que inventaram a imensa maioria dos artifícios da arte e
as ferramentas essenciais do ofício. Praticamente contemporâneos, além de conterrâneos, eles
seguem, contudo, linhas diametralmente opostas. O horror de Poe é essencialmente descritivo,
reside na força que faz as cenas da "Queda da Casa de Usher" ou as vítimas dos "Crimes da Rua
Morgue" ou o terrível "O Gato Preto" pularem do livro para a realidade, impressionando até o
leitor mais distraído.
Já o terror de Hawthorne é mais conceitual, reflexivo. É o horror provocado não pelas cenas,
mas pela atrocidade do enredo em si. Aquele que assombra a "Casa das Setes Torres" não
precisa aparecer uma única vez para que todos saibam que ele está lá. O simpático e caricato
demônio de "A estrada de Ferro Celestial" - paráfrase bem humorada do "Caminho do
Peregrino" de Bunyan - não é menos aterrador ao fim por ser tão simpático. O terror do "O Véu
Negro do Pregador" é realmente aterrador, ainda que o sobrenatural não interfira lá uma única
vez.
Os conceitos, o enredo - não as cenas - é que tem a função de provocar o terror em Hawthorne e
é isto que o torna tão díspare em relação aos autores de terror que o sucedem. Não se admira
que as raras adaptações para o cinema de seus livros, como A Letra Escarlate e a Casa das Sete
Torres tenham fracassado, pois são histórias para serem lidas, para que se reflita sobre elas.
Poe já se insere numa tradição que tanto o precede - com o Fausto e os contos de Hoffman -
como que o sucede até os autores atuais, especialmente Stephen King - autor que apesar dos fins
essencialmente comerciais não deixa de ainda ter algum conteúdo que a indústria cultural não
conseguiu lhe roubar. Curiosamente também as adaptações cinematográficas de Poe são frágeis,
as suas imagens vívidas são valiosas quando se dispõe apenas do texto, mas ligeiramente
ridículas quando transpostas para a tela.
Afinal o seu principal mérito é produzir na mente do leitor as cenas terríveis que descreve,
quando a imagem está disponível, já não precisa ser formada nas mentes porque projetada na
tela, ela praticamente perde o sentido. Assim o assassino da Rua Morgue nos provoca arrepio no
texto, mas nos fazer rir na tela quando vemos aquela fantasia ridícula de orangotango usada por
um ator.
Não se pode, contudo, menosprezar algo que em Poe também é conceitual, justamente o que
falta ao terror contemporâneo. A culpa, por exemplo, é elemento de terror muito presente em
sua obra, dando-lhe uma dimensão muito mais psicológica que propriamente de terror. A maior
parte dos seus herdeiros não percebeu isto com precisão e se a imensa maioria dos filmes de
terror hoje são puras descrições de fatos aterradores narrados mais por efeitos especiais do que
por si próprios, é porque os conceitos foram perdidos. O recente "Sexto Sentido" - a despeito de
seu caráter meio doutrinário - esforça-se para superar isto e de certa forma o consegue, mas para
manter a atenção e as salas lotadas cedeu à tentação fácil dos efeitos visuais e cênicos rotineiros.
Pouco depois outro autor, desta vez no Velho Mundo, iria se associar a estes dois como
inspirador de gerações de autores de terror, Kafka. é aterrador tanto pelos conceitos de livros
como "O Processo" e "A Metamorfose" como pelas suas descrições sombrias, contudo nele tudo
é terror, a escuridão não surpreende porque nela falta o contraste da luz que existe em
Hawthorne, ou a surpresa de Poe, lá o terror é esperado, assim não aterroriza. Evidente que esta
observação não diminui a importância da obra de Kafka em outros setores, mas do ponto de
vista das "tecnologias de aterrorizar" suas construções são pobres, até porque não é este o
objetivo delas.
De volta ao Novo Mundo é preciso ainda considerar um outro autor, Henry James com o seu "A
outra Volta do Parafuso". James parece se encaixar perfeitamente na descrição de Will Durant
segundo o qual ele faz literatura como se fizesse filosofia, enquanto seu irmão (o filósofo
pragmático William James) faz filosofia como se fizesse literatura. A consequência disto é que
enquanto a filosofia de William é teoricamente dirigida ao "homem da rua" a literatura de Henry
é um tanto quanto indigesta. Nela parece haver apenas conceitos, quase que enfastiando o leitor.
Como Ortega e Gasset, Henry James parece escrever para escritores, não para o grande público,
o que talvez explique todo o seu prestígio nos meios literários apesar dos poucos leitores.
A lista ainda é grande, mas por aqui já é possível traçar uma morfologia do Conto de Terror que
assinale os seus elementos essenciais. O maior deles é certamente a surpresa, o espanto causado
por acontecimentos repentinos e inesperados que de um lado se harmonizam perfeitamente com
a trama e de outro irrompem nela de forma não previsível. A previsibilidade, tão cotidiana nas
fitas de terror que circulam por aí, tiram qualquer expectativa de assombro.
O horror pode ser tanto conceitual como o de Hawthorne, ou descritivo como o de Poe -
idealmente mescla os dois - mas não pode ser evidente. O contra-exemplo são as tendências dos
filmes comerciais de que todos sabem o que vai acontecer na cena seguinte, menos os
personagens, de forma que junto com a surpresa se vai o conceito e só sobra o horror de uma
descrição que deve mais aos recursos de computação gráfica do que ao mérito do autor.
S E G U N D A - F E I R A , 2 M A I O, 2 0 0 5 - 0 6 : 1 8
Um dos comentários que fiz no texto anterior, sobre o filme “Volver”, é que ao mesmo tempo
em que ele destaca certa diferença de percepção masculina e feminina, o próprio fato dele ser
um homem realizando filmes “de sensibilidade feminina” e que tem esmagadora maioria de seu
público composto por mulheres é uma negação se não da diferença ao menos de que ela tenha a
amplitude toda que faz parecer. Evidente que há algo de estilizado, portanto caricato como disse
ontem, mas os aplausos do público feminino, por sua vez, também estabelecem certa
contradição com esta ideia do caricato.
No filme considerado “masculino” de Almodóvar, “Fale com ela”, é evidente certa inversão de
papéis, com uma mulher em um papel de toureiro que mais do que masculino é considerado até
certo “símbolo” de virilidade. D.H. Lawrence no primeiro capítulo de “A Serpente Emplumada”
é dos poucos que mostra a tourada como uma farsa cruel e covarde. enquanto mostra um
homem em um papel de enfermeiro também não só usualmente exercido por mulheres, mas
também carregado de certa “simbologia” feminina.
O Macaco Nú: Capa do livro de Desmond Morris no qual ele tenta analisar e explicar alguns
comportamentos humanos a partir de um ponto de vista estritamente zoológico.
Evidente que há diferenças significativas entre homens e mulheres quanto a diversos aspectos
psicológicos. Contudo parece ser claro – e talvez por isto Almodóvar seja capaz de superar boa
parte das contradições “caricatas” - que uma grande parte destas diferenças são culturais e
sociais mais do determinadas por algum fator natural.
Por exemplo, ainda que o senso comum geralmente associe a sexualidade a um comportamento
animal, Morris destaca que para nenhum outro animal o sexo tem um papel tão central e
relevante quanto tem para o ser humano. Para os animais o sexo é um acontecimento eventual,
quase sempre anual salvo para os animais menores, relacionado à necessidade de sobrevivência
da espécie. O mesmo motivo, afirma ele, faz com que o sexo tenha este aspecto central na vida
humana – dada a necessidade de um forte laço – mas desligado do processo reprodutivo.
Paradoxalmente, na contra-mão do que dizem algumas religiões, agir como um animal seria
praticar sexo apenas com finalidades reprodutivas, literalmente falando. Chega a ser curioso, na
perspectiva ocidental, que uma religião vista como machista e moralista (no sentido estrito que
o termo tem para nós) como o Islam tenha sido praticamente a única não só a sacralizar o sexo
como também definir direitos muito específicos para as mulheres neste aspecto.
Morris também destaca algumas explicações zoológicas – ainda que seu estudo esteja um pouco
desatualizado – para alguns comportamentos que tornam o homem um animal com
características diferenciadas. Duas delas são bem relevantes, uma é a diluição das hierarquias e
padrões de dominância, necessária à caça e coleta cooperativa necessária aos bandos proto-
humanos O que em grande parte vem de certa feminização, inclusive do ponto de vista
hormonal e a outra é justamente uma significativa redução das diferenças entre machos e
fêmeas. Diga-se de passagem que o orgasmo feminino é um privilégio humano sem similar em
outros animais e que esta redução das diferenças vem em grande parte das dosagens de
hormônio masculino nas fêmeas. Em parte alguns destes aspectos existem já nos bonobos,
primatas mais próximos dos homens com os quais compartilhamos mais de 99,5% dos genes.
Ainda que muitos estudos recentes tenham demonstrado que algumas dimensões “utópicas” dos
bandos de bonobos construídas por estudos antropológicos tenham sido exageradas.
Não há, assim, nenhum embasamento mais sério que justifique as teses, muito difundidas em
livros de auto-ajuda e revistas femininas, de alguma diferença fundamental e essencial entre
homens e mulheres. A rigor, fisiologicamente falando, um homem apenas com testosterona teria
a ejaculação precoce que caracteriza todos os demais machos mamíferos e uma mulher sem
nenhuma dosagem de testosterona seria frígida como as demais fêmeas mamíferas. A separação
dos dois mundos ocorreu ou muito antigamente – quando se imagina as divisões primitivas do
trabalho e das esferas pública e privada – ou muito recentemente, quando se leva em conta a
perda de relevância da família como estrutura social. Cresce a cada ano, por exemplo, a
proporção de mulheres que são chefes de família.
As diferenças vão crescendo – sob o estímulo do mercado, por sinal, para o qual quanto mais
nichos e segmentos houver mais probabilidade de agregar valores haverá – estimuladas por
certa necessidade de afirmação e pela imposição de valores grupais. Quase arrisco-me a dizer
que há uma perenização do comportamento de uma determinada fase infantil na qual meninos e
meninas vivem em mundos hostis. E como a infantilização dos adolescentes vem avançando até
as primeiras fases da vida adulta, por sinal, como já previa Huxley em "Admirável Mundo
Novo" que é uma sociedade de adultos em eterna adolescência.
É neste contexto que os filmes de Almodóvar fazem uma curiosa reflexão sobre papéis e
naturezas, às vezes confirmando-os, às vezes negando-os, muitas vezes brincando com o fato
comumente ignorado pelas políticas sexistas de um lado ou outro de que também os homens
estão sujeitos a um papel social, mas em todo caso sempre fazendo refletir sobre isto, mesmo
que em certo sentido realmente “histérico” no sentido original do termo, ou seja, uterino, visto
que ele se move em um mundo ao mesmo tempo essencialmente feminino mas também quase
misógino, no qual as mulheres estão sempre a beira de um ataque de nervos.
T E R Ç A - F E I R A , 5 D E Z E M B R O, 2 0 0 6 - 1 5 : 4 5
Não me agradam as Utopias, salvo como exercícios abstratos, porque elas são sobretudo a
noção de que a vontade de um deve se sobrepor a de todos os demais e sacrificar todo o resto à
manutenção de uma estabilidade impossível. Prefiro as distopias, que mostram como estes
projetos sempre tendem a se tornar terríveis.
Para não ser injusto com Platão, Morus, Campanella e outros teria de dizer que nem sempre eles
tem culpa das leituras que fizeram de suas obras, mas daí a discussão seria longa demais. Quem
sabe fica pra outro dia. Perdoem-me, então, aqueles que compreendem os outros sentidos destas
utopias.
Uma única utopia me agradou muito, a despeito de toda a simplicidade, quase rudeza, de propor
coisas, como a supressão do trabalho intelectual, que na boca de qualquer outro soaria como
uma coisa absurda, mas que no contexto da história faz sentido. Refiro-me à História de Ivan, o
Imbecil, de Tolstói, que já citei a semana passada.
Não vou entrar nos detalhes da história, porque é um conto curto e espero que posam ler.
Procurei pra ver se encontrava um link com a história em português mas infelizmente não
encontrei. Só para situar o leitor no raciocínio, três irmãos tornam-se czares, um comerciante,
um soldado e um imbecil. O Diabo, irritado com a harmonia que reina entre eles, sobretudo por
causa do imbecil, primeiro tenta desuni-los confiando a missão a três diabos jovens, não só isto
não tem efeito como é justamente por conta disto que eles se tornam czares.
Assumindo a tarefa ele próprio, consegue fazer com que os dois irmãos percam seus reinos. Mas
quando chega ao reino de Ivan, que já havia deixado o palácio, abandonado as insígnias do
cargo e retomado seu trabalho como camponês, fazendo com que todas as pessoas sensatas
abandonassem o país, ficando nele apenas os imbecis. Talvez por isto a nação prosperasse, não
com ouro, mas com vastos suprimentos de comida e trabalho para todos, cada um cuidando de
sua vida e lá ninguém passava fome desde que trabalhasse ou pedisse um prato de comida pelo
amor de Deus.
A simplicidade do raciocínio dos imbecis deixa transtornada a lógica sutil do Diabo, que vê
cada um de seus planos para destruir o reino de Ivan ir por água abaixo a cada discussão com
algum de seus cidadãos. Quando um exército estrangeiro invade, por instigação do Diabo, o
reino Ivan e todos os imbecis dizem aos soldados que se eles estão passando dificuldades em
sua terra que venham viver na fartura com eles em suas terras ou levem aquilo que precisarem.
Com o tempo nem sob ameaça de corte marcial e execução os soldados conseguem mais
continuar a destruição e pedem para ser levados dali, não sem que antes muitos deles desertem e
fiquem vivendo com os imbecis.
Quando tenta utilizar o dinheiro para destruir o reino também as especulações do Diabo são mal
sucedidas, porque tirando as crianças que acham que o ouro brilhante é um excelente brinquedo
– cena similar á Utopia de Morus – ninguém se interessa por ele. Confrontado pelo dilema
impossível de trabalhar ou pedir pelo amor de Deus para ganhar um prato de comida o Diabo
morre de fome na terra dos imbecis.
A grande diferença entre esta Utopia de Tolstoi e outras tantas que há é que o mestre russo
concentrou-se na mudança do homem, através de Deus, ao invés de apostar como tantos outros
em alguma legislação mágica, instituições maravilhosas, salvaguardas infalíveis. Os cidadãos
são imbecis porque são uma tábula rasa, livre de qualquer conceito ou preconceito, onde a
vontade de Deus pode ser escrita, tal como um dos títulos do profeta do Islam é o de “profeta
dos iletrados”.
Certamente haverá quem diga que esta utopia de Tolstoi é mais difícil de ser realizada que
qualquer uma das outras, afirmação que deve realmente ser verdadeira. Mas diria também que é
a única realmente possível e capaz de funcionar.
Quase horário do jogo, sozinho aqui escrevendo um post que nem sei se será lido (hoje com
certeza não será), estou me sentindo um imbecil, graças a Deus.
T E R Ç A - F E I R A, 1 3 J U N H O , 2 0 0 6 - 1 4 : 1 3
LUZ
Para ele a luz - segundo símbolo - é tão evidente que nem sempre é percebido. A luz, destaca
ele, é referenciada incontáveis vezes como metáfora da Divindade, da Revelação e portanto é
evidente o papel da iluminação no conjunto da Mesquita, reforçado por mil artifícios técnicos
buscado pelos arquitetos muçulmanos.
O terceiro símbolo é a caligrafia, os desenhos suaves que formam imagens e que marcam todos
os pontos principais da mesquita e encontram sua expressão mais significativa no "mihrab",
oratório na parede ao fundo da mesquita que marca a "qibla" - direção de Meca para onde todo
muçulmano se volta quando faz as suas orações, verdadeiro símbolo da unidade de toda a
Ummah - a comunidade dos muçulmanos.
Outro símbolo importante é a água, presença marcante das construções islâmicas. Na mesquita,
água com seu simbolismo de "purificadora" serve para marcar a passagem do profano ao
sagrado, do mundo real para o transcendente. No Sahn - pátio aberto que antecede o Haram
(sala destinada às orações) - há sempre um sabil, fonte de água corrente na qual os fiéis fazem
as suas abluções rituais - o wudhu - lavando mãos, antebraços, roto e pés, purificando-se para a
oração.
PALAVRA DIVINA
A área externa a mesquita é marcada pelo minarete, torre da qual o muezin faz cinco vezes ao
dia o adhan - chamado para a oração - avisando a vizinhança que chegou a hora de rezar.
Para o historiador de arte há um outro simbolismo nem tão evidente no conjunto, o de um
jardim, com as suas flores na decoração, suas árvores estilizadas em colunas, seu córrego
metamorfoseado na fonte. Um jardim iluminado pelo sol e no qual uma suave melodia de fundo
- a música da palavra divina, ressoa através do aliterado canto do muezin, na salmodiação do
Iman ao recitar o Alcorão, na caligrafia que ilumina as paredes e sobretudo naquela ordem
matemática e harmônica do conjunto. É o Jardim do Paraíso.
UNIDADE NA DIVERSIDADE
Do estilo básico da arquitetura islâmica surgiram cinco estilos diferenciados em suas ênfases,
materiais e recursos. Na península arábica, Síria e Egito predominou um estilo mais fiel à
tradição mediterrânea.
No Maghreb (Norte da África) e na Espanha Muçulmana desenvolveu-se uma forte variante
regional mais grandiloquente que a anterior, ainda que sua tributária. Esta variante, em geral
chamada de estilo mourisco buscou um refinamento das formas originais, mas procurou seus
próprios caminhos uma vez que estava mais livre das influências orientais.
Na Pérsia a influência Sassânida com as suas fachadas monumentais foi bastante forte e
desenvolveu-se um estilo visual mais elaborado e rico em detalhes que na região mediterrânea.
Na Índia os imperadores Mughal criaram um estilo eclético no qual se nota a forte influência
tanto dos estilos hindus e budistas como de outras culturas circundantes, configurando um estilo
cuja marca principal é o ecletismo.
Por fim a arquitetura Otomana, de surgimento mais tardio incorpora a herança bizantina de
Constantinopla alimentada pela grandiosidade de um Estado forte, portanto generoso, e pela
busca de uma excessiva sobriedade.
INTERFERÊNCIAS MÚTUAS
Contudo esta classificação não é definitiva porque os estilos se influenciam mutuamente, em
grande parte devido à mobilidade dos artesãos e constantes mudanças políticas. Os artífices da
corte de um soberano que perdia poder ou era derrubado em geral se mudavam para outra corte
mais afortunada. Governantes em ascendência buscavam prestígio e legitimidade contratando
artesãos habilidosos para embelezar sua capital.
Além disso a unidade da língua - mesmo nas regiões onde o árabe não era a primeira língua, era
falado pela elite - as estradas relativamente seguras e a ampla circulação de mercadorias
permitia o fluxo de ideias e pessoas.
SAIBA MAIS SOBRE O ASSUNTO
L'Islam habite notre avenir (o Islam habita nosso futuro)
Livros em português:
O melhor da arte islâmica, Teresa Peres Higuera, G&Z Edições, Lisboa - livro de leitura rápida,
com boas ilustrações e texto acessível e explicativo.
Coleção História Geral da Arte, Volume Arquitetura II - Ediciones Del Prado - Enciclopédia
vendida recentemente em bancas a preço acessível traz boas ilustrações e bom texto.
Coleção Grandes Impérios e Civilizações, Volume O Mundo islamita, esplendor de uma fé,
Ediciones Del Prado - também vendida em bancas, aborda o desenvolvimento histórico e as
manifestações culturais e espirituais do mundo islâmico, boas ilustrações e mapas, texto com
forte sotaque português de Portugal.
Uma História dos Povos árabes, Albert Hourani, Companhia das Letras - Ótimo texto sobre as
bases sociológicas das opções estéticas da arquitetura islâmica e outras manifestações culturais,
pelo escopo do trabalho não inclui a Índia Mughal - ótimo texto mas peca pela falta de
ilustrações que seriam essenciais.
Prolegômenos, Ibn Khaldun, Sociedade Brasileira de Filosofia - raríssima tradução do clássico
Muqqadimah de Khaldun que está a pedir uma reedição. A tradução é péssima, apesar de toda a
boa vontade dos tradutores, sem ilustrações.
Na Internet
IslamicArt - [Link] - excelente site bastante completo e técnico, muitas
ilustrações, inclusive diversas reaproveitadas aqui.
Passeio por Ispahan - [Link] - site excelente no qual você pode
conhecer Ispahan, Irã, reconhecido como patrimônio da humanidade pela Unesco. Site
interativo no qual você mesmo define o seu roteiro. Inclui explicações detalhadas sobre
arquitetura e história do Islam, do Irã e da arquitetura Islâmica numa interface muito simpática.
Muslims Students Association - [Link] - O site da
Associação dos Estudantes Muçulmanos dos Estados Unidos oferece diversos links
relacionados a cultura islâmica em um site simples e sem muitos recursos, mas atualizado
regularmente.
O Minarete - [Link]/Athens/Agora/3836/ - a próxima edição desta revista
eletrônica trará esta reportagem com informações complementares e fotos coloridas. (em
português)
[Link] - traz fotos de algumas mesquitas brasileiras. (em português)
Yahoo - [Link] - oferece muitas referências sobre arquitetura islâmica, infelizmente a
maior parte dos links já não existem mais.
S E G U N D A - F E I R A , 2 M A I O, 2 0 0 5 - 0 6 : 0 8
Islam, Pessoal, Poesia, Arte, Literatura, O futuro, Sociologia e cia., Política, Filosofia
e cia, Religião
Roger Garaudy,DT
Referência Original: [Link]/portal/5
O VOTO É SAGRADO
A escola onde voto em São Paulo – a FAI, na Avenida Nazaré no bairro do Ipiranga – já foi um
seminário e conserva algo da atmosfera de mosteiro com os arcos ao estilo mourisco nos
corredores ladeando o jardim, além dos diversos ciprestes. Em outras palavras estão presentes
elementos considerados sagrados por três distintas culturas – cristã, islâmica e celta. Fica fácil,
assim, lembrar-me que o voto é sagrado cada vez que compareço às urnas, em um ambiente que
mesmo já bastante alterado ainda faz lembrar um espaço de meditação e elevada reflexão
Curiosamente a bela arquitetura do prédio não deve ser considerada relevante para os atuais
ocupantes que em seu site não tem sequer uma boa foto do estabelecimento. Para conseguir a
foto que ilustra este post precisei procurar algum fotógrafo generoso que tivesse disponibilizado
a foto na Internet.
Deve ser diferente votar em uma destas escolas modernas, todas feitas para serem muito
parecidas, retangulares, retas, desprovidas de praticamente todos os adereços. É de se imaginar
que nestes locais também o voto deva ser um processo meio industrial, automatizado, rápido tal
como o ambiente. Já no meu local de votação, pelo contrário, é quase impossível não fazer uma
reflexão mais profunda, desde a primeira vez que fui votar lá já senti esta sensação de grave
respeito enquanto percorria os corredores procurando a seção na qual voto.
Quando falo de sagrado é claro que não me refiro a nenhuma forma destas misturas de religião e
política que correm por aí se desmoralizando mutuamente pela profanação daquilo que devia ser
santo para ambas que é a consciência do eleitor. Falo de sagrado no sentido de que decidir quem
deve liderar o grupo a partir do livre arbítrio de um lado e do uso da razão do outro é uma das
mais elevadas ações humanas.
Traços rudimentares da política já existem no reino animal, em especial ente nossos parentes
mais próximos – chimpanzés e bonobos – entre os quais nem sempre a decisão é pelo critério
exclusivo da força bruta, o que demonstra que estes animais estão acima, na escala evolutiva,
dos eleitores humanos que votam em um candidato porque ele está na frente nas pesquisas. Há
uma racionalidade implícita em todo voto, algo que antecede mesmo a inteligência humana
como disse acima.
Mas o tipo de racionalidade que torna o voto sagrado é outro. Se todo tipo de autoridade
legítima é em certo sentido uma unção divina – seja lá o tipo de divindade que se adote – a
escolha do eleitor consciente deve ser capaz de enxergar para além de si mesmo, refletir sobre o
destino que deseja para a comunidade da qual faz parte, buscando nas opções existentes as
melhores qualidades.
A primeira violação a esta sacralidade é a gerada pelas intromissões da força – seja a força bruta
seja a que emana do vil metal. Acovardar-se em uma decisão importante ou transformar uma
escolha que deveria ser motivada pelo interesse coletivo em uma fonte de vantagem individual
são verdadeiras blasfêmias.
Em um patamar quase tão baixo como as anteriores, mas difícil de fugir nesta era das massas,
está a escolha determinada a partir dos engôdos da antipolítica que é o “marketing eleitoral”.
Toda a parafernália criada para transformar a decisão nobre e racional em um impulso
emocional de multidão subverte a própria essência da política e serve a uma diminuição,
amesquinhamento mesmo, do homem transformado em gado a ser conduzido às urnas como se
fosse a um matadouro.
Poucas coisas conectam tanto o homem ao sagrado quanto a esperança – talvez por isto mesmo
ela é a dúbia virtude que fica presa à aba da caixa de Pandora. Talvez muito desta
“dessacralização” do voto venha da falta generalizada de esperança que reina. Ainda assim há a
escolha de nos deixarmos levar pelas profanações ou nos portarmos como seres humanos de
fato e transformarmos o momento de voto numa reflexão profunda e não em impulso.
S E X T A - F E I R A , 2 4 O U T U B R O, 2 0 0 8 - 1 8 : 1 6
Q U I N T A - F E I R A , 9 N O V E M B R O, 2 0 0 6 - 1 3 : 4 8
Meus filmes preferidos de Almodóvar são “A Flor de Meu Segredo” e “Fale com ela”, mas sem
dúvida o último filme, “Volver”, é bem impressionante. A temática principal do filme, para
mim, pareceu ser a cumplicidade feminina, e neste sentido “faz par” com a cumplicidade
masculina de “Fale com Ela” os cartazes dos três filmes, retirados do site de cinema
[Link], estão disponíveis nos links para download abaixo. Claro que é uma teoria
muito particular e qualquer explicação sobre a criação tende a ser reducionista e frágil. Contudo
é preciso notar que Almodóvar sempre parece ter uma linha ao longo da qual cria os filmes.
Sempre destaco que praticamente todos os filmes até “Tudo sobre minha mãe” já estavam em
esboço em um filme dele de 83, “Maus Hábitos” - “Entre tenieblas” no título original -, o que
reforça a ideia de uma continuidade e até complementaridade entre os diversos projetos, até
porque parece haver certa unidade estética entre os filmes desta fase com as cores berrantes e os
bolerões que alteram-se nos filmes seguintes. “Volver” é quase todo em três cores, branco,
negro e vermelho, todas as demais sendo quase incidentais, ao contrário das “cores de
Almodóvar” dos filmes mais antigos ou dos tons pastéis - em particular a cor tipicamente
masculina -, o próprio predomínio do vermelho em "Volver" e do violeta em "Fale com Ela",
inclusive no cartaz, fala sobre esta complementaridade.
A despeito de certa representação estilizada, portanto sempre tendendo a certa caricatura, não
deixa de ser curioso que em “Fale com ela” o centro sejam dois personagens masculinos, mas o
foco sejam as mulheres, enquanto em “Volver” os homens são quase ausentes, sendo apenas
elementos perturbadores. O fato de ser um homem a escrever e dirigir filmes que tem uma
esmagadora plateia feminina e que fala sobre as mulheres e os sentimentos femininos é, por si
só, uma certa contra-prova da tese central do diretor que há uma sensibilidade feminina
diferenciada da masculina. Às vezes até acho que no fundo há uma certa misoginia em
Almodóvar, quem sabe até uma “inveja do útero” como diria alguma escola de psicanálise
heterodoxa.
Uma das referências que piscaram na minha mente quando assisti o filme foi um trecho de
Mircea Eliade no qual ele compara a visão religiosa da morte nas sociedades primitivas
baseadas na caça – de natureza masculina – e a visão das sociedades agrícolas – de natureza
feminina. A despeito de certos discursos sexistas, as sociedades humanas evoluíram do
patriarcado das sociedades de caça – que deram o caráter coletivo e público às sociedades
masculinas e a perspectiva individual e privada das mulheres para as sociedades matriarcais
baseadas na agricultura.
A caça, por lidar com recursos que a experiência logo mostrou serem escassos, via a morte
como um acontecimento trágico. Até hoje as sociedades de caçadores – que tem como
concepção de mundo a visão xamânica muito similar atestando sua antigüidade e embasando as
teorias de que também nossos ancestrais pré-humanos praticavam crenças semelhantes –
demonstram um respeito pela presa e invocam a necessidade de pedir perdão a ela e permissão a
algum ser superior para o abate (assim como de alguma forma preveem a existência de algum
tipo de “senhor ou senhora das feras” que pune os abusos, arquétipo tanto de Diana grega como
do Curupira brasileiro).
Mas a despeito de todas as reflexões sobre a morte, em particular pela belíssima cena inicial do
filme em um cemitério, o filme não me pareceu ser sobre ela, mas sobre a estruturação de uma
sociedade cada vez mais feminina em um mundo no qual os homens estão mais ausentes (e
neste sentido “Volver” tem um certo laço com “Tudo sobre minha Mãe”). A própria cena inicial
pareceu-me ter exatamente este caráter, assim como o fato dos personagens masculinos serem
praticamente figurantes, mesmo quando geram algumas das chaves do filme.
Não tenho conhecimento para avaliar o filme do ponto de vista técnico, mas arrisco-me a
observar que o bom desempenho da usualmente medíocre Penélope Cruz ajudou-me a resolver
uma dúvida – se Almodóvar tem um talento especial para escolher bons atores e atrizes ou se é
a sua direção que faz com eles rendam todo o seu potencial. Fiquei também curioso em
encontrar uma explicação para a substituição dos bolerões – menos presentes desde “Fale com
Ela” - pelo Flamenco, em particular pelo flamenco mais “morisco” no qual os vocaleios são
mais importantes, igualmente trágico, mas enérgico ao invés de lamuriento. Certamente Cruz
não é Estrella Morente, mas o desempenho quase de improviso é aceitável.
Estrella Morente cantando a música flamenca do filme, link youtube
[Link] , Visualização Flash neste site
S E G U N D A - F E I R A, 4 D E Z E M B R O , 2 0 0 6 - 1 3 : 2 8
T E R Ç A - F E I R A, 2 5 J U L H O , 2 0 0 6 - 1 7 : 1 1
Islam, Comunicação, Pessoal, Poesia, Arte, Literatura, Cinema, Filosofia e cia, Religião
Referência Original: [Link]/portal/10055
A PENA E A BOMBA
Como disse outro dia, estou relendo "O Crisântemo e a Espada" - estudo sobre a cultura
japonesa realizado pela antropóloga americana Ruth Benedict durante a segunda guerra
mundial. Já na universidade sempre achava os livros de antropologia muito mais interessantes
que os de Política ou Sociologia, ainda que em geral discordasse de muitos aspectos deles, o
interessante livro da antropóloga não foge desta regra.
Um dos muitos aspectos relevantes do livro é que não é um estudo desinteressado, mas um
levantamento cuidado feito a peio e com o patrocínio do Ministério da Guerra americano com o
intuito de auxiliar na formulação da política americana em relação ao Japão durante e após a
guerra. Algumas das perguntas que o estudo precisava responder eram quais seriam as melhores
formas de redigir a propaganda atrás o front e avaliar quais seriam as dificuldades da invasão e
capitulação. Não ficaria surpreso se o estudo não estivesse entre os argumentos que embasaram
e "justificaram" o lançamento das bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagasaki - lamentável
acontecimento que faz aniversário nos próximos dias.
Parto desta aparente contradição para destacar o que considero um dos aspectos mais
simplificadores do estudo de Benedict: a oposição entre o crisântemo - a apurada e delicada
preocupação estética japonesa - e a espada - a índole guerreira de seu povo. Também se poderia
falar da pena e a bomba para descrever esta cooperação patriótica que coloca o estudo científico
a serviço dos interesses militares sem ver qualquer tipo de conflito.
É preciso lembrar - saindo do universo etnocêntrico americano - que a associação entre artes,
em particular a poesia, e a guerra não é algo inusitado como ela defende nos pressupostos do
estudo. Pelo contrário ao longo da história é praticamente o padrão que um mesmo segmento
social se dedique às duas tarefas, muitas vezes de forma simultânea. Quase me sinto tentado a
dizer que o ocidente a partir da Idade Moderna é que é a exceção à regra, hipótese que teria
inclusive a explicação de que isto se deve à "desaristrocratização" da guerra, popularizada pela
conscrição e pela adoção da pólvora que passou a recrutar a população - e em geral segmentos
marginais da população - ao invés de algum tipo de estrato guerreiro.
Nas sociedades hindus, por exemplo, tanto poetas como guerreiros pertencem à casta xátria e as
características dos dois papéis são consideradas inseparáveis, como o emocionalismo, a
coragem, o preparo, a inspiração. No mundo budista, da mesma forma, há uma associação entre
o preparo para a luta e a inspiração artística. Estadistas, generais, filósofos e poetas confundem-
se em diversas culturas tradicionais como a islâmica, a greco-romana em seus momentos
clássicos, a renascença italiana, na cultura provençal.
Como quase sempre somos melhores em enxergar o outro que a nós mesmos, não é estranho
que ela não enxergue a conexão entre a ciência e a guerra que, de certa forma, marca a cultura
ocidental. Ligação esta que não existe somente em termos de tecnologia - na qual as relações
promíscuas entre ciência e guerra são evidentes - mas também em relação às humanidades. O
papel da antropóloga no caso em questão é uma sofisticação do papel de auxiliar do colonialista
que cientistas de humanidades desempenharam - em particular mas não só no século XIX. Papel
não só de justificar a colonização, mas de estudar as melhores formas de implementá-la, avaliar
as ferramentas a serem utilizadas, estabelecer estratégias de dominação e controle e, por fim,
treinar "elites" nativas ocidentalizadas para garantir que com a substituição as metrópoles tudo
continuaria funcionando de forma integrada ao sistema econômico.
Muito de toa a rejeição ao ocidente que percorre o mundo - em particular o mundo islâmico -
deriva destas estratégias coloniais e o fracasso destas "elites substitutas" ocidentalizantes - ainda
que quando providas de um discurso de esquerda ou revolucionário, como Saddam Hussein.
Outra importante posição que Benedict vê e que é uma das teses centrais do estudo, a
"explicação" das diferenças entre as duas nações - Estados Unidos e Japão - segundo ela é a
oposição entre a visão orientada à igualdade como valor fundamental nos EUA e a estrutura
fortemente hierarquizada do Japão. Assim colocada parece ser muito simpática a visão dela,
fundamentada em grande parte na imagem que Tocqueville teve da América, mas ignorando as
advertências que o diplomata francês fazia sobre as consequências desta determinada visão de
igualdade.
Penso que pouca coisa do estudo sobrevive a um confronto com a realidade moderna. Na
medida em que o amor pela igualdade transforma-se, como aliás previu Tocqueville, numa
imensa fraqueza e insulamento dos cidadãos que os tornam frágeis frente ao Estado e às grandes
corporações e a aversão a qualquer hierarquia transforma-se em dissolução da autoridade, horror
ao mérito e elemento desagregador quando verifica-se que há algo de errado no modelo.
É preciso pensar, então, em qual medida este ideal de igualdade não é um discurso servindo a
outro interesse mais do que uma realidade. Há, aqui, uma conexão fundamental com a
dissociação entre o crisântemo e a espada que a autora faz. Para ela o soldado é algum tipo
grosseiro que vive em uma trincheira, portanto há uma enorme distância entre este elemento
desagradável mas necessário e o guerreiro japonês, capaz de terrível crueldade mas também
preocupado com a poesia e outras expressões estéticas.
Ao mesmo tempo, ela própria é a pesquisadora, a aparentemente neutra cientista detentora do
conhecimento e da técnica que pode colocar-se acima de qualquer critério, inclusive ético, para
orientar a ação militar. Não há concepção de igualdade entre ela e o pobre soldado enlameado
que luta nas ilhas do Pacífico e ela até permite-se certa justificativa romântica do tratamento
cruel dos japoneses com os prisioneiros de guerra. Ao mesmo tempo que legitima a guerra em
defesa de uma concepção de igualdade sente-se atraída pelas virtudes japonesas. Mereceria
talvez um estudo antropológico a forma crescente pela qual o "país da igualdade" de direitos
vem demonstrando crescente preocupação com as virtudes heroicas. O filme "O último
samurai", por sinal, é quase uma reatualização dos valores demonstrados por Benedict, ver os
dosi demonstra o quanto uma determinada concepção evolui em meio século.
Q U A R T A - F E I R A , 1 A G O S T O, 2 0 0 7 - 0 5 : 0 4
Islam, Pessoal, Poesia, Arte, Cinema, Sociologia e cia., Política, Filosofia e cia
Ruth Benedict, Tocqueville,DT, PP
Referência Original: [Link]/portal/10644
ANIMAL E HUMANO
Sempre acho curiosa a construção de uma oposição humano-animal que costuma figurar em
tantos sistemas de pensamento. Até posso compreender certo sentido simbólico desta pretensa
dualidade, pelo sentido que faz pelo desconhecimento do comportamento animal ou pelo
conhecimento superficial. Na imensa maioria dos casos, contudo, a expressão é utilizada para
avaliar ou até justificar comportamentos que nada tem a ver com a animalidade em si.
Ainda que pareça paradoxal, penso que a imensa maioria dos nossos defeitos vem do nosso livre
arbítrio, ou seja, da nossa natureza divina, mais do que de nosso substrato animal. Lembro-me
da frase de Schuon: “os homens vão ao fogo porque são deuses e salvam-se porque são
criaturas”. Também não posso deixar de lembrar-me de um texto de Lobato no qual diz que o
homem é um macaco que caiu de cabeça de uma árvore e como sequela desta “Queda” passou a
agir de forma estúpida, diferente da natureza onde todos os comportamentos têm um sentido.
Por fim lembro-me de um texto de um pensador muçulmano onde ele destaca que toda a
natureza é muçulmana – ou cristã, budista, hindu, enfim – no sentido amplo do termo visto que
se submete às leis que a regem. Vale lembrar que Jesus também destacou este aspecto quando
recomendou que olhássemos os lírios do campo.
Uma das coisas que mais me chamaram a atenção na similaridade entre outros mamíferos
sociais e o ser humano é a facilidade pela qual se distingue o poder e a verdadeira autoridade.
Os animais dominantes em um grupo são na imensa maioria do tempo calmos e tranquilos, em
particular quando estão bastante seguros de sua autoridade sobre o bando. A agitação e
movimentação só ocorre nos estratos inferiores ou nos momentos nos quais a liderança está de
fato ameaçada seja pela fraqueza do animal dominante seja pelo fortalecimento de seus rivais,
ou seja, em momentos nos quais o equilíbrio está rompido.
A imensa maioria daqueles que exercem o poder agem não com a serenidade tranquila de quem
detém a autoridade, mas com a agitação do líder fraco ou do rival ameaçador. Como os homens
perderam boa parte de sua capacidade de compreender estas linguagens de sinais imaginam que
a agitação é símbolo de poder e atividade de liderança. Mas ainda assim lá no íntimo
conservamos certa capacidade de perceber isto, como pode ser visto pelas múltiplas descrições
de grandes personagens nas quais se destaca a serenidade que só a disciplina e a reflexão são
capazes de dar.
S E G U N D A - F E I R A, 1 6 A B R I L , 2 0 0 7 - 1 1 : 3 8
Literatura, Política
Monteiro Lobato, Guimarães Rosa, Euclides da CunhaDT, PP
Referência Original: [Link]/portal/10760
CASO ISABELA: FATALISMO X
POLÍTICAS PÚBLICAS
A violência contra a criança está na ordem do dia da sociedade com o Caso Isabela, que vem
ocupando grande parte do noticiário na TV, rádio e jornais. No jornal Folha de São Paulo de
hoje Carlos Heitor Cony faz uma comparação entre este caso específico e as notícias que
comumente ocupam o noticiário policial. Cony escreve:
“Em tempos outros, anteriores à violência urbana, às balas perdidas e às tropas de elite, volta e
meia havia casos assim, escabrosos. Homens que serravam mulheres e as colocavam dentro da
mala ou as enterravam no quintal, tarados seriais que nem iam para a cadeia, mas para hospitais
psiquiátricos (...) Eram crimes personalizados e, por isso, mais horripilantes. Tal como o da
menina que foi atirada ou caiu da janela. A culpa não é social. É dolorosamente humana.”
Com todo respeito que tenho pelo cronista quero discordar da análise feita por ele. Por mais que
existam os componentes pessoais, psicológicos, em casos como este há sim causas sociais
motivando muitos destes crimes. E se há causa social a questão é passível de ser enfrentada pelo
Estado através de políticas públicas que ajudem a identificar, prevenir e controlar a violência
contra as crianças.
Em todo o mundo, em especial nos países desenvolvidos, tem aumentado os casos deste tipo de
violência contra crianças e adolescentes. Ao lado de distúrbios psiquiátricos e outros desarranjos
de natureza psicológica tem aumentado o número de casos em que situações de extrema
violência ocorrem de forma banal e por motivos fúteis, tanto em termos de violência doméstica,
como na pedofilia e nos casos de bullying ou de reações violentas ao bullying como no Caso
Columbine.
A escalada da violência contra as crianças é um sintoma de uma doença social, que deve ser
diagnosticada e tratada pelo bem do nosso futuro.
Esta exploração dos fatos cria o paradoxo de ao invés de se enfrentar a violência ela seja
estimulada. Ao invés de estimular a reflexão sobre as raízes desta violência contra as crianças a
superficialidade da imprensa tem estimulado a formação de turbas raivosas propensas a um
linchamento.
Por fim é preciso ir mais fundo nesta questão da violência doméstica, em particular da violência
contra a criança esforçando por eliminar a violência latente na sociedade, estimulando as formas
pacíficas de resolução de conflitos pelo diálogo – como fazem os círculos de Justiça
restaurativa, por exemplo, estimulando as pessoas a enxergar e entender o outro ao invés de
permanecerem insuladas em si mesmas.
É a partir deste esforço passaremos da visão fatalista segundo a qual casos como de Isabela são
inevitáveis para a visão de que é possível prevenir e controlar a violência doméstica através de
políticas públicas.
Q U I N T A - F E I R A , 1 7 A B R I L, 2 0 0 8 - 1 5 : 2 0
Não, não adianta dizer que nunca as pessoas escreveram tanto e citar, por exemplo, as
mensagens da Internet. Em primeiro lugar, sem nem entrar no mérito da qualidade terrível do
conteúdo, em geral elas são reproduzidas até o infinito, muito pouco é criado de fato e as
pessoas sequer são capazes de exercer a mínima reflexão crítica sobre elas. Em muitos casos
desconfiam que sequer quem a reenvia a lê.
Ainda sem entrar na questão do gosto duvidoso, faço sobre este mau exemplo duas observações.
A primeira é que há coisas que não podem ser ensinadas pela palavra escrita – diga-se de
passagem, que a grande maioria dos mestres de verdade jamais escreveu uma linha.
A essência da palavra, do discurso, é a persuasão. Pode até não assumir sempre esta forma e em
geral é mais eficiente quando não parece estar fazendo isto. Mas se caracteriza pela coesão e
coerência, ainda quando aquilo que a mantém unida esteja fora do texto e da estratosfera, ainda
quando a coerência deva ser buscada em algum conjunto transcendental de ideias. Um texto que
parece argumentativo, mas cujos fundamentos são vagos, obtusos ou truncados – quando não
inexistentes – não é nada.
Ao mesmo tempo o texto deve justificar-se por si, nem que seja pelos seus silêncios, sem
precisar de nada externo.
Mas a triste verdade, aquela que me faz sentir pouca esperança, por mais otimista que seja a
minha natureza, é que sequer é destes textos que falo quando digo que as pessoas estão
perdendo a capacidade de escrever. Confesso que tive quase vontade de chorar a algumas
semanas quando vi colegas de trabalho vasculhando computadores em busca de um convite para
uma festa de algum ano anterior para não ter de escrevê-lo de novo. Todos eles com formação
universitária e excelente nível social e econômico, demonstrando que a questão não é social,
educacional ou econômica, é cultural mesmo.
Vira-e-mexe vêm me pedir para escrever alguma coisa – eu sou afinal “o homem que escreve” –
mas sempre fico chocado ao ver que pedem para escrever cosias tão básicas, elementares e
curtas – um convite, o texto de alguma placa de homenagem, um bilhetinho – que houve tempo
em que me revoltava contra tal tratamento leviano com minha função.
Uma vez me pediram para escrever um bilhetinho para um presente que dariam ao professor de
um curso de redação, verdadeira demonstração da absoluta inutilidade do curso e fracasso do
professor que não conseguiu ensinar ninguém dentre todos os alunos a juntar letras por duas
linhas para formar o texto de um cartão.
Hoje estas coisas não chegam mais a me tirar do sério, só me enchem de tristeza por ver um
mundo no qual as pessoas capazes de expressar-se pela escrita – portanto pela razão – irão ser
uma escassa elite desiludida com o futuro e sentindo-se fracassada na sua tarefa de guiar.
A quase ninguém posso explicar a diferença e a dificuldade de executar estas tarefas hoje em
comparação com o passado. Na verdade jamais escrevi aqueles textos, eles eram obra de um
djinn escritor que mantive como escravo em uma garrafa por muitos anos e em um momento de
grandeza ou fraqueza libertei.
Há tempos ele não me faz uma visita, não por descaso ou ingratidão, mas pela multidão de
tarefas acumuladas em tantos anos de seu cativeiro. Mas cada vez que ele aparece me inunda de
uma sabedoria tão profunda, uma análise tão sagaz e uma sinceridade tão acirrada que me dá
remorso tê-lo usado de forma vil em tarefas tão banais. Se um dia eu também for livre como ele
sei que não serei tão sábio porque não tenho os milhares de anos da sua experiência, mas espero
espelhar-me na sua independência de espírito e julgamento.
Na última vez que ele apareceu debruçava-me sobre um texto árido, daqueles que só com muita
dificuldade se consegue encaixar um ou outro oásis sabendo que serão exatamente os oásis os
primeiros a ser violentamente podados pelo cliente. Quando a nuvem se materializou naquela
enorme figura azinhavrada fui tomado pela saudade dos velhos tempos, quando bastaria
incumbir o djinn da tarefa e colher os resultados e elogios.
A política, contudo, não me abandona. Há seis anos ela é a minha profissão, com desafios e
responsabilidades crescentes. A vocação da política é algo curioso, por mais que a paixão seja
essencial nela, estar desprovido das paixões facciosas e dos encantamentos do poder tem um
efeito benéfico na compreensão não só do que a política deveria ser, mas também o
distanciamento necessário para auxiliá-la a trilhar este caminho.
Mencionei muitas vezes uma tradição do profeta do islam segundo a qual não se deve
ambicionar uma função pública, mas que ela deve ser aceita quando ofertada porque então terá a
orientação necessária. Fico um pouco constrangido de dizer estas coisas porque faz parte da
praxe da política simular a surpresa e a ausência de desejos e ambições, mas só posso dizer que
não é hipocrisia.
O antigo amigo que chamo pelo codinome de Kurtz, em referência ao personagem de Conrad,
foi o grande responsável pela minha entrada na vida política em um momento no qual aquilo
não era mais objetivo vital meu. Há seis anos, depois de vários anos sem contato, ele me ligou e
disse que precisava de mim. As circunstâncias, as necessidades, as estratégias, o destino, enfim,
fez com que sem nos afastar seguíssemos caminhos distintos – ainda que em contato e
próximos.
Há algumas semanas ele ligou de novo, conversamos várias vezes, com o brilho nos olhos que
dá a ele mais ainda o perfil de Kurtz, os planos, os projetos, a expressão da vocação política em
sua forma mais pura, ele diz que é hora de reagrupar – “É o projeto da nossa vida!” – diz ele em
um tom que resume.
É um ponto de inflexão, um momento no qual as decisões são necessárias. Mesmo sem acreditar
mais que a política possa de fato mudar e melhorar a vida das pessoas nem por isto ela deve ser
deixada nas mãos daqueles que poderiam piora-la. É hora de novamente vestir a armadura, selar
o cavalo e combater, transformando a desilusão com a política na capacidade de distanciar-se e
observar objetivamente.
Q U A R T A - F E I R A , 1 4 M A R Ç O, 2 0 0 7 - 1 4 : 2 7
Ontem, quando comecei a responder aos emails e scraps que recebi por conta do post
“Uma utopia imbecil” - [Link]
- finalmente consegui entender algumas coisas que dizia um dos meus autores
preferidos, Herman Hesse, em diversos textos, mas em especial em dois – O Jogo das
Contas de Vidro e o conto O Homem de Muitos Livros (no livro Fábulas). Pode parecer
estranho que eu gostasse dele antes de entendê-lo por completo, mas, enfim, estou ainda
aprendendo a lidar com a minha imbecilidade e por isto ainda tenho muitas coisas para
descobrir que não sei e para chegar à conclusão que eu não conhecia.
Ser esperto é algo muito fácil, já ser imbecil requer muita disciplina mental e esforço.
Exibir-se, inclusive à própria modéstia, não requer também muito esforço, porque
somos acostumados a fazer isto desde a infância e ao longo de todo nosso dia, já
conseguir aquela limpidez de pensamento de Ivan, o Imbecil é ou um dom divino ou
algo que só muito exercício pode nos dar ao longo do tempo, exigindo certo controle do
pensamento que, se descuidamos, torna-se logo esperteza e todo o trabalho fica perdido.
Enfim, ser imbecil, para quem não nasce puro de coração como Ivan, é um privilégio.
É esta a lição dos dois textos de Hesse que só entendi ontem, ainda que tenha os lido
tantas vezes. Também hoje não vou contar a história dos dois livros, porque a finalidade
não é que as pessoas não precisem lê-los, mas justamente que sintam um vontade muito
grande de ir até a biblioteca mais próxima, nem que seja para dizer que eu estava errado
na minha interpretação.
No Jogo das Contas de Vidro há uma comunidade dedicada com zelo religioso ao
“jogo”, elaborada técnica que envolve concentração, esforço, dedicação, estudo, mas
cuja finalidade não fica bem clara. No conto um personagem vive cercado por livros,
nos quais prefere viver ao invés de no mundo (e quem ler alguns posts anteriores vai
verificar o quanto eu não tinha entendido a mensagem), mas vai aos poucos se afastando
deles até que descobre o mundo real e a vida. Também o Diabo, do conto de Tolstoi que
motivou estes posts todos, tinha muito orgulho de seu trabalho intelectual, ainda que
não tenha conseguido convencer os imbecis da eficiência de seu método contra as mãos
calejadas deles.
É um tanto neste jogo com as palavras, argumentos, idéias, que vivem os espertos. Estão
preocupados com o deleite provocado por esta distração, com o efeito que causam sobre
os outros. Já os imbecis tem a preocupação com o desconforto que as palavras causarão
em si mesmos. Os primeiros profanam o poder da palavra para seu prazer, os imbecis
por seu lado desconfiam que há algo de sagrado nelas, alguma força que provoca
inquietação.
Tenho ainda um longo caminho até conseguir tornar-me um imbecil, porque descobrir
que não se tem conhecimento é muito mais difícil do que entreter a si e aos outros com
alguma sombra de conhecimento. É, enfim, muito mais simples ser um almanaque de
referências esparsas do que a lousa em branco na qual Deus pode ensinar através da
pena.
Mas tenho conseguido fazer alguns avanços nesta área. Já me sinto, por exemplo,
imbecil o suficiente para não entender porque as pessoas acham que ao depositar um
voto na urna a cada dois anos exerceram sua participação política. Também já me sinto
imbecil o suficiente para não ter a menor noção de todas estas sutilezas que fazem os
seres humanos serem distintos em seus direitos, muito menos sou capaz de entender
estas grandes teorias de que de alguma forma tentam limitar o conceito de humanidade a
só uma parte dela.
Já me estendi demais hoje e então fico por aqui neste balanço entre aquilo que ainda sei
e o que pretendo um dia chegar a ignorar. Ainda não consegui ser um completo imbecil,
mas, se Deus quiser, algum dia chego lá.
PS: Cheguei em casa e fui checar a referência do conto de Hesse e vi que não só o título
era outro - não A Muralha dos Livros mas O Homem de Muitos Livros, que me pareceu
um título infeliz e inferior ao que eu me lembrava - como que muitas coisas estavam lá
bem claras, eu que não tinha entendido direito.
Q U A R T A - F E I R A, 1 4 J U N H O , 2 0 0 6 - 1 9 : 4 4
S E X T A - F E I R A , 2 8 J U L H O, 2 0 0 6 - 2 0 : 2 7
Quem lê os textos para adultos de Lobato, em geral artigos de jornal, lamenta a opção do
escritor porque certamente ele teria muito ainda a dizer a todos. Sua mente desacostumada às
normas que em geral a acorrentam produz ideias originais, juízos tão estranhos como corretos,
coloca o dedo na ferida profunda da nação sem medo nem piedade; tudo isto alinhado numa
prosa elegante, culta e cheia de referências sem ser pedante, às vezes numa história profunda e
comovente retirada às páginas da história ou do noticiário.
De todos os livros - em geral coletâneas dos artigos - o meu preferido é "Na Antevéspera",
escrito na década de 20 (com alguns acréscimos posteriores e anteriores). Lá ele destila críticas
profundas ao governo federal, aqueles tumultuados anos de Arthur Bernardes e Washington
Luis, com toda a violência sincera do seu texto.
Eram anos de chumbo, principalmente para os paulistas, marcados pelo Estado de Sítio, pelo
bombardeio de São Paulo que o marcou profundamente - "só a insânia o poderia invocar [o
princípio da autoridade] para destruir São Paulo", escreve ele - de níveis insuportáveis de
corrupção governamental e de um profundo desejo de mudanças que depois seria habilmente
manipulado pela Revolução de 30.
Frente à vileza do governo Lobato eleva os personagens que enfrentam este estado de coisas à
categoria de heróis. A Coluna Miguel Costa - que depois se fundiria com as tropas do Sul
formando a Coluna Prestes - é saudada pelo seu heroico abandono de São Paulo, fazendo cessar
o bombardeio, assim como heroico é o soldado que mata um oficial francês que por motivo fútil
o chicoteia o rosto - privando Damasco de mais um bombardeador, ironiza ele - e o soldado
nordestino que havia lutado por São Paulo e perdido um olho (isto já em 32) mas placidamente
aceita as ofensas racistas de uma velha dama quatrocentona, só para citar alguns.
Mas cada vez que releio Lobato, que comecei a devorar mal aprendi a ler, sou assaltado por uma
dúvida que me atemoriza quanto ao futuro: será ele ainda legível para as crianças de hoje?
Dou uma olhada nos livros infantis que circulam por aí e sou tentado a acreditar que não. Quase
sempre se tratam de livros que tratam as crianças como imbecis, nos quais não se pode aprender
nada. Quase sempre são tão desprovidos de conteúdo que precisam apelar para outros aspectos
como estratégias de marketing, assim proliferam livros nos mais diversos formatos e materiais
justamente porque nenhum deles tem conteúdo, então precisam buscar algum atrativo que o
substitua.
Lobato escrevia às crianças com o mesmo esforço e qualidade com o qual escrevia para os
adultos. A diferença, se há, é que nos livros para crianças reforçava o aspecto lúdico, buscava
estimular a fantasia e nunca usava expressões sem as explicar. Não usava um texto primário e
uma temática imbecilizada como a imensa maioria dos escritores infantis de hoje fazem.
Talvez ele acreditasse que o poder da fantasia, aquela mágica que encontra uma eficiente
metáfora lobatiana no "pó de pirlimpimpim", seria a única esperança para que no futuro as
crianças que o lessem resolvessem pensar e mudar radicalmente o país que ele amava tanto e
que era tão castigado. A tarefa, deveria saber ele, era tão imensa que exigia uma grande dose de
imaginação e da coragem que a fantasia dá para ser efetuada.
Os atuais livros para crianças, boçalidades mercantis, certamente não exercem nem exercerão
este papel. Talvez, pelo contrário, irão desestimular as crianças de pensar fazendo-as imaginar
que as suas histórias cretinas e monossilábicas fazem parte de algum tipo de literatura,
garantirão que as novas gerações não conheçam nunca a leitura de livros de qualidade e
ensinarão que o formato ou material no qual o livro-mercadoria é feito é mil vezes mais
importante que o conteúdo.
Meu único alívio é saber que estas bobagens que se chamam hoje de livros infantis nunca
chegarão a um milésimo da glória de Lobato. Seus autores e editores poderão ganhar fortunas
comercializando este lixo todo a pais e filhos ignorantes, mas jamais deixarão o nome para a
posteridade como Lobato fez. A mais certa das imortalidades - aquela representada pelo nome
que deixamos quando abandonamos a vida - não é nada conivente com a ignorância e a
mediocridade.
S E G U N D A - F E I R A , 2 M A I O, 2 0 0 5 - 0 6 : 2 3
Raramente assisto TV, ainda mais TV aberta, eventualmente um ou outro programa e de vez em
quando, por necessidade profissional, algum telejornal – não para me informar, claro, mas
apenas para ver que tipo de informação os telespectadores estão recebendo. Nesta semana
quando me arrisquei a ligar a TV fiquei meio chocado com a brutalidade de uma propaganda de
perfume e fiquei imaginando como uma empresa que até me parecia séria pelas suas
preocupações ambientais tem tão pouco apreço a sua imagem – ou tanta confiança na
insensibilidade de seus consumidores – a ponto de idolatrar o consumidor e ironizar a beleza.
Na propaganda um garoto esforça-se para decorar um famoso soneto de Camões – que como
incorporado à letra de uma música do rock nacional imagino que não seja nada assim tão
transcendental – e quando o recita para a garota ela se espanta, ele fala pra ela esquecer e então
dá o perfume e ela fica contente. Difícil ser mais grosseiro, retratar melhor o que há de pior na
modernidade com a eliminação da beleza e do sentimento em proveito do consumismo.
Até o fato dele ser um publicitário bem sucedido reforça – e não atenua – na minha modesta
opinião o impacto dos fatos que ele observa e para os quais chama a nossa atenção. A exposição
sem máscara de uma visão de mundo no qual o sentimento e a beleza não tem valor, mas sim
aquilo que nós podemos comprar, audaciosamente apresentada nesta propaganda – com o
agravante de utilizar crianças – mostra que ou a empresa perdeu o senso ao aprovar a campanha
que alguma mente doentia criou ou realmente estamos ainda pior do que se podia imaginar.
O caráter comercial das datas comemorativas, algumas delas criadas com a finalidade única
realmente de vender, outras – como o natal – apropriadas inescrupulosamente pelas empresas
que a esvaziam de sentido, não chega a ser um processo novo. Lembro-me lá dos tempos de
minha adolescência militante quando minha cidade natal ganhou notoriedade nacional, no mal
sentido, quando resolveu queimar em praça pública um livro didático que criticava, entre outras
coisas, esta comercialização do natal. Na época apenas 2 dos 17 vereadores foram contra a
“pequena inquisição” (um deles, Azuaite França é meu amigo e vereador até hoje e votei nele
enquanto morei por lá), mas o resto do país ficou horrorizado com o obscurantismo e a
ignorância (basicamente quiseram queimar o livro porque não o entenderam).
A diferença que mostra o grau de putrefação deste cadáver nesta e em uma ou outra propaganda
que de vez em quando aparece idolatrando o consumismo sem rodeios, eufemismos ou
metáforas, é que a transformação da data festiva em oportunidade de negócios aparece como
elemento central, como a alternativa válida, como a coisa certa a fazer. Há no comercial
grotesco a ideia de que não adianta tentar inventar ou sensibilizar, a única coisa que realmente
tem valor é o sentimento expresso através de uma mercadoria.
De minha parte jamais voltarei a pisar numa loja que vende um produto anunciado desta forma,
mas milhares de outros consumidores não perceberão a brutalidade da propaganda e outros
milhões até acharão “legal” a propaganda e irão as lojas adquirir seu sucedâneo de lirismo.
Saber que isto pode acontecer é que torna a propaganda triste como um velório.
Q U A R T A - F E I R A , 6 D E Z E M B R O, 2 0 0 6 - 1 4 : 5 1
Alguns colegas de trabalho, por sinal, me disseram nestes dias pelos corredores que era uma
pessoa de sorte, pois se tivesse ficado onde estava teria de falar não sobre o novo, sobre o
rompimento da mediocridade, mas sobre outros assuntos nada nobres. Mais uma vez só posso
assinalar que o caminho nos escolhe e que neste caminho há uma sabedoria superior.
Q U A R T A - F E I R A, 1 1 J U L H O , 2 0 0 7 - 2 0 : 2 1
Pessoal, Poesia
DT
Referência Original: [Link]/portal/10633
ESTÁ NA HORA DESTA “GENTE
DIFERENCIADA” MOSTRAR SEU
VALOR
Foi uma besteira, uma frase infeliz dando vazão ao preconceito grotesco que é de bom tom
manifestar nos eventos sociais privados mas que se evita expressar em público, mas corre o
risco de desencadear um mobilização social e - claro – política como há duas décadas não se via
e finalmente começar a concretizar alguma das muitas esperanças de uma internet como veículo
democrático.
Vai ser mais um flashmob sem maiores consequências além da curtição ou o “Churrascão da
Gente Diferenciada” vai se tornar a nossa Praça Tahrir e obrigar as demandas de democracia
política e social efetiva serem finalmente colocadas na agenda?
Eu, particularmente, não tenho a resposta e não imagino que ninguém a tenha neste momento
mas acho que o Churrascão, com toda a irreverência, tem este potencial pra ser nossa Praça
Tahir sim.
Não é possível se enganar pela pequena magnitude do evento gerador. Revoluções maiores já
começaram com fatos ainda menores - que é o “Se não tem pão comam bolo” de Maria
Antonieta perto da manifestação de asco pelo povo da moradora de Higienópolis? - como a
história cansa de mostrar, e a motivação do Churrascão tem todos os elementos para ser um
grande evento histórico, inclusive o ser pitoresco e ao mesmo tempo sintetizar em um pequeno
gesto uma montanha de contradições e ressentimentos acumulados por séculos de exclusão
social e discriminação exatamente em um momento no qual os segmentos oprimidos da relação
encontram-se em uma situação de força e prestígio.
O Apartheid socio espacial paulistano faz com que dos seis distritos com maior densidade
populacional três estejam nos limites extremos da cidade. E é assim há muito tempo, tanto que o
Bixiga deve seu nome ao fato de ser o bairro da “gente diferenciada” do passado, lazarentos,
mendigos, libertos e seus patronos as vítimas da varíola, enquanto Higienópolis tem este nome
justamente porque era a área alta, drenada, saudável da cidade construída para que os ricos
residissem nela.
Assim o horror da moradora a que a gente diferenciada contaminasse seu ambiente asséptico e
higiênico expressa nada mais que uma convicção quase natural, reforçada por mais de dois
séculos de planejamento urbano, de que ali era o lugar dela e que a gente diferenciada não
pertencia àquele espaço, que ela tinha pago caro justamente para ver-se livre de ter contato com
este “tipo de gente”.
Não há morador da periferia que sacoleja por três a quatro horas por dia, horas roubadas do seu
lazer, educação, cultura, descanso e convívio familiar (mas neste assunto os eternos defensores
da família nunca se metem cobrando soluções) às vezes mais, no transporte coletivo que não
sonhe em ter uma estação do metrô próxima de casa, mesmo sendo um metrô que saia lotado
nos horários de pico. No imaginário desta pobre população a recusa do metro em nome de
manter a higiene do bairro soa como um tapa na cara.
A elite brasileira sempre foi reacionária e odiou seu povo, isto não é novidade e basta aproveitar
a data do 13 de maio e acompanhar os debates que se travaram para a abolição da escravidão
para ver o quanto ela evoluiu pouco tanto na visão de mundo quanto nos argumentos. A
paciência do povo, contudo, esgota-se um dia de tanto esperar que ela chegue ao menos até o
começo do século XX, que pelo menos deixe de lado os temores de Cotegipe e as teorias de
Gobineau. E este momento está visivelmente próximo. Ficaria admirado, mas não surpreso, se
tudo começasse no Churrascão.
S E X T A - F E I R A, 1 3 M A I O , 2 0 1 1 - 0 1 : 1 4
Política
PP, DT
Referência Original: [Link]/portal/10773
POLÍTICA E INSANIDADE
Não sou autoritário em política, mas não acredito muito nesta questão de “ouvir a sociedade”.
Evidente que não porque ouvir a sociedade não seja importante, mas porque quase sempre por
detrás deste lugar comum esconde-se ou a ausência de propostas efetivas ou a falta de coragem
de enunciar projetos realmente novos. Ademais na medida em que há pouca cultura cívica,
noção de cidadania, hábito do debate racional, há casos nos quais por “ouvir a sociedade”
entende-se de fato “reunir uma massa de manobra para aplaudir entusiasticamente alguma ideia
pré-concebida”. Este simulacro de democracia é muito mais comum do que parece.
Até do ponto de vista de um pequeno grupo que se reúna para uma tarefa coletiva, por exemplo
redigir um texto, por mais democrática que seja a relação entre elas ninguém redige a várias
mãos. O trabalho mesmo na pequena equipe não ocorrerá senão na medida em que as tarefas
forem divididas e alguém for escolhido para definir um texto, uma base concreta sobre a qual
depois poderão ser feitas as alterações, modificações, acréscimos e edições.
Falei de dois problemas, falta de ideias ou falta de coragem para expressá-las. Não deixa de ser
curioso que aos loucos não faltem nenhuma delas e seja comum que as pessoas que buscam as
lideranças políticas com soluções para os grandes ou pequenos problemas do país sejam muitas
vezes lunáticos.
Por incrível que pareça há vezes nas quais mesmo destes saem ideias interessantes. Lembro-me
de uma vez na qual uma destas pessoas com alguns parafusos a menos, famosa até na cidade,
fez uma ponderação relativa ao fato dos esfignomanômetros – os aparelhos que medem pressão
– poderem errar. A questão nos intrigou e fizemos alguma pesquisa no assunto, verificando não
só a ausência de alguma norma a respeito como até que em todo o país havia só um aparelho de
aferição. Alguns meses depois, quando o Inmetro lançou as normas de aferição destes
equipamentos – e é preciso dizer que o fez muito prontamente – iniciou o programa justamente
na Câmara Municipal do interior onde eu trabalhava e que era presidida pelo vereador que teve
o bom senso de dar ouvidos à “louca” e tomar as providências.
Curioso parece que no processo geral de degradação de tudo nem mesmo os loucos são mais
como os de antigamente, como tantas e tantas personagens da mitologia, do folclore e da
história que se expressavam com a absoluta liberdade concedida àqueles que são loucos, que
certamente tem no bobo-da-corte o seu arquétipo, mal compreendido na imagem moderna do
personagem. Hoje até os loucos calculam, pensam, buscam interesses pessoais ou estão tão fora
da realidade que falta aquele tom de discernimento. Também engraçado que boa parte daqueles
que procuram um gabinete político sejam loucos – de um tipo ou de outro – porque no fundo
isto parece estar me dizendo que só eles ainda acreditam que algum político possa resolver algo.
Os momentos quando me sinto mais ligado à política são paradoxalmente aqueles nos quais me
deixo levar também por certa insânia, por certa expectativa ou esperança de que é possível fazer
diferença. No meu juízo perfeito preocupo-me apenas em fazer o meu trabalho da forma mais
profissional possível, até de sair caçando trabalho quando não há; mas é só quando deixo um
tanto do juízo de lado que começo a articular e sonhar em como as coisas poderiam ser
diferentes, como se pode romper o paradigma vigente para se pensar em algo novo, começo a
traçar propostas que não estão embasadas em “ouvir a sociedade”, mas tentam construir uma
nova forma de ver as coisas.
Q U I N T A - F E I R A , 1 9 A B R I L, 2 0 0 7 - 0 4 : 3 3
O texto clássico de Weber é tão criticado como pouco lido e ainda menos entendido. Corre o
boato, largamente difundido, que o texto é uma resposta à Teoria Marxista e ao materialismo
histórico no qual seriam os fatores culturais, ideológicos que determinam o caráter da sociedade.
Weber jamais disse isto, como poderiam atestar os marxistas se tivessem lido o texto.
O que Weber diz na verdade, grosso modo porque sua conceituação não pode ser facilmente
resumida, é que as doutrinas religiosas criam uma determinada ética emanada delas e esta ética
interage com o meio econômico - assim como com o político e o social, mas primordialmente o
econômico - em alguns casos estimulando-o, em outros inibindo-o. Neste sentido, a doutrina
tem um papel interativo, mas independente e em alguns momentos primordial, numa
determinada transformação social.
No livro em questão, a tese essencial de Weber, também aqui mutilada pela simplificação, é que
os valores protestantes de parcimônia, de valorização da circulação da riqueza em vez do seu
entesouramento, de valorização do trabalho, entre outros, favoreceu o desenvolvimento do
capitalismo (e não o aparecimento, note-se esta distinção sutil mas essencial) nos países
protestantes e o inibiu nas nações católicas como Portugal, Espanha e França. Certamente o
trecho causa revolta tanto a marxistas como a católicos, numa curiosa reedição de uma Santa
Aliança...
Surge de imediato um vácuo, o fato de não obstante tal constatação, os países católicos
tornaram-se capitalistas. E que não se alegue a Contra-Reforma para refutar isto, porque esta
não fez nenhuma adaptação "capitalista" na doutrina católica, mas antes pregou uma volta aos
velhos valores medievais. A reação católica não foi a de se modernizar, como seria de se supor
pela tese marxista, mas sim de tornar reais e concretos os valores morais que ela pregava mas
que eram hipocritamente violados.
Nas mãos de Marx, intelectual brilhante, dedicado, criativo, culto, sua teoria era uma coisa, ele
próprio estava consciente que ela era uma abstração da realidade, um modelo teórico a ser
constantemente aprimorado. Não obstante os seus preconceitos e idiossincrasias - típicos da sua
época - ele deu grandes contribuições ao conhecimento do homem e da sociedade. Já aqueles
que se chamam marxistas - termo que Marx por sinal ironizava - em geral usam a teoria de
Marx como uma desculpa para não ter de pensar mais profundamente.
O que em Marx era uma teoria fortemente criativa e inovadora, na imensa maioria dos marxistas
é um modelo grosseiro e simples para explicar da realidade, tratando tudo que não pode ser
explicado de forma satisfatória como irrelevante. Com isto sequer conseguem apreender toda a
riqueza do próprio Marx. Ao contrário de Marx, inclusive, pouco se preocupam em conhecer
qualquer interpretação alternativa da realidade ou se debruçam num esforço sério de entender e
criticar estas outras interpretações. Weber é um caso exemplar, assim como Durkheim, de autor
que apesar de toda a sua relevância é pouco lido, refutado pelo que alguém achou que ele dizia
ao invés do que pelo ele mesmo disse.
É evidente que o marxismo - ao contrário do que dizem seus detratores, eles próprios culpados
do mesmo pecado de criticar pelo que acham que Marx disse ou pelo que os marxistóides
disseram - ainda tem um grandioso e fundamental papel como ferramenta de compreensão da
realidade econômica, social e política. Mas esta contribuição é tolhida porque de perspectiva
científica o marxismo vai se tornando uma superstição, um preconceito, uma doutrina religiosa,
que faz fenecer todo o seu potencial criativo e revolucionário.
S E G U N D A - F E I R A , 2 M A I O, 2 0 0 5 - 0 6 : 4 8
Mesmo sob o clima de absoluto relativismo cultural que predomina na cultura pós-moderna, as
pessoas intuem esta unidade da divindade como um conceito mais evoluído do que o da
multiplicidade de deuses. No momento atual o mundo vive entre dois extremos quanto à questão
religiosa, digladiam-se materialistas extremos para os quais a crença em Deus é uma superstição
dos tempos de ignorância e fundamentalistas para os quais Deus é tudo e o que o homem faz
não é senão a vontade d'Ele.
Nos interstícios destas visões antagônicas de um Deus que é tudo ou nada, pululam velhas
superstições antiquadas, politeístas e mesmo animistas (pois a tal crença em duendes e coisas do
tipo não passa de um renascimento do animismo mais grosseiro). Mesmo entre os que ainda
creem em Deus há uma pluralidade de papéis atribuídos à Divindade que desafiam qualquer
tentativa de catalogação. Talvez porque com as Igrejas perdendo o seu poder de coação e
coerção ideológica tenha sido aberto o caminho para que cada um crie uma divindade à sua
imagem e semelhança e segundo as suas próprias conveniências. Tal como na metáfora dos
sufis, Deus é como um espelho que se partiu em milhões de pedaços que cada um recolhe, vê o
seu reflexo e proclama: este é Deus.
Tal noção, ainda que muito simpática à época atual de iconoclastia e individualismo gera,
contudo, um problema extremamente complexo. A mais inconteste justificativa de Deus talvez
seja a do filósofo pragmático norte-americano William James, o qual avalia que se a crença na
existência de Deus torna o homem mais feliz e a sociedade mais solidária, então esta crença é
verdadeira.
Mesmo no senso comum existe esta noção e não foi uma única pessoa que afirmou que se Deus
não existe, então tudo é permitido. Isto porque um dos maiores benefícios advindos no mundo
material da crença em Deus é o da obediência a um código ético e moral.
Este benefício se esvai quando cada um passa a crer num Deus particular, obrigatoriamente
conivente com as nossas faltas como nós somos, obrigatoriamente rígido com as faltas dos
outros como nós somos. Este tipo de crença nos coloca como juízes únicos de nossos próprios
comportamentos e só se pode duvidar da imparcialidade deste juiz.
Ainda que se conteste a validade efetiva de fazer alguém se comportar bem não por ter a
bondade dentro de si, mas por temer o castigo do Inferno e desejar as delícias do Paraíso - tema
que por sinal abordei em artigo anterior - este mecanismo ainda garante um certo padrão de
comportamento ético e moral. E se há abusos na manipulação destes conceitos por diversas
crenças, o abuso não impede o uso, como diz a máxima do direito.
O místico Swedenborg levou estes conceitos até o extremo do relativismo criando um céu e um
inferno voluntários, no qual cada um se dirige ao ponto no qual se sente mais à vontade. No
Inferno swedenborguiano habitam aquelas pessoas que de tão más não podem suportar a
bondade e preferem as trevas por aversão à luz. Falta plausibilidade neste inferno voluntário
porque ele ignora a aversão do homem ao castigo e a eterna irresponsabilidade do ser humano.
No outro extremo a poetisa muçulmana Rabi'a fala de um amor a Deus tão intenso que torna seu
portador bom, não por temor ao Inferno ou desejo do Paraíso.
Ambas as imagens baseiam-se em um homem especial, e não nos mortais comuns já que há três
espécies de homens, aqueles que são naturalmente bons para os quais qualquer coação no
sentido do bem é desnecessária. A imensa maioria que fará o bem se a isto for encaminhada ou
o mal se não temer represálias e uma terceira classe para qual nem mesmo as mais severas
coerções serão capazes de evitar que façam o mal. Os dois extremos parecem ser igualmente
raros, ainda que a sociedade atual reprima o primeiro e incentive ao máximo o último.
Esta fragmentação da imagem de Deus - criando para cada um uma divindade particular -
extrapola qualquer discussão teológica e coloca um problema que apesar de pertencente à esfera
da filosofia, reflete-se muito materialmente sobre uma questão social concreta. Isto porque
rompe um símbolo de um consenso social sobre o que é aceitável ou não e ao fazer isto extingue
um parâmetro razoável para se definir o que é permissível.
T E R Ç A - F E I R A, 3 M A I O , 2 0 0 5 - 0 0 : 3 4
Somos, como povo e como dirigentes, talvez até criativos demais no acessório, mas padecemos
de uma falta de originalidade fundadora. Foi legado ao Brasil uma estrutura política vinda de
outros climas e realidades - Monteiro Lobato dizia que era uma "rosa artificial" - e a este
modelo inadequado, quase caricato - como por exemplo as eleições a bico de pena na República
Velha ou os senadores biônicos no Regime Militar - foram sendo incorporados casuísmos
diversos - a sub-representação dos estados mais populosos, por exemplo - que desfiguraram a
questão ainda mais.
Uma das primeiras vítimas deste processo foi o debate político propriamente dito. Destacando
que corrente política nenhuma parece estar livre desta tendência, o exercício da palavra, do
esforço de persuasão, de convencimento por argumentos, apequena-se a cada ano. Até como
efeito disto não se consegue discutir a questão com a seriedade que ela merece porque a todo
instante apenas se pensa nas questões efêmeras e pequenas. Discute-se a todo momento tendo
em vista apenas as configurações de poder, pensando-se em como obter uma vantagem tática,
mas não se discute a questão estrutural.
Assim como a criança que nasce com dificuldades de audição tende a ter problemas de audição,
porque não consegue ouvir aos outros e a si mesmo, também a falta do exercício de parlamentar
acaba por prejudicar a capacidade de audição da sociedade política.
Tornam-se cada vez mais raros momentos como aqueles nos quais com um discurso Mario
Covas convencia a Câmara dos Deputados a não votar a autorização para processar Márcio
Moreira Alves - em 68 - ou conquistava a luz de propostas a liderança da bancada do PMDB na
Constituinte em 87. Surdos aos argumentos alheios e sabendo que os adversários são igualmente
surdos aos seus, o Parlamento vai perdendo sua capacidade de falar, o discurso perde sua
qualidade fundamental de tentar persuadir.
Deixa então de haver, de fato, o embate de ideias na tentativa de convencer ou produzir um
consenso que seja a síntese de visões distintas. Chega-se não ao verdadeiro consenso, busca da
razão, mas apenas a frágeis e circunstanciais equilíbrios de poder, quase sempre orientados em
função de elementos externos ao jogo parlamentar.
A crise moral, os sucessivos escândalos, também estão diretamente relacionados a este
processo. Pois como a palavra vale pouco ou nada, então o que vale a pena é buscar algum
nicho corporativo, transformar o voto em moeda ou, no melhor dos casos, utilizar o mandato
como peça de alguma máquina política. A própria generalização formulada pelo eleitor médio -
que não distingue entre o parlamentar preocupado em construir um mandato sério, o "mercador
de ilusões" ou o "balconista de grandes e pequenos negócios" - torna-se parte integrante de todo
o fluxo descendente da política porque a vítima preferencial desta indiferenciação é justamente
o bom parlamentar, já que o eleitor dos "picaretas" vota segundo outras motivações.
A crise política não será resolvida por truques de marketing - aliás é até bom lembrar que parte
do escândalo do mensalão se deu em torno do superfaturamento e desvio de verbas de uma
campanha para melhorar a imagem da Câmara dos Deputados. Se não por outros motivos
porque a linguagem do marketing e da publicidade é um monólogo e o que precisamos é de
diálogo. Um diálogo criador que nos permita de novo termos imaginação para pensar o novo.
Q U I N T A - F E I R A, 2 6 J U L H O , 2 0 0 7 - 0 5 : 0 9
Lembrei-me desta história nestes dias relendo "Lutando na Espanha" – relato de Orwell sobre a
sua experiência na Guerra Civil Espanhola - e a coletânea de ensaios "Dentro da Baleia". Orwell
tem a capacidade de chamar a minha atenção e proporcionar-me o prazer da leitura até mesmo
quando ataca coisas nas quais acredito. Em Dentro da baleia ele desmonta vários de meus
autores preferidos – Tolstoi, Russel e Swift em especial – ainda assim lá estou lendo pela
enésima vez, lendo e refletindo sobre os textos, até dando razão a algumas das críticas feitas.
Minha consolação vem em parte do fato de que lá no fundo, nas entrelinhas, há muita admiração
e respeito de Orwell pelos mitos pelos ícones que ele se propõe a destruir, talvez seja isto que
faça a análise dele ser repleta de sinceridade e portanto de verdade e beleza.
"Revolução dos Bichos", "Lutando na Espanha" e "1984" são um mesmo livro contando a
história de formas deferentes, o relato da guerra civil espanhola é a matriz na qual os outros
foram plasmados, é uma descrição que impulsiona as narrativas nas quais o resultado daquelas
práticas que ele denuncia vão gerando outros cenários. Há casos nos quais se percebe como os
indivíduos da fábula foram decalcados a partir de personagens da vida real. Sansão, o cavalo fiel
e batalhador que toma com motto “O camarada Napoleão tem sempre razão” é um é moldado
em um dos milicianos com quem ele se encanta nas trincheiras da Catalunha. Ele não enxerga
estes dois militantes dedicados com desprezo, por mais profunda que seja a crítica às vãs
esperanças que motivam os dois personagens.
Sobre o personagem de Lutando na Espanha ele afirma:
“Era um moço de seus vinte e cinco anos de idade, com expressão carrancuda, espadaúdo,
cabelo meio avermelhado e louro. O quepe de couro, de bico, estava repuxado de modo feroz
sobre um dos olhos, e de perfil para mim, tinha o queixo encostado ao peito, olhando com
perplexidade um mapa que um dos oficiais abrira sobre a mesa. Alguma coisa, em sua
expressão fisionômica, causou-me profunda emoção. Era o rosto de um homem que assassinaria
outro, ou daria sua própria vida por um amigo, o tipo de rosto que se espera encontrar num
anarquista, embora com toda a probabilidade ele fosse comunista. Encontravam-se, naquela
expressão, candura e ferocidade ao mesmo tempo, bem como a reverência patética que os
analfabetos possuem por aqueles que julgam seus superiores. Estava mais do que claro que ele
não entendia patavina do mapa, cuja leitura e interpretação deviam, a seus olhos, constituir
estupenda façanha intelectual. Eu não sei por que, mas poucas vezes vi alguém que me
agradasse de modo tão imediato”.
Já sobre Sansão, a admiração de Benjamin, o burro, pelo cavalo é expressa de forma semelhante
ao do autor. Por mais que deplorem a ilusão, admiram a força e até a ingenuidade do iludido
tanto quanto odeiam o ilusor.
Neste sentimento mais de admiração que de desprezo pela “disciplina proletária” é que julgo
que há a enorme diferença entre Orwell e outros tantos que denunciaram a manipulação dos
dirigentes sobre os liderados. No passado a discussão política da esquerda chamava isto de
stalinismo e o deplorava ou defendia, mas para muito além dos partidos comunistas foram se
traçando com mais ou menos nuances estas práticas.
A diferença sensível é que muitas e muitas vezes esta denúncia da disciplina e do chamado
“centralismo democrático” era no fundo aquilo mesmo que os defensores da medida – stalinistas
em maior ou menor grau – diziam: uma aversão pequeno-burguesa à disciplina, de um lado, e
um sentimento de superioridade de alguns indivíduos, particularmente os intelectuais diversos,
sobre a massa do povo.
Estas discussões todas parecem ter ficado guardadas em algum baú de recordações do passado,
de uma época em que estas questões todas passavam por inúmeras horas de discussão. Mas o
pior é que não são, se não por outros motivos porque foi neste universo que surgiram e se
formaram muitas das lideranças políticas que estão por aí – e não só as de esquerda, mas muitos,
em especial os mais insignes, de direita.
O autoritarismo stalinista soçobrou, mas sob inúmeras formas e pretextos continua sendo cada
vez mais o método de organização política mais efetiva e mais comumente colocado em prática
por aí. Pior! As alternativas a ele são em geral coisas ainda piores e mais deploráveis, ou é o
quadrilhismo puro e simples, ou o personalismo caudilhista ou uma mescla de sentimentos
ressentidos envenenados até o cerne por sentimentos fascistas, fascistóides e preconceituosos.
Preocupa-me saber como este processo inevitavelmente termina como a história, inclusive a
história recente do país, não cansam de dizer. Preocupa-me ainda mais a falta de alternativas a
este processo.
Só me resta descobrir se esta desesperança está em mim ou se no mundo!
S E X T A - F E I R A, 1 1 A B R I L , 2 0 0 8 - 1 4 : 2 7
Também as notícias que vem lá da fortaleza de Kurtz nem sempre são animadoras,
demonstrando que mais do que fenômeno casual ou local é algo generalizado. Quando nem
Kurtz, que tal como o personagem acredita que são preciso menos e melhores pessoas para ter
chance de ganhar as batalhas não consegue recrutar os guerreiros que deseja é sinal da imensa
falta de seres humanos que há no Brasil.
Sinto-me como vindo de algum outro tempo distante e já finito, quando o enorme privilégio de
fazer parte do Poder, do Estado, do núcleo dirigente, enfim, nem que fosse como contínuo –
curioso lembrar que quando Kurtz começou sua trajetória era o garoto que cuidava da xérox -
era um prêmio aos melhores e mais disciplinados soldados. Mas depois de refletir, meditar,
pensar, esforçar-me para retirar do meu pensamento aquilo que fosse subjetivo, enviesado,
cheguei à conclusão que as maiores vítimas são os próprios alienados.
A indignação foi em grande parte substituída por certo sentimento de piedade com relação
àqueles que vivem vidas vazias, naqueles que transformam o que poderia ser uma experiência
extraordinária em mera ocupação do tempo de ócio com tédio pretensioso.
Como sempre, quando algo me irrita nos outros busco também em mim as mesmas falhas. Julgo
que esta é sempre uma grande arma para lutarmos pela nossa superação, porque na imensa
maioria das vezes o erro que vemos outros está em nós mesmos. Às vezes me sinto também
desmotivado, fazendo muito menos do que poderia fazer, nem sempre enxergando a imensa
responsabilidade que me foi dada. Não tenho ambições tacanhas ou pobres, esforço-me por
concentrar-me no meu aprimoramento, mas sei que muitas vezes negligencio tantas tarefas que
poderia fazer e que se estão na minha frente devem ter um motivo.
Como tenho dito, a paixão da política me abandonou, mas isto também significa que agora
posso ser melhor guerreiro, porque o soldado ideal – como por sinal diz Kurtz, não o meu mas o
de Conrad e Coppola, e o Bahgavad-Gita – é aquele que combate sem paixões e ódios, mas pelo
dever e pela consciência profunda da justiça da luta.
Q U A R T A - F E I R A , 1 1 A B R I L, 2 0 0 7 - 1 3 : 0 4
ENQUADRAMENTO DO PROBLEMA
Embora hoje extremamente associada ao Islam, a expressão fundamentalismo surgiu para
designar o revivalismo protestante norte-americano da virada do século passado para este. O seu
uso fora deste contexto é bastante questionado até porque, a rigor, os grupos a que se refere
quando se fala do Islam não tem uma preocupação literalista na interpretação do Alcorão. Além
disso, como destaca um dos mais eminentes filósofos muçulmanos contemporâneos, Seyyd
Hossein Nasr no seu "Traditional Islam and the Modern World", o termo tem sido usado com tal
amplitude, para designar tantos grupos tão distintos entre si - alguns dos quais sem qualquer
orientação extremamente exotérica que justifique o uso - que o termo perdeu a sua utilidade
como categoria científica.
Lawrence justifica não só o uso de do rótulo "fundamentalista", bem como o caráter paralelo
deste movimento tanto no Protestantismo, como no Judaísmo e no Islam e, embora limite sua
análise a estas três crenças, avalia que existe similar em qualquer outra fé - mencionando
explicitamente o Hinduísmo, o Budismo e o Sikhismo. Para ele, mesmo que o rótulo não seja
absolutamente adequado, ele permite, enquanto categoria, que se faça um estudo comparativo
analisando semelhanças e diferenças até que chegue ao cerne do problema, portanto o nome que
se dá ao fenômeno, em si, não é importante. Admitidas estas restrições de cunho instrumental,
parece ser admissível utilizar o termo.
Considerar a todos como diferentes manifestações de um mesmo processo, avalia Lawrence,
permite que se investigue as semelhanças e diferenças e, em especial, que se trate do problema
em relação ao contexto contemporâneo da modernidade, sem o qual, avalia ele, a análise não faz
sentido. A conclusão semelhante chegam Martin Marty e Scott Appleby no seu "The Glory and
The Power: The Fundamentalist Challenge to the Modern World" que tenta traçar um paralelo
entre o fundamentalismo protestante, judaico e muçulmano.
Eles contudo atêm-se a uma interpretação tradicional do fenômeno fundamentalista,
entendendo-o como uma teodicéia destinada a explicar a perda de poder e prestígio das camadas
tradicionais da sociedade e a dissolução de seus sistemas valorativos e cognitivos, mobilizando
estes segmentos a partir de uma volta aos sistemas tradicionais, o que implica numa rejeição da
modernidade, ou da Modernidade Tardia como prefere Giddens. Não é esta visão
profundamente influenciada pela sociologia tradicional que irá dar uma interpretação
satisfatória do problema, na avaliação de Lawrence.
Neste ponto ele concorda com Nasr e destaca o caráter essencialmente não-tradicional do
fundamentalista. Por mais que ele fale da tradição e evoque não sem saudades um passado
glorioso - geralmente imaginário - o fundamentalismo seria, para ele, sobretudo uma tentativa
de reconstruir a modernidade a partir de um conjunto de valores e sentidos orientados pela
Restauração Divina. Também é a análise que faz Samuel Huntington no seu quase clássico "O
Choque de Civilizações e a Recomposição da Ordem Mundial" quando diz, referindo-se ao
chamado fundamentalismo islâmico, que depois de décadas de "Kemalização" na qual se
pretendeu modernizar o Islam, aparece a tendência contrária de "islamizar a modernidade",
experiência que por sinal encontra um profundo paralelo no "período clássico" da Civilização
Muçulmana no qual o conhecimento da Antiguidade foi reconstruído a partir de uma
Weltanschauung islâmica.
Um dos grandes méritos de Lawrence é quebrar a noção do senso-comum sobre o
fundamentalismo, segundo ele fruto de uma intricada aliança entre a Academia e a Imprensa
sensacionalista (literalmente "The Ivory Tower" e The Yellow Press"). O objetivo dos
fundamentalistas não é uma volta ao passado, ainda que um passado fictício, nem a negação das
"comodidades" modernas, mas a submissão desta modernidade a um conjunto de valores e
sentidos orientados para a Restauração Divina. Assim ele acrescenta à "ameaça
fundamentalista" - desprovida de seu caráter fantasioso - a ameaça da plausibilidade.
Citando diversos autores especialmente Keppel, Huntington desmistifica outro ponto: os
fundamentalistas não são os miseráveis analfabetos das aldeias ou da periferia das grandes
cidades, fanatizados por religiosos reacionários. São em geral pessoas de classe média - ou
mesmo da elite - quase sempre com instrução superior ou pelo menos técnica, fruto das
segundas gerações educadas segundo o modelo ocidental. Como destaca Huntington, entre os
muçulmanos os jovens são religiosos e seus pais seculares, fenômeno que aprece se repetir em
outros fundamentalismos. A própria Revolução Iraniana - tomada de forma equivocada, como
se pretende demonstrar, como protótipo da "ameaça fundamentalista" - foi em grande parte uma
revolução conduzida por jovens.
A fusão de tantas concepções diferentes em um mesmo conceito traz paradoxos e
inconsistências que podem acabar levando a busca de uma abstração tal que explique o conjunto
do fenômeno fundamentalista uma aventura sem chances de sucesso. Torna-se necessário,
então, algum tipo de definição que norteie a classificação do que seria "Fundamentalismo" que
seja capaz de demonstrar uma unidade do fenômeno sem abstrair as diferenças significativas.
A definição de Lawrence atende, em parte, a esta questão: "Fundamentalismo é a afirmação da
autoridade religiosa como holística e absoluta, não admitindo crítica ou limitação; é expressado
através da demanda coletiva que aquelas ordenações doutrinárias e éticas derivadas das
Escrituras Sagradas deve ser publicamente reconhecida e legalmente reforçada". O centro da
definição dele, portanto, reside na questão das Escrituras como elemento legitimador da
autoridade, aspecto que em si não é suficiente para enquadrar o conjunto dos fenômenos que ele
define como "Fundamentalismos", até porque as diversas fés tratam de forma diferente o papel
das escrituras. A substituição da Escritura pela Revelação, portanto a legitimação baseada numa
transcendência - tão cara a Garaudy, por exemplo, parece tornar um pouco mais adequada a
definição de Lawrence.
Curiosamente falta na definição dele justamente o que é sua principal contribuição ao tema: a
caracterização que o "Fundamentalismo" é um fenômeno da modernidade. A distinção essencial
que ele faz entre o Revivalismo e o "Fundamentalismos", analisada em artigo anterior, dissolve-
se em meio à definição dada por ele. Ainda que sua recusa em tentar enquadrar seu trabalho em
uma avaliação humanista ao invés de sociológica - responsável por uma visão menos
esquemática e mais rica do fenômeno - ela em outros pontos limita a amplitude da sua avaliação
por recusar-se a incorporar alguns conceitos relativamente solidificados da Sociologia da
Religião.
O que dá uma certa unidade ao fenômeno Fundamentalista parece ser não a questão das
Escrituras e de sua interpretação pretensamente literalista - em especial no Islam, como já foi
comentado, esta definição exclui a maior parte dos grupos - é o desejo de sacralizar, ou
ressacralizar, o mundo, em especial o mundo moderno. A Utopia Fundamentalista é a
construção de um Sacred New World no qual aos benefícios e comodidades materiais e
intelectuais da modernidade se some a solidez comunitária e altos padrões éticos e morais
determinados pela Revelação.
Entendido desta forma, o "Fundamentalismo" é uma tentativa de reconstrução do moderno à luz
do sagrado, não como uma aceitação dos meios modernos instrumentais - como a TV, os meios
de transporte e o aparato bélico citados tanto por Lawrence como por Aplleby e Marty - mas da
própria modernidade em si. O tema é recorrente nas mais diversas elaborações do pensamento
islâmico contemporâneo, seja no radical ideólogo dos Irmãos Muçulmanos, Sayyid Qutb - para
quem a tarefa do Islam é reconciliar religião e ciência separadas por uma "esquizofrenia
ocidental" e retomar o desenvolvimento para os quais os valores ocidentais já não são mais
válidos - ou para o mártir da revolução iraniana, Murtada Mutahari - para quem o Islam é capaz
de contrabalançar o que deve permanecer e o que deve ser mudado, até porque "não se imiscui
no padrão e forma de vida exterior, que é totalmente dependente do grau de conhecimentos
humanos" porque a essência d''as instruções islâmicas dizem respeito ao espírito, ao significado
e finalidade da vida, e ao melhor caminho que um homem deve seguir para atingir a meta final".
Esta ênfase em trazer o sagrado de volta à modernidade, e reconstruir esta a partir dos valores
transcendentes, traça uma distinção essencial do que se chama de "Fundamentalismo" islâmico
dos outros "Fundamentalismos". O primeiro paradoxo que surge nesta questão é que o Islam é
ao mesmo tempo a maior ameaça à hegemonia ocidental e a que mais se esforça para
incorporar, ainda que de forma reconstruída, o legado iluminista, científico e tecnológico;
enquanto o "Fundamentalismo" protestante, que traça sua genealogia diretamente da própria
essência de valores da sociedade moderna e nela está intrinsecamente ligada, é a que mais
rejeita a modernidade.
No senso comum, em especial devido à Yellow Press, existe uma confusão de dois momentos
distintos deste processo de luta pela Restauração Divina que resultou no Fundamentalismo.
Lawrence destaca as diferenças essenciais entre os revivalismo religioso que periodicamente
assalta o mundo e o Fundamentalismo, ideologia que tenta sacralizar a modernidade.
Ainda que a distinção seja polêmica e as fronteiras sejam pouco definidas, a distinção parece ser
útil. Aos primeiros podem-se aplicar as explicações básicas da Sociologia da Religião e seus
métodos e interpretações clássicas, analisando-os como uma tentativa de reconstruir o Sistema
Cognitivo e Simbólico destruído pela rápida evolução da modernidade, de, enfim, encontrar
certezas num mundo que privilegia a dúvida e a constante metamorfose, aportar em um porto
seguro enquanto a tempestade da anomia não cessa. É, sobretudo, uma atitude defensiva.
O Fundamentalismo, ao contrário, retoma a ofensiva ao tentar reconstruir - não negar - a
modernidade. Neste ponto a diferenciação do chamado Fundamentalismo Islâmico em relação a
outros Fundamentalismos, cristão, judeu, marxista ou cientificista, parece se destacar e a
impropriedade do termo ganha tanto um destaque como um sentido inusitado. Por detrás do
conceito de Fundamentalismo está implícita uma noção de regresso aos Fundamentos da Fé,
portanto de rejeição do que não está nas Sagradas Escrituras, o próprio Lawrence que defende
ardorosamente a utilidade do termo bem como sua aplicabilidade a qualquer fé, nega que este
sentido vulgar do termo seja o sentido real.
Destaca ele quatro condições essenciais para a caracterização do Fundamentalismo: um reforço
recíproco entre crença e práticas rituais, uma tradição articulada que deriva sua legitimidade da
autoridade de textos religiosos, um líder carismático que lidere a formação institucional durante
este processo - por vezes contestando a estrutura vigente - e por fim uma ideologia ligando o
líder carismático aos grupos dispersos. Nesta última condição está, como destaca Lawrence,
implícita a aceitação pelos seguidores não só da autoridade do líder e das tradições, mas a
interpretação particular que ele faz delas, e portanto de uma construção ideológica.
Lawrence percebe que por mais que se tente extrair autoridade das escrituras, não se trata de um
simples processo de leitura, mas sim de releitura. O termo Fundamentalismo torna-se então um
tanto incomodo porque se descobre que não há literalismo explícito, há, sempre, uma
interpretação intermediária. O que é fundamental, portanto, não é a adesão literalista, mas a
busca de legitimidade a partir de uma interpretação exclusiva.
Ainda com todas estas advertências e limitações assinaladas por Lawrence para o literalismo, é
preciso notar que o alicerce da República Islâmica e do pensamento político de Khomeini é uma
criação nova, a doutrina do Velaiat-al-fiqh, formulada por ele no final dos anos sessenta. O
discurso dominante na mídia e mesmo na Academia ocidental dá pouca importância ao fato de
que foi esta elaboração teórica de Khomeini que permitiu uma mescla de elementos ocidentais e
modernos - como a instituição de partidos, parlamento e de um Estado com um certo grau de
democracia - reconstruídos a partir de uma releitura islâmica da visão ocidental de Estado.
Uma das hipóteses que se tentará demonstrar ao longo da pesquisa é que esta mescla foi
essencial para garantir a ampla aliança política e social que foi responsável pela vitória da
revolução iraniana. Foi esta interpretação particular de Khomeini, espera-se demonstrar, que
colocou do mesmo lado os setores religiosos e laicos da sociedade iraniana. Apesar disto a
doutrina do predomínio do jurista sempre esteve longe de ser uma unanimidade na sociedade
iraniana e é sobre ela que se concentra os conflitos atuais no Irã.
Outro ponto que Lawrence questiona pouco, é que se a existência de uma liderança carismática
é essencial no período formativo, a institucionalização e racionalização durante as gerações
seguintes é que dará, ou não, o caráter de permanência do grupo. A Revolução Iraniana
sobrevive 10 anos, metade de sua existência, à morte de Khomeini sem que tenha produzido
outro líder carismático com o mesmo peso, autoridade e principalmente carisma, como
demonstram os acontecimentos recentes no Irã, tão pouco compreendidos pela mídia ocidental.
Em outro momento se tentará mostrar como as condições específicas do Irã foram
determinantes para esta persistência, bem como para uma certa racionalização e
institucionalização da Revolução Iraniana, condições estas tão específicas que refutam em
grande estilo a tese comum do Ocidente da ascensão de Khomeini em 79 como arquétipo das
revoluções fundamentalistas.
A hipótese da liderança carismática como ponto essencial do Fundamentalismo, embora
consistente no caso do Fundamentalismo Protestante e Judaico, não parece ser apropriada ao
Fundamentalismo Islâmico. Uma avaliação preliminar dos textos dos teóricos do movimento
como Said Qutb - ideólogo dos Irmãos Muçulmanos do Egito - demonstra, pelo contrário, uma
preocupação em articular uma argumentação racional quase sempre utilizando categorias do
Pensamento Ocidental onde se percebe, por sinal, um evidente esforço de adaptação do
pensamento marxista. O próprio Lawrence observa que o termo ideologia ganha um sentido
positivo e não pejorativo na terminologia do pensamento fundamentalista islâmico.
Uma interpretação particular das relações entre o fundamentalismo islâmico e a Modernidade é
defendida por Eric Hobsbawn em Era dos Extremos. Segundo ele há uma afinidade entre a
forma como os fundamentalistas em geral, e os iranianos em particular, vêem o progresso e a
visão do pensamento nazista, ou seja, o progresso é enaltecido por um lado, mas nunca deixa de
ser visto como uma ameaça ao modo de vida "puro". Ao longo da pesquisa se tentará
demonstrar que esta visão, embora instigante, não encontra apoio nos fatos.
Há, por fim, uma outra possibilidade de investigação deste relacionamento dos
Fundamentalistas com a Modernidade que encontra raízes profundas no pensamento ideológico:
o conflito entre comunidade e sociedade. Embora exista evidente semelhanças entre as duas
situações, se tentará demonstrar que não se trata do esforço de uma comunidade para reagir à
penetração pela sociedade global, mas de um conflito entre duas formas societárias com
projetos diferentes de futuro que, obrigatoriamente, devem interagir.
De uma forma geral, mesmo o mais arcaizante modelo fundamentalista, como a reacionária
monarquia saudita e até mesmo o Taleban, não rejeita a modernidade, apenas deseja em maior
ou menor grau a sua reconstrução segundo princípios baseados na escritura. Mesmo os
fundamentalistas americanos com sua aversão por Darwin e o redivivo "Julgamento do macaco"
são ardorosos defensores das liberdades individuais e do legado da Reforma e da liberdade
individual. Mas esta relação com a modernidade vai muito além da simples utilização de
equipamentos modernos para divulgar sua mensagem - ponto comumente abordado tanto pela
Academia como pela mídia.
A crítica não é à razão em si, mas à razão instrumental que dissocia o conhecimento e a
tecnologia de finalidades, por incrível que pareça, humanitárias. Chocam-se não com a Razão,
mas justamente com a irracionalidade da Utopia consumista e individualista que tira o sentido
das coisas não só porque erode os sistemas cognitivos de natureza religiosa, como perceberam
os sociólogos da religião desde Wach, mas também porque é desprovida de um sentido
universal em si.
A realidade, contudo, nem sempre é tão simples em especial por causa da enorme abstração que
se faz ao chamar um conjunto tão amplo de movimentos sociais sobre o mesmo rótulo de
""Fundamentalismos"". O próprio "protótipo" do "Fundamentalismo" que é a Revolução
Iraniana dificilmente poderia ser classificado estritamente como Fundamentalista, mesmo a sua
limitação a "Fundamentalismo" Islâmico esclarece muito pouco porque não dá conta da
especificidade xiíta - talvez como fruto do pouco conhecimento do Ocidente sobre o xiísmo,
revelado entre outras coisas pelo sentido com o qual o termo "xiíta" foi incorporado na língua
portuguesa como sinônimo de ortodoxo e radical.
Há por fim um aspecto metodológico em torno do tema extrema importância que a associação
do Fundamentalismo com a política, distinção que em alguns momentos tem servido para
separar fundamentalismo de Revivalismo. Embora útil ao se analisar os fenômenos relacionados
às religiões ocidentais, em especial o protestantismo, esta distinção parece ser tornar enviesada
ao lidar com o Islam que por definição é também um modelo de Estado e uma Ordem
Econômica, temática por sinal muito frequente nos discursos de Khomeini. Quando ele tenta
distinguir entre o clero "conservador" e o "progressista" ele o faz justamente em função da
preocupação deles com a política.
METODOLOGIA
O eixo central do trabalho é a pesquisa documental através da aplicação das técnicas de análise
do discurso aos pronunciamentos feitos por Khomeini. Há um problema aqui por não se lidar
diretamente com o material na língua original, o farsi, mas através de traduções para o Inglês, o
francês e o Espanhol, portanto não se recorrendo ao que, a rigor, seria uma fonte primária. Em
parte se pretende atenuar esta deficiência metodológica através de um conhecimento razoável da
terminologia técnica da jurisprudência e teologia islâmica e pelo uso de diversas traduções
cotejadas.
A base da pesquisa será a coletânea de discursos de Khomeini traduzidas para o inglês pelo
Institute for te Compilation and Publication of the Works of Iman Khomeini, sediada em
Teheran, que reúne os mais importantes discursos feitos por Khomeini de 62 a 78 e passa por
ser uma tradução acurada para o inglês. Também é importante no contexto da pesquisa os livros
nos quais ele expõe a doutrina do Valayat al-fiqh - o domínio do jurista - que serve de base e
legitimação para suas reivindicações da constituição de um Estado islâmico no qual um grupo
de jurisconsultos muçulmanos desempenham uma espécie de Poder Moderador. Ainda que de
forma fragmentária, este texto de Khomeini está publicado em diversas línguas.
Como complemento a estes dois grandes grupos de documentos, o Testamento Político e
Religioso de Khomeini, editado em diversas línguas inclusive em português, também fornece
uma visão importante sobre o pensamento do líder iraniano na medida que é um texto destinado
não só aos iranianos ou xiítas, nem mesmo apenas aos muçulmanos, mas pretende se dirigir a
todas as nações "sob jugo imperialista" mais ou menos como uma grande conclamação a uma
revolução mundial.
Paralelo a esta leitura sistemática de textos do próprio Khomeini pretende-se estudar textos de
outros ideólogos da revolução Iraniana, em especial Ali Shariati e Murtada Mutahari analisando
semelhanças e diferenças entre estas visões. Estas análises seriam também confrontadas com a
cobertura da imprensa mundial sobre o tema desde os anos anteriores à Revolução até alguns
anos após o seu início e, em certa medida, em relação aos acontecimentos recentes na medida
que ajudem a elucidar alguns aspectos significativos para a pesquisa.
Também se pretende fazer uma grande revisão bibliográfica sobre o fundamentalismo islâmico
e outros movimentos tanto fundamentalistas como revivalista que permitam que se faça uma
análise comparativa que busque as semelhanças e diferenças entre a dinâmica do movimento no
Irã e em outras sociedades. Para aprofundar esta discussão também se estudará alguns textos
referentes à história recente do Irã e ao movimento de 1905.
CRONOGRAMA
Estima-se um prazo de quatro meses para a transformação deste anteprojeto em um projeto
definitivo. A maior parte deste tempo será utilizada para a leitura e sedimentação da bibliografia
selecionada e para um exame inicial da base de dados selecionada de forma a aprimorar e
verificar a viablidade das hipóteses iniciais e a consequente transformação delas em hipóteses
mais elaboradas.
Durante este processo espera-se que seja desenvolvido um plano de prova das hipóteses mais
elaborado e detalhado que, ainda que na forma de teste prévio, possa já ser aplicado a pelo
menos uma parte dos dados disponíveis para verificar sua plausabilidade e consistência.
Nestes quatro meses, portanto espera-se os seguintes resultados concretos:
Revisão bibliográfica e fichamento dos textos incluídos na bibliografia;
Exame inicial da base de dados com definição de categorias mais precisas a serem investigadas;
Seleção de fontes documentais e avaliação da sua confiabilidade, em especial quanto a jornais e
revistas do período;
Desenvolvimento de um plano de provas das hipóteses que avalie, pelo menos, os seguintes
itens:
A verificação do caráter aberrante da Revolução Iraniana através de categorias que permitam a
comparação entre ela e outros movimentos fundamentalistas e revivalistas;
A evolução de alguns temas nos discursos de Khomeini ao longo dos períodos e sua associação
com outros eventos, em especial com o crescimento de sua popularidade;
Os eixos de semelhança e diferença entre a visão de Khomeini e outros líderes revolucionários;
distanciamento entre as palavras e ações de Khomeini, e entre suas ações e os fatos retratados
pela mídia.
A construção de um tipologia do fundamentalismo que forneça um modelo mais adequado que a
de Lawrence.
BIBLIOGRAFIA
FONTES
Khomeini, Ruhollah. Kauthar: An Antology of the speechs of Iman Khomeini, The Institute for
the Compilation and Publication of the Works of Iman Khomeini, introdução de Ahmed
Khomeini, notas de Hamid Ansari.
MODERNIDADE E FUNDAMENTALISMOS
Nos dois artigos anteriores foi admitido a compreensão do "Fundamentalismo" como um
fenômeno global, presente em diversas religiões, em especial no Islam, no Judaísmo e no
Cristianismo, na forma e com as restrições apontadas por Lawrence. Ainda que radicalmente
contrário a este uso do termo, o filósofo muçulmano Seyyed Hossein Nasr, defende a mesma
ideia de que o "Fundamentalismo" é um produto da modernidade e em geral se inspira nos
métodos, ideologias e concepções de mundo derivadas do ocidente.
A fusão de tantas concepções diferentes em um mesmo conceito traz paradoxos e
inconsistências que podem acabar levando a busca de uma abstração tal que explique o conjunto
do fenômeno fundamentalista uma aventura sem chances de sucesso. Torna-se necessário,
então, algum tipo de definição que norteie a classificação do que seria "Fundamentalismo" que
seja capaz de demonstrar uma unidade do fenômeno sem abstrair as diferenças significativas.
A definição de Lawrence atende, em parte, a esta questão: "Fundamentalismo é a afirmação da
autoridade religiosa como holística e absoluta, não admitindo crítica ou limitação; é expressado
através da demanda coletiva que aquelas ordenações doutrinárias e éticas derivadas das
Escrituras Sagradas deve ser publicamente reconhecida e legalmente reforçada". O centro da
definição dele, portanto, reside na questão das Escrituras como elemento legitimador da
autoridade, aspecto que em si não é suficiente para enquadrar o conjunto dos fenômenos que ele
define como "Fundamentalismos"", até porque as diversas fés tratam de forma diferente o papel
das escrituras. A substituição da Escritura pela Revelação, portanto a legitimação baseada numa
transcendência - tão cara a Garaudy, por exemplo, parece tornar um pouco mais adequada a
definição de Lawrence.
Curiosamente falta na definição dele justamente o que é sua principal contribuição ao tema: a
caracterização que o "Fundamentalismo" é um fenômeno da modernidade. A distinção essencial
que ele faz entre o Revivalismo e o ""Fundamentalismos"", analisada em artigo anterior,
dissolve-se em meio à definição dada por ele. Ainda que sua recusa em tentar enquadrar seu
trabalho em uma avaliação humanista ao invés de sociológica - responsável por uma visão
menos esquemática e mais rica do fenômeno - ela em outros pontos limita a amplitude da sua
avaliação por recusar-se a incorporar alguns conceitos relativamente solidificados da Sociologia
da Religião.
O que dá uma certa unidade ao fenômeno Fundamentalista parece ser não a questão das
Escrituras e de sua interpretação pretensamente literalista - em especial no Islam, como já foi
comentado, esta definição exclui a maior parte dos grupos - é o desejo de sacralizar, ou
ressacralizar, o mundo, em especial o mundo moderno. A Utopia Fundamentalista é a
construção de um Sacred New World no qual aos benefícios e comodidades materiais e
intelectuais da modernidade se some a solidez comunitária e altos padrões éticos e morais
determinados pela Revelação.
Entendido desta forma, o "Fundamentalismo" é uma tentativa de reconstrução do moderno à luz
do sagrado, não como uma aceitação dos meios modernos instrumentais - como a TV, os meios
de transporte e o aparato bélico citados tanto por Lawrence como por Aplleby e Marty - mas da
própria modernidade em si. O tema é recorrente nas mais diversas elaborações do pensamento
islâmico contemporâneo, seja no radical ideólogo dos Irmãos Muçulmanos, Sayyid Qutb - para
quem a tarefa do Islam é reconciliar religião e ciência separadas por uma "esquizofrenia
ocidental" e retomar o desenvolvimento para os quais os valores ocidentais já não são mais
válidos - ou para o mártir da revolução iraniana, Murtada Mutahari - para quem o Islam é capaz
de contrabalançar o que deve permanecer e o que deve ser mudado, até porque "não se imiscui
no padrão e forma de vida exterior, que é totalmente dependente do grau de conhecimentos
humanos" porque a essência d'"as instruções islâmicas dizem respeito ao espírito, ao significado
e finalidade da vida, e ao melhor caminho que um homem deve seguir para atingir a meta final".
Esta ênfase em trazer o sagrado de volta à modernidade, e reconstruir esta a partir dos valores
transcendentes, traça uma distinção essencial do que se chama de "Fundamentalismo" islâmico
dos outros "Fundamentalismos". O primeiro paradoxo que surge nesta questão é que o Islam é
ao mesmo tempo a maior ameaça à hegemonia ocidental e a que mais se esforça para
incorporar, ainda que de forma reconstruída, o legado iluminista, científico e tecnológico;
enquanto o "Fundamentalismo" protestante, que traça sua genealogia diretamente da própria
essência de valores da sociedade moderna e nela está intrinsecamente ligada, é a que mais
rejeita a modernidade.
A realidade, contudo, nem sempre é tão simples em especial por causa da enorme abstração que
se faz ao chamar um conjunto tão amplo de movimentos sociais sobre o mesmo rótulo de
""Fundamentalismos"". O próprio "protótipo" do "Fundamentalismo" que é a Revolução
Iraniana dificilmente poderia ser classificado estritamente como Fundamentalista, mesmo a sua
limitação a "Fundamentalismo" Islâmico esclarece muito pouco porque não dá conta da
especificidade xiíta - talvez como fruto do pouco conhecimento do Ocidente sobre o xiísmo,
revelado entre outras coisas pelo sentido com o qual o termo "xiíta" foi incorporado na língua
portuguesa como sinônimo de ortodoxo e radical.
S E G U N D A - F E I R A , 2 M A I O, 2 0 0 5 - 0 6 : 5 9
Q U A R T A - F E I R A , 7 J U N H O, 2 0 0 6 - 1 7 : 3 7
Eu não sou um leitor preconceituoso, leio quase tudo que me cai na mão – até os
panfletos que voam pela rua, como dizia Cervantes – mas como nem sempre se tem
tempo para ler tudo o que se deseja muitas vezes acaba-se por fazer um pré-julgamento
de algum autor e colocando-o no final da fila. Foi este o meu caso com Naguib
Mahfouz, tão saudado em críticas e resenhas como defensor da modernização do mundo
islâmico e vítima dos extremistas, que ainda que me despertasse alguma curiosidade ia
sempre adiando a leitura por imaginar tratar-se de mais um daqueles "brown sahibs",
ainda que goste de vários deles como Tariq 'Ali e o próprio Amin maalouf.
Tirou-me desta visão equivocada uma irmã muçulmana que insistiu para que eu o lesse
e indicou um livro “Noites das Mil e Uma Noites” - em inglês, onde as Mil e Uma
Noites são mais conhecidas como “Noites Árabes” ele tem o também sugestivo título de
“Arabian Nights and days”, dias e noites árabes, menos fiel ao título original árabe mas
preservando em parte o espírito, ainda que não destaque justamente o aspecto de trevas
expresso no original.
Mal consegui largar o livro até terminá-lo e cheguei à conclusão que tanto extremistas
muçulmanos quanto os que o elogiam, pelos motivos errados, no Ocidente não devem
tê-lo lido ou se leram não entenderam. O mesmo diria de um crítico que disse que ele
tentava ser árabe mas só conseguia ser egípcio, epigrama reciclado há décadas que
talvez possa ser aplicado a outros livros mas de forma alguma a este, que mais que
árabe, esta ficção copiada pelos políticos demagogos do nacionalismo ocidental, é
islâmico.
Não posso falar pelas outras obras, em especial Midaq Alley, a qual dizem ter sido
condenada por blasfêmia, mas também serviu de base a um belo filme mexicano, mas se
houve algo que me impressionou no livro de Mahfouz foi justamente a profunda
piedade e religiosidade. “Não se esqueça que terá de prestar contas Àquele que lê os
corações”, diz um dos djins; “Quando chamados a fazer o bem se dizem fracos, quando
comandados a fazer o mal dizem que cumpriram ordens”, diz outro.
Para usar uma expressão popular, diria que os críticos religiosos “passam recibo” -
como aqueles que o esfaquearam em um atentado, e extremistas que tentam em bando
matar um velhinho de 92 anos somam a habitual covardia dos terroristas uma dose
adicional de vileza e falta de amor a Deus - ao condená-lo porque seu alvo não é a
religião, mas a hipocrisia, a mesma hipocrisia que todas as pessoas que se voltaram
verdadeiramente para Deus, em qualquer religião, sempre tentaram exorcizar de suas
sociedades.
Quanto à obra em si, a despeito das outras considerações, considerei realmente brilhante
a forma com a qual ele entrelaça diversas histórias tradicionais das mil e uma noites em
histórias que podem ser lidas de várias formas, tanto pelo seu sentido filosófico, como
pelo seu ensinamento religioso e até como fábula política. O entrelaçamento ocorre não
só no eixo central da história – que tem como cenário justamente onde terminam as mil
e uma noites, ou seja, quando Shariar, depois de ouvir as histórias de Sherazade, desiste
em definitivo de matar as esposas, mas também nas histórias de diversos personagens,
arriscaria dizer na de todos, nas quais estão enxertados cenários das Noites.
Algumas vezes este processo é evidente, como no caso de Sindbad, O Marujo. Mas ás
vezes é oculto – até porque as múltiplas edições das Noites variam muito e as quatro
que eu tenho chegam ás vezes a não se aparecer uma com a outra - como no caso do
belo casal que os gênios transportam para passarem a noite juntos, no homem pobre que
gasta um tesouro para criar uma falsa corte na qual, por oposição a real, é feita a justiça,
nos passeios do soberano pelas noites. Para não falar nos djinns que tem papel relevante
– ainda que nem tanto quanto pareça à primeira vista, no desenrolar das histórias, afinal
com todos os seus poderes são coadjuvantes cujos planos dependem dos corações dos
homens para serem bem ou mal sucedidos.
Nesta transposição o autor consegue manter muito do caráter cruel, arbitrário até, que
existe no “original”, ainda que ás vezes tornadas mais prosaicas, e com isto mais
humanas, como no caso das preocupações em esconder a gravidez da irmã de
Sherazade, sujeita à brincadeira dos gênios mencionada acima. Em outros casos alguns
símbolos velados nas Noites são colocados de forma mais evidente, em particular no
caso do sheikh sufi que mesmo surgindo pouco é um dos centros e de certa forma o
protagonista da história porque quase tudo gira de alguma forma em torno dele,
inclusive como tendo sido ele a ensinar as histórias que Sherazade, sua antiga pupila,
conta para conter Shariar.
A morte, a loucura, uma certa sensação de caráter inelutável do destino dão certo tom
sombrio à obra em uma leitura inicial, mas a mensagem geral pareceu-me muito
otimista porque de uma forma geral diz que o homem sempre pode libertar-se e salvar-
se, dependendo apenas de si e de sua capacidade de enfrentar a falsidade e as
conveniências com a Verdade. Que um dia os governantes, em especial os do mundo
islâmico mas também os de toda parte, possam ter o destino de Shariar.
É evidente que sem ler outros livros não posso traçar um perfil mais preciso, mas pelo
que pude sentir em Noite das Mil e Uma Noites – assim como em Akhnaton, o Faraó
Herege, que no título original tem o subtítulo relacionado à morador da verdade – no
qual mergulhei em seguida, onde um jovem escriba entrevista diversos personagens
para tentar descobrir a verdadeira história do Faraó proscrito – há um profundo amor do
autor pela verdade, combinado com um grande estilo de contador de histórias, assim
como a preocupação de não ser nem do Oriente, nem do Ocidente, mas do lugar onde
more a verdade.
T E R Ç A - F E I R A , 2 3 M A I O, 2 0 0 6 - 1 4 : 2 2
“A Massa esmaga todo o diferente, egrégio, individual, qualificado e seleto. Quem não
seja como todo mundo, quem não pense como todo mundo, corre o risco de ser
eliminado” (Ortega y Gasset, A Rebelião das massas)
Dizia ontem que um dos maiores mal entendidos em relação à questão das “elites” é a
confusão entre Estado e Sociedade, o qual por sua vez leva a se confundir a noção de
elite com as múltiplas oligarquias que tem usurpado o poder ao longo da história em
nome de algum tipo de pretensa legitimação aristocrática. Certamente este abuso do
conceito de elite tem grande parte da culpa pela degradação que hoje transforma o termo
em ofensa, tanto quanto certa aversão e desconfiança da massa àquilo que não se
conforma a seus gostos.
O sentido original de elite é o da fração especializada, seleta, de um grupo e todas as
comunidades, por mais vulgares que sejam, sempre tem uma “minoria seleta”. A
Aristocracia, em seu emprego original, era a defesa de que aos melhores da sociedade
deveria ser entregue a pesada e severa responsabilidade de governar. É neste sentido que
praticamente todos os filósofos gregos são inimigos da democracia e defensores da
aristocracia.
Sócrates sempre destacava que era necessário preparar-se para comandar um cavalo,
mas não um povo, Platão idealizou uma sociedade ideal governada por uma elite austera
duramente selecionada e diariamente provada, Aristóteles considerou a aristocracia
como a melhor forma de governo. É necessário dizer que se há um grande responsável
pela degradação e desmoralização do conceito sempre foram aqueles que transformaram
aquilo que era um dever de mérito em um privilégio de nascença, desde a Grécia
clássica até os tempos de hoje.
Penso que Tocqueville foi o primeiro a dizer que o espaço político ocupado pelas
aristocracias, “cujos privilégios a tornaram odiosa”, precisava ser preenchido ou se teria
um Estado Tirãnico e absoluto. Ele via, já no inicio do Século XIX, na sociedade civil
organizada o mais promissor substituto de uma força que detinha autoridade por si
mesma e portanto poderia enfrentar o Estado a condição essencial para a defesa da
liberdade. Mas outro dia comento melhor isto.
Interessa agora mais discutir outra coisa, que é a distinção entre dois conceitos
fundamentais para se compreender esta questão das elites: Poder e Autoridade,
normalmente confundidos. Se fosse preciso distingui-lo em uma única questão diria que
o Poder é algo atribuído a alguém ou a um grupo, enquanto a autoridade reside em si
própria, nos méritos de quem a detém.
Certamente quem detém a Autoridade – por conta de seus méritos, qualificações,
disciplina, enfim, por algum motivo que o distingua da massa, pode e em geral tem
algum poder. Já a posse do Poder, ainda mais nestes tempos de hoje, não dá a ninguém
alguma autoridade, podendo até em geral retirá-la na medida que o exercício do poder
sempre revela o que de mais profundo existe no espírito. Nenhum exemplo talvez possa
ser melhor do que a recente passagem pelo poder de Lula e do PT, no qual toda a
autoridade moral como defensores da ética, acumulado em duas décadas, dissolveu-se
nos escândalos do exercício do Poder.
Também coisa similar ocorreu com as diversas “elites” - no sentido e com a conotação
que o termo tem hoje, de simplesmente um grupo que detém o poder e não dos melhores
– as quais por conta de seu egoísmo, ignorância, arrogância, privilégios, conseguiram
tornar odioso ao termo e transformar idéias como as de aristocracia, nobreza, como
sinônimo de corrupção, degeneração, putrefação. É mais que evidente que as qualidades
que dão a autoridade não se transmitem pelo DNA, pelo contrário, em geral a
transmissão hereditária do Poder, ao invés da seleção pelos méritos, causa uma
degeneração rápida de qualquer qualidade porque retira do beneficiado a necessidade de
aprimorar-se e competir para ocupar a posição de destaque. Desta degenerescência à
transformação daquilo que era dever em um privilégio oligárquico é apenas um pequeno
passo e assim qualquer nobreza hereditária, monarquia, oligarquia, pretensão de
superioridade pelo sangue ou nascimento só pode ser estúpida e ser defendida pro
estúpidos ainda maiores que através destes argumentos falaciosos buscam ocupar uma
posição para a qual não estão qualificados por suas qualidades.
Assim penso que só a Democracia oferece o ambiente adequado de competição que
promova a seleção natural das lideranças realmente aptas. A dificuldade disto é apenas
ser capaz de dar à democracia a objetividade necessária para julgar aqueles que tem
autoridade suficiente para exercer o poder.
Aos verdadeiramente dotados de mérito a aversão da massa ao “seleto” não é um
obstáculo, mas um desafio e uma prova de sua Autoridade. Por mais problemas que esta
aversão represente – e neste sentido me sinto oposto ao de Ortega y Gasset – a
capacidade de lutar apesar dela é um filtro muito mais apropriado do que qualquer outro
que a história registrou.
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T E R Ç A - F E I R A , 8 A G O S T O, 2 0 0 6 - 1 8 : 2 3
S E X T A - F E I R A, 2 5 A G O S T O , 2 0 0 6 - 1 7 : 2 6
INTRODUÇÃO
O CAMINHO DO MEIO
CONCLUSÃO
Abrão, Bernardete S. História da Filosofia, Coleção Os Pensadores, Nova Cultural, São Paulo,
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ARENDT, Hanna, Condição Humana. Trad. Celso Lafer. Florence, Editora Universitária (USP)
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T E R Ç A - F E I R A, 3 M A I O , 2 0 0 5 - 0 0 : 3 7
Pessoal, Pessoal, Poesia, Arte, Educação, O futuro, Política, Filosofia e cia, Religião
Sócrates, Aristóteles, Will Durant,
Referência Original: [Link]/portal/78
A GUERRA E AS MASSAS
A importância dada à Guerra Civil americana é em geral tributada à mania dos americanos de
olhar para o próprio umbigo e desprezar a história universal. Mania americana à parte, a Guerra
da Secessão tem uma importância inegável na história mundial, e não só na militar, porque
inaugura um novo tipo de guerra.
Antes dela as guerras eram coisas para profissionais, em geral voltadas apenas para questões
estratégicas, no máximo admitindo uma ou outra idiossincrasia nacional. A Guerra Civil
americana inaugurou a entrada das massas na guerra e, com elas, a necessária motivação
ideológica para legitimar a racionalizar o conflito.
As velhas batalhas entre as nações européias eram decididas por elegantes aristocratas que
invocavam disputas sobre direitos hereditários e buscavam sua legitimidade em árvores
genealógicas. Napoleão começou a mudar isto ampliando muito seu exército, dando uma certa
aspiração ideológica à motivação da soldadesca, substituindo a aristocrática cavalaria pela
popular infantaria e pela burguesa artilharia.
Mas a Guerra de Secessão foi o primeiro conflito em escala industrial, e industrial não apenas
quanto ao equipamento, mas à mentalidade. Em primeiro lugar foi uma guerra na qual as tropas
profissionais cediam lugar aos conscritos iniciando o terror do alistamento militar obrigatório
em massa. Em segundo lugar prendia-se a um rígido sistema de emprego de tropas,
cronogramas de aplicação, racionalização dos esforços e, sobretudo, a obsessão de dar um ritmo
preciso a todos os movimentos.
Kissinger afirma que uma das maiores causas da 1ª Grande Guerra foi a autonomia de decisão
militar, imposta por uma necessidade das planilhas de mobilização. A guerra em escala
industrial exigia uma disciplina fabril para a qual as discussões políticas eram um empecilho
retardatório que poderia ser fatal.
A Guerra Civil americana também inaugurou todo um novo glossário não só inexistente mas
impossível antes. Uma destas concepções foi a noção de Guerra Total, ou seja um conflito que
só poderia ser resolvido pela aniquilação do adversário, e sua versão mais branda mas
igualmente cruel da rendição incondicional.
Mas talvez a mais importantes das mudanças na arte de matar inaugurada pela era industrial é a
ideologização dos conflitos. No Ancient Régime a guerra era uma ação de mercenário, ou pelo
menos profissionais, que pouco se importavam com as questões de legitimidade heráldica que
os faziam lutar. Mas desde Napoleão o motivo pelo qual se lutava ia se tornando cada vez mais
importante.
Clausewitz descobriu a importância desta motivação entre os soldados, mas só muito depois
dele a ideologização das guerras ganhou importância, em especial na 2ª Guerra onde o conflito
ideológico era, caso raro, real e não mera racionalização.
Eric Hobsbawn em A Era dos Extremos (Companhia das Letras, 99, 600 p.) destaca o paradoxo
que foi a democracia que inventou este tipo de guerra. Nos regimes democráticos a guerra
precisa da aprovação popular e o meio mais fácil de obter isto é demonizar o adversário.
Todas as guerras desde então precisaram ser colocadas em um plano de luta do Bem contra o
Mal para conseguir amparo popular. O amplo suporte popular a Reagan em sua "cruzada anti-
comunista" em parte só pode ser bem sucedido pela demagógica eficiência com a qual ele
conseguiu sensibilizar a opinião pública americana.
Sem a força deste apelo jamais ele teria conseguido ampliar os gastos militares em um
sociedade ainda traumatizada pelo Vietnã. Só a força desta crença permitiu que se sobrevivesse
aos escândalos envolvendo a CIA e métodos muito questionáveis para quem se propunha a ser o
Exército do Bem.
A crueldade da terrível máquina de matar que tornaram-se as forças armadas modernas só
poderia ser suportada por um amplo esforço ideológico de mobilizar as massas contra os
inimigos. Até mesmo carnificinas desnecessárias e terríveis como a perpetrada pelos americanos
contra Hiroshima e Nagasaki conseguiram suporte popular das nações criminosas.
Ainda hoje não se fez uma revisão adequada da deflagração da Era Atômica, cada dia mais
injustificada como esclarecem um número crescente de pesquisas na área. Isto demonstra o
quanto este efeito demonizador persiste no tempo e pode ter efeitos desconhecidos.
S E G U N D A - F E I R A , 2 M A I O, 2 0 0 5 - 0 7 : 0 1
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Mas a ideia deste artigo é falar sobre outra coisa, só de leve relacionada ao tema da peça do
dramaturgo brasileiro: a estranha relação dos gênios com a comunidade que os cerca. Como está
fartamente documentado, raros gênios são considerados como tal pelos seus conterrâneos e
contemporâneos.
A ditadura da mediocridade em geral prefere louvar algum medíocre e odiar os que tem talento
e a figura de Sócrates condenado ao envenenamento é quase um arquétipo deste papel. Com
precisão o pensador grego vaticinou que ao invés de o marcarem com o opróbrio da
condenação, condenariam a si mesmo à eterna vergonha de terem assassinado um gênio.
Michelângelo carregou por toda a vida a cicatriz no rosto que lhe foi feita por um colega
invejoso de quem o pintor zombará com a calma ironia da genialidade. A marca serviu-lhe
como um estigma da genialidade confrontada com a mediocridade da massa e um verdadeiro
sinal da inveja que provocaria nos seus contemporâneos por toda a sua vida.
Só para citar mais um caso, dos inúmeros que poderiam ser citados, menciono a estranha
relação do escritor alemão Thomas Mann com Lubeck. Por ocasião da publicação do romance
Os Buddenbrook (1901), Mann não só tornou-se persona nom grata na cidade alemã como
quase foi linchado e precisou sair da cidade às escondidas. O motivo foi o retrato sem retoques
da hipocrisia tediosa da sociedade local.
Pouco antes de morrer, contudo, Mann foi convidado a voltar à cidade como convidado de
honra para, pasmem, receber o título de Cidadão Honorário em festejada homenagem que
incluiu a inauguração da "Budenbrookhaus", praticamente um museu em sua homenagem.
O episódio de Mann, que por sinal serviu de inspiração para este artigo, revela o quanto de
temor existe neste ódio do vulgo ao talento. Queiram ou não os medíocres, a história, e em
especial o conhecimento, é obra destes talentos e embora sejam odiados a multidão, a turba,
sempre é obrigada a reconhecer isto.
Mais do que reconhecer, é comum que a turba acabe por idolatrar a obra póstuma daquele a
quem odiaram em vida. Só para se concentrar em um pequeno período da história, os nomes de
Dante, Maquiavel, Michelangelo, Da Vinci e Galileu estão hoje indissoluvelmente ligados à
Renascença Italiana, contudo nenhum deles escapou do ódio de seus contemporâneos, da
perseguição dos poderosos e do exílio.
Mas certamente não se verá nas ruas de Florença nenhuma referência aos que movidos pela
inveja os perseguiram, certamente nenhum monumento será erguido àqueles que inflamaram a
turba contra estes homens. No máximo se lista os nomes dos detratores do talento no rol dos
infames, como se eles isolado tivessem tentado humilhar os talentosos e não como se fossem o
que de fato eram: porta-vozes da mediocridade.
Ao analisar o peso das reputações dos generais e guerreiros na definição de uma batalha, o
pensador árabe Ibn Khaldun - outra vítima das intrigas dos invejosos que o obrigaram a passar a
vida toda fugindo de cidade em cidade e até se escondendo no deserto - diz que o valor delas é
nenhum, em especial quando se trata de pessoas vivas.
Ele avalia que as reputações podem ser facilmente compradas por um punhado de ouro (hoje
certamente o item sofreu deflação) e que os únicos que não tinham interesse nos panegíricos
eram os homens realmente dotado de valor.
Sofrer com a inveja - e mesmo o ódio - de seus contemporâneos e conterrâneos é como um
tributo cobrado a quem realmente tenha talento, um instrumento para burilar seu talento, conter
sua vaidade, dirigi-lo para o que é realmente importante ao invés de ter preocupações com as
vãs glórias instantâneas.
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Nos últimos quatro anos tenho associado esta data com uma das parlamentares com as quais eu
tenho a honra de trabalhar, a Delegada Rose. Assim este 8 de março foi excepcionalmente triste
porque ela não foi reeleita e a data também assinala a última semana de uma sucessão de
mandatos iniciada em 1991. Deputada preocupada com o trabalho parlamentar, presente,
interessada, diretamente ligada à questão dos Direitos da Mulher antes mesmo de ser a titular da
primeira Delegacia de Mulheres, uma das poucas vozes com bom senso ao se manifestar com
conhecimento de causa sobre segurança pública, mesmo nos períodos de histeria sobre o
assunto – equidistante do discurso fantasioso e exagerado dos direitos humanos quanto da
truculência demagógica.
Quando ela não se reelegeu senti certa culpa, gostaria de ter feito mais, ter contribuído mais.
Turvou um tanto a minha alegria de ver meus candidatos eleitos ter sabido que ela não se
elegeu. Pensei muito no quanto os julgamentos da sociedade são injustos com tantas pessoas
dedicadas que sacrificam a vida pessoal à carreira pública.
Pessoal, Política
PP
Referência Original: [Link]/portal/10542
FINS DO MUNDO
Releio, com entusiasmo, um livro que nas primeiras vezes que li não me agradou tanto: O
Périplo de Baldassare, de Amin Maalouf. Resolvi relê-lo de tanto que estava me lembrando de
algumas passagens dele e assim deixei a primeira impressão de lado e reli com um pouco mais
de boa vontade. Ao mesmo tempo que gosto muito de Maalouf como contador de histórias,
descreio da visão política secularista que ele adota como pano de fundo, mas sobre isto já
escrevi diversas vezes.
O grande tema de fundo do livro é a crença de todos com o fim do mundo, anunciado então para
o fatídico ano de 1666. É evidente que em toda época de crise, de mudanças, as pessoas tendem
a acreditar que o mundo vai acabar, o que não deixa de ser, em certo sentido, uma verdade
porque há um mundo morrendo e outro nascendo.
É em um mundo de lado em transformação concreta e de outro perante a perplexidade das
profecias e sinais que o protagonista, um pacato comerciante de livros de origem genovesa
estabelecido no Oriente Médio se envolve em uma grande viagem entanto recuperar um antigo
livro árabe – o Centésimo Nome de Mazandarani – que concederia poderes a quem o lesse. O
paradoxo do livro é que o comerciante não é nenhum fanático, pelo contrário, é um cético,
desligado das questões religiosas e descrente das profecias, mas que acaba sendo arrastado no
meio do turbilhão das perplexidades da época.
Mesmo sem acreditar ele fica confuso com tantos sinais de um mundo que se desagrega. Seu
companheiro em uma parte de viagem é outro cético, um judeu cujo pai está envolvido no
círculo íntimo de Sabbatai Zevi, o místico judeu que se proclama o Messias e ajunta multidões
esperando o final dos tempos. Ambos caminham em uma trilha que não desejavam, arrastados
pela força dos tempos, pelos sinais, pelas circunstâncias, pela perplexidade com a falta de
sentido das coisas.
Lembrei-me enquanto lia de outro livro – este um livro acadêmico – Mil Anos de Felicidade, de
Delumeau, grande catálogo comentado de todas as previsões milenaristas, suas bases – ou falta
de base – seu contexto e suas conseqüências. O autor observa que a despeito de todos os riscos,
a imensa maioria das previsões tem sempre uma data certa e precisa.
De minha parte sinto certa identidade com o personagem de Maalouf, desanimado com os
cenários futuros que surgem, com a falta de sentido que as coisas vão tomando. Penso que
também o autor deve ter se sentido assim e por sito escreveu o livro. Não vou contar o final,
claro, mas é no chegar a ele que entendi proque o livro não me agradou. Conservo a crença,
quixotesca talvez, de não ser indiferente aos destinos do mundo.
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S E G U N D A - F E I R A , 2 4 J U L H O, 2 0 0 6 - 1 4 : 3 6
Pessoal
Referência Original: [Link]/portal/10054
ASSOMBRAÇÕES
Ontem fui ao cinema, depois de tempos sem ir, pra ocupar a mente e escolhi um filme meio ao
acaso, só porque gosto de filmes de terror, mesmo achando que eles vão ficando piores a cada
safra, com os efeitos especiais ocupando o espaço que deveria ser do verdadeiro terror que se
constrói na nossa mente. Assombração (o título em português é lamentável e apelativo, em
inglês é Re-cycle, não faço idéia de qual o nome original do filme em chinês, mas imagino que
deva expressar figura semelhante ao do inglês).
A escolha casual revela como sempre aquela sabedoria com a qual às vezes somos agraciados
quando sabemos ver e ouvir os sinais. Mas vou me ater à história descontextualizada, o filme é
sobre uma escritora que começa a escrever uma história de terror e no decorrer das experiências
que invoca faz uma jornada pelo inferno de seu processo criativo, onde residem as sobras de seu
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Ninguém vai acreditar, eu sei, mas há imagens que eu uso que às vezes encontro em poemas de
verdade. Em muitos casos foi um livro que eu li, guardei sem me lembrar de onde tirei. Mas há
outros que acho em livros e poetas que estou lendo pela primeira vez, juro que não é desculpa
pra algum plágio. Em outros casos fico surpreso em encontrar um sentido simbólico tão
evidente e do qual não suspeitei em um texto que falava sobre outra coisa. Ou, pelo contrário,
descobrir aspectos bem psicológicos ou até mundanos em algo que eu escrevi com a intenção de
ser simbólico.
O sentido de qualquer obra de arte senão aquele que é percebido por quem a observa. Qualquer
explicação sobre isto é certamente inútil e quem precisa de algum decifrador que lhe explique
talvez devesse ficar em casa assistido TV.
Repito talvez pela milésima vez que há a igualdade de direitos, não a de deveres. Qualquer um
que reivindique mais direitos ou menos deveres pertence não à elite, mas á escória. A elite é
justamente aquela parte da humanidade que não precisa de absolutamente nada – nem leis, nem
contenção, nem repressão, nem castigo, nem reconhecimento, nem apreço, nem recompensa,
nem prêmio, nem poder – para agir corretamente e cumprir sua missão. Por isto raramente se
verá um integrante desta elite reivindicar sua posição de elite, afinal a opinião da massa pouco
importa a ele.
Li hoje na coluna de Gilberto Dimenstein a história de um catador de lixo, até outro dia sem-
teto, que se resgatou por ser capaz de escrever histórias que vivia ou inventava. É para mim
mais fácil considerá-lo um membro desta elite do que tantos subumanos que circulam em carros
importados e roupas de grife por precisarem compensarem com o brilho material seu vazio
interior que lhes retira o que há de humano. Nem comparo com os intelectualóides e artistóides
que disfarçam a ausência de talento e senso estético em linguagens obscuras e chavões
pretensamente herméticos porque daí já seria covardia.
Também sorrio quando ouço falar que a política só melhorará com a educação. Sorrio porque
me lembro da política universitária e acadêmica, dos doutos conchavos, da maestria nas
manobras, das magníficas demagogias, dos magistrais loteamentos de cargos e dos nepotismos
licenciosos cometidos cotidianamente por aqueles que receberam a melhor educação. Sorrio
porque sei que não só disciplina moral e conduta ética não se aprendem na escola como muitas
vezes ela ensina métodos para tentar justificar as patifarias com linguagem grandiloquente e
argumentos dialéticos.
A questão não é se a elite deve ou não governar a massa – como massa entenda-se aquela
maioria da população que depende de castigos e recompensas para agir dentro das fronteiras e
objetivos da humanidade. Isto é o que sempre ocorre e no momento em que se tenta estabelecer
algum critério ou delimitação é porque a pretensa elite deixou de ser ela própria de fato. A
questão apenas é manter a elite motivada para cumprir seu papel.
E este desafio é muito maior, ainda mais nos dias de hoje em que todos estão cansados e
desanimados com uma sociedade que parece – em todos os campos, da arte à política, da ciência
à religião e até na economia – mais e mais ocupada por um avanço crescente da massa. O
vácuo, a meu ver – porque nada mais é o domínio da massa senão o vazio – se dá apenas porque
a elite de fato desistiu, cansada das imposturas e arrogâncias.
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Ainda que recorrendo ao que provavelmente será um chavão na imprensa nos próximos dias, é
impossível não ver o contraste entre a figura meiga e franzina do arcebispo frente a toda a sua
força interior. Homem incapaz de conhecer o medo - o que demonstra sobretudo o extremo da
sua fé e a certeza de estar agindo com correção - Dom Helder Câmara tece a coragem de
enfrentar tanto os algozes do regime militar como as forças conservadoras dentro da hierarquia
da qual fez parte.
Jamais perguntou se os perseguidos políticos que defendia eram católicos, protestantes, judeus
ou ateus, os defendia não por um sentimento corporativo, mas sobretudo porque nele os valores
humanos - e cristãos - estavam enraizados demais para fazer esta distinção. Alguém já disse que
é fácil amar ao amigo, muito mais difícil era amar àquele que nos contesta e Dom Helder foi
capaz deste amor incondicional a ponto de colocar a vida e a segurança em risco.
Mas é um fato tangente a esta dedicação que chama atenção à toda a força da figura franzina do
arcebispo. Ele agia não por considerar esta ação um mérito, mas porque a tinha no seu íntimo
como um dever seu como um cristão. Não agia para ser louvado como exemplo de cristão, mas
porque uma ética profundamente arraigada em seu espírito não lhe mostrava outro caminho
senão o que ele tão heroicamente seguiu.
Não tentou jamais ser herói, mas apenas um cristão consciente de suas responsabilidades com a
humanidade, mas este desprendimento o fez ainda mais heroico e exemplar. É certamente um
dos melhores exemplos que se pode ter de uma figura humana rara para a qual até a omissão -
entendida como não fazer tudo que estivesse ao seu alcance pelos seus semelhantes - era um
pecado terrível.
Mais polêmica é a sua interpretação do pensamento social da Igreja que está na raiz do que
depois se convencionou chamar de Teologia da Libertação. Em um documento de 1967
assinado por diversos bispos do terceiro mundo, do qual Dom Helder não só foi signatário como
um dos principais autores, está presente uma radical condenação do capitalismo.
Mais do que isto, o documento assinala que deveria haver um motivo de alegria pelo surgimento
da via socialista: "Se durante um século a Igreja tolerou o Capitalismo (...), pouco conforme à
moral dos profetas e do Evangelho, ela não pode deixar de se alegrar por ver aparecer na
humanidade outro sistema social menos afastado desta moral".
É evidente que Dom Helder se preocupava com os contrabandos ideológicos do socialismo, em
especial o ateísmo e o materialismo, mas nem por isso deixava de julgar possível conciliar fé e
justiça social em um socialismo humanista e cristão. Indo além julgava que esta opção era um
dever dos cristãos porque colocava em prática os princípios de solidariedade que estão na raiz
do cristianismo.
Este pensamento provoca reações profundas até hoje dentro da Igreja e gerou muitas críticas
tanto sinceras como hipócritas, além de uma incompreensão generalizada. Até hoje se atribui a
estas questões a culpa pela perda de fiéis católicos para outras crenças num raciocínio que beira
o cinismo.
Beira o cinismo porque todos aqueles que criticam esta "opção política" de padres
pejorativamente chamados de "vermelhos" jamais viram qualquer problema quando os padres
alimentavam o poder político dos coronéis. Também beira o cinismo porque ao acusarem-nos
de cripto-marxistas automaticamente os colocam numa posição de crítica feroz à essência do
marxismo, já que a religião para os marxistas seria sempre um fenômeno acessório das relações
econômicas, condenadas apenas a reproduzir a ideologia dominante.
Dom Helder foi mais que um símbolo desta luta contra o individualismo opondo a ele uma
solidariedade radical que encarna o sentimento de Misericórdia extrema tão pregado e tão pouco
colocado em prática pelas mais diversas fés. Talvez isto explique porque a figura dele é tão cara
até a quem não compartilhe com ele da crença cristã, como eu que sou muçulmano, afinal ele se
tornou um símbolo daquela dedicação ao próximo que todos os verdadeiros crentes de qualquer
fé só podem admirar como um sinal da Misericórdia de Deus para com os homens.
T E R Ç A - F E I R A, 3 M A I O , 2 0 0 5 - 0 0 : 3 1
Islam, Islam, Pessoal, Pessoal, Poesia, Poesia, Arte, Sociologia e cia., Política, Política,
Religião
DT, PP
Referência Original: [Link]/portal/73
A INEBRIANTE LIBERDADE DOS
RUBAYAT
"Nada, eles não sabem nada, nada querem saber/ Vês esses ignorantes, eles dominam o mundo./
Se não é deles, chamam-te de descrente" (Khayyam, Rubayat)
Durante muito tempo da minha vida fui ateu. Não de um ateísmo sincero, mas um ateísmo
religiosamente militante, fruto mais daquela presunção intelectual da adolescência que de um
sentimento real. Há alguns anos tento me reconciliar com Deus que, a exemplo de tantas outras
dádivas que tenho recebido, me devolveu a fé.
Nem sempre é um caminho fácil porque o ser humano tem muito orgulho de sua liberdade -
mesmo quando ela é imaginária - para se curvar à vontade d'Ele. A mim sempre pareceu uma
covardia seguir regras ao pé da letra por ter medo de errar, assim como me soa uma impiedade a
noção de fazer o bem por desejo do Paraíso ou temor do Inferno.
Ao contrário da imensa maioria da minha comunidade religiosa, penso que se deve seguir a
senda reta pelo prazer que ela proporciona e não por ter outros interesses e segundas intenções.
Curiosamente encontrei uma das mais belas expressões deste mesmo sentimento numa poetisa e
mística muçulmana do Século 8º - Rabi'a al-Adawiyya - no obra de quem um dos poucos
leitores desta coluna, meu eterno professor Deonísio da Silva, certamente não deixaria de
perceber tantas nuances de semelhanças com Santa Teresa.
Rabi'a disse, por exemplo: "Oh Deus!/ Se eu O adorar por medo do Inferno, queime-me no
Inferno/ Se eu O adorar por desejar o Paraíso, expulse-me do Paraíso/ Mas se eu O adorar
somente por Si Mesmo, não me negue Sua eterna Beleza". Em outro poema Rabi'a celebra o
mesmo desejo da Luz: "Eu Te amo com dois amores: amor para minha felicidade, e amor
verdadeiramente digno de Ti/ Quanto ao amor de minha felicidade, que só me ocupe de pensar
em Ti e em nada mais/ Quanto ao amor verdadeiramente digno de Ti, que Teus véus caiam e
que eu Te veja/ Nenhuma glória para mim nem em um nem no outro, Mas glória a Ti, por
aquele e por este".
Certamente tal espécie de conceito dificilmente seria bem aceito no mundo muçulmano, mesmo
naquela época áurea tão distante dos assim chamados fundamentalismos contemporâneos, a não
ser nos círculos místicos dos sufis, aonde tal tipo de poesia poderia ser compreendida em sua
plenitude.
O início do ocaso daquela época foi testemunhado por outro poeta e sufi, o astrônomo Omar
Khayyam. Ao contrário de Rabi'a, contudo, o astrônomo teve a felicidade de ser descoberto no
Ocidente por Fitzgerald, cuja versão dos Rubayyat - exemplar demonstração da poesia inglesa
do século passado, diria Borges não sem ironia - o celebrizaram e mitificaram.
Rabi'a viveu numa época onde sua poesia, mesmo restrita a alguns círculos, era respeitada.
Khayyam participou da derrota da criatividade pela tradição. Poucos sabem ao certo o quanto do
acirrado ódio de Khayyam aos devotos realmente estava nos Rubayyat originais, como boa
parte da grande poesia os rubais foram feitos para serem recitados e só pouco antes de serem
descobertos pelo ocidente haviam sido escritos em lingua persa.
Como Homero e Shakespeare, Khayyam também se confunde com uma personagem mítica, se
não porque sua existência real seja contestada, ao menos porque em sua obra enxertaram-se
tantas coisas que já não se sabe mais o que realmente teria sido feito por ele, quais foram as
inserções dos amigos e inimigos.
Mas certamente a preocupação com o excessivo zelo dos devotos deveria estar lá em algum
ponto, assim como um certo descaso com a teologia contábil que transforma a fé em uma coleta
de cupons para um concurso cujo prêmio é o Paraíso e a derrota é o inferno.
Também está lá uma apologia do vinho inadmissível em um muçulmano, mas facilmente
explicável para qualquer um que tenha um vaga informação sobre os sufis para saber que a
embriagues em Khayyam é apenas uma metáfora da experiência mística. Isto acabou por criar
um paradoxo no qual as mais belas poesias dedicadas ao vinho vieram de fiéis de uma fé a qual
proíbe o consumo do álcool.
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Paredes não são objetos sólidos, embora estejamos acostumados a vê-la como tal, afinal há nela
mais vácuo entre de dentro dos átomos do que matéria propriamente dita. A linguagem, em
particular, é sobretudo um conjunto de símbolos arbitrários que nos parecem naturais, óbvios
até, porque fomos acostumados a associar símbolos arbitrários a noções concretas.
O batido, mas excelente, exemplo do número de matizes que os esquimós enxergam no branco é
uma ótima demonstração desta arbitrariedade, assim como o número de cores do arco-irís, que
são 7 para nós mas variam de um a 12 em outras culturas.
Ao mesmo tempo há outro elemento complicador destes processos, já que se o senso comum
pode ser tomado como quase concreto, desnecessária maiores demonstração, a ciência tem de
conformar-se com modelos teóricos para explicar o mundo. Àquilo que parece ser evidência a
ciência tenta explicar com uma suposição abstrata.
O brilhante livro de Alan Sokal - Imposturas Intelectuais - baseado em um "trote" passado por
ele numa revista científica - para maiores detalhes cheque os links:
[Link] transgress_v2/ transgress_v2_singlefile.html e
[Link] [Link] (este último em português) - demonstra
como podem ser perniciosos os efeitos deste cientificismo até mesmo para os cientistas, o que
não se dirá para o homem comum.
Sokal fez algo muito parecido com o que eu e o amigo Cirilo Braga fizemos num passado
recente quando inventamos Ivonei Pena. Escreveu um artigo cheio de conceitos aparentemente
inovadores, pretensamente baseados nas últimas fronteiras da ciência, adornado por expressões
que não significam absolutamente nada mas soam bem em um texto acadêmico e o enviou a
uma revista científica. A revista não só o publicou como abriu longo debate sobre o tema no
qual uma série de pretensos cientistas e filósofos tomaram parte com furor.
Assim como Ivonei Pena questionava se a "globalização era realmente globalizante ou apenas
globalizadora", Sokal - no seu artigo-paródia - afirmava: "Em nenhum lugar esse movimento
pode ser identificado mais claramente do que na teoria quântica da gravitação. Pesquisas
recentes nessa área, alimentadas pela metacrítica do desconstrutivismo, têm liberado a
investigação científica de seus velhos pressupostos objetivistas e, em consequência, trazido a
física para uma crescente harmonização com as humanidades. Tão íntima é essa aproximação
que, por exemplo, as teorias psicanalíticas de Jacques Lacan encontram confirmação em
investigações realizadas no terreno da teoria quântica de campos. E é sintomático observar a
dívida da nova física para com o trabalho de pensadores desconstrutivistas, como é exemplo
paradigmático a teoria da estrutura e dos signos no discurso científico, de Derrida."
O grande perigo deste cientificismo é seu potencial para transformar-se em um substituto das
velhas máquinas de coerção ideológica, já que sob uma autoridade usurpada passam a se tornar
elementos legitimadores de uma determinada ordem política, social e econômica. Neste sentido
não há diferença entre ele e as religiões tradicionais, já que ele exerce a mesma função de
elemento estruturante, de forma sob a qual o mundo é compreendido e explicado e pelo qual o
caótico aleph da realidade objetiva torna-se um todo ordenado e separa-se o arbitrário do
organizado.
Se há um certo caráter transcendente nas religiões que permitem que elas tenham um certo
caráter libertador e revolucionário - ao menos em alguns momentos -, que seja, enfim, um
contrato social regendo e organizando as sociedades, gerando um grau mesmo que mínimo de
solidariedade e propiciando certo conforto - mesmo que apenas espiritual - o cientificismo é de
uma lógica brutal, individualista e determinista ao extremo.
O tipo de sociedade que pode brotar da dominação ideológica do cientificismo é, na melhor das
hipóteses, aquele estado totalitário e desumano pregado por Platão. Um Estado no qual a massa
deve obedecer cegamente a determinação dos seus guardiães-filósofos - ideia por sinal muito
simpática a tantos cientistas - e na qual não há espaço nem para a solidariedade e muito menos
para a compaixão.
S E G U N D A - F E I R A , 2 M A I O, 2 0 0 5 - 0 6 : 4 1
Todas as pessoas sensatas falam há muito tempo que não há saída para o país sem educação.
Monteiro Lobato já fazia cruzadas sobre este assunto na década de 20. Não faltam nas
campanhas eleitorais as promessas de prioridade e até os projetos mirabolantes destinados a
causar a impressão que se dá importância à educação.
Vou decepcionar talvez a quase todos vocês dizendo que isto não é verdade. A educação não foi
concebida – ao menos neste nosso modelo ocidental, mas também em outros lugares e culturas
– para provocar mudança, mas justamente para gerar conformidade. Se nunca se dá muita bola
para o assunto no Brasil – salvo quando há necessidade de mão de obra mais especializada – é
porque o povo brasileiro é tão pacato, tão rebanho, que ela nunca foi muito necessária para
sossegar os ânimos.
Antes que me crucifiquem, isto não quer dizer que eu ache que se devam fechar as escolas ou
que eu ache que a educação é importante. Certamente a educação é importante na medida que é
ferramenta essencial – mas não suficiente – para a aquisição de uma compreensão mais elevada
do mundo. Por si só ela não produz mudança alguma, quando funciona muito bem – o que não é
o caso do Brasil – pode até inibir muito qualquer mudança necessária.
Este potencial modificador que se espera da educação vem a meu ver da cultura. Antes que o
foco se pera em intermináveis discussões sobre o sentido do termo cultura abrevio o debate
dizendo apenas que estou usando estes dois termos – educação e cultura – no sentido
“administrativo” que eles tem.
Chego, então a um dos pontos essenciais que queria debater, aquele momento no qual a
estrutura educacional criada para gerar conformidade começa a ser subvertida de dentro pela
descoberta que aquele mundo que nos ensinam a entender e aceitar não é o único possível. Este
processo se dá em especial quando não se tem um professor – profissional burocraticamente
empenhado em enfiar no cérebro dos alunos o conteúdo curricular – mas um mestre – alguém
que considerar ser seu dever criar uma ponte entre o ser humano aos seus cuidados e outros
mundos melhores.
Sempre existirão mais professores do que mestres, mas sempre acredito que quase sempre basta
um para dar um novo rumo à vida de alguém. Eu poderia reclamar do fato de ter tido tantos
professores, mas prefiro louvar a benção de ter tido tantos mestres.
Desde o primeiro grau até o segundo, curiosamente, todos las, ou melhor todas elas porque
foram quatro professoras Lucila, Angela Izabel e em especial Wanda com quem convivi por
maior tempo - foram de língua portuguesa. Me pergunto às vezes se ao invés de ter tido a
felicidade destas quatro mestras tivesse um que me fizesse me apaixonar, pro exemplo, pela
matemática ou pela física e hoje estaria ao invés de lidando com o poder da palavra estaria
preocupado com a beleza das fórmulas e a poesia dos símbolos. Curioso que embora a escola
pública onde cursei o segundo grau me provoque até hoje o pesadelo recorrente de ser obrigado
a voltar a estudar lá pro algum erro burocrático, tão traumática foi minha experiência por lá,
destas professoras guardo uma imagem muito carinhosa e de profunda gratidão.
Não é uma hipótese implausível, afinal quando era criança e até boa parte do segundo grau
pensava em ser biólogo ou químico, em alguns instantes houve algo na abstração da matemática
que quase me encantou (até para reforçar o argumento diria que na universidade apaixonei-me
pela estatística, mas destas coisas falo outro dia), depois tomei nos livros o gosto pela história e
pela política e ingressei no curso de Ciências Sociais, mas este amor à palavra estava lá dentro,
entranhado, fazendo seu avanço aos poucos e quando entrei em um redação, como um bico,
nunca mais consegui sair desta esfera de ação da palavra, mesmo em outros empregos e
funções. Digo isto não para falar de mim, apenas para destacar a responsabilidade de cada
professor em, se não for um mestre, ao menos não ser cúmplice em matar algo em seus alunos.
Assim, voltando à linha principal, a subversão começa a se instaurar na fábrica da conformidade
quando surge alguém que ao invés de fazer o que se espera dele, dizer aquilo que as pessoas tem
de pensar sobre o mundo, resolve fazer o que deve fazer, que é fazer com que as pessoas ao
invés de apenas olhar, sejam capazes de ver e chegar ás próprias conclusões. Enfim, a amar não
o conhecimento que se adquire, mas exatamente apaixonar-se pelo processo de aprender.
T E R Ç A - F E I R A, 2 0 J U N H O , 2 0 0 6 - 1 4 : 4 8
S E G U N D A - F E I R A , 8 M A I O, 2 0 0 6 - 1 3 : 2 0
T E R Ç A - F E I R A, 2 4 O U T U B R O , 2 0 0 6 - 1 3 : 2 9
Pessoal, Poesia, Arte, Religião
Referência Original: [Link]/portal/10153
O MUNDO ESTÁ NA MENTE DE
PESSOA
Nada possuímos, porque nem a nós possuímos. Nada temos porque nada somos. Que mãos
estenderei para que universo? O universo não é meu: sou eu.(Fernando Pessoa, O Livro do
Desassossego)
Meu grande débito com Pessoa é ter aberto, há alguns anos, para mim as portas da Poesia, que
até então não tinham entrado em minha vida, salvo de relance, nem eu entrado no mundo dela
salvo por alguma rápida visita ocasional. Ainda hoje me causa espanto como pude viver sem a
poesia, antes daqueles dias há uns 6 ou 7 anos quando fiquei pro dias imerso na poesia de
Pessoa. Curiosamente penso que o fato da mais profunda poesia de Pessoa estar em prosa no
Livro do Desassossego não é de forma nenhum um paradoxo.
Seguindo o padrão de tantos textos capazes de lidar com a metafísica, Pessoa não assume a
autoria do Livro, escrito e entregue a ele por um modesto empregado do comércio que todos os
dias jantava calado no mesmo restaurante, Bernardo Soares – heterônimo que talvez seja mais
Fernando Pessoa que ele-mesmo. No próprio fato de dar autoria a outro da sua “autobiografia
sem fatos” há uma reflexão, diz ele:
“Nestas impressões sem nexo, nem desejo de nexo, narro indiferentemente a minha
autobiografia sem factos, a minha história sem vida. São as minhas Confissões, e, se nelas
nada digo, é que nada tenho que dizer.”
Muitas coisas poderiam ser destacadas no contexto deste livro escrito para gerar assombro, não
a calma admiração, para gerar perguntas – como todo livro de verdade – não para dar respostas.
Na desculpa de falta de espaço destaco dois pensamentos, relacionados e distintos. A primeira é
o esforço de manter-se impassível a tudo que lhe é externo, como diz ele:
A vida é para nós o que concebemos nela. Para o rústico cujo campo próprio lhe é tudo, esse
campo é um império. Para o César cujo império lhe ainda é pouco, esse império é um campo.
O pobre possui um império; o grande possui um campo. Na verdade, não possuímos mais que
as nossas próprias sensações; nelas, pois, que não no que elas vêem, temos que fundamentar’ a
realidade da nossa vida.
Esta questão da capacidade de lidar com as miudezas do mundo com tal resignação que elas
chegam a parecer agradáveis aparece sobretudo na forma como Pessoa/Soares se refere até com
futura saudade de seu trabalho rotineiro, quase mecânico, como ajudante de guarda-livros na
Casa Vasques. Diz mesmo que teria saudades daquela via e de seus colegas de trabalho e até do
Patrão Vasques – que ele explicitamente diz ser uma metáfora da vida - se fosse retirado
daquela vida pequena e mesquinha.
”Tudo quanto de desagradável nos sucede na vida - figuras ridículas que fazemos, maus gestos
que temos, lapsos em que caímos de qualquer das virtudes - deve ser considerado como meros
acidentes externos, impotentes para atingir a substância da alma. Tenhamo-los como dores de
dentes, ou calos, da vida, coisas que nos incomodam mas são externas ainda que nossas, ou
que só tem que supor a nossa existência orgânica ou que preocupar-se o que há de vital em
nós.
Quando atingimos esta atitude, que é, em outro modo, a dos místicos, estamos defendidos não
só do mundo mas de nós mesmos, pois vencemos o que em nós é externo, é outrem, é o
contrário de nós e por isso o nosso inimigo.”
A resignação, de fato, na visão dele, não constitui em conformação é antes uma profunda
indiferença, em poder-se ver como se fosse externo a si mesmo e portanto enxergar que é
possível ser indiferente à sorte que nos cabe porque o real está na mente, capaz de vagar por
tantos mundos e criar. Assim chego ao outro ponto que gostaria de destacar e com o qual há
uma relação essencial com este primeiro da indiferença com o mundo: a tentativa, mesmo
condenada de antemão ao fracasso, de conceber o absoluto que ábsides na mente. Diz ele:
“Cada qual tem o seu álcool. Tenho álcool bastante em existir. Bêbado de me sentir, vagueio e
ando certo. Se são horas, repolho ao escritório como qualquer outro. Se não são horas, vou até
ao rio fitar o rio, como qualquer outro. Sou igual. E por detrás de isso, céu meu, constelo-me
às escondidas e tenho o meu infinito.”
Na minha mente associo sempre as narrações de seus mundos imaginários feita por Pessoa com
a bela história de Valmiki, o primeiro poeta a compro em Sânscrito, que segundo o mito teria
visto as batalhas que consagrou no Ramayana em um espelho de água em sua mão, história que
inspirou tantos contos a Borges. Desta analogia, pro sinal, tirei o título deste texto. Diz Pessoa:
”Penso às vezes no belo que seria poder, unificando os meus sonhos, criar-me uma vida
contínua, sucedendo-se, dentro do decorrer de dias inteiros, com convivas imaginários com
gente criada, e ir vivendo, sofrendo, gozando essa vida falsa. Ali me aconteceriam desgraças;
grandes alegrias ali cairiam sobre mim. E nada de mim seria real. (...) E tudo nítido, inevitável,
como na vida exterior. “
Boa parte do Livro do Desassossego é dedicada justamente a destacar que o mundo é ilusório e
só existe na mente, porque é nela que este mundo é percebido. Assim a verdadeira grandeza, o
verdadeiro conhecimento está na alma. A riqueza da alma, diz ele, está onde o indivíduo está,
não adianta procurá-la em lugar algum e mais valeria imaginar nela esta riqueza do que viajar
pela ilusão de encontrar algum tesouro enterrado.
Do contraste entre os mundos da imaginação e a sordidez do mundo é raro que Pessoa diga algo
relativo à política. Nas poucas vezes que o faz é com uma perspectiva extremamente
conservadora, mas não com esta falácia do conservadorismo político, mera desculpa para a a
garantia de privilégios imerecidos gritada por aqueles que só pro gritar já demonstram seu
imerecimento. É pelo contrário a postura conservadora daquele que por ser de fato nobre está
preocupado em aprimorar a si mesmo e afastar-se do mundo, das suas ostentações e misérias.
S E G U N D A - F E I R A , 1 6 O U T U B R O, 2 0 0 6 - 1 5 : 1 7
Pessoal, Poesia, Arte, Literatura, Política
Referência Original: [Link]/portal/10147
VATHEK: UMA INFERNAL JOIA
ORIENTAL
Borges distinguiu o Inferno de Dante do descrito no Vathek de Beckford por considerar o
primeiro não um lugar atroz, mas um lugar onde ocorrem fatos atrozes, enquanto o último seria
o primeiro inferno realmente atroz da literatura. Confesso que o livro de Beckford passou
inúmeras vezes pela minha mão no Outros Contos, este nosso templo da leitura que
modestamente se chama apenas de sebo, talvez nunca o compraria se não fosse os comentários
de Borges.
Não que o livro não tivesse me chamado a atenção, mas entre tantas tentações é sempre
necessário traçar listas de prioridades nas quais ele acabou sendo sempre excluído à última hora.
Mal compro o livro e devoro em poucas horas seu conteúdo, escrito numa prosa agradável que
consegue ser rica sem ser rebuscada e numa história repleta de descrições minuciosas sem
deixar de ser eficiente e atrativa.
A tradução é evidentemente ruim, agravada pelas notas que a guisa de esclarecer confundem
mais e revelam o completo desconhecimento do tradutor sobre o assunto. Em alguns casos as
notas chegam a ser ridículas, como na que tenta explicam quem seria o rei Suleiman Ibn Daud
elencando personagens completamente distanciados.
O nome e o contexto revelam sem margem de dúvida que se trata do Rei Salomão filho de
David. Não bastasse a coincidência dos nomes de pai e filho - apenas nas formas arabizadas de
Suleiman e Daud - as referências a um conhecimento "especial", o poder de comando sobre os
djinns (gênios) e a referência ao Palácio não deixariam margem de dúvida sobre a identidade do
personagem que tem um papel fundamental no desfecho da obra. A confusão provocada pelas
notas do tradutor não chega a comprometer de todo a compreensão do texto, mas certamente
empobrece a sua conclusão.
Há problemas sérios também na transliteração das palavras árabes e persas que tornam algumas
expressões quase irreconhecíveis. Confesso que uns dos motivos para não ter comprado o livro
antes da referência de Borges foi o seu nome, Vathek. Como se sabe, no árabe não existe a letra
V e este descuido me deu a impressão de uma obra apressada a mal cuidada. Na verdade
ocorreu apenas um erro de transliteração que transformou um u em w que foi entendido como
V. É até importante salientar que realmente houve um califa abássida chamado Wathek, neto do
legendário Harun Al- Rashid das Mil e Uma Noites.
Termino de ler o livro com a sensação de ter sido vítima de mais uma das peças de Borges,
afinal ele cria a expectativa de uma descrição minuciosa do Alcáçar do Fogo Subterrâneo e das
130 páginas da história apenas 12, menos de 10%, se passam neste palácio infernal. Da mesma
forma Borges omite o mais importante dos horrores infernais: o coração em chamas dos
infortunados que aceitaram a soberania de Iblis.
Só ao se ler o livro se entende por completo o texto de Borges que começa e termina falando de
uma hipotética biografia que não mencionasse as principais obras do biografado. A mim parece
evidente o jogo de um livro sobre o Inferno que fala tão pouco do mesmo, mas certamente o
texto de Borges não fala da ideia central do texto - a não ser em um parágrafo para traçar seu
parentesco com o Fausto de Goethe e histórias similares.
A pista para desvendar o mistério vem de outro lado, Beckford parece ter extraído sua história
das mil e uma noites. Para dizer a verdade parece até muito mais autenticamente "oriental" que
muitas das histórias das Mil e Uma Noites. Para o que ele considera a mentalidade oriental o
Wathek teria de ser punido como uma consequência mais ou menos natural da mentalidade
oriental.
Tal como das muitas histórias interpoladas nas Mil e Uma Noites originais - que nunca
estiveram nos originais árabes, turcos e persas - como a história de Alladin, o Vathek de
Beckford fala mais sobre a forma como a Europa vê o Oriente do que sobre o próprio oriente. E
neste jogo de imagens espelhadas acaba por revelar mais sobre o Ocidente e seus valores do que
sobre o Oriente que quer descrever.
S E G U N D A - F E I R A , 2 M A I O, 2 0 0 5 - 0 6 : 2 7
Este debate jamais será concluído porque o homem não pode dispensar nenhuma das duas, o
que varia ao longo das gerações é apenas a dose necessária de cada uma na vida da elite
pensante - e por conseguinte dos demais.
Os homens de uma determinada época em geral tendem a considerar uma ou outra como
essencial e depreciar a outra, assim como em cada período da nossa vida pessoal tendemos a dar
importância a uma delas, dependendo do momento que vivemos.
Curiosamente é em alguns filósofos mais racionais que se vai encontrar uma das defesas mais
intransigentes da emoção. Para a grande maioria dos filósofos do Islam medieval, por exemplo,
havia sempre um ponto que não podia ser ultrapassado com o simples exercício da razão. Havia
a clara distinção entre o comum do povo - capaz apenas de um senso-comum ao qual obedecia -
o homem racional - que chegava à verdade pela razão - e o místico que chegava à verdade
através do abandono da mente às novas sensações providas pelo amor divino.
O lado mais complexo desta dualidade é que ambas anseiam por serem únicas, as duas tentam
ser totalitárias governantes da nossa vida e da nossa sociedade. Uma sociedade movida
exclusivamente pela emoção seria tão instável quanto seria estagnada uma guiada só pela razão.
Se alguém me perguntasse qual das duas é a mais elevada eu diria que é a emoção, porque só
ela permite um voo mais alto. Não é à toa que Dante precisou deixar Virgílio e tomar Beatriz
como guia para as fases mais avançadas da sua viagem. A racionalidade de Virgílio não é capaz
de apreciar a beleza da luz ofuscante que Dante encontrou ao término da jornada.
Mas qualquer uma das duas em mãos inábeis torna-se ferramenta perigosa, a razão tende à
frieza tanto quanto a emoção tende à paixão violenta e por isso é necessário que uma dose a
outra, que na luta entre as duas fique estabelecido um limite, uma muralha que impeça uma de
extrapolar os limites.
Hoje vivemos numa época excessivamente dominada pela razão, um momento no qual tudo nos
parece muito frio. Neste mundo de gelo o único valor que nos emociona é o cálculo frio, além
do qual todas as outras razões parecem esquecidas. Não vivemos, jogamos xadrez com a vida!
S E G U N D A - F E I R A , 2 M A I O, 2 0 0 5 - 0 6 : 2 4
Q U I N T A - F E I R A, 2 9 J U N H O , 2 0 0 6 - 1 4 : 1 9
Tanto seus contos como suas peças tiveram uma importância fundamental na construção da
literatura e dramaturgia modernas. Meticuloso no texto - e talvez por isso tão admirado pelos
homens de letras - Tchekhov descobriu todo o poder do silêncio, geralmente elemento essencial
de suas peças de teatro.
Este é sem dúvida o primeiro ponto que torna o autor tão grandioso ainda hoje: descobrir que
através do intertexto se pode dizer muitas coisas que as falas dos personagens não seriam
capazes de perceber.
Uma segunda falsa oposição na obra dele é a que opõe um texto elaborado, refinado, utilizado
com precisão para descrever ambientes sórdidos. Mas diferentes dos realistas que o antecedem,
Tchecov vê o repugnante não apenas pelo aspecto físico, mas retrata principalmente a feiura
interior.
Um terceiro ponto a se destacar é que ele traz como grande pano de fundo de sua obra o tédio,
em especial o tédio da província, da decadência, que ganha realidade quase material com os
longos silêncios no intertexto, já mencionadas.
Ao contrário dos seus antecessores que o admiraram - em especial Tolstoi - e dos sucessores
que ele promoveu e animou - em especial o pai do realismo socialista Maximo Gorki -
Tchekhov não tinha afinidades com o socialismo, nem com as grandes causas sociais, por mais
que elas estivessem presentes em diversos de seus textos.
Como todo autor, contudo, sua obra é muito mais eloquente que sua vida para demonstrar seu
valor. Embora jamais tenha se chegado a um acordo sobre qual texto dele fosse o mais
importante, há um que certamente resume sua angustiada genialidade: Enfermaria No. 6.
É fácil ver um certo caráter quase autobiográfico neste conto, mas curiosamente Tchekhov não é
o personagem principal da história, talvez confirmando sua frase famosa de que não há
pequenos papéis, apenas pequenos atores.
O personagem, Ivan Dimitrich Gromov, é um jovem atormentado pela súbita miséria da família,
pela infância conturbada, pelo fracasso nos estudos e sobretudo pela notável, mas
insubordinada, inteligência - tal como Tchekhov.
O personagem também compartilha com o autor por uma indescritível sensação de comiseração
e constrangimento face a prisioneiros agrilhoados, sentimento central da trama de Enfermaria
no. 6 e que na vida real levou o autor a enfrentar sua tuberculose numa viagem de Moscou até o
extremo oriente, nas Ilhas Sacalinas.
Esta fixação em prisioneiros cria no personagem - e quem sabe no autor - uma paranoia de um
dia ser considerado culpado por algo e por causa disto ser submetido à mesma condição deles.
Esta obsessão vai se agravando e lhe roubando a impressão de sanidade que as pessoas tem dele
e acaba por fim em transformá-lo em um dos pacientes da Enfermaria No. 6 onde os
considerados loucos enfrentam a sádica hostilidade do carcereiro Nikita.
É lá que o protagonista do conto, Andrei Iefimitch Raguin, vai encontrá-lo quando o jovem
médico assume seu posto junto a tal enfermaria. Cheio de boas intenções o médico tolhe as
arbitrariedades de Nikita e tenta se aproximar dos pacientes-prisioneiros.
Numa conversa com Ivan o médico percebe toda a sua profunda inteligência e cultura e torna-se
seu amigo e interlocutor. Juntos discutem filosofia, medicina, história, literatura como se
ignorassem o ambiente sórdido.
É deste contato que também o médico é assolado pelo mesmo mal do paciente: paranoia.
Encontrando pessoa tão sábia internada num asilo de loucos o médico começa a imaginar se ele
próprio um dia não poderia estar ali, sendo igualmente considerado louco, até mais facilmente
que o pobre Ivan, a quem reputa ser mais sábio.
Esta impressão causa a Andrei o mesmo mal que a visão dos prisioneiros causou a Ivan, começa
a querer tanto frisar que não é louco que acabam pro considerá-lo insano e o internam na mesma
Enfermaria no. 6, onde o carcereiro se vinga da vã tentativa do médico de moralizar a
enfermaria.
S E G U N D A - F E I R A , 2 M A I O, 2 0 0 5 - 0 6 : 3 3
No seu sentido original mandinga é o patronímico de povos africanos que se comunicam por
diversas linguagens mutuamente compreensível da costa ocidental setentrional da África até o
Sahara incluindo as línguas de vários dos vários impérios africanos – Mali, Gao, Songhai. É,
inclusive, a língua do protagonista da saga negra escrita por Alex Halley, Raízes, Kunta Kinte,
um marco no despertar da consciência negra americana.
Houve pouco fluxo de escravos mandings no Brasil, salvo durante o primeiro período da
exploração colonial, no qual a área principal de captura era o Golfo da Guiné. Contudo a
influência da cultura manding, de islamização antiga, sobre as áreas vizinhas sempre foi
significativa, a ponto da palavra Yorubá para muçulmano ser imali, em referência aos Malis,
ramo cultural manding. No Brasil o termo gerou a designação Malê para assinalar os negros
muçulmanos, embora eles fossem em sua maioria yorubás, com pequenos porcentuais de outras
etnias, como Haussas.
Em especial eram yorubás a grande maioria dos malês que deram fama ao nome através da
Revolta dos Malês de 1835, os quais inclusive tinham o grito de guerra de Viva Nagô, como
destaca João José Reis no seu Rebelião Escrava do Brasil e outros escritos que tem tido o
enorme mérito de tirar a rebelião do terreno da lenda e do boato para trazê-lo à realidade em
especial devido a uma dedicada pesquisa nas fontes primárias que faltou a Nina Rodrigues e
outros pioneiros, designação dada na tipologia escravocrata aos que eram capturadas na área
cultural yorubá.
Duas dezenas de reflexões sobre estas questões me assolam. A primeira delas é o fato de que a
identidade de negro ou índio é algo criado pelo opressor “branco” em oposição a si mesmo e de
forma muito proposital com a finalidade de destruir tanto a solidariedade étnica como dissolver
a identidade cultural, tornando o povo vítima mais suscetível à assimilação.
Como destaca Darcy Ribeiro a mistura de indígenas, em especial crianças, de diversas tribos e
povos era uma das armas ideológicas mais poderosas de jesuítas, franciscanos e carmelitas para
a destruição da vida tribal e incorporação à sociedade colonial como mão de obra. Da mesma
forma existiam prescrições muito claras quanto a misturar negros de várias etnias na senzala,
evitando um número muito grande de escravos de um só povo.
Esta dissolução cultural que estabelece parâmetros claros ao pensamento contrabalança muito
negativamente o aspecto positivo – para a maioria da comunidade negra, não para os povos
indígenas ou remanescentes quilombolas – de ter dado uma língua e identidade comum que os
une na luta pela inserção na sociedade brasileira em condições de igualdade. Não deixa de ser
significativo que no português do Brasil a palavra “crioulo” - que originalmente designava o
escravo nascido no Brasil por oposição à maioria que era vinda da África - seja terrivelmente
pejorativa em português, o crioulo era aquele negro que já tinha sido reduzido a nada, tinha
perdido as raízes.
Aqui fecho o longo parênteses para destacar aquele que foi em grande parte o primeiro grande
momento da cultura negra autônoma no Brasil e que não foi uma cultura do “negro genérico”
criado como sub-cultura marginal da cultura colonial dominante, mas fortemente enraizada nas
suas origens africanas: a cultura urbana de Salvador a partir do século XIX. Se hoje Salvador é
o grande centro da produção cultural negra é, em grande parte porque só lá surgiram as
condições para a preservação de uma parte substancial da cultura original dos diversos povos
trazidos nos tumbeiros para erguer o Brasil.
Em grande parte isto talvez ajuda a compreender não só como Salvador foi um dos primeiros
pólos a rebelar-se contra o racismo como também do início do resgate da identidade e orgulho
próprio da comunidade. Ainda que, enquanto exercício, Salvador demonstra também o que
poderia ter sido uma cultura afro-brasileira de fato.
É significativo, igualmente, que tenham sido as condições existentes em Salvador que tenham
permitido as duas únicas expressões de resistência que podem ser consideradas mais africanas
que afro-brasileiras, pois mesmo os quilombos, como destaca Darcy Ribeiro, não eram uma
recriação da África no interior do Brasil mas uma tentativa de criar algo novo, já abrasileirado
inclusive com a incorporação da adaptação ecológica indígena.
Em uma nação parcamente alfabetizada, mesmo em sua “elite” não burocrática, a linguagem
escrita era um elemento importante de dominação ideológica, cultural e política inclusive pelos
segmentos burocráticos e comerciais da elite sob o segmento patricial da própria elite. Em uma
das passagens que considero mais significativas de Tristes Trópicos, Levy-Strauss conta a
história de um cacique com a liderança severamente abalada que tomando a caneta e papel dos
pesquisadores tenta impor-se à tribo simulando ler e escrever ordens que precisavam ser
respeitadas porque sacramentadas por aquela estranha e meio mágica ferramenta da escrita.
É neste ponto exatamente que a “mandinga” volta ao texto. Os malês utilizavam relicários feitos
com pergaminhos dobrados com textos em árabe, em geral passagens do Alcorão, estavam
escritos. Estes relicários eram populares para muito além da comunidade muçulmana em si,
tanto no Brasil como na África, onde tais “amuletos” tem sido há séculos e até hoje um dos
elementos de propaganda, em especial pelos marabuts – homens santos ligados a ordens sufis –
para a difusão pacífica do Islam.
Na linguagem popular estes relicários eram chamados de mandingas, pela associação com os
povos mandingas. Quero crer, embora não esteja certo sobre as referências, que a associação é
mais profunda, visto que ainda hoje na África a barakat do marabut que escreve no pergaminho
é um elemento importante até para definir seu valor e aceitação, que a referência aos mandings é
em parte uma alusão a antiga islamização e antigas linhagens dos marabuts mandings –
herdeira, por sinal, dos azenegues, que partindo da fronteira setentrional da área cultural
manding na África haviam interrompido a primeira onda da tentativa de “reconquista” na
península ibérica e fundado a dinastia Almorávida – os Marabuts, em árabe.
Assim é bem possível que uma referência a origem manding dos relicários fosse um elemento
importante de seu valor como proteção espiritual tanto como o fato de a prece nele inscrita ser
vista como dotada de poderes especiais. O medo da linguagem escrita também teve forte papel
na repressão brutal contra os Malês após o fracasso da revolta, atribuindo-se a qualquer escrita
em árabe como “plano dos conspiradores” e transformado a posse dos mesmos como motivo de
prisão e provavelmente de deportação até muito tempo depois da revolta, sem com isto reduzir
sua popularidade.
Esta popularidade fica clara na sobrevivência do termo mandinga e sua associação com
“sortilégio” até hoje, quase dois séculos depois da revolta e quando os últimos remanescentes
malês, meio perdidos e quase dissolvidos no restante da população soteropolitana ainda
guardam alguns dos relicários originais.
Há algo de mágico em uma cultura que é capaz de sobreviver e escapar à dissolução, nenhuma
mandinga mais é capaz de resgatar as centenas de identidades culturais negras e indígenas
moídas na formação do povo brasileiro e despersonalizadas nos rótulos de negro e índio, não
são reconstituíveis salvo como mitos – o que não deixa de ser já algo como pode ser visto na
expansão do Islam entre os negros americanos embora lá como aqui só uma pequena parcela da
população escravizada era muçulmana na origem.
“Se deixamos de lado todos os grupos que significam sobrevivências do passado não se
encontrará entre todos os que representam a época atual um só cuja atitude perante a
vida não seja a de crer que tem todos os direitos e nenhum dever” (Ortega y Gasset, A
Rebelião das Massas)
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É natural que Marx proclamasse isto, afinal jamais poderia de pensar segundo um homem da
sua época na qual se glorificava a supremacia da ciência e do governo secular. Praticamente não
houve autor contemporâneo a Marx que não compartilhasse da sua mesma visão e o velho
filósofo foi, de certa forma, vítima da mesma visão ideológica que tanto condenava.
Como já foi dito antes, a opção secularista era uma peça fundamental de justificação ideológica
do colonialismo. Embora não utilize o conceito de ideologia, Edward Saïd desmascara de forma
minuciosa o discurso orientalista do período no qual este secularismo era peça fundamental.
Na Idade Moderna a Europa legitimava sua agressão ao resto do mundo a partir do
"alargamento" das fronteiras da cristandade, pelo desejo misericordioso e humanitário de levar
às nações "bárbaras" o conhecimento da palavra de Deus.
A segunda onda colonial, posterior à Revolução Industrial, irá se legitimar pelo alargamento das
fronteiras da Razão e da Ciência, pelo desejo tão misericordioso e humanitário de libertar os
"povos primitivos" das suas superstições, crendices e estruturas sociais antiquadas e arcaicas.
A nova onda colonial, auto-entitulada globalização, tenta se legitimar não só pelos motivos
anteriores, mas também pelo desejo igualmente misericordioso e humanitário, de libertar o
mundo das estreitas limitações das suas economias primitivas, libertar o homem do terceiro
mundo das suas instituições políticas conservadoras e de seus valores comunitários
ultrapassados.
Marx, involuntariamente, acaba por ser uma peça deste processo de legitimação da aventura
colonial tanto como Bartolomeu de Las Casas involuntariamente acaba por legitimar a
escravidão negra ao tentar evitar a escravização do indígena. Por mais que Marx tenha auto-
proclamado seu conhecimento livre da ideologia - o que permitiu aos intelectuais marxistas um
alto grau de panfletarismo nos textos que deviam ser acadêmicos - fica claro que também ele era
"contaminado" - e muito - pela ideologia do seu tempo.
Saïd é brilhante em seu já citado estudo sobre o Orientalismo (Companhia das Letras, 1990, 370
páginas) porém ele utiliza um referencial teórico baseado na noção de Discurso de Foucault que
privilegia esta distorção orientalista mais como uma coerção - tanto criadora como inibidora -
que considera o discurso orientalista como o único possível. Parece evidente, contudo, que para
além deste poder coercitivo do discurso existe uma noção ideológico fortemente implantada
através de todas as instituições que se refletem numa forma particular de ver o mundo do qual o
ocidental não poderia se furtar porque não tem consciência dela.
Ao contrário de Marx, parte-se neste artigo do pressuposto que não é o imperialismo econômico
que exige um discurso legitimador - embora este exista em um momento posterior de interação
entre as ideias e as relações sociais, econômicas e políticas. Defende-se aqui, num raciocínio
similiar ao de Weber em "A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo" e "Psicologia Social
das Religiões Mundiais", que a mentalidade "ocidental" impulsiona a opção imperialista e,
encontrando ambiente propício, passa a se expandir e acaba sendo consolidada como uma
doutrina.
O raciocínio parece inusitado, mas examine-se as mais diversas culturas do mundo e se verá em
todas elas um forte componente etnocêntrico. Jamais houve uma cultura que não se considerasse
o centro do universo e a "raça" mais importante. No ocidente esta noção evoluiu ao longo dos
séculos para uma visão que disfarça em graus e matizes diferenciados o conhecimento
eurocêntrico em universal, com todas as consequências políticas, sociais e econômicas deste
fato.
Ou seja, o fato deles se expandirem no vácuo de uma expansão imperial, na qual ele se torna
importante, ele não depende de uma expansão imperial para existir. Como já foi dito, ele está
presente em todas as culturas em conceito e está profundamente enraizado na cultura ocidental,
a ponto de já ser contestado por alguns sofistas que começam a criticar o discurso racista grego.
S E G U N D A - F E I R A , 2 M A I O, 2 0 0 5 - 0 6 : 5 0
Gosto muito de uma imagem do poeta persa Attar segundo a qual Deus é um espelho
que se quebrou em muitos pedaços e cada um ao pegar um caquinho e se olhar diz:
“este é Deus”. Um dos muitos significados desta expressão tão repleta dos mais
variados sentidos que toda vez que lembro dela me ocorre um novo é que a experiência
do buscador é sempre solitária.
Há sem dúvida a necessidade de um mestre não tanto que oriente, mas que através da
sua benção nos ensine a “esvaziar a taça”, a nos transformar na tábula rasa onde a
sabedoria pode ser escrita. Engraçado como o silêncio é uma forma de ensinamento
essencial em todas as tradições. Assim, pelo silêncio, ensinam as lições mais relevantes
os sheikhs sufis, os mestres do Tao, os sábios do zen (lembrei-me do símbolo zen do
mestre rasgando os livros), os sad-gurus do Vedanta Advaíta. A música que muitas
vezes está presente só reforça o silêncio, afinal por não ter forma ela ajuda a nos
desligar das formas.
Curioso que o que mais tive na vida de próximo de um mestre foi um professor ateu na
Universidade. Ele me ensinou aquilo que livro algum poderia me ensinar, o quanto eu
não sabia e como meu conhecimento, minha compreensão do mundo era falsa, lição que
carrego até hoje, embora nem sempre tenha a sabedoria de lembrar-me dela. Falo dele,
não só por questões sentimentais, mas também porque em seu ateísmo até militante
havia uma devoção a um Ideal Elevado, que era o Conhecimento.
E é aqui que me detenho para falar deste caquinho de espelho do Altíssimo que sou. É
nesta idéia de um ideal elevado que tento encontrar Deus tanto em mim como nos
outros e nas suas ações. Aonde há esta procura de servir e dedicar-se, sem espera de
recompensa ou temor do castigo, a este valor ali sempre se pode encontrar a presença de
Deus – ao menos segundo a opinião deste caquinho aqui.
Sintomático que esta questão de libertar-se dos desejos e temores apareça em todas as
tradições. Aparece em Santa Teresa d'Avila e São João da Cruz pedindo que Deus lhe
feche as portas se ela procurá-lo por outro motivo que não o amor a Ele, aparece nos
belos poemas de R'abia pedindo para ser atirada no Inferno se ama-lO por temor a ele,
aparece na ênfase em libertar-se da ação dos hindus, enfim é uma fortíssima
convergência de muitas tradições e – mais uma vez na minha modesta opinião – toda
convergência aponta para o centro, para as camadas mais profundas nas quais o
essencial está mais visível.
Novamente sou obrigado a repetir o que disse ontem, que a questão fundamental está na
sinceridade, naquela sinceridade mais profunda que reside no coração. Schuon
destacando a diferença entre as diversas formas religiosas consideradas pagãs e as ondas
de neo-paganismo dizia que nos primeiros havia a pureza de intenção de adorar ao
princípio elevado nos ídolos, enquanto no segundo há apenas o desejo de se obter algo.
Vale lembrar, sempre, que Schuon viveu a maior parte do tempo entre os nativos
americanos e em contato com xamãs desta tradição, a grande maioria de suas pinturas,
por sinal, referem-se a esta tradição.
A cada vez que vejo uma disputa religiosa lembro-me de uma tradição islâmica. Moisés
pergunta a um pequeno pastor o que ele está fazendo e ele diz que está construindo um
abrigo no deserto para Deus, para protegê-lO do sol, do frio e dos animais selvagens.
Moisés desanca o garoto dizendo que Deus não tem frio, nem calor e nem temeria os
animais selvagens e o garoto vai embora chorando. Deus então adverte Moisés sobre ter
afastado dEle uma pessoa que na sua maneira tentava agradá-lO.
Penso que a cada vez que atacamos a fé de alguém agimos como Moisés. Certamente há
momentos nos quais há necessidade de enfrentar a hipocrisia e a simonia, como o
próprio Jesus fez, mas é sempre uma guerra que deve ser travada sem ódio, não para
condenar, mas para tentar fazer com que as pessoas encontrem seus motivos e neles
percebam o erro. Nada sabemos sobre os caminhos que os outros trilham, nem sobre as
engrenagens deste camelo cego que é o destino, então acho que cada um faria melhor
esforçando-se por, como os mestres tradicionais, iluminar com o silêncio do seu
exemplo. Evidente que esta é uma meta muito elevada para mim, mas conseguir
vislumbrá-la, ao menos, como objetivo tão distante parece de alguma forma ser algo
positivo.
T E R Ç A - F E I R A , 2 6 S E T E M B R O, 2 0 0 6 - 1 5 : 3 9
Mas reduzir a leitura, em especial de bons livros - cada vez mais raros - a simples hobby é não
ser dotado da real capacidade de leitura. Ler é algo mais do que esta tarefa prosaica a qual se
pode dedicar algumas horas vagas. Já houve quem tenha descrito o ofício de escritor como uma
maldição que impele o indivíduo a escrever, pouco se importando até mesmo se alguém vai ler,
escreve porque para o verdadeiro escritor escrever é igual viver, ele é incapaz de conceber a
vida sem escrever, assim como não a concebe sem respirar.
Contudo faltou dizer que igualmente a leitura pode ocupar este espaço junto àqueles que ao
gosto pelas letras não se seguiu a inspiração para escrever, há também o leitor compulsivo.
Cervantes já disse que lia até os papéis rasgados das ruas.
Nem sempre se entende o papel dialético da leitura, a imaginamos como uma relação unilateral
na qual lemos um livro e por alguns instantes saboreamos o prazer daquela leitura, envolvemo-
nos emocionalmente com os personagens e depois retomamos a nossa lida diária, no máximo
guardando alguma frase mais trabalhada para ostentá-la em alguma conversa na qual queiramos
passar por cultos e espirituosos.
Claro que não é este o verdadeiro processo. Não somos mais os mesmos ao terminar de ler um
livro - em especial os bons, ressalvo novamente - porque certamente ele alterará algo em nós,
estabeleceremos relações entre o livro e a nossa vida, entre aquele livro e outros, entre o autor e
nós. Mais do que isto, o livro tem o poder de inserir, quem sabe inocular, em nossa mente
algumas ideias.
A ideia de inoculação me parece mais apropriada, porque indica precisamente que algo que sai
do livro entra em nossa mente e provoca reações - se são favoráveis ou desfavoráveis é
irrelevante - interage com as ideias que já estão lá, luta com elas e deste processo surgem ideias
novas que são como anticorpos, prontos a reagir - interativamente - com novas ideias que outros
livros - ou o mesmo - levarem a nossa mente.
Também o livro se altera, porque embora sejamos incapazes de mudar uma única letra nele
impresso, ele já não é mais o mesmo quando o relemos - "O importante é reler, não ler", já frisa
um personagem de Borges - não só porque reparamos em coisas que passaram desapercebidas
na primeira vez, ou só porque a lembrança que nos ficou da primeira leitura interage com a da
releitura, mas fundamentalmente porque cada livro fala a nós de acordo com o que pretendemos
ouvir.
Chamo ao tipo de livro que gosto de ler de "livros de insônia" porque as ideias que eles trazem
dentro deles provocam daquelas agradáveis tempestades mentais, remexendo até mesmo nos
cantos mais escondidos da mente, convulsionando a memória com o resgate de tantas outras
ideias, provocando a gênese de mais e mais ideias, enfim livros cuja dialética alteração da mente
é claramente perceptível - como disse antes todos os livros provocam esta reação, mas não em
todos ela é perceptível.
Três autores em particular me causam este efeito com relativa constância, Swift com sua sátira
ácida, Borges com seu assombro, Lobato com seus raciocínios inusitados e até incoerentes. Mas
há tantos outros que em grande parte das vezes provoca aquele desejo irresistível de se terminar
de uma vez a leitura devorando com avidez cada página, incontáveis noites passei em claro
porque não conseguia desgrudar de livros de autores tão diferentes como Asimov ou Voltaire,
Shakespeare ou Huxley, Attar ou Flaubert.
S E G U N D A - F E I R A , 2 M A I O, 2 0 0 5 - 0 6 : 2 2
Borges afirmou que alguns comentadores viram três camadas no texto de Dante, outros sete,
mas que provavelmente elas são infinitas. Quem trilha a senda mística verá símbolos usuais de
que se trata de algo mais que um livro escrito ao acaso, detectará lá um mapa do caminho à
Unidade.
Ironizando alguns destes símbolos Borges diz no Livro dos Seres Imaginários, citando
Stevenson, comenta a respeito de alguns dos seres descritos no Paraíso: "se há tais coisas no céu
o que não haveria no Inferno". Curiosamente o Inferno de Dante sempre foi a parte mais
comentada da Divina Comédia, talvez porque se encaixe melhor na definição estanque que se
tem da Renascença como uma redescoberta dos valores clássicos.
O inferno é certamente tributário da Eneida e não é por outro motivo que é Virgílio que guia o
autor na visita aos círculos infernais. Também é uma vingança pessoal de Dante que lá colocou
pela eternidade seus desafetos numa pequena vingança, talvez mesquinha mas não incomum aos
homens de gênio.
Isto até causa a impressão que talvez a Divina Comédia tenha sido uma obra que escapou ao
controle do autor, tal como o Quixote de Cervantes suplantou a intenção do autor como
comentei há alguns dias, talvez de algum propósito menor a Comédia tenha conseguido se
impor ao espírito de Dante. Isto explicaria, por exemplo, a enorme disparidade entre o
Inferno/Purgatório e o Paraíso.
Há algo que escapou a todos os comentadores - ou ao menos aos que eu já li ou ouvi falar - que
tentam estabelecer um vínculo entre Inferno/Renascença e Paraíso/Idade Média. Dante narra
uma jornada que começa no Inferno e termina no Paraíso e não o inverso. Note-se bem que ele
também esforça-se para descrever a sua própria elevação espiritual neste trajeto, portanto me
parece evidente que a leitura tradicional de Dante carrega um equívoco de preconceito que
idealiza a Renascença e demoniza a mentalidade medieval.
Mas há outros motivos pelos quais esta visão não se sustenta. Longe se ser uma visão
"canônica" do Paraíso a obra de Dante é um tanto quanto "herética", como destacou em artigo
célebre Cantor ([Link] O
simbolismo místico é evidente e se as origens do Inferno são encontradas na Eneida e base do
Paraíso encontra-se em textos místicos muçulmanos que relatam a viagem de Mohammad ao
Paraíso, como já foi exaustivamente demonstrado pelo trabalho de Miguel Asin Palacios e
outros que seguiram seus passos.
Há mesmo, como destacou Palacios na "La escatología musulmana en la Divina Comedia" - do
qual infelizmente só pude ler trechos mas que foram suficientes para me demonstrar que não se
tratou apenas de uma inspiração, mas em muitos casos de uma transcrição quase literal.
Compare-se, por exemplo, o LIBER SCALAE MAHOMETI, tradução latina de textos árabes e
persas de místicos muçulmanos - que já circulavam pela Europa dois séculos antes de Dante,
com trechos do Paraíso para se encontrar os mesmos símbolos e metáforas. E não raro os
mesmos seres.
S E G U N D A - F E I R A , 2 M A I O, 2 0 0 5 - 0 6 : 1 2
Q U I N T A - F E I R A , 1 8 M A I O, 2 0 0 6 - 1 4 : 1 0
Equilíbrio é palavra que anda fácil pelas bocas, quem é que pode ser contra o equilíbrio? Mas ao
mesmo tempo o que é o equilíbrio?
Com certeza não é aquele morno que enojava Jesus, desconfio que nem mesmo é a Áurea
Mediocridade de Aristóteles. Um pouco continuando a toada de ontem tenho de dizer que
equilíbrio não é ausência de conflito, para que exista equilíbrio é necessário que ao menos duas
forças de sentido diverso estejam em disputa. Diria que é quase um conceito geométrico
envolvendo vetores e bissetrizes, tal como vejo o conceito e como parece deixar claro sua
própria etimologia.
Os santos - aqueles que segundo as tradições judaicas, cristãs, muçulmanas, hinduístas, budistas
e demais que emanam do centro justificam a existência do mundo – não precisam de equilíbrio
e nem podem tê-los pois só há neles uma vontade já que o ego ali foi aniquilado.
O equilíbrio só pode ser um dilema para nós das demais castas – e esta não é uma questão de
status, basta lembrar que no Baghavad-Gita Krishna encarna como um xátria, um guerreiro, não
como um brâmane de casta hierarquicamente superior porque seu papel requeria a luta para
restaurar o equilíbrio, enfim, não era tarefa pra santo.
Eles só tem em comum este gosto pelo trágico, sempre tendendo ao tragicômico, a transformar
em grandes dilemas dignos de batalhas e/ou debates infindáveis, tendendo ao bizantinismo.
Curioso que este processo todo não me faz sentir dissociado, ao contrário me faz sentir com
muita clareza minha unidade, muito mais do que nos momentos que me fecho no silêncio e nos
sonhos campestres, quase bucólicos. Fossem eles menos trágicos e era até capaz de eu achar o
equilíbrio é isto.
Q U A R T A - F E I R A , 1 7 M A R Ç O, 2 0 1 0 - 2 2 : 3 4
Filosofia e cia
DT
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DIA DOS NAMORADOS
S E G U N D A - F E I R A , 1 2 J U N H O, 2 0 0 6 - 1 8 : 2 0
Contrário ao conselho de Mario Quintana que devemos primeiro ser artesãos e, só com a
mestria que o tempo e a experiência dão, tornarmos-nos artistas, hoje todos querem iniciar no
topo. As condições de ignorância generalizada e desprezo (preguiça) pelo passado, somado ao
câncer do talento que é a vaidade, tornam muito propício a generalização de obras que
escondem sua incompetência e insensibilidade atrás de um pretenso hermetismo.
Borges, a quem a fama de hermético demonstra que é muito mais citado do que lido, esforçou-
se ao máximo para simplificar seu texto. Nele o absurdo e o assombroso, as ideias metafísicas
mais estapafúrdias estão descritos de forma transparente. Diria alguém que falando de coisas tão
fantásticas seria possível suprimir o assombro da forma porque há o suficiente no conteúdo, o
que talvez seja uma crítica pertinente, mas que não invalida o esforço do autor para tentar
cumprir a máxima de Victor Hugo de sermos inteligíveis para mostrarmos que somos
inteligentes.
Vive-se o medo das nossas fraquezas e sentimentos e é para enfrentá-las, encarcerá-las que se
cria um outro eu que tenta ocultar do mundo a verdadeira face. Borges por diversas vezes
brincou com este outro eu que se comportava como um personagem e transformava as coisas
importantes para Borges-de-verdade em brinquedos da vaidade do Borges-o-outro.
Fernando Pessoa foi capaz de sintetizar esta necessidade do eu-vitorioso no "Poema em linha
reta", aonde seu heterônimo Álvaro de Campos questiona: "Nunca conheci quem tivesse levado
porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo". Tentamos ser semi-deuses e
heróis quando seria bastante que fossemos humanos.
Romper a muralha criada por este outro eu, que nos quer sempre fortes, belos e sábios é
certamente o mais elevado passo que se pode dar em relação à própria liberdade. Mas este
umbral Não pode ser transposto pela razão, como já disse em artigo anterior Virgílio não podia
guiar Dante além do Paraíso Terrestre, para chegar ao fim da jornada o poeta precisou que
Beatriz lhe mostrasse o caminho até a luz.
Há me todos um conflito entre o nosso eu verdadeiro e aquele que criamos para nós, raras vezes
o primeiro consegue ser vitorioso, e mesmo quando ele obtém a rara vitória em geral somos
velhos demais para colher os frutos desta libertação. Alguns buscam esta alforria no persistente
abandono da sociedade, na tentativa sucessiva de irritar seus carcereiros, mas ao fazer isto só
conseguem aumentar o peso dos grilhões que tem no pé porque a favor ou contra continuam a
ter os outros como referencial.
Borges foi capaz de obter esta liberdade e por isto sua obra é sincera. Paradoxalmente obteve
maior sucesso por isto porque a multidão de escravos admira o homem livre porque sabe que ele
já não pode mais ser destruído.
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O paradoxo começa a revelar-se quando se vê uma distribuição desigual do acesso aos recursos
técnicos faz a visão pretensamente “democrática” segundo a qual qualquer um pode ser artista
transformar-se na verdade em uma prática elitista – no sentido deteriorado do termo elite – pois
acessível apenas a um pequeno grupo. Prática esta reforçada por certa noção de “vanguarda” no
qual se reforçam a importância dos elementos técnicos para assegurar que não só o exercício da
arte e da literatura mas mesmo a sua fruição seja acessível apenas aos iniciados e “imune” à
critica do público comum, como mil herdeiros sendo incensado pelas bobagens que produzem
podem demonstrar enquanto exemplo.
Ao mesmo tempo, na outra ponta do paradoxo, uma visão “elitista” - no sentido exato do termo
referindo-se aqueles abençoados com dons – da produção de arte e literatura na qual o talento
natural e a inspiração tem um papel essencial e primordial – e a técnica é apenas o complemento
que aprimora habilidades naturais/espirituais – significa que este talento não escolhe berço para
nascer. Em comparação com os “herdeiros” mencionados acima não é difícil observar muita
mais genialidade – em especial aquela genialidade criadora capaz de romper paradigmas e
inaugurar novos parâmetros estéticos - em indivíduos que não venham das classes dominantes
de sua época. Chega a ser quase raro e delimitado a algumas áreas os pontos de intersecção
entre estas aristocracias do espírito e as aristocracias políticas e econômicas.
O paradoxo torna-se mais intrincado pelo fato da obra produzida pela inspiração em geral ser
genial a ponto de poder ser apreciada por amplos segmentos, enquanto aquela produzida pela
técnica requerer a visão de expert para ser fruída. Em certo sentido parece ser claro que frente
ao maior desafio do debate estético contemporâneo – a democratização do acesso à cultura às
massas – a postura da chamada “arte de vanguarda” é essencialmente conservador a beira do
reacionarismo, buscando preservar uma alta cultura codificada – e que teria valor só pela
codificação – afastando as massas da sua fruição.
Partindo de uma perspectiva conservadora Ortega y Gasset aponta na arte contemporânea uma
distinção sociológica entre ela e tudo que foi feito anteriormente. A divisão do público que
ocorre em relação a esta arte contemporânea, na visão dele, não é a mesma que havia existido
até então, mesmo nos momentos de transição – quando uma novo padrão emergia e as
sensibilidades estéticas sentiam atração ou aversão pelo novo padrão – mas sim a distinção
passa a ser entre os que a entendem e os que não a entendem.
Mesmo o legado marxista na Escola de Frankfurt não consegue escapar a esta visão
“aristocrática” da fruição das obras de arte – exceto, talvez, por Benjamin – com sua radical
separação entre a arte e a indústria cultural e uma visão que no fundo leva à conclusão que as
massas não serão capazes de compreender toda a aura da arte. Também sob influência marxista
mas com uma visão menos “conservadora” da arte Hauser segue no caminho contrário:
"O problema não consiste em confinar a arte ao horizonte atual das grandes massas, mas em
ampliar o horizonte das massas tanto quanto possível. O caminho para uma apreciação autêntica
da arte passa pela educação" ( Hauser, História Social da Literatura e da Arte)
Hauser faz uma diferenciação essencial para a solução de parte dos paradoxos na medida em
que separa a produção da fruição da arte e da literatura. Com a mais absoluta certeza grandes
partes da “massa” pode alcançar o nível médio que lhes permita apreciar a produção cultural,
ainda que até por definição não é qualquer um que pode tornar-se artista, visto que não seria um
produto do esforço ou aprendizado em sua essência. Mas a própria elevação no nível médio da
“massa” pela educação permitirá que muitos talentos naturais desperdiçados possam encontrar
sua vocação e destino com mais facilidade.
Todas estas contradições são mais evidentes no cinema, arte surgida já contemporânea,
integradora das demais artes, industrial e coletiva na sua natureza, passo decisivo no que Hauser
chama de “democratização da arte” - e na qual ele vê uma tendência essencial e definidora. É
significativo que seja nesta arte de caráter tão paradoxal e ambivalente que se travem as maiores
disputas entre vanguarda e massa com movimentos nos quais as duas linhas se enlacem e
imbriquem. Assim é curioso, por exemplo, o fato de muito da linguagem própria e inovadora no
cinema cultivado pela vanguarda tenha vindo, via Eisentein e Chaplin, do que foi feito
pensando-se no cinema como veículo para as massas.
Como leigo eu sou totalmente incapaz de julgar uma obra cinematográfica em sua totalidade e
pela sua linguagem, no máximo sou capaz de avaliar aquela parte dela que me é familiar que é a
história contada. Imagino que deva ser uma parte bem pequena da linguagem pela repugnância
que certos aclamados filmes de arte me provocam e pela imensa satisfação que vários filmes
comerciais destinados à massa me provocam.
S E G U N D A - F E I R A, 2 1 F E V E R E I R O , 2 0 1 1 - 1 4 : 4 5
Islam, Comunicação, Pessoal, Poesia, Arte, Educação, O futuro, Política, Filosofia e cia
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A VERDADE A AS LACUNAS
Q U A R T A - F E I R A, 2 1 J U N H O , 2 0 0 6 - 1 8 : 3 0
Acho que esta visão multifacetada não me impede uma dose bem razoável de radicalismo,
inclusive na minha atuação pública – já que a vida sucessivamente tem me colocado em
trabalhar do lado do poder e frustrando minha enorme vocação crítica de oposição – em especial
no esforço de criar o novo, abrir portas para pensar e construir alternativas inovadoras.
Considero, de minha parte, que sempre estive mais preocupado com o que fazer com o poder e
não com mantê-lo, assim como semrpe tenho em mente a frase de Ghazalli de que o pior dos
sábios é o que frequenta os príncipes e o melkhro dos príncipes é o que frequenta os sábios.
Todo este longo prólogo eivado de personalismo para dizer que quando cheguei ao 2o. Encontro
de Blogueiros Progressistas em Brasília no final de semana não sabia bem o que estava fazendo
ali ou se devia estar ali. “Progressista” é termo amplo e portanto vago. Com exceção de
reacionários, contra-revolucionários, fascistas e uma certa parcela dos conservadores (Ortega y
Gasset é conservador mas ao mesmo tempo progressista na medida em que não deseja uma
volta ao passado e tem alguma perspectiva otimista de um futuro possível e boa parte de sua
análise e militância está focada no combate ao fascismo e ao franquismo) quase todo o resto
pode se dizer progressista.
Não tenho dúvidas que minha ação pública é progressista, talvez mesmo mais radical em alguns
pontos – como nas questões de urbanismo - que a de muitos ativistas de esquerda cuja atuação
está focada em agendas muito momentâneas e de curto prazo, eleitorais. Não há, contudo,
muitos méritos neste posicionamento porque em um país com tal grau de desigualdade como o
Brasil, com tal domínio patrimonialista das instituições estatais e políticas, com tal carência de
políticas sociais e públicas, com enorme fragilidade da sociedade civil, estar a esquerda é
praticamente uma obrigação e um raciocínio lógico porque aquilo que existe é inaceitável e
indefensável.
Não bastasse isto o discurso “conservador” vai se tornando tão eivado de grosseria e
reacionarismo, tão focado em escândalos fabricados a partir de picuinhas e manipulação, tão
contraditório aos valores fundamentais da democracia e mesmo aos direitos humanos que passa
a ser ele próprio um discurso que Ortega y Gasset consideraria um discurso do homem-massa e
que na avaliação dele cedo ou tarde descamba para o fascismo. Assim qualquer um que tenha
compromisso sincero com a democracia tenderá, estou certo, a se sentir cada vez mais
desconfortável em estar ao mesmo lado desta grita fascistoide.
Estava pensando nestas coisas quando vi o artigo de Vargas Llosa no Estadão comentando a
eleição peruana e saudando a vitória das forças progressistas contra o neo-fascismo de Fujimori.
Era o perfeito exemplo que eu precisava. O mesmo Llosa que fez da condenação do estatismo e
do populismo uma de suas bandeiras há alguns anos, o mesmo Llosa que escreveu o “Manual do
Perfeito Idiota Latino Americano”, estava apoiando o candidato progressista e saudando a
derrota fujimorista.
Creio que este episódio é rico em sinalizações. Todas as alianças e unidades fundadas em
princípios podem fazer sentido em um determinado tempo e espaço. Há sempre uma linha
divisória traçando estas unidades possíveis e sem dúvida aquela que separa o fascismo de todo o
resto das forças políticas é uma delas. No passado o fascismo conseguiu triunfar, em grande
parte, pela incapacidade de se pensar nesta linha divisória e ser capaz de se construir uma
aliança ampla o suficiente porque quase todos estavam muito preocupados com agendas
políticas próprias e fragmentárias.
Considero que há forças políticas que cometem hoje este erro gravíssimo de desejarem tanto o
poder que cortejam o discurso proto-fascista de negação dos direitos humanos e com variados
matizes reacionários. Os segmentos opostos, por sua vez, também não desejando perder estas
correntes reacionárias da opinião pública acaba fazendo um discurso frágil e contemporizador,
daí tristes episódios como a carolice conservadora da última campanha eleitoral na qual faltou
pouco para defenderem a volta do padroado e questões sociais foram tratadas no âmbito
religioso e não como políticas sociais, como a questão do aborto.
Neste contexto todo só posso dizer que fui me sentindo a vontade no meio “progressista” do
encontro que foi capaz de garantir a todo instante, com intricada habilidade política, tanto a
diversidade quanto a horizontalidade – tão raras no ambiente político fragmentário e imediatista
de hoje. Houve sim defesas do governo federal, mas não defesas subservientes, tanto como
cobrança por posicionamentos claros, assim como houve críticas ao PSDB, mas não infundadas
e sim bem fundamentadas na defesa da liberdade de imprensa contra a escalada judicial contra
ela e contra o AI-5 digital, enfim, nada que fosse mera expressão de paixões partidárias ou
meras opiniões, mas sim argumentações.
Há mais de uma década estava ausente de eventos similares, os quais ocuparam boa parte de
minha adolescência na década de 80. Cheguei ao 2blogprog sem saber se devia ter ido e sai me
sentindo em casa. Não posso deixar de admirar a visão generosa e ação motivada por uma esta
análise de conjuntura dos organizadores.
Não poderia, assim, terminar antes de deixar o link do Instituto Barão de Itararé promotor do
evento:
[Link]
S E G U N D A - F E I R A , 2 0 J U N H O, 2 0 1 1 - 1 2 : 1 8
Comunicação
2blogprog, Barão de Itararé, DT, PP
Referência Original: [Link]/portal/10775
A FACE TERRÍVEL DA GUERRA
S E G U N D A - F E I R A , 1 3 N O V E M B R O, 2 0 0 6 - 1 2 : 4 0
Pessoal, Poesia
Referência Original: [Link]/portal/10106
TAPETE PERSA
SEGUNDA-FEIRA, 11 SETEMBRO, 2006 - 20:29
Arte
Referência Original: [Link]/portal/10119
A SELEÇÃO NATURAL DAS
RELIGIÕES
"Onde existem mil crenças, tendemos a nos tornar céticos em relação a todas elas" (Will Durant,
A História da Filosofia)
A religião ocupa um espaço muito peculiar como objeto de estudo. Poucos temas foram tão
abordados quanto ela - notadamente pelas ciências sociais - mas igualmente sobre poucos se
tem chegado a alguma análise razoável. Falta um modelo teórico que de conta da complexidade
do fenômeno religioso - e da religiosidade em particular - e sobram doses monumentais de um
arraigado preconceito quanto à religião que caracteriza a mentalidade ocidental.
Extremamente digno de nota é o contexto social fortemente secularista no qual estas teorias são
formuladas. De um lado vive-se o auge da Revolução Industrial, a ilusão de um período de
progresso científico, tecnológico e material sem precedentes. De outro havia ainda a
necessidade - muito bem exposta por Edward Said no seu Orientalismo - de propagar o discurso
da superioridade secularista como discurso legitimador da expansão colonial - que confrontava
a sociedade "racional" europeia à "superstição religiosa" oriental.
É neste contexto que brotam estas tentativas de explicação da religião e este carimbo é claro
quando se vê o papel acessório que o fenômeno religioso terá. Durkheim e Mauss entenderão a
religião como uma função essencial ao sistema social, postura que aparentemente elevando o
papel da religião, lhe nega suas especificidades e características próprias. Tanto que ambos
tentarão explicar o conjunto do fenômeno religioso a partir do animismo por considerá-lo mais
simples, mas igual em essência a qualquer religião (vide "Formas Elementares da Vida
Religiosa", por exemplo).
Também Marx até aceita a especifidade do fenômeno religioso mas ele atribui um papel
acessório, derivado com contexto econômico. Em outras palavras nega a existência da religião
externa à realidade econômica e portanto determinada por ela.
A noção de ideologia, tão cara aos marxistas quanto ainda mal delimitada, dá à religião um
papel de legitimador da dominação de classes e um "amortecedor"dos conflitos sociais. Com
isto Marx acaba por proclamar que a ideologia proletária que fará a aparência corresponder à
essência pode prescindir da religião.
Da interpretação deste conceito surgiu a tensa relação entre os partidos comunistas e a Igreja
que muitos, como Frei Beto e Roger Garaudy, tentam pacificar aproveitando-se do acesso de
modéstia que transformou o marxismo de ciência infalível em utopia humanista.
Weber é o único que, sem negar a profunda interação entre a realidade econômica e a religião,
parte do princípio que o fenômeno religioso tem vida própria. Ao contrário do que afirmam seus
detratores, Weber jamais disse que a realidade social, econômica e política derivava de algum
sentimento religioso. O autor, ao contrário, afirmou que as mensagens religiosas que atendiam
melhor às necessidades psicológicas, sociais, econômicas e sociais de um povo tendiam a
"prosperar" e tornar-se dominantes.
Ele também destaca um fato importante que praticamente parte "desapercebido" a Marx - mas
não à filosofia de Garaudy - de que em geral as crenças tiveram um poder "revolucionário" nas
sociedades que surgiram, com o apoio dos oprimidos e à revelia dos dominadores. Moisés, Jesus
e Maomé - para citar os profetas das três religiões reveladas - pregaram contra a ordem
estabelecida, o que é de certa forma inconcebível dentro do universo puramente marxista de
interpretação.
Mas a contribuição de Weber que mais interessa aqui é outra, o autor foi capaz de perceber a
existência de "necessidades religiosas" numa sociedade que até podem ser derivadas de
condições sociais, mas tem um papel ativo na interação com esta realidade. Mais do que isto,
estas "necessidades religiosas" produziriam uma certa seleção natural das doutrinas,
selecionando as que melhor as atendem e tornando "antiquadas" aquelas cuja interpretação da
realidade deixa de ser válida.
Weber foi capaz de distinguir neste processo religioso dois momentos distintos, enquanto Marx
- influenciado pelo anti-clericalismo iluminista e pelo secularismo industrialista e colonialista -
foi capaz de perceber apenas o momento no qual a religião tenta dar estabilidade à sociedade.
Weber não nega este caráter conservativo da religião que tenderia a perpetuar uma sociedade na
qual existe correspondência entre a doutrina e as "necessidades religiosas" através de uma ética
econômica. Weber porém acredita que se as condições sociais mudarem ao ponto desta ética
deixar de corresponder às necessidades religiosas ou contribuir para produzir bem estar numa
sociedade haverá alguma alteração.
Weber vê dois desenlaces possíveis, em um deles surge uma nova mensagem religiosa capaz de
aglutinar os oprimidos e provocar uma mudança social mais intensa. Em outro cenário, a
incapacidade das novas ideias religiosas não virem ao encontro das "necessidades religiosas"
acabaria por se impor uma doutrina oficial alimentada pela propaganda do Estado.
A partir destes dois conceitos chega-se a um cenário no qual a sociedade está sempre a produzir
mensagens religiosas, mas que só algumas delas irão prosperar porque só algumas delas
atenderão a "necessidades religiosas" existentes. Traçando um perigoso, mas necessário para
facilitar a compreensão, paralelo com a biologia, as mensagens religiosas passariam por
constantes mutações, mas só algumas sobreviveriam ao serem confrontadas com a seleção
natural das "necessidades religiosas".
S E G U N D A - F E I R A , 2 M A I O, 2 0 0 5 - 0 6 : 4 3
Pessoal, Poesia, Arte, O futuro, Sociologia e cia., Política, Filosofia e cia, Religião
Will Durant,DT, PP
Referência Original: [Link]/portal/35
PROFISSÃO, VOCAÇÃO, DESTINO
A famosa citação de Weber sobre a política como vocação e a política como profissão tem
servido aos mais variados usos equivocados. Ela também está parcialmente contaminada por
uma visão tornada arcaica pela complexidade crescente do mundo e da gestão pela qual a
política deve ser hobby de aristocratas ociosos. Hoje nem mesmo os setores da burguesia e os
altos executivos poderiam dispender seu tempo na política e ao mesmo tempo serem capazes de
desempenhar suas funções.
Fora o sentido mais econômico da distinção, que nem é a mais importante da frase de Weber,
seu sentido mais geral e político continua necessário, ou seja, não se deve depender da política
de tal forma que sejamos obrigado a fazer aquilo que nos contraria, que sabemos que não é bom,
ou mesmo só deixar de fazer aquilo que é necessário por se temer que isto nos retire o poder, o
mandato, a influência. É um daqueles pressupostos fáceis de falar na forma de centenas de
bravatas, mas que é cada vez mais raro ver quem tem realmente a bravura de segui-la.
A política entrou na minha vida de uma forma avassaladora. Eu podia ter resolvido ser muitas
coisas, mas me decidi sempre pela política. Há, com certeza, muitos momentos nos quais
preferia ter seguido outros caminhos, como enfrentar tarefas que exigissem menos esforço
intelectual como a carreira acadêmica, confrontasse animais menos ferozes como no sonho de
infância de ser zoologo, requeresse menos responsabilidade e tivesse mais soluções para tudo
como jornalista.
Não vou negar os momentos no qual há o desejo profundo de alguma utopia à Thoreau de viver
no mato e andar a pé pelas trilhas nos intervalos de uma vida dura e simples. Há também a
utopia oposta de postar-me a frente de 40 potenciais delinquentes juvenis em uma sala de aula.
Estas duas ainda persistem apesar de todas as recomendações em contrário e é possível que
acabe em uma delas no momento que sentir que a política tornou-se incapaz de dar alguma
resposta efetiva.
É por não ser tão descrente como todos acham que sou que tenho tanto medo de nos momentos
convulsionados pedir a Deus que seja feita a vontade dele e não a minha, que eu siga no sentido
de cumprir meu destino. O medo é das preces serem atendidas e por isto sempre penso mil
vezes para ver se estou preparado pro resultado.
Seria presunção dizer que ele me quer neste meio da política, ainda mais na forma como ela
anda. Mas só posso dizer que é sempre nela que ele encontra um caminho pra mim, abre novas
portas ou reabre portas antigas a cada vez que sou tomado pela vontade de deixar tudo e ir
plantar jabuticabas. Só posso concluir que há nisto um sentido, mesmo que oblíquo demais para
minha percepção humana.
S E G U N D A - F E I R A , 8 M A R Ç O, 2 0 1 0 - 2 3 : 3 8
Pessoal, Política
DT, PP
Referência Original: [Link]/portal/10752
IDEIAS DE NÁUFRAGO
Q U I N T A - F E I R A, 1 9 O U T U B R O , 2 0 0 6 - 1 6 : 3 5
A este “ano da palavra” parece que vai se suceder um “ano do poder” porque a minha paixão
pela política – pela grande política, claro – voltou de um lado empurrada por minha vontade de
fazer algo objetivo e de outro pelas circunstâncias que me levaram a encontrar pessoas que
compartilham não de uma mesma visão – porque nada pior que um grupo com um olhar estreito
e monolítico - mas do mesmo sentido de dever.
Mais uma vez sou preenchido por aquela fantástica sensação de que é o caminho que nos
escolhe, não nós que o escolhemos.
No meio deste pequeno mas aguerrido Exército de Novo Tipo para o qual as circunstâncias me
alistaram eu sinto renovadas as esperanças de construir o novo e ao mesmo tempo resgatar
aquilo que nunca devia ter deixado de ser.
Não sei se o caminho que percorremos é a esperança de recuperar a grande política perdida no
meio dos pragmatismos e “idealismos de resultado” ou se é uma brancaleonesca tentativa de
reconstruir uma época que não existe mais; enfim, não sei se remamos contra ou a favor da
maré da história.
Mas meu coração se encheu de alegria quando o deputado programou todas as semanas uma
reunião com todas as pessoas do gabinete – assessores, motorista, secretárias - não para discutir
estratégias eleitorais, tarefas cotidianas ou qualquer coisa assim, mas para ler, estudar e debater
textos de pensadores diversos que irão orientar a formulação de propostas da semana seguinte. É
esta sensação de que não se é um operário apertando uma engrenagem na esteira rolante, mas
que cada uma das pessoas que trabalham comigo tem um compromisso com um ideal mais
elevado que me abastece as esperanças de que a mudança é possível.
T E R Ç A - F E I R A , 1 5 M A I O, 2 0 0 7 - 1 2 : 5 9
Pessoal, Poesia, Política, Filosofia e cia
DT
Referência Original: [Link]/portal/10558
UM PAIS DE VERDADE
T E R Ç A - F E I R A , 1 6 M A I O, 2 0 0 6 - 1 4 : 5 8
Este debate, olhado com certa desatenção, transcende em larga escala a simples esfera
acadêmica. Não é uma discussão puramente filosófica, sociológica ou antropológica, nem
mesmo uma simples discussão política porque tem implicações graves na vida de todos, como
destacou Samuel Huntington no seu "Choque de Civilizações".
Uma das formas mais eficientes de se construir a identidade, em especial quando esta é nova,
tênue e abalada é a partir da oposição ao outro. Talvez por isto o preconceito seja algo tão
arraigado a ponto de parecer natural em qualquer sociedade, sem exceção conhecida.
Curioso que isto ocorra em um momento no qual a ciência, especialmente através do projeto
Genoma, demonstre a unidade essencial do ser humano, a imensidão das suas similaridades
genéticas e o caráter diminuto das suas diferenças cromossômicas. Certamente é um avanço que
a ciência deixe de ser utilizada para justificar o preconceito, mas a prova científica não é
suficiente para bani-lo.
Tal como na fábula do Lobo e do Cordeiro, o chauvinismo - fosse nazista, racista, colonialista,
eurocêntrico ou outra de suas variantes - utilizou a ciência como argumento enquanto esta lhe
dava um discurso que legitimava a diferença. Provado que o cordeiro não pode sujar a água do
lobo porque está rio abaixo, o argumento pode ser descartado.
Como o Lobo, o preconceito busca outros argumentos para devorar o cordeiro ao invés de
simplesmente aceitar as razões do mais fraco. Portanto nada adiantará provar de forma
irrefutável que não há qualquer base genética para o preconceito, buscar-se-ão outras.
Além disso, o preconceito não é um fato biológico - embora alguns, como os adeptos da
sociobiologia tenham tentado justificá-lo como uma tentativa de tornar mais eficiente a
transmissão do código genético. Ele é sobretudo um fato social, faz parte do processo de
socialização, do conjunto de mecanismos simbólicos que as sociedades usam para organizar o
mundo.
Não se "aprende" a fazer parte de uma cultura apenas apreendendo suas estruturas implícitas,
seus valores, enfim seu universo simbólico, mas também - e em alguns casos principalmente -
pela oposição ao outro, ao externo, ao vizinho. Este "outro", bem entendido, geralmente tem
pouco a ver com o inimigo real, é quase sempre uma construção imaginária feita por oposição
aos valores daquela sociedade.
Edward Saïd mostrou o quanto o Orientalismo criou um "Oriente" que jamais existiu, assim
como Huntington demonstrou a falácia de uma dualidade Mundo Ocidental/outros. Mas, a
despeito do extremo brilhantismo da análise de Saïd ela deixa talvez uma brecha, para ele o
Ocidente criou o "Oriente" como uma forma de legitimar a opressão colonial. Contudo esta
invenção parece ter outra finalidade, a de reforçar os valores ocidentais.
Assim como Saïd, e antes dele para que se faça justiça, Garaudy também questiona o caráter
universalista dos valores ocidentais como um chauvinismo disfarçado. Contudo os dois se
irmanam em uma falha talvez mais grave que Huntington corrige, todas as culturas realizam o
mesmo papel e julgam-se centro do mundo.
A previsão pessimista de Huntington - em um livro que não pode deixar de ser lido por quem
pretenda entender o mundo contemporâneo - defende a ideia que o mundo multi-polar que
emerge da Guerra Fria irá dar um certo grau de oportunidade a todas as civilizações para
demonstrarem seu chauvinismo.
Mais do que oportunidade, e aqui é bom começar a se preocupar, ele cria a necessidade pois a
identidade nacional, étnica, religiosa e sobretudo cultural passa a ser um imperativo da
existência e ela é construída sobretudo pela oposição "ao outro". Pouco adiantarão relatórios do
Projeto Genoma demonstrando que entre um esquimó e um bosquímano, entre um holandês e
um pehl não existam diferenças significativas, raça não é um conceito biológico, mas social e
simbólico.
S E G U N D A - F E I R A , 2 M A I O, 2 0 0 5 - 0 6 : 4 5
Islam, Islam, Pessoal, Poesia, Arte, Política, Filosofia e cia.
Edward Saïd, Samuel Huntington,DT
Referência Original: [Link]/portal/37
MR. SLANG E O ORKUT
S E X T A - F E I R A, 1 2 M A I O , 2 0 0 6 - 1 5 : 0 0
A ideia de que só tem valor o texto curto e objetivo é uma extrapolação de um raciocínio
correto, o de que longos textos prolixos recheados de termos ininteligíveis são de utilidade
duvidosa. Mas ao invés disto destacar a necessidade do bom texto, foi exacerbado para contestar
o próprio texto em si.
Escrever tornou-se então um anátema da modernidade, uma tarefa que todos apressam em
condenar por inútil. Desmerecem-se todos os textos que vão além da burocrática notinha de
jornal e diminui-se o mérito de quem escreve. Para isto escrevem-se livros e mais livros que
esforçam-se para ensinar em um texto primário, como as pessoas devem agir em um mundo sem
leitura.
Com esta medida atende-se a duas finalidades, fazer quem lê ou finge ler os livretos e livrecos
ter a impressão que meia dúzia de bobagens de um manual de auto-ajuda podem substituir uma
vida de erudição, e de outro lado se mantem em circulação o livro-mercadoria que de outra
forma poderia se extinguir.
Um ótimo exemplo disto são os livros sobre gerenciamento, coqueluche que há anos transforma
os trabalhadores brasileiros em cobaias de experimentos destinados ao fracasso. Estes livros em
geral falam o óbvio, aquilo que qualquer pessoa com bom-senso faria, às vezes, para fomentar o
debate, fazem questõa de violar o bom senso, a realidade histórica e cultural e criar modelos
absolutamente fictícios. Em qualquer dos casos há por detrás destas ideias e dos que as
compram um picaretagem tanto implícita quanto explícita.
O conceito do que é instrumental por si só já é suspeito, afinal qualquer bom livro tem muito a
nos ensinar sobre a vida, ainda que o leiamos não para adquirir este conhecimento, mas pelo
deleite do saber. Um bom livro de literatura geralmente é muito mais instrumental que um árido
texto acadêmico no qual a finalidade é tornar a leitura tão maçante que ninguém mais se
aventurará a folhea-lo.
Particularmente parece que muito do que foi dito contra o texto está profundamente marcado
por um sentimento de inveja e despeito de quem não sabe escrever contra quem sabe - e para
saber escrever é essencial saber ler, Não se conhecendo uma única exceção neste sentido. Mas
mesmo se ler fosse um crime ainda assim quem gosta de ler continuaria lendo.
S E G U N D A - F E I R A , 2 M A I O, 2 0 0 5 - 0 6 : 3 2
Já disse em artigo escrito há alguns meses que Quixote encarnou tanto a rebeldia que se rebelou
contra seu autor. Criado pelo Cervantes entrado em anos para ironizar o aluado Cervantes jovem
que levou a ambos ao cárcere sarraceno e a uma existência infeliz.
Mas Cervantes fracassou no seu intento e acabou se submetendo à inflexível vontade do fidalgo
da Mancha, assim um livro previsto para condenar os ingênuos sonhos da juventude acabou por
se tornar um símbolos deles. Por quais caminhos se deu esta metamorfose ainda Não se sabe,
talvez nem Cervantes tivesse percebido que todo o ódio vingativo que tinha sobre seu duplo
jovem acabaria sucumbindo à coragem inconformada da vítima de seu escárnio.
Não há melhor antídoto contra o racionalismo frio e a lógica previsível que ameaçam o mundo -
e sobre as quais tenho falado em artigos anteriores - do que uma dose de quixotismo. É nesse
quixotismo que encontraremos a cura para a maquinização do homem, é com as mesmas armas
que Quixote combateu os gigantes disfarçados de moinhos que se combaterá o lado negro do
nosso futuro.
Enquanto restar algo de Quixote em nós, nossa alma não será a alma de um escravo, tampouco
poderemos ser confundidos com autômatos. Enquanto Quixote habitar nosso espírito
manteremos a dignidade e a ânsia de fuga como a do jovem Cervantes na masmorra sarracena,
cuja audácia seduziu os mouros e o tornou um prisioneiro respeitado.
Quanto haverá ainda deste Quixote num mundo cada vez mais frio, mais "racional", mais
previsível é um mistério. Certamente há muitos homens limitados e vis a espancar os pobres
quixotes e sanchos que restam, menos por os julgarem loucos do que por temer a
imprevisibilidade deles.
Mas isto significa muito pouco porque a massa medíocre perseguiu a nata de talento durante
toda a história da humanidade, mas nunca conseguiu êxito. O mundo que temos hoje nos foi
dado por esta pequena elite que a súcia medíocre jamais foi capaz de conter ou controlar, cujas
ideias se impuseram pelo próprio valor perante a multidão de preconceitos e sensos-comuns da
plebe ignara.
Os medíocres estão condenados a não deixar sua marca no futuro a não ser como objeto de
piadas e escárnio. Até hoje o futuro pertenceu aos Quixotes e só a eles o mundo pode agradecer
o que se conquistou de bom.
Mas agora o mundo pode mudar em definitivo. Quixote é chamado a comandar suas hostes em
mais uma batalha imaginária na qual se decidirá, em definitivo, se o mundo se verá livre dos
gigantes ou estará repleto de moinhos.
Chegou-se a um ponto no qual se deve decidir se o mundo dará o definitivo salto para a
liberdade e o progresso real, ou se ele estagnará no pântano fétido de um racionalismo estéril e
uma lógica improdutiva. A massa medíocre, como sempre, será apenas figurante neste processo,
preocupada apenas com suas mesquinharias cotidianas e suas obras vis.
Mas lá do alto o embate entre as elites será mortal, homem ou máquina, racionalidade ou
imaginação, progresso ou estagnação, liberdade ou escravidão. Tudo isto será resolvido talvez
ainda durante o período de nossas vidas, no mais tardar na da existência de nossos filhos.
Alguns autores falam em ditadura da mediocridade, e eu por muito tempo achei a expressão
correta. Hoje já é claro que é um conceito inexistente, um paradoxo em si mesmo porque a
mediocridade é incapaz de dirigir qualquer coisa. No máximo existe a ditadura de uma elite que
utiliza os sensos-comuns da mediocridade para controlar a massa e faze-la acreditar que se faz
algo em nome da multidão.
Será criado um mundo no qual a massa será livre para libertar-se da mediocridade e onde as
portas estarão abertas aos talentos, ou um mundo no qual o pouco que restar do talento será
usado para manietar em definitivo a massa. E não resta mais muito tempo para esta escolha.
S E G U N D A - F E I R A , 2 M A I O, 2 0 0 5 - 0 6 : 2 4
Vivendo a quase 1000 km de distância, raras vezes temos oportunidade de nos ver fora das
férias, as quais nem sempre consigo, e conversas rápidas pelo telefone. Contudo há tantas
semelhanças de comportamento, de jeito, de personalidade entre eles e eu, a despeito da pouca
convivência, que sou obrigado a reconhecer que o meio não é tão relevante.
Não é um pensamento muito lisonjeiro comigo mesmo, afinal representa que os valores e a
disciplina que tenho ou tento ter comigo é muito menos o fruto do meu esforço pessoal do que o
resultado mais ou menos arbitrário de alguma combinação de genes. Sinto sempre os
observando que vou me tornando aquilo que realmente sou quando me esforço para me
aprimorar, portanto nada mais faço que minha obrigação.
Mesmo sem gostar de ler, sem ter lido nem uma fração ponderável dos livros que li com a idade
dele ele escreve bem. Curioso saber que mesmo certa criatividade de que me orgulho é mais o
resultado de alguma complexa equação bioquímica lá nas minhas células, mais do que algo que
foi desenvolvido, cultivado. Só consigo, então, pensar em tantos pensadores - Shankara, Platão,
Plotino, Nicolau de Cusa, Ibn Sina, Surahwardi, ibn ´Arabi – que destacam que não aprendemos
mas apenas relembramos e nem me surpreenderia se este conhecimento chegasse de alguma
forma objetiva.
S E G U N D A - F E I R A, 1 2 F E V E R E I R O , 2 0 0 7 - 0 7 : 4 3
Em um momento no qual é tão comum a incorporação dos métodos gerenciais privados na área
pública – processo na maior parte das vezes positivo, mas nem sempre realizado respeitando-se
as especifidades das questões de Estado e da dimensão política – é preciso dizer que a
“accountability” fez o caminho inverso. Ela surge como ferramenta pública de Estado na
Inglaterra Medieval – o termo em si já era usado no Século XIII para assinalar a
responsabilidade do Gabinetes e Conselhos.
Acreditamos que a noção de governança deve fazer parte da vida política, substituindo as visões
pessoais e ideológicas por uma concepção plural fundada em marcos objetivos, sujeita a
avaliação constante por parte da sociedade e na qual múltiplos agentes possam contribuir e
interferir em seu aprimoramento constante.
Para que esta visão moderna tenha sucesso em sua implementação é fundamental a construção
de ferramentas de accountability eficientes e a política de comunicação é o fundamento delas. A
grande dificuldade que se apresenta é na migração de uma visão patrimonialista de comunicação
herdada da publicidade e do marketing – na qual a preocupação é enaltecer o produto, quase
sempre a partir de argumentos emocionais – para uma visão cidadã na qual a comunicação está
a serviço do controle social efetivo do poder público.
Quando o “cliente” deixa de ser o político – e por isto friso novamente a questão do
patrimonialismo, do uso do Estado em proveito privado – e passa a ser quem efetivamente paga
pelos serviços – ou seja, a sociedade – a visão de vender a imagem do serviço público como se
fosse um sabonete ou um iogurte torna-se obsoleta, ineficiente e com o passar do tempo e
aumento do grau de informação e politização da sociedade provocará mais aversão do que
resultados efetivos.
A Câmara Municipal de São Paulo dá um passo novo ao trocar o imediatismo de uma política
de comunicação ao velho estilo da propaganda de sabonete pela construção de uma política
nova, na qual a comunicação é sobretudo um meio justamente da “accountability” com
prestação de contas sobre o que está sendo feito, transparência nas ações, instrumentos de
interação na qual a população pode não só checar as metas e objetivos mas manifestar-se sobre
eles.
A natureza da relação de um órgão público com a sociedade não é a mesma que a de uma
empresa com seus clientes. Ela é na realidade muito mais próxima da relação que uma empresa
tem com seus acionistas e investidores. É este novo enfoque que troca a propaganda pela
“accountability” que será capaz de resgatar a identidade e credibilidade da comunicação pública
e é nestes métodos da comunicação corporativa que se devem buscar ideias e fórmulas passíveis
de serem aplicadas nesta área nova.
O primeiro enfoque que a Câmara tem buscado é não temer o diálogo e o questionamento. Sem
medo de colocar seus argumentos – porque a Câmara tem argumentos e quando ela toma uma
atitude não o faz por impulso, mas motivada por uma análise da situação – e de ouvir os contra-
argumentos da sociedade, de colocar o debate no campo adequado que é o da discussão política
e, por fim, inclusive de reconhecer a validade dos argumentos da sociedade se for o caso.
A segunda preocupação é resgatar o termo publicidade em seu sentido original e mais amplo,
que é o de tornar público. A Câmara colocou todos os seus plenários na Internet, para que o que
ocorre no Legislativo possa ser acompanhado todo o tempo, não só durante a sessão, mas em
todos os momentos.
A terceira preocupação é assegurar que as pessoas possam expressar seus pontos de vista e
serem ouvidas – e tenho frisado sempre desde o primeiro discurso do meu mandato que abrir a
palavra para todos é simples, o desafio é garantir que esta palavra seja ouvida porque é isto que
faz toda a diferença – com a criação da Ouvidoria.
Outro ponto fundamental é que para que a accountability seja eficiente é preciso que aquilo que
acontece na Câmara possa ser compreendido em profundidade e com isto estamos criando a
Escola do Parlamento que tem também o objetivo de formar a sociedade civil para uma
compreensão e intervenção mais qualificada nos processos de decisão da Câmara.
A história não é um amontoado de curiosidades, mas é justamente aquilo que nos permite saber
quem somos, de onde viemos e a construir os projetos de para onde queremos ir. Assim uma das
principais ações voltadas para o público geral não tem sido nenhuma grande pirotecnia e gastos
vultosos, mas a ação simples e barata de caminhar pelo centro histórico segundo roteiros
temáticos que estimulam a reflexão e a discussão sobre o assunto da caminhada.
Há ainda muito a fazer, em especial com a utilização dos recursos tecnológicos da Sociedade da
Informação na qual jamais foi tão barato e simples criar canais de comunicação – e canais de
comunicação nos dois sentidos e não apenas do órgão público para a sociedade – e
disponibilizar informação através dele. O desafio é implementar estas ferramentas no campo
técnico mas também ter o que dizer no campo político e, sobretudo, ter a capacidade de ouvir
porque é desta última preocupação que virá o elemento essencial que dá suporte e sentido ao
conjunto: a credibilidade.
S Á B A D O , 1 8 J U N H O, 2 0 1 1 - 1 0 : 3 6
Comunicação, Política
Parlamento, comunicação, PP
Referência Original: [Link]/portal/10774
PARA UM MUÇULMANO IRADO
Q U I N T A - F E I R A, 7 S E T E M B R O , 2 0 0 6 - 1 5 : 4 1
Islam
Referência Original: [Link]/portal/10113
MENSAGEM NA GARRAFA
S E X T A - F E I R A, 1 1 A G O S T O , 2 0 0 6 - 1 3 : 5 6
Pessoal
Referência Original: [Link]/portal/10077
CEGUEIRA TEMPORÁRIA
Q U A R T A - F E I R A , 9 A G O S T O, 2 0 0 6 - 1 7 : 2 5
O futuro
Manuel CastellsNTICs, PP
Referência Original: [Link]/portal/10769
A VERDADE E SEUS AMIGOS
S E X T A - F E I R A , 3 0 J U N H O, 2 0 0 6 - 1 7 : 4 9
Pessoal
Referência Original: [Link]/portal/10040
OLHAR DO CORAÇÃO
T E R Ç A - F E I R A, 1 0 O U T U B R O , 2 0 0 6 - 1 5 : 1 6
Islam, Pessoal, Poesia, Arte, Educação, Literatura, Cinema, Política, Filosofia e cia,
Religião
Referência Original: [Link]/portal/10081
A ANIQUILAÇÃO
"As opiniões dos homens sobre Deus surgem apenas na imaginação deles; e é absurdo tentar
deduzir alguma coisa do que dizem: bem ou mal eles o disseram de si mesmos" ( Farid Attar,
Mantiq ut-tair)
O homem sempre tentou entender a natureza da divindade, mas ao refletir sobre isto está
condenado a limitar esta compreensão ao seu próprio universo de ideias e símbolos e portanto
condenado ao fracasso. Aliás o termo refletir parece ser mais do que adequado porque em
praticamente todos os casos o homem pensa ter visto Deus quando na verdade vê apenas o
reflexo de si mesmo, de seus valores, paixões e personalidade.
Um conhecido texto sufi diz que Deus é como um espelho que partiu-se em milhares de pedaços
e caiu sobre a terra, cada homem ao examinar a parte do espelho que encontrou olha para ele e
diz: É Deus.
Numa simplificação extrema tal percepção gerou o panteísmo - a noção de uma unidade
intrínseca de todos os homens entre si e entre eles e a divindade - que certamente é uma das
ideias mais estranhas já produzidas pela filosofia. Não estranha naquele sentido mencionado por
Swift - que por sua vez baseou-se nos romanos - de que qualquer ideia por mais estapafúrdia
que fosse seria capaz de encontrar algum filósofo que a defendesse, mas estranha justamente
porque não pode ser provado ou tampouco refutada em definitivo.
A noção que o conjunto da espécie humana forma um todo superior às partes produziu tanto
belas páginas da literatura como os regimes totalitários - que essencialmente baseiam-se no
ponto de vista que o todo deve controlar as partes e estas devem se submeter àqueles que se
legitimam dizendo representar o todo. Mas o panteísmo é mais radical do que isto na medida
que estabelece um laço direto entre todos os homens e a divindade no qual a percepção da
diversidade não é nada mais que uma ilusão.
Por esta noção o verdadeiro objetivo do homem seria alcançar esta unidade, o que implica - para
os adeptos mais radicais do panteísmo como o polêmico filósofo medieval Ibn Arabi - na
aniquilação da individualidade aparente para eliminar os obstáculos que impedem a integração
na realidade da Unidade.
Para além deste misticismo de boutique que anda na moda - e que na verdade não só Não é
misticismo como é a própria negação do conhecimento esotérico: a superstição - as mais
variadas correntes místicas tem, de uma forma ou de outra, apresentado variações sobre este
mesmo tema. As variantes em geral referem-se ou ao caminho para se chegar a esta unidade ou
ao grau de aniquilação do indivíduo para que se chegue à Unidade, mas não raro usam as
mesmas metáforas.
Borges, sempre impressionado com metáforas e ideias estranhas, dedica um dos textos do seu
Outras Inquisições, a uma delas: a esfera de Pascal. Traçando a genealogia da descrição de Deus
como uma esfera cujo centro está em todas as partes e o centro em nenhuma. A Noção original
parece ter vindo de Platão, mas ela só ganha forma consistente no pensamento ocidental no
Século XII. Quase quatro séculos antes a poetisa muçulmana Rabi'a, contudo, já usava a mesma
imagem em um verso: "Eu sou a Realidade do mundo, o centro e a circunferência, sou suas
partes e o todo" e mais adiante: "É por Meu olho que tu Me vês e tu te vês, não por teu olho
poderás Me conceber".
Em artigo recente comentei uma das últimas encarnações desta metáfora, o filme Matrix, tão
pouco compreendido por aqueles que julgaram tratar-se apenas de mais um filme de ação e
ficção científica. Um dos avatares mais conhecidos da mesma metáfora panteísta: o mantiq ut-
tair (conferência dos pássaros) do poeta persa do século XII Farid Attar.
O texto é personagem frequente dos textos de Borges que chega a esboçar alguns contos
vagamente inspirados nele como a falsa resenha "a aproximação a Almotasin" ou o curioso
texto "as ruínas circulares".
A história é simples, uma pena do simurgh cai no centro da China e os pássaros - que naquela
ocasião procuravam um rei - concluem que o dono de tão esplendida pena deveria reinar sobre
eles. É evidente aqui a assimilação entre uma única pena e o tanto que os homens são capazes
de conhecer da divindade, ainda assim o suficiente para que A admirem.
Inicia-se então uma expedição destinada a encontrar o Simurgh para tentar convencê-lo a reinar
sobre eles. A longa jornada enfrenta adversidade e ao traspassar sete abismos - o último dos
quais se chama justamente aniquilação - só restam 30 pássaros. Descobrem eles então que o
Simurgh não é outro pássaro senão eles mesmos, mas este aprendizado só veio aos que tiveram
a coragem de enfrentar os perigos da senda e a aniquilação.
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Islam, Pessoal, Poesia, Arte, Literatura, O futuro, Cinema, Filosofia e cia, Religião
Swift, Rabi'a al-Adawiyya, Rabi'a al-Adawiyya, Jorge Luis Borge, Jorge Luis Borges,
Farid ud-din Attar, Farid ud-din Attar,DT
Referência Original: [Link]/portal/1
A AVERSÃO ÀS ELITES
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Dificilmente Balzac imaginaria que seu livro tivesse tanto fôlego pois é muito mais uma coleção
de epigramas aos desafetos inspirados sobretudo pela vingança. A aguçada lâmina fria do
epigrama parece não poupar a ninguém, nem mesmo aos raros tipos nos quais ele reconhece o
talento mas lamenta que este seja consumido na rotina medíocre e nos interesses rasteiros dos
jornais.
Tem se a impressão que a imprensa não evoluiu nada nestes quase duzentos anos, que
continuam a habitar o mundo da imprensa os mesmos estereótipos - ou seriam arquétipos? - dos
estraga-papel da França balzaquiana.
Se esta estagnação de dois séculos já é em si preocupante, ainda mais o é o fato de que Balzac
nem de longe pretendeu realmente fazer um retrato da imprensa, mas apenas vingar-se dos
desafetos. A obra não é um estudo científico, mas uma coleção de epigramas emoldurada pelo
talento de Balzac como frasista.
Ele não faz um retrato, mas uma caricatura dos jornalistas de sua época; contudo esta caricatura
é um excelente retrato da imprensa local contemporânea. Estão todos lá, a começar deste que
vos escreve, num retrato quase perfeito cuja necessidade de retoques é mínima. Os mesmos
perfis, as mesmas ambições, as mesmas ilusões, as mesmas estratégias de sobrevivência, os
mesmos expedientes, só faltam os mesmos talentos, material cada vez mais raro.
No máximo um ou outro dos personagens reais consegue reunir os defeitos de dois ou três dos
tipos retratados - nunca as qualidades diga-se de passagem. É provável que se Balzac vivesse
por aí hoje não conseguiria ser tão contemporâneo, ainda mais com um livro que para ele seria
evidentemente datado.
Datado sobretudo porque ele tem a intenção de retratar nem tanto um tipo, mas algumas
personagens da sua época. Imaginaria ele, portanto, que os leitores de outro século, outro país,
outra língua, outra cultura seriam incapazes de descobrir quem eram os personagens reais aos
quais os epigramas eram destinados e portanto a obra Não poderia mais ser decodificada.
Mas há um outro aspecto que chama a atenção na obra amarga e vingativa de Balzac. Ele entrou
para a história como um dos maiores escritores da humanidade, seus detratores Não só Não
puderam evitar isto com todas as suas intrigas e perseguições, como ainda só escaparam do
anonimato absoluto para tornarem-se caricaturas.
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Pessoal
Referência Original: [Link]/portal/10086
FORMA E CONTEÚDO
"O que é escrito sem esforço é lido sem prazer" ( Johnson)
A arte em todas as suas manifestações é prolífera em debates inúteis nos quais se radicalizam
posições já em si extremadas e deixa-se de lado o sábio "caminho do meio". Um dos mais
estéreis nichos deste debate é o que tenta antepor forma e conteúdo.
O estrago nesta área foi certamente maior nas artes plásticas, onde criou-se o mito de que só a
forma é importante e gerou-se uma avalanche de artistas mais preocupados em mostrar que
inovam as técnicas do que em dizer qualquer coisa por menor que seja. O que era uma vaga de
renovação e sensibilidade nos impressionistas acabou por se tornar uma desculpa para iludir o
público nos ultra-trans-neo-vanguardistas.
Em uma frase memorável Borges (desculpem-me os parcos leitores pela citação quase diária de
Borges) diz que quem diz que a arte não deve expressar doutrinas em geral refere-se apenas às
doutrinas que lhe são contrárias.
Na literatura vem se dando processo semelhante e é preciso muita coragem para não admitir que
os grandes escritores deste século mal chegam aos pés dos seus antecessores das épocas
passadas. Com a pretensão de serem cosmopolitas acabam sendo provincianos ao extremo, o
pior tipo de provinciano, ou seja aquele típico intelectual de província que dedica a vida a
maldizer o lugar onde vive e que tenta impressionar os demais não pelo talento, mas pela
adoção mecânica das últimas modas do mundo civilizado.
O romance psicológico que de início era novidade tornou-se norma irritante, repetitivo,
desculpa para esconder a falta de uma boa história. Borges, de novo, em um texto no qual
comenta a obra de Hawthorne contrapõe o conto ao romance afirmando que no primeiro o eixo
se encontra no enredo e no segundo nos personagens. Como toda classificação também a de
Borges tende a ser arbitrária, mas não de todo desprovida de utilidade.
Há na literatura atual uma falta absoluta de contistas neste sentido de Borges, Não no Brasil,
mas no mundo. Faltam "griots" modernos que sejam contadores de história, ao menos para o
meu gosto como leitor.
Tento cumprir uma velha obrigação legada por um professor já falecido de ler a Montanha
Mágica de Mann, mas nem a sensação de que lá há uma mensagem que ele teria me deixado me
anima a escalar as 800 páginas de perfis psicológicos e diálogos pretensamente intelectuais -
que na gíria de hoje chama-se "papo-cabeça" por algum motivo que escapa ao meu controle.
Se eu que sempre fui um rato de biblioteca, que devoro livros atrás de livros não consigo ler,
assim como jamais conclui o Ulisses de Joyce que tentei ler infindáveis vezes, imagino que o
texto deve realmente ser muito chato (quem sabe não foi esta a mensagem que o professor quis
me passar?). Já nem falo da intragável literatura americana da qual só salvo Poe, Hawthorne e
alguma coisa de Steinbeck.
Avalio que nestes textos todo há um desequilíbrio entre forma e conteúdo, há uma maestria no
manejo da forma que não é acompanhado nem de perto pelo conteúdo. O imenso painel
humano, psicológico e ideológico da Montanha Mágica, por exemplo, soa artificial, como se
fosse um experimento de laboratório ao invés de parecer com o microcosmo que Mann tentou
criar.
Que os adeptos da forma me perdoem, mas certamente uma boa história mal contada é ainda
bem contada, mas uma bela composição formal sem conteúdo algum - como a poesia parnasiana
- não é absolutamente nada. Daí concluo que o conteúdo é superior à forma, ainda que não
possa prescindir dela e ganhe muito se estiver embalado em uma forma adequada.
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Pessoal
Referência Original: [Link]/portal/10108
O MEDO DA IMORTALIDADE
O Homem Bicentenário (The Bicentennial Man) que estreou nos cinemas brasileiros esta
semana traz uma edulcorada adaptação de dois contos de Isaac Asimov, como todos já devem
ter lido à exaustão em milhares de textos sobre o filme. Um dos contos preferidos do próprio
Asimov, O Homem Bicentenário fica bastante diluído dentro da trama da novela "O Homem
Positrônico" na adaptação cinematográfica.
Há dois enredos concorrentes dentro da trama, motivada pela mistura das duas histórias. A ideia
de um robô lutando para ser reconhecido como humano - o enredo de The Positronic Man - é
hoje mais ou menos rotineira (embora não o fosse quando Asimov escreveu a história em 1976).
A discussão sobre o status dos robôs já surge com o nascimento da palavra em uma obra do
início deste século e, evidentemente, há ali uma discussão também sobre o que significa ser
"humano". Certamente a versão mais importante deste enredo está em Blade Runner, filme que
certamente desenvolve muito melhor o tema que o filme de Chris Columbus.
E não é para menos, afinal Asimov fazia questão de fazer os seus textos serem o menos
aproveitáveis possível para o cinema, ao contrário de tantos autores de hoje. Assim qualquer
adaptação cinematográfica da obra deste Balzac do Sci-fi já conta de cara com a má vontade do
autor.
Mas há um outro tema no enredo que quase passa desapercebido, embora seja o conteúdo
principal do conto que dá nome ao filme: o horror à imortalidade. No conto um homem que
gradativamente se torna "artificial" pela substituição de seus órgãos e tecidos luta para morrer
porque a dor de estar sempre perdendo as pessoas próximas, de viver em um passado distante,
de se sentir a única coisa estática em um mundo em constante mudança é um peso excessivo
para ser carregado.
No filme esta temática quase desaparece, fica a impressão que para o protagonista ser
reconhecido como humano é mais importante do que viver. O fardo tedioso da imortalidade
tampouco é um tema novo, embora Asimov o tenha trazido do reino da mágica para o da
realidade cotidiana - realidade que por sinal está muito próxima.
Borges refere-se ao tema inúmeras vezes, a mais destacada dos quais deve ser no conto "Os
Imortais" no qual a eternidade é uma eterna monotonia no qual a única esperança é encontrar
um meio de morrer. Curiosamente parece que os dois autores, tão contemporâneos e tão
diferentes, tiveram a inspiração numa mesma fonte: "As viagens de Gulliver" de Jonathan Swift.
Em um dos lugares visitados pelo autor existem homens que são incapazes de morrer. Não são
semi-deuses ou heróis, mas antes seres solitários e de mau-agouro, distantes dos seus
contemporâneos com os quais são incapazes de se comunicar tanto pelas mudanças da
linguagem quanto pela de costumes.
Em Borges a referência é clara, é óbvio que ele está se remetendo ao texto de Swift como
indicam várias pistas ao longo do texto e no próprio prólogo da obra. Em Asimov ela é menos
evidente, mas Não menos presente. Asimov era um ávido leitor e admirador de Swift, há
inclusive uma versão das "Viagens" comentada por ele e escrito pouco após o lançamento de
"The Bicentennial Man".
Mas em uma produção destinada ao grande público seria mesmo pouco provável que um tema
tão lúgubre, tão distante da eterna ambição do homem pela imortalidade, tivesse demasiada
importância. Talvez por saber destas tendências simplificadoras do cinema Asimov tivesse tanto
horror a ver seus filmes transformados em livros.
Há contudo um grande mérito no filme. É talvez um dos poucos filmes de ficção científica dos
últimos tempos no qual os efeitos especiais desempenham um papel tão pequeno, secundário
mesmo, em relação ao roteiro. O diretor parece ter acertado em apostar mais na força da história
do que na parafernália eletrônica que, em muitos casos, é o único atrativo de algumas produções
recentes do gênero.
Infelizmente ao fazer isto acrescentou uma certa dose de pieguice da qual o filme poderia
prescindir, mas que não torna a adaptação tão desagradável a ponto de não poder ser assistida.
Certamente o filme decepciona os fãs do gênero que associam ficção científica com cenários
futuristas ou rocambolescos episódios de ação enfeitados com computação gráfica, mas estes
adereços em geral tem como principal finalidade disfarçar a falta de um enredo, o que Não é o
caso de "The Bicentennial Man".
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No seu sentido tradicional a única forma de se evitar o Karma – tem tem muito pouco a ver com
estas noções popularizadas por aí para consumo dos superficiais – é a não-ação. Qualquer ação
gerará Karma, produzirá efeitos negativos que mesmo sendo feitos involuntariamente
aumentarão a nossa dívida, porque eles dependem exclusivamente dos resultados, não das
intenções que tínhamos aos executá-los (nem falo aqui das intenções falsas, hipócritas ou
racionalizadas, só das intenções que realmente eram boas). Toda ação parte, nestas doutrinas, no
fundo de um orgulho do homem que considera-se capaz de compreender o mundo e interferir
nele. Só são louvados, portanto, entre os os que agem aqueles no extremo da santidade, porque
no caso quem age não é o próprio, mas a divindade que age através dele.
Para os homens normais, não agraciados com a benção da santidade, a tentação da ação é
sempre grande demais e neste ponto as teologias se complicam. Acho que a única boa
perspectiva que já vi sobre isto é a de um guru hindu que recomenda que se passe pelas ações da
vida com empenho nas tarefas mas desapego a elas e as cosias do mundo, tal como uma boa
babá cuidaria de forma adequada de uma criança mas não se apegaria a ela quando o serviço
estivesse terminado. Em muitos sentidos seria este o ideal de viver como um profissional. De
forma mais literária é o mesmo que Pessoa diz quando fala de seu trabalho com o Patrão
Vasquez. De minha parte, mais fraco que Pessoa, não seria capaz de uma vida profissional sob
um patrão Vasques.
Toda esta teologia tem uma profundidade que até consigo vislumbrar e quase me convence, mas
não me sinto escapar a roda das ações, sinto-me empurrado pelo destino a ela e não só as
pequenas ações cotidianas, nem mesmo as grandes decisões pessoais, mas mesmo às grandes
decisões sociais e políticas nas quais ainda que modestamente sou impulsionado sempre a
interferir.
Por mais que uma das minhas passagens preferidas do inquietante livro de Pessoa que cito na
epígrafe seja:
Revolucionário ou reformador — o erro é o mesmo. Impotente para dominar e reformar a sua
própria atitude para com a vida, que é tudo, ou o seu próprio ser, que é quase tudo, o homem
foge para querer modificar os outros e o mundo externo. Todo o revolucionário, todo o
reformador,
é um evadido. Combater é não ser capaz de combater-se. Reformar é não ter emenda possível.
O homem de sensibilidade justa e reta razão, se se acha preocupado com o mal e a injustiça do
mundo, busca naturalmente emendá-la, primeiro, naquilo em que ela mais perto se manifesta; e
encontrará isso em seu próprio ser. Levar-lhe-á essa obra toda a vida.
E certamente em nenhum campo a tentação da ação é tão grande e tão perigosa como nesta da
política. Em tão poucos outros lugares – porque aqui se trata de lidar com aquilo que é de todos
e para todos – ela é tão capaz de produzir resultados desastrosos mesmo quando se tem a melhor
das intenções, assim como é tão possível perder-se em labirintos tortuosos de estratégias e
táticas e acabar fazendo o contrário do que realmente se deseja. Até por isso considero leitura
obrigatória e recomendo a todos os jovens que sentem a vocação da política neles que leiam “A
Eminência Parda” de Huxley, terrível retrato do que a noção de que os meios justificam os fuins
pode levar quando se é envolvido pelas “necessidades táticas”.
Por outro lado a situação política no Brasil e no Mundo é tal, tão nivelada por baixo se encontra,
que a existência ainda de pessoas que erram tendo vontade de acertar é incapaz de provocar
dano maior do que aqueles que erram porque querem errar mesmo. Talvez isto apreça uma
racionalização e talvez até seja, mas lá estou eu sempre arrastado ao olho do furacão mesmo
sem fazer nada para isto, não posso interpretar isto senão como um sinal de bom alvitre.
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Não é raro se ver o conceito aplicado até mesmo de forma positiva, demonstrando o
desconhecimento de seu verdadeiro sentido. Em essência e muito a grosso modo, "Indústria
Cultural" significa a transformação de bens culturais em meras mercadorias. Neste processo elas
deixam de ser obras de arte destinadas à apreciação do público para se transformarem em
produtos de consumo.
Adorno é especialmente radical e pessimista quanto a este processo que na visão dele destrói o
valor cultural dos produtos e aliena o homem do prazer da arte. Para ele este processo de
mercantilização dos bens culturais é um esforço do sistema para se apropriar inclusive do tempo
de lazer e ócio do trabalhador, alienando-o de si mesmo e da humanidade não só durante o
tempo de trabalho.
Ao mesmo tempo a Indústria Cultural esforça-se para transformar toda a obra cultural em algo o
mais palatável possível e com isto nivela por baixo toda a produção cultural, como ele defende
por exemplo, no ensaio "O fetichismo na música e a regressão da audição".
O conceito de fetichização dos bens culturais, tal como é desenvolvido em Adorno, talvez
forneça uma pista importante para se compreender também outros aspectos da sociedade pós-
moderna. Até que ponto Não é possível falar, por exemplo, de uma fetichização da fé,
transformando a salvação em mera mercadoria e a apreciação das palavras reveladas como um
setor específico da indústria de espetáculos?
Consumiria-se pregações assim como se consome a música da moda na FM, não pelo valor
intríseco da mensagem, pelo prazer e reflexão que ela proporcionaria, mas da mesma forma
como se consome um iogurte ou se veste uma roupa de grife.
O espaço mal delimitado entre o sagrado e o profano - distinção essencial e comum a todas as
religiões - deixa de ter qualquer sentido prático nesta "Indústria Hierática" e passa até a ser visto
de forma simpática a adoção de práticas antes consideradas profanas - como a adoção de
estratégias de marketing - em substituição às práticas rituais tradicionais.
Nesta religião mercantil o conteúdo da mensagem em si deixa de ser importante,
transformando-se em ponto secundário como determinante da fé. Em seu lugar passa a ocupar o
centro de todo o processo apenas o aspecto da eficiência dos meios para se comunicar com os
fiéis - medido não mais em termos de adequação ao seu conteúdo religioso, mas sim na
quantidade de fiéis que é capaz de atingir.
Evidente que este não é um processo pacífico. Ele provoca reações mesmo quando o fenômeno
desta mercantilização não é percebido em sua concretude e totalidade pelas lideranças
religiosas. De um lado ele provoca a onda de fundamentalismos que invade as mais diversas fés,
que para se opor à dissolução de conteúdo das fés mercantilizadas aferram-se à letra da
Revelação.
Curiosamente este tipo de reação acaba também por ser mercantilizado e Não é estranho que os
tele-evangelistas americanos - pioneiros deste processo de mercantilização - sejam em geral
fundamentalistas. Contudo é preciso ver que a mercantilização aqui se refere mais à adoção de
uma visão competitiva e destituída de conteúdo do que ao simples uso da religião como uma
fonte de renda de proporções industriais.
Esta última é apenas um momento extremo, talvez uma consequência, de um outro processo
muito mais sutil que aos poucos anula as diferenças entre uma religião e um ramo específico da
indústria de entretenimento. O resultado do processo, que é o que interessa aqui, é a perda de
sentido religioso de se frequentar algum culto.
Outros meios de resistência a este processo, como o desenvolvimento de uma crença religiosa
que enfatiza mais a prática cotidiana das mensagens religiosas, encontram-se em uma situação
inusitada de não atenderem às necessidades religiosas das suas comunidades. E mesmo este fato
acaba por ser utilizado como argumento em prol da religião mercantilizada.
Cria-se então um sistema de valores tipicamente capitalista no qual a verdade religiosa passa a
ser medida em função do número de fiéis que ela é capaz de mobilizar e não por seu conteúdo
intrínseco. A oposição recente entre o padre pop-star reunindo multidões enquanto igrejas de
tipo tradicional ou com sacerdotes ligados à Teologia da Libertação vazias é bastante
elucidativa a este respeito.
Mas este fenômeno não é de forma alguma exclusivamente católico, ou mesmo cristão.
Denominações protestantes mais tradicionais são dadas como "ultrapassadas" por nem de perto
chegarem aos inflados números obtidos pelas novas seitas que utilizam em larga escala são
recursos modernos de propaganda e marketing para vender o seu peixe. Nem mesmo o ascético
budismo escapa deste processo, como fica claro ao se ver o Dalai-lama posando de garoto
propaganda de ideias um tanto quanto alheias ao budismo e se tornando de líder religioso em
mais um ícone da sociedade de consumo.
Esta salvação-mercadoria é preocupante não só porque esvazia de conteúdo mensagens
religiosas que atendem a uma necessidade social, mas também, e sobretudo, porque leva no
extremo às diversas fés a uma postura de enfrentamento e colisão, a um comportamento similar
ao da concorrência acirrada de companhias que lutam sem limites para obter mais
consumidores. Esta noção acaba por tornar impossível qualquer perspectiva de entendimento
futuro.
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Há uma raiz bem profunda na intolerância construída por alguns milhões de anos de seleção
natural e evolução, nos quais o homem – assim como nossos parentes mais próximos
chimpanzés e bonobos – viveu disperso em pequenos grupos de base mais ou menos familiar,
lutando por recursos escassos de um território mais ou menos delimitado contra outros pequenos
grupos. Desmond Morris, no clássico “O Macaco Nú” faz inúmeras especulações ousadas sobre
o quanto da nossa estrutura psicológica e social tem seu cerne na biologia, enfatizando em
especial esta questão da nossa programação biológica para vivermos em pequenos grupos, a
qual em certa medida nos “perseguiria” mesmo nas grandes metrópoles onde vivemos com
milhões de pessoas mas convivemos intimamente ainda em pequenos grupos.
De positivo, contudo, nesta herança biológica, ainda segundo Morris, está o fato de que ao
mesmo tempo também fomos depurados pela seleção natural para sermos mais sociáveis e
menos agressivos dentro do grupo, com relações de dominância dentro do grupo, inclusive
quanto ao gênero, muito menos marcadas do que em qualquer outra espécie animal. Também é
necessário apontar que esta tolerância interna ao grupo não é marcada ou diminuída por nenhum
elemento físico e a relativa igualdade do grupo torna o homem – como outros primatas
antropomorfos mas em maior grau – desde sua origem um animal político que deve compor
alianças ao invés de utilizar a simples força bruta como é o usual em outros bandos de
mamíferos.
A esta herança genética dos pequenos grupos marcados por forte solidariedade interna e
propensos a defender com violência seu território por milhões de anos devem-se somar algumas
dezenas de milhares de anos de vida social em pequenos agrupamentos – como aldeias e
vilarejos - mais ou menos sedentários. Nestes agrupamentos também se repete o modelo de uma
convivência limitada com o “outro” mediada às vezes pela guerra e às vezes pelo comércio e
pela política mas sempre limitada a um caráter complementar e intermitente.
O confronto destas novas identidades serve de combustível a ser continuamente aceso nas
disputas políticas e geopolíticas, tornando-se mais sérias na medida que os agrupamentos
humanos e as dimensões imperiais vão crescendo. Uma marca relevante e contraditória deste
processo está no surgimento e crescimento das religiões com pretensões universalistas que
ocupam o espaço ideológico das religiões tradicionais – estas últimas evoluindo daquelas
crenças da tribo como “umbigo do mundo” e centradas na supremacia de um povo e lugar.
A importância das crenças universalistas é fundamental porque pela primeira vez se tem um
esforço de compreender a humanidade como um todo, não mais como um amontoado de tribos,
povos e nações, mas como uma unidade. Ao mesmo tempo é contraditória porque ao contrário
das crenças tradicionais – nas quais a adesão era restrita aos membros do grupo que
compartilham história e língua – as religiões universalistas consideram como seu “público-alvo”
o conjunto da humanidade e portanto tem por definição uma natureza expansionista e voltada ao
proselitismo e a conquista, bem como ao embate ideológico. Assim ao mesmo tempo elas criam
as condições para que aquela intolerância criada pela genética e pela cultura sejam superadas
cultural e politicamente mas ao mesmo tempo criam a base ideológica para a construção de uma
nova intolerância marcada pela oposição fundamental entre os já convertidos e os infiéis.
A partir do fim da Idade Média e com a construção de uma economia em escala global, da qual
o colonialismo é elemento essencial, a intolerância torna-se arma fundamental de uma luta por
espaço e recursos, assim como elemento de dominação. A justificativa ideológica da
colonização, assim como dos conflitos internos das nações europeias em construção, fomenta
simultaneamente o fortalecimento das identidades e de outro a aversão ao outro. As identidades
nacionais e linguísticas que eram até então mais ou menos irrelevantes começam a tornar-se
importantes – desaguando nos séculos XIX e XX na construção dos nacionalismos – com a luta
pela constituição dos Estados Nacionais e, como toda identidade, constroem-se em grande parte
por oposição ao outro. Também começa a ser construído neste momento uma outra identidade
ainda meio amorfa mas que terá importância fundamental no momento presente que é a
identidade ideológica artificialmente construída de “negros” e “índios” por oposição ao
“branco” europeu. Criação do europeu colonizador – porque as diversas tribos, grupos
linguísticos e étnicos, da Africa, América, Ásia e Oceania jamais pensaram em si e nos vizinhos
como fazendo parte de alguma totalidade. Esta unidade, porém, em especial no caso dos nativos
americanos e negros escravizados trouxe um importante aspecto de unidade que ganha
relevância no momento moderno.
Deste processo surge um elemento essencial que trará a intolerância ao centro do debate atual
que é o discurso nacionalista. A raiz deste processo está nos “enclosures” colonias porque é ele
que gera simultaneamente uma elite “nativa” - os “ brown sahibs” como eram pejorativamente
chamados pelos tradicionalistas e internacionalistas - educada segundo os valores e ideologias
européias – ainda que em muitos casos, dos quais Ghandi é o modelo arquetípico, estas elites
europeizadas adotem uma nova versão das suas culturas tradicionais para construírem
identidades nacionais próprias e uma massa de despossuídos aos quais não resta outra
alternativa senão emigrarem para as cidades e tornarem-se mão de obra urbana para subsistirem.
O discurso nacionalista atinge seu auge após a 1a. Guerra mundial, impulsionado tanto por uma
base econômica de disputa por recursos naturais e humanos quanto por uma base política do
surgimento de elites buscando seu lugar ao sol e insuflando uma massa crescente de origem
urbana recente, também lutando duramente para sobreviver em um ambiente novo e em disputa
direta com os “outros”. Estas disputas são alimentadas pelas preocupações geopolíticas
importantes que as alimentam e as acirram e tornam definições de grupos linguísticos e étnicos
– até então debates estritamente acadêmicos – em ferramentas da luta ideológica por recursos,
como aponta Hobsbawm em A Era dos Nacionalismos.
Com o agravamento da luta pelos recursos – base afinal de toda intolerância desde que eramos
símios – provocada pela Crise de 29 a Retórica do Ódio que já vinha ensaiando conflitos desde
a metade do século XIX com o surgimento do nacionalismo e a plena operacionalização da luta
ideológica impulsionada pela comunicação de massa chega ao centro do palco com o Nazismo.
Primeira ideologia a conseguir realizar de forma sistemática o programa de intolerância que os
nacionalistas prometiam há mais de um século e inaugurando o conceito de “limpeza étnica”
que tornou-se elemento cotidiano da guerra no século XXI, o Nazismo sistematiza e
potencializa todos os elementos latentes que vinham surgindo e os consolida em um elemento
ideológico mais ou menos homogêneo e fechado.
Tornado insustentável pelo afloramento da opinião pública como ator importante da vida
política a política de eliminação do “outro” ressurge sobre a forma de segregação espacial. Ao
mesmo tempo que o fim do domínio colonial na África e Ásia cria um outro tipo de conflito,
com os novos governos nativos voltando-se contra as minorias étnicas antes utilizadas como
“ponta de lança” da administração colonial. Caso típico deste processo são os judeus na África
do norte, os armênios no Oriente Médio, os indianos na África subsahariana, os Bah´hais no Irã,
os Sikhs e outras minorias na Índia.
Este processo entra em ebulição a partir dos anos 60 com o surgimento de duas “minorias”
relevantes que se tornam ativistas e passam a denunciar e lutar contra os mecanismos de
intolerância, desigualdade e discriminação: os jovens e os homossexuais. Com a entrada destes
segmentos no processo de denúncia da intolerância ficam definidos os grandes grupos mantidos
até então à margem do processo social, econômico e político: minorias étnicas e religiosas – das
quais três tem relevância pelo caráter internacional: negros, nativos americanos e judeus,
mulheres, jovens e homossexuais.
Estes segmentos minoritários, progressivamente e na ordem mencionada, conseguem
importantes vitórias como a eliminação legal das barreiras e restrições – e depois em um novo
passo a condenação legal à discriminação – o acesso às políticas sociais que em muitos casos
lhes eram negadas – e depois a implantação de políticas públicas para reafirmar sua identidade e
resgatar sua condição social. Paradoxalmente e a vitória política destes segmentos que faz surgir
de forma cada vez menos subterrânea a Retórica do Ódio.
Sem dúvida há enorme diferença entre este discurso intolerante ter deixado de ser um discurso
mais ou menos oficializado e governamental para tornar-se palavra de ordem de grupos
reacionários marginais e em muitos casos fora da lei. Contudo este papel marginal não pode
levar a subestimação destas forças da intolerância como demonstrado nos inúmeros e
sanguinários conflitos nos Balcãs e na África nos quais a limpeza étnica esteve no centro da
agenda política.
A existência de uma política social justa é um dos elementos importantes deste processo na
medida em que as dificuldades econômicas fazem acender o painel da disputa por recursos – e
em todos os momentos da história a massa de manobra da demagogia da intolerância e da
Retórica do Ódio sempre foram não os segmentos privilegiados dos grupos dominantes mas
seus elementos mais despojados de oportunidades.
Filosofia e cia
Desmond MorrisIntolerância, PP
Referência Original: [Link]/portal/10771
JORNADAS COTIDIANAS
T E R Ç A - F E I R A, 2 9 A G O S T O , 2 0 0 6 - 1 5 : 1 6
Esperança é matéria-prima em falta para compor os sonhos destas épocas conturbadas. Nestes
tempos sem ética nem valores permanentes, sem solidariedade ou fé, não resta muito para o
homem construir as suas utopias.
A miséria atinge patamares nunca imaginados em um mundo que tem todas as condições para a
fartura. O desafio da fome que assusta o mundo há séculos já foi superado tecnicamente quanto
à produção, mas a distribuição é cada vez mais injusta e as pessoas continuam sofrendo - e
morrendo - com a fome apesar de haver comida suficiente para alimentar uma população
mundial mais de três vezes maior que a atual.
A educação e a saúde só são direitos básicos de todos no papel, na prática o que se vê é uma
queda no nível educacional global - e mesmo uma desvalorização da educação - e a vindicação
das pestes. Contam-se os mortos às centenas de milhares, somam-se os analfabetos aos milhões,
mas o mais grave é que não se dá a devida importância a estes números.
A política torna-se no mundo todo um beco sem saída no qual os demagogos enfiam os
cidadãos e as nações ou "máquinas de governar" - como a prevista pelo padre Dubarle em 1948
- comandadas por frios tecnocratas transformam as pessoas em números e as mortes em
estatísticas. Os que escapam entre ter de escolher entre demagogos ou tecnoburocratas acabam
por se desinteressar da política, deixando o caminho livre para eles.
Por fim, a guerra passa a constar do nosso cotidiano, banalizada no noticiário, e já não nos
incomodamos com elas. As sucessivas promessas de uma Ordem Internacional baseada no
Direito e num vago Estado Mundial tem sido insuficiente até mesmo para conter os pequenos
aventureiros provincianos sedentos de sangue, assim tudo indica que não será suficiente para
conter algum surto de poder mais efetivo das potências maiores.
Os sucessivos banhos de sangue no Kwait, Bósnia, Kossovo, Ruanda, Burundi, Congo, Serra
Leoa, Libéria e Timor Leste não puderam ser contidos só pelos discursos cheios de boas
intenções. Nos casos aonde havia interesses materiais concretos - a posição estratégica de
Kossovo, o petróleo no Kwait e no Timor Leste - a força militar conseguiu - com dificuldades -
evitar uma hecatombe maior.
Nos locais aonde estes interesses não existiam, como na África, o banho de sangue continua a
salpicar os belos discursos de Nova Ordem Mundial, dando a impressão que eles só atendem a
interesses estratégicos americanos e não aos altos valores morais que legitimam as intervenções.
Até agora esta Nova Ordem só enfrentou adversários minúsculos, praticamente bandoleiros de
segunda ou terceira ordem, cuja capacidade de provocar a morte sem medida esbarrava nas
próprias limitações técnicas e materiais. Ainda que este freio não tenha impedido-os de produzir
matanças em larga escala, nada se compara ao poder destrutivo da moderna ciência bélica.
O que acontecerá, por exemplo, quando o urso russo acordar de sua hibernação e se sentir forte,
e faminto, de novo? Todos os velhos satélites soviéticos e as antigas repúblicas não serão alvos
fáceis para uma nova Rússia que, mais cedo ou mais tarde, tentará reconstruir seu sonho
imperial de séculos? E esta dúvida não é minha, mas de um diplomata experiente, Henry
Kissinger: "Quando a Rússia se recuperar economicamente sua pressão sobre os países vizinhos
certamente aumentará. Talvez seja um preço que valha a pena pagar, mas seria um equívoco não
admitir que exista um preço". (Diplomacia, página 291).
Se a pretensa Nova ordem Mundial não foi capaz de conter de forma rápida e eficiente os
fanfarrões sérvios ou os agitadores indonésios, qual seria a chance de evitar que o urso russo
salte sobre os seus vizinhos quando acordar? E isto só para mencionar um caso.
Mas o pior, o que mais motiva a perda de qualquer esperança, não são todos estes fatos em si,
Não é a miséria, a fome, a doença, os baixos índices de escolaridade e ainda mais ínfimos de
conhecimento, nem o fim do humanismo, nem a ameaça latente de guerras terríveis, nem
mesmo o desemprego. É sobretudo a morte da solidariedade por um individualismo materialista
avesso a qualquer freio ético ou moral.
A despeito do que dizem os materialistas, as noções de identidade e valor dos homens, o ideal
humanista, sempre serviram como fonte de um lado de esperança numa bondade inata do
homem e de outro de motivador de sentimentos de indignação com a miséria humana. Hoje
estes valores estão fora de moda e em breve poderão estar extintos.
Se esta extinção se confirmar, se o homem não se conscientizar da importância deles para a
própria sobrevivência da humanidade não há razão efetiva para se ter qualquer esperança.
Seremos vítimas da ganância e dos valores desumanos e só restará assistir ao ocaso da
humanidade.
S E G U N D A - F E I R A , 2 M A I O, 2 0 0 5 - 0 7 : 1 0
O propósito de todo livro, ao menos teoricamente, é ser lido, ainda que por um solitário
punhado de pessoas. Portanto falar de livros que não precisaram ser lidos é algo paradoxal, é
como falar de um não-livro, contudo é impossível ignorar que estes não-livros existem - e em
quantidade crescente - malgrado todo o esforço dos autores e sobretudo devido aos
comentaristas.
Uma categoria dos não-livros é aqueles volumes que tem efeito decorativo nas estantes do
charlatão e do parvenu. Me lembro que uma vez deixei de frequentar uma livraria indignado
com o fato da proprietária ter tentado me vender a Comédia Humana sob o argumento que
ficaria bonito na estante. Tamanho desrespeito a Balzac demonstrava que ao invés de vender
livros ela tinha mais vocação para decoradora de interiores ou coisa similar.
Mas não é desta categoria tão comum que quero falar, mas sim de outra, dos livros que apesar
de não terem sido lidos pela imensa maioria das pessoas, ainda assim desempenharam - e
desempenham - um papel fundamental na história da Cultura Ocidental. Alguém pode se
perguntar, mas como, se não foram lidos?
A resposta é simples, este efeito foi produzido pelos comentaristas, pelas frases tiradas dele,
pelos livros que o parafraseiam, parodiam ou enaltecem, pelas teorias e movimentos que dele
foram derivados, enfim, pelo que as pessoas acham que ele contém. Esta impressão subjetiva do
livro, muitas vezes, é equivocada, distorcida, exagerada, mas muitas vezes tende a suplantar o
próprio livro em importância.
Um exemplo fenomenal é O Capital de Marx. Obra densa, difícil, esquemática, teórica e que em
momento nenhum traz qualquer previsão do que seria a sociedade socialista pregada por Marx -
sem muita ênfase - em outros textos. Só os poucos que se debruçaram sobre este texto árido, que
precisa ser estudado e não lido, sabe que lá não estão contidas as coisas que a maior parte das
pessoas acha que lá existem. A maioria nem imagina, por exemplo, que "O Capital" analisa o
capitalismo e não prescreve o socialismo.
Em alguns casos a impostura - consciente ou não - tem o objetivo de dar ao parvenu apenas
mais um argumento de seu exibicionismo. Comentar o Ulisses de Joyce, por exemplo, já que
dificilmente se conseguirá imaginar obra mais hermética e áspera. Aliás dizer que se leu uma
tradução do Ulisses é como dizer que leu "Grande Sertão: Veredas" de Guimarães Rosa - outro
campeão da empulhação - em inglês, pois os jogos de palavras nos dois textos só permitem que
ele seja adequadamente lido na língua original.
Mas saindo destes casos extremos no qual a impostura joga um certo papel, há outros livros que
por terem se tornado clássicos passam a ocupar um espaço no imaginário social. São obras que
mesmo tendo sido lidas raramente por um ou outro são consideradas como conhecidas por
quase todos.
Quantos, por exemplo, terão lido o Quixote de Cervantes? Mas dificilmente alguém de uma
cultura mediana não identificaria com exatidão a imagem do infeliz cavaleiro tardio às voltas
com moinhos de vento, quantos não saberiam que ele atacava os moinhos porque imaginava-os
gigantes, quantos não se identificam com o personagem louvando o idealismo da sua
imaginação ou a criticando a insensatez das suas fantasias?
Em alguns casos o juízo do imaginário faz justiça ao livro, noutros o eleva mais pelo seu
significado simbólico que pelo seu valor efetivo, noutros ainda lhe diminui os méritos e reduz
uma importância que lhe é muito maior. Em grande parte isto se deve às versões condensadas,
mutilações infelizes que só visam o interesse empresarial das editoras.
As "Viagens de Gulliver" de Swift são um excelente exemplo do último caso - de um livro que
supera em muito os méritos da sua imagem popular. Por algum motivo desconhecido a sátira
profunda, ácida, feroz - até violenta - de Swift foi placidamente entendida como uma história
infantil. É assim que ela é considerada pela maioria da população, de forma praticamente
incompreensível a qualquer um que tenha lido de fato texto tão amargo e pessimista que ironiza
nossos mais profundos e enraizados defeitos.
Em alguns casos há uma distância enorme entre o livro e sua imagem no sentido inverso. Que
não dizer do aborrecido Lusíadas - tão menor que outras obras de Camões - mas tão grandioso
enquanto símbolo da cultura lusitana e da aventura da conquista colonial.
Ou ainda do Édipo Rei, de Sófocles, popularizado pela psicanálise pelo Complexo que lhe leva
o nome mas que em momento nenhum merece, no texto, o sentido que a psicanálise lhe deu.
Édipo Rei fala da inevitabilidade de se lutar contra o destino, não das relações incestuosas que
não desempenham papel na trama a não ser como um castigo a mais dos deuses sobre quem
ousa tentar fugir aos seus desígnios.
Certamente cabe neste panteão de livros que tem seu duplo no imaginário popular - e com
destaque - a "Divina Comédia de Dante". Muitos certamente até se surpreenderiam ao saber que
as clássicas ilustrações sombrias de Gustave Doré - tão ligados ao texto de Dante na imagem
mental que fazemos dela - só foram feitas no século passado. O texto rebuscado, de leitura
árdua, repleto de referências históricas e mitológicas, híbrido da Eneida latina e da Liber Scalae
Mahometi, cheio de pequenas vinganças pessoais do autor contra seus inimigos certamente não
faz jus à importância que o texto ocupa na mente de seus não-leitores.
Câmara Cascudo evidenciou como as imagens criadas por Dante - e outras que se imaginam
dele - penetrou fundo na cultura ocidental a ponto de embrenhar-se nos sertões e acabar na
literatura de cordel. As imagens que se tem de Inferno - principalmente de Inferno, o que é um
fato significativo - foram em grande parte calcadas ou em Dante ou no que se imaginava que
seria Dante.
E, o mais importante, não só como ideias estéticas ou como uma descrição literária do inferno,
mas transcendendo o campo da obra de arte foi suficiente para invadir os domínios da teologia e
da escatologia, confundir-se com os ensinamentos religiosos e daí com as crenças populares.
Quanto não há, por exemplo, de Dante nos sermões terríveis que deram fama a Frei Damião?
A crescente despreocupação teológica com o Inferno, que vem se firmando como tendência da
Igreja Católica, não combate a imagem já firmada nos fiéis de um inferno - imagem esta em
grande parte construída a partir de fragmentos esparsos de Dante e das imagens de Doré.
Comentando as razões que o inspiraram a fazer a tradução da Divina Comédia para o português,
Hernani Donato diz: "Um dia, na mesopotâmia matogrossense, mordido por estupefação e
curiosidade, bisbilhotei o que lia um homem destacado para montar guarda - quinze dias de
solidão atroz - a um caminhão, ilhado pela cheia dos rios. Era um caderno quase desfeito da
Divina Comédia. Lia, mas não entendia. Lia como quem rezava. Rezava com medo respeitoso e
pânico, os horrores do inferno."
A despeito de movimentos como a Renovação Carismática reforçarem estas crenças, este temor
ao inferno que tanto deve a Dante, é preciso observar que isto não invalida o pressuposto que
sem uma imagem oficial do Inferno os fiéis pegam a que está a mão, já que a RCC é
basicamente um movimento leigo.
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Imagino que haja diferença na proporção entre inspiração e esforço conforme a arte. Na dança,
por exemplo, sem dúvida a mais inspirada bailarina precisará de força física e flexibilidade
corporal para dar suporte à criação artística. Mas, ao mesmo tempo, o próprio argumento neste
sentido demonstra o caráter essencial da inspiração porque não basta pegar uma pessoa qualquer
e fazê-la exercitar-se por anos desde a tenra infância, horas a fio todos os dias, orientada pelos
melhores mestres para produzir uma bailarina excepcional.
“Sebastião disse: não tem nada que saber do Belo, deixa o Belo pra lá, artista tem mais o que
fazer. Este pessoal te amola muito? O Pessoal é este de quem os meninos fogem, saindo pelos
fundos, pra não aturar frescuras: mãe, tem um pessoal das artes te chamando.” (Adélia Prado,
Os componentes da Banda)
Ando atormentado por uma série de questões estéticas, antigas e novas, sobre as quais minhas
conclusões jamais significarão nada. Ando cada vez mais avesso a “sistemas” e quanto mais
eles me repugnam mais sinto como a vida é simples quando se dispõe destas caixinhas e
balanças para guardar e pesar tudo que acontece em volta. Até nas aulas de matemática, física e
química dos tempos de escola, tão distantes como se fossem em outra vida, tinha este hábito
terrível de tentar deduzir as fórmulas pela lógica dos processos ao invés de decorá-las. Ainda
hoje impressiona-me que teorias estranhas e belas sobre o universo não tenham vindo de alguma
epifania mística mas deduzidas a partir de fórmulas matemáticas bem comportadas, escritas com
símbolos usuais e não com algum código secreto descoberto em empoeirado alfarrábio.
Não ter sistemas obriga a pensar sobre cada coisa para avaliá-la. Uma das respostas cuja busca
tem me atormentado é sobre o peso da inspiração e do esforço na arte. Grande parte de mim
responde sem hesitar: a inspiração é a essência, é a parte verdadeira da criação. Quero crer
como Pessoa-Caeiro na frase que serve de título que a poesia não se emenda, ela surge ou é
descoberta.
Imagino que haja diferença na proporção entre inspiração e esforço conforme a arte. Na dança,
por exemplo, sem dúvida a mais inspirada bailarina precisará de força física e flexibilidade
corporal para dar suporte à criação artística. Mas, ao mesmo tempo, o próprio argumento neste
sentido demonstra o caráter essencial da inspiração porque não basta pegar uma pessoa qualquer
e fazê-la exercitar-se por anos desde a tenra infância, horas a fio todos os dias, orientada pelos
melhores mestres para produzir uma bailarina excepcional.
Não se trata de negar o papel e a importância da técnica, mas sim de notar-se que ela é
secundária, a essência é bem mais intangível e sem ela mais comumente se produz a
mediocridade – única arte reacionária, nas palavras de Borges. O exemplo inverso demonstra a
validade da proposição, indivíduos dedicados às mais variadas artes, dotados de profunda
inspiração mas desconhecedores por completo da técnica não só são possíveis de existir como
alguns deles tornam-se pais fundadores nas suas áreas e seu conhecimento intuitivo é rotinizado
em técnica pelos seus seguidores.
Há casos mesmo nos quais a técnica parece estragar a imaginação criativa. Sempre me lembro
do caso de Rebolo, o qual para mim perdeu a genialidade da época que era pintor de paredes
estragada pelos estudos em Paris. Ao escravizar a imaginação às regras a técnica em geral
impede sua livre e plena manifestação, focando não no efeito que a inspiração desejou produzir,
mas na forma utilizada para alcançá-la, a qual, até por definição, só faz sentido pela sua
originalidade e em um determinado contexto social e histórico. Até por isto, é importante dizer,
muitas vezes se vai buscar no passado uma ou outra técnica utilizada para recriá-la como
modelo.
A poesia, por não precisar de nenhum elemento externo, é talvez aonde melhor expressão se
pode encontrar destas relevâncias da técnica e da inspiração. Não há qualquer limitação
intransponível de natureza técnica como há na dança, na pintura e até na literatura – já que para
escrever um romance, por exemplo, é necessário uma dedicação e disciplina que beira a
limitação técnica. Do ponto de vista material qualquer um pode fazer poesia, sequer saber
escrever é preciso porque embora a conheçamos na sua forma escrita versos circulam pelo
mundo muito antes de haver escrita e contam-se às centenas grandes poetas cegos, iletrados ou
que jamais puseram sobre o papel seus poemas. A escrita só libertou-nos das formulas
mnemônicas do metro e rima, portanto ampliou ainda mais o acesso à arte. A evolução dos
meios de comunicação restringiu as limitações a divulgação. Portanto, a poesia serve de bom
exemplo extremo do papel da técnica e da inspiração.
Não há, contudo, proporcionalmente mais poetas, ao menos de verdade, do que há artistas
plásticos ou bailarinos ou atores. Na profusão de nomes que surgem há alguns poucos por
geração capazes de chamar a atenção e produzir satisfação na leitura. De todos os brasileiros
contemporâneos que lembro, digno de nota segundo meus gostos, nenhum deles foi produzido
pela técnica, são até em muitos casos, em especial dos maiores, a negação da própria técnica e o
testemunho de acusação da esterilidade das academias, em especial a brasileira. Tirando meia
dúzia de casos nos quais o exercício de modelos e sistemas até produziu algo passável, capaz de
produzir algum deleite estético mais do que teses e críticas, como alguma coisa de Ferreira
Gullar por exemplo, não é possível, mais uma vez repetindo para meu gosto, comparar esta
produção “técnica” com a experiência de transcendência produzida pelas epifanias de Clarice,
pela sensibilidade naïve de Cora Coralina e até pela prosa cotidiana repleta de poesia de Adélia
Prado por duas baciadas de concretistas seguindo a última moda em Paris, com a vantagem da
troca de não precisar sair pela porta do fundo pra não aturar frescura, como os filhos de Adélia.
Transcendência e epifania parecem ser as palavras fundamentais aqui. Não faço ideia de como
seja nas outras artes, ainda que pelo que ouço e vejo pareça ser similar, mas fico com esta
sensação da inspiração ser uma espécie de possessão, um instante no qual é possível estar – para
usar a expressão de Pessoa – em um outro estado da alma.
A técnica pode mimetizar os resultados desta possessão – assim como é possível ver exorcismos
e milagres mimetizados na TV a partir das experiências religiosas verdadeiras. Ela não pode,
contudo, criar o belo, pode copiar até com relativa perfeição os processos que pelo repetido
exercício e estudo parecerão legítimos, pode até criar algo novo focado na técnica pura –
portanto só capaz de ser compreendido pelo “pessoal das artes” - mas faltará às cópias e às
criações a transcendência da verdadeira arte.
Praticamente todos os grandes poetas escreveram sobretudo para si. Há neles a compreensão
que há um abismo demiúrgico entre a experiência daquele momento vislumbrado e aquilo
traduzido no papel. A poesia, e imagino as demais formas de arte, tem esta dimensão de serem
experiências sobretudo espirituais, sendo o resultado palpável uma fração apenas desta
experiência, como diz Pessoa:
“E sempre que me levanto da cadeira onde, na verdade, estas coisas não foram absolutamente
sonhadas, tive a dupla tragédia de as saber nulas e de saber que não foram todas sonho, que
alguma coisa ficou delas no limiar abstrato em eu pensar e elas serem.” (Fernando Pessoa, Livro
do Desassossego)
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Quem consultar o Sagrado Alcorão verá inúmeros versículos que falam da amizade e tolerância
que deve existir para com os Povos do Livro - judeus e cristãos. O Islam não pretendeu ser uma
nova religião, mas antes um resgate da religião de Abraão (Ibrahim em árabe) da qual tanto o
Judaísmo como o Cristianismo se originaram. Em todo o Alcorão existem referências à
esperança que um dia todos se reunirão numa só fé por obra de Deus.
A interação entre as três religiões no Brasil tem sido praticamente nula, em grande parte por
culpa dos muçulmanos. Nos fóruns de debates que participo e na correspondência que recebo
fica mais do que evidente o quanto é forte a curiosidade dos brasileiros sobre o Islam. Jamais
recebi uma carta que pudesse considerar ofensiva e recebi muitas de pessoas se desculpando
pelas visões que tinham do Islam antes de terem contato comigo. Fiquei particularmente
sensibilizado com o fato de algumas pessoas julgarem o temo "muçulmano" como pejorativo e
então davam mil voltas para não usar este termo, o que demonstra uma postura extremamente
respeito que me emocionou.
Claro que existe também no Alcorão trechos acusatórios contra os cristãos e principalmente
contra os judeus, muito citados inclusive por muitos muçulmanos. Mas isto de forma alguma é
uma incoerência ou uma "mudança estratégica" tal como os historiadores judeus e os
orientalistas tentaram demonstrar. Para o muçulmano o texto da Torah e dos Evangelhos são tão
ou mais sagrados que para judeus e cristãos, são partes do Livro cuja forma final é a dada pelo
Alcorão, assim como os profetas judeus e Jesus são também sagrados.
Assim os judeus e cristãos são vistos como irmãos de uma mesma fé, pessoas tementes ao Deus
único que os une, pessoas que seguem os Livros que foram revelados por Deus a eles. Devem
ser alvo do nosso amor, respeito e compreensão, ter sua fé preservada num Estado Islâmico e
com eles deve-se sempre buscar o diálogo nas melhores palavras. E as palavras do Alcorão
confirmam este sentimento.
Porém para um muçulmano não pode haver crime mais hediondo do que adulterar as palavras
de Deus, ainda mais quando se trata de pessoas que fazem isto em benefício próprio. Creio que
já está suficientemente comprovado pela ciência, em especial a Arqueologia e a Linguística que
os textos atuais da Bíblia não correspondem exatamente à época e lugar no qual teriam sido
revelados. Alguns de seus conteúdos parecem ser evidentemente adulterados. Assim as
referências presentes no Alcorão àqueles que adulteram os textos sagrados evidentemente que
não podiam ser elogiosas porque eles cometeram aos olhos do muçulmano um crime
gravíssimo.
Os muçulmanos acreditam que eles terão uma punição gravíssima no Dia do Juízo, mas é claro
que ela será restrita àqueles que conscientemente fizeram estas adulterações e àqueles que
sabem que elas foram feitas. A maioria dos judeus e cristãos não tem a menor culpa ou
consciência disto e portanto seria ilógico cobrar deles por uma violação desconhecida.
Não existem portanto restrições por parte dos muçulmanos para que o diálogo seja mantido com
judeus e cristãos das diversas denominações. A inexistência deste diálogo é que constitui grave
omissão dos muçulmanos porque constitui um testemunho contra a comunidade islâmica como
um todo. Certamente é inegável que a omissão da comunidade muçulmana neste diálogo
contribui para que o Islam seja incompreendido no ocidente quase tanto como a intensa
propaganda anti-islâmica e a ação de líderes que se dizem muçulmanos apenas para iludir os
povos que dominam.
É claro que este diálogo não pode ignorar as diferenças, deve-se sempre ser sincero e apontar as
discordâncias e causas para ela de forma não dogmática ou sectária. Não se deve omitir que os
muçulmanos não podem aceitar a possibilidade de Jesus ser Deus, ou a existência do pecado
original ou a possibilidade da crucificação ter expiado os pecados dos cristãos, bem como não é
possível admitir que algum povo possa ser o "povo escolhido" e que isto lhe dê a supremacia
sobre os outros.
A discussão não dogmática destas questões deixa claro que a abordagem do Islam não é fanática
ou intolerante mas baseada em preceitos éticos de base racional, enfim que corresponde a uma
visão de mundo humanista e progressista. Ao mesmo tempo mostra que as semelhanças entre as
três fés é grande e que existem muitos pontos nos quais é possível - diria mesmo necessário - a
colaboração das três grandes religiões reveladas.
Os exemplos dos pontos nos quais esta contribuição é necessária são muitos. O materialismo e o
individualismo que tem dominado o mundo é contrário às três fés, bem como a escalada
pornográfica, a dissolução da família, o aumento da intolerância étnico-religiosa e, acima de
tudo, a miséria e a fome que tem atingido grandes setores da população mundial. Esta
solidariedade aos que são vítimas da fome e da miséria é comum às três fés e certamente às
pessoas de bom coração de qualquer fé, porque não realizar um trabalho conjunto para ajudar
nestas emergências?
Creio que a palavra chave para o estabelecimento de um relacionamento mais cordial entre
muçulmanos, judeus e cristãos é o trabalho conjunto em ações concretas. A convivência no
trabalho lado a lado é capaz de operar milagres na tolerância. Através deles passamos a
conhecer as pessoas tal como elas são no cotidiano, trocamos experiências, reconhecemos
identidades, percebemos as boas-vontades alheias e deixamos de enxergar o fiel de outra
religião como "o outro" para vê-lo como "o semelhante".
S E G U N D A - F E I R A , 2 M A I O, 2 0 0 5 - 0 6 : 1 0
Islam, Islam, Pessoal, Pessoal, Arte, Política, Política, Religião
DT
Referência Original: [Link]/portal/8
NEM CONTRÁRIOS, NEM
SEMELHANTES, MAS INTEIROS
Q U A R T A - F E I R A, 2 6 J U L H O , 2 0 0 6 - 1 5 : 4 0
Clássico do cinema americano, "A Montanha dos Sete Abutres" (Ace in the Hole) quase que
vale por um curso de jornalismo por apresentar reflexões tão atuais que mal se pode acreditar
que tenha sido feito no início da década de 50 (51). Assistir a este filme - como ler "Ilusões
Perdidas" de Balzac - é essencial a quem se aventura no terreno a cada dia mais pantanoso do
jornalismo.
Por fim ele obriga o empreiteiro responsável pelo salvamento a adotar um método de
salvamento que demoraria uma semana ao invés de outro que libertaria a vítima em menos de
24 h, pois precisa prolongar o espetáculo ao máximo. Quando estão próximos de serem salvos -
o soterrado da caverna e o repórter do ostracismo provinciano - a vítima morre de pneumonia e
acaba por provocar um surto de remorso no repórter.
Mas não só o enredo principal permite uma reflexão profunda sobre o jornalismo, a todo
momento o protagonista dita suas máximas e conselhos sobre o ele considera notícia. Apesar de
quase caricaturais, já que ele enuncia coisas que nem sempre são ditas, as reflexões dele
revelam toda a ideologia da "penny press" americana.
"Eu posso cuidar de grandes notícias e pequenas notícias e se não houver notícias eu saio e
mordo um cachorro" ("I can handle big news and little news. And if there's no news, I'll go out
and bite a dog.") diz Charles Tatum ao pedir emprego no jornal de Albuquerque, brincando com
a clássica definição do que é notícia.
Em um dos trechos mais elucidativos da ideologia da "penny press" - quando Tatum discute
durante uma viagem com o novato Herbie Cook o que é jornalismo e o que é notícia - o
protagonista diz que os anos de faculdade de Cook foram inúteis, muito mais útil teria sido a
experiência de Tatum como vendedor de jornais pelas esquinas de Nova Iorque. Desta
experiência ele aprendeu o que é notícia - entendida como sendo aquilo que interessa ao
público, que vende jornal.
A morte de centenas ou milhares de pessoas, prega Tatum, não tem o mesmo interesse que a
morte de uma única pessoa. Neste evangelho do penny press a morte de milhares é apenas um
número, enquanto a morte de uma única pessoa tem "interesse humano", faz com que as pessoas
"tenham interesse em saber tudo sobre ele".
A necessidade da notícia de impacto - que vende - independe da verdade, tanto que o quadro
com a frase "Diga a verdade" na redação do jornal de Albuquerque é constantemente ironizada
por Tatum e pressionado por temores de consciência é com ela que ele tenta se reconciliar no
final do filme. A "construção da notícia" também é enfocada por Tatum durante a viagem já
mencionada, ele e Herbie estão indo cobrir um festival de "caça a cascavel" e Tatum
menospreza o evento, a despeito das centenas de serpentes. "Não preciso de centenas de
cascavéis, deem-me apenas umas cinquenta no Centro de Albuquerque", diz ele. O pânico
causado pelas cascavéis caçadas pelas ruas da cidade seria amplificado quando uma única cobra
ainda restasse, e este último réptil estaria guardado na gaveta de Tatum, escondida para que a
história prosseguisse.
Quase não há inocentes na história brilhantemente dirigida por Billy Wilder, a despeito dela ter
sido um grande fracasso comercial. Tatum é quase tão vítima como o acidentado Leo Minosa, o
público que acorre em massa ao local do acidente (que gerou um segundo título pelo qual o
filme é conhecido "The Big Carnival") ou que acompanha com grande interesse pelos jornais e
rádios a epopeia é que fornece o leit-motiv da abordagem sensacionalista.
A esposa de Minosa, ansiosa por obter dinheiro e sair ela também do buraco, o sherife
ambicioso que se submete à conspiração de Tatum para garantir sua reeleição são apenas os
atores mais evidentes de um enredo de oportunismo do qual só escapa a patética, quixotesca,
figura do pai de Leo, emblematicamente a única a ficar defronte das ruínas após Tatum anunciar
a morte de Leo.
Se os jornalistas que acorrem em massa ao evento - como no caso real do soterramento de Floyd
Collins em 1925 que inspirou o filme e inaugurou a "história de fundo humano" como produto
da imprensa - protestam contra Tatum não é pela manipulação da notícia e da emoção dos
leitores, mas sim porque ele conseguiu o monopólio do acesso a Leo com sua maquinações.
Mesmo o aparentemente inocente Herbie demonstra-se encantado com as teorias de Tatum e
ansioso por segui-lo na fama, deixando de lado seus princípios.
O fracasso do filme é facilmente explicável, afinal dificilmente ele seria bem visto pela
imprensa que se veria retratada nele - e com isto compartilha o destino de seu contemporâneo
Cidadão Kane. Retrata também o gosto da massa, dos consumidores de notícias ansiosos por
uma desgraça que lhes traga alguma emoção à vida, e por isto certamente também não agradou.
O filme tem um final dramático, no qual transparece um fundo moral que quase empobrece a
trama com uma alegoria melada. Mas é sobretudo um final otimista porque demonstra alguma
esperança de uma renovação ética do jornalismo. Em uma resenha clássica do filme William
Shriver disse que o filme é para o jornalismo impresso o que outro clássico "Rede de Intrigas"
(Network) é para a TV, ainda que a comparação seja brilhante e talvez imprecisa.
"Rede de Intrigas" - outro filme essencial aos jornalistas - é apenas uma atualização do filme de
Wilder para a década de 70. A grande diferença é que Network já não comporta a mesma
esperança no final, porque já demonstra a informação em adiantado estado de mercantilização,
já não mais fazendo sentido senão como produto de uma indústria cultural, feita não mais para
informar, mas apenas para ser consumida.
Se em 51 Tatum era um caso extremo, hoje ele seria a regra absoluta de um jornalismo que não
é só industrial por adotar modernos processos de produção e disciplina fabril, mas também
porque não produz informação e sim mercadorias. Hoje já não haveria espaço para Mr. Boot - o
editor do jornal de Albuquerque que orgulhosamente exibe o quadro "Tell the Truth" e tenta
conter os excessos de Tatum - porque sua visão que a informação é um meio para as pessoas
viverem melhor e não um fim em si mesmo já não tem mais espaço no jornalismo industrial
moderno.
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Pessoal
Referência Original: [Link]/portal/10126
PROFESSORES E MESTRES
Há uma diferença enorme entre ser professor - burocrata cumpridor de horários e planos de
ensino - e ser mestre realmente preocupado com seus discípulos. O primeiro vê apenas números
e notas, o segundo enxerga homens que podem ser melhorados. E já nem incluo neste rol um
terceiro tipo, que sequer professor é, que anda proliferando pelas escolas do país contaminando
o futuro da nação.
Um pequeno texto que circula há muito tempo, lembro de tê-lo lido em uma Seleções antiga e
agora o redescubro na Internet, fala muito desta diferença entre professor e mestre. O título é
"Lecionei a todos eles" e a versão mais comum é a seguinte:
"Tenho ensinado no ginásio por dez anos. Durante esse tempo eu lecionei para, entre outros: um
assassino, um evangelista, um lutador de boxe, um ladrão e um imbecil. O assassino era um
menino que sentava num lugar da frente e me olhava com seus olhos azuis. O evangelista era o
mais popular da escola, era o líder dos jovens entre os mais velhos. O lutador de boxe ficava
parado perto da janela e soltava uma gargalhada abafada, que até fazia gemer os gerânios. O
ladrão era um coração alegre, diria libertino, sempre com uma canção jocosa em seus lábios. O
imbecil, um pequenino animal de olhar macio, dócil, procurando as sombras.
O assassino espera a morte numa penitenciária do Estado. O evangelista está enterrado, há um
ano, no cemitério da vila. O lutador de boxe perdeu um olho numa briga em Hong Kong. O
ladrão, na ponta dos pés, pode ver da prisão as janelas do meu quarto. O imbecil, de olhar
macio, bate com a cabeça na parede forrada, de uma cela, no asilo municipal.
Todos esses, um dia, sentaram na minha sala. Sentaram e olharam para mim, gravemente, das
suas carteiras escuras e surradas. Eu devo ter sido de grande ajuda para esses alunos... Eu lhes
ensinei o esquema encontrado nos versos alexandrinos e como colocar em diagrama uma
sentença completa. (N. Johan White, professora do High School, de Stillwater, Oklahoma,
Estados Unidos)".
O professor, enfim, está preocupado apenas em dar um conteúdo pré-fixado, muitas vezes sem
nem mesmo a preocupação em saber se ele foi apreendido ou não. O mestre preocupa-se em
estimular em cada aluno seus melhores potenciais, aprimorar-lhe as virtudes e limitar-lhes os
vícios. Ao primeiro é indiferente se senta-se à cadeira João ou José, ao segundo cada um de seus
alunos é uma individualidade que ele tem o compromisso moral de melhorar.
De imediato haverão aqueles que dirão que este segundo papel é impossível porque o professor
ganha pouco, tem de dar um número enorme de aulas, mal pode preparar as aulas de forma
adequada.
Não contesto nenhuma destas afirmativas, mas reitero o que eu disse algumas dezenas de vezes,
elevar os salários do magistério só vai melhorar o ensino porque vai trazer para a profissão
pessoas melhores e mais preparadas, aquele que diz que dá aulas ruins porque ganha pouco
jamais irá dar boas aulas por maior que seja o seu salário.
É evidente que função de tamanha responsabilidade como o magistério tem de ter bons salários,
boa formação, atualização constante, tempo para estudar e pensar. Qualquer nação sensata
atribuiria a esta nobre carreira tantos atrativos que somente os melhores dos melhores poderiam
vencer a disputa por uma cadeira de mestre.
Mas não será com sonhos e utopias que se vencerá este desafio, porque o verdadeiro mestre se
mostrará até nas mais desagradáveis condições, nenhum obstáculo o impedirá de exercer seu
sublime sacerdócio - por menos que os professores gostem deste termo, sacerdócio.
Muitos nem aulas dão, outros, como a professora plena de remorso do texto que transcrevi
limita-se à tarefa burocrática de ensinar, uma minoria cada vez mais escassa, não se pergunta o
que pode fazer, mas sim o que deve fazer pelos seus alunos. É esta minoria que a literatura e as
artes contemplam quando falam do professor.
Islam, Pessoal, Poesia, Arte, Literatura, O futuro, Política, Filosofia e cia, Religião
Referência Original: [Link]/portal/10018
A LITERATURA DO ASSOMBRO DE
BORGES
Borges é daquele tipo de autor cujo número de leitores é inversamente proporcional ao de
comentadores. Também é um autor muito imitado, mas daquele tipo de imitação grosseira que
mais se assemelha a uma caricatura. Tudo que em Borges é natural e original soa como pedante
e "deja-vu" nos outros, e falo sem remorsos porque incluo muito do que escrevi nesta categoria
caricata. A imensa erudição de Borges, que nos seus textos é algo suave a ponto de parecer
casual, soa nos outros como um texto tirado de enciclopédia antiga.
Mas o mais grave de todas estas mudanças é o pseudo-hermetismo - eterna desculpa para quem
não é incapaz de atrair público - que os leitores rápidos e superficiais criam nas próprias obras.
Por mais que se diga o contrário, Borges jamais escreveu apenas para uma meia dúzia de
iluminados.
Ainda que a erudição ajude muito a entender melhor Borges, mesmo as suas fantasias mais
metafísicas são acessíveis ao leitor comum. Ao assombro que Borges disse que a Literatura não
podia prescindir o autor ajuntou uma coerência e clareza que torna o objeto mais inusitado
ganhar realidade, mesmo sem grandes e exaustivas descrições.
Nas mãos dos imitadores inábeis este processo de referências transformou-se em pouco mais de
uma colagem grotesca, uma desculpa para transformar tesoura e cola em ferramentas literárias
que no extremo faria com que dentro de duas ou três décadas a literatura desaparecesse.
Borges, por qualquer motivo inexplicável, também tornou-se um dos ícones da medíocre
geração de iconoclastas da literatura atual. A associação é certamente inusitada, até porque ao
contrário de qualquer outra geração de iconoclastas anteriores - que conheciam bem os ícones
que destruíam - os atuais tentam acabar com os clássicos para não terem de fazer o dever de
casa.
É a ignorância, não o desejo de inovar, que move boa parte das novas safras de escritores do
mundo. Curioso que digam se espelhar em Borges já que tão poucos chegaram a se debruçar
sobre os clássicos empoeirados quanto o autor argentino.
Borges certamente foi um dos últimos grandes escritores que o mundo viu, ainda que seu estilo
vibrante e intenso jamais tenha lhe permitido escrever mais do que contos de algumas páginas.
É que cada uma destas poucas páginas é tão intensa que o esforço de escrever algo mais longo
seria monstruoso demais.
Certamente pela mente dele passavam tantas ideias que seria incapaz que ele se concentrasse em
algumas delas por mais tempo do que o necessário para escrever um pequeno texto. Tal como os
grandes homens que viveram pouco por preferirem uma vida curta e intensa a uma longa e
tediosa, as obras de Borges concentram em poucas linhas a intensidade do eterno e do infinito,
como se cada uma fosse um aleph a concentrar todo o universo em um único ponto.
S E G U N D A - F E I R A , 2 M A I O, 2 0 0 5 - 0 6 : 2 0
Q U A R T A - F E I R A , 2 8 S E T E M B R O, 2 0 1 1 - 1 8 : 5 2
Sociologia e cia.
José Police Neto, Candido Malta Campos Filho, Mariana de Cillo Malufe, Antônio
Margarido, Aparecido Manoel dos Santos, Alexandre GomesJosé Police Neto,
Urbanismo, Candido Malta Campos Filho, Mariana de Cillo Malufe, Antônio
Margarido, Aparecido Manoel dos Santos, Alexandre Gomes, Cidade de São Paulo,
Desenvolvimento Urbano, Habitação, Planejamento, PP
Referência Original: [Link]/portal/10777
O SOCIÓLOGO DOS BÁRBAROS
Ibn Khaldun (1332-1406) foi o último grande pensador muçulmano da nossa Idade Média,
ainda que fruto de todo o conhecimento produzido pelo mundo islâmico, sua originalidade é
surpreendente. Compartilha, de certa forma, com o destino do seu meio já que depois dele não
só a produção cultural do mundo islâmico decai como do ponto de vista político o Oriente
Médio perde seu poder de iniciativa estratégica - excetuando-se em parte o Império Otomano
que ainda manterá a iniciativa até o século XVII ou XVIII.
A primeira coisa que chama a atenção em Khaldun é que - a exemplo de Maquiavel, seu êmulo
ocidental - jamais encontrou um porto seguro nas muitas cortes pelas quais passou. Vítima ele
também das constantes intrigas palacianas e da inveja de mentes menos brilhantes, não raro
precisou fugir no meio da noite para preservar a vida.
Isto fez com que Khaldun servisse na maioria das cortes maghrebinas, atuando ora como
conselheiro real, hora como juiz, ora como diplomata, ora como refugiado político. Chegou
durante muito tempo a esconder-se entre as tribos nômades do Sahara - na atual Argélia - e foi
neste ambiente que escreveu seu trabalho mais conhecido "Al-Muqaddimah". Embora ela fosse
inicialmente planejada como uma introdução a um livro maior - "A história das dinastias do
Maghreb" - os prolegômenos à obra acabaram por ser muito mais importantes que a obra em si.
O que chama mais a atenção da Teoria da História de Khaldun é o senso de que ela é feita de
ciclos nos quais um império nasce, se desenvolve e decai até ser conquistado por outros ou
esfacelado por tribos diversas. Sete séculos depois Toynbee e Kennedy farão praticamente a
mesma análise que ele fez. Mas o grande diferencial não está só nesta análise, mas sobretudo ao
fato dele não estabelecer nenhum juízo de valor sobre este ciclo.
Khaldun não diz que a fase na qual os conquistadores são ainda bárbaros nômades é superior ou
inferior à fase na qual são conquistadores sedentarizados e envoltos em um ambiente de luxo,
riqueza e cultura. Simplesmente observa que este seria um processo inevitável e como tal as
duas fases são indispensáveis.
Muitos comentadores de Khaldun quiseram ver na sua teoria da asabyya - forte espírito de corpo
tribal que daria aos nômades a força para conquistar impérios - um enaltecimento destes
nômades. Alguns chegaram mesmo a ver uma certa dose de racismo ou pelo menos de algum
desprezo nietzchiano pela civilização e suas regras que envileceriam o homem.
Mas um leitor mais atento logo vê que ele destaca que as grandes realizações culturais, a alta
cultura, o conhecimento mais elevado, só pode ser obtido nas civilizações sedentárias. E
Khaldun conhecia bem esta alta cultura, herdada dos antepassados andaluzes, que lhe granjeou
tanto o respeito como a inveja pelas cortes mediterrâneas. Mesmo assim, não deixou de
considerar que aquele mundo no qual ele era importante estava condenado a desaparecer, para
depois ressurgir sobre nova forma.
S E G U N D A - F E I R A , 2 M A I O, 2 0 0 5 - 0 6 : 4 7
Um texto que imaginei há algum tempo aparenta ser diferente. Nele se tem um futuro idílico no
qual os oligopólios perderam o poder, a cultura floresce, a tecnologia visa garantir o bem estar
do cidadão, os homens reconstroem uma Grécia Clássica - não obrigatoriamente a do passado,
mas o arquétipo edênico dela que vive nas nossas mentes - na qual robôs e outras máquinas
fazem as vezes dos escravos.
Neste cenário excessivamente otimista qualquer um pode ter acesso a qualquer livro em seu
terminal de uma rede universal. A maior parte das decisões são tomadas por uma assembleia
virtual que reúne em vídeo-conferência a imensa maioria dos cidadãos. Os homens públicos
estão submetidos a uma vigilância permanente e tem mandatos curtíssimos.
Os robôs trabalham calmamente, nunca tiveram inteligência suficiente para adquirir qualquer
grau de consciência, velho medo da ficção científica desde o momento que o termo foi
inventado. Tudo parece andar bem neste mundo idílico, com exceção de uma certa futilidade e
uma vaidade crônica causada por tanta informação e conforto.
O personagem principal, um jornalista, começa a desconfiar que alguma coisa está errada
quando descobre que um velho texto de Swift - "Modesta Proposta para que os Filhos dos
Pobres da Irlanda não pesem sobre seus Pais ou sobre o Pais" - desaparece do arquivo central de
onde os livros são chamados aos terminais.
A investigação dele aos poucos verifica que parece ter havido um sistemático esforço para
sumir com todas as pistas do livro. Alguns poucos eruditos mofados desaparecem, obras que
fazem referência àquele texto foram editadas. Um meticuloso esforço parece demonstrar que o
livro jamais existiu, nunca passou de uma lenda ou quem sabe um texto apócrifo erroneamente
atribuído a Swift e que se perdeu no tempo como o Evangelho de São Barnabé.
É justamente esta ação meticulosa por um texto menor que chama a atenção do jornalista. O que
poderia haver em um texto de oito páginas que justificasse este esforço tão metódico?
Trata-se de uma sátira violenta, ácida, cruel. Nela Swift, com a intenção de chamar a atenção da
sociedade para a situação das crianças pobres sugere, maldosamente, que elas sejam utilizadas
como gênero alimentício. O deão chega a descrever utilidades para os subprodutos como a pele,
que produziria ótimos sapatos.
A primeira intuição do protagonista é a pior possível, imagina que alguém está levando à sério a
proposta cínica de Swift, algo como o descrito em "Soilent Green" um conto clássico de Sci-fi
transformado em um filme sombrio. Conduz a investigação por aí mas a contragosto reconhece
que a brilhante intuição não produziu resultados.
Reconfortado ao descartar a pior hipótese passa a crer que tudo não passou de um erro do
sistema. Tenta encontrar uma rara versão em papel do livro, mas descobre que sempre há
alguém a frente dele destruindo as velhas livrarias. De novo sente que há algo de mais nesta
história toda que ele não consegue captar.
No epílogo ele descobre a verdade e passa a lamentar que a hipótese das crianças enlatadas não
tenha sido utilizada, porque o inimigo é muito mais sutil e, portanto, perigoso. Não há como
lutar para rebentar grilhões que não se veem, portanto quanto mais invisível a corrente melhor
ela imobilizará o prisioneiro.
Ao contrário dos robôs e computadores das histórias de Sci-fi este computador central que gere
o mundo - e que atende pelo sugestivo acrônimo de Golem - não quer destruir a humanidade,
mas protegê-la, principalmente de si mesma. Tampouco ele tem o açodamento típico dos planos
mirabolantes. Ele se sente Deus, e como Deus não tem pressa na eternidade de seus planos.
O Golem concluiu que a sátira é perniciosa ao ser humano porque desestabiliza as normas
vigentes da sociedade, obnubila a visão dos homens. Portanto resolveu acabar com a sátira. De
todas ela julgou a mais perigosa justamente aquela de Swift e nos dez anos anteriores tinha se
dedicado a enviar ordens aos seus terminais para ir apagando as pistas do texto. Em dez mil
anos ou mais, acredita o Golem, ele poderá eliminar da memória humana, ou seja ele próprio,
todas as referências a todas as sátiras.
Tudo isto ele diz ao jornalista com uma voz que - tal como o demônio em um conto de Hesse -
soa como a de um pregador convincente. O jornalista agora sabe de tudo e sabe que deverá
morrer, mas não teme tanto seu destino como a dos homens que lhe sobreviverão e terão seu
futuro governado por um Deus de Silício...
T E R Ç A - F E I R A, 3 M A I O , 2 0 0 5 - 0 0 : 1 2
O futuro, Cinema, Política, Religião
Swift, Aldous Huxley, Thomas Morus, Hesse, George OrwellDT
Referência Original: [Link]/portal/67
NÃO ME DESPERTE
S E X T A - F E I R A, 1 S E T E M B R O , 2 0 0 6 - 1 9 : 0 4
Poesia
Referência Original: [Link]/portal/10097
ESPADA
T E R Ç A - F E I R A , 1 9 S E T E M B R O, 2 0 0 6 - 1 2 : 5 1
Pessoal
Referência Original: [Link]/portal/10125
O AUTORITARISMO DAS UTOPIAS
"Sejam quais forem as suas qualidades artísticas e filosóficas, um livro sobre o futuro só nos
pode interessar na medida que suas profecias nos pareçam originariamente capazes de virem a
realizar-se" (Huxley, Prefácio do Admirável Mundo Novo)
Pode passar despercebido à maioria dos leitores, mas o horrível cenário do "Admirável Mundo
Novo" não é senão em parte criação de Huxley. A estrutura fundamental do Brave New World -
e boa parte de seu conteúdo - não vem do escritor inglês, mas da sociedade desejada por Platão
na sua República.
A única diferença substancial é que Huxley escreveu Brave New World como uma crítica feroz,
enquanto Platão escreveu sua República pensando num modelo ideal de sociedade. Mas ambos
se encontram no fato de que a sociedade do livro de Huxley seria apontada por Platão como o
mais próximo que se poderia chegar do seu modelo de sociedade.
É evidente que nos dois autores o método de escolha desta mínima elite pensante é diferente,
mas nem tanto. Para Platão a decisão sobre quem comporia a "classe guardiã" seria definida
dando-se a todos as mesmas oportunidades e escolhendo os de melhor desempenho. Para
Huxley se limita a capacidade de pensar dando-se total capacidade mental para uns poucos.
Não se esquecendo que Platão era adepto radical da eugenia, portanto mesmo que ele não fale
de castas - e de certa forma seja avesso à ideia por defender oportunidades iguais para todos - a
radical seleção no nascimento não seria tão distante do mundo pensado pelo filósofo grego, por
sinal seria através da trapaça que os guardiães selecionariam os casais para reprodução. Além do
que, note-se a semelhança, nos dois mundos não existem mais, filhos, esposas - aliás nada mais
parecido com a "comunidade de esposas" do modelo platônico que os relacionamentos
essencialmente temporários do Mundo de Huxley.
Que as semelhanças notáveis entre os dois jamais confundam o leitor: os dois livros tem o
objetivo exatamente inverso. Platão na República proclama como a sociedade deveria ser para
tentar torná-la possível um dia; Huxley imagina como a sociedade poderia ser para tentar evitar
que ela um dia chegue a acontecer.
Teria Huxley imaginado o Brave New World ao ler Platão? Não há qualquer referência que
legitime esta ideia, mas as similaridades são muitas para se imaginar que não há relação entre os
dois. Talvez ela seja indireta, através da Utopia de Morus que é tributária em larga escala de
Platão - só que neste caso visto de um ângulo favorável que produz, igualmente um mundo
terrível sem liberdades e vida privada.
Falar em Utopia voltou à moda depois do fracasso do "Socialismo Real" se tornar muito
evidente para ser negado até pelos mais fanáticos. Naufragadas as presunções de um socialismo
que "tinha de vir" porque assim estava cientificamente determinado pelo "Materialismo
Histórico" - pintado como a única Ciência Social e ornado com hieráticos dogmas teológicos -
buscou-se o refúgio em se resgatar o Socialismo como uma Utopia - ideia que fermentou até em
mentes sérias e brilhantes como a de Florestan Fernandes.
Há muito tanto de Platão como de Huxley nesta concepção. Por detrás dela há o projeto de
impor à sociedade um modelo pensado por alguma mente fantástica, pouco preocupada não só
com a individualidade dos cidadãos desta Utopia como com as abstrações que forem necessárias
à sua implementação. Incapazes de dar todas as respostas aos anseios humanos simplesmente se
suprimem estas vontades rebeldes - pelo convencimento ou pelo soma e, sempre, mais cedo ou
mais tarde pela violência.
Platão nos diz como este projeto deve ser pensado, Huxley nos diz como ele termina. Um é a
teoria deste projeto, outro a prática. Toda Utopia, percebeu Huxley, é a tentativa de impor aos
homens o desejo de alguém ou de algum grupo ao invés de confiar na sabedoria dos próprios
homens.
O Brave New World como a República platônica e a Utopia de Morus é uma sociedade
estagnada, não por acaso ou por alguma contingência, mas sobretudo porque são sociedades
cuja concepção e realização exclui o movimento. Em Platão e Morus esta supressão dos
antagonismos é um desejo inconsciente, uma deficiência da visão de mundo dos autores, já em
Huxley é um projeto proposital dos governantes. Felizmente o movimento é algo tão natural na
sociedade, como na natureza, que não será a vontade de algum pensador que será capaz de
suprimi-lo.
S E G U N D A - F E I R A , 2 M A I O, 2 0 0 5 - 0 7 : 1 2
Como era de se esperar, o mundo não acabou há uma semana, tampouco na sexta-feira 13.
Apenas algumas centenas de apavorados levaram a história a sério, revelando que a perspectiva
do fim do mundo já não é um prato tão popular no cardápio dos temores contemporâneos.
Mas não é porque o significativo esforço da mídia em atemorizar as pessoas falhou que se deva
imaginar que o fim do mundo deixe de assustar. O falecido Frei Damião extraiu boa parte de
sua fama de santo dos grotescos sermões nos quais descrevia com detalhes o castigo dos
pecadores no inferno. Também este é o combustível da oratória dos chamados fundamentalistas
que tentam convencer as pessoas a serem boas não pela virtude, mas pelo medo.
A descrição dos horrores do Inferno, perpetuados no Juízo Final, está indissoluvelmente ligada a
um adjetivo que lhe extrapola o sentido: dantesco. Não há como falar do outro mundo sem
mencionar Dante Alighieri, sem citar nominal ou sub-repticiamente a "Divina Comédia" no
mundo ocidental.
Ainda que Dante tenha se inspirado largamente em textos de outras culturas que lhe antecedem -
de um lado na Eneida de Virgílio e de outro na Liber Scalae Mahometi, tradução latina de texto
muçulmano - foi a ele que se associou o vigor das imagens de um inferno terrível. As
ilustrações de Gustave Doré (1833-1883) mesmo muito posteriores e sujeitas a milhares de
críticas técnicas fundiram-se tanto ao texto que é difícil imaginar como autêntica uma edição da
Comédia que não as tenha nas guardas.
O tema de Céu e Inferno é antigo e certamente povoou a Idade Média e sem sombra de dúvida
foi um dos grandes responsáveis pelo poder ideológico da Igreja na Europa - e dos teólogos
tradicionalistas no mundo do Islam - no período. Mas é com Dante que o tema encontra uma
expressão nova, herdada talvez das visões místicas dos sufis, no qual não é o medo, mas o amor
que se sobressai da descrição do outro mundo.
E isto não apenas na literatura, mas nas artes e mesmo no senso comum. Um tema recorrente na
pintura renascentista, por exemplo, é o Juízo Final e não há nenhuma obra significativa sobre o
tema que não dialogue - quase sempre diretamente - com a obra de Dante.
O caso mais notório é a pintura de Giotto, "O Juízo Final", pintada sob encomenda do usurário
Enrico Scrovagni em 1304. Não bastasse o fato do pintor ter se hospedado na casa de Dante
enquanto pintava o mural, há ainda que se notar que o pai do mecenas era um dos personagens
da Divina Comédia, Reginaldo, que figura no Inferno entre os usurários. O filho, por sinal,
encomenda a capela como parte de um acordo para ser perdoado pelo papa por seus pecados.
Também Michelângelo é tributário de Dante - a quem leu com avidez - especialmente no seu "O
Juízo Universal" pintado na Capela Sistina. Tal como Dante em relação à sua Divina Comédia,
Michelângelo considerava sua obra - em especial o Juízo - como uma manifestação da
divindade, como mensageiro de uma epifania.
Disse Michelângelo, na época em que terminava o Juízo: "A boa pintura aproxima-se de Deus e
une-se a Ele (...) Não é mais que uma cópia das Suas perfeições, uma sombra do Seu pincel, Sua
música, Sua melodia". Mais adiante diz que o talento - que tanto revoltava seus invejosos
contemporâneos - não é suficiente para pintar um quadro como aquele: "Não basta que o pintor
seja um hábil e grande mestre. Penso ser mais importante a pureza e a santidade da sua vida, a
fim de que Deus guie seus pensamentos".
Note-se que como Dante, tampouco Michelângelo era um carola. Quando ambos falam de
religiosidade e santidade não falam delas em um sentido formal, mas num sentido mais
profundo. É talvez por isso que se encontre mais de Dante do que das negras pregações de fim
do mundo de Savonarola - que valeram ao mestre um de seus muitos exílios - na obra do artista.
T E R Ç A - F E I R A, 3 M A I O , 2 0 0 5 - 0 0 : 3 0
Acho que sempre lembrarei do ano de 2006 como o “ano do blog”, afinal ainda que ele não
tenha sido o acontecimento mais importante teve um papel central em tudo que me aconteceu no
ano passado. As rotinas nunca me agradam, sinto-me a vontade para ser “conservador” ou
“libertário”, meditativo ou ativo, político ou literário, enfim, em assumir o papel necessário para
realizar as tarefas que devem ser feitas. Penso que o blog me ajudou se não a entender ao menos
a racionalizar estas diferentes facetas necessárias a vida cotidiana.
Penso que também em parte estas funções diversas auxiliaram a me fazer ficar um pouco
distante do blog. Havia, afinal, algumas necessidades de agir a partir de muitas reflexões feitas e
nem sempre estas ações combinam com a reflexão. Claro que isto não quer dizer “ligar o piloto
automático” e agir por impulso. Como dizia já Ibn Khaldun no século XIV – os pensadores em
geral são as pessoas menos apropriadas para governar porque estão por demais preocupadas nas
questões gerais, nas concepções abstratas, nas grandes linhas, enquanto o governo exige
atenções específicas, escolhas muitas vezes mais táticas que estratégicas.
Numa outra linguagem brinco sempre que para algumas atividades é necessário ser brâmane e
em outras ser xátria. Nas crenças hindus e budistas esta distinção fica clara na medida em que os
avatares muitas vezes pertencem à casta guerreira e não à sacerdotal. Só os santos, capazes de
superar os sentimentos essenciais – “gunas” na terminologia hindu – são capazes de estar além e
acima de qualquer limitação de visão e ação de casta. Claro que penso aqui em castas no sentido
de tipos de personalidade a partir dos valores e emoções que orientam cada um – portanto
abertas a cada um no seu processo individual de aperfeiçoamento – e não em distinções
baseadas no nascimento.
Como avaliar qual é o momento de agir e qual o de apenas observar e orientar... Esta é uma
questão que estou sempre me fazendo, talvez jamais aja uma resposta padrão.
2006 foi um ano no qual mergulhei um bocado dentro de mim mesmo, enfrentei lutas interiores,
esforcei-me para aprimorar-me. 2007 parece ser um ano voltado para uma esfera mais pública,
com outros tipos de tarefas e desafios. Há certamente uma continuidade entre os dois
momentos, sem a evolução da disciplina e do auto-conhecimento jamais pensaria neste outro
horizonte de tarefas.
Da mesma forma não buscaria estas atuações em outros horizontes. Mas como pessoa que
costuma aceitar seu destino não fujo das tarefas que aparecem a minha frente, nem tento me
esquivar das responsabilidades que surgem sem que eu tenha buscado por elas. E me lembro
aqui, mais uma vez na minha vida, de uma tradição islâmica que diz que o muçulmano não deve
buscar as honras da função pública, mas se for escolhido deve aceitar, contando então com a
proteção de Deus. Há seis anos tornei-me servidor público obedecendo a esta regra e
renovando-a a cada novo desafio. Agora de novo tenho de invocá-la.
Leitor apaixonado de Gasset não me desiludo com a democracia e a política mesmo quando
parecem não faltar motivos para isto. Em 2006, mesmo em plena eleição, pude ser o pensador
do tipo que Khaldun menciona, preocupado com as grandes questões gerais, tanto quanto
possível despreocupado com o que Lobato chamava de “papeluchos que uma gente deposita
numa caixa chamada urna”. 2007 começou com a política “real” batendo na minha porta e me
convocando para romper os tecidos que a separam daquela outra política de pensadores,
deixando que outros valores, métodos e debates irrompam nestes nossos horizontes turvos.
É o tipo da situação que é muito tranquila quando vista de forma abstrata, mas terrível quando
colocada de forma concreta na sua frente reclamando, mais uma vez, uma escolha. Continuar
em um universo quase sempre contemplativo, reflexivo, como nos últimos meses; ou atender o
chamado à ação, à prática, ao embate concreto nem sempre no plano ideal, sacrificando algo ou
muito da flexibilidade e comodidade, mas por outro lado podendo demonstrar com mais clareza
que outros caminhos são possíveis. Não é uma escolha fácil, mas é uma escolha que o
sentimento de dever já fez por mim e que, sobretudo, chega na hora certa – seria imprópria em
2006, por exemplo – e mais uma vez me coloco a serviço do meu destino.
SEXTA-FEIRA, 9 FEVEREIRO, 2007 - 15:00
Islam, Pessoal, Poesia, Arte, Sociologia e cia., Política, Filosofia e cia, Religião
DT
Referência Original: [Link]/portal/10475
ÁGORA ELETRÔNICA OU
TELETELA CIBERNÉTICA
Ágora eletrônica ou teletela cibernética
"Segundo a tradição, [os governos] foram caindo gradualmente em desuso. Convocavam
eleições, declaravam guerras, impunham taxas, confiscavam fortunas, ordenavam prisões e
pretendiam impor a censura e ninguém no planeta os acatava. A imprensa deixou de publicar
suas colaborações e suas efígies. Os políticos tiveram que buscar ofícios honestos; alguns foram
bons cômicos ou bons curandeiros." (Borges, Utopia de um homem que está cansado)
Tenho dito diversas vezes que em breve o homem será chamado a decidir qual o futuro que
deseja, se o renascimento da velha Atenas em um patamar mais elevado, se o mundo orwelliano
das demências - em especial da demência da miséria e a demência da opressão. Alguém
certamente protestará a respeito da petulância de um jornalistazinho de província que se propõe
a imaginar como será o mundo, mas este tipo de observação é uma digressão, não um
argumento e portanto pouco me importa.
O enfoque principal dos artigos anteriores foi sobre as mudanças econômicas que podem
construir um ou outro cenário. Hoje queria falar mais sobre o aspecto político.
Creio já ter mencionado mais de uma vez a história contada por Levy-Strauss durante sua
passagem entre os nhambiquaras - tal como narrada nos "Tristes Trópicos". No trecho em
questão o chefete da tribo, sem conseguir impor sua autoridade, tenta se utilizar de lápis e papel
emprestados do antropólogo como instrumento de poder, fingindo rabiscar palavras e lê-las para
a tribo. O texto impossível, é claro, falava que ele devia ser obedecido.
Hoje a Internet ainda é isto em grande parte, é um símbolo de poder, algo que soa bem aos
ouvidos dos incautos, um instrumento de gabolice para que algum babaca encha a boca e diga
"eu falo sobre isto na minha home page!". O próprio termo Homepage é característico da
boçalidade porque não tem o sentido que lhe atribuem nem em inglês e muito menos no jargão.
Poucas das milhares de empresas que têm páginas na Internet tem outro objetivo senão dizer
que as tem, é marketing mais do uma realização concreta. Uma imensa quantidade do que
circula pela Internet é a mais pura bobagem, textos de autores que ninguém quis editar, teorias
malucas demais para alguém além do próprio levar a sério, palco para que boçais se pavoneiem
porque não encontraram outro espaço aonde obter atenção.
Felizmente a parte minoritária composta pelas informações úteis está crescendo e a Internet é
capaz de burlar não só a censura constituída como aquela outra censura muito mais séria que é a
censura econômica. Por maior que seja a diluição da informação útil em meio à bobagem, ainda
assim alguém pode mostrar as suas ideias e ser visto mesmo que utilize bem poucos recursos
econômicos.
Este livre debate de ideias tenderá a tornar-se mais generalizado em pouquíssimos anos.
Nenhuma nova mídia teve uma velocidade de crescimento comparável à Internet, talvez nem
mesmo a linguagem falada. Os desplugados são uma categoria em extinção porque em breve
não terão mais como se comunicar, além do que a exclusão da grande rede é cada vez mais
cultural do que econômica.
De todo este debate é impossível que não surja uma nova visão de mundo que consagre os
planos para o futuro. A rede torna possível sonhar para breve um sonho esquecido desde
Atenas: a democracia direta. Praticamente todos os recursos técnicos para isto já estão
disponíveis, ainda que não na escala necessária para abarcar uma discussão global ou ao menos
municipal simultânea. Mas é um experimento viável que logo poderá obter resultados.
O outro lado deste desenvolvimento é mais sombrio. Num mundo aonde a comunicação se dá
em grande parte através da rede é possível controlar esta informação, ver de onde ela saiu e
aonde chegou, checar seu conteúdo, manipular seus efeitos. Tal como as teletelas de Orwell ou
o Palácio dos Sonhos de Ismail Kadare elas podem ser um instrumento de controle onipresente.
O pior disto tudo é que a decisão é nossa, jamais poderemos escapar a esta responsabilidade
alegando que este ou aquele futuro nos foi imposto.
S E G U N D A - F E I R A , 2 M A I O, 2 0 0 5 - 2 3 : 5 6
Impossível falar no Oriente Médio sem que venham à mente as imagens de terroristas fanáticos,
mulheres veladas, religiosidade exacerbada. Estas imagens logo evocam outras mais abstratas,
como a do fedain se matando em um ataque suicida na esperança de alcançar o paraíso nos
braços das huris em meio a rios de vinho. Assim como é impossível também não imaginar
ditaduras sanguinárias oprimindo o povo com base em um discurso que se utiliza da religião
para fins políticos, quando não econômicos.
Pouco importa se as imagens são verdadeiras, o importante é o contraste, não só para justificar a
intervenção imperial lá - explicitada sem margem de dúvida por Saïd - mas também para
justificar, racionalizar a sociedade daqui - abordagem que parece ser original.
O contraponto da mulher velada é sempre a mulher independente e bem colocada, jamais aquela
mulher obrigada a entrar no mercado de trabalho para que a família não morra de fome,
submetida a dupla ou tripla jornada de trabalho, nem a mulher miserável abandonada pelo
marido que habita as periferias.
Imaginar que tal situação no "Ocidente" justifica a do "Oriente" seria, é evidente, aceitar o
mesmo erro argumentativo do Orientalismo; seria, digamos, construir um Ocidentalismo, uma
visão enviesada com sinal trocado. Igualmente seria construir uma visão "ocidentalista"
imaginar que tudo que vem do Ocidente é por natureza pérfido e mau.
É evidente que este "Ocidentalismo" não tem a força nem a estrutura da máquina orientalista
descrita pro Saïd. O primeiro é, de certa forma, um outro subproduto do último, que se
demonstra tão eficiente a ponto de pautar o diálogo entre os dois.
Contudo o debate nas "fronteiras ensaguentadas do Islam" - como descreveu um autor - tem
sido de lado a lado marcado por Ocidentalismos e Orientalismos. Grande parte da propaganda
islâmica dirigida não só ao "ocidente", mas ao próprio "oriente", bate-se na superioridade e
sabedoria das instituições "orientais", quando não se limita a apenas responder de forma
defensiva às críticas orientalistas, deixando portanto que esta ideologia do ocidente estabeleça a
agenda da discussão.
E estas ideias eram mais do que novas. A teoria que permitiu harmonizar a ideologia islâmica
com um governo representativo tripartite de tipo ocidental, o Velyet-e Faqih (Domínio do
Jurista) foram divulgadas por Khomeini entre 69 e 70 numa série de palestras durante seu exílio
no Iraque.
Não se pretende discutir aqui se este sistema é bom ou ruim, é democrático ou não, mas sim
frisar a sua importância como elemento de coesão nacional durante o processo revolucionário.
Um dos grandes efeitos deste sistema foi o de unir um país partido em duas partes, uns
desejando um país com instituições ocidentais e outro desejando um país no qual as tradições
religiosas fossem respeitadas.
O sangrento debate em torno deste tema já tinha mais de um século quando a Revolução
eclodiu. Khomeini conseguiu a quase unanimidade - da esquerda reformista à direita religiosa -
justamente porque conseguia harmonizar projetos diferentes de país em uma proposta cujos
valores e princípios eram aceitáveis por quase todas as partes. O impasse entre os diversos
grupos políticos, sociais, econômicos e religiosos passava a poder ser resolvido dentro da esfera
institucional.
Evidente que este debate institucional não poderia ser desenvolvido nos turbulentos anos pós-
revolução, com intensa luta entre tantas facções degenerando, geralmente, em conflitos
armados, expurgos, radicalização ideológica. Contudo a instituição sobreviveu a Khomeini,
mesmo que a um altíssimo custo em vidas, comum a qualquer revolução.
S E G U N D A - F E I R A , 2 M A I O, 2 0 0 5 - 0 6 : 4 8
Leon Tolstói descreveu com o vigor de sua pena e o fervor de sua ética pacífica a luta dos
caucasianos para se manterem livres em sua novela histórica "Khadjji Murat". No livro ele
compara o povo tchetcheno a duas flores que encontra pelo caminho, a primeira planta só
permite que sua flor seja retirada depois de muita luta com os espinhos, mas uma vez retirada do
rígido caule deixa de ter qualquer valor ou beleza para quem a colheu.
A segunda planta está numa estrada e mesmo constantemente pisoteada pelas pessoas e
esmagada pela rodas dos carros insiste em sobreviver e curar as feridas numa vontade de viver
que ninguém pode lhe tirar. Tolstói lembra que o único método que o dirigente russo, ontem
como hoje um autocrata bêbado e megalômano, encontra para submeter a Tchetchenia é a
"derrubada".
Sedentarizados à força como outros povos da Ásia Central, ameaçados de perder as raízes por
deixarem de lado tradições e modos de vida seculares por uma ideologia presunçosa a ponto de
julgar saber melhor que o tempo o que era melhor para os povos, bombardeados com armas ou
ideias exóticas, ainda assim os povos do Cáucaso sobreviveram. Mas os resultados da
coletivização forçada deixaram sequelas capazes de matar um mar piscoso com a arrogância de
tecnocratas.
Tampouco teve efeito a política stalinista de provocar uma diáspora tchetchena. Nem a distância
das montanhas e dos familiares, nem o exílio nas mais distantes cidades da URSS foram
capazes de matar o sentimento nacional de um povo que preferiu morrer lutando contra
qualquer probabilidade de vitória a ser escravo.
O herói da novela de Tolstói, Khadjji Murat, é um desertor que passa para o lado dos russos na
esperança de vingar-se do líder da resistência. A dilaceração da Tchtchênia em clãs rivais é até
hoje o grande trunfo de seus adversários. Mas o homem descrito por Tolstói com profunda
admiração nada se parece com um arrivista, seu elevado senso de honra e generosidade chocam
os russos hipócritas e se luta ao lado dos russos é por acreditar ser esta a melhor forma de livrar
seu povo da miséria e tirania.
Murat, contudo, logo percebe que os russos são incapazes de entender os povos do Cáucaso.
Um homem que arrisca a vida ao ajudar Murat a passar para o lado dos russos acaba morto num
dos massacres promovidos pelos russos nas aldeias tchetchenas. A família de Murat se torna
prisioneira de seu rival e os russos ignoram seu drama não se empenhando em ajudá-lo.
Ao final do livro Murat foge para voltar a seu povo, mas é cassado e morto pelas tropas
cossacas que o vigiam. Contra qualquer perspectiva de vitória, com apenas quatro
companheiros, cercado num pântano contra uma centena de cossacos, Murat resiste até a morte
como a perseverante flor que não desiste de viver mesmo sendo pisoteada todos os dias.
S E G U N D A - F E I R A , 2 M A I O, 2 0 0 5 - 0 6 : 0 4
Poesia, Religião
Referência Original: [Link]/portal/10069
REVISTANDO O CAMELO
T E R Ç A - F E I R A , 1 2 S E T E M B R O, 2 0 0 6 - 1 8 : 0 0
A mais popular faceta deste Evangelho segundo Prometeu é a noção que o avanço das ciências
aos poucos vai conseguindo explicar o universo e roubando terreno às explicações religiosas. O
eixo central desta crença é a de que as religiões servem apenas como uma explicação "precária"
do mundo, para tentar elucidar aquilo que o homem ainda não é capaz de entender.
No limite esta "teoria prometeica" largamente difundida no senso comum leva a religião a
desaparecer no dia que o homem "compreender" tudo ou no máximo a um distante e
permanente exílio nalgum limite extremo do universo tão inalcançável como a Santa Helena de
Napoleão.
Há ainda outro sentimento a confundir este Evangelho Prometeico que tentam nos vender como
ciência - portanto verdade absoluta e incontestável (quase arrisco a escrever dogma) - que é o da
"revanche" contra a religião. De um lado associando os ideais religiosos aos desvios de sua
prática - em especial a Inquisição - veem em Galileu a personificação material do titã
acorrentado diariamente atormentado por um abutre que lhe rói o fígado.
Como todas as crenças religiosas fundamentalistas, o cientificismo precisa então clamar pela
vindicação de seu mártir e vingar-se nas fés que pouco ou nada tem a ver com o episódio de
Galileu e manos ainda com a de Prometeu, figura mítica com a qual o cientista-sacerdote tenta
se identificar. Ao mesmo tempo, numa analogia eficiente porque óbvia, tentam recriar a velha
imagem de um reino de luz - comandado por eles - frente a um reino de trevas comandados
pelos adversários.
Falta uma definição precisa do que seja religião, mas praticamente todas elas circulam em torno
de um conceito que determina o que é sagrado e o que é profano. Por estas conceituações este
cientificismo seria perfeitamente uma religião, tanto por uma distinção óbvia que restringe o
sagrado ao nada, ao muito pouco ou ao irrelevante, como por uma distinção sacro-profano mais
sutil na qual o sagrado é o conhecimento pretensamente científico e o profano são as crenças
religiosas.
Nas palavras de Garaudy: "o cientificismo é a crença de que tudo quanto não é redutível, sem
resíduo, ao conceito, à medida e à lógica carece de realidade". De forma sutil, mas difícil de
questionar, está aí uma definição de sagrado e profano tão diferente quanto similar à das outras
religiões.
Embora haja muita coisa de questionável nas afirmações de Garaudy, ele parece estar certo ao
afirmar que este cientificismo tem ele sim a função de "ópio do povo" já que aliena as
dimensões subjetivas do homem de seu "mundo real". Ainda mais séria é a consequência
extrema desta alienação que é a eliminação da reflexão sobre os fins, que é impossível de ser
concebida dentro dos marcos do assim chamado "pensamento científico".
Talvez só isto falte para que a caracterização do cientificismo como religião seja completo, mas
isto Não significa que esta reflexão sobre as finalidades não exista, ou mesmo que a negação da
busca de finalidades não seja ela própria uma "teoria das finalidades".
Para quem faz a bomba atômica a despreocupação com as finalidades deixa o cientista de
consciência livre para cometer barbaridades, tal como a crença na falta de um caráter
verdadeiramente humano nos infiéis permitia que cruzados e muçulmanos se matassem sem
sentir que faziam algo de errado e contra os princípios das duas fés.
T E R Ç A - F E I R A, 3 M A I O , 2 0 0 5 - 0 0 : 3 5
Pessoal
Referência Original: [Link]/portal/10072
DEUS ESTÁ MORTO?
"Tudo o que digo de Deus é um homem quem o diz" (Karl Barth)
Diariamente se reduz o espaço destinado a Deus no mundo por conta das novas descobertas da
ciência que explicam uma nova faceta do Universo que pareça misteriosa aos nossos
antepassados. Do infinitamente grande ao infinitamente pequeno, passando pelo milagre da
vida, já não existem mais pontos nos quais o homem não tenha conseguido produzir avanços
substanciais na sua dissecação do universo.
Um dos poucos refúgios da divindade nas mentes do público comum é a pretensa ordem
encontrada na criação e no universo, as milhares de espécies que parecem tão adaptadas ao seu
ambiente, as engrenagens miraculosas do universo prestes a serem desvendadas numa equação
que o físico americano Stephen Hawkins chamou de "Lei de tudo" (Law of everything) que
unifique a Teoria Geral da Relatividade com a Mecânica Quântica.
Qualquer exame desta adaptação e mecânica perfeita descobre que o grande milagre por detrás
de tudo isto é o tempo, não a divindade. As espécies constroem o seu melhor desempenho, mas
não do dia para a noite, tampouco em séculos ou milênios, mas em milhões de anos. O
constante aperfeiçoamento das espécies se dá através de uma seleção natural extremamente
cruel, e portanto eficiente, que elimina os genes defeituosos através da eliminação de seus
portadores.
Os predadores não caçam suas vítimas ao acaso, sabem detectar os mais fracos e é sobre eles
que avançam. Ao fazerem isto garantem que a presa, depurada geneticamente, será mais forte ao
longo dos milênios; com isto os predadores mais fracos irão morrer de fome e também a espécie
caçadora será depurada geneticamente. No extremo este processo levaria à perfeição, mas não é
uma destas nossas perfeições limitadas, mas é uma medida no tempo da eternidade, dos milhões
de anos.
Como imaginar que a incrível mecânica do universo cabe em uma mera equação matemática,
contudo é isto que deve acontecer em breve. Evidentemente não será uma lei definitiva, apenas
um conceito apropriado ao nosso nível de conhecimento, tal como as de Newton e Einstein
foram ao seu tempo. De qualquer forma isto significará que a criação e existência do Universo
poderá ser entendida com um grau ainda menor de aproximação e lá não se encontrará nada de
miraculoso.
O conceito de um Deus que surgiu para explicar o que não podia ser explicado pela experiência
humana desaba neste avanço do conhecimento humano. Os fundamentalistas, em especial os
cristãos e judeus, aferram-se ao Gênesis cada vez mais apenas com a fé, porque todas as
evidências lhe são roubadas.
Se procurarmos um Deus para explicar o que não podemos entender, então Deus está morto!
Se procuramos um Deus que criou um universo perfeito, dirigido por leis harmônicas, então
Deus está morto!
Se procuramos um Deus como explicação para uma natureza irretocável, então Deus está
morto!
Porém, se buscarmos não este Deus extático, este Deus que cobre as falhas de nosso
conhecimento, mas um Deus que gerou um universo em movimento que caminha para a
perfeição - a ponto de um dos seres criados ser capaz de entender as próprias ações do criador -
então este Deus não morreu.
O "inventor" da filosofia pragmática, William James - irmão do escritor Henry James, o que
motivou o mote do historiador da filosofia Will Durant "um deles escreve ficção como se fosse
filosofia, o outro escreve filosofia como se fosse ficção" - dizia que a persistência da ideia de
Deus era a maior prova de seu valor moral e universal. A ele bastava a "utilidade" óbvia do
conceito de Deus. Ainda que seja pouco, é um argumento irrespondível: "Deus existe porque ele
é necessário".
A pretensa hostilidade entre ciência e religião é na verdade uma falsa polêmica que perdura há
séculos porque não está na verdade antepondo Deus ao conhecimento científico, apenas
apresentando lendas antigas e medievais em contraposição a um conhecimento sempre
crescente. Deus não pode continuar pagando o preço de ter sido confundido com a Igreja e com
o que Dele diziam os homens há séculos.
T E R Ç A - F E I R A, 3 M A I O , 2 0 0 5 - 0 0 : 3 3
Até do ponto de vista de um pequeno grupo que se reúna para uma tarefa coletiva, por exemplo
redigir um texto, por mais democrática que seja a relação entre elas ninguém redige a várias
mãos. O trabalho mesmo na pequena equipe não ocorrerá senão na medida em que as tarefas
forem divididas e alguém for escolhido para definir um texto, uma base concreta sobre a qual
depois poderão ser feitas as alterações, modificações, acréscimos e edições.
Falei de dois problemas, falta de ideias ou falta de coragem para expressá-las. Não deixa de ser
curioso que aos loucos não faltem nenhuma delas e seja comum que as pessoas que buscam as
lideranças políticas com soluções para os grandes ou pequenos problemas do país sejam muitas
vezes lunáticos.
Por incrível que pareça há vezes nos quais mesmo destes saem ideias interessantes. Lembro-me
de uma vez na qual uma destas pessoas com alguns parafusos a menos, famosa até na cidade,
fez uma ponderação relativa ao fato dos esfignomanometros – os aparelhos que medem pressão
– poderem errar. A questão nos intrigou e fizemos alguma pesquisa no assunto, verificando não
só a ausência de alguma norma a respeito como até que em todo o país havia só um aparelho de
aferição. Alguns meses depois, quando o Inmetro lançou as normas de aferição destes
equipamentos – e é preciso dizer que o fez muito prontamente – iniciou o programa justamente
na Câmara Municipal do interior onde eu trabalhava e que era presidida pelo vereador que teve
o bom senso de dar ouvidos à “louca” e tomar as providências.
Curioso que parece que no processo geral de degradação de tudo nem mesmo os loucos são
mais como os de antigamente, como tantas e tantas personagens da mitologia, do folclore e da
história que se expressavam com a absoluta liberdade concedida àquele que são loucos, que
certamente tem no bobo-da-corte o seu arquétipo, mal compreendido na imagem moderna do
personagem. Hoje até os loucos calculam, pensam, buscam interesses pessoais ou estão tão fora
da realidade que falta aquele tom de discernimento. Também engraçado que boa parte daqueles
que procuram um gabinete político sejam loucos – de um tipo ou de outro – porque no fundo
isto parece estar me dizendo que só eles ainda acreditam que algum político possa resolver algo.
Os momentos nos quais me sinto mais ligado à política são paradoxalmente aqueles nos quais
me deixo levar também por certa insânia, por certa expectativa ou esperança de que é possível
fazer diferença. No meu juízo perfeito preocupo-me apenas em fazer o meu trabalho da forma
mais profissional possível, até de sair caçando trabalho quando não há; mas é só quando deixo
um tanto do juízo de lado que começo a articular e sonhar em como as coisas poderiam ser
diferentes, como se pode romper o paradigma vigente para se pensar em algo novo, começo a
traçar propostas que não estão embasadas em “ouvir a sociedade”, mas tenta construir uma nova
forma de ver as coisas.
Q U A R T A - F E I R A , 1 8 A B R I L, 2 0 0 7 - 1 5 : 2 9
A perspectiva de construção de uma nova Utopia vinda à luz pelo impacto das NTICs – Novas
Tecnologias de Informação e Comunicação – tem sido um tema recorrente nas mais variadas
esferas e particularmente importante para Manuel Castells na medida em que este – em "A
Sociedade em Rede" – define e traça as delimitações da sociedade pós-industrial que ele chama
de informacional. Fora da agenda acadêmica também tem sido traçadas inúmeras análises
vindas de sujeitos diferentes – não raro de interesses antagônicos – do processo político
tentando não só imaginar mas construir estes diversos cenários futuros de intercalação de
sistema político e NTICs, não raro utilizando a ideia de construção de uma “Utopia Digital”
com termos simbolicamente semelhantes.
A ideia de “Utopia Digital” é particularmente apropriada pois invoca em termos simbólicos uma
certa perspectiva idílica, quase milenarista, há muito já desgastada pelo processo político e
histórico concreto, resignificando-a de forma novamente plausível como cenário possível. E, ao
mesmo tempo, em sua essência, invoca todas as contradições do predomínio do interesse
coletivo e dos “fins elevados” justificando sacrifícios pessoais – em especial o sacrifício da
liberdade, individualidade e privacidade – que são a marca “oculta” de todas as Utopias desde a
narrativa de São Thomas Morus que cunhou o termo passando por sua predecessora mais antiga
– a República de Platão, na qual os governantes podiam trapacear para garantir a “felicidade
geral” - e contemporâneas, assim como as distopias que são suas antíteses como o "Admirável
Mundo Novo" e "1984".
Não poderia ser diferente também na medida em que todos os textos “utópicos” - inclusive
aqueles que denunciam e temem as utopias como as distopias mencionadas - foram escritos em
períodos de crise profunda provocada pela transição entre um modelo econômico, social e
político e outro e portanto no qual os velhos valores já não tem mais força ideológica e os novos
são ainda fracos e indeterminados.
II – O nerd e o general
Assim não é estranho que ressurja em um novo momento de crise e transição a popularidade das
Utopias visto que de novo se vive um momento no qual antigos valores perdem eficácia e novos
valores ainda não estão suficientemente constituídos. Esta sociedade informacional, para utilizar
o termo de Castells, está marcada por algumas contradições ainda não resolvidas em particular
na esfera política onde dois modelos distintos profundamente ligados na própria criação e
alicerce desta nova sociedade lutam pela hegemonia.
O caso chinês – particularmente bem discutido e analisado por Castells por ser o único no qual
um modelo estatista foi capaz de ingressar na sociedade informacional produzindo uma
transição adequada para o novo sistema produtivo – é bem significativo nesta junção porque foi
até agora o único também no qual a dimensão militar-governamental centralizadora tem sido
capaz de resolver a contradição pela supressão da dimensão libertária, inclusive com a
utilização dos recursos de controle da informação e comunicação desenvolvidos pela produção
informacional como meio de sufocar conflitos latentes.
Neste sentido o “modelo chinês” é útil na construção deste continuum de gradações das
misturas das fontes e bases do sistema informacional por estar muito próximo do que seria um
ponto extremo dos cenários possíveis. Muito menos significativo do ponto de vista econômico e
demográfico mas no ponto concreto mais próximo do extremo oposto deste modelo estariam as
TAZ – Zonas Autônomas Temporárias – de Peter Wilson e outros segmentos dos Situacionistas
nas quais o elemento organizador/repressor oriundo do complexo industrial-militar foi
totalmente eliminado restando só a dimensão libertária e criativa.
É esta contradição das origens que torna possível a existência de dois cenários totalmente
distintos na nova estrutura política que deverá emergir nas próximas décadas como a expressão
governamental da economia informacional. Ou se terá algo muito similar ao modelo chinês de
utilização estritamente instrumental das NTICs com aplicação maciça dos próprios recursos do
sistema para um controle minucioso e brutal da liberdade individual ou se terá uma
descentralização do poder de decisão com a extensão do debate, do direito de minoria e da
liberdade de expressão – até um limite muito próximo ao que era possível chegar nas
Assembleias atenienses – com dezenas de milhões de pessoas participando do processo
político.
O processo histórico tem demonstrado ao longo de todas as transições similares que mesmo que
sempre exista algum tipo de mistura e síntese dos cenários possíveis sempre há uma tendência à
nova ordem política ser a hegemonia de um deles sobre os demais. Assim por mais variantes
que sejam possíveis parece que grande escolha é entre os modelos ideais de Teletela Cibernética
– numa referência à utilização das NTICs para o controle minucioso dos cidadãos como no
romance de Orwell – ou de Ágora Eletrônica – na reconstrução de uma forte democracia direta
modelada na ateniense a partir dos recursos das NTICs.
Um dos complicadores destes dois modelos possíveis é a intricada complexidade com a qual a
ideologia está arraigada nos discursos sobre o assunto. Esta complexidade é natural tendo em
vista que a sociedade informacional é fundamentalmente um sistema fundado na produção e
reprodução de conhecimento e portanto sua própria essência está ligada a produção e
decodificação de símbolos. Também é natural levando-se em conta que transitando de uma
velha ordem para a construção de uma nova os universos simbólicos que norteiam os discursos
ainda estejam ancorados na superestrutura ideológica do mundo que desaparece e mal se
vislumbre ainda a nova realidade que está surgindo. O processo é análogo ao da Utopia de
Morus, motivo pelo qual se dedicou a introdução à Utopia original, no qual também a velha
ordem feudal tenta se reconstruir ideologicamente como nova e reformadora para antepor-se à
ordem capitalista que surgia.
Desta forma não surpreende que elementos com conteúdo simbólico aparentemente progressista
como “direitos coletivos”, “controle social” e similares sejam usados como esteios da
construção da “teletela”, da solução conservadora para as contradições. Da mesma forma é
significativo que mesmo as grandes corporações no centro desta sociedade informacional ao
mesmo tempo em que asseguram um controle cada vez mais preciso e estrito sobre volumes
cada vez maiores de informações a serem processadas adotem nas suas políticas internas não só
processos de decisão mas mesmo normas de conduta totalmente libertárias. Já se tornou parte da
cultura – e mesmo do folclore – o ambiente aprazível, informal e “divertido” dos centros
corporativos mais relevantes como a Microsoft, bem como a tentativa de implantar padrões de
comportamento profissional e pessoal mais “apresentáveis” já levou à falência ou a beira da
falência empresas-símbolos do processo informacional como a Atari.
Tais contradições não são casuais, nem mesmo apenas fruto do processo histórico. Elas estão
relacionadas à essência mesmo do processo de produção fundamental do sistema informacional
que é a produção do conhecimento. Esta produção, ao contrário de todas as demais, não pode
ser massificada e padronizada no seu processo de criação, embora o possa ser nas suas fases de
processamento da informação, distribuição e consumo. É da sua natureza ser produzida por um
segmento de elite – no sentido estrito e original do termo – que pode ser ampliado pela difusão
da educação e cultura através de políticas sociais, menos desperdiçado através de políticas
públicas que reincorporem segmentos marginalizados, melhor desenvolvidos através de
sistemas de igualdade de oportunidades, mas sempre será, por definição dependente de um
segmento minoritário da população, capaz de enxergar mais longe e mais profundo e criar o
novo e, portanto, dotadas de um profundo senso de individualidade.
Ao mesmo tempo o consumo em massa desta produção simbólica produz elementos também
contraditórios em sua natureza na medida em que as próprias modificações na linguagem e
código introduzidas por elas pode tanto elevar ou rebaixar os padrões culturais e educacionais.
Aqui antepõem-se duas visões clássicas diferentes desta questão do código: a de Castells e a de
MacLuhan. Para Castells não há diferença implícita entre a comunicação virtual e todas as
formas anteriores de comunicação visto que em todas elas na verdade há a mediação através de
símbolos e portanto todas sempre foram virtuais. Para MacLuhan “o meio é a mensagem” e
portanto uma alteração no meio implica em um sentido diverso que delimita e determina o
conteúdo da mensagem.
Estas visões diversas não são excludentes, mas não deixa de ser um ponto favorável a
MacLuhan que a expressão mediada pelas NTICs que permite – e ao permitir praticamente
condiciona e determina que assim seja – a comunicação utilizando recursos multimídia,
hipertexto e outros recursos áudio-visuais muda de forma expressiva seu conteúdo ao menos
enquanto produto para consumo de massa. Tal como os vitrais das catedrais góticas serviam
para que a escassa minoria dos letrados religiosos que dominavam o aparelho de reprodução
ideológica se comunicassem com uma massa iletrada também os recursos multimídia tornam-se
um recurso para a comunicação com uma massa jovem com “letramento” decrescente através da
imagem, som, vídeo e outros recursos que dispensam a linguagem escrita.
Este iletramento de segmentos crescentes da população traz uma contradição relevante para o
sistema informacional que será determinante para qual os cenários – Teletela ou Ágora –
emergirá.
De um lado o baixo letramento das massas significa – na melhor exemplificação de que o meio
é a mensagem – um predomínio do emocional sobre o racional, do impacto instantâneo das
imagens sobre a reflexão estruturada da escrita e leitura. Esta “Revolução Cultural” - similar em
essência a cometida pela China maoísta – tem grande impacto na preservação e estabilidade do
sistema visto eliminar os elementos de contradição e reflexão e, como a Novilíngua orweliana,
impedir até mesmo que a oposição ao sistema seja concebida em pensamento.
Ao mesmo tempo, contudo, a disseminação deste tipo de cultura iletrada do “ninguém lê mais”
apresenta um risco ao insumo fundamental do processo de produção da sociedade informacional
que é o recurso humano criativo porque ao valorizar o iletramento e o emocionalismo e
restringir a reflexão também condena a esta servidão simbólica parcelas da população que
seriam necessárias a produção do conhecimento diminuindo as possibilidades de um
recrutamento essencial à evolução do sistema.
Castells enxergou um acirramento da divisão social pelo achatamento dos trabalho médios tanto
pela degradação da maioria como pela ampliação do estrato superior. A tendência é plausível na
medida em que a elevação do nível médio de educação e cultura pelas políticas sociais, pela
eliminação dos bolsões de exclusão pelas políticas sociais e a ampliação do acesso às NTICs
com a sua universalização em talvez só uma geração – visto que Castells avalia que hoje o
maior obstáculo às NTICs é apenas geracional e será eliminado quando a geração pré-
informacional que resiste a elas desaparecer – amplia de forma muito significativa os padrões
das massas. Também em um momento de franca expansão e carência de recursos humanos é
natural que a ideia de carreiras abertas ao talento se multipliquem e as chances de ascensão
sejam maiores aos dotados de habilidades especiais.
Assim, salvo em condições de estrito e pesado controle governamental, tal como na China, é
difícil imaginar a não existência de um grau elevado de produção de conhecimento que não
implique em um anseio crescente por liberdade, tanto política quanto individual. Mesmo na
China isto só foi possível em função de dois fatores, de um lado a produção de conhecimento
em outras regiões, passível de ser adquirido e de outro pela constituição de uma casta altamente
privilegiada de empreendedores internamente.
Se o Estatismo chinês conseguiu êxito onde o soviético falhou – e esta falha custou sua
sobrevivência como aponta Castells – foi pela capacidade não de manter-se como estatismo mas
pela de transformar-se em um capitalismo informacional integrado a economia mundial, ainda
que sob controle estatal na esfera política. A contradição e fragilidade deste modelo já foi
apontada por muitos desde Castells, mas a China tem resistido a todas as previsões de implosões
da contradição entre economia empreendedora e fechamento político.
No resto do mundo tem sido apontada muito mais uma apatia política com um desinteresse da
maioria dos segmentos pela política – com as decisões políticas sendo crescentemente
apropriadas pelos aparatos tecno-burocráticos, como aponta Giovanni Sartori – do que uma
ampliação da participação no processo decisório que já seria permitido pela utilização das
NTICs. Apenas em parte este desinteresse é contrabalançado por um crescimento do ativismo –
notadamente de minorias políticas, religiosas, étnicas, demográficas – e da produção
independente de informação e notícias que ganha nova dimensão e amplitude através destas
novas tecnologias. O meio político tem se esforçado por estimular e copiar este ativismo com
poucos êxitos notáveis e muitos fracassos retumbantes, quase sempre marcados exatamente pelo
que se apontou acima acima como “método do vitral gótico”, ou seja pela tentativa de
comunicação emocionalizada fundada em recursos multimídia e não na persuasão.
As apostas parecem apontar para um cenário mais próximo daquele da Teletela Cibernética –
com as NTICs sendo usadas para manipulação das massas e controle estrito dos indivíduos – do
que para uma Ágora Eletrônica – com a disseminação do poder de decisão e incorporação de
parcelas cada vez maiores de uma população mais culta e educada no debate dos temas
públicos. Esta perspectiva pessimista só é abrandada pela necessidade constante e crescente de
cérebros como insumo fundamental do capitalismo informacional, necessidade esta que em
algum grau impediria a transformação da produção de conhecimento em reprodução de
ideologias.
D O M I N G O , 2 0 M A R Ç O, 2 0 1 1 - 0 3 : 5 8
O futuro
Manuel Castells, Giovanni Sartori, Thomas Morus, Aldus Huxley, George
Orwell,NTICs,
Referência Original: [Link]/portal/10770
A DEMOCRACIA DE CADA UM
Análise do texto Considerações sobre o Governo Representativo de John Stuart Mill.
No primeiro Capítulo Mill avalia que há duas grandes formas de entender a política. Uma delas
enxerga a política como uma arte na qual a determinação de uma forma de governo depende
exclusivamente da escolha dos cidadãos. A outra visão imagina a política como um ramo das
Ciências Naturais na qual as formas de governo dependem dos hábitos, costumes, meio
geográfico e outros elementos pré-definidos de um determinado povo, portanto a ação humana
estaria limitada a encontrar a forma de governo que fosse mais apropriada a uma determinada
sociedade.
Mill rejeita as duas hipóteses extremas como absurdas, ponderando que nem é possível às
sociedades humanas constituir qualquer forma de governo que lhe aprouver, nem que exista
uma forma pré-determinada e que estas formas fossem organismos com vida própria. Segundo
ele as duas visões extremas devem-se apenas ao esforço argumentativo dos partidários das duas
concepções.
Tentando resolver a questão ele propõe alguns pressupostos. Em primeiro lugar que as
instituições políticas são produto da ação humana e ao desejo humano devem sua origem e
existência, neste sentido se aproximando dos partidários da primeira posição.
Mas, diz ele, a "máquina política" (Political Machinery) não age por si mesma, mas precisam
ser operadas por homens e isto limita o universo de opções possíveis porque requer que um
sistema político atenda a três condições:
A população a qual as Instituições Políticas se destinam deve desejar esta forma de governo ou,
ao menos, não se opor a ela a ponto desta oposição ser um obstáculo intransponível;
Esta população deve desejar e ser capaz de manter o sistema em funcionamento;
Ela deve desejar e ser capaz de fazer - ou deixar de fazer - o que é necessário para atingir os
objetivos.
Segundo Mill, os partidários do que ele chama de Teoria Naturalista da Política tiram as
conclusões erradas da incapacidade de se implantar determinadas formas de governo a uma
sociedade específica porque não levam em conta estas três condições que limitam o leque de
escolhas das instituições políticas.
A forma de governo, uma vez observadas aquelas três condições, seria portanto uma questão de
escolha. A procura e debate sobre qual seria a melhor forma de governo de forma abstrata não
seria, assim, um exercício falaz, mas um exercício útil do intelecto na medida que este debate
pode colaborar para a superação das condições desfavoráveis e desenvolvimento de uma
consciência dos cidadãos que permita o atendimento das três condições estabelecidas por ele.
Isto porque embora os usos e costumes de uma determinada sociedade possam impedir a adoção
de uma forma de governo, esta não é uma condição permanente porque não deriva, como
querem os Naturalistas, do caráter daquele povo, mas do não preenchimento por estas
sociedades das três condições estabelecidas.
Por fim Mill reconhece que há profundas forças sociais que atuam sobre o processo político,
algumas das quais baseiam sua força na existência de uma maioria de poder apenas potencial na
sociedade. É o debate em torno das instituições políticas possíveis que liberta parte deste
potencial porque a persuasão pode mobilizar muito mais forças que os meros interesses
materiais mais imediatos.
Mill contesta a suposição popular de que se fosse possível ter um bom déspota então o
despotismo seria a melhor forma de governo. Ainda que fosse possível imaginar que existisse
um "super-homem" capaz de dar conta da imensa tarefa de gerenciar os assuntos do país de
forma satisfatória, tal situação representaria a degradação intelectual e moral do povo.
A única exceção, ou seja, a única situação na qual a ditadura seria admissível - ainda assim por
um curto espaço de tempo - seria uma situação de emergência tal na qual esta medida extrema
seria necessária para restabelecer a liberdade pela remoção dos obstáculos a ela numa
sociedade.
Assim ele crê que o "bom despotismo" - que ele considera uma contradição em termos - pode
ser ainda mais prejudicial a uma sociedade avançada que o "mau despotismo" porque consome
as esperanças e energias deste povo.
A forma ideal de governo para Mill seria aquela na qual a soberania está depositada sobre a
totalidade da comunidade com cada cidadão não só tendo direito a voz como pelo menos
ocasionalmente é chamado a tomar parte diretamente no governo ocupando algum cargo.
Objetivamente a qualidade de um governo poderia ser medida - assevera o autor - pela
eficiência com a qual um governo divide internamente as suas tarefas e responsabilidades, ou
seja, na "quantidade" de eficiência com a qual ele promove o gerenciamento da distribuição dos
negócios da sociedade entre seus membros e qual é o efeito desta distribuição na melhora ou
deterioração dos talentos da sociedade.
De uma forma geral a melhor forma de governo para uma determinada sociedade seria,
idealmente, aquela na qual se produz a maior quantidade de consequências benéficas imediatas
ou posteriores. Um governo completamente popular, diz Mill, seria o único que poderia atender
a esta exigência por dois motivos. O primeiro seria que os direitos e interesses só teriam uma
salvaguarda absolutamente segura nas mãos do próprio interessado. O segundo é que a
prosperidade geral está diretamente relacionada à quantidade e variedade das energias
empenhadas em promovê-la.
Aos que contestam a sua premissa que cada um é o único guardião seguro de seus próprios
direitos e interesses, Mill alega que este princípio será válido enquanto o homem continuar a
preferir a si mesmo ao invés do outro, aos que estão próximos aos distantes. Uma das
consequências, contudo, deste raciocínio é que em oposição aos conservadores ingleses seus
contemporâneos ele defende o sufrágio universal, inclusive feminino.
Indo além, ele afirma que é inerente ao ser humano que o patrocínio e proteção dos interesses
dos outros seja menos salutar que a construção desta defesa pelas próprias mãos dos
interessados. Só pelas próprias mãos dos interessados, crê ele, se é capaz de produzir resultados
positivos e duráveis.
S E G U N D A - F E I R A , 2 M A I O, 2 0 0 5 - 0 7 : 0 6
O poder sempre é implacável com quem o subestima e no imenso jogo de pôquer da política a
punição para o blefe é ainda mais severa, até porque na arena do poder o "pagar para ver" tem
consequências funestas. Isto não significa que não se possa blefar ou que o pequeno e o médio
poder não possam enfrentar o grande, mas que devem fundamentar sua decisão em avaliações
realistas tanto de seus poderes como do de seus adversários.
Blefes
Um exército mais fraco pode vencer um mais forte, como a história mostra, mas só se for capaz
de tomar as melhores decisões. A clássica frase de Sun Tzu espelha a importância desta
avaliação correta de forças: "se você conhece o inimigo e conhece a si mesmo não precisa temer
o resultado de cem batalhas; se você conhece a si mesmo, mas não ao inimigo para cada vitória
sofrerá uma derrota; se você não conhece nem a si mesmo, nem ao inimigo, sucumbirá em cada
batalha".
Evidente que Sun Tzu e tantos outros estrategistas admitem o blefe, Ibn Khaldun chega mesmo
a dizer que "a guerra é a arte de enganar", porém há uma diferença fundamental entre estes
blefes e uma atitude equivocada como a do Imperador chinês. O bom blefador engana a todos,
menos a si próprio, a chave da sua estratégia é saber tanto as fraquezas e forças suas como as do
inimigo e ter plena consciência dos riscos que corre se alguém "pagar para ver".
Sorte e azar
Quem está com a partida perdida certamente não tem outra alternativa senão o blefe, pois a
iminência da derrota pode ser ainda mais assustadora que o "pagar para ver". Mas quando se
tem algumas chances de vitória descartá-las num blefe arriscado é jogada perigosa demais.
Mas para fazer este tipo de avaliação é fundamental saber quais são - efetivamente - as suas
chances e as do adversário. Volta-se portanto para a essência da questão, quem não é capaz de
avaliar com exatidão as relações de força e poder entre os contendores está condenado a
fracassar, salvo se tiver imensa ajuda da sorte. A sorte, porém, é algo muito volátil e impreciso
para que qualquer planejamento se baseie nela.
Maquiavel dizia que a sorte sorri com mais frequência aos ousados, a quem corre riscos, e
muitos dos grandes líderes que a história mostra devem boa parte de seu triunfo à sorte.
Contudo a sorte, para eles, não foi nunca a essência de sua estratégia, foi algo a mais que surgiu
e que foi convenientemente aproveitado.
Ser oportunista é uma vantagem apenas momentânea, porque o efeito surpresa que é a coluna
vertebral da sua estratégia, perde força a cada nova ação oportunista. Depois de um certo
número de ações audazes e arriscadas de um jogador oportunista, os outros contendores
percebem seu padrão de comportamento e - se forem espertos - incorporam às suas análises que
aquele jogador tende a correr riscos e começam a calcular as chances deste tipo de ação, se
preparando para elas. Com isto a vantagem inicial de ser oportunista se dissolve.
Assim, a essência de qualquer poder está diretamente ligada à capacidade do político em medir
com exatidão as suas forças e oportunidades, bem como de estimar de forma correta as do
adversário. A vitória, seja numa guerra ou numa campanha eleitoral, está diretamente ligada a
esta análise porque ela é que vai estabelecer quais alianças são necessárias, quais armas se deve
utilizar, quais perigos espreitam nas curvas, enfim sem um diagnóstico correto não há estratégia,
por melhor que seja, que possa levar à vitória a não ser com doses generosas de sorte.
S E G U N D A - F E I R A , 2 M A I O, 2 0 0 5 - 0 7 : 1 5
Não tenho simpatia alguma pela pena de morte, menos ainda pelas execuções públicas e
também achei que o “espetáculo” do enforcamento de Saddam foi lamentável. Mas é um
sentimento que me atinge por ser ele um ser humano, como qualquer outro, não há a menor
simpatia por este ditador sanguinário, do tipo que o mundo fica muito melhor sem.
Não consigo ter a menor simpatia ou empatia por qualquer tipo de ditador. Por definição eles
são para mim pessoas fracas, amedrontadas e incapazes de convencer e persuadir, portanto
precisam se esconder atrás da demagogia, do emocionalismo e sentimentos perversos da massa,
da polícia secreta e da censura a imprensa para garantir-se no poder. Para mim todos são
lamentáveis e qualquer um que demonstre apreciação por algum deles – independente de
ideologia que tenha ou diga ter – cai muito no meu conceito e dificilmente conseguirei levar
suas opiniões políticas a sério.
Saddam foi um ditador sanguinário, responsável por genocídios, algoz de seu povo, chegou ao
poder através de um golpe e se manteve pela força, pelo terror e, no último momento, por uma
reversão da política laica de seu partido em um apelo demagógico e hipócrita ornado de certa
preocupação religiosa.
Nem como democrata, nem como anti-imperialista, nem como muçulmano consigo ter qualquer
simpatia por Saddam. Achei a guerra tão lamentável e mal-intencionada quanto à execução de
Saddam – acho que cada povo deve ser capaz de livrar-se sozinho dos ditadores que criou por
ação ou omissão – mas nem por isto deixo de achar que o mundo ficou melhor sem Saddam e
nem deixo de esperar que outros Saddams que povoam o mundo não tenham ficado um pouco
mais amedrontados ao ver na morte de um igual o destino que – se Deus quiser – aguarda todos
os faraós nesta ou na outra vida.
Fico triste em ver que muitos muçulmanos mostram certa simpatia por Saddam baseados em
falta de informação ou em um espírito de corpo. A guerra no Iraque foi uma luta do império
contra um ditador, certamente cabia a todos ser contra a guerra, mas daí a ter simpatia pela
figura deplorável de Saddam apenas porque ele estava na outra ponta da batalha é uma grande
distância.
Houve um tempo em que a esquerda criava ídolos que mesmo com alguma ressalva neste
processo eram pessoas cujas atitudes eram compatíveis com a admiração. A ruptura das
ideologias e a desconstrução das utopias fez com que o mundo real irrompesse nos sonhos e
ideais e hoje o que se vê de uma forma geral é a admiração por personagens detestáveis,
grotescos até – como Chavez. Sem querer provocar polêmica diria que em muitos casos esta
admiração não é gratuita – no pior sentido do termo – mas vem de patrocínios ou esperanças de
financiamento, como no Fórum Social Mundial realizado na Venezuela, no qual Chavez
recebeu em elegias muito mais do que gastou em publicidade. Este comportamento só avilta as
duas partes, vaidosos e interesseiros.
A preocupação humanista que sempre marcou os segmentos mais simpáticos da esquerda parece
ter morrido. Tem-se todos os métodos dos piores segmentos – demagogia, justificativas táticas e
estratégicas, “ética relativa”, arrogância das vanguardas – mas não se tem mais nem uma grande
e nobre causa, um futuro mundo utópico a construir. Para quem começou a vida militando na
esquerda e até hoje se considera mais próximo da “esquerda” no espectro ideológico não deixa
de ser triste ver quão pouco de sonho e ideal sobrou.
S Á B A D O , 1 0 F E V E R E I R O, 2 0 0 7 - 0 6 : 3 2
As pessoas em geral tem uma aversão que beira ao asco quando se menciona a palavra
"Política". A reação é natural se levar-se em conta a quantas anda a política em qualquer nível
que se imaginar.
Nem adianta vasculhar o passado em busca de exemplos de uma época na qual a política não era
o que é hoje, qualquer exemplo encontrado será falacioso, fruto provável de algum laudatório de
encomenda aos políticos da época. Desde a Grécia a política é algo detestável, como já
assinalavam os filósofos gregos para os quais a política nunca havia conseguido ser aquilo que
se esperava.
O que adianta de fato é olhar para o futuro, pensar em construir uma nova Política, uma política
realmente preocupada com as coisas que são importantes ao invés de atentar-se a
mesquinharias, uma política que vise o conjunto da sociedade ao invés de servir para alimentar
egos - e bolsos - de indivíduos malsãos.
Apesar de eternamente retratada como um meio para grandes coisas a política jamais foi vista
por aqueles que a exercem - os políticos - a não ser como fim em si próprio, como a satisfação
de um sentimento egocêntrico de tomar o poder nas mãos e fazer com ele o que bem se
entendesse.
Se for procurada alguma diferença em relação ao passado se encontrará, no máximo, uma época
na qual as pessoas se preocupavam com o destino do governo e portanto existia um certo limite
ao exercício hedonístico do poder pelos políticos. Hoje sequer isto acontece, as pessoas
simplesmente não se importam mais e em consequência a tendência é o agravamento da
situação.
Este agravamento, contudo, não deixa de ter um lado bom, porque faz cair as máscaras, não
existe mais a preocupação de tentar esconder o desejo egoísta do poder atrás de belos discursos
e causas nobres. De repente se tornou natural aceitar o exercício do poder pelo poder e pronto,
sem mazelas e sem disfarces.
Nada diz mais sobre a queda desta máscara que a forma puramente comercial que está tomando
a eleição, ela não é mais uma disputa de ideias (se é que algum dia o foi, mas ao menos antes ela
se disfarçava assim) mas simplesmente um leilão do poder.
Roma começou a decair quando a Guarda Pretoriana e o Senado passaram a leiloar o cargo de
imperador. O mesmo acontece hoje, com a diferença aparentemente democrática que agora o
cidadão comum também participa do leilão. Mas se o número de pregoeiros aumentou,
diminuíram os prêmios, agora geralmente tabelados em cestas básicas, a moeda eleitoral mais
comum.
Não faltará muito para que só seja possível se eleger comprando o cargo diretamente dos
eleitores, falta realmente muito pouco para que isto comece a acontecer. A próxima eleição será
certamente um carnaval da corrupção mais rasteira a qual a população se submete trocando seu
sagrado direito de exercer o poder por dois ou três dias de alimentação.
As eleições majoritárias ainda guardam um certo resquício de decisão abstrata e não material,
pouco é verdade mas muito mais que nas eleições legislativas nas quais domina a mais absoluta
venalidade. O resultado todos podem ver....
Os partidários dos regimes autoritários tem uma das respostas possíveis, simplesmente
extinguindo o Estado de Direito e as instituições fracas - para não dizer inúteis - corruptas e
desmoralizadas. O cruel é que quanto mais os parlamentos se preocupam com mesquinharias,
quanto mais eles discutem temas que só interessam a eles mesmos, quanto mais eles consagram
a ineficiência que beira a inutilidade, mais fácil fica que as pessoas deem razão aos gorilas com
suas botas. Assim os parlamentos, que sempre se colocam como as primeiras vítimas das
ditaduras, no mais das vezes são eles seus próprios coveiros.
A alternativa a isto não é fácil - talvez seja mesmo impossível - seria a participação ativa dos
cidadãos no processo decisório capaz de depurar a política pequena, a política da ninharia, para
construir uma grande política na qual a comunidade, ela própria, resolvesse tomar os seus
destinos na mão e construir uma sociedade de tipo diferente.
Entre a alternativa fácil do regime autoritário, talvez muito mais à mão do que se possa pensar, e
a dos cidadãos deixarem de lado o comodismo, há léguas de distância. Assusta pensar que a
primeira é tão fácil e a segunda praticamente impossível. Assusta ainda mais pensar que só
faltou alguém com coragem e disposição para tomar o primeiro caminho.
Sob o nome genérico de milenarismo são chamados os grupos que esperam o surgimento de
uma idade áurea do mundo que antecederá o Juízo Final. Como em geral, mas não
obrigatoriamente, as previsões falam de um período de Mil Anos de felicidade surgiu o nome de
milenarismo que agrupa ideias, seitas, profecias e crenças das mais distintas desde o início do
cristianismo.
O tema do milenarismo cristão é tratado de forma tão agradável quanto documentada pelo
recente livro de Jean Delumeau, "Mil Anos de Felicidade", (530 páginas, R$ 60) editado pela
primeira vez em 1995 e traduzido para o português em 1997, pela editora Terramar. Apesar de
portuguesa a tradução parece ter sido feita em português do Brasil, excetuando-se pela
acentuação, é portanto uma leitura fácil e relativamente leve. Além disso a edição tem um
acabamento primoroso com papel de gramatura alta e tipos bem escolhidos que, se não são
capazes de tornar um livro melhor ou pior, ao menos contribuem para facilitar o manuseio.
O Livro é o segundo de uma trilogia cujo primeiro volume - O Jardim das Delícias - analisa a
importância e a história da crença em um Paraíso primordial. A bibliografia é extensa e
cuidadosa - apesar de haver a falha dela não ser explicitada - e inclui inúmeras fontes primárias
dos textos o que evita aquela ideia de um livro recheado de ideias de segunda mão que por
muito tempo encheram as bibliografias sobre a Idade Média.
É enfim, um livro essencial a quem queira compreender melhor o fenômeno religioso, não só na
história mas também na era contemporânea. Aliás o tema do milenarismo ganha redobrada
importância neste período de mudança de milênio, tão propícia ao florescimento destas ideias.
Um outro livro que será comentado em outro momento, "Ano 1000 ano 2000", do historiador
Georges Duby (Editora Unesp, 1998, 145 páginas), também explora a similaridade com o
momento atual.
Um dos fatos destacados por Delumeau explicita esta prioridade da doutrina: foi a condenação
do milenarismo por Santo Agostinho que tornou esta crença marginal, limitada a seitas restritas
e quase desaparecida da história por séculos. Só a sua recuperação e justificação, de dentro da
doutrina, pelo monge calabrês Joaquim de Flório - que explicitamente condena Santo Agostinho
- irá fazer a ideia ressurgir com força.
Não se nega que estes períodos convulsionados fornecem um excelente substrato à pregação
milenarista, mas note-se que toda a convulsão que se seguiu ao fim do Império Romano
Ocidental - contemporâneo de Santo Agostinho - não foi suficiente para enfrentar a autoridade
moral e religiosa do Santo e fazer a crença milenarista prosperar.
Como já foi mencionado em artigo anterior, a intensa campanha da mídia para transformar o
medo do fim do mundo em um fato jornalístico não foi suficiente para gerar este medo na
maioria das pessoas. Um estudo sobre os que foram convencidos que o mundo terminaria -
provavelmente - demonstraria que a crença da pessoa foi mais importante do que a sua classe
social, por exemplo.
Ainda que esta última afirmação seja apenas uma suposição não baseada em nenhum fato
concreto - e quem sabe uma sugestão de um tema a ser pesquisado - os diversos estudos sobre
as seitas apocalípticas parece fornecer dados suficientes para se permitir que se admita, a
princípio, esta hipótese.
T E R Ç A - F E I R A, 3 M A I O , 2 0 0 5 - 0 0 : 3 2
Pessoal, Poesia
Referência Original: [Link]/portal/10101
VINHAS DA ESPERANÇA
Mencionei há alguns dias que um dos poucos autores norte-americanos dos quais gostava era
Steinbeck, ainda que com algumas restrições, porque há diversos Steinbecks e não é fácil supor
que o mesmo autor de "Ratos e Homens" e "Vinhas da Ira" seja o autor de "Doce Quinta-Feira".
Quando li o livro pela primeira vez ainda não se falava do MST, embora o movimento já
devesse existir já que está completando 20 anos. Mas as descrições que Steinbeck fez em 1939
dos acampamentos de agricultores migrantes que iam do meio-oeste - onde os bancos
produziram multidões de Sem-terra - até a Califórnia, certamente também descreveriam com
perfeição um acampamento do MST.
Quando li de imediato estabeleci a semelhança entre a saga dos Okies - nome pejorativo pelo
qual os migrantes eram chamados, fossem de Oklahoma ou de outro estado do Meio-oeste - e a
dos migrantes nordestinos.
Há até mesmo uma passagem curiosamente similar ao brasileiríssimo "O Quinze" de Rachel de
Queiroz, no qual um dos migrantes faz o percurso de volta alertando os que vinham que o
paraíso prometido não existe, mas não consegue ser ouvido porque todos o imaginam como um
vagabundo.
O enredo básico da história narra a jornada dos Joad, agricultores falidos de Oklahoma que
depois de perder as terras iniciam uma longa jornada até a Califórnia, pintada como uma terra
de prosperidade aonde um homem que não tem o trabalho é capaz de ganhar altos salários na
colheita de frutas e, se souber poupar, até conseguir ter sua própria terra.
Como eles, milhares de outros agricultores falidos buscam o oeste cruzando estradas sem fim e
desertos terríveis em velhos calhambeques. O autor alterna três histórias que se sucedem em
capítulos, como se houvesse três livros em um único, recurso experimental que já havia sido
usado no Admirável Mundo Novo e no ultra-experimental 1919 de John dos Passos.
O primeiro capítulo de cada três fala da Família Joad, o segundo faz quase que um ensaio
teórico sobre o tema abordado no capítulo anterior e o terceiro conta a mesma história com
personagens anônimos, demonstrando que os Joads eram apenas um caso.
A festejada versão para o cinema, que se tornou um clássico, é muito inferior ao original não só
por abreviar significativamente a história - quase que só falando da viagem em si - como por
perder este caráter tripartite do livro.
Steinbeck não se limita a descrever a viagem, fala da gestação de um mundo próprio que aos
poucos vai criando suas leis. Fala de um mundo onde a miséria não afastou a dignidade e ainda
fez brotar a solidariedade extrema. Solidariedade, por sinal, é a grande mensagem do livro, por
mais sombrias que sejam as cenas descritas nelas acaba por estar configurada a esperança, e é a
solidariedade que dá esta esperança.
Difícil imaginar um livro tão anti-americano quanto "Vinhas da Ira", um livro que retrata a
miséria, denuncia com violência a exploração, fala da esperança na união da coletividade ao
invés de exaltar o individualismo. Certamente há mais do que se apelidou de realismo socialista
em Steinbeck do que em duas dúzias dos escritores soviéticos da mesma época para os quais
realismo socialista era louvar Stalin e a nova sociedade inspirada por ele.
Curioso é que Steinbeck jamais foi demonificado nos Estados Unidos."Vinhas da Ira" não só
ganhou prêmios, como o Politzer, como foi um sucesso de público e um ano depois de lançado
já era transposto para o cinema não por algum diretor experimental, mas pelo consagrado John
Ford.
Algum contemporâneo dele que ousasse ser tão 'anti-soviético' quanto ele foi 'anti-americano'
dificilmente sobreviveria no Império de Stalin. Mais do que fazer uma crítica social o autor
demole os pressupostos da ideologia americana, ainda hoje tão arraigados, coisa que seria
inadmissível naquela que se dizia a pátria do Realismo Socialista, onde predominavam os
romances burocráticos.
S E G U N D A - F E I R A , 2 M A I O, 2 0 0 5 - 0 6 : 5 3
Pessoal
Referência Original: [Link]/portal/10056
DA ARTE DE CONSTRUIR PONTES
Q U A R T A - F E I R A , 3 1 M A I O, 2 0 0 6 - 1 6 : 0 7
Mas o objetivo deste pequeno ensaio não é discutir esta questão a fundo, apenas apresentar
como um autor específico se aproveitou de alguns textos e histórias e ao mesmo tempo se
colocava publicamente como inimigo do Islam. A prática de se copiar textos em árabe para
apresentá-los como seus nunca foi novidade na cultura ocidental. A obra-prima que abre, por
assim dizer, a Renascença - A Divina Comédia de Dante é parte plágio da Eneida e parte plágio
de alguns relatos populares muçulmanos sobre a Viagem Noturna do profeta Mohammad (A paz
e as bênçãos de Deus estejam com ele). Antes dele São Tomas de Aquino usa fartamente
exposições e argumentos de Al Ghazali na sua Suma Teológica que norteia até hoje boa parte
do clero cristão.
Voltaire é de certa forma o escritor emblemático do Iluminismo e como tal se coloca na defesa
da Razão contra a fé, combate a intolerância religiosa mesmo que para isto tenha, algumas
vezes, de ser intolerante para com as religiões. Inúmeros de seus textos condenam os tartufos
que se aproveitam da crença das pessoas para seus objetivos mundanos mas em muitos casos ele
generaliza esta posição para o conjunto das fés e pessoas religiosas e toda generalização está
fadada ao erro.
Ainda que Voltaire seja em geral detestado pelos fiéis de diversas crenças é preciso reconhecer
que ele era um homem de seu tempo que via o mundo como seus contemporâneos viam e
pensava na perspectiva das necessidades da sua época. Mesmo ele acabou sendo utilizado por
alguns de seus inimigos como instrumento para atacar outras fés. E o próprio Papa o aplaudiu
por uma peça de teatro na qual o profeta do Islam (a paz e as bênçãos de Deus estejam com ele)
é satirizado como o exemplo do Tartufo.
A peça é inaceitável para um muçulmano porque blasfema contra a origem divina do Sagrado
Alcorão e a crença nos Livros enviados por Deus aos seus mensageiros - o livro enviado a
Abraão, a Torah revelada a Moisés, os Salmos enviados a Davi, o evangelho revelado por Jesus
e o Alcorão transmitido a Mohammad (a paz e as bênçãos de Deus estejam com todos eles) é
elemento básico da fé islâmica. Contudo de forma alguma ela é uma crítica exclusiva ao Islam,
que é usado apenas como cortina de fumaça para criticar diversos religiosos ocidentais e
cristãos, em especial os jesuítas.
É interessante notar que em geral Voltaire ressalta que os governos muçulmanos são mais
tolerantes com outras fés que os cristãos. Em sua época ele já havia percebido o fenômeno que
permitiu a diversas igrejas cristãs sobreviverem apenas em regiões muçulmanas porque em
outras foram dizimadas por inquisições, cruzadas e perseguições, coisa que até hoje muitos
"especialistas" em relações internacionais e história não viram.
Na História das Viagens de Scarmentado em meio a uma série de relatos criticando as mais
variadas religiões ele menciona:
"Muito me espantei ao ver que na Turquia havia mais igrejas cristãs que em Cândia. Vi até
numerosos grupos de monges, a quem deixavam rezar livremente à Virgem Maria e amaldiçoar
a Maomé (sic), estes em grego, aqueles em latim, outros em armênio".
E no pot-pourri:
"Mas o que vi de mais edificante foi em Constantinopla.
Há cinquenta anos tive a honra de assistir à instalação de um patriarca grego, pelo sultão
Achmet III. Entregou ele ao sacerdote cristão o anel e o báculo. Realizou-se em seguida uma
procissão de cristãos na rua Cleóbulo; dois janízaros marchavam à frente da procissão. Tive o
prazer de comungar publicamente na igreja patriarcal, e só dependeu da minha vontade obter
um canonicato.
Confesso que no meu regresso a Marselha, fiquei muito espantado de não encontrar ali nenhuma
Mesquita. Externei minha surpresa ao senhor intendente e ao senhor bispo. Disse-lhes que isso
era muito incivil e que se os cristãos tinham igrejas entre os muçulmanos, podia-se pelo menos
fazer aos turcos a galantaria de algumas capelas."
O mais curioso nas relações entre Voltaire e o Islam contudo não são estas referências, mas sim
o fato que Voltaire copia trechos do Sagrado Alcorão em um de seus livros, Zadig, ou o
Destino, e a própria ideia central deste texto parece ter vindo do trecho copiado. Num trecho
principal do Zadig (que explica ao protagonista o sentido oculto de suas desventuras) e antecede
ao desfecho da história ele encontra um eremita lendo um livro numa língua indecifrável e que
seria o Livro do Destino - o trecho todo é muito longo para ser citado, mas quem se interessar
pode ler o Capítulo XVII do Zadig . O Eremita consente que Zadig o acompanhe desde que ele
não comente seus atos por mais estranhos que pareçam.
No primeiro lugar onde pedem estadia são bem tratados e recebem cada um uma moeda de
ouro. Lá o eremita rouba algumas pratarias. No segundo são tratados com indignidade e
humilhados e o eremita entrega ao anfitrião as pratarias roubadas na anterior como um presente.
Logo depois posam numa terceira casa onde são recebidos por um homem gentil e educado que
lhes trata bem e como visitantes sábios e ilustres. O eremita ateia fogo à casa na partida. Por fim
são recebidos por uma viúva que os trata de forma muito aprazível e na saída pede que o
sobrinho, sua única companhia, os acompanhe até parte do caminho. O eremita afoga o menino
num rio.
Zadig não consegue se controlar neste ponto e indaga o eremita. Este então explica as razões de
seus atos: o primeiro anfitrião os recebeu bem apenas por vaidade e o roubo o fez mais sensato e
parcimonioso, o segundo passará a ser mais generoso depois do presente, o terceiro encontrará
debaixo da casa destruída pelo incêndio um tesouro que o enriquecerá e o sobrinho da viúva
teria assassinado a tia e o próprio Zadig se tivesse sobrevivido. Em seguida ele se revela como
sendo um anjo e ensina a Zadig o que em poucas palavras pode ser resumido na fórmula: "Deus
escreve certo por linhas tortas".
Compare-se o relato com o seguinte trecho da surat Al Cahf, no qual o profeta Moisés (a paz de
Deus esteja com ele) encontra um personagem misterioso:
"E encontraram-se com um dos Nossos Servos, que havíamos agraciado com a Nossa
Misericórdia e iluminado com a Nossa Ciência.
E Moisés disse: posso seguir-te, para que ensines a verdade que te foi revelada? Respondeu-lhe:
tu não serias capaz de ser paciente para estares comigo. Como poderias ser paciente em relação
ao que não compreendes?
Moisés disse: se Deus quiser, achar-me-á paciente e não desobedecerei às tuas ordens.
Respondeu-lhe: então segue-me e não me perguntes nada, até que eu te faça menção disso.
Então ambos puseram-se a andar até embarcarem num barco que o desconhecido perfurou.
Moisés lhe disse: perfuraste-o para afogar seus ocupantes? Sem dúvida cometeste um ato
insólito!
Retrucou-lhe o desconhecido: não te disse que és demasiado impaciente para estares comigo?
Disse-lhe Moisés: desculpa-me por ter me esquecido, mas não me imponhas uma condição
demasiado difícil.
E ambos puseram-se a andar, até que encontraram um jovem, o qual matou. Disse-lhe então
Moisés: acabas de matar um inocente, sem que tenha causado a morte de ninguém! Eis que
cometeste uma ação inusitada.
Retrucou-lhe: não te disse que não poderás ser paciente comigo?
Moisés lhe disse: se da próxima vez voltar a perguntar algo, então não permitas que eu te
acompanhe, e em desculpa.
E ambos puseram-se a andar, até chegarem a uma cidade, onde pediram pousada aos seus
moradores, os quais se negaram a hospedá-los. Nela acharam um muro que estava a ponto de
desmoronar e o desconhecido o restaurou. Moisés lhe disse então: se quisesse poderias exigir
recompensa por isso.
Disse-lhe: aqui nós nos separamos; porém, antes, interarte-ei da interpretação, porque tu és
demasiado impaciente para isto:
Quanto ao barco, pertencia a pobres pescadores do mar e achamos por bem avariá-lo porque
atrás dele vinha um rei que se apossava, pela força, de todas as embarcações.
Quanto ao jovem, seus pais eram fiéis e temíamos que os induzisse à transgressão e à
incredulidade.
Quisemos que o seu Senhor os agraciasse, em troca, com outro mais puro e mais afetuoso.
E quanto ao muro, pertencia a dois órfãos da cidade, debaixo do qual havia um tesouro seu. Seu
pai era virtuoso e teu Senhor tencionou que alcançassem a puberdade para que pudessem tirar o
tesouro. Isto é o beneplácito do teu Senhor. Não o fiz por minha própria vontade. Eis a
explicação daquilo em relação ao qual não foste paciente."
(Sagrado Alcorão, surat al Cahf: 65-82)
S E G U N D A - F E I R A , 2 M A I O, 2 0 0 5 - 0 6 : 1 1
Pessoal
Referência Original: [Link]/portal/10075
VIAGENS DIVERSAS NA MESMA
JORNADA
Q U A R T A - F E I R A, 2 8 J U N H O , 2 0 0 6 - 1 5 : 2 9
As duas visões tem seus partidários e detratores e é fácil armazenar argumentos tanto em função
de um como do outro destes argumentos. Porém, de uma forma mais profunda parece que
ambos estão errados. Em primeiro lugar, a posse da informação deveria ser medida não em
função do acesso a ela, mas do seu uso. Uso este definido não apenas de uma forma
instrumental, mas em um sentido mais nobre de capacidade de absorver aquele conhecimento,
interligá-lo com outros na mente e aplicá-lo na própria vida para, por fim, produzir algum
conhecimento de tipo novo.
Confunde-se este sentido pleno da informação - quase ouso dizer o seu valor de uso - com a
simples aquisição do acesso ou posse das informações - por analogia seu valor de troca. O que
se faz, então, é apenas consumir informação como se consome qualquer outra mercadoria, ela
não é absorvida, aplicada, não modifica nem nossas vidas nem nosso conhecimento, apenas é
adquirida.
Quando muito é usada, como os títulos acadêmicos, como um sinal de status, simulacro de uma
autoridade que se pretende ter. Mas é evidente que a cultura de uma pessoa não se mede pela
quantidade de livros que ela leu - e muito menos pelos belos livros que ela tem enfeitando a
estante, porque na Era da Informação os livros voltaram a ser um elemento da decoração de
interiores.
Esta cultura só pode ser medida pelo efeito que estes livros tiveram sobre o pensamento de
quem os leu. Não faltam por aí ávidos consumidores de livros que leem as mais importantes
obras do pensamento humano sem que isto lhes gere um único pensamento novo. É esta
interação que dá o verdadeiro sentido ao acesso à informação, não a sua posse enquanto
mercadoria.
A inexistência de uma elite cultural parece ser a suprema marca destes novos tempos, regidos
pela exportação dos modelos sociais norte-americanos. Sem uma elite capaz de absorver e
digerir toda a informação disponível com um certo grau de erudição estanca-se o processo de
produção de informação em seu sentido pleno.
Os demais - operários e white-collars do processo de produção da informação-mercadoria -
incapazes de compreender a distinção entre os dois tipos de informação - alienados que estão
pela escala industrial da mercantilização do mundo - apenas passam a frente, como se fosse
informação, aquilo que é apenas mercadoria a ser consumida.
O efeito disto é claro até mesmo em pretensos meios de elite como os segmentos acadêmicos.
Criam-se teorias descartáveis como lenços de papel, destinadas a durar apenas umas poucas
estações e serem em seguida substituídas por outras em um processo que não raro destrói ou
atrasam a produção de conhecimento verdadeiro. Cria-se o fetiche de que basta ser novo para
ser bom, assim a teoria nova é automaticamente melhor que a anterior não porque seus modelos
explicativos são mais eficientes, mas apenas porque estão na moda.
Nunca se consumiu tantos livros no mundo como hoje, mas a essência deste dado mostra o
quanto esta estatística é ilusória já que muitos destes livros que são consumidos não o são -
como eram antes - pela busca insaciável do conhecimento, mas apenas pelo consumismo
exacerbado das modas teóricas.
Mas há outro aspecto deste processo todo que também combate as visões excessivamente
pessimistas. Feitos em maior escala, como mercadorias, os livros acabam por tornar-se mais
acessíveis, a imensa estrutura criada para disseminar a informação-mercadoria acaba por
transmitir também a informação-de-verdade. Isto porque a distinção entre uma e outra não está
em seu conteúdo propriamente dito, mas na visão que o receptor tem dela e o uso que ele irá
fazer.
Com isto acaba-se por dar condições de formação - ou reconstrução - de uma elite cultural que -
talvez pela primeira vez na história - não precisará obrigatoriamente ser uma elite também
econômica e política. Certamente é uma visão que muitos considerarão demasiado otimista e
outros elitista, mas os mesmos meios que banalizam a informação no esforço de desprovê-la de
qualquer outro valor senão o de mercadoria, acabam também por disseminar meios de acesso a
estas informações por uma aristocracia do espírito que de outra forma precisaria de imensos
recursos para obter este acesso.
T E R Ç A - F E I R A, 3 M A I O , 2 0 0 5 - 0 0 : 0 5
Pode passar despercebido à maioria dos leitores, mas o horrível cenário do Admirável Mundo
Novo não é senão em parte criação de Huxley. A estrutura fundamental do Brave New World -
e boa parte de seu conteúdo - não vem do escritor inglês, mas da sociedade desejada por Platão
na sua República.
A única diferença substancial é que Huxley escreveu Brave New World como uma crítica feroz,
enquanto Platão escreveu sua República pensando num modelo ideal de sociedade. Mas ambos
se encontram no fato de que a sociedade do livro de Huxley seria apontada por Platão como o
mais próximo que se poderia chegar do seu modelo de sociedade.
É evidente que nos dois autores o método de escolha desta mínima elite pensante é diferente,
mas nem tanto. Para Platão a decisão sobre quem comporia a "classe guardiã" seria definida
dando-se a todos as mesmas oportunidades e escolhendo os de melhor desempenho. Para
Huxley se limita a capacidade de pensar dando-se total capacidade mental para uns poucos.
Não se esquecendo que Platão era adepto radical da eugenia, portanto mesmo que ele não fale
de castas - e de certa forma seja avesso à ideia por defender oportunidades iguais para todos - a
radical seleção no nascimento não seria tão distante do mundo pensado pelo filósofo grego.
Além do que, note-se a semelhança, nos dois mundos não existem mais, filhos, esposas - aliás
nada mais parecido com a "comunidade de esposas" do modelo platônico que os
relacionamentos essencialmente temporários do Mundo de Huxley.
Que as semelhanças notáveis entre os dois jamais confundam o leitor: os dois livros tem o
objetivo exatamente inverso. Platão na República proclama como a sociedade deveria ser para
tentar torná-la possível um dia; Huxley imagina como a sociedade poderia ser para tentar evitar
que ela um dia chegue a acontecer.
Teria Huxley imaginado o Brave New World ao ler Platão? Não há qualquer referência que
legitime esta ideia, mas as similaridades são muitas para se imaginar que não há relação entre os
dois. Talvez ela seja indireta, através da Utopia de Morus que é tributária em larga escala de
Platão - só que neste caso visto de um ângulo favorável que produz, igualmente um mundo
terrível sem liberdades e vida privada.
Falar em Utopia voltou à moda depois do fracasso do "Socialismo Real" se tornar muito
evidente para ser negado até pelos mais fanáticos. Naufragadas as presunções de um socialismo
que "tinha de vir" porque assim estava cientificamente determinado pelo "Materialismo
Histórico" - pintado como a única Ciência Social e ornado com hieráticos dogmas teológicos -
buscou-se o refúgio em se resgatar o Socialismo como uma Utopia - ideia que fermentou até em
mentes sérias e brilhantes como a de Florestan Fernandes.
Há muito tanto de Platão como de Huxley nesta concepção. Por detrás dela há o projeto de
impor à sociedade um modelo pensado por alguma mente fantástica, pouco preocupada não só
com a individualidade dos cidadãos desta Utopia como com as abstrações que forem necessárias
à sua implementação. Incapazes de dar todas as respostas aos anseios humanos simplesmente se
suprime estas vontades rebeldes - pelo convencimento ou pelo soma e, sempre, mais cedo ou
mais tarde pela violência.
Platão nos diz como este projeto deve ser pensado, Huxley nos diz como ele termina. Um é a
teoria deste projeto, outro a prática. Toda Utopia, percebeu Huxley, é a tentativa de impor aos
homens o desejo de alguém ou de algum grupo ao invés de confiar na sabedoria dos próprios
homens.
O Brave New World como a República platônica e a Utopia de Morus é uma sociedade
estagnada, não por acaso ou por alguma contingência, mas sobretudo porque são sociedades
cuja concepção e realização exclui o movimento. Em Platão e Morus esta supressão dos
antagonismos é um desejo inconsciente, uma deficiência da visão de mundo dos autores, já em
Huxley é um projeto proposital dos governantes. Felizmente o movimento é algo tão natural na
sociedade, como na natureza, que não será a vontade de algum pensador que será capaz de
suprimi-lo.
S E G U N D A - F E I R A, 1 7 A B R I L , 2 0 0 6 - 1 0 : 1 0
Entre outros aspectos, o autor ressalta a utilização por muitos experts ocidentais do argumento
que mesmo para contestar a visão ocidental os contestadores precisam utilizar-se de categorias
ocidentais e beber na fonte do Ocidente. Este argumento ao mesmo tempo nega e afirma a
identidade entre os valores ocidentais e universais e esforça-se para transformar uma questão
que é historicamente construída em uma discussão genealógica aparentemente neutra.
Uma das finalidades disto seria mascarar a existência de uma relação de dominação, portanto
hierárquica, entre a visão ocidental e qualquer outra - embora no texto ele discuta de forma mais
específica o discurso do Islam político. A mistificação se daria em parte através da apresentação
de qualquer discurso anti-ocidental como uma resposta ao discurso ocidental, assim a negação
do sistema implica em parte também na afirmação do sistema.
Esta argumentação, diz o autor, é um jogo de espelhos no qual uma relação assimétrica é
apresentada como uma relação simétrica aos olhos dos observadores. É o mesmo tipo de
discurso que tenta apresentar as políticas de cotas para negros nas universidades ou qualquer
outro esforço de auto-afirmação de grupos étnicos, culturais ou religiosos não-ocidentais,
modernistas e secularistas como sendo um racismo às avessas.
Com isto, grosso modo, se produzem dois efeitos. Primeiro tira do sujeito subordinado qualquer
possibilidade de autonomia, limitando-o a reproduzir, por contraste, o discurso dominante. Nas
palavras do autor, "o subalterno apenas existe como um efeito do discurso hegemônico".
A segunda é que esta construção esconde as relações de poder porque apresenta uma relação de
dominação - portanto assimétrica - como sendo uma relação simétrica na qual um reflete o
outro. Se a rejeição ao Ocidente é uma outra forma de aceitá-lo, então a habilidade de rejeitar -
diz o autor - é representada como uma capacidade ocidental.
Por detrás deste e de outros mecanismos está a ideia de um mundo ocidentalizado ou como o
único possível ou como o mais aceitável e consistente dentre as hipóteses oferecidas. Não é à
toa que existe a preocupação de criar uma imagem de hostilidade entre a modernidade e
qualquer grupo que conteste a supremacia ocidental. Isto equivale a dizer: "a globalização e o
neo-liberalismo podem ter seus defeitos, podem causar inúmeros transtornos, mas ainda assim é
melhor que o reino das trevas do fundamentalismo e do atraso que é a alternativa a ele".
Infelizmente falta espaço aqui para demonstrar como esta construção frequenta assiduamente o
noticiário, às vezes de forma subjacente, quase subliminar, mas às vezes de forma bastante
explícita, até mesmo quando o Outro é apresentado com uma aparente simpatia.
Certamente muitos não verão uma utilidade imediata nesta reflexão. Nós brasileiros estamos um
passo adiante neste processo de doutrinação ideológica porque nós nos julgamos Ocidentais,
parte do Grande Império e nos sentimos muito mais afins do Primeiro Mundo do que os semi-
bárbaros colegas do Terceiro Mundo. Para utilizar o conceito de Edward Said, nós já perdemos
a capacidade de nos representar e assim aderimos inconscientes ao papel que nos é dado
desempenhar pelo diretor para uma plateia formada por nós mesmos.
Não resta espaço para discutir até que ponto existe mesmo esta nossa identidade com o Ocidente
- Huntington ao definir as civilizações globais coloca a América Latina num mundo à parte,
destacado do Ocidente. O que não é estranho porque esta é, de fato, a imagem que o Ocidente
realmente faz de nós. Bastaria a muitos dos que se julgam ocidentais passar uma temporada nos
Estados Unidos ou Europa para ver que por mais brancos que sejamos - ou aleguemos ser -
ainda somos uma espécie inferior aos olhos do Ocidente real.
(1) Sayyid, S. Anti-essentialism and universalism Innovation: The European Journal of Social
Sciences, Dec98, Vol. 11 Número 4, p377, 13p. in Academic Search Elite [base de dados on-
line] disponível em [Link] (Boston, MA.: EBSCO Publishing,
acessado em 24 de Março de 2.000).
S E G U N D A - F E I R A , 2 M A I O, 2 0 0 5 - 0 6 : 4 0
Fora o sentido mais econômico da distinção, que nem é a mais importante da frase de Weber,
seu sentido mais geral e político continua necessário, ou seja, não se deve depender da política
de tal forma que sejamos obrigado a fazer aquilo que nos contraria, que sabemos que não é bom,
ou mesmo só deixar de fazer aquilo que é necessário por se temer que isto nos retire o poder, o
mandato, a influência. É um daqueles pressupostos fáceis de falar na forma de centenas de
bravatas, mas que é cada vez mais raro ver quem tem realmente a bravura de segui-lo.
A política entrou na minha vida de uma forma avassaladora. Eu podia ter resolvido ser muitas
coisas, mas me decidi sempre pela política. Há, com certeza, muitos momentos nos quais
preferia ter seguido outros caminhos, como enfrentar tarefas que exigissem menos esforço
intelectual como a carreira acadêmica, confrontasse animais menos ferozes como no sonho de
infância de ser zoólogo, requeresse menos responsabilidade e tivesse mais soluções para tudo
como jornalista.
Não vou negar os momentos nos quais há o desejo profundo de alguma utopia à Thoreau de
viver no mato e andar a pé pelas trilhas nos intervalos de uma vida dura e simples. Há também a
utopia oposta de postar-me a frente de 40 potenciais delinquentes juvenis em uma sala de aula.
Estas duas ainda persistem apesar de todas as recomendações em contrário e é possível que
acabe em uma delas no momento que sentir que a política tornou-se incapaz de dar alguma
resposta efetiva.
É por não ser tão descrente como todos acham que sou que tenho tanto medo de nos momentos
convulsionados pedir a Deus que seja feita a vontade dele e não a minha, que eu siga no sentido
de cumprir meu destino. O medo é das preces serem atendidas e por isto sempre penso mil
vezes para ver se estou preparado pro resultado.
Seria presunção dizer que ele me quer neste meio da política, ainda mais na forma como ela
anda. Mas só posso dizer que é sempre nela que ele encontra um caminho pra mim, abre novas
portas ou reabre portas antigas a cada vez que sou tomado pela vontade de deixar tudo e ir
plantar jabuticabas. Só posso concluir que há nisto um sentido, mesmo que oblíquo demais para
minha percepção humana.
S E G U N D A - F E I R A , 8 M A R Ç O, 2 0 1 0 - 2 3 : 3 3
Weber, Thoreau,DT
Referência Original: [Link]/portal/10751
SELEÇÃO E ELEIÇÃO
S E X T A - F E I R A , 2 4 N O V E M B R O, 2 0 0 6 - 0 2 : 1 5
A primeira coisa que transparece no texto do pensador francês Raymond Aron é a fluidez de seu
estilo, sem fugir do assunto ou deixar a objetividade de lado. Mesmo tratando de ásperos temas
acadêmicos ele é capaz de dar vida aos seus conceitos, fugindo tanto da aspereza cada vez maior
dos textos acadêmicos ou das literatices que criam um mal maior ao tentar enfrentar a
esterilidade acadêmica, privando-a de rigor.
Tanto a tradução esmerada de Sérgio Bath quanto a esclarecedora nota introdutória de Vamireh
Chacon auxiliam a manter a elegância estilística e compreender melhor a obra. Com isto o
calhamaço de quase 1000 páginas pode ser deglutido com prazer, quando se percebe já se leu
mais de 100 páginas quase sem sentir.
Aron é sobretudo um desmistificador do pensamento ocidental. Tal como Weber que lhe
fornece os paradigmas teóricos fundamentais, Aron evita as definições definitivas e os
esquematismos essencialmente mecanicistas. Não teme utilizar exemplos do cotidiano para
expor teorias e modelos complexos, como quando utiliza um jogo de futebol como metáfora de
sua teoria das Relações Internacionais.
Enquanto outros autores perdem um longo tempo discutindo a autonomia ou não das Relações
Internacionais como um campo próprio de estudo, refletindo sobre qual seria afinal o objeto de
estudo desta disciplina e debatendo a relação dela com outras disciplinas, Aron vai direto ao
ponto, demonstra que estas preocupações todas não são tão relevantes. Mais do que isto, destaca
que a maior parte dos casos que se levanta para contestar uma ou outra classificação das
Relações Internacionais são apenas casos marginais que não tem muita importância.
Seguindo as pegadas de outro pensador bastante original, Ralf Dahrendorf, Aron utiliza uma
teoria de papéis para atores em um cenário das Relações Internacionais, dos quais os mais
relevantes seriam o soldado e o diplomata, agentes do relacionamento entre as nações e objeto
das RI na sua teoria.
Embora brilhante, a teoria de Dahrendorf de que o objeto da sociologia deveriam ser os papéis
sociais (Homo Sociologicus, Tempo Brasileiro, 1969) nunca conseguiu grande expressão. No
campo ainda mais indefinido das Relações Internacionais, contudo, parece se encaixar como
uma luva, até porque se adapta bem ao caráter individual da teoria das RI que assimila os
Estados ao velho conceito liberal do "Estado de Natureza".
Na teoria de Aron todo "fato diplomático" tem quatro dimensões que interagem sem perder a
identidade, três delas são de natureza conceitual: o teórico, o sociológico e o histórico. O quarto
é a reflexão moral e ética sobre o fato. Para expor este paradigma Aron utiliza um jogo de
futebol: coexistem numa partida de futebol o conjunto de regras, esquemas táticos, os planos do
técnicos, enfim o conjunto que se poderia chamar de uma teoria do comportamento eficaz de
cada jogador e da equipe, dados os limites impostos pelas regras. Esta seria a dimensão teórica
do jogo.
Mas é evidente que ela não é suficiente para explicar o conjunto do jogo. É preciso então
analisar como o jogo se desenvolve não mais no quadro negro, mas dentro do campo. Ai entram
as dimensões históricas e sociológicas. A forma como os jogadores entendem as instruções e as
aplicam, o maior ou menor desempenho dos jogadores, a forma pela qual o conflito se
desenvolve dentro do campo, os reflexos da maior ou menor importância dada ao futebol pelos
países que jogam, o prestígio do jogador em seu país, o histórico de rivalidade entre os dois
países e uma série de fatores semelhantes que ajudam a explicar porque o esquema tático
utilizado inicialmente transformou-se durante o jogo em algo que em maior ou menor grau é
diferente dos planos.
Por fim existe a análise e o comentário a respeito do jogo feito pelo cronista - que na metáfora
de Aron é a reflexão filosófica - que avalia se um ou outro jogador jogou bem, se o juiz roubou,
se as faltas foram justas, se a moral do time estava alta ou baixa.
Aron dialoga com sua teoria com praticamente todos os demais teóricos da área, mas condena
em especial a geopolítica - "pretensa ciência transformada em ideologia" - e os esquematismos
americanos da teoria dos Jogos. E não as condena por questões morais, mas pela ineficiência em
dar conta da totalidade da realidade. Os dois modelos, para ele, estariam muito impregnados de
uma fixação pelos aspectos quantitativos e sincrônicos da realidade e com isso ignoram a
importância dos aspectos diacrônicos e as idiossincrasias culturais que desempenham um papel
fundamental no processo de tomada de decisão.
S E G U N D A - F E I R A , 2 M A I O, 2 0 0 5 - 0 7 : 1 2
Falei antes do imenso prazer causado pelo turbilhão mental que a leitura de um bom livro pode
proporcionar. Lembrei disso quando ouvi alguém me dizer que gosta muito de escrever, mas
não tem paciência para ler. A observação me pareceu um disparate e arriscando-me a ser injusto
já julguei mal qualquer coisa que o interlocutor infeliz poderia ter escrito.
Até acho possível, ainda que difícil, que alguém goste de ler mas não escreve. Escrever é
sobretudo um dom e como tal de certa forma independe da nossa vontade e esforço escrever
páginas memoráveis.
Mas o raciocínio contrário me parece impossível, imagino impossível que alguém que goste de
escrever produza qualquer coisa digna de nota sem gostar de ler. Como uma mente limitada por
sua própria experiência seria capaz de produzir algo que não provocasse o mesmo desinteresse
nos outros que provoca em si mesmo?
Não conheço quem escreva bem que não seja leitor intenso, assim como não há texto escrito que
não reflita tantos outros livros. Como o Borges da frase que serve de epígrafe, creio que há mais
mérito próprio em sermos capazes de escolher bons livros e penetrar-lhes até a essência do que
em encher uma página com notas memoráveis - se a inspiração nos sorri - ou com imbecilidades
se a musa não nos sorri. Ao menos no primeiro caso é uma escolha, já no segundo é uma
imposição da natureza.
Não é à toa que prefiro livros de "sebos" porque quase sempre neles há uma aura história
rabiscada às margens, grifada nos sempre contestáveis pontos que chamaram a atenção de
alguém, quase sempre há um nome assinalado do proprietário anterior, nos fazendo imaginar
qual seria a história dele e daquele livro.
Esta história subjacente daquele livro, a ideia que alguém compartilhou aquela leitura que
fazemos, imaginar-se qual teria sido a reação do leitor anterior, o motivo que o levou a desfazer-
se daquele volume, tudo isto ainda reforça aquela forte mística que sempre permeia qualquer
livro. Não é à toa que há tantas lendas sobre livros mágicos...
Isto me ocorre porque há poucos dias soube de um destes destinos inusitados de um livro. Foi a
terceira peça que Dante me prega este ano com a sua Divina Comédia. Impossível que eu não
imagine que ele de alguma forma tenta se vingar de mim porque citando Asin Palácios comentei
o fato de boa parte da Comédia ter sido copiada de textos árabes medievais.
Ou talvez ele deseje me recompensar porque eu e a outra vítima da peça o tiramos do
ostracismo que substitui os livros clássicos por efêmeros best-sellers, porque resolvemos
imaginá-lo não como uma peça de museu mas insistimos em trazê-lo para a realidade.
Como o Deus esquecido das Ruínas Circulares de Borges - que ensina a mágica de criar um
homem ao pobre homem em troca de reavivar seu culto e suas oferendas - Dante talvez se sinta
tão feliz em ainda ser lido como coisa viva que coloque em meu caminho estas pequenas
brincadeiras inusitadas, que disfarçam-se de coincidências para que seja necessário acreditar
nelas.
Enfim só posso imaginar que estas histórias só comprovam que ler é um processo que tem algo
de mágico realmente, que exige uma dedicação quase religiosa, mas que em contrapartida abre
para nós a porta de novos mundos.
S E G U N D A - F E I R A , 2 M A I O, 2 0 0 5 - 0 6 : 2 5
No domingo, dia 31 de outubro de 1999, o jornal O Estado de São Paulo publicou uma longa
entrevista com o editor do Washington Post à época do Caso Watergate, Benjamin
Crowinshield Bradlee. Ao longo da entrevista Bradlee defende o papel da imprensa nas
sociedades modernas, destaca a importância da ética profissional e ataca a exigência de
formação específica na área de Jornalismo para o exercício da profissão - resquício do entulho
autoritário do regime militar que sobrevive graças à pressão corporativista numa curiosa aliança
de interesses entre a extrema-direita que implantou a norma e a esquerda que faz dela meio de
vida.
Uma das características mais marcantes do texto de Bradlee é a sua insistência em afirmar que
existem dois tipos de jornalismo, um minoritário que ele chama de "jornalismo de qualidade", e
o resto. Há nestas palavras uma extensão do conceito de Yellow Press - a imprensa
sensacionalista - que não se limita aos tabloides mas acaba incluindo boa parte da imprensa
como um todo.
Impossível não pensar no previdente Mr. Boot de A Montanha dos Sete Abutres (Ace in the
Hole, também conhecido como The Big Carnival, Billy Wilder, 1951), editor do jornal de
Albuquerque no qual o protagonista Charles "Chuck" Tatum vai trabalhar. Como o quixotesco
anti-herói do filme, Bradlee parece usar simultaneamente cintos e suspensórios no esforço de
não ser pego desprevenido.
Quando, durante a entrevista, ele comenta o caso Janet Cooke - repórter do Washington Post
que inventou uma matéria e chegou a receber um prêmio Pulitzer, depois devolvido pelo jornal)
- parece estar comentando o encontro final de Boot e Chuck visto pela ótica do cauteloso editor.
E ele o cita justamente para justificar um maior cuidado que o jornal estaria tomando antes de
divulgar reportagens de conteúdo mais forte, novamente cintos e suspensórios.
Garganta profunda
Jornalismo investigativo como tentação
É interessante notar que o que ele considera jornalismo investigativo é algo muito mais
profundo do que o rótulo comumente aplicado à questão. No caso de Watergate a identidade da
fonte secreta - identificada como "Deep Throat" (Garganta Profunda, nome de um filme
pornográfico muito comentado na época) - é secundária porque ela apenas indicou os caminhos
que deviam ser seguidos. Ao contrário de muitas reportagens que se dizem investigativas
simplesmente por basearem-se em "fontes que preferiram não se identificar" - e algumas não se
identificam porque não existem como se pode constatar diariamente na imprensa - o importante
é a dica dada pela fonte como "caminho das pedras para se chegar aos documentos e fontes que
comprovem a denúncia.
A visão dele é essencialmente otimista, os bons jornais vão sobreviver à Internet, o nível
cultural e intelectual dos jornalistas está aumentando, os leitores estão se tornando mais
participantes e críticos. Ainda que em alguns momentos ela demonstre algumas preocupações
com o fato dos políticos estarem mentindo demais, o que, como ele mesmo afirma, é um reflexo
da sensação da impunidade pela mentira.
Esta preocupação parece ser bastante justa, afinal foi a mentira mais do o ato em si que levou
Richard Nixon a sofrer um processo de impeachment e ser obrigado a renunciar, após o
Washington Post trazer a tona o Escândalo de Watergate. Transformando em paradigma do
escândalo capaz de derrubar um governo, como pode ser facilmente percebido pelo abuso na
utilização de "gate" como sufixo dos mais variados escândalos, Watergate diz respeito não a
corrupção, mas justamente ao abuso de autoridade constatado pela instalação pelo Serviço de
Inteligência americano de escutas na sede do partido rival.
Ainda sobre as palavras de Bradlee é necessário observar que para ele um bom jornal é
sobretudo uma somatória de opções pessoais. Essencialmente a opção do jornalista em enxergar
a sua carreira como uma missão, sacerdócio destinado a reunir pessoas que esperam transformar
o mundo em um lugar melhor para todos. Ele chega até mesmo a definir alguns termos do que
considera "um lugar melhor" evocando em especial a instituição de um estado democrático e
liberal de tipo ocidental com forte presença da sociedade civil. Este "fardo do homem de letras"-
parodiando Kipling - seria essencial - o que é incontestável - e quase suficiente - o que é
inadmissível - para se produzir um bom jornalista.
É também a opção da editoria em selecionar, formar e dirigir esses "jornalistas-com-uma-
missão" e da empresa em si de manter-se como "um jornal de qualidade" ao invés da tentação
mórbida de aderir ao lucro fácil e imediato da Yellow Press. Assim para ele ser um bom
jornalista ou um bom jornal é quase uma decisão apenas de si próprios, dependendo apenas da
vontade individual.
Adorno diz no seu "O Fetichismo na Música e a Regressão da Audição" que a separação entre a
música séria e a música ligeira, na era da Indústria Cultural, é mais uma estratégia de marketing
destinada a valorizar alguns produtos do que uma divisão de fato. Assinala ele: "quanto mais
premeditadamente os organismos dirigentes plantam cercas de arame farpado para separar as
duas esferas da música, tanto maior é a suspeita que sem separações os clientes não poderiam
entender-se com facilidade".
A necessidade de se apresentar como um "jornal de qualidade" parece ser uma opção motivada
menos pelas opções dos atores, dos jornalistas-com-uma-missão que trabalham nele e dos
diretores sensíveis a este "fardo do homem de letras", do que da ótica de mercado de se oferecer
um produto diferenciado que agrega um valor que é sobretudo simbólico. A própria insistência
em Bradlee em se distinguir o "jornalismo de qualidade" do resto, de erguer cercas de arame
farpado como diz Adorno, demonstra que a divisão não é tão clara assim na mente do público.
As dificuldades financeiras do Post, por sinal, atestam em parte esta questão.
A questão essencial é que apresentar um jornal de qualidade não é uma opção pessoal, ainda que
esta compreensão dos jornalistas seja essencial à produção de um jornal de verdade e à
construção de um jornalismo de verdade. Como empresa capitalista, o jornal é incapaz de fugir
à lógica do mercado, às suas estratégias e à massificação induzida por ele porque o sistema em
si não vê o jornal como um produto de natureza especial, mas apenas como mais uma
mercadoria.
As evidências deste processo podem ser facilmente percebidas pelas transformações que tem
agitado a imprensa nas últimas décadas, todas elas sem exceção visam transformar o processo
de produção jornalística em um processo industrial mais próximo de outro qualquer quanto
possível, muitas vezes até desrespeitando as especificidades mínimas do setor. Não é raro ouvir
em entrevistas diretores, editores e outros profissionais ligados ao jornalismo - e em especial à
direção dos órgãos de imprensa - referirem-se às suas publicações como "produto", última moda
do jargão que revela muito sobre a visão de jornalismo destas pessoas.
Conclusões
Cínico ou heróico?
Fica a dúvida se Bradlee é algo como um Quixote ingênuo que enxerga o mundo e a sua
profissão com a pureza de seus olhos de herói louco, ou se age de forma cínica defendendo o
seu produto diferenciado com um discurso elitista e voluntarioso. Se quando ele diz que rejeita
as fórmulas mágicas de marketing para avaliar e modificar o jornal porque diz acreditar que o
papel do "velho editor ranzinza" é essencial para se definir o que é notícia, fala a sério ou
apenas levanta mitos que justifiquem o status do seu veículo.
É evidente que a ingenuidade não é fácil de se encontrar em nenhum jornalista, ainda mais em
um com tanto prestígio e experiência como Bradlee, mas isto não significa que até ele mesmo
pode agir sinceramente, mas a pena invisível do mercado o dirige ao encontro das tendências do
jornal-mercadoria.
De qualquer forma, é evidente que a presença deste Mr. Boot contemporâneo é uma
contribuição significativa a qualquer veículo, uma salvaguarda da sua credibilidade e um alento
para os novos profissionais que compartilhem da visão dele de jornalismo-como-missão. Neste
sentido é quase irrelevante se a busca de um produto de qualidade é sincera ou a expectativa de
agregar valor simbólico a um jornal-mercadoria.
No Brasil a imprensa tem se demonstrado sequer capaz de chegar a este ponto, apresentando
uma queda constante do padrão de qualidade e sendo apenas capaz de enxergar o "produto"-
como os próprios se definem. Em um ambiente deste é inevitável que - como diz Balzac - os
talentos sejam aviltados pelo cinismo.
T E R Ç A - F E I R A, 3 M A I O , 2 0 0 5 - 0 0 : 2 3
Islam, Comunicação, Pessoal, Arte, Cinema, Política
Benjamin Crowinshield Bradlee, Adorno, Billy Wilder,DT
Referência Original: [Link]/portal/70
GUERRA E PAZ
“Por desconhecer tudo isso, que é elementar, o pacifismo tornou sua tarefa demasiado fácil.
Pensou que para eliminar a guerra bastava não fazê-la ou, em suma, trabalhar em que não se
fizesse. Como via nela apenas uma excrescência supérflua e mórbida aparecida no trato
humano, creu que bastava extirpá-la e que não era necessário substituí-la. Mas o enorme esforço
que é a guerra, só pode ser evitado se se entende por paz um esforço ainda maior, um sistema de
esforços complicadíssimos, e que, em parte, requerem a venturosa intervenção do gênio. O
outro é puro erro. O outro é interpretar a paz como o simples vazio que a guerra deixaria se
desaparecesse; portanto, ignorar que se a guerra é uma coisa que se faz, também a paz é uma
coisa que importa fazer, que há que fabricar, pondo na faina todas as potências humanas. A paz
não "está aí", simplesmente, pronta para que o homem a goze. A paz não é fruto espontâneo de
nenhuma árvore. Nada importante é apresentado ao homem; pelo contrário, tem ele de fazê-lo,
de construí-lo. Por isso, o título mais claro de nossa espécie é ser homo faber. “ (Ortega y
Gasset, A Rebelião das massas)
Já disse em inúmeras oportunidades que os melhores livros contra a guerra foram os escritos por
soldados. "Nada de Novo no Front" escrito por um ex-soldado de pouca instrução é muito mais
convincente do que mil tratados pacifistas calmamente escritos em gabinetes refrigerados de
ministérios. Vivemos numa era em que boas intenções e más ações convivem e se misturam não
só por hipocrisia mas também pela falta de coragem de pensar.
O discurso pacifista parece ser algo impossível de se atacar, afinal quem quer a guerra e todas as
tragédias que ela traz? A questão, como bem aponta Ortega y Gasset, é que sob o rótulo de
pacifismo combinam-se as mais várias visões de mundo, boa parte delas equivocada ao menos
em alguns pontos.
Ao começar a escrever sobre isto lembrei-me que o próprio nome do blog foi inspirado pela
leitura de umas páginas de Guénon, no "Simbolos da Ciência Sagrada", no qual falava sobre o
símbolo da Espada no Islam, que representa a luta pelo retorno à unidade e ao equilíbrio, tanto
no sentido macrocósmico como naquele sentido que é mais relevante, que é o microcósmico, a
jihad interior do homem no sentido de encontrar a harmonia. Por sinal é exatamente o que
simboliza a letra árabe Alef em forma de espada sobre um eclipse que figura no logo do blog,
equivalente da espada de madeira que os imans usam nos sermões simbolizando justamente este
poder da palavra.
Como vivemos numa época de leniência, não de esforço, é natural que o esforço de superação
não seja bem visto e que portanto qualquer ideia de solucionar conflitos seja relegada.
Preocupa-me muito, por sinal, que todo o pensamento pacifista – com o qual não deixo de
simpatizar – acabe por enveredar pelo caminho da negação de que há batalhas que devem ser
travadas.
É esta identidade entre paz e “não fazer nada” de que fala Gasset no trecho que transcrevo na
epígrafe que me apavora. Estes dias brincava sobre a propaganda de um banco no qual um
menino judeu e um israelense rompem as barreiras do conflito secular jogando bola: depois um
entra pro Gaviões da Fiel e o outro para a Mancha Verde e se matam sem sentido algum. A
brincadeira me remeteu a um colega de faculdade ao qual tentei explicar sem sucesso o conflito
palestino mas que dias depois contava extasiado que tinha participado de uma briga de torcida e
batido um bocado em alguns torcedores do time contrário.
Porém é na dimensão interior que o avanço da mentalidade pacifista vazia mais me preocupa
neste momento. É claro que a meta de cada um deve ser procurar a paz interior, mas o
pressuposto desta paz interior não é deixar tudo correr e fazer vista grossa às próprias ações ou
esforçar-se pelo aperfeiçoamento. A opção pela paz não pode ser o efeito da pusilanimidade de
enfrentar os conflitos – e Gandhi destacou que a coragem era ainda mais necessária ao pacifista
que ao guerreiro enquanto Jesus disse que vinha trazer a espada e não a paz – mas pela luta com
serenidade, sem ódio mas com firmeza e decisão.
T E R Ç A - F E I R A , 1 6 M A R Ç O, 2 0 1 0 - 1 8 : 0 1
Mas esta questão do multiculturalismo não é explosiva somente por ter um impacto direto sobre
a ciência, mas também em função de suas consequências práticas diretas no cotidiano. Admitir
o Multiverso - para usar a expressão de James - implica numa mudança radical da forma como
vemos os outros e nos relacionamos com eles.
Curiosamente boa parte da soberba cultural ocidental vem sendo legitimada desde tempos
imemoriais com base em algum tipo de superioridade embasada em um conhecimento
considerado como científico. Porém, e aí se mostra como também o relativismo cultural é
eurocêntrico - tendo apenas o sinal trocado, não há cultura no mundo que não seja radicalmente
etnocêntrica.
O negro "existe" em oposição ao branco, ou melhor, só existe como uma construção ideológica
do branco. Na África jamais houve uma noção de identidade capaz de abranger as diversas
etnias negras, existiam lá Yoruba, Hauras, Pehls, Congos e muitos outros, mas nunca negros
entendidos como uma "raça". O próprio termo, por sinal, só faz sentido pelo contraste e tem
como principal característica ignorar as matizes.
No clássico "Negras Raízes" de Alex Haley fica evidente como a caracterização do negro é algo
puramente ideológico e é só a aceitação do domínio do branco que faz com que as gerações de
escravos esqueçam as identidades tribais para aceitar uma identidade de negros. A propalada
tolerância idílica existente nos quilombos soa como artificial justamente por negar qualquer tipo
de identidade tribal, ao contrário da revolta dos Malês de 1835 que era claramente um
movimento de uma parte da comunidade - os escravos muçulmanos de diversas etnias -
igualmente com uma identidade construída "de fora".
Jamais houve grupo humano que não fosse em algum grau intolerante com o outro e que não
tentasse racionalizar - quando não legitimar - esta intolerância de alguma forma. A construção
do Nós implica sempre na definição do Outro, e é sobre o contraste com este Outro que cada
grupo constrói a sua identidade.
Uma das estrelas desta nova onda multiculturalista é o budismo, interpretado como uma religião
tolerante às outras, capaz de permitir que cada um tenha a "sua verdade". Mas esta suposição-
proselitismo não se sustenta por um exame da própria doutrina. O Budismo, como qualquer
outra religião que tenha entre seus princípios a mentepsicose, são por essência radicalmente
intolerantes. Isto porque, embora possam até admitir a existência de outras crenças, partem do
pressuposto que é o discípulo da sua fé que está em um estado mais "avançado", mais próximo
da verdade, mais evoluído. Sua aparente tolerância esconde de fato uma profunda arrogância
paciente: "deixem os outros professar as suas fés, um dia eles vão evoluir e se tornarão
budistas".
Não é à toa que concepções religiosas deste tipo surgem sobretudo em sociedades aristocráticas,
afinal servem para determinar pelo nascimento a posição social da pessoa, quase que
eliminando todas as chances de posterior ascensão e não é preciso esforçar-se muito para
verificar que é uma ideologia ótima para tentar manter paradas sociedades estagnadas.
S E G U N D A - F E I R A , 2 M A I O, 2 0 0 5 - 0 6 : 5 6
Islam, Pessoal, Poesia, Arte, Religião
DT
Referência Original: [Link]/portal/45
MR. SLANG E O ORKUT
S E X T A - F E I R A, 1 2 M A I O , 2 0 0 6 - 1 4 : 5 9
O desmoronamento, ou implosão, da União Soviética foi saudado, entre outras coisas, como o
alvorecer de uma Nova Ordem Internacional na qual o holocausto nuclear já não era mais um
risco permanente, um mundo no qual não corríamos o risco de acordar numa realidade na qual
"os vivos invejarão os mortos".
O diplomata francês Philippe Delmas analisa em seu livro "O Belo Futuro da Guerra" o
paradoxo de só a "garantia de morte certa para todos" foi capaz de manter um baixo nível de
conflito durante a guerra fria. Da mesma forma paradoxal, só quando finalmente se resolveu
tratar do desarmamento e da redução da Máquina do Armagedom a resistência à ameaça nuclear
chegou a um nível insuportável para os governantes.
Delmas avalia que isto aconteceu porque em se tratando de uma "guerra nuclear limitada" os
formuladores de políticas passariam a ter de escolher quem iria ser pulverizado, quais regiões
seriam fadadas à morte nuclear. Isso parece ter dado mais materialidade à resistência nuclear
pois seu poder e inquestionabilidade vinha da sua "destruição total", a partir do momento que o
pavor tornou-se limitado e referencial, ampliaram-se as tensões.
Mas há outro angulo mais sério a respeito disto tudo, que é o controle militar sobre esta
máquina de destruição. O filme clássico "Dr. Strangelove", fala bastante da incapacidade dos
militares de lidar com a tecnologia nuclear de destruição. No filme um general decide rebelar-se
e promover um ataque nuclear à União Soviética iludindo sua equipe com o discurso que é um
ataque de retaliação e que as maiores cidades americanas já foram destruídas.
Tal como um personagem saído do filme, um general americano protesta contra o plano de
ataques limitados de Robert McNamara - secretário de Estado norte-americano - em 1960 com o
seguinte discurso: "Se, no final das contas, ficarem apenas um russo e dois americanos, nós
teremos triunfado".
A paranoia nuclear dos militares americanos estava bem próxima de preparar o holocausto
como demonstra Delmas. Uma das principais estratégias dos militares para isto foi limitar ao
máximo qualquer grau de controle sobre a operação de uma guerra nuclear. À liderança civil
americana ou soviética - diz Delmas - restaria muito pouco além da decisão de iniciar o conflito,
todo o mais seria desencadeado por uma cadeia de decisões militares, geralmente com a
liderança incomunicável.
Como na 1ª Guerra Mundial, quando a dimensão da catástrofe foi impulsionada mais pelas
planilhas de engajamento das forças em conflito que por motivos concretos (Áustria e Rússia,
únicas nações efetivamente em guerra com um motivo - ainda que fútil - foram as últimas a se
mobilizar uma contra a outra, como destaca Kissinger), o holocausto nuclear seguia mais uma
rotina burocrática dos militares que a qualquer princípio estratégico e menos ainda político.
Também se criava uma escalada de alvos sem precedentes. Delmas menciona que de 300 alvos
no início da década de 50 se chegou a mais de 50 mil em meados de 80. O suficiente não só
para aniquilar a URSS, mas para tornar a vida no planeta insuportável.
Existe hoje a ilusão de que este risco está afastado, talvez esta ilusória tranquilidade nos seja
necessária para ir vivendo, mas de forma alguma ela é verdadeira. A primeira razão de
preocupação é a instabilidade da ex-União Soviética, cujo destino ninguém é incapaz de prever
com exatidão. Delmas e Kissinger temem o renascimento da vocação imperial russa, que
certamente seria ainda menos responsável e confiável que o velho controle comunista.
Este renascimento certamente trará riscos de novos conflitos nucleares, com o Leste Europeu e a
Ásia Central na mira principal e consequências mais ou menos imprevisíveis. Mas o contrário
deste renascimento é também assustador, pois implica numa desintegração tal do Estado que
será fácil aos terroristas das mais variadas tendências (ou melhor dizendo, demências) montar
aparatos nucleares ou comprá-los prontos no mercado negro.
Monta-se uma bomba atômica de razoável poder de destruição com 3 ou 4 quilos de plutônio
comum, roubados de usinas civis, garante Garaudy. Nos Estados Unidos, entre 68 e 76, ainda
citando Garaudy, sumiram 542 quilos de urânio enriquecido e 39 quilos de plutônio. Quanto
sumiu e vai sumir na Rússia nestes anos de caos é uma estimativa arriscada.
O livro causou e continua causando muita polêmica nos meios internacionais mas a cada dia
parece estar se tornando mais profético e certamente é leitura indispensável a quem pretende
compreender o mundo atual. Mesmo que seja para refutá-los, os argumentos de Huntington não
podem deixar de ser levados em conta.
Nos últimos dias o livro pareceu ser bastante apropriado quando em diversos pontos eclodem
conflitos ou ameaças de conflito inter-civilizacionais. A Espanha se agita com uma segunda
caça aos "moros" que como a primeira - levada à cabo pelos soberanos espanhóis da Idade
Média - deve acabar com a expulsão ou fuga em massa dos magrebinos, agora não mais como
conquistadores, mas como mão-de-obra barata.
Na Áustria um partido de extrema-direita chega ao poder com uma plataforma na qual o ponto
principal são as restrições à imigração. Até no Brasil, pátria do assim chamado racismo cordial,
inicia-se uma caça às bruxas junto aos imigrantes angolanos.
Isto os faz descobrir, mesmo que por necessidade, suas identidades próprias, estimular a
hostilidade com a civilização ocidental - que por megalomania pressupomos universal - desistir
da integração para desenvolver o conflito. A hostilidade dos perseguidores só não provocaria a
hostilidade dos perseguidos caso se tratasse de uma nação de masoquistas, condenada a ser
servilmente eliminada.
O mais curioso disto, ainda mais em se tratando da cultura ocidental que julga ter descoberto a
racionalidade e a globalização é que falta qualquer lógica a esta caça aos estrangeiros. Na
Espanha, por exemplo, o fluxo migratório mal tem sido suficiente para manter a população
estável, dadas as baixas taxas de natalidade.
Em diversos destes países nos quais a população envelhece a única forma dos regimes
previdenciários não irem à bancarrota é justamente a manutenção de um fluxo razoável de
imigrantes. Não se trata portanto, como diz a retórica chauvinista, de preservar os empregos do
país, mas sim de meros preconceitos atávicos reavivados por políticos demagógicos.
Aliás há poucas coisas mais perigosas do que políticos sem ter o que fazer ou incapazes de dar
solução aos problemas reais. Quase sempre nesta situação eles aventuram-se a inventar
problemas que tenham soluções fáceis, nem importando se elas são reais ou não.
Mas a questão dos angolanos é um tanto quanto mais grave e merece uma outra análise mais
profunda. O brasileiro em geral não é xenófobo, pelo contrário costuma babar diante de
estrangeiros e basta identificar-se como americano ou europeu para receber um tratamento VIP
como se fosse o próprio embaixador daquela nação.
Mas, como o episódio dos angolanos demonstra claramente - sem se esquecer do repúdio
generalizado à ideia de receber refugiados bósnios que ocorreu há alguns anos - que este
tratamento é exclusivo para os estrangeiros vindos do primeiro mundo, preferencialmente
brancos e cristãos.
Uma das mais detestáveis falhas de caráter conhecido é a que faz o indivíduo ser hostil e
autoritário com os subordinados e suave, afável e submisso aos superiores. Pisasse em quem
está embaixo e deixasse tranquilamente pisar pelo que está acima.
O caso dos angolanos demonstrou que o Brasil como nação padece deste vício de caráter que
atribuía-se apenas a alguns indivíduos isolados. Com o agravante que os conceitos de superior
ou inferior para nós parece ser exclusivamente étnico, racial e cultural.
S E G U N D A - F E I R A , 2 M A I O, 2 0 0 5 - 0 7 : 0 0
Alguém já disse que o golpe militar que completa hoje 35 anos é um dos maiores paradoxos da
história brasileira. Para justificar a ação falou-se em preservação da democracia - mas
implantou-se uma ditadura - falou-se em defender a iniciativa privada - mas implantou-se um
regime dos mais estatizantes - falou-se de proteger a soberania nacional contra a ameaça de
controle por uma potência estrangeira - mas colocou-se as rédeas do poder nas mãos de outra
potência, ocorrido em 1º de Abril decidiu-se comemorar em 31 de Março para evitar o "dia da
mentira".
Até hoje na Alemanha não se encontram quem foram os populares que apoiaram o regime
nazista e aplaudiam Hitler nas manifestações grandiosas. No Brasil, com raras exceções,
também não é fácil encontrar quem tenha apoiado o golpe militar, ao menos sem que sejam
feitas restrições. Até lideranças que enalteciam a "Redentora" hoje evitam falar no assunto.
Mas não é nas lideranças que se deve buscar a raiz do golpe, mas no cidadão comum que
aceitou passivamente a tomada de poder pelos militares. De 28 de março de 64, quando uma
multidão se aglutinava pelo centro de São Paulo na Marcha com Deus pela Família até 29 de
março de 68 quando milhares foram às ruas protestar contra a morte do estudante secundarista
Edson Luis ou à Passeata dos Cem mil em 26/6.68 há a distância do sonho ao pesadelo.
O endurecimento do regime, que só aconteceu 4 anos depois do golpe, com o AI-5, demonstrou
que a fase de apoio popular já havia arrefecido, mas já era tarde demais, o poder militar já
estava consolidado. Nesta altura do campeonato boa parte das lideranças civis do movimento já
tinham sido afastadas do centro do poder. Algumas das mais proeminentes delas, como Carlos
Lacerda - grande tribuno do golpe - já havia até mesmo passado para a oposição e articulava a
Frente Ampla.
A partir de 68 o regime militar evolui para uma ditadura agressiva. Na outra ponta, setores da
esquerda sem espaço para manifestar seu descontentamento decidem partir para a luta armada.
Em um círculo vicioso a luta armada acaba por dar aos militares uma justificativa forjada para
um endurecimento ainda maior do regime.
De uma forma geral a população permanece alheia a tudo isto, controlada pelo medo, finge
acreditar no que diz a imprensa que todos sabem censurada. Poucos anos depois, no início da
década de 70, a expansão do processo de industrialização marca a entrada da classe media no
mundo do consumo e narcotizadas pela ascensão estes setores voltam a dar apoio e legitimidade
ao regime.
O "Milagre Brasileiro" - catalisado pela conquista da Copa do Mundo em 70 e por Campanhas
como "Brasil: ame-o ou deixe-o" (logo ironizada com o acréscimo: "o último a sair apague a
luz") davam uma sustentação ideológica ao Regime. A erosão de conquistas sociais, o arrocho
salarial, o aumento da já péssima distribuição de renda era compensado por uma sucessiva
ampliação do padrão de vida da classe média.
Prevenidos os militares nunca mais seriam pegos de surpresa, foi depois do Araguaia que o
Exército resolveu formar tropas especializadas em combate na selva e passou a cultivar um
relacionamento mais amigável com as populações ribeirinhas da Amazônia.
Aos guerrilheiros sobrou a dúbia honra de terem sido incorporados ao folclore da região como
entidades da religião local e heróis míticos. Isto os que morreram, porque os que escaparam
carregaram ou os traumas da tortura ou da suspeita de denúncia contra os colegas.
A ascensão de Ernesto Geisel mostra uma certa guinada na política do regime - que sofria cisões
internas - e até certo ponto uma perda de influência da "linha dura" - os "gorilas"- no centro do
poder. O grande mago por detrás do planejamento estratégico desta fase do regime militar,
Golbery, parecia já estar preparando terreno para uma distensão, inclusive contando com o
apoio de peritos em formulação de políticas enviados pelos Estados Unidos.
A grande questão, contudo, era distender sem perder o controle da situação e assegurando que
os militares continuariam mantendo uma razoável fatia do poder. A questão se agravava com as
sucessivas vitórias eleitorais do PMDB, apesar de todas as mazelas, que acabaram obrigando ao
fechamento do Congresso e à instituição dos Senadores Biônicos, única forma de Geisel fazer o
sucessor, ainda que por via indireta.
Figueiredo, último presidente militar, assistiu o ocaso do regime. A opinião pública não atendia
mais à propaganda do regime e o "milagre" já estava exaurido. A inflação e o arrocho salarial
chegaram ao limite e apesar de toda a repressão ressurge o movimento sindical, marcadamente
com as greves do ABC que revelaram um líder que seria importante na fase da democratização:
Lula.
O fim do AI-5, a anistia, as eleições diretas para governador e depois para prefeito das capitais
foram arrancadas a um duro custo por uma sociedade civil cada vez mais exigente. Logo depois
veio a conquista do direito de greve e um relaxamento da camisa de força dos sindicatos. Mas a
população mesmo indo às ruas em massa não conseguiu seu objetivo principal: eleições diretas
para presidente.
Ainda assim o Colégio Eleitoral serviu de instrumento à transição, mais pacífica e controlada,
para o regime democrático através - mais uma vez na história do Brasil - de um amplo acordo
entre as elites.
Até que ponto teria ido a influência americana no golpe é ainda um ponto obscuro, mas se sabe
que haviam profundos interesses não só políticos como econômicos dos Estados Unidos no
golpe. Tudo sugere que a justificativa ideológica de "proteger o mundo livre da influência do
comunismo" não era nada mais que uma cortina de fumaça para encobrir a reação americana às
nacionalizações de serviços e explorações comerciais que tinham sido feitos ou eram
planejados.
S E G U N D A - F E I R A , 2 M A I O, 2 0 0 5 - 0 7 : 1 6
As escolas são um meio ineficiente de educar, sempre foram e sempre serão. Em primeiro lugar
porque só servem para a média dos indivíduos, quem está acima ou quem está abaixo desta
média não terá jamais um espaço adequado lá porque elas jamais fornecerão a estes indivíduos
toda a atenção que eles necessitam.
Em segundo lugar porque o objetivo primordial das escolas nunca foi o de educar, mas sim o de
doutrinar (domesticar?) consciências medíocres e aptas a conviver em sociedade - e portanto
respeitar as instituições. Em seu livro, tão excelente quanto pouco conhecido, "os demônios de
Loudon", Aldous Huxley ironiza a pretensão dos jesuítas de moldar a mente dos seus alunos tal
como se molda o corpo de uma criança enfaixando-a quando nasce.
Borges, como atesta a epígrafe deste texto, reconhecia que sua formação como um dos maiores
homens de letras do século às investidas à Biblioteca paterna e não à escola. E é digno de nota
que Borges estudou em um dos melhores colégios suíços, cujo renome dispensa apresentações.
Resumindo, o fato que mesmo uma escola ideal, uma escola de qualidade, uma escola excelente
não é capaz de atender às reais necessidades de aprendizado. Estas escolas dizem basear-se na
velha relação mestre/discípulo herdada da Grécia, mas só não são a continuidade deste sistema
grego como são a sua negação. Uma ensinava a liberdade e o questionamento, a outra a ser
escravo e a obedecer.
Até aqui tenho falado de uma escola ideal, com qualidades excepcionais. É até covardia incluir
no debate a escola atual do Brasil - particular ou pública - que não chega sequer a cumprir a
função básica de transmitir, de forma mais ou menos aleatória, um conhecimento insosso e
algumas regras básicas de disciplina.
Uma boa escola - no sentido que uma escola no seu sentido moderno pode ser boa - tem uma
pequena vantagem quase marginal: ela dá um cabedal de conhecimento mínimo que até pode
permitir a um ou outro aluno libertar-se da escravidão mental que ela tenta impor. O caso de
Voltaire mencionado acima talvez se explique por este caminho.
Assim, por um acidente de percurso, uma escola excelente pode até conseguir produzir alguém
preparado para buscar o verdadeiro saber. Mas uma escola ruim, como a imensa maioria das que
se tem no país, presta um desserviço à humanidade. Não poucas vezes desestimula a busca do
conhecimento e até, paradoxalmente, estimula a indisciplina ao invés de conte-la por
desmoralizar o exercício da autoridade dando-o a pessoas despreparadas.
Tornou-se moda há alguns anos a adoção de novas metodologias de ensino que, teoricamente,
tentariam recompor aquele espírito dialético grego. Mas para um conceito tão revolucionário
seria preciso, em primeiro lugar, ter pessoas capazes de apreender esta visão nova em sua
essência e de aplicar de forma sábia esta nova metodologia. O que se tem na prática é muito
diferente.
Pessoas despreparadas, dotadas de uma mentalidade escolástica estreita - e em geral autoritária -
adquirem rudimentos muito superficiais destas novas metodologias (quase sempre em cursos
vagos ou semi-vagos) e dotadas deste semi-conhecimento (estado em geral ainda mais funesto
que a ignorância porque nele a pessoa "acha" que sabe) tentam aplicar na prática uma teoria em
si já canhestra.
O resultado disto consegue ser ainda pior do que tudo o que existia antes. Mesmo aqueles
farelos de conhecimento verdadeiro que o método escolástico era capaz de dar esvão-se em
meio a estas experiências com cobaias humanas.
T E R Ç A - F E I R A, 3 M A I O , 2 0 0 5 - 0 0 : 2 1
Islam
Referência Original: [Link]/portal/10117
TECNOCRATAS DA IMAGINAÇÃO
"Por meio de seu invento a pessoa mais ignorante poderia, por um preço módico e pouco
esforço, escrever tratados de filosofia" (Swift, Viagens de Gulliver)
Há algum tempo eu e o colega Cirilo Braga criamos um personagem que fez uma curta mas
brilhante carreira como articulista em São Carlos e andou até pela Internet: Ivonney Penna. Os
artigos escritos a quatro mãos tinham a característica de nunca dizerem nada, mas transmitiam
esta mensagem com muito estilo em frases pomposas repletas de lugares-comuns escolhidos a
dedo.
Analisando a globalização por exemplo, tema que jamais poderia faltar na agenda do Ivonei, o
nosso articulista à guisa de conclusão do longo artigo perguntava: "mas será a globalização
realmente globalizante ou apenas globalizadora?".
Com o passar do tempo começamos a reparar que o Yvonei (nunca se chegou a um acordo sobre
a grafia do nome) não só era um personagem da vida real como até costumava fazer sucesso nos
mais diversos séculos, em especial na Academia. Quase todo dia encontrávamos artigos, teses e
comentários que só poderiam ter sido feitos pelo nosso personagem.
Um dos últimos artigos, dedicados a analisar o desemprego foi até feito não de frases que
bolamos, mas da colagem de trechos de artigos e entrevistas de personalidades políticas,
acadêmicas e sindicais sobre o assunto.
Com raríssimas, porém honrosas, exceções a crítica literária resume-se a transformar obras de
arte escritas com imaginação e esmero em um amontoado de observações chatas e
tergiversações em geral implausíveis. E em geral a obscuridades dos textos serve como manto a
encobrir a obscuridade das ideias. Em um país onde grassa a ignorância e o bacharelismo Ivonei
e seus clones mentais não podiam deixar de fazer sucesso.
O impostor intelectual prospera porque muito poucos sabem realmente alguma coisa sobre o
que ele está falando, mas ninguém quer mostrar a ignorância e então disfarçam a falta de cultura
com uma expressão de concordância como os personagens provincianos de Balzac que tentam
ostentar um estilo "da corte".
Mas há um tipo mais sofisticado e pernicioso de impostor nesta área, aquele que tenta
transformar a imaginação em uma estatística qualquer para assim embromar melhor retirando da
literatura a imaginação. Eu diria que qualquer um pode ser um profissional médio numa das
ciências ditas exatas ou técnicas - evidente que um cientista de renome só poderá sair de poucos
- porque basta que se aprenda a lidar com alguns mecanismos matemáticos.
Já na área de humanidades isto é diferente - apesar de todos os esforços para que seja igual. Um
cuidadoso estudo sobre como escrever não é capaz de produzir um escritor, por mais vontade
que o indivíduo tenha. No máximo produzirá um bom leitor a quem a cultura adquirida dará
algum brilho. Mas Não foram poucos que tentaram reduzir a literatura ao mesmo estágio
burocrático e tecnocrático. Um bom exemplo é o teórico russo Vladimir Propp, que já fez furor
em décadas passadas com o seu "Morfologia do Conto Maravilhoso". A intenção de Propp ao
escrever o texto em 1928 é doentia: transformar uma centena de contos folclóricos russos em
meia dúzia de equações matemáticas. A pretensão de rebaixar a cultura ao nível da técnica é
evidente e até expressa claramente na introdução da obra: "Enquanto as ciências físico-
matemáticas possuem uma classificação harmoniosa, uma terminologia unificada e que é
adotada em congressos especializados, um método aperfeiçoado por gerações e gerações de
mestres, entre nós nada disto existe".
Dane-se a imaginação, a diversidade que tanto faz sentido nos relatos, o importante é que se
tenha uma fórmula conveniente para organizar nossos Congressos, é isto que Propp diz numa
linguagem mais clara.
Ao longo do texto Propp vai dissecando os contos, fazendo a autópsia da imaginação para ao
final chegar às pretendidas fórmulas que ele arrogantemente apresenta como o supra-sumo do
esforço. Felizmente o autor foi atropelado pela história porque o positivismo que o inspirou já
era ultrapassado quando ele começou a escrever.
S E G U N D A - F E I R A , 2 M A I O, 2 0 0 5 - 0 6 : 2 6
A eugenia é um perigo, mas também uma grande bobagem porque em geral visa só os aspectos
aparentes do homem, em especial as características físicas. Nem sempre, porém, elas se devem
a herança genética e, mais grave, o que fez o homem ser verdadeiramente um homem não foi
nunca os músculos ou a beleza, mas sim a inteligência. Fosse o australopithecus mais forte e
talvez ele nunca tivesse se transformado no homem, afinal a inteligência surgiu para compensar
todas estas fraquezas daquele macaco das savanas.
Mas a eugenia, a despeito de ser uma bobagem, é um grande perigo. O horror nazista demonstra
isto com límpido terror. Malgrado sua imbecilidade teórica, a eugenia é a racionalização de um
dos sentimentos mais típicos do homem, aquele sentimento de repulsa à alteridade que faz
eternamente o homem tentar colocar o seu grupo no centro do mundo e negar aos demais grupos
o título de "humano".
Há algum tempo mencionei que por detrás de toda a alucinada paranoia do Unabomber - o
terrorista anti-tecnológico que assustou a comunidade científica americana há alguns anos -
havia alguns raciocínios que assustavam pela coerência. Um desses laivos de análise cruel mas
exata dizia respeito justamente à biotecnologia. Para o Unabomber o grande risco da
manipulação genética era que ela, uma vez aceita, tendia a deixar de ser optativa para se tornar
compulsória.
Dizia ele que aos poucos a adoção de órgãos e tecidos melhorados geneticamente daria a seus
possuidores uma vantagem tal sobre os demais que se passaria a depender deles de forma
inevitável. O homem-máquina seria tão superior ao homem-homem que só quem não tivesse
meios abriria mão de aprimorar-se.
O filósofo alemão Peter Sloterdijk - enfocado pelo caderno Mais da Folha de São Paulo deste
domingo - defende um ponto de vista oposto, mas que leva a conclusões extremamente
semelhantes de inevitabilidade da manipulação genética. Ainda que a longa entrevista fale
muito pouco sobre seu ponto de vista - mais preocupado em criticar Habermas e a Escola de
Frankfurt - é possível detectar alguma coisa da essência de sua mentalidade.
Diz ele que a manipulação genética é inevitável e o homem jamais deixará de utilizar as mais
poderosas ferramentas de eugenia jamais disponibilizadas. Resta portanto à humanidade apenas
o papel de estabelecer um código de ética da questão que limite a operacionalização da
manipulação genética.
Diz ele que a inevitabilidade da aceitação destas tecnologias beneficia-se do assunto não ser
trazido às claras. Enquanto persistir a recusa, diz ele, não haverá qualquer forma de controle
social sobre as experiências na área. O reconhecimento - portanto legitimação - destas
experiências parece não melhorar muito a situação do problema, ao contrário do que diz
Sloterdjik.
Enquanto este tipo de experimento continuar banido haverá sempre uma oportunidade de punir
transgressores e evitar abusos, uma vez legitimado só se pode imaginar que os limites serão
cada vez mais ampliados, a cada novo avanço a tolerância ficando mais elástica. Daí ao mundo
do Unabomber no qual os melhoramentos genéticos tornam-se compulsórios é um passo.
A única chance da humanidade recriar de forma mais terrível - porque viável e real - os velhos
pesadelos autoritários eugênicos - que desde Platão atormentam o Ocidente - é o banimento
completo deste tipo de experiência, a manutenção dos mesmos na condição permanente de
clandestinos sujeitos à perseguição tanto oficial quanto da opinião pública. Se isto, como avalia
o filósofo alemão, não for capaz de evitar de vez as experiências, ao menos limitará o seu
desenvolvimento e se poderá esperar um dia que o homem, mais sábio, já não se empolgará por
este tipo de experiência.
S E G U N D A - F E I R A , 2 M A I O, 2 0 0 5 - 2 3 : 5 9
2010 para mim foi o “Ano do Plano Diretor”, na minha mania de nomear meus anos. Passei o
ano discutindo sobre desenvolvimento urbano, incontáveis reuniões de todo tipo, milhares de
páginas de relatórios para serem mastigados pela análise estatística para transformarem-se em
um uma folha apontando tendências, conversas e mais conversas com sábios, tolos e loucos
aprendendo sempre algo em cada uma, dezenas de livros de todas as tendências e visões para
tentar compreender o assunto, dos mais conservadores aos mais radicais, mapas e mais mapas
quase tão repletos de cores e legendas quanto as pessoas que moram naquele território
representado. Enfim, um turbilhão de informação a ser processada, digerida, condensada em
conceitos e transformada em ferramenta para a ação.
Para mim foi uma redescoberta de mim mesmo, uma volta à batalha com ânimo guerreiro que
não tinha há tempos e a paciência que não tinha nas batalhas anteriores. Felizmente no início
tinha a ignorância fundamental que a tarefa era grande e complexa demais pra mim, isto fez
com que a aceitasse e me empenhasse em realizá-la. Magnífica benção é a ignorância.
Dos desdobramentos da tarefa abriram-se tantas e tantas batalhas paralelas, muitas trincheiras a
fincar o pé, muitos outros campos a avançar. No saldo final com certeza foram tantas, tão
relevantes e profundas, as vitórias que as derrotas puderam ser esquecidas numa luta tão feroz
contra as intricadas teias que envolvem a cidade e seus interesses.
Queria ter escrito ontem, aniversário de São Paulo, mas mais uma vez não houve tempo e
tranquilidade para exprimir aquela que é a meu ver, doentiamente avesso a festas e
comemorações, a única homenagem possível a quem faz aniversário, contribuir para a reflexão
de balanço que deve marcar a data.
Há algo de brilhante no cinza de São Paulo que escapa aos olhos de quem passa apressado e
atento mais a si mesmo que à sua volta. Há uma beleza difícil de definir em meio a esta fuligem
escura que parece cobrir tudo e transformar o que era novo em vetusto em poucos meses. Leitor
apaixonado de Thoreau minha alma também se divide entre andar a pé pela floresta e olhar pela
janela do gabinete esta agitação de mil tons de cinza se mexendo caoticamente pela janela.
Tudo que li, conversei, discuti, falei, vi sobre a cidade foram sempre de alguma utilidade e
prazer. Mas se eu precisasse selecionar uma cosia que mais me marcou foi o livro do urbanista
italiano que está citado na epígrafe. Os urbanistas profissionais ou amadores quase sempre me
dão a impressão de que no fundo odeiam a cidade, querem transformá-la em arremedo de aldeia
gigante, resgatar uma vida comunitária que não tem mais como existir porque os pressupostos
dela deixaram de existir.
Guiducci, pelo contrário, me pareceu o único nesta balbúrdia toda que ama mesmo, lá no fundo,
a cidade. Não quer domá-la ou demoli-la, mas sim libertar seu potencial. Só ele parece ter
compreendido o que compreenderam todos os jovens talentosos desde a Babilônia da
antiguidade às atuais, que a cidade é a panela de água fervente – para usar a imagem de Sorokin
– e o local onde as coisas acontecem.
Parece impossível amar Sampa com seus congestionamentos, transportes lotados, poluições,
multidões, sua feiura das camadas de progresso que vão se sobrepondo uma a outra tornando
velho muito rapidamente o que está por baixo. Mas raspe-se o concreto e se poderá enxergar a
beleza e riqueza de toda esta cooperação e conflito e se poderá enxergar que há nela um sentido
estético que escapa a tantos que querem mudá-la sem enxergar sua essência e com isto só
conseguem ser “cosméticos” porque só enxergam o “bonitinho” e nunca realmente o belo - “O
silêncio, a solidão, o tédio e a repetição levam a uma sensação de estática e de morte ainda mais
insuportáveis que uma existência vivida na tensão, na febre de construir, na fictícia ilusão de
conservar a vida na pedra que caracterizam a vida na cidade”, comenta Guiducci sobre as
propostas falidas de mudar a vida nas grandes cidades”.
A “alma” da cidade não está nos prédios, no concreto, onde costumam procurá-la. Está naquela
multidão que se acotovela no movimento alucinado, lutando contra a natureza – não só a
natureza externa, aquela dentro de nós mesmos, nos nossos genes, que nos faz desejar a vida
tranquila em um recanto seguro com um pequeno grupo de conhecidos. Muitas vezes já disse
que as grandes cidades não são locais propícios a vida humana, quem vive nelas honra ser
descendente daquele primata que enxergou oportunidades em desafiar a animalidade, enfim, os
paulistanos são a vanguarda da humanidade.
Q U A R T A - F E I R A, 2 6 J A N E I R O , 2 0 1 1 - 1 5 : 2 1
Sociologia e cia.
Roberto Guiducci, Sorokin,Urbanismo, DT
Referência Original: [Link]/portal/10761
GUERRA E PAZ
“Por desconhecer tudo isso, que é elementar, o pacifismo tornou sua tarefa demasiado fácil.
Pensou que para eliminar a guerra bastava não fazê-la ou, em suma, trabalhar em que não se
fizesse. Como via nela apenas uma excrescência supérflua e mórbida aparecida no trato
humano, creu que bastava extirpá-la e que não era necessário substituí-la. Mas o enorme esforço
que é a guerra, só pode ser evitado se se entende por paz um esforço ainda maior, um sistema de
esforços complicadíssimos, e que, em parte, requerem a venturosa intervenção do gênio. O
outro é puro erro. O outro é interpretar a paz como o simples vazio que a guerra deixaria se
desaparecesse; portanto, ignorar que se a guerra é uma coisa que se faz, também a paz é uma
coisa que importa fazer, que há que fabricar, pondo na faina todas as potências humanas. A paz
não "está aí", simplesmente, pronta para que o homem a goze. A paz não é fruto espontâneo de
nenhuma árvore. Nada importante é apresentado ao homem; pelo contrário, tem ele de fazê-lo,
de construí-lo. Por isso, o título mais claro de nossa espécie é ser homo faber. “ (Ortega y
Gasset, A Rebelião das massas)
Já disse em inúmeras oportunidades que os melhores livros contra a guerra foram os escritos por
soldados. "Nada de Novo no Front" escrito por um ex-soldado de pouca instrução é muito mais
convincente do que mil tratados pacifistas calmamente escritos em gabinetes refrigerados de
ministérios. Vivemos numa era em que boas intenções e más ações convivem e se misturam não
só por hipocrisia mas também pela falta de coragem de pensar.
O discurso pacifista parece ser algo impossível de se atacar, afinal quem quer a guerra e todas as
tragédias que ela traz? A questão, como bem aponta Ortega y Gasset, é que sob o rótulo de
pacifismo combinam-se as mais várias visões de mundo, boa parte delas equivocada ao menos
em alguns pontos.
Ao começar a escrever sobre isto lembrei-me que o próprio nome do blog foi inspirado pela
leitura de umas páginas de Guénon, no "Simbolos da Ciência Sagrada", no qual falava sobre o
símbolo da Espada no Islam, que representa a luta pelo retorno à unidade e ao equilíbrio, tanto
no sentido macrocósmico como naquele sentido que é mais relevante, que é o microcósmico, a
jihad interior do homem no sentido de encontrar a harmonia. Por sinal é exatamente o que
simboliza a letra árabe Alef em forma de espada sobre um eclipse que figura no logo do blog,
equivalente da espada de madeira que os imans usam nos sermões simbolizando justamente este
poder da palavra.
Como vivemos numa época de leniência, não de esforço, é natural que o esforço de superação
não seja bem visto e que portanto qualquer ideia de solucionar conflitos seja relegada.
Preocupa-me muito, por sinal, que todo o pensamento pacifista – com o qual não deixo de
simpatizar – acabe por enveredar pelo caminho da negação de que há batalhas que devem ser
travadas.
É esta identidade entre paz e “não fazer nada” de que fala Gasset no trecho que transcrevo na
epígrafe que me apavora. Estes dias brincava sobre a propaganda de um banco no qual um
menino judeu e um israelense rompem as barreiras do conflito secular jogando bola: depois um
entra pro Gaviões da Fiel e o outro para a Mancha Verde e se matam sem sentido algum. A
brincadeira me remeteu a um colega de faculdade ao qual tentei explicar sem sucesso o conflito
palestino mas que dias depois contava extasiado que tinha participado de uma briga de torcida e
batido um bocado em alguns torcedores do time contrário.
Porém é na dimensão interior que o avanço da mentalidade pacifista vazia mais me preocupa
neste momento. É claro que a meta de cada um deve ser procurar a paz interior, mas o
pressuposto desta paz interior não é deixar tudo correr e fazer vista grossa às próprias ações ou
esforçar-se pelo aperfeiçoamento. A opção pela paz não pode ser o efeito da pusilanimidade de
enfrentar os conflitos – e Gandhi destacou que a coragem era ainda mais necessária ao pacifista
que ao guerreiro enquanto Jesus disse que vinha trazer a espada e não a paz – mas pela luta com
serenidade, sem ódio mas com firmeza e decisão.
T E R Ç A - F E I R A , 1 6 M A R Ç O, 2 0 1 0 - 1 8 : 0 3
"Numa democracia o povo é submetido a sua própria vontade, o que é uma dura escravidão já
que ele é tão alheio a sua vontade como era à do Príncipe" (Anatole France)
Provavelmente ninguém aguenta mais ouvir falar mal dos políticos, de tanto e por tanto tempo
que se bateu nesta tecla que a revolta contra os governantes já nem é capaz de render boas
piadas. Infelizmente às infinitas horas deste discurso monocórdio não se seguiu uma saudável
revolução cidadã que afastasse os criticados para renovar o exercício do poder ao menos com
alguma novidade.
Lamentavelmente o que se seguiu a esta revolta contra os políticos foi a apatia e o cinismo,
revelando todo o caráter insidioso que todos estes discursos contra os políticos e a política
tinham em sua essência. Quem critica os políticos hoje é no mínimo extemporâneo porque até
desta vingança inocente a sociedade está cansada.
De toda a oratória gasta com o tema se tira muito poucos resultados benéficos e concretos, até
porque parece que o objetivo raras vezes era realmente produzir algo e sim apenas destruir. Os
políticos continuam cometendo os mesmos erros e tendo os mesmos vícios, continuam fora do
controle da sociedade, continuam a não dizer nada em memoráveis discursos demagógicos, a
corrupção continua crônica no Brasil.
Em alguns casos a pregação cínica contra os políticos produziu o resultado contrário a qualquer
resultado positivo: ao denunciar as más práticas dos políticos incentivou a venda de votos em
larga escala. A cada eleição aumenta o número de pessoas ansiosas por vender o voto - e não se
pense que isto é privilégio do miserável que mora na periferia porque a elite e a classe média
tem ainda menos escrúpulos e a única diferença é o preço de venda (às vezes nem isto).
A pregação fascistoide contra os políticos só conseguiu até hoje dar um argumento cínico para
que o eleitor corrupto venda seu voto com menos peso na consciência: "se são todos safados
mesmo eu pelo menos quero uma vantagem também", ou então, "depois da eleição eles vão nos
trair mesmo, então preciso tirar alguma coisa antes".
Vale dizer que o termo fascistoide é mais do que apropriado, porque apesar de investir
pesadíssimo no descrédito dos políticos, as máquinas de propaganda nazista, stalinista e fascista
jamais incentivaram a apatia, mas sim justamente a participação - devidamente controlada e
manipulada, é claro - da população.
É evidente que é necessário criticar, e duramente, os homens públicos. Mas de nada contribui
para o avanço da democracia as críticas generalizadas, inespecíficas, vagas, demagógicas que
são feitas pelos demagogos de toda espécie. Este tipo de crítica covarde e mal intencionada
apenas alimenta esta apatia e garante que o poder continuará a ser ocupado pelos oportunistas.
Não é a toa que alguns dos piores políticos são os que mais criticam a política, como um
vereador clientelista do baixo-clero que não perde a oportunidade de dizer que "político nenhum
presta". O ócio do legislativo, por sinal, induz à tentativa de se criar fatos atacando a própria
Casa, aproveitando-se da repulsa generalizada que a inutilidade dos Legislativos tem na
sociedade.
A primeira pergunta que se deve fazer a quem ataca desbragadamente os políticos é o que o
atacante já fez pela comunidade. O que já fez de bom, que fique claro, porque de ruim ele já
está desestimulando nas pessoas de bem o interesse pela coisa pública, dano muito maior que o
de toda a raça de políticos junta.
Nada vai mudar enquanto a comunidade não resolver mudar isto tomando ela própria as rédeas
da situação, participando e intervindo no processo de tomada de decisão, deixando esta cômoda
e cínica apatia de quem não quer se envolver e prefere ficar numa posição olímpica a criticar a
todos. Afinal, demagogos já se tem demais por aqui para precisarmos importar outros.
S E G U N D A - F E I R A , 2 M A I O, 2 0 0 5 - 0 7 : 1 4
Pessoal, Política
Referência Original: [Link]/portal/59
BUSCAS
T E R Ç A - F E I R A , 8 A G O S T O, 2 0 0 6 - 1 5 : 4 9
Islam, Arte
Referência Original: [Link]/portal/10759
REAL E IDEAL
“Entretanto, como é meu desejo escrever
coisa útil para os que tiverem interesse.
mais conveniente me pareceu buscar a
verdade pelo fito das coisas, do que por
aquilo que delas se venha a supor. E muita
gente imaginou repúblicas e principados
que jamais foram vistos e nunca tidos
como verdadeiros. Tanta diferença existe
entre o modo como se vive e como se
deveria viver, que aquele que se preocupar
com o que deveria ser feito em vez do que
se faz, antes aprende a própria ruína do que
a maneira de se conservar; e um homem
que desejar fazer profissão de bondade,
mui natural é que se arruíne entre tantos
que são Perversos.” (Maquiavel, O Príncipe)
"Tenho tentado, continuou Rafael, descrever-vos a forma desta república, que julgo ser, não
somente a melhor, como a única que pode
se arrogar, com boa justiça, do nome de
república. Porque, em qualquer outra
parte, aqueles que falam de interesse geral
não cuidam senão de seu interesse
pessoal; enquanto que lá, onde não se
possui nada em particular, todo mundo se
ocupa seriamente da causa pública, pois o
bem particular realmente se confunde com
o bem geral." (Thomas Morus, Utopia)
Acho particularmente mais perniciosa a segunda visão e às vezes alguns amigos ficam chocados
quando considero o termo Utopia – tão querido no vocabulário político – como um termo
extremamente negativo para mim. Particularmente considerei até a Utopia de Morus um lugar
horrível para se viver, sem liberdade, sem privacidade, imbuído de uma profunda e extrema
feição totalitária no mais preciso sentido do termo – de um Estado que regular toda a vida do
cidadão.
Ainda que Morus seja chamado de humanista e normalmente se louve sua crença na bondade
intríseca do ser humano, corrompida pelas más instituições, no fundo a sua visão do ser humano
precisando ser acorrentado pelas “boas instituições” que lhe conduzem pelo bom caminho é, no
fundo, uma visão muito pessimista do ser humano. Não é de se admirar que a história – matéria-
prima dos dois pensadores para chegarem a conclusões opostas – demonstre que em geral
quando aqueles que se guiam por uma visão focada apenas no ideal chegam ao poder em geral o
fazem pelo método violento e é também por uma violência que não coraria Morus que lá se
mantém.
Ao mesmo tempo é evidente que a Política desconectada daquilo que é o seu objetivo -
promover a felicidade dos Cidadãos – através da construção de boas normas e instituições
saudáveis sequer é merecedora do nome de Política, é apenas uma disputa meio animalesca por
um poder que não é o poder político mas do mesmo tipo de poder que um animal obtém quando
chega pela força ao domínio da matilha para ganhar o privilégio de ser o primeiro a fartar-se
com as presas.
Toda antítese resolve-se por um paradoxo e esta não é diferente, A visão “maquiavélica” é
muito mais útil àquele que busca o ideal, na verdade praticamente só é útil a ele porque na
medida em que ele tem uma noção bem objetiva e clara de finalidade, objetivo, meta e
conclusão só ele tem plena capacidade de dentro das regras do jogo chegar ao objetivo. O
inverso sendo também verdadeiro – e cada vez mais verdadeiro - pois aos que desejam manter
ou ganhar o poder apenas por objetivos pessoais tem muito mais facilidade não só de passar por
cima das regras do jogo como ainda de revestir-se de alguma autoridade ideológica, filosófica
ou social para prevenir e reprimir qualquer oposição.
No centro da solução do paradoxo está o ponto que distingue os dois – Maquiavel enxerga a
diversidade, a multiplicidade de interesses em conflito; Morus vê um único caminho o qual deve
ser atingido a qualquer custo. Não é à toa que em suas vidas Maquiavel seja um revolucionário
radical frustrado e exilado que tenta a todo custo voltar a ser um “player” enquanto Morus é um
alto conselheiro de uma potência em ascensão que abandona o jogo.
D O M I N G O , 9 J A N E I R O, 2 0 1 1 - 0 0 : 0 7
Pessoal, Poesia
Referência Original: [Link]/portal/10100
REALISTADO
“No dia seguinte atirei-me ao trabalho, digamos que voltando as costas ao posto. Parecia-me a
única forma de continuar ligado às saudáveis realidades da vida. Mas é difícil uma pessoa não
olhar de vez em quando à sua volta; e então reparava no posto, no disparatado vaivém dos
homens no cercado, à torreira do sol. Muitas vezes perguntei a mim mesmo o que significaria
tudo aquilo. Vagueavam por um lado e outro a empunhar absurdos varapaus, como peregrinos
sem fé que circulassem, enfeitiçados, dentro de uma cerca apodrecida. A palavra marfim,
passava no ar segredada, suspirada. Parecia que lhe faziam preces. Um cheiro a imbecil
rapacidade bafejava tudo como um cheiro a cadáver. Júpiter nos valha! Nunca na vida eu vira
coisa tão irreal. E à volta a silenciosa selva, que apertava aquele pedaço de terra nua, parecia-me
enorme e tão impossível de vencer como o mal ou a verdade, que estava à espera, com
paciência, do fim daquela invasão fantástica.” (Conrad, No Coração das Trevas)
O mundo andava chato e sem sentido. O sintoma claro do meu desencanto era aquela vontade
reiterada de mudar pro mato e plantar jabuticabas, goiabas, gabirobas e coisas do tipo.
Digo que andava sem sentido não com aquela sóbria visão como a que Caeiro/Pessoa diz que
basta uma coisa existir para ser completa e que são vãos e inúteis todos os esforços do
pensamento de tentar compreender a mínima coisa. Digo sem sentido porque quando não se
sabe para onde vai mesmo que se veja a estrada não há como se decidir por um lado dela.
Digo que andava chato porque parecia que mais nada nele conseguia despertar do enfado do
cotidiano, nada quebrava o sono que não era o bom sono de quem está no mundo sem ser do
mundo, mas sim o sono da apatia de quem não está no mundo mas tampouco fora dele.
Andava nestas quando Kurtz ligou de seu posto lá no ponto mais negro do Coração das Trevas.
Ele continua o mesmo, eu mudei e marfim nenhum mais é capaz de mover-me, é de andar atrás
dele ou desejar andar ao lado dele que fiquei atonteado por tanto tempo, sem coragem de
escrever para que as asas não voltassem a crescer e tomando a pena como alabarda rachasse
algumas cabeças.
Enfim, andava mais como os peregrinos sem fé de que fala Conrad, não por ter me tornado um
deles, mas porque andava achando que não pagava a pena ostentar a diferença, ter aquela
mesma marca de distinção e ameaça que Kurtz tem.
A coisa mais maluca da política para quem vive nela e dela é que a amálgama de sentimentos
distintos tem fórmula secreta e complexa e uma pitada a mais ou a menos dos opostos
necessários ao equilíbrio costuma causar explosões de assustar qualquer otimista. É impossível
sobreviver são – em todos os sentidos de sanidade, da integridade à sobrevivência política –
porque nela se morre muitas vezes como já percebeu um estadista destes famosos e sempre
citados – ou seja dos princípios mais absolutistas até a mais pragmática “manobra tática” sem
uma combinação precisa de ingenuidade e matreirice.
Aquele que não tiver a dose mínima de ingenuidade jamais conseguira confiar em nada nem
ninguém, nem nos seus ideais e nem em si mesmo. É preciso ser ingênuo para crer que o mundo
pode ser mudado, tanto quanto para ter certeza que ele não mudará e portanto esta dose de
ingenuidade é necessária à esquerda e à direita.
Ao mesmo tempo é necessário ser tão ardiloso a cada passo para que os planos traçados de
forma ingênua sobrevivam no meio dos lobos que não raro são aqueles que creem muito
profundamente no sentido maior daquilo que fazem – ou descreem por completo de qualquer
coisa e portanto não temem nenhuma consequência - são capazes de ser bem sucedidos neste
mundo. Não me espanto quando vejo os mais profundos idealistas tornando-se os mais venais
cínicos porque na verdade ambos costumam estar tão repletos destas doses elevadas e viciantes
de ingenuidade e pragmatismo que uma gota a mais de um ou outro acaba por fazer o equilíbrio
transbordar.
Enfim, Kurtz me liga naquele momento em que estou mais pronto a segui-lo do que já estive em
qualquer outro momento. Não tenho ilusões ou veleidades mais como da primeira vez que o
segui. Se o encontrasse no coração das trevas em um trono de marfim cercado por alucinado
bando de nativos em êxtase eu só queria ser o bobo da corte que diz as verdades inconvenientes,
tão alheio a imbecil rapacidade dos jogos de poder que pode enxergá-la com a clareza de um
oráculo sibilino.
Tantas vezes ele chamou e o barco que leva ao Coração das Trevas naufragou tão
misteriosamente como o de Conrad que eu mantive o espírito amordaçado, acorrentado e
cangado para não alçar voos de esperança daqueles que terminam em desfiladeiros sombrios de
frustração.
Mas como as cosias ganham sentido quando queremos lá no fundo eu sabia que agora era a hora
certa e por aquele sensato fatalismo com o qual adornamos todas as cosias que vão se desfiando
caóticas a nossa frente de um sentido maior vou achando muito tautologicamente que havia
experiências pelas quais precisava passar.
Por quanto tempo vou continuar querendo só o enorme privilégio de continuar pensando,
algumas vezes em voz alta, eu não sei. Nada é mais importante que esta maravilhosa condição
muito propícia a quem quer estar no mundo sem ser do mundo. Mas no meio de tanto marfim
acabamos por esquecer disto muito rapidamente.
Enfim, o estoque de ingenuidade está reabastecido para pegar o próximo vapor para o coração
das trevas, sem saber se lá é a mais profunda realidade ou a mais absoluta irrealidade.
Q U I N T A - F E I R A, 2 5 F E V E R E I R O , 2 0 1 0 - 0 2 : 5 7
Política
DT, Política, Joseph Conrad, Fernando Pessoa, Kurtz
Referência Original: [Link]/portal/10750
A CONFERÊNCIA II
Q U I N T A - F E I R A, 2 0 J U L H O , 2 0 0 6 - 1 5 : 0 5
Islam, Pessoal, Poesia, Arte, Literatura, O futuro, Sociologia e cia., Filosofia e cia
Referência Original: [Link]/portal/10007
HIKMAT WA RAHMAT
S E X T A - F E I R A, 2 5 A G O S T O , 2 0 0 6 - 1 7 : 5 9
Houve tempos nos quais podia escrever para outros um texto do qual discordasse, de forma
rápida e praticamente indolor. Este exercício foi ficando cada vez mais penoso e embora ainda
seja capaz deste ofício de ghost-writer confesso que o resultado é um produto sem alma.
Pateticamente percebo que muitos, em especial os clientes, não percebem a diferença.
A quase ninguém posso explicar a diferença e a dificuldade de executar estas tarefas hoje em
comparação com o passado. Na verdade jamais escrevi aqueles textos, eles eram obra de um
djinn escritor que mantive como escravo em uma garrafa por muitos anos e em um momento de
grandeza ou fraqueza libertei.
Há tempos ele não me faz uma visita, não por descaso ou ingratidão, mas pela multidão de
tarefas acumuladas em tantos anos de seu cativeiro. Mas cada vez que ele aparece me inunda de
uma sabedoria tão profunda, uma análise tão sagaz e uma sinceridade tão acirrada que me dá
remorso tê-lo usado de forma vil em tarefas tão banais. Se um dia eu também for livre como ele
sei que não serei tão sábio porque não tenho os milhares de anos da sua experiência, mas espero
espelhar-me na sua independência de espírito e julgamento.
Na última vez que ele apareceu debruçava-me sobre um texto árido, daqueles que só com muita
dificuldade se consegue encaixar um ou outro oásis sabendo que serão exatamente os oásis os
primeiros a ser violentamente podados pelo cliente. Quando a nuvem se materializou naquela
enorme figura azinhavrada fui tomado pela saudade dos velhos tempos, quando bastaria
incumbir o djinn da tarefa e colher os resultados e elogios.
S E X T A - F E I R A, 7 N O V E M B R O , 2 0 0 8 - 1 5 : 2 7
beijos
Referência Original: [Link]/portal/10065
FESTAS
É um chavão que remonta aos tempos medievais, reforçado por incontáveis produtos da cultura
de massas e contaminado por altas quantidades de conteúdo ideológico, ainda assim há uma
enorme dose de verdade na afirmação tão tolstoiana de que há mais alegria de viver entre os
mais humildes. Nesta época de festas esta constatação torna-se ainda mais evidente e por mais
amplas que sejam as opções de produtos para consumo aos que tem mais recursos, ainda assim
fica a sensação de que as mesas mais fartas e felizes estão entre as dos mais pobres.
Há um prazer em comer, beber, estar junto que parece esvanecer-se entre os mais ricos. Por
mais que este fenômeno se preste às mais variadas manipulações ideológicas de todos os
espectros políticos ainda assim é verdadeiro e relevante, basta ver uma festa popular, comer em
uma mesa em dia de celebração, ouvir o alegre burburinho.
A própria sociabilidade tem uma relação direta com o nível social, paradoxalmente com os dois
extremos sendo similares em valores e individualismos exacerbados. Há talvez muitas
explicações para isto, nenhuma delas totalmente satisfatórias. A primeira, muito tentadora mas
incompleta, diz respeito à tradicional oposição sociológica entre comunidade e sociedade. Em
um país como o Brasil, de urbanização recente no qual poucas gerações separam a roça da
fábrica, sem dúvida os valores de cooperação rural e da vida comunitária dos povoados e bairros
é valorizada como processo necessário à sobrevivência e ao enfrentamento das múltiplas
dificuldades e necessidades.
No sentido inverso também é relevante certa solidariedade proletária que a disciplina e a divisão
extrema do trabalho no chão de fábrica impõe e que acaba se introjetando em um conjunto de
valores. A despeito de alguma mistificação, feita com a preocupação especial de anular as
individualidades, as qualidades do “homem novo” da análise marxista original e do que havia de
original no Realismo Socialista – antes dele tornar-se mero rótulo de arte ruim e propaganda
stalinista – não deixam de ser em grande parte verdadeiras.
Assim se me tornei um “homem societário” para o qual todas as relações que não são
impessoais são muito difíceis, eloquente quando fala em abstrato para um público coletivo
indefinido mas quase mudo quando se trata de debater questões pessoais por mais importantes
que sejam, invejo – e a inveja é a forma mais profunda de admiração - esta sociabilidade fácil,
esta comunicação fluida e esta alegria barulhenta que sobrevive ainda a todas as dificuldades e
distâncias da vida moderna. Nada é mais triste do que a multidão de anônimos sozinhos e
apressados passando pelo centro de São Paulo.
Enquanto este sentimento de comunidade – ou o nome que se der a isto – persistir o povo não
vai se dissolver na massa, vai conseguir não só sobreviver às dificuldades, mas ter aquela
alegria que é fundamental para sonhar e ter esperança. Não pode existir outra fonte de vitalidade
para a modernidade.
S E X T A - F E I R A , 2 8 D E Z E M B R O, 2 0 1 2 - 1 8 : 3 1
Sociologia e cia.
DT, Comunidade e Sociedade
Referência Original: [Link]/portal/10780