I - Introdução
O tema desse nosso artigo, já sabemos, causará polêmica e
oposições muito fortes, no entanto, se faz necessário que ele seja
colocado.
No objetivo desse blog, deixamos claro, que realizaríamos um trabalho
independente, sem nos prendermos a tabus, dogmas, mistérios, mitos
ou erós (segredos). Em pleno séc. XXI, não é mais possível, que na
Umbanda existam assuntos proibidos, temas inquestionáveis, mitos,
lendas e certas práticas que, se corretamente fundamentadas na sua
origem, são perpetuadas e disseminadas de forma errada atendendo
aos interesses de poucos. Todo umbandista é um livre-pensador e é
exatamente na prática dessa liberdade, que cabe ao adepto realizar o
desenvolvimento dos seus conhecimentos, o estudo permanente da
religião, as reflexões sobre todos os assuntos espirituais, o pleno
exercício racional da sua fé, uma autoanálise sincera e uma crítica
responsável.
Sim, é necessário que o filho-de-fé, exerça o seu direito a crítica. A
Umbanda precisa, que o movimento umbandista, cada vez mais,
dentro do plano traçado por sua hierarquia superior, contribua para
evolução planetária e para que isso seja alcançado muita coisa
precisa ser mudada. Não se conquista evolução sem mudança e toda
mudança exige respeito ao passado, modificação no presente e que
se agregue algo novo para o futuro.
A Umbanda é uma religião dinâmica, transformadora e não estática,
parada no tempo e no espaço. Isso significa dizer, que na Umbanda,
tudo se modifica continuamente, o novo quando não substitui,
transforma o velho ou renova o que já existe. O movimento
umbandista, não é um universo religioso acabado, pronto e perfeito,
ele está em constante ebulição, como a sua própria denominação
revela, em pleno movimento, em constante modificação, ou seja
sofrendo um processo de mudança permanente. Por isso, deve ser
diariamente trabalhado, completamente estudado e continuamente
criticado, para cumprirmos as metas traçadas pelo mundo espiritual. E
quem deve fazer esse trabalho, senão os umbandistas, que são os
principais colaboradores e participantes dessa Obra Divina?
Entretanto, somente se consegue criticar algo, quando se pratica
mesmo que inconsciente, o exercício da dúvida. Esse exercício é um
método, que consiste em questionar a veracidade de algo, chegando
totalmente a sua negação e depois construir, através do raciocínio
lógico, da pesquisa e do uso da razão, a certeza e a verdade
novamente.
É, totalmente, consciente desse meu direito de refletir, pensar e
estudar a Umbanda, que apresento esse estudo sobre o processo de
iniciação (feitura de santo), dentro do movimento umbandista, mais
particularmente na Escola ou Culto Omolocô e diretamente sobre a
minha experiência como iniciado. A necessidade de obter, por mim
mesmo, a constatação de tais ensinamentos, começou a surgir na
minha frente, logo depois da publicação do meu livro "Umbanda
Omolocô - Liturgia, Rito e Convergência na visão de um adepto"
publicado pela Ed. Ícone em 2002.
Os estudos que realizei sobre o Culto Omolocô e o aprofundamento
nas doutrinas de outras escolas do movimento umbandista, ampliaram
a minha visão e me permitiram chegar a uma série de deduções, que
apresento para apreciação de todos. Em suma, coloquei em dúvida os
ensinamentos a mim ministrados e fui em busca de obter as certezas
de suas veracidades, caso contrário, de descobrir o fundamento exato.
Posto isso, não pretendo que ninguém adote o meu posicionamento,
ou acredite no que será exposto aqui, mas acho extremamente
necessário apresentar um novo ângulo, sobre algo que mexe e
transforma completamente a vida espiritual de tantos adeptos.
Quem tiver ouvidos para escutar e olhos para enxergar, que tirem
suas próprias conclusões.
II - Considerações Gerais sobre Iniciação
Desde as Escolas de Mistérios do antigo Egito, que um processo de
Iniciação significa um conjunto de rituais, que não tem outro objetivo,
senão o de causar um impacto espiritual na alma, na mente, no
coração e no corpo físico do iniciante. Esse impacto visa a permitir
que determinadas leis espirituais, deixem de existir apenas no nível
consciente do iniciante (fase do "eu acredito"), se tornando parte do
seu nível inconsciente (fase do "eu vivencio plenamente"). Para isso,
todo ritual de iniciação trabalha os níveis psíquicos (espirituais),
psicológicos (mentais), emocionais (intuitivos) e físico (material) do
neófito (aquele que está se candidatando a uma iniciação).
No Egito antigo e em muitos processos iniciáticos no decorrer do
tempo, o candidato passava por provas divididas em três etapas:
provas físicas, nas quais se testavam a sua resistência e coragem; as
provas morais, nas quais eram testados o seu caráter, valores morais
e integridade; e as provas espirituais, em que se faziam testes para
verificar a sua capacidade de contato com o mundo espiritual, seus
dons e poderes.
Em um ritual de iniciação, todo neófito, sai dele transformado. Deixa-
se o velho e substitui-se pelo novo, ou como dizem, liberta-se de uma
situação profana e vive-se a partir daí uma íntima ligação com o
Sagrado. A Iniciação é um processo de harmonização com o Sagrado
e o Mestre Interior que habita dentro nós e que outro não é do que a
nossa essência divina.
Assim, todas as ordens esotéricas (Maçonaria, Rosacruz entre
outras), todas as religiões, possuem suas iniciações ricas em
simbolismos, impactantes em seus rituais e repletas de liturgias
representativas da sua concepção específica do Sagrado.
O processo iniciático deve permitir portanto, a experiência mística,
caso contrário representa apenas um ritual simbólico. Sem gerar uma
vivência espiritual profunda e transformadora, se torna apenas um rito
formal e que eleva o iniciante a uma condição hierárquica superior na
coletividade que ele pertence. Ao se passar por uma iniciação, perante
os outros (não-iniciados), passamos a pertencer a um seleto grupo, e
adquirimos uma posição superior.
III - A Iniciação no Culto Omolocô
Como já escrevi em meu artigo "Os Filhos da Natureza estão órfãos e
não sabem", o Culto Omolocô surgiu (década de 40 em diante) como
uma resposta, do Tata Ti Inkice Tancredo da Silva Pinto, a tentativa de
alguns umbandistas, em realizar uma aproximação com o Espiritismo
e de afastamento das origens africanas, dos seus cultos e
religiosidade. Para isso, Tancredo radicalizou em um caminho inverso,
ou seja, aproximação com o Candomblé e os Cultos Afro-brasileiros e
a origem africana da Umbanda, organizando o que vulgarmente se
denominou de Umbandomblé, e que eu denomino de processo de
Candomblelização da Umbanda. O Tata Tancredo defendeu, de forma
veemente, que essa seria a Umbanda verdadeira.
Assim, o Culto Omolocô adotou de forma semelhante, mas não
idêntica todos os processos e iniciação do Candomblé, ou pelo
menos, se baseou em seus fundamentos para tal fim. Como uma
religião que congrega em suas diversas nações a herança legítima
dos cultos africanos, o Candomblé serviu de fundamentação para
organização de ritos e liturgias do Culto Omolocô. Isso é bem visível,
na forma pelo qual, o Omolocô trata tudo o que se refere a Orixá em
seu culto. Utilizamos as mesmas comidas-de-santo do Candomblé, as
mesmas ervas, fazemos o bori frio, respeitamos o xiré, temos o roncó,
realizamos feituras-de-santo, utilizamo-nos do sacrifício de animais, as
vestimentas e armas dos Orixás são quase idênticas, bolamos com o
santo, o fardamento dos filhos-de-santo são semelhantes, os níveis
hierárquicos são equivalentes, os símbolos e objetos consagrados são
os mesmos (ex. o otá, a quartinha, a louça do santo etc.), cantamos
rezas em dialeto, temos saídas de santo e entregamos o deká, entre
tantas coisas em comum.
Com relação ao processo de iniciação as semelhanças continuam,
embora, como já disse, a forma não seja idêntica. Temos então, no
processo de iniciação do Omolocô ou feitura de santo em comparação
com o Candomblé e suas nações, a seguinte tabela resumo:
Nessa pequena tabela-resumo, podemos perceber, claramente, que o
Culto Omolocô tem seus alicerces ritualísticos e litúrgicos, em relação
ao seu panteão (conjunto de divindades) formado pelos Orixás,
plenamente entrelaçados com o Candomblé.
Ao dividir esse seu universo de atuação, com as entidades espirituais
(caboclos, pretos-velhos, crianças etc.), seus simbolismos e objetos
de trabalho, o Omolocô passou a ser um Candomblé de Caboclo
ampliado.
Tudo isso, tem um motivo de ser, no papel que a Escola Omolocô tem
no movimento umbandista, completamente explicado tanto no meu
livro, como no artigo já citado.
O que eu considero de suma importância para minha linha de
raciocínio atual é o significado e o objetivo da iniciação (feitura de
santo), e a forma como ela é usada no Culto Omolocô.
IV - Significado e Objetivo da Iniciação no Culto Omolocô
Como no Candomblé e demais Cultos Afro-brasileiros a feitura de
santo é um ritual para que o iniciado ou iaô, seja harmonizado ou
consagrado ao Orixá que ele pertence. E mais, é uma via ou caminho
para a ordenação sacerdotal do iniciado, assim ele manifeste seu
desejo e/ou seja confirmado pelos oráculos (búzios/ifá). Caso ele não
deseje e/ou não seja confirmado o seu destino sacerdotal, torna-se um
meio para que o iniciado venha ocupar um cargo na hierarquia do
terreiro e do culto.
Aqui começa o resultado dos estudos que realizei, as minhas
reflexões e as conclusões que cheguei sobre o sistema de iniciação
por mim vivenciado.
Cada ponto a seguir está dividido nas seguintes partes: Ensinamentos
(conforme me foi passado), Estudos (análise e deduções que cheguei
na minha busca pelo fundamento dos Ensinamentos) e Conclusão
(resultado que se chega com as deduções e análises dos Estudos).
V.1 - Quantidade de Órixas que devem ser feitos
ENSINAMENTOS:
A Iniciação somente pode ser através da feitura de santo. O filho-de-
santo pode fazer um Orixá, preferencialmente dois e idealmente
quatro, mas para chegar a condição sacerdotal de Pai/Mãe-de-Santo
no Omolocô deve fazer nove Orixás.
O primeiro Orixá ou Santo, como se diz, a ser feito é sempre o
principal ou da frente (se for Orixá masculino é chamado de Pai e se
feminino de Mãe).
No caso de dois Orixás serão feitos o principal + um segundo. Nesse
caso será um Orixá masculino, se o principal for Orixá feminino ou
feminino, se o Orixá principal for masculino. Na feitura de quatro
Orixás são feitos o principal + o segundo + outros dois.
Nove são os Orixás cultuados pelo Omolocô (Nanã, Omulu, Ogum,
Oxum, Iansã, Xangô, Oxossi, Yemanjá e Oxalá).
O Orixá da frente ou principal é o Orixá correspondente ao dia da
semana, da data de nascimento do iniciante, segundo o calendário do
culto, ele determina o que você é nessa reencarnação, e é o Orixá que
predomina na sua existência atual.
O segundo Orixá é o correspondente direto ao Orixá principal (formam
um par), chamado de Orixá ascendente, ele determina o que você
aparenta ser ou sua imagem. Esse Orixá sempre visa o nosso
equilíbrio íntimo e crescimento interno permanente. É por isso, que
preferencialmente, o iniciante deve procurar fazer os dois primeiros
Orixás. É o par que proporciona ou busca o equilíbrio do filho-de-
santo.
No caso da feitura de quatro Orixás a explicação é porque esse
número representa a estabilidade (ex: uma cadeira fica firme no chão
porque tem quatro pernas, e assim por diante), nesta visão, por
exemplo, a feitura de três Orixás deixa o filho-de-santo sem
estabilidade.
Já a necessidade de se fazer os nove Orixás, para poder ser
sacerdote, parte do princípio que não se pode fazer o Orixá de alguém
sem ter esse Orixá feito.
Os nove Orixás formam o círculo ou coroa do nosso Orí em que cada
Orixá possui uma respectiva casa astral (posicionamento cabalístico
no alto da nossa cabeça).
ESTUDO:
A bem da verdade, todos nós possuímos três Orixás principais. Juntos
eles formam um triângulo de forças regentes e predominantes no
nosso Orí (cabeça).
Por que um triângulo e não um círculo ou coroa como nos foi
ensinado?
O círculo surge no Omolocô, com base nos estudos cabalísticos
desenvolvidos pelo Tata Ti Inkice Tancredo para alicerçar a doutrina
do culto.
Nesses brilhantes estudos para a época, o Tata Tancredo buscava
através da numerologia, da cabala dos nomes e dos símbolos
formatar todas as teorias do Omolocô para a origem e genealogia dos
Orixás, a origem do universo, e a gênese e evolução humana e
espiritual.
O círculo ou 360 graus (cuja a numerologia 3+6+0=9), foi a base
geométrica e aritmética para construção dessa cabala.
Em termos de Teogonia (Estudo dos Orixás), Cosmogonia (Estudo do
Universo) e do processo evolutivo do espírito essa base circular
funciona perfeitamente para argumentação, já na questão da regência
dos Orixás não.
O triângulo é a representação correta para a principal lei que rege todo
o processo evolutivo do nosso Universo. Essa Lei se chama Lei de
Manifestação.
Todos nós e tudo o que existe no Universo, surgiu, se mantém e
sobrevive graças a essa Lei.
A Lei de Manifestação é um arcano (mistério) divino que determina,
que nesse nosso universo algo, somente se manifesta ou existe, se
houver a ação conjunta de dois pontos (base do triângulo). Assim a
ação de dois pontos gera a manifestação de um terceiro (ponta do
triângulo).
O filósofo, matemático e ocultista Pitágoras (571-70 a.C.), ensinava
em sua Ordem iniciática que "a primeira manifestação de algo
estruturado no Universo só ocorre quando da manifestação de três
ângulos - triângulo. A primeira manifestação do UM é do TRÊS, no
qual está contido o DOIS. Esta é a forma como os pitagóricos
explicam a Trindade, do três em UM. É pela geometria que nós
pitagóricos procuramos entender o universo as coisas nele existentes,
a relação entre as coisas e os eventos".
Já Pietro Ubaldi (1886-1972), última reencarnação do apóstolo Pedro
na Terra e considerado por muitos como o Profeta do IIIo. Milênio, em
umas das suas principais obras A Grande Síntese (escreveu 24
inspirado por quem ele chamou apenas de "Sua Voz" - Jesus Cristo),
que existe "uma Lei Única que dirige o Universo, e que o nosso
Universo é trifásico e as suas fases são: Matéria, Energia e Espírito".
Como consequência desse seu estudo são gerados os seguintes
triângulos de manifestação da Lei de Deus:
O triângulo e sua Lei de Manifestação, portanto, é consequência do
que existe de mais sagrado em todas as religiões - a Trindade. No
Omolocô essa trindade é Zambi Apongô (Deus Supremo); Zambira
(Mãe criadeira) e Alufan (o filho).
Na correspondência com o sincretismo católico, para uma melhor
compreensão é Deus-Pai, o Espírito Santo e o Filho (Cristo).
Na correspondência triangular a Lei se apresenta. A base do Triângulo
é o poder de Deus (Zambi-Apongô), mais a sua manifestação criadora
(Zambira ou Espiríto Santo) gerando a Criação (Jesus Cristo/
Alufan/(Filho).
Os Orixás então, tem que corresponder a formação triangular e não
circular, tendo em vista que a regência dos Orixás, em nossos orís,
existe para MANIFESTAÇÃO de energias em nossa presente
reencarnação. A Lei é somente uma, imutável, pois é divina, todos os
planos hierárquicos do Universo obedecem a essa Lei Única.
Assim temos, o Orixá principal na ponta do triângulo, o segundo Orixá
(adjuntó) e o terceiro Orixá (ancestral ou cabalístico) formando a base
do triângulo.
O segundo Orixá (juntó ou adjuntó) é o que faz par com o Orixá
principal e que já explicamos a sua função. O terceiro Orixá (ancestral
ou cabalístico) é o Orixá da essência divina do filho-de-santo. Se o
Orixá principal é o regente da nossa presente reencarnação, o
Ancestral ou Cabalístico é o Orixá da origem do nosso ser como
espírito. Eis o motivo pelo qual, ele pode vir a substituir o principal em
determinados casos. O Orixá principal e o adjuntó muda de
reencarnação para reencarnação, já o cabalístico sempre será o
mesmo.
Para completar a coerência dessa verdade, basta analisarmos que
esta formação triangular também representa as forças manipuladas
por esses Orixás regentes, segundo a Tradição Yoruba-Nagô, que
serve de base para a gnose do Candomblé e por consequência do
Omolocô.
O Iwá é a força do Orixá Cabalístico, o Axé a do Adjuntó e o Abá é a
manifestação do Orixá principal.
Geralmente simplifica-se essas forças em uma única denominação
que chamamos de Axé, mas na verdade é necessário esta disposição
triangular de ação ou o processo trifásico para que haja essa
manifestação. Relacionando essas forças a trindade universal temos a
seguinte correlação:
IWÁ = (Deus/Zambi Apongô/Orixá Cabalístico) é o ser, o elemento, a
força da existência em geral. O Iwá é o gerador da possibilidade de
existir.
AXÉ = (Espírito Santo/Zambira/Adjuntó) é o motor, a força dinâmica de
realização. Axé é o motor do vir-a-ser.
ABÁ = (Filho/Alufan/Orixá Principal) é a manifestação direcionada a
um objetivo.
Essas são forças ou princípios intermediados pelos Orixás, mas
originados e de posse de Olorun/Zambi Apongô/Deus.
Iwá e Abá, pelo que vimos, são respectivamente princípios ou forças
de origem e de determinação consequente e objetiva.
Já o Axé é o agente ou intermediário, o motor que possibilita.
No Universo, que mais uma vez repito, é regido por uma a Lei única,
temos três triângulos dispostos hierarquicamente obedecendo a Lei de
Manifestação.
Assim, a regência dos Orixás é triangular e não circular, e não envolve
os nove Orixás.
No caso do Candomblé, se faz, tão somente, o santo principal
exatamente por ser ele a ponta do triângulo ou a resultante da ação da
base (adjuntó + cabalístico). Ou como explica a Doutrina Pitagórica, a
manifestação do 1 (Orixá principal) é o 3 (triângulo de forças
regentes), onde está contido o 2 (adjuntó + cabalístico). Para o
Candomblé o Orixá Principal, que recebe a ação conjunta dos Orixás
adjuntó e cabalístico (o 2 contido no 3), representa por si só o próprio
triângulo (manifestação do 1 é o 3). Então eles (adjuntó+cabalístico)
precisam ser apenas conhecidos, cultuados e/ou louvados.
Em outras palavras, a feitura do Orixá principal carrega em si a feitura
dos outros dois, sem que seja necessário fazê-los.
Esclarecendo ainda mais, a existência do Orixá principal e sua feitura
somente ocorre, por conta da ação direta do outros dois Orixás
regentes, o adjuntó e o cabalístico estão implícitos (contidos) na
manifestação do Orixá principal.
No Omolocô, um passo a frente, já se trabalha o triângulo, pois
sempre quando se faz o par (Orixá Principal + o Adjuntó), o
Cabalístico se apresenta ou grita, como se diz.
Com o triângulo dos Orixás regentes feitos, o filho-de-santo se
credencia automaticamente ao cargo sacerdotal, sem a necessidade
de se fazer os nove Orixás. O motivo é simples, para se fazer o santo
de outra pessoa é necessário entre outras coisas possuir a afirmação
do seu próprio triângulo regente.
Fazer o Santo é nada mais, nada menos, do que posicionar no Orí do
iniciante a correspondência dos seus Orixás regentes, harmonizando
esse triângulo com a hierarquia superior correspondente, num
crescente até a Trindade Universal (Figura 11).
Então não precisa se ter todos os Orixás no Orí, para que se possa
fazer o Santo de qualquer pessoa, precisa-se sim, ter firmado o
próprio triângulo regente, para que se possa fazer esse mesmo
triângulo nos seus futuros filhos-de-santo.
De forma mais clara ainda, o importante não é se ter todos os Orixás
para se fazer o Santo de alguém, e sim ter o posicionamento-função
desses Orixás no seu Orí. Esses posicionamentos-funções são
somente três: Principal, Adjuntó e Cabalístico. Se todos nós temos
esses Orixás, nessa disposição triangular e funções chaves, então
quem já possui esses Orixás afirmados pode se credenciar a fazer o
mesmo em outras pessoas, não importa quais sejam os Orixás que
ocupem essas funções no iniciante.
Outro ponto a ser considerado nesse caso, é o das casas de Omolocô
que cultuam 16 Orixás. Será necessário ter os 16 Orixás feitos?
Imagino na época em que se cultuava um panteão ainda maior de
Orixás e não só 9 ou 16, como caberia tanto Orixá na cabeça do
iniciado.
CONCLUSÃO:
a) Se o Omolocô é um culto fundamentado no Candomblé, e ele é,
precisamos ter firmado somente um Orixá, o principal;
b) No Omolocô, três Orixás sim, é o ideal, pois formam o triângulo de
forças regentes (Principal, Adjuntó e Cabalístico);
c) Não precisa se ter os nove Orixás na cabeça para, quando formos
Pai/Mãe-de-Santo, realizarmos a feitura de qualquer iniciante.
V.2 - As Renovações de Santo e os Recolhimentos (Camarinhas)
anuais.
ENSINAMENTOS:
É necessário se fazer 7 feituras para cada Orixá afirmado no Orí do
iniciado (A primeira feitura + seis renovações).
O motivo para realização das 7 feituras por Orixá afirmado no Orí, é
para que o ciclo de afirmação de cada Orixá seja completado.
ESTUDOS:
A iniciação no culto Omolocô tem seu seu ponto alto no tarimbamento
do Orixá, no Orí do iniciado. Tarimbar o Santo, como se diz, é marcar
o Orí do iniciado com o signo cabalístico do Orixá, ou seja, é riscar no
Orí do iniciado o ponto ou sinal do Orixá.
Isso é feito com a ponta de um punhal ritualístico. No momento que
isso é feito, pronto, está feito. A marca ritualística fica para sempre, a
conjunção de forças ou energias já estão definitivamente firmadas,
pois a sua concretização já ocorreu no riscado do ponto,
representando assim, um pacto sagrado de sangue (lembrar que o
ponto é feito com a ponta de um punhal).
A consagração do Orí do iniciado para com seu Orixá, somente faz
sentido ser realizado uma única vez. Depois de imantando,
consagrado e harmonizado uma vez, não é mais necessário se repetir
isso.
Se o tarimbamento é uma tatuagem como dizem, onde já se viu ficar
renovando tatuagem, pelo que eu sei uma tatuagem depois de feita,
fica como está pelo resto da vida, tanto que às vezes, nem por cirurgia
a laser consegue se apagar.
No caso específico, o tarimbamento é uma concretização de uma
harmonização astral e definitiva para existência do iniciado.
Para que, então, em nome do bom senso, é necessário se fazer isso
por mais seis vezes?
Para que mexer sete vezes na cabeça do iniciado? Tarimbar o Orixá
sete vezes?
Se a resposta é pela necessidade de se renovar essa energia,
estamos falando de Axé e Axé é movimentado por diversos meios
sem a obrigação de ser necessariamente, através do tarimbamento e
todo o complexo ritual que o envolve.
Tarimbar o Orixá, mais de uma vez, é realizar uma consagração em
cima de outra, é fazer o mesmo pacto, mais de uma vez. Isso não tem
lógica. O que foi consagrado, já está consagrado, se fizemos um
pacto, esse pacto já está feito.
Se você entregou a cabeça para o Orixá uma vez, como dizemos, já
entregou, para que entregar novamente? Para que repetir tudo isso de
novo, por mais 6 vezes?
O processo iniciático no Omolocô, tem sim um sentido, os
recolhimentos anuais e as camarinhas, sem a renovação do
tarimbamento do Orixá, tem seu objetivo, mas por outros motivos.
As maiores autoridades do culto, o Tata Ti Inkice Tancredo da Silva
Pinto e N'Ginja Delfina de Oxalá, se manifestaram sobre esse assunto
da seguinte forma:
a) O Tata Ti Inkice, no seu livro Tecnologia Ocultista da Umbanda no
Brasil, deixa claro nas pág. 66 e 67, que a quantidade de obrigações
para se receber o Deká são 4 anos. Que em cada ano o Ioboré
(iniciado) come uma das quatro partes doObi (que na feitura de santo
é cortado em quatro partes), recebe por ano 3 guias, completando no
final de 4 anos 12 guias, sendo então essas substituída pelo Deká.
Cada ano de obrigação, na cabala do Omolocô, que é baseada nos
ciclos lunares de 28 dias, correspondem a sete anos. Assim ao se
completar os 4 anos de obrigação o Ioboré completou o fechamento
de 28 anos de ciclos lunares.
Nas palavras do próprio Tata Ti Inkice "Confirmada a última obrigação
(4o. ano) o iniciante receberá em substituição as guias (total de 12),
correspondente ao seu Eledá e ao seu adjuntó, o Deká que é a
confirmação de cargo hierárquico dentro do culto que lhe pertence: daí
por diante ele poderá confirmar um Ioboré". Em outras palavras
poderá fazer o santo de outra pessoa independente de qual seja esse
Orixá.
b) A N'Ginja Delfina de Oxalá em resposta a pergunta, "Por que
devemos dar obrigações de sete anos?" nos ensina o seguinte: "Para
aprimorarmos os conhecimentos sacerdotais e responsabilidades,
conhecimentos de Erós (segredos), para adquirir posições superiores
dentro da hierarquia a seguir:
1a. Obrigação - Iniciação;
2a. Obrigação - Passa a ser Iaô (Filho-de-Santo);
3a. Obrigação - Livre-arbítrio (a escolha da vocação);
4a. Obrigação - Confirmação da vocação (iniciado tem o direito a
receber uma comenda que representa seus quatro anos de santo);
5a. Obrigação - Especialização dentro do grau adquirido;
6a. Obrigação - Complementos sacerdotais, preparos definitivos e
ajustes necessários mediante ao estudo e análise das condições do
iniciado dentro do Santé. Conhecimento do Deká;
7a. Obrigação - Recebimento do Deká, ficando definida a situação do
iniciado como Sacerdote do Culto.
OBSERVAÇÃO: Poderá montar a sua própria Casa de Santo,
passando então a Babalorixá ou Ialorixá, dependendo do caso, com
direito de continuar as suas obrigações anuais (se quiser)".
Nas palavras do Tata Ti Inkice Tancredo, a maior autoridade no Culto
Omolocô do Brasil, seu organizador e disseminador, vemos com
claridade que ele defendia a feitura de apenas 2 Santos ou Orixás (o
principal e o adjuntó ou adjuntor como ele mesmo chamava), por outro
lado pregava apenas quatro, repito, QUATRO anos de obrigações
para o recebimento do Deká.
Já nos ensinamentos da N'Ginja Delfina de Oxalá descobrimos os
verdadeiros objetivos de cada obrigação anual e não renovação, ou
seja, para que servem os recolhimentos e camarinhas anuais.
Em estudos posteriores, sabemos que o Tata Ti Inkice fecha questão,
juntamente com o Tata Opongô Nilton Rocha Santos e a N'Ginja
Delfina de Oxalá, sobre a necessidade de se realizar sete obrigações
anuais. O importante, que tanto no caso do Tata Tancredo ou da
N'Ginja Delfina, os recolhimentos e camarinhas anuais, não
significavam sete feituras, com sete tarimbamentos respectivamente,
mas cerimônias ritualísticas, em que o período da camarinha
propiciava o aprendizado nos ensinamentos e erós do culto, servia de
aprimoramento para o futuro sacerdote ou sacerdotisa.
CONCLUSÃO:
a) Não existe a mínima necessidade de sete feituras de santo (a
primeira e mais seis renovações);
b) Existe a necessidade de se ter apenas uma feitura de santo, em
que são feitos, segundo o Tata Ti Inkice, o Orixá principal e o adjuntó.
No item V.1, vimos que idealmente, devem ser feitos o triângulo de
Orixás regentes (Principal + adjuntó + cabalístico) e só;
c) Os recolhimentos anuais, com suas respectivas camarinhas e
cerimônias ritualísticas é um período de aprendizado, em que o
dirigente do terreiro ministra ensinamentos para os diversos iniciados,
preparando-os para ocupar cargos na hierarquia da casa e para os
que desejam na sétima obrigação receber o deká.
V.3 - As Obrigações
ENSINAMENTOS:
É necessário, que seguindo o calendário anual de Festas dos Orixás,
todos os iniciados realizem uma matança (sacrifício de animais), no
otá do seu respectivo Orixá, caso tenha feitura do mesmo.
O motivo é que nas festas para louvar o Orixá (segundo o calendário
do culto), existem as saídas de santo, ou seja os filhos-de-santo
(iniciados) que tenham feitura do Orixá a ser comemorado, podem dar
saída com ele (incorporá-lo todo paramentado e apresentá-lo ao
público presente). Para isso, devem antes do dia da festa realizar uma
matança no otá do seu Orixá. No caso de não querer dar a saída com
o seu Orixá, mesmo assim, é bom que se faça essa matança, embora
que não realizando-a, não signifique que não possa participar da festa.
Nesse caso, ele apenas não pode dar saída com o Orixá.
Em ambas situações essa matança ou sacrifício de animal é colocada
como uma oferenda necessária ao Orixá.
Outro objetivo, é que para aqueles que terminaram todas as feituras
dos Orixás que afirmou em seu Orí (primeira feitura + seis
renovações), se faz necessário realizar essa oferenda para fortalecer
os otás dos seus Orixás.
ESTUDOS:
Estamos falando novamente de Axé e Axé volto a repetir pode ser
movimentado de várias formas, que não necessariamente envolva
sacrifício de animais. Para uma melhor compreensão desse assunto,
leia o artigo desse blog "Sacrifício de Animais não é tudo!".
Ora, se a questão é ofertar algo para o Orixá a ser comemorado, por
que não pode isso ser feito através da comida do santo e outros
elementos ritualísticos? Toma-se um banho com as ervas
consagradas ao Orixá, se faz um belo de um ossé (limpeza) do
símbolos do Orixá, que estão no roncó, arreia-se (oferta-se) a comida
do santo, acende-se a vela, enche-se a quartinha de água e pronto a
oferenda vai funcionar da mesma forma, sem que seja necessário o
envolvimento do Axé vermelho (sangue).
Isso, tanto serve para quem deseja dar a saída com o Orixá na festa,
como para quem apenas vai participar da mesma e quer ofertar algo
ao seu Orixá nessa data festiva, bem como, para quem já encerrou
suas feituras e deseja fortalecer os otás dos Orixás, que tem afirmado
no seu Orí.
Outro ponto importante, a deitada (ou recolhimento anual - camarinha)
é realizado uma vez por ano pelo iniciado, até ele terminar todo o ciclo
de feituras. Assim nessa feitura (renovação) ele já realiza a matança
para o Orixá, o qual ele está reafirmando em seu Orí. Pergunta: Por
que então, ele tem que fazer novamente essa matança na data
comemorativa do Orixá, se no ano ainda em questão ou ele já se
recolheu, ou ainda vai se recolher para esse mesmo Orixá? Tá,
podem me responder com outra pergunta: Qual é o problema dele
matar duas vezes para o santo? Nenhum problema, no entanto, essa
deve ser uma via de duas mãos. Se o iniciado pode fazer a matança,
mais de uma vez, também deve poder decidir a realizar essa matança
no seu recolhimento anual. Acontece, que se o iniciado não fizer a
matança na época da festa, isso é contado como obrigação não
realizada, sendo considerado como um filho-de-santo devedor dessa
obrigação. Se ele quiser dar a saída com o santo na respectiva
festividade, não poderá fazê-lo.
CONCLUSÃO:
a) A matança ou sacrifício de animais é totalmente dispensável para
se realizar oferendas aos Orixás;
b) O Axé pode ser movimentado de várias formas, sem o
envolvimento do axé vermelho.
V.4 - A Via Sacerdotal ou Hierárquica. O Deká.
ENSINAMENTOS:
O filho-de-santo que encerra todo o ciclo de feituras dos nove Orixás,
chega a condição necessária para receber o Deká e se desejar,
realiza mais algumas obrigações, recebe essa comenda e é então
considerado Pai/Mãe-de-Santo.
Como ensinamentos para o exercício de sua condição sacerdotal,
recebe uma apostila em que 80% do seu conteúdo consiste em
ensinar como se realiza uma feitura de santo no Omolocô.
Com relação a hierarquia, não existe nenhum procedimento para
determinar os diversos cargos hierárquicos dentro do culto (veja quais
seriam esses cargos no meu livro pag. 176-182). O filho-de-santo
pode ser escolhido para exercer um determinado cargo ou função
dentro do terreiro por indicação do dirigente ou porque decidiu por
vontade própria exercer essa função e conseguiu espaço para isso
etc.
Já o Deká, como vimos, é uma comenda, insígnia, que é concedida ao
iniciado, se assim ele desejar e que corresponde a última e definitiva
consagração, agora como Babalorixá (Pai-de-Santo) ou Yalorixá
(Mãe-de-Santo).
No caso, de ao final dessas sete feituras, se desejar receber o deká, é
realizado mais 1 feitura ou renovação dos nove Orixás.
Essa obrigação é denominada de fechamento de círculo, ou seja, mais
uma feitura dos 9 orixás com o objetivo de se posicionar corretamente
esses Orixás nas casa astrais (posições no Orí do iniciado)
correspondentes.
Geralmente a entrega do Deká é através da realização de uma
cerimônia festiva, em que, o agora Sacerdote ou Sacerdotisa é
apresentado a coletividade. O fato é registrado em ata, assinado pelo
oficiante da cerimônia e testemunhas. Na ocasião é também entregue
o diploma de Sacerdote ou Sacerdotisa dentro do Culto Omolocô do
Brasil.
ESTUDOS:
Nos ensinamentos da N'Ginja Delfina de Oxalá, compreendemos
facilmente que os recolhimentos anuais, servem de períodos, para se
aprender sobre a religião.
Essas obrigações, num total de sete, visam a cumprir um objetivo
básico no Culto Omolocô, semelhante ao que se realiza no
Candomblé e nos demais Cultos Afro-brasileiros, que seja a
ordenação sacerdotal do iniciado, ou a descoberta e o
desenvolvimento de conhecimentos dos filhos-de-santo para se
construir a hierarquia na casa.
Ao final das sete obrigações, o iniciado deve estar de posse de todos
os conhecimentos necessários, para que ele possa abrir o seu terreiro
e gerar a sua filiação dentro dos fundamentos do culto.
Se reunirmos os estudos realizados nos itens V.1, V.2 e V.4, podemos
visualizar que o caminho para se alcançar o sacerdócio do Culto
Omolocô passa pelos seguintes passos:
1) A feitura de santo (Triângulo dos Orixás Regentes)
2) As Obrigações Anuais (Aprendizado)
3) O Deká (Confirmação)
A feitura de santo através do triângulo dos Orixás Regentes, já
colocou por terra a necessidade das constantes renovações e por
consequência, também acaba com a necessidade do fechamento de
círculo. Mesmo que as renovações fossem uma realidade, e vimos
que não existe base sólida para a sua existência, para que se
reposicionar os Orixás nas casas astrais com o fechamento de
círculo? Será que nas sete feituras, antes do fechamento de círculo,
esses Orixás já não deveriam estar posicionados corretamente? Caso
não, por que deixar para posicioná-los corretamente apenas no
fechamento de círculo (feitura final)?
Para o Culto Omolocô, na palavra de suas principais autoridades,
após a feitura do santo, existem sete obrigações anuais, que permitem
ao iniciado, o tempo necessário para descobrir a sua vocação dentro
do culto (sacerdócio ou hierárquico). Durante esses recolhimentos
anuais, são ministrados ensinamentos e realizados estudos que
possibilitem tal descoberta e aprendizado completo.
Se o Tata Ti Inkice Tancredo falava em quatro anos, e posteriormente
fechou em sete anos esse período de aprendizado, juntamente com o
que a N'Ginja Delfina ensinou aos seus iniciados encontramos o
seguinte quadro de formação sacerdotal:
1a. Obrigação - Iniciação (Feitura do Triângulo de Orixás Regentes).
2a. Obrigação - Passa a ser Iaô (Filho-de-Santo).
3a. Obrigação - Livre-arbítrio (a escolha da vocação - Sacerdócio ou
ocupar um cargo hierárquico no culto).
4a. Obrigação - Confirmação da vocação (iniciado tem o direito a
receber uma comenda que representa seus quatro anos de santo).
Nesse ano específico, o Iniciado completou as 12 guias das entidades,
foi-lhe entregue 3 guias por ano, segundo os ensinamentos do culto.
As 12 entidades a saber são: Exú, Pomba-gira, Nanã, Omulu, Ogum,
Oxum, Iansã, Xangô, Oxossi, Ibeiji, Iemanjá e Oxalá. A Comenda que
lhe é entregue, foi nomeada pela N'Ginja Delfina de Oxalá de Contra-
Egun, representando a estabilidade alcançada pelo iniciado no culto.
A partir daí o iniciado escolhe um dos dois caminhos possíveis dentro
da religião, conforme a definição de sua vocação (sacerdócio ou
hierárquico). Se a vocação é para ocupar um cargo hierárquico, ele
ainda participa da quinta obrigação, quando aí se especializa na
função que vai ocupar. Se a sua vocação for o sacerdócio, ele
continua as obrigações, realizando a duas últimas (sexta e sétima
obrigação).
5a. Obrigação - Especialização dentro do grau adquirido (Cargo
hierárquico e início dos ensinamentos sacerdotais para quem vai
continuar as obrigações).
6a. Obrigação - Complementos sacerdotais, preparos definitivos e
ajustes necessários, mediante ao estudo e a análise das condições do
iniciado dentro do Santé. Conhecimento do Deká.
7a. Obrigação - Recebimento do Deká, ficando definida a situação do
iniciado como Sacerdote do Culto. Nesse ponto, é bom esclarecer que
as guias (total de 12) são substituídas integralmente pelo uso do
Deká, que no caso passa a ser a guia definitiva do Sacerdote.
CONCLUSÃO:
a) O fechamento de círculo é totalmente desnecessário;
b) O caminho do aprendizado existe dentro do culto, através das
obrigações anuais;
c) As obrigações anuais, são sim camarinhas e recolhimentos, sem a
necessidade de renovações de santo, tarimbamentos etc., para os que
já foram iniciados. O que se procura fazer, nessas ocasiões, é realizar
ritos apropriados e reuniões de ensinamentos e orientações, em que
os fundamentos do Omolocô são passados para a futura hierarquia e
os que exercerão o sacerdócio.
d) Nas quatro primeiras obrigações o iniciado define a sua vocação
(Cargo hierárquico ou Sacerdócio), na quinta, se a vocação for cargo
hierárquico, o iniciado se especializa, se for sacerdócio, começa os
estudos voltados para esse fim.
e) Na sétima obrigação recebe o seu Deká.
f) O Deká passa a ser a única guia do Babalorixá/Yalorixá. Devendo
ser usado em todas as reuniões, cerimônias e festividades do culto.
VI - Conclusão Geral
Diante do que eu exponho aqui, acredito ter oferecido um material rico
para estudo, reflexão que permitam as pessoas chegarem as suas
próprias conclusões.
Evidentemente que não tenho a palavra final sobre o assunto, nem fiz
isso no intuito de convencer ninguém. O que me moveu, foi a
necessidade de demonstrar que tudo na vida deve e pode ser
questionado, que devemos ter fé, mas sempre exercitando-a de forma
racional, analítica e crítica. É importante, que sempre conquistemos as
certezas daquilo que acreditamos, por nós mesmos, não importa se
constatamos as suas veracidades ou não. Importante salientar, nesse
instante, que todo o processo iniciático pelo qual passei, teve a minha
total aprovação e foi da minha livre e espontânea vontade participar.
Cabia, tão somente a mim, o direito de na época ter refletido melhor
sobre a situação apresentada e chegado as conclusões, que somente
visualizei um certo tempo depois. Nesse período eu não me permitia a
ter esses tipos de questionamentos, nem me passava pela cabeça,
qualquer outra possibilidade, que não fosse da forma como me era
ensinado.
A verdade é que o Omolocô, entrou na minha vida de umbandista,
envolvido por uma explicação, fornecida na época, que ele significaria
uma evolução espiritual para a Umbanda que praticávamos.
Passados esses anos todos, não dá para perceber o que esta
evolução significou, mas com certeza, sou eu o culpado, em não
conseguir enxergar esse salto de qualidade, que o Omolocô nos
proporcionou.
Devo estar completamente cego, para a beleza dos nossos
fardamentos, que se transformaram de roupas simples e tecidos
humildes, para roupas caras e vistosas, com tecidos de primeira
qualidade; talvez eu não consiga perceber a maravilha que é hoje, os
paramentos luxuosos dos Orixás, nas saídas-de-santo; ou quem sabe,
não peso devidamente a evolução que foi para o meu bolso, o
dispêndio financeiro, que realizei nas feituras-de-santo e suas
renovações, como vimos totalmente desnecessárias; nem tampouco,
tenho capacidade de entender o salto de qualidade que é se pagar um
valor razoável para receber um deká, que somente me dá direito a
uma apostila, um diploma, e a condição de ficar no meio do terreiro
como destaque e abençoar os filhos-de-santo, no instante que louvam
o meu Orixá principal. Deká esse que somente pode ser usado, em
cerimônias de outorga dessa comenda para outras pessoas e que fora
isso serve apenas para ficar mofando dentro do guarda-roupa.
Com certeza, eu sou culpado de nas minhas obrigações anuais, não
existirem nenhum ensinamento, ou transferência de conhecimentos,
como é determinado pela Tradição no Omolocô, e que eu tenha, que
procurar esses conhecimentos em livros, internet e outros locais.
Devo com certeza, estar ficando louco, obsidiado, ou quem sabe até
demandado, por não me unir ao coro, que hoje chama de
catimbozinho, a Umbanda, que antes do Omolocô reinar em nossas
vidas, nós batíamos com tanta alegria e felicidade. De não considerar
como terreirinhos, as casas espirituais que insistem nesse
catimbozinho e que não aceitam o Omolocô como necessário para
suas evoluções espirituais ou salto de qualidade em seus ritos,
liturgias e doutrinas.
Como não compreender, que para chegarmos a ser Sacerdotes dentro
do Culto Omolocô, temos que permitir que mexam na nossa cabeça
(tarimbar o santo) 72 vezes? Sim, 72 VEZES, é que depois de 63
tarimbamentos (9 orixás X 7 feituras), se faz necessário, mais uma
feitura com nove tarimbamentos (fechamento de círculo), para corrigir
ou colocar os Orixás no posicionamento correto (casas astrais).
Realmente, não fui capaz de captar essa evolução espiritual, nem o
sentido da coisa, devo ser um espírito muito atrasado.
Como eu já tenho 61 dos 72 tarimbamentos, faltando apenas 11 para
terminar, e diante do fato, que eu só precisava de 3 tarimbamentos
(triângulo dos Orixás regentes), concluo que tenho 58 tarimbamentos
sobrando, logo tenho feitura de santo para dar e vender.
A partir de hoje, estou vendendo as minhas feituras de santo
desnecessárias. Quem quer comprar?
Glossário:
Iniciação - é qualquer processo religioso ou esotérico, que transforma
uma pessoa leiga (sem conhecimento ou experiência) nos
fundamentos da religião ou ordem esotérica em adepto ou iniciado.
Escola de Mistérios - era assim chamada os antigos Colégios
religiosos ou esotéricos em que as pessoas se inicavam nos Mistérios,
ou seja, na religião e ciências ocultas.
Experiência Mística - assim chamamos o êxtase religioso, a
transcendência espiritual, o contato com o mundo dos espíritos de
forma direta e sem intermediários.
Comidas-de-Santo - são pratos preparados com diversos tipos de
ingredientes de origem vegetal (frutas e verduras) e animal (tipos de
carnes) para se ofertar ao Orixá. Cada Orixá tem um conjunto de
pratos correspondentes.
Bori - é um ritual de consagração que quando realizado com as ervas
do Orixá é chamado de frio e quando se usa a comida-do-santo e/ou
sacrifício de animais e denominado de quente.
Xiré - é a sequência de louvação dos Orixás em qualquer casa dos
cultos afro-brasileiros (Candomblé, Omolocô etc.).
Roncó - é o local sagrado nos terreiros de nação (Candomblé,
Omolocô etc.) em que estão afirmados todos os Orixás do Pai/Mãe-
de-Santo, bem como de todos os seus filhos-de-santo.
Feitura-de-Santo - É o processo de iniciação nos terreiros de nação.
Quando o leigo passa a ser iniciado ou adepto. Geralmente é quando
se afirma o Orixá da pessoa. Esse ritual varia em forma e conteúdo de
nação para nação e as vezes de terreiro para terreiro.
Bolar com o Santo - significa incorporar o Orixá.
Otá - é a pedra sagrada do Orixá.
Quartinha - recipiente pequeno de barro ou louça (espécie de copo de
barro com tampa). Na quartinha são colocados determinados
elementos que fizeram parte do processo de iniciação do adepto e que
se enche de água.
Rezas - são as cantigas sacras do Omolocô.
Saída-de-Santo - é quando o adepto incorporado com Orixá,
devidamente vestido e paramentado com a roupa do santo e suas
armas, se apresenta ao público em festas comemorativas.
Deká - comenda (colar de palha-da-costa, com fundamentos de todos
os Orixás) que é entregue ao iniciado que cumpriu todas as suas
obrigações. Ao receber o deká o iniciado alcança o grau de
Babalorixá/Yalorixá, podendo abrir o seu terreiro e dar início a sua
filiação.
Catulagem - (Omolocô) o mesmo que tonsura (corte redondo dos
cabelos no topo da cabeça) com objetivo de retirar um pouco do
cabelo do iniciado e criar um espaço para que se complete o ritual de
iniciação.
Raspagem - (Candomblé) como o próprio nome indica raspagem
completa do cabelo do iniciante no processo de iniciação.
Bori quente - ver Bori.
Bori frio - ver Bori.
Tarimbar o santo - (Omolocô) imprimir no lugar aberto pela catulagem
a insígnia ou sinal ritualístico do Orixá, para afirmar suas energias.
Isso é feito através de se riscar o sinal do Orixá com a ponta de um
punhal, no alto da cabeça do iniciante.
Gebéré - (Candomblé) corte ritualístico realizado no alto da cabeça do
iniciante.
Camarinha - recolhimento do filho-de-santo em local específico (roncó
ou dentro do terreiro).
Preceitos - são regras que devem ser cumpridas pelo inciante antes
da inciação para purificar o corpo, a mente e o espírito, e depois pelo
já iniciado até se encerrar o período de pureza e consagração
espiritual.
Quizilas - o mesmo que tabu, determinadas coisas que o iniciado deve
evitar. As quizilas se diferenciam dependendo do Orixá principal que o
iniciado tem afirmado.
Curas - (Candomblé) cortes ritualísticos, realizado geralmente com
navalha no corpo do iniciante, no processo de iniciação.
Toques - é como é chamado o ritual em que são reunidos os iniciados
e louvado os Orixás através dos cânticos, danças e batida dos
atabaques (tambores). geralmente nos toques existem a manifestação
dos Orixás ou seus filhos respectivos bolam.
Candomblé de Caboclo - segmento do Candomblé em que já existem
manifestaçãoes de entidades (ex.: Boiadeiros).
Obi - angiospermas, noz-de-cola, o Obi no processo de iniciação é
cortado em quatro partes, para realização do jogo oracular. Uma das
partes é dada para o iniciante comer.
Eledá - Orixá Principal, também chamado de Anjo da Guarda.
Santé - o mesmo que terreiro.