CSRF: IRPJ e Fundo Imobiliário
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961
Ministério da Economia
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Conselho Administrativo de Recursos Fiscais
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Processo nº 16327.001752/2010-25
7 52
Recurso Especial do Procurador e do Contribuinte
0 1
Acórdão nº 9101-006.005 – CSRF / 1ª Turma 7.0
Sessão de 5 de abril de 2022 6 32
1
Recorrentes FAZENDA NACIONAL
S SO
FUNDO DE INVESTIMENTO IMOBILIARIO
C E PENINSULA.
R O
P
ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA
F
(IRPJ)
A R
Ano-calendário:-C
2005
FUNDO DE G DINVESTIMENTO IMOBILIÁRIO. NÃO CARACTERIZAÇÃO
P DE “SÓCIO DO EMPREENDIMENTO”. EQUIPARAÇÃO
DA FIGURA
N O
TRIBUTÁRIA IMPROCEDENTE.
D O
Considerando a inexistência da figura de sócio no empreendimento imobiliário
R A explorado pelo FII Península, a sua equiparação à pessoa jurídica para fins
G E tributários não se sustenta à luz do artigo 2º da Lei nº 9.779/99.
à O
R D
Ó
AC
Vistos, relatados e discutidos os presentes autos.
Acordam os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer dos
Recursos Especiais. No mérito, por maioria de votos, acordam em dar provimento ao Recurso
Especial do Contribuinte, vencidos os conselheiros Edeli Pereira Bessa, Fernando Brasil de
Oliveira Pinto e Andrea Duek Simantob que votaram por negar-lhe provimento. Prejudicado o
exame do mérito do recurso da Fazenda Nacional. Votaram pelas conclusões os conselheiros
Luiz Tadeu Matosinho Machado e Gustavo Guimarães da Fonseca. Manifestaram intenção de
apresentar declaração de voto os conselheiros Edeli Pereira Bessa e Luiz Tadeu Matosinho
Machado.
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DF CARF MF Fl. 962
Fl. 2 do Acórdão n.º 9101-006.005 - CSRF/1ª Turma
Processo nº 16327.001752/2010-25
Relatório
Tratam-se de recursos especiais (fls. 555/564 e 801/828) interpostos,
respectivamente, pela Procuradoria Geral da Fazenda Nacional (“PGFN”) e pelo contribuinte,
em face do Acórdão nº 1301-00.994 (fls. 526/553), no qual o Colegiado a quo, por maioria de
votos, deu parcial provimento ao recurso voluntário, para excluir das bases tributáveis do IRPJ e
CSLL os valores lançados de PIS e Cofins oriundos do mesmo procedimento fiscal.
Transcreve-se a seguir a ementa do julgado:
ASSUNTO: IMPOSTO SOBRE A RENDA DE PESSOA JURÍDICA IRPJ
Exercício: 2006
FUNDO DE INVESTIMENTO IMOBILIÁRIO. TRIBUTAÇÃO.
EXCEPCIONALIDADE.
Constatado que o empreendimento imobiliário é integralmente explorado (100% do
negócio) por quotista único (100% das quotas) do Fundo de Investimento Imobiliário,
revelam-se presentes as circunstâncias autorizadoras da aplicação do disposto no art. 2º
da Lei nº 9.779/99, ou seja, o referido Fundo sujeita-se à tributação aplicável às pessoas
jurídicas.
DESPESAS COM TRIBUTOS (PIS E COFINS) DEDUÇÃO
Tendo, no mesmo procedimento, formalizado exigências de PIS e COFINS, tributos
cuja dedutibilidade não é vedada pela lei tributária, a autoridade lançadora, por dever de
ofício, deve deduzir o respectivo valor para fins de determinação do lucro real e da base
de cálculo da CSLL.
FUNDO DE INVESTIMENTO IMOBILIÁRIO. OBRIGAÇÕES TRIBUTÁRIAS.
CUMPRIMENTO RESPONSABILIDADE.
Nos termos do art. 4º da Lei nº 9.779/99, ressalvada a responsabilidade das fontes
pagadoras pelas retenções do imposto sobre os rendimentos submetidos à incidência
tributária nas hipóteses previstas na legislação de regência, a responsabilidade tributária
pelo cumprimento das demais obrigações tributárias (principais e acessórias), inclusive
as decorrentes do disposto no art. 2º do referido diploma legal, é da instituição
administradora do Fundo de Investimento Imobiliário.
Documento nato-digital
DF CARF MF Fl. 963
Fl. 3 do Acórdão n.º 9101-006.005 - CSRF/1ª Turma
Processo nº 16327.001752/2010-25
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DF CARF MF Fl. 964
Fl. 4 do Acórdão n.º 9101-006.005 - CSRF/1ª Turma
Processo nº 16327.001752/2010-25
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DF CARF MF Fl. 965
Fl. 5 do Acórdão n.º 9101-006.005 - CSRF/1ª Turma
Processo nº 16327.001752/2010-25
há nem menção a estas situações. Na regulamentação expedida pela CVM por meio da
Instrução 205/94, mais especificamente no artigo 2º, está definido o conceito de
empreendimento imobiliário:
Art. 2º - O Fundo de Investimento Imobiliário destinar-se-á ao desenvolvimento de
empreendimentos imobiliários, tais como construção de imóveis, aquisição de imóveis
prontos, ou investimentos em projetos visando viabilizar o acesso à habitação e serviços
urbanos, inclusive em áreas rurais, para posterior alienação, locação ou arrendamento.
Assim, a aquisição de imóveis prontos também se constitui num empreendimento
imobiliário. O próprio jurista afirma:
O espírito da lei consiste em impedir a cumulação da posição jurídica de quotista
relevante de um Fundo de Investimento Imobiliário (definido como aquele que possui,
isoladamente ou em conjunto com pessoa a ele ligada, mais de 25% das quotas do
Fundo) com a posição jurídica de incorporador, construtor ou sócio de empreendimento
imobiliário.
No caso em tela, a cumulação da posição jurídica é mais do que clara. O Fundo foi
inicialmente constituído tendo como único cotista, o Sr. Abílio Diniz. Em 2006,
empresa por ele controlada, Reco Máster Participações, ingressa no fundo com a maior
parte das cotas. A última posição dos controladores do Fundo aponta a Reco Máster
como única participante, em conformidade com os documentos juntados pelo
contribuinte. Na CBD, o Sr. Abílio Diniz é um dos controladores do grupo.
O instrumento jurídico utilizado para o aperfeiçoamento da transferência dos 60 imóveis
da CBD para o fundo foi o do "Compromisso Irrevogável e Irretratável de Compra e
Venda de Bem Imóvel" em caráter fiduciário. A propriedade fiduciária é tratada pelo
atual Código Civil, nos artigos 1.361 e seguintes. Desdobra-se a posse em direta
(devedor-fiduciante) e indireta (credor-fiduciário). O primeiro pode, portanto, usar e
fruir do bem. O segundo mantém o direito de haver a posse plena, no caso de
inadimplemento. Com o pagamento, extingue-se a propriedade resolúvel. Portanto, os
imóveis continuam vinculados à CBD.
O comando legal previsto no artigo 111 do Código Tributário Nacional ordena que a
interpretação sobre a legislação tributária que disponha sobre isenção seja feita de forma
literal. Embora faça críticas a esta forma de interpretação, Paulo de Barros Carvalho, em
sua obra Curso de Direito Tributário, 14° edição, página 104, ensina que na análise
literal prepondera a investigação sintática, ficando impedido o intérprete de aprofundar-
se nos planos semânticos e pragmáticos. Em suma, na situação do Fundo Península, não
há como concordar com a construção elaborada no Parecer Jurídico que buscou excluir
a situação de imóveis prontos do universo descrito como empreendimento imobiliário.
Existe a cumulação de posições jurídicas, estando o fundo península sujeito à tributação
das pessoas jurídicas. Ao equiparar os fundos de investimentos imobiliários às pessoas
jurídicas nas situações previstas no artigo 2º, a Lei n° 9779/99 não excluiu a situação do
Fundo Imobiliário Península, não cabendo ao intérprete criar tal exclusão.
3 - Cálculo do IRPJ e da CSLL.
A apuração dos valores devidos de Imposto de Renda Pessoa Jurídica e Contribuição
Social Sobre o Lucro Líquido será feita com base no lucro real apurado trimestralmente,
tendo em vista ser esta a tributação mais benéfica para o contribuinte, em conformidade
com o contido no artigo 112 do Código Tributário Nacional e no artigo 1º da Lei n°
9.430/96. (...)
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DF CARF MF Fl. 966
Fl. 6 do Acórdão n.º 9101-006.005 - CSRF/1ª Turma
Processo nº 16327.001752/2010-25
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DF CARF MF Fl. 967
Fl. 7 do Acórdão n.º 9101-006.005 - CSRF/1ª Turma
Processo nº 16327.001752/2010-25
- Vício de obscuridade porque o acórdão julgou o presente caso com base em fato não
verdadeiro, que não corresponde com a real operação praticada (e, inclusive, descrita no
Termo de Verificação Fiscal).
- Vício de omissão porque o acórdão deixou de apreciar a real operação aqui em
discussão e que consistiu na venda dos imóveis da CBD para o FII PENÍNSULA, não
existindo a alegada venda prévia dos imóveis para o Sr. Abílio Diniz.
- E vício de contradição pois, por um lado, o voto menciona corretamente trechos do
Termo de Verificação Fiscal que aludem a venda dos imóveis da CBD para o FII
PENÍNSULA mas, por outro lado, o mesmo voto alega que a venda dos imóveis foi
feita da CBD para o Sr. Abílio Diniz.
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DF CARF MF Fl. 968
Fl. 8 do Acórdão n.º 9101-006.005 - CSRF/1ª Turma
Processo nº 16327.001752/2010-25
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DF CARF MF Fl. 969
Fl. 9 do Acórdão n.º 9101-006.005 - CSRF/1ª Turma
Processo nº 16327.001752/2010-25
No que diz respeito ao recurso especial do solidário, este teve seu seguimento
negado pelo referido despacho, fato este que ensejou a apresentação de Agravo (fls. 913/923), o
qual foi rejeitado (fls. 913/923).
Chamada a se manifestar sobre a admissão do Apelo Especial da contribuinte, a
PGFN ofereceu contrarrazões às fls. 941/952.
É o relatório.
Voto
Conselheiro Luis Henrique Marotti Toselli, Relator.
Conhecimento
Os recursos especiais são tempestivos e atendem os demais requisitos de
admissibilidade, não havendo, inclusive, questionamento pelas partes quanto ao seu seguimento.
Especificamente em relação ao paradigma trazido pela contribuinte (Acórdão nº
1302-002.053), cumpre apenas observar que trata-se de autuação reflexa à presente, tendo sido
tal precedente reformado por esta C. Câmara Superior de Recursos por intermédio do Acórdão nº
9101-004.580. Considerando, porém, que esta reforma se deu em momento posterior ao da
interposição do Apelo, este fato não impede o conhecimento recursal nos termos do artigo 67, do
RICARF1.
Cabe ainda destacar que o próprio Relator do Acórdão recorrido, ao afastar o
julgamento daquele caso em conjunto com o presente processo, reconheceu expressamente que o
1
Artigo 67 - (...)
(...)
§ 15 - Não servirá como paradigma o acórdão que, na data da interposição do
recurso, tenha sido reformado na matéria que aproveitaria ao recorrente. (Incluído pela Portaria MF nº 39, de 2016).
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DF CARF MF Fl. 970
Fl. 10 do Acórdão n.º 9101-006.005 - CSRF/1ª Turma
Processo nº 16327.001752/2010-25
fato propulsor das incidências tributárias é o mesmo, envolvendo a tributação aplicável ao FII
por força do disposto no art. 2º da Lei nº 9.779/992.
Também merece atenção o fato de que o Conselheiro Alberto Pinto Souza Junior,
Relator do paradigma, inclusive participou do julgamento do acórdão recorrido e foi vencido na
matéria, o que a meu ver definitivamente ratifica a divergência.
Isso também ocorre com a matéria objeto do recurso especial da Fazenda:
enquanto a decisão ora recorrida reconheceu a necessidade de deduzir os lançamentos reflexos
da base de cálculo do IRPJ, os paradigmas se manifestaram contrários a esse suposto direito.
Tendo isso em vista, e apoiado também no permissivo previsto no §1º do art. 50
da Lei nº 9.784/993, conheço tanto do recurso especial da PGFN quando do contribuinte nos
termos, respectivamente, dos despachos de admissibilidade de fls. 575/578 e 891/906.
Mérito
Recurso especial do contribuinte
Por questão de objetividade e clareza, teceremos comentários gerais sobre os
Fundos de Investimento Imobiliários para, apenas em seguida, enfrentar o mérito da
controvérsia.
2
Em suas palavras: "Afasto, de pronto, a possibilidade de julgamento conjunto do presente processo com o de
número 16327.001753/2010-73, vez que, apesar do fato propulsor das incidências tributárias ser o mesmo em ambos
os feitos (tributação aplicável às pessoas jurídicas por força do disposto no art. 2º da Lei nº 9.779/99), as exigências
de PIS e COFINS em si, objeto do referido processo administrativo, revelam-se de natureza autônoma, competindo
à Terceira Seção deste Colegiado o processamento e julgamento do recurso voluntário interposto".
3
Art. 50. Os atos administrativos deverão ser motivados, com indicação dos fatos e dos fundamentos jurídicos,
quando:
(...)
§ 1º - A motivação deve ser explícita, clara e congruente, podendo consistir em declaração de concordância com
fundamentos de anteriores pareceres, informações, decisões ou propostas, que, neste caso, serão parte integrante do
ato.
4
Cf. artigo 1.368-C do Código Civil, incluído pela Lei nº 13.874/2018.
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DF CARF MF Fl. 971
Fl. 11 do Acórdão n.º 9101-006.005 - CSRF/1ª Turma
Processo nº 16327.001752/2010-25
5
Conforme normas regulamentadoras da Comissão de Valores Mobiliários: IN CVM nº 205/2004; e sua
revogadora, a IN CVM nº 472/2008.
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DF CARF MF Fl. 972
Fl. 12 do Acórdão n.º 9101-006.005 - CSRF/1ª Turma
Processo nº 16327.001752/2010-25
com uma enorme gama de produtos financeiros e demais direitos sobre imóveis, dentre eles a
aquisição de imóveis prontos para locação. Daí a diversidade deste tipo de Fundo de
investimento.
Tal como tipificado pela lei, o FII confere ao gestor plena autonomia e amplos
poderes em relação aos ativos do Fundo. Como o FII é um ente sem personalidade jurídica,
compete ao administrador exercer os atributos inerentes à personalidade, o que o faz como titular
fiduciário do patrimônio e responsável por toda a gestão dos investimentos.
É por isso que se diz que o administrador passa a concentrar um patrimônio
afetado, sob a propriedade fiduciária, o que o coloca na posição de dono dos ativos imobiliários
do FII até a sua liquidação ou resgate de quotas.
O objeto social de cada FII e seu funcionamento devem constar em Regulamento,
que necessita de aprovação pela CVM, devendo este dispor, dentre outros, sobre os limites de
sua atuação, taxas de administração, critérios de emissão de cotas, distribuição de resultados etc.
Do ponto de vista tributário:
- o art. 16 da Lei nº 8.668/93 prescreve que os rendimentos e ganhos de capital
auferidos pelos Fundos de Investimento Imobiliário ficam isentos do Imposto sobre Operações
de Crédito, Câmbio e Seguro, assim como do Imposto sobre a Renda e Proventos de Qualquer
Natureza;
- o artigo 16-A que os rendimentos e ganhos líquidos auferidos pelos Fundos de
Investimento Imobiliário, em aplicações financeiras de renda fixa ou de renda variável,
sujeitam-se à incidência do imposto de renda na fonte, observadas as mesmas normas aplicáveis
às pessoas jurídicas submetidas a esta forma de tributação;
- o artigo 17 que os rendimentos e ganhos de capital auferidos, apurados segundo
o regime de caixa, quando distribuídos pelos Fundos de Investimento Imobiliário a qualquer
beneficiário, inclusive pessoa jurídica isenta, sujeitam-se à incidência do imposto de renda na
fonte, à alíquota de vinte por cento (redação dada pela Lei nº 9.779/1999); e
- o artigo 18 que os ganhos de capital e rendimentos auferidos na alienação ou no
resgate de quotas dos fundos de investimento imobiliário, por qualquer beneficiário, inclusive
por pessoa jurídica isenta, sujeitam-se à incidência do imposto de renda à alíquota de vinte por
cento (redação dada pela Lei nº 9.779/1999).
Ao tratar da evolução da tributação relativa aos FII’s, Ricardo Lacaz Martins e
Guilherme Galdino6 esclarecem que:
Ao se falar em tributação da renda dos FIIs – peculiar em relação ao regime geral de
fundos -, objetiva-se abordar tanto a distribuição da renda dos FII na qualidade de
contribuinte quanto a tributação da renda dos seus quotistas, seja o caso de proventos
recebidos (que nada mais são do que os lucros distribuídos pelos FIIs em suas
operações), seja o caso de ganhos oriundos da alienação de suas quotas ou do resgate
em caso de liquidação.
Pois bem. A evolução dessa tributação pode ser dividida em três fases.
A primeira (1.1) se inicia com a introdução dos FIIs no direito brasileiro pela Lei nº
8.668/1993, cujo regime tributário permitia o diferimento da tributação da renda, o que
causou distorções no uso dos FIIs, tendo-se incentivado a utilização destes em sentido
6
“O Imposto de Renda nas Aplicações de Fundo de Investimento Imobiliário (FII) em Outro FII”. In. “Tributação
de Fundos de Investimentos”. São Paulo. Quartier Latin. 2022. Pag. 394/395.
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DF CARF MF Fl. 973
Fl. 13 do Acórdão n.º 9101-006.005 - CSRF/1ª Turma
Processo nº 16327.001752/2010-25
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DF CARF MF Fl. 974
Fl. 14 do Acórdão n.º 9101-006.005 - CSRF/1ª Turma
Processo nº 16327.001752/2010-25
Do caso concreto
Restou demonstrado que o Fundo de Investimento Imobiliário Peninsula (“FII
Península”) foi constituído em 2005, sob a forma de condomínio fechado, com prazo de duração
7
A unipessoalidade de fundos de investimento, aliás, foi expressamente reconhecida pelo artigo 111 -A da Instrução
CVM n° 409/2004.
8
Conforme visto, apesar dos os FII’s não pulverizados gozarem de isenções sobre determinados investimentos, a
distribuição de seus resultados está sujeita à tributação na fonte, distribuição que esta que deve ocorrer anualmente
aos quotistas. Por isso da extrema importância, antes assumir uma presunção absoluta de economia tributária e
consequente prejuízo ao Erário, da compreensão da tributação do FII e quotista de forma conjunta e comparada com
a estrutura imobiliária ordinária.
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DF CARF MF Fl. 975
Fl. 15 do Acórdão n.º 9101-006.005 - CSRF/1ª Turma
Processo nº 16327.001752/2010-25
indeterminado, tendo sido as quotas iniciais adquiridas exclusivamente pelo Sr. Abílio dos
Santos Diniz (“Abílio Diniz”).
Em seguida9, o Sr. Abílio Diniz transferiu essas quotas para a sociedade Reco
Master Empreendimentos e Participações S.A., por meio de aumento de capital, sociedade esta
de capital fechado, controlada por ele e seus familiares (“Grupo DINIZ”), com o propósito de
administrar bens próprios e participar no FII Península, cujo objeto social restringiu-se à
aquisição de imóveis da CBD com a finalidade de locação à própria CBD ou outra empresa do
grupo.
Tais operações ocorreram no contexto de reestruturação societária de mudança de
controle da CBD, que envolveu a constituição de holding (Wilkes Participações) pelos sócios
Abílio Diniz e Cassino Guichard Perrachon S/A (“Cassino”), os quais passaram a deter, cada um,
50% do seu capital votante.
Como reflexo do negócio, a CBD alienou ao FII Península 60 (sessenta) imóveis,
sob a condição de que estes fossem concomitantemente locados para ela própria, a CBD, por um
prazo de 40 anos, nos termos de contratos de locação que foram celebrados pelas partes.
A aquisição dos imóveis da CBD operou-se ao amparo de "Compromissos
lrrevogáveis e lrretratáveis de Compra e Venda de Bens lmóveis", por meio dos quais o Banco
Ourinvest, na qualidade de administrador do Fundo, adquiriu a propriedade (fiduciária por ser
administrador), contra o pagamento parcelado do preço.
Nos termos da Cláusula 3ª dos referidos Compromissos, o Banco Orinvest se
imitiu na posse desses imóveis na data da assinatura dos compromissos, que passaram a integrar
o patrimônio do FII Península e, ato contínuo, firmaram-se contratos de locação desses imóveis
para a CBD, fazendo o Fundo jus ao recebimento dos respectivos alugueis.
A ilustração abaixo resume a estrutura em questão:
9
Há dúvidas se ainda em 2005 ou apenas em 2006, mas essa data não impacta no julgamento.
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DF CARF MF Fl. 976
Fl. 16 do Acórdão n.º 9101-006.005 - CSRF/1ª Turma
Processo nº 16327.001752/2010-25
Nesse contexto, chama atenção o fato de que a fiscalização não alegou nenhuma
“economia indevida de tributos” no uso dessa estrutura; não questionou o preço dos negócios
celebrados entre as partes (venda e locação dos imóveis); não questionou eventual interposição
fictícia ou inexistência de causa jurídica do FII Península; não arguiu nenhuma ocorrência de
simulação ou fraude; e também não invocou nenhuma outra teoria (“falta de propósito negocial”,
“abuso de direito” ou “fraude”) que eventualmente pudesse desqualificar o Fundo propriamente
dito.
Pelo contrário, a tributação do FII Península como pessoa jurídica não se deu pelo
caminho da sua requalificação jurídica, mas sim por uma interpretação, digamos, forçada da
regra de equiparação prevista no artigo 2º da Lei nº 9.779/99.
Conforme esclarece o próprio TVF, logo no seu início, o escopo da ação fiscal,
que teve início em 22/10/2010 , está voltado para a verificação da situação do fundo frente ao
comando legal contido no artigo 2º da Lei n° 9.779/99, mais precisamente, se o fundo estaria
sujeito à tributação das pessoas jurídicas em virtude de ter um único cotista com investimento
numa empresa por ele (cotista) controlada.
Em seguida assim conclui o relatório que motivou a presente autuação:
Em suma, na situação do Fundo Península, não há como concordar com a construção
elaborada no Parecer Jurídico que buscou excluir a situação de imóveis prontos do
universo descrito como empreendimento imobiliário. Existe a cumulação de posições
jurídicas, estando o fundo península sujeito à tributação das pessoas jurídicas. Ao
equiparar os fundos de investimentos imobiliários às pessoas jurídicas nas situações
previstas no artigo 2º, a Lei n° 9.779/99 não excluiu a situação do Fundo Imobiliário
Península, não cabendo ao intérprete criar tal exclusão.
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DF CARF MF Fl. 977
Fl. 17 do Acórdão n.º 9101-006.005 - CSRF/1ª Turma
Processo nº 16327.001752/2010-25
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DF CARF MF Fl. 978
Fl. 18 do Acórdão n.º 9101-006.005 - CSRF/1ª Turma
Processo nº 16327.001752/2010-25
pessoa a ele ligada, mais de 25% das quotas do Fundo) com a pessoa jurídica de
incorporador, construtor ou sócio de empreendimento imobiliário”.
Não me parece que a referência a “sócio do empreendimento imobiliário” feita pela
decisão recorrida possa de alguma forma inovar ou trazer mácula ao trabalho fiscal. A
meu ver, o fato de a Fiscalização descrever os fatos apurados no Termo de Verificação
Fiscal levando em conta a continuidade das verificações além do ano-calendário de
2005, fez que com que fossem reunidos aos presentes autos fatos e documentos que
pouca ou nenhuma relevância têm em relação ao ano objeto de lançamento tributário.
Ainda que se possa vislumbrar eventual “inovação de fundamento” por parte da decisão
recorrida, alinho-me ao entendimento de que tal fato só se revela importante na situação
em que o lançamento tributário só subsiste se considerada tal inovação. No caso
vertente, entretanto, não é isso que se verifica, pois, os elementos aportados ao processo
e a descrição feita pela autoridade fiscal autorizam a aplicação das disposições do art. 2º
da Lei nº 9.779/99, permitindo, assim, o pleno exercício do direito de defesa por parte
do autuado.
Por tudo o que aqui foi esposado, em especial o fato de o procedimento sob exame
referir-se ao ano de 2005, não é pertinente discutir, nos presentes autos, vínculos
societários entre a empresa RECO e a CBD.
Não obstante, a decisão recorrida, por não atentar para a composição do Fundo no ano
de 2005, traz considerações acerca de vínculos existentes entre empresas do mesmo
Grupo Econômico que, efetivamente, não são relevantes para a solução da controvérsia.
Correta a afirmação do Recorrente de que, para que exista a cumulação prevista no art.
2º da Lei nº 9.779/99, é necessário que o FUNDO aplique recursos num
empreendimento imobiliário do qual também participe, como sócio, construtor ou
empreendedor, o cotista relevante do FUNDO.
No presente caso, penso que resta indubitável que empreendedor e cotista estão
representados pela mesma pessoa, qual seja, o Sr. Abílio dos Santos Diniz, ou, no dizer
do Recorrente, do mesmo Grupo (GRUPO DINIZ).
(...)
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DF CARF MF Fl. 979
Fl. 19 do Acórdão n.º 9101-006.005 - CSRF/1ª Turma
Processo nº 16327.001752/2010-25
Por sua vez, o fato de o art. 111-A, que trata dos denominados FUNDOS
EXCLUSIVOS, ter sido introduzido na Instrução CVM nº 409, de 18 de agosto de
2004, pela Instrução CVM n º 450, de 30 de março de 2007, ou seja, posteriormente à
ocorrência dos fatos apreciados no presente processo, ao contrário do que sugere o
Relator de 2012, vem reforçar o argumento da recorrente, no sentido de que nunca foi
proibida a constituição de Fundo com um único cotista. Ora, a instrução CVM, como
norma infralegal, não poderia inovar no ordenamento jurídico, razão pela qual, se não
houve qualquer alteração na Lei de regência da matéria, no interregno entre as edições
das duas instruções CVM, há que se concluir que a Instrução CVM nº 450/2007 veio
apenas esclarecer algo que já encontrava respaldo na Lei.
Por outro lado, concordo que isso seja irrelevante para o deslinde da questão ora em
julgamento, porém por outra razão, qual seja, pelo fato de o art. 2º da Lei 9.779/99 não
coloca a condição de cotista exclusivo do Fundo como uma das razões para que o Fundo
seja tributado como pessoa jurídica, aliado ao fato de que só caberia à CVM qualquer
ação contra a constituição do Fundo exclusivo, já que ela é o órgão a tanto competente
para autorizar, disciplinar e fiscalizar a constituição, o funcionamento e a administração
dos Fundos de Investimento Imobiliário, nos termos do art. 4 da Lei8.66A/93.
Dessa forma, o fulcro da questão posta em julgamento reside unicamente na
interpretação do art. 2º da Lei 9.779 /99, bem como na verificação se a situação fática
descrita nos autos se subsume ao referido dispositivo legal.
O art. 2º da Lei 9.779/99 assim versa:
Art. 2º - Sujeita-se à tributação aplicável às pessoas jurídicas, o fundo de investimento
imobiliário de que treta a Lei no 8.668, de 1993, que aplicar recursos em
empreendimento imobiliário que tenha como incorporador, construtor ou sócio, quotista
que possua, isoladamente ou em conjunto com pessoa a ele ligada, mais de vinte e cinco
por cento das quotas do fundo.
Parágrafo único. Para efeito do disposto neste artigo, considera-se pessoa ligada ao
quotista:
I - pessoa física:
a) os seus parentes até o segundo grau;
b) a empresa sob seu controle ou de qualquer de seus parentes até o segundo grau;
II - pessoa jurídica, a pessoa que seja sua controladora, controlada ou coligada,
conforme definido nos §§ 1o e 2o do art. 243 da Lei no 6.404, de 15 de dezembro de
1976.
Inicialmente, há que se salientar que estamos diante de uma norma antielisiva
específica, pois, em regra, aos rendimentos e ganhos do Fundo Imobiliário, o qual não
tem personalidade jurídica, aplica-se o regime tributário estabelecido nos arts. 16 a 19
da Lei 8.668/93. Assim, diante de uma norma excepcional, devemos conferir uma
interpretação estrita, seguindo as vetustas, mas nunca ultrapassadas lições, de Carlos
Maximiliano.
Da simples leitura do art. 2º, verifica-se que há dois pressupostos, para que ele seja
aplicável, quais sejam:
a) que o Fundo aplique recursos em empreendimento imobiliário;
b) que o empreendimento imobiliário tenha como incorporador, construtor ou sócio
quotista que, isoladamente ou com pessoa ligada, detenha mais de 25% das quotas do
Fundo.
Note-se, assim, que a situação visada pelo legislador relaciona-se com as seguintes
atividades:
a) incorporação, o que se define por duas características: destinação do terreno, antes de
iniciada a venda, à propriedade comum das unidades autônomas e início das vendas de
tais unidades antes de concluída a obra;
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DF CARF MF Fl. 980
Fl. 20 do Acórdão n.º 9101-006.005 - CSRF/1ª Turma
Processo nº 16327.001752/2010-25
b) construção, conceito que aqui tem um caráter complementar daquilo que não se
enquadre como incorporação.
Assim, não me parece que se devesse dar ao termo "sócio" um caráter tão abrangente
como lhe foi atribuído tanto pelo autuante como pelos julgadores retro citados, de tal
sorte que sustento que o termo sócio deve ser entendido como "sócio do incorporador”
ou "sócio do construtor". Estas eram as situações usadas pelo legislador ao editar tal
norma antielisiva, ou seja, que alguém que se dedicasse a construir ou incorporar,
constituísse Fundo Imobiliário apenas para se valer do regime tributário mais benéfico,
Nesse sentido, Hiromi Higuchi faz o seguinte comentário:
"A única equiparação de fundo imobiliário como pessoa jurídica deveria ocorrer quando
o fundo imobiliário promovesse incorporação de prédio ou loteamento de terreno. Essa
condição não está na lei.".
Realmente, o legislador deixou de fora do alcance da norma antielisiva a atividade de
loteamento de terreno.
A conexão entre o fundo imobiliário e o empreendimento imobiliário (e superou-se a
discussão se a aquisição de imóveis para locação se enquadrariam neste conceito) é o
ponto crucial da norma editada que impede (destaquei) a usufruição dos benefícios
fiscais próprios aos fundos imobiliários, cujos objetos e participações não são partes
envolvidas entre si, à razão de pelo menos 25%.
Note-se que a norma antielisiva sequer exigiu para a exclusão das benesses fiscais atos
de gestão ou maioria votante.
Todavia, a redação do art. 2° é imprecisa, pois não desborda dos seus parâmetros
hermenêuticos a exegese que conclui que o termo "sócio", no texto da norma, quer dizer
"sócio do empreendimento imobiliário". De qualquer maneira, o lançamento não tem
melhor sorte, se não vejamos o que se segue.
Ora, note-se que o pressuposto para aplicação da norma é que o Fundo aplique recursos
em empreendimento imobiliário que tenha um sócio, ou seja, não estamos falando de
imóvel, pois imóvel pode até ter co-proprietários, o que não se confunde com sócios.
Ora, no caso em tela, o Banco Ourinvest aplicou recursos na aquisição de imóveis da
CBD e, não para adquirir cotas ou ações de tal pessoa jurídica. Ademais, não se pode
conceber que a CBD, pessoa jurídica que explora o varejo supermecadista, seja
considerada um empreendimento imobiliário.
O termo empreendimento não pode ser confundido com patrimônio ou especificamente
ativo imobilizado. Empreendimento é o ato de empreender, ou seja, empresa, logo, está
ligado, como já dito acima, a idéia de atividade de produção e circulação de bens e
serviços. Dessa forma, uma pessoa quando adquire um ou vários imóveis de outra
pessoa não aplicou recursos em um empreendimento imobiliário, apenas adquiriu um
massa patrimonial. Decerto, que se o destino de tais imóveis for a circulação ou
produção de imóveis, o comprador estará exercendo um empreendimento imobiliário,
mas jamais se poderá denominar aquele que lhe vendeu os imóveis de sócio desse
empreendimento.
Assim, entendo que tanto o autuante como os julgadores retro citados alargaram além
dos parâmetros suportados pelo texto o conceito de sócio no art. 2° da Lei 9.779/99,
norma que, conforme já dito, por ser extraordinária, exige uma interpretação estrita.
Por essas razões, voto por dar provimento ao recurso voluntário, ficando prejudicada a
apreciação da matéria relativa à sujeição passiva solidária.
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DF CARF MF Fl. 981
Fl. 21 do Acórdão n.º 9101-006.005 - CSRF/1ª Turma
Processo nº 16327.001752/2010-25
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DF CARF MF Fl. 982
Fl. 22 do Acórdão n.º 9101-006.005 - CSRF/1ª Turma
Processo nº 16327.001752/2010-25
circunstância que tornou ilegítimo, para fins fiscais, o resultado atingido com o negócio
jurídico praticado - circunstancia esta que, a depender da linha doutrinária que se adote,
será chamada de prática de "fraude à lei", de "abuso de direito", "ausência de causa",
"simulação", etc.
Não obstante, quando a autoridade autuante tentou desqualificar o negócio
exclusivamente com base no artigo 2° da Lei 9.779/1999 ela, no mínimo, errou na
tipificação, o que torna o auto de infração em comento insubsistente.
Essas são as razões pelas quais, com o devido respeito aos entendimentos em sentido
contrário, orientei meu voto para negar provimento ao recurso da Fazenda Nacional.
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DF CARF MF Fl. 983
Fl. 23 do Acórdão n.º 9101-006.005 - CSRF/1ª Turma
Processo nº 16327.001752/2010-25
A Turma a quo entendeu por negar provimento ao recurso voluntário, nos termos do
voto do Relator, conselheiro Fernando Brasil de Oliveira Pinto:
De acordo com o antecedente (hipótese de incidência) do art. 2° da Lei n° 9.779/99, "o
fundo de investimento imobiliário de que trata a Lei n. 8668, de 1993, que aplicar
recursos em empreendimento imobiliário que tenha como incorporador, construtor ou
sócio, quotista que possua, isoladamente ou em conjunto com pessoa a ele ligada, mais
de vinte e cinco por cento das quotas do fundo", implicará o seguinte consequente
normativo: "sujeita-se à tributação aplicável às pessoas jurídicas".
Ou seja, somente se aplicará o disposto no do art. 2° da Lei n° 9779/99 caso o Fundo de
Investimento Imobiliário Península - FIIP tiver aplicado recursos em empreendimento
imobiliário que tenha como incorporador, construtor ou sócio, quotista seu que possua,
isoladamente ou em conjunto com pessoa a ele ligada, mais de vinte e cinco por cento das
quotas do fundo.
A partir de uma interpretação literal de tal dispositivo, portanto, somente haveria
tributação do FIIP tal qual qualquer outra pessoa jurídica se houvesse investimento em
empreendimento imobiliário que tivesse como incorporador, construtor ou sócio, seu
quotista, e em determinadas situações. Para Recorrente, não há que se falar em
incorporador ou construtor do empreendimento, uma vez que os imóveis em questão
estavam prontos. De igual forma, não haveria sócio no empreendimento, já que detido
100% pelo próprio FIIP. Segundo ainda a Recorrente, ainda que, por hipótese,
considerasse que Reco Máster pudesse ser sócia do empreendimento, não seria aplicável
o disposto no parágrafo único do art. 2° da Lei n° 9.779/99, uma vez que Reco Máster
detinha 100% das quotas do FIIP. Particularmente, discordo de tal entendimento.
De acordo com a exposição de motivos da Medida Provisória n° 1788, convertida na Lei
n° 9.779/99: "Para evitar a concorrência predatória dos referidos fundos com as pessoas
jurídicas que exploram as mesmas atividades, o art. 2° do Projeto determina que sejam os
rendimentos do fundo tributados segundo as mesmas normas aplicáveis às pessoas
jurídicas, nas hipóteses em que este permitir participação superior ao limite de vinte e
cinco por cento ao incorporador, construtor ou sócio do empreendimento imobiliário ".
Conforme se observa de todas as manifestações constantes dos autos, quer por meio do
recurso voluntário e pareceres apresentados, ou mesmo nas contrarrazões da PGFN, o
conceito de "sócio" do empreendimento imobiliário é algo não definido na lei,
comportando inúmeras interpretações, desde que seria um sócio oculto no caso de SCP,
de um interessado diretamente no empreendimento imobiliário, ou ainda pessoa que fosse
coproprietária dos imóveis que compõem tal empreendimento.
Convém relembrar que no âmbito de uma reestruturação do seu controle societário, a
Companhia Brasileira de Distribuição (CBD) decidiu transferir sessenta imóveis para o
Sr. Abílio Diniz, tendo sido os imóveis, em realidade, transferidos diretamente ao FIIP
(em nome de sua administradora OUVINVEST), e, ato contínuo, locados para a própria
CBD. O empreendimento imobiliário, portanto, está representado por imóveis
pertencentes, ainda que indiretamente, ao Sr. Abílio Diniz (já que detém 100% das quotas
de Reco, que por sua vez é a única quotista de FIIP).
É incontroverso nos autos que o controle, da Reco Máster, que é quotista do Fundo, é do
Sr. Abílio Diniz e seus familiares. Tanto assim que consta do recurso especial: "24. A
referida sociedade é controlada, indiretamente, pelo Sr. Abílio Diniz e seus
familiares ("Grupo Diniz")" (fls. 882).
O contribuinte reitera, em seu recurso especial, o pedido para que se reconheça que o
artigo 2°, da Lei n° 9.779, só seja aplicável "a três situações, isto é, no caso de
cotista relevante do Fundo de Investimento concomitantemente ser, em relação
ao empreendimento imobiliário investido, ou (i) incorporador, ou (ii)
construtor ou (iii) sócio." (trecho do recurso especial, fls. 884).
No entanto, a Lei n° 9.779 não é tão restritiva, como pretende o recorrente.
Com efeito, o artigo 2° exige a tributação de Fundos imobiliários quando houver
cumulação da posição do quotista relevante, que possua "isoladamente ou em
conjunto com pessoa a ele ligada, mais de vinte por cent o das quotas do
fundo" (trecho reproduzido do caput do artigo 9.779/1999) com a condição de
incorporador, construtor, sócio ou quotista do empreendimento imobiliário.
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DF CARF MF Fl. 984
Fl. 24 do Acórdão n.º 9101-006.005 - CSRF/1ª Turma
Processo nº 16327.001752/2010-25
Nota-se que o próprio artigo 2° emprega a expressão "ou em conjunto com pessoa a
ele ligada" revelando que a interpretação do artigo 2° é mais abrangente do que
pretende o Recorrente. Exatamente nesse sentido é a Exposição de Motivos da Medida
Provisória n° 1788, que foi convertida na Lei n° 9.779/1999, destacada em acórdão
recorrido:
"Para evitar a concorrência predatória dos referidos fundos com as pessoas jurídicas que
exploram as mesmas atividades, o art. 2° do Projeto determina que sejam os rendimentos
do fundo tributados segundo as mesmas normas aplicáveis às pessoas jurídicas, nas
hipóteses em que este permitir participação superior ao limite de vinte e cinco por cento
ao incorporador, construtor ou sócio do empreendimento imobiliário".
Portanto, o controle indireto, do Fundo, pela família "Abílio Diniz" atrai a aplicação da
regra do artigo 2°, da Lei n° 9.779, na medida em que também figuram como
proprietários do empreendimento imobiliário. Nesse sentido, são precisas as
considerações do voto condutor do acórdão recorrido:
O empreendimento imobiliário, portanto, está representado por imóveis pertencentes,
ainda que indiretamente, ao Sr. Abílio Diniz (já que detém 100% das quotas de Reco, que
por sua vez é a única quotista de FIIP).
É pertinente observar, ainda que a Instrução CVM n° 205, de 14 de janeiro de 1994,
explicita que Fundo de Imobiliário poderá ter a destinação de locação, verbis:
Art. 2°. O Fundo de Investimento Imobiliário destinar-se-á ao desenvolvimento de
empreendimentos imobiliários, tais como construção de imóveis, aquisição de imóveis
prontos, ou investimentos em projetos visando viabilizar o acesso à habitação e serviços
urbanos, inclusive em áreas rurais, para posterior alienação, locação ou arrendamento.
Assim, nota-se que é possível o desenvolvimento de empreendimentos imobiliários
unicamente para locação.
O acórdão recorrido, portanto, não merece reparos.
Pois bem.
Esses precedentes aqui da Colenda CSRF assinalam que vem prevalecendo o
entendimento de que, se o quotista com mais de 25% das quotas de um FII e o “sócio” de um
empreendimento imobiliário investido, tal como a aquisição de imóveis prontos para locação,
estiverem sob controle comum, ainda que indireto, restaria configurada a cumulação de posições
jurídicas que atrairia a norma de equiparação da tributação dos FII”s às pessoas jurídicas prevista
no art. 2º da Lei 9.779/99.
Nos termos da ementa do Acórdão nº 1402-002.320, de relatoria do Conselheiro
Fernando Brasil de Oliveira Pinto – decisão esta que influenciou diretamente as posições
vencedoras manifestadas nos referidos julgados dessa C. Turma -, constatado que o único
quotista do fundo de investimento imobiliário também possui o controle de empresa participante
do empreendimento imobiliário, o fundo sujeita-se à tributação aplicável às demais pessoas
jurídicas, nos termos do art.2º, da Lei nº 9.779/99.
Foi, aliás, justamente sob esse norte que a decisão recorrida manteve o presente
lançamento, concluindo que o empreendedor e quotista do FII Península se confundiriam na
pessoa de Abílio Diniz, por intermédio do Grupo Diniz.
Com a devida vênia, não concordo com esse racional.
Conforme já abordado, posteriormente à edição da Lei nº 8.668/93, foi publicada
a Lei nº 9.779/99, conversão da Medida Provisória nº 1.788/98, instituindo, no seu art. 2º, a regra
de equiparação, para fins tributários, de FII à pessoa jurídica, nos seguintes termos:
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Fl. 25 do Acórdão n.º 9101-006.005 - CSRF/1ª Turma
Processo nº 16327.001752/2010-25
Da leitura do artigo 2º, integrado com a sua ratio legis e com as normas gerais dos
FII’s, verifica-se que há três pressupostos, sucessivos e cumulativos, para que a equiparação seja
aplicável. São eles: (i) que o FII possua quotista que, isoladamente ou em conjunto com pessoa
ligada, detenha participação superior a 25% da totalidade das quotas do fundo; (ii) que o FII
aplique recursos em empreendimento imobiliário; e (iii) que o empreendimento imobiliário tenha
como incorporador, construtor ou sócio o quotista que detenha participação relevante.
Em artigo denominado “Tributação de Fundos de Investimento Imobiliários”,
Lavinia Moraes de Almeida Nogueira Junqueira10 buscou construir com propriedade o que
denominou de “matriz de incidência” da equiparação prevista no referido artigo 2º da Lei nº
9.779/99. Em suas palavras:
(...). O administrador diligente precisará seguir os seguintes passos para identificar se o
FII deve ser tributado como pessoa jurídica.
Passo 1 – Selecionar o Cotista que com Partes Ligadas tenha mais de 25% do FII
Deve analisar, em primeiro plano, o rol de cotistas do FII, buscando identificar se, de
fato, há algum cotista que, em conjunto com suas partes ligadas, possui mais de 25% do
total das cotas do FII. Parte ligada à pessoa física são seus parentes até o segundo grau e
as pessoas jurídicas controladas por eles: pai, avós, filhos, netos, irmãos, sogros, avós
do cônjuge, enteados e seus filhos; pessoas jurídicas controladas por essas pessoas. O
diagrama abaixo ilustra as partes ligadas à pessoa física:
(...)
Parte ligada à pessoa jurídica são seus controladores, diretos e indiretos, pessoas fpisicas
ou jurídicas, ou as empresas investidas que sejam coligadas ou controladas, diretas ou
indiretas. (...)
10
In. Tributação de Fundos de Investimentos. São Paulo. Quartier Latin. 2022. Pag. 368/370.
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DF CARF MF Fl. 986
Fl. 26 do Acórdão n.º 9101-006.005 - CSRF/1ª Turma
Processo nº 16327.001752/2010-25
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DF CARF MF Fl. 987
Fl. 27 do Acórdão n.º 9101-006.005 - CSRF/1ª Turma
Processo nº 16327.001752/2010-25
De fato, o conceito de pessoa ligada, tal como positivado pelo artigo 2º da Lei nº
8.668/93, dirige-se exclusivamente ao quotista. Ou seja, não se aplica ao incorporador,
construtor ou sócio do empreendimento.
Também percebe-se claramente que a pretensão do Legislador foi a de evitar que
pessoas que explorem atividades imobiliárias, na modalidade de incorporador, construtor ou
sócio de empreendimento imobiliário, passassem a explorá-las sob a forma de FII, sujeito a
regime tributário mais favorável, quando haja participação relevante (igual ou superior a 25%
das quotas).
O alvo da norma, portanto, foi a de evitar uma concorrência desleal, proibindo o
uso de FII contra as figuras, comuns no mercado de exploração imobiliária, do sócio do
construtor e do sócio do incorporador, referindo-se, por exemplo, às Sociedades de Propósitos
Específicos ou ao dono da obra.
Curiosamente, no mercado secundário - representado por rendas passivas de
alugueis de imóveis prontos (os ditos imóveis para renda) -, pergunta-se: quem seriam os
concorrentes prejudicados pela exploração do “empreendimento” pelo FII Península? A dúvida
paira no ar...
De qualquer forma, em casos como o presente - em que o dito empreendimento
imobiliário consistiria na aquisição de imóveis prontos para locação -, por óbvio afasta-se de
imediato a presença das figuras do incorporador ou do construtor.
E quanto à figura do "sócio"?
“Do latim socius (companheiro, associado, sócio), designa, em sentido amplo, a
pessoa que faz parte, que participa ou é membro de uma sociedade”11. Em sentido técnico, sócio
designa a pessoa que, além de investir no empreendimento, participa do risco do negócio e da
partilha dos seus resultados, a exemplo da definição do contrato de sociedade positivado pelo
art. 981 do Código Civil:
Art. 981 - Celebram contrato de sociedade as pessoas que reciprocamente se obrigam a
contribuir, com bens ou serviços, para o exercício de atividade econômica e a partilha,
entre si, dos resultados.
11
Conforme De Plácido e Silva. Vocabulário Jurídico. Rio de Janeiro: Editora Forense. 2002. Página 769.
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Fl. 28 do Acórdão n.º 9101-006.005 - CSRF/1ª Turma
Processo nº 16327.001752/2010-25
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Fl. 29 do Acórdão n.º 9101-006.005 - CSRF/1ª Turma
Processo nº 16327.001752/2010-25
(...)
Digo isto para aclarar qualquer dúvida, ainda que me parecesse desnecessário, pois é
evidente que a lei requer a participação do quotista em dois lados, um como quotista
significativo (mais de vinte e cinco por cento), outro como construtor, incorporador ou
sócio no empreendimento no qual o fundo tenha feito aplicação.
Também é irrelevante o fato de que o sr. Abilio Diniz tenha ligação indireta com a
CBD, porque nem a CBD é sócia no empreendimento imobiliário do FII Península.
Portanto, repetindo passagem apresentada no contexto deste parecer, face ao que consta
da lei, o Sr. Abilio Diniz não é incorporador, construtor ou sócio no empreendimento
imobiliário do FII Península, nem quotista desse fundo, de sorte que a sociedade
indireta somente seria relevante, isto é, somente integraria a hipótese de incidência do
art. 2º da Lei n. 9779 -, se ela fosse outra diferente da que consta da lei." (grifou-se, p.
37/38). (grifamos)
Feitas todas essas considerações, conclui-se que o que se tem no caso é uma
situação fática que não se enquadra na hipótese legal prevista no artigo 2º da Lei nº 9.779/99.
Como diria Carlos Maximiliano12:
Cumpre evitar não só o apego exagerado à letra dos dispositivos positivos, como
também ao excesso contrário, o de forçar a exegese e deste modo encaixar na regra
escrita, graças à fantasia do hermeneuta, as teses pelas quais este se apaixonou, de sorte
que vislumbra no texto idéias apenas existentes no cérebro, ou no sentir individual,
desvairado por ojerizas e pendores, entusiasmos e preconceitos. A interpretação deve
ser objetiva, desapaixonada, equilibrada, às vezes audaciosa, porém não revolucionária,
aguda, mas sempre atenta, respeitadora da lei.
Conclusão
Pelo exposto, conheço do recurso especial da contribuinte e, no mérito, dou
provimento, considerando prejudicada a análise do recurso especial fazendário.
É como voto.
(documento assinado digitalmente)
Luis Henrique Marotti Toselli
12
Hermenêutica e Aplicação do Direito. Rio de Janeiro: Forense. 9ª edição. 1984. P. 103.
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Fl. 30 do Acórdão n.º 9101-006.005 - CSRF/1ª Turma
Processo nº 16327.001752/2010-25
Declaração de Voto
13
Participaram do julgamento os Conselheiros: André Mendes de Moura, Cristiane Silva Costa, Edeli Pereira Bessa,
Demetrius Nichele Macei, Viviane Vidal Wagner, Lívia de Carli Germano, Amélia Wakako Morishita Yamamoto e
Andrea Duek Simantob (Presidente em Exercício). Acordaram os membros do colegiado, por unanimidade de
votos, em conhecer do Recurso Especial e, no mérito, por maioria de votos, em dar-lhe provimento, com retorno
dos autos ao colegiado de origem, para apreciação das demais questões do recurso voluntário, vencidas as
conselheiras Lívia De Carli Germano e Amélia Wakako Morishita Yamamoto, que lhe negaram provimento.
Relator: Demetrius Nichele Macei.
14
Participaram do julgamento os conselheiros: André Mendes de Moura, Cristiane Silva Costa, Rafael Vidal de
Araújo, Demetrius Nichele Macei, Viviane Vidal Wagner, Luis Fabiano Alves Penteado, Lívia De Carli Germano e
Adriana Gomes Rêgo (Presidente). Acordaram os membros do colegiado, por unanimidade de votos, em conhecer
do Recurso Especial (da contribuinte) e, no mérito, por maioria de votos, em negar-lhe provimento, vencidos os
conselheiros Luis Fabiano Alves Penteado e Lívia De Carli Germano, que lhe deram provimento. Relatora: Cristiane
Silva Costa.
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DF CARF MF Fl. 991
Fl. 31 do Acórdão n.º 9101-006.005 - CSRF/1ª Turma
Processo nº 16327.001752/2010-25
b) a empresa sob seu controle ou de qualquer de seus parentes até o segundo grau;
II - pessoa jurídica, a pessoa que seja sua controladora, controlada ou coligada,
conforme definido nos §§ 1o e 2o do art. 243 da Lei no 6.404, de 15 de dezembro de
1976.
As premissas discutidas nesses autos e nos precedentes citados estão centradas em
dois aspectos fundamentais:
1. A regra do art. 2º pode ser aplicada a empreendimentos imobiliários
concernentes unicamente à compra de imóveis prontos para locação? e
2. Restou caracterizada a figura do sócio do empreendimento imobiliário com
participação superior a 25% das cotas do Fundo?
A primeira questão foi enfrentada pelo relator do Acórdão nº 1302-002.053, d.
conselheiro Alberto Pinto Souza Junior, que a respondeu de forma negativa, verbis:
[...]
Da simples leitura do art. 2º, verifica‐se que há dois pressupostos, para que ele seja
aplicável, quais sejam:
a) que o Fundo aplique recursos em empreendimento imobiliário;
b) que o empreendimento imobiliário tenha, como incorporador, construtor ou sócio
quotista que, isoladamente ou com pessoa ligada, detenha mais de 25% das quotas do
Fundo.
Note‐se, assim, que a situação visada pelo legislador relaciona‐se com as seguintes
atividades:
a) incorporação, o que se define por duas características: destinação do terreno, antes de
iniciada a venda, à propriedade comum das unidades autônomas e início das vendas de
tais unidades antes de concluída a obra;
b) construção, conceito que aqui tem um caráter complementar daquilo que não se
enquadre como incorporação.
Assim, não me parece que se devesse dar ao termo “sócio” um caráter tão abrangente
como lhe foi atribuído tanto pelo autuante como pelos julgadores retro citados, de tal
sorte que sustento que o termo sócio deve ser entendido como “sócio do
incorporador” ou “sócio do construtor”. Estas eram as situações visadas pelo
legislador ao editar tal norma antielisiva, ou seja, que alguém que se dedicasse a
construir ou incorporar, constituísse Fundo Imobiliário apenas para se valer do regime
tributário mais benéfico.
Nesse sentido, Hiromi Higuchi faz o seguinte comentário:
“A única equiparação de fundo imobiliário como pessoa jurídica deveria ocorrer
quando o fundo imobiliário promovesse incorporação de prédio ou loteamento de
terreno. Essa condição não está na lei.”.
Realmente, o legislador deixou de fora do alcance da norma antielisiva a atividade de
loteamento de terreno.
Com esta interpretação mais estrita do termo “sócio” no texto do art. 2º, o lançamento
está fadado ao insucesso, pois nenhuma das pessoas envolvidas no lançamento em tela
era incorporador ou construtor.
Todavia, a redação do art. 2º é imprecisa, pois não desborda dos seus parâmetros
hermenêuticos a exegese que conclui que o termo “sócio”, no texto da norma, quer
dizer “sócio do empreendimento imobiliário”. De qualquer maneira, o lançamento
não tem melhor sorte, se não vejamos o que se segue.
Ora, note‐se que o pressuposto para aplicação da norma é que o Fundo aplique
recursos em empreendimento imobiliário que tenha um sócio, ou seja, não estamos
Documento nato-digital
DF CARF MF Fl. 992
Fl. 32 do Acórdão n.º 9101-006.005 - CSRF/1ª Turma
Processo nº 16327.001752/2010-25
falando de imóvel, pois imóvel pode até ter co‐proprietários, o que não se confunde
com sócios. Ora, no caso em tela, o Banco Ourinvest aplicou recursos na aquisição de
imóveis da CBD e, não para adquirir cotas ou ações de tal pessoa jurídica. Ademais, não
se pode conceber que a CBD, pessoa jurídica que explora o varejo supermecadista, seja
considerada um empreendimento imobiliário.
O termo empreendimento não pode ser confundido com patrimônio ou
especificamente ativo imobilizado. Empreendimento é o ato de empreender, ou
seja, empresa, logo, está ligado, como já dito acima, a idéia de atividade de produção
e circulação de bens e serviços. Dessa forma, uma pessoa quando adquire um ou
vários imóveis de outra pessoa não aplicou recursos em um empreendimento
imobiliário, apenas adquiriu um massa patrimonial. Decerto, que se o destino de
tais imóveis for a circulação ou produção de imóveis, o comprador estará
exercendo um empreendimento imobiliário, mas jamais se poderá denominar
aquele que lhe vendeu os imóveis de sócio desse empreendimento.
Assim, entendo que tanto o autuante como os julgadores retro citados alargaram além
dos parâmetros suportados pelo texto o conceito de sócio no art. 2º da Lei 9.779/99,
norma que, conforme já dito, por ser extraordinária, exige uma interpretação estrita.
[...](g.n.)
O d. relator deste acórdão também não vê preenchido o primeiro requisito para a
equiparação tributária do Fundo à demais pessoas jurídicas, verbis:
[...]
De fato, o conceito de pessoa ligada, tal como positivado pelo artigo 2º da Lei nº
8.668/93, dirige-se exclusivamente ao quotista. Ou seja, não se aplica ao incorporador,
construtor ou sócio do empreendimento.
Também percebe-se claramente que a pretensão do Legislador foi a de evitar que
pessoas que explorem atividades imobiliárias, na modalidade de incorporador,
construtor ou sócio de empreendimento imobiliário, passassem a explorá-las sob a
forma de FII, sujeito a regime tributário mais favorável, quando haja participação
relevante (igual ou superior a 25% das quotas).
O alvo da norma, portanto, foi a de evitar uma concorrência desleal, proibindo o
uso de FII contra as figuras, comuns no mercado de exploração imobiliária, do
sócio do construtor e do sócio do incorporador, referindo-se, por exemplo, às
Sociedades de Propósitos Específicos ou ao dono da obra.
Curiosamente, no mercado secundário representado por rendas passivas de alugueis de
imóveis prontos (os ditos imóveis para renda), pergunta-se: quem seriam os
concorrentes prejudicados pela exploração do “empreendimento” pelo FII Penpínsula?
A dúvida paira no ar...
De qualquer forma, em casos como o presente - em que o dito empreendimento
imobiliário consistiria na aquisição de imóveis prontos para locação -, por óbvio
afasta-se de imediato a presença das figuras do incorporador ou do construtor.
[...] (g.n.)
Quanto a esta primeira questão, o d. conselheiro Wilson Fernandes Guimarães,
relator do acórdão recorrido, traz observações relevantes acerca da caracterização do
empreendimento imobiliário no caso concreto, verbis:
[...]
A rigor, o Parecer apresentado pela Recorrente no curso da Fiscalização, não obstante
ter tratado de outros temas (regime tributário dos Fundos de Investimento Imobiliário;
distribuição de lucros; momento de recolhimento do imposto de renda), manifestou, em
brevíssima análise, o entendimento de que, tratando-se de empreendimento imobiliário
representado por aquisição de imóveis prontos para locação, inexiste a figura do
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DF CARF MF Fl. 993
Fl. 33 do Acórdão n.º 9101-006.005 - CSRF/1ª Turma
Processo nº 16327.001752/2010-25
incorporador, construtor ou sócio, motivo pelo qual são inaplicáveis as normas do art. 2º
da Lei nº 9.779/99.
Penso que a afirmação de que “não se verifica, no empreendimento em causa – a
aquisição de imóveis prontos para locação a figura do incorporador, construtor ou
sócio” é digna de reparo. Pode-se, à evidência, afastar a “figura” do incorporador e do
construtor, mas, não, a do sócio.
Como explicado em contexto preambular pelo próprio Parecer, no âmbito de uma
reestruturação do seu controle societário, a Companhia Brasileira de Distribuição
(CBD) decidiu transferir sessenta imóveis para o Sr. Abílio Diniz, que, de forma
concomitante, foram locados para a própria CBD.
O empreendimento imobiliário, portanto, está representado por imóveis
pertencentes ao Sr. Abílio Diniz, que são “adquiridos” pelo Fundo de Investimento
Imobiliário, que tem como único quotista, ao menos no ano-calendário de que trata
o presente processo (2005), o próprio Sr. Abílio Diniz.
Note-se que é o próprio Recorrente quem afirma que a aquisição de imóveis para
locação representou a atividade imobiliária e que a melhor forma para
empreender essa atividade seria por meio da constituição do Fundo de
Investimento Imobiliário, isto é, o Grupo DINIZ (leia-se: Sr. Abílio Diniz),
objetivando empreender a atividade de aquisição de imóveis para locação, entendeu que
a melhor forma para tanto seria por meio da criação de um Fundo de Investimento
Imobiliário, sendo que, na constituição do referido Fundo (exclusivo) o Grupo Diniz
(Sr. Abílio Diniz) seria o único quotista.
Se os imóveis foram transferidos para o Sr. Abílio Diniz, como afirmado pelo
Parecer e pelo recurso, e ele pretendeu, na forma acordada na reestruturação do
controle societário da CBD, aluga-los para a própria CBD, resta claro, pois, que o
referido senhor atuou tanto como empreendedor do negócio declarado (“aquisição
de imóveis prontos para locação), como beneficiário desse mesmo empreendimento
imobiliário, eis que quotista único do Fundo de Investimento Imobiliário
constituído.
No caso do FUNDO EXCLUSIVO115 em questão, assim denominado pelo normativo
indicado pelo Recorrente na sua peça de defesa (Instrução CVM nº 409, art. 111A), e
tomando-se por base, exclusivamente, o ano-calendário de 2005, a caracterização do
Sr. Abílio Diniz como sócio do empreendimento imobiliário é cristalina, vez que os
imóveis para locação que constituíram o objeto do empreendimento imobiliário
pertenciam a ele e com ele permaneceram no Fundo de Investimento Imobiliário
constituído, vez que, neste (no Fundo de Investimento Imobiliário), ele era o único
cotista.
O REGULAMENTO do Fundo datado de 09 de setembro de 2005 (fls. 52/74) reafirma
tal conclusão, pois: a) a quota do Sr. Abílio Diniz correspondia exatamente à totalidade
do patrimônio do Fundo; e b) a Assembléia Geral dos quotistas (no caso, o Sr. Abílio
Diniz) detinha competência privativa para deliberar sobre a alienação de qualquer
imóvel integrante do patrimônio do Fundo e sobre a dissolução e liquidação do Fundo.
Como ressaltado pela decisão recorrida, nos termos do parágrafo 3º do art. 13 do
Regulamento em referência, “na hipótese de rescisão de qualquer contrato de locação
celebrado com a CBD ou com empresa integrante do seu grupo econômico, o FUNDO
deverá amortizar parcialmente suas quotas, com versão aos quotistas do patrimônio
representado pelo imóvel objeto do respectivo contrato de locação rescindido”. Tal
disposição evidencia a estreita relação entre o específico empreendimento imobiliário
(aquisição de imóveis da CBD para locação pela própria CBD) e o seu quotista único
(Sr. Abílio dos Santos Diniz).
Não obstante a sua irrelevância para as conclusões aqui expendidas, cabe notar que o
art. 111A, que trata dos denominados FUNDOS EXCLUSIVOS, foi introduzido na
15
1 Fundo de Investimento Imobiliário com um único cotista
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Fl. 34 do Acórdão n.º 9101-006.005 - CSRF/1ª Turma
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Fl. 35 do Acórdão n.º 9101-006.005 - CSRF/1ª Turma
Processo nº 16327.001752/2010-25
meio de aquisição direta por parte do Fundo de Investimento Imobiliário, ora recorrente, nos
termos do o "Compromisso Irrevogável e Irretratável de Compra e Venda de Bem Imóvel".
É certo, como destaca o relator do acórdão recorrido, que houve a interveniência e
concordância do Sr. Abilio Diniz nesse sentido e que ele é o beneficiário direto do Fundo de
Investimento, do qual era o único sócio no ano-calendário 2005 a que se refere o presente exame.
Não obstante, a autoridade fiscal não fez qualquer ressalva à operação tal como
estruturada, conforme bem observado pelo d. relator deste recurso:
[...]
Nesse contexto, chama atenção o fato de que a fiscalização não alegou nenhuma
“economia indevida de tributos” no uso dessa estrutura; não questionou o preço
dos negócios celebrados entre as partes (venda e locação dos imóveis); não
questionou a inexistência de causa jurídica do FII Península; não arguiu nenhuma
interposição simulada ou fraudulenta do Fundo; e também não invocou nenhuma
outra teoria (“falta de propósito negocial”, “abuso de direito” ou “fraude”) para
fins de desqualificar o Fundo propriamente dito.
Pelo contrário, a tributação do FII Península como pessoa jurídica não se deu pelo
caminho da sua requalificação jurídica, mas sim por uma interpretação, digamos,
forçada da regra de equiparação prevista no artigo 2º da Lei nº 9.779/99.
[...] (g.n.)
Diante da estrutura adotada, o empreendimento imobiliário (aquisição de imóveis
para locação à própria CBD) foi integralmente assumido pelo Fundo Imobiliário, inexistindo a
figura de outro sócio (ou dono como aponta o acórdão recorrido) do empreendimento.
A meu ver, com a devida vênia, é absolutamente equivocado o apontamento feito
pelo autor do procedimento fiscal quando pretendeu vincular o empreendimento imobiliário à
CBD e, por via indireta, ao Sr. Abilio Diniz em face de sua condição de sócio controlador desta,
como se a propriedade dos imóveis tivesse sido mantida pela CBD, conforme se extrai do TVF,
verbis:
[...]
No caso em tela, a cumulação da posição jurídica é mais do que clara. O Fundo foi
inicialmente constituído tendo como único cotista, o Sr. Abílio Diniz. Em 2006,
empresa por ele controlada, Reco Máster Participações, ingressa no fundo com a maior
parte das cotas. A última posição dos controladores do Fundo aponta a Reco Máster
como única participante, em conformidade com os documentos juntados pelo
contribuinte. Na CBD, o Sr. Abílio Diniz é um dos controladores do grupo.
O instrumento jurídico utilizado para o aperfeiçoamento da transferência dos 60
imóveis da CBD para o fundo foi o do "Compromisso Irrevogável e Irretratável de
Compra e Venda de Bem Imóvel" em caráter fiduciário. A propriedade fiduciária é
tratada pelo atual Código Civil, nos artigos 1.361 e seguintes. Desdobra-se a posse em
direta (devedor-fiduciante) e indireta (credor-fiduciário). O primeiro pode, portanto,
usar e fruir do bem. O segundo mantém o direito de haver a posse plena, no caso de
inadimplemento. Com o pagamento, extingue-se a propriedade resolúvel. Portanto, os
imóveis continuam vinculados à CBD.
[...]
O acórdão de primeiro grau intenta fazer a mesma vinculação, verbis:
[...]
Por intermédio da leitura das cláusulas contratuais acima transcritas, fica claro o vínculo
existente entre o fundo de investimento imobiliário e a empresa CBD, uma vez que o
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Fl. 36 do Acórdão n.º 9101-006.005 - CSRF/1ª Turma
Processo nº 16327.001752/2010-25
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Fl. 37 do Acórdão n.º 9101-006.005 - CSRF/1ª Turma
Processo nº 16327.001752/2010-25
sócio do empreendimento imobiliário que, com a devida vênia, entendo que não encontra
respaldo nos fundamentos e elementos trazidos na autuação indicados pela autoridade fiscal.
A premissa do d. relator do recorrido foi a de que efetivamente os imóveis foram
transferidos pela CBD ao Sr. Abilio Diniz e que este operou como o dono do empreendimento
imobiliário, conforme se extrai do seguinte excerto do seu voto, verbis:
[...]
Se os imóveis foram transferidos para o Sr. Abílio Diniz, como afirmado pelo
Parecer e pelo recurso, e ele pretendeu, na forma acordada na reestruturação do
controle societário da CBD, aluga-los para a própria CBD, resta claro, pois, que o
referido senhor atuou tanto como empreendedor do negócio declarado (“aquisição
de imóveis prontos para locação), como beneficiário desse mesmo empreendimento
imobiliário, eis que quotista único do Fundo de Investimento Imobiliário
constituído.
No caso do FUNDO EXCLUSIVO116 em questão, assim denominado pelo normativo
indicado pelo Recorrente na sua peça de defesa (Instrução CVM nº 409, art. 111A), e
tomando-se por base, exclusivamente, o ano-calendário de 2005, a caracterização do
Sr. Abílio Diniz como sócio do empreendimento imobiliário é cristalina, vez que os
imóveis para locação que constituíram o objeto do empreendimento imobiliário
pertenciam a ele e com ele permaneceram no Fundo de Investimento Imobiliário
constituído, vez que, neste (no Fundo de Investimento Imobiliário), ele era o único
cotista.
[...] (g.n.)
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DF CARF MF Fl. 998
Fl. 38 do Acórdão n.º 9101-006.005 - CSRF/1ª Turma
Processo nº 16327.001752/2010-25
direta e exclusivamente pelo Fundo de Investimento. Nesse diapasão, considero precisas suas
conclusões, verbis:
[...]
Sob este viés, ainda que a atividade de aquisição de imóveis prontos para locação
fosse um empreendimento imobiliário, admissível como sócio do empreendimento
seria tão somente o coproprietário ou condômino dos imóveis adquiridos pelo FII
Península. Seria, assim, necessário que o Sr. Abilio Diniz (ou a RECO), únicos
quotistas, fossem, ao mesmo tempo, coproprietária dos imóveis, partilhando do
resultado na proporção da sua participação na propriedade.
Ocorre, porém, que a totalidade do empreendimento imobiliário, na situação presente, já
estava incorporada ao patrimônio do FII Península, o qual, repita-se, não foi objeto de
desqualificação.
Também a CBD nunca foi “sócia” do FII nos imóveis. Nem mesmo ninguém do
Grupo Diniz, que são sócios indiretos do único cotista (RECO), e não co-
proprietário dos imóveis.
A CBD, embora locatária e antiga proprietária dos imóveis, não manteve qualquer
direito de propriedade sobre os imóveis, afinal alienou integralmente esses direitos ao
FII Península, que passou a ser o beneficiário dos alugueis e titular desses ativos
imobiliários.
Diante, então, da alienação integral dos imóveis ao Fundo, somada ao fato de que
os atos praticados não foram requalificados e nem tiveram suas causas jurídicas
colocadas em xeque, deve-se admitir todos os efeitos jurídicos quanto à
titularidade dos imóveis pelo FII Península, fato este mais do que suficiente para
afastar qualquer possibilidade jurídica de existência de um sócio do empreendimento.
Como pontuou Ricardo Mariz de Oliveira, em trecho de Parecer citado pela contribuinte
no seu Apelo:
É importante fixar que o FII Península tem um empreendimento imobiliário que
é exclusivamente seu, e no qual não tem sócio, a única figura, dentre as
constantes da hipótese de incidência do art. 22, que resta no caso desse
empreendimento, pois nele não há incorporador ou construtor.
Portanto, o empreendimento é do FII Península, e ele não tem sócio nesse
empreendimento, nem se pode imaginar que a Reco Master, ou muito menos a
CBD, seja sócia dele.
(...)
(...) não há como negar que o FII Península é o único participante no negócio
imobiliário, único titular das rendas das locações, que não divide com qualquer
pessoa, e que, como é próprio a esse tipo de fundo, quando disponíveis vai
distribuí-las à sua quotista Reco Master."
Ora, o fato do Sr. Abilio Diniz ser sócio da CBD (co-controlador) e cotista relevante
(sócio indireto)17 do FII Península em nada interfere na aplicação da norma
antielisiva em questão, pois, como demonstrado, ele nunca foi sócio do
empreendimento imobiliário investido, este sim o pressuposto legal.
Nesse diapasão, observo que, embora tenha acompanhado o relator do Acórdão
1302-002.053, utilizado como paradigma neste recurso, necessário se faz reconhecer,
reexaminando a questão, que meus fundamentos hoje seriam outros, concordando apenas com as
conclusões do seu voto no sentido de que a CBD não poderia ser considerada sócia do
empreendimento pelo simples fato de ter vendido os imóveis e permanecer em sua posse
mediante locação, verbis:
17
Cabe observar que no ano-calendário sob análise o sr. Abilio Diniz era, diretamente, o único cotista do Fundo. A
empresa Reco Master somente passou a participar do Fundo no ano-calendário 2006.
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DF CARF MF Fl. 999
Fl. 39 do Acórdão n.º 9101-006.005 - CSRF/1ª Turma
Processo nº 16327.001752/2010-25
Declaração de Voto
Conselheira Edeli Pereira Bessa
O Colegiado a quo deu provimento parcial ao recurso voluntário para excluir das
bases tributáveis do IRPJ e CSSL os valores lançados de PIS e Cofins oriundos do mesmo
procedimento fiscal. Trata-se de equiparação da autuada a pessoa jurídica com a consequente
exigência de IRPJ e CSLL na sistemática do lucro real trimestral, e os lançamentos de
Contribuição ao PIS e de COFINS sobre o faturamento integraram os autos do processo
administrativo nº 16327.001753/2010-70. A maioria do Colegiado a quo entendeu que tais
contribuições seriam dedutíveis na base de cálculo, apurada na sistemática do lucro real, da qual
resultou o IRPJ e a CSLL lançados nestes autos.
O recurso especial da PGFN foi admitido em face dos paradigmas nº 1802-
000.815 e 1302-000.592, que trazem o entendimento de que as despesas com PIS e Cofins
lançadas no mesmo procedimento fiscal que apura IRPJ e CSLL não é dedutível da base de
cálculo desses últimos por estarem com sua exigibilidade suspensa, nos termos do art. 41, §1º da
Lei nº 8.981/1995. A Contribuinte não contesta a admissibilidade e apenas reforça a validade da
decisão recorrida.
No paradigma nº 1802-000.815 tratou-se de omissão de receita na apuração anual
do IRPJ e da CSLL, que também resultou em lançamentos de Contribuição ao PIS e de COFINS,
sendo rejeitada a pretensão do sujeito passivo de deduzir estas contribuições lançadas da base de
incidência do IRPJ e da CSLL porque, diante da suspensão da exigibilidade daquelas
contribuições em razão da interposição dos recursos administrativos questionando seu
lançamento, a dedutibilidade na apuração do lucro seguiria o regime de caixa.
No paradigma nº 1302-000.592 a decisão também foi contrária a semelhante
pretensão de dedução porque a obrigação teria se tornado incerta com o questionamento
administrativo e suspensão de sua exigibilidade da exigência, de modo que já não caberia mais
falar em despesa incorrida e, em consequência, de sua dedução.
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DF CARF MF Fl. 1000
Fl. 40 do Acórdão n.º 9101-006.005 - CSRF/1ª Turma
Processo nº 16327.001752/2010-25
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DF CARF MF Fl. 1001
Fl. 41 do Acórdão n.º 9101-006.005 - CSRF/1ª Turma
Processo nº 16327.001752/2010-25
Pinto Souza Jr, que apenas redigiu o voto divergente, antes vencido, manifestado no acórdão
recorrido, quando integrava aquele Colegiado.
Assim, o recurso especial da Contribuinte também deve ser CONHECIDO.
A ação fiscal que resultou no lançamento formalizado nestes autos teve por
objetivo a verificação da situação do fundo frente ao comando legal contido no artigo 2º da Lei
n° 9779/99, mais precisamente, se o fundo estaria sujeito a tributação da pessoas jurídicas em
virtude de ter um único cotísta com investimento numa empresa por ele (cotista) controlada.
Questionada no curso do procedimento fiscal, a Contribuinte ofereceu Parecer do jurista Alberto
Xavier, acerca do qual a autoridade lançadora referiu que:
O renomado exegeta entende que a equiparação dos fundos imobiliários a pessoas
jurídicas, em que um cotista detenha mais de 25% do controle do fundo, não alcança a
situação de aquisições de imóveis prontos ou já construídos. Entende que a aplicação do
artigo 2 o da Lei n° 9779/99 ocorre só nas situações de empreendimentos imobiliários
em curso de execução, tais como a construção, incorporação ou investimentos em
projetos habitacionais. Conclui em seu Parecer:
"o empreendimento imobiliário objeto do FII - aquisição de imóvel pronto para
locação - não contempla as figuras de incorporador, construtor ou sócio
(exclusivas de empreendimentos imobiliários em curso de execução), pelo que
ao mesmo não é aplicável a regra de equiparação a pessoa jurídica para fins
tributários constante do art. 2º da Lei n° 9.779/99;
Não há como concordar com tal posicionamento. Os Fundos Imobiliários brasileiros,
bem como na maioria dos países em que este instrumento é utilizado, tem uma estrutura
tributária incentivada, dada a importância do setor imobiliário para a economia destes
países.
O ambiente do Fundo Imobiliário é isento de impostos, tais como PIS, COFINS e
Imposto de Renda, este último só incidindo sobre as receitas financeiras obtidas com as
aplicações em renda fixa do saldo de caixa do fundo (compensáveis quando da
distribuição de resultados aos cotistas). Os Fundos Imobiliários são instrumentos do
mercado de capitais para captação da poupança popular. Todo o conteúdo normativo,
desde a entrada em vigor da Lei n° 8668/93, caminha no sentido de incentivar a
presença do maior número de investidores, principalmente pessoas físicas. Desta forma,
desde 2005, com a entrada em vigor da Lei n° 11.196, além da isenção de impostos para
as atividades do fundo, os cotistas pessoas físicas de fundos imobiliários com mais de
50 participantes, em que nenhum detenha mais de 10% das quotas, estão isentos do
imposto de renda na fonte e na declaração de ajuste anual sobre os rendimentos
distribuídos.
A interpretação construída por Alberto Xavier cria uma exceção que o artigo 2º da Lei
n° 9779/93 não contempla. Não há no comando normativo citado qualquer
diferenciação de tratamento para os empreendimentos em curso e imóveis prontos. Não
há nem menção a estas situações. Na regulamentação expedida pela CVM por meio da
Instrução 205/94, mais especificamente no artigo 2º , está definido o conceito de
empreendimento imobiliário:
Art. 2º - O Fundo de Investimento Imobiliário destinar-se-á ao desenvolvimento
de empreendimentos imobiliários, tais como construção de imóveis, aquisição
de imóveis prontos, ou investimentos em projetos visando viabilizar o acesso à
habitação e serviços urbanos, inclusive em áreas rurais, para posterior alienação,
locação ou arrendamento.
Assim, a aquisição de imóveis prontos também se constitui num empreendimento
imobiliário. O próprio jurista afirma:
O espírito da lei consiste em impedir a cumulação da posição jurídica de quotista
relevante de um Fundo de Investimento Imobiliário (definido como aquele que
possui, isoladamente ou em conjunto com pessoa a ele ligada, mais de 25% das
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DF CARF MF Fl. 1002
Fl. 42 do Acórdão n.º 9101-006.005 - CSRF/1ª Turma
Processo nº 16327.001752/2010-25
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DF CARF MF Fl. 1003
Fl. 43 do Acórdão n.º 9101-006.005 - CSRF/1ª Turma
Processo nº 16327.001752/2010-25
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DF CARF MF Fl. 1004
Fl. 44 do Acórdão n.º 9101-006.005 - CSRF/1ª Turma
Processo nº 16327.001752/2010-25
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DF CARF MF Fl. 1005
Fl. 45 do Acórdão n.º 9101-006.005 - CSRF/1ª Turma
Processo nº 16327.001752/2010-25
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DF CARF MF Fl. 1006
Fl. 46 do Acórdão n.º 9101-006.005 - CSRF/1ª Turma
Processo nº 16327.001752/2010-25
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