Arte e Literatura
A representação da realidade na produção artística e literária
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Atento às transformações que ocorriam na sociedade europeia do século XIX, o escritor português Eça de Queirós
publicou A cidade e as serras (1901). A obra é sintomática no que concerne ao choque entre civilização e tradição,
que, desde o título, oferece um contraste entre dois lugares os quais, ao longo da história da humanidade, vêm
ganhando contornos diferentes entre si.
A cidade e as serras, usa para referir-se ao entusiasta amigo, defensor de máquinas que propiciam bem-estar e
praticidade:
“Então o meu Príncipe, sucumbido, arrastou os passos até ao seu gabinete, começou a percorrer todos os aparelhos
completadores e facilitadores da Vida – o seu Telégrafo, o seu Telefone, o seu Fonógrafo, o seu Radiômetro, o seu
Grafofone, o seu Microfone, a sua Máquina de Escrever, a sua Máquina de Contar, a sua Imprensa Elétrica, a outra
Magnética, todos os seus utensílios, todos os seus tubos, todos os seus fios... Assim um Suplicante percorre altares de onde
espera socorro. E toda a sua suntuosa Mecânica se conservou rígida, reluzindo frigidamente, sem que uma roda girasse
nem uma lâmina vibrasse, para entreter o seu Senhor.
”
— QUEIRÓS, 2007, p. 163
Além de sua relação com a arqueologia moderna, por
seus estudos relativos à escavação das cidades de
Pompeia e de Herculano, o historiador de arte alemão Assim, a imitação da arte grega encontra refúgio
Johann Joachim Winckelmann (1717-1768) notabilizou- não especificamente na escultura e na pintura
se por seus estudos a respeito do movimento posterior, mas na literatura. Um autor bastante
neoclássico, por conta de seu papel nos estudos influenciado pelas palavras e pela apreciação
relativos à imitação engendrada inicialmente pelos teórica da arte feita por Winckelmann foi o poeta
gregos da Antiguidade, como vimos, e desenvolvidos alemão Goethe.
com a ênfase dada pelos artistas durante o século XVIII.
A segunda metade do século XIX rendeu-se à ciência. Inovações vieram ao encontro de um ser humano sedento
de novidades. Para essas pessoas, era impossível viver como seus antepassados e, por isso, elas estavam aptas a
aceitar melhorias que, numa escala ascendente, enriqueceram as sociedades mundo afora: a luz elétrica, os
aparelhos domésticos, os veículos elétricos (os carros) ou não (as bicicletas), o gramofone, a fotografia, etc.
Esse avanço ocorria não apenas ao alcance das mãos, mas também no campo de ideias, que vinham oferecer
novas perspectivas de pensamento. Foram os “ismos” do cientificismo que varreram, de um lado a outro, a vida
moderna nas cidades:
Evolucionismo;
Positivismo;
Marxismo;
Determinismo;
Etc.
É nesse contexto que surgem as experimentações e as inovações das vanguardas históricas. Se o mundo
caminhava cada vez mais célere, após abandonar a primeira metade do século XIX, era o momento de se buscar,
nas artes, um novo paradigma, uma nova forma de transcender a realidade, e, para isso, desafiadoras formas de
representação, por meio de experiências ligadas a inusitadas maneiras de imitação, ocorreram:
“[...] pintado em 1893 pelo norueguês Edward Munch, [O grito] rompe com a noção aristotélica de arte como mímesis, ou
seja, imitação da natureza. Sem preocupações realistas, o artista parece ter pintado não uma figura humana gritando, mas
o próprio grito. [...] As linhas do rosto se alongam despersonalizando o homem representado, mas seus traços denunciam
angústia, desespero: boca excessivamente aberta, olhar sem foco, mãos amparando a cabeça e, ao mesmo tempo,
tapando os ouvidos. O som do grito parece reverberar no cenário em que a figura humana está inserida: as linhas paralelas
do chão e do apoio da ponte se afunilam para um ponto de fuga fora do quadro: atrás da cabeça, o rio corre num fluxo
sinuoso; o céu ondula emocionalmente vermelho como um eco.
”
— OLIVEIRA, 2007, p. 259
Futurismo
Em 1909, Filippo Tommaso Marinetti, líder dos
Sem nos esquecermos do comentário de Mário de
futuristas, assinou o Manifesto futurista, um
Andrade relativo à pesquisa estética constante e
conjunto de regras e de palavras de ordem que
pessoal à medida que seguimos adiante, de vanguarda
deixou estupefata uma audiência que, até então,
em vanguarda, observe como os defensores do
nunca havia se deparado com tamanha ousadia e
Futurismo buscaram agir de modo diferente de outros
impertinência.
artistas que os precederam.
Expressionismo
Diferentemente dos futuristas, os expressionistas não se organizaram ao redor de um manifesto como uma
espécie de marco zero fundador, dando origem ao movimento expressionista; eles nem mesmo compuseram um
grupo coeso, cujo nome evocasse o epíteto que, atualmente, serve-lhes de alcunha. Porém, de forma tardia,
apenas em 1918, Kasimir Edschmid redigiu um manifesto em que algumas características dessa vanguarda
evidenciaram o Expressionismo.
“Assim, o universo total do artista expressionista torna-se visão. Ele não vê, mas percebe. Ele não descreve, acumula
vivências. Ele não reproduz, ele estrutura (gestaltet). (...). Agora não existe mais a cadeia dos fatos: fábricas, casas, doença,
prostitutas, gritaria e fome. Agora existe a visão disso. Os fatos têm significado somente até o ponto em que a mão do
artista os atravessa para agarrar o que se encontra além deles.
”
— TELES apud HELENA, 1986, p. 26
Cubismo
A próxima vanguarda, a qual nasce, primeiramente, na
Quem acabará por redigir o manifesto cubista
pintura, é o Cubismo. O primeiro a referir-se à arte
será Guillaume Apollinaire, que, em 1913, define
“cubista” foi Henri Matisse após guiar-se pelas linhas
suas linhas mestras. “O que principalmente
geométricas de casas, de árvores e de pessoas de um
chamará atenção neste manifesto”, afirma Helena,
quadro de Georges Braque. Mas é Les demoiselles
“comparado ao das vanguardas futuristas italiana
d’Avignon (1907), de Pablo Picasso, que vai desenvolver
e russa, é o esforço de conjugar o intento de
mais a fundo o significado dessa vanguarda. “Por volta
destruição a um outro, de construção” .
de 1909, já existe uma vanguarda pictórica conhecida
pelo nome de Cubismo”, afirma Helena.
Dadaísmo
Para muitos a mais radical das vanguardas é a dadaísta. Isso porque, nela, uma espécie de rebelião contra as
formas e os valores estabelecidos ganha ênfase no caráter destrutivo da arte dadaísta. “Dada não significa nada”,
afirma Tristan Tzara, fundador e líder dos dadaístas (HELENA, 1986, p. 32). Diferente dos expressionistas, o
Dadaísmo contou com um manifesto, publicado em 1918. Nele, Tzara afirma: “Sabe-se pelos jornais que os negros
Krou denominam a cauda de uma vaca santa: DADÁ. O cubo e a mãe em certa região da Itália: DADÁ. Um cavalo
de madeira, a ama de leite, dupla afirmação em russo e em romeno: DADÁ” (TELES apud HELENA, 1986, p. 32).
Cubismo
Chegando ao fim de nossa travessia, vejamos agora Longe dos sentidos que a razão domina, os
como ocorreu o Surrealismo. surrealistas apegaram-se com afinco ao que
Após divergências com Tzara, André Breton, que pudesse oferecer resistência contra o positivismo
pertencia ao grupo dadaísta, tornou-se o líder dos e o racionalismo. Defendiam Freud, o sonho, a
surrealistas, vanguarda que surgiu entre os anos de liberdade, o experimentalismo, bem como a
1922 e 1923 e que apresentava, em 1924, seu polêmica tão ao gosto dos futuristas.
manifesto.