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Avanços Tecnológicos na Astronomia

O documento descreve a história da astronomia a partir dos avanços tecnológicos. Ele discute como o desenvolvimento de novos instrumentos como o telescópio, a fotografia, a espectroscopia, os radiotelescópios e as sondas espaciais permitiram grandes avanços no conhecimento astronômico, levando a novas descobertas sobre o universo. A obra também aborda os principais acontecimentos da astronomia nos séculos XVII ao XXI e como a incorporação simultânea de diversas in

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Avanços Tecnológicos na Astronomia

O documento descreve a história da astronomia a partir dos avanços tecnológicos. Ele discute como o desenvolvimento de novos instrumentos como o telescópio, a fotografia, a espectroscopia, os radiotelescópios e as sondas espaciais permitiram grandes avanços no conhecimento astronômico, levando a novas descobertas sobre o universo. A obra também aborda os principais acontecimentos da astronomia nos séculos XVII ao XXI e como a incorporação simultânea de diversas in

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Francisco Conte

Uma História
da astronomia a
partir dos avanços
tecnológicos
Francisco Conte

Uma História
da astronomia a
partir dos avanços
tecnológicos
São Paulo, 2021

Revisão
Maria da Anunciação Rodrigues (Ção)
Maria Eduarda Frabasile
Guilherme Lindner de Azevedo Conte

Capa
Katia Huertas e Francisco Conte

Projeto gráfico e diagramação


Katia Huertas
(Colaboração Francisco Conte)

Orientador
Prof. Dr. Roberto Dell’Aglio Dias da Costa

Francisco A. A. Conte
Uma História
da astronomia a partir dos avanços tecnológicos

Astronomia
2021

Universidade de São Paulo


Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas
Departamento de Astronomia

Programa de Mestrado Profissional em Ensino de Astronomia

Capa: Telescópio Gillett no topo do Mauna Kea. Foto: Francisco Conte


PREFÁCIO
A IDEIA DO LIVRO
A história da astronomia foi sendo construída, notadamente a partir do século XVII,
sempre ligada diretamente ao desenvolvimento tecnológico. Toda vez que uma invenção
importante, ou a criação de uma nova técnica, ou a incorporação de novas tecnologias
provenientes de outra área da ciência aconteciam, em seguida ocorria um período de
descobertas e uma grande ampliação do conhecimento. A evolução não é linear, é como
subir uma escada, em que cada degrau dá acesso a um novo patamar, cada vez mais
elevado. A ideia deste trabalho é contar um pouco de como essa evolução ocorreu, quais
foram os avanços tecnológicos mais importantes e sempre que possível mostrar o que
isso acarretou no conhecimento astronômico.
Outro ponto importante é caracterizar o que vem acontecendo nas últimas décadas,
quando várias inovações tecnológicas em áreas diversas estão sendo incorporadas
quase que simultaneamente na astronomia, resultando em uma era de grandes avanços
no conhecimento, a um ritmo nunca visto anteriormente. Estamos compreendendo cada
vez mais e de forma mais profunda como funciona o nosso universo.
SUmário
Introdução 8
Parte 1 – Uma nova astronomia 12
Introdução: A astronomia apontando os rumos da nova ciência 12
Capítulo 1 - Vendo mais longe – A era do telescópio 16
Primeiros avanços técnicos 20
Telescópios refletores 22
William Herschel 29
Século XIX 33
Capítulo 2 - Arquivando a luz – Fotografia 39
Capítulo 3 - Espectroscopia, a chave de um novo conhecimento 52
Capítulo 4 - Rumo às montanhas – Temos um universo a descobrir 66
Capítulo 5 - Observando o invisível – Radioastronomia 88
Interferometria 104
Capítulo 6 - Satélites e sondas 108
Telescópios espaciais 113
Sondas do Sistema Solar 115
Capítulo 7 - Telescópios ópticos na década de 1970 122

Parte 2 – Tudo ao mesmo tempo agora 132


Introdução 132
Capítulo 8 - Telescópios ópticos nos anos 1980 e 1990 – A tecnologia muda o jogo 133
Capítulo 9 - Sondas do Sistema Solar na virada do milênio 147
Capítulo 10 - Telescópios espaciais na virada do milênio 157
Luz visível 157
Infravermelho 161
Telescópios solares 163
Micro-ondas 163
Futuro 164
Capítulo 11 - Astronomia de altas energias 165
Capítulo 12 - Novas janelas na astronomia 171
Raios cósmicos 172
Neutrinos 179
Ondas gravitacionais 185
Capítulo 13 - Radioastronomia na virada do milênio 190
Capítulo 14 - Telescópios ópticos na virada do milênio 200
Principais descobertas do período 207
Telescópios do futuro 212
Capítulo 15 - Astronomia amadora na virada do milênio 215
Capítulo 16 - Big data, machine learning... Para onde vamos? 223

Apêndices
Apêndice 1 – Paralaxe e distâncias 228
Apêndice 2 – Magnitudes 230
Apêndice 3 – Características dos telescópios 232
Apêndice 4 – Tipos de telescópios 235
Apêndice 5 – Montagens 238
Apêndice 6 – Diagrama HR 242
Apêndice 7 – Espectro eletromagnético 244

Bibliografia 247
INTRODUÇÃO
A partir de evidências arqueológicas encontradas em quase todas as partes do planeta
podemos afirmar que a astronomia é a mais antiga das ciências da natureza. Entre os
exemplos estão um osso entalhado com as fases da Lua da cultura Aurignaciana (França
e Alemanha), com cerca de 34 mil anos de idade; Wurdi Youang, um campo com pedras
alinhadas na Austrália, com cerca de 11 mil anos; Warren Field, na Escócia, um calendário
lunar construído em pedra, datado de 8000 a.C.; o muito conhecido sítio de Stonehenge
(ver figura 1); os desenhos de constelações nas ruínas de Puyang Tomb, na China,
datados de 5000 a.C.; escritos astronômicos na Suméria e Babilônia, datados entre 3500
a.C. e 1200 a.C.; e, na América, os arranjos de pedras na Colômbia conhecidos como
infernitos, com cerca de 2,8 mil anos de idade, e, no Amapá, o observatório de Calçoene,
com idade estimada entre 500 e 2 mil anos.

Figura 1 - Stonehenge: monumento pré-histórico localizado no sul da Inglaterra. A construção, composta de


pilares e vigas de pedra formando pórticos em uma disposição circular, tem 33 m de diâmetro, com pilares
que chegam a 4 m de altura e a 25 toneladas de peso. Stonehenge deve ter sido um local para prática
de rituais, mas vários alinhamentos astronômicos são percebidos, tanto para o Sol, como para a Lua e
possivelmente para algumas estrelas como Sirius. O alinhamento mais importante ocorre no solstício de
verão, quando numerosos grupos de turistas visitam o local. Foto: Francisco Conte.

Esse desenvolvimento precoce espalhado pelo mundo tem uma razão: a astronomia
era necessária ao homem primitivo, seja para o desenvolvimento de calendários, capazes
de antecipar as épocas corretas para o plantio de alimentos ou a chegada das estações
frias ou chuvosas, seja para a navegação e orientação de viajantes que se deslocassem

8
em locais inóspitos ou desconhecidos, onde a observação do céu era essencial. A
astronomia era vital também no cálculo das marés, que influenciavam a vida da maior
parte da população do planeta que morava nas áreas litorâneas. Elaborar calendários,
tabelas de marés e mapas para localização de viajantes exigia horas de observação
sistemática do céu. Hoje vivemos dissociados desse processo, o homem moderno não
precisa mais observar o céu, podendo consultar rapidamente qualquer informação a
respeito de marés ou calendário em seu celular ou computador. Poucos têm consciência
da importância da astronomia no seu cotidiano.
A astronomia é uma ciência intrinsecamente observacional e, ao longo de seu
desenvolvimento, lentamente foram surgindo pequenos avanços tecnológicos, seja
através da criação de instrumentos de medição que iam de um simples gnômon até
aparelhos muito mais sofisticados, como o sextante, o oitante, as esferas armilares e os
astrolábios (ver figura 2), seja pelo aprimoramento da medição de ângulos e posições de
objetos celestes.

Figura 2 - O triquetrum, ou régua de Ptolomeu, à esquerda, e o quadrante. Dois instrumentos utilizados


para medir a altura de um objeto celeste em relação ao horizonte. O ângulo pode ser medido olhando-
-se diretamente para o objeto a partir de um orifício feito na haste móvel. No quadrante o ângulo pode
ser observado diretamente no arco graduado. No triquetrum, pode ser feita uma marcação na haste e
posteriormente realizada a transferência do ângulo para um desenho. O triquetrum era muito mais
facilmente construído, pois não exigia que fosse erguido um complexo arco graduado. Desenho: Francisco
Conte, baseado em King (2003, p. 8).

Alguns registros em placas de argila com mais de três mil anos de idade mostram que a
Babilônia possuía uma astronomia muito avançada, com o céu dividido em constelações,
acompanhamento do movimento dos planetas e a crença em um universo heliocêntrico

9
(com o Sol no centro). Na Grécia antiga podemos encontrar vários trabalhos que se
tornaram por séculos a base do conhecimento astronômico em todo o mundo. Tales de
Mileto (624-546 a.C.) conseguia prever eclipses. Demócrito de Abdera (460-390 a.C.)
acreditava que a Via Láctea era composta por muitos sóis distantes. Ao observar um
eclipse lunar por volta do ano 350 a.C., Aristóteles deduziu, pela forma da sombra, que
a Terra deveria ser esférica, embora acreditasse que ela era estática e que os céus
girassem ao seu redor (sistema geocêntrico). Um século e meio depois, por volta do ano
200 a.C., o também grego Aristarco propôs que na verdade o Sol era o centro do universo
e a Terra, os planetas e as estrelas giravam em sua volta.
Ainda na Grécia, utilizando apenas um simples gnômon, Eratóstenes, nascido em
Cirene no ano de 276 a.C., conseguiu medir o diâmetro da Terra com boa precisão.
Profundo estudioso de astronomia, Eratóstenes leu um texto que mencionava o fato de que
ao meio-dia do dia de solstício de verão em Assuã o Sol ficava perfeitamente no zênite e
a superfície de um poço profundo era iluminada apenas nesse momento. Se a Terra fosse
plana, todos os pontos da superfície deveriam se comportar dessa mesma forma. Nessa
época Eratóstenes morava em Alexandria. Ele mediu a sombra de uma simples estaca (o
gnômon) e obteve o ângulo de 7,2º. Estando o Sol em uma posição distante, este ângulo
só poderia ser causado por uma superfície curva. Contratou então um caminhante para
medir a distância entre as duas cidades, obtendo o total de 5.040 estádios. Não havia
padronização de medidas na época, e o valor do estádio não era fixo, mas pesquisadores
modernos estimam que o estádio utilizado no trabalho de Eratóstenes equivaleria a pouco
menos de 160 metros. A partir deste valor a estimativa para a circunferência da Terra
pode ser calculada em 39.700 km, muito próxima dos valores obtidos atualmente para o
perímetro polar da Terra, de aproximadamente 40.007,86 km (a medida de Eratóstenes
foi feita aproximadamente na direção norte-sul).
Por volta do ano 130 a.C., o astrônomo Hiparco desenvolveu o mais avançado trabalho
astronômico de seu tempo, um catálogo dos céus com a posição de centenas de estrelas
e outros objetos celestes. Em seu catálogo Hiparco introduziu um equador celeste,
assim como os polos norte e sul e a eclíptica, conceitos que são utilizados até hoje.
Comparando a posição das estrelas no equinócio de outono com observações realizadas
por Timocharis 150 anos antes do seu trabalho, ele percebeu que havia ocorrido um
deslocamento, descobrindo assim o movimento de precessão da Terra.
Por volta do ano 110 d.C., o astrônomo chinês Zhang Heng explicou de maneira correta
que a Lua não possuía luz própria e era iluminada pelo Sol. Pouco depois, por volta de
150 d.C., o matemático, geógrafo e astrônomo grego Ptolomeu escreveu três obras que
sintetizaram o conhecimento da época e que norteariam a cultura ocidental até a época
de Copérnico, incluindo o modelo geocêntrico e uma reedição revisada do catálogo de
Hiparco.
Por volta do ano 530 d.C., o astrônomo indiano Aryabhata propôs que as estrelas no
céu eram fixas, e que seu aparente movimento para o Oeste era causado pela rotação
da Terra, um conceito abandonado desde a Grécia antiga. Em seus trabalhos, escritos
por volta do ano 950, o persa Abd al-Rahman al-Sufi descreve uma “nuvem” que não
se movia em relação às estrelas, permanecento na mesma região do céu. O objeto é

10
uma galáxia anã conhecida hoje como Grande Nuvem de Magalhães. Foram mercadores
persas que navegavam em direção ao sul que fizeram a observação, não Al-Sufi, mas ele
incluiu a descoberta em suas compilações de catálogos de estrelas.
Em 1279, o astrônomo chinês Guo Shoujing conseguiu calcular a duração do ano solar
com a maior precisão até então: 365 dias, cinco horas, 49 minutos e 12 segundos, muito
próximo do valor correto. Por volta do ano 1437, no que hoje é o Azerbaijão, Ulugh Beg,
ou Grande Líder, o pseudônimo de Mirza Muhammad Taraghay Bin Shakrukh, publica um
catálogo de estrelas conhecido por Zij-Sultani (o catálogo de estrelas do Sultão). Nele
Ulugh Beg descreve as posições de 1.022 estrelas contidas no Almagesto, corrigindo a
posição de 922 destas; faz previsões para eclipses e para o momento de nascimento e
pôr do Sol em várias épocas do ano e consegue estimar a duração do ano estelar, com um
erro de apenas 20 segundos, entre outros feitos importantes. Para realizar esse trabalho
ele havia construído o melhor observatório astronômico da história, com instrumentos
gigantescos, incluindo um quadrante com mais de 11 metros de diâmetro. Infelizmente
a maior parte desses instrumentos foi destruída após sua morte. Suas observações só
foram superadas após mais de 150 anos por Tycho Brahe.
Aqui vale um comentário: a duração do ano solar não se ajusta perfeitamente com
a duração do dia. O valor atual médio é de 365 dias, cinco horas, 48 minutos e 46
segundos. Essa sobra de pouco menos de seis horas implica a necessidade de algum
tipo de procedimento para compensar a diferença. A solução adotada foi criar um ano
bissexto com um dia a mais (29 de fevereiro), a cada quatro anos. Mas a diferença
não é de exatas seis horas, mas um minuto e 14 segundos menor. Com o passar de
grandes intervalos de tempo essa pequena diferença acaba se acumulando – após 400
anos, soma aproximadamente três dias. Isso exige a criação de outro procedimento para
corrigir a diferença, pois sem esse ajuste as datas de solstícios e equinócios acabariam
sendo alteradas. Para evitar o problema, ficou decidido que, a cada quatro anos bissextos
terminados em 100, três deixariam de ter o dia extra. Desta forma, o ano 2000 foi bissexto,
mas 2100, 2200 e 2300 não serão. Então 2400 voltará a ser bissexto. Esse ajuste no
calendário foi incluído apenas no século XVI, mas fornece uma correção muito precisa,
que adotamos até hoje.
Desde antigos tempos podemos perceber que a astronomia sempre foi praticada
ativamente, com observadores espalhados pelo mundo. Eventualmente várias
descobertas foram sendo feitas, ao mesmo tempo em que uma série de instrumentos eram
desenvolvidos por comunidades independentes, de maneira a simplificar ou aprimorar as
observações astronômicas, num processo contínuo de aperfeiçoamento, mesmo que nos
estágios iniciais em um ritmo muito mais lento que nos séculos mais recentes. A intenção
deste trabalho é descrever como a introdução de melhorias ou invenções tecnológicas
alavancou a história da astronomia, uma vez que quase invariavelmente foram seguidas
de um período de grandes descobertas astronômicas.

11
Parte 1 – Uma nova astronomia
Introdução: A astronomia apontando os rumos da nova ciência
O período que antecedeu a invenção do telescópio em muitos aspectos já antecipava
a importância da tecnologia no desenvolvimento da astronomia, e também no surgimento
da ciência moderna, baseada na observação e na criação de modelos teóricos que
explicassem os fenômenos observados.
Esse período notável tem início com a publicação do livro de Nicolau Copérnico que
propõe o sistema heliocêntrico, em 1543, ano de sua morte. Copérnico critica o modelo
geocêntrico, mostrando que na verdade ele não era um sistema, mas uma série de
explicações isoladas (sistemas) para a órbita de cada planeta. Já no sistema heliocêntrico
a descrição da órbita aparente de cada planeta era dada por sua distância e movimento
próprio deles em relação ao Sol, com um único modelo como base. A análise estava
correta e o sistema solar é realmente heliocêntrico, mas as previsões que o sistema
conseguia produzir não eram melhores do que aquelas que se podiam realizar com
o sistema geocêntrico. A crítica copernicana estava mais ligada à beleza do modelo
heliocêntrico em relação ao amontoado de modelos do sistema geocêntrico, embora não
existissem observações que comprovassem essa ideia.
Isso começa a mudar com Tycho Brahe. Tyge Ottesen Brahe nasceu no castelo de
Knutstorp, na época território da Dinamarca que hoje pertence à Suécia, em dezembro
de 1546, pouco antes da publicação do livro de Copérnico. Era o filho mais velho, entre
12 irmãos, de uma abastada e nobre família. Teve uma refinada educação e desde cedo
demonstrou interesse por astronomia. Em 1567 Tycho decide se dedicar à ciência e
constrói um quadrante, que utiliza para fazer suas primeiras observações. Em 1571
ocorre a morte de seu pai e seu casamento com Kirsten Jørgensdatter, que não pertencia
à nobreza. Tycho viveu com Kirsten por mais de 30 anos, até sua morte, tendo tido com
ela oito filhos, dos quais seis chegaram à idade adulta. Ele ficou conhecido também por
suas excentricidades, como ter um alce como animal de estimação ou usar uma prótese
de nariz de prata, depois que perdeu parte do nariz em um duelo. Mas sua contribuição
à ciência é incontestável.
Em 1572, Tycho faz a descoberta que muda sua vida. Na constelação de Cassiopeia
ele observa o surgimento de uma estrela até então nunca vista. Ela era bastante brilhante,
não possuía movimento próprio como os planetas nem uma paralaxe observável com os
instrumentos da época, o que significava que sua distância era maior do que a da Lua.
Essa constatação punha em xeque a cosmologia aristotélica, que dominava o pensamento
das elites europeias de então, pois esta pregava que além da esfera da Lua se localizava
a esfera das estrelas, que era imutável e perfeita. O surgimento de uma nova estrela
contradizia o caráter permanente e imutável dos céus. Tycho observou a estrela por um
período de cerca de um ano, percebendo que, após uma fase de grande brilho inicial,
a estrela foi lentamente diminuindo de brilho, até desaparecer de maneira definitiva.
Tycho publicou suas observações em um livro chamado De nova stella (A estrela nova),
utilizando pela primeira vez o termo “nova” para designar esse tipo de astro. O livro
tornou Tycho Brahe famoso em toda a Europa. Hoje o fenômeno que Tycho observou
é chamado de “supernova”, e os remanescentes da explosão que ele viu receberam o
nome de SN1572, mas ela também ficou conhecida como Supernova de Tycho.
12
Nos anos seguintes Tycho continuou a fazer observações e divulgá-las através de
livros, que faziam com que sua fama de observador se espalhasse por toda a Europa.
Depois, fez uma viagem para a Alemanha, Suíça e Itália, na qual desempenhou o papel
de representante do rei da Dinamarca. O rei resolveu então premiar seu trabalho com
uma posição no reino. Ao final, Tycho recebeu a ilha de Hven e uma verba para construir
seu observatório. Note-se que antes o rei havia oferecido a Tycho a possibilidade de viver
em um entre dois castelos a sua escolha, mas ele relutou em aceitar essas ofertas, já que
preferia focar em seu trabalho científico.
Em Hven Tycho foi gradativamente montando uma estrutura admirável para a época,
que em muito se assemelha ao que observatórios modernos fazem. Tycho construiu
os melhores instrumentos astronômicos de seu tempo, maiores que os instrumentos
utilizados no resto da Europa, o que aumentava a precisão. Além disso, eles eram
firmemente apoiados no solo (a maioria dos observadores usava instrumentos manuais).
Para isso, ele instalou tanto uma carpintaria quanto uma serralharia, pois dessa forma
ele mesmo podia projetar e construir seus instrumentos. Incluiu ainda uma gráfica, para
que ele próprio pudesse editar os livros, que passou a publicar frequentemente com suas
observações e descobertas.
Entre os principais instrumentos
fabricados por Tycho temos um
quadrante azimutal de latão, do ano
de 1576; um grande globo celeste,
também de latão, do ano de 1580; no
ano seguinte, construiu uma grande
esfera armilar; em 1582, um sextante
triangular; em 1585, uma grande armilar
equatorial; um quadrante giratório de
madeira no ano de 1586 e um quadrante
giratório de aço em 1588 (Ver figuras
3 e 4).
Percebendo que a precisão de suas
observações diminuía pela ação do
vento e de agentes externos em seu
palácio, conhecido como Uraniborg,
literalmente Castelo de Urânia, a musa
da astronomia, resolveu reconstruir
o observatório, desta vez em um
pavimento subterrâneo, com aberturas
para observação. Isso se demonstrou
um grande acerto. O novo observatório
foi batizado de Stjerneborg, ou Castelo
das Estrelas. Tycho, obcecado pela
Figura 3 - O quadrante mural de Tycho Brahe em
precisão, inventou e desenvolveu Uraniborg. Ilustração de autor desconhecido, do livro
novas técnicas observacionais com Astronomiae instauratae mechanica, de Wandsbeck,
excelentes resultados, acabando por 1598. A gravura mostra o método de observação de
realizar as melhores observações de Tycho em seu observatório, além de alguns de seus
instrumentos. Fonte: Wikimedia Commons.
seu tempo.
13
Figura 4 - Cópias em escala real de um sextante e um quadrante do observatório de Tycho Brahe, em
exposição no Observatório Archenhold, em Berlim. Os instrumentos originais foram perdidos. Foto:
Francisco Conte.

Em 1577 observou o Grande Cometa e comprovou que o mesmo não tinha paralaxe
aparente (ver apêndice 1), devendo estar em uma posição mais distante que a Lua,
contrariando a crença da época de que cometas seriam fenômenos de nossa atmosfera.
Por não conseguir observar a paralaxe em estrelas Tycho discordava das proposições
de Copérnico, entendendo que a Terra não deveria se mover. Ele criou um sistema próprio
em que o Sol girava em torno da Terra, mas todos os planetas giravam em torno do Sol.
Sistemas similares já haviam sido propostos anteriormente e hoje possuem mais um
caráter de curiosidade.
Em 1588, com a morte do rei Frederico II da Dinamarca e a consequente subida ao
trono de seu herdeiro Cristiano IV, Tycho sentiu que todo o patrimônio científico que havia
criado ao longo de décadas estava em risco. Tanto o observatório quanto suas oficinas,
a gráfica e os colaboradores poderiam ser cortados. Tendo encontrado apoio e boas
condições em Praga ele acabou emigrando para lá e instalando um novo observatório.
Tycho sempre montou ao redor de si um grupo de colaboradores de grande qualidade,
seja para atividades observacionais, seja para a construção de instrumentos ou ainda
outras especialidades. Em Praga conheceu e passou a trabalhar com um jovem assistente
muito promissor, vindo da Alemanha, chamado Johannes Kepler. Ao que parece, os dois
desenvolveram uma relação um pouco atribulada, e o jovem, que sempre demonstrou
muita capacidade intelectual, nunca teve acesso livre aos registros das observações.

14
Kepler havia desenvolvido um grande interesse pela astronomia já aos seis anos
de idade, quando observou o cometa de 1577. Desde pequeno demonstrou talento
para a matemática, que veio a estudar posteriormente, assim como teologia. Quando
estudava em Tübingen conheceu o trabalho de Copérnico e tornou-se um defensor do
heliocentrismo. Aos 23 anos passou a ser professor de matemática na Escola Protestante
de Graz, onde permaneceu até a mudança para Praga.
Com a morte de Tycho Brahe em 1601, Kepler passou a ter acesso a todos os registros
do observatório, de grande importância para ele, já que se empenhava em compreender
o funcionamento do sistema solar. Enquanto desenvolvia esse trabalho, observou uma
supernova em 1604, na constelação de Ofiúco. Kepler realizou observações sistemáticas
da nova estrela, assim como o seu mestre havia feito em 1572, e também publicou um
livro com suas observações. Essa supernova chegou a ser visível durante o dia por um
período de algumas semanas, sendo também observada por Galileu Galilei em Pádua.
Após trabalhar incansavelmente nas observações de Tycho Brahe, sobretudo nas
posições do planeta Marte, Kepler finalmente conseguiu entender como funcionava o
sistema heliocêntrico em seus detalhes, que foram resumidos em suas três leis:
1. Os planetas descrevem órbitas elípticas, com o Sol em um dos focos
2. O raio vetor que liga o planeta ao Sol descreve áreas iguais em intervalos de
tempo iguais
3. Os quadrados dos períodos de revolução dos planetas são proporcionais aos
cubos de suas distâncias ao Sol
Kepler conseguiu fazer uma descrição muito detalhada de como o sistema solar
funciona, mas a explicação sobre as razões desse comportamento teria que esperar pelo
trabalho de Isaac Newton.
O trabalho de Tycho e Kepler foi fundamental para a história da astronomia e também
para o desenvolvimento da ciência moderna. Pela primeira vez na história, fenômenos
naturais eram descritos matematicamente de maneira precisa. Além disso, o trabalho
integrado de Tycho e Kepler, combinando a área observacional e a teoria, aponta
claramente para a forma como a ciência vai se desenvolver a partir desse momento.
Por outro lado, o trabalho de Tycho e Kepler representa provavelmente um limite do que
era possível ser realizado com a tecnologia da época. Para que a astronomia pudesse
se desenvolver a partir desse ponto, seria necessária uma mudança radical na forma de
observar o céu.

15
Capítulo 1
Vendo mais longe – A era do telescópio
A invenção do telescópio foi a primeira grande revolução tecnológica ligada à astronomia
e mudou por completo sua história e desenvolvimento. Logo após a introdução do
telescópio, em um curto espaço de tempo ficou claro que um novo universo muito mais
amplo e repleto de detalhes e novidades se abria para os observadores. Um simples
tubo, com uma lente em cada ponta, transformou a astronomia para sempre.
Ninguém sabe exatamente quem inventou o telescópio, nem a época exata da
invenção. A tecnologia necessária para a sua criação, a fabricação de lentes de vidro,
já existia desde o século XIII. Quatro séculos depois, em 1608, um alemão residente na
Holanda chamado Hans Lippershey patenteou um modelo de telescópio refrator, embora
não exista nenhuma garantia de que ele tenha sido o primeiro a fabricar um instrumento
desse tipo. O telescópio possuía aplicações variadas, notadamente para fins militares, o
que fez com que a notícia de sua invenção se espalhasse rapidamente pela Europa.
Em Florença, na Itália, o grande cientista Galileu Galilei conseguiu um instrumento para
seu uso assim que soube da invenção e já em 1609 produziu seus próprios telescópios,
muito melhores do que os fabricados por seus contemporâneos. Galileu desenvolveu
estudos em diversas áreas, como a matemática, a física, a astronomia e a filosofia.
Foi pioneiro no estudo da resistência dos materiais, que influenciaria a arquitetura e a
engenharia; desenvolveu os primeiros estudos do movimento acelerado e do movimento
do pêndulo; enunciou o conceito de inércia, que influenciou o trabalho de Newton, e
foi também o primeiro a pensar no conceito de relatividade, que seria desenvolvido por
Einstein apenas no século XX. Desenvolveu instrumentos como a balança hidrostática,
um tipo de compasso geométrico, um termômetro e estudos com pêndulos. Foi pioneiro
na defesa do método empírico em oposição ao
método aristotélico, sendo considerado por muitos
o pai da ciência moderna (ver figuras 5 e 6).
Os telescópios construídos por Galileu em pouco
tempo passaram de três aumentos para oito ou
nove e até 30 aumentos. Embora possa haver uma
pequena dúvida sobre quem foi a primeira pessoa
a observar os céus noturnos com um telescópio,
certamente Galileu foi o primeiro a divulgar suas
observações e descobertas: distinguiu crateras e
montanhas na superfície da Lua; observou que
Júpiter possuía quatro satélites, que giravam em
torno do planeta conforme este se deslocava no
céu, dia após dia; constatou que o planeta Vênus
tinha fases, embora essa descoberta só tenha
Figura 5 - Galileu mostrando ao Duque de
sido publicada posteriormente. Não conseguiu Veneza como utilizar um telescópio. Afresco
perceber que Saturno tinha anéis, porque a de Giuseppe Bertini, 1858, Varese, Itália.
resolução angular dos seus instrumentos não era Fonte: Wikimedia Commons.

16
Figura 6 - Esquemas ópticos de dois tipos de telescópios refratores (que utilizam lentes). O esquema
superior mostra um telescópio similar aos utilizados por Galileu. O desenho inferior mostra um refrator
kepleriano, que, com uma lente similar, produz imagens com aumentos maiores, embora a imagem seja
invertida (o que não é um problema para observações astronômicas). Desenho: Francisco Conte.
suficiente. Observou a princípio que o disco do planeta estava ladeado por outros dois
discos menores e imaginou que se tratava de um planeta triplo, mas com o passar dos
anos esses discos desapareceram e depois voltaram a aparecer. Observou também
manchas solares tanto a olho nu quanto no telescópio; percebeu que o número de
estrelas que podia observar no telescópio era muito maior que aquelas que via a olho nu
em um mesmo campo; observando a Via Láctea, percebeu que uma área que parecia
ser nebulosa era na verdade formada por um número imenso de estrelas. A astronomia
entrava em uma nova era.
Analisando com cuidado o trabalho de Galileu com o telescópio, é importante
ressaltar alguns fatos importantes. O primeiro é que os seus desenhos da Lua, embora
ressaltassem bem alguns detalhes da superfície de nosso satélite, como as crateras, por
exemplo, eram na realidade bastante esquemáticos, não muito fiéis ao relevo verdadeiro
do satélite, não podendo ser entendidos como mapas lunares.
Ao contrário, a descoberta dos satélites de Júpiter revela um observador paciente
e detalhista, que de início observou apenas três pequenas estrelas ao lado do planeta.
Nos dias posteriores Galileu continuou a observar Júpiter, anotando cuidadosamente a
posição destes objetos. Ele acabou percebendo que eram na verdade quatro e que elas
se deslocavam junto ao planeta, girando em torno dele. Após uma série de observações,
concluiu corretamente que Júpiter tinha quatro satélites. Eram os primeiros membros do
sistema solar a ser descobertos desde a Antiguidade, descartando os cometas. Suas
observações foram confirmadas por outros pioneiros no uso do telescópio, entre eles
Thomas Harriot (que será mencionado no parágrafo seguinte), Joseph Gaultier de la
Vatelle e Nicolas-Claude Fabri. Poucos anos depois, em 1614, o astrônomo alemão
Simon Marius publicou o livro Mundus jovialis, em que descrevia os quatro satélites de
Júpiter e afirmava que os havia descoberto antes de Galileu, que imediatamente acusou
Marius de plagiar o seu trabalho. Hoje em dia é aceito que Marius fez as observações de

17
maneira independente e aproximadamente
na mesma época. Tendo publicado primeiro
o trabalho, Galileu ficou com os méritos da
descoberta. Fatos como este vão se repetir
inúmeras vezes na história da astronomia.
Marius, entretanto, teve uma pequena
satisfação: em seu trabalho ele batizou
os satélites de Io, Europa, Ganimedes e
Calisto, nomes de conquistas amorosas do
deus romano Júpiter e que foram aceitos
pela comunidade científica e são usados até
hoje. Por outro lado, coletivamente eles são
conhecidos como satélites galileanos.
Recentemente descobriu-se que um
inglês, Thomas Harriot, teria observado
a Lua através de um telescópio cerca de
quatro meses antes de Galileu, elaborando
um desenho razoavelmente acurado do
relevo do satélite (ver figuras 7 e 8). Harriot,
entretanto, não divulgou seus trabalhos e
seu feito passou despercebido por séculos.
Apenas em 1900 foi publicada uma biografia
pessoal em que o feito era descrito, mas o livro
vendeu apenas 167 exemplares, só voltando
a ser publicado em 1972. A nova publicação
gerou certa agitação no Reino Unido, com
base na ideia de ter sido Harriot o pioneiro
a realizar observações astronômicas com
um telescópio. Obviamente, é muito difícil
comprovar a autenticidade das datas de seus
trabalhos. Galileu merece todos os méritos,
pois a revelação de suas descobertas
causou um impacto imenso no conhecimento
científico da época. Além disso, Galileu não
se limitou a observar a Lua, ele também
observou o Sol, os planetas e estrelas,
praticamente todos os campos de interesse
da astronomia. Reforçando esse caráter de
divulgação de suas descobertas, Galileu
escreveu em italiano, não em latim como se
costumava fazer em sua época, para que a Figuras 7 e 8 - Desenhos da Lua feitos por
maioria das pessoas tivesse acesso a seu Galileu (no alto) e Thomas Harriot. Como se pode
trabalho. observar, o desenho de Harriot é mais fiel ao relevo
geral da Lua, mas os de Galileu, apesar de mais
Um aspecto do trabalho de Galileu esquemáticos, apresentam detalhes mais definidos.
que infelizmente não pode deixar de ser Fonte: Wikimedia Commons.
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mencionado é relativo aos problemas que ele enfrentou com a Igreja Católica no período
da Inquisição. Em seus trabalhos, Galileu fazia algumas afirmações que entravam
em conflito com dogmas religiosos da época. Por exemplo: ao descrever que o Sol
apresentava manchas em sua superfície, o caráter “incorruptível” dos objetos celestes
era posto em xeque (incorruptível, em questão, era usado no sentido de imutável). Em
1616, o Tribunal do Santo Ofício julgou que a teoria do sistema heliocêntrico era herética
e que o conceito de que a Terra se movia era “teologicamente errado”. Galileu teve que
ir a Roma para explicar suas ideias e foi pressionado a não mais ensinar o sistema
heliocêntrico. Após os primeiros problemas com a Inquisição, Galileu frequentemente
passou a “camuflar” suas descobertas, criando anagramas de frases em latim para as
conclusões de seus trabalhos. Isso gerou uma dificuldade para os pesquisadores que
estudavam a sua obra e deu origem a muitas especulações. Uma das mais interessantes
é a possibilidade de Galileu ter descoberto Netuno, pois na época das observações
de Júpiter o planeta desconhecido estava muito próximo ao gigante joviano, e Galileu
chegou a registrá-lo como uma estrela. Posteriormente Galileu foi julgado e condenado
pela Igreja, passando a viver em prisão domiciliar, além de ter sido obrigado a se retratar
publicamente e impedido de continuar a divulgar suas ideias. Seus livros entraram para o
Index de livros proibidos, embora continuassem a ser publicados em países protestantes.
Pouco tempo antes, Giordano Bruno havia sido executado publicamente, por emitir
opiniões astronômicas contrárias aos interesses da Igreja. Mas o interesse deste trabalho
é outro e esse assunto não vai ser aprofundado, embora tenha que ser obrigatoriamente
citado.
O telescópio trazia três grandes avanços em relação à observação a olho nu. Em
primeiro lugar e provavelmente o mais importante é que a capacidade de coleta de luz
de um telescópio é muito superior à do olho humano. Com um instrumento similar aos
utilizados por Galileu era possível observar objetos celestes com magnitude até dez (ver
apêndice 2), quatro magnitudes a mais do que podemos observar a olho nu, permitindo
a visão de um número muito maior de estrelas. A coleta de luz é proporcional à área
do elemento óptico, que passou dos poucos milímetros de diâmetro da pupila do olho
humano para alguns centímetros de diâmetro da lente primária do telescópio, um ganho
na casa das centenas de unidades. Em segundo lugar, houve uma melhoria na definição
angular das imagens, sendo possível a observação de detalhes muito mais delicados
dos objetos, o que, nessa fase inicial, era evidente na observação da Lua, por exemplo.
Essa melhora na resolução angular era proporcional ao diâmetro da lente do telescópio.
Por fim, houve uma ampliação da imagem, proporcional à distância focal do telescópio
dividida pela distância focal da ocular. Embora para o público leigo o número de aumentos
seja a característica mais desejada em um telescópio, é com certeza a característica
menos importante das três.
Os telescópios utilizados por Galileu eram do tipo refrator, que utiliza lentes como
elemento primário do instrumento. Pouco tempo depois Kepler aperfeiçoou o desenho
dos telescópios esticando o tubo e aumentando a distância focal – e por consequência a
ampliação proporcionada – utilizando o mesmo conjunto de lentes. O único inconveniente
desse tipo de instrumento é que a imagem resultante é invertida, o que não faz diferença
na observação astronômica, mas é inconveniente para o uso militar ou para observação de

19
paisagens. Telescópios refratores simples como esses dos primeiros tempos apresentam
um problema crônico chamado aberração cromática, pois ao atravessar a lente de vidro
as diferentes cores da luz sofrem difração em diferentes ângulos. Isso faz com que o
foco de cada cor aconteça em um ponto levemente diferente do eixo óptico, tornando
impossível focar todas as cores ao mesmo tempo. Assim, imagens pontuais como as
de estrelas vão apresentar halos coloridos em torno do ponto central. No apêndice 3 é
possível encontrar vários detalhes técnicos sobre telescópios.

Primeiros avanços técnicos


O primeiro avanço técnico introduzido nos telescópios foi a instalação de um micrômetro
acoplado ao instrumento, que permitia a medição de separações angulares entre objetos
celestes com uma precisão nunca antes alcançada. A medição de ângulos era a pedra
fundamental da astrometria, a forma mais tradicional de se fazer astronomia, que estuda
a posição e o movimento dos objetos astronômicos. O inglês William Gascoigne, nascido
em Leeds, provavelmente foi o primeiro a instalar um micrômetro em um telescópio, em
1639. Em 1659, William Huygens, que voltará a ser citado nos próximos parágrafos,
desenvolveu um mecanismo diferente, com funcionamento similar. Pouco tempo
depois, Robert Hooke construiu um terceiro tipo (ver figura 9). A partir dessa inovação,
as minuciosas observações de Tycho Brahe foram superadas de maneira definitiva por
vários astrônomos por toda a Europa. A nova tecnologia estabeleceu um novo patamar
de precisão para observações astronômicas.

Figura 9 - Três diferentes abordagens na incorporação do micrômetro aos telescópios, em todas, aqui,
sendo utilizados para medir a distância angular entre as duas estrelas mais brilhantes do mesmo campo. À
esquerda vemos a solução de Gascoigne, com duas setas móveis, que podem ser ajustadas até enquadrar
as duas estrelas; no centro, a virgula de Huygens, que usa uma única peça móvel em formato trapezoidal
para a mesma finalidade; por fim, à direita, a solução de Hooke, com fios de cabelo. Desenho: Francisco
Conte, baseado em King (2003, p. 97).

Em 1631, o francês Pierre Gassendi se tornou o primeiro homem a observar um


trânsito planetário, evento que ocorre quando um planeta passa em frente ao disco solar.
No caso, tratava-se de um trânsito de Mercúrio, previsto por Kepler. Trânsitos não são
acontecimentos corriqueiros: os de Mercúrio ocorrem em número de 13 a 14 por século,
ao passo que os de Vênus são muito mais raros, ocorrendo aos pares, separados por
aproximadamente oito anos, só voltando a ocorrer depois de cerca de 120 anos. Alguns
anos depois, um jovem astrônomo inglês, Jeremiah Horrocks, previu a ocorrência de um
trânsito de Vênus em 4 de dezembro de 1639. O próprio Horrocks e seu colaborador
20
William Crabtree, usando dois telescópios independentes, conseguiram observar pela
técnica de projeção o trânsito previsto. Gassendi também havia previsto o fenômeno,
mas não pôde observá-lo de Paris, pois o Sol já estava se pondo no horário do evento.
No Brasil, durante o período da ocupação holandesa no Recife, particularmente no
governo do conde Mauricio de Nassau, entre os anos de 1637 e 1644, foi instalado um
observatório astronômico na cidade, cuja operação ficou a cargo de Jorge Marcgrave.
No observatório foram realizadas observações de um eclipse solar em 13 de novembro
de 1640, além de eclipses lunares e movimentos planetários. Além disso, a partir das
observações de um eclipse lunar, Marcgrave teria conseguido calcular a verdadeira
longitude de Recife, comparando os dados obtidos com as previsões para o fenômeno
feitas em Uraniborg, o único observatório da época em que se podiam encontrar
tabelas com previsões astronômicas precisas. O observatório de Recife era bastante
avançado para a época e possuía um quadrante e um sextante, ambos com cinco pés de
comprimento (aproximadamente 1,5 metro), similares em dimensões aos instrumentos
utilizados por Tycho Brahe em Uraniborg, além de uma luneta (telescópio refrator),
provavelmente similar em dimensões e potência aos instrumentos utilizados por Galileu,
conforme descrição de Matsuura (2013, vol. I, p. 171). Ao que parece o observatório
foi desmantelado quando da partida de Nassau para a Holanda. Em 1654, Portugal,
que havia se libertado de um período de sessenta anos de domínio espanhol em 1640,
consegue finalmente expulsar os holandeses remanescentes, encerrando o período da
Companhia das Índias Ocidentais no Brasil.
Em 1659, o astrônomo holandês Christiaan Huygens, que já havia explicado corretamente
a existência dos anéis de Saturno e descoberto seu maior satélite, Titã, consegue medir
pela primeira vez com precisão a paralaxe do Sol, o que permitiu compreender a real
escala do sistema solar. Huygens aprimorou a construção de telescópios com a invenção
de uma ocular com duas lentes, que diminuía a dispersão da luz e ficou conhecida como
ocular huygeniana. Outra importante invenção de Huygens foi o relógio de pêndulo, em
1656, muito mais exato que os relógios existentes até então, que permitiu observações
astronômicas mais precisas. Huygens desenvolveu uma teoria sobre óptica em que a
luz possuía um caráter ondulatório, em oposição à teoria de Newton, que acreditava
que a luz era composta de partículas. Hoje sabemos que os dois estavam certos e a luz
apresenta um caráter dualístico partícula-onda. Sobre a explicação dos anéis de Saturno
vale a pena fazer um comentário: talvez por não estar seguro de suas conclusões, ou
por temer algum tipo de represália por grupos religiosos, Huygens, em vez de anunciar
claramente o que havia descoberto, publicou em um de seus trabalhos uma fileira de letras
sem significado, da mesma maneira que Galileu fazia para “esconder” suas descobertas.
Quando essas letras eram dispostas da maneira apropriada, formavam uma frase em
latim, que dizia: “Circundado por um anel fino e chato, sem tocar em nenhum ponto,
inclinado para a eclíptica” (Asimov, 1981, p. 28). A inclinação para a eclíptica faz com que
a visão dos anéis a partir da Terra mude periodicamente, de modo que em certas épocas
o anel fique invisível para nossos observadores, uma vez que estamos observando o
conjunto lateralmente, ao passo que nas épocas em que os anéis são vistos em sua
inclinação máxima o aspecto geral do planeta se assemelha a um olho.

21
Telescópios refletores
Já na década de 1630 começaram a
surgir os primeiros esquemas ópticos que
permitiriam a construção de telescópios
refletores, que utilizariam espelhos em vez
de lentes como elemento óptico principal. Em
1663, James Gregory desenha uma primeira
solução que funcionaria, mas não consegue
construir nenhum instrumento. Em 1672,
Isaac Newton constrói o primeiro telescópio
desse tipo e o apresenta na Royal Society
(figuras 10 e 11). Os telescópios refletores
não sofriam da aberração cromática como
os refratores, que vamos comentar mais
à frente. No ano seguinte foi construído o
primeiro telescópio do tipo Cassegrain, com
uma solução mais refinada para o esquema
óptico que o do telescópio newtoniano.
Pouco depois foram construídos também
os primeiros telescópios do tipo gregoriano, Figura 10 - Réplica do primeiro telescópio refletor,
baseados no esquema de James Gregory construído por Isaac Newton, em exposição
(ver Apêndice 4 – Tipos de telescópios). no Deutsches Museum, em Munique. Foto:
Francisco Conte.

Figura 11 - Corte esquemático de um telescópio newtoniano. A luz que entra pelo tubo do telescópio é
refletida primeiramente por um espelho côncavo e depois por um espelho plano, postado a 45 graus em
relação ao plano óptico, que acaba por enviar a luz coletada para a lateral do instrumento, onde é feita a
observação. Desenho: Francisco Conte.

Isaac Newton foi uma figura extremamente importante na história da ciência e também
da astronomia, embora nunca tenha se dedicado a observações astronômicas. Além

22
da construção do primeiro telescópio refletor, Newton escreveu um tratado sobre óptica
muito importante. Suas experiências com prismas e a luz solar culminaram na descoberta
do espectro. Newton constatou que a luz branca do Sol era na verdade formada por um
conjunto de luzes de cores diferentes que, ao atravessar um prisma, eram decompostas,
de forma similar ao que vemos em um arco-íris. O trabalho de Newton sobre o espectro
de luzes inspirou posteriormente cientistas como Herschel e Fraunhofer e levou a
desenvolvimentos que mudaram a história da astronomia, como veremos mais à frente.
Quando Newton elaborou a lei da gravitação, explicou a razão dos movimentos
planetários descritos por Kepler e demonstrou que as mesmas forças que regiam os
céus também atuavam na Terra. Desse modo ele ligou pela primeira vez na história o
homem com o cosmo e encerrou definitivamente a herança da cosmologia grega que
separava o mundo perfeito dos céus do mundo imperfeito da Terra. A força gravitacional,
que decaía com o quadrado da distância, explicava de uma vez as órbitas de cometas,
planetas e satélites, que em decorrência dessa ação assumiam as formas das seções de
cones (elipses, parábolas e hipérboles) e as marés. A influência da obra de Newton na
ciência é enorme, muitas de suas ideias serviram de base para a física que vai fornecer
explicações de fenômenos naturais até o final do século XIX.
Em 1672 e 1673, o astrônomo italiano Giovanni Cassini, trabalhando no observatório
de Paris, descobriu dois outros satélites de Saturno: Reia e Jápeto. Em 1675 ele percebeu
uma divisão escura nos anéis de Saturno, uma faixa que tem aproximadamente cinco
mil km de largura e ficou conhecida como Divisão de Cassini. Em 1684, descobriu mais
dois satélites de Saturno: Tétis e Dione. Além dessas descobertas Cassini também
desenvolveu uma série de trabalhos importantes, como calcular com um pouco mais de
precisão a paralaxe do Sol que havia sido obtida por Huygens. Ele estimou os períodos
de rotação de Marte e Júpiter e foi o primeiro astrônomo a descrever corretamente a luz
zodiacal. Descobriu ainda, juntamente com Robert Hook, a grande mancha vermelha de
Júpiter, sendo também o primeiro astrônomo a perceber que algumas faixas do planeta
gigante tinham períodos de rotação diferentes.
Em 1676, o astrônomo dinamarquês Ole Rømer consegue calcular pela primeira
vez a velocidade da luz. Rømer percebeu que os eclipses das luas de Júpiter sempre
costumavam derrubar suas mais precisas previsões com alguns minutos de adiantamento
ou atraso, com uma particularidade interessante: quando a Terra estava mais próxima de
Júpiter esses eclipses sempre ocorriam adiantados em relação às previsões, ao passo
que quando a Terra se localizava mais distante de Júpiter os eclipses sempre ocorriam
atrasados em relação às previsões. Ele se dedicou a estudar especialmente o satélite Io,
que costumava ser encoberto por Júpiter a cada 28 dias, e observou em torno de 140
desses eventos. Rømer resolveu desenhar os pontos em que Júpiter e a Terra estavam
em relação ao Sol em cada um desses eventos e percebeu que a diferença de tempo
nas previsões deveria estar relacionada à variação das distâncias entre os dois planetas
em cada evento. A maior variação, de 17 minutos, ocorreu quando a Terra estava do
lado oposto do Sol em relação a Júpiter, ocasião em que a luz teria que percorrer a mais
o equivalente a duas vezes o diâmetro da órbita da Terra em relação aos momentos
em que os dois planetas estivessem do mesmo lado. A explicação para o fenômeno é
que a velocidade da luz não é infinita e assim o tempo para a observação dos eclipses

23
poderia variar de acordo com a distância entre os planetas a cada evento. Com os dados
relativos à variação de tempo pela distância Rømer refez a tabela de predições do eclipse
e a apresentou à Academia de Ciências de Paris em 22 de agosto, acrescentando a
explicação de que a diferença de tempo das previsões estava ligada ao tempo necessário
para a luz percorrer a distância. Embora seus dados estivessem corretos, ele não chegou
a efetuar o cálculo da velocidade. Isso foi feito por Christiaan Huygens, a partir dos dados
de Rømer e das estimativas de distância da época, obtendo um resultado um tanto baixo
para os valores atuais. De qualquer maneira, o trabalho de Rømer apresentava pela
primeira vez uma prova irrefutável de que a velocidade da luz era finita. Como o raciocínio
era intrinsecamente correto, foi possível mais tarde obter uma velocidade correta a partir
de estimativas melhores das distância dos planetas (ver figura 12).

Figura 12 - Ole Rømer descobre que a velocidade da luz não é infinita ao analisar os atrasos na previsão dos
eclipses de Júpiter e seus satélites. O mesmo eclipse pode ser visto de diferentes distâncias, dependendo
da posição da Terra em torno do Sol. Desenho: Francisco Conte.

Um desenvolvimento de curta duração na história dos telescópios foi o chamado


telescópio aéreo. Na tentativa de construir instrumentos que propiciassem um grande
aumento, alguns fabricantes de lentes construíam peças com uma distância focal muito
grande, o que inviabilizava a utilização de tubos, com a tecnologia da época. Assim, os
primeiros telescópios aéreos tinham as objetivas instaladas em postes ou árvores, ligadas
às oculares por sistemas de cordas, de maneira que o observador pudesse continuar
em terra. A ideia é atribuída aos irmãos Christian e Constantine Huygens, que teriam
construído os primeiros instrumentos no ano de 1686, mas alguns autores citam também
os trabalhos de Adrien Auzot. Além disso, outras fontes afirmam que o conceito desse tipo
de instrumento foi originalmente pensado pelo arquiteto Christopher Wren, famoso por
projetar a Catedral de São Paulo, em Londres, e que também se dedicava à astronomia.
Johannes Hevelius chegou a construir um instrumento desse tipo com uma objetiva de
24
15 cm de diâmetro e 50 m de distância focal, mas que deveria ser extremamente difícil
de operar. A moda da utilização dos telescópios aéreos durou pouco. Já em 1721, John
Hadley apresentou na Royal Society um telescópio refletor com um espelho de 16 cm de
diâmetro, que foi comparado a um telescópio aéreo com uma lente de 19 cm de diâmetro,
pertencente à coleção da sociedade. Constatou-se que o telescópio refletor, embora fosse
menor, produzia um aumento semelhante, e imagens muito mais claras e nítidas que o
telescópio aéreo, além de ter uma operação mais simples. Esse experimento decretou
o fim da era desses instrumentos. Nos dias atuais, a poluição luminosa causada pela
iluminação pública já tornaria inviáveis tais aparelhos.
O século XVIII se inicia com uma previsão feita por Edmond Halley, em 1706, acerca
do retorno de um cometa em 1751. Halley, que era amigo de Newton, havia calculado a
órbita do cometa quando de sua última passagem e estimou o período necessário para
a sua volta em aproximadamente 76 anos. Ele procurou em arquivos por passagens
similares de um cometa nas datas calculadas, no passado, e encontrou descrições muito
semelhantes ao objeto que havia observado. Quando enfim o cometa retornou, Halley já
havia falecido, mas o cometa foi nomeado em sua homenagem, iniciando uma tradição
de batizar novos cometas com o sobrenome de seu descobridor.
No início da década de 1720, o astrônomo de Oxford James Bradley encontrou uma
explicação para a aberração estelar. Aberração astronômica ou aberração estelar é
um tipo de aberração da luz que faz com que os objetos celestes pareçam se deslocar
na direção do deslocamento do observador quando este está em movimento. Bradley
explicou corretamente que o desvio era causado por uma relação entre a velocidade
do observador (a velocidade de translação da Terra), dividida pela velocidade da luz.
Bradley posteriormente descobriu e explicou outra variação periódica na posição das
estrelas, a nutação. Assim como a aberração estelar, o efeito da nutação é muito pequeno
e é causado por interações entre as posições da Terra, da Lua e do Sol, provocando
pequenas oscilações no movimento de precessão, que, como vimos anteriormente, havia
sido descoberto por Hiparco, na Grécia antiga. Bradley publicou sua descoberta em 1748,
após 20 anos de observações.
Um avanço importante no desenvolvimento dos telescópios aconteceu no ano de 1729,
quando Chester Moore Hall desenvolveu o primeiro refrator acromático. Ele construiu
uma lente objetiva dupla, na verdade formada por duas lentes, cada uma fabricada com
um tipo diferente de vidro, com diferentes taxas de refração. A combinação do dupleto
fazia com que a trajetória dos raios de luz de cor azul e vermelha fosse alterada e que
os dois feixes passassem a fazer o foco em um mesmo ponto, ou muito próximo disso,
anulando ou minimizando em muito os efeitos da aberração cromática (ver figura 13).
Alguns anos depois, o fabricante de telescópios John Dollond patenteou a invenção,
embora, aparentemente, só tivesse efetivamente construído algum instrumento desse
tipo depois de conhecer o trabalho de Hall através de George Bass, que também havia
feito alguns telescópios de acordo com as instruções de Hall. A patente adicionava um
custo a outros fabricantes de telescópios que viessem a construir instrumentos desse
tipo. Após a morte de John Dollond, seu filho Peter Dollond tomou algumas providências
com o objetivo de manter a patente, fazendo com que vários outros fabricantes se
manifestassem contrários a isso – entre eles o próprio Bass, que havia mostrado seus
trabalhos a Dollond, além de Benjamin Martin, Robert Rew e Jesse Ramsdem, entre
25
outros. Esses fabricantes conseguiram suspender judicialmente a patente, convencendo
os juízes de que seria incorreto que os Dollond recebessem algum tipo de remuneração
em detrimento de outros construtores que haviam desenvolvido o sistema anteriormente.
Os custos legais da ação, entretanto, fizeram com que vários fabricantes de telescópios
tivessem que fechar seus negócios.

Figura 13 - À esquerda, aberração cromática, em que o foco das luzes de variadas cores não se forma
no mesmo ponto. À direita, objetivas acromáticas: duas lentes com formatos diferentes e tipos de
vidros diferentes, que, quando combinadas, resolveram o problema da aberração cromática. Desenho:
Francisco Conte.

Apesar do caráter um tanto quanto duvidoso demonstrado na questão da patente


dos refratores acromáticos, Dollond era considerado um bom fabricante de telescópios,
com alguns de seus instrumentos ainda disponíveis no mercado de colecionadores.
Os instrumentos de Dollond eram normalmente telescópios refratores com pequenos
diâmetros, da ordem de 2 a 3 polegadas, ou seja, com 5,1 a 7,6 cm de diâmetro. Um de
seus rivais na disputa da patente, Jesse Ramsdem era um construtor de telescópios bem
conceituado e produziu alguns dos melhores instrumentos da época, tanto refratores
como refletores. Um de seus telescópios era um gregoriano com 15 cm de diâmetro, o
que demonstrava o avanço que esses instrumentos estavam alcançando na época (ver
figura 14) .

Figura 14 - Telescópios históricos em exposição no Deutsches Museum, em Munique. O grande modelo


gregoriano dourado à esquerda e a luneta verde foram fabricados por John Dollond, na primeira metade do
século XVIII. Foto: Francisco Conte.
26
O ano de 1730 é aquele em que ocorrem as primeiras observações astronômicas
no Brasil como colônia portuguesa. Na cidade do Rio de Janeiro, os jesuítas instalaram
um observatório em seu colégio, no Morro do Castelo. Posteriormente, no mesmo local,
em 1780, os astrônomos portugueses Sanches D’Orta e Oliveira Barbosa montaram um
observatório e passaram a realizar observações regulares de astronomia e meteorologia.
Em 1750, o astrônomo e matemático Nicolas-Louis de Lacaille partiu da França
para a África do Sul, onde se estabeleceu no Cabo da Boa Esperança. Ele instalou
um observatório com a intenção de calcular a distância entre os planetas a partir da
trigonometria, comparando posições observadas simultaneamente nos dois hemisférios.
Porém, Lacaille não se limitou à observação de planetas: de seu novo observatório ele
era capaz de observar uma faixa considerável do céu impossível de ser vista da Europa.
Lacaille começou então a sistematicamente medir e anotar a posição de cerca de 10 mil
estrelas do hemisfério sul, agrupando-as em 14 novas constelações que ele criou e que
são reconhecidas e utilizadas até os dias atuais. Lacaille era um habilidoso, paciente e
minucioso observador e foi o responsável por elaborar o primeiro catálogo de estrelas do
Hemisfério Sul.
A tendência a construir telescópios de maior porte favorecia os fabricantes de
telescópios refletores, que nessa época utilizavam espelhos metálicos feitos de ligas
complexas que combinavam vários metais e outros elementos, variando de fabricante
para fabricante. Um dos melhores construtores de telescópios da época foi James Short,
que se especializou na fabricação de gregorianos, com um acabamento impecável e boas
características técnicas. Entre 1750 e 1752 ele construiu seus dois maiores instrumentos,
um com 45 cm de diâmetro e outro com 50 cm de diâmetro, com uma capacidade de
coleta de luz muito superior à dos outros aparelhos de então. Nos anos seguintes, dois
religiosos construíram os maiores instrumentos do período. Em 1761, o padre Noël, na
França, construiu um telescópio gregoriano com 60 cm de diâmetro, mas com um fraco
desempenho, razão pela qual foi convertido para foco newtoniano em 1796. Em 1780, o
reverendo Mitchel construiu um refletor com 75 cm de diâmetro, mas as descrições do
instrumento parecem indicar que não possuía boas características técnicas e que tinha
um desempenho muito modesto para suas dimensões. Era inegável, no entanto, que os
instrumentos do período já haviam progredido de maneira notável e eram tremendamente
mais eficazes que os da época de Galileu.
O astrônomo amador inglês John Goodricke, com apenas 18 anos de idade, observou
cuidadosamente a variação de brilho da estrela Algol, na constelação do Perseu, cuja
variabilidade já era conhecida. Goodricke estava muito interessado em observar estrelas
que apresentassem variações em seu brilho e recebeu de seu vizinho, o astrônomo Edward
Pigott, uma lista de variáveis conhecidas. Durante seus poucos anos de observação
Goodricke descobriu outras mais. Após analisar com muito cuidado a variação de brilho
de Algol, Goodricke encontrou a explicação para a variação: tratava-se de fato de duas
estrelas, girando uma em torno da outra. Quando uma das estrelas passava na frente
da outra, a intensidade de brilho do par diminuía, e a mesma coisa ocorria, porém com
diferente intensidade, quando acontecia o inverso. A explicação era correta e esta foi a
primeira de uma série de estrelas que ficaram conhecidas como binárias eclipsantes –
somente possíveis quando a órbita do par de estrelas está alinhada com o observador

27
(ver figura 15). Goodricke descobriu também que a estrela Delta Cephei variava de
forma regular. Foi a primeira descoberta de uma classe de estrelas que chamamos de
variáveis cefeidas, as quais posteriormente seriam a chave para o cálculo de distância
de aglomerados distantes e galáxias. Goodricke apresentou seus trabalhos na Royal
Society em 1873 e infelizmente faleceu pouco depois, de pneumonia, aos 21 anos.

Figura 15 - Binárias eclipsantes: um sistema binário de estrelas, em que, eventualmente, uma passa pela
frente da outra, com consequente redução do brilho total para o observador. Essa redução de brilho é
diferente quando a estrela menos brilhante passa na frente ou atrás da estrela principal. Os dois eventos
se repetem periodicamente, podendo ser prevista a data de um novo eclipse. Esse tipo de gráfico, que
observamos na parte inferior da figura, onde foi plotado o brilho do objeto em função do tempo, é chamado
de curva de luz. Desenho: Francisco Conte.

Em 1782 o astrônomo francês Charles Messier publicou o seu catálogo de objetos


difusos, com 107 objetos, que posteriormente foi acrescido de três objetos descobertos
por outros astrônomos. Messier era um astrônomo que tinha como obsessão encontrar
novos cometas – ele descobriu nada menos que 20 durante sua carreira. Para facilitar
sua busca, criou um catálogo de objetos difusos, já que estes podiam facilmente ser
confundidos com um cometa. O catálogo se tornou extremamente popular e Messier
é lembrado no meio astronômico por esse trabalho e não pelos cometas. Entre os
astrônomos amadores existe um desafio de habilidades chamado de “Maratona Messier”,
que consiste em observar todos os objetos do catálogo em uma única noite. A época mais
propícia, para os observadores de latitudes baixas do hemisfério norte, vai de meados de
março ao início de abril.

William Herschel
O próximo personagem da história do desenvolvimento do telescópio e das descobertas
feitas a partir da sua invenção sem dúvida é o maior observador de sua época e com
certeza um dos maiores da história da astronomia, embora de início fosse um músico.
William Herschel nasceu na Alemanha e mudou-se para a Inglaterra para trabalhar
como organista e compositor, estabelecendo-se na cidade de Bath. Ele desenvolveu

28
uma paixão pela astronomia e, como tinha poucas
posses, começou ele próprio a construir, com muita
habilidade, seus próprios telescópios. Seu primeiro
modelo foi concluído em 1774. Com o tempo ele
construiu muitos instrumentos, aproveitando
para vender alguns deles para ajudar a equilibrar
suas finanças. Sempre auxiliado por sua irmã
Caroline, que compartilhava seu entusiasmo pela
astronomia, aos poucos Herschel acabou por
praticamente transformar sua casa em Bath em
uma oficina de fabricação de telescópios.
Em março de 1781 Herschel observou um
objeto que, diferentemente das estrelas, aparecia
ao telescópio como um pequeno disco de cor
esverdeada. Ele continuou a observar o objeto
por vários dias, percebendo que o mesmo estava
se deslocando em relação às estrelas fixas.
Herschel concluiu que o objeto era um planeta.
Posteriormente batizado de Urano, esse planeta
foi o primeiro a ser descoberto desde a Pré-
-História. Era um feito incrivelmente surpreendente Figura 16 - William Herschel descobrindo
para a sociedade da época. Sem saber, Flamsteed Urano, com a colaboração de Caroline
Herschel. Ilustração: Paul Fouché. Fonte:
havia observado o planeta em seis ocasiões Wikimedia Commons.
diferentes, e outro astrônomo, Pierre Lemonier, o
avistou nada menos que 12 vezes, sendo quatro
delas em noites consecutivas. O mais inusitado é
que Urano, em condições ideais, pode ser visível
a olho nu, tornando difícil entender como sua
descoberta demorou tanto. O feito tornou Herschel
famoso em toda a Europa (ver figuras 16 e 17)
e fez com que o rei George III acabasse por lhe
conceder o cargo de astrônomo da corte, com uma
modesta remuneração anual. Posteriormente,
ele foi aclamado membro da Royal Society.
Em uma visita ao Observatório de Greenwich,
Herschel levou alguns de seus instrumentos e
escreveu à sua irmã Caroline muito feliz porque os
telescópios construídos por eles haviam causado
uma excelente impressão. Eles apresentaram um
desempenho superior aos utilizados em Greenwich,
uma vez que eram capazes de resolver facilmente
Figura 17 - Telescópio fabricado pela família
algumas estrelas duplas, tarefa que os telescópios Herschel, semelhante ao que foi utilizado
do observatório não conseguiam reproduzir. na descoberta de Urano, em exposição no
Deutsches Museum, em Munique. Foto:
Antes mesmo da descoberta de Urano, Herschel Francisco Conte.

29
já havia feito trabalhos importantes. Por exemplo, em uma única noite (em 11 de abril de
1775), ele descobriu e catalogou uma série de 70 nebulosas, que hoje sabemos que
na verdade eram galáxias, além de outras três que também eram galáxias, mas que
já haviam sido observadas anteriormente pelo próprio Herschel. Na verdade, Herschel
havia descoberto o aglomerado de galáxias de Coma Berenices, mas não se deu conta
do fato. A descoberta do aglomerado, no entanto, é atribuída a Heinrich d’Arrest, que
reconheceu o grupo muito posteriormente, em 1865.
Nos anos que se sucederam, Herschel fez uma série de descobertas astronômicas,
como dois satélites de Saturno (Mimas e Encélado), além de dois de Urano (Titânia e
Oberon). Ele percebeu que as calotas polares de Marte aumentavam e diminuíam de
acordo com as estações do ano, conseguiu pela primeira vez entender e quantificar o
movimento solar, percebendo que seu ápex estava na direção da estrela Lambda Herculis,
apenas dez graus distante do ponto aceito atualmente. Herschel montou um catálogo de
estrelas duplas e, baseado no catálogo de Messier, desenvolveu um catálogo de objetos
difusos que contava com mais de dois mil objetos. Herschel foi o primeiro a perceber
que algumas estrelas duplas eram na verdade sistemas binários e se comportavam de
acordo com as leis de Newton e estimou o brilho aparente de muitas estrelas, dando os
primeiros passos para o desenvolvimento de uma área pouco explorada da astronomia:
a fotometria. Sua irmã, Caroline, descobriu nada menos que oito cometas, o que era um
feito muito respeitável no meio astronômico da época, além de uma série de nebulosas,
entre elas uma galáxia anã companheira de Andrômeda – uma descoberta tão notável
que foi incorporada ao catálogo de Messier, sendo batizada como M110. Além disso,
Caroline auxiliou o irmão em grande parte de suas observações.
Herschel foi um excepcional fabricante de telescópios, construindo os maiores e
melhores instrumentos de seu tempo, sempre com a colaboração de Caroline. Embora
seu melhor instrumento tenha sido um newtoniano com 47,5 cm de diâmetro, ele chegou
a construir telescópios de grande porte, dois com 60 cm de diâmetro, um dos quais foi
vendido ao governo da Espanha e destruído pelas tropas de Napoleão Bonaparte, e o
outro ironicamente vendido a Lucien Bonaparte, irmão do imperador. Seu maior projeto,
no entanto, foi um gigantesco telescópio de 1,22 m de diâmetro, o maior do mundo até
então. O grande instrumento era, no entanto, difícil de ser operado e seu enorme espelho
metálico tinha uma tendência a atingir o ponto de orvalho e condensar após um período
de observação relativamente curto. Nessa época os espelhos eram construídos com ligas
de metal, acrescidas de compostos diversos, que variavam de um construtor para outro.
Os espelhos fabricados com essa mistura, chamada de speculum, ou metal speculum,
refletiam apenas cerca de 60% da luz que recebiam e frequentemente oxidavam, o que
obrigava à realização de novos polimentos em sua superfície, redundando em perda
gradual da curvatura ideal e degradando as observações (ver figuras 18 e 19).
Herschel desenvolveu ainda dois trabalhos importantíssimos para a história da
astronomia, sendo o primeiro deles a elaboração de um mapa do “universo”. Na verdade,
hoje entendemos que esse mapa, completado por ele em 1785, abarca parte da nossa
galáxia. Como não era possível calcular a distância das estrelas, Herschel dividiu o céu
em partes iguais e contou o número de estrelas em cada uma dessas áreas. Nesse
processo, ele descobriu que a distribuição das estrelas não era uniforme, já que existiam
duas regiões principais, em lados opostos, onde o número de estrelas observado era
30
muito maior que nas demais. O que Herschel não
sabia é que ele estava mapeando de maneira
muito hábil o braço espiral de nossa galáxia, que
só foi reconhecido como tal no século XX. Foi a
primeira vez que um astrônomo conseguiu fazer
um mapeamento do universo, apesar de todas as
limitações, tanto instrumentais quanto teóricas,
com um resultado concreto, que perdurou como
nosso paradigma cosmológico até o final do século
XIX.
O outro trabalho importante de Herschel foi
a descoberta de uma luz que nosso olhos não
conseguiam enxergar. Na virada do século,
Herschel começou a trabalhar com espectros,
que haviam sido descobertos por Isaac Newton.
Em uma de suas experiências, realizada no ano
Figura 18 - Ilustração da Encyclopedia
de 1800, Herschel resolveu tentar descobrir se Londinensis de 1819, mostrando o grande
alguma das diversas luzes coloridas do espectro telescópio de 1,22 m de diâmetro de William
era a responsável pelo transporte do calor Herschel. Fonte: Wikimedia Commons.
proveniente do Sol. Ele preparou um dispositivo

Figura 19 - Parte do tubo do grande telescópio de 1,22 m de William Herschel, em exposição no Observatório
de Greenwich, em Londres. O restante do tubo foi destruído pela queda de uma árvore. Foto: Francisco
Conte.

31
que permitia a entrada de uma faixa estreita de luz, a qual atravessava um prisma e se
decompunha em um espectro. Herschel direcionou a luz para uma mesa e sobre ela
posicionou uma série de termômetros, cada um em uma cor diferente. Para aumentar
o controle da experiência, instalou mais dois termômetros: ambos ficaram na parte
escura, um ao lado da faixa azul, em uma ponta, e outro ao lado da faixa vermelha, na
outra extremidade. Herschel percebeu que, entre as cores, aquela onde os termômetros
apontavam para o maior aumento de temperatura era a luz vermelha. A grande surpresa é
que de todos os termômetros o que apontou a temperatura mais elevada era o que ficava
na faixa escura, ao lado da luz vermelha. A conclusão era surpreendente. Havia uma
luz que nossos olhos não conseguiam ver, mas que os termômetros percebiam. A essa
descoberta foi posteriormente dado o nome de infravermelho, a luz que existe abaixo da
faixa da luz vermelha. Foi uma descoberta muito importante, por ser a primeira frequência
do espectro eletromagnético além da luz visível a ser conhecida. Esses trabalhos
incentivaram pesquisas similares e, no ano seguinte, Johan Hitter descobriu o ultravioleta.
Esta é provavelmente a mais importante descoberta de William Hershel em toda sua
carreira, embora muitos historiadores da astronomia não façam menções a esse feito (ver
figura 20).

Figura 20 - Desenho esquemático da experiência de William Herschel que acabou por descobrir o
Infravermelho. Herschel permitiu que uma fresta em um aposento fechado deixasse entrar a luz solar, fez
com que esta atravessasse um prisma, decompondo a luz em suas várias cores, instalou termômetros
em cada faixa de luz colorida e nas duas extremidades, onde estava escuro, como controle. Para sua
surpresa o termômetro instalado no escuro, ao lado da luz vermelha, foi o que mais aqueceu. Desenho:
Francisco Conte.

Para a astronomia, essa experiência significou o início de uma nova era, pois representa
a utilização do primeiro detector astronômico que não era o olho humano. Durante todos
os séculos em que a astronomia se desenvolveu antes da invenção do telescópio, o único
instrumento óptico de que dispusemos foi o olho humano. Mesmo depois da invenção do
telescópio, eram nossos olhos que detectavam a luz captada pelos instrumentos. Na
experiência de Herschel a luz é captada pelos termômetros, o que nossos olhos vão
observar não é a luz que vem diretamente das estrelas, mas sim o efeito que essa luz
provoca nos detectores, neste caso os termômetros.
32
Século XIX
O século XIX começa com uma descoberta logo na primeira noite. Em 1o de janeiro
de 1801, o astrônomo italiano Giuseppi Piazzi descobre o asteroide, hoje planeta anão,
Ceres. A órbita de Ceres está localizada entre as órbitas de Marte e Júpiter. Inicialmente
Ceres foi classificado como planeta, mas a constatação de que era um objeto muito
pequeno em comparação aos planetas e a descoberta de mais três objetos semelhantes
nos anos seguintes (Palas, descoberto em 1802 por Olbers, Juno, descoberto em 1804
por Karl Harding, e Vesta, também descoberto por Olbers em 1807) fizeram com que
se percebesse que uma nova classe de objetos astronômicos havia sido encontrada. O
termo “asteroide” foi proposto por William Herschel, que na época era provavelmente o
mais prestigiado astrônomo do mundo.
Em 1804, o físico, médico e egiptólogo Thomas Young publicou seus trabalhos sobre
óptica, em que comprovava o caráter ondulatório da luz. Young realizou um experimento
famoso, em que analisou o comportamento da luz ao atravessar duas fendas. Como
resultado, ele constatou que ocorria um processo de interferência da luz, de maneira
similar ao que acontece com as ondas em um tanque de água.
O resultado do chamado “experimento da dupla fenda” ratificou as suposições de
Christiaan Huygens e posteriormente de René Descartes, Robert Hooke e Leonhard
Euler, que defendiam o caráter ondulatório da luz em oposição à hipótese da luz como
partícula, de Isaac Newton. Mas esta história não termina aqui.
O único filho de William Herschel, John Herschel, foi também um astrônomo de grande
importância, complementando vários trabalhos iniciados por seu pai. John Herschel viajou
para o Hemisfério Sul para completar o catálogo de objetos difusos e nebulares iniciado
por seu pai. Ele se instalou na África do Sul levando um telescópio de grandes dimensões
construído pela família. John Herschel catalogou 1.707 nebulosas do hemisfério sul,
das quais 1.268 foram descobertas por ele. Desenhou o melhor mapa da época para
a Grande Nuvem de Magalhães, que hoje sabemos ser uma galáxia anã satélite da Via
Láctea, e observou uma mudança de brilho bastante significativa na estrela Eta Carinae.
O catálogo, ampliado, foi publicado em 1864. Posteriormente ele seria complementado
também por John Dreyer e ficou conhecido como New General Catalog, ou NGC.
Na época, a maioria dos observatórios profissionais optava por adquirir telescópios
refratores, com uma crescente qualidade na fabricação de conjuntos de lentes acromáticas,
embora a abertura dos equipamentos não fosse muito grande quando comparada à dos
refletores do mesmo período (telescópios refletores haviam atingido até um diâmetro de
1,20 m). Os refratores do período eram bem menores, com diâmetros variando de 15 cm
a 20 cm de abertura nos melhores casos. Essa opção um tanto conservadora tinha como
razão as limitações dos sítios, que, apesar de muito escuros para os padrões de hoje,
eram bastante inadequados para o desenvolvimento da astronomia. Os telescópios eram
instalados normalmente em observatórios construídos nas cidades, abaixo da camada
de inversão térmica, e em regiões sem clima apropriado, o que comprometia a qualidade
das observações. Dessa forma, às vezes era contraproducente adquirir um instrumento
caro, grande e de difícil operação, pois os resultados alcançados estariam comprometidos
pela qualidade do sítio. Além disso, a astronomia da época era praticamente limitada

33
a trabalhos de astrometria, ou seja, à medição de posição dos astros, e à eventual
descoberta de algum cometa ou asteroide, por exemplo.
Um dos principais fabricantes de telescópios do período foi Joseph von Fraunhofer,
que começou a trabalhar ainda adolescente como ajudante em uma fábrica de vidros. Ele
foi salvo de um desabamento na fábrica, e o príncipe Maximilian Joseph, que liderava o
resgate, atuou a partir de então como seu benfeitor, dando condições para que Fraunhofer
pudesse estudar. Ele acabou trabalhando no Instituto de Óptica, do qual acabou se
tornando diretor. Lá, Fraunhofer ajudou a desenvolver vários tipos de vidros, que se
destinavam a usos e finalidades diferentes. No instituto ele construiu aquele que seria
considerado o primeiro refrator acromático moderno, que também possuía uma montagem
equatorial, o que permitia o acompanhamento de objetos celestes por grandes períodos
de tempo apenas girando um eixo do instrumento. Esse telescópio é o refrator de Dorpat,
que foi instalado no Observatório de Tartu, na Estônia, que funcionava sob o comando do
astrônomo Friedrich Wilhelm von Struve. O refrator de Dorpat era considerado o melhor
telescópio de sua época. Mais à frente veremos a importante participação de Fraunhofer
no capítulo referente à espectroscopia.
Em 1827 é criado no Brasil o Imperial Observatório, hoje Observatório Nacional, na
cidade do Rio de Janeiro, uma das primeiras instituições científicas a operar no país.
O observatório foi criado por ordem de Dom Pedro II e nos anos iniciais foi instalado
no torreão da escola militar e dirigido pelo professor de matemática Pedro de Alcântara
Bellegarde. Nas primeiras décadas de funcionamento do observatório o trabalho quase
exclusivo da instituição foi o treinamento de alunos das escolas militares de mar e terra.
A partir de 1871 o Observatório Nacional foi afastado de seu caráter militar e passou a
dedicar-se exclusivamente à pesquisa e à prestação de serviços à população nas áreas
de meteorologia, astronomia e geofísica e se tornou o órgão oficial a cuidar da medição
do tempo e encarregado de anunciar a hora oficial.
Um dos grandes desafios da época, a partir da evolução dos instrumentos ópticos, era
a medida da paralaxe estelar, que permitiria calcular a distância até as estrelas. O mesmo
método já havia sido empregado para calcular a distância da Lua e posteriormente por
Christian Huygens para finalmente compreendermos a escala do sistema solar. Acontece
que calcular a distância para as estrelas era um feito muito difícil, por duas razões. A
primeira é que a base necessária teria que ser muito grande. Isso podia ser resolvido com
duas observações realizadas com seis meses de diferença, garantindo uma base com o
dobro do raio da órbita da Terra ao redor do Sol, ou aproximadamente 300 milhões de km.
A segunda é que mesmo com essa base, o ângulo de paralaxe seria muito pequeno. Uma
série de estrelas que apresentavam um movimento próprio grande foram selecionadas
como possíveis candidatas, pois seu grande movimento relativo seria uma indicação
de sua proximidade. Em 1838, o astrônomo alemão Friedrich Bessel, trabalhando no
Observatório de Königsberg, conseguiu medir a distância da estrela 61 Cygni, uma obscura
estrela invisível a olho nu. Ela apresentava um ângulo de paralaxe de 0,314 segundos de
arco, resultando em uma distância de 10,3 anos-luz (hoje as melhores medidas apontam
para uma distância de 11,4 anos-luz). Quase ao mesmo tempo outros dois astrônomos
apresentaram seus cálculos, mostrando a distância de outras duas estrelas: Friedrich
Wilhelm von Struve, trabalhando no refrator de Dorpat, estimou a distância a Vega,

34
enquanto o escocês Thomas Harrison, que na época trabalhava no Observatório Real
no Cabo da Boa Esperança, na África do Sul, conseguiu calcular a distância de Alfa
Centauri, que é na verdade a estrela mais próxima do Sistema Solar. Como no caso de
Galileu com as luas de Júpiter e os desenhos da Lua, o mérito da descoberta coube a
Bessel, o primeiro a publicar o trabalho.
O planeta Mercúrio sofre perturbações periódicas em sua órbita que não podiam ser
explicadas com os conhecimentos da época. Na verdade a explicação só viria com os
trabalhos de Einstein no início do século XX, mas disso falaremos posteriormente. Uma
das possíveis explicações seria a existência de um hipotético planeta desconhecido,
que tivesse uma órbita mais próxima ao Sol do que Mercúrio. Esse planeta, na verdade
inexistente, chegou até a receber um nome: Vulcan ou Vulcano. Vários astrônomos
dedicaram-se a procurar esse novo planeta, que chegou inclusive a ser anunciado em
algumas ocasiões. Um desses astrônomos, o alemão Samuel Schwabe, acabou por
descobrir algo importante em suas observações do disco solar, à procura do planeta
desconhecido: as manchas solares obedeciam a um ciclo que variava de um mínimo de
manchas a um máximo de manchas a cada onze anos. Após essa descoberta, divulgada
por Schwabe em 1826, o astrônomo Suiço Rudolf Wolf lançou-se em um trabalho hercúleo
de análise de registros de observações de manchas solares, conseguindo remontar os
ciclos até o ano de 1755, que passou a ser conhecido como o ciclo 1 (1755 a 1766). Hoje
estamos iniciando o ciclo 25. Essa foi uma descoberta que direciona até os dias atuais o
estudo do Sol.
Um dos pontos altos da astronomia na época foi a descoberta de Netuno, pois esta
ocorreu devido a uma convergência entre a teoria física, boa capacidade observacional
e o desenvolvimento tecnológico trabalhando em conjunto. Analisando a órbita de Urano,
um planeta que havia sido descoberto algumas décadas antes, o químico e astrônomo
francês Urbain Le Verrier percebeu algumas perturbações no movimento do planeta.
Essas perturbações poderiam ser explicadas por outro corpo planetário de massa
significativa que estivesse localizado mais afastado do Sol. Le Verrier iniciou um meticuloso
cálculo para tentar encontrar a fonte das irregularidades usando a lei da gravitação de
Newton. Após uma série de análises e repetições do processo, ele chegou ao final de
seu trabalho com a certeza da existência de um novo planeta, incluindo sua localização
aproximada no céu. Le Verrier apresentou suas conclusões na Académie de Sciences
em Paris em 1846. Além disso, enviou cópias de seu trabalho a vários astrônomos. Em
Berlim, o astrônomo Johann Galle recebeu sua cópia no dia 23 de setembro do mesmo
ano. Pediu permissão aos diretores do observatório e foi autorizado a iniciar a busca
pelo possível planeta. Ele e seu colaborador Heinrich d’Arrest acabaram por encontrar
Netuno na mesma noite, afastado apenas 1 grau da posição prevista por Le Verrier (ver
figura 21). Na mesma época dos trabalhos de Le Verrier, outro astrônomo, o inglês John
Couch Adams, havia desenvolvido um trabalho independente e muito semelhante, com
resultados similares, mas não publicou seus resultados antes da descoberta de Galle.
Houve certa controvérsia quanto a quem deveria receber os créditos pelo achado, mas,
segundo consta, até o próprio Adams entendia que o trabalho de Le Verrier era mais
preciso e merecia as honras.

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Figura 21 - O telescópio onde foi feita a descoberta de Netuno, por Galle e D’Arrest, em 1846, em Berlim.
O telescópio foi fabricado pelo atelier de Fraunhofer, que na época já havia falecido. Em exposição no
Deutsches Museum, em Munique. Foto: Francisco Conte.
Após a descoberta de Netuno, verificou-se que vários astrônomos já haviam observado
o novo planeta, sem se dar conta do que estavam vendo. John Herschel observou Netuno
em várias ocasiões. O mais surpreendente, porém, é que Netuno havia sido observado
por Galileu, pois na época em que Galileu fez suas observações de Júpiter Netuno
estava muito próximo. No Ano Internacional da Astronomia, em 2009, Netuno estava em
posição similar, nas proximidades de Júpiter, e podia ser observado facilmente mesmo
com binóculos.
É importante ressaltar o trabalho de dois astrônomos que construíram os maiores
telescópios do período. O primeiro foi William Lassel, que construiu um telescópio
com 1,20 m de diâmetro, aproximadamente o mesmo tamanho do telescópio gigante
construído por William Herschel, ainda utilizando espelhos de ligas metálicas, porém com
uma montagem muito mais avançada, e o instalou na ilha de Malta, no ano de 1855.
Lassel previamente já havia descoberto o satélite Hipérion, de Saturno, os satélites Ariel
e Umbriel, de Urano, e o satélite Tritão, de Netuno.
O outro astrônomo a construir um telescópio gigante foi o rico aristocrata William
Parsons, Lorde Rosse, que construiu aquele que se tornaria o maior telescópio do mundo,
com um espelho com mais de 1,80 m de diâmetro, instalado no Castelo de Birr, em
Parsonstown, na República da Irlanda (ver figura 22). Esse instrumento ficou conhecido
como Leviatã. O telescópio era uma maravilha tecnológica e representava em muitos

36
aspectos um limite para as possibilidades da época. Ele foi concluído em 1845, mas
o local de sua instalação era pouco apropriado para observações astronômicas, além
de sua operação ser bastante limitada devido ao conjunto óptico muito pesado. Rosse
instalou seu instrumento entre duas paredes de alvenaria, que limitavam seu ângulo de
operação. Para compensar essa limitação, a orientação da montagem foi feita no sentido
do meridiano, o que permitia que o telescópio observasse quase todo o céu. O espelho
construído em speculum apresentava problemas de condensação após algumas horas
de operação. Com esse instrumento, Lorde Rosse conseguiu observar pela primeira vez
as estruturas em espiral de algumas nebulosas que hoje sabemos serem galáxias.

Figura 22 - O Leviatã de Parsonstown, construído pelo Lorde Rosse, o maior telescópio de seu tempo. Foi
neste instrumento que pela primeira vez se observaram as estruturas de braços em espiral de galáxias.
Fonte: Wikimedia Commons.

Em 1856 o astrônomo Norman Robert Pogson, do Radcliffe Observatory em Oxford,


publica um trabalho sobre o sistema de magnitudes, criado na Grécia antiga por Hiparco
de Niceia. Considerando que para uma diferença de cinco magnitudes o aumento real de
luminosidade necessário seria da ordem de cem vezes, ele calculou a razão de aumento
para cada magnitude em 2,512. Com esse valor, que ficou conhecido como Taxa de
Pogson, tornou-se possível calcular a relação entre luminosidades de duas estrelas.

37
A origem dessa taxa está ligada diretamente à forma como o cérebro humano
compreende a luz captada pelos nossos olhos. Nossa visão entende a luz de forma
logarítmica e não linear. Uma forma simples de entender esse funcionamento é a utilização
de velas para iluminar uma sala escura. Se já existe uma vela acesa e se acende uma
segunda, nossa percepção é de um grande aumento de luminosidade; ao acendermos
mais duas velas esperando o mesmo aumento, somos surpreendidos com uma diferença
quase imperceptível para nosso cérebro. É possível ver o assunto mais detalhadamente
no apêndice sobre magnitudes. Pogson era também um ótimo astrônomo observacional
e descobriu não menos do que oito asteroides, 106 estrelas variáveis e um cometa.
Gradualmente alguns avanços iam sendo incorporados aos telescópios. Nos anos
1860, Edward Pickering, trabalhando em Cambridge (EUA), desenvolveu vários tipos de
fotômetros, instrumentos dedicados à medição da quantidade de luz de um objeto celeste.
A empresa Alvan Clark & Sons construiu vários desses instrumentos de acordo com os
projetos ópticos de Pickering. Um deles, chamado Polaris, consistia em um aparato com
um tubo fixo, apontado para a estrela Polar, e permitia também a observação de uma
segunda estrela. Com um sistema de prismas acoplado a um botão giratório era possível
calibrar o instrumento até que o brilho das duas estrelas ficasse similar, possibilitando a
estimativa da diferença de brilho entre os dois objetos. O instrumento era acoplado em
um telescópio refrator, e normalmente o trabalho era realizado em dupla, com Pickering
sendo em geral acompanhado por Arthur Searle ou por Oliver Wendel. Cada astrônomo
fazia quatro medidas independentes de cada estrela, num total de oito medições. Durante
uma noite típica de trabalho a equipe conseguia medir o brilho de várias centenas de
estrelas. As medições eram passadas a uma computadora, Nettie Farrar, que tabulava
os dados e comparava com a magnitude da estrela Polar. Após uma série de cálculos
levando em conta a média das medições era feita uma estimativa da magnitude aparente
de cada estrela. Em três anos de utilização do instrumento a equipe havia conseguido
fazer a medição de magnitude de todas as estrelas que podiam ser observados naquele
telescópio em todo o céu noturno de Cambridge, como pode ser visto em Sobel
(2016, p. 12).
Na segunda metade do século XIX, os telescópios refratores utilizados na maioria dos
observatórios profissionais já permitiam a observação de objetos celestes com brilho
muito fraco, com magnitude aparente na casa de 14, o que representava uma diferença
de quatro magnitudes em relação aos primeiros telescópios utilizados por Galileu e
seus contemporâneos. Essa diferença é a mesma de quando os primeiros telescópios
suplantaram as observações a olho nu. Em pouco mais de 200 anos a tecnologia
desenvolvida havia dobrado a capacidade de observação dos astrônomos.
Chegamos aqui ao fim do período marcado pela primeira revolução tecnológica na
astronomia moderna. Isso não quer dizer que os telescópios tenham parado de ser
utilizados – o diferencial, a partir desse momento, foi que inovações surgidas em duas
áreas distintas – a fotografia e a espectroscopia – começaram a alterar drasticamente o
curso da história da astronomia, como veremos nos próximos capítulos.

38
Capítulo 2
Arquivando a luz – Fotografia
A fotografia é uma arte ou aplicação que consiste na obtenção de imagens duradouras
em uma superfície através de processos químicos, a partir de materiais sensíveis à
luz. A introdução da fotografia causou um grande impacto na sociedade do século XIX,
influenciando costumes e a história da arte, além de um grande número de aplicações
práticas. A história da astronomia foi bastante influenciada e beneficiada através da
introdução desta técnica.
Antes de falarmos da fotografia, vamos ver como funciona o olho humano (ver figura
23), que durante milênios foi o único detector disponível para a observação astronômica.
Na parte interior de nossos olhos se encontra a retina, que possui uma rede de células
que funcionam como detectores de luz. Estas células são conectadas através de fibras
nervosas até o nervo óptico e deste até o cérebro. As células detectoras da retina são de
quatro tipos diferentes: três tipos de cones e os bastonetes. Os nomes dessas células
foram atribuídos devido a seus formatos. Os vários tipos de cones são diferenciados pelo
pico de sensibilidade na captação de luz, sendo que o primeiro possui o pico na faixa de
comprimento de onda dos 400 nm (entre o violeta e o azul), o segundo na faixa dos 520
nm (verde) e o terceiro na faixa dos 580 nm (amarelo). A combinação desses três tipos
de células nos faz perceber as cores. Os cones, entretanto possuem baixa sensibilidade.

Figura 23 - Corte esquemático do olho humano. Desenho: Francisco Conte, baseado em Kitchin
(2009, p. 3).

39
Os bastonetes são todos de um único tipo, com pico de sensibilidade na faixa dos
510 nm (verde) (ver figura 24). Em um olho humano típico existem aproximadamente 108
bastonetes e cerca de 6 x 106 cones, com apenas 106 fibras nervosas, o que resulta em que
várias células são ligadas a uma mesma fibra nervosa. Os cones são mais abundantes na
fovea centralis, que é a área central da retina, onde chega a luz de um objeto para o qual
se está olhando diretamente. Os bastonetes são mais comuns nas áreas periféricas da
retina, ao passo que os cones vão rareando à medida que se afastam das áreas centrais.

Figura 24 - Células detectoras de luz do olho humano: cones (três tipos, com pico de sensibilidade em
cores diferentes) e bastonetes. Desenho: Francisco Conte, baseado em Kitchin (2009, p. 4).

O componente sensível à luz dos bastonetes é uma molécula chamada rodopsina


(no caso dos cones é a fotopsina). Quando submetida a altos níveis de iluminação, a
rodopsina é fortemente inibida e os bastonetes funcionam com baixa sensibilidade. Em
ambientes com baixa iluminação, a rodopsina se regenera em um período que vai de 20
a 30 minutos, variando de pessoa para pessoa e com a idade. O aumento da taxa de
40
rodopsina causa uma ampliação de aproximadamente cem vezes na sensibilidade dos
bastonetes, que atingem seu pico e passam virtualmente a controlar todo o processo da
visão. Para o observador astronômico esse fato traz duas consequências: a primeira é o
conhecido fenômeno da adaptação noturna, facilmente perceptível quando se começa a
observar o céu à noite em um local escuro. Em um primeiro momento o observador não
enxerga muitas coisas, mas aos poucos percebe que passou a ver muito mais claramente
os objetos celestes. Se durante o período de observação noturna o olho for submetido a
iluminação intensa, mesmo que breve (a luz de uma lanterna, por exemplo), a rodopsina
será destruída rapidamente, e um novo período de adaptação será necessário. Mas,
como a rodopsina é sensível apenas a frequências que variam de 380 nm a 600 nm,
se o astrônomo utilizar uma lanterna vermelha, de luz com comprimento de onda maior
que 600 nm, ele não vai perder a adaptação noturna. A outra consequência vem do fato
de existir apenas um tipo de bastonete. Em baixos níveis de iluminação, a sensibilidade
do olho humano em perceber cores cai drasticamente. Assim, quando um astrônomo
observa um objeto pouco luminoso, como uma galáxia, por exemplo, não vai conseguir
distinguir as cores que facilmente aparecem em uma foto do mesmo objeto.
Além disso, a distribuição dos cones e bastonetes na retina do olho humano faz com
que os observadores experientes criem algumas técnicas de observação. Uma bastante
utilizada é observar utilizando a visão periférica. Isso se faz não olhando diretamente para
o objeto, mas sim para um ponto imediatamente ao seu lado, e fazendo com que esse
objeto fique alinhado com as partes externas da retina, onde existe um maior número de
bastonetes, com maior sensibilidade à observação de objetos pouco luminosos. Utilizando
essa técnica o observador consegue ver objetos que não seriam percebidos caso
observados diretamente. Este procedimento requer treinamento por parte do observador,
pois o impulso natural ao se perceber o objeto em questão é olhá-lo diretamente.
Outra característica importante do olho humano é que sua resposta à luz é logarítmica,
o que faz com que não enxerguemos o aumento de iluminação de forma linear, como
vimos no capítulo anterior no exemplo das velas em uma sala escura. A escala de
magnitudes estelares, que é usada para avaliar o brilho aparente de estrelas, está
diretamente ligada a essa característica de nossos olhos. Para notarmos uma diferença
de seis magnitudes é necessário um aumento real de cem vezes na fonte iluminante.
A partir dessa medida podemos estimar em 2,512 a razão entre o aumento de luz na
fonte iluminante e a quantidade de luz percebida pelos nossos olhos. Assim, para nosso
olho sentir uma diferença para o dobro da luz inicial é necessário um aumento de 2,512
vezes; para perceber um aumento de três vezes é necessário um aumento de luz real
de 6,31 vezes; para perceber um aumento de quatro vezes é necessário um aumento
de luz de 15,85 vezes; para um aumento de cinco vezes é necessário um aumento real
de 39,81 vezes; finalmente, para um aumento de seis vezes percebido pelo nosso olho
é necessário um aumento de luz de cem vezes. Como a razão é logarítmica, o aumento
acontece de maneira cada vez mais acentuada; para um aumento de luz percebido pelo
olho humano como de 12 vezes é necessário um aumento real de 10.000 vezes da fonte
de luz. Em termos técnicos o olho humano percebe o aumento de luz em uma escala não
linear, assim como ocorre com a fotografia (ver figura 25).

41
Figura 25 - Gráfico com o desempenho de detecção da luz da fotografia, levando em conta o tempo de
exposição, pela densidade do sinal. Desenho: Francisco Conte, baseado em Smith (2007, p. 50).
A invenção da fotografia não pode ser atribuída a uma única pessoa, pois seu
aparecimento foi fruto de um processo que perdurou por décadas, desde o final do século
XVIII até meados do século XIX. Apenas um ano após a descoberta do infravermelho
por William Herschel, o físico alemão Johan Wilhelm Ritter, que nessa época pesquisava
materiais que reagiam à luz, fez uma experiência utilizando cloreto de prata. De maneira
similar ao trabalho de Herschel, Ritter decompôs a luz solar através de um prisma,
observando a reação causada por cada cor na substância. A intensidade da reação era
maior quando se observavam as cores mais azuladas, com o pico da intensidade no
violeta, que é justamente o limite da luz visível. Ele resolveu então testar a parte escura
do espectro ao lado do violeta e percebeu que a reação do cloreto de prata nessa região
era ainda mais intensa, tornando claro que existia um tipo de luz que nossos olhos não
podiam enxergar. O nome ultravioleta veio a partir do grego, em que “ultra” significa “além
de”, para designar uma região do espectro além do violeta.
Ritter não era o único cientista a pesquisar substâncias que reagiam à luz. Muito
trabalho estava sendo desenvolvido na época nessa direção. A mais antiga fotografia
conhecida foi feita por Nicéphore Niépce, na França, em 1826 ou 1827, com um processo
que demorava oito horas para cada imagem obtida. Seus trabalhos foram aperfeiçoados
por seu seguidor Louis Daguerre, que conseguiu diminuir a duração do processo para
alguns minutos. Em Campinas, Brasil, no ano de 1832, o francês Hercule Florence
desenvolveu um método de fotografia com a criação de uma imagem negativa e depois
outra positiva, processo que seria adotado como regra em todo mundo. Além disso,
Florence foi o primeiro a utilizar o termo “fotografia”. Na Inglaterra, William Fox Talbot
começou a realizar fotografias em papel e John Herschel, filho de William Herschel,
42
colaborou desenvolvendo novas técnicas (ver figura
26), assim como Frederick Scott Archer e Gabriel
Lippmann. Em 1861, Thomas Sutton conseguiu
produzir a primeira fotografia colorida, aplicando um
método proposto pelo físico James Clerk Maxwell
em um trabalho publicado em 1855.
A primeira tentativa de fazer uma fotografia
astronômica foi realizada por Daguerre em 1839,
com o objetivo de obter uma imagem da Lua,
mas problemas de acompanhamento durante a
longa exposição para obtenção da luz necessária
resultaram em uma imagem borrada e indistinta. Em
março de 1840, John Draper, professor de química
da Universidade de New York, conseguiu realizar a Figura 26
primeira fotografia astronômica de sucesso, obtendo
uma imagem da Lua num daguerreótipo, utilizando
um telescópio refletor de 13 cm de diâmetro com
uma exposição de 20 minutos (ver figura 27).
Após os trabalhos iniciais de Hercule Florence,
a fotografia se difundiu rapidamente no Brasil. Em
1840, o abade Louis Compte desembarcou no Rio
de Janeiro trazendo um daguerreótipo, e fez uma
demonstração ao imperador Dom Pedro II, que em
pouco tempo adquiriu uma câmera e tornou-se um
fotógrafo e entusiasta. Durante o século XIX vários
fotógrafos surgiram pelo país, desenvolvendo
trabalhos importantes de documentação da vida
nas cidades e da natureza, como Marc Ferrez,
Alberto Henschel e Militão Augusto de Azevedo,
entre outros. Figura 27

A primeira fotografia do Sol foi feita por Léon


Foucault e Hippolyte Fizeau em 1845. Em 28 de
julho de 1851 foi feita a primeira imagem de um
eclipse solar, por Julius Berkowski, do Observatório
de Königsberg (hoje Kaliningrado), utilizando um
telescópio refrator de 17 cm de diâmetro e um
daguerreótipo, com uma exposição de 40 a 45
segundos (ver figura 28).
Figura 26 - Fotografia do telescópio gigante de William Herschel,
feita por seu filho, John Herschel, uma das mais antigas fotos
produzidas no mundo. Fonte: Wikimedia Commons.
Figura 27 - Primeira fotografia astronômica de sucesso: a Lua,
por John Draper, em 1840. Fonte: Wikimedia Commons.
Figura 28 - Primeira imagem de um eclipse solar, por Julius
Berkowski, em 1851. Fonte: Wikimedia Commons. Figura 28

43
A primeira fotografia de uma estrela do céu noturno foi feita pelo astrônomo William
Cranch Bond e pelo fotógrafo John Adams Wipple, que em 16 e 17 de julho de 1850
obtiveram uma imagem de Vega, utilizando o grande refrator da Universidade de Harvard.
Em 1872, o médico e astrônomo amador Henry Draper conseguiu obter a primeira
fotografia do espectro de uma estrela, como veremos com mais detalhes no próximo
capítulo. Em 1874 ele liderou uma expedição para fotografar um trânsito de Vênus. Em
1880 tornou-se o primeiro astrônomo a fotografar a Nebulosa de Orion, utilizando um
telescópio refrator de 11 polegadas (27,5 cm) fabricado pela Clark Brothers, com uma
exposição de 50 minutos. No mesmo ano conseguiu obter uma foto do espectro de Júpiter.
A introdução da fotografia trouxe de imediato uma série de benefícios à pratica da
astronomia. O primeiro benefício é que uma observação astronômica feita utilizando a
fotografia gera uma imagem, em papel ou chapa de vidro, que pode ser arquivada e
consultada quando necessário. Até essa época o astrônomo fazia sua observação em
condições geralmente desfavoráveis: no meio da noite, sujeito ao frio, ao cansaço, à
pressão pela busca de resultados etc. etc. Além disso, o astrônomo que estivesse com
os olhos na ocular era frequentemente o único no local a observar o céu naquele dado
momento, não podendo compartilhar nada sobre o objeto observado, a não ser suas
anotações ou desenhos. Após a fotografia passou a ser possível analisar as observações
com calma, em um local confortável, repetidas vezes, comparar imagens de um mesmo
objeto feitas em ocasiões distintas; os pesquisadores puderam compartilhar a imagem
com seus colegas, consultar outros astrônomos sobre um assunto específico etc. As
imagens poderiam ser arquivadas e consultadas posteriormente. Além disso, ficou muito
mais fácil comprovar uma descoberta, mesmo nos casos em que outros astrônomos não
tivessem condições de realizar observações similares.
O segundo benefício importante da fotografia era o fato de que, diferentemente de
nossos olhos, uma chapa fotográfica tinha a capacidade de acumular a luz durante todo
o tempo em que a imagem estivesse sendo feita, enquanto o diafragma estivesse aberto.
Isso permitia que fossem observados objetos muito menos brilhantes do que aqueles
que seriam vistos por nossos olhos, mesmo utilizando o mesmo telescópio nas duas
observações. Essa característica causou uma revolução no design dos telescópios,
pois exigiu que os novos instrumentos passassem a ter algum tipo de montagem que
permitisse o acompanhamento do objeto por longos períodos de tempo para permitir a
captura de quantidades suficientes de luz para a obtenção da imagem de objetos pouco
luminosos. Na época, os únicos tipos de montagem que possibilitavam essas operações
eram as montagens equatoriais (ver apêndice 4). Montagens equatoriais possuem um
eixo que é alinhado com o eixo de rotação da Terra, bastando assim a introdução de um
motor de passo para que o objeto seja acompanhado pelo telescópio durante longos
períodos de tempo.
No caso dos telescópios refratores a introdução da fotografia também teve seu
impacto. Desde a invenção do telescópio muita pesquisa prática foi feita com o objetivo de
produzir vidros de qualidade para a construção de instrumentos cada vez mais potentes e
refinados do ponto de vista técnico. Isso fez com que se utilizassem com frequência tipos
de vidro que fossem otimizados para a visualização de cores que variavam do laranja ao
vermelho, faixas do espectro eletromagnético que são captadas com muita eficiência pelo
44
olho humano. No caso da fotografia, a exigência era diferente: as emulsões fotográficas
de meados do século XIX eram mais eficientes na coleta da luz azul e violeta e inclusive
do ultravioleta, que não era captado por nossos olhos, mas que era facilmente registrado
em fotografias. Isso fez com que excelentes instrumentos, como o Grande Refrator de
Harvard, fossem inadequados para o uso em astrofotografia. No caso dos telescópios
refletores esse problema não existe, pois os raios de luz não atravessam o conjunto
óptico.
Outro benefício era o fato de as fotografias poderem ser duplicadas, assim como
também publicadas. Isso fez com que as imagens observadas pelos astrônomos
pudessem ser compartilhadas por outros astrônomos e pelo público em geral, que
nunca teria uma chance de observar o céu através de um telescópio – o que aumentou
consideravelmente o apelo popular da astronomia, uma característica que se mantém
até os dias de hoje. Isso também tornava possível que astrônomos de países diferentes
tivessem a chance de compartilhar resultados e pesquisas de uma maneira até então
impensável. Outro ponto interessante é que as imagens poderiam ficar guardadas por
anos e ser consultadas posteriormente, o que inclusive tornou possível alguns tipos
de pesquisa que demandavam observações feitas com vários anos de diferença, por
exemplo no estudo de movimentos próprios de estrelas.
Por pelo menos cem anos após a primeira utilização da fotografia em astronomia a
observação visual continuou sendo uma contribuição importante entre os astrônomos
profissionais, sendo a observação de planetas uma das principais áreas onde a fotografia
demorou a se impor. Isso se deve ao fato de que na observação visual era possível
aproveitar alguns pequenos intervalos de poucos segundos em que a atmosfera da Terra
estabilizava e a imagem do objeto melhorava incrivelmente, tornando possível perceber
pequenos detalhes na superfície dos planetas, sobretudo na observação de Marte.
Astrônomos chamam essa qualidade da atmosfera do local, que pode distorcer as imagens
observadas, de seeing. As diferenças entre um local com um bom seeing ou não estão
ligadas às turbulências da atmosfera, que são criadas por diferenças de temperatura entre
as várias áreas da superfície, que vão criar um movimento contínuo de compensação
entre regiões com comportamentos diferentes umas das outras. Quando fazemos uma
filmagem de uma estrela de pouco brilho, com um grande aumento, podemos observar
que a estrela parece se mover erraticamente em várias direções, sempre retornando a
seu ponto inicial. Quando o seeing está bom esses deslocamentos da estrela parecem
ocorrer mais lentamente e em saltos menores, de pequenas dimensões. Quando o
seeing é ruim esses saltos aumentam significativamente de tamanho e parecem ocorrer
mais rapidamente. Quando se faz uma fotografia com uma exposição mais prolongada,
a imagem feita em um local com seeing ruim vai se transformar de um objeto pontual
em uma mancha borrada. Quanto melhor o seeing mais a imagem vai se tornar nítida e
o objeto mais pontual. Além disso, sabemos que mesmo em locais adequados o seeing
pode variar de um dia para o outro, ou mesmo durante uma mesma noite de observação.
Um problema óbvio, no entanto, estava relacionado aos custos da pesquisa astronômica
baseada em fotografias. As imagens eram normalmente feitas em placas de vidro, que
tinham um valor bastante elevado e implicavam também em processos químicos de alto
custo e em espaços apropriados para estocagem e manutenção das chapas existentes.

45
Na Inglaterra, o astrônomo William Huggins e sua mulher Margaret Huggins começaram
a trabalhar com espectros no início dos anos 1870. Os dois construíram um observatório
na própria casa, em Londres, no distrito de Tulse Hill. O casal Huggins foi pioneiro na
utilização de fotografia através do processo de placa seca, também conhecido como
“processo da prata coloidal”. Esse processo consiste na aplicação de uma suspensão de
sais de prata em uma gelatina coberta com um filme de acetato ou resina e então deixada
para secar – daí o nome “placa seca”. O material fica estável por meses, ao contrário do
processo de placa molhada, que o precedeu.
A primeira imagem fotográfica na faixa do infravermelho foi feita em 1874, pelo químico
inglês William de Wiveleslie Abney. Abney utilizou materiais sensíveis ao vermelho e ao
infravermelho. Esse avanço tecnológico, no entanto, demorou muito para ser utilizado na
astronomia.
Em 1880, Henry Draper conseguiu
fotografar a Nebulosa de Orion, a
primeira imagem de um objeto de céu
profundo, utilizando um telescópio
refrator de 21 cm de diâmetro construído
por Alvan Clark, com uma exposição de
51 minutos. Apenas três anos depois,
Andrew Ainslie Common, utilizando um
telescópio refletor de 91 cm de diâmetro
construído por ele mesmo, realizou uma
série de imagens da mesma nebulosa,
fazendo uso do processo de placa
seca e exposições de cerca de uma
hora. A incrível qualidade das imagens
de Common em comparação com a Figuras 29 e 30 (ver página seguinte) - Duas das primeiras
imagens de céu profundo, ambas da Nebulosa de Orion,
imagem de Draper atesta a rápida a primeira de 1880, por Henry Draper, e a segunda, de
evolução da fotografia no período (ver 1883, por Andrew Ainslie. É incrível a rápida evolução da
figuras 29 e 30). astrofotografia. Fonte: Wikimedia Commons.
No Brasil da época havia uma disputa entre dois grupos sobre o destino da astronomia
nacional. Um desses grupos pregava o desenvolvimento de uma astronomia ligada à
pesquisa e mais integrada com o tipo de trabalho realizado principalmente na Europa; o
outro grupo, composto principalmente por militares, entendia que deveríamos desenvolver
apenas uma astronomia dedicada a propósitos práticos, como a demarcação de
fronteiras e o ensino dessas técnicas, tanto para o exército, quanto para a marinha. Em
1870, Emmanuel Liais assumiu a chefia do Imperial Observatório do Rio de Janeiro, que
posteriormente se tornaria o Observatório Nacional, e, durante sua gestão, tentou introduzir
na instituição as novas práticas que estavam sendo desenvolvidas no Hemisfério Norte
(ver figura 31). Seu sucessor, Luiz Cruls, iniciou trabalhos em astrofísica e em fotometria
fotográfica, uma técnica que estava despontando rapidamente. O Brasil se comprometeu
a participar do programa Cartes du Ciel, que pretendia fazer um levantamento fotográfico
de todo o céu nos dois hemisférios, chegando a adquirir instrumentos astronômicos
para realizar a missão. Houve também a aquisição de um foto-heliógrafo para registrar

46
Figura 30 - Ver descrição na página anterior.

Figura 31 - Um telescópio refrator que pertenceu ao Observatório Nacional. Hoje, apesar de se manter no
mesmo local, faz parte do acervo do Museu de Astronomia do Rio de Janeiro. Foto: Francisco Conte.
47
imagens do Sol e desenvolver uma pesquisa conjunta com pesquisadores e instituições
do Hemisfério Norte. Infelizmente, após a proclamação da República e a subida dos
militares ao poder o Observatório Nacional assumiu um papel menos importante, pelo
menos até o início do século XX. Apenas como informação complementar, a participação
do Brasil no programa Cartes du Ciel acabou por nunca se concretizar.
Voltando ao cenário internacional, em 1885 William Henry Pickering (irmão de Edward)
se graduou no MIT e começou a lecionar fotografia astronômica, ensinando técnicas
avançadas para captura de objetos em movimento, o que vale para qualquer objeto
astronômico em longas exposições. Em uma de suas imagens, que cobria uma estreita
faixa do céu onde existiam 55 objetos cadastrados, podiam ser vistas claramente 462
estrelas, o que permite compreender como o uso da fotografia aumentava as capacidades
de observação do pesquisador. Além disso, em fotografias as medições de fotometria
eram muito mais precisas do que as obtidas em métodos visuais, permitindo que a área
evoluísse muito rapidamente, como visto em Sobel (2016, p. 19).
Em 1892, os astrônomos William Pickering e Solon Bailey, que na época trabalhavam
em Arequipa, no Peru, enviam ao Observatório de Harvard um lote com mais de
2 mil placas fotográficas, incluindo imagens e espectros, do céu do Hemisfério Sul.
Incrivelmente, durante o transporte dessa primeira remessa de fotografias – mais de uma
tonelada de material –, que incluiu carroças, uma viagem de navio de várias semanas
e mais o desembarque, nenhuma placa se quebrou ou foi riscada. A imensa quantidade
de fotografias dá uma ideia de quanto a pesquisa fotográfica em astronomia avançou
em um tempo relativamente curto. No ano seguinte, a universidade construiu um edifício
para comportar todas as chapas fotográficas de vidro de seu acervo, que incluía todo o
material obtido no hemisfério norte, algo como 13 mil placas e oito toneladas de peso.
O zeloso diretor do observatório da universidade, Edward Pickering, se esforçou para
manter o acervo de imagens em um local protegido do fogo e da umidade. A chegada
das placas do Peru também representa um momento na história em que os astrônomos
do hemisfério Norte puderam trabalhar com material obtido no hemisfério sul e comparar
objetos astronômicos de ambos os hemisférios, passando a ter uma visão completa do
céu noturno – fato que nunca havia acontecido até então.
No final do século XIX, no topo do Monte Hamilton, nos EUA, foi aos poucos edificado
o Observatório Lick, que deu novos rumos à história da astronomia. Esse episódio vai
ser descrito detalhadamente mais à frente. No local, James Keeler começou a utilizar
um telescópio refletor construído por Andrew Common, na Inglaterra, em 1879. Com
o instrumento, desprezado pela maior parte dos astrônomos do observatório, Keeler
conseguiu obter as melhores imagens astronômicas de seu tempo, causando um impacto
no meio astronômico similar ao que as imagens do Hubble Space Telescope teriam nos
anos 1990 (ver figura 32). Uma das ironias é que Keeler era um excepcional desenhista
– devido às limitações de orçamento causadas pelo alto custo das chapas fotográficas
do período, ele fez, por exemplo, excelentes desenhos de Saturno. O trabalho de Keeler
foi muito importante por deixar claro para a maior parte do meio astronômico que os
telescópios refletores de grande porte poderiam obter imagens melhores que os grandes
refratores, com uma fração dos custos de construção, tanto do telescópio, quanto da
montagem, além de terem operação muito mais barata. Até essa época, a maioria dos

48
observatórios astronômicos insistia na
construção de telescópios refratores,
mas esse panorama seria radicalmente
alterado em breve.
Em 16 de agosto de 1898, William
Pickering descobriu o nono satélite
de Saturno, que foi batizado de Febe.
Esse foi o primeiro satélite planetário
encontrado através da fotografia. O
aspecto marcante desse evento foi
que nenhum outro satélite do sistema
solar, depois desse, foi descoberto
visualmente. Todas as descobertas
posteriores foram feitas através de
observações fotográficas.
Em 1903, Henrietta Leavitt começou
a trabalhar em Harvard. No próximo
capítulo iremos ver como o grupo de
mulheres do Observatório de Harvard,
do qual ela fazia parte, contribuiu para
o desenvolvimento da espectroscopia, Figura 32 - Imagem da Nebulosa de Orion por John
Keeler, do Observatório Lick, localizado no topo do Monte
assim como para o nosso conhecimento Hamilton. Provavelmente obtida em 1899 ou 1900. Fonte:
sobre as estrelas. Um dos primeiros Wikimedia Commons.
trabalhos de Miss Leavitt foi dedicado
ao estudo e busca de estrelas variáveis, uma área da astronomia que contava com um
interesse crescente por parte dos astrônomos. Annie Jump Cannon, também de Harvard,
havia publicado recentemente um catálogo com mais de mil estrelas variáveis, sendo a
maioria delas de longo período. Após ter descoberto mais de 50 variáveis do tipo Wolf-
-Rayet na região da nebulosa de Orion, ela passou a trabalhar com uma nova técnica,
desenvolvida por Edward King, chefe dos fotógrafos do observatório. O método de King
consistia em criar uma chapa em positivo da região a ser observada. Sobre essa chapa,
onde as estrelas apareciam em branco contra um fundo cinza escuro, era sobreposta
outra chapa em negativo (o padrão de arquivamento das imagens na época), obtida
em data diferente. Ao se sobrepor corretamente os objetos nas duas imagens, era
possível observar estrela por estrela com a ajuda de uma lente de aumento. Quando uma
estrela mantinha seu brilho estável as duas imagens, negativa e positiva, tendiam a se
neutralizar; já no caso de estrelas que variavam o brilho era possível observar alterações
e as variáveis eram percebidas mais facilmente. Analisando chapas fotográficas do céu
do hemisfério sul obtidas no Peru, Miss Leavitt rapidamente identificou cerca de 200
variáveis nas duas Nuvens de Magalhães. Somente no ano de 1905, ela descobriu nada
menos que 900 estrelas variáveis na Pequena Nuvem de Magalhães.
No ano de 1908, Henrietta Leavitt havia descoberto nada menos que 1.777 estrelas
variáveis. Nesse ano ela publicou os resultados de suas observações nos Anais do
Observatório Astronômico de Harvard. Em 1912 é publicado o seu principal trabalho.
Analisando as variáveis de tipo Cefeida da Pequena Nuvem de Magalhães e
49
considerando que a grande distância
do aglomerado tornava irrelevante
a diferença de distância em relação
às estrelas individuais, Leavitt plotou
um gráfico onde verificou que o brilho
de cada Cefeida era proporcional
ao logaritmo do período de variação
de luminosidade (ver figura 33). Isso
permitia fazer uma estimativa do brilho
intrínseco de uma Cefeida a partir do
seu período. O artigo publicado foi
assinado por Edward Pickering, mas
na primeira linha do texto ele destaca
que todo trabalho havia sido feito por
Henrietta Leavitt. Essa descoberta
acabou por se tornar muito importante
na história da astronomia, ajudando a
resolver problemas como a localização
do centro de nossa galáxia, assim
como a dúvida em relação à existência Figura 33 - Gráfico de Henrietta Leavitt em que foi
descoberta a relação período-luminosidade das Cefeidas.
de outras galáxias, como veremos a Fonte: Wikimedia Commons.
seguir.

Figura 34 - Imagens das duas placas fotográficas utilizadas por Clyde Tombaugh na descoberta de Plutão.
A imagem da esquerda, realizada anteriormente, mostra o campo; na imagem da direita podemos observar
o pequeno ponto intruso, hoje um planeta anão. Fonte: Wikimedia Commons.

50
Em 1930, observando algumas imagens fotográficas em um blink comparator, um
instrumento que substituía rapidamente uma imagem de um determinado campo por outra
da mesma área, de modo a evidenciar objetos que eventualmente apresentassem alguma
mudança de brilho ou posição, o astrônomo Clyde Tombaugh, do Observatório Lowell,
em Flagstaff, no Arizona, descobriu Plutão, que imediatamente foi classificado como o
nono planeta do sistema solar (ver figura 34). Observações posteriores demonstrariam
que sua órbita era uma elipse bastante achatada, quando comparada à dos outros
planetas, fazendo com que Plutão em algumas épocas ficasse mais próximo do Sol do
que Netuno. Posteriormente descobriu-se que Plutão, embora esférico, era muito menor
e muito menos pesado que Mercúrio, o menor planeta do sistema solar.
Também em 1930, o norte-americano Charles W. Hetzler, usando o grande telescópio
refrator de Yerkes, conseguiu fazer a primeira astrofotografia na faixa do infravermelho,
obtendo uma imagem de um campo estelar. Nas imagens captadas por Hetzer foi possível
observar uma grande quantidade de estrelas frias, com temperaturas de superfície da
ordem de 1000 a 2000 K. Estrelas desse tipo emitem muito pouca luz visível, sendo muito
difícieis de observar, mas são bastante ativas na faixa do infravermelho. A técnica havia
sido desenvolvida por Abner ainda no século XIX, mas demorou muito tempo para ser
empregada na astronomia.
No próximo capítulo, que trata de espectroscopia, vamos continuar a ver alguns dos
desenvolvimentos feitos na utilização da fotografia na astronomia. As duas técnicas,
fotografia e espectroscopia, surgiram mais ou menos em paralelo e rapidamente se
uniram para ampliar enormemente as possibilidades de pesquisa dos astrônomos do
período.

51
Capítulo 3
Espectroscopia, a chave de um novo conhecimento
A espectroscopia se desenvolveu a partir de meados do século XIX, do ponto de
vista cronológico, paralelamente ao desenvolvimento da fotografia. O avanço que essa
nova técnica trouxe à astronomia e à ciência de modo geral é quase impossível de
ser supervalorizado, não importa a quantidade de superlativos que sejam usados na
descrição. A espectroscopia é uma das principais ferramentas utilizadas para o estudo
de composição de elementos químicos e vem tendo uma imensa gama de aplicações
comerciais e de pesquisa desde a sua introdução. O impacto causado pela espectroscopia
na história da astronomia é em essência muito maior do que o da invenção do telescópio,
pois abriu toda uma gama de informações até então inacessíveis aos cientistas, criando
um novo ramo da astronomia, que foi batizado de astrofísica.
Até a introdução da espectroscopia a astronomia se dedicava à observação de objetos
celestes, descrevendo com crescente precisão suas posições e movimentos aparentes
(estes últimos quando pensamos em objetos no sistema solar). Além disso, podíamos
estimar o brilho desses objetos. No caso de planetas, do Sol, da Lua e de algumas
nebulosas também podiam ser observados alguns detalhes de suas superfícies. Podíamos
estimar as distâncias da maioria dos corpos do sistema solar e de algumas estrelas.
Também era possível estimar a massa de alguns desses objetos, graças aos estudos
sobre a gravidade de Newton. Isso era tudo. Não sabíamos o que era exatamente uma
estrela, não sabíamos por que o Sol brilhava, não tínhamos ideia das temperaturas dos
objetos celestes nem de sua composição química. Era um universo sobre o qual realmente
podíamos afirmar muito pouca coisa. O universo se mantinha um desconhecido.
A espectroscopia deu início à astrofísica, que estuda as características físicas de
estrelas e outros corpos celestes. A quantidade de informações obtidas com a utilização
dessa técnica é tão grande, que atualmente cerca de dois terços do tempo de observação
de qualquer telescópio óptico de pesquisa é destinado a ela. A seguir veremos como
aconteceu o desenvolvimento dessa técnica.
Isaac Newton foi a primeira pessoa a descrever a decomposição da luz ao atravessar
um prisma, separando-a em luzes de cores diversas num contínuo que batizou de espectro
da luz. O fenômeno não era inteiramente novo, o arco-íris é a forma natural da ocorrência
da decomposição de luz, que aparece muitas vezes após a passagem de uma nuvem
de chuva ou em cachoeiras. Nessas situações, minúsculas gotículas de água suspensas
na atmosfera acabam por funcionar como pequenos prismas, produzindo a difração da
luz. Embora muitos outros pesquisadores tenham utilizado prismas e a decomposição de
luz para estudos de óptica, na astronomia sua aplicação permaneceu muito limitada por
muitos anos após os estudos de Newton. A experiência de William Herschel que resultou
na descoberta da radiação infravermelha foi uma aplicação isolada dessa técnica, que
de certa forma antecipou a importância que a espectroscopia teria a partir do século XIX.
O panorama começou a se alterar com os estudos de Joseph von Fraunhofer
(ver figura 35). Como vimos anteriormente, Fraunhofer era provavelmente o melhor
construtor de telescópios refratores de sua época, assim como de vários instrumentos

52
ópticos, em grande parte devido ao seu
profundo conhecimento do processo
de fabricação de vidros de vários tipos
e também graças à série de estudos
práticos que desenvolveu sobre óptica.
Fraunhofer construiu um equipamento
que acoplava prismas a um tubo óptico
e onde podia substituir as lentes (ver
figura 36). Seu objetivo era estudar
a refração de cada receita de vidro e
de diferentes perfis de lentes, já que
esse tipo de conhecimento era muito
importante para um fabricante de seu
nível. Devemos lembrar que uma lente
acromática implica no uso de pelo Figura 35 - “Fraunhofer demonstrando o espectroscópio”.
menos dois tipos diferentes de lentes Fotogravura a partir de um quadro de Richard Wimmer,
com dois tipos diferentes de vidro. 1900. Fonte: Wikimedia Commons.
Em 1814, quando Fraunhofer começou a utilizar seu novo instrumento, logo percebeu
que o espectro solar obtido não era realmente contínuo, mas que quando observado
em detalhe apresentava um grande número de linhas escuras. Ele substituiu as lentes
utilizadas por outras, com perfis diferentes e receitas de vidro diferentes, e constatou
que as linhas continuavam visíveis e aparentemente mantinham-se nos mesmos locais
anteriormente observados. Mesmo quando observadas em dias e horários diferentes as
linhas se comportavam da mesma maneira. Não havia dúvidas, as linhas faziam parte do
espectro da luz solar.

Figura 36 - Esquema óptico do espectroscópio de Fraunhofer. O feixe de luz é decomposto por um prisma,
em seguida é encaminhado para um dubleto acromático e por fim vai para a objetiva, onde o espectro pode
ser observado. Desenho: Francisco Conte.

Na verdade, ele não foi o primeiro a perceber essas linhas. Em 1802, o físico e
químico inglês William Hyde Wollaston havia observado as linhas escuras do espectro
solar quando realizava trabalhos de óptica. Wollaston descreveu o observado, mas não
deu prosseguimento ao trabalho. Ele foi um cientista muito importante, tendo descoberto
dois elementos químicos: o paládio e o ródio. É sabido que Fraunhofer conhecia vários
53
trabalhos contemporâneos na área da óptica, em particular aqueles realizados por Young
sobre interferência da luz, assim como os de François Arago e Augustin-Jean Fresnel.
Alguns desses trabalhos estimularam Fraunhofer a desenvolver suas próprias pesquisas
em óptica, mas até onde se sabe ele desconhecia completamente os trabalhos de
Wollaston.
Provavelmente a principal razão pela qual o trabalho de Fraunhofer, posterior ao de
Wollaston, acabou por influenciar mais a história da astronomia foi o fato de Fraunhofer
ter aprofundado sua pesquisa. Depois da descoberta inicial, ele iniciou um trabalho de
catalogação das linhas, constatando que o padrão de linhas se mantinha idêntico e sem
alterações de posição ou intensidade, não importando a época do ano ou o horário da
observação. Fraunhofer percebeu que algumas dessas linhas eram muito mais fortes
que as outras e criou então um sistema de classificação, batizando essas linhas mais
fortes com letras maiúsculas, do vermelho até o violeta, com a primeira linha recebendo
o nome de A e a última o nome de K. Duas linhas muito próximas localizadas na faixa do
amarelo receberam os nomes de D1 e D2. Quando o grupo principal estava todo nomeado
passou para o grupo seguinte, uma série de linhas um pouco menos intensas, as quais
foram batizadas com letras minúsculas, também do vermelho ao violeta, com a primeira
sendo chamada de a e a última de h. No total Fraunhofer descreveu mais de 570 linhas
(ver figura 37). Atualmente, com instrumentos de observação muito mais poderosos,
é possível observar milhares de linhas de absorção no espectro solar. Além do Sol,
Fraunhofer também conseguiu obter espectros da Lua, de Vênus e Marte e de algumas
estrelas, entre elas Betelgeuse. Fraunhofer morreu cedo, em 1826, décadas antes de
se perceber as inúmeras possibilidades e aplicações de sua descoberta, assim como as
explicações para a ocorrência deste fenômeno.

Figura 37 - Disposição das linhas de Fraunhofer. Fonte: Wikimedia Commons.

Antes de prosseguirmos com a evolução da espectroscopia, vamos fazer um adendo,


para um comentário divertido: em 1835, o filósofo francês Auguste Comte (meu sobrenome
é Conte, não temos parentesco), um pensador positivista que muito influenciou a cultura
de nosso país, inclusive no lema de nossa bandeira, escreveu que para os astrônomos
sempre seria possível estudar o Sol e as estrelas, vendo suas formas, sua distância, mas
nunca a sua composição química. Isso seria impossível, devido às distâncias envolvidas.
Pouco tempo depois essa afirmação categórica seria irremediavelmente desmentida.
No mesmo ano do texto de Comte, 1835, o físico inglês Charles Wheatstone, que
contribuiu em inúmeras áreas da ciência, incluindo a criação do primeiro telégrafo

54
comercial, em parceria com William Cooke, e a invenção de instrumentos musicais, realizou
um importante trabalho em espectroscopia, percebendo que era possível reconhecer
metais diferentes pelas linhas brilhantes que estes produziam ao se observar através
de um prisma a luz emitida quando eram aquecidos e derretiam em uma fornalha. Cada
metal produzia um conjunto específico de linhas. Com essa técnica foram posteriormente
descobertos o rubídio e o tálio.
Em 1849, o físico francês Jean Bernard León Foucault percebeu que um mesmo
elemento químico produzia linhas brilhantes ou escuras no espectro, nas mesmas posições,
dependendo da temperatura. Veremos isto com mais cuidado mais à frente. Atualmente
são denominadas como linhas de emissão (brilhantes) e absorção (escuras). Em 1853, o
físico sueco Anders Jonas Ängström apresentou na Real Academia de Ciências da Suécia
um trabalho similar ao de Foucault, tendo trabalhado de forma independente. Outros
pesquisadores do período fizeram estudos semelhantes, como George Stokes e William
Thomsom (Lorde Kelvin). Ängström também conseguiu medir com precisão as linhas do
hidrogênio no visível, que ficariam posteriormente conhecidas como Série de Balmer. Em
1854 e 1855, o físico David Alter realizou importantes trabalhos em espectroscopia de
metais e gases e de maneira independente também descreveu a Série de Balmer.
A partir do segundo semestre de 1859, dois cientistas alemães, Gustav Robert
Kirchhoff e Robert Wilhelm Eberhard Bunsen, começaram a trabalhar com espectros
na Universidade de Heidelberg (ver figura 38). Os dois aplicaram as técnicas ópticas
de Fraunhofer, aperfeiçoadas pelo uso
da chama incolor do bico de Bunsen,
trabalhando sistematicamente na observação
do espectro de vários elementos químicos.
Eles estabeleceram relações entre cada
elemento e seu respectivo conjunto de
linhas espectrais, iniciando assim a técnica
da análise espectral. Kirchhoff e Bunsen
conseguiram fazer a ligação entre linhas de
emissão e de absorção dos elementos de
maneira definitiva, demonstrando que as
linhas de emissão de determinado elemento
seriam as mesmas que suas linhas de
absorção. Por fim, os dois conseguiram
determinar os processos que geram linhas
de emissão e absorção, sintetizados nas três
leis de Kirchhoff de espectroscopia, através
da análise da radiação térmica (ver figura
39):
1. Um sólido, líquido ou gás
incandescente sob alta pressão vai
emitir um espectro contínuo Figura 38 - Gustav Robert Kirchhoff e Robert Wilhelm
2. Um gás aquecido a baixa pressão vai Eberhard Bunsen, os pais da espectroscopia.
emitir através de linhas de emissão Fonte: Wikimedia Commons.

55
3. O espectro contínuo de um objeto que atravessa uma nuvem de gás mais fria do
que a fonte de luz vai apresentar linhas de absorção

Figura 39 - As três leis da espectroscopia: um corpo aquecido emite um contínuo; um gás excitado produz
linhas de emissão; a luz (espectro contínuo) produzida por um corpo aquecido, quando atravessa um gás
mais frio que a fonte, cria um espectro contínuo com linhas de absorção. Desenho: Francisco Conte.

Após o trabalho de Kirchhoff e Bunsen ficou estabelecida uma ligação entre


espectroscopia e análise de elementos químicos, além de ficarem claros os processos
físicos que produzem as linhas espectrais. A previsão de Auguste Comte foi desmentida
poucas décadas após sua formulação. A astronomia entraria em uma nova era.
Em meados do século XIX, o padre Angelo Secchi, que era astrônomo do Vaticano,
passou a estudar espectros estelares com regularidade. Observando os espectros de
centenas de estrelas e outros objetos, ele logo percebeu que existiam padrões que se
repetiam, tornando possível dividir espectros similares em categorias distintas. No ano
de 1866 publicou um trabalho classificando cerca de 400 espectros, em que dividia as
estrelas em quatro tipos espectrais definidos por suas principais características. Naquela
época as observações dos espectros ainda eram feitas visualmente. Os tipos foram
denominados por numerais romanos de I a IV. A classe I era constituída por estrelas
branco-azuladas como Sirius e Vega, que possuíam quatro fortes linhas indicando a
presença de hidrogênio; a Classe II incluía estrelas amarelas como o Sol, com o espectro
apresentando uma série de linhas finas de ferro, cálcio e outros elementos; As classes III
e IV eram compostas ambas por estrelas vermelhas, que se diferenciavam por padrões
observados em suas bandas espectrais escuras (ver figura 40). Até o final de sua vida
Secchi estudou mais de 4 mil espectros de estrelas, como pode ser visto em Sobel
(2016, p. 25).
56
Em 1868 ocorreu uma descoberta
muito importante através da
espectroscopia. Na Índia, durante
o eclipse solar de 18 de agosto, o
astrônomo francês Jules Janssen
observou uma linha muito brilhante na
cromosfera solar, na faixa dos 587,49
nanômetros. Inicialmente pensou-se
que essa linha era produzida pelo sódio.
No mesmo ano, em 20 de outubro, o
inglês Norman Lockyer observou uma
linha não muito forte na parte amarela
do espectro solar, situada próxima das
linhas D1 e D2 de Fraunhofer, ambas
pertencentes ao sódio. Lockyer batizou
a linha de D3. Logo se constatou que
essas duas linhas não pertenciam a
nenhum elemento químico conhecido.
Chegou-se a especular que talvez
fossem provocadas por um elemento
que só existisse no Sol ou em estrelas.
Finalmente, o químico inglês Edward
Frankland batizou o elemento com o
nome hélio, o nome do Deus Sol em
grego. Em 1881, o cientista italiano Luigi
Palmieri observou as linhas de hélio em
material sublimado em uma erupção Figura 40 - Classificação de espectros estelares elaborada
do vulcão Vesúvio. Apenas em março pelo padre Secchi. Fonte: Wikimedia Commons.
de 1895 foi que o químico escocês Sir
William Ramsay conseguiu isolar o hélio durante um processo de tratamento da uraninita.
A espectroscopia era uma ferramenta tão poderosa que tornou possível a descoberta de
um novo elemento químico fora de nosso planeta. Henry Draper, pioneiro em fotografia
astronômica e cujos trabalhos no campo da espectroscopia vamos ver a seguir, disse em
uma palestra em 1866 que “a análise espectral deu aos químicos braços com milhões de
milhas de comprimento” (SOBEL, 2016, p. 25).
Como vimos no capítulo anterior, em 1872 Henry Draper obteve o primeiro espectro
de uma estrela e poucos anos depois conseguiu captar um espectro do planeta Júpiter.
Em ambos os casos o espectro era caracterizado por linhas de absorção. Esse fato
abria o caminho para uma série de avanços na área da espectroscopia. No caso do
espectro de Vega, Draper utilizou um telescópio refletor com 28 polegadas de diâmetro
(aproximadamente 71 cm), com uma montagem equatorial. Mesmo para um objeto
brilhante como Vega, que tem magnitude aparente zero, foi necessária a utilização de
um telescópio de grande porte para a época.
Na Inglaterra, William Huggins e sua mulher, Margaret, desenvolveram uma série
de estudos espectrais a partir de fotografias que utilizaram de maneira pioneira a
57
técnica da placa seca. Os trabalhos iniciais de William Huggins sobre espectroscopia
foram realizados em colaboração com o professor W. A. Miller. Nessa fase inicial eles
conseguiram obter com sucesso alguns espectros estelares. Nos anos seguintes, já
trabalhando em companhia de Margaret, Huggins obteve um número maior de espectros
estelares e com uma resolução maior. Analisando o espectro de várias dessas estrelas,
o casal pôde provar que elas são compostas pelos mesmos elementos químicos que
formam a Terra e o Sol, embora a intensidade das linhas fosse diferente em vários casos.
Além disso, percebera a semelhança entre os espectros estelares e o do Sol, compostos
exclusivamente por linhas de absorção.
Mas a contribuição dos Huggins na espectroscopia não parou por aí e várias
descobertas foram feitas pelo casal nos anos seguintes. Eles utilizaram o observatório
que haviam construído na própria casa em Tulse Hill, Londres, onde frequentemente eram
acrescentados novos telescópios e instrumentos. Um dos trabalhos mais importantes do
casal foi a descoberta de dois tipos de nebulosas. O primeiro tipo apresentava apenas
linhas de emissão em seu espectro, o que indicava que a sua origem se relacionava a
um gás excitado. Isso foi observado, por exemplo, na Nebulosa de Orion. Já na então
chamada Nebulosa de Andrômeda, o espectro obtido se assemelhava ao das estrelas,
com a presença de linhas de absorção. Era uma evidência clara de que Andrômeda é na
verdade uma galáxia e não uma nebulosa, mas seriam necessárias mais algumas décadas
para que essa descoberta fosse totalmente compreendida. Em 1881, o casal Huggins
observou o cometa b1881. Eles conseguiram obter o seu espectro, e nele identificaram
linhas espectrais de moléculas, uma delas o cianogênio. A química do espaço cada vez
mais se assemelhava à da Terra.
A observação de linhas de emissão em uma nebulosa pelos Huggins foi bastante
importante por outro aspecto. Algumas das linhas observadas não eram compatíveis
com nenhum elemento conhecido na Terra. Assim como no caso do hélio, imaginou-se
que deveria se tratar de um novo elemento químico, provavelmente característico de
nebulosas, pois tampouco era observado no espectro de estrelas. Assim, o possível novo
elemento foi batizado provisoriamente de nebúlio, por ser característico de nebulosas. Em
1927, o astrônomo da Caltech Ira Sprague Bowen demonstrou que na verdade as linhas
eram produzidas por oxigênio duplamente ionizado em uma densidade extremamente
baixa. As densidades das nebulosas são muito menores que o melhor vácuo produzido
em laboratório. Nessas condições, os átomos comportam-se de maneira distinta do que
observamos em nosso cotidiano. São criadas algumas linhas que em condições normais
de temperatura e pressão não se formariam. Damos a esse tipo de linha espectral
que só ocorre em condições de baixíssimas densidades o nome de linhas proibidas.
Normalmente, elas são as linhas mais fortes que podemos observar no espectro de
nebulosas (ver figura 41). O nebúlio, diferentemente do hélio, nunca existiu.

Figura 41 - Linhas de emissão como as observadas pelo casal Huggins em nebulosas. Fonte: Wikimedia
Commons.

58
Nos Estados Unidos, Henry Draper, que mantinha contato com Huggins, começou a
utilizar a técnica da placa seca, conseguindo obter uma série de espectros estelares, e
tornou-se um dos pioneiros desse trabalho nas Américas.
Em 1885, Johann Balmer, um matemático suíço, encontra uma equação empírica que
fornece diretamente o comprimento de onda de cada uma das linhas do hidrogênio no
visível, cujo conjunto passa a ser conhecido como a série de Balmer. Apesar disso, não se
sabia a razão pela qual as linhas espectrais do hidrogênio têm essa distribuição. Apenas
no século XX, com o trabalho de Niels Bohr, foi possível explicar o comportamento das
linhas espectrais.
Por volta de 1885, a Universidade de Harvard começa a trabalhar com muita ênfase em
espectroscopia. Seu novo diretor, Edward Pickering, inicia um programa de observação
que une espectros e fotografia. Contando com a colaboração financeira de Mary Anna
Draper, viúva de Henry Draper, que queria de alguma forma expandir o legado de seu
marido, começa a recrutar uma equipe para trabalhar no observatório da universidade.
Para o trabalho de análise das observações que seriam capturadas em placas de
vidro com emulsão fotográfica (um método caro, mas menos sujeito a deformações e
imprecisões que as chapas fotográficas), Pickering começou a recrutar mulheres, que em
sua opinião produziam tanto quanto os homens, mas recebiam salários menores, o que
permitia a formação de uma equipe maior e mais produtiva. A abordagem de Pickering
pode parecer machista nos dias atuais, mas na época ele era um dos poucos cientistas
que aceitariam recrutar mulheres e nos trabalhos desenvolvidos por elas ele garantia que
elas assinassem a autoria, o que não era regra entre os pesquisadores. Desse modo, o
grupo de Harvard começou um trabalho que mudaria a história da astronomia (ver figura
42).

Figura 42 - O grupo de mulheres computadoras de Harvard, responsável por inúmeras descobertas e pela
classificação espectral de estrelas:Antonia Maury usando a lupa, ao fundo e Williamina Fleming (de pé). A
foto foi feita em 1891. Fonte: Wikimedia Commons.
59
Uma das primeiras inovações que Pickering introduziu no trabalho de espectroscopia
foi uma nova técnica de obtenção de espectros. Os Drapers obtinham suas fotos de
espectros introduzindo um prisma depois da ocular e colhiam um espectro estelar por
vez. Na nova técnica de Pickering, prismas eram instalados em caixas de latão antes
da objetiva. Dessa forma obtinha-se uma foto de toda uma região do céu, com duzentos
a trezentos espectros de baixa definição, distribuídos de acordo com a posição das
estrelas no céu. A técnica permitia a execução rápida de um levantamento de grandes
áreas do céu noturno, reduzindo drasticamente os custos envolvidos no processo. Com
o levantamento era possível também escolher estrelas cujo espectro chamasse mais a
atenção para futuros estudos mais aprofundados e detalhados.
Mesmo assim, o estudo dos espectros obtidos em Harvard era um trabalho árduo.
Cada placa fotográfica apresentava centenas de espectros – os mais fortes, obtidos das
estrelas mais brilhantes, possuíam um comprimento de aproximadamente 1 centímetro,
e os mais fracos algo em torno de 6 milímetros. Cada um desses espectros tinha que
ser numerado e catalogado em função de sua posição e posteriormente analisado com
o auxilio de lupas ou outros instrumentos ópticos. Aos poucos foi ficando claro que havia
uma variedade muito maior de tipos de espectros que as quatro classes propostas pelo
padre Secchi. O trabalho de análise e redução de dados era imenso e o número de placas
fotográficas aumentava constantemente. Para o grupo de mulheres computadoras de
Harvard, e para muitos astrônomos desde então, a astronomia passou a ser uma atividade
diurna, com as placas fotográficas de imagens ou espectros estelares substituindo as
estrelas.
É importante perceber a forma como trabalhava a equipe de Harvard. Assim como
ocorrera com Tycho e Kepler, o trabalho era dividido entre um grupo responsável pelas
observações, fossem elas de imagens ou espectros, e outro dedicado à análise de dados,
embora em muitas ocasiões a análise dos dados fosse feita por astrônomos que também
trabalhavam na área observacional. De qualquer maneira, já existiam profissionais
de astronomia que trabalhavam exclusivamente na análise de dados, o que é algo
absolutamente comum nos dias atuais. A partir dessa época é possível afirmar que as
descobertas astronômicas passam a ocorrer durante o dia, na fase de análise de dados,
estes, sim, colhidos no período noturno.
Em 1887 Edward Pickering percebeu um fato estranho num espectro da estrela Mizar
(Zeta Ursae Majoris): naquela data a estrela apresentava suas linhas espectrais dobradas,
com um dos grupos ligeiramente desviado para o azul e o outro para o vermelho. Outras
observações da mesma estrela feitas anteriormente não apresentavam essa característica.
Ele prosseguiu observando a estrela, a partir daí com a ajuda de Antonia Maury, uma das
mulheres da equipe do observatório e também sobrinha de Henry Draper. Não se pense
aqui em nenhuma forma de nepotismo, Miss Maury tinha uma formação científica muito
forte, tendo sido graduada com louvor em física pelo renomado Vassar Colege. Os dois
continuaram observando as variações espectrais de Mizar por um bom período, até que
em 1889 conseguiram encontrar uma explicação para o fato: Mizar era, na verdade, um
sistema binário com duas estrelas de mesmo tipo espectral, com um período de rotação
de 15 dias, e a mudança de posição das linhas em direção ao azul e ao vermelho podia

60
ser explicada pela aproximação ou afastamento de cada uma das duas estrelas (ver figura
43). Mizar se tornou a primeira binária espectroscópica, uma classe de estrelas na qual a
binaridade foi descoberta a partir de seu espectro. Com o tempo muitas dessas estrelas
se tornam também binárias visuais, à medida que os instrumentos astronômicos evoluem
e vão ficando mais poderosos. Alguns meses depois Miss Maury descobriu o mesmo
padrão de linhas duplicadas e simples em outra estrela, Beta Aurigae, com um período
de rotação de apenas quatro dias. Antes do final de 1889, o astrônomo alemão Hermann
Carl Vogel, do Observatório de Potsdam, descobriu uma terceira estrela, demonstrando
claramente que o evento observado não era um fato isolado.

Figura 43 - Desvio das linhas espectrais: quando o objeto está se aproximando do observador suas linhas
se desviam para o azul, quando se afasta elas se desviam para o vermelho. O efeito foi proposto por
Doppler e complementado por Fizeau e é similar ao que ocorre com o som. Desenho: Francisco Conte.

Em 1890, o Observatório de Harvard publica o primeiro “Catálogo Draper de espectros


estelares”, organizado e coordenado por Williamina Fleming, que comandava o time
de mulheres computadoras. No início, o trabalho de redução de dados era liderado por
Nettie Farrar, que pouco depois acabou se casando e abandonou o encargo. Mas a maior
parte do trabalho foi coordenada e realizada por Williamina Fleming. A realização dessa
primeira etapa do trabalho foi feita a partir de 7.883 fotografias. O catálogo apresentava,
mesmo em uma fase inicial, mais de 400 páginas, cada uma com tabelas de 50 linhas,
cada uma representando uma estrela, e 20 colunas, onde constavam alguns dados
específicos do espectro de cada uma delas. A astronomia começava a entrar na era do
grande volume de dados.
Em 1893, Williamina Fleming estava analisando os espectros do céu do Hemisfério Sul
que haviam sido enviados por William Pickering e Solon Bailey do Peru, quando encontrou
um espectro estelar muito peculiar na constelação da Norma (Compasso). Ela havia
observado recentemente um espectro similar e percebeu imediatamente que se tratava
de uma assim chamada “nova”. Conferindo várias imagens da região que haviam sido
enviadas no mesmo pacote, conseguiu identificar a estrela que havia se tornado a nova
como uma apagada estrela de sétima magnitude, invisível a olho nu. Desde a descoberta
da nova de Tycho Brahe, que hoje sabemos que era na verdade uma supernova, e
daquela observada por Kepler e Galileu, apenas sete outras haviam sido descobertas,
61
entre os anos de 1670 e 1891. Mina Fleming era a décima pessoa a descobrir uma estrela
nova, e isso através de seu espectro, com pelo menos uma dezena de brilhantes linhas
de emissão. Apenas dois anos antes, em 1891, um astrônomo amador inglês chamado
Thomas David Anderson havia descoberto visualmente através de um telescópio uma
nova na constelação de Auriga, e comunicando o fato à comunidade astronômica através
de um cartão anônimo. Os observatórios de Potsdam e Oxford conseguiram fotografar
a nova poucos dias após sua descoberta. Edward Pickering comparou os espectros
das novas de Auriga e Norma e percebeu que eram quase idênticos. O amador Thomas
Anderson descobriu uma segunda nova, na constelação de Perseu, em 1901.
Em 9 de abril de 1895, James Keeler conseguiu obter um espectro dos anéis de
Saturno. A análise das linhas espectrais era uma prova direta de que os anéis não eram
rígidos e sim formados por miríades de partículas que circulavam em uma órbita em torno
do planeta, de acordo com as regras da gravitação propostas por Newton. James Clerk
Maxwell havia feito uma previsão dessa situação em 1856, a partir de então confirmada
com a ajuda da tecnologia.
O grupo de Harvard logo percebeu que a classificação estelar proposta pelo padre
Secchi não conseguia enquadrar as estrelas de maneira adequada. Os vários subtipos
observados necessitavam de uma forma de classificação mais ampla e precisa. A primeira
integrante do grupo a tentar montar um novo sistema de classificação foi Antonia Maury,
mas foi Annie Jump Cannon quem acabou por desenvolver um sistema de classificação
estelar, baseado em espectros, que se mantém em uso até os dias de hoje. Cannon dividiu
as estrelas em sete classes, O-B-A-F-G-K-M, com base na temperatura de superfície de
cada estrela, sendo O a classe mais quente e M a classe mais fria. Uma forma simples de
relembrar a sequência é memorizar a frase Oh, be a fine girl, kiss me, em uma tradução
livre: “ei, seja uma boa menina, beije-me”. Um tanto machista para os dias atuais, mas
mulheres também podem pensar em Oh, be a fine guy, kiss me. Posteriormente, cada
classe foi dividida em dez subtipos, numerados de 0 a 9, de modo que uma estrela
poderia ser classificada como O5, ou A9, por exemplo, aumentando muito a precisão da
classificação. Annie Cannon publicou seu primeiro catálogo seguindo essa classificação
em 1901. Um fato importante é que nessa época ainda sabíamos muito pouco sobre o
funcionamento e a vida das estrelas. O conhecimento nessa área se alterou enormemente
no século XX, mas o sistema de classificação de Harvard conseguiu manter sua utilidade
e é ainda bastante utilizado por astrônomos em todo o mundo.
Ejnar Hertzprung, no início do século XX, conseguiu provar por análise espectral que
existem dois tipos de estrelas vermelhas: anãs e gigantes. Ele verificou que havia uma
diferença na espessura das linhas de absorção (as gigantes vermelhas apresentavam
linhas estreitas enquanto as anãs apresentavam linhas largas). Hertzprung percebeu
também que as estrelas vermelhas que apresentavam linhas estreitas possuíam
movimentos aparentes muito pequenos, comportamento distinto das que apresentavam
linhas largas, o que era um indicativo de estarem situadas a grandes distâncias. Essa
diferença na espessura das linhas já havia chamado a atenção de Antonia Maury em
Harvard, que acreditava na existência de dois tipos distintos.
Em 1910, Hans Rosenberg publicou um diagrama relacionando estrelas do aglomerado
das Plêiades, a partir de sua magnitude aparente, com linhas espectroscópicas do cálcio
62
e duas linhas do hidrogênio da série de Balmer, que eram indicativas da temperatura
da estrela. Foi a primeira tentativa de relacionar a luminosidade das estrelas com suas
temperaturas. No ano seguinte, Ejnar Hertzprung começou a trabalhar com esse mesmo
tipo de gráficos, porém relacionando classes espectrais de estrelas, um indicativo muito
mais forte de temperatura, com sua luminosidade. Hertzprung trabalhou com aglomerados,
considerando o princípio de que o fato de as estrelas estarem agrupadas tornava a
distância entre elas insignificante em relação à distância do aglomerado. Em 1913, Henry
Norris Russell começou a trabalhar em um diagrama idêntico, porém utilizando estrelas
que tivessem paralaxes conhecidas, para poder estimar sua verdadeira luminosidade.
Com o tempo, esse tipo de diagrama começou a ser cada vez mais utilizado, e em grande
parte ele se tornou um instrumento muito importante para a compreensão da evolução das
estrelas durante sua vida. Com o tempo, os diagramas do tipo luminosidade x temperatura
ficaram conhecidos como Diagramas Hertzprung-Russell, ou mais frequentemente como
Diagramas HR.
Um Diagrama HR típico tem no eixo vertical a luminosidade da estrela, que aumenta
de baixo para cima, ficando então os objetos muito luminosos na parte superior do gráfico
e os pouco luminosos na parte inferior. É importante ressaltar que não é o brilho aparente
do objeto que se observa no gráfico, mas sim a sua luminosidade, ou a sua magnitude
absoluta, embora neste último caso se invertam os valores, com magnitudes baixas
(objetos de grande luminosidade) na parte superior do gráfico e grandes magnitudes
(objetos pouco luminosos) na parte inferior. No eixo horizontal teremos sempre alguma
indicação de temperatura, com as temperaturas mais altas na esquerda do gráfico e as
mais baixas na direita do gráfico. Nesse eixo, em vez da temperatura pode estar marcada
a classe espectral da estrela, que também é um indicativo de temperatura, com as classes
O-B-A-F-G-K-M e suas subdivisões dispostas da esquerda para a direita. Também pode
ser usado o índice de cor, uma técnica que consiste na observação de objetos celestes
de cores diferentes e na qual se subtraem as medidas obtidas em um filtro específico de
outro – o que também é uma forma de aferição da temperatura de superfície das estrelas,
com os números mais baixos à esquerda e os mais altos à direita. Não importa qual
desses indicadores seja utilizado, um Diagrama HR sempre indica uma relação entre a
luminosidade no eixo vertical e a temperatura no eixo horizontal (ver figura 44).
A análise de grandes grupos de estrelas através do Diagrama HR permitiu enormes
avanços no entendimento da evolução das estrelas durante seu ciclo de vida. Observar
um grande grupo de estrelas, como de uma galáxia, no Diagrama HR é como fazer um
instantâneo de todas as estrelas que compõem essa galáxia: jovens e velhas, brilhantes e
obscuras, grandes e pequenas. Um primeiro comentário que pode facilitar o entendimento
do gráfico é que a luminosidade de uma estrela é decorrente de dois fatores principais:
o quadrado de seu diâmetro (uma estrela com o dobro do diâmetro é quatro vezes mais
luminosa) e sua temperatura à quarta potência, ou seja: se você dobrar a temperatura de
uma estrela, ela aumentará sua luminosidade 16 vezes.
Noventa por cento das estrelas em um Diagrama HR típico vão estar em uma faixa
diagonal que vai do canto inferior direito, com estrelas frias e pouco luminosas, até o
canto superior esquerdo, com estrelas brilhantes e quentes. Dizemos que esse grupo
de estrelas está na Sequência Principal, que é a fase da vida de uma estrela em que ela

63
Figura 44 - Exemplo de um diagrama HR, importante ferramenta para o estudo da evolução estelar.
Desenho: Francisco Conte.
passa mais tempo, cerca de 90% de sua vida. Hoje sabemos que essas estrelas brilham
por causa da energia obtida na fusão de átomos de hidrogênio, que se transformam em
átomos de hélio.
Acima da Sequência Principal, no canto superior direito do Diagrama HR, vemos um
grupo de estrelas frias e muito luminosas. Para uma estrela fria produzir tanta luminosidade
ela deve ser muito grande, milhares de vezes maior que o Sol. Chamamos este grupo
de estrelas de gigantes vermelhas. Existem também as supergigantes vermelhas, ainda
maiores e mais luminosas. Estas estrelas estão em fases mais avançadas de sua vida e
próximas de seu final.
Por fim existe um grupo de estrelas localizado na parte inferior do Diagrama HR e
mais ao centro ou à esquerda do gráfico, o que indica a presença de estrelas quentes,
mas muito pouco luminosas. Para que isso ocorra, devem ser estrelas muito pequenas,
do tamanho de um planeta rochoso, como a Terra. A esse grupo de estrelas damos o
nome de anãs brancas. São estrelas em uma fase final de vida, sem a presença de
processos nucleares de fusão atômica. A estrela basicamente brilha pela enorme pressão
gravitacional e vai esfriar progressivamente com o passar do tempo.
64
Em 1940, Arnold O. Beckman inventa um novo instrumento, o espectrofotômetro,
um instrumento que transforma um espectro em um gráfico de intensidades, tornando
muito mais prático e simples o trabalho dos astrônomos (ver figura 45). Imediatamente
o instrumento foi adotado em todo o mundo e hoje em dia é possível afirmar que
possivelmente todo o trabalho de pesquisa em espectroscopia é realizado dessa forma.

Figura 45 - Exemplos de gráficos gerados pelo espectrofotômetro. Na esquerda vemos um típico espectro
de absorção, no qual fica muito mais evidente a visualização do contínuo e são muito claras as linhas. Na
direita vemos um espectro de emissão, com suas linhas muito intensas. Desenho: Francisco Conte.

Vimos neste capítulo como o nosso conhecimento em espectroscopia permitiu aos


astrônomos conhecer o funcionamento e o entendimento das estrelas. No próximo capítulo
abordaremos o surgimento de um novo ramo da astronomia a partir do surgimento de
uma nova geração de telescópios.

65
Capítulo 4
Rumo às montanhas – Temos um universo a descobrir
O próximo capítulo importante na história da astronomia não vem de nenhuma invenção
importante, como o telescópio, nem da introdução de um elemento tecnológico novo,
como a fotografia ou a espectroscopia. O fato importante que marca um novo paradigma
no início do século XX é a adoção de um padrão de qualidade total em relação ao que era
possível na época, algo como fez Tycho Brahe no final do século XVI. O início do novo
século é marcado pelo surgimento de novos observatórios, construídos com máxima
excelência, nos melhores locais, com a mais avançada tecnologia disponível. Além
disso, eles combinavam todas as inovações criadas nos períodos anteriores recentes:
montagens equatoriais motorizadas que permitiam o acompanhamento de objetos
durante uma noite de observações, utilização de placas fotográficas e espectroscópios
instalados em locais apropriados.
Esta nova era se iniciou principalmente nos Estados Unidos, com a construção dos
observatórios localizados em topos de montanhas, em locais com clima perfeito para a
instalação de telescópios, com novas tecnologias na construção de espelhos e erguendo
os maiores instrumentos até então. As montagens permitiam que os astrônomos
acompanhassem um objeto astronômico muito pouco luminoso por horas, acumulando luz
para impressionar chapas fotográficas para imagens ou para espectroscopia. A precisão
das observações atingiu um novo patamar e descobertas incríveis foram feitas, tornando
possível a criação de um novo ramo da astronomia: a cosmologia científica.
Este período se inicia com a construção, no final do século XIX, do Observatório
Lick, no Monte Hamilton, com 1.283 m de altitude, localizado ao sul da cidade de São
Francisco (ver figura 46). Tudo começou na época em que James Lick, um marceneiro
e construtor de pianos que enriqueceu da noite para o dia negociando terrenos quando
eclodiu a Corrida do Ouro na Califórnia, resolveu realizar alguma obra importante para
deixar seu nome na história. Sua primeira ideia foi erguer uma pirâmide na Union Square,
em São Francisco. Ele foi então convencido por George Ellery Hale a construir o maior
telescópio do mundo. Houve um acordo
com a cidade de Santa Clara, que
abriu uma estrada de primeira classe
para o acesso ao Monte Hamilton.
Era um antigo sonho dos astrônomos
construir um observatório no topo de
uma montanha em um local de clima
seco e apropriado para a realização de
observações astronômicas. Algumas
experiências já haviam sido feitas,
com pequenos telescópios sendo
levados por curtos períodos de tempo
e de maneira improvisada ao topo de Figura 46 - Vista externa da entrada do Observatório Lick,
montanhas, já deixando bem claras localizado no topo do Monte Hamilton, na Califórnia. Foto:
as vantagens de tal tipo de instalação. Francisco Conte.
66
Vale a pena ressaltar que o Observatório Lick, além de estar instalado no topo de uma
montanha, está em um local de clima seco, com grande quantidade de noites por ano
apropriadas à observação astronômica e com muito pouca turbulência atmosférica.
Os trabalhos para a construção do primeiro observatório permanente a ser instalado
no topo de uma montanha iniciaram-se em 1876. O primeiro telescópio a operar no local
foi um refrator de 30 cm de diâmetro fabricado por Alvan Clark. O astrônomo Edward
Barnard utilizou o instrumento para fazer fotos magníficas de cometas e nebulosas.
O telescópio financiado por Lick, um refrator de 91 cm de diâmetro, era o maior
telescópio de seu tipo construído até então. O instrumento viu sua primeira luz em 1888.
A empresa Warner & Swasey construiu a montagem e o tubo do telescópio, enquanto o
conjunto óptico foi fabricado por um dos filhos de Alvan Clark, Alvan Graham (ver figura
47). Em 1892, Barnard, utilizando esse telescópio, descobriu Amalteia, o primeiro satélite
de Júpiter encontrado desde Galileu. Na descoberta de Amalteia não foram utilizados
processos fotográficos. Na verdade, essa foi a última descoberta de um satélite do sistema
solar feita visualmente, marcando o fim de uma era. O próximo satélite a ser encontrado
no sistema solar, Febe, de Saturno, foi descoberto por William Pickering, em 1898, já
por meio da fotografia. O refrator de 91 cm também foi utilizado em seus primeiros anos
para fazer espectros estelares por W. W. Campbell, que trabalhava na estimativa de
velocidades radiais de estrelas.

Figura 47 - Vista do grande telescópio refrator do Observatório Lick. Foto: Francisco Conte.
Em 1895, outro telescópio é instalado no Monte Hamilton, embora muito menos famoso
e comentado que o refrator de 91 cm: o Crossley, um refletor com o mesmo diâmetro (ver

67
figura 48). O Crossley havia sido construído em 1879, na Inglaterra, por Andrew Ainslie
Common, que o utilizou em Londres até 1886, comprovando a eficácia do instrumento na
obtenção de fotografias de longa exposição. O telescópio era um dos primeiros refletores
construídos sobre uma base de vidro, sobre a qual era aplicada uma fina camada de prata,
com resultados muito superiores aos dos antigos refletores construídos a partir de ligas
metálicas. Essa técnica foi desenvolvida inicialmente por Justus Liebig e posteriormente
aperfeiçoada em 1857 por Carl von Steinheil e Léon Foucault. Sua vantagem principal,
além da estabilidade do conjunto, é que a camada de prata, quando deteriorada, pode
ser retirada por meio de processos químicos. Eles preservam o perfil parabólico do bloco,
bastando ser aplicada uma nova camada para o espelho voltar às suas características
originais. Como mencionado anteriormente, com esse instrumento o astrônomo James
Keeler obteve as melhores fotografias astronômicas de seu tempo, consolidando a
reputação de grandes telescópios refletores para a astronomia de ponta.

Figura 48 - Vista da cúpula do telescópio Crossley, no Monte Hamilton, que conseguiu obter as melhores
imagens astronômicas de seu tempo. Foto: Francisco Conte.
Keeler notou em suas imagens um número muito grande de nebulosas espirais, que hoje
sabemos serem galáxias. Na época essa foi uma observação importante e inesperada,
que teria desdobramentos importantes em um ramo da astronomia que estava prestes a
florescer: a cosmologia. A descoberta de Keeler era ainda mais importante pelo fato de
que essas nebulosas espirais eram sempre observadas longe da faixa da Via Láctea, que
é o trecho do céu onde vemos a maior concentração de estrelas. Será que esse tipo de
objeto tendia a evitar as estrelas? Devemos lembrar que com outros tipos de nebulosas –
por exemplo as irregulares, como a Nebulosa de Orion, ou as nebulosas planetárias, que
68
eventualmente lembravam o formato de um planeta – ocorria exatamente o oposto: elas
eram sempre observadas nas proximidades ou no interior da faixa da Via Láctea.
Logo após a virada do século, em um novo sítio na Califórnia, iniciou-se a construção
de um observatório que se tornaria um dos mais importantes da história da astronomia:
no Monte Wilson, muito próximo à cidade de Los Angeles, com altitude de 1.742 m, com
condições climáticas tão boas quanto as do Observatório Lick. O primeiro instrumento a
ser instalado no local foi o Snow Telescope, em 1905, um telescópio solar, o primeiro de
seu tipo de grande porte, posto que até então telescópios solares eram sempre aparelhos
portáteis que podiam ser deslocados até os pontos de observação. O Snow Telescope
foi construído a partir de uma verba doada por Helen Snow, de Chicago, convencida
pelo astrônomo George Hale, na época diretor do Observatório Yerkes. Hale sabia muito
bem a importância de instalar seu novo instrumento em um local apropriado para as
observações, sendo o sudoeste dos Estados Unidos uma opção muito mais indicada que
a região de Chicago, no centro-oeste. Hale era um astrônomo nascido em uma família
muito rica, e ainda jovem demonstrou interesse por astronomia, construindo seu primeiro
telescópio aos 20 anos. O pai, percebendo o entusiasmo do filho, instalou para ele no
quintal da residência da família um refrator com foco longo. De qualidade profissional,
o instrumento era também adaptado para espectroscopia, com cúpula e montagem
equatorial, podendo competir com a maioria dos telescópios de seu tempo.
Hale teria uma importância enorme na
astronomia do século XX, conseguindo
angariar verbas para a construção
de um grande número de telescópios
importantes no período. Em 1908 dois
telescópios foram construídos no local:
a torre solar de 60 ft (60 feet, ou pés,
ou seja, com cerca de 18 metros de
altura) e o telescópio refletor de 60”
(60 polegadas, ou mais ou menos
1,50 m de diâmetro). A torre solar foi
projetada para melhorar a resolução
das imagens em relação ao Snow
Telescope (ver figura 49). Os primeiros
anos de utilização desse telescópio
demonstraram que o seu desenho
horizontal apresentava um problema
difícil de ser contornado: o calor do Sol
aquecia o solo em torno do instrumento,
fazendo com que a qualidade das
imagens obtidas diminuísse com
o tempo de observação. A torre
Figura 49 - Um dos telescópios solares do observatório
concentrava boa parte de sua óptica no de Monte Wilson. Hale descobriu a correlação entre os
topo da instalação, evitando em grande fenômenos solares e seu campo magnético utilizando
parte o efeito de degradação causado estes instrumentos. Foto: Francisco Conte.

69
pelo aquecimento do solo. Foi nesse instrumento que Hale, em 1908, observando
algumas imagens do espectro solar em regiões que apresentavam manchas, percebeu
a duplicação de algumas linhas espectrais. Esse fenômeno é conhecido como efeito
Zeeman e é causado por um campo magnético forte. A descoberta da correlação entre
os fenômenos solares (manchas, flares etc.) e o magnetismo é uma das mais importantes
da astronomia solar.
Para a construção do telescópio de 60”, como ficou conhecido, George Hale recebeu
de presente de seu pai um bloco de vidro, que foi utilizado na fabricação do espelho pela
empresa Saint-Gobain, da França. O bloco tinha uma espessura de 19 cm e pesava
860 kg. Em 1904, Hale conseguiu uma verba da Fundação Carnegie para iniciar a
construção do telescópio. A montagem e a estrutura do telescópio haviam sido fabricadas
em São Francisco e quase foram destruídas no terremoto de 1906. O transporte e a
instalação de todo o conjunto em Monte Wilson foram uma grande façanha. O instrumento
viu sua primeira luz em 8 de dezembro de 1908. Nessa época ele havia se tornado o maior
telescópio do mundo, pois o Leviatã de Parsonstown tinha sido desmantelado no início
dos anos 1890. De qualquer forma, devido à sua construção com base em um bloco de
vidro, era um instrumento muito superior ao Leviatã em todos os aspectos. Isso mesmo
se não levarmos em conta a robusta e motorizada montagem equatorial, a utilização
de chapas fotográficas, os instrumentos que podiam ser acoplados ao telescópio, como
os espectrógrafos, a instalação em um sítio muito superior do ponto de vista técnico, a
cúpula protetora etc. Sem o menor medo de cometer qualquer tipo de injustiça, esse era
o melhor telescópio já construído (ver figuras 50 e 51).

Figuras 50 e 51 (ver página seguinte) - Duas vistas do telescópio de 60” (1,50 m) de Monte Wilson. Foto:
Francisco Conte.
70
Figura 51
Utilizando esse telescópio, o astrônomo
Harlow Shapley realizou um importante
trabalho observacional, mapeando todos os
aglomerados globulares conhecidos (ver figura
52). Aglomerados globulares são conjuntos de
estrelas unidas gravitacionalmente, com uma
forma aproximadamente esférica, e que contam
com um número variável de estrelas, de cerca de
100 mil até 1 milhão. Hoje sabemos que esses
aglomerados fazem parte de nossa galáxia e se
distribuem na região do halo. Shapley desenvolveu
um trabalho de peso envolvendo a realização de
uma estimativa de distância desses aglomerados.
Como era impossível estimar a distância pelo
método da paralaxe, Shapley utilizou a relação
período-luminosidade das Cefeidas, descoberta
por Henrietta Leavitt em Harvard. Para tanto,
Shapley teve que descobrir Cefeidas em todos os
aglomerados globulares que observou. Calculadas Figura 52 - Harlow Shapley realizou um
trabalho importante de mapeamento de
as distâncias de todos e sabendo suas direções,
aglomerados globulares, que forneceu a
foi possível fazer um mapa tridimensional da indicação de que o Sol não estava no centro
distribuição desses aglomerados. A surpresa é de nosso universo (de nossa galáxia). Fonte:
que essa distribuição era quase esférica em torno Wikimedia Commons.
71
de um ponto na região do Sagitário, na parte mais pronunciada da Via Láctea, a faixa
nebulosa que cruza o céu noturno. O que ele havia descoberto era que o centro de nossa
galáxia estava localizado nessa região. E que o nosso sistema solar está localizado longe
desse centro. Deixávamos definitivamente de ser o centro do universo.
Shapley desenvolveu outro trabalho de expressão nesse período, que foi a melhor
estimativa do tamanho da nossa galáxia até então. Ele estimou o diâmetro de nossa
galáxia em 300 mil anos-luz, o que é um pouco alto para os valores que se tem hoje, mas
que acabou servindo de parâmetro para essa geração de astrônomos.
No final do século XIX, nas proximidades de Flagstaff, no Arizona, Percival Lowell
construiu um observatório particular. Lowell era fascinado por Marte e acreditava que
havia vida inteligente no planeta vermelho. Assim, através de seus próprios meios instalou
um grande telescópio refrator (61 cm de diâmetro) no sítio, que não tinha um clima tão
bom quanto o da Califórnia, mas era localizado em uma altitude ainda maior que a do
Lick e do Monte Wilson: 2.210 m acima do nível do mar. Lowell realizou ele mesmo
uma série de observações, mas também criou um programa observacional, contratando
astrônomos para executar os trabalhos. Em 1930, um desses astrônomos, um jovem
chamado Clyde Tombaugh, descobriu Plutão, mas os trabalhos mais importantes feitos
em Flagstaff foram realizados por Vesto Melvin Slipher. No período de 1912 a 1914,
Slipher obteve o espectro de uma série de nebulosas espirais, que hoje sabemos serem
galáxias espirais (ver figuras 53 e 54). Analisando as linhas espectrais, Slipher percebeu
um pronunciado desvio das linhas em relação à posição que elas tinham em laboratório.
Isso podia ser explicado pelo efeito Doppler, mas implicava que essas galáxias estavam
se movendo em velocidades muito altas em direção à Terra, fato que parecia indicar uma
grande distância em relação a esses objetos.

Figuras 53 e 54 - Instrumentos de espectroscopia utilizados por Vesto Slipher em Flagstaff para descobrir o
grande desvio para o vermelho das linhas de absorção dos espectros de galáxias. Fotos: Francisco Conte.

O sucesso dos primeiros anos de operação dos telescópios no Monte Wilson incentivou
Hale a tentar dar passos maiores. Hale convenceu o magnata do aço americano John
D. Hooker a doar fundos para a construção do maior telescópio do mundo, que seria
batizado com o nome de seu mecenas. O projeto elaborado foi a construção de um
telescópio de 100” (100 polegadas, ou 2,50 m de diâmetro), que teria quase três vezes
a área de coleta de luz do telescópio de 60”.

72
A construção do espelho de 2,50 m para o telescópio Hooker de Monte Wilson era
um desafio tecnológico muito grande, pois representava um volume de vidro quase oito
vezes maior que o do telescópio de 1,50 m e o peso total do espelho acabado era de mais
de quatro toneladas (ver figura 55). Todo o processo de fabricação era muito difícil – o
resfriamento do bloco de vidro após sua fundição demora meses, e se for feito de forma
demasiado rápida pode gerar trincas e outros problemas técnicos. O primeiro bloco de vidro
construído apresentou muitas bolhas e foi inicialmente descartado. A empresa francesa
Saint-Gobin, que havia construído essa peça, foi convencida a fundir um segundo bloco,
que igualmente apresentou problemas. Após essas duas tentativas, a empresa desistiu
de tentar refazer a fundição do espelho por uma terceira vez, criando um impasse entre o
fabricante e o pessoal do observatório. Finalmente, Hale analisou os dois blocos e chegou
à conclusão de que seria possível utilizar o primeiro para a construção do espelho, pois
as bolhas estavam concentradas na região central da peça e eventualmente poderiam
não influir na performance do telescópio. Assim, foi concluído o telescópio, assumindo-
-se um risco técnico razoável devido aos problemas de fabricação do espelho principal.
De fato, o espelho acabou se comportando muito bem e o telescópio Hooker se tornou o
mais importante do mundo pelas décadas seguintes. A pesquisa observacional de ponta
na astronomia havia se transferido da Europa para a América do Norte, pois não havia
como competir com os novos observatórios construídos no sudoeste dos EUA.

Figura 55 - Vista do telescópio Hooker, de 2,50 m de diâmetro, em Monte Wilson. Foto: Francisco Conte.

Neste ponto a atenção afasta-se um pouco da descrição do que ocorria no topo das
montanhas para deter-se sobre alguns avanços que ocorriam na Europa. O final do
século XIX e início do XX foi um período de extremo desenvolvimento teórico, com os
73
primeiros trabalhos ligados à teoria quântica, realizados por Max Planck. Em 1905, Albert
Einstein publica três artigos importantíssimos para a física. No primeiro deles explica o
movimento browniano, comprovando a existência dos átomos; no segundo, dedicado
ao efeito fotoelétrico, fornece uma explicação quântica para um fenômeno ligado à luz,
comprovando que, como Newton afirmava, a luz era composta por partículas (embora
saibamos que também se comporta como onda); no terceiro, apresenta a relatividade
especial, que acaba com o conceito de observador absoluto e de tempo absoluto.
Segundo essa teoria, alguns experimentos vão ser observados de formas diferentes
por observadores em repouso e em movimento, mas todas as observações são válidas,
e o tempo também é relativo e pode passar mais lentamente ou mais rapidamente
dependendo do observador, caso este esteja em repouso ou em movimento. O que era
constante em todos os casos era a velocidade da luz no vácuo. Após alguns séculos de
consolidação da mecânica newtoniana a física estava sendo totalmente reformulada em
sua essência teórica.
Em 1915 Einstein publica seu trabalho sobre a relatividade geral, que no fundo é uma
nova lei de gravitação. Esse trabalho acaba com o conceito de uma força gravitacional
que atua instantaneamente, não importando a distância, como na proposição de Newton.
Na relatividade geral a gravidade aparece como uma deformação geométrica do espaço-
-tempo. Uma massa muito grande deforma o espaço-tempo ao seu redor, causando efeitos
como o desvio de um raio de luz vindo de uma fonte distante. Em 1919, a observação de
um eclipse solar em Sobral, no Ceará, e na Ilha do Príncipe, no litoral da África, confirmou
as predições de Einstein, que se tornou uma celebridade instantânea, e abriu as portas
para a divulgação de uma nova física.
A relatividade geral de Einstein era uma descrição da gravitação muito mais detalhada
que a newtoniana. Com ela, pela primeira vez era possível abordar os aspectos gerais
do universo, suas origens, desenvolvimento e destino do ponto de vista teórico. O próprio
Einstein foi o primeiro a tentar montar um modelo cosmológico realmente científico. Seus
trabalhos foram publicados em 1917, e tinham três importantes pressupostos: a matéria
era formada por um fluido perfeito sem pressão; o universo era homogêneo e isotópico; o
universo era finito e estático. Para viabilizar esse modelo, Einstein criou um termo conhecido
como constante cosmológica, que atuava em oposição à gravidade e era responsável por
manter o universo estático. No mesmo ano, Willem De Sitter desenvolveu um modelo no
qual o universo era também estático, sem a utilização de uma constante cosmológica,
mas sem matéria. Só em 1922, porém, é que foram concebidos modelos mais elaborados
e realistas para o universo. De maneira muito surpreendente o autor desses modelos
era Alexander Friedmann, um meteorologista russo que adorava matemática e física e
tinha entrado em contato com os trabalhos de Einstein. Friedmann criou os primeiros
modelos expansionistas do universo e enviou seus trabalhos a Einstein, adicionando uma
correção de um erro que havia encontrado no modelo einsteiniano. Obviamente Einstein
relutou um pouco em aceitar o trabalho de Friedmann, mas acabou por reconhecer
seu valor e publicou uma carta afirmando que ele estava correto, adicionando que a
constante cosmológica era o maior erro de sua vida. O interessante é que nos trabalhos
de Friedmann este considera a possibilidade teórica da existência de uma constante
cosmológica e seus modelos funcionam tanto com quanto sem ela. Em pouco tempo o
trabalho de Friedmann mostraria a sua importância.
74
Retornando à astronomia observacional, vamos perceber que esta também passava
por uma fase de grande agitação. As últimas décadas do século XIX e o início do século
XX haviam visto uma melhora expressiva na qualidade e quantidade de observações
astronômicas. Grande parte delas era registrada em chapas fotográficas que permitiam
múltiplas análises e comparações de objetos ao longo do tempo, além de apresentarem
uma grande quantidade de objetos que nunca haviam sido observados. E tudo isso ainda
podia ser complementado pelo estudo dos espectros desses objetos. Um tipo de objeto
que despertou muito interesse foram as nebulosas espirais, que hoje sabemos serem
galáxias espirais. Observadas pela primeira vez por Lorde Rosse em seu Leviatã, assim
que os observatórios começaram a fazer fotografias de longa exposição em seus novos
e potentes telescópios, ficou muito claro que as nebulosas espirais eram um tipo de
objeto bastante comum. A observação mais detalhada de algumas delas parecia indicar
a existência de estrelas em seu interior, embora na maioria dos casos a aparência difusa
indicasse uma origem nebular. Conforme os observatórios do sudoeste americano foram
produzindo um número cada vez maior e mais detalhado de imagens desses objetos,
iniciou-se um debate entre os astrônomos sobre a real condição das nebulosas espirais:
seriam elas objetos nebulares localizados em nossas cercanias, ou seriam grupos
imensos de estrelas, como a nossa Via Láctea, localizados a uma distância muito maior
do que imaginado inicialmente? Além disso, se fossem conjuntos de estrelas poderiam
ser algo como os “universos-ilhas” descritos por Immanuel Kant em 1755 (estruturas
totalmente independentes da galáxia da qual fazíamos parte)?
Em pouco tempo a real identidade das nebulosas espirais se tornou um dos principais
problemas da astronomia do período, mas o tipo de trabalho que resolveria definitivamente
a questão exigiria um esforço observacional extremo, mesmo contando com os mais
novos e potentes observatórios e técnicas. Antes que o problema fosse solucionado, o
meio astronômico viveu um período de idas e vindas, com trabalhos não conclusivos e
muitas vezes contraditórios. Como vimos anteriormente, Vesto Slipher havia medido as
velocidades de deslocamento de algumas nebulosas espirais através do efeito Doppler,
obtendo velocidades radiais elevadas, que pareciam confirmar a ideia de objetos muito
distantes formados por estrelas. Trabalhos feitos por Harlow Shapley pareciam indicar
que a nossa galáxia, que nesse momento ainda considerávamos ser todo o universo, era
muito maior do que havíamos suposto até então. Um astrônomo de origem holandesa,
Adriaan van Maanen, fez um trabalho observando imagens de uma galáxia espiral vista
“de frente”, ou face-on, e afirmou ter encontrado indicações de que entre as duas imagens
havia conseguido perceber uma pequena rotação do objeto. Essa afirmação parecia
indicar que esses objetos não poderiam ser muito grandes, e que portanto estariam em
nossas cercanias. Van Maanen era um observador muito conceituado, então por algum
tempo suas conclusões tiveram um peso grande dentro da comunidade astronômica.
Como essa questão estava atraindo um número maior de pesquisadores, no início
de 1920 a Academia de Ciências de Washington resolveu organizar um debate entre
astrônomos partidários das duas visões. Para defender o grupo que acreditava que as
nebulosas espirais eram objetos localizados no interior de nossa galáxia foi convocado
o astrônomo Harlow Shapley, e para argumentar em favor do grupo que acreditava na
existência de múltiplos “universos-ilhas” foi chamado o astrônomo Heber Curtis. O debate

75
ocorreu no dia 20 de abril do mesmo ano e, segundo a maior parte das pessoas que
participaram do evento, Curtis causou melhor impressão, pois era um orador muito enfático
e se preparou muito para o evento, ao passo que Shapley mostrou-se mais burocrático
e menos convincente. O resultado do debate, no entanto, foi indefinido, pois na verdade
nenhum dos lados possuía argumentos definitivos acerca do problema em questão. Esse
tipo de encontro, na verdade, não é realizado na expectativa de elucidar o problema,
mas provavelmente para mostrar o “estado da arte” no conhecimento sobre o assunto,
incentivando talvez novos pesquisadores a trabalharem nele. Mas a resposta para a
questão não demoraria em aparecer. Pouco tempo depois do debate Harlow Shapley foi
contratado como diretor do Observatório da Universidade Harvard, onde permaneceria
até 1951. Era um cargo muito importante, onde ele passaria a trabalhar com a equipe que
havia feito os maiores avanços na área de espectroscopia estelar, mas que o afastava
da pesquisa de ponta realizada no Observatório Monte Wilson. Em dezembro de 1920,
Albert Michelson utiliza o telescópio Hooker para uma experiência em interferometria
óptica que vai ser vista em detalhes em outro capítulo.
No início dos anos 1920, o astrônomo Edwin Hubble mudou-se para Monte Wilson
(ver figura 56). Hubble era uma figura ímpar. É praticamente impossível descrever seus
trabalhos sem dedicar algumas palavras a descrever sua figura. Nascido no Missouri,
muitas vezes ele é apresentado como egocêntrico e até em alguns momentos prepotente.
Era alto e forte e suas habilidades atléticas o ajudaram a ser admitido na Universidade de
Chicago, onde conseguiu habilitações tanto em direito quanto em astronomia, atividade
que praticava como amador desde criança. Hubble era também muito inteligente e mostrou
grandes capacidades no desenvolvimento de
seus estudos. Após obter seus diplomas, Hubble
foi selecionado para uma bolsa de três anos em
Oxford, na Inglaterra, onde inicialmente estudou
jurisprudência, em vez de ciência, seguindo
uma promessa que tinha feito a seu pai.
Posteriormente, estudou literatura e espanhol,
recebendo créditos para um mestrado. Hubble
fez também alguns cursos de matemática e
ciência. Após a morte de seu pai, em 1913,
retornou aos EUA, onde não teve motivação
para trabalhar como advogado e começou a dar
aulas de espanhol, física e matemática na New
Albany High School, em Indiana, onde também
era o treinador do time de basquete. Mais tarde,
voltou a estudar astronomia no Observatório
Yerkes, onde obteve o doutorado em 1917,
com uma tese sobre análises fotográficas
de nebulosas. No mesmo ano, após os EUA
declararem guerra à Alemanha, alistou-se como Figura 56 - Edwin Hubble, o astrônomo que
voluntário e foi integrado no segundo batalhão realizou duas importantes descobertas da
de infantaria do regimento 343. Embarcando astronomia enquanto trabalhava em Monte
para lutar na Primeira Guerra Mundial na Wilson. Fonte: Wikimedia Commons.
76
Europa, não chegou, no entanto, a entrar em combate. Após o término da guerra voltou
a seu país, onde recebeu uma oferta da Carnegie Institution for Science para trabalhar
no observatório de Monte Wilson. Hubble chegou ao observatório vestindo-se como um
dândi e falando com sotaque inglês, sempre acompanhado de seu cachimbo. Essa sua
reinvenção um tanto quanto teatral é muito comentada em suas várias biografias; seu
trabalho, no entanto, se tornaria um dos mais importantes e inovadores na história da
astronomia.
Vale aqui um comentário sobre a tese de 1917 de Hubble. Nessa época, ele estava
em Yerkes, o telescópio refrator de 1 metro de diâmetro era a estrela do observatório
e Hubble, como estudante, tinha um acesso muito limitado ao instrumento. Havia, no
entanto, um telescópio refrator no observatório a que poucos astrônomos davam atenção,
que ficava ocioso boa parte do tempo. Era um telescópio com 60 cm de diâmetro, que
havia sido comprado por George Ritchey para competir com o muito produtivo Crossley
Reflector do Observatório Lick. Hubble utilizou esse instrumento para fazer fotografias
de nebulosas. Uma delas, em especial, a NGC 2261, uma nuvem de gás com aparência
muito parecida com um cometa, foi cuidadosamente analisada por ele. Comparando
suas exposições com outras imagens obtidas anteriormente em outros observatórios,
foi possível encontrar diferenças consideráveis em sua aparência, o que indicava que
a nebulosa deveria ser pequena e estar localizada em nossas proximidades – o que foi
comprovado posteriormente através de novas observações. Durante sua carreira, Hubble
voltou a observar esse objeto em várias ocasiões. A NGC 2261 atualmente também é
conhecida por Nebulosa Variável de Hubble.
Hubble foi então incorporado à equipe de astrônomos do Observatório Monte Wilson.
De imediato, passou a ter acesso aos dois impressionantes telescópios, de 60” e de
100” (ver figura 57). Hubble passou a fazer parte de um grupo que já tinha Harlow
Shapley, Van Maanen e George Hale, entre outros. No início de 1923, Hubble começou
a fazer imagens de um objeto descoberto por Barnard em 1884, conhecido por NGC
6822. O objeto observado pelos poderosos telescópios de Monte Wilson demonstrava
claramente ser um agrupamento de estrelas muito similar às Nuvens de Magalhães, que
hoje sabemos tratar-se de duas galáxias satélites da nossa Via Láctea. Shapley havia
feito uma estimativa de distância do objeto, levando em conta seu diâmetro angular,
comparando com as Nuvens de Magalhães, e chegou a uma distância aproximada de
1 milhão de anos-luz. Essa distância colocava o objeto claramente fora de nossa galáxia,
que o próprio Shapley havia estimado possuir um diâmetro de cerca de 300 mil anos-luz,
mas a dificuldade de confirmar essa distância acabou por manter a questão em aberto.
Observando NGC 6822 com muito cuidado, e levando em conta sua característica similar
às Nuvens de Magalhães, Hubble decidiu procurar estrelas variáveis, como havia feito
Henrietta Leavitt algumas décadas antes. Examinando meticulosamente as imagens que
havia obtido do objeto com vários dias de diferença, Hubble encontrou pelo menos 15
estrelas variáveis, e destas pelo menos 11 eram Cefeidas. Ele conseguiu então utilizar a
relação período-luminosidade para calcular a distância desse agrupamento de estrelas,
encontrando o resultado de 700 mil anos-luz, bem menor do que a distância considerada
hoje, de aproximadamente 1,6 milhão de anos-luz, mas suficiente para colocar o objeto
fora de nossa galáxia. Mas a avaliação da distância de NGC 6822 não foi o ponto final na

77
discussão sobre os universos-ilhas, pois de qualquer maneira esse tipo de objeto, similar
às Nuvens de Magalhães, era muito raro e podia indicar apenas a existência de uns
poucos satélites de nosso universo (galáxia). Uma forma segura de encerrar o debate
seria descobrir qual era a real natureza das nebulosas espirais.

Figura 57 - Vista externa da cúpula do telescópio Hooker. Foto: Francisco Conte.

Em outubro de 1923, apesar de as condições de observação não serem ideais, Hubble


conseguiu fazer uma imagem razoável de M31, a nebulosa espiral de Andrômeda, um objeto
facilmente visível a olho nu e com um diâmetro aparente maior que o da Lua. Na imagem
Hubble conseguiu identificar três estrelas, que ele imediatamente imaginou tratar-se
de novas. Hubble resolveu então procurar nos arquivos de Monte Wilson outras imagens
de M31 capturadas por outros astrônomos do observatório, a mais antiga delas de 1909.
Comparando as imagens com a sua exposição, Hubble conseguiu confirmar que duas
delas eram realmente novas e que não apareciam em nenhuma das imagens anteriores.
Quando o tempo melhorou na Califórnia, em fevereiro de 1924, Hubble fez uma série de
imagens de M31, com o objetivo de observar o comportamento da terceira estrela que
havia observado. Nas imagens ele percebeu que ela variava de brilho, chegando a uma
mudança maior que uma magnitude. O acompanhamento revelou que esta estrela era
claramente uma Cefeida. A placa onde ele fez sua descoberta mostra as anotações das
posições das duas novas marcadas a lápis com uma letra “N” e na indicação da terceira
estrela a letra N está marcada com um “X” e ao lado está escrito “VAR”. Após Hubble
estimar com precisão o período de variação da Cefeida, ele pode calcular a distância
de M31, que estimou em aproximadamente 1 milhão de anos-luz. Nos meses que se
seguiram, Hubble descobriu outras Cefeidas em M31, chegando a um total de 36 ainda
em 1924. Os cálculos feitos com essas estrelas adicionais confirmavam e reforçavam
78
suas conclusões iniciais. Esse trabalho deixou claro que as nebulosas espirais eram
na verdade “universos-ilhas” situados além de nossa galáxia. Nosso universo era muito
maior do que acreditávamos até então. M31 era na verdade a Galáxia de Andrômeda.
Hubble ainda arranjou tempo para se casar em 26 de fevereiro desse mesmo ano.
O jornal The New York Times publicou uma reportagem sobre sua descoberta em 23
de novembro de 1924. No dia 1o de janeiro de 1925, Henry Norris Russell apresentou
o trabalho de Hubble na reunião anual da American Astronomical Society, em uma
Washington coberta de neve. Hubble relutou em comparecer à reunião, mas Russell
entendeu que a descoberta era importante demais para não ser apresentada. Além disso,
Russell convenceu o grupo da reunião a indicar o trabalho de Hubble para o prestigiado
prêmio da AAAS (American Association for the Advancement of Science). Hubble acabou
recebendo o prêmio por sua descoberta, dividido com o parasitologista Lemuel Cleveland,
que desenvolveu um estudo sobre protozoários. Com o dinheiro do prêmio Hubble comprou
um terreno onde acabou por construir sua própria casa. Surpreendentemente, somente
no ano de 1929 é que finalmente ele publicou um artigo formal sobre esses estudos
em uma revista científica, fato impensável nos dias atuais. Quando fez a publicação, o
artigo tinha mais de 60 páginas, estava muito mais fundamentado por todos os dados
acumulados durante quase cinco anos e incluía a galáxia-anã elíptica M33, um satélite
de Andrômeda. De qualquer maneira, esse trabalho de Hubble mudou os paradigmas
da astronomia de sua época, acabando por fim com o debate da existência ou não de
galáxias.
Não deixa de ser surpreendente que a questão dos universos-ilhas tenha demorado
tanto para ser resolvida. Obviamente um fator é a utilização do telescópio mais poderoso
do mundo, o Hooker de 100”. Porém, analisando os fatos, o telescópio de 60” de Monte
Wilson, construído muito antes, já seria capaz de realizar observações com qualidade
suficiente para encontrar Cefeidas em galáxias espirais próximas. É possível que até o
Crossley, do Observatório Lick, também fosse capaz. A surpresa é que Hubble não foi o
primeiro astrônomo a descobrir uma estrela variável em uma galáxia espiral. Na verdade,
o primeiro foi John Duncan, do Wellesley College, que teve acesso tanto ao telescópio de
60” quanto ao Hooker de 100” durante um trabalho de busca de novas, em 1920. Nesse
período, Duncan descobriu três estrelas variáveis na Galáxia do Triângulo. Infelizmente,
ele não obteve uma quantidade suficiente de imagens para poder estimar o período de
variação das estrelas que descobriu. A última das três estrelas descobertas era uma
Cefeida. Outro ponto surpreendente é que Shapley havia feito o seu trabalho mais
importante descobrindo Cefeidas em aglomerados globulares. Ele teria o conhecimento
e a técnica necessários para a missão, além de acesso livre aos telescópios de Monte
Wilson, reunindo todos os meios necessários para a descoberta, mas não a fez. O que
parece ter impedido Shapley de realizar esse feito foi sua convicção de que o modelo
da grande galáxia estava correto. Shapley não encontrou Cefeidas em galáxias espirais
porque acreditava que estas eram sistemas nebulares onde estrelas estariam em um
processo de formação, sendo inútil qualquer busca.
O trabalho de Hubble estabeleceu, como vimos, um novo paradigma para a astronomia
observacional. Muitas das observações com resultados conflitantes realizadas nos anos
anteriores deveriam ser revisadas a partir desse novo padrão. Para alguns trabalhos
isso significou um reconhecimento, como no caso do cálculo das velocidades radiais
das galáxias feito por Vesto Slipher. Com a confirmação da enorme distância das
79
galáxias, as grandes velocidades radiais que elas apresentavam passavam a fazer
sentido, pois a distância justificava a ausência de movimentos ou mudança de aparência
nesses objetos. Por outro lado, a alegação de Van Maanen de que havia observado
um componente rotacional em algumas galáxias espirais havia sido mortalmente ferida.
Para que pudéssemos perceber astrometricamente a rotação de uma galáxia, ela não
poderia ser muito distante, pois implicaria em uma velocidade muito elevada, indicando
que a observação deveria estar errada. De fato, até hoje, mesmo com instrumentos muito
mais poderosos, não é possível perceber a rotação das galáxias através de observações
astrométricas, apenas a espectroscopia tornou esta medição possível. Esse fato criou
um problema de relacionamento grande no Observatório de Monte Wilson, onde tanto
Van Maanen quanto Hubble trabalhavam. A situação se agravou pela demora de Van
Maanen em reconhecer seu erro, mas também pelo caráter genioso de Hubble, que mais
uma vez se manifestava. Depois de alguns anos houve um esforço geral do pessoal
do observatório para apaziguar os ânimos, incluindo um simbólico aperto de mão entre
os dois e a elaboração de um trabalho conjunto sobre o tema, com a participação de
outros astrônomos do observatório. Mas Hubble e Van Maanen mantiveram uma relação
distante, limitada aos cumprimentos, quando se encontravam na montanha.
O próximo passo da pesquisa, um tanto óbvio, era ampliar o trabalho, tentando
encontrar variáveis do tipo Cefeida em outras galáxias espirais, similares à Galáxia de
Andrômeda. Hubble passou a dedicar-se ao problema e nessa fase passou a contar com
a colaboração de Milton Humason, que havia começado a trabalhar no observatório no
transporte de peças para os telescópios em tropas de mulas, passando em seguida à
função de zelador do observatório e posteriormente à de assistente voluntário para as
observações noturnas. Em 1919, Hale finalmente reconheceu o talento de Humason
para essas atividades e acabou por contratá-lo como membro do observatório. Humason
era excelente na aquisição de imagens astronômicas e também de espectros de objetos
distantes e de pouco brilho. A obtenção de um espectro de uma galáxia espiral distante
frequentemente demorava horas, sendo um trabalho bastante tedioso e realizado em
condições climáticas terríveis, muitas vezes em temperaturas abaixo de zero. Apenas
para ilustrar o que foi comentado no parágrafo anterior, quando foi decidido que Humason
iria fazer parte da equipe de astrônomos de Monte Wilson, foi estabelecido também que
alguns membros do observatório dariam a ele um treinamento, com conteúdo teórico
e prático, para que tivesse mais condições para desenvolver o seu trabalho. Shapley,
que era um de seus orientadores, deu a ele algumas chapas fotográficas para serem
analisadas com a técnica de blink, onde duas ou mais imagens de um mesmo objeto são
projetadas sucessivamente, em um processo repetitivo, de modo a destacar os objetos
que tiveram algum tipo de alteração nas imagens, seja esta uma mudança de brilho
ou de posição. Humason identificou algumas estrelas que pareciam ser variáveis em
imagens de galáxias espirais, anotando suas posições com uma caneta. Consta que
Shapley explicou pacientemente a Humason que as nebulosas espirais eram regiões
de formação estelar, de modo que não poderíamos observar estrelas variáveis nessas
regiões, e apagou as marcações, não percebendo a oportunidade que tiveram para fazer
história. Como afirmou Louis Pasteur: “Nos campos da observação, a chance favorece
apenas as mentes preparadas” (Bartuziak, 2010, p. 217).
A associação entre Hubble e Humason foi muito importante na sequência das
pesquisas, pois havia duas frentes independentes de trabalho: primeiro, o cálculo de
80
distância feito para M31 precisava ser estendido para outras galáxias; ao mesmo tempo,
a descoberta das velocidades radiais de Vesto Slipher era uma informação importante
demais para ser ignorada. Será que existiria alguma ligação entre as distâncias das
galáxias e suas velocidades radiais? Talvez dessa relação pudessem surgir novas pistas
para o entendimento de nosso universo. Hubble tinha vasta experiência na detecção de
Cefeidas, o que seria fundamental nos cálculos de distância, ao passo que Humason era
provavelmente o mais habilidoso de todos os observadores de Monte Wilson no que se
referia a conseguir obter um bom espectro de objetos muito pouco brilhantes, o que seria
fundamental para a determinação das velocidades radiais.
O trabalho foi executado em um prazo curto, e em 1929 eles já estavam prontos para
publicar um artigo sobre o tema. Logo após o trabalho sobre M31, ainda em 1925, Hubble
já estava fazendo progressos no estudo de pelo menos três galáxias: M81 (galáxia
descoberta em 1774 pelo astrônomo alemão Johann Bode), M101 (conhecida como
Galáxia do Catavento ou, em inglês, Pinwheel) e NGC 2403 (que havia sido descoberta
em 1788 por William Herschel). Humason dedicou-se duramente à tarefa de obtenção
de espectros dessas galáxias, o que se mostrou um trabalho realmente árduo. Para
exemplificar, vejamos a mais difícil das galáxias analisadas: NGC 7619, uma galáxia
espiral localizada na constelação do Pegasus. Na primeira tentativa, Humason fez uma
exposição que durou nada menos que 33 horas, o que implicava em vários dias de
trabalho duro. A observação só era possível utilizando-se os limites da tecnologia da
época e muito esforço. Durante todo o processo o telescópio tinha que estar perfeitamente
apontado para o objeto, o que exigia realinhar o telescópio a cada noite, para captar os
raros fótons que chegavam da fraquíssima fonte, em um ambiente tedioso, solitário e frio.
Mas a imagem não ficou boa o suficiente, e Humason acabou por fazer outra exposição,
que durou 45 horas, como podemos ver em Bartuziak (2010, p. 232). Após a realização
dessa tarefa hercúlea, temos que lembrar que captar o espectro era apenas a fase inicial
do trabalho. Depois disso, Humason teria que passar várias horas analisando as linhas
do espectro para poder medir o redshift de cada galáxia, o que também era uma tarefa
bastante desafiadora, para dizer o mínimo. Após a medição, Humason encaminhava
seus resultados a uma computadora, Elizabeth MacCormack, lembrando que Humason
não tinha recebido uma formação em matemática como os outros astrônomos de Monte
Wilson. No caso de NGC 7619, a velocidade radial estimada foi de 3.779 km/s, mais que
o dobro da maior velocidade apurada por Vesto Slipher em seus estudos.
Ao término dessa etapa de trabalho, Hubble montou um gráfico onde no eixo horizontal
se marcavam as distâncias das galáxias e no eixo vertical as velocidades radiais obtidas
pelo deslocamento das linhas espectrais. Apesar de certa dispersão dos dados, uma
clara tendência podia ser observada: Quanto mais distante estivesse uma galáxia, maior
a sua velocidade de afastamento em relação ao observador. O que Hubble e Humason
haviam descoberto é que o nosso universo estava se expandindo, assim como havia sido
previsto nos modelos teóricos de Alexander Friedmann. Estava aberta uma nova época
na história da astronomia, em que pela primeira vez tanto os desenvolvimentos teóricos
como os observacionais tornavam possível a compreensão de todo o universo. Era o
início de um novo ramo da astronomia: a cosmologia observacional.
O artigo final tem apenas seis páginas e é assinado só por Hubble, embora este
faça menções às estimativas de velocidade radial obtidas por Humason. Ele comenta
81
que já haviam sido realizadas algumas tentativas de fazer a correlação entre distâncias
de galáxias e suas velocidades radiais, chamando o próprio trabalho de “reexame”. O
artigo apresenta a velocidade radial de 46 galáxias, mas apenas consegue estimar as
distâncias de 24 destas, devido às dificuldades de observação de estrelas isoladas em
sistemas tão distantes. A impossibilidade técnica da execução da avaliação de distância
das galáxias aparentemente mais distantes, pois estas eram menos brilhantes e menores
em tamanho angular do que as galáxias em que a medição foi possível, serve, no entanto,
para reforçar a ideia de que as galáxias continuam a se afastar em velocidades cada
vez maiores conforme aumenta a distância. O nome de Vesto Slipher não é citado no
artigo, embora ele seja mencionado em textos posteriores de Hubble. Mas foi Slipher que
descobriu as altas velocidades radiais das galáxias, em que se baseia todo o trabalho
exposto no artigo. Além disso, apesar de Humason ter calculado os desvios das linhas
espectrais a partir de espectros obtidos por ele, nada menos do que 28 desses redshifts
haviam sido estimados anteriormente por Slipher com valores tão bons quanto os obtidos
em Monte Wilson. Outro ponto interessante que aparece em muitos de seus escritos da
época é que se pode perceber uma certa reserva de Hubble em aceitar os valores das
velocidades radiais como um dado real. Muitas vezes estas eram descritas por ele como
“velocidades radiais aparentes”. Por fim, no último parágrafo do trabalho, Hubble faz
pequenos comentários sobre o fato de a correlação entre velocidade radial e distância
das galáxias possivelmente representar uma manifestação do efeito de De Sitter, estando
ligado dessa forma à curvatura do universo, e menciona novamente uma cosmologia de
De Sitter, o que comprova o conhecimento de Hubble de parte do debate dos modelos
cosmológicos baseados na relatividade de Einstein. Hubble, no entanto, não menciona
Einstein nem Friedmann, este último provavelmente por desconhecer seu trabalho, pouco
divulgado na época, mas que tanta relação tinha a descoberta.
Uma das implicações da descoberta de
Hubble e Humason é a chamada Lei de Hubble,
que implica em dois postulados. No primeiro
admitimos que qualquer objeto celeste localizado
a mais de 10 megaparsecs apresentará um
redshift, a ser interpretado como uma velocidade
radial de afastamento da Terra; o segundo é que
esse redshift será proporcional à distância entre
o objeto e a Terra. Na época isso não era muito
conhecido, mas dois anos antes da publicação
do artigo de Hubble e Humason, um astrônomo e
padre católico belga chamado Georges Lemaître
(ver figura 58) havia publicado em francês um
artigo que antecipava essa descoberta, e inclusive
fazia uma previsão do valor para a constante que
seria proporcional à distância das galáxias. Esse
artigo de Lemaître era baseado na relatividade
de Einstein. Recentemente, a IAU reconheceu a
Figura 58 - Georges Lemaître, primeiro
validade do trabalho de Lemaître e recomendou astrônomo a publicar um artigo sobre a
que passemos a nos referir a esse fenômeno expansão do universo. Fonte: Wikimedia
como Lei de Hubble-Lemaître. Commons.

82
Nos anos seguintes, Hubble dedicou muito de seu trabalho a montar um sistema de
classificação de galáxias a partir de sua morfologia. O sistema possui uma forma de
garfo, colocando as galáxias elípticas em um lado, com uma série de variações que
ele classificou de E0 até E7; no ponto de convergência do diagrama há as galáxias
lenticulares, de tipo S0; e do outro lado do diagrama, uma bifurcação, com, no lado
superior, as galáxias espirais, divididas em três classes – Sa, Sb e Sc –, e no lado inferior
as espirais barradas, dividas também em três classes – SBa, SBb e SBc. Esse sistema
de classificação é largamente empregado em astronomia, embora não inclua galáxias
irregulares e galáxias anãs (ver figura 59). Mais tarde um astrônomo francês chamado
Gérard de Vaucouleurs ampliou a classificação, incluindo variações mais sutis, como a
existência de anéis, criou uma categoria para galáxias com barras pouco pronunciadas e
uma forma muito mais detalhada de classificação dos braços espirais. O sistema de De
Vaucouleurs é tridimensional, diversamente do de Hubble, para poder compreender todas
as variações entre os subtipos. Assim como o de Hubble, o sistema de De Vaucouleurs
não abarca as galáxias irregulares nem as galáxias anãs, mas acaba por gerar um sistema
de classificação que descreve os vários subtipos de uma forma muito mais detalhada.

Figura 59 - Sistema de classificação de galáxias de Hubble: à esquerda vemos as galáxias elípticas, com
suas várias divisões; no centro as galáxias lenticulares e à direita as galáxias espirais e espirais barradas,
com suas subdivisões. Este diagrama não contempla galáxias irregulares nem galáxias anãs. Fonte:
Wikimedia Commons.

83
Um outro sistema de classificação de galáxias, conhecido por Sistema Morgan ou
Sistema Yerkes, foi desenvolvido por William Wilson Morgan, astrônomo de Chicago. Ele
classifica as galáxias não apenas por suas características morfológicas, mas também
pela classe espectral de suas estrelas mais representativas. Na classificação de Morgan
cada galáxia era definida por entre duas e quatro letras e um número, da seguinte forma:
a primeira designação, que podia ter uma ou duas letras minúsculas, indicava a classe
espectral das estrelas principais da galáxia, a para galáxias com estrelas do tipo A, af
para galáxias com estrelas dos tipos A e F. Na sequência teríamos uma letra maiúscula,
às vezes acompanhada por uma minúscula, que denotava a forma da galáxia, como por
exemplo B para espirais barradas, E para elípticas, S para espirais e Ep para elípticas
com poeira. Por fim, um número de 1 a 7 indicava o grau de inclinação da galáxia em
relação ao observador, com 1 para as galáxias do tipo face-on (vistas de frente) e 7
para galáxias edge-on (vistas de perfil). Como exemplo, a Galáxia de Andrômeda seria
classificada como kS5, ou seja, com proeminência de estrelas do tipo K, espiral e com
inclinação acentuada, próxima à visão de perfil. Morgan também criou o termo galáxia cD
para designar gigantescas galáxias elípticas que são vistas apenas no centro de grandes
aglomerados de galáxias. São as galáxias mais massivas conhecidas.
Posteriormente, em 1970, Morgan e a astrônoma Laura Bautz criaram um sistema de
classificação para aglomerados de galáxias, que ficou conhecido como Sistema Bautz-
-Morgan. Nesse sistema, os mais densos aglomerados, aqueles que possuem galáxias
do tipo cD (gigantes elípticas) em seu interior, são classificados como aglomerados tipo I.
No início dos anos 1930, dois astrônomos europeus vieram se juntar ao grupo de trabalho
de Monte Wilson, o alemão Walter Baade e o búlgaro Fritz Zwicky. Ambos realizaram
trabalhos muito importantes e foram os responsáveis pelas principais descobertas feitas
no observatório nesse período.
Quando foi para os EUA, Walter Baade tinha bastante experiência e já havia realizado
o feito de descobrir um asteroide: Hidalgo, que era o primeiro de uma nova classe
chamada de Centauros, que cruzam os limites do cinturão de asteroides atravessando
as órbitas dos planetas gasosos. Zwicky era formado na Politécnica de Zurique e havia
feito pesquisas em diversas áreas. Juntos eles realizaram dois trabalhos que foram muito
importantes na área de astronomia estelar. Um deles foi a compreensão de que havia
dois tipos de novas. Primeiro, as novas que conhecíamos do sistema solar, que eram um
tipo de fenômeno que ocorre em sistemas binários de estrelas que faz com que o brilho
de uma delas aumente consideravelmente em um período. Esse fenômeno não destrói a
estrela e em muitos casos uma mesma estrela pode passar por vários episódios em que se
transforma em nova. Já o segundo caso eles descobriram que é um fenômeno diferente,
muito mais energético, que eles batizaram de supernova, em que o brilho da estrela
também aumenta de maneira considerável, mas devido a uma explosão, que vai terminar
por destruir a estrela. Mais tarde se descobriu que existem dois tipos de supernova, um
tipo que representa a morte de uma estrela de grande massa através de uma explosão
e outro no qual uma estrela do tipo anã branca, que pertence a um sistema binário, fica
instável e explode. Durante o curto período de observação de uma supernova ela chega
a emitir tanta energia quanto uma galáxia inteira. O desconhecimento da existência das
supernovas criou uma certa confusão observacional antes do cálculo de distância de
M31 por Hubble. Algumas supernovas foram observadas em galáxias espirais e isso
levou alguns astrônomos a admitirem erroneamente que estas estavam localizadas a
84
pouca distância, pois achavam que se tratava de uma nova, um fenômeno muito menos
energético.
No caso de uma supernova causada pela explosão de uma estrela de alta massa,
todas as camadas externas da estrela são ejetadas para o espaço, com exceção do
núcleo, que, dependendo da massa, pode gerar um buraco negro ou – em casos em
que a massa do objeto não for suficiente para isso –uma estrela de nêutrons. Esta foi
justamente a segunda descoberta teórica importante feita por Zwicky e Baade. Os dois
previram a existência de uma estrela na qual a ação da gravidade seria tão grande que
todos os núcleos atômicos seriam comprimidos e acabariam por absorver todos os
elétrons disponíveis, transformando todas as partículas em nêutrons. Algumas décadas
depois elas foram detectadas observacionalmente.
Durante a Segunda Guerra Mundial, Walter Baade passou por uma situação inusitada.
Como era alemão, não podia circular livremente pelas cidades, mas foi autorizado a
permanecer no Observatório Monte Wilson, inclusive podendo trabalhar. No mesmo
período, a maior parte dos astrônomos do observatório estavam envolvidos em atividades
ligadas ao conflito. Hubble, por exemplo, estava colaborando com as forças armadas
calculando a trajetória de tiros da artilharia. Então, os telescópios estavam relativamente
ociosos. Além disso, a cidade de Los Angeles, que se localiza perto do observatório,
ficava em blecaute durante as noites. Assim, Baade teve os melhores telescópios à
disposição e um céu bastante escuro por anos, podendo trabalhar nos projetos que mais
o interessassem.
Aproveitando essas circunstâncias especiais, Baade fez um trabalho muito importante
observando galáxias espirais em detalhe. Ele percebeu que existiam dois tipos de
populações de estelas, com as estrelas localizadas no núcleo da galáxia sendo mais
antigas que as estelas do disco da galáxia, a região onde se localizam os braços espirais.
Baade percebeu nessa análise que existem dois tipos de Cefeidas, o que permitiu que
ele reavaliasse o trabalho de Hubble sobre a distância de M31. O que ele descobriu foi
que na verdade a distância real da galáxia era aproximadamente o dobro da estimativa
inicial de Hubble, ou seja, Andrômeda não estava localizada a 1 milhão de anos-luz, mas
sim a 2,2 milhões de anos-luz, o que redimensionou todo o universo que conhecemos.
Fritz Zwicky também faria trabalhos importantes sem a colaboração de Baade. Utilizando
a relatividade especial de Einstein ele previu a existência de lentes gravitacionais. Objetos
de grande massa que se localizassem em posições específicas entre os observadores
localizados na Terra e algum objeto mais distante poderiam deformar o espaço, desviando
a luz emitida pelo objeto distante e funcionando como uma lente de aumento. O fenômeno
poderia também criar imagens múltiplas de um mesmo objeto. Zwicky fez essa previsão
em 1937, e a primeira lente gravitacional foi descoberta em 1979.
Outra descoberta incrível de Zwicky foi a existência da “matéria faltante”, que hoje
chamamos de matéria escura. Zwicky observou alguns aglomerados de galáxias e
resolveu estimar sua massa a partir do brilho que aparentavam, algo que podemos
chamar de massa luminosa, pois é calculada a partir da luminosidade do objeto. Zwicky
resolveu então calcular a massa necessária para manter esse conjunto de galáxias
unido pela atração de gravidade. A diferença era enorme: para manter o aglomerado de
galáxias unido, a quantidade de matéria necessária era cerca de dez vezes maior que
a observada pelo brilho das galáxias. Havia algum tipo de matéria que não podíamos
85
observar, e isso levando-se em conta observações feitas em qualquer comprimento de
onda (infravermelho, ultravioleta etc.). Apesar da forte comprovação observacional e
teórica do trabalho, ele não atraiu muita atenção por décadas. Apenas em meados dos
anos 1980, quando trabalhos sobre a rotação de galáxias começaram apontar o mesmo
tipo de resultado, foi que essa matéria escura passou a ser considerada e estudada pela
comunidade astronômica.
O sucesso do telescópio Hooker levou os astrônomos americanos a pensar em um
instrumento ainda maior. O telescópio Hale, em Monte Palomar, foi um tremendo desafio
tecnológico. A construção do seu imenso bloco de vidro foi muito mais complexa do que
fora o de Monte Wilson. O diâmetro do espelho deveria ser de 200” (200 polegadas, ou
5 metros), o dobro do diâmetro do Hooker. O peso e o volume do bloco de vidro variam
com o cubo do diâmetro. Ou seja, com o dobro do diâmetro, o peso (e o volume) do
bloco de vidro deveria ser oito vezes maior. O bloco, construído pela empresa Corning,
de Nova York, pesa 13 toneladas e foi feito com um tipo de vidro com baixo coeficiente
de dilatação térmica, o Pyrex, essencial para lidar com as deformações causadas pelas
diferenças de temperatura enfrentadas durante as observações durante o ano. A fábrica
de Saint-Gobin, que havia enfrentado diversos problemas para fabricar o espelho do
telescópio de Monte Wilson, obviamente recusou o projeto. A Corning foi tão cuidadosa
na construção do bloco de vidro que montou um segundo bloco com 3,05 m de diâmetro
apenas para testar o perfil do novo telescópio gigante. A montagem seria muito maior
que a do Hooker, pelas dimensões do espelho, e apresentava um desenho muito mais
avançado, com um pivô em forma de ferradura, que viabilizava a observação da região
polar, algo impossível no Hooker de 100”. Após uma série de contratempos o telescópio
iniciou suas atividades em 1949 (ver figura 60).

Figura 60 - Vista externa da cúpula do telescópio Hale, em Monte Palomar. Foto: Francisco Conte.

86
Após a construção do telescópio Hale em Monte Palomar, a astronomia passou por
um período de algumas décadas em que muito poucos telescópios ópticos de grande
porte foram criados. Uma série de razões pode justificar esse acontecimento, mas uma
das principais está ligada a dois avanços técnicos muito importantes que aconteceram
no período e que serão descritos nos próximos dois capítulos. Essas novas tecnologias
acabaram por captar a maior parte dos recursos destinados à pesquisa astronômica, mas
impulsionaram de maneira radical o conhecimento astronômico no século XX.

87
Capítulo 5
Observando o invisível – Radioastronomia
O início do século XX marca uma mudança muito forte no modo de vida das pessoas,
causada pela disseminação de novas tecnologias, como a iluminação e o motor elétricos,
que permitiram o desenvolvimento de vários equipamentos domésticos, como as máquinas
de lavar. Os fonógrafos e gramofones tornaram a música um acontecimento cotidiano,
mas poucos inventos causaram um impacto tão grande como o rádio, que aproveitava
o deslocamento das ondas eletromagnéticas de grandes comprimentos de onda para
transmitir informações e diversão para todos. Logo começaram a surgir muitas empresas
de radiodifusão em todo o mundo, e esse mercado permitiu o crescimento das empresas
que inventavam, desenvolviam e fabricavam equipamentos radiofônicos.
A existência das ondas de rádio foi prevista em um trabalho do matemático e físico
James Clerk Maxwell publicado em 1867. Maxwell havia percebido as propriedades
ondulatórias da luz e as similaridades com relação a observações elétricas e magnéticas.
O trabalho de Maxwell, hoje conhecido como equações de Maxwell, descreve a luz visível,
o infravermelho e o ultravioleta como ondas eletromagnéticas que viajam pelo espaço (ver
Apêndice 5 – Espectro eletromagnético). Em 1887, Heinrich Hertz comprovou a previsão
de Maxwell gerando ondas de rádio em seu laboratório e demonstrando que elas possuíam
as mesmas propriedades ondulatórias da luz, tais como difração, refração e polarização.
Em 1895, o italiano Guglielmo Marconi utilizou pela primeira vez as ondas de rádio na
comunicação, fazendo uma transmissão radiofônica através de seus transmissores e
receptores. Nos primeiros anos após sua descoberta, as ondas de rádio eram chamadas
de ondas hertzianas, mas por volta de 1912 o seu nome atual acabou se popularizando.
O desenvolvimento da radioastronomia teve início a partir de uma descoberta casual.
No início dos anos 1930, os fabricantes de rádios enfrentavam um problema que
comprometia o funcionamento dos aparelhos: a estática das transmissões radiofônicas,
também conhecida pelo termo radiointerferência. Muitos esforços já haviam sido
empreendidos para tentar minimizar seus efeitos, sem que algum progresso significativo
fosse sentido. O mercado de aparelhos de rádio estava crescendo muito rapidamente,
o que gerava quantias imensas de dinheiro. Os Laboratórios Bell passaram ao físico
Karl Jansky, um de seus contratados, a missão de pesquisar a origem da estática em
transmissões de rádio de ondas curtas, que prejudicava o desempenho dos instrumentos
fabricados pela empresa. Jansky projetou e construiu uma antena receptora e direcional,
que podia ser apontada para qualquer direção, utilizando para tanto quatro rodas do
lendário Ford Modelo T. A antena tinha um diâmetro aproximado de 30 m e cerca de 7 m
de altura, e foi construída com uma estrutura de madeira e tubos de latão. A intensidade
dos sinais captados em cada direção podia ser medida por um aparato que foi instalado
em um pequeno galpão ao lado da antena e registrava cada sinal detectado com um lápis
em uma folha de papel, produzindo ao final de um período de observação um gráfico com
as variações medidas. A antena captava sinais na frequência de 20,5 MHz (ver figura 61).
Após um período inicial de observações, Jansky conseguiu distinguir três tipos principais
de fontes de estática que poderiam interferir em sinais radiofônicos. Logo ficou claro que
o primeiro grupo de sinais estava associado à ocorrência de tempestades próximas à
88
antena. Da mesma maneira, a origem do segundo
grupo de sinais foi também claramente ligado à
ocorrência de tempestades, mas quando ocorriam
a distâncias maiores em relação à antena.
Restava ainda um terceiro tipo de estática de
origem desconhecida, que causava um sinal de
baixa intensidade e tinha um comportamento
bastante distinto dos dois anteriores. Esse tipo Figura 61 - Vista de uma réplica da antena
de estática apresentava picos a cada 23 horas e desenvolvida por Karl Jansky, instalada no
56 minutos, período idêntico ao do dia sideral da observatório de Green Bank. A original foi
destruída. Fonte: Wikimedia Commons.
Terra, estando provavelmente relacionado com a
rotação de nosso planeta. Inicialmente Jansky pensou que a causa poderia ser o Sol, mas
após alguns testes percebeu que esse pico de atividade estava associado ao momento
em que a antena apontava na direção dos braços da Via Láctea. Jansky notou também
que o sinal ficava mais forte quando a antena estava direcionada especificamente para
a região de Sagitário, onde se encontra o centro da nossa galáxia. A publicação do
artigo “Perturbações elétricas de origem aparentemente extraterrestre”, no qual Jansky
descrevia seu trabalho, atraiu grande atenção da mídia, inclusive em uma reportagem do
New York Times, em 1933. Jansky, no entanto, não aprofundou sua pesquisa, pois os
Laboratórios Bell não demonstraram interesse em desenvolver uma investigação mais
aprofundada na área. De qualquer maneira, o seu trabalho demonstrava claramente a
possibilidade de observar o céu utilizando ondas de rádio.
Um elemento importante a considerar na radioastronomia é que o método de detecção
de ondas de radio é fundamentalmente diferente do utilizado na detecção da luz visível por
nossos olhos, telescópios ou fotografia. Enquanto na luz visível o fóton atinge um elétron
diretamente, como uma partícula, no caso das ondas de rádio o que é captado pelos
detectores é a variação de fase do campo eletromagnético. A radiação incidente excita
um campo alternado no detector, sendo detectada eletronicamente como uma voltagem
de corrente alternada. Devido a essa forma diferente de detecção, na radioastronomia
são utilizadas as propriedades ondulatórias dos fótons. A onda pode ser descrita por duas
propriedades: a amplitude, que pode ser medida
pela intensidade da onda, e a fase, que mede qual
a parte da onda que está passando pelo detector
em um dado momento, como pode ser visto em
Smith (2007, p. 101). Através da radioastronomia é
possível conseguir certos tipos de informação que
não são obtidos de maneira usual na astronomia
óptica.
Nos anos seguintes, poucos deram atenção à
radioastronomia, com a exceção de Grote Reber
(ver figura 62), então um astrônomo amador Figura 62 - Grote Heber, o primeiro
e radioamador, nascido em Wheaton, Illinois, radioastrônomo da história, realizou um
grande levantamento de fontes de rádio no
que iniciou praticamente sozinho as pesquisas
céu do Hemisfério Norte. Fonte: Wikimedia
nessa área. Depois de ler o trabalho de Jansky Commons.

89
e percebendo as possibilidades criadas
por uma possível nova forma de
fazer astronomia, ele decidiu criar um
telescópio para observar na faixa do
rádio. Reber projetou e ergueu uma
antena receptora e direcionável, com
um design muito mais avançado que a
antena utilizada por Karl Jansky.
O radiotelescópio construído por
Reber, na verdade o primeiro da
história, foi instalado no quintal de sua
casa, para surpresa de seus vizinhos,
que especulavam qual a finalidade
daquela enorme geringonça. A antena
tinha um disco parabólico com diâmetro
de 9 m e uma distância focal de 8 m,
instalada em uma montagem alinhada
com o meridiano, que possuía ajustes
apenas para a altura, mas que permitia
apontar o instrumento para todo o
céu visível no local (ver figura 63).
Essa montagem é muito similar ao
desenho dos círculos meridianos, que Figura 63 - Foto de época da antena de Grote Heber,
instalada no quintal de sua casa em Wheaton, Illinois.
na época eram utilizados em trabalhos Fonte: Wikimedia Commons.
de astrometria. Heber não apenas
construiu o seu instrumento como arcou com todas as despesas envolvidas no processo.
Inicialmente, a antena operava com um receiver que operava na faixa dos 3.300 MHz
e comprimento de onda de 9 cm, mas não obteve sucesso no objetivo de captar sinais
de fontes do espaço exterior. Ele instalou, então, um segundo instrumento que operava
na faixa dos 900 MHz (com um comprimento de onda de 33 cm), que também não teve
um desempenho aceitável. Finalmente, Reber utilizou um terceiro receiver que operava
na faixa de 160 MHz e ondas com 1,87 m de comprimento, e que passou a funcionar a
partir de 1938. Nesse momento, os resultados começaram a aparecer, confirmando a
descoberta de Jansky. Um aspecto interessante da radioastronomia é que podem ser
realizadas observações diurnas, pois nessa faixa do espectro eletromagnético o Sol não
emite radiação suficiente para impossibilitar sua execução, ao contrário do que acontece
com a luz visível, em que o Sol impede qualquer observação científica, excetuando-
se obviamente observações do próprio Sol, com telescópios solares, ou de eclipses
solares totais. Grote Reber, no entanto, preferia trabalhar nas madrugadas, após as duas
horas da manhã, enquanto seus vizinhos dormiam, pois pequenas atividades cotidianas,
como o simples fato de dar a partida em um carro nas imediações, podiam afetar as
observações, criando um ruído indesejável. Durante um período de quase uma década
Reber foi o único radioastrônomo do planeta, desenvolvendo técnicas de observação
e acumulando resultados. Inicialmente ele deu prosseguimento ao estudo de fontes de
rádio emitidas pela Via Láctea, mas também iniciou um meticuloso levantamento do céu
90
do hemisfério norte, encontrando importantes radiofontes, como Cassiopeia A e Cignus
A. As observações de Reber começaram a indicar a existência de um número muito
grande de fontes de baixa energia em comparação com as de alta energia, contrariando
suas próprias expectativas.
O tamanho da antena de Reber é uma consequência direta do grande comprimento
de onda que caracteriza as ondas de rádio, as maiores do espectro eletromagnético. A
resolução angular de um instrumento astronômico é obtida pelo comprimento de onda
observado dividido pelo diâmetro do instrumento que vai captar o sinal. O maior telescópio
óptico da época, o Hooker, de Monte Wilson, tinha um diâmetro de 2,50 m, pequeno em
relação à antena de 9 m de Reber, mas para obter uma resolução de imagem similar à
do telescópio da Califórnia, para uma onda com comprimento de 30 cm, seria necessária
uma antena com diâmetro aproximado de 2.000 km, um feito tecnicamente impraticável.
Nas fases iniciais da radioastronomia, a resolução das imagens obtidas era muito limitada.
Outro problema que acaba por comprometer a qualidade das observações em rádio,
principalmente em algumas frequências específicas, é a crescente emissão de ondas por
emissoras de rádio e televisão e outros sistemas de telecomunicação, da mesma forma
que a crescente iluminação pública das cidades interfere cada vez mais nas observações
de telescópios ópticos.
Outro aspecto interessante das ondas de rádio é que elas carregam quantidades
de energia muito menores que a transportada pela luz visível ou nas faixas de menor
comprimento de onda (ultravioleta, raios X e raios gama). A energia total provinda de
fontes externas ao sistema solar que é captada por todos os radiotelescópios da Terra é
muito menor que a energia de um único floco de neve colidindo com o solo, como visto
em Sagan (1982, p. 261).
A Segunda Guerra Mundial influenciou dramaticamente o mundo no final dos anos
1930 e na primeira metade dos anos 1940. Em muitos aspectos, a tragédia humana
apresentava como contraponto um desenvolvimento tecnológico muito intenso em várias
áreas, incluindo a medicina e o desenvolvimento da tecnologia do radar, sigla em inglês
para radio detection and ranging, algo como detecção e acompanhamento de rádio. Um
radar é basicamente um radiotelescópio que também emite sinais e espera a volta do
sinal refletido em algum avião ou navio e estima a direção e distância do objeto. Muita
pesquisa na área do radar foi desenvolvida durante o conflito, dos dois lados do Atlântico,
e esse avanço logo traria resultados.
Em 1942, o físico inglês James Stanley Hey foi um dos vários cientistas britânicos
convocados para colaborar com o esforço de guerra. Após um curso de seis semanas,
ele acabou nomeado conselheiro militar na área de radar. Nos dias 27 e 28 de fevereiro,
as transmissões de radar das forças aliadas ficaram quase inoperantes durante a maior
parte do dia, por causa de intensas interferências na recepção dos sinais, impedindo o
funcionamento das baterias antiaéreas e permitindo que navios alemães penetrassem
pelo Canal da Mancha. A suspeita é que os alemães tivessem desenvolvido algum tipo
de contramedidas para o sistema de radar. Após analisar alguns dados, Hey desconfiou
que as interferências, que só ocorriam no período diurno, pudessem estar associadas à
atividade solar. Ligou para o observatório de Greenwich e recebeu como resposta que o
Sol nesses dias tinha passado por um período incomum de atividade, com o surgimento de
91
grandes manchas. Como físico, Hey sabia que, sob o efeito de um forte campo magnético,
os elétrons livres podiam emitir ondas de rádio, o que poderia acontecer com o surgimento
de manchas solares. Hey havia provado que o Sol também era uma radiofonte, embora
essa informação fosse mantida como segredo militar até o fim do conflito. Posteriormente,
naquele e no ano seguinte, tanto Grote Heber como o físico George Clark Southworth,
que trabalhava nos laboratórios da Bell Telephone, descobriram independentemente o
mesmo fenômeno.
O final da Segunda Guerra representou o encerramento da era solitária da
radioastronomia. Em pouco tempo, astrônomos de várias partes do globo começaram a
se dedicar a essa nova janela de visualização do universo. Um dos primeiros problemas
era entender que tipo de fenômeno físico estava atuando nas primeiras fontes detectadas.
Em uma reunião do grupo de astronomia do Observatório de Leiden, na Holanda, um
jovem astrônomo, Hendrik Christoffel van de Hulst, previu que átomos de hidrogênio
interestelar deveriam emitir ondas de rádio no comprimento de 21 cm, sugerindo aos
colegas tentar observar nessa faixa do espectro eletromagnético. Essa previsão traria
uma série de bons desdobramentos para o desenvolvimento da radioastronomia.
Já vimos anteriormente que o radar é um instrumento muito similar a um radiotelescópio,
com a diferença de que o radar emite e capta ondas de rádio, ao passo que o
radiotelescópio apenas recebe as ondas. Mas será que é possível utilizar um radar para
fazer astronomia? A resposta é sim. Pouco depois do final da Segunda Guerra Mundial,
Sir Bernard Lovell, que seria um dos grandes desenvolvedores da radioastronomia,
percebeu que havia uma grande coincidência entre alguns sinais captados em radares e
meteoros observados visualmente. Ele organizou um experimento fazendo a triangulação
de estações de radar localizadas em Surrey, Kent e Suffolk, comprovando a eficácia do
método. Em 1946, o físico húngaro Zoltán Lajos Bay mandou um feixe de micro-ondas
para a Lua e conseguiu detectar seu retorno após refletir-se na superfície do satélite
– um evento que muitos consideram o início da astronomia de radar. Uma equipe do
corpo de sinaleiros do exército americano, de maneira independente e quase simultânea,
realizou uma experiência idêntica, utilizando um equipamento mais poderoso e obtendo
resultados ainda mais claros.
Uma das primeiras técnicas de observação em rádio que visavam melhorar a resolução
dos detectores foi a da ocultação. Durante um eclipse solar, parcial ou total, utilizava-se
uma antena para observar as áreas não eclipsadas do Sol e media-se a variação de
radiação a cada segundo do período observado. Os primeiros a utilizar essa técnica
foram Robert Dicke e R. Beringer, de Princeton, em um eclipse em 9 de julho de 1945.
No ano seguinte, no eclipse de 23 de novembro, o canadense A. E. Covington também
foi bem-sucedido na observação. Em 1947, durante o eclipse de 20 de maio, que durou
extensos 5,2 minutos, os astrônomos russos S. Khaikin e B. Chikhachev obtiveram
sucesso ao observar o evento no deque de um navio, na costa brasileira. Durante a fase
de ocultação total foi possível registrar pulsações de rádio provenientes da coroa solar.
No ano seguinte, W. N. Christiansen, D. E. Yabsley e B. Y. Mills repetiram o procedimento
em um eclipse na costa australiana, em 1o de novembro. A técnica era eficiente, mas
infelizmente não era aplicável no cotidiano, podendo ser realizada uma ou duas vezes
por ano e normalmente em locais afastados, o que na prática limitava a instrumentação
a equipamentos portáteis.
92
Outro aspecto que diferencia a prática da radioastronomia da astronomia no visível
é o tipo de instrumentos de pesquisa utilizados. No visível temos dois tipos básicos
de telescópios, o refrator e o refletor, sendo que, no início do século XX, estávamos
presenciando o início da era dos telescópios refletores. Na radioastronomia, vamos
encontrar uma extensa variedade de instrumentos: temos os discos parabólicos, como
o instrumento de Grote Reber, que lembram muito o desenho dos telescópios refletores,
mas também antenas do tipo dipolo, espinha de peixe e outros menos usuais, incluindo
sistemas de múltiplas antenas, que comentaremos mais à frente. Além disso, ao
observarmos um objeto astronômico em rádio e compararmos com o que é observado no
óptico, algumas vezes veremos cenários totalmente diferentes, pois fenômenos diferentes
são mais perceptíveis em um ou no outro. Um exemplo muito claro dessa situação é
a galáxia Centaurus A: no óptico observamos a forma da galáxia elíptica bloqueada
parcialmente por uma faixa de poeira, ao passo que no rádio visualizamos principalmente
dois jatos colimados de partículas perpendiculares ao eixo galático ejetados pelo seu
núcleo ativo (ver figuras 64 e 65).

Figuras 64 e 65 - Centaurus A. A imagem da esquerda foi feita em rádio, pelo VLA, em 1980. A imagem
da direita foi feita no visível pelo astrofotógrafo Carlos Palhares, em 2019. As duas imagens mostram
exatamente o mesmo campo, mas são completamente diferentes. No visível observamos o bojo da galáxia,
poeira e estrelas em primeiro plano; no rádio observamos apenas o jato de matéria emitido pelo núcleo
da galáxia. Fonte da figura 64: Wikimedia Commons. Figura 65: foto de Carlos Palhares, com corte e
alinhamento feitos por Francisco Conte.
Diferentemente de um telescópio óptico, onde se observa um campo inteiro com várias
estrelas e galáxias ao mesmo tempo, por exemplo, um radiotelescópio só consegue captar
uma pequena área pontual, como um único pixel da imagem por vez. Isso torna a operação
de um radiotelescópio muito diferente de um telescópio tradicional. O radiotelescópio
pode fazer dois tipos de observação: objetos pontuais ou um campo. Observações
pontuais são simples de fazer, bastando apontar o instrumento para o objeto e fazer as
medições de intensidade. Podem ser feitas várias medições de um objeto em pequenos
93
intervalos de tempo, dependendo da sensibilidade do radiotelescópio e da intensidade do
sinal emitido pela fonte. Essa característica permitiu a descoberta de fontes de rádio que
variavam sua emissão em intervalos de tempo frequentemente muito pequenos.
A observação de um campo é muito mais trabalhosa, sendo necessário um procedimento
mais meticuloso para sua execução. Vamos ver um exemplo: inicia-se a imagem fazendo
uma medição em um dos cantos do campo, por exemplo o canto superior esquerdo.
Depois, mantendo-se o alinhamento com a borda do campo, faz-se uma medição do
ponto imediatamente ao lado, à direita, e assim sucessivamente até chegar ao fim da
linha, no canto superior direito do campo. Em seguida aponta-se o telescópio para o
ponto imediatamente abaixo desse, rente à borda do campo, e faz-se outra medição,
em seguida a medição do ponto imediatamente à esquerda do anterior, continuando o
processo até chegar novamente à borda da esquerda do campo, fechando a segunda
linha. A observação segue nesse zigue-zague até completar a medição do campo inteiro.
Normalmente, ao término desse processo se repete o procedimento de esquadrinhar
toda a área do campo, mas dessa
vez na vertical. Esse mecanismo de
observação será repetido até que
se consiga um resultado satisfatório.
Quando toda a aquisição de dados
se completa, somam-se os resultados
das várias medições em cada ponto,
seguindo sua distribuição espacial,
montando-se um gráfico com as
intensidades de cada ponto do campo
observado. Em seguida são unidos os
pontos de mesma intensidade como
em um mapa de topografia, podendo-
se atribuir cores às áreas delimitadas
pelas linhas de mesma intensidade.
O aspecto final se apresenta como
uma imagem do campo. Em alguns
instrumentos o nível de detalhamento
é tão grande que as imagens obtidas
se assemelham a uma fotografia (ver
figura 66).
Figura 66 - Como fazer uma observação de campo em
Sir Bernard Lovell, que havia iniciado radioastronomia. O observador tem que fazer imagens
seus trabalhos em radioastronomia de todos os pontos do campo, no exemplo primeiramente
pesquisando meteoros através da na horizontal, ponto por ponto, seguindo as linhas em
técnica de radar, resolveu aprofundar zigue-zague até cobrir toda a imagem (A até D). Repetir
o processo na vertical, tantas vezes quantas necessárias
seus estudos construindo um novo (E até G). Cada ponto dos gráficos superiores equivale a
instrumento em um local remoto, uma uma medição. Ao término da observação é montado um
fazenda chamada Jodrell Bank, mais gráfico com a intensidade de sinal de cada um dos pontos
apropriada para suas pesquisas. Em do campo (H). Ligam-se os pontos de mesma intensidade.
1947, Lovell e seu assistente John Por fim, podem-se colorir as áreas demarcadas, obtendo-
-se uma imagem do campo (I). Desenho: Francisco Conte.
Clegg construíram uma antena de
94
grandes dimensões: utilizando fios de ferro montaram uma grande estrutura paraboloide,
horizontal, com um diâmetro de 66 m, bordas que atingiam mais de 7 m e a antena central
com 38 m de altura. Era o mais potente radiotelescópio de seu tempo, embora fosse um
instrumento fixo, que apenas podia observar o zênite, o que limitava muito a sua atuação.
De qualquer forma, esse instrumento acabou observando sinais dos restos da supernova
de Tycho e também sinais provenientes da Galáxia de Andrômeda, um dos primeiros a
serem detectados de uma fonte extragalática em rádio.
Os resultados obtidos, no entanto, incentivaram Lovell a tentar construir um
radiotelescópio ainda mais poderoso e que fosse direcional, para poder observar o céu
inteiro do hemisfério norte. Na busca por apoio das universidades e por verbas, Lovell
argumentava que um grande radiotelescópio permitiria que o Reino Unido readquirisse a
liderança que sempre teve no campo da astronomia, mas que havia sido perdida com os
grandes telescópios dos observatórios das montanhas nos Estados Unidos. Com esse
forte argumento em mãos, ele conseguiu o apoio inicial para a construção de seu projeto,
embora a conclusão dos trabalhos ainda demorasse vários anos, com vários percalços e
estouros de orçamento durante todo o processo.
O telescópio Mark I, ou como é mais conhecido atualmente Telescópio Lovell, foi um
prodígio de engenharia para a época: 76,2 m de diâmetro, instalados em uma robusta
montagem metálica que permite o apontamento em qualquer direção, o que acabou se
tornando um padrão para a maioria dos instrumentos importantes construídos depois
dele (ver figura 67).

Figura 67 - O primeiro radiotelescópio gigante do mundo: o Mark I, de Jodrell Bank, na Inglaterra. Foto:
Francisco Conte.

95
Em 1957, o orçamento havia estourado, e muito, e o instrumento ainda não tinha
sido completamente finalizado. Seu criador, Lovell, atravessava um período muito difícil,
acumulando dívidas e sem recursos para a conclusão do radiotelescópio, quando um
acontecimento inesperado, que vai ser analisado com mais profundidade no próximo
capítulo, surpreendeu o mundo: o lançamento do primeiro satélite artificial, o Sputnik I.
Bastou uma entrevista com Lovell, na qual ele declarava que o grande radiotelescópio de
Jodrell Bank havia conseguido não apenas detectar os sinais do Sputnik, como também
acompanhar o seu percurso orbital, ser publicada em um jornal inglês para a opinião
pública encarar a captura dos sinais como um grande feito da Inglaterra. De um momento
para o outro, o grupo de Jodrell Bank passou de vilão a herói e o telescópio adquiriu
grande popularidade, tornando possível a obtenção de novas verbas para completar a
construção do instrumento, que entrou em plena operação (Capozzoli, 2005, p. 67).
A capacidade de acompanhar satélites do telescópio de Jodrell Bank foi muito utilizada
nos primeiros anos da corrida espacial. Ele acompanhou tanto naves soviéticas quanto
americanas, sendo em muitos casos o único instrumento do mundo capaz de realizar
esse feito. Em 1960, o radiotelescópio enviou comandos para o satélite americano
Pioneer 5, incluindo um comando para o satélite fazer o desacoplamento de seu lançador.
Em fevereiro de 1966, foi solicitado pelos soviéticos que o telescópio acompanhasse o
satélite Luna 9, que pousaria na superfície da Lua. O instrumento foi capaz de receber as
imagens enviadas por fac-símile, o que permitiu que os jornais ingleses publicassem as
imagens antes mesmo que os soviéticos as recebessem.
Além de rastrear satélites, o radiotelescópio de Jodrell Bank utilizava boa parte de seu
tempo de funcionamento para pesquisas científicas. Em seus primeiros trabalhos, eles
utilizaram a técnica de radar para calcular as distâncias até a Lua e até Vênus.
As primeiras experiências em radioastronomia realizadas no Brasil foram feitas no IAG
em São Paulo, em 1957, quando Hélio Guerra Vieira e Luiz de Queiroz Orsini, utilizando
um receptor de rádio, conseguiram captar sinais emitidos pelo satélite Sputnik 1, como
descrito em Capozzoli (2005, p. 200). O primeiro radiotelescópio construído no Brasil foi
feito pelo professor universitário Pierre Kauffman e um grupo de astrônomos amadores,
a AAASP (Associação dos Amigos da Astronomia de São Paulo), que frequentava
o Planetário Municipal e a Escola Municipal de Astrofísica. Iniciado no ano de 1959 e
contando com a colaboração de uma verba da prefeitura municipal, complementada por
doações dos próprios membros, o grupo construiu, dentro do Parque do Ibirapuera, às
margens do lago, uma antena de grande porte, composta por cabos, arames e estrutura
metálica. O instrumento foi inaugurado no dia do aniversário da cidade, em 25 de janeiro
de 1962. O aparelho, no entanto, começou a operar apenas três meses depois. Após
um curto período de funcionamento, a instalação foi destruída por um grupo de burros
pertencentes à prefeitura municipal e que se alimentavam nas áreas gramadas do parque
(Capozzoli, 2005 p. 209). Nos anos seguintes, o grupo da AAASP ainda conseguiu
construir e operar dois instrumentos de menor porte.
Após a construção da grande antena de Jodrell Bank, vários países começaram a
instalar instrumentos de grande porte, como a antena de Parkes, na Austrália, com
64 m de diâmetro, que começou a operar em 1961 (ver figura 68). Em 1963, passou

96
a funcionar a gigantesca antena de 300 m de diâmetro de
Arecibo, em Porto Rico, que, embora não fosse amplamente
direcionável, por décadas se manteve como o maior
radiotelescópio do mundo (ver figura 69). Ainda em 1963,
começou a operar o radiotelescópio apelidado de Big Ear
(grande orelha), da Universidade do Estado de Ohio, uma
gigantesca estrutura apoiada no solo, em forma retangular,
que tinha uma sensibilidade de observação similar à de uma Figura 68 - O rádio-observatório
antena parabólica com 56 m de diâmetro. Em 1966, o Canadá de Parkes, na Austrália.
construiu a antena parabólica do Observatório de Algonquin, Foto: John Sarkissian. Fonte:
Wikimedia.
com 46 m de diâmetro. Vários outros equipamentos foram
criados ao redor do mundo, pois a maior parte dos investimentos em instrumentos na
área de astronomia era destinada à construção de radiotelescópios.

Figura 69 - A antena de 300 m de diâmetro do observatório de Arecibo, em Porto Rico. Fonte: Wikimedia
Commons.
No início dos anos 1960, equipes de radioastrônomos utilizando técnicas de radar
conseguiram, pela primeira vez, estimar o período de rotação dos planetas Vênus e
Mercúrio. Esse feito era impossível com base em observações no comprimento da luz
visível, porque a atmosfera de Vênus impedia a observação de qualquer detalhe de sua
superfície e é muito difícil obter imagens da superfície do planeta Mercúrio devido à sua
proximidade com o Sol. Mercúrio tem um dia extremamente longo, equivalente a 58,7
dias terrestres, mais da metade da duração de um ano do planeta, que dura 88 dias. Com
97
Vênus aconteceu algo ainda mais surpreendente: primeiro se descobriu que sua rotação
era reversa em relação à dos outros planetas e depois que o seu dia, que durava 243,1
dias terrestres, era maior que o seu ano, que corresponde a apenas 224,7 dias terrestres.
O desenvolvimento da radioastronomia levou a uma série de descobertas muito
importantes, que alteraram o rumo da história da astronomia.
A primeira delas aconteceu no início dos anos 1960. Durante a década de 1950, a
Universidade de Harvard realizou um programa de busca de fontes de rádio, com a
subsequente publicação de um catálogo. Algumas das fontes pontuais encontradas,
aparentemente, não possuíam um objeto correspondente observado no visível. Em 1958,
Allan Sandage e Thomas A. Mathews conseguiram associar uma dessas fontes, a 3C48
(o quadragésimo oitavo objeto do terceiro catálogo de fontes de rádio de Harvard), a um
objeto que se assemelhava a uma pálida estrela azul. Outros astrônomos obtiveram um
espectro do objeto, que apresentava um conjunto anômalo de linhas de emissão, sem
correspondência com outros espectros estelares.
Em 1962, dois astrônomos trabalhando no radiotelescópio Parkes, na Austrália, John
Bolton e Cyril Hazzard, junto com Maarten Schmidt, que trabalhava no Telescópio Hale,
no Monte Palomar, conseguiram associar outro objeto aparentemente estelar à fonte
de rádio 3C273 (o objeto de número 273 do terceiro catálogo de Harvard). Nos dias
seguintes a essa descoberta, Schmidt obteve o espectro do objeto, que, assim como
3C48, apresentava linhas de emissão intensas. Maarten Schmidt, no entanto, conseguiu
associar essas linhas às de hidrogênio com um enorme desvio para o vermelho, da ordem
de 15,8%. O objeto não era uma estrela e estava localizado a uma distância imensa,
similar à das mais distantes galáxias conhecidas até então, e portanto deveria ter uma
energia imensa. Foi dado a esses objetos o nome “quasar”, uma abreviação de quasi-
stellar object, e hoje sabemos que são os núcleos ativos de galáxias muito distantes.
A descoberta dos quasares era muito surpreendente. Eram objetos relativamente
pequenos, talvez do tamanho do sistema solar, mas com uma energia imensa, maior
que toda a energia produzida por uma galáxia como a nossa. De onde viria tamanha
quantidade de energia? Por que não observamos um quasar em nossa vizinhança?
Hoje acreditamos que os quasares são formados por buracos negros supermassivos,
localizados no centro das galáxias, que estão sugando enormes quantidades de matéria
orbitando suas proximidades, em um processo que libera quantidades imensas de energia.
Com o tempo esses buracos negros acabam por consumir toda a matéria disponível à
sua volta, o que explica a pequena quantidade desses objetos em nossa proximidade.
Essa é a razão de que normalmente avistamos estes objetos a grandes distâncias, o que
significa que eram mais comuns no passado, nas fases iniciais da evolução do universo.
Outros objetos similares foram descobertos posteriormente, como os BL Lacs, que eram
provocados por processos semelhantes. Apenas para ilustrar a sensibilidade de nossos
detectores, a energia captada por um radiotelescópio proveniente de um quasar distante
é de aproximadamente um quatrilionésimo de watt, como visto em Sagan (1982, p. 261).
Invertendo um pouco a ordem cronológica, vamos ver primeiro a terceira grande
descoberta: em 1967, a estudante de astronomia Jocelyn Bell (hoje Jocelyn Bell Burnell)
e seu orientador Antony Hewish descobriram que a fonte de rádio PSR B1919+21

98
apresentava uma variação regular de intensidade, como uma pulsação, a cada 1,3373
segundo. Inicialmente acreditaram se tratar de algum ruído, em seguida chegaram a
aventar a possibilidade de algum sinal emitido por uma civilização extraterrestre e
como brincadeira chegaram a cogitar o nome para o objeto de LGM 1, de Little Green
Men 1 (pequenos homens verdes 1), mas depois encontraram outros objetos que se
comportavam da mesma forma. Os objetos foram batizados de pulsares, devido à sua
variação regular de brilho. Finalmente a explicação foi encontrada em um objeto que
já havia sido previsto décadas antes dessa detecção: essas fontes eram estrelas de
nêutrons.
Em uma conferência em dezembro de 1933, apenas dois anos após a descoberta dos
nêutrons por James Chadwick, os astrônomos Walter Baade e Fritz Zwicky propuseram
a existência das estrelas de nêutrons como objetos criados a partir de explosões de
supernovas, o fim das estrelas de grande massa. Após sair da sequência principal, onde
o hidrogênio é transformado em hélio no núcleo da estrela, esta passa a transformar
hélio em carbono, nitrogênio e oxigênio, produzindo, sucessivamente, elementos cada
vez mais pesados, até que o núcleo da estrela passe a ser composto exclusivamente
de ferro, momento no qual os processos nucleares se acabam. Em poucos segundos
toda a estrela colapsa em direção ao seu núcleo, dominada pela força gravitacional.
Ocorre então uma explosão de supernova (SN), que vai lançar ao espaço toda a camada
externa da estrela, com exceção do seu núcleo, agora inerte. Este vai colapsar sobre si
mesmo, restando uma estrela de nêutrons ou um buraco negro, dependendo da massa
remanescente.
No caso dos buracos negros, a atração gravitacional é tão grande que nada vai conter
seu colapso. Sua atração gravitacional vai ser tão alta que nem mesmo a luz vai ser
capaz de escapar. Porém, se não temos no núcleo remanescente da SN massa suficiente
para gerar um buraco negro, vamos ter a formação de uma estrela de nêutrons.
No caso das estrelas de nêutrons a pressão gravitacional é tão grande que os elétrons
da eletrosfera são comprimidos até se fundirem aos núcleos atômicos, transformando os
prótons em nêutrons. E a pressão de degenerescência dos nêutrons, ou seja, a pressão
que cada nêutron causa aos seus vizinhos, é que vai impedir que os restos da estrela se
transformem em um buraco negro. Estrelas de nêutrons vão ter entre pouco mais de uma
até pouco mais de duas massas solares, dependendo de algumas variáveis, como rotação
e campo magnético. Toda essa massa é comprimida em um raio da ordem de apenas 10
a 12 km. Isso vai fazer com que estrelas de nêutrons possuam densidades da ordem de
3,7 a 5,9 x 1017 kg/cm³, o que faz um volume de uma colher de chá de seu material pesar
algo como 900 vezes a massa da grande Pirâmide de Gizé. São objetos extremamente
quentes, com temperaturas da ordem de 1011 a 1012 K logo após sua formação, mas que
rapidamente decaem para 106 K, com a maior parte de sua energia sendo emitida na faixa
dos raios X. Estrelas de nêutrons possuem campos magnéticos extremamente fortes e
um período de rotação muito rápido, que varia entre alguns segundos e milésimos de
segundos, velocidade que regularmente vai decrescendo.
A maior parte das estrelas de nêutrons também emite em rádio. E, na maioria dos
casos, seus polos magnéticos, através dos quais é emitida a maior parte de sua luz visível

99
e também das ondas de rádio, normalmente não coincide com o seu eixo de rotação.
Caso um observador distante esteja em uma posição favorável, observará um evento de
aumento de brilho em cada rotação por um pequeno período de tempo, quando o polo
magnético do pulsar estiver apontando diretamente para ele. Durante o resto do período
de rotação esse polo magnético estará apontando para outras direções e o observador
perceberá uma queda no brilho. Dessa forma são observados os pulsares. Todo pulsar é
uma estrela de nêutrons.
Essas duas descobertas relacionadas, pulsares e estrelas de nêutrons, surpreenderam
a comunidade astronômica internacional, demonstrando a todos que o universo era mais
complexo do que acreditávamos. Mas a década de 1960 ainda nos deu outra descoberta
bombástica, e para entendermos sua importância é bom fazermos uma volta no tempo.
A descoberta de Hubble e Lemaître de que nosso universo estava se expandindo
levou os astrônomos a uma reflexão: se voltássemos no tempo veríamos um universo
cada vez menor. Se voltássemos o suficiente ele acabaria por se juntar em um único
ponto, que poderíamos considerar o início do universo. Esse raciocínio acabou levando
ao que costumamos chamar de a teoria do Big Bang.
Muitos astrônomos e físicos achavam essa hipótese pouco satisfatória. Isso significava
que o universo deveria ter um começo e que estava passando por transformações o tempo
todo, o que parecia contradizer nossos sentidos e conhecimento, pois ele aparentava
ser estático e eterno. Aos poucos alguns grupos começaram a propor soluções para
o problema. Uma das propostas acabou por ganhar grande popularidade entre os
cientistas e se chamava teoria do estado estacionário. Nessa proposição, o universo
sempre existiu e está se expandindo, mas, à medida que se expande, mais matéria é
criada. Assim, o universo seria eterno e manteria sempre a mesma aparência para um
observador, não importando a época em que a observação fosse realizada. Sei que o
leitor vai provavelmente argumentar que a criação de matéria do nada é um conceito
meio estranho, mas a quantidade de matéria que deveria ser criada era muito pequena,
como alguns átomos a cada ano em um volume imenso de espaço, algo realmente
imperceptível. Além do mais, em algum momento do universo a matéria foi criada, então
por que não a cada momento? De qualquer forma, essa proposição ganhou muitos
adeptos dentro da comunidade científica e vamos chegar à segunda metade do século
XX com um grande debate entre o Big Bang e o estado estacionário.
Durante os anos de 1940 e 1950, o russo George Gamow e seus dois principais
colaboradores, Ralph Alpher e Robert Herman, publicaram uma série de artigos teóricos
que analisavam o universo em expansão originário a partir de um Big Bang. Em um desses
trabalhos, eles demonstravam como teriam surgido os primeiros elementos químicos do
universo: hidrogênio e hélio. Os outros elementos foram produzidos em um momento
posterior, principalmente no interior das estrelas, como pode ser visto no artigo de 1947
escrito pelo casal Burbridge (Geoffrey e Margaret), William Fowler e Fred Hoyle. Esse
artigo ficou conhecido na astronomia como F²BH. Em outro artigo do grupo de Gamow
foi feita uma previsão de que, se realmente o universo tivesse se desenvolvido a partir de
um ponto mínimo, deveria existir uma radiação remanescente do momento em que ele
teria deixado de ser dominado pela energia, entrando numa era de domínio da matéria.

100
Esse momento da evolução cosmológica teria acontecido cerca de 300 mil anos depois
do início do universo e seu resultado poderia ser observado através de uma radiação na
faixa de micro-ondas, que deveria existir em todo o universo, não importando em que
direção o observador fizesse a sua medição. No cálculo inicial, eles estimaram que essa
radiação equivaleria ao nosso universo apresentar uma temperatura cerca de 7 graus
acima do zero absoluto (que corresponde a -273º C), ou à temperatura de 7 K.
Na década de 1960, um grupo de astrônomos da Universidade de Princeton,
aparentemente sem conhecer o trabalho da equipe de Gamow, tinha chegado a conclusões
semelhantes e estava construindo um equipamento que pudesse tentar detectar essa
radiação remanescente do Big Bang.
Na mesma época, Arno Penzias e Robert Wilson trabalhavam para os Laboratórios
Bell (assim como Karl Jansky). Eles estavam em início de carreira e receberam uma
missão interessante: uma antena de rádio, que havia sido utilizada para rastreamento e
acompanhamento de satélites, tinha sido substituída por equipamentos mais modernos
e estava ociosa. Alguém da diretoria acreditava que a antena tinha potencial para ser
utilizada de outras maneiras, como a radioastronomia. A missão da dupla seria tentar
adaptar o valioso equipamento para essa função (ver figura 70).

Figura 70 - A antena utilizada por Arno Penzias e Robert Wilson ao descobrir a radiação cósmica de fundo
de microondas. Fonte: Wikimedia Commons.

101
Os dois começaram a trabalhar na manutenção da antena e a testar suas capacidades.
O equipamento tinha uma sensibilidade muito apurada para a medição de fontes pontuais,
o que seria ótimo para realizar observações em campos com muitas fontes próximas, que
poderiam ser facilmente separadas, sem que as emissões de uma fonte se confundissem
com as de outras.
Mas a dupla encontrou um problema: não importava a direção para que apontassem
a antena, havia sempre um fraco sinal que interferia na observação. Esse fraco sinal
indicava uma temperatura de cerca de 3 K em todas as direções do céu. A dupla realizou
um esforço brutal para tentar anular essa interferência, o que incluiu afugentar um grupo
de pombos que havia escolhido o interior da antena como habitação, além de limpar a
antena de todo o material deixado em seu interior pelos pombos. O ruído continuava.
Um dia, em uma conversa com um amigo cientista, Penzias revelou o problema e o
amigo sugeriu que eles se comunicassem com o pessoal de Princeton. Penzias entrou
em contato com Robert Dicke, e após alguns encontros ficou claro que ele e Wilson
haviam encontrado o resquício de radiação do Big Bang que o grupo de Princeton estava
procurando. Essa descoberta teve um impacto profundo no estudo da cosmologia,
acabando com os argumentos dos defensores do estado estacionário e confirmando as
previsões dos adeptos da teoria do Big Bang, que a partir de então se tornou hegemônica
entre os astrônomos, embora ainda viesse a ter vários desenvolvimentos.
Essas três grandes descobertas feitas pela radioastronomia mudaram significativamente
o pensamento astronômico do final do século XX e abriram um enorme campo para
novas pesquisas.
Em 1972, na Alemanha, começa a funcionar o radiotelescópio de Effelsberg, uma
antena parabólica com 100 m de diâmetro, que por algumas décadas se manteve como
o maior radiotelescópio totalmente direcionável do mundo. Os Estados Unidos também
construíram sua antena gigante em uma área no estado da Virginia, onde fontes de
radiotransmissão são proibidas por lei. Nesse local foi instalado o Observatório de Green
Bank, com uma série de radiotelescópios. Em setembro de 1972, o maior dos telescópios
então instalados em Green Bank começou a funcionar: Era uma antena parabólica com
aproximadamente 90 m de diâmetro, conhecida como 300 Foot Telescope. O telescópio
operava muito bem, até que toda a estrutura colapsou em 15 de novembro de 1988. Mas
a maior antena parabólica do mundo utilizada para radioastronomia foi construída em
Arecibo, Porto Rico, com 300 m de diâmetro, instalada em um vale em forma de taça. A
antena era fixa, mas seus detectores podiam ser deslocados, permitindo a observação
de uma área maior do céu.
Em 1974, começa a operar um imenso radiotelescópio construído pela União Soviética,
o Ratan-600, acrônimo para Radiotelescópio da Academia de Ciências – 600, em russo. O
Ratan-600 tinha um diâmetro de 576 m, mas não era uma antena parabólica. Na verdade
era um conjunto de 895 painéis refletores de 2 x 7,4 m, dispostos em uma circunferência,
rebatendo a radiação para um refletor cônico situado no centro do conjunto, ou para um
dos cinco refletores secundários cilíndricos. Os painéis podiam ser direcionados para
refletir a radiação incidente para qualquer um dos captadores. O efeito geral é similar ao
de uma antena parcialmente direcionável. O Ratan-600 funciona primariamente como

102
um telescópio de trânsito (como um círculo meridiano). Sua área de coleta de radiação é
pequena para um instrumento de dimensões tão espetaculares: 1.200 m². O instrumento
foi instalado próximo à cidade de Zelenchukskaya, a uma altitude de 970 m.
Ainda na década de 1970, a União Soviética constrói cinco enormes radiotelescópios
do tipo antena parabólica e completamente direcionáveis. Desses, três com um diâmetro
de 70 m. O primeiro foi instalado perto da cidade de Yevpatoria, o segundo perto do platô
de Suffa e o terceiro perto da cidade de Galenki. Os outros dois, com 64 m de diâmetro,
instalados em Kalyazin e em Medvezhyi Ozera (Bear Lakes). Os cinco telescópios
podem ser utilizados em pesquisas de radioastronomia, ou como radares de exploração
planetária e também na comunicação com satélites de pesquisa. Esses instrumentos, que
estavam entre os maiores do mundo, mostram a importância que os soviéticos deram à
radioastronomia.
Em 1974, começa a operar, na cidade paulista de Atibaia, um radiotelescópio com uma
antena de 13,7 m de diâmetro, trabalhando em frequências entre 20 e 100 GHz. O Rádio-
Observatório de Itapetinga, nome do bairro em que foi instalado, se tornou o principal
instrumento de pesquisas do Brasil em radioastronomia por décadas (ver figura 71).

Figura 71 - Vista externa do radiotelescópio de Itapetinga, em Atibaia. Foto: Francisco Conte.

103
Interferometria
A interferometria é uma técnica que utiliza as propriedades ondulatórias da luz. Ela
consiste em combinar duas ou mais ondas de entrada, em amplitude e em fase (de mesmo
comprimento de onda e sincronizadas), que vão se transformar em uma nova onda, que
é a soma das anteriores. A técnica pode ser aplicada em astronomia, mecânica quântica,
oceanografia e sismologia, entre outras áreas. Um de seus primeiros usos foi através
dos trabalhos de Albert Michelson, depois acompanhado por Edward Morley, na procura
do éter luminífero (uma substância que existiria em todo o universo e que permitiria o
deslocamento das ondas do espectro eletromagnético). Tais trabalhos terminaram por
não encontrar indícios da existência do éter, que, ao que sabemos hoje, de fato não
existe. Utilizando um interferômetro, Michelson conseguiu calcular a velocidade da luz
com uma precisão mil vezes maior que os valores conhecidos até então. Por fim, em 1920,
Michelson, trabalhando em conjunto com Francis Pease, criou o primeiro interferômetro
astronômico, utilizando o Telescópio Hooke de Monte Wilson, então o maior do mundo,
que será descrito em mais detalhes em capítulo mais à frente.
Mas foi na radioastronomia que a interferometria começou a ser utilizada em larga
escala por astrônomos do mundo todo. A ideia é combinar o sinal captado por vários
radiotelescópios para obter uma resolução angular equivalente à de um imenso
radiotelescópio, com diâmetro igual à distância entre os vários instrumentos. É importante
ressaltar que a capacidade de coleta de luz não será equivalente a esse radiotelescópio
gigante, mas sim à da soma das áreas dos vários radiotelescópios utilizados no processo.
Apenas a resolução é ampliada. Por operar com ondas de comprimento muito maior que
as ondas de luz visível, é muito mais simples trabalhar com interferometria no rádio. Além
disso, o radiotelescópio transforma as ondas de rádio em sinais elétricos, muito mais
fáceis de serem transportados e combinados que na interferometria óptica, em que a luz
captada por cada telescópio tem que percorrer uma trajetória por dentro de tubulações
(com vácuo em seu interior), até poder ser combinada, o que limita muito o tamanho dos
instrumentos, encarecendo e dificultando sua operação.
De maneira surpreendente, a primeira aplicação da interferometria em radioastronomia
foi feita com um único receptor: a equipe formada por Joseph Lade Pawsey e Lindsay
McCready, em 26 de janeiro de 1946, nas proximidades de Sidney, Austrália. Eles
usaram uma antena de radar convertida em radiotelescópio e fizeram uma observação
em uma escarpa à beira do mar. O instrumento foi utilizado de maneira a receber a
radiação direta proveniente do Sol e também a radiação solar refletida na superfície
do mar. Os dois sinais combinados formavam uma linha de base de aproximadamente
200 m (ver figura 72). A inspiração do grupo veio da observação de franjas de interferência
em radares causadas por esta configuração: ondas de radar provenientes diretamente
da fonte, combinadas com outras que haviam sido refletidas na superfície do oceano. O
fenômeno foi descrito por independentes equipes de radar da Segunda Guerra Mundial
que operaram na Austrália, Irã e Reino Unido.
Poucos meses depois desse trabalho pioneiro, em julho, os britânicos Martin Ryle e Derek
Vonberg conseguiram observar o Sol em rádio, utilizando duas antenas em espaçamentos
que variavam de poucas dezenas de metros a até 220 metros. Martin Ryle, Antony Hewish
e o grupo de radioastronomia da Universidade de Cambridge desenvolveram um método
104
Figura 72 - Primeira observação interferométrica em rádio, executada com uma única antena e utilizando a
superfície da água do mar como um espelho. Desenho: Francisco Conte.
batizado de síntese de abertura, para obter imagens de altíssima resolução utilizando
a interferometria. O método consiste em combinar sinais de vários instrumentos, cujas
ondas captadas devem possuir a mesma amplitude e estar na mesma fase (ver figura
73). A combinação dos sinais vai produzir uma quantidade imensa de medições durante
a observação. Esses dados podem ser combinados matematicamente através de síntese
de Fourier, produzindo uma imagem. A imensa quantidade de dados obtida durante uma
observação exige a utilização de computadores para execução dos cálculos.

Figura 73 - Esquema de um interferômetro formado por três antenas. Desenho: Francisco Conte. 105
Em 1964, começa a operar na Inglaterra o One-Mile Telescope, em Cambridge, um
radiointerferômetro composto por três antenas, duas fixas e uma móvel, todas com 18
m de diâmetro. A antena móvel podia ser deslocada através de trilhos por uma distância
de 800 m. Nesse percurso, existiam 60 estações de trabalho que podiam ser utilizadas
de acordo com o tipo de observação a ser executado. O instrumento trabalhava com
frequências que variavam de 408 MHz (comprimento de onda de 75 cm) a 1,4 GHz
(comprimento de onda de 21 cm). Foi o primeiro radio-observatório a utilizar a técnica
de síntese de abertura, que utiliza a rotação da Terra na formação de imagens. Foi o
primeiro instrumento a conseguir produzir imagens em rádio com definição superior à
do olho humano (quando operando em 1,4 GHz). Nos mais de vinte anos de operação
deste equipamento foram feitas observações de objetos individuais, assim como vários
levantamentos de campo profundo.
Em 1967, termina a construção de um radiointerferômetro em Green Bank, Estados
Unidos, formado por três antenas parabólicas com 26 m de diâmetro cada, dispersas em
uma linha de base com 2,4 km de comprimento. O conjunto posteriormente foi acrescido
de um quarto telescópio de menor porte, que era móvel e aumentava muito a capacidade
de resolução angular do instrumento.
Em 1970, começa a funcionar em Westerbork, Holanda, um interferômetro com um
conjunto de 14 antenas de 25 m, com dez antenas fixas e quatro que podem ser movidas
através de trilhos.
Em 1980, termina a construção do Very Large Array, em Socorro, Novo México, EUA,
o mais impressionante interferômetro da época, com 27 antenas parabólicas, cada uma
com 25 m de diâmetro, dispostas em um conjunto em forma de “Y”. Todas as antenas
podem ser movidas através de trilhos e seu arranjo mais aberto atinge 32 km de diâmetro
(ver figura 74).
Nesse período a radioastronomia se encontrava em um momento de construção de
novos e potentes equipamentos, no início da utilização de técnicas como a interferometria
e com grandes projetos e expectativas para a virada do século.

106
Figura 74 - Configuração geral do VLA (Very Large Array), com 27 antenas parabólicas de 25 m de diâmetro
cada uma. Desenho: Francisco Conte.

107
Capítulo 6
Satélites e sondas
No dia 4 de outubro de 1957 o mundo ficou chocado com a notícia de que os soviéticos
haviam lançado um satélite no espaço, o Sputnik. O impacto psicológico e cultural foi
imenso. Os Estados Unidos iniciaram um esforço imenso para não ficar atrás dos soviéticos
e lançaram seu primeiro satélite poucos meses depois, em 31 de janeiro de 1958.
Novamente a União Soviética assombrou o mundo ao colocar o primeiro cosmonauta em
órbita, Yuri Gagarin, em 12 de abril de 1961. O mundo observou no período um imenso
esforço das duas superpotências para se destacar na astronáutica – a chamada corrida
espacial –, com um enorme dispêndio de recursos e trabalho, resultando em um imenso
desenvolvimento tecnológico na área. No ano de 1969 os americanos conseguiram
pousar uma nave tripulada na Lua, fato que marca o final dessa fase inicial e representa
um marco no pensamento humano sobre os limites do que era possível ser realizado (ver
figura 75).

Figura 75 - Réplica de um dos primeiros satélites lançados ao espaço pela então União Soviética, exposta
no Museu e Mausoléu dos Cosmonautas de Moscou. Foto: Francisco Conte.

A corrida espacial era primordialmente política, com cada um dos lados se esforçando
para demonstrar sua superioridade ao outro, mas os cientistas aos poucos foram criando
uma série de instrumentos e missões dedicadas à pesquisa científica, com grandes
aplicações na área da astronomia. Uma nova era estava se iniciando.

108
Este capítulo nem existiria se não fossem os foguetes, isso é claro, mas vamos nos
ater muito pouco à astronáutica e aos modelos específicos de lançadores etc. O que
vamos analisar são as missões que contribuíram para o desenvolvimento da astronomia.
Os lançadores espaciais com o tempo se tornaram um grande negócio tanto para fins
comerciais (telecomunicação, meteorologia, sensoriamento remoto etc.) quanto militares.
Vamos nos centrar nas relativamente poucas missões, em relação ao total, que se
dedicam à pesquisa astronômica.
A primeira descoberta científica da era espacial ocorreu em 31 de janeiro de 1958, com
o satélite Explorer 1, lançado pelos americanos, que descobriu o Cinturão de Van Allen,
uma região de partículas eletricamente carregadas em torno de nosso planeta, causada
pelo campo magnético da Terra. O instrumento que realizou a descoberta foi desenvolvido
por James Van Allen, um físico da Universidade do Estado de Iowa. Posteriormente foram
descobertos cinturões similares em outros planetas.
Em fevereiro de 1959 a nave Vanguard II, lançada pelos EUA, faz as primeiras imagens
da Terra a partir de um satélite artificial. Em setembro desse mesmo ano a nave soviética
Luna 2 atingiu a Lua, tornando-se o primeiro objeto feito pelo homem a manter contato
com outro corpo celeste.
Em outubro de 1959, a nave Luna 3, lançada pela União Soviética, consegue obter as
primeiras imagens do lado oculto da Lua, iniciando a exploração espacial por sondas –
astronaves que viajam em direção a seu objeto de estudo. Os soviéticos foram pioneiros
em muitos objetivos nesse tipo de missão: em 1961 enviaram a primeira nave em missão
a outro planeta, Vênus, a Venera 1 e em 1966 conseguiram pousar e emitir dados a partir
da superfície da Lua, em uma missão não tripulada, a Luna 9.
A grande vantagem de instalar um telescópio de qualquer tipo no espaço é poder realizar
as observações sem a influência da atmosfera terrestre. Um dos principais aspectos da
forma como a atmosfera terrestre interfere na radiação eletromagnética proveniente do
espaço é que grande parte dela é bloqueada, sendo absorvida pelos gases ou refletida
para fora do planeta, e apenas uma pequena parte consegue atingir o solo. São estas
as janelas atmosféricas (ver figura 76). Assim, as frequências de rádio de comprimento
de onda muito grande, quase todo o infravermelho, quase todo o ultravioleta e todas
as emissões de raios-X e raios gama são bloqueados para um observador no solo,
tornando impossível a construção de instrumentos de pesquisa nessas faixas do espectro
eletromagnético instalados em terra. Mais à frente vamos ver que existe uma pequena
exceção para os raios gama, mas de forma indireta. Dessa forma, um dos grandes
avanços provenientes da corrida espacial foi a possibilidade de criar observatórios que
são colocados em órbita e dedicados à observação de frequências até então inexploradas
do espectro eletromagnético.
Podemos dividir as missões espaciais em tripuladas e não tripuladas, sendo as últimas
as que tiveram maior importância na história da astronomia. As missões tripuladas tiveram
como ápice a missão Apolo, culminando com o pouso do homem na Lua no mês de julho
de 1969. Um total de seis missões Apolo pousou com sucesso na Lua. A primeira, como
sabemos, foi a Apolo 11, em que dois astronautas permaneceram na superfície lunar
por 21 horas e 36 minutos depois de pousar no Mar da Tranquilidade. Os astronautas
trouxeram várias amostras de rochas lunares e instalaram no solo alguns experimentos ou
equipamentos científicos. Um deles foi o Lunar Laser Ranging Experiment, um conjunto
109
Figura 76 - Janelas atmosféricas. Desenho: Francisco Conte.

de espelhos que refletem a luz na mesma direção de sua emissão. Com esse experimento
é possível mandar um pulso de laser a partir da Terra e esperar seu retorno, calculando
com precisão a distância até o nosso satélite. Isso permitiu que descobríssemos que
a Lua se afasta da Terra aproximadamente 3 centímetros a cada ano. A tripulação era
composta por Neil Armstrong e Edwin Aldrin, que pousaram na Lua, e Michael Collins,
que permaneceu em órbita lunar (ver figura 77).

Figura 77 - Protótipo do módulo espacial que pousou na Lua com as missões Apolo, exposto no Smithsonian
Museum of Air and Space, em Washington DC. Foto: Francisco Conte.
110
A missão Apolo 12 foi enviada em novembro de 1969. Charles Conrad e Alan Bean
desceram à Lua por um dia e sete horas, enquanto Richard Gordon permaneceu em
órbita. A nave pousou próxima à sonda americana Surveyor 3, que havia pousado na
Lua em abril de 1967, e a tripulação por duas vezes chegou a visitar a sonda, levando de
volta para a Terra algumas de suas partes. A tripulação da Apolo 12 teve a oportunidade
de observar um eclipse solar a partir da Lua.
A Apolo 13 falhou em pousar na Lua. Em janeiro de 1971, a Apolo 14 pousou na região
de Fra Mauro, local inicialmente destinado ao pouso da Apolo 13. Alan Shepard e Edgar
Mitchell desceram à Lua, enquanto Stuart Roosa permanecia em órbita do satélite. A
tripulação permaneceu 33 horas e meia na superfície lunar, coletando mais de 40 kg
de amostras de rochas. Entre elas havia uma, batizada de Big Bertha, que em análises
posteriores descobriu-se que era um meteorito proveniente da Terra, com 4 bilhões de
anos de idade. A missão seguinte, Apolo 15, lançada em julho do mesmo ano, representou
um grande avanço nas missões da série, pois foi a primeira de longa duração, com a
tripulação permanecendo três dias e três horas na superfície lunar, e a primeira a usar um
veículo elétrico para se locomover, o que permitiu a exploração de uma área muito mais
vasta que as missões anteriores. A tripulação era composta por David Scott e James Irwin,
que recolheram cerca de 70 kg de material lunar, e Alfred Worden, que pilotou o módulo
orbital. Nessa missão também foram utilizados um espectrômetro de raios gama e outros
instrumentos científicos. A nave retornou à Terra sem problemas apesar de ter perdido um
de seus três paraquedas na descida. As Apolos 16 e 17, lançadas em abril e dezembro
de 1972, foram similares em duração à Apolo 15 e foram as últimas missões tripuladas
ao nosso satélite. A última delas contou com a presença de um geólogo profissional,
Harrison Schmitt. Os trabalhos com as amostras de rochas coletadas na Lua permitiram
esclarecer como foi o processo de formação de nosso satélite. Hoje acreditamos que
a Lua se formou após a colisão com a Terra de um corpo com o peso aproximado de
Marte, resultando em uma enorme quantidade de material expelido. Parte desse material
acabou por se agrupar devido à força gravitacional e se transformou no nosso satélite.
Antes do pouso tripulado na Lua, tanto americanos quanto soviéticos já haviam
construído e enviado sondas de sucesso ao satélite, que realizaram as primeiras pesquisas
e fizeram as primeiras imagens da
superfície de outro corpo celeste. A
primeira nave a realizar esse feito foi a
Luna 9, soviética, em fevereiro de 1966.
Em junho do mesmo ano os americanos
igualaram a façanha com a Surveyor 1.
Em outubro e dezembro os soviéticos
conseguiram pousar as Lunas 12 e
13, sendo que esta última produziu
as primeiras imagens de televisão a
partir da Lua. Em abril de 1967 os EUA
pousaram a Surveyor 3. Em setembro e
novembro voltaram, com as Surveyors Figura 78 - Réplica em escala natural de uma das sondas
5 e 6, e em janeiro com a Surveyor 7 do programa Surveyor, que pousaram na Lua na década
de 1960, exposta no Smithsonian Museum of Air and
(ver figura 78). Space, em Washington DC. Foto: Francisco Conte.
111
Após o sucesso das missões tripuladas Apolo dos americanos, os soviéticos realizaram
uma série de missões robóticas à Lua com resultados expressivos. Em setembro de 1970
a nave Luna 16 conseguiu enviar para a Terra amostras do solo lunar (ver figura 79). O
feito foi repetido em fevereiro de 1972 com a nave Luna 20 e depois com a Luna 24,
em agosto de 1976. Além disso, em novembro de 1970 eles conseguiram desembarcar
na Lua um rover robotizado, o primeiro Lunokhod 1, que funcionou até janeiro de 1971
e percorreu uma distância de 10 km (ver figura 80). Em janeiro de 1973 eles repetiram
o êxito com o Lunokhod 2, que percorreu uma distância de 36 km, estabelecendo um
recorde que só seria batido várias décadas depois por um rover marciano.

Figura 79 - Réplica em tamanho natural da Luna 16, primeira nave a voltar da Lua com amostras da
superfície. A missão foi um grande sucesso e demonstrou claramente o futuro das missões espaciais não
tripuladas de pesquisa astronômica. Exposta no Museu e Mausoléu dos Cosmonautas em Moscou. Foto:
Francisco Conte.
Outra vertente de pesquisas muito importante das missões tripuladas foi a criação de
laboratórios espaciais, que podiam desenvolver múltiplos experimentos para diversos
fins. A primeira estação espacial americana foi a Skylab, que funcionou durante 24
semanas, entre maio de 1973 e fevereiro de 1974. Durante seu período de operações
as tripulações conseguiram desenvolver parte do trabalho realizado, mas desde o início
a missão sofreu com vários problemas, incluindo a perda de um de seus painéis solares
já no desacoplamento. O acúmulo de problemas levou a um final prematuro da missão.
Durante esse período a União Soviética lançou no espaço nada menos que sete estações
de pesquisa, batizadas de Salyut 1 a 7, a primeira em 1971, algumas delas com atividades
de pesquisa científica e outras com finalidades militares, todas com curtos períodos de
funcionamento. Em 1986 os soviéticos lançaram a estação Mir, que funcionou até 2001,
demonstrando uma capacidade incrível em manter tripulações no espaço.
112
Figura 80 - Réplica em tamanho natural de um Lunokhod, os rovers que os soviéticos enviaram à Lua na
década de 1970. Exposto no Museu e Mausoléu dos Cosmonautas em Moscou. Foto: Francisco Conte.
A maior parte das missões espaciais com resultados significativos para a astronomia,
no entanto, foi feita por naves não tripuladas. O custo extremamente elevado de manter
um ser humano vivo por um período grande no espaço complica terrivelmente qualquer
tipo de missão desse tipo. Naves não tripuladas são muito mais leves, muito mais simples,
muito mais baratas e na maioria das vezes mais eficientes.
Podemos dividir as missões espaciais não tripuladas em dois tipos: o primeiro consiste
em um instrumento de pesquisa, como um telescópio, que é posto em órbita e trabalha
dessa forma durante toda a sua vida útil. O segundo tipo é composto por missões que
são lançadas em direção ao seu objeto de estudo, que pode ser um planeta ou um
asteroide, por exemplo, passando então a orbitá-lo, ou que em alguns casos pousa no
mesmo. O primeiro tipo pode incluir pesquisas muito variadas, desde observação solar
até monitoramento de quasares e galáxias distantes, ao passo que o segundo tipo fica
limitado a pesquisas no sistema solar, devido às grandes distâncias envolvidas.

Telescópios espaciais
Até a década de 1970, os telescópios espaciais lançados tanto por americanos quanto
por soviéticos e europeus eram totalmente direcionados às altas energias, ou seja, tinham
detectores de raios gama, raios X e ultravioleta. Os primeiros observatórios espaciais
para luz visível, infravermelho e ondas de rádio só vão começar a surgir a partir dos anos
1980.

113
Uma das mais importantes descobertas ocorreu em 1967, com os chamados GRBs
(gamma-ray bursts), que são explosões extremamente energéticas mas com uma duração
que pode variar de alguns milissegundos até algumas horas. Os GRBs são os eventos mais
energéticos já observados em astronomia e suas causas só foram descobertas décadas
após as primeiras detecções. Além disso, não foi um satélite de pesquisa científica que
os observou pela primeira vez. Na verdade, foram satélites militares americanos da série
Vela, lançados para vigiar possíveis testes atômicos feitos pelos soviéticos no espaço
ou na atmosfera. Como o programa era secreto, a descoberta foi mantida em sigilo por
vários anos. Ela foi revelada em 1973, com a publicação de um artigo, e só então a
comunidade científica passou a conhecer o fenômeno.
O início da astronomia de raios X aconteceu na década de 1920, quando alguns
experimentos feitos na ionosfera detectaram radiação de ultravioleta e raios X em altas
altitudes. Em 1946 um instrumento lançado em um foguete de pesquisa conseguiu
detectar raios X provenientes do Sol. A partir de 1949, raios X solares começaram a ser
monitorados por diversos experimentos. O primeiro deles utilizou um míssil balístico V2
alemão da Segunda Guerra Mundial para levar um instrumental de detecção de raios X
a grandes altitudes.
Em 1970 os americanos lançaram o satélite Uhuru, ou SAS-A, um observatório de
raios X que representou um avanço impressionante na astronomia de altas energias, com
a descoberta, por exemplo, de Cygnus X1, o primeiro forte candidato a buraco negro,
várias fontes binárias de raios X, incluindo Cen X-3, Vela X-1 e Her X-1, além de diversas
fontes extragaláticas. O sucesso do Uhuru inspirou o lançamento de outros satélites de
raios X nos anos seguintes: o Astronomical Netherlands Satellite (1974), o Ariel V (1974),
o indiano Aryabhata (1975), o SAS-C e o Cos-B, em 1975, o CORSA, em 1976, e o
HEAO-1, em 1977.
A partir de 1966, os Estados Unidos lançaram uma série de quatro satélites com
detectores de ultravioleta, chamados de Orbiting Astronomical Observatory – OAO. O
primeiro foi o OAO-1, o segundo o OAO-2, o terceiro foi batizado de OAO-B, mas foi o
último da série, o OAO-3 Copernicus, lançado em 1972, que produziu os mais expressivos
resultados. Esse satélite era uma colaboração da NASA e do Science Research Council,
do Reino Unido, ou seja, uma cooperação binacional. O satélite conseguiu produzir
centenas de espectros de alta resolução de estrelas quentes e descobriu uma série de
pulsares de longo período, alguns com vários minutos de duração, em contraste com os
conhecidos até então, com períodos de poucos segundos ou menos de um segundo.
Em 1978 uma colaboração americana, europeia e do Reino Unido lançou o satélite
International Ultraviolet Explorer – IUE, que continuou em operação até o ano de 1996
e também fez um trabalho muito importante, com observações de todos os planetas
do Sistema Solar (com exceção de Mercúrio, por estar localizado muito próximo ao
Sol), pesquisas estelares, sobre anãs brancas e ventos estelares. Ele realizou ainda
o acompanhamento da supernova 1987A e fez pesquisas sobre o meio interestelar e
sobre núcleos ativos de galáxias, um ramo novo da astronomia que se iniciou após a
descoberta dos quasares.

114
Sondas do Sistema Solar
Em março de 1960, os Estados Unidos lançaram uma sonda para pesquisar o Sol, a
Pioneer 5, que se manteve ativa até o mês de abril. Durante esse período ela assumiu
uma órbita solar e executou várias medições do campo magnético da nossa estrela,
estudou partículas emitidas pelos flares solares e fez medidas da ionização do espaço
interplanetário. Em 1965, 1966, 1967 e 1968, são lançadas a Pioneer 6 (que vai funcionar
até o ano 2000), a Pioneer 7 (até 1995), a Pioneer 8 (até 2001) e a Pioneer 9 (até março
de 1983), todas para monitorar a atividade solar, incluindo a medição de raios cósmicos,
do vento solar e do campo magnético. Em 1969 a Pioneer-E, que completaria o programa,
foi perdida, não conseguindo atingir a órbita desejada.
Depois de seis tentativas frustradas por falhas (cinco soviéticas e uma americana), a
sonda Mariner 2, lançada em agosto de 1962, conseguiu realizar um flyby, uma passagem
rasante, a 37,4 mil km da superfície de Vênus, tornando-se a primeira nave a realizar com
sucesso uma missão a outro planeta. Durante sua aproximação, ela conseguiu fazer
algumas medições de temperatura da atmosfera externa de Vênus, permitindo perceber
que não havia diferenças importantes entre a parte iluminada e a parte escura – um fato
que parecia indicar uma superfície muito quente. Quando observado em telescópios de
base terrestre, Vênus não apresenta nenhum detalhe, sua camada de nuvens nunca
permitiu que os astrônomos conhecessem sua natureza mais profunda. A era espacial
começava a alterar profundamente essa história.
Em 1965, outra nave americana, a Mariner 4, consegue realizar um flyby a uma
distância de 9,8 mil km de Marte, obtendo as primeiras imagens aproximadas da superfície
marciana, e as mais nítidas, mostrando uma região com várias crateras de impacto. Foi
um grande azar a nave observar justamente uma região com essas características – e
durante anos os astrônomos acreditaram que Marte seria semelhante à Lua. As imagens
foram obtidas com uma câmera de TV adaptada e um gravador de dados, que armazenou
a informação e enviou para a Terra com o sistema de radiofoto, encaminhando cada
fotografia ponto a ponto. Além disso, outros instrumentos da nave conseguiram realizar
suas medições (temperatura, química etc.).
Em 18 de outubro de 1967, os soviéticos finalmente conseguiram enviar uma
espaçonave a Vênus, em sua décima sexta tentativa. A nave Venera 4 conseguiu penetrar
na atmosfera superior do planeta e se manteve ativa até a altitude de 25 km, um feito para
um ambiente absolutamente hostil, com uma temperatura elevadíssima e uma atmosfera
dezenas de vezes mais densa que a terrestre. No dia seguinte a nave americana Mariner
5 conseguiu fazer um flyby sobre o planeta. Em maio de 1969, duas naves soviéticas
conseguiram novamente penetrar na atmosfera de Vênus, as Venera 5 e 6. As duas naves
foram construídas de forma muito robusta, e funcionaram perfeitamente, mas acabaram
por sucumbir a temperaturas da ordem de 305º C e uma pressão atmosférica altíssima.
Vênus mostrava sua natureza extremamente hostil.
Em julho e agosto de 1969, as naves americanas Mariner 6 e 7 realizaram dois flybys
em Marte. As duas naves conseguiram obter as primeiras imagens do planeta inteiro
tiradas do espaço, mas com uma qualidade de resolução muito baixa.

115
Em dezembro de 1970, os soviéticos
conseguem um feito extraordinário: a
nave Venera 7 pousa na superfície de
Vênus, um ambiente extremamente
adverso, com temperaturas da ordem
de 460º C e uma pressão atmosférica
90 vezes maior que a da Terra. A sonda
incrivelmente consegue funcionar por
25 minutos depois do pouso, enviando
valiosos dados para o controle de terra.
Em julho de 1972 a nave Venera 8 repete
o feito e se mantém em funcionamento
por 51 minutos (ver figura 81).
O mês de novembro de 1971
vai presenciar duas sondas, uma
americana, a Mariner 9, e uma
soviética, a Mars 2, entrarem em órbita
em torno do planeta Marte. A Mariner
9, que entrou em órbita no dia 14,
se tornou a primeira nave espacial
a realizar essa façanha na história.
Quando as duas sondas chegaram ao
planeta, este estava debaixo de uma
grande tempestade, que cobria toda a
sua superfície. A tempestade durou até
a metade de janeiro seguinte. A nave
soviética sofreu mais com o atraso da Figura 81 - Protótipo de uma das sondas Venera, que
programação e não pôde produzir dados conseguiram pousar e operar com sucesso nas difíceis
de qualidade. A Mariner 9 conseguiu condições do planeta Vênus. Um grande feito para a
obter muitas fotos da superfície do exploração do sistema solar. Em exposição no Museu e
planeta, inclusive de vales e vulcões, Mausoléu dos Cosmonautas de Moscou. Foto: Francisco
Conte.
descortinando uma visão mais completa
da topografia marciana. Em 1972 e 1973 os americanos lançam as Pionner 10 e 11,
as primeiras naves a visitar os grandes planetas gasosos. As duas naves passaram
próximas a Júpiter em dezembro de 1973 e 1974 respectivamente, e a Pioneer 11 passou
próxima a Saturno em setembro de 1979. As missões foram um grande sucesso. Embora
a qualidade das imagens obtidas ainda fosse decepcionante, sem grandes avanços em
relação ao que era obtido em terra, as naves conseguiram fazer também medições dos
campos magnéticos dos planetas e da quantidade de hidrogênio e hélio tanto no espaço
interplanetário quanto em Júpiter e Saturno. Foram as duas primeiras naves a iniciar uma
viagem sem volta para o sistema solar em direção ao espaço.
Em 1974, a União Soviética envia três sondas a Marte, que vão orbitar o planeta
com sucesso: as Mars 5, 6 e 7. As Mars 6 e 7, além de orbitarem o planeta, enviaram
pequenas sondas que deveriam pousar na superfície. Costumamos chamar essas

116
sondas de landers. O lander da Mars 7 não conseguiu alcançar o planeta. O lander da
Mars 6 conseguiu pousar perfeitamente na superfície marciana, mas perdeu contato com
o controle na Terra apenas 148 segundos após o seu pouso.
O ano de 1974 viu também em março o flyby de uma nave americana pelo planeta
Mercúrio. A sonda era a americana Mariner 10, que antes havia passado por Vênus,
tornando-se assim a primeira nave a realizar uma missão em dois planetas. A Mariner
10 conseguiu obter as primeiras imagens de boa qualidade da superfície de Mercúrio,
mostrando que o planeta se assemelhava muito à Lua, com uma superfície recoberta de
crateras de impacto. Além disso, a nave ainda realizaria mais dois flybys em Mercúrio,
um em setembro de 1974 e o outro em março de 1975. Além das imagens da superfície,
a missão coletou muita informação sobre o planeta.
Em 1972 e 1973, os americanos lançaram duas sondas muito importantes: as Pioneer 10
e 11. Em novembro de 1973, a Pioneer
10 se aproximou de Júpiter e obteve as
melhores imagens do planeta gigante
até então. Em dezembro de 1974 a
Pioneer 11 fez o seu flyby por Júpiter,
repetindo o sucesso de sua irmã. Em
setembro de 1979, a Pioneer 11 fez
um flyby por Saturno, conseguindo
entre outros feitos captar as melhores
imagens do planeta já obtidas até
aquela época e também de sua lua Titã.
Foram as primeiras naves a pesquisar
os gigantes gasosos do sistema solar.
A partir da passagem das duas sondas
por seus planetas-alvo, as duas naves
iniciaram a segunda parte da missão,
coletando dados do vento e radiação
solares enquanto se afastavam do Sol.
A Pioneer 10 enviou seu último sinal
para a Terra em fevereiro de 2003, e os
últimos dados de qualidade da Pioneer
11 foram recebidos em 1995. As duas
naves atingiram uma velocidade que
vai fazer com que um dia abandonem
o Sistema Solar, sendo as duas
primeiras sondas lançadas com esta
aptidão. Por iniciativa do astrônomo
Figura 82 - Vista de um protótipo de uma das sondas
Carl Sagan, cada uma das duas naves Pioneer 10 e Pioneer 11, as primeiras naves a visitar os
leva uma placa com uma mensagem da planetas gasosos e também a abandonar o sistema solar
humanidade, para a eventualidade de ao fim de sua missão, em exposição no Smithsonian Museu
algum dia serem capturadas por outra of Air and Space, em Washington DC. Ao fundo podem
civilização (ver figura 82). ser vistos o X15, o avião mais rápido a ser construído, e
alguns foguetes espaciais. Foto: Francisco Conte.

117
Outubro de 1975 assiste à chegada de duas sondas soviéticas a Vênus: as Venera 9
e 10. Cada uma das naves era composta por um orbitador e um lander. Sucesso total:
os dois orbitadores tiveram êxito ao realizar suas funções e os dois landers conseguiram
entre outros feitos obter as primeiras imagens feitas por uma sonda pousada na superfície
de outro planeta, apesar da extrema dificuldade de um instrumento resistir às condições
extremas do planeta.
Em 1976, os Estados Unidos conseguem realizar um feito semelhante ao dos soviéticos
no ano anterior. Duas sondas – as Viking 1 e 2, compostas por um orbitador e um lander
cada –, chegaram ao planeta vermelho e realizaram suas missões com total sucesso. Os
landers conseguiram produzir as primeiras imagens da superfície de Marte e continuaram
em atividade até o início dos anos 1980. Os orbitadores também sobreviveram por tempo
equivalente e fizeram um grande levantamento da superfície marciana durante sua vida
útil (ver figura 83).

Figura 83 - Protótipo de um dos landers da missão Viking, que pousou com sucesso na superfície de Marte
em 1976. Smithsonian Museum of Air and Space, Washington DC. Foto: Francisco Conte.

Antes do final da década os Estados Unidos mandaram duas sondas para o planeta
Vênus: a Pioneer Venus Orbit e a Pioneer Venus Multiprobe. As duas chegaram ao seu
destino em dezembro de 1978. A orbitadora continuou a funcionar até o ano de 1992,
realizando estudos e medições da atmosfera e do fraco campo magnético do planeta.
A Multiprobe lançou quatro sondas que foram realizando medições de vários tipos
enquanto penetravam na densa atmosfera do planeta. Uma das quatro sondas, batizada
de Day Probe, sobreviveu ao impacto com a superfície do planeta e continuou a mandar
informações por um período de mais de uma hora. Poucos dias depois, ainda em 1978,
os soviéticos conseguiram pousar em Vênus as Veneras 11 e 12.
118
O final da década de 1970 é marcado, no entanto, pela mais incrível missão do período,
a das Voyager 1 e 2, que visitaram todos os quatro planetas gigantes do sistema solar. A
Voyager 1 foi lançada em setembro de 1977 e a Voyager 2 um pouco antes, em agosto
do mesmo ano. Em janeiro de 1979 a Voyager 1 fez o seu flyby por Júpiter e a Voyager 2
fez o seu em julho do mesmo ano. As duas naves encontraram 13 novas luas do planeta,
descobriram que Júpiter tinha um pequeno sistema de anéis muito mais tênue que o de
Saturno e mesmo que o de Urano, descoberto alguns anos antes. As naves constataram
que algumas faixas da atmosfera do planeta rodavam no sentido contrário ao da maioria
das faixas. Verificaram ainda que a grande mancha vermelha, uma característica do
planeta descoberta há séculos, era na verdade um grande sistema de tempestade, que
ainda está ativo.
Mas provavelmente as descobertas mais impressionantes dessa passagem estavam
ligadas aos satélites galileanos: Calisto era o corpo do sistema solar mais bombardeado
por crateras de impacto visto até então, o que sugere que sua superfície seja bastante
antiga. Ganimedes, o maior satélite do sistema solar, era também cravejado de crateras
de impacto, mas apresentava algumas estruturas em sua superfície que indicavam a
existência de algum tipo de movimento interno. As imagens das outras duas luas causaram
muito mais impacto: Europa apresentava uma superfície bastante clara e lisa, mas
totalmente marcada por riscos mais escuros, como rachaduras. As análises demonstraram
que Europa tinha uma superfície coberta por gelo, que provavelmente recobre um grande
oceano interno de água no estado líquido. Desde que essa descoberta foi feita, o satélite
galileano se tornou o mais provável candidato a detecção de vida em todo o sistema
solar, fora da Terra. Io, o mais interno e menor dos quatro satélites galileanos, tinha
uma aparência ainda mais estranha, lembrando uma pizza. Muito colorido, com tons de
amarelo e vermelho, parecia que sua superfície tinha derretido, apresentando também
alguns pontos mais escuros. Uma das imagens captadas quando uma das Voyagers já
estava se afastando do satélite mostrava claramente uma pluma causada por erupção
vulcânica. Io é o corpo com vulcanismo mais ativo de todo o Sistema Solar. A causa
desse improvável vulcanismo era um mistério, pois um corpo do tamanho e com a massa
de Io já deveria ter se resfriado. A explicação se deve ao extremamente forte efeito de
marés causado por sua órbita elíptica e tão próxima ao redor de Júpiter, acentuado pelas
passagens de Europa, Ganimedes e Calisto (ver figura 84). O mesmo efeito de marés é
a causa do aquecimento interno de Europa, que acabou por criar o seu imenso oceano
interno. A passagem das Voyagers por Júpiter utilizou uma técnica chamada de estilingue
gravitacional, que acelerou e redirecionou as naves para seu próximo desafio.
Em novembro de 1980, a Voyager 1 fez o seu flyby em Saturno, enquanto a Voyager
2 fez o seu em agosto de 1981. Novamente a passagem das Voyager é acompanhada
por uma série de descobertas: O sistema de anéis era feito na verdade por milhares
de anéis emparelhados, como na superfície de um disco de vinil ou de um DVD; além
disso, complexas formações podiam ser percebidas no sistema de anéis. Assim como no
caso de Júpiter, as duas sondas descobriram cinco novos satélites. A atmosfera superior
de Saturno apresentava aproximadamente 7,5% de sua composição de hélio, sendo o
restante constituído por hidrogênio. Essa proporção era aproximadamente a metade da
encontrada em Júpiter, o que parecia indicar que o hélio da atmosfera de Saturno estava
lentamente afundando para o interior do planeta.
119
Figura 84 - Vista de Júpiter com sua lua Io em primeiro plano. Foto obtida por uma das naves Voyager.
Fonte: Wikimedia Commons.
As imagens de alguns satélites de Saturno trouxeram muitas surpresas: Mimas
apresentava uma cratera gigante, que ocupava cerca de um terço da área de um de seus
hemisférios. Já se sabia que Titã, o maior de seus satélites, tem uma atmosfera, porém
com a passagem das Voyager constatou-se que ela era muito mais densa do que se
pensava. Jápeto apresentava um hemisfério muito mais claro do que o outro.
Após a passagem por Saturno a Voyager 1 iniciou a segunda parte de sua missão, em
direção às estrelas, saindo lentamente do Sistema Solar. Alguns de seus instrumentos
foram desativados para economia de energia para uma nova busca, agora dos limites do
nosso sistema. A Voyager 2 ainda tinha trabalho a fazer na pesquisa dos planetas mais
afastados do Sol.
Após receber outra assistência do estilingue gravitacional, agora de Saturno, a Voyager
2 finalmente acabou por fazer um flyby em Urano em janeiro de 1986. A sonda confirmou
a descoberta de um sistema de anéis que havia sido encontrado recentemente (ver no
próximo capítulo). Urano se apresentava como uma imensa e lisa esfera de cor azul
clara, sem nenhuma característica marcante em sua superfície.
A Voyager 2 descobriu 11 novas luas em Urano. A maioria de seus satélites lembrava a
Lua, com a presença de inúmeras crateras na superfície. Miranda apresentava algumas
características muito marcantes, com alguns cânions tão pronunciados que eram
facilmente visíveis mesmo em imagens que mostravam todo o satélite.

120
Em 1989 a Voyager 2 realizou seu último flyby, desta vez no planeta Netuno. Novamente
grandes surpresas acompanharam a chegada: diferentemente de Urano, Netuno
apresentava algumas marcas características em sua superfície, entre elas um sistema
de tempestade bastante pronunciado que lembrava, pelas suas proporções e distância
do equador a Grande Mancha de Júpiter. Além disso, Netuno também mostrava faixas
e algumas manchas mais claras relativas a nuvens. A Voyager descobriu um sistema de
anéis, semelhante ao de Urano, porém menos distinto, além de seis novas luas. Observou
em detalhe o maior satélite de Netuno, Tritão, que apresentava uma topografia mais
dinâmica do que podia se supor anteriormente. Sua superfície possui menos crateras
de impacto do que a maioria das luas do sistema solar. A Voyager observou indícios da
existência de criovulcanismo, com gêiseres que entram em atividade mesmo a baixas
temperaturas. Essa atividade é a responsável pela renovação da superfície do satélite.
Descobriu-se que Tritão possui uma atmosfera muito fina, composta principalmente de
nitrogênio. Essas descobertas surpreenderam os astrônomos especializados no Sistema
Solar, pois não se esperava encontrar tanta atividade em uma região tão distante e fria,
dentro do nosso sistema. Após a passagem por Netuno a Voyager 2 passou também para
a segunda fase de sua missão, em busca dos limites do nosso sistema planetário.
Após o término de sua extremamente bem-sucedida missão planetária, as duas
Voyagers, que ainda estavam funcionando bem, passaram para uma nova fase de
pesquisas. Em 25 de agosto de 2012, a Voyager I cruzou a heliopausa, a região em que
a influência do campo magnético do Sol se encerra e se inicia o espaço exterior. Nesse
dia, a nave estava a uma distância de 122 Unidades Astronômicas (cerca de 18 bilhões
de quilômetros). A Voyager 2 cruzou a heliopausa em 5 de novembro de 2018. As duas
naves continuam em funcionamento e enviando mensagens para a Terra com dados de
radiação e partículas captadas por seus instrumentos. Infelizmente, ambas as sondas
estão chegando ao final de sua vida útil.
Ainda antes de rumar em direção a Júpiter, a Voyager 1 realizou a primeira imagem
da dupla Terra e Lua feita do espaço, sendo possível a observação dos dois corpos em
sua totalidade. Bem mais tarde, em fevereiro de 1990, a Voyager 1 fez uma imagem em
direção ao Sol, onde aparecem também a Terra, além de Vênus, Júpiter, Saturno, Urano
e Netuno (Mercúrio não é visível por estar muito próximo do Sol e Marte estava alinhado
com o Sol no momento em que a imagem foi feita). A foto foi tirada de uma distância de
6 bilhões de quilômetros e ficou conhecida como “Pálido ponto azul”, em referência à
aparência do nosso planeta na imagem.
Em 300 anos as, Voyager deverão alcançar a borda interior do cinturão de Kuiper e
então levarão mais 30 mil anos para cruzar toda a sua extensão. Depois disso vão atingir
a Nuvem de Oort, o último limite do Sistema Solar.
O final da década de 1970 mostra um panorama positivo para o programa espacial.
Os americanos estavam investindo pesadamente na construção de um veículo lançador
reaproveitável, enquanto os soviéticos avançavam na ideia de construir um laboratório
permanente no espaço. Havia também o sonho do lançamento de um telescópio óptico
de grande porte. Em poucos anos, todos esses planos acabaram se concretizando, mas
veremos isso em um capítulo mais à frente.

121
Capítulo 7
Telescópios ópticos na década de 1970
Após o período de construção dos grandes observatórios no topo de montanhas,
que culminou com o telescópio Hooker no Monte Wilson e algumas décadas mais tarde
com o Hale no Monte Palomar, poucos telescópios de grande porte foram construídos
no mundo nos 20 anos seguintes. Uma das poucas exceções foi o telescópio Shane,
no Observatório Lick, com um espelho primário de 3,05 m de diâmetro. Ele teve sua
primeira luz em 1959 e foi por muito tempo o segundo maior do mundo (ver figuras 85
e 86); na verdade, utilizou um espelho que havia sido construído apenas para testar o
de 5 m do telescópio Hale e se encontrava disponível. Além do Shane, na década de
1960 foram construídos dois telescópios um pouco maiores que o Hooker, no Monte
Wilson. O primeiro foi o Shajn Telescope, com 2,60 m de diâmetro, instalado na Crimeia,
inaugurado em 1961. Já o Harlan J. Smith Telescope, do Observatório McDonald, com
2,72 m de diâmetro, foi instalado no topo do Monte Locke, no Texas, e teve sua primeira
luz em 1969.

Figuras 85 e 86 - Vistas externa e interna do telescópio Shane,


do observatório Lick. O maior telescópio construído no mundo
nas décadas de 1950 e 60, utilizando um espelho de teste feito
para o Hale em Monte Palomar. Fotos: Francisco Conte.

As razões para esse fato são diversas. Os países mais desenvolvidos em astronomia
ainda estavam se recuperando da Segunda Guerra Mundial, o que diminuiu a
verba destinada às ciências. Além disso, a maior parte dos recursos disponíveis na
astronomia foi empregada na construção de radiotelescópios, uma área que vivia rápido
desenvolvimento. Muito dinheiro também foi investido no início dos programas espaciais,
com a construção e lançamento de diversos foguetes e satélites.
Construir um telescópio do porte do Hale em Monte Palomar, por exemplo, era muito
caro. Espelhos de grande porte eram extremamente custosos, de fabricação demorada
e tecnicamente difíceis de executar. Só o resfriamento do bloco de vidro durava
122
literalmente meses. Como vimos anteriormente, o custo do espelho varia de acordo
com o cubo do diâmetro, pois, para obter um elemento óptico mais estável, é preciso
aumentar a espessura do espelho. Para economizar a quantidade de vidro no bloco, a
superfície inferior do espelho era nervurada, normalmente imitando a estrutura de um
favo de mel (honeycomb), criando espaços vazios sem perda de rigidez no conjunto.
Esse procedimento possuía uma vantagem extra: depois do espelho finalizado, os vazios
aumentavam muito a área de contato do bloco de vidro com o ar do entorno, acelerando
o processo de aclimatação (ver figura 87). As montagens equatoriais, utilizadas para
permitir o acompanhamento de objetos no céu noturno, tinham que dar sustentação
a esses espelhos, sendo também muito volumosas e pesadas, com altos custos de
construção e manutenção. Além disso, a turbulência atmosférica degradava as imagens
obtidas pelos telescópios de grande porte, impedindo que apresentassem um ganho de
resolução angular em relação a instrumentos de pequeno porte. Ou seja, um telescópio
grande captava mais luz, mas não apresentava detalhes mais finos do objeto observado.

Figura 87 - Vista de um espelho primário de telescópio no sistema honeycomb. O desenho mostra como se
retirássemos cerca de um quarto da parte superior, permitindo observar as nervuras que imitam a estrutura
de um favo de mel. Esta configuração tem duas vantagens: economiza material na construção do espelho
sem perda de rigidez e, após finalizado o espelho, permite uma aclimatação muito mais rápida com o
ambiente. Desenho: Francisco Conte.

123
Apesar de todos esses pontos negativos, a década de 1970 viu a situação mudar
drasticamente com a construção de vários telescópios relevantes, impulsionada por
importantes avanços tecnológicos. O Hale de Monte Palomar manteria o seu reinado,
mas agora com companheiros de peso.
O primeiro telescópio importante a entrar em operação foi o Mayall, instalado em Kitt
Peak, no Arizona, um excelente sítio astronômico, com altitude de 2.096 m. O Mayall, que
começou a operar em 1973, tem um espelho primário com 4 m de diâmetro, o que fazia
dele à época o segundo maior telescópio do mundo, com enorme importância para a
astronomia americana (ver figuras 88 e 89). O Mayall foi construído pelo National Optical
Astronomy Observatory (NOAO), sendo o primeiro telescópio de grande porte construído
pelo governo dos EUA. Todos os outros observatórios americanos até então pertenciam
a universidades (Monte Wilson, Palomar, Lick etc.). A construção de um instrumento que
pudesse ser utilizado por qualquer instituto de astronomia americano democratizava a
pesquisa astronômica em um país que indubitavelmente possuía os mais importantes
observatórios ópticos no mundo. Em 1976, uma observação feita no Mayall apontou a
existência de gás metano em Plutão.

Figuras 88 e 89 - Vistas interna e externa do telescópio Mayall em


Kitt Peak, o primeiro telescópio de grande porte pertencente ao
governo americano. Os anteriores pertenciam a universidades.
Fotos: Francisco Conte.

No mesmo sítio de Kitt Peak, outro instrumento importante havia sido instalado no ano
de 1962: o telescópio solar McMath-Pierce, o maior de seu tipo por várias décadas. O
telescópio principal possui um espelho primário com 1,60 m de diâmetro.
Ainda mais importante para a astronomia no período foi a construção dos primeiros
grandes observatórios em montanhas no hemisfério sul, cuja ausência impedia a execução
de observações astronômicas avançadas em boa parte do céu austral. O primeiro
telescópio de grande porte a entrar em funcionamento no hemisfério sul foi o Anglo-
Australian Telescope, em Siding Spring, um sítio astronômico localizado no sudeste da
Austrália, com uma altitude de 1.164 m. Possuindo um espelho com 3,89 m de diâmetro,

124
era na época de sua inauguração, em 1974, o terceiro maior telescópio do mundo. Como
seu nome sugere, o telescópio é operado tanto pela Austrália quanto pelo Reino Unido.
Dois anos depois começou a operar o Victor Blanco Telescope, um gêmeo do Mayall
de Kitt Peak, localizado em Cerro Tololo, ao lado da cidade de Vicuña, no Chile, a 2.207
m de altitude. Com um espelho primário de 4 m de diâmetro, o Victor Blanco dividia o
status de segundo maior telescópio do mundo na época. Ele foi construído pelo governo
americano, que o opera através do NOAO, embora o Chile, por ceder o local, tenha direito
a parte do tempo de observação. O Victor Blanco teve um papel muito importante para os
pesquisadores dos Estados Unidos, por permitir a eles o acesso ao céu do hemisfério sul.
Em 1977 começou a funcionar o telescópio de 3,60 m de Cerro de La Silla, também
no Chile, um sítio localizado a 2.400 m de altitude. O 360 é um telescópio europeu,
operado pelo ESO (European Southern Observatory), com parte do tempo de observação
destinado ao Chile. O telescópio possui um espelho primário com 3,57 m de diâmetro (ver
figura 90).

Figura 90 - Vista externa do telescópio de 3,60 m de diâmetro de Cerro de La Silla, um dos primeiros
telescópios de grande porte instalados no Hemisfério Sul. Foto: Francisco Conte.

Ainda em 1977, começam as atividades do Du Pont Telescope, com 2,54 m de


diâmetro, em Cerro Las Campanas (ao lado de La Silla), a 2.380 m de altitude, operado
por um consórcio de instituições norte-americanas e pelo Chile. Em Las Campanas,
em 24 de fevereiro de 1987, os astrônomos Ian Shelton e Oscar Duhalde descobriram
a Supernova 1987A1, visualmente, sem o auxílio de binóculos ou telescópios. Era a
primeira supernova observada a olho nu desde aquela vista por Kepler e Galileu, em

125
1604, e a única supernova descoberta até os dias de hoje em que se conhecia a estrela
progenitora.
Dois telescópios construídos na década de 1970, porém, começaram a apontar os
futuros caminhos do desenho de instrumentos de ponta para a virada do século e além.
O primeiro desses dois projetos foi o BTA, Bolshoi Teleskop Alt-Azimutalny, instalado
perto de Zelenchukskaya, a uma altitude de 2.070 m, na União Soviética, hoje Rússia,
que iniciou suas atividades em 1975. O BTA tinha um espelho primário com 6 m de
diâmetro e assim que começou a operar tornou-se o maior telescópio do mundo. O
telescópio como um todo, entretanto, era extremamente problemático: seu espelho era
feito em um bloco maciço de vidro, uma escolha muito inadequada para um instrumento
desse porte, pois o bloco de vidro era extremamente pesado e volumoso. Isso fazia
com que o telescópio tivesse uma inércia térmica muito grande, levando o aparelho a
demorar literalmente horas para equalizar a temperatura do espelho com a atmosférica,
fato que causava uma degradação brutal das imagens obtidas. Além disso, o espelho
apresentava problemas de acabamento incompatíveis com um instrumento de pesquisa:
sua superfície tinha rachaduras visíveis, que para não piorar a qualidade das imagens
haviam sido recobertas com piche. Esse espelho foi substituído alguns anos depois da
primeira luz do observatório, mas seu sucessor também era muito limitado no aspecto
técnico. Uma conclusão direta era que o telescópio tinha uma finalidade muito mais
política que científica: era importante para a URSS ter em operação o maior telescópio
do mundo.
Em um dos aspectos de seu projeto, no entanto, o BTA mostrou o caminho do futuro:
pela primeira vez um telescópio de grande porte usava uma montagem altazimutal em vez
de equatorial. Montagens equatoriais possuem um eixo alinhado com o eixo de rotação
da Terra, o que permite que um objeto seja acompanhado pelo telescópio durante horas
com a utilização de um único motor de passo. Montagens altazimutais possuem dois eixos
móveis, um deles no sentido azimutal, permitindo o apontamento para qualquer direção
horizontal, e o outro em altura, viabilizando a observação de objetos desde próximos ao
horizonte até o zênite. Para realizar o apontamento de um objeto no céu, uma montagem
altazimutal necessita de três motores trabalhando coordenadamente: um controlando o
eixo azimutal, outro controlando o eixo de altura e um terceiro rotacionando a câmera para
compensar a rotação do céu noturno. Logicamente, a coordenação desses três motores
é bastante complexa, e tem que ser feita de maneira ininterrupta por toda a duração da
observação. Isso inviabilizava a opção por esse tipo de montagem. Mas a introdução dos
computadores tornou a tarefa de coordenar o movimento dos três motores rotineira e
simples. Em poucos anos, todos os observatórios de porte em todo o mundo passaram
a utilizar montagens altazimutais. Em comparação com as montagens equatoriais, as
altazimutais são extremamente compactas, muito leves e sua construção e operação são
muito mais baratas.
O segundo instrumento cujo desenho veio a influenciar o futuro dos telescópios foi o
Multiple Mirror Telescope, instalado no topo do Monte Hopkins, no Arizona, em um sítio
muito bom do ponto de vista astronômico, a 2.700 m de altitude. O nome “telescópio
de múltiplos espelhos” já antecipa o seu design revolucionário: em vez de um espelho
primário, ele possuía um conjunto óptico com nada menos que seis espelhos de

126
1,80 m de diâmetro, além de um espelho central com um sétimo espelho com 80 cm de
diâmetro, que servia como guia, sem colaborar com a coleta de luz do instrumento. Os
espelhos eram alinhados por um feixe de lasers e toda a luz recebida pelos seis espelhos
era encaminhada para um mesmo ponto. A área total de coleta de luz equivalia à de
um telescópio com 4,5 m de diâmetro. O instrumento não produzia imagens, apenas
espectros, e tinha uma operação complexa, mas custou uma fração do preço de um
telescópio convencional com abertura equivalente (ver figura 91). O conjunto óptico estava
instalado em uma montagem compacta do tipo altazimutal e em uma cúpula de desenho
revolucionário, que mais parecia uma caixa, mas que funcionava perfeitamente. Todo o
edifício da cúpula girava em conjunto com a montagem. Essa característica produziu um
dos acidentes mais bizarros da história da astronomia, quando a cúpula abalroou um
carro estacionado em local proibido, em 1984. O instrumento era um enorme desafio
tecnológico e havia um grande risco de não funcionar como planejado. No entanto, pouco
após o início das operações do observatório, o MMT descobriu uma das primeiras lentes
gravitacionais, um duplo quasar, que na verdade eram duas imagens do mesmo objeto,
demonstrando claramente as capacidades do telescópio.

Figura 91 - Esquema óptico do MMT (Multiple Mirror Telescope), frontal e corte. O MMT foi um dos mais
revolucionários telescópios da história, utilizando seis espelhos de 1,80 m, que equivaliam em área a um
espelho de 4,50 m, por uma fração do custo. Foi também um dos primeiros telescópios a utilizar uma
montagem altazimutal. Desenho: Francisco Conte.
Outro telescópio de grande porte foi construído naqueles anos: o Canada-France-
Hawaii Telescope, operado por um consórcio de instituições canadenses, francesas
e havaianas. O telescópio foi instalado no Havaí, no topo do Mauna Kea, um vulcão
adormecido, a 4.200 m de altitude, até hoje um dos melhores sítios astronômicos e um dos
observatórios mais altos do mundo (ver figura 92). O telescópio tinha um espelho primário
com 4 m de diâmetro, e quando iniciou suas operações tornou-se provavelmente o maior
rival do Hale de Monte Palomar, pela combinação de tamanho e do seu excepcional sítio.
127
Figura 92 - Vista externa do Canada-France-Hawaii, um dos primeiros instrumentos a serem instalados no
excepcional sítio astronômico do Mauna Kea. Foto: Francisco Conte.
Ainda antes do final da década, dois outros telescópios que trabalhavam exclusivamente
no infravermelho começaram a operar no topo do Mauna Kea: o UKIRT (United Kingdom
Infrared Telescope) (ver figura 93) e o NASA Infrared Telescope Facility (IRTF). O
primeiro, operado pelo conselho britânico de ciência e tecnologia, iniciou atividades em
1978 e possui um espelho primário de 3,80 m de diâmetro. A partir de 2014, passou a
ser operado pela Universidade do Havaí, pela Universidade do Arizona e pelo Lookhead
Martin Advanced Technology Center. O segundo telescópio viu a primeira luz em 1979 e
possui um espelho primário com 3 m de diâmetro.
O MMT, assim como o 360 de Cerro de La Silla, o Victor Blanco de Cerro Tololo, o
Anglo Australian Telescope e o Canada-France-Hawaii, apontam para duas tendências
que se tornariam cada vez mais fortes. A primeira é o consórcio de entidades de vários
países para a construção de instrumentos melhores e mais avançados, dividindo custos e
tempo de utilização, prática que vem se fortalecendo com o passar do tempo. A segunda
é a de construir os novos observatórios em sítios com excelentes características de
altitude e clima. No início do século XX foram instalados os primeiros observatórios em
topo de montanha no sudoeste dos Estados Unidos, que ainda se mantêm na ponta dos
sítios astronômicos. Na década de 1970 vimos o surgimento de excelentes sítios no Chile
(Cerro Tololo, Cerro de La Silla e Cerro Las Campanas), na Austrália (Sidding Spring) e
no topo do Mauna Kea no Havaí, a mais de 4.000 m de altitude, provavelmente o melhor
até aquela data.

128
Figura 93 - Vista externa do UKIRT (United Kingdom Infrared Telescope), um telescópio de grande porte e
que opera exclusivamente no infravermelho. Foto: Francisco Conte.
Durante a década de 1970, iniciaram-se no Brasil os planos de construção de um
telescópio de porte médio para a época. O local escolhido foi o Pico dos Dias, no sul
de Minas Gerais, um sítio a 1.864 m de altitude, porém em uma área de clima tropical
úmido, não muito apropriado para a astronomia. O telescópio iniciou suas atividades no
ano de 1981 e possuía um espelho com 1,60 m de diâmetro. Apesar de suas limitações,
o observatório foi muito importante no desenvolvimento da astronomia brasileira e é
intensamente utilizado até hoje (ver figura 94).
Um outro telescópio óptico muito
inovador começou a operar nesta
década. Era um telescópio do tipo
Cassegrain de pequeno porte, com
apenas 0,91 m de diâmetro, instalado
em um Lockheed C-141A Starlifter, um
avião cargueiro adaptado. Batizado
de Kuiper Airborne Observatory
(KAO), apesar de suas limitações,
tinha algumas vantagens importantes:
operava em altitudes muito elevadas,
da ordem de 9.000 m acima do nível Figura 94 - Vista interna do telescópio de 1,60 m do Pico
do mar, e podia ser deslocado para um dos Dias, até hoje o maior telescópio operado em território
local apropriado para uma observação brasileiro. Foto: Francisco Conte.

129
específica, em qualquer parte do globo. A operação em altas altitudes minimizava
tremendamente os problemas causados pela turbulência atmosférica. Aproveitando sua
característica mobilidade, o KAO foi utilizado em março de 1977 para observar uma
ocultação de uma estrela brilhante pelo planeta Urano. Essas ocultações são muito
importantes na astronomia, pois sua duração exata pode fornecer dados sobre o diâmetro
dos objetos astronômicos ou até permitir a constatação da existência de uma atmosfera
em um planeta, por exemplo. Na observação de Urano, a equipe composta por James
Elliot, Edward Dunhan e Jessica Mink percebeu uma série de cinco pequenas ocultações
antes de a estrela ser ocultada por Urano, e novamente cinco pequenas ocultações após
a passagem. A única explicação possível era que Urano possuía um sistema de anéis.
Uma descoberta incrível do KAO, que operou entre 1974 e 1995.
Em 1979, o astrônomo americano J. W. Christy descobriu um satélite do então
planeta Plutão. Utilizando um jogo de imagens obtidas pelo telescópio astrométrico do
Observatório Naval em Flagstaff, Arizona, Christy percebeu que em algumas das imagens
o pequeno disco de Plutão apresentava um pequeno apêndice. A análise das imagens
permitiu estimar o período de translação entre os dois objetos. O satélite foi batizado de
Caronte.
Duas notas importantes: ainda no ano de 1969, no observatório de Kitt Peak, foi feita
a primeira observação remota da história. E, em abril de 1970, uma equipe composta por
Gil Amelio, Michael Tompsett e George Smith produziu o primeiro sensor eletrônico do
tipo CCD (charge-coupled device). Em 1976, Jim Janesick, da Universidade do Arizona,
faz o primeiro uso de CCDs na astronomia. Tanto os CCDs como as observações remotas
tenderiam a se tornar cada vez mais comuns na astronomia.
Em 1971, Louise Webster e Paul Murdin, do Observatório de Greenwich, conseguiram
identificar uma estrela que correspondia ao objeto Cygnus X-1; a estrela já era catalogada
como HDE 226868. Ao analisar o espectro da estrela, eles perceberam que ela possuía
um companheiro massivo que não era observado. Era a primeira grande evidência da
existência de buracos negros. Charles Thomas Bolton, do Observatório David Dunlap, da
Universidade de Toronto, também fez a mesma descoberta, de maneira independente.
Em 1979, no Observatório Steward, no Texas, foi utilizada pela primeira vez uma
nova técnica de observação que ampliaria enormemente as capacidades de detecção: a
espectroscopia multiobjeto. Usando um instrumento desenvolvido no próprio observatório
e batizado de MEDUSA, que utilizava um sistema de fibras ópticas conectadas a uma placa,
estabeleciam-se previamente os pontos do campo de visão em que estariam localizados
os objetos a serem observados. Cada conexão de fibra óptica conseguia produzir um
espectro de alta resolução de um objeto astronômico, aumentando exponencialmente as
capacidades do telescópio (ver figura 95).
Apesar de todo esse esforço, ainda havia o problema da turbulência atmosférica, que
limitava o desempenho dos novos observatórios. A astronomia óptica parecia ter chegado
a um impasse. Para tentar contornar essa situação desfavorável, astrônomos americanos
e europeus começaram a planejar o lançamento ao espaço de um telescópio óptico de
porte razoável. O projeto que viria a se concretizar com o Hubble Space Telescope traria
a promessa de observações astronômicas sem as limitações causadas pela atmosfera.

130
Figura 95 - Esquema de funcionamento de um sistema de espectroscopia multiobjeto. Um campo de
estrelas é transferido para uma placa, onde são encaixados cabos de fibras ópticas em cada uma das
aberturas destinadas às estrelas. As fibras ópticas são enviadas para uma central, que captura todos
os sinais separadamente, permitindo a obtenção de uma série de espectros de alta definição ao mesmo
tempo. Desenho: Francisco Conte.
A estimativa era que a resolução das imagens poderia melhorar em até dez vezes. Uma
nova época de descobertas parecia estar se aproximando.

131
Parte 2 – Tudo ao mesmo tempo agora
Introdução
A primeira metade deste livro termina com a comunidade astronômica sendo
surpreendida por novas descobertas e conhecimentos: a radiação cósmica de fundo de
micro-ondas, os quasares e outras formas de núcleos ativos de galáxias, os pulsares e a
indicação de que alguns entes teóricos como buracos negros existiam na realidade. Mas
o próximo período viria a trazer ainda mais surpresas.
Apartir de meados da segunda metade do século XX, até os dias atuais, o desenvolvimento
da astronomia tem sido extraordinário em praticamente todos os campos de estudo.
Isso se deve à introdução de uma série de inovações técnicas, como a construção de
espelhos de grandes diâmetros e a criação de novos tipos de detectores eletrônicos
e técnicas de coleta de dados; o surgimento de novas técnicas de observação, que
minimizam ou anulam a degradação das imagens causada pela turbulência atmosférica;
o desenvolvimento da interferometria óptica; o lançamento de telescópios espaciais
com instrumentos trabalhando em comprimentos de onda nunca antes observados; a
criação de consórcios entre países e universidades para a construção de novos e mais
poderosos instrumentos e a cooperação entre observatórios para grandes programas
conjuntos; e a observação de um mesmo evento em vários comprimentos de onda e
em outros meios, como as ondas gravitacionais, ou por neutrinos, entre outros avanços
importantes. Além disso, a partir do início dos anos 1990, o uso de computadores se
espalhou pelo mundo, impactando diretamente a astronomia, que entrou em uma nova
era, cada vez mais informatizada, culminando com o que hoje chamamos de big data.
Todos esses eventos resultaram em inúmeras descobertas e em um avanço incrível no
conhecimento astronômico.
Você talvez não perceba, mas estamos no meio de uma época de ouro na história
da astronomia. Para quem acompanha os acontecimentos que estamos vivenciando
nos tempos recentes é evidente um avanço exponencial na área. Entender o panorama
completo exige um esforço constante para se manter atualizado com todos os
desenvolvimentos e avanços importantes dos últimos tempos.
Esta segunda parte do livro é uma tentativa de descrição dessa situação, com
acontecimentos e descobertas que estão ocorrendo de forma praticamente simultânea,
alavancando a novos patamares o conhecimento astronômico de nosso período.

132
Capítulo 8
Telescópios ópticos nos anos 1980 e 1990 – A tecnologia muda
o jogo
Em comparação com a década de 1970, quando assistimos a construção de vários
telescópios de grande porte, a década de 1980 foi uma época de calmaria. No entanto,
as inovações tecnológicas criadas nesse período causaram um impacto enorme no
desenvolvimento astronômico.
Em 1989, dois telescópios, o
NTT (New Technology Telescope) e
o NOT (Nordic Optical Telescope),
iniciaram uma nova era na história dos
telescópios ópticos baseados em terra.
Eles foram os primeiros telescópios a
utilizar conceitos avançados de controle
da óptica que aumentariam em muito
a capacidade de observação da nova
geração de telescópios. A primeira
inovação técnica a ser instalada foi
a óptica ativa. O NOT começou a
operar alguns meses antes e possuía Figura 96 - O NTT (New Technology Telescope), localizado
um espelho primário com 2,50 m de no Cerro de La Silla, foi o primeiro telescópio de grande
diâmetro, não muito grande para os porte a utilizar a técnica de óptica ativa. Seu design high-
-tech nem sequer lembra um telescópio tradicional. Foto:
padrões da época. Ele foi instalado em Francisco Conte.
La Palma, Ilhas Canárias, um ótimo sítio
astronômico. Muito mais poderoso, o NTT (New Technology Telescope) foi instalado em
Cerro de La Silla, tinha um espelho primário com abertura de 3,58 m e em pouco tempo
se tornou um padrão de qualidade para observatórios ópticos (ver figura 96). Ambos
utilizavam uma nova técnica chamada óptica ativa. O NOT utilizava esse recurso no
espelho primário e o NTT tanto no primário quanto no secundário.
Mas o que é a óptica ativa? Até os anos 1980, grandes telescópios utilizavam, para
a construção de espelhos, blocos de vidro volumosos e que pesavam várias toneladas,
mesmo quando era adotado o sistema de honeycomb (ver figura 87, pg. 123), muito mais
leve que um espelho maciço. A situação era grave. Durante uma observação, à medida que
esses espelhos mudavam de inclinação, o enorme peso do conjunto óptico se distribuía
de maneira desigual por todo o bloco de vidro. Isso acabava por causar pequenas
deformações no perfil da superfície do espelho, que resultavam em degradação das
imagens obtidas. Além disso, outros fatores como vento e temperatura também influíam
sobre o espelho, fazendo com que ele perdesse o seu perfil ideal durante grande parte da
observação. Os fabricantes tentavam minimizar o problema construindo espelhos mais
espessos, o que significava um aumento de custos exponencial em relação ao diâmetro
do espelho, além de criar uma série de problemas técnicos relacionados à inércia do
corpo e também à aclimatação térmica.

133
Já a óptica ativa utiliza um espelho muito fino, com proporções similares às de uma
lente de contato. No dorso do espelho existe um conjunto de sensores que mede o peso
de cada parte em tempo real. Junto a esses sensores existe um conjunto de atuadores
que pressiona cada trecho de maneira a manter o perfil do espelho em condições perfeitas
durante toda a observação (ver figura 97). O sistema produz imagens com qualidade
muito superior à dos telescópios tradicionais e o espelho é muito mais barato e leve, assim
como sua montagem, o que acaba por baratear enormemente os custos de construção
e operação dos telescópios. Além disso, existem algumas vantagens inesperadas: o
espelho do NTT foi construído com uma falha no seu perfil, similar à que viria a ocorrer
no telescópio espacial Hubble alguns anos depois, porém a óptica ativa do NTT foi capaz
de corrigir o problema sem a necessidade de um novo polimento.

Figura 97 - Óptica ativa: à esquerda vemos de maneira exagerada as deformações causadas em um


espelho primário pela ação da gravidade; à direita podemos ver o perfil do espelho corrigido pelos sensores
e atuadores do sistema de óptica ativa. Desenho: Francisco Conte.

Outro problema é a atmosfera terrestre, que é um meio muito mais denso do que o
espaço interestelar ou intergaláctico. Esse fato bastaria para ela interferisse de maneira
negativa em uma observação astronômica, mas como já vimos são as turbulências que
ocorrem na atmosfera que mais vão comprometer o desempenho dos instrumentos
ópticos de pesquisa astronômica.
A quantidade de energia absorvida pela atmosfera depende de uma série de fatores,
dentre os quais podemos incluir: hora do dia, latitude, estação do ano, umidade, altitude,
pressão, cobertura de nuvens, poeira em suspensão, assim como a quantidade de luz
refletida pelo solo (albedo) de cada região. O resultado dessa multiplicidade de fatores
é que as várias partes da atmosfera são aquecidas de maneira diferente. Mesmo em
um céu aparentemente limpo e claro, podem estar ocorrendo uma grande quantidade
de movimentos de massas de ar e variações de temperatura nas várias camadas da
atmosfera, mesmo que toda essa agitação seja praticamente invisível a nossos olhos.
O ar quente tende a refratar menos a luz visível que o ar frio. Dessa maneira, a luz
proveniente do espaço pode atravessar bolsões diferenciados de atmosfera, o que vai
fazer com que a frente de onda, originalmente plana, quando produzida por um objeto
134
astronômico, seja severamente distorcida pelas turbulências atmosféricas. Esse efeito
pode ser percebido a olho nu quando se observa à distância a camada de ar sobre uma
estrada asfaltada em um dia quente. É esse tipo de turbulência que provoca a cintilação
das estrelas.
A quantificação dessa turbulência em um dado local é chamada pelos astrônomos de
seeing. Em teoria, quanto maior o diâmetro do espelho primário de um telescópio, melhor
deveria ser a resolução angular do instrumento. Na prática, entretanto, isso não acontece.
Ao analisarmos imagens obtidas com telescópios com tamanhos diversos de espelho
primário, vamos perceber que a partir de um diâmetro de apenas 20 cm praticamente
não se percebem mais melhorias no detalhamento das imagens. Assim, a definição de
imagem do gigantesco telescópio Hale, de Monte Palomar, com seus 5 m de diâmetro,
não apresenta um desempenho muito melhor que um telescópio amador de 20 cm de
diâmetro. Obviamente, para a astronomia o telescópio de Monte Palomar ainda vai ser
um instrumento muito superior, devido ao seu poder de coleta de luz.
Em 1953, Horace Babcock propôs pela primeira vez que seria possível eliminar, ou
minimizar, as distorções atmosféricas na frente de onda de luz ao aplicar a inversa
distorção pouco antes do plano focal da imagem. O princípio funcionaria da mesma
maneira que a utilização de óculos para corrigir os problemas de focalização do olho
humano. Pode parecer simples de descrever, mas é bastante complexo de ser executado,
pois as condições atmosféricas mudam muito rapidamente e os “óculos corretivos” teriam
que se adaptar a todas as alterações durante o período de observação. Para funcionar,
seria necessário ajustar o perfil da lente corretiva a cada 5 a 10 milissegundos, implicando
que nesse exíguo período de tempo a frente de onda deveria ser analisada, o perfil de
lente corretivo deveria ser calculado e algum mecanismo deveria executar a alteração
de perfil. Tudo isso de maneira contínua, durante todo o período de observação. Todas
essas dificuldades técnicas deixaram o conceito de óptica adaptativa como uma ótima
ideia difícil ou impossível de ser realizada por aproximadamente 25 anos.
O mundo vivia, nesse período, uma intensa guerra fria entre americanos e soviéticos,
e verbas literalmente astronômicas eram gastas anualmente em ações de espionagem.
Satélites espiões utilizando câmeras de altíssima resolução sofriam com a degradação
de imagens por causa da turbulência atmosférica; da mesma forma, telescópios militares
baseados em terra rastreavam os céus noturnos à procura de satélites inimigos, convivendo
com as mesmas limitações que os telescópios astronômicos. Em meados dos anos
1970, a força aérea norte-americana iniciou um programa para o desenvolvimento de
técnicas que corrigissem os problemas causados pela turbulência atmosférica. Durante
esse período, uma série de técnicas e instrumentos foram desenvolvidos. As primeiras
imagens a utilizar essas técnicas foram obtidas em Haleakalā, no Havaí, em um telescópio
com 1,60 m de diâmetro, no ano de 1982. Era o início da era da óptica adaptativa, mas
todas as informações eram classificadas como segredos militares e ninguém no meio
astronômico sabia de sua existência, ou de seus resultados.
A partir do final dos anos 1980, grupos de astrônomos começaram a dedicar tempo e
experimentos para desenvolver sistemas de óptica adaptativa, sem contar, porém, com
as verbas e os recursos dos militares. O ESO conseguiu desenvolver um sistema ainda
limitado, chamado COME-ON, que foi instalado em 1990 no telescópio de 3,60 m de
Cerro de La Silla. Em 1991, com o fim da Guerra Fria, a força aérea norte-americana
135
decidiu desclassificar como segredo militar os instrumentos e técnicas de óptica
adaptativa e tornar públicos os detalhes de funcionamento dos sistemas. Essa decisão
possibilitou o maior salto de qualidade das observações astronômicas desde a invenção
dos telescópios.
Na verdade, o que convencionamos chamar de óptica adaptativa é um conjunto
de técnicas e equipamentos, não um único sistema. Uma das técnicas mais simples
utilizadas é chamada de Shack-Hartmann Wavefront Sensor (SHWFS). Um aparelho do
tipo SHWFS consiste em um arranjo feito com várias pequenas lentes (chamadas de
lenslets) em um arranjo compacto instalado à frente de uma placa de CCD (charge-
-coupled device). O processo se inicia observando um objeto pontual, como uma estrela.
A frente de onda da luz proveniente desse objeto atravessa cada uma das lenslets e
então atinge o sensor. Cada lenslet produzirá o foco em um ponto específico e a direção
particular de cada uma será registrada no CCD. A distribuição dos vários pontos de foco
poderá ser analisada por computadores que calcularão a deformação em toda a frente
de onda. A partir desse dado, atuadores poderão ser ativados para aplicar uma tensão
específica em cada parte da base do espelho, fazendo com que sua superfície adquira
uma forma que anule a deformação da frente de onda (ver figura 98). Esse processo é
repetido centenas de vezes por segundo, durante toda a observação.

Figura 98 - O Shack-Hartmann Wavefront Sensor (SHWFS) consiste em um arranjo feito com várias
pequenas lentes (chamadas de lenslets) em um arranjo compacto instalado à frente de uma placa de
CCD. A frente de onda deformada pelas turbulências atmosféricas, depois de atravessar cada uma das
lenslets, vai produzir focos em pontos distintos. Um computador pode analisar essa distribuição deformada
e calcular automaticamente correções para o perfil de um espelho, anulando a deformação. Na parte
superior vemos uma frente de onda plana, sem deformação. Desenho: Francisco Conte.
136
Os sensores do tipo SHWFS não são os únicos utilizados em óptica adaptativa. Um
dos sistemas mais inventivos foi desenvolvido a partir dos trabalhos do casal François
e Claude Roddier, que após sua formação em Paris e um período de trabalho na
Universidade de Nice, se transferiram para o Havaí e acabaram por criar os chamados
sensores de curvatura. A ideia básica consiste em instalar um sensor um pouco à frente
do plano focal do telescópio e outro sensor um pouco atrás. Dessa forma, a distribuição
de brilho é dividida em dois planos. A depender da deformação da frente de onda, o
sensor da frente é menos iluminado, enquanto o sensor posterior é mais iluminado, ou
o oposto. Analisando-se as diferenças de iluminação entre os dois planos é possível
calcular a deformação total da onda (ver figura 99).

Figura 99 - Sensor de curvatura, outra solução para o problema de calcular a deformação da frente de onda
causada pela turbulência atmosférica. Desenho: Francisco Conte.
Uma vez calculada a deformação da frente de onda é necessário fazer a sua correção.
Esse processo pode ser realizado de diversas maneiras, mas a solução mais comum é a
utilização de um espelho deformável. Essa técnica consiste na construção de um espelho
muito delgado apoiado em uma série de atuadores, cada um deles capaz de empurrar ou
puxar uma área do espelho, permitindo que sua superfície assuma uma série imensa de
perfis, de maneira a cancelar a deformação da frente de onda. Esse processo, como dito
anteriormente, é repetido incessantemente de 100 a 200 vezes a cada segundo durante
todo o tempo de duração da observação (ver figura 100).
Embora conceitualmente simples, a implantação de técnicas efetivas de óptica
adaptativa foi um processo que demorou vários anos para se tornar viável. Um dos
maiores problemas a ser superado foi a criação de um sistema de computadores capaz
de realizar o volume imenso de cálculos exigidos pelo processo. Essa é uma das razões
para o sistema ser implantado inicialmente com mais sucesso em observatórios que
trabalham na faixa do infravermelho, que exige menos cálculos do que a faixa da luz
visível.
137
Figura 100 - Esquema de um sistema de óptica adaptativa. A luz captada pelo telescópio atravessa um
aparato que bifurca o feixe óptico, a parte refletida passa por um sistema que analisa a frente de onda
e automaticamente corrige o perfil do espelho para neutralizar as deformações. O processo é repetido
centenas de vezes por segundo. Desenho: Francisco Conte.
Outro problema para a utilização da óptica adaptativa é que nem sempre existe
um objeto pontual (estrela) brilhante nas proximidades do objeto a ser observado que
permita a análise da frente de onda. Uma solução interessante, que produz resultados
razoáveis, é a criação de estrelas artificiais utilizando um forte laser de sódio, na faixa de
589 nm (de coloração amarelo-alaranjada), que tende a refletir como um ponto a 90 km
de altitude, onde existe uma tênue camada de átomos de sódio. A técnica, no entanto,
tem suas limitações. Manter um poderoso laser na faixa dos 589 nm e com uma potência
de 10 w trabalhando por todo o período da observação não é uma tarefa simples, que
normalmente exige a construção de uma sala separada fora da cúpula principal. Apesar
de melhorar sensivelmente a qualidade das imagens obtidas, o sistema com lasers ainda
não produz resultados tão bons se comparados com os produzidos com a utilização de
uma estrela de verdade. Várias equipes de diversos países trabalham no desenho de
novos sistemas que devem utilizar múltiplos lasers, refinando os resultados da óptica
adaptativa e gerando imagens com definição próxima do limite de difração. O ESO já
utiliza um sistema com cinco lasers. O primeiro telescópio astronômico a utilizar a óptica
adaptativa com um laser foi o Shane, no Observatório Lick, em 1996.
A eletrônica digital está sendo, progressivamente, mais utilizada na astronomia.
Além do seu uso na óptica ativa e na óptica adaptativa, cada vez mais são utilizados
detectores eletrônicos, que ampliam enormemente a capacidade dos instrumentos de
pesquisa, alterando inclusive a forma de atuação dos astrônomos, com a popularização
de observações remotas.
Detectores eletrônicos como os fotomultiplicadores (ver figura 101) já eram usados
há algumas décadas, mas a utilização cada vez maior dos CCDs acabou por alterar
a astronomia por diversas razões: primeiro porque esse tipo de detector possui uma
sensibilidade muito maior na captura dos fótons – sua eficiência quântica está na casa
dos 90%, contra 3% a 10% das chapas fotográficas; segundo porque placas fotográficas
são muito caras, enquanto os CCDs, após o investimento inicial, acumulam muitas
observações em dispositivos eletrônicos de forma extremamente barata; terceiro porque
uma observação que demoraria horas em um telescópio utilizando placas fotográficas
pode ser feita em poucos minutos com CCDs. Além disso, os CCDs, assim como os
fotomultiplicadores, podem transformar todas as observações em números, o que
simplifica muito a atuação dos astrônomos, ampliando enormemente as possibilidades
de pesquisa (ver figura 102).
138
Figura 101 - Esquema de funcionamento de um fotomultiplicador. Quando um fóton penetra no interior
do fotomultiplicador e atinge sua parede interna, dois elétrons são emitidos e cada um deles vai colidir
novamente com a parede, emitindo novamente dois elétrons. Esse processo consegue ampliar incrivelmente
sinais fracos de uma observação. São também instrumentos de resposta muito rápida, podendo registrar
fenômenos de duração muito curta. Desenho: Francisco Conte.

Figura 102 - Desenho


esquemático de uma placa
de CCD (charge-coupled
device), onde se pode
observar como é feito o
transporte da informação
captada em cada conjunto
de eletrodos. Desenho:
Francisco Conte.
Eletrônica à parte, o espelho primário é a alma de um telescópio óptico. A tecnologia da
óptica ativa criava condições para a construção de espelhos de grande porte utilizando
muito menos material (vidro), com consequente redução de custos tanto do próprio espelho
139
quanto de sua montagem. O início dos anos 1990 testemunhou a chegada dos primeiros
telescópios de grande porte de nova geração. A seguir veremos alguns exemplos.
A Universidade da Califórnia queria construir um telescópio de grande porte, para o
início dos anos 1990. Jerry Nelson propôs uma abordagem muito inovadora: produzir
um espelho fragmentado a partir da junção de vários espelhos pequenos, formando
um mosaico. Para convencer a comunidade científica local de que suas ideias eram
exequíveis, Nelson montou uma pequena equipe e começou a construir pequenos
protótipos de espelhos utilizando o seu conceito.
Em meados dos anos 1980, a universidade procurava fundos para a construção de um
telescópio de 10 m de diâmetro, com Nelson no comando. De maneira surpreendente,
quando a universidade estava quase completando a cota de doações para o telescópio,
a família de J. M. Keck resolveu doar a verba total para o projeto, desde que o telescópio
fosse batizado com o nome do doador. Percebendo a oportunidade, a universidade
mudou os seus planos iniciais e resolveu construir não um, mas dois telescópios de
10 m, a serem erigidos no topo do vulcão Mauna Kea, no Havaí, que, como já vimos
anteriormente, é um excepcional sítio astronômico.
O projeto para os dois Kecks previa a construção de um espelho segmentado, montado
a partir de 36 peças hexagonais, com cerca de 1,80 m de diâmetro cada. As peças seriam
agrupadas em um suporte único, afixado em um conjunto de sensores e atuadores de
óptica ativa, garantindo o perfil parabólico correto em cada segundo da observação. Como
o perfil do espelho segmentado seria parabólico, os espelhos hexagonais deveriam ter
perfis diferentes, à medida que se afastavam radialmente do centro do conjunto. Dessa
forma, três perfis diferentes de espelhos tiveram que ser desenvolvidos para permitir o
funcionamento do sistema.
A solução adotada, com um conjunto de 36 espelhos hexagonais, surgiu após uma
série de análises: quanto menor o espelho, mais fácil de trabalhar o bloco de vidro e
conseguir o perfil desejado e o polimento, assim como espelhar a superfície. Porém,
com menores espelhos seria necessário um número maior de peças para atingir a área
desejada de coleta de luz, o que implicaria em um aumento de dificuldades no conjunto
de detectores e atuadores que formam o sistema de controle da superfície. Os espelhos
foram fabricados pela empresa Shott Glaswerke, em Mainz, Alemanha, utilizando blocos
de um tipo especial de vidro chamado Zerodur, que possui um baixíssimo coeficiente de
dilatação. O desafio de trabalhar o vidro até atingir o perfil correto era multiplicado por 36,
e seria muito trabalhoso e demorado obter os espelhos com as técnicas convencionais.
Nelson contou com a colaboração de Jacob Lubliner, que era professor da Universidade
da Califórnia em Berkeley. Eles desenvolveram uma técnica chamada de stress-polishing,
que consiste em aplicar uma pressão em áreas determinadas do fundo do bloco de
vidro, causando uma leve deformação na superfície frontal do espelho. O polimento da
superfície era feito, então, até que esta ficasse plana. Nesse ponto a pressão na parte do
fundo era retirada e o bloco de vidro retornava a seu estado normal, mas na operação o
polimento executado resultava no perfil desejado para o espelho (Zirker, 2005, pp. 131-
141) (ver figura 103). O primeiro telescópio Keck passou a operar em 1992 e o segundo
em 1996. A era dos telescópios gigantes se iniciava. Cada um dos Kecks possuía uma

140
área de captação de luz quatro vezes maior que o Hale de Monte Palomar, com uma
óptica muito superior (ver figura 104).

Figura 103 - Método de stress polishing, usado para polir espelhos segmentados. Na posição A vemos o
bloco de vidro em repouso (vista lateral); na posição B o bloco de vidro recebeu uma pressão calculada na
parte posterior e ficou deformado na parte da frente, que ficou curva; na posição C vemos o polimento feito
na parte da frente, até que esta fique plana; na posição D vemos que, quando é retirada a pressão na parte
posterior, o bloco de vidro volta à posição de repouso e a parte da frente que recebeu o polimento adquire
o perfil curvo desejado. Desenho: Francisco Conte.

Figura 104 - Os dois telescópios Keck no alto do Mauna Kea. Foto: Francisco Conte.

141
Em 1997, entra em funcionamento outro telescópio de grande porte, o Hobby-Eberly
Telescope, ou HET, que foi planejado para ser um aparelho poderoso, com um custo
extremamente baixo. A redução de custos em relação a um telescópio convencional
atinge a marca dos 80%. Para conseguir esse objetivo, ele foi otimizado para trabalhar
apenas com espectroscopia, o que diminuiu o custo da instrumentação. A sua inclinação
é fixa, simplificando e barateando a sua montagem, que apenas se move no sentido
azimutal. Assim como o Keck, o HET também possui um espelho segmentado, mas com
perfil semiesférico, o que torna muito mais fácil o trabalho de fabricação de cada peça
hexagonal, pois são todas idênticas, com a mesma curvatura (no caso do Keck, com
perfil parabólico, as peças mudam de curvatura de acordo com a distância para o centro
do espelho). O espelho do HET é na verdade maior que o do Keck, mas o seu sistema
de operação permite que se aproveite apenas parte de sua área total (ver figura 105).
O conjunto funciona como se o telescópio tivesse um espelho primário com 9,20 m de
diâmetro. Como o telescópio não se move no eixo de altitude, a sua cúpula é mais simples
que a da maioria dos observatórios. Essa montagem simplificada permite que o aparelho
faça observações em 70% do céu noturno. O HET foi instalado no Texas, no sítio do
histórico Observatório McDonald, a 2.026 m de altitude, e é operado por um consórcio de
universidades americanas e alemãs.

Figura 105 - Comparação entre os espelhos primários dos Kecks com o do Hobby-Eberly Telescope. Os 36
espelhos dos Kecks são maiores e, como o perfil geral é parabólico, a partir do centro os espelhos devem
possuir perfis diferentes (aqui marcados com cores diferentes). No Hobby-Eberly Telescope todos os 91
espelhos segmentados são polidos de maneira igual, pois o perfil é semiesférico. Além disso, no HET os
detectores só conseguiam coletar parte da luz captada pelos espelhos. Desenho: Francisco Conte.

Pode parecer estranho, depois de mencionar esses gigantes, falar de um telescópio


de porte médio, mesmo para os anos 1970, mas o Sloan Digital Sky Survey é um projeto
muito interessante, que utitiliza um telescópio com 2,50 m de diâmetro e um largo campo
de visão, instalado do topo do Apache Point, no estado do Novo México, a 2.788 m de
altitude. O SDSS trabalha dedicado apenas à observação de galáxias a grandes redshifts,
obtendo imagens e espectros multibanda dos objetos observados. O levantamento do
SDSS cobre cerca de 35% do céu noturno, produzindo cerca de 200 GB de dados a cada
noite de trabalho.
142
Mas os espelhos segmentados não eram a única possibilidade para a construção de
um telescópio de grande porte. A primeira empresa a construir um espelho monolítico
gigante, na classe dos 8 metros, foi a Schott Glaswerke, com os espelhos para as
duas primeiras unidades das quatro previstas para o VLT (Very Large Telescope). Vou
explicar em mais detalhes o projeto do VLT em um capítulo mais à frente. A primeira
unidade entrou em funcionamento em 1998 e a segunda viu a primeira luz em 1999. A
empresa optou pela construção de um espelho bastante delgado, denominado menisco,
que utilizava a óptica ativa para manter o perfil do espelho sempre otimizado para a
observação astronômica. Os telescópios das unidades do VLT utilizam espelhos de
Zerodur com 8,20 m de diâmetro. O Zerodur é basicamente um vidro cerâmico, feito à
base de aluminossilicato de lítio, patenteado pela Schott desde 1968 (ver figura 106).
O mesmo material foi utilizado na construção de outros telescópios de grande porte,
incluindo os Kecks, com seus espelhos segmentados. O Zerodur é um material que reúne
excelentes qualidades para utilização na astronomia, com um baixíssimo coeficiente de
dilatação térmica e homogeneidade muito alta, com incidência de formação de bolhas
quase inexistente. Possui resistência à abrasão similar à de um borossilicato – o que
permite um trabalho de polimento mais simples que alguns vidros mais duros –, baixa
porosidade, alta afinidade para receber aluminização ou algum outro tipo de coating e
também é um material bastante estável. O método de fabricação dos blocos pela Schott
inclui a utilização de dois tipos diferentes de fornos, sendo um deles rotativo.

Figura 106 - Vista do espelho primário de uma das unidades do VLT, no caso o Melipal (terceiro a ficar
pronto). Na imagem é possível ver também um pedaço do espelho terciário, um pouco acima do primário.
Foto: Francisco Conte.

143
Todo esse avanço tecnológico, além do investimento na construção de novos
observatórios e de atualizações em vários telescópios que já estavam em operação,
resultou em uma série de importantes descobertas no período. Algumas delas serão
descritas nos próximos parágrafos.
Após um período pesquisando quasares e grupos de galáxias, a astrônoma norte-
americana Vera Rubin começou a trabalhar com curvas de rotação de galáxias espirais
na década de 1980. Esse era um bom método para estimar a quantidade de matéria
desses objetos. Nesse trabalho, Vera Rubin mediria a velocidade de rotação das estrelas
em torno do núcleo galáctico. Pelas regras da gravitação e pela distribuição de estelas
dentro da galáxia, esperava-se uma curva em que as maiores velocidades se encontrariam
próximas ao centro da galáxia, reduzindo-se progressivamente à medida que as estrelas
estudadas se localizassem mais e mais distantes do centro. O que ela observou foi muito
diferente: a velocidade de rotação tendia a se manter em patamares idênticos mesmo
nos limites da galáxia. Várias galáxias foram estudadas e o mesmo fenômeno acontecia
repetidamente. Em alguns casos, a velocidade até aumentava nas bordas da galáxia.
Essa era uma indicação de que as galáxias deveriam possuir muito mais matéria do que
era possível observar. A matéria faltante era muito maior que a observada, entre cinco e
dez vezes maior. Isso lembrava muito as conclusões do trabalho da década de 1930 de
Fritz Zwicky com grupos de galáxias. A essa matéria detectável apenas por sua influência
gravitacional foi dado o nome de matéria escura, e essa continua a ser uma das grandes
fronteiras da pesquisa astronômica da atualidade.
Em 1987 foi utilizada pela primeira vez uma nova técnica de observação, que
amplia enormemente a capacidade de análise de um objeto astronômico específico: a
espectroscopia de campo integral, também conhecida mais popularmente como cubo
de dados. A ideia havia sido proposta em 1982 por G. Courtès, mas o desenvolvimento
técnico necessário demorou ainda alguns anos. A primeira utilização da técnica foi
feita no Canada-France-Hawaii Telescope, no Mauna Kea, através de um instrumento
batizado de TIGER (Traitement Intégral des Galaxies par l’Étude de leurs Raies). Com o
instrumento era possível obter ao mesmo tempo imagens e espectro do objeto estudado.
Vários sistemas atuais permitem a obtenção de um espectro de alta definição para cada
pixel da imagem observada. A técnica possibilita análises impossíveis de conseguir de
outras formas, permitindo uma observação em 3D do objeto, sendo duas dimensões
espaciais e uma espectroscópica. Com os dados recebidos é possível remontar imagens
integrais do objeto em cada comprimento de onda do espectro obtido (ver figura 107).
Em 30 de agosto de 1992, uma equipe chefiada por David Jewitt e Jane Luu descobriu
o 1992 QB1, o primeiro objeto encontrado dentro do cinturão de Kuiper desde a descoberta
de Plutão por Tombaugh em 1930. Seis meses depois, a equipe encontrou um segundo
objeto: 1993 FW. Sinais claros de que uma nova era de descobertas no sistema solar
estava se avizinhando. O objeto foi batizado posteriormente com o nome Albion.
Em 6 de outubro de 1995, Didier Queloz e Michel Mayor descobriram o primeiro planeta
extrassolar. O planeta orbitava a estrela 51 Pegasi, tinha 0,45 massas de Júpiter e orbitava
a estrela a uma distância de apenas 0,0534 UA. Ele dava uma volta em torno da estrela a
cada 4,23 dias. Foi o primeiro de uma classe conhecida como jupíteres quentes. Os dois
astrônomos receberam em 2019 o Prêmio Nobel de Física pela descoberta.

144
Figura 107 - Espectroscopia de campo integral, uma nova técnica de observação. Ao mesmo tempo em que
se produz uma imagem de um campo, são feitos espectros de baixa definição de cada pixel da imagem.
A técnica permite também que sejam obtidas imagens integrais do campo em cada comprimento de onda,
possibilitando inúmeros tipos de análises comparativas. A técnica produz uma quantidade imensa de dados
e uma visão tridimensional do objeto observado, sendo duas dimensões na imagem e mais uma dimensão
espectroscópica. Devido a esse fato a técnica também é conhecida na astronomia como cubo de dados.
Desenho: Francisco Conte.
Em 1998, o mundo da astronomia, sobretudo da cosmologia, foi impactado com uma
descoberta bombástica: duas equipes distintas, o High-Z Supernova Search Team, liderado
pelos astrônomos Brian Schmidt e Nicholas Suntzeff, e o Supernova Cosmology Project,
liderado pelo astrônomo Saul Perlmutter, descobriram que o universo está se expandindo
de maneira acelerada. Desde os anos 1960, a comunidade astronômica passou a
assumir a hipótese do Big Bang. Nosso universo teve início em uma singularidade, em
um volume extremamente pequeno, há cerca de 13,8 bilhões de anos e desde então vem
se expandindo e criando o seu espaço à medida que se expande. Como o único impulso
para essa expansão foi o original do Big Bang e a única força conhecida que atuava em
larga escala era a gravidade, que é atrativa, existia uma certeza de que nosso universo
deveria estar em uma expansão desacelerada. A descoberta da expansão acelerada
do universo foi um choque. Algo, ou alguma força que não sabíamos o que era, estava
influindo no destino do universo de maneira determinante. Passados mais de 20 anos
dessa descoberta, continuamos a não saber a causa dessa aceleração, mas essa causa
recebeu o nome de energia escura. Desde então todas as observações realizadas
continuam a confirmar as descobertas dos dois grupos de 1998 e muita pesquisa está
sendo feita para descobrir o que é exatamente a energia escura. Acredita-se que ela seja
responsável por aproximadamente 75% de toda a matéria e energia do universo. A matéria

145
escura, que atua sobre as galáxias e grupos de galáxias, deve representar algo em torno
de 21% do universo, e a matéria normal, bariônica, que forma tudo o que conhecemos
– estrelas, planetas, galáxias etc. – deve representar apenas 4%. Brian Schmidt e Saul
Perlmutter ganharam o Prêmio Nobel de Física em 2011 por sua descoberta (ver figura
108).

Figura 108 - Do que é feito o universo? Toda a matéria que podemos observar – galáxias, poeira, estrelas,
neutrinos etc. – corresponde a apenas 4% do total de matéria e energia que compõem o nosso universo.
Os restantes 96% do total são constituídos de matéria escura e energia escura, que ainda não sabemos
exatamente o que são. Desenho: Francisco Conte.

146
Capítulo 9
Sondas do Sistema Solar na virada do milênio
Após um período de intensa exploração do Sistema Solar através de sondas nos
anos 1970, incluindo os pousos das Veneras em Vênus, das Vikings em Marte e o
lançamento das Voyagers, que representou o ápice do período, a década seguinte foi,
comparativamente, muito pouco produtiva. Os soviéticos continuaram mandando suas
missões para Vênus com grande sucesso. Foi um total de seis naves visitando o planeta,
mais os orbitadores e sondas que pousavam na superfície, incluindo as Vega 1 e 2, que
chegaram a lançar dois balões atmosféricos que funcionaram por 46 horas cada (ver
figura 109). Os soviéticos enviaram ainda duas naves para Marte, uma das quais perdeu
o contato antes de chegar ao planeta e a outra falhou em lançar sondas para pousar na
lua Fobos. Os americanos lançaram uma nave que visitou o cometa Giacobini-Zinner em
1986 e que, posteriormente, conseguiu fazer observações a uma grande distância do
cometa Halley.

Figura 109 - Vista da superfície de Vênus, um tremendo feito tecnológico, considerando as condições
extremas do clima local. No início dos anos 1980 a União Soviética ainda enviou uma série de naves ao
planeta. Fonte: Wikimedia Commons.

A passagem do cometa Halley de 1986 foi o único momento grandioso da pesquisa do


sistema solar por sondas nos anos 1980. Uma flotilha acompanhou o viajante: duas naves
japonesas, duas naves soviéticas e uma nave europeia – a Giotto, que anos depois ainda
visitou o cometa Grigg-Skjellerup. As sondas coletaram numerosas informações sobre
a composição química e a razão de ejeção do material cometário e a Giotto conseguiu
obter a melhor imagem de um cometa até então. Todas as missões ao Halley cumpriram
suas pesquisas, mas a década significou um retrocesso em relação aos prolíficos anos
1960 e 1970.
O colapso da União Soviética no início da década de 1990, acabou por afastar a Rússia
de novas missões espaciais por um longo tempo, mas o país ainda tinha um laboratório
espacial em órbita e muita tecnologia na área de lançamentos, pesquisa e controle de
missões espaciais. Os Estados Unidos sofreram com cortes de orçamento da NASA e
tiveram esse período marcado por acidentes. Em janeiro de 1986, o ônibus espacial
Challenger explodiu, matando toda a tripulação de sete astronautas. Os outros dois
lançadores de foguetes americanos – o Titan e o Delta – sofreram perdas no lançamento
em agosto de 1985 e em maio de 1986, respectivamente. Esses desastres seguidos
causaram a suspensão imediata de todas as missões espaciais americanas. Os ônibus
espaciais só voltaram a voar em setembro de 1988.

147
Os anos 1990 seriam diferentes. Logo em agosto de 1990 chega a Vênus a nave
americana Magellan, que ficaria por quatro anos em órbita fazendo um grande mapeamento
por radar de toda a superfície do planeta. Mais cedo ainda, em fevereiro de 1990, passa por
Vênus a nave Galileo, mas seu destino final é Júpiter. Ela passa por Vênus apenas para
receber uma assistência gravitacional para acelerar até o gigante gasoso. No caminho,
a Galileo passou pelo asteroide 951 Gaspra, em 29 de outubro de 1991, fornecendo
as primeiras imagens de alta definição de um asteroide. Em 28 de agosto de 1993, a
nave passou por outro asteroide, 243 Ida, e descobriu que o minúsculo corpo celeste
possuía um satélite, que foi batizado de Dactyl. A missão encontrou problemas desde
seu lançamento: uma antena que seria responsável por enviar os dados em elevada taxa
de emissão não abriu e ficou inativa durante toda a duração de suas atividades. Uma
antena secundária, mas que enviava os dados muito mais lentamente; salvou a missão
de um fracasso total. Em 23 de março de 1993, enquanto a Galileu estava em sua jornada
em direção a Júpiter, uma equipe de três astrônomos – Carolyn e Eugene Shoemaker e
David Levy – fez uma descoberta fantástica, um cometa. Batizado de Shoemaker-Levy 9
(era o nono cometa descoberto pela equipe), o cometa havia se fragmentado ao passar
próximo do gigante joviano e tinha a aparência de um colar de pérolas, com um total de
21 fragmentos de grande porte. Quando se fez o cálculo da órbita do cometa, descobriu-
se que ele iria colidir com Júpiter em julho de 1994, entre os dias 16 e 22, pois cada um
de seus fragmentos colidiria em seu próprio tempo. Astrônomos de todo o mundo se
prepararam para o evento, mas havia uma limitação: o impacto ocorreria no lado oposto
de Júpiter, impossibilitando a visão direta do fenômeno. Mas a Galileu estava em um
ponto de sua órbita onde seria possível observar as colisões, e a nave pôde fazer os
registros e enviá-los à Terra. Voltaremos a falar do cometa em outro capítulo. A Galileo
chegou ao sistema de Júpiter em 7 de dezembro de 1995, entrando em seguida em
órbita ao redor do planeta. Pouco tempo antes já havia lançado uma pequena sonda,
que penetrou na atmosfera joviana em julho do mesmo ano, coletando uma série de
dados sobre sua composição, até ser esmagada pela pressão dos gases das camadas
mais profundas. A nave continuou em operação até dezembro de 2003. Durante esse
período completou 34 órbitas em torno do planeta e realizou diversos estudos sobre sua
atmosfera, seus satélites e sistema de anéis, incluindo observações que dão suporte à
hipótese que sua lua Europa possua um oceano abaixo da camada de gelo da superfície.
Finalmente a nave mergulhou na atmosfera do gigante, após o término de sua missão.
A astrônoma brasileira Rosaly Lopes, que trabalha no JPL, Laboratório de Propulsão a
Jato, descobriu nada menos que 71 vulcões ativos em Io, tornando-se a pessoa que mais
descobriu vulcões no universo.
Em 4 de julho de 1997, chega a Marte uma nova missão americana, a primeira em
21 anos desde o pouso das Vikings. Era uma missão complexa que contava com um
orbitador, o Mars Global Surveyor, que desempenhou sua missão até o ano de 2006, um
lander, o Mars Pathfinder e um pequeno rover, o Sojourner, com 65 cm de comprimento
e pesando apenas 15 kg, que funcionava com energia solar. A missão foi um sucesso,
mas tanto o lander como o rover sobreviveram apenas por poucos meses. O Sojourner
percorreu uma distância de apenas 100 m durante seu tempo de vida, mas a repercussão
na imprensa internacional foi bastante boa e o veículo ficou bem popular (ver figura 110).

148
Figura 110 - Vista do rover Sojourner explorando a superfície marciana. Fonte: Wikimedia Commons.
Na mesma época, outra missão da NASA, a NEAR Shoemaker, lançou uma nave
que fez um bem-sucedido flyby no asteroide 253 Mathilde, no dia 27 de junho de 1997,
e prosseguiu para um encontro com o asteroide 433 Eros, que acabou acontecendo em
fevereiro de 2000. Após o término das atividades previstas, que incluíam uma série de
imagens e estudos químicos do asteroide, a equipe na Terra resolveu tentar fazer um
pouso suave em Eros, que acabou ocorrendo com sucesso no dia 12 de fevereiro de
2001.
Em outubro de 1997, a NASA e a ESA (European Space Agency) lançam a sonda Cassini
para uma missão até Saturno. A nave foi dirigida inicialmente a Vênus, para aproveitar o
efeito de estilingue gravitacional para acelerar, passou novamente pela Terra, aproveitou
novamente a assistência gravitacional e foi então para Júpiter, com o mesmo objetivo.
Finalmente chegou à órbita de Saturno em 2004, onde continuou funcionando até 2017,
embora os planos iniciais previssem que a nave trabalharia por apenas quatro anos. Em
dezembro de 2004, a nave lançou em direção ao satélite Titã uma sonda batizada de
Huygens, construída pela ESA, que mergulhou na espessa atmosfera da lua até pousar
em seu solo, fazendo uma série de medições de temperatura, ventos e composição
química, além de imagens espetaculares. Titã é um mundo gelado, mas possui lagos e
possivelmente um oceano de metano líquido, que segue um regime de chuvas similar ao
da Terra. As pesquisas em Titã são de grande interesse para pesquisadores que estudam
as possibilidades de vida fora de nosso planeta. A Cassini produziu imagens incríveis de
Saturno, de seu imenso sistema de anéis e de suas luas (ver figura 111), incluindo as
surpreendentes Hipérion, que parece ter uma estrutura similar a uma esponja; Jápeto,
que possui um alargamento em sua faixa equatorial, que faz com que o satélite se
assemelhe a uma noz; a pequena Pan, que tem a mesma característica, porém muito
mais acentuada, o que a faz se assemelhar a um ravióli, além de imagens incríveis de
Mimas, Tétis, Metone, entre outros. A sonda descobriu que o satélite Encélado tinha
149
uma cobertura de gelo similar àquela encontrada na lua Europa de Júpiter, o que parecia
indicar a existência de água em seu interior. Isso ficou confirmado quando, em outra
passagem, a Cassini observou jatos similares a gêiseres sendo lançados de sua superfície
para o espaço. Essas descobertas tornaram Encélado um alvo para futuras pesquisas.
A Galileo realizou também uma série de medições e imagens do sistema de anéis de
Saturno, conseguindo obter dados sobre os tamanhos das partículas que compõem cada
parte dele. Ela também observou o surgimento de tempestades na atmosfera e uma
curiosa formação hexagonal que existe na região polar de Saturno. Finalmente, em 15 de
setembro de 2017, a sonda Galileu mergulhou na atmosfera do planeta, encerrando uma
extremamente bem-sucedida e prolongada missão de pesquisa. A NASA planeja enviar
uma sonda chamada Dragonfly para explorar Titã. O lançamento está proposto para 2025
e prevê a utilização de um lander dotado de um rotor, como um helicóptero, que permitirá
que o explorador se desloque por grandes distâncias no satélite. A combinação de uma
atmosfera densa e de uma atração gravitacional sensivelmente menor que a da Terra
torna a tarefa de voar cerca de 40 vezes mais fácil que aqui.

Figura 111 - Impressionante vista do sistema de anéis de Saturno, com o planeta eclipsando o Sol. Fonte:
Wikimedia Commons.
Em 2004, chegam a Marte dois poderosos rovers produzidos pela NASA: o Spirit,
que pousou no interior da cratera Gusev e o Opportunity, que pousou em uma região
conhecida como Meridiani Planum. Os dois rovers foram planejados para funcionar por
um prazo aproximado de cem dias, mas tiveram uma vida útil muito maior. Eles pesavam
180 kg e mediam 2,30 m de largura e 1,60 m de comprimento. O Spirit continuou em
funcionamento até março de 2010 (ver figura 112), tendo percorrido uma distância de
7,73 km. Ele passou pelas crateras Bonneville, Columbia Hills e seguiu em direção a
Husband Hill. Em 9 de março de 2005, filmou um dust devil – um redemoinho de vento
que passou a poucos metros dele. Conseguiu subir até o topo do Husband Hill e continuou
seu caminho, passando por McCool Hill e Low Ridge Haven, e chegou a Silica Valley.
Em 2009, ficou preso em um atoleiro de areia do qual conseguiu escapar, mas uma de
suas rodas ficou inoperante até o fim da missão. Durante sua vida operacional, o Spirit
150
examinou e analisou o solo e rochas marcianas, produziu inúmeras imagens e, inclusive,
funcionou como um telescópio, fazendo uma imagem da Terra vista no céu marciano em
2004, além de registrar inúmeros trânsitos solares das luas marcianas Fobos e Deimos.
A carreira do Opportunity foi ainda mais brilhante. O rover trabalhou até o ano de 2018,
55 vezes mais do que o planejado, e percorreu 45,16 km, um recorde para veículos
espaciais. O Opportunity descobriu meteoritos na superfície marciana, fez um estudo de
dois anos inteiros na cratera Victoria e encontrou as maiores evidências da existência de
água no passado do planeta vermelho.

Figura 112 - Vista panorâmica da superfície de Marte feita pelo rover Spirit. Fonte: Wikimedia Commons.

Em 1999 foi lançada uma ousada missão de exploração cometária, a Stardust, da


NASA. A sonda encontrou o cometa 81P/Wild 2 em 2004. Entre seus instrumentos
havia um coletor de partículas. Semelhante a uma raquete de tênis, esse dispositivo
tinha placas de uma substância chamada aerogel, um gel a base de silício que coletaria
pequenas partículas emitidas pelo cometa. A missão foi um sucesso e as amostras foram
reenviadas à Terra, tendo o veículo portador das amostras entrado em nossa atmosfera
em 15 de janeiro de 2006, em uma locação próxima a Spring Creek, em Nevada. A
análise do material permitiu estimar os tamanhos e composição dos grãos emitidos pelo
cometa, além de coletar também material do espaço interplanetário e pelo menos uma
partícula de origem interestelar. Com a espaçonave ainda em funcionamento, a equipe
na Terra resolveu estender a missão e visitar também o cometa 9P/Tempel 1, o que
ocorreu em 2011.
Outra missão importante, a Deep Impact, igualmente da NASA, havia visitado o mesmo
cometa 9P/Tempel 1, com uma tarefa também complexa: lançar um impactador que
colidiria com o cometa, para estudar a emissão de partículas. A colisão do impactador
ocorreu perfeitamente em 4 de julho de 2005. Os dados coletados surpreenderam os
cientistas, pois havia muito mais poeira e muito menos gelo do que o previsto. Após o
bem-sucedido encontro com o 9P/Tempel 1, a missão foi prolongada e a Deep Impact
conseguiu executar flybys nos cometas Hartley 2, em novembro de 2007, Garradd
(C/2009 P1), em fevereiro de 2012, e ISON (C/2012 S1), em fevereiro de 2013. A sonda
perdeu contato com a Terra em setembro de 2013. Não menos importante foi a missão
Rosetta, lançada pela ESA (European Southern Agency), que encontrou o cometa 67P/
Churyumov-Gerasimenko em agosto de 2006, após ter realizado flybys nos asteroides
21 Lutetia e 2867 Steins. A sonda, além de orbitar o cometa e conseguir obter imagens
de altíssima resolução, também lançou com sucesso o lander Philae, que pousou no
cometa em 12 de novembro de 2014. O lander, porém, teve problemas de ancoragem,
demorando para se estabilizar. Depois, teve dificuldades para obter potência suficiente de

151
suas baterias solares, que ficaram mal alinhadas. Conseguiu manter contato esporádico
e breve com o controle na Terra, mas logo parou de transmitir. Em 29 de novembro de
2016 o orbitador colidiu intencionalmente com o cometa, encerrando a missão.
Em janeiro de 2008, chega a Mercúrio a sonda Messenger da NASA, que após dois
flybys entrou em órbita do planeta e continuou em operação até o ano de 2015. Antes
de alcançar Mercúrio, a trajetória da Messenger se afastou e depois de um flyby na
Terra, para ganhar assistência gravitacional, fez ainda dois flybys em Vênus. Durante
seu período de atividade, a sonda fotografou e mapeou toda a superfície de Mercúrio,
descobrindo evidências da existência de água, materiais orgânicos e vulcanismo, que
surpreenderam os astrônomos. Encerrada a missão, no dia 30 de abril de 2015, a nave
mergulhou e colidiu com a superfície do planeta (ver figura 113). No momento em que
este livro está sendo escrito, uma nova sonda, a BepiColombo, se dirige ao planeta
Mercúrio. Ela deve fazer seu primeiro flyby sobre o planeta em outubro de 2021, entrar
em órbita em 2025 e se manter em operação até março de 2026.

Figura 113 - Impressionante vista da superfície de Mercúrio obtida pela sonda Messenger. Fonte: Wikimedia
Commons.
Em 2015, depois de uma viagem de nove anos, a sonda New Horizons realizou um
flyby no planeta anão Plutão. A maior aproximação ocorreu no dia 14 de julho. A nave
foi lançada no dia 19 de janeiro de 2006, quando Plutão ainda era classificado como
planeta. Na sua trajetória em direção ao cinturão de Kuiper e além, a nave passou por
Júpiter, conseguindo grandes imagens em infravermelho do planeta e dos quatro satélites
galileanos, com destaque para uma imagem de Io com uma visão incrível de uma pluma
vulcânica nas proximidades do seu polo norte. Mesmo com o Hubble Space Telescope
e a nova geração de telescópios ópticos, tanto Plutão como sua grande lua Caronte
152
não passavam de dois pequenos
borrões. A New Horizons forneceu
imagens incríveis: o disco de Plutão
apresentava uma grande formação em
seu hemisfério sul que lembrava um
coração (ver figura 114). Em imagens
mais aproximadas foi possível observar
crateras de impacto, montanhas e
vulcões, com indícios de atividade
recente (possivelmente vulcanismo frio).
A sonda fez boas imagens do globo de
Caronte, onde também se observaram
cadeias de montanhas e algumas
crateras de impacto, e conseguiu
realizar ainda imagens dos pequenos
satélites Nix, Hidra, Cérbero e Estige.
Quando já tinha ultrapassado o planeta
e se dirigia ao espaço interestelar, fez
uma imagem de Plutão iluminado por Figura 114 - Imagem da superfície de Plutão obtida pela
trás pelo Sol, na qual ficava clara a sonda New Horizons. Fonte: Wikimedia Commons.
existência de atmosfera. A sonda realizou uma série de medições e análises espectrais
de Plutão e seus satélites. Terminada a missão, a equipe na Terra começou a analisar
possíveis alvos para a sonda. Em 2015, um segundo objetivo surgiu: um flyby no KBO
(Kuiper belt object – objeto do cinturão de Kuiper) Arrokoth, que também era conhecido
pelo apelido de Ultima Thule. Em 1o de janeiro de 2019, a maior aproximação em relação
a Arrokoth mostrou claramente um corpo formado pela junção de dois objetos menores, o
que reforçava a teoria de formação de corpos do sistema solar. A nave terá condições de
ser manobrada até o ano de 2030, existindo ainda a possibilidade de um novo encontro
com algum membro do cinturão de Kuiper. A sonda ainda realiza medições de intensidade
do vento solar e de raios cósmicos.
Em novembro de 2011, a NASA lançou a missão Mars Science Laboratory, que
transportava um grande rover em direção a Marte. Em 6 de agosto de 2012, a nave pousou
na cratera Gale e o Curiosity iniciou sua missão, que ainda está em andamento. O Curiosity
é o maior rover já enviado ao planeta vermelho: com um peso de 899 kg, o veículo de seis
rodas tem o tamanho próximo ao de um automóvel pequeno (ver figura 115). Carregando
um incrível pacote de instrumentos científicos, incluindo espectrômetros, medidores de
radiação e imageadores, o rover consegue se locomover a uma velocidade de 90 m por
hora. Em março de 2013, a NASA emitiu uma declaração informando que o Curiosity
havia encontrado evidências de que as condições geotérmicas do sítio da cratera Gale
eram adequadas para o surgimento de vida microbial. A declaração também informava
que o rover havia detectado água, dióxido de carbono, oxigênio, sulfeto de hidrogênio,
clorometano e diclorometano. Em maio de 2014, o rover encontrou um meteorito metálico,
que foi batizado de Lebanon. Em 17 e 27 de março de 2019, o Curiosity registrou dois
trânsitos de Deimos e Fobos, respectivamente. Em julho de 2020, o Curiosity estava
explorando o Monte Sharp, totalmente operacional, e já havia percorrido uma distância
153
de 22 km, tendo no período subido 327
m, desde o local em que havia pousado.
Em 26 de novembro de 2018, pousou
na superfície de Marte a sonda InSight,
um lander que realiza estudos sísmicos
e geodésicos. Tanto o InSight, quanto o
Curiosity continuam em atividade.
Mas a exploração de Marte não
se resume aos landers e rovers que
exploram diretamente a sua superfície.
Uma série de missões com orbitadores
ainda se mantém na ativa, estudando o
planeta: a veterana 2001 Mars Odyssey
(NASA), que desde outubro de 2001
faz estudos climáticos e de geologia;
a também veterana Mars Express
(ESA), que desde 2003 faz imagens
da superfície e mapeamentos; o Mars
Reconnaissance Orbiter (NASA), que
também faz imagens da superfície e
mapeamentos desde março de 2006;
a Mangalyaan – Mars Orbiter Mission
(Índia), que faz estudos da atmosfera
marciana desde 24 de setembro de
2014; a sonda americana MAVEN, Figura 115 - Autorretrato do rover Curiosity na superfície
que entrou em órbita do planeta no dia de Marte. Fonte: Wikimedia Commons.
seguinte à sonda indiana e desde então
faz o mesmo tipo de estudo que ela, e a sonda ExoMars Trace Gas Orbiter (ESA/Rússia),
que desde outubro de 2016 também faz estudos atmosféricos.
No ano de 2020, enquanto este livro estava sendo escrito, tivemos o lançamento da
Mars 2020, da NASA, que pretende colocar um rover e um helicóptero drone na superfície
marciana. No início de 2021 temos duas missões a caminho de Marte: a Emirates Mars
Mission, dos Emirados Árabes Unidos, um orbitador que vai fazer estudos atmosféricos,
e a bem mais arrojada Tianwen-1, uma missão chinesa composta por um orbitador
e um rover, que deve atingir o planeta em 2021. A missão tem por objetivo estudar a
atmosfera e o solo marciano. A segunda ExoMars, construída pela Rússia e pela ESA,
perdeu a janela de lançamento, devendo ser lançada apenas em 2022. Marte é um dos
principais alvos de pesquisa no sistema solar, e várias missões estão planejadas para
sua exploração nos próximos anos, incluindo uma sonda japonesa que pretende extrair
amostras da superfície de Fobos e retornar à Terra.
Algumas sondas foram feitas especialmente para estudar o Sol. Uma das mais
importantes foi a missão Stereo, composta por duas naves, Stereo A e Stereo B. As duas
sondas entraram em órbita solar, a sonda A um pouco mais próxima do Sol que a Terra e
a sonda B um pouco mais distante. Elas produziram uma quantidade imensa de imagens

154
tridimensionais da atividade solar, incluindo ejeções de massa coronal, que permitiram
um estudo muito aprofundado do comportamento de nossa estrela mais próxima. A sonda
Stereo B perdeu contato com a Terra em 2018, mas a Stereo A continua em funcionamento,
embora hoje não sejam mais possíveis as imagens em 3D. Outra sonda solar importante
é a Parker Solar Probe, que foi lançada em agosto de 2018 e em outubro do mesmo ano
se tornou o objeto artificial a permanecer mais próximo do Sol em toda a história. Sua
órbita em elipse bastante excêntrica faz com que a sonda se aproxime periodicamente do
Sol, de onde pode realizar estudos sobre campos eletromagnéticos e sobre o vento solar.
Em dezembro de 2013, a China lançou com sucesso a missão lunar Chang’e 3, que
incluía um lander e um rover. Era o primeiro pouso suave de uma nave na Lua desde
1976. O lander pesava 1.200 kg e o rover 140 kg. A missão foi um grande sucesso. Ainda
mais ousada foi a missão Chang’e 4, que pousou um lander e um rover no lado afastado
da Lua, a primeira missão desse tipo a incluir também um orbitador para poder enviar os
dados para a Terra. A missão foi realizada entre maio e dezembro de 2018 e abre caminho
para a sonhada instalação de um radiotelescópio no lado afastado da Lua, o único local
do sistema solar livre da interferência de rádio terrestre. Em 17 de dezembro de 2020,
a missão chinesa Chang’e 5 retornou da Lua com sucesso, trazendo cerca de 2 kg de
rochas lunares, a primeira missão em mais de 40 anos a realizar essa proeza. Poucos
dias antes, em 6 de dezembro, uma cápsula enviada pela sonda Hayabusa 2 retornou
à Terra com amostras de material do asteroide Ryugu, coletadas em 2018, quatro anos
depois do lançamento da missão.
O sucesso da missão NEAR Shoemaker levou a outras propostas de sondas para o
estudo de asteroides. A principal missão desse tipo foi a DAWN, lançada pela NASA em
setembro de 2007. A nave cumpriu uma longa missão. Orbitou o asteroide Vesta de julho
de 2011 até setembro de 2012, quando abandonou a atração gravitacional do asteroide e
se dirigiu para seu segundo e principal objetivo, o planeta anão Ceres, primeiro asteroide
a ser descoberto, em 1801. A DAWN entrou em órbita de Ceres em 23 de abril de 2015,
onde realizou vários estudos até outubro de 2018, quando a missão foi formalmente
encerrada (a nave não tinha mais propelente para realizar qualquer manobra em torno
do asteroide), ficando em uma órbita estável em torno do planeta anão. A DAWN foi a
primeira sonda espacial a orbitar dois corpos celestes (Vesta e Ceres).
A exploração do sistema solar através de sondas tem produzido resultados incríveis,
impossíveis de se obter de outra forma. Todos os planetas do sistema solar, um satélite,
dois planetas anões, alguns cometas e asteroides e um membro do cinturão de Kuiper
foram visitados com sucesso (ver figura 116). Novas importantes missões estão sendo
propostas, outras já se encontram em fase de construção e algumas já estão, inclusive,
a caminho de seus alvos. Alguns países como Japão, China, Índia e Emirados Árabes
Unidos se juntaram ao clube que já tinha como membros os Estados Unidos, a Europa
e a Rússia. Todos esses fatores indicam que esse tipo de pesquisa astronômica vai
continuar a se desenvolver nas próximas décadas.

155
Figura 116 - Imagem em escala de vários asteroides visitados por sondas durante as últimas décadas.
Fonte: Wikimedia Commons.

156
Capítulo 10
Telescópios espaciais na virada do milênio
Nas duas décadas finais do século XX e no início do século XXI o mundo acompanhou o
lançamento de vários telescópios espaciais, que diferentemente das sondas, examinadas
no capítulo anterior, não eram lançados em direção a seu objeto de estudo, mas ao
espaço, para evitar os problemas observacionais causados pela atmosfera terrestre.
Neste capítulo vamos ver alguns dos principais observatórios espaciais lançados a partir
da década de 1990.

Luz visível
Hubble Space Telescope
A instalação de um telescópio óptico no espaço era um sonho antigo de muitos
astrônomos. No espaço, o telescópio poderia funcionar livre dos problemas originados por
nossa turbulenta atmosfera. O Hubble
Space Telescope (HST) foi a realização
de um sonho de décadas de muitos
astrônomos observacionais, mas por
pouco esse sonho não se transformou
em um pesadelo de proporções
astronômicas devido a problemas no
seu espelho primário (ver figura 117).
O Hubble foi planejado para ser o mais
importante observatório astronômico do
final do século XX. Seu projeto previa
a construção de um telescópio com um
espelho primário de 2,40 m de diâmetro,
um limite imposto pelo compartimento de
cargas dos ônibus espaciais. O espelho
primário era o principal elemento do
projeto, mas o projeto como um todo
deveria representar o estado da arte
da pesquisa astronômica, incluindo os
seus detectores e a instrumentação.
Duas companhias concorriam para
a fabricação do espelho: a Eastman
Kodak e a Perkin-Elmer/Goodrich.
A segunda venceu a concorrência,
apresentando um projeto com um
orçamento de 70 milhões de dólares.
A fabricação utilizou o material ULE Figura 117 - Vista de um protótipo do Hubble Space
(ultra-low expansion), e, para minimizar Telescope exposto no Smithsonian Museum of Air and
o peso do espelho, foi empregada a Space, Washington DC. Foto: Francisco Conte.
157
técnica de honeycomb, ou seja, o espelho foi montado a partir de três células que foram
fundidas em um único bloco, que ao final pesava cerca de 900 kg. Após a fundição,
houve as etapas de raspagem do bloco de vidro, para adquirir a curvatura desejada, e
finalmente seu polimento. Este foi muito cuidadoso, pois o projeto exigia que a maior
irregularidade da superfície não superasse um máximo de 10 nanômetros, com o objetivo
de que o espelho tirasse o maior proveito possível das condições praticamente perfeitas
de observação em que o telescópio deveria operar. Para entender o quanto a superfície
desses espelhos é perfeita, podemos imaginar que, se o espelho tivesse o tamanho do
Brasil, a maior imperfeição não poderia passar de 10 cm de altura.
Para garantir as qualidades ópticas do espelho, seria necessário testar o seu perfil
óptico. O antigo teste normalmente utilizado para esses procedimentos era chamado
de refractive null test. A Perkin-Elmer/Goodrich resolveu utilizar um novo tipo de teste,
inovador, e potencialmente mais preciso, batizado de reflective null test. O espelho foi
testado algumas vezes, mas apenas utilizando o novo teste. Nenhuma vez ele foi testado
pelo procedimento tradicional. A Eastman-Kodak, perdedora da concorrência, não ficou de
mãos vazias: a NASA resolveu contratar a empresa para construir um espelho similar ao
da Perkin-Elmer/Goodrich, para utilização em testes em solo, enquanto o HST estivesse
operando no espaço.
O projeto sofreu alguns atrasos durante seu desenvolvimento, incluindo uma mudança
no planejamento de todos os lançamentos de ônibus espaciais depois do acidente da
Challenger, em 1986. Finalmente, o HST foi enviado ao espaço em abril de 1990. A
imprensa alardeava as qualidades do telescópio espacial, afirmando constantemente
que seu espelho era o mais preciso jamais fabricado, o que não era verdade. Alguns
espelhos de menores dimensões possuíam uma superfície ainda mais perfeita que a do
Hubble, enquanto alguns espelhos de maior porte tinham um perfil apenas ligeiramente
inferior do ponto de vista técnico.
Poucas semanas depois do lançamento do telescópio espacial, começaram a surgir
na imprensa os primeiros rumores sobre o mau funcionamento do HST. Finalmente, a
NASA se pronunciou oficialmente, admitindo os problemas nas imagens obtidas pelo
instrumento, que estavam muito abaixo da qualidade esperada, embora em muitos tipos
de observações o HST ainda produzisse imagens superiores às obtidas com instrumentos
no solo. O projeto previa uma resolução de 0,1 segundo de arco, mas o telescópio
conseguia apenas imagens com resolução de 1 segundo de arco. Alguns dos problemas
se originaram em aspectos mecânicos provocados pelo deslocamento do HST no
espaço. O telescópio cruza a linha que divide o dia da noite a cada 50 minutos. O rápido
resfriamento e aquecimento dos painéis solares e do próprio telescópio faziam com que o
instrumento chacoalhasse rapidamente, o que acabava por embaçar as imagens obtidas.
O principal problema estava no espelho primário. Após uma extensa análise das imagens
produzidas, percebeu-se uma anomalia na curvatura do perfil do espelho principal, um
erro de apenas 2,2 micra, que pode parecer pequeno, mas é suficiente para borrar as
imagens obtidas. O avançado teste utilizado pela Perkin-Elmer/Goodrich não foi capaz
de perceber um erro facilmente detectável em testes muito mais simples e corriqueiros.
O projeto foi salvo porque o planejamento da missão HST previa missões de manutenção
e reparos, que seriam realizadas a cada três anos, utilizando os ônibus espaciais. Assim,
tornou-se fundamental que a primeira missão de manutenção planejada, a ser executada
158
em 1993, conseguisse reparar os problemas. Foi projetado um novo sistema óptico que
utilizava duas lentes em uma montagem que seria acoplada ao Hubble, na tentativa de
solucionar os problemas relacionados ao perfil do espelho. A missão foi um sucesso, e
finalmente o Hubble passou a produzir algumas das imagens mais impressionantes já
obtidas por um telescópio. Valem algumas ressalvas: apesar do sucesso da missão de
reparo, foram praticamente perdidos três anos de funcionamento do telescópio espacial.
Da mesma forma, por mais que a imprensa mundial afirmasse o contrário, a intervenção
da óptica corretora não permitiu que se atingisse o mesmo nível de perfeição do projeto
inicial do Hubble, embora o resultado obtido ficasse próximo dele, e a qualidade das
imagens obtidas fosse boa o suficiente para nos deixar maravilhados e surpresos. Como
último comentário, o espelho construído pela Eastman Kodak, que ficou em terra, não
apresentava o mesmo problema, e teria funcionado perfeitamente desde o início caso
fosse lançado ao espaço. O HST foi um dos primeiros telescópios a utilizar os CCDs para
captura de suas imagens.
Durante seu tempo de funcionamento
o Hubble realizou uma série de
trabalhos que impactaram de maneira
significativa a história da astronomia:
a imagem da Nebulosa da Águia,
em Orion, que ficou conhecida como
Pilares da Criação – pela primeira vez
astrônomos conseguiam observar
em detalhes uma região de formação
estelar (ver figura 118); graças às
observações feitas pelo telescópio
melhoramos significativamente nossas
estimativas de idade do universo, em
torno de 13,8 bilhões de anos; imagens
de alta resolução e espectros feitos pelo
HST forneceram fortes evidências da
existência de buracos negros no centro
de praticamente todas as galáxias em
nossa proximidade, inclusive reforçando
o conceito de que esse buraco negro Figura 118 - “Pilares da Criação”, imagem do HST da
Nebulosa da Águia, uma região de formação estelar.
central está diretamente relacionado Fonte: Wikimedia Commons.
com a evolução de cada galáxia.
Entre as contribuições mais importantes do HST estão os levantamentos Hubble Deep
Field, Hubble Deep Field South, Hubble Ultra Deep Field e Hubble Extreme Deep Field
(ver figura 119). Em todos esses trabalhos, o telescópio era apontado para um ponto
escuro do céu, onde anteriormente nenhum objeto era detectado. Esse ponto era, então,
observado por várias horas, dias inteiros dependendo do levantamento, e quando se
olhava a imagem obtida, via-se que estava polvilhada de galáxias. Esses levantamentos
permitiram aos astrônomos estimar o número total de galáxias no universo observável – e
esse número parece chegar à casa dos trilhões.
O HST realizou descobertas no Sistema Solar, como a lua Styx de Plutão; fez as
melhores imagens das colisões dos pedaços do cometa Shoemaker-Levy 9 em Júpiter
159
em 1994, e medidas obtidas graças a
esse telescópio durante a ocorrência
de auroras no satélite Ganimedes, de
Júpiter, forneceram indícios muito fortes
de que o objeto possui um oceano
interno de água salgada.
Até 2018, mais de 15 mil artigos
científicos haviam sido publicados
utilizando dados colhidos pelo Hubble,
além de incontáveis comunicações
apresentadas em conferências
e congressos. Além disso, esses
trabalhos foram muito significativos,
pois, se aproximadamente um terço
do total de artigos astronômicos
publicados não recebem citações
em trabalhos posteriores, no caso
do Hubble o número de artigos sem Figura 119 - O “Hubble Ultra Deep Field”, um dos trabalhos
citações posteriores é de apenas 2%. mais importantes do HST, mostra uma quantidade imensa
de galáxias em uma região muito pequena do espaço e
Hoje, 30 anos após o seu lançamento, aparentemente vazia. Fonte: Wikimedia Commons.
o Hubble Space Telescope ainda
funciona e as várias missões de manutenção, reparos e aperfeiçoamentos tornaram-no
um instrumento muito mais poderoso. Os ônibus espaciais foram aposentados, e não
existem mais missões possíveis para reparos. Então, nos próximos anos, esse incrível
telescópio vai parar de funcionar. Mas outros instrumentos, incluindo o Telescópio Espacial
James Webb, irão substituí-lo no futuro.
Antes do Hubble, houve outro telescópio espacial que operou na faixa de luz visível,
o Hipparcos, da ESA, em funcionamento entre 1989 e 1993. O Hipparcos utilizava um
espelho principal com apenas 29 cm de diâmetro e era dedicado somente à astrometria de
precisão. Antes de seu lançamento, apenas umas poucas dezenas de estrelas tinham sua
distância medida através de paralaxe. O Hipparcos produziu um catálogo com a paralaxe
de 118.218 estrelas, aumentando em muito a precisão de estimativas de distâncias por
outros métodos. Das paralaxes medidas pelo satélite, em cerca de 20 mil a precisão era
da ordem de 10%, e em cerca de 50 mil, da ordem de 20%. Nas restantes, a precisão era
ainda menor, mas isso era incrivelmente melhor do que existia anteriormente. Além do
mais, com os dados levantados, o Hipparcos produziu outros dois catálogos, Tycho-1 e
Tycho-2, com dados astrométricos de pouco mais de 1 milhão de estrelas, o primeiro, e
2 milhões de estrelas, o segundo.
Outra missão similar, porém muito mais poderosa, o satélite GAIA, também da ESA, foi
lançado em 2013. O projeto óptico, bastante complexo, previa dois conjuntos separados
de três espelhos, os dois conjuntos instalados com um ângulo de 106,5º entre eles. Os
espelhos são retangulares, com o comprimento maior no sentido em que é necessária a
maior resolução de imagem. Os dois espelhos primários medem 1,40 x 0,50 m. A luz é
captada por um conjunto de 106 CCDs de 4500 x 1966 pixels cada. A missão GAIA orbita a
Terra no ponto L2, o segundo ponto estável calculado pelo matemático Lagrange, situado
160
exatamente na linha Sol-Terra, aproximadamente 1.500.000 km mais distante do Sol que
nosso planeta. O GAIA está em plena atividade e já divulgou dois releases completos
de dados e uma parcial do seu futuro terceiro release, que será divulgado na íntegra
em 2022. A missão tem observado um número imenso de objetos, com uma precisão
incrivelmente maior que a alcançada pelo Hipparcos, mas isso vai ser comentado com
mais detalhes em outro capítulo.
Durante o período de março de 2009 a outubro de 2018, esteve operando em órbita
o telescópio espacial Kepler, da NASA. Era um telescópio óptico, com um espelho de 95
cm de diâmetro especializado na busca de planetas extrassolares através do método de
trânsito, no qual o instrumento mede a diminuição periódica de brilho da estrela observada
no momento em que o planeta passa na frente da estrela. O telescópio observou sempre a
mesma área de cerca de 115º quadrados, pegando parte das constelações de Cygnus, Lyra
e Draco. Durante seu período de operação, o Kepler descobriu 5.011 estrelas candidatas
a possuir pelo menos um exoplaneta e confirmou a existência de 2.512 estrelas que
possuem pelo menos um exoplaneta em sua órbita. Foi o maior número de exoplanetas
descoberto por qualquer observatório. Hoje encontra-se em operação um satélite similar,
o TESS (Transiting Exoplanet Survey Satellite), também operado pela NASA, lançado em
2018 e que deve se manter em operação até 2022. O TESS observa uma área de 24º x
24º, focando a busca em aproximadamente 200 mil estrelas das classes espectrais G, K
e M. Até setembro de 2019, o TESS havia confirmado a descoberta de 29 exoplanetas e
divulgado uma lista de 1.000 candidatos.

Infravermelho
O primeiro satélite a operar na faixa do infravermelho foi o IRAS (Infrared Astronomical
Satellite), da NASA, com participação do Reino Unido e da Holanda, que entrou em órbita
em janeiro de 1983. O IRAS era um telescópio do tipo Ritchey-Chrétien (variação do
Cassegrain), com 0,53 m de diâmetro. A missão realizou o primeiro levantamento completo
do céu em infravermelho e atraiu muita atenção da mídia ao observar um excesso de
radiação infravermelha na estrela Vega, com a possível explicação de que talvez existisse
um sistema planetário em formação
em torno dela. Nessa época ainda
não haviam sido descobertos planetas
fora do sistema solar. Posteriormente,
o satélite encontrou a mesma
característica em outras estrelas: Beta
Pictoris, Fomalhaut e Epsilon Eridani.
O IRAS também descobriu alguns
cometas e quatro asteroides.
Em agosto de 2003, entrou em órbita
o Spitzer Space Telescope (SST),
da NASA, que, assim como o IRAS,
também tinha a configuração Ritchey-
Chrétien, com 0,85 m de diâmetro Figura 120 - O telescópio espacial Spitzer, que operava
(ver figura 120). Logo que iniciou suas no infravermelho. Fonte: Wikimedia Commons.

161
operações, o SST conseguiu realizar imagens incríveis, várias delas merecendo grande
divulgação da mídia mundial, em muitos aspectos rivalizando com o Hubble Space
Telescope (ver figura 121). Em 2005, ele se tornou o primeiro satélite a conseguir captar
luz direta de dois exoplanetas: HD 209458 b e TrES-1 b. No mesmo ano, pesquisadores
da Universidade de Wisconsin, com base em 400 horas de observação, comprovaram
que a Via Láctea possui uma estrutura de espiral com barra muito mais proeminente do
que se pensava anteriormente. Entre setembro e outubro de 2016, o Spitzer encontrou
cinco exoplanetas em órbita da estrela TRAPPIST-1. Posteriormente, outros telescópios
descobriram mais dois.

Figura 121 - Imagem da Hellix Nebula pelo Spitzer. Fonte: Wikimedia Commons.

Entre 2009 e 2013, o telescópio Herschel, lançado pela ESA, se tornou o maior
observatório espacial na faixa do infravermelho, com um espelho primário de 3,50 m. Ele
operou no ponto L2 de Lagrange e realizou uma série de trabalhos importantes, entre
eles a descoberta de vapor de água emitido pelo planeta anão Ceres.
Em 2009, a NASA lança o observatório WISE (Wide-field Infrared Survey Explorer), com
um espelho primário de apenas 40 cm. O satélite fez um levantamento de aproximadamente
99% do céu noturno, em faixas pouco exploradas dentro do infravermelho. Durante seu
162
período inicial de observação, acabou por descobrir milhares de asteroides e um grande
número de aglomerados abertos. Depois de uma fase de hibernação, que durou de 2011
a 2013, o WISE voltou a operar, embora sem seus sistemas de criogenia, que resfriavam
o telescópio. Dessa maneira, o satélite perde grande parte da sensibilidade que possuía
em seus primeiros dias. A missão continua em funcionamento.

Telescópios solares
Além de telescópios dedicados à observação específica de algum tipo de frequência
do espectro eletromagnético, existem alguns telescópios voltados exclusivamente
ao monitoramento da atividade solar. Esses observatórios muitas vezes possuem
instrumentos variados, que trabalham em diferentes comprimentos de onda e são
muito importantes, inclusive com o objetivo de diminuir possíveis danos causados por
tempestades solares ou por violentas ejeções de massa coronal que sejam emitidas em
direção à Terra.
Um dos mais importantes instrumentos desse tipo foi o SOHO (Solar and Heliospheric
Observatory), lançado em 1996 pela ESA e pela NASA, que se encontra no final do seu
ciclo de operação, devendo parar de funcionar nos próximos meses. O SOHO adotou
uma órbita no ponto L1 de Lagrange, muito estratégico para um telescópio solar, pois
fica mais próximo do Sol, e alinhado com o nosso planeta. Em caso de uma ejeção de
massa coronal em nossa direção, o telescópio pode enviar um alerta para a base, o que
vai fazer com que sejam tomadas medidas de proteção em satélites e usinas elétricas
próximas às zonas polares, para minimizar os possíveis danos. Além disso, nessa órbita,
a missão tem a visão do Sol desobstruída durante todo o tempo. O SOHO possui uma
suíte de instrumentos que realizam observações da zona coronal, espectroscópios, um
observador de rádio de baixas frequências, instrumentos operando em várias faixas
dentro do ultravioleta etc. O SOHO tem prestado excelentes serviços e produzido imagens
incríveis da atividade solar. Uma área inesperada na qual se destacou foi a descoberta
de dezenas de cometas, sendo a sonda espacial que mais descobriu objetos desse tipo.
Vários desses cometas acabaram por se chocar com o Sol. As sondas WIND, lançada
em 1994, e ACE, lançada em 1997, ambas da NASA, também continuam em operação
até hoje e fazem estudos sobre a atmosfera solar. Assim como a SOHO, tanto a WIND
como a ACE operam em L1.
Mais recentemente, duas sondas, a DSCOVR (Deep Space Climate Observatory),
lançada em 2015 pela NASA, e a SolO (Solar Orbiter), lançada pela ESA em fevereiro de
2020, continuam a monitorar a atividade solar com alto nível de detalhamento. A DSCOVR
adotou uma órbita em torno de L1, enquanto a SolO assumiu uma órbita elíptica que varia
entre 0,28 e 0,91 Unidades Astronômicas.

Micro-ondas
Em novembro de 1989 foi lançado ao espaço o satélite COBE (Cosmic Background
Explorer), que operou até 1993. Com uma antena de apenas 19 cm de diâmetro, ele
realizou vários trabalhos, entre eles um mapeamento de céu completo, com uma
sensibilidade impossível de ser obtida com equipamentos baseados em terra. O resultado

163
comprovou a detecção da radiação de fundo cósmica de micro-ondas descoberta por
Arno Penzias e Robert Wilson, mas apresentou um universo com pequenas anisotropias,
ou seja, pequenas variações na temperatura das várias regiões do universo primordial, da
ordem de 1/3 de milésimo de grau. Essas pequenas anisotropias seriam as responsáveis
pela formação das estruturas que observamos hoje, como galáxias e estrelas. Pelo seu
trabalho no COBE, George Smoot e John Mather ganharam o Prêmio Nobel de física de
2006 (ver figura 122).

Figura 122 - Imagem de céu inteiro em micro-ondas pelo satélite Cobe. As diferenças de temperatura
observadas são da ordem de um terço de milésimo de grau, mostrando que nosso universo é bastante
homogêneo e confirmando a hipótese do Big Bang. Fonte: Wikimedia Commons.

Em 2010, a NASA lançou o sucessor do COBE, o satélite WMAP (Wilkinson Microwave


Anisotropy Probe), que, com uma antena de 1,40 m de diâmetro, produziu um mapa
celeste muito mais detalhado que o de seu antecessor. Em 2013, a ESA lançou a missão
Planck, similar ao WMAP, mas com uma antena ainda maior, com 1,90 m de diâmetro. O
Planck conseguiu produzir um mapa ainda mais detalhado, onde é possível observar com
muito mais precisão as anisotropias que deram origem às estruturas básicas do universo.

Futuro
Vários telescópios espaciais estão planejados para entrar em funcionamento nos
próximos anos, e entre eles o que mais causa expectativa é o Telescópio Espacial James
Webb, da NASA, o sucessor do Hubble. Ao contrário de seu predecessor, o James
Webb não vai trabalhar na faixa do visível, mas no infravermelho próximo. Com um
espelho primário de 6,50 m de diâmetro, o telescópio deverá causar um enorme impacto
no conhecimento astronômico. A escolha do infravermelho está ligada ao objetivo do
observatório de estudar objetos muito distantes, das fases iniciais do universo, que devido
ao alto redshift são mais facilmente observados em comprimentos de onda mais longos.

164
Capítulo 11
Astronomia de altas energias
A astronomia de altas energias estuda os fenômenos mais violentos do universo,
incluindo estrelas de massa muito grande e fenômenos ligados à existência de buracos
negros ou objetos muito compactos e densos. Esta área ganhou um enorme impulso
desde o início da era espacial, pois, como vimos anteriormente, a nossa atmosfera
bloqueia a maior parte do ultravioleta e praticamente toda a faixa de raios X e raios gama
provenientes do espaço. A grande questão que permanecia entre os astrônomos estava
ligada à descoberta dos GRBs (gamma-ray bursts), pois havia muitas dúvidas referentes
a sua origem e distância: seriam objetos oriundos de nossa própria galáxia ou fontes
muito distantes e, consequentemente, muito mais violentas?
Em 1990, a NASA e a DLR (Agência
Espacial da Alemanha Ocidental)
lançaram o satélite Rosat (abreviação
de Röntgensattelit), que originalmente
deveria funcionar por 18 meses, mas
acabou trabalhando por nove anos. O
Rosat criou um catálogo com 150 mil
fontes de raios X, além de um catálogo
de fontes em extremo ultravioleta
com 479 objetos. Os dois catálogos
cobriam o céu inteiro, além de estudar
a morfologia de restos de supernovas
e observar a emissão de raios X em
cometas. No ano seguinte a NASA
lançou a missão Compton Gamma Ray
Observatory, um telescópio espacial
com quatro telescópios distintos, que
trabalhavam principalmente na faixa Figura 123 - Foto do satélite Compton Gamma Ray sendo
dos raios gama, mas também em raios lançado em órbita terrestre. Fonte: Wikimedia Commons.
X. O Compton montou um catálogo
com 271 fontes de raios gama, além de obter as primeiras indicações de que os GRBs
deveriam ser emissões muito colimadas e distantes (ver figura 123).
A partir de 1996 começa a operar o satélite BeppoSAX, uma colaboração ítalo-
-holandesa, que operou ininterruptamente por sete anos na faixa dos raios X. Seu principal
instrumento era um telescópio Wolter Tipo 1, com 16 cm de diâmetro (ver figura 124).
Alguns modelos teóricos sobre os GRBs previam que após a emissão inicial de raios
gama, poderia existir uma emissão em comprimentos mais longos criada pela colisão da
radiação inicial com gás intergaláctico. Essas emissões foram batizadas de afterglows. Em
fevereiro de 1997, o BeppoSAX conseguiu detectar o GRB 970228 e observar a posição
de seu afterglow. Vinte horas depois, o William Herschel Telescope conseguiu identificar
a fonte de forma visível: era uma galáxia muito distante. Pouco depois, o BeppoSAX
detectou o afterglow do GRB 970508, e este foi observado de forma visível apenas
165
quatro horas após sua descoberta,
o que permitiu que os astrônomos
obtivessem muito mais dados. Pelo
espectro do objeto foi possível estimar
sua distância em aproximadamente
6 bilhões de anos-luz (redshift 0,835).
O evento seguinte detectado pelo
BeppoSAX, o GRB 980425, foi seguido
nos dias posteriores pelo aparecimento
de uma brilhante supernova. A origem
dos GRBs finalmente começava a ser
decifrada.
Mesmo antes do trabalho do
BeppoSAX já sabíamos que havia
dois tipos de GRBs: os longos, a
maioria, com mais de dois segundos Figura 124 - Ilustração que mostra o satélite BeppoSAX
de duração, e os curtos, com menos operando em órbita terrestre. Fonte: Wikimedia Commons.
de dois segundos, que representavam
cerca de 30% dos eventos observados. Por muito tempo, todos os GRBs em que se
conseguiu identificar a posição do afterglow eram do tipo longo e estavam claramente
relacionados com supernovas do tipo II, ou seja, o final do ciclo de vida de uma estrela de
grande massa. Entre os astrônomos surgiu a suspeita de que os GRBs curtos deveriam
estar ligados a outro tipo de fenômeno. A principal hipótese estava relacionada à fusão
de duas estrelas de nêutrons, ou à fusão de uma estrela de nêutrons e um buraco negro,
produzindo um fenômeno batizado de kilonova. A confirmação da hipótese só ocorreu em
2017, com o GRB 170817A, mas falaremos dele com mais detalhes em outro capítulo
mais à frente. Apenas para finalizar por agora, o GRB 178117A era realmente uma fusão
de estrelas de nêutrons.
Os GRBs são eventos extremamente energéticos, mas hoje se sabe que a emissão
de raios gama é fortemente colimada e acontece apenas nos polos magnéticos. Esse
fato implica em duas constatações: a primeira é que a energia envolvida em cada evento
é muito menor do que se pensava inicialmente, quando se considerava que o fluxo
observado seria emitido em todas as direções. A segunda é que como o observador
só consegue avistar aqueles GRBs cujos polos magnéticos estão apontados em sua
direção, o número total de eventos é muitas vezes maior que o observado. Isto significa
que a energia total emitida por todos os GRBs é a mesma calculada inicialmente, pois o
número maior de eventos compensa a menor energia emitida em cada evento.
Em 1999 é lançado ao espaço o satélite Chandra X-Ray Observatory, operado pela
NASA e pelo SAO (Smithsonian Astrophysical Observatory). O telescópio foi chamado
inicialmente de AXAF (Advanced X-Ray Astrophysics Facility), mas foi rebatizado para
homenagear o astrofísico Subrahmanyan Chandrasekhar (ver figura 125). O telescópio
era do tipo Wolter 1 (ver figura 126) e possuía um diâmetro de 1,20 m. O Chandra continua
em operação até a atualidade e realizou uma série de descobertas importantes, entre
elas a observação de um anel em torno da Nebulosa do Caranguejo, um remanescente

166
de supernova; detectou as primeiras
emissões de raios X em Sagitarius A,
um buraco negro massivo no centro
de nossa galáxia; fez imagens de raios
X da onda de choque da supernova
1987A; mediu a constante de Hubble-
Lemaître em 76,9 km/s/Mpc; forneceu
evidências da existência da matéria
escura no Bullet Cluster; e observou
um halo de gás em torno da Via Láctea,
entre outras. No mesmo ano, a ESA
lançou ao espaço um satélite similar, Figura 125 - Ilustração mostrando o satélite de raios X
o XMM-Newton, que também continua Chandra. Fonte: Wikimedia Commons.
em operação, com um telescópio do tipo 3X Wolter de 0,72 m de diâmetro e resolução de
imagem bastante inferior à do Chandra. Apesar dessa limitação, o XMM-Newton conseguiu
realizar trabalhos importantes, como no objeto SCP 06F6, descoberto pelo Hubble, que
também emitia raios X, com uma energia cem vezes maior que uma supernova.
Como vimos anteriormente, as janelas atmosféricas impedem a detecção de fótons

Figura 126 - Esquema óptico básico de um telescópio do tipo Wolter. Existem variações desta configuração.
Desenho: Francisco Conte.
de altas energias (ultravioleta distante, raios X e raios gama) na superfície, pois nossa
atmosfera absorve esses tipos de radiação. Isso exige que as pesquisas que envolvam
esses comprimentos de onda sejam realizadas em balões estratosféricos ou através
de satélites, o que acaba por encarecê-las. Num caso específico, porém, existe uma
alternativa possível de observação indireta: os raios gama, quando colidem com gases
167
em nossa alta atmosfera, podem produzir uma cascata de partículas, da mesma forma
que ocorre com os raios cósmicos, que veremos em um capítulo mais à frente. Nessa
cascata de partículas, eventualmente são produzidas algumas partículas que vão se
deslocar em nossa atmosfera mais rapidamente que a luz, produzindo o chamado efeito
Cherenkov, ou radiação Cherenkov, emitindo fótons de cor azul. Esse fenômeno é muito
rápido, exigindo a construção de detectores de resposta muito rápida. Dessa forma é
possível observar o efeito que os raios gama provenientes do espaço causam em nossa
alta atmosfera.
Em 1989, o Whipple Telescope, um refletor com 10 m de diâmetro formado por inúmeros
espelhos, utilizando fotomultiplicadores como detectores e instalado no Monte Hopkins,
no estado do Arizona, mesmo sítio do MMT, conseguiu detectar emissões de raios
gama provenientes da Nebulosa do Caranguejo, um remanescente de supernova. Na
mesma época, um instrumento similar, o HEGRA (High Energy Gamma Ray Astronomy)
entrava em operações em La Palma, nas Ilhas Canárias. Esses primeiros instrumentos
alavancaram outros projetos similares (ver figura 127).
O MAGIC (Major Atmospheric Gamma Imaging Cherenkov Telescopes), instalado no

Figura 127 - Foto dos dois espelhos compostos do telescópio Cherenkov HEGRA, localizado nas Ilhas
Canárias. Fonte: Wikimedia Commons.
Roque de los Muchachos Observatory, em La Palma, nas Ilhas Canárias, mesmo sítio
do HEGRA, começou a operar em 2004, substituindo o instrumento anterior. O MAGIC
é composto por dois telescópios refletores de 17 m de diâmetro, formados com múltiplos
espelhos. Os telescópios possuem sensibilidade para captar fótons com energia entre 50
GeV e 30 TeV (50 gigaelétron-volts e 30 teraelétron-volts).
No mesmo Monte Hopkins foi instalado um sucessor do Whipple, o projeto VERITAS
168
(Very Energetic Radiation Imaging Telescope Array System), com quatro antenas de 12
m de diâmetro, separadas aproximadamente 100 m entre si, com maior sensibilidade
para raios gama com energia entre 100 GeV e 10 TeV (100 gigaelétron-volts a 10
teraelétron--volts). Os telescópios podem ser apontados para qualquer direção do céu. O
VERITAS iniciou suas operações em 2005 e com plena capacidade a partir de 2007 (ver
Figura 128).
Em 2012, começou a operar na Namíbia com capacidade total o telescópio HESS (High

Figura 128 - Vista geral do detector Cherenkov VERITAS. Fonte: Wikimedia Commons.
Energy Stereoscopic System), acrônimo que homenageia Victor Hess, o descobridor dos
raios cósmicos. O HESS é um conjunto de quatro telescópios refletores, com espelhos
múltiplos, de 12 m de diâmetro, distanciados 120 m uns dos outros, além de mais um
telescópio central, com 28 m de diâmetro. O HESS iniciou suas operações parcialmente
em 2002. Em 2014 ele já havia descoberto 160 fontes de raios gama com energia na
casa de 1 TeV.
O maior projeto deste tipo, que deve revolucionar as pesquisas na área, é o CTA
(Cherenkov Telescope Array), que prevê a construção de dois observatórios, um em
cada hemisfério (ver figura 129). No Norte será utilizado o Observatório Roque de los
Muchachos, nas Ilhas Canárias, onde já opera o MAGIC; no Sul, o local será o entorno
do Cerro Paranal, ao lado do VLT e do futuro ELT (que veremos mais à frente). Cada
um dos observatórios contará com nada menos que 99 telescópios refletores, sendo
quatro com 23 m de diâmetro, 25 com 12 m de diâmetro e 70 com 4 m de diâmetro.
Esses 99 instrumentos estarão distribuídos em uma área com aproximadamente 2 km de
diâmetro. Os detectores possuirão sensibilidade para captar sinais entre 20 GeV e 300
TeV. Do projeto participam nada menos que 31 países, inclusive o Brasil. Prevê-se que as
primeiras operações se iniciem em 2022 e que a construção total se complete em 2025.
No início de 2021, quando este livro foi escrito, havia certo temor de que a pandemia de
Covid-19 pudesse adiar esses planos.
A astronomia de altas energias tem se desenvolvido bastante nas últimas décadas,
o número de fontes conhecidas aumentou significativamente e grandes descobertas
foram feitas na área. Tudo indica que esses avanços em pesquisa devam se manter nos
próximos anos, seja pela construção dos dois observatórios do CTA, seja pelo lançamento
de novos satélites. Muitas dúvidas que temos sobre eventos de alta carga energética
deverão ser esclarecidas.

169
Figura 129 - Desenho esquemático da distribuição dos telescópios de três tamanhos do Cherenkov
Telescope Array. Desenho: Francisco Conte.

170
Capítulo 12
Novas janelas na astronomia
Como pode ser percebido através de tudo que vimos até aqui, a astronomia é uma
ciência que se desenvolveu através da observação da radiação eletromagnética que
recebemos do Sol, das estrelas, planetas, cometas, nebulosas e demais objetos celestes,
na maior parte da história observando apenas a luz visível, mas depois também através
das ondas de rádio, infravermelho etc. Quase todo o conhecimento astronômico foi obtido
através da observação e análise das ondas eletromagnéticas.
Até o início do século XX, a única outra fonte de informação e conhecimento da
astronomia além da luz era o estudo de meteoritos. Estes objetos que atingem com
frequência o nosso planeta fornecem muitos dados importantes que nos ajudam
a compreender a formação e evolução do sistema solar e mesmo do nosso planeta.
Depois das sondas que visitaram diversos corpos do sistema solar, descobrimos vários
meteoritos que eram provenientes da Lua e de Marte, pois as características destes
meteoritos eram equivalentes a amostras colhidas na Lua ou analisadas por landers em
Marte. No caso dos meteoritos lunares, foi possível comparar as características destes
com as amostras coletadas e trazidas pelas naves do programa Apolo, bem como com
amostras também trazidas por sondas, não tripuladas, da antiga União Soviética. O caso
dos meteoritos marcianos é ainda mais interessante, pois alguns deles acabaram por
encapsular pequenas porções da atmosfera marciana na época em que algum objeto
colidiu com o planeta e ejetou uma grande quantidade de rochas de superfície para o
espaço. Essas rochas ficaram vagando até que algumas delas acabaram por cair em
nosso planeta. São as únicas amostras de Marte que existem à disposição dos cientistas,
posto que nenhuma missão ao planeta vermelho retornou ou enviou amostras para a
Terra.
No ano de 1996, o presidente americano Bill Clinton chamou uma entrevista coletiva
onde anunciou a possível descoberta de indícios de uma forma ancestral de vida
extraterrestre a partir de um meteorito marciano descoberto em 1984 na Antártida e
batizado como ALH 84001. Estudos
feitos pela equipe de astrobiologia,
liderada por David McKay, encontraram
estruturas que se assemelhavam muito
a bactérias, embora de dimensões
muito menores que as existentes na
Terra (ver figura 130). Não houve
grande aceitação da hipótese por
parte da comunidade científica, com
muitas instituições ao redor do mundo
apontando problemas nas conclusões
do estudo. A controvérsia se mantém
até os dias de hoje, e o meteorito ainda Figura 130 - O meteorito ALH 84001, que supostamente
apresentaria evidências de vida ancestral em Marte,
é estudado por diferentes equipes, embora nunca tenha havido consenso sobre o fato na
gerando uma série de publicações. comunidade científica. Fonte: Wikimedia Commons.
171
Não existe consenso e os astrônomos continuam a buscar uma evidência definitiva da
existência de vida fora da Terra.
Porém, a partir do início do século passado, começamos a encontrar novas formas de
obter informações e dados astronômicos, seja através de partículas que atingem o nosso
planeta, seja, mais recentemente, por um tipo diferente de ondas, cuja existência era
prevista pela relatividade de Einstein. Assim, aos poucos os astrônomos foram capazes
de desenvolver uma nova forma de astronomia, através dos estudos dos raios cósmicos,
dos neutrinos e das ondas gravitacionais. A seguir detalharemos um pouco cada um
desses novos meios de obtenção de dados:

Raios cósmicos
Enquanto você lê este texto, seu corpo está sendo bombardeado: a cada segundo
ele é atravessado por dezenas de partículas invasoras, sem que você se dê conta.
Essas partículas são criadas por raios cósmicos de alta energia, provenientes de regiões
distantes do espaço, que colidem com núcleos atômicos de gases da nossa atmosfera,
produzindo uma cascata de radiação e partículas em profusão. Cada evento desses
pode produzir até algumas centenas de bilhões de partículas, que vão atingir o solo.
Muitas, como vimos, atingem você, leitor.
Após a descoberta da radioatividade
por Becquerel em 1896, muitos
cientistas acreditavam que a ionização
atmosférica (eletricidade atmosférica)
seria causada pela radiação proveniente
de elementos radioativos existentes no
solo. Surpreendentemente, as primeiras
tentativas de medição da ionização
pareciam indicar um aumento da taxa
de ionização proporcional ao aumento
da altitude. Em 1909, o padre jesuíta e
físico holandês Theodor Wulf realizou
uma experiência com um eletrômetro
selado. Ele fez medições na base e no Figura 131 - Domenico Pacini, um dos pioneiros do
topo da Torre Eiffel, encontrando níveis estudo de raios cósmicos, realizando medições. Fonte:
maiores de ionização no topo. Em 1911, Wikimedia Commons.
Domenico Pacini realizou experiência similar em um lago, com medidas na superfície e
depois a três metros de profundidade. Ele encontrou um nível de radiação menor embaixo
d’água e concluiu que deveriam existir outras fontes de radiação além daquela produzida
por elementos radioativos no subsolo (ver figura 131). Mas esses trabalhos não tinham
despertado muito interesse no meio científico.
Em 1912, Victor Hess fez uma série de medições utilizando três eletrômetros em um
balão. Hess chegou até a altitude de 5.200 m, encontrando um nível de radiação quase
quatro vezes maior do que aquele observado na superfície. Hess imaginou que essa
radiação fosse proveniente do Sol, mas repetiu a experiência durante um eclipse do Sol,

172
com a radiação solar quase totalmente
bloqueada pela Lua, e as medições
indicavam praticamente o mesmo nível
de ionização obtido em condições
normais. Durante suas experiências,
Hess foi fazendo o registro de suas
medições ao mesmo tempo em que o
balão subia, de modo a poder estimar
qual era a taxa de aumento de radiação
em cada trecho (ver figura 132). Sua
conclusão foi que deveria existir uma
radiação penetrante que se originava
acima de nossa atmosfera. Nos
anos seguintes, Werner Kolhörster
confirmou os resultados obtidos por
Hess, conseguindo fazer medições até
a altitude de 9.000 m. Em 1936 Hess
ganhou o Nobel de Física por seu
trabalho.
Em 1927, o físico holandês Jacob
Clay, que regressava para sua casa
em Delft depois de passar um período
no Instituto de Tecnologia de Bandung,
na Indonésia, decidiu acrescentar à Figura 132 - Victor Hess em seu balão, pouco antes de
fazer um voo para medição de raios cósmicos. Fonte:
sua viagem de retorno um propósito Wikimedia Commons.
científico: durante o trajeto do cruzeiro
ele foi sistematicamente registrando o nível da radiação cósmica em vários pontos de seu
itinerário. Como resultado, ele percebeu que o fluxo variava com a latitude, aumentando
a incidência conforme se afastava do Equador. Corretamente, Clay interpretou que a
radiação estava sendo defletida para o espaço pelo campo magnético da Terra, o que
indicava que essa radiação deveria ser causada por partículas carregadas e não por
fótons.
A partir da década de 1930 a pesquisa em raios cósmicos passou a seguir duas
direções distintas: a primeira consistia em descobrir que tipos de partículas constituíam
os raios cósmicos e qual a sua origem; a outra se empenhava em usar a elevadíssima
energia dos raios cósmicos para bombardear átomos e moléculas de maneira a buscar o
entendimento da constituição básica da matéria, da mesma forma que em um acelerador
de partículas. Nos anos 1940 foi descoberta a primeira partícula observada através da
decomposição atômica causada por raios cósmicos: o pósitron, a antipartícula do elétron.
Em 1938, o físico francês Pierre Auger descobriu que o impacto de um raio cósmico
contra os gases de nossa atmosfera produz uma cascata de partículas. A experiência que
Auger realizou foi feita em Paris e em Jungfraujoch, nos Alpes. O trabalho consistia em
utilizar detectores do tipo contador Geiger para observar raios cósmicos. Auger utilizava
dois contadores e, quando havia concordância de sinal entre ambos, ele considerava

173
que havia capturado um evento de decomposição a partir de raios cósmicos. Após os
primeiros sucessos, Auger passou a utilizar um terceiro detector, que era posicionado
mais distante que o par original. Auger conseguiu observar a correlação em um evento,
mesmo com o terceiro detector situado a uma distância de 300 metros. Isso indicava
que eventos com uma origem comum poderiam se espalhar espacialmente através de
uma cascata de reações entre partículas. Esse fenômeno foi batizado por Auger como
“chuveiro aéreo extenso”. Hoje sabemos que os chuveiros de partículas podem atingir
dezenas ou centenas de quilômetros quadrados.
No Brasil, o estudo de raios cósmicos teve início em 1934, com a produção de
trabalhos em dois centros diferentes de pesquisa: no Instituto Nacional de Tecnologia, no
Rio de Janeiro, sob a coordenação do físico alemão Bernhard Gross, e em São Paulo,
na Universidade de São Paulo, com a coordenação de dois professores estrangeiros, o
ítalo-russo Gleb Wataghin e o italiano Giuseppe Occhialini.
Em 1939, o grupo formado por Gleb Wataghin, Marcello Damy e Paulus Pompéia
descobriu um novo tipo de chuveiro, com partículas com uma capacidade extremamente
elevada de penetração da matéria, muitas vezes mais eficientes que os raios X. Mais
tarde descobriu-se que essas partículas eram múons. Uma das etapas do experimento
foi realizada no túnel da Avenida Nove de Julho, em São Paulo.
Nos anos 1940, o físico brasileiro César Lattes, trabalhando em conjunto com
Occhialini e Cecil Powell, descobriu o méson pi, ou píon, estudando raios cósmicos em
Cerro Chacaltaya, na Bolívia. Lattes, que posteriormente, em 1948, conseguiu produzir o
píon também em um acelerador de partículas, foi também o responsável pelo cálculo da
massa da nova partícula.
Hoje sabemos que raios cósmicos são partículas, basicamente fragmentos atômicos
de processos energéticos, normalmente prótons (núcleos de hidrogênio que representam
aproximadamente 84% dos casos observados), partículas alfa, ou núcleos de hélio, que
representam aproximadamente 14%, além de outros núcleos atômicos (cerca de 1%) e
elétrons e pósitrons (elétrons com carga positiva), com cerca de 1% do total de eventos.
Todas essas partículas se deslocam a velocidades relativísticas e possuem uma energia
que pode variar incrivelmente, como veremos mais à frente. Os raios cósmicos menos
energéticos ficam na casa de 109 eV (elétron-volts). Para se ter uma ideia do que isso
significa, basta imaginar que essa é uma energia aproximadamente similar à de um
próton em repouso.
O fato de os raios cósmicos serem partículas eletromagneticamente carregadas faz
com que sofram forte influência de campos magnéticos, o que os diferencia dos fótons,
as partículas responsáveis pela propagação das radiações do espectro eletromagnético,
que não possuem carga elétrica. Essa característica torna particularmente complexo o
trabalho de identificação das fontes.
Na atualidade, o termo “vento solar” é usado por convenção entre os cientistas para
definir os raios cósmicos provenientes do Sol, e o termo “raios cósmicos” apenas para as
partículas que tiveram sua origem fora do sistema solar, não importando se a origem é
galáctica ou extragaláctica. Existe uma clara diferença no comportamento dos dois tipos:
O vento solar é muito mais frequente e representa a maioria das partículas que atingem a
174
Terra, embora essas partículas sejam quase todas de baixa energia; já os raios cósmicos
são menos numerosos, mas são a maioria entre as partículas de alta energia.
Existem inúmeros tipos de instrumentos utilizados nas pesquisas de raios cósmicos,
que podem ser divididos em três grupos, de acordo com os métodos adotados. O
primeiro grupo é o dos chamados métodos de tempo real, que fazem observações
instantâneas das partículas e suas interações, gerando informações acerca da direção,
energia e composição química das partículas. O segundo tipo é denominado método de
trilha residual, onde a passagem da partícula através de algum tipo de material pode ser
observada algum tempo após a ocorrência do evento, o que pode significar de horas a
milhões de anos. Por último, temos os métodos indiretos, onde o fluxo de raios cósmicos
pode ser detectado a grandes distâncias, ou em grandes intervalos de tempo no passado,
estudando-se as consequências de sua presença (ver figura 133).

Figura 133 - A figura mostra várias formas de detecção de raios cósmicos: telescópios Cherenkov; medição
por luz fluorescente; medição por cintilação; detectores de rastreamento; medição de múons de alta e baixa
energia. Desenho: Francisco Conte.

Entre os detectores do grupo dos métodos de tempo real encontramos os eletrômetros


utilizados por Victor Hess e os contadores Geiger, que utilizam correntes elétricas criadas
pela passagem das partículas. Dois tipos muito usados atualmente são os detectores de
cintilação e os detectores Cherenkov. Os detectores de cintilação normalmente utilizam
folhas de plástico translúcidas que detectam as partículas produzidas em um chuveiro. As
175
partículas colidem com a superfície da folha de plástico, removendo elétrons e ionizando
algumas moléculas. Elétrons das proximidades vão ser capturados por essas moléculas,
emitindo fótons no processo. Esses fótons são capturados por fotomultiplicadores, que
detectam os flashes de luz. O material utilizado precisa ser transparente para permitir
o funcionamento do sistema. Como exemplo de um detector de cintilação temos o
experimento de Volcano Ranch, instalado no Novo México em 1959. Detectores Cherenkov
observam a radiação produzida por partículas que se movem com velocidade superior à
da da luz na atmosfera, lembrando sempre que essa velocidade sempre será menor que
a velocidade da luz no vácuo.
Na categoria de detectores do tipo trilha residual, podemos citar aqueles que utilizam
emulsões fotográficas, como os empregados por César Lates em Cerro Chacaltaya.
Existem também neste grupo os chamados ionization damage detectors, normalmente
construídos com material plástico com moléculas relativamente complexas. As partículas
ionizantes danificam a estrutura das moléculas. O grau de dano dos detectores vai permitir
que se façam estimativas da massa e da energia dos raios cósmicos, assim como sua
carga e velocidade, mesmo que as medições sejam feitas posteriormente.
Por último, temos os métodos indiretos. Raios cósmicos podem ser observados em
rádio. Quando as partículas colidem com a alta atmosfera terrestre, produzem emissões
de baixa frequência que podem ser detectadas por radiotelescópios. Outro método
indireto é o do carbono 14. O carbono 14 é produzido na atmosfera por nêutrons criados
em chuveiros de raios cósmicos, e assim a abundância de carbono 14 na atmosfera é
diretamente ligada à frequência e intensidade de raios cósmicos. O carbono 14 tem uma
meia-vida relativamente curta, de 5.730 anos, e sem a presença dos raios cósmicos
teria desaparecido da Terra, ou existiria em baixíssimas quantidades. Alguns tipos de
telescópios de raios gama que observam a radiação Cherenkov, que veremos mais
detalhadamente em outro capítulo, também são capazes de observar raios cósmicos.
No dia 7 de agosto de 1962 (por coincidência, exatos 50 anos do experimento no
balão de Victor Hess), o detector de raios cósmicos de Volcano Ranch, nas proximidades
de Albuquerque, Novo México, um arranjo de 20 detectores de cintilação instalados no
solo, cobrindo uma área de aproximadamente 9 km2, capturou um raio cósmico com uma
energia estimada em 1020 eV, muito acima de qualquer medição realizada até então e o
primeiro evento de raios cósmicos de altíssima energia a ser detectado. A razão de energia
entre esse evento e os raios cósmicos de baixa energia está na casa de cem bilhões de
vezes. Para um evento como esse detectado em Volcano Ranch, podemos dizer que a
colisão de apenas 1 miligrama dessas partículas contra a Terra seria equivalente a um
objeto com a massa do Monte Everest colidindo a 200 mil km/h.
Uma característica marcante dos raios cósmicos é que a sua energia é proporcional à
quantidade de eventos, sendo os mais fracos extremamente comuns e os mais violentos
extremamente raros. A proporção encontrada é que para um aumento de dez vezes na
energia, existe uma queda de mil vezes na quantidade de raios cósmicos coletados.
Assim, esperamos que ocorram raios cósmicos de baixa energia em uma taxa de 10 mil
eventos por metro quadrado por segundo, ao passo que para os de extremamente alta
energia (acima de 1019 eV) a taxa é de um evento por quilômetro quadrado por século,

176
o que exige a construção de detectores de dimensões gigantescas para aumentar a
possibilidade de observação desses eventos mais energéticos
Um dos grandes problemas da pesquisa de raios cósmicos é a explicação sobre as
origens dos raios cósmicos de alta energia, pois não conhecemos uma causa plausível
para eventos tão energéticos. Muitos pesquisadores acreditavam que até uma energia
em torno de 1016 eV a causa estaria ligada à explosão do tipo supernova, fazendo com
que eventos ainda mais energéticos ficassem sem uma explicação adequada. Devido
à expansão do universo, raios cósmicos tenderiam a perder parte de sua energia com
a distância, fenômeno similar ao que observamos com objetos distantes através das
frequências do espectro eletromagnético. Então, os raios cósmicos com energia superior a
1018 eV deveriam ser produzidos por fontes relativamente próximas, não mais distantes do
que 150 milhões de anos-luz. O problema é que, mesmo que dentro desse raio tenhamos
boa parte do aglomerado de galáxias da Virgem, não são observados fenômenos de alta
energia, como quasares, capazes de emitir prótons com energia compatível com os mais
energéticos fenômenos observados.
Em 15 de outubro de 1991, o detector de Fly’s Eye, no estado americano de Utah,
detectou a mais energética chuva provocada por um raio cósmico. A partícula que ficou
conhecida como Oh my god particle tinha uma energia estimada em 3,2 (± 0,9) x 1020 eV,
o que representa 20 milhões de vezes mais que a maior energia captada por radiação
eletromagnética. Se admitirmos que a partícula teria provavelmente a massa de um
próton, estaria se movendo a 99,99999999999999999999951% da velocidade da luz.
Esses raios cósmicos de energia muito alta são conhecidos por zévatrons.
No início dos anos 2000, uma grande colaboração internacional, que hoje conta com
instituições de 17 países (Argentina, Brasil, Colômbia, México, Estados Unidos, Austrália,
Portugal, França, Alemanha, Holanda, República Tcheca, Romênia, Eslovênia, Bélgica,
Polônia, Espanha e Itália) iniciou a construção do Observatório Pierre Auger, na Argentina,
nas cercanias da cidade de Malargüe, na província de Mendoza, aos pés da Cordilheira
dos Andes, a uma altitude de 1.300 m. O Pierre Auger é um observatório híbrido, pois
emprega dois tipos de detectores diferentes. Os do primeiro tipo são instalados em
tanques de água no solo e os outros são acoplados a telescópios que observam a radiação
ultravioleta emitida nas reações da colisão do raio cósmico com a atmosfera terrestre.
Os detectores de superfície totalizam 1,6 mil tanques, cada um com 3 m de diâmetro
e 1,20 m de altura, que comportam 12 mil litros de água. Os tanques estão distribuídos
em um arranjo que cobre uma área de 3 mil km², com os tanques afastados entre si
pela distância de 1,5 km. Dentro de cada um desses tanques é instalado um conjunto
de fotomultiplicadores que detectam a radiação Cherenkov provocada pela colisão das
partículas do chuveiro com a água dos detectores. Os tanques operam automaticamente,
utilizando a energia de painéis solares instalados diretamente sobre eles, e estão todos
ligados ao edifício do observatório através de um sistema similar ao da telefonia celular.
Para um evento ser considerado válido, o chuveiro deve ser captado por no mínimo três
tanques. A análise da quantidade de eventos em cada tanque ajuda a determinar o centro
do chuveiro, assim como a entender a direção original do raio cósmico captado (ver figura
134).

177
Figura 134 - A ilustração mostra o esquema de funcionamento do Observatório Pierre Auger, que tem
um sistema híbrido, com detectores de superfície e estações de monitoramento por cintilação. Desenho:
Francisco Conte.
Os detectores ópticos ficam em quatro estações diferentes, instaladas nos limites do
conjunto de tanques, voltados para o interior, de maneira a observar o chuveiro de partículas.
Cada estação possui um total de seis telescópios e cada um deles é basicamente um
telescópio óptico, otimizado para observação em radiação ultravioleta. Esses telescópios
têm um conjunto de pequenos espelhos que formam um conjunto óptico com cerca de
3,70 m de diâmetro. A luz captada por cada conjunto óptico é refletida para um grupo
de 440 fotomultiplicadores, que convertem a luz em sinal elétrico e conseguem captar
emissões de luz de curtíssima duração. A sensibilidade de cada um dos telescópios
corresponde à capacidade de observar uma lâmpada de 4 W, a 15 km de distância. O
sistema, no entanto, funciona apenas em noites de céu limpo, sem nuvens.
O observatório começou a operar em 2003, antes mesmo de sua conclusão, e teve
a construção completada em 2005. Assim que passou a funcionar já era considerado o
mais importante observatório de raios cósmicos em operação. A combinação dos dois
tipos de detectores permitiu observações muito mais completas, tanto de direção como
de intensidade das partículas, embora os detectores ópticos só operem à noite. Existe a
previsão para a construção de um conjunto similar, embora de maiores dimensões, a ser
instalado no hemisfério norte, no estado americano do Colorado.

178
Os primeiros resultados obtidos pelo Observatório Pierre Auger pareciam indicar com
grande concordância que os raios cósmicos de altíssima energia seriam originários de
núcleos ativos de galáxias. Mas, com o passar do tempo e com um número muito maior
de observações realizadas, essa concordância desapareceu, e o problema se encontra
em aberto, embora muitos estudos estejam sendo feitos nessa área.
No hemisfério norte existe atualmente outro observatório híbrido em operação,
embora com uma capacidade inferior à do Pierre Auger: o Telescope Array Project, uma
colaboração entre instituições dos Estados Unidos, Japão, Bélgica, Coreia do Sul e
Rússia. Instalado em uma altitude de 1.400 m, em um deserto próximo a Millard County,
Utah, o Telescope Array é formado por 507 detectores plásticos de cintilação na superfície,
espalhados por uma área de 762 km². De maneira similar ao Observatório Pierre Auger,
o Telescope Array possui três estações com telescópios ópticos, cada uma com um
telescópio formado a partir de um arranjo de 18 pequenos espelhos hexagonais, cada um
dos quais envia a luz ultravioleta captada para um conjunto de 256 fotomultiplicadores.
No dia 7 de agosto de 2012, exatos cem anos após o primeiro experimento de Vitor
Hess em um balão, a nave Mars Science Laboratory, um rover que acabara de pousar na
superfície de Marte, utilizou um instrumento para medir a intensidade de raios cósmicos
na superfície, o primeiro a operar em outro planeta. Os resultados obtidos pela sonda
indicaram que os riscos de uma missão tripulada a Marte eram muito maiores do que
estimado anteriormente. Se considerarmos que a Voyager 2 realizou medições na
frequência de raios cósmicos e do vento solar até a heliopausa, podemos considerar que
nossos telescópios que chegaram mais longe da Terra são detectores de raios cósmicos.

Neutrinos
Se você ficou chocado com o bombardeio de partículas dos raios cósmicos, vai ficar
muito mais impressionado com o bombardeio de neutrinos: a cada segundo a unha do
seu dedão é atravessada por aproximadamente 65 bilhões de neutrinos vindos do Sol,
não importando se é noite ou dia. Neutrinos são partículas de baixíssima interação com
a matéria, podendo atravessar nosso planeta com extrema facilidade.
A existência dos neutrinos foi prevista. Wolfgang Pauli escreveu uma carta em 1930,
para ser lida em uma conferência em Tübingen, Alemanha, em que afirmava que deveria
existir uma partícula com carga neutra, possivelmente sem massa e que explicasse a
diferença de energia observada em reações do tipo decaimento beta. Desde 1914 os
físicos conheciam o decaimento beta e não tinham como explicar um fato perturbador:
quando ele ocorria, um elétron era emitido pelo núcleo atômico, mas quando se fazia o
balanço energético da reação a energia do elétron somada à do núcleo recém-criado era
ligeiramente menor que a do núcleo original. Por mais que a experiência fosse repetida
a discrepância continuava a aparecer e nenhuma explicação razoável aparecia. Chegou-
se a cogitar que um fóton de raios gama pudesse estar também sendo emitido, mas
experimentos realizados em 1927 comprovaram que não era esse o caso. Essa diferença
contrariava o princípio da conservação de energia, um dos pilares da física moderna.
Em 1932, na Inglaterra, James Chadwick descobriu o nêutron, mas logo ficou claro que
não era a partícula que Pauli havia proposto, pois tinha uma massa muito grande, similar

179
à do próton. Demorariam algumas décadas para que a desesperada proposta de Pauli
fosse confirmada. O nome neutrino foi proposto por Enrico Fermi, que usou o termo pela
primeira vez em uma conferência em Paris em 1932. Neutrino em italiano significaria algo
como um nêutron pequeno.
A primeira detecção da partícula ocorreu em 1956, por uma equipe composta por Clyde
Cowan, Frederick Reines, F. Harrison, H. Kruse e A. McGuire (ver figura 135). A equipe
instalou seu detector nas proximidades da usina atômica de Savannah River, na Carolina
do Sul. O trabalho recebeu o Nobel de Física de 1995. Em 1965 foi feita a primeira
detecção de um neutrino na natureza, em uma mina de ouro na África do Sul, onde foi
instalado um detector por uma equipe de cientistas liderada por Friedel Sellschop. Em
1962, Leon Lederman, em colaboração com Melvin Schwartz e Jack Steinberger realizou
uma importante experiência que comprovou a existência de que neutrinos poderiam ser
de tipos diferentes, com a detecção do primeiro neutrino do múon. Pelo trabalho o grupo
recebeu o Nobel de 1988.

Figura 135 - Primeira detecção de um neutrino. Fonte: Wikimedia Commons.

A dificuldade em detectar um neutrino é imensa, e só é possível porque são


extremamente abundantes. Para entender como é difícil a sua interação com a matéria,
vamos imaginar um grupo com dez neutrinos de energia mediana sendo arremessados
contra uma parede de chumbo com um ano-luz de espessura (9,5 trilhões de quilômetros)
e constatar que quase todos, ou todos, vão conseguir atravessar a barreira sem maiores
problemas.
180
Além dos neutrinos solares, mencionados no início deste capítulo, nosso corpo é
atingido por cerca de 50 bilhões de neutrinos por segundo causados pela radioatividade
natural da Terra e por 10 bilhões a 100 bilhões de neutrinos por segundo produzidos
por usinas atômicas ao redor do mundo, de acordo com a sua localização. Mas somos
produtores de neutrinos também. Em nosso corpo vamos encontrar aproximadamente
20 mg de potássio 40, um elemento radioativo, uma quantidade que produz cerca de 10
milhões de neutrinos a cada hora.
A partir de meados dos anos 1950, vários experimentos de detecção de neutrinos vão
ser criados em todo o mundo, divididos em dois tipos principais: os que trabalham em
conjunto com usinas nucleares e os que se dedicam à pesquisa de fontes astronômicas.
Neste capítulo vamos nos dedicar apenas aos detectores astronômicos.
Em 1970 começou a funcionar o experimento de Homestake, instalado na mina de ouro
de Homestake, localizada em Lead, Dakota do Sul. O instrumento era um grande tanque
de 380 m3, instalado a uma profundidade de 1.478 m abaixo do solo, para evitar partículas
provenientes de raios cósmicos (ver figura 136). O experimento era um detector químico:
o tanque era completado com percloroetileno, uma substância normalmente utilizada em
procedimentos de limpeza. A substância é rica em cloro. Quando um neutrino interage com

Figura 136 - Detector de neutrinos instalado na mina de Homestake. Fonte: Wikimedia Commons.

181
o percloroetileno, o cloro 37 se transforma em argônio 37, uma substância radioativa que
pode ser facilmente extraída do tanque. Após um período de tempo, o interior do tanque
era examinado e a quantidade de argônio permitia a indicação de quantos neutrinos
haviam interagido com o detector durante o período de estudo. O tanque de Homestake
continha 1030 átomos de cloro (o número um seguido de trinta zeros) e ao longo dos
quase 30 anos de funcionamento do experimento foram capturados aproximadamente 2
mil átomos de argônio, embora fossem esperados 7 mil.
As medições do detector de Homestake causaram grande alvoroço na comunidade
científica, pois o número de interações de neutrinos observadas era muito menor que
o previsto teoricamente. Esse fato ficou conhecido como o problema do neutrino solar
e acabou por despertar o interesse de vários pesquisadores e a criação de novos
experimentos na tentativa de solucionar a discrepância. Homestake continuou em
operação até o ano de 1994.
Em 1982, no Japão, na mina de Kamioka, foi construído um novo tipo de detector
que utilizava um grande tanque de água cilíndrico, de água purificada, medindo 16 m de
altura e 15,6 m de diâmetro. Nas paredes internas do tanque foi instalada uma série de
fotomultiplicadores, que conseguiam observar o efeito Cherenkov a partir do decaimento
de prótons. O experimento funcionou até 1985, sem conseguir obter resultados positivos.
Em 1985 o instrumento foi reformado e passou a ser chamado de Kamiokande, uma
contração de Kamioka Nucleon Decay Experiment. O instrumento foi o primeiro a detectar
neutrinos provenientes do Sol. Em outro desdobramento conseguiu identificar neutrinos
produzidos na superfície terrestre.
O trabalho mais surpreendente realizado no instrumento ocorreu em 22 de fevereiro
de 1987, quando o detector conseguiu captar neutrinos da Supernova 1987A1, localizada
na Grande Nuvem de Magalhães, a 160 mil anos-luz de distância da Terra. O evento
deve ter produzido o incrível número de 1058 neutrinos (um seguido de cinquenta e oito
zeros), dos quais cerca de 1016 atravessaram o tanque de Kamioka. Destes, 12 foram
capturados. Um feito incrível.
Essa detecção confirmava uma previsão teórica muito importante chamada Processo
Urca, proposta em 1940 pelo físico brasileiro Mário Schenberg e pelo americano nascido
na Ucrânia George Gamow. Schenberg e Gamow perceberam que no núcleo de uma
estrela que estivesse se transformando em uma supernova ocorreria uma reação
dominante, em que os núcleos atômicos perderiam energia com a absorção de um elétron
e com a emissão de um neutrino e um antineutrino. Esse processo faria com que a estrela
perdesse grande parte de sua energia térmica, fazendo todo o sistema entrar em colapso.
O bem-humorado nome Processo Urca veio da semelhança entre uma estrela perdendo
rapidamente sua energia térmica e um turista que perdia rapidamente o seu dinheiro no
Cassino da Urca, no Rio de Janeiro.
A Itália construiu um detector que usava uma técnica similar à do Homestake, mas
utilizando como reagente o gálio tricloride-hidrocloride. Instalado no interior da Montanha
de Gran Sasso, em 1991, e batizado de GALLEX, ele tinha um tanque de 101 toneladas
do reagente. O detector operou até 1997 com essa designação, mas foi reformado e
rebatizado como GNO (Gallium Neutrino Observatory), continuando em operação até
o ano de 2003. Em 2007 começou a funcionar no mesmo local o detector Borexino, um
cintilador com um tanque de 16,9 m de altura e 18 m de largura.
182
Outro experimento foi construído
em uma mina de níquel em Sudbury,
na província de Ontário, Canadá.
O detector foi instalado a uma
profundidade de 2.100 m. Seu detector
é um tanque esférico, geodésico, com
um raio de 8,5 m, preenchido por água
pesada, cujas moléculas têm um átomo
de oxigênio, um átomo de hidrogênio e
um átomo de deutério (um hidrogênio
com um nêutron). O detector de Sudbury
era muito mais complexo do que seus
antecessores e possibilitava inclusive
que se descobrisse a direção da origem
dos neutrinos, tornando possível a
análise separada daqueles que eram
provenientes do Sol (ver figura 137). A
água pesada permitia a ocorrência de
três tipos diferentes de interação com
os neutrinos.
A primeira interação ocorre quando
o neutrino é absorvido pelo nêutron
do deutério, transformando-se em um
próton e criando um elétron no processo.
O próton produzido não tem energia
Figura 137 - Detector de Sudbury, experimento que tinha
suficiente para ser detectado, mas os a capacidade de observar neutrinos provenientes do Sol.
elétrons produzidos são emitidos em Fonte: Creative Commons.
várias direções, mas primordialmente
na direção do movimento do neutrino. Este processo é conhecido como condução
carregada.
O segundo tipo de interação é chamado de corrente neutra, e no processo o neutrino
dissocia o deutério, separando o próton do nêutron, sem ser absorvido, mas perde parte
de sua energia. Quando o nêutron é novamente capturado por um próton, constituindo
um deutério, um fóton de raio gama é produzido. A direção em que esse raio gama
é expelido nada tem em comum com a direção do neutrino que iniciou o processo. O
raio gama acaba colidindo com um elétron, que é acelerado no processo, produzindo
radiação Cherenkov. A terceira interação era idêntica àquela observada no detector de
água comum de Kamioka.
O detector de Sudbury conseguia detectar um segundo tipo de neutrino, o neutrino do
múon (até aquele momento todos os detectores capturavam neutrinos do elétron). Essa
foi a chave para solucionar o problema do neutrino solar descoberto em Homestake.
Uma equipe encabeçada por Arthur McDonald publicou em 2001 um trabalho que
demonstrava claras evidências de que os neutrinos oscilavam, quer dizer, um neutrino
do elétron podia se transformar espontaneamente em um neutrino do múon, confirmando

183
uma hipótese teórica do físico Bruno Pontecorvo. Essa oscilação implicava em que os
neutrinos possuíam massa, sendo o múon mais pesado que o elétron. Por esse trabalho
McDonald recebeu o Nobel de 2015.
Em 1996 começa a operar um novo detector japonês na mina de Mozumi, a 1.000 m
de profundidade: o Super-Kamiokande, um tanque de água com 40 m de altura e 39,3 m
de diâmetro, com um total de 11.146 tubos fotomultiplicadores, cada um com 50 cm de
diâmetro e 1,83 m de comprimento. Em 12 de novembro de 2001 ocorreu um acidente
no detector. Aparentemente, um dos fotomultiplicadores arrebentou e a movimentação da
água no tanque produziu uma reação em cadeia em que 6.600 dos tubos fotomultiplicadores
foram destruídos. O detector foi aos poucos reconstruído e alterado, buscando evitar a
repetição de eventos desse tipo. Entre os principais resultados do Super-Kamiokande
está a observação da oscilação de neutrinos do múon para neutrinos do tau, em 1998.
Entre os novos detectores de neutrinos devemos destacar o ANTARES, instalado no
fundo do Mar Mediterrâneo, a 2.500 m de profundidade, que começou a operar em 2008.
Ele conta com 75 módulos de detecção óptica, cada um com 350 m de comprimento,
que monitoram o efeito Cherenkov criado a partir do decaimento de partículas na água.
Outro projeto incrível é o Ice Cube, instalado próximo ao Polo Sul, na Antártida, com 60
módulos de detecção óptica, que funcionam entre as profundidades de 1.450 m e 2.450
m, observando os eventos no gelo transparente do polo. O Ice Cube foi concluído no ano
de 2010 (ver figura 138).

Figura 138 - Vista das instalações do detector de neutrinos Ice Cube, localizado quase exatamente no Polo
Sul. O detector propriamente dito é todo subterrâneo. Fonte: Creative Commons.
Entre os principais desafios de pesquisa para esses novos detectores está a interação
de observações de neutrinos e GRBs (gamma-ray bursts) em observatórios de raios
gama. Outras frentes importantes são as pesquisas que nos permitirão descobrir a
natureza intrínseca da matéria escura (falaremos dela em detalhes em um capítulo
posterior) e as observações cosmológicas: hoje nossas observações mais profundas de
qualquer tipo são da radiação cósmica de fundo de micro-ondas, que ocorreu cerca de
300 mil anos depois do Big Bang; com os neutrinos, seria possível observar o universo
com poucos minutos de idade. A procura pelo decaimento do próton – uma pesquisa que
ainda perdura – e o estudo de neutrinos solares e de supernovas também continuarão
sendo importantes. São muitos os desafios de pesquisa ligados a essas partículas de
detecção tão difícil.

184
No dia 22 de setembro de 2017, o IceCube detectou um neutrino do múon extremamente
energético, com energia de 290 TeV. O evento recebeu o nome de IceCube-170922A.
Pouco tempo depois o satélite Fermi detectou uma fonte de raios gama na mesma região,
dentro da constelação do Orion. A fonte foi identificada como o Blazar TXS 0506+056. Em
seguida, o evento foi observado no infravermelho, no rádio, no espectro visível e em raios
X. O blazar se tornou a terceira fonte de neutrinos associada a um objeto astronômico,
além do Sol e da Supernova 1987A. O evento é um dos primeiros de uma nova era da
astronomia que comentaremos no final do capítulo.

Ondas gravitacionais
Previstas como uma consequência da relatividade geral de Einstein, as ondas
gravitacionais foram estudadas por décadas como objetos teóricos. A partir dos anos
1960 começaram a ser construídos experimentos na tentativa de obter uma detecção
que confirmasse as predições. Um dos primeiros trabalhos no setor foi feito por Joseph
Weber, na Universidade de Maryland. Seus instrumentos, hoje conhecidos como Weber
bars (barras de Weber), eram cilindros de alumínio com dois metros de comprimento por
um metro de diâmetro. Ele chegou a afirmar em 1969 que havia conseguido detectar
as primeiras ondas gravitacionais, e a partir de 1970 relatou que estava regularmente
detectando sinais provindos do centro de nossa galáxia. No entanto, suas afirmações
não foram confirmadas e na prática demorou muito tempo para que tivéssemos a certeza
de uma comprovação.
Ainda nas décadas de 1960 e 1970, várias outras equipes pelo mundo realizaram
experimentos dedicados à descoberta de ondas gravitacionais. Os primeiros detectores
eram do tipo antena de massa ressonante, como as Weber bars, e tinham como princípio
a detecção de pequenas vibrações causadas por ondas gravitacionais.
Em 1974, Russell Alan Hulse e Joseph Hooton Taylor descobriram o primeiro pulsar
binário. A taxa de desaceleração da rotação do par se ajustava precisamente à existência
de ondas gravitacionais, e durante décadas essa foi a prova indireta mais contundente de
sua existência. Por essa descoberta, a dupla recebeu o Nobel de Física em 1993.
Nos anos 1970 e 1980, na União Soviética, o professor Vladimir Braginsky, da
Universidade de Moscou, construiu um aparato que media pequenas oscilações em uma
safira cilíndrica com 500 kg de peso. A escolha da safira foi feita porque esse mineral tem
a tendência a continuar vibrando por mais tempo que a maioria dos outros materiais. Um
dos problemas com o experimento é que a temperaturas muito baixas, necessárias para
a diminuição do ruído, a safira tende a se comportar como um supercondutor, afetando
as observações.
Durante a década de 1990 vários projetos mais avançados foram instalados pelo mundo,
notadamente os seguintes: AURIGA (em Pádua, Itália), NAUTILUS (Roma), EXPLORER
(pertencente ao CERN, Suíça), ALLEGRO (Louisiana, EUA) e NIOBE (Perth, Austrália).
Esses experimentos aliavam um desenho mais refinado de antena a processos criogênicos
avançados, destinados a manter o detector a baixíssimas temperaturas, de maneira a
aumentar as chances de captar as ondas gravitacionais. Embora eventualmente um ou
outro grupo chegasse a anunciar uma detecção, a verdade é que, apesar de todos os
esforços, ainda não havia ocorrido um evento definitivo, e este ainda demoraria a ocorrer.
185
No início do século XXI duas equipes desenvolveram um trabalho conjunto, na
Holanda, com a antena MiniGrail, e no Brasil, com a antena Mário Schenberg: duas
antenas idênticas, esféricas, com 65 cm de diâmetro e 1,15 tonelada de peso. Os dois
experimentos continuam a funcionar, com a antena holandesa na Universidade de Leiden
e a Mário Schenberg tendo sido transferida recentemente do Instituto de Física da USP
(Universidade de São Paulo), em São Paulo, para a cidade de São José dos Campos,
onde é operada pela USP e pelo INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais).
A partir de finais dos anos 1960, outro tipo de detector de ondas gravitacionais começou
a ser planejado, utilizando a técnica de interferometria. Em 1980 foi construído no Caltech
(California Institute of Technology) um protótipo com dois braços de 40 m de comprimento.
Na mesma época, um estudo do MIT (Massachusetts Institute of Technology) apontava
que a detecção seria possível, porém em uma escala muito maior, com pelo menos 1 km
de comprimento.
No final dos anos 1990 começou a ser construído o LIGO (Laser Interferometer
Gravitational-Wave Observatory). Iniciando suas atividades em 2002, o LIGO na verdade
é constituído por dois observatórios idênticos, um instalado em Hanford, no estado de
Washington (ver figura 139) e o outro na cidade de Livingston, estado da Louisiana (ver
figura 140), distantes 3.030 km um do outro. Cada observatório tem dois túneis de 4 km
de comprimento, formando um ângulo de 90º, por onde são lançados feixes de lasers
que são refletidos em um espelho e retornam ao ponto inicial, devendo atingir o centro
ao mesmo tempo. As ondas gravitacionais podem eventualmente influir no braço de uma
direção e não no outro, fazendo com que os sinais retornem com uma ligeira diferença. O
efeito é muito pequeno e exige uma imensa precisão para ser detectado.

Figura 139 - Vista aérea aproximada de um dos braços do detector LIGO localizado em Hanford, estado de
Washington. Fonte: Creative Commons.
186
No ano seguinte, 2003, na vila de Santo
Stefano a Macerata, região de Pisa, na Itália,
começou a operar o VIRGO (nome dado
em referência ao aglomerado de galáxias
da constelação de Virgo), um instrumento
similar ao LIGO, mas com os dois braços
ligeiramente menores, com 3 km cada (ver
figura 141). O VIRGO e o LIGO passaram
a trabalhar integrados. Mesmo assim, nos
primeiros anos ainda nenhuma detecção
havia ocorrido.
Figura 140 - Vista aérea do LIGO de Livingston,
Alguns projetos similares porém de estado da Louisiana. Cortesia: Caltech/MIT/LIGO
menor escala surgiram, como o GEO600, da Laboratory.
Alemanha, instalado na cidade de Hannover,
com dois braços de 600 m de comprimento,
e o TAMA 300, no Japão, operado pela
Universidade de Tóquio, com dois braços de
300 m.
Entre 2008 e 2015, foi realizada uma
extensa reforma no LIGO, que ampliou em
muito a resolução do detector. O VIRGO
passou por processo semelhante entre 2011
e 2016.
Finalmente, em 15 de setembro de 2015, o
LIGO conseguiu realizar a primeira detecção Figura 141 - Vista aérea do detector VIRGO,
de ondas gravitacionais. O evento observado localizado na Itália. Fonte: Creative Commons.
foi a fusão de um sistema binário de buracos
negros, um deles com 36 e o outro com 29 massas solares. O evento detectado durou
meros 0,2 segundos e a distância do sistema até a Terra é de cerca de 410 milhões de
parsecs, ou 1,4 bilhão de anos-luz. O evento foi batizado de GW150914 (ver figura 142).
O detector captou o momento final da fusão: os dois buracos negros estão muito
próximos e giram em torno um do outro em uma velocidade muito alta, próxima da
velocidade da luz. O sistema produz, dessa forma, uma intensa variação no campo
gravitacional, devido ao movimento dos objetos. Quando próximo da fusão o movimento
acelera violentamente, à medida que os dois corpos se aproximam, e cessa de maneira
brusca quando os dois finalmente se fundem. Na aproximação final, cerca de 3 massas
solares são irradiadas na forma de ondas gravitacionais. O montante de energia emitido
no evento é estimado em 3,6 x 1049 watts. Para entendermos o que isso significa, é
aproximadamente 50 vezes mais energia do que a emitida por todas as estrelas do
universo observável no mesmo período de tempo.
Uma colisão de buracos negros só pode ser observada através de ondas gravitacionais.
O VIRGO, na época da detecção, estava ainda na fase final de suas reformas e inoperante.
Outros detectores de ondas gravitacionais, como o GEO600, não tinham sensibilidade

187
suficiente para capturar o sinal. De qualquer forma, os procedimentos adotados pelas
equipes dos dois observatórios do LIGO tinha um grau de confiança da ordem de
99,99994%. Nos anos que se seguiram, o novo VIRGO ficou pronto. Outras detecções
foram feitas pelos três detectores, entre elas uma ainda mais energética, entre dois
buracos negros com 50,6 e 34,3 massas solares, em 29 de julho de 2017. Mas faltava
alguma coisa.

Figura 142 - Gráficos que mostram a primeira detecção de ondas gravitacionais pelos observatórios do
LIGO. Fonte: Creative Commons.

Então aconteceu. Em 17 de agosto de 2017, um sinal que durou por cerca de 100
segundos. O primeiro a detectá-lo foi o VIRGO. Após 22 milissegundos, o mesmo sinal
foi captado pelo LIGO de Livingston. Mais 3 milissegundos e também o LIGO Hartford
conseguiu a detecção. As características e a intensidade do sinal pareciam indicar a fusão
de duas estrelas de nêutrons. A duração do sinal permitiu que se fizesse uma estimativa
da região do céu em que o evento havia ocorrido. Agora ele se chamava GW 170817.

188
Apenas dois segundos após a detecção em ondas gravitacionais, o satélite de raios
gama Swift captou o evento na forma de um GRB. Instantaneamente o evento foi também
batizado como GRB 170817A. Em apenas 14 segundos estava sendo emitido um alerta,
que foi recebido pela comunidade astronômica muito antes daquele emitido pelos
detectores de ondas gravitacionais. O primeiro observatório baseado em terra a captar
o evento foi o Swope Telescope, em Cerro Las Campanas, Chile, com uma imagem
em infravermelho. Em um intervalo de apenas 90 minutos, outros cinco telescópios
conseguiram observar o objeto, incluindo o VISTA, em Cerro Paranal, e o Victor Blanco,
em Cerro Tololo, utilizando a câmera DECam. Posteriormente o objeto foi observado em
raios X pelo Telescópio Espacial Chandra e em rádio pelo Very Large Array, no Novo
México. Dois anos depois o Hubble Space Telescope captou os restos da explosão. O
objeto ainda é observado em raios X pelo Chandra. Infelizmente, não foram observados
neutrinos pelo Ice Cube ou pelo Pierre Auger.
Essa detecção pode ser a primeira de uma nova era, em que seja possível observar
um evento astronômico em todas as faixas do espectro eletromagnético, em ondas
gravitacionais e neutrinos, permitindo uma análise e compreensão dos fenômenos em um
nível nunca antes alcançado. Um número enorme de trabalhos científicos sobre o evento
foi publicado (aproximadamente cem), com coautoria de mais de 4 mil astrônomos. A
diferença de tempo entre o sinal captado pelos detectores de ondas gravitacionais e
pelos detectores de raios gama permitiu aos físicos teóricos refinar a diferença entre
as velocidades das ondas do espectro eletromagnético e das ondas gravitacionais em
14 ordens de magnitude (14 algarismos depois da vírgula). Além disso, as observações
realizadas pelos diversos observatórios permitiram, por exemplo, detectar átomos de
vários elementos pesados produzidos na explosão, estimar a energia liberada em raios
gama e, graças aos observatórios de ondas gravitacionais, fazer uma estimativa muito
próxima da massa das duas estrelas de nêutrons (aproximadamente, 1,6 e 1,2 massas
solares). Outra detecção de fusão de estrelas de nêutrons, confirmada por observações
em raios gama, ocorreu em 25 de abril de 2019.
O VIRGO e o LIGO continuam trabalhando e fazendo literalmente dezenas de novas
detecções, o que vai tornando o processo cada vez mais corriqueiro. Em 2017, Kip Thorne,
Rainer Weiss e Barry Barish ganharam o Prêmio Nobel de Física por seus trabalhos na
área das ondas gravitacionais. Novos projetos para a área incluem o lançamento de um
interferômetro de ondas gravitacionais no espaço, que poderia ampliar enormemente a
sensibilidade das detecções. É uma área da astronomia que promete muitos avanços e
descobertas nos próximos anos.
A astronomia está entrando em uma nova era, que chamamos de “multi-messenger
astronomy”, astronomia de multimensageiros ou astronomia multimensageira, em que
detecções de neutrinos ou ondas gravitacionais são complementadas por observações
em vários comprimentos de onda, permitindo uma compreensão muito mais ampla dos
fenômenos. A detecção da colisão de duas estrelas de nêutrons em agosto de 2017 e a
do Ice Cube de setembro de 2017 são pioneiras nesse segmento.

189
Capítulo 13
Radioastronomia na virada do milênio
A radioastronomia havia passado por um rápido desenvolvimento, principalmente a
partir do pós-guerra. Em poucas décadas vimos o surgimento de instrumentos cada vez
maiores e mais potentes e o surgimento de técnicas avançadas como a interferometria.
No período que se inicia após o término dos anos 1970, pudemos presenciar o surgimento
de vários projetos interessantes, principalmente em faixas das ondas de rádio até então
pouco exploradas, como as ondas milimétricas e submilimétricas e também com ondas
longas. A seguir veremos alguns dos projetos mais importantes.
Ainda em meados da década de 1980 começa a ser construído no platô de Bure,
França, a 2.550 m de altitude, um interferômetro com seis antenas, cada uma com 15
m de diâmetro, trabalhando na faixa milimétrica e submilimétrica. A construção terminou
em 1988 e o instrumento foi um dos primeiros observatórios de grande porte a realizar
observações nessa faixa do espectro eletromagnético.
Em 1992, os astrônomos Aleksander Wolszczan e Dale Frail, trabalhando no
observatório de Arecibo, descobriram que em torno do pulsar PSR B1257+12 orbitavam
dois planetas. O primeiro tinha 3,4 e o outro 2,8 massas da Terra. Era a primeira detecção
de planetas fora do Sistema Solar – uma notícia pela qual os astrônomos esperavam havia
décadas. A descoberta, no entanto, não pôs fim ao debate sobre a existência de planetas
orbitando outras estrelas, pois era possível que os dois planetas tivessem se formado
na nuvem de detritos gerada pela supernova, ou que se tratasse de um sistema binário
de estrelas e que após a explosão da supernova a atmosfera externa da companheira
tivesse sido arrancada e o material resultante tivesse se transformado em um planeta,
ou ainda que essa perda de massa da estrela companheira tivesse ocorrido devido à
radiação emitida pelo pulsar.
Em 1995 a Índia completa a construção de um grande interferômetro, oficialmente
batizado de Giant Metrewave Radio Telescope (GMRT), composto por 30 antenas com 45
m de diâmetro cada, localizado nas proximidades de Narayangaon. O observatório opera
apenas com a observação de ondas de grande comprimento, de 21 cm a 6 m. Devido
a essa característica, o perfil parabólico das antenas é composto por uma tela muito
vazada, consequentemente muito leve. Cada uma das antenas pesa aproximadamente
120 toneladas, em contraste com as 235 toneladas de cada uma das antenas do VLA,
que têm diâmetro muito menor (25 m). O conjunto possui uma grande área de coleta,
equivalente à de uma antena de 250 m de diâmetro. Por essas características, o GMRT
normalmente trabalha na pesquisa de fontes muito fracas, como pulsares distantes e
radio galáxias, que estariam acima da capacidade de observação de equipamentos de
menor porte (ver figura 143).
Na mesma época os Estados Unidos estavam investindo num projeto bastante ousado:
a construção de um interferômetro de longa base, o VLBA (Very Large Baseline Array),
que contava com dez antenas de 25 m de diâmetro, localizadas no Mauna Kea (Havaí),
em Hancock (New Hampshire, no nordeste dos EUA) e em St. Croix (Ilhas Virgens). Sua
linha de base tinha 8.611 km. O instrumento era capaz de realizar observações com
grande resolução angular, da ordem de milissegundos de arco. O conjunto regularmente
190
Figura 143 - Uma das 30 antenas de 45 m de diâmetro do GMRT (Giant Metrewave Radio Telescope).
Fonte: Creative Commons.
trabalhava em parceria com outros radiotelescópios,
formando o High-Sensitivity Array (HSA), que incluía
ainda o grande radiotelescópio de Green Bank, o
gigante radiotelescópio de Arecibo, em Porto Rico,
o Very Large Array e o radiotelescópio de Effelsberg,
na Alemanha. O HSA possuía uma área de coleta
sensivelmente maior que o VLBA, conseguindo
também montar imagens com maior resolução
angular, cujo limite era de 0,15 milissegundos de
arco, quando trabalhava com ondas de 7 cm de
comprimento (ver figura 144) Esse tipo de arranjo,
entre telescópios localizados a grandes distâncias, é
o que se convenciona chamar de VLBI (very-long-
-baseline interferometry), ou seja, interferometria de
longa linha de base.
Figura 144 - Comparativo de imagens obtidas pelo VLA e pelo
VLBA, com o último podendo atingir a incrível resolução de 0,15
milissegundos de arco. Fonte: Wikimedia Commons.

191
Do outro lado do Atlântico foi criada a EVN (European VLBI Network), um consórcio
de instituições de vários países, principalmente europeus, mas também da China, África
do Sul e Porto Rico (Arecibo). Entre os membros europeus estava o Reino Unido, com
todos os radiotelescópios do sítio de Jodrell Bank, a Holanda (com o interferômetro de
Westerbork, com 12 antenas de 25 m), a Itália (Sardenha, Medicina e Noto), a Alemanha
(Effelsberg e Wettzel), a Rússia (Zelenchukskaya, Badary e Svetloe), a Suécia, a Espanha,
a Letônia, a Polônia e a Finlândia. A partir de 2004 todos os observatórios passaram a ser
ligados por conexões de fibras ópticas, e o grupo foi rebatizado como e-EVN.
No início dos anos 1980 começam a funcionar os primeiros radiotelescópios, que
vão operar na faixa das ondas milimétricas e submilimétricas, uma região do espectro
eletromagnético que se situa quase no limite entre o infravermelho e as ondas de rádio.
Um dos primeiros instrumentos de porte a iniciar suas operações foi o telescópio IRAM
30m (Institute for Radio Astronomy in the Millimeter Range), instalado a 2.850 m de
altitude na Sierra Nevada, Espanha.
Em 1985, no topo do Mauna Kea,
no Havaí, onde já operavam alguns
telescópios ópticos, foi construído
o CSO (Caltech Submillimeter
Observatory), um radiotelescópio com
10,4 m de diâmetro, que trabalhava na
faixa das ondas milimétricas. Apenas
dois anos depois começou a operar
no mesmo local, a poucos metros
de distância, o JCMT (James Clerk
Maxwell Telescope), batizado em honra
ao matemático e físico escocês, que
realizou um trabalho definitivo sobre a Figura 145 - O grupo de telescópios de ondas milimétricas
radiação eletromagnética. Com 15 m de e submilimétricas do Mauna Kea. Abaixo, à esquerda,
diâmetro, o radiotelescópio realizou os vemos o CSO, recentemente desativado; acima, à
primeiros trabalhos de interferometria esquerda, o JCMT e ao fundo, à direita, as antenas do
na faixa das ondas milimétricas e SMA (Submilimeter Array). Foto: Francisco Conte.
submilimétricas em conjunto com o CSO e continua em atividade nos dias de hoje.
Infelizmente, o CSO foi desativado no ano de 2015. Tanto o CSO quanto o JCMT possuem
uma aparência que lembra mais a de um telescópio óptico que de um radiotelescópio,
pois ambos são protegidos por uma cúpula giratória que se abre quando o instrumento
está trabalhando (ver figura 145).
Em 1993, começa a operar no estado do Arizona, no topo do Monte Graham, a 3.200
m de altitude, o HHT (Heinrich Hertz Telescope), com uma antena parabólica de 10 m de
diâmetro. Ele lembra muito em conceito tanto o CSO como o JCMT, trabalhando também
na faixa de ondas milimétricas e submilimétricas.
Em 1997, o Japão lança o primeiro satélite espacial dedicado à radioastronomia.
Com uma antena de 8 m de diâmetro, o HALCA (Highly Advanced Laboratory for
Communications and Astronomy) foi projetado para trabalhar em conjunto com telescópios

192
em terra do tipo VLBI. Outro nome para o projeto era VSOP (VLBI Space Observatory
Programme). A nave seguia uma órbita bastante elíptica, com perigeu a 560 km e apogeu
a 21.400 km. O satélite continuou a realizar operações de VLBI até 2003, encerrando-as
definitivamente em 2005. Entre seus trabalhos, fez observações em masers e pulsares,
conseguiu produzir franjas de interferência com telescópios de base terrestre do quasar
PKS1519-273 e realizou rotineiramente imagens em VLBI de quasares e radiogaláxias.
No ano de 2000 começa a operar o
radiotelescópio de 100 m de diâmetro
do Observatório de Green Bank,
nos Estados Unidos. Essa antena
de desenho inovador, que permite a
captação de ondas de rádio em toda a
extensão do disco parabólico, passou a
ser, desde então, o maior radiotelescópio
totalmente direcionável do mundo (ver
figura 146). Ele foi construído para
substituir o 300 Foot Telescope, que
havia colapsado e se transformado
em uma pilha de sucata na década de
1980. Logo em seus primeiros anos
de operação o radiotelescópio de
100 m descobriu três pulsares na faixa
de milissegundos, no aglomerado
globular Messier 62, e a mais massiva
estrela de nêutrons conhecida. Figura 146 - O novo radiotelescópio de 100 m de diâmetro
de Green Bank. Fonte: Creative Commons.
Em 2004, foi instalado ao lado do
CSO e do JCMT, no topo do Mauna Kea, a 4.080 m de altitude, o SMA (Submillimeter
Array), um conjunto de oito antenas de 6 m de diâmetro. As antenas são móveis e podem
criar uma linha de base de até 509 m, que podia ser estendida para mais de 700 m
quando trabalhava em conjunto com o CSO e JCMT (ver figura 145, na página anterior).
Aqui no Brasil, além do radiotelescópio de Itapetinga, em 2003 foi construído um
interferômetro composto de cinco antenas parabólicas de 4 m de diâmetro em São
José dos Campos, operado pelo INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) e
financiado pela FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo).
Em 2004 o conjunto foi transportado para a cidade de Cachoeira Paulista. Além disso,
em 2010 foram acrescentadas ao instrumento mais nove antenas e feita uma linha de
base no sentido Norte-Sul com 14 elementos e 166 m de comprimento e 12 antenas no
sentido Leste-Oeste, com uma linha de base de 252 m. Existe um projeto para ampliar
o número de antenas para 38, com uma linha de base de 2,27 km no sentido Leste-
Oeste e 1,17 km no sentido Norte-Sul, mas essa nova fase de ampliação ainda não foi
iniciada. O instrumento é conhecido como Brazilian Decimetric Array. Poucos anos antes,
o INPE iniciou a operação de um radiotelescópio do tipo antena parabólica, com 14,2 m
de diâmetro, na cidade de Eusébio, Ceará. O Radio-Observatório Espacial do Nordeste
começou a funcionar no ano de 1993, dedicando-se a trabalhos de VLBI.

193
No século XXI, presenciamos a instalação de um radiotelescópio em um dos mais
inóspitos pontos do planeta, localizado a poucos metros do Polo Sul, a uma altitude
de 2.800 m. Trata-se de um excelente sítio astronômico, onde a extremamente limpa
camada de atmosfera que recobre o observatório é praticamente isenta de vapor de
água por causa das baixíssimas temperaturas, o que influi muito favoravelmente em
observações feitas na faixa milimétrica. O principal instrumento instalado no local é o
South Pole Telescope (SPT), operado por um consórcio de instituições, em sua maioria
norte-americanas. Sua antena parabólica tem um diâmetro de 10 m e é totalmente
direcionável. O telescópio trabalha em ondas de rádio padrão, mas também em ondas
milimétricas e submilimétricas. O SPT iniciou suas atividades em 2007.
O maior projeto na área de radioastronomia do mundo, no início do século XXI, foi o
ALMA (Atacama Large Millimeter Array), um consórcio firmado entre o ESO (European
Southern Observatory), a NSF (National Science Foundation), o Conselho de Ciências do
Canadá, os Institutos Nacionais de Ciências Naturais do Japão e a Academia Sinica de
Taiwan, além do governo da República do Chile, onde o projeto foi instalado. Em 2004,
foi instalada no mesmo local do ALMA a APEX (Atacama Pathfinder Experiment), uma
antena com um disco parabólico com 12 m de diâmetro, para testar as condições de
observação (ver figura 147).

Figura 147 - A antena APEX, instalada em Cerro Chajnantor, no Chile. Foto: Francisco Conte.

O sítio do ALMA é um dos melhores do mundo: o platô de Chajnantor, próximo de


San Pedro de Atacama, a 5.060 m acima do nível do mar, no deserto mais seco do
mundo, garante condições excepcionais de observação. O ALMA é um interferômetro
composto por 66 antenas, sendo 12 antenas de 7 m de diâmetro e 54 antenas de 12 m

194
de diâmetro (ver figura 148). O ESO construiu 25 antenas, os americanos outras 25 e os
países asiáticos as restantes 16. O conjunto trabalha na faixa de ondas milimétricas e
submilimétricas e possui uma resolução angular de 10 milissegundos, dez vezes melhor
que o VLA e cinco vezes melhor que o Hubble Space Telescope, mas fica abaixo dos
interferômetros de VLBI e dos interferômetros ópticos.

Figura 148 - As três primeiras antenas prontas do ALMA, ao lado do prédio de operações do observatório,
poucos dias antes de serem levadas ao Llano de Chajnantor. Foto: Francisco Conte.
O ALMA iniciou suas operações em 2011 e logo em seus primeiros trabalhos conseguiu
obter vários resultados surpreendentes. Sua primeira imagem científica mostrava maciças
concentrações de gás em áreas de colisão de galáxias, material para a formação de
futuras estrelas. Outro trabalho, realizado com apenas quatro de suas antenas, mostrou
um disco de poeira e gases em torno da estrela Fomalhaut. Ele observou ainda uma
surpreendente estrutura espiral no material que orbitava R Sculptoris, uma estrela gigante
vermelha, e encontrou moléculas de açúcar no gás que circundava uma jovem estrela
semelhante ao nosso Sol.
No ano de 2007 começa a operar o ATA (Allen Telescope Array), um conjunto de 42
antenas com 6,1 m de diâmetro, instalado no Hat Creek Radio Observatory, em Shasta
County, Norte da Califórnia. O interferômetro é dedicado a observações astronômicas e
também ao programa SETI, de busca de sinais de civilizações extraterrestres.
Em 2010, termina a construção do observatório com a maior antena parabólica
direcionável do mundo para observação de ondas milimétricas e submilimétricas, o Large
Millimeter Telescope (LMT), com 50 m de diâmetro. Instalado no topo da Sierra Negra,

195
a quinta mais alta montanha do México, a 4.850 m de altitude, é um dos mais altos
observatórios do mundo. O LMT é uma parceria binacional, operada pelo Instituto Nacional
de Astrofísica, Óptica y Electrónica (INAOE) e pela Universidade de Massachusetts
Amherst.
Em 2011 entrou em funcionamento o segundo radiotelescópio instalado em um satélite
espacial, o Spektr-R, operado pela Rússia. Com uma antena de 10 m de diâmetro,
ele apresenta uma órbita altamente elíptica, com um perigeu a 10.651,6 km e apogeu
a 338.541,5 km (mais distante que a Lua). Assim como seu antecessor, o HALCA, o
Spektr-R foi projetado para operar em conjunto com telescópios terrestres em trabalhos
do tipo VLBI. A órbita adotada pelo satélite permitia linhas de base muito extensas, tendo
como resultado uma altíssima definição de imagens. O Spektr-R trabalhou em conjunto
com observatórios e interferômetros de vários países, mantendo-se em operação até
janeiro de 2019.
Um projeto inovador iniciou suas atividades em 2012, o LOFAR (Low Frequency Array),
composto por mais de 20 mil pequenas antenas distribuídas em pelo menos 48 estações
diferentes, a maior parte delas situadas na Holanda, mas com instalações complementares
na Alemanha, Suécia, França, Grã-Bretanha, Irlanda, Polônia, Itália e Finlândia. A área
total de captação de sinais é de aproximadamente 300.000 m². O telescópio funciona
como uma rede coletora de sinais, que não são combinados em tempo real. Os sinais
captados são digitalizados e enviados para um computador central, que utiliza um software
que simula o funcionamento de uma antena convencional. Algumas das aplicações do
LOFAR podem abrir caminho para a solução de problemas da astronomia atual, como a
origem dos raios cósmicos de altíssima energia ou a busca por evidências de emissão da
linha de hidrogênio neutro no início do universo, entre outros.
Em 2012 começa a operar na Austrália o projeto ASKAP (Australian Square Kilometre
Array Pathfinder), um potente arranjo de radiotelescópios com 36 antenas idênticas
de 12 m de diâmetro, que operam em uma larga faixa de frequências. O ASKAP é
um demonstrador tecnológico do que vai ser o SKA, que veremos mais à frente neste
capítulo. O ASKAP enfrentou um grande desafio tecnológico por utilizar um sistema
de arranjo faseado de antenas, nunca testado anteriormente em astronomia: todas as
antenas possuem um conjunto de detectores, que podem receber até 36 feixes de ondas
de direções diferentes ao mesmo tempo. A captação desses sinais por cada detector
em cada antena é direcionada eletronicamente a partir do controle de um computador
central. Este coordena detectores específicos de cada uma das antenas, para que sejam
recebidos simultaneamente os sinais de uma dada região do céu, calculando o atraso
necessário para que todas as antenas captem os sinais em fase. Esse processo faz com
que os dados sejam captados muito mais rapidamente que em interferômetros comuns,
que observam um único objeto por vez. Em novembro de 2020 essa capacidade foi
demonstrada de maneira inquestionável quando o ASKAP conseguiu produzir um
mapeamento com 3 milhões de galáxias distantes em apenas 300 horas de observação,
trabalho que poderia durar mais de dez anos em arranjos tradicionais de radiotelescópios.
Após 53 anos, o mundo viu entrar em operação um radiotelescópio com uma antena
maior que a de Arecibo. A China começou a operar em 2016 o gigantesco FAST (Five-

196
hundred-meter Aperture Spherical Telescope), construído na depressão de Dawodang,
na região de Ghizhou, no sudoeste do país. A antena tem um diâmetro de 500 m, com
uma área mais de duas vezes e meia maior que a de Arecibo. O conjunto ainda é menor
que a área ocupada pelo Ratan-600, que vimos no capítulo 5.
Ainda assim, falando do ponto
de vista operacional, não existiu
grande avanço em relação à
antena de Porto Rico. O perfil
do radiotelescópio chinês na
verdade não é realmente esférico.
Além disso, seus detectores não
conseguem captar toda a radiação
refletida pela gigantesca antena:
na verdade, eles captam apenas
a radiação de uma área esférica
com diâmetro de 300 m, isto
para inclinações de até 26,56º;
quando o aparelho aponta para
o ângulo máximo de observação,
que é de 60º, a área de radiação
captada cai para cerca de 200 m
de diâmetro. Nessas áreas em
que os detectores conseguem Figura 149 - Desenho comparativo entre o FAST e o
radiotelescópio de Arecibo. A antena do FAST é muito maior, mas
coletar a radiação celeste, o perfil o observatório coleta a radiação de apenas uma parte da antena
da antena é parabólico. Assim, o (em azul), muito similar à capacidade de Arecibo. O telescópio
nome do telescópio é bastante pode, no entanto, observar uma área muito mais ampla do céu
inapropriado: o telescópio não é do que a antena de Porto Rico, como ilustra a parte inferior da
na verdade esférico, nem tem uma figura. Desenho: Francisco Conte.
abertura de 500 m. De qualquer maneira, é um instrumento muito poderoso, com uma
capacidade de coleta de radiação levemente superior à que o telescópio de Arecibo tinha,
mas que consegue observar uma faixa muito maior do céu e acompanhar fontes muito
fracas por muito mais tempo (ver figura 149). Prova de que se trata de um instrumento
de altíssima capacidade é que em 2018 ele já havia descoberto 44 pulsares. Além disso,
mesmo durante a pandemia, em julho de 2020, o telescópio se tornou o primeiro a
conseguir detectar hidrogênio neutro em fontes fora da Via Láctea.
Entre os projetos para futuros radiotelescópios existe o LLAMA (Large Latin American
Millimeter Array), uma antena de 12 m de diâmetro destinada a trabalhar na faixa de
milímetros e submilímetros, que está sendo construída pelo Brasil e pela Argentina, nos
Andes argentinos. Uma das principais utilidades da antena seria trabalhar em conjunto
com o ALMA, aumentando em muito a resolução das imagens. Outro projeto interessante
é a possível construção de uma nova estação do projeto LOFAR em Nançay, França, que
aumentaria consideravelmente a capacidade do observatório.
O maior projeto para construção de instrumentos em radioastronomia no momento é o
SKA (Square Kilometre Array). O projeto está sendo planejado para ser realizado em duas
fases. A primeira fase corresponde à implantação de um conjunto de radiotelescópios na
197
Austrália e na África do Sul. Quando completado, o SKA combinará o sinal de milhares de
antenas, com uma área de coleta de radiação de 1 km2, ou 1.000.000 m², o que o tornará
o mais poderoso radiotelescópio do mundo. O instrumento poderia trabalhar em uma
ampla faixa do espectro eletromagnético. O projeto engloba a participação dos seguintes
países: Austrália, África do Sul, Canadá, China, Alemanha, Índia, Itália, Portugal, Nova
Zelândia, Portugal, Espanha, Suécia, Suíça, Holanda e Reino Unido. A segunda fase prevê
a adição de mais antenas, fazendo com que o SKA se torne 50 vezes mais sensível e 10
mil vezes mais rápido que qualquer outro radiotelescópio ou interferômetro do planeta.
Em 2014, uma equipe do ALMA conseguiu produzir uma imagem de um disco de gás
e poeira em torno da estrela HL Tauri, a primeira imagem de um sistema planetário em
formação em torno de uma estrela. Em 2018, outra campanha de observação também
realizada no ALMA resultou em 20 imagens similares em outras estrelas. O trabalho
representa um salto na resolução das imagens de sistemas planetários em formação
e contribui sensivelmente para o entendimento do processo de formação de planetas,
confirmando parcialmente alguns dos modelos propostos.
O trabalho mais importante da radioastronomia neste início de século foi o Event Horizon
Telescope (EHT). O EHT foi um consórcio de vários observatórios de ondas milimétricas
que realizou um projeto conjunto na tentativa de obter a primeira imagem de um buraco
negro. Não exatamente de um buraco negro, mas da matéria que é absorvida por um buraco
negro. O projeto englobava a participação dos seguintes telescópios e interferômetros: o
ALMA e a antena APEX em Cerro Chajnantor; o Heinrich Hess Submillimeter Telescope,
no Monte Graham; o IRAM 30m Telescope na Espanha; o James Clerk Maxwell Telescope
e o Submillimeter Array, em
Mauna Kea; o Large Millimeter
Telescope, no México, e o South
Pole Telescope, no Polo Sul, nada
menos que 60 instituições de 20
países diferentes. No dia 10 de
abril de 2019, através de seis
conferências simultâneas, o grupo
anunciava que tinha conseguido
obter a primeira imagem direta
de um buraco negro, no caso
um buraco negro supermassivo
localizado no centro da galáxia
M87, uma gigante elíptica. Os
resultados do trabalho foram
divulgados em seis artigos
publicados no The Astrophysical
Journal Letters. Foi um dos
maiores feitos da astronomia
dos últimos anos, uma grande
realização técnica e observacional Figura 150 - Um dos grandes feitos da astronomia na virada do
(ver figura 150). Além disso, a milênio, a obtenção da imagem de um buraco negro pelo projeto
imagem servia como um teste Event Horizon. Fonte: Wikimedia Commons.

198
em condições extremas para a teoria da relatividade geral de Einstein, evidenciando
uma grande coincidência entre as previsões teóricas e as observações. Estas serviram
também para aprimorar os dados sobre o tamanho incrível (270 UA) e a enorme massa
(6,5 ± 0,7 bilhões de massas solares) do buraco negro de M87. A imagem obtida exigiu
uma quantidade imensa de dados coletados em todos os observatórios, e quatro equipes
diferentes trabalharam a partir deles no processo de criá-la. Em abril de 2020 o EHT
divulgou imagens de um quasar, 3C279, a partir de dados coletados em quatro noites de
observação em abril de 2017. O grupo vai continuar a trabalhar em colaboração, tanto
para observar novos objetos, como para aumentar a resolução das imagens já obtidas.
Como nota triste, temos a desativação do radiotelescópio de Arecibo. Após dois colapsos
parciais da estrutura, a NSF (National Science Foundation) comunicou a desativação do
observatório em novembro de 2020. No dia 2 de dezembro de 2020 a plataforma suspensa
com os detectores teve parte de seus cabos cortados intencionalmente e colapsou sobre
a antena, dando início ao processo de demolição do instrumento.
A radioastronomia tem conseguido grandes resultados, como o do Event Horizon
Telescope, que têm atestado a importância dos trabalhos compartilhados por vários
observatórios. Ao mesmo tempo, novos projetos demonstram que é uma área com
grandes expectativas de descobertas nos próximos anos.

199
Capítulo 14
Telescópios ópticos na virada do milênio
A virada do milênio marcou um período de desenvolvimento sem paralelos na história dos
telescópios. Entre 1992 e 2002 foram criados nada menos que onze telescópios maiores
que qualquer outro construído até então. Nunca se havia visto tamanha proliferação
de instrumentos de grande porte em tão pouco tempo. Apesar do desenvolvimento da
astronomia em novos comprimentos de onda do espectro eletromagnético e de novos
meios de pesquisa como neutrinos, raios cósmicos e ondas gravitacionais, a astronomia
no visível ainda é o centro da pesquisa astronômica, com a maior quantidade de fontes
catalogadas e o maior número de pesquisadores e instrumentos de pesquisa. Em grande
parte, isso ocorre pelas facilidades que a astronomia da faixa visível proporciona, como
sítios bons e acessíveis e instrumentos com custos mais baixos de construção e operação.
Antes de falarmos do VLT, vamos voltar ao passado. Em dezembro de 1920, o
físico Albert Michelson, auxiliado pelo astrônomo Francis Pease, instalou um aparato
no telescópio Hooker do Monte Wilson, o maior do mundo na época, e fez funcionar o
primeiro interferômetro astronômico da história (ver figuras 151 e 152). Esse aparato
utilizava um sistema de espelhos planos móveis, que podiam ser ajustados durante uma
observação. Com o instrumento não era possível obter imagens dos objetos astronômicos,
mas a dupla conseguiu estimar o diâmetro da estrela Betelgeuse com boa precisão. Entre
1963 e 1974, na Austrália, o físico Robert Hanbury Brown, utilizando um interferômetro
óptico, conseguiu estimar o diâmetro angular de 32 estrelas. Mas esses eram exemplos
isolados e a interferometria só passou a ser utilizada regularmente com o avanço da
radioastronomia, como vimos anteriormente.
O VLT (Very Large Telescope), já mencionado no capítulo anterior, provavelmente o
projeto mais importante do período, é composto por um conjunto de quatro telescópios
com 8,20 m de diâmetro e mais quatro telescópios em instalações móveis, com 1,80 m de

Figuras 151 e 152 - À esquerda vemos o esquema


óptico do interferômetro instalado por Michelson no
telescópio Hooker no Monte Wilson; à direita vemos
um modelo em escala do aparato construído por
Michelson para o interferômetro do Monte Wilson.
Desenho e foto: Francisco Conte.

200
diâmetro cada, que tanto podem funcionar separadamente como em conjunto, através de
interferometria. Esse é um projeto muito audacioso por se tratar de interferometria óptica,
que tem operação muito mais complexa que aquela em rádio (ver figura 153). Um dos
problemas da interferometria no visível é que as ondas possuem um comprimento muito
menor que no rádio e, além disso, no rádio os sinais são captados na forma de sinais
elétricos, o que simplifica terrivelmente o processo. Na interferometria óptica, a luz de
cada telescópio deve ser combinada com a luz proveniente dos outros. Para tanto, são
utilizadas complexas tubulações com vácuo e espelhos para redirecionar e sincronizar
todos os feixes luminosos, e isso tem que ser ajustado várias vezes por segundo, durante
toda a observação. Dependendo da configuração utilizada, o VLT Interferometer pode
ter uma linha de base de até 200 m, o que garante uma resolução angular 25 vezes
melhor que a de um dos quatro telescópios de 8 metros sozinho. Os quatro telescópios
grandes foram batizados de Antu, Kueyen, Melipal e Yepun, respectivamente Sol, Lua,
Cruzeiro do Sul e Vênus no idioma mapuche, falado por índios da região. O VLT foi
instalado no topo do Cerro Paranal, no Atacama chileno, a uma altitude de 2.635 m. As
primeiras observações utilizando interferometria, com dois telescópios, foram realizadas
em fevereiro de 2005. Em fevereiro de 2012, foi feita com sucesso a primeira observação
interferométrica com todos os quatro grandes telescópios. Em março de 2019, usando a
interferometria óptica, o VLT (ver figura 154) conseguiu a primeira detecção direta de um
exoplaneta, com a observação de HR 8799.

Figura 153 - Vista parcial do VLT onde é possível ver os quatro telescópios com 8,2 m de diâmetro (à
direita) e dois telescópios móveis com 1,80 m de diâmetro (esquerda). Foto: Francisco Conte.

201
Figura 154 - Outra vista do VLT, onde é possível ver um dos telescópios de 8,20 m de diâmetro (cortado, à
esquerda), dois telescópios móveis de 1,80 m de diâmetro e o edifício do interferômetro, onde é combinada
a luz proveniente dos diversos telescópios. Foto: Francisco Conte.

Em 1999, dois telescópios começam a operar no topo do Mauna Kea, no Havaí, ao lado
dos dois Kecks já em atividade no local. Um deles é o Subaru Telescope, um telescópio
japonês com 8,30 m de diâmetro (ver figura 155). Seu nome, escolhido através de uma
eleição, remete à palavra japonesa que designa as Plêiades, um aglomerado aberto visível
a olho nu, localizado na constelação do Touro. O outro telescópio é o Gemini Norte, hoje
rebatizado como Gillett Telescope, com 8,10 m de diâmetro e operado por um consórcio
de vários países, incluindo o Brasil (ver figura 156). O Gemini é um projeto ousado, que
previa a construção de dois telescópios gêmeos, instalados um no hemisfério norte e
outro no sul, permitindo a seus operadores cobrir o céu inteiro em suas pesquisas. No
ano seguinte, 2000, começou a operar o Gemini Sul, instalado no topo do Cerro Pachón,
no Sul do Deserto do Atacama, a 2.772 m de altitude. Tanto o Subaru Telescope como os
dois Geminis têm em comum um projeto arrojado para suas cúpulas, visando controlar ao
máximo as turbulências atmosféricas que poderiam ocorrer no interior delas. O Subaru
adotou uma cúpula cilíndrica, enquanto que os Geminis optaram por um desenho high-
-tech, com uma série de janelas móveis que permitem uma rápida equalização entre as
temperaturas interna e externa do observatório.
Outro ponto em comum entre os Geminis e o Subaru é que seus espelhos primários
foram construídos pela Corning, uma empresa tradicional na fabricação de instrumentos
astronômicos, tendo sido a responsável pela construção do espelho de 5 m de diâmetro do
telescópio Hale, em Monte Palomar, ainda nos anos 1930. A técnica utilizada pela Corning
202
Figura 155 - Vista do Subaru Telescope, no topo do Mauna Kea. Foto: Francisco Conte.

Figura 156 - Vista do Gillett Telescope, anteriormente conhecido como Gemini Norte (à direita), telescópio
que conta com a participação do Brasil. Ao fundo, à esquerda, podemos ver o Canada-France-Hawaii
Telescope. É muito interessante comparar a cúpula high-Tech do Gemini com a mais tradicional do CFH.
Foto: Francisco Conte.

203
na construção de seus blocos de vidro também foi a de meniscus, como a empregada
pela Schott Glaswerke, mas com algumas soluções diferentes. A Corning utiliza para a
construção de seus blocos de vidro um material muito especial, com baixíssimo coeficiente
de deformação térmica (o que é muito importante para observatórios astronômicos
que operam frequentemente no topo de montanhas, em regiões de clima muito frio)
denominado ULE (ultra-low expansion), um vidro em que o silício, elemento básico, é
acrescido de dióxido de titânio (cerca de 10% da massa total), que é incorporado a este
através do método de vaporização, um processo patenteado, exclusividade da empresa.
O ULE é produzido inicialmente em placas hexagonais, que são fundidas em um forno
especial.
Para compreender como evoluiu tão rapidamente a tecnologia de construção de
telescópios, o melhor exemplo talvez seja o que ocorreu com o MMT (Multiple Mirror
Telescope), o mais inovador observatório construído nos anos 1970. Apesar de continuar
com o mesmo nome, o telescópio deixou de ter espelhos múltiplos no ano 2000. Os
seis espelhos de 1,80 m foram substituídos por um único espelho monolítico de
6,50 m de diâmetro. A mudança conseguiu aproveitar a sua cúpula em forma de caixa,
com adaptações mínimas, assim como a sua montagem, apenas com a substituição
dos suportes das partes ópticas. A troca dos seis espelhos pelo espelho único mais
que dobrou a capacidade de coleta de luz do telescópio, além de tornar a operação do
instrumento muito mais simples, sem a utilização dos sistemas a laser para alinhamento
dos vários espelhos. Como última vantagem, o novo espelho, já construído para trabalhar
com a óptica ativa, era muito mais barato que os espelhos tradicionais e o novo MMT
também utilizava a óptica adaptativa, o que o tornava um instrumento de pesquisa muito
mais poderoso.
O espelho do novo MMT foi construído por um terceiro fornecedor de espelhos de
grande porte, mas que não é um gigantesco fabricante de vidros, e sim um departamento
de uma universidade. Roger Angel, após completar seu doutorado em física no Caltech,
se transferiu para a Universidade do Arizona, onde começou a desenvolver instrumentos
ópticos. Ele inventou um espectroscópio que trabalhava com fibras ópticas em 1979,
e posteriormente passou a se dedicar à tarefa de construir espelhos de grande porte
para telescópios. Em 1983, Angel e sua equipe fabricaram seu primeiro espelho, com
1,80 m de diâmetro, para a Universidade de Calgary. Em 1985, construiu seu primeiro
forno rotativo. Em 1988, fez um espelho de 3,50 m para o observatório de Apache Point,
no Novo México. Apenas oito meses depois construiu outro idêntico para o telescópio
WIYN, instalado em Kitt Peak, no Arizona, e ainda um terceiro espelho de 3,50 m para
a Força Aérea. A partir dessa época ficou público o fato que o Steward Observatory
Mirror Lab, da Universidade do Arizona, podia produzir espelhos do porte dos maiores
do mundo até então. O método de Angel utilizava um forno rotativo que permitia mudar
a distância focal do espelho, variando-se apenas a velocidade de rotação (entre
6 e 7 rpm). Além disso, diferentemente dos outros fabricantes de blocos de vidro, a equipe
do SOML realizava também o polimento do espelho, garantindo a qualidade de todo o
processo. Angel trabalhava com borossilicatos com coeficiente de dilatação maior que
o de seus concorrentes, pois o vidro empregado não era tão avançado tecnicamente
como o Zerodur e o ULE. Mas, diferentemente da Schott e da Corning, seus espelhos
eram construídos no sistema honeycomb, no qual, apesar de aparentemente ser usado
204
um bloco de vidro mais espesso, na verdade ele é praticamente oco, apenas reforçado
com a adição de algumas nervuras que imitam a estrutura hexagonal dos favos de uma
colmeia na parte inferior. Dessa forma, produz-se um espelho muito estável e com a
área de contato entre o vidro e a atmosfera muito maior que no sistema meniscus, o
que permite uma equalização muito rápida entre a temperatura do bloco de vidro e do
ambiente e evita a degradação das imagens, mesmo com a utilização de um tipo de vidro
mais barato. Com a construção do espelho do novo MMT, o SOML entrou para o clube
de fabricantes de espelhos de grande porte e logo estaria desenvolvendo novos projetos.
O próximo trabalho do Steward Observatory Mirror Lab foi a construção de mais
dois espelhos idênticos ao do novo MMT para o Magellan Project Telescope. O projeto
Magellan, operado pela Carnegie Institution for Science, previa a construção de dois
telescópios de grande porte em La Serena, sul do deserto de Atacama, no Chile, a
2.516 m de altitude, em um sítio onde já operavam outros instrumentos desde os anos
1970. O primeiro telescópio iniciou suas atividades no ano 2000 e foi posteriormente
batizado de Walter Baade Telescope. O segundo viu a primeira luz no ano de 2002 e foi
posteriormente batizado de Landon Clay Telescope.
Um projeto muito interessante começou a operar em 2003 no histórico sítio do Monte
Wilson, na Califórnia: o CHARA (Center for High Angular Resolution Astronomy), um
conjunto de seis telescópios
pequenos, com 1 m de
diâmetro, dispostos em
uma configuração em “Y”,
que funciona apenas como
interferômetro (ver figura 157).
A linha de base do conjunto
é de 330 m, maior até que a
do VLT, o que garante uma
resolução angular na casa
dos 200 microssegundos de
arco, ou 0,0002”. O projeto
é extremamente barato, em
termos de construção de um
telescópio óptico de pesquisa,
mas é muito poderoso
em termos de resolução
angular, embora esteja
limitado a observar objetos
razoavelmente luminosos,
devido a sua pequena
área de coleta de luz, em
comparação com telescópios Figura 157 - Um dos seis telescópios do CHARA, um interferômetro
contemporâneos. que funciona no topo do Monte Wilson. Foto: Francisco Conte.

Em 2004, começa a operar o SOAR (Southern Astrophysical Research Telescope), um


telescópio com 4,10 m de diâmetro com grande participação do Brasil, representado pelo
CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), que controla
205
aproximadamente 30% do tempo útil do telescópio, além do NOAO (National Optical
Astronomy Observatory), da Universidade da Carolina do Norte e da Universidade
Estadual de Michigan. Instalado no Cerro Pachón, ao lado do Gemini Sul, o SOAR
significou um grande avanço na capacidade de pesquisas para a astronomia brasileira.
A África do Sul inaugura em 2005 seu grande projeto astronômico, o SALT (Southern
African Large Telescope), um telescópio quase idêntico ao Hobby-Eberly Telescope, que
participou ativamente no projeto, desenvolvimento e construção do novo telescópio. O
espelho, como o do HET, possui 91 peças hexagonais que formam um conjunto com
aproximadamente 11,1 x 9,8 m, com área de captação de luz equivalente a um telescópio
da classe de 10 m de diâmetro. O SALT foi instalado em Sutherland, a uma altitude de
1.789 m e confirmou o sucesso do conceito do HET na construção de um poderoso,
porém extremamente barato, telescópio de grande porte. O conjunto de espelhos foi
fabricado na Rússia pela Kodak Company, utilizando um tipo de vidro cerâmico de baixo
coeficiente de dilatação, o Astrositall.
Ainda em 2005 começa a funcionar parcialmente um projeto arrojado de telescópio
no deserto do Arizona, o LBT (Large Binocular Telescope), com o início de operação do
primeiro espelho. O segundo espelho começaria suas atividades em 2006 e os dois em
conjunto em 2008. O telescópio foi instalado no topo do Mount Graham, a uma altitude de
3.330 m, um excepcional sítio astronômico onde já operavam o Telescópio do Vaticano
e o Heinrich Hess Submillimeter Telescope. O LBT possui uma robusta montagem
altazimutal com seus dois imensos espelhos, fabricados pelo Steward Observatory
Mirror Lab, instalados um ao lado do outro. Pela concepção do projeto, os dois espelhos
poderiam trabalhar em conjunto, através de interferometria, o que foi feito em testes, mas
que não tem sido realizado em suas operações regulares. No entanto, o LBT continua
sendo uma ferramenta de pesquisa muito poderosa, que pode observar um objeto
produzindo imagens com filtros de cores diferentes, ou produzindo imagens e espectros
ao mesmo tempo, utilizando equipamentos diferentes em cada telescópio, por exemplo,
oferecendo uma nova série de possibilidades a seus operadores. O LBT é operado pelo
Istituto Nazionale di Astrofisica, da Itália, por um grupo de universidades americanas
(Universidade do Arizona, Universidade de Minnesota, Universidade de Notre Dame,
Universidade de Ohio e Universidade da Virgínia), e por algumas instituições alemãs
(o Instituto Max Planck de Heidelberg, de Bonn e de Munique, o Landessternwarte e o
Instituto Leibniz de Astrofísica de Potsdam).
A astronomia serve também para compreendermos um pouco da alma humana. Você
deve ter reparado em uma pequena diferença entre os diâmetros de cada telescópio,
ou grupo de telescópios, quando da descrição dos grandes telescópios de espelhos
monolíticos. A situação era esta: a recente tecnologia da óptica ativa permitiria a
construção de espelhos com um diâmetro em torno de 8 m, e havia quatro grupos de
pesquisa desenvolvendo projetos nessa área, cada um com seus objetivos e prazos. A
primeira equipe a chegar a seu prazo final foi a dos telescópios Gemini, que optou por
um diâmetro de 8,10 m. A segunda equipe, do ESO, que construiria as quatro unidades
do VLT, optou por 8,20 m, para ter os maiores telescópios. Chegou então o momento da
equipe do Subaru escolher o diâmetro de seu telescópio, e a opção foi por 8,30 m, maior
que o ESO e o Gemini. Por fim, a equipe do LBT optou pelo diâmetro de 8,40 m, para ter
o maior telescópio de todos.
206
Em La Palma, Ilhas Canárias, em 2007, começa a operar o Grantecan (Gran Telescopio
Canarias), operado pela Espanha, México e pela Universidade da Flórida. O Grantecan
possui um espelho segmentado, feito em Zerodur, fabricado pela Schott Glaswerk, com
36 peças hexagonais, com uma área efetiva igual à de um telescópio com 10,4 m de
diâmetro. O Grantecan está instalado no topo do Roque de Los Muchachos, a uma
altitude de 2.267 m. Seu conjunto óptico funciona no sistema Ritchey-Chrétien, ajustado
por um sistema de óptica ativa.
O Keck Observatory, durante seus vários anos de atividade, chegou a realizar
observações com interferometria óptica utilizando seus dois telescópios. Havia um
plano do observatório para aprimorar esse tipo de atividade com a construção de quatro
pequenos telescópios de 1,80 m de diâmetro no entorno do edifício do observatório.
Esses quatro telescópios criariam uma linha de base de mais de 80 m, garantindo uma
excelente resolução angular. O projeto encontrou a resistência de uma tribo de nativos
locais, que considerava o Mauna Kea uma montanha sagrada. Teve início uma batalha
judicial que acabou por impedir temporariamente a construção dos novos telescópios.
Finalmente, os administradores do observatório optaram por abrir mão dessa ampliação
em 2012 e interromperam o programa de observações interferométricas.
A entrada em funcionamento de todos esses instrumentos, somada a sistemas que
foram incorporados aos telescópios existentes, à disseminação do uso de computadores
e de detectores eletrônicos como os CCDs, à criação de novas técnicas de observação,
à popularização das observações remotas, enfim todo um contexto de inovações e
melhorias alterou profundamente o caráter e a capacidade de pesquisa dos astrônomos
em um período relativamente curto. Todos esses fatores interagiram para que uma
nova série de descobertas, que na verdade já tinha se iniciado na década de 1990, se
aprofundasse ainda mais. Estamos tendo a sorte de vivenciar na astronomia um período
de transformações e ampliação do conhecimento que nos surpreende com incrível
frequência. É difícil ter uma visão clara de todo o panorama, talvez seja necessário um
tempo para digerir tanta informação, mas a verdade é que nada indica que esse processo
vá diminuir seu ímpeto nos próximos anos. A seguir veremos apenas alguns exemplos do
que descobrimos recentemente.

Principais descobertas do período


Plutão foi descoberto em 1930, mas somente em 1992 foi descoberto Albion, o
segundo objeto na região conhecida atualmente como cinturão de Kuiper. Hoje, o número
de objetos transnetunianos atinge a casa de 678 já numerados e aproximadamente 2.000
ainda não numerados, aguardando classificação. Alguns desses objetos possuem um
tamanho similar ao de Plutão, como Quaoar, Sedna, Makemake, Haumea e Gonggong,
mas em 2005 Mike Brown e sua equipe, que trabalhavam no observatório de Monte
Palomar, descobriram Éris, com dimensões quase iguais a Plutão, porém provavelmente
maior. Hoje sabemos que Éris tem diâmetro pouco menor que o de Plutão, mas sua
massa é cerca de 27% maior. A descoberta levou a uma reclassificação de Plutão, na
assembleia da IAU (International Astronomical Union) em 2006. Na reunião foi criada uma
nova categoria, batizada de “planeta anão”, que não é um planeta, sendo incluídos nela
o próprio Plutão, Éris, Makemake, Haumea e Ceres (o primeiro asteroide descoberto).

207
Essa classificação pode ser aumentada nos próximos anos, pois alguns dos membros
citados do cinturão de Kuiper são maiores e mais massivos do que Ceres (Gonggong,
Sedna, Quaoar, Orcus etc.).
Além dos próprios KBOs (Kuiper belt objects – objetos do cinturão de Kuiper),
descobrimos que vários deles estavam acompanhados. Já sabíamos, desde os anos
1970, que Plutão possuía um satélite, Caronte, mas em 2005 foram descobertos mais
dois: Nix e Hidra. Logo após a descoberta de Éris, foi observado um satélite ao seu
redor, batizado de Dysnomia. Haumea possuía dois satélites, chamados de Namaka e
Hi’iaka, descobertos em 2005, além de um anel, descoberto em uma ocultação em 2017.
Makemake também possui um satélite, denominado MK2; Gonggong tem um satélite,
Xiangliu; Quaoar tem um satélite, Weywot; Orcus tem um satélite, Vanth, e Salacia
também tem um, Actaea. Por fim, foram descobertos mais dois satélites em órbita de
Plutão: Cérbero, em 2011, e Estige, em 2012, aumentando o número total para cinco.
Dos dez maiores objetos do cinturão de Kuiper, nada menos que oito possuem satélites.
O asteroide 10199 Chariklo havia sido descoberto em 1977 por James Scotti e é
classificado como um centauro, pois sua órbita está localizada entre Saturno e Urano.
Em 3 de junho de 2013 foi organizado um programa observacional para acompanhar
um trânsito do objeto. O programa foi liderado pelo astrônomo Felipe Braga-Ribas, do
Observatório Nacional, utilizando telescópios localizados no Brasil, Chile e Dinamarca.
Surpreendentemente, os pesquisadores detectaram a presença de dois anéis. Era a
primeira vez que se descobria um sistema de anéis em torno de um objeto pequeno;
apenas se conheciam anéis em torno dos gigantes gasosos. Os dois anéis foram
batizados de Oiapoque e Chuí, dois pontos extremos do Brasil. Após essa descoberta
foram detectados anéis em torno do planeta anão Haumea e do asteroide Quíron.
Em 19 de outubro de 2017, o astrônomo Robert Weryk, do projeto PAN-STARS,
um complexo instalado em Haleakalã, no Havaí, com dois telescópios de 1,80 m de
diâmetro que estão realizando um grande levantamento de objetos que se deslocam
nas proximidades da Terra, descobriu o primeiro objeto de origem extrassolar a cruzar
nossa vizinhança. O objeto, batizado de Oumuamua, era um cometa com formato de
charuto, com cerca de 1.000 m de comprimento por 100 m de largura. A trajetória da
órbita, combinada com a velocidade de deslocamento, deixavam claro que o objeto
tinha origem fora do sistema solar. Até o momento, nenhum objeto desse tipo havia sido
encontrado. Em agosto de 2019, um segundo objeto desse tipo, batizado de Borisov, foi
descoberto pelo astrônomo amador Gennady Borisov, utilizando um telescópio de 60 cm
de diâmetro.
Após a descoberta do primeiro exoplaneta, na década de 1990, vários grupos passaram
a se dedicar à busca de planetas extrassolares. As maiores contribuições foram feitas pelo
telescópio espacial Kepler, mas o ritmo de novas descobertas é crescente. Até o início
de 2021, foram descobertos 4.333 planetas, em 3.200 sistemas planetários diferentes,
sendo que destes 708 possuem mais de um planeta conhecido. Nos primeiros anos
após a descoberta inicial, os planetas encontrados eram sempre muito grandes, com
massas maiores que Júpiter, em estrelas anãs vermelhas, com massa muito inferior à
do Sol e com órbitas muito próximas à sua estrela, mais próximas que Mercúrio em
relação ao Sol. Com o tempo foram desenvolvidas várias técnicas de detecção, que
208
incluíam a constatação de trânsitos por meio de construção da curva de luz; a análise da
velocidade radial (medindo-se a mudança de posição da estrela causada pela atração
gravitacional do planeta girando ao seu redor), microlentes gravitacionais etc. Hoje já
foram detectados planetas inclusive em torno de sistemas múltiplos de estrelas, também
planetas semelhantes à Terra e já se sabe até que a estrela mais próxima do sistema
solar, Próxima Centauri, também possui um planeta. Um dos sistemas que ganhou mais
destaque da mídia internacional foi Trappist 1, com nada menos que sete planetas, todos
parecidos com a Terra em dimensões e massa e com possibilidade de apresentar água
em estado líquido, uma das condições consideradas essenciais para a existência de vida
fora da Terra.
A busca por exoplanetas levou à descoberta de um novo tipo de objeto, conhecido como
anã marrom (brown dwarf). Esse tipo de objeto havia sido previsto teoricamente como
algo intermediário entre um planeta e uma estrela. A primeira anã marrom descoberta foi
Gliese 229B, por uma equipe do Caltech formada por Tadashi Nakajima, Keith Matthews
e Rebecca Oppenheimer. Hoje classificamos como anãs marrons objetos com massa de
15 a 75 vezes maior que a de Júpiter. Anãs marrons não possuem um interior quente o
bastante para realizar a fusão do hidrogênio e se transformar em uma estrela. Algumas
delas, entretanto, atingem uma temperatura suficiente para realizar a fusão do deutério,
um isótopo do hidrogênio que possui um nêutron no núcleo. A quantidade de deutério
em uma estrela, no entanto, é muito pequena, e a anã marrom não consegue iniciar um
processo contínuo de fusão, como o que ocorre nas estrelas.
A primeira imagem direta de uma anã marrom foi obtida no telescópio Hale de Monte
Palomar em 27 de outubro de 1994, utilizando um sistema de óptica adaptativa recém-
instalado. Os alvos foram a estrela Gliese 229 e sua companheira Gliese 229B. Pouco
mais de um ano depois, o Hubble Space Telescope obteve uma imagem do mesmo
sistema com uma resolução superior.
A primeira imagem de um exoplaneta
foi realizada no telescópio Yepun, uma
das quatro unidades do VLT, em 2004
(ver figura 158). O exoplaneta orbitava a
anã marrom 2M1207. Em 8 de setembro
de 2008, o astrônomo David Lafrenière
e sua equipe, utilizando o Gemini
Norte, obteve uma imagem direta
de um exoplaneta orbitando a jovem
estrela 1RXS J160929.1-210524, na
constelação do Escorpião. A estrela tem
aproximadamente 0,85 massa solar. O
exoplaneta tem aproximadamente oito
vezes a massa de Júpiter. Em 13 de
novembro do mesmo ano, uma equipe
liderada por Christian Marois, utilizando
tanto os telescópios Keck como o
Figura 158 - Primeira imagem de um exoplaneta, feita
Gemini Norte, conseguiu obter uma pelo telescópio Yepun, uma das unidades do VLT. Fonte:
imagem da estrela HR 8799, na qual Creative Commons.
209
podiam ser observados nada menos que três exoplanetas. Posteriormente, em 2010, a
equipe conseguiu obter outra imagem com mais um quarto planeta. Era a primeira vez
que se conseguia visualizar um sistema planetário em torno de uma estrela. Ainda em
2008, no dia 21 de novembro, foi anunciado que uma equipe do VLT havia obtido uma
imagem de um exoplaneta em torno da estrela Beta Pictoris, no meio de um grande disco
de poeira que circunda a estrela. A imagem foi obtida utilizando uma técnica similar a
um coronógrafo, no qual a luz da estrela foi bloqueada por um artefato óptico, tornando
possível a observação de seu entorno. As imagens haviam sido realizadas originalmente
em 2003. No outono de 2009, a equipe conseguiu obter outra imagem com exoplaneta no
outro lado da estrela, após um período em que esta o encobriu. Hoje, já temos imagens
diretas de pelo menos 23 planetas ou sistemas planetários orbitando estrelas.
Em outubro de 2002, um grupo internacional de astrônomos, liderado por pesquisadores
do Instituto Max Planck de Física Extraterrestre, utilizando o Yepun, um dos quatro
telescópios do VLT, e sua óptica adaptativa, apresentaram um trabalho no qual, ao
compilar observações seguidas, conseguiram traçar a órbita de uma estrela batizada de
S2 em torno de Sagittarius A, no centro de nossa galáxia. O trabalho compilou também
imagens obtidas pelo NTT de Cerro de La Silla e de um dos Keck, no observatório do
Mauna Kea. A equipe conseguiu acompanhar dois terços da órbita de S2, estimando o
seu período em 15 anos. Em sua maior aproximação, S2 chega a uma distância menor
do objeto central invisível que a distância de Plutão ao Sol, deslocando-se a uma incrível
velocidade de 5.000 km/s. Em comparação, o objeto Sedna, localizado no cinturão de
Kuiper, com uma órbita um pouco menor que S2, tem uma velocidade orbital média de
1,04 km/s e dá uma volta em torno do Sol a cada 11.400 anos. Com base nesses dados, é
possível estimar a massa de Sagittarius A em 4 milhões de massas solares. Na época da
publicação do trabalho, era a prova mais evidente da existência de buracos negros. Por
esse trabalho, Andrea Ghez (Keck Telescope) e Reinhard Genzel (Max Planck) ganharam
o Nobel de Física de 2020.
A estrela Eta Carinae é com certeza uma das estrelas mais observadas e estudadas
da nossa galáxia. Em meados do século XIX, ela foi aumentando de brilho até atingir
magnitude aparente de -1, tornando-se a segunda estrela mais brilhante nos céus, só
ficando atrás da estrela Sirius. Após esse período, a estrela foi ficando cada vez mais
apagada, até atingir uma magnitude em torno de 7, que a tornava invisível à observação
sem a ajuda de binóculos ou telescópios. A partir da década de 1930, seu brilho foi
progressivamente aumentando, até atingir, nos dias de hoje, a magnitude aparente 4.
Eta Carinae é o exemplo de uma estrela de grande massa que já se encontra em suas
fases finais de vida e deve morrer como uma violenta hipernova, razão pela qual atrai a
atenção de inúmeros pesquisadores por todo o mundo. Em 1996, o astrônomo Augusto
Damineli e sua equipe, do IAG/USP, publicaram um trabalho analisando dados espectrais
da estrela, coletados no Observatório do Pico dos Dias. Percebendo uma variação
periódica nos espectros, o grupo propôs que na verdade Eta Carinae era um sistema
binário, com eclipses periódicos perceptíveis através da espectroscopia. A estrela não
pode ser observada diretamente, pois o evento do século XIX criou uma densa nuvem de
poeira e gás que envolve a estrela. A equipe previu a ocorrência de novos eclipses que
foram confirmados através de observações em 2003. A partir de então passou a ser um
consenso na comunidade astronômica o caráter de sistema binário de Eta Carinae.
210
Em 21 de julho de 2010, foi publicado
um artigo no qual uma equipe do ESO
(European Southern Observatory),
liderada por Paul Crowther, da
Universidade de Sheffield, anunciava
a descoberta da mais massiva estrela
conhecida, R136a1, com 265 massas
solares. A notícia era surpreendente
para a comunidade astronômica, pois
muitos modelos de formação estelar
prescreviam que algo em torno de 150
massas solares seria o limite máximo
que uma estrela podia alcançar.
R136a1 está localizada na nebulosa
da Tarântula, na Grande Nuvem de
Magalhães, uma galáxia anã que orbita
a Via Láctea e possui uma metalicidade
muito menor que a da nossa galáxia,
fator que pode ter contribuído para a Figura 159 - Vista da parte central do aglomerado R136,
formação de uma estrela tão grande. localizado na Grande Nuvem de Magalhães. R136a1 é
a estrela mais brilhante vista no centro da imagem, uma
R136a1 é também a estrela mais
proeza técnica possível apenas pela utilização da técnica
luminosa conhecida, com cerca de 6 de interferometria. Fonte: Creative Commons.
milhões de vezes o brilho intrínseco do
Sol (ver imagem 159).
Em 31 de dezembro de 2012, uma equipe coordenada por Norbert Christlieb,
pesquisador da Universidade de Hamburgo, com a participação da brasileira Silvia Rossi,
do IAG/USP, descobriu a mais antiga estrela conhecida, utilizando um telescópio com
2,30 m de diâmetro do Observatório de Siding Spring, na Austrália, e posteriormente
um dos telescópios do VLT, no Chile. A estrela, batizada de HE0107-5240, uma gigante
vermelha com 0,8 massa solar, possuía uma baixíssima metalicidade e a mais baixa
abundância de ferro registrada até então. Hoje, a estrela mais antiga conhecida é BPS
CS31082-0001, conhecida por Cayrel’s Star. Com uma idade estimada em 12,5 bilhões
de anos, ela foi descoberta por Tim C. Beers e equipe, utilizando um telescópio de Cerro
Tololo e depois o VLT. O estudo deste tipo de objeto é importante para o refinamento dos
modelos de formação estelar, assim como para o estudo da cosmologia.
Em setembro de 2006, um grupo de astrônomos liderados por Douglas Clowe, da
Universidade do Arizona, apresentou um trabalho que mesclava observações realizadas
com o satélite de raios X Chandra, o Hubble Space Telescope e os telescópios Magellan,
em Las Campanas. A composição de imagens mostrava aquele que ficaria conhecido
como o Bullet Cluster, uma colisão de dois aglomerados de galáxias que tinha uma
particularidade: cada aglomerado se direcionava para um dos cantos da imagem. No
centro era observada uma grande atividade na faixa do infravermelho, em razão de
colisões de poeira e gás dos aglomerado, com grande atrito entre as partículas de
cada grupo que acabaram ficando para trás. Afastando-se dessa área central, nas duas

211
extremidades, era possível observar no
visível as galáxias de cada grupo,
com suas estrelas, que passaram pela
colisão com menos atividade que a
poeira e o gás e, surpreendentemente,
à frente das galáxias, nas extremidades
dos dois aglomerados, uma atividade
de alta energia, observada na faixa
dos raios X, exatamente da maneira
que se esperava que ocorresse nos
casos de colisões de blocos de matéria
escura. O Bullet Cluster se tornou, na
época, a maior evidência da existência
física da matéria escura (ver imagem Figura 160 - Imagem do Bullet Cluster, a maior evidencia da
160). Outro aglomerado descoberto existência da matéria escura. A imagem é uma combinação
de dados colhidos na luz visível, infravermelho e raios X.
em 2007, batizado de MACS J0025.4- Fonte: Wikimedia Commons.
1222, apresentava características
muito similares.

Telescópios do futuro
Como vimos nos exemplos citados nas páginas anteriores, estamos no meio de
uma fase de incrível atividade e cheia de descobertas provindas dos observatórios que
trabalham na faixa do visível, mas uma nova geração de novos telescópios deve entrar
em operação nos próximos anos, o que indica que muita coisa deve ser descoberta nas
décadas a seguir e que muitas de nossas perguntas profundas no campo da astronomia
podem estar próximas de receber respostas adequadas. Além disso, o avanço tecnológico
acompanha a criação de novos instrumentos. O ESO, por exemplo, está desenvolvendo
novos sistemas de óptica adaptativa com múltiplos lasers que devem ampliar a capacidade
de nossos instrumentos de pesquisa. O telescópio Mayall de Kitt Peak está passando por
uma reforma, com a instalação de um sistema com 5 mil sensores de fibra óptica, com
a finalidade de analisar milhões de galáxias e quasares simultaneamente, calculando
detalhadamente seu movimento próprio na tentativa de esclarecer a essência do que é a
matéria escura.
O primeiro dos novos telescópios que deve entrar em operação nos próximos anos
é o Vera C. Rubin Observatory, conhecido anteriormente como LSST (Large Synoptic
Survey Telescope), um telescópio com um espelho de 8,40 m de diâmetro, produzido
pelo laboratório da Universidade do Arizona, a ser instalado no Cerro Pachón, ao lado
do SOAR e do Gemini Sul. Apesar de ter uma abertura semelhante à de telescópios já
em funcionamento, o Vera C. Rubin Observatory tem um projeto radicalmente inovador.
O espelho primário é também o espelho terciário; o bloco de vidro tem uma dupla
curvatura, com a área interna possuindo uma curvatura diferente da área externa. Essa
configuração jamais havia sido utilizada na história da astronomia. A configuração óptica
de um telescópio com três espelhos permite a obtenção de um campo bastante grande,
de 3,5º de diâmetro. O telescópio vai receber uma câmera com 3,2 gigapixels e deve

212
cobrir todo o céu visível a cada três dias de observação, permitindo o acompanhamento
de todos os objetos que apresentam alguma variação de brilho ou de posição no céu.
O Vera C. Rubin deve entrar em operação em 2021 e voltaremos a falar dele no último
capítulo.
Dos telescópios gigantes de nova geração, o primeiro a entrar em funcionamento
deve ser o GMT (Giant Magellan Telescope), a ser instalado em Las Campanas, Chile.
O telescópio apresenta uma configuração inusitada, com sete espelhos de 8,40 m de
diâmetro, fabricados pelo laboratório da Universidade do Arizona. Aparentemente a
configuração lembra o primeiro MMT, mas no caso do GMT, do ponto de vista óptico,
todos os espelhos atuam como uma peça única (ver figura 161). O conjunto vai funcionar
como um telescópio com um espelho de 24,5 m de diâmetro. Atualmente cinco dos sete
espelhos já foram construídos e o sexto encontra-se em fase final de fabricação. Além
disso, deve ser construído um oitavo espelho, para ser utilizado quando algum dos seis
espelhos externos estiver em manutenção. O espelho central tem um perfil idêntico
ao dos grandes telescópios atuais, mas os seis espelhos externos possuirão um perfil
off-axis (fora do eixo), para que todo o conjunto funcione com um foco único. Em Las
Campanas, a parte de fundação da edificação está completa e o grupo estima o início de
operações do telescópio para 2025, embora os primeiros trabalhos ocorram com apenas
quatro espelhos. O GMT será gerido por um consórcio de operadores de cinco países:
os Estados Unidos, que lideram o projeto; a Coréia do Sul e a Austrália; o Chile, como
país hospedeiro, e o Brasil, pelo estado de São Paulo, através da FAPESP, a partir dos
esforços do IAG/USP.
O segundo telescópio gigante da próxima geração a entrar em operação está sendo
construído pelo ESO no Chile. Trata-se do ELT (Extremely Large Telescope), a ser
instalado em Cerro Armazones, próximo ao Cerro Paranal, a uma altitude de 3.046 m. O
ELT terá um espelho primário segmentado, com um diâmetro de 39,3 m, sendo o maior
de sua geração. O espelho primário, a ser construído pela Schott Glaswerk, terá nada
menos que 798 segmentos hexagonais, com um diâmetro de 1,40 m cada, devendo
produzir imagens com uma definição angular 16 vezes melhor que o Hubble Space
Telescope. O observatório deverá entrar em operação em 2025.
O último dos telescópios gigantes de próxima geração será o TMT (Thirty Meter
Telescope), com 30 m de diâmetro, como seu nome antecipa, a ser instalado no topo do
Mauna Kea, no Havaí. O espelho principal será fragmentado, com 492 peças hexagonais
de 1,40 m de diâmetro. O projeto deverá ser o maior telescópio do Hemisfério Norte e
será operado por um consórcio de instituições dos Estados Unidos, Japão, China, Índia
e Canadá. O observatório estava previsto para entrar em atividade em 2027, mas com a
pandemia de Covid-19 talvez possam ocorrer atrasos no cronograma de operações. Vale
a pena comentar a batalha judicial e política que resultou na aprovação da construção
do TMT no Mauna Kea, que é considerada uma montanha sagrada por alguns nativos
locais. O acordo incluiu a desativação de dois telescópios no sítio.
Quando essa nova geração de telescópios entrar em atividade, pela primeira vez na
história o Hemisfério Sul terá um poder de observação através de telescópios maior que
o Hemisfério Norte.

213
Figura 161 - Esquema óptico do Giant Magellan Telescope, que apesar de lembrar a configuração do antigo
Multiple Mirror Telescope, é diferente e muito mais simples: todos os sete espelhos fazem um foco único,
como se fossem um só espelho. Desenho: Francisco Conte.

214
Capítulo 15
Astronomia amadora na virada do milênio
A astronomia é uma das raras áreas da ciência em que um amador pode colaborar com
seu desenvolvimento. Há inúmeros exemplos ao longo da história; basta lembrar que,
quando William Herschel descobriu Urano, ele ainda não era um astrônomo profissional,
ou que Lorde Rosse — e seu gigantesco Leviatã — sempre foi amador. Há ainda o
casal Huggins, que tantas colaborações deu ao desenvolvimento da espectroscopia e
da fotografia, assim como seu contemporâneo Henry Draper. E, no capítulo anterior,
mencionamos o feito de Borisov, que descobriu o segundo objeto extrassolar descoberto
em nossas proximidades.
Os exemplos citados acima são naturalmente casos extremos, mas muitos astrônomos
amadores têm desenvolvido atividades úteis para o campo, bastando lembrar que boa
parte dos cometas que conhecemos foram descobertos por amadores, assim como
várias novas. O acompanhamento do comportamento de estrelas variáveis é um
grande exemplo, pois seria muito caro gastar um número imenso de horas para seguir o
comportamento de uma única estrela em um observatório profissional. Desde o final do
século XIX astrônomos amadores espalhados pelo mundo se encarregaram de realizar as
observações da variação de brilho de inúmeras estrelas. Em 1911 foi fundada a AAVSO
(American Association of Variable Star Observers), que passou a coordenar mundialmente
os registros de observações de astrônomos profissionais, mas principalmente de
amadores. A AAVSO tem catalogada uma média de cem mil observações anuais, possui
cerca de dois mil membros e alcançou a marca de 20 milhões de registros em 2011. Há
décadas essa tem sido a principal fonte de informações sobre estrelas variáveis, e é
acessível a qualquer pesquisador que queira utilizar os seus dados.
Esses são alguns exemplos da importância da astronomia amadora em pesquisas,
mas existem muitas outras práticas, como a observação de chuvas de meteoros, a
de planetas e outros objetos do sistema solar, a observação solar etc. Além disso, os
amadores também se dedicam à divulgação científica e outras atividades.
Acontece que a astronomia amadora também foi incrivelmente beneficiada pelo
desenvolvimento tecnológico das últimas décadas, a exemplo da utilização de detectores
eletrônicos e de computadores, fazendo com que vários grupos espalhados pelo mundo
iniciassem atividades impensáveis inclusive para observatórios profissionais de algumas
décadas atrás.
Além de astrônomos amadores avançados, com o advento da internet, surgiu a
possibilidade de que um número muito maior de interessados conseguisse fazer algum
tipo de colaboração com pesquisas avançadas. Um excelente exemplo é o Galaxy Zoo, um
grande programa de classificação morfológica de galáxias. Na época de sua implantação,
com início em 2007, programas de reconhecimento automático com computadores haviam
encontrado imensas dificuldades na classificação de galáxias a partir de sua forma. Um
estudo realizado com voluntários demonstrou que colaboradores humanos sem formação
em astronomia, mas com um treinamento básico adequado, obtinham resultados muito
superiores. O Galaxy Zoo trabalharia com dados colhidos pelo Sloan Digital Sky Survey

215
(SDSS). A ideia inicial seria conseguir de 20 mil a 30 mil voluntários para classificar 900
mil galáxias. Um estudante de pós-graduação em astrofísica que trabalhasse 24 horas
por dia, sete dias por semana, demoraria de três a cinco anos para classificar todas as
galáxias uma única vez (para diminuir o erro, o ideal seria repetir a classificação mais
vezes). No primeiro Galaxy Zoo, em 175 dias, cem mil voluntários realizaram nada menos
que 40 milhões de classificações. A atuação efetiva dos voluntários acelerou em muito
a obtenção dos resultados e liberou profissionais da área para a realização de outras
atividades de pesquisa. Esse tipo de atividade passou a ser conhecido como “ciência
cidadã”. O sucesso do primeiro Galaxy Zoo acabou por levar a uma segunda etapa do
programa, onde foi feita uma classificação morfológica ainda mais aprofundada das 250
mil mais brilhantes galáxias do SDSS. Uma terceira etapa do programa foi feita com
a análise de 120 mil galáxias fotografadas pelo Hubble Space Telescope, e a última
etapa, o Galaxy Zoo 4, iniciada em 2016, estudou imagens de 40 mil galáxias feitas pelo
Hubble e pelo SDSS. Além disso, ocorreram dois projetos paralelos, entre 2009 e 2012:
um deles específico para galáxias em processo de fusão e o outro para a descoberta de
supernovas nas galáxias estudadas. O sucesso do Galaxy Zoo foi muito importante no
estudo da evolução de galáxias e produziu uma série de descobertas inesperadas, tais
como um grupo de galáxias elípticas azuladas, que indicava a presença de formação
estelar recente, assim como de galáxias espirais vermelhas, onde não se observavam
novos processos de formação estelar. Uma das descobertas, muito surpreendente, tornou
famosa a sua descobridora, a voluntária holandesa Hanny van Arkel, a primeira pessoa
a visualizar uma galáxia com um apêndice esverdeado, muito incomum em astronomia
extragaláctica. O objeto ficou conhecido como Hanny’s Voorwerp (“Objeto de Hanny”, em
holandês) e após muitos estudos foi explicado como um eco de uma emissão causada
por um quasar no centro da galáxia. O Galaxy Zoo descobriu também outro grupo de
objetos incomuns, denominados Green Pea Galaxies (“galáxias ervilha verde”), que são
galáxias muito compactas, com um brilho esverdeado.
Outros programas de ciência cidadã na astronomia exigem ainda menos esforço
de seus colaboradores. O SETI (Search for Extraterrestrial Intelligence), que utiliza
radiotelescópios na busca por civilizações extraterrestres, criou um programa chamado
SETI@home (SETI at home). No programa, os voluntários instalam em seus computadores
um software que atua como um protetor de tela. Quando o computador está ocioso, esse
software recebe um pacote de dados obtidos pelos radiotelescópios do SETI e inicia uma
análise em busca de sinais extraterrestres, até que o usuário volte a utilizar o computador.
Quando o protetor de tela for ativado novamente, recomeça a mesma análise, até que se
complete o pacote de dados. Quando isso ocorre, o usuário recebe um novo pacote de
dados. Uma grande rede de voluntários proporciona ao SETI uma incrível capacidade de
análise de dados. O SETI@home chegou a ter 666.078 voluntários de 229 países, dos
quais 68.901 no Brasil. O programa parece ter sido paralisado em março de 2020, sendo
ainda incerta a sua continuação.
Um programa similar ao SETI@home é o Einstein@home (Einstein at home), com o
mesmo tipo de organização do primeiro, mas dedicado à busca de pulsares e à detecção
de ondas gravitacionais. Utilizando dados captados pelo Fermi Gamma-Ray Space
Telescope, pelo rádio-observatório de Parkes, na Austrália, e, até algum tempo atrás,

216
pelo radiotelescópio de Arecibo, o Einstein@home registrou aproximadamente 440 mil
voluntários desde 2005. Em 2010, o projeto fez sua primeira descoberta, um pulsar binário
batizado de PSR J2007+2722. Até o momento, o programa já descobriu 55 pulsares de
rádio e 25 pulsares de raios gama. Um campo avançado, onde raramente poderia se supor
que a colaboração de amadores pudesse de fato resultar em descobertas científicas.
Voltemos aos astrônomos amadores que realmente se dedicam à observação. Alguns
deles possuem habilidades notáveis; entre eles está o reverendo australiano Robert Evans.
Com memória eidética, ele lembra com detalhes a aparência de aproximadamente 1.500
galáxias, que observa em seu telescópio newtoniano com montagem dobsoniana de 30
cm de diâmetro. Evans descobriu, desde 1968, nada menos que 40 supernovas, todas
visualmente. Um feito notável, sobretudo frente à concorrência de grupos que emulam
seu método de busca com recursos eletrônicos.
A partir de meados dos anos 1980, começaram a surgir grupos de busca de supernovas,
levando a um passo além o processo do reverendo Evans com a inclusão de avanços
da era digital. As primeiras tentativas aconteceram nos Estados Unidos, graças aos
esforços dos astrônomos profissionais Alexei Filippenko e Weidong Li, em conjunto com
astrônomos amadores. Para implementar o programa de busca de supernovas, o grupo
inicialmente preparava uma lista com galáxias possíveis de observar com o equipamento
disponível, levando em conta suas características físicas e morfológicas: principalmente
galáxias espirais ou irregulares, com grande massa etc. Depois, preparava-se um catálogo
fotográfico de todas as selecionadas, com suas coordenadas e dados principais. Após
a conclusão do banco de imagens, o trabalho real se inicia. Normalmente utilizam-se
telescópios automatizados e se fazem imagens de algumas dezenas ou centenas de
galáxias por noite. Um software especializado compara as imagens obtidas no dia com
as cadastradas no banco de imagens, selecionando aquelas em que foram percebidas
diferenças. Algum dos membros do grupo faz a checagem das imagens selecionadas,
descartando as que possam ter sido causadas por outros fatores, tais como passagem
de asteroides ou de satélites artificiais, raios cósmicos etc. Após todas as checagens,
eventualmente pode ser observada uma supernova. O passo seguinte é encaminhar
um aviso para o CBAT (Central Bureau for Astronomical Telegrams), o órgão da IAU que
coordena as notificações de possíveis supernovas, novas ou cometas, que eventualmente
confirma a descoberta. Um desses grupos, o BOSS (Backyard Observatory Supernova
Search), formado por seis astrônomos amadores norte-americanos, descobriu 189
supernovas desde 1981.
No Brasil, funcionou entre 2003 e 2010 um grupo amador de busca de supernovas,
o BRASS (Brazilian Supernovae Search), formado por membros paulistas e mineiros,
utilizando principalmente o observatório CEAMIG-REA (Centro de Estudos Astronômicos
de Minas Gerais – Rede de Astronomia Observacional), instalado na cidade de Belo
Horizonte e operado remotamente. Durante seu tempo de atividade, o grupo descobriu
15 supernovas, sendo que duas delas atraíram muito a atenção de pesquisadores
profissionais: a SN2005af, por ser uma das supernovas mais próximas descobertas nas
últimas décadas, localizada a 3,9 megaparsecs, e a supernova SN2006D, por ter sido
uma das raras descobertas antes de atingir o seu pico de brilho.

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A maior parte das descobertas de supernovas é realizada por astrônomos profissionais
em programas de busca que adotam o mesmo princípio utilizado pelos amadores,
mas a colaboração destes é importante. Na década de 1980 o número de supernovas
descobertas por ano girava na casa de dez, praticamente todas por profissionais. Hoje
o número gira em torno de mil, principalmente graças à utilização de computadores com
softwares dedicados e à utilização de detectores eletrônicos.
Em 19 de julho de 2009, o astrônomo amador australiano Anthony Wesley observou
uma mancha pouco usual na superfície gasosa do planeta Júpiter. A mancha, com
aproximadamente 8 mil km de comprimento, lembrava muito as marcas de impacto
causadas pelos fragmentos do cometa Shoemaker-Levy 9. Observações espectrais
realizadas por observatórios profissionais confirmaram que Wesley havia detectado um
impacto de proporções similares aos de 1994. Pouco tempo depois, em 3 de junho de
2010, o mesmo Wesley registrou em uma imagem um impacto de menores proporções
no planeta. Outro astrônomo amador, Christopher Go, conseguiu filmar o mesmo evento.
Impactos em Júpiter foram captados por outros astrônomos amadores em 2012, 2016
e 2019, todos eventos similares em intensidade ao de 2010. Graças a amadores sabemos
que impactos em Júpiter são eventos relativamente comuns. O interessante a ser
ressaltado é que essas detecções seriam impossíveis de captar, mesmo por instrumentos
profissionais, na década de 1970. O avanço tecnológico proporcionado pelos detectores
eletrônicos, além da utilização de novas técnicas permitidas por esses instrumentos, tem
revolucionado o estudo da atmosfera de Júpiter e Saturno.
Uma das técnicas que permitem
aos amadores a realização de
imagens de grande qualidade da
atmosfera superior de Júpiter,
por exemplo, é conhecida como
“empilhamento de imagens”. O
observador realiza uma série
de imagens do objeto — para
o caso de Júpiter, dependendo
do equipamento, algo como 200
imagens por segundo, durante um
minuto, o que gera a produção de
12 mil imagens (ver imagem 162).
Um software dedicado seleciona
as imagens que não apresentam
problemas ou distorções, restando
normalmente algo em torno de 3 Figura 162 - Imagem de Júpiter com a sombra da lua Ganimedes,
mil imagens, que são somadas feita pelo astrofotógrafo Carlos Palhares, do grupo Alfa Crucis
(ver do mesmo autor a figura 65). Foto: Carlos Palhares.
e editadas, resultando em um
excepcional aumento de definição angular, com detalhes muito claros da superfície, que
só conseguimos observar quando da passagem das Voyagers (nem os telescópios da
época, nem as Pioneer 10 e 11, conseguiram imagens com essa qualidade).

218
Outro trabalho impressionante que alguns grupos de amadores estão desenvolvendo é
a busca de transientes, objetos que sofrem alguma alteração de brilho ou posição quando
observados regularmente durante um período. Essa variação pode durar de alguns
segundos a dias. Como exemplo de grupos que desenvolvem esse trabalho, temos no
Brasil o projeto BRATS (Brazilian Transient Search), que agrupa amadores de São Paulo,
Minas Gerais e Brasília. O grupo descobriu duas novas na Grande Nuvem de Magalhães,
um feito que seria literalmente impossível há poucas décadas, mesmo para observatórios
profissionais (ver imagem 163). Conseguir identificar uma variação de brilho em um campo
com uma densidade de estrelas tão elevada só é possível com o auxílio de computadores
e com um software dedicado muito eficiente. Outro dado incrível do trabalho desse grupo
é que eles nem sequer utilizam um telescópio para suas observações. Tudo é feito com
uma câmera Canon 6D, equipada com uma lente fixa de 200 mm, com abertura f1.8. Isso
mostra o quanto a tecnologia dessa área avançou nos últimos anos. O grupo iniciou suas
atividades em 2019 e utiliza duas estações independentes para realizar as observações.

Figura 163 - Vista da nova LMCN 2019-07a, descoberta pelo grupo BRATS de busca de transientes em 27
de julho de 2019. Na imagem, obtida três dias após a descoberta, a nova está marcada pela seta vermelha.
Foto: Leonardo Amaral.

Um campo da astronomia em que podemos observar tanto o trabalho de astrônomos


profissionais como o de amadores é o levantamento de NEOs (near-Earth objects), que
são asteroides cuja órbita se localiza próxima à Terra, eventualmente podendo trazer
219
algum risco de colisão com nosso planeta. Um exemplo de iniciativa profissional foi o
programa LINEAR (Lincoln Near-Earth Asteroid Research), operado pela força aérea
americana, que esteve em atividade entre 1998 e 2005 e descobriu 2.423 NEOs e
279 cometas. Mais recentemente temos o programa Pan-STARRS (Panoramic Survey
Telescope and Rapid Response System), com dois telescópios de 1,8 m de diâmetro,
localizados em Haleakala, no Havaí, que descobriu um número enorme de NEOs, cerca
de 20 mil objetos no cinturão de Kuiper e mais de cem mil troianos de Júpiter.
Vários grupos amadores também têm se dedicado à busca de NEOs por todo o
mundo. Alguns desses grupos de maior porte, notadamente nos Estados Unidos,
inclusive recebem verbas da NASA e outros institutos para incrementar sua capacidade
de pesquisa. Há membros que vivem exclusivamente desses recursos, criando uma
categoria que ironicamente poderíamos chamar de astrônomos “amadores profissionais”,
que se diferenciariam dos profissionais apenas pela ausência de formação acadêmica.
No Brasil temos um grupo em Minas Gerais, o SONEAR (Southern Observatory for
Near Earth Asteroids Research), que tem se destacado na área, tendo já descoberto 32
asteroides com órbitas que se aproximam da Terra, 27 asteroides do cinturão principal,
três asteroides que cruzam a órbita de Marte e nove cometas.
Outro grupo que tem desenvolvido trabalhos muito interessantes é o Alfa Crucis,
formado inicialmente por amadores de São Paulo e que agora tem também membros
de Minas Gerais e Brasília. O Alfa Crucis é dividido em grupos especializados que se
dedicam a atividades diversas, como a astrofotografia e a espectroscopia. Um dos
grupos especializados de maior interesse está realizando o acompanhamento de
trânsitos de exoplanetas já catalogados. A tarefa é bastante complexa, pois a diminuição
do brilho da estrela é muito pequena, exigindo que o equipamento óptico, o sistema de
acompanhamento e a detecção com CCD sejam extremamente bem calibrados, além de
muito trabalho na redução de dados e análise. O grupo já conseguiu acompanhar vários
trânsitos de exoplanetas diferentes (ver imagem 164) e está tentando estabelecer um
cronograma de atividades bem audacioso nos próximos semestres.

Figura 164 - Imagem e gráfico com redução de dados do trânsito do exoplaneta WASP-5 b. No trabalho,
feito por membros do grupo Alfa Crucis, foram realizadas 942 imagens durante a ocorrência do trânsito,
com a avaliação da variação do brilho da estrela em cada uma delas. No campo apresentado à esquerda, a
estrela WASP-5 aparece marcada em branco e as estrelas de comparação em rosa. Aquisição de imagens
de Sergio G. Silva, com redução de dados de Ester Olim, Denis Kulh, Ção Rodrigues, Renata Treü e
Patricia Aguiar.
220
Uma última iniciativa muito interessante entre os amadores é o acompanhamento de
meteoros no céu noturno. Após algumas iniciativas particulares, em 2014 foi criada a
BRAMON (Brazilian Meteor Observation Network, ou Rede Brasileira de Observação
de Meteoros). A rede iniciou seus trabalhos com apenas três estações, mas outros
interessados poderiam se juntar ao grupo, bastando para isso instalar uma câmera em
local apropriado, normalmente o teto da própria casa, ligá-la a um computador com
internet e instalar um software que já faz uma análise prévia das imagens obtidas na
noite anterior, selecionando aquelas nas quais podem ter sido observados meteoros.
Hoje o grupo conta com 88 membros e 155 câmeras de monitoramento, espalhados
por 20 estados. É um dos maiores grupos desse tipo no mundo. Em 2017, o grupo teve
confirmada a descoberta de sua primeira chuva de meteoros, a épsilon Gruídeos. A
BRAMON descobriu 25 chuvas de meteoros, confirmadas pela IAU, e outras 104 já foram
detectadas, mas ainda não foram descritas em artigos por limitação de pessoal. Duas
dessas chuvas estão relacionadas a asteroides descobertos pelo SONEAR, outro grupo
mencionado anteriormente. No ano de 2019, a BRAMON esteve envolvida na busca do
meteorito Aguas Zarcas, que caiu na Costa Rica, refazendo a trajetória do bólido até as
proximidades de sua queda. Com os dados da BRAMON, pesquisadores conseguiram
recuperar aproximadamente 27 kg de material do meteorito em diversas partes. A rapidez
foi um fator importante, pois o meteorito era do tipo condrito carbonáceo, que se deteriora
facilmente na presença de água, e a Costa Rica é um local de clima muito úmido.
Claro que a imensa maioria dos estudos e descobertas astronômicos são realizados por
astrônomos profissionais, mas a participação de amadores é possível em alguns nichos
de pesquisa, em que o custo para realizar observações em observatórios profissionais
seja descabido ou que eventualmente exijam um tempo muito grande de observação em
um telescópio. Enfatizei neste capítulo a participação de amadores brasileiros, mas a
maior parte dos trabalhos amadores em astronomia é realizada nos Estados Unidos, que
possui um número imenso de praticantes e um clima muito favorável para observações
astronômicas em boa parte do território. Europeus, japoneses, australianos produzem
também muitos trabalhos na área.
Um projeto muito interessante está começando a ser desenvolvido no Brasil e
demonstra com muita clareza as possibilidades de colaboração entre astrônomos
amadores e profissionais. A proposta foi iniciada pela astrônoma profissional Duília de
Mello, radicada nos EUA, que tem realizado um trabalho de pesquisa ligado a regiões
externas a galáxias elípticas, onde são formados bolsões (shells) de formação estelar a
partir do gás que é ejetado quando ocorre o processo de fusão com outras galáxias. A
descoberta desses shells é relativamente recente e a pesquisa de tais objetos, por seu
brilho muito tênue (magnitude aparente 20 ou maior), até agora era realizada apenas por
telescópios de médio e grande porte (mais de 4 m de diâmetro), ou pelo Hubble Space
Telescope. Um trabalho realizado por David Martínez-Delgado em 2019 demonstrou
que um conjunto de telescópios amadores poderia ser utilizado para a obtenção de
imagens de céu ultraprofundo, com magnitudes da ordem necessária para a observação
de shells em torno de galáxias elípticas. Em 2019, Duília entrou em contato com um
grupo de astrônomos amadores brasileiros, de diversos estados, e que já faziam parte
de associações como o BRATS, o SONEAR, o CEAMIG e o Alfa Crucis, entre outros. O

221
grupo foi batizado de DIM (Deep Images of Mergers), por trabalhar com shells formados a
partir da fusão de galáxias. Como teste inicial fizeram uma imagem da galáxia Centaurus
A, com 40 horas de integração de imagens de cinco telescópios diferentes. A imagem
foi posteriormente trabalhada através de softwares específicos e de um algoritmo que
amplificava os sinais obtidos e eliminava boa parte do ruído. O resultado foi muito positivo,
pois o trabalho permitia a visualização de vários shells que já haviam sido identificados
em observações realizadas com telescópios de grande porte, mas o mais importante foi
que a imagem possibilitou também a identificação de vários shells que nunca haviam
sido observados anteriormente. Esse bem-sucedido trabalho inicial foi apresentado em
um congresso e atraiu a atenção de outros amadores de várias partes do mundo. Hoje o
DIM está buscando novos colaboradores no Brasil e também no exterior para aumentar
o grupo e iniciar um programa de observação de galáxias do mesmo tipo (ver figura 165).

Figura 165 - Imagem da galáxia Centaurus A pela equipe do projeto DIM. Em amarelo estão destacadas as
shells já conhecidas de trabalhos anteriores, feitos com telescópios de grande porte. Em vermelho estão
destacadas nove shells nunca observadas anteriormente. Imagem com exposição de 40 horas realizada
por João Mattei, Cristóvão Jacques, Sergio G. Silva, Marcelo Domingues e Eduardo Oliveira.

Astrônomos amadores também se dedicam à divulgação científica e ao ensino da


astronomia – eu mesmo tenho feito esse papel nos últimos 20 anos junto ao Clube de
Astronomia de São Paulo, o CASP. Vários outros grupos se dedicam a essa atividade no
Brasil e no mundo.

222
Capítulo 16
Big data, machine learning... Para onde vamos?
Vamos começar este capítulo voltando a falar de um telescópio óptico muito especial: o
GAIA. Na verdade, ele é um satélite que se dedica à maneira mais tradicional de se fazer
astronomia, que é a astrometria — a medição, cada vez mais precisa, da posição das
estrelas. A astrometria permite a obtenção do ângulo de paralaxe das estrelas, que por
sua vez possibilita o cálculo de suas distâncias. Até a década de 1980, só conhecíamos
a paralaxe de poucos milhares de estrelas. Com o satélite Hipparcos, aumentamos esse
número para pouco mais de 100 mil, e com uma precisão maior do que a obtida em terra,
mas ainda com limitações.
A estimativa de distâncias é provavelmente a tarefa mais difícil da astronomia, mas sua
importância é enorme. A distância precisa é a chave para obtermos resultados melhores
em praticamente todas as áreas, pois uma distância diferente pode significar um diâmetro
menor que o previsto para uma estrela de nêutrons, por exemplo; ou pode significar que
aquela supernova que foi observada há dois anos é a mais brilhante conhecida. Em
áreas como a cosmologia, a precisão das estimativas de distância é fundamental, pois as
detecções estão no limite de nossa capacidade observacional.
O GAIA continua trabalhando e sua equipe em terra também, compilando uma
quantidade cada vez maior de dados. A cada novo conjunto de medições, mais precisos
ficam os números. O grupo divulga periodicamente boletins de dados do satélite. A versão
prévia do terceiro boletim (a completa só sairá em 2022) foi divulgada em 3 de dezembro
de 2020. Os dados desse levantamento já eram incrivelmente mais precisos que os
obtidos pelo Hipparcos, e eles ainda vão melhorar com a divulgação de novos boletins
nos próximos anos (ver figura 166). Alguns dos números já divulgados pela missão:
-- [Link] posições estelares
-- [Link] de dados de brilho de estrelas na luz branca
-- [Link] estrelas com cálculo de paralaxe e movimento próprio
-- [Link] de dados de brilho de estrelas no filtro azul
-- [Link] de dados de brilho de estrelas no filtro vermelho
-- [Link] de dados de cor de estrelas
-- 161.497.595 de estrelas com temperatura de superfície estimada
-- 76.956.778 medições de raio e luminosidade de estrelas
-- 7.224.631 medições de velocidades radiais de estrelas
-- 550.737 fontes variáveis catalogadas
-- 87.733.672 estimativas de poeira no alinhamento de estrelas
-- 14.099 objetos do sistema solar descobertos
-- 1.614.173 fontes extragaláticas catalogadas
Os números são assustadores e difíceis de estimar. Vamos ao topo da lista: um bilhão
e oitocentos e onze milhões de medições de posições de estrelas. Se um astrônomo
resolvesse checar manualmente cada medição, e conseguisse manter a média de uma
223
medição por segundo, supondo que não dormisse e trabalhasse todos os dias da semana
e feriados, demoraria cerca de 60 anos para concluir o trabalho. Como conseguir tirar
alguma informação importante no meio de todos esses dados? Por onde começar?

Figura 166 - Imagem de divulgação do release 3 parcial de dados do observatório GAIA. Fonte: Wikimedia
Commons.

Vejamos também o caso do Vera Rubin Observatory. Já o mencionamos anteriormente;


apesar de ser um telescópio de dimensões comparáveis a vários outros que já se
encontram em operação, a combinação entre sua imensa câmera e seu amplo campo de
visão possibilitará cobrir todo o céu noturno a cada três dias. O Vera Rubin produzirá 200
mil imagens por ano, que significam 1,28 petabytes de dados (sem compressão). Além
disso, a previsão é que os sistemas automáticos de análise de imagens do telescópio
devam produzir entre 1 milhão e 10 milhões de alertas de transientes por noite de
observação. Esse volume de dados é muito maior do que a capacidade de revisão por
seres humanos seria capaz de executar.
Os dois telescópios gêmeos de 4 m de diâmetro — o Mayall, em Kitt Peak, e o Victor
Blanco, em Cerro Tololo — e o BOK, de 2,3 m de diâmetro, também localizado em Kitt
Peak, estão em reforma para tornar-se telescópios dedicados. O empreendimento foi
batizado de DESI (Dark Energy Spectroscopic Instrument). Eles farão nos próximos anos
um extenso levantamento espectral de galáxias e quasares distantes. O trabalho cobrirá
cerca de um terço do céu noturno (evitando a região da Via Láctea), devendo observar
algo em torno de 1,6 bilhão de objetos. O levantamento poderá fornecer preciosas
informações sobre a distribuição e características da matéria escura e da energia escura.
Outros dois programas similares são o Prime Focus Spectograph, do Subaru Telescope,
e o J-PAS (Javalambre Physics of the Accelerating Universe Astrophysical Survey), que
utiliza um telescópio de 2,5 m de diâmetro instalado na Espanha. Esses dois projetos têm
colaboração do Brasil.
224
Os exemplos citados são apenas alguns dos projetos de grande porte que estão em
andamento ou em vias de entrar em operação. O já mencionado projeto Pan-STARRS
produz diariamente um volume de dados imenso. Nos próximos anos vamos ver os três
telescópios gigantes entrando em operação, além do radiotelescópio SKA, que fornecerá
um volume de dados ainda maior que o Vera Rubin. A eles vão se somar novos projetos
em tecnologias como rádio e altas energias, entre outras. Estamos em uma era em que
os dados coletados em pesquisas são extremamente abundantes e há que se encontrar
formas de lidar com todo esse volume.
Uma primeira ferramenta quando se trabalha com essa quantidade enorme de dados
é o uso de computadores, que já auxilia inicialmente na catalogação, de acordo critérios
adotados pelo grupo de pesquisa. Assim, como primeira abordagem, o grupo do GAIA
pode criar uma rotina no programa, onde cada fonte analisada pode, por exemplo, ser
catalogada por suas coordenadas, o que já permite que se organize um grande banco de
dados com cada objeto observado.
Em um segundo passo, é
possível utilizar um software que
execute algum tipo de análise
nos dados coletados em uma
observação, por exemplo, e
faça trabalhos que possam
ajudar o grupo de pesquisas.
Um exemplo são os grupos de
busca de supernovas, asteroides
e transientes que vimos no
capítulo anterior. Todos utilizam
softwares que auxiliam o trabalho
de pesquisa (ver figura 167). Em
todos os casos, temos um banco Figura 167 - Vista de uma das salas de operações do VLT.
de dados com imagens de regiões O trabalho dos astrônomos está cada vez mais associado
do céu, que são comparadas com ao uso de computadores e softwares especializados para
imagens captadas pelos grupos lidar com um número sempre crescente de dados coletados.
de pesquisa. Quando encontra Foto: Francisco Conte.
alguma alteração na imagem obtida, o software a seleciona para que possa ser analisada
em maior profundidade por algum membro do grupo, que vai confirmar se realmente
mostra o aparecimento de uma supernova ou se houve algum problema com a imagem,
ou um asteroide cruzou o campo, ou um raio cósmico comprometeu a observação etc.
Esse software pode eventualmente ser aperfeiçoado para que já elimine os eventos mais
comuns e o trabalho de revisão fique cada vez mais refinado. Mas isso ainda não é o
suficiente.
A ideia por trás do machine learning, termo mais utilizado que “aprendizado de
máquina” ou “aprendizado automático”, é desenvolver um algoritmo que permita que
o software aprenda a partir de sua própria operação. O machine learning utiliza um
algoritmo baseado no raciocínio indutivo, que extrai regras e padrões a partir de um grande
conjunto de dados. Como vimos, a pesquisa astronômica é uma excelente produtora

225
de grandes conjuntos de dados. O machine learning é utilizado em várias aplicações
práticas, como no reconhecimento de fala, reconhecimento de escrita, reconhecimento
óptico de caracteres e em diagnósticos médicos, por exemplo. Ele já faz parte de nossa
vida cotidiana, embora poucas pessoas se deem conta disso.
Existem três tipos de problemas ou tarefas em machine learning. O primeiro é chamado
de aprendizado supervisionado, em que o programa recebe exemplos de entradas e
saídas desejadas, de maneira que o computador compreenda uma regra geral para
seu trabalho. O segundo é o aprendizado não supervisionado, em que nenhum tipo de
etiqueta é fornecido ao algoritmo de aprendizado, para que o mesmo encontre sozinho
seus procedimentos, podendo constituir todo o processo de atuação ou apenas uma
parte do trabalho geral. Por fim, temos o aprendizado por reforço, em que o programa
atua sozinho em um trabalho dinâmico, no qual deve desempenhar um determinado
objetivo (por exemplo, guiar um veículo por um percurso), e algum tipo de resposta é
fornecido regularmente ao programa, relativo a seus erros e acertos. Todos esses tipos de
tarefa são aplicáveis em astronomia, dependendo do tema de estudo. Machine learning e
estatística são campos intimamente ligados.
Existem várias abordagens distintas que podem ser utilizadas em machine learning.
A primeira é conhecida como aprendizado baseado em árvores de decisão, em que
uma sequência de decisões realizadas pelo algoritmo mapeia as observações sobre
determinado item, atribuindo a esse item um valor objetivo específico. A segunda é o
aprendizado por regras de associação, que se utiliza do algoritmo para encontrar relações
importantes em uma grande base de dados, com muitas possibilidades de aplicação em
projetos de astronomia que geram uma quantidade imensa de dados. As redes neurais
artificiais, em que um algoritmo de aprendizado é baseado na estrutura e em aspectos
funcionais de uma rede neural biológica, funcionam como neurônios artificiais. Essa
estratégia pode ser levada ao extremo, em abordagens do tipo aprendizado profundo,
ou deep learning, que consiste em múltiplas camadas atuando em uma grande rede
neural para tentar emular o funcionamento do cérebro humano. Essas são apenas
algumas formas de abordagem utilizadas em machine learning, um campo em franco
desenvolvimento.
No capítulo anterior comentamos a experiência do Galaxy Zoo, que contava com
colaboradores cidadãos, pois na época (2007) os computadores não conseguiam
identificar tão bem galáxias por sua morfologia quanto os seres humanos (depois de
receber um treinamento básico). Pois apenas três anos após o início do Galaxy Zoo,
um artigo assinado por Adam Gauci, Kristian Zarb Adami e John Abela, da Universidade
de Malta, expunha o resultado de uma pesquisa feita com alguns algoritmos dedicados
à identificação morfológica de galáxias, com 98,4% de acerto para galáxias elípticas,
96,67% para galáxias espirais e 87,50% para galáxias irregulares, estrelas e outros
objetos, já superando a capacidade dos humanos.
Outra aplicação interessante foi um algoritmo de machine learning conseguir identificar
as estrelas que pertenciam a um aglomerado aberto, em um campo bastante povoado
de estrelas, tendo recebido apenas os dados relativos a um pacote de imagens feitas
com os filtros U-B-V-R-I (ultravioleta, azul, visual, vermelho e infravermelho). Isso mesmo
sem ele ter recebido qualquer tipo de aprendizado ou informação na área de formação
226
e evolução estelar. A quantidade imensa de dados permitiu que o algoritmo encontrasse
padrões e conseguisse identificar grupos que possuíam características similares.
Nos próximos anos certamente vamos testemunhar a manutenção dessa sequência
de descobertas e novos conhecimentos. Da mesma forma que não sabíamos se existiam
outros planetas fora do sistema solar e hoje conhecemos milhares, nos próximos anos
talvez encontremos as respostas para questões importantes, tais como se existe vida
fora da Terra, ou qual a natureza real da matéria escura e da energia escura. Mas,
frente a essas respostas, com certeza surgirão questões ainda mais profundas e mais
complexas, que nem sequer sabemos que existem (ver figura 168). Ainda vamos nos
maravilhar muito com o que a astronomia tem para nos oferecer nas próximas décadas.
Esperemos, pois.

Figura 168 - Ilustração que sintetiza grande parte do conhecimento que temos do nosso universo. Na
imagem vemos uma linha do tempo, com o Big Bang à esquerda, a inflação, a radiação cósmica de fundo de
micro-ondas (a visão mais antiga que temos do universo) e depois a aceleração da expansão do universo.
Quais serão as respostas para nossas questões mais profundas? Fonte: Wikimedia Commons.

227
apêndice 1
Apêndice 1 – Paralaxe e distâncias
Paralaxe é a mudança aparente de posição de um objeto quando se altera o
local da observação. Uma experiência comum para entender como a paralaxe
funciona consiste em esticar o braço e apontar algum objeto distante com o dedo
e observar que, ao se fechar alternadamente os olhos, a ponta do dedo se move
de maneira aparente em relação ao fundo. Se o observador aproximar o dedo de
seu rosto e repetir o procedimento, vai perceber que o deslocamento aparente
do dedo em relação ao fundo imóvel é maior do que o que ocorreu com o braço
esticado, pois a distância entre o objeto observado e os pontos de observação
diminuiu.
Na prática, a paralaxe pode ser utilizada para efetuar cálculos de distância.
Quando se conhece a distância entre os dois pontos de observação e o ângulo
de deslocamento aparente, ou ângulo de paralaxe, é possível calcular a distância
do objeto através da trigonometria.
Na astronomia utilizamos a paralaxe para calcular a distância de planetas ou
da Lua, bastando fazer duas medições simultâneas em pontos suficientemente
distantes na superfície da Terra.
Para o cálculo da paralaxe de estrelas, o método é mais complexo: normalmente
são realizadas duas observações com seis meses de diferença entre elas, pois
nesse caso os dois pontos de observação estarão separados por duas vezes o
raio orbital da Terra, ou 300 milhões de km. Com essa técnica, Friedrich Bessel
conseguiu medir pela primeira vez a distância de uma estrela (ver figura 169).

Figura 169 - Paralaxe estelar: a estrela próxima parece se mover em relação às estrelas distantes,
quando observada com seis meses de diferença. Conhecendo-se a distância entre os pontos de
observação e o ângulo do deslocamento, é possível estimar a distância da estrela. Desenho:
Francisco Conte.
A escala gigantesca do universo e as imensas distâncias envolvidas dificultam
o uso das unidades com que estamos acostumados, como o metro, ou a milha,
por exemplo. A distância entre a Terra e a Lua é de aproximadamente 380 mil
km, mas quando falamos dos outros membros do Sistema Solar as distâncias
são muito maiores. Seria pouco prático dizer que a distância média entre a Terra
e Júpiter é de cerca de 778 milhões de km. Assim, para o Sistema Solar foi
adotada uma medida chamada de Unidade Astronômica, ou UA, que equivale à
distância média da Terra ao Sol, ou aproximadamente 150 milhões de km. Assim,
podemos dizer que a distância média da Terra a Júpiter é de 5,2 UA, ou 5,2 vezes
a distância entre a Terra e o Sol. Fica muito mais fácil de compreender as escalas
envolvidas.
228
apêndice 1
Mas mesmo a Unidade Astronômica é inadequada para entendermos as
distâncias estelares. A estrela mais próxima do Sistema Solar é Alfa Centauri,
um sistema triplo. A distância entre Alfa Centauri e o Sol é de 276.363 UA, o
que torna muito difícil a compreensão e aplicações práticas desse dado. Assim,
foi proposta uma nova unidade, o ano-luz, para podermos compreender as
distâncias estelares. O conceito de ano-luz é simples de entender: é a distância
percorrida pela luz, que se desloca a cerca de 300 mil km por segundo, durante
um ano, o que dá aproximadamente 9,5 trilhões de km ([Link].000 km). A
distância de Alfa Centauri até o Sol é de 4,37 anos-luz. Ou seja, a luz que sai de
Alfa Centauri demora mais de quatro anos para chegar até nós. Caso ela parasse
de brilhar neste instante demoraria mais de quatro anos para percebermos o
ocorrido. Quando olhamos para as estrelas, olhamos para o passado, como
elas aparentavam ser há alguns anos, dependendo da distância. O Sol, em
comparação, está localizado a apenas 8 minutos-luz, ou seja, a luz do Sol demora
aproximadamente 8 minutos para chegar até a Terra, porque a distância da Terra
ao Sol é de 150 milhões de km. A luz da Lua demora pouco mais de 1 segundo,
pois a distância média entre a Terra e a Lua é de 380.000 km.
No seu trabalho diário, os astrônomos costumam utilizar outra medida para se
referir às distâncias estelares: o parsec (abreviado como pc). Para entendermos o
parsec é interessante observarmos novamente a figura 169. Nela vemos a medida
do ângulo de paralaxe de uma estrela, a partir de dois pontos de observação
localizados nos extremos da órbita terrestre, afastados aproximadamente 300
milhões de km (duas unidades astronômicas, ou duas vezes a distância entre a
Terra e o Sol). O parsec é, por definição, a distância de um objeto cuja paralaxe
seja um segundo de arco, ou 1”. Um segundo de arco equivale a um grau dividido
por 60, que chamamos de minuto de arco, e depois dividido novamente por 60,
ou seja, um ângulo muito pequeno. A distância correspondente ao ângulo de
paralaxe de 1” é de aproximadamente 3,26 anos-luz e essa é a medida de 1
parsec. Como vimos anteriormente, mesmo a estrela mais próxima do Sol, Alfa
Centauri, está mais distante do que isso, o que implica em um ângulo de paralaxe
menor que 1 segundo de arco e distância de 1,34 pc.
Quando falamos em galáxias vamos enfrentar distâncias muito maiores, da
ordem de milhões ou bilhões de anos-luz. Nesses casos os astrônomos costumam
expressar as distâncias em megaparsecs (Mpc), ou seja, milhões de parsecs, e
gigaparsecs (Gpc), bilhões de parsecs.

229
apêndice 2
Apêndice 2 – Magnitudes
O sistema de magnitudes foi criado na Grécia Antiga pelo astrônomo Hiparco,
com o objetivo de avaliar o brilho aparente de cada estrela. Infelizmente o trabalho
original não chegou até os nossos dias, mas através da obra de Ptolomeu tivemos
acesso a ele. A escala de Hiparco é invertida, com as estrelas mais brilhantes
sendo classificadas como de primeira magnitude e as mais apagadas, no limite
da visibilidade do olho humano, classificadas como de sexta magnitude.
Em 1856, Norman Pogson formalizou o sistema de magnitudes, mantendo o
sistema invertido criado por Hiparco, que já era muito popular entre os astrônomos.
Pogson conseguiu estimar a diferença real de luminosidade de cem vezes para
cinco magnitudes. Dessa forma, ele concluiu que nosso olho funcionava de
maneira logarítmica, com uma razão de 2,512 vezes para a diferença de uma
magnitude.
A escala de Hiparco era discreta, com as estrelas recebendo apenas valores
inteiros, o que implicava, em muitos casos, que estrelas classificadas com a mesma
magnitude possuíssem brilhos aparentes diferentes. Já a escala de magnitudes
moderna, definida por Pogson, é contínua, com as magnitudes podendo assumir
valores fracionários, permitindo estimar com precisão muito maior as diferenças
de brilho entre as estrelas.
Pogson considerou a estrela Vega como a estrela de referência, conferindo a
ela a magnitude zero. A partir dessas determinações, algumas poucas estrelas
que eram mais brilhantes que Vega passaram a ostentar magnitudes negativas.
Como exemplo clássico temos Sirius, a mais brilhante estrela do céu noturno,
com magnitude -1,46. O Sol apresenta uma magnitude aparente de -26,74 e
a lua cheia de -12,9. Vênus na fase de máximo brilho pode chegar a -4,47. É
importante notar que aqui estamos tratando de magnitudes aparentes, ou seja,
quão brilhante é um objeto para um observador na Terra. Existem casos em que
a magnitude é variável: a estrela Mira pode ir de magnitude 2 até 10, ou seja,
dependendo da época ela pode ser uma estrela brilhante ou ficar invisível a olho
nu.
Um conceito interessante utilizado para comparar a luminosidade das estrelas,
propriedade intrínseca a elas, é a magnitude absoluta. Nesse caso, realiza-se
um cálculo para se estimar o brilho de qualquer estrela para a distância de 10
parsecs (aproximadamente 32,6 anos-luz). Assim, uma estrela próxima como
Sirius teria uma magnitude absoluta de 1,42 (2,88 magnitudes menos brilhante
que sua magnitude aparente) e uma estrela distante como Rigel, com magnitude
aparente 0,12, teria uma magnitude absoluta de -6,7, mesmo ela sendo uma
estrela brilhante para um observador terrestre, muito mais luminosa que Sirius. A
Estrela de Barnard, que se situa a apenas seis anos-luz do Sol (Só o sistema Alfa
Centauri é mais próximo), é tão pouco luminosa que sua magnitude aparente é
de 9,5, sendo invisível a olho nu e possuí uma magnitude absoluta de 13,2.

230
apêndice 2
Existe também o conceito de magnitude limite, que é o objeto menos brilhante
que se consegue observar em uma determinada situação. Em locais de céu escuro,
numa noite sem Lua, o olho humano enxerga até magnitude 6, mas na Avenida
Paulista, em São Paulo, dificilmente observará uma estrela com magnitude maior
que 3. Um telescópio de 8 m, como o Subaru, consegue observar objetos com
magnitude 27,7, e o Hubble Space Telescope até magnitude 31,5.

231
apêndice 3
Apêndice 3 – Características dos telescópios
Os telescópios ópticos são instrumentos que funcionam a partir de propriedades
básicas da luz: refração e reflexão. Telescópios refratores possuem como
elemento primário de captação de luz as lentes. Já os telescópios refletores
utilizam, para essa função, espelhos. No imaginário popular o telescópio é um
instrumento capaz de ampliar as imagens de objetos distantes. Na verdade,
o telescópio tem três funções básicas: aumentar o poder de captação de luz,
ampliar o tamanho das imagens observadas e aumentar a resolução angular da
imagem (melhorar a definição da imagem). Para aplicações científicas, e mesmo
na astronomia amadora, a ampliação da imagem é, na maioria das vezes, a
função menos importante. A seguir veremos algumas dessas características:
Coleta de luz – A capacidade de coleta de luz de um telescópio é simples de
entender e está associada à sua área de captação de luz. A coleta de luz cresce
com a área da lente objetiva ou espelho primário do telescópio, que normalmente
são circulares. Assim, se triplicarmos o diâmetro do espelho primário de um
telescópio, seu poder de captação de luz aumentará nove vezes. O diâmetro do
elemento primário de um telescópio é também chamado de abertura.
Se compararmos um binóculo que possui duas lentes de diâmetro de 100 mm
com um telescópio com uma lente de mesmo diâmetro, constataremos que o
binóculo capta o dobro da quantidade de luz do telescópio, mas se compararmos
esse mesmo telescópio com outro que possua uma lente com o dobro do diâmetro
(200 mm), o poder de captação de luz do segundo instrumento será quatro vezes
maior (ver figura 170).

Figura 170 - Desenho que apresenta em escala a lente primária de um telescópio de 100 mm,
as duas lentes de um binóculo com lentes com diâmetro de 100 mm e a lente primária de um
telescópio de 200 mm de diâmetro. A área de coleta de luz do binóculo é o dobro da do telescópio
de 100 mm. O telescópio de 200 mm tem uma área de coleta de luz quatro vezes maior que o
telescópio de 100 mm. Desenho: Francisco Conte.

Resolução angular – Quando a luz gerada por uma fonte pontual passa por
uma abertura, como a boca de um telescópio, ao focar-se em um plano vai ser
formada uma imagem com a aparência de um ponto impreciso circundado por
fracos anéis concêntricos, como em um alvo. Essa imagem é chamada de disco
de Airy, pois foi descrita pela primeira vez por George Airy. Essa propriedade da

232
apêndice 3
luz impõe um limite de definição da imagem captada por qualquer instrumento
óptico e pode ser expressa, de maneira simplificada, a partir da seguinte equação:
Pr = 120
D
onde: Pr é o poder resolutivo (resolução angular) em segundos de arco e D é o
diâmetro do elemento primário em milímetros.
A resolução será expressa em segundos de arco. Nessa equação, quanto
maior o diâmetro da lente primária, ou espelho primário, menores serão os
detalhes observados, e portanto melhor será a resolução angular. É importante
lembrar que esse limite de resolução é teórico, pois a turbulência atmosférica
pode comprometer o ganho de definição pelo aumento do diâmetro. Observando-
se a figura 168, podemos fazer algumas ponderações: em relação ao telescópio
com lente de 100 mm, o binóculo vai apresentar uma melhor resolução angular,
mas apenas no sentido horizontal – não haverá melhoria na definição da imagem
no eixo vertical. Já no telescópio com 200 mm de diâmetro haverá um ganho de
resolução em todas as direções, mas enquanto a coleta de luz aumenta com a
área, ou seja, com o quadrado do diâmetro, a resolução aumenta apenas em
razão direta do diâmetro: no caso dos dois telescópios da figura 170, do menor
para o maior a resolução angular dobra, enquanto a área de coleta aumenta
quatro vezes.
Aumento da imagem – Em um telescópio, o aumento da imagem depende da
relação entre a distância focal do espelho primário, ou lente, e a distância focal
da lente ocular utilizada. Distância focal é a distância entre o elemento óptico
(espelhos primários, lentes etc.) e o local onde é formado o foco desse elemento
(ver figura 171). A fórmula para o cálculo do aumento é a seguinte:

Figura 171 - Distância focal de um telescópio: a distância entre o elemento primário (no caso um
espelho) e o ponto onde é formado o foco. Desenho: Francisco Conte.

233
apêndice 3
A= F
f
onde: A = aumento da imagem; F = distância focal da objetiva; f = distância focal
da ocular (as medidas de F e f devem ser expressas na mesma unidade).
Assim, para um telescópio que possui um jogo de oculares, é possível variar o
aumento da imagem observada. Imaginemos um telescópio com distância focal
de 1000 mm, com duas oculares: uma com distância focal de 8 mm e outra com
distância focal de 40 mm. Ao utilizar a primeira ocular o aumento será de 125
vezes, enquanto a segunda proporcionará um aumento de 25 vezes.

234
apêndice 4
Apêndice 4 – Tipos de telescópios
Os telescópios se dividem em dois tipos básicos: os refratores, que utilizam
como elemento principal de sua óptica uma lente, ou conjunto de lentes, e os
refletores, que utilizam como elemento principal um espelho. Existem também
os telescópios catadióptricos, que combinam os dois sistemas, usando uma
lente corretora e um espelho como elementos fundamentais de sua óptica. Além
disso, esses tipos principais são divididos em vários subtipos, que possuem
ainda variações que aumentam muito a gama de instrumentos utilizados por
profissionais e amadores. Abaixo apresentaremos uma descrição dos tipos
principais de telescópios disponíveis, comentando, sempre que possível, as suas
aplicações e utilidades.
Na figura 6 (Capítulo 1, pág. 17), podemos ver um corte esquemático dos dois
tipos básicos de telescópios refratores. Os dois desenhos mostram instrumentos
com lentes de mesmo diâmetro. O desenho de cima é o de um telescópio do tipo
usado por Galileu, o de baixo mostra um instrumento do tipo desenvolvido por
Kepler. Podem-se perceber as diferenças básicas entre os dois tipos: o telescópio
galileano é mais compacto, enquanto o kepleriano é maior. Telescópios do tipo
kepleriano possuem, portanto, uma distância focal maior e, por conseguinte, um
aumento maior da imagem. Além disso, por ocorrer a inversão dos raios luminosos
no interior do instrumento, o telescópio kepleriano produz imagens invertidas,
ou seja, de cabeça para baixo (o que não é um problema em observações
astronômicas). Telescópios refratores são, nos tempos atuais, utilizados quase
exclusivamente por astrônomos amadores, e praticamente qualquer modelo
disponível no mercado é do tipo kepleriano. Nos instrumentos de grande porte,
as lentes tendem a se deformar durante as observações, pois todo o seu enorme
peso é suportado apenas pelas bordas. Além disso, a espessura muito grande do
bloco de vidro absorve grande parte da luz coletada.
Para o caso dos telescópios refletores, a variedade de tipos é muito maior.
Além do newtoniano, que vimos anteriormente, existem os tipos gregoriano
e Cassegrain, que são mais utilizados em telescópios de pesquisa, ou por
amadores avançados. O telescópio gregoriano foi o primeiro desenho viável para
a construção de um telescópio refletor, mas seu idealizador, James Gregor, não
conseguiu construir um instrumento antes de Newton. O sistema inventado por
Gregor utilizava um espelho primário côncavo, com perfil parabólico, possuíndo
um orifício na sua região central. A luz que entra pelo tubo óptico é refletida para
um espelho secundário de pequenas dimensões, também côncavo e com perfil
elipsoidal; este reflete novamente a luz, que passa então pelo orifício do espelho
principal, onde é instalada a ocular ou algum tipo de detector. No caminho que a
luz percorre entre o espelho principal e o secundário, o feixe de luz é invertido,
pois o secundário é instalado após a formação do foco, como pode ser visto na
ilustração. Esse fato faz com que a imagem não se forme invertida, como em
outros tipos de telescópios refletores (newtoniano e Cassegrain).
Os telescópios do tipo Cassegrain, assim como os do tipo gregoriano, também
possuem um orifício na parte central do espelho principal. A luz, que entra pelo
235
apêndice 4
tubo óptico, é refletida pelo espelho principal, côncavo, com perfil parabólico;
atinge o espelho secundário, convexo, que possui um perfil hiperbólico, e é
direcionada para o orifício do espelho principal, onde são instalados a ocular
ou algum tipo de detector. O Cassegrain é de longe o tipo de telescópio mais
utilizado em observatórios profissionais e é também muito popular entre os
astrônomos amadores. A popularidade dos Cassegrains pode ser atribuída a
duas características: são mais compactos que os gregorianos e conseguem
observar um maior campo no céu, comparando-se espelhos de mesmo diâmetro
(ver figura 172).

Figura 172 - Desenho de quatro esquemas ópticos de telescópios refletores: acima, à esquerda,
um telescópio gregoriano; abaixo, à esquerda, um telescópio Cassegrain; acima, à direita, um
telescópio com foco Coudé e abaixo, à direita, um telescópio com foco Nasmyth. Desenho:
Francisco Conte.

Para instrumentos profissionais existem dois tipos de telescópios com desenhos


ópticos mais complexos, que são o Coudé e o Nasmyth. O foco do tipo Coudé
é sempre utilizado em associação com telescópios com montagens equatoriais,
que veremos no próximo apêndice. O Coudé tem como característica um design
semelhante ao dos telescópios do tipo Cassegrain, mas seu espelho primário
não possui um orifício em seu centro, pois um espelho plano inclinado em um
ângulo de 45º, localizado entre os espelhos primário e secundário, desvia o feixe
de luz para a lateral do instrumento, como em um telescópio newtoniano. Na
área externa do telescópio, um segundo espelho plano inclinado desvia o feixe
de luz para a parte posterior do aparelho, exatamente no alinhamento do eixo
primário do telescópio. Dessa forma, mesmo com o aparelho em movimento, o
foco vai ser formado sempre no mesmo local. Os telescópios do tipo Nasmyth,
por sua vez, são usados para proporcionar um foco estático para telescópios
com montagem do tipo altazimutal. A configuração é mais simples que a do tipo
Coudé, e se assemelha à solução encontrada nos telescópios newtonianos. O
feixe de luz que é refletido pelo espelho secundário é desviado para a lateral do
236
apêndice 4
instrumento por um espelho plano inclinado a 45º, o que permite que os sistemas
de captação de imagens sejam instalados em um suporte ao lado do telescópio.
Isso viabiliza a instalação de pesados equipamentos de captação de imagens
sem comprometer o equilíbrio do conjunto. Esse espelho pode ser ainda girado
para o lado oposto, permitindo a instalação de dois módulos distintos de sensores
(ver figura 172). Essa configuração é muito utilizada nos telescópios de pesquisa
de nova geração.
Na figura 173 podemos ver dois tipos de telescópios catadióptricos, também
conhecidos como telescópios compostos: à esquerda um Schmidt-Cassegrain e
à direita um Maksutov. Os telescópios do tipo catadióptrico surgiram apenas a
partir da década de 1930, e usam tanto lentes como espelhos como elementos
principais de sua óptica. Os telescópios do tipo Schmidt-Cassegrain utilizam uma
placa corretora (lente), um espelho primário côncavo de perfil esférico e um espelho
secundário hiperbólico, em um arranjo bastante similar ao dos Cassegrains. Os
telescópios que adotam essa configuração são muito compactos e se tornaram
populares entre astrônomos amadores avançados, posto que são oferecidos por
vários fabricantes comerciais.

Figura 173 - Esquemas ópticos de dois telescópios catadióptricos: à esquerda um Schmidt-


-Cassegrain e à direita um Maksutov. Desenho: Francisco Conte.

Os telescópios do tipo Maksutov, também bastante utilizados por astrônomos


amadores avançados, têm configuração óptica similar à dos telescópios do tipo
Cassegrain, mas, como característica fundamental de projeto, todos os seus
elementos ópticos são esféricos. O feixe de luz entra pela boca do telescópio,
onde há uma placa corretora, que é uma lente côncava de perfil esférico (nas
duas superfícies) e é direcionado para o final do tubo óptico, onde existe o
espelho primário, também côncavo e esférico. Este reflete a luz na direção do
centro da parte posterior da placa corretora, que é aluminizado e funciona como
um espelho, direcionando o feixe de luz para o orifício no centro do espelho
primário, onde se instalam as oculares ou sensores de captação de imagem. Os
telescópios do tipo Maksutov são muito compactos, sendo tecnicamente quase
impossível construir telescópios desse tipo com espelhos primários de grandes
dimensões.

237
apêndice 5
Apêndice 5 – Montagens
Logo nos primórdios da era dos telescópios, ficou claro que algum tipo de
suporte era necessário para auxiliar os astrônomos em suas observações.
No início as exigências para uma boa montagem (nome dado a esse tipo de
mecanismo) eram muito simples, tipicamente um tripé com algum tipo de presilha
que permitisse ao astrônomo apontar o seu instrumento para qualquer direção
no céu.
No século XIX, com a introdução das chapas fotográficas, o papel das
montagens foi radicalmente alterado, pois, como mencionado anteriormente, a
fotografia tem a capacidade de acumular a luz dos objetos através de exposições
prolongadas. A partir desse momento, as montagens deveriam ser capazes de
acompanhar precisamente o movimento de um objeto no céu. A única solução
possível naquela época era a utilização de montagens do tipo equatorial, e essa
situação se manteve inalterada por aproximadamente um século, até o surgimento
das primeiras montagens do tipo altazimutal controladas por computadores, na
década de 1970. A seguir vamos fazer uma pequena descrição desses dois tipos
de montagens.
Montagens equatoriais são aquelas que possuem um eixo (eixo primário)
alinhado com o eixo de rotação da Terra. Dessa forma, depois de localizar
determinado objeto no céu, basta girar o eixo primário na velocidade correta,
e o telescópio fará o acompanhamento preciso do alvo por longos períodos de
tempo. Isso pode ser realizado com a introdução de um único motor. A utilização
de montagens desse tipo permitiu a observação de objetos celestes de muito
pouco brilho. Na figura 174 vemos uma montagem equatorial do tipo germânico
(à esquerda), na qual o eixo primário, que está alinhado com o polo celeste,
aparece representado pela linha tracejada vermelha. O telescópio é instalado
em um dos lados da montagem, e no lado oposto é instalado um contrapeso

Figura 174 - Três tipos diferentes de montagens equatoriais: à esquerda, equatorial germânica;
no centro, equatorial de garfo e, à direita, equatorial de eixo cruzado inglês. Desenho:
Francisco Conte.
que equilibra o conjunto. Esse tipo de montagem foi utilizado em profusão em
telescópios profissionais no final do século XIX, a era do auge e ocaso dos
grandes refratores. Vemos montagens desse tipo nos observatórios Yerkes, Lick,
238
apêndice 5
de Meudon e em muitos outros. Para instrumentos de maior porte, as montagens
equatoriais do tipo germânico ficariam muito pesadas e caras, tornando-se
impraticáveis.
Existem vários tipos diferentes de montagens equatoriais. Ainda na figura 174,
podemos ver mais duas soluções: à esquerda uma montagem do tipo “garfo” e
à direita um exemplar do tipo eixo cruzado inglês, utilizada no telescópio refletor
Harlan J. Smith, do Observatório McDonald, com 2,70 m de diâmetro. Na figura
175 vemos mais três exemplos de montagens do tipo equatorial, todas variações
do que chamamos de equatorial de berço. A da esquerda é muito similar àquela
utilizada pelo telescópio Hooker, de 2,50 m de diâmetro, localizado em Monte
Wilson, na Califórnia. Esse tipo específico de montagem apresenta um problema
prático, pois o posicionamento do pivô que permite o giro do eixo primário
impede a observação das áreas polares. Na variação do centro, chamada de
“equatorial de ferradura”, esse problema é solucionado: o espaço vazio no centro
da “ferradura” permite a observação dessas áreas. Esse tipo de montagem foi
utilizado no telescópio Hale, em Monte Palomar. O último tipo é uma variação do

Figura 175 - Três tipos de montagens equatoriais de berço: com pivô (que impede a observação
da área polar), ferradura e variação da ferradura. Desenho: Francisco Conte.

tema da ferradura.
Montagens do tipo altitude-azimute, ou altazimutal, são muito mais simples
e compactas que as equatoriais. O telescópio é guiado por dois eixos, um que
permite o giro azimutal, ou seja, em todas as direções desde o norte até o sul, e
outro eixo, independente do primeiro, que controla o ângulo de altura durante a
observação (ver figura 176). Esse tipo de montagem é muito usado por astrônomos
amadores, especialmente devido a uma variação desenvolvida por John Dobson,
conhecida como dobsoniana. No caso dos instrumentos profissionais, ele não
era utilizado até meados dos anos 1970, quando o advento de computadores
permitiu que se controlassem e coordenassem os três motores necessários ao
acompanhamento de objetos no céu: um para o eixo de altitude, outro para o eixo
azimutal e um terceiro para girar a câmera, acompanhando o movimento de giro
do campo celeste. Por ser um tipo de montagem muito mais compacta e barata
que as equatoriais, é utilizada por praticamente todos os telescópios de médio e
grande porte construídos a partir de 1980. Para ter ideia dessas diferenças, basta
perceber que a montagem equatorial que opera o telescópio Hale em Monte
239
apêndice 5
Figura 176 - À esquerda vemos uma montagem do tipo altazimutal e à direita um círculo meridiano.
Desenho: Francisco Conte.
Palomar, com 5 m de diâmetro, é muito maior que as que operam os telescópios
Keck, no Havaí, com 10 m de diâmetro.
Apesar de suas vantagens, as montagens do tipo altazimutal possuem também
algumas limitações. Mesmo com uma tecnologia avançada de controle de guiagem,
elas são incapazes de acompanhar de maneira gradual objetos localizados
próximos ao zênite, impedindo a realização de observações, justamente na área
do céu em que a influência da atmosfera é menor e as imagens obtidas possuem
maior definição angular. Mesmo assim, as vantagens que esse sistema possui
compensam as limitações.
Um tipo de montagem bastante específico, que hoje em dia está caindo em
desuso, é o círculo meridiano. Esse tipo de montagem era utilizado por telescópios
que trabalhavam apenas com astrometria (ver figura 176). Nas montagens do tipo
círculo meridiano, o conjunto só se movimenta em elevação, com o alinhamento
azimutal fixo na direção do meridiano local (direção norte-sul). Hoje, porém, o
desenvolvimento dos computadores permite a realização de precisas medições
astrométricas sem a necessidade da observação ser realizada no sentido do
meridiano local.
Mais recentemente encontramos dois tipos de montagens desenvolvidos para
instrumentos específicos e propósitos especiais. No Hobby-Eberly Telescope e
no seu gêmeo do hemisfério sul, o SALT, encontramos um tipo de montagem com
inclinação fixa e movimentação apenas no sentido azimutal. Essa configuração
permite a observação de 70% do céu noturno, com um custo de produção muito
menor que uma montagem do tipo altazimutal, possibilitando a construção de
telescópios gigantes com um custo muito baixo.

240
apêndice 5
Por último, vamos mencionar as montagens giratórias utilizadas em telescópios
de espelhos líquidos. Esse tipo de telescópio, empregado durante um período por
algumas instituições, usa o elemento mercúrio em uma plataforma giratória, cuja
velocidade acaba por garantir que o metal líquido assuma um perfil parabólico,
excelente para observações astronômicas, por ter um custo muito inferior ao de
um espelho convencional (ver figura 177). O conceito tinha seus problemas, pois
obrigava os operadores a usar máscaras para evitar intoxicação pelos vapores
de mercúrio, que também tinha a tendência a oxidar com o passar do tempo,
exigindo procedimentos de purificação periodicamente. Além disso, o telescópio
de espelhos líquidos só pode observar a região zenital. Talvez por essas razões o
uso desse tipo de instrumento está cada vez mais raro, com vários dos telescópios
existentes sendo desativados.

Figura 177 - Desenho que ilustra dois tipos de montagens desenvolvidos para baratear o custo
de construção de telescópios ópticos: À esquerda vemos uma montagem azimutal com inclinação
fixa, utilizada no Hobby-Eberly Telescope e no South African Large Telescope, que apesar das
limitações mostrou um desempenho muito satisfatório, continuando em operação. À direita
vemos uma montagem típica para a utilização em telescópios de espelhos líquidos, que utilizam
o metal mercúrio como elemento óptico. Esta parecia ser uma opção promissora para o uso em
astronomia, mas nos últimos anos, temos observado a paulatina desativação da maioria dos
instrumentos deste tipo. Desenho: Francisco Conte.

241
apêndice 6
Apêndice 6 – Diagrama HR
O Diagrama HR é provavelmente a mais importante ferramenta utilizada para
compreender os processos de evolução estelar. Nele podemos relacionar a
distribuição das estrelas em função de sua temperatura (eixo horizontal, crescendo
da direita para a esquerda) e de sua luminosidade (eixo vertical, crescendo de
baixo para cima).
A primeira constatação
que fazemos quando
coletamos dados de
um grupo bastante
numeroso de estrelas,
como uma galáxia, é que
aproximadamente 90%
do total de estrelas vai se
concentrar em uma faixa
que cruza em diagonal
o diagrama, indo do
canto superior esquerdo
(estrelas quentes e
luminosas) até o canto
inferior direito (estrelas
frias e pouco luminosas). A
essa faixa damos o nome Figura 178 - Desenho típico de um Diagrama HR, onde podem
de Sequência Principal. ser observadas as principais subdivisões de estrelas: Sequência
Hoje sabemos que ela Principal; ramo das gigantes; ramo das supergigantes e anãs
corresponde a uma fase brancas. Desenho: Francisco Conte.
evolutiva das estrelas, em que elas passam a maior parte de sua vida, e durante
a qual elas estão realizando a fusão de hidrogênio, com produção de hélio no
núcleo da estrela. Além disso, a Sequência Principal apresenta uma relação com
as massas das estrelas que a compõem: as estelas com mais massa se localizam
na parte superior esquerda (estrelas quentes e luminosas), enquanto as mais frias
localizam-se na parte inferior direita (estrelas frias e apagadas), estas últimas
representando de longe o tipo mais comum de estrelas, as anãs vermelhas. O
Sol localiza-se no trecho central da Sequência Principal, com classe espectral
G. Exemplos de estrelas quentes e luminosas são Spica e Zeta Eridani. Entre as
estrelas do tipo anã vermelha estão a Estrela de Barnard e a Próxima Centauri,
que, embora sejam das mais próximas ao sistema solar, não são visíveis a olho
nu, devido a sua baixíssima luminosidade (ver figura 178).
Acima da Sequência Principal, vemos dois grupos de estrelas: o ramo das
gigantes e o das supergigantes. Os dois grupos são formados por estrelas que já
estão em suas fases finais de vida. Como exemplo de estrelas gigantes podemos
apontar Polux, Mira e Aldebaran. As estrelas deste grupo têm baixa temperatura
de superfície, mas uma luminosidade alta, o que indica que possuem diâmetros

242
apêndice 6
muito grandes quando comparadas às estrelas da Sequência Principal. Lembrando
que o principal fator para a luminosidade da estrela é sua temperatura, seguido
de seu volume.
As estrelas localizadas na faixa das supergigantes são as mais luminosas
conhecidas. Elas se dividem em dois grupos principais: supergigantes azuis e
supergigantes vermelhas (as maiores estrelas conhecidas). Estes grupos de
estrelas estão em seu estágio final de vida e passam uma parte muito pequena de
sua existência nessa fase. Como exemplos de estrelas supergigantes azuis temos
Rigel e Deneb, enquanto Antares e Betelgeuse são exemplos de supergigantes
vermelhas. Boa parte das estrelas classificadas como gigantes ou supergigantes
podem apresentar variação no brilho.
Por último, temos as anãs brancas, que são o estágio final de vida das estrelas
de baixa massa. Na verdade essas estrelas nem sequer produzem mais a fusão
nuclear em seu núcleo. Elas são muito pequenas, com o diâmetro parecido com
o do planeta Terra, mas com uma massa que muitas vezes é maior que a massa
do Sol, o que confere às anãs brancas uma densidade extremamente alta. São
estrelas extremamente quentes, mas com luminosidade muito baixa devido ao
seu pequeno diâmetro. São exemplos de anãs brancas as estrelas Sirius B e
Procyon B.

243
apêndice 7
Apêndice 7 – Espectro eletromagnético
Desde o século XIX já se sabia que tanto cargas elétricas como ímãs
possuíam a capacidade de alterar as regiões em torno deles, e com base nesse
fenômeno criou-se o conceito de campo, que pode ser percebido na ação de
um ímã sobre limalha de ferro (campo magnético) ou quando sentíamos nossos
cabelos se eriçando quando próximos a um aparelho antigo de televisão sendo
desligado (campo elétrico). Os cientistas descobriram que os campos elétricos
e magnéticos estavam relacionados intimamente, pois a passagem de corrente
elétrica criava um campo magnético ao seu redor, assim como as oscilações
em um campo magnético criavam correntes elétricas em seu entorno. Foi o
físico escocês James Clerk Maxwell (1831-1879) que completou o trabalho de
correlacionar matematicamente a eletricidade e o magnetismo, através de quatro
equações que hoje são conhecidas como Equações de Maxwell. Ele também
previu, com base em sua teoria, a existência da radiação eletromagnética e que
sua propagação seria feita através de ondas que não necessitariam de um meio
físico para se deslocar. Esse fato foi constatado 17 anos depois por Heinrich
Hertz.
Na radiação eletromagnética os campos elétrico e magnético sempre estão
dispostos de maneira perpendicular entre si e a onda se propaga numa direção
perpendicular a ambos os campos (ver figura 179). É dessa forma que a luz
visível, assim como todos os outros tipos de radiação eletromagnética, se desloca
e transporta sua energia através do vácuo.

Figura 179 - Deslocamento de uma onda do espectro eletromagnético. O campo elétrico é


perpendicular ao campo magnético e ambos são perpendiculares ao sentido de propagação da
onda. Também é possível observar na figura o comprimento de onda, definido pela distância
entre dois picos, que vai caracterizar o tipo de onda eletromagnética (visível, infravermelho etc.).
Desenho: Francisco Conte.

Todas as formas de radiação eletromagnética, das ondas de rádio aos raios


gama, passando pela luz visível, possuem algumas propriedades comuns, que
veremos seguir:

244
apêndice 7
1. Ondas eletromagnéticas podem se deslocar no vácuo, ao contrário de
outros tipos de ondas, como as ondas sonoras, que necessitam de um
meio físico para se propagar.
2. Todas as formas de REM (radiação eletromagnética) viajam no vácuo em
linha reta, à mesma velocidade, que chamamos de c = 299.800 km/s (a
chamada velocidade da luz). Em meios mais densos, como o ar ou a água,
a velocidade será sempre menor, e seu valor dependerá diretamente das
características do meio em questão.
3. Chamamos de comprimento de onda (indicado pela letra grega λ, ou
lambda), a distância entre o topo de duas cristas de onda consecutivas
(ou o ponto mais baixo de dois vales consecutivos). As unidades de
medida mais comuns para λ são o angstrom (indicado por Å), que
vale 10-10 m, e o nanômetro (nm), que vale 10-9 m. Fica claro que cada
nanômetro corresponde a dez angstroms. Cada um dos tipos de radiação
eletromagnética tem seu comprimento de onda característico. Assim, a luz
visível apresenta comprimentos de onda que vão desde aproximadamente
4000 Å (violeta) até quase 7000 Å (vermelho).
4. Outra propriedade das ondas eletromagnéticas é a frequência (f), que pode
ser definida como o número de ondas que passam por um determinado
ponto por segundo. A frequência é geralmente medida em hertz (Hz), que
significa um ciclo por segundo, e seus múltiplos, quilo-hertz, mega-hertz,
giga-hertz.
5. Outra característica da radiação eletromagnética é que o seu comprimento
de onda e a sua frequência são inversamente proporcionais. Ou seja:
quanto maior a frequência, menor o comprimento de onda, e quanto maior
o comprimento de onda, menor a frequência. O produto do comprimento
de onda pela frequência nos dará a velocidade da onda (no caso, a
velocidade da luz). Em outras palavras, comprimento de onda e frequência
relacionam-se pela equação:
f=c
λ
Ao conjunto de todos os tipos de radiações eletromagnéticas, classificadas
por seu comprimento de onda, ou por sua frequência, chamamos espectro
eletromagnético. A tabela da página seguinte mostra o espectro eletromagnético
completo, dividido em suas principais regiões, segundo seus parâmetros de
identificação. É possível perceber, pela tabela, como é pequena a faixa de
comprimentos de onda que correspondem à luz visível: variando apenas 300
nanômetros (um nanômetro equivale a 10-9 m). Compare este intervalo com as
faixas de rádio e infravermelho, por exemplo.

245
apêndice 7
Tabela 1 – Comprimentos de onda em nanômetros e em centímetros e frequências
para as regiões do espectro eletromagnético. Tabela: Francisco Conte.
Região Comprimento Comprimento de Frequência
de onda onda (Hz)
(nanômetros) (centímetros)
Rádio > 108 > 10 < 3 x 109
Micro-ondas 105 a 108 0,01 a 10 3 x 109 a 3 x 1012
Infravermelho 700 a 105 7 x 10-5 a 0,01 3 x 1012 a 4,3 x 1014
Luz visível 400 a 700 4 x 10-5 a 7 x 10-5 4,3 x 1014 a 7,5 x 1014
Ultravioleta 1 a 400 10-7 a 4 x 10-5 7,5 x 1014 a 3 x 1017
Raios X 0,01 a 1 10-9 a 10-7 3 x 1017 a 3 x 1019
Raios gama < 0.01 < 10-9 > 3 x 1019

Milhões de anos de evolução fizeram com que nossos olhos, que na verdade
não passam de detectores extremamente sofisticados, se desenvolvessem para
captar o máximo de radiação que vem do Sol, que é uma estrela amarela que
emite radiações eletromagnéticas em uma ampla faixa de comprimentos de onda
– mas apresenta o máximo de sua emissão exatamente na faixa da luz visível. A
fisiologia de nossos olhos simplesmente se adaptou à nossa estrela.
Da mesma forma que podemos dividir as várias faixas do espectro
eletromagnético por seus correspondentes comprimentos de onda e frequências,
também podemos fazer o mesmo com as diversas cores da luz visível. Na tabela
que apresentamos a seguir podemos ver uma relação entre os comprimentos de
onda e as frequências correspondentes a cada cor do espectro visível:
Tabela 2 – Comprimentos de onda e frequências respectivas das cores da luz
visível. Tabela: Francisco Conte.
Comprimento de
Frequência
Cor onda
(*1014 Hz)
(nanômetros)
Violeta 400 a 460 7,5 a 6,5
Índigo 460 a 475 6,5 a 6,3
Azul 475 a 490 6,3 a 6,1
Verde 490 a 565 6,1 a 5,3
Amarelo 565 a 575 5,3 a 5,2
Laranja 575 a 600 5,2 a 5,0
Vermelho 600 a 700 5,0 a 4,3

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