“Embargo” foi o conto publicado em 1978, encontrado no volume de contos Objecto Quase,
é contada a história do personagem principal, esse dito homem com sua vida rotineira que já
estava tornando-se habitual, acordava, arrumava-se, despedia-se da esposa para ir trabalhar,
pegava seu carro e dirigia pela cidade até chegar em seu local de trabalho, sempre pelas
mesmas rotas.
Até que então, naquele dia, acontece algo diferente, ele percebeu desde o seu sono
suspenso, o silêncio do prédio ao rato morto na calçada. O extraordinário ocorre quando,
este homem percebe que o carro não está igual, como todos as manhãs, naquele dia, viu que
o automóvel não estava obedecendo seus comandos, ou seja, o carro tinha vontades
próprias, nesse caso, o fantástico acontece, o carro ganha vida quando causas políticas
ameaçam privá-lo de seu sustento básico, que é o combustível.
Publicado em 1978, dois anos antes de Levantado do Chão e cinco anos antes de Memorial do
Convento, o livro de contos Objecto Quase, de José Saramago, já apresenta o novelo da escrita que
caracterizará os seus títulos posteriores e que lhe dará a singularidade editorial, que não poderá ser
explicada pelo percurso temático preferencialmente histórico, se empregarmos este conceito
balizado pelo sentido de que se serve este escritor: « Toda a história é história contemporânea ».
Para Saramago, estar na vida é estar na história, como efeito e como causa, revelando-se como
história no primeiro, posicionando-se conscientemente activo no segundo, assumindo-se
respectivamente irresponsável e responsável, faces antagónicas mas correlativas numa linha
temporal contínua, que não consente os espartilhos cronológicos ou factoriais. A história é vida,
individual e colectiva, sempre presente, actual, não captável na sua totalidade pelos utensílios da
objectividade. Nas clareiras de ninguém, e de todos, ele se procura como história, ao encontro da
história, como quem se deslumbra perante as descobertas sucessivas na caminhada existencial,
consciente quase.
Esta maneira de estar na história, ou na vida, se se quiser, e dela própria falar, falando também de
si, o que não poderia deixar de fazer na perspectiva em causa, explica o percurso histórico de
Saramago.
Sem reduzir o peso que poderão ter o pensar e sentir de Saramago na sua obra, somos levados a
reflectir sobre o novelo da sua escrita, não como razão única, mas como vertente bastante
acentuada, que o distingue e que com probabilidade o promove, ou contribui para a sua promoção.
Saramago está na escrita como está na história, isto é, a escrita está nele, como terminal, e para a
escrita parte, já outra, que se dimensiona já não só como produto colectivo, mas também individual,
onde todos os canais psicossomáticos forçosamente desaguarão, quer os sinalizados, quer os não-
sinalizados.
De libertina, por insubmissão, poderíamos designar tal escrita, onde os módulos ou elementos
linguísticos são alienados do seu habitat estatutário, perdendo a cor que lhes é própria nas áreas a
que estavam sujeitos. O oral e o escrito, o poético e o prosaico, o discursivo e o descritivo/narrativo ,
o jogo e a sobriedade, a ironia e a verdade, o humor e a solenidade, fluem em turbilhão, rodopiam,
numa redundância quase, porque nunca chega a sê-lo, ainda que apetecida, numa de palavra puxa
palavra, de ideia puxa ideia, descarregando-se os campos magnéticos da narrativa, sem deixar que
outros campos surjam com possibilidades de serem etiquetados e darem um gostinho aos fiéis
defensores da erudição, que, para o ser, como se sabe, terá de ser conservada na sua embalagem.
Uma quadricromia, com a sua proliferação de nuances, da língua, mais no já experimentado do que
no inovado, é o culto de Saramago, que, assim, constrói na intersecção de dois planos, o da
transparência e o do hermético. Esta quadricromia ( linguística, filosófica, estética e estrutural ) não
é gratuita em Saramago, como veremos. Saramago terá de ser lido sem estatutos, sem
preconceitos, a partir do zero da literalidade, que o mesmo é dizer depois de uma barrela aos
hábitos, pois nos obriga a fecharmo-nos dentro da sua escrita, sem outra familiaridade que não seja
ela mesma.
No seu « estilhaço » literário, Saramago consente que se perca o fio à meada, por razões que
interessam à própria meada, pois é um processo sempre em aberto a origem das suas fibras, para
não falar da sua relação ou não com a meada. A associação, ou a pescagem do que eventualmente
possa picar a palavra, cria hiatos narrativos, que, possivelmente, só o serão pelos hábitos criados
nas estruturas codificadas. Enquanto que nestas um acto sucede a outro acto, uma situação a outra
situação, e assim sucessivamente criando o movimento, em Saramago uma palavra sucede a outra
palavra, uma ideia a outra ideia, e assim sucessivamente, criando um compasso de espera,
compassos, muitos compassos, em que a natureza narrativa provisoriamente se apaga.
Provisoriamente, ou aparentemente, pois a estória circula no corpo da história, que habita o autor, e
na qual as imposições, estáticas por para-naturais, perdem a sua função legislativa.
Um conto (ou um romance) nunca é uma estória em Saramago. Será, quando muito, uma história de
estórias. Uma palavra, uma ideia, um objecto, uma atitude, um acontecimento esporádico, etc.,
rapidamente se transformam em estórias, parecendo retalhar o corpo da narrativa, mas
preservando-o intacto, pois esse corpo, histórico, na linha da sua concepção, é descontínuo, não
pondo em causa a unicidade. Apetece interrogar por que é que Saramago utiliza as
palavras conto e romance. Apetece, não por qualquer hesitação, mas para provocar um
esclarecimento, neste contexto, pertinente. Um e outro são utilizados ortodoxamente. O primeiro,
não perde a sua natureza episódica, o segundo, não perde a sua natureza sequencial.
O autor de Objecto Quase, com a «libertinagem» da sua escrita cria potencialidades estéticas que
podem passar desapercebidas. As divagações aparentemente fortuitas estão para o episódio como
um coro para um solo: reforçam-no. O episódio adquire uma ressonância que o amplia, por ela se
abrindo o espaço para a crítica, onde o humor e a sátira engordam, pela insinuação, pela ironia, pela
afirmação, parecendo perder-se a pertinência em favor da loquacidade. A voz coloca-se numa
direcção para ser ouvida numa direcção oposta. Falando de alhos, está a falar de bugalhos. Quando
«se perde» a falar da madeira e carunchos, da Cadeira, mais não faz do que saborear em câmara
lenta a brevidade de um episódio, na sua dilatação gerando uma simbologia que transforma o
episódico em histórico, o pontual em sequencial. Porque uma estória é o terminal da história, que
nunca é, porque os terminais estão abertos no corpo da história.
O mesmo se verifica no segundo conto, Embargo, onde o embargo do petróleo traz à superfície
histórica o homem como um dependente do carro, exposto que está às dependências criadas pela
civilização. O episódio, aparentemente simples, é estirado sobre o patológico, e sob, onde um corpo
se entala sem saídas, suportando as angústias de hábitos que estão ameaçados. A dilatação verbal
do simples transforma-se em tensão dramática, em problema, em crítica e humor, numa anatomia
humana em que o ridículo é bisturi. Tudo isto nos é dado por uma estrutura narrativa que se oculta
nos planos sintagmáticos e paradigmáticos da palavra, como se a narrativa, enquanto comunicação,
tivesse que subjugar-se às estruturações da palavra e não aos códigos narrativos.
Refluxo é outro paradigma da escrita saramaguiana. Pelo seu «argumento», a construção de um
cemitério, não passará pela cabeça de ninguém o conteúdo desse conto. Conserva a sua natureza
episódica, o sonho de um monarca, mas as galerias abertas ao corpo da história, pela palavra,
como o caruncho na madeira, dão uma elasticidade à dimensão do conto que o transferem dos seus
limites para a procriação ilimitada da história. Tudo é inventado e tudo é verdadeiro, e neste tudo,
diversificado e uno, a palavra liberta-se do seu estaticismo referencial para se tornar por si própria
dinâmica, pela acumulação de material histórico reactivado, pela simbologia quase, pela metáfora
quase, pela sátira non-quase, feita a leitura na direcção do fio de prumo. Tudo é mensurável neste
conto, o exposto e o oculto, o que é susceptível de medida e o que o não é. História quase, este
conto, que assim se inicia: « Primeiramente, pois tudo precisa de ter um princípio, mesmo sendo
esse princípio aquele ponto de fim que dele se não pode separar, e dizer 'não pode' não dizer 'não
quer', ou 'não deve', é o estreme não poder, porque se tal separação se pudesse, é sabido que todo
o universo desabaria, porque o universo é uma construção frágil que não aguentaria soluções de
continuidade - primeiramente foram abertos os quatro caminhos.».
A versatilidade de Saramago ( verbal, imaginativa, observadora, reflectiva ) leva-o às raias do
surrealismo, patente na roupagem dos «factos», como quem diz no tecido e no debuxo e no corte,
que revestem esses «factos», no conto Coisas, onde os ingredientes da psicologia patológica,
individual e colectiva, e da parapsicologia, são expropriados pelas palavras, cujo objectivo,
constante no autor, é o homem, para a despir até à pele e deixá-lo nu na praça pública da história,
em confronto com a história, que o mesmo é dizer consigo próprio, o que explica a sua toada
sarcástica e a sua intenção pedagógica acerada. Policial quase, também, pelas interrogações de
todo o percurso, em gradações crescentes de intensidade, até à descoberta da causa, remate final:
« - Agora é preciso reconquistar tudo./ E uma mulher disse:/ - Não tínhamos outro remédio, quando
as coisas éramos nós. Não voltarão os homens a ser postos no lugar das coisas.». Neste remate
está o motor de toda a estória, a dependência do homem da sua própria obra, da existência por ela
modelada, que se transforma numa força que o transcende, que o domina, como presa sem
defesas, sem protecção, nem individual nem colectiva, nem civil nem governamental. O ridículo
pactua com tudo que decorre da correlação homem-objecto, por onde escorre um sofrimento,
contaminante, um pathos, que não provocará a piedade, mas a reflexão, que se exige fria e sem
tempo quase. Porque objecto, é o homem quase. Neste conto, as «coisas» têm o mesmo estatuto
das pessoas, não com qualquer intenção parabólica, que inadvertidamente possa passar pelo
escaparate de um crânio, mas para identificar as pessoas com as «coisas», para mostrar a
humanidade que não somos, pois «coisa» não faz parte da compreensão do humano. A natureza
deste texto, para não falar da generalidade da obra do autor, não é intervencionista, no sentido
político em que o termo é utilizado. É de natureza humana, no seu sentido mais lato, do singular ao
colectivo, sem fronteiras cronológicas ou políticas, em perspectiva histórica, não a da história
impressa, do historiador «científico», mas a história que somos e que fazemos, desde a origem que
nos diferencia de tudo o mais.
JOSÉ SARAMAGO - EMBARGO - Análise
Li essa análise do conto “O embargo” de José Saramago
elaborada pelo professor Anísio e achei muito interessante.
Aproveitem a leitura.
JOSÉ SARAMAGO - EMBARGO
PROF: ANISIO
O HOMEM COMO VÍTIMA DO MUNDO MODERNO.
A situação que o nosso personagem se encontra dentro do
automóvel vai se tornando cada vez mais angustiante, até chegar
ao desespero. Não há como pedir ajuda, o homem é realmente só,
não há como sair de dentro do carro, não há como se livrar de algo
que já faz parte de si, ou de algo do que ele passou a ser parte. O
desespero, a agonia, a aflição são os sentimentos bem retratados
por esse homem embargado, num mundo cheio de burocracias e
embargos. O homem só pensa em ficar distante da humanidade, e
vai para longe, até onde ninguém possa vê-lo. Preso e humilhado
diante da situação ele luta até não conseguir mais: “era como se
quisesse levantar o mundo”.
O fato de a gasolina do carro ter acabado é intrigante. Teria
acabado a gasolina e o carro parado e, como o homem e o carro já
eram o “mesmo aço”,
acabaria também a sua força? Ou o fato de a gasolina terminar
seria até engraçado, pois um homem saíra de um embargo – o
problema com o carro – e entrado num outro, a falta de gasolina, a
falta do automóvel?
São leituras possíveis dentro de um limite quase interminável
do feixe sugestivo de Saramago. Esse homem moderno que está
em total crise de identidade,que está só no mundo, que não
consegue ficar parado,que depende de um meio político-
econômico-social gerido pela globalização e por potências, mas que
ainda se prende a certas superstições e arcaísmos.
JOSÉ SARAMAGO – EMBARGO
Um homem normal faz o que costuma fazer todos os dias.
Acorda, se arruma, sai de casa, pega o seu carro. Mas esse dia se
faz diferente. Depois de parar num posto de gasolina ele percebe
que seu carro começa a ter vontade própria e pára em todo o posto
que ofereça gasolina. Sabe-se que há um embargo de petróleo
causado pelos árabes, esse embargo vai afetar o mundo inteiro, um
resultado da globalização. Os postos de gasolina estão sempre com
filas de automóveis em busca de combustível, que se tornou fonte
rara. O carro que toma vida embarga a vida rotineira do homem,
atrasa-o do trabalho. A perplexidade de ver o carro com vida faz o
homem perceber que agora ele está preso dentro dele, grudado ao
banco, impossibilitado de vontades, sozinho, sem ajuda.
Há uma ligação intrínseca entre o conto e certas
consequências causadas no ser humano pela nova relação
instaurada pela globalização. Vemos um garoto que passa em
frente ao prédio, mas ele passa bem vestido, todo coberto, como se
quisesse se proteger de tudo, dos outros, do mundo. O
individualismo, causado pela violência urbana, pelo uso da Internet
como entretenimento, a desconfiança nas pessoas – nosso
personagem vai pedir ajuda à mulher, mas teme os procedimentos
dela, não confia na própria mulher – o homem cada vez mais só e
fechado. A relação mais bem exposta no conto é mesmo a entre o
homem e a máquina. Mostra o homem dependente dela, cada vez
mais envolvido, cada vez mais estressado com os problemas que a
máquina lhe causa. O ser humano é totalmente dependente de
suas criações, e o carro, neste caso, é a representação mais
perfeita desta dependência, tal máquina passa por um processo de
transformação e aos poucos vai “impondo suas vontades ao
homem”, o que na verdade poderia ser uma imposição do próprio
homem, já tão materialista: “meu carro tá querendo um banho”, “ta
desejando um bom óleo!”, quantas vezes não ouvimos frases como
essas?
EMBARGO
A subserviência do homem frente à máquina.
Ele é um homem anônimo, como todos os outros de uma
sociedade urbana. Um homem da classe média, social e
ideologicamente domado. Casado com uma mulher com quem
convive, em uma rotina onde o afeto se tornou algo artificial.
Aquele dia seria diferente, desde o sono interrompido, o
silêncio no prédio ao rato morto na calçada, aquele dia seria
diferente. Aquele rato morto é o símbolo do individualismo urbano.
Está na calçada e por isso ninguém se preocupa em removê-lo, um
absoluto descaso com o que é público, com o que é social. Mostra o
grau de individualismo que caracteriza essa sociedade. Valem
lembrar que a chuva vai remover o rato.
O veículo funciona e isso deixa o homem contente. É como se
a felicidade humana estivesse intrinsecamente ligada ao
funcionamento das máquinas criadas pelo homem.
Advém de um plano global: os árabes se recusaram a vender
petróleo para o ocidente e isso estava afetando a vida diária, pois
havia um racionamento de combustíveis e os postos de
abastecimento estavam sempre lotados, aborrecendo o homem.
Inicialmente, o motorista não percebe que seu carro está com
vontade própria, mas está: acelera, ultrapassa e entra nos postos
de abastecimento à revelia de seu dono.
José Saramago, Nobel/98: possui um olhar severo sobre o
comportamento do homem que vive
As horas perdidas em postos de abastecimento, em itinerários
confusos e congestionamentos, levam o homem à decisão de ir
para o escritório onde trabalha. Mas ao tentar sair do veículo não
consegue, pois está preso a ele.
O HOMEM OBJETUALIZADO OU COISIFICADO
Como sua vontade está sujeita a uma mais poderosa, o
motorista passa por experiências humilhantes: considera-se
ridiculamente preso; urina-se; foge de sua mulher que desconfia de
sua sanidade mental.
O RETORNO À VIDA PRIMITIVA
O carro leva o homem para fora da cidade, na qual o embargo
petroleiro fizera esgotarem-se todas as bombas. Seria uma
metáfora da necessidade que o homem possui de se libertar da vida
urbana, da civilização mecanizada.
TRECHO FINAL
Sentia fome. Urinara outra vez, humilhado demais para se
envergonhar e delirava um pouco: humilhado, himolhado. Ia
declinando sucessivamente, alterando as consoantes e as vogais,
num exercício inconsciente e obsessivo que o defendia da
realidade. Não parava porque não sabia para que iria parar. Mas,
de madrugada, por duas vezes, encostou o carro a berma e tentou
sair
devagarzinho, como se entretanto ele e o carro tivessem chegado a
um acordo de pazes e fosse a altura de tirar a prova da boa-fé de
cada um. Por duas vezes falou baixinho quando o assento o
segurou, por duas vezes tentou convencer o automóvel a deixá-lo,
por duas vezes num descampado nocturno e gelado, onde a chuva
não parava, explodiu em gritos, em uivos, em lágrimas, em
desespero cego. As feridas da cabeça e da mão voltaram a sangrar.
E ele, soluçando, sufocado, gemendo como um animal aterrorizado,
continuou a conduzir o carro. A deixar-se conduzir.
Toda a noite viajou sem saber por onde. Atravessou
povoações de que não viu o nome, percorreu longas rectas, subiu e
desceu montes, fez e desfez laços e deslaços de curvas, e quando
a manhã começou a nascer estava em qualquer parte, numa
estrada arruinada, onde a água da chuva se juntava em charcos
arrepiados à superfície. O motor roncava poderosamente,
arrancando as rodas à lama, e toda a estrutura do carro vibrava,
com um som inquietante. A manhã abriu por completo, sem que o
sol chegasse a mostrar-se, mas a chuva parou de repente. A
estrada transformava-se num simples caminho, que adiante, a cada
momento, parecia que se perdia entre pedras. Onde estava o
mundo? Diante dos olhos eram serras e um céu espantosamente
baixo. Ele deu um grito e bateu com os punhos cerrados no volante.
Foi nesse momento que viu que o ponteiro do indicador da gasolina
estava em cima do zero. O motor pareceu arrancar-se a si mesmo e
arrastou o carro por mais lugar, mas a gasolina acabara.
A testa cobriu-se-lhe de suor frio. Uma náusea agarrou nele e
sacudiu-o dos pés a cabeça, um véu cobriu-lhe por três vezes os
olhos. Às apalpadelas, abriu a porta para se libertar da sufocação
que aí vinha, e nesse movimento, por que fosse morrer ou porque o
motor morrera, o corpo pendeu para o lado esquerdo e escorregou
do carro. Escorregou um pouco mais, e ficou deitado sobre as
pedras. A chuva recomeçara a cair.