Introdução à Terapia ACT
Introdução à Terapia ACT
Fabian Olaz
Paulo Gomes de Sousa-Filho
Giovanni Kuckartz Pergher
Wilson Vieira Melo
Sempre que tentamos lutar contra algo que não temos condições de modificar,
isso implica em sofrimento. Aceitar a realidade não equivale a aprovar ou concordar
com ela. Também não significa passividade, resignação ou acomodação. A aceitação é
um processo ativo que significa tomar as coisas como elas são postas. Do mesmo
modo, alguns pensamentos não precisam ser reestruturados e modificados. Se tivermos
um problema, é necessário que nos perguntemos, antes de tudo, se ele tem solução.
Se sim, implementa-se estratégias efetivas de resolução de problemas para lidar com
ele. Se não há solução, aceitação é a estratégia mais sábia a se utilizar. Outro ponto
significativo é o comprometimento com nossos valores pessoais. Os valores são como
um farol que guia a nossa existência e orienta nossos comportamentos. Para
trabalhar os valores e o processo de aceitação, nada melhor do que uma terapia que
baseia suas intervenções fundamentais em tais princípios.
W.V.M.
Aplicações e Técnicas
Apresentaremos algumas das principais intervenções da ACT, mas dado que a
ACT é uma terapia baseada em processos ou habilidades amplas que são
interdependentes das intervenções, é impossível apresentar este ponto sem apresentar as
bases conceituais das mesmas.
Figura 12.2 Modelo dos três pilares
Caso
Gabriela é estudante de psicologia e vem para terapia pois há algum tempo se sente
incapaz de lidar com tanta pressão. Estuda o dia todo para ter um bom rendimento mas
ainda assim sente que o esforço não é o suficiente. Sente muita culpa quando não pode
estudar tanto quanto acredita que deveria, e tem dificuldades para dormir à noite, já
que fica com muitas preocupações e ruminando sobre o que não fez durante o dia. Ao
mesmo tempo, sente que precisa ser mais amável com ela mesma e que está muito
cansada de tanto se exigir. Acha que só será respeitada se for uma excelente estudante
e uma profissional destacada.
Pilar Aberto
Não é fácil agir de modo congruente com nossos valores, principalmente quando
passamos por situações desafiadoras e geradoras de ansiedade, frustração, raiva, fadiga,
e toda uma gama de emoções desagradáveis. Gabriela sofre ao apresentar dificuldades
em entrar em contato com seus eventos privados e como consequência, tem vivenciado
um aumento da ansiedade e desconforto persistente, baseada em parte em se apresentar
fusionada com pensamentos como “não estou me esforçando o suficiente”, “preciso me
destacar para que me respeitem”, “preciso ser a melhor”. Adicionado a isso,
pensamentos avaliativos adicionais podem aparecer e aumentar o desconforto: “todos
vão perceber que sou um fracasso”, “meus colegas de sala não gostam de mim”, “não
vou conseguir fazer uma boa apresentação”. Esses pensamentos podem aparecer
concomitante a intensas e desagradáveis vivências emocionais (ex.: culpa), as quais
Gabriela tenta “escapar” dirigindo toda sua energia e momentos livres
frequentando a biblioteca.
De fato, a crença de que devemos modificar, controlar ou suprimir
pensamentos ou sentimentos que são causadores de dor, sofrimento ou, de forma
geral, contra produtivos, está fortemente enraizada em nossa cultura. Se queremos
viver uma vida produtiva e significativa, devemos estar motivados ou nos livrar de
nossa ansiedade, tristeza ou quaisquer sentimentos ou pensamentos que nos
causem desconforto Blackledge (2015).
Nesse sentido, Hayes et al (2012) enfatiza que não há pensamentos, sentimentos
ou outras experiências privadas que são falhas ou “erradas”, e distúrbios psicológicos e
angústia não são inerentemente patológicos em si. Pelo contrário, é a forma como os
indivíduos se relacionam com essas experiências privadas através da linguagem e
cognição que é potencialmente prejudicial, por exemplo, através da suposição de
que essas experiências devem ser controladas ou suprimidas para reduzir o
sofrimento ou através de uma confiança excessiva nas crenças, regras, medos e
julgamentos na regulação do comportamento.
Em contraste com muitos modelos teóricos que procuram modificar,
controlar ou suprimir esses eventos privados, a ACT enfatiza a aceitação como
alternativa para a esquiva experiencial, e esta é cultivada em terapia para contrariar
os esforços do paciente no sentido de evitar as suas experiências privadas difíceis.
Importante frisar, no entanto, que a aceitação não é enquadrada como sendo um
fim em si mesma, mas é desenvolvida e cultivada para permitir mudanças
consistentes em valores que ocorrem no mundo externo do indivíduo (Cullen,
2008).
Aceitação, como entendida em ACT, é uma habilidade e, como qualquer outra
habilidade, pode ser aprendida. Contrariamente ao senso comum e sua ênfase na
passividade, caracteriza-se por ser uma ação ativa e intencional da pessoa no
sentido de abraçar pensamentos, sentimentos e sensações físicas, mesmo, e
principalmente, aqueles geradores de dor e sofrimento. Hayes et al. (1999, p.77)
definiram aceitação como “uma tomada ativa de um evento ou situação…
abandono de agendas disfuncionais de mudança [dos sintomas] e um processo
ativo de sentir sentimentos como sentimentos, pensar pensamentos como
pensamentos ... e assim por diante”.
O terapeuta da ACT encoraja a aceitação através do uso de metáforas
(Stoddard & Afari, 2014) e técnicas de Mindfulness (Brown, Creswell & Ryan,
2015). O paciente é encorajado a experimentar estados afetivos e sensações corporais,
como a ansiedade, no momento em que ocorrem, em vez de tentar controlar a
frequência ou intensidade de tais sentimentos. Nesse sentido, uma primeira tarefa é
entender o que não pode ser controlado (pensamentos, emoções, sensações corporais,
imagens mentais), o que pode (o comportamento e o ambiente físico) e aceitar que
pensamentos e emoções podem ser úteis ou não ao agir congruente com os valores.
Esquiva experiencial
É o oposto da aceitação, a experiência voluntária de pensamentos, emoções,
sensações corporais à medida que surgem, sem esforços para evitar ou controlá-los
(Hayes et al., 1996). Esquiva experiencial é um termo geral que engloba tipos mais
específicos de esquiva, como a esquiva cognitiva (por exemplo, distrair da
preocupação), esquiva emocional (por exemplo, tentar suprimir a tristeza) e
esquiva comportamental (por exemplo, evitando situações que induzem excitação
fisiológica e acompanhadas de sensações interoceptivas).
Esquiva experiencial é uma categoria ampla de regulação emocional para
experiências percebidas como negativas e inclui a) a falta de vontade de permanecer em
contato com a experiência privada aversiva (sensações corporais, pensamentos,
sentimentos, emoções, memórias etc); e b) medidas tomadas para evitar, alterar ou
controlar o contato ou a exposição a estímulos que podem desencadear essas reações
(Hayes et al, 1999). No entanto, tentativas de mudar experiências negativas,
envolvendo-se na esquiva experiencial como uma estratégia de regulação de
emoções pode reduzir a flexibilidade de um indivíduo em lidar com situações
desagradáveis, que podem ser prejudiciais à sua qualidade de vida (Kashdan et al.,
2006).
Em ACT não se trabalha a forma dos eventos privados, mas sua função
(desativação de funções da linguagem) alterando assim, os contextos verbais que
promovem e mantêm a esquiva experiencial não funcional, colocando-se em
evidência a aceitação. Mesmo quando se foca na forma, o objetivo é também para
ampliar sua função (Dahl, Stewart, Martell & Kaplan, 2014).
Desesperança Criativa
Dentre as diversas formas de se abordar a esquiva experiencial e aumentar a
abertura para o trabalho que se seguirá, destaca-se a desesperança criativa, que é
voltada para o enfraquecimento da esquiva experiencial do paciente, evidenciando
seu caráter problemático, para que tanto o terapeuta quanto o paciente tenham
espaço para o trabalho terapêutico. A desesperança criativa é parte do trabalho de
aceitação. As intervenções utilizando a desesperança criativa podem assumir
diversas formas, mas todas envolvem explorar, com abertura e curiosidade, a
agenda do controle emocional. Procura-se criar uma sensação de desesperança
com relação ao apego a essa agenda, ou em outras palavras, confrontar essa
agenda (Harris, (2009).
Uma breve descrição dos passos para o uso da desesperança criativa ocorre da
seguinte maneira: em um primeiro momento, investiga-se as razões da busca de
tratamento em um dado momento de tempo, assim como coleta-se informações
com relação às percepções do problema por parte do paciente. Dessa forma, a
postura do paciente com relação a pensamentos, sentimentos, sensações, imagens
mentais e narrativas pessoais desconfortáveis ou dolorosas, assim como quais
estratégias o paciente tem se utilizado para e evitar ou controlar esses eventos
privados, se revelam. Juntos, paciente e terapeuta geram uma lista das estratégias
que o paciente utilizou e constatam que todas as tentativas de controle não
funcionaram (Westrup, 2014).
A seguir, busca-se destacar a invalidez de tentar controlar, suprimir ou se ver
livre dos nossos produtos internos, e introduz-se a ideia de que aquelas estratégias,
inclusive a terapia, não funcionaram simplesmente porque não funcionam. O paciente é
informado de que os pensamentos, sentimentos, sensações, imagens mentais não
irão desaparecer, basicamente porque esse não é um objetivo possível. Enfatiza-se
também o sofrimento envolvido na busca desse controle, assim como o custo em
termos da luta do paciente, preso em uma batalha que não pode ganhar, ao invés
de se engajar em estratégias em direção a uma vida que valha a pena ser vivida
(Harris, 2013).
Terapeuta: O que você está me dizendo é que não está conseguindo lidar com as
atividades em que se envolveu e que tem se sentido sobrecarregada e se
afastando de coisas que você gostaria de fazer, como estar em um bom emprego
e finalizar seus estudos.
Gabriela: Sim, é isso.
Terapeuta: Gabriela, me conta sobre os pensamentos, sentimentos, emoções,
sensações que você tem tentado evitar ou se livrar
Gabriela: Então, fico o dia todo pensando que não estou me dedicando o
suficiente para conseguir o que quero. Não consigo parar de pensar que as
pessoas não me respeitam porque acham que sou burra.
Terapeuta: Existem sentimentos que aparecem com esses pensamentos?
Gabriela: Que desastre que eu sou....me sinto culpada...me sinto abandonada.
Terapeuta: (um pouco de silêncio, refletindo sobre o que ouviu): Estou me
sentindo tocado pelo que você me disse. É muito esforço, muita luta.
Gabriela: Sim, e estou cansada dessa luta.
Terapeuta: O que você tem feito para lidar com tudo isso?
Terapeuta: Então Gabriela, nós acabamos de criar uma lista das diferentes
estratégias que você tem tentado para conseguir se livrar desses problemas....
[pausa longa para reflexão]....e no entanto, aqui está você.
Gabriela: sim, nada funcionou... nada.
Terapeuta: Gabriela, e se o que sua experiência está lhe dizendo aqui for
realmente o caso? E se todas essas tentativas não funcionaram simplesmente
porque não funcionam?
Gabriela: [olhos se enchem de lágrimas] Então estou perdida? O que eu faço?
Terapeuta: Bem, é isso que vamos trabalhar juntos aqui. ACT, a minha
abordagem, é justamente sobre uma forma diferente de lidar com esses
sentimentos e pensamentos dolorosos.
Fusão cognitiva
A fusão cognitiva refere-se ao excesso e tendência inapropriada a agir de
acordo com o conteúdo literal dos pensamentos do que como processo contínuo de
pensamento (Hayes et al., 2006). Durante este processo, um indivíduo torna-se mais
guiado por regras e relações verbais, em oposição a ser guiado por outros aspectos do
meio ambiente no momento presente (Hayes et al., 2006). É a dominação dos próprios
produtos internos (sentimentos, pensamentos, sensações corporais, imagens
mentais) sobre o seu comportamento na ausência de automonitoramento e
regulação. Assim, uma pessoa se torna "fusionado" com um pensamento se acredita
que este é uma representação literal do mundo. Isso é particularmente problemático
quando contribui para comportamentos que levam um indivíduo para longe de seus
valores, do que considera significativo em sua vida.
O inverso da fusão é a desfusão cognitiva, que é o processo de se tornar
conscientes de sentimentos difíceis, permitindo que esses sentimentos estejam
presentes, e eventualmente abraçando-os e aceitando-os; reduzindo assim a
esquiva experiencial (Cullen, 2008).
A desfusão cognitiva é o processo de dar um passo para trás e olhar para a
linguagem sem deixar a linguagem influenciar o comportamento. Este processo
envolve o reconhecimento dos pensamentos e emoções como eventos privados
(palavras, sons, sensações e imagens) que estão em um estágio constante de
mudança. Uma vez que os pensamentos ou emoções podem ser neutralizados, sua
importância e impacto no comportamento decresce. Passos para promover a
desfusão cognitiva, em última análise, contribuem significativamente para
desenvolver flexibilidade psicológica. Técnicas de desfusão são usadas no ACT
quando há algum evento que gera padrões de comportamento estreitos e
inflexíveis, e quando essas inflexibilidades são obstáculos para que nossos pacientes
se movam ativamente na direção de um valor escolhido (Blackledge, 2015).
Dessa forma, procura-se, como objetivo terapêutico, reduzir a credibilidade
dos pensamentos inúteis, em vez de reduzir a frequência ou alterar o seu conteúdo,
limitando a sua factibilidade ao mesmo tempo que busca-se promover, assim, uma
maior tomada de perspectiva e compreensão. Nesse sentido, Bond, Hayes e Barnes-
Holmes (2006) apontam que a desfusão cognitiva interrompe a cadeia do
comportamento negativo baseado em regras, permitindo ao indivíduo ter consciência
dos eventos, pensamentos ou sentimentos internos, identifica-los como positivo ou
negativo, e continuar a tomar decisões baseadas em valores. Esse processo produz
consequências no desenvolvimento da flexibilidade psicológica, que é a capacidade
de permitir-se sentir, lembrar e discutir eventos difíceis sem defesas, e na
flexibilidade cognitiva, a capacidade para adaptar-se a mudanças (Gaudiano,
2010). Existem muitas estratégias para ajudar nesse processo, como utilizar
técnicas de relaxamento, dizer uma palavra difícil ou pensamento rapidamente, e
falar em voz alta (Cullen, 2008). Quanto mais um sentimento ou pensamento for
aceito, mais provável que o sofrimento associado ao sentimento ou pensamento
diminua.
Gabriela acredita que só será respeitada se for uma excelente estudante e uma
profissional destacada. Apresenta, também, sentimento de culpa, preocupações e
pensamentos intrusivos afetando diretamente o seu sono. A partir do Pilar Aberto
observamos a rigidez de seus comportamentos atrelados a sua tendência em estar
sob influência de regras diretamente relacionadas ao controle. Por consequência,
procura controlar, evitar ou mesmo eliminar aspectos que ativam pensamentos e
emoções ameaçadoras.
É importante ressaltar que atuar em fusão com essas regras parece desempenhar
um papel importante nessas estratégias problemáticas, já que o comportamento
fusionado com uma determinada regra aumenta ainda mais o risco de fazer coisas que, a
longo prazo, tenham efeitos negativos e restritivos na vida de uma pessoa. A fusão
cognitiva não é necessariamente vista como problemática, mas apresenta desafios
para os indivíduos quando tal “fusão” leva a respostas rígidas que resultam em
consequências prejudiciais, como é o caso de Gabriela.
Gabriela: Minha mente diz que é importante ser a primeira e que só assim vão
me respeitar.
Terapeuta: Você está me dizendo que tem um pensamento “que é importante ser
a primeira” e “só assim vão te respeitar”. Quais outros pensamentos aparecem
quando você sente que deve ser a primeira e que só assim vão te respeitar”?
Gabriela: Me sinto meio que um peixe fora d´água na sala de aula. As vezes
acho que tem algo errado comigo.
Terapeuta: “Tem algo errado comigo”. Quando ele aparece, quais outros
pensamentos surgem?
Gabriela: Que eu sou uma estranha, uma idiota e que não vou conseguir o
respeito de ninguém.
Terapeuta: Muito duros esses pensamentos: “eu sou uma estranha”, “uma
idiota” “ninguém vai me respeitar”. Gabriela, quais sentimentos surgem nesses
momentos?
Gabriela: Fico triste e me sinto culpada por não conseguir mudar.
Pilar Centrado
Gabriela apresenta pouca perspectiva em relação com os seus processos privados
pelo durante todo o dia fica presa em preocupações futuras e situações do passado. A
perda de perspectiva com estas experiências gera nela muito mal-estar já que não tem a
capacidade de observar estas experiências como o que elas são (experiências), tomando
elas literalmente. Ao mesmo tempo, a ausência de contato com o presente, a fusão
cognitiva e esquiva de experiencial dificultam o autoconhecimento. A identificação do
‘Eu’ com as histórias e conceitos pessoais (ser uma excelente estudante) e a fusão com
estas histórias (o ‘Eu Conceito’) dificulta ela experimentar outros sentidos ou
perspectivas do ‘Eu’. Assim, a fusão com o seu ‘Eu conceito’ traz rigidez
comportamental, já que ela rejeita ou evitar qualquer conteúdo ou experiência que esteja
em contradição com essas histórias.
O trabalho neste pilar envolve evocar contextos onde o paciente possa ficar
na perspectiva de observador de sua experiência enquanto ela ocorre, tanto com a
experiência externa (o mundo dos cinco sentidos) como com a experiência interna
(pensamentos, emoções, sentimentos, por exemplo), e isso envolve o
direcionamento consciente e deliberado da atenção para a totalidade da
experiência que está sendo vivenciada no momento, mantendo uma postura de
acolhida, receptividade e curiosidade para tudo que se mostrar presente.
Apenas notar
A primeira tarefa neste pilar envolve ancorar o paciente na perspectiva de
observador dos processos internos e sua variabilidade (Eu como processo). Através
de exercícios específicos, fortalecemos este ‘Eu’ permitindo que o paciente observe
os processos internos, descrevendo-os como eles são: pensamentos, emoções,
sentimentos e lembranças (Hayes, Strosahl & Wilson, 2012). Com o objetivo de
promover a Flexibilidade Psicológica a partir deste processo, usamos práticas
contemplativas de Mindfulness, bem como há práticas não contemplativas, como o
trabalho focado no que acontece no aqui e agora da relação terapêutica, ou o
trabalho centralizado em "Notar" utilizando a Matrix (Schoendorff, Webster, &
Polk, 2014, Polk, Schoendorff, Webster & Olaz, 2016).
Gabriela: Não posso parar de me preocupar, estou muito cansada. Minha mente
não para.
Terapeuta: Posso notar o difícil que está sendo Gabriela. Neste momento sua
mente está trabalhando também?
Gabriela: Sim! Muito! Ainda quando tento não pensar, ela trabalha e trabalha.
Terapeuta: Ok. O que você acha de nos aproveitar para conhecer melhor ela?
Imagine que ela é uma televisão, e que você pode ver e escutar os programas. Está
escutando ou observando algo?
Gabriela: Sim, a imagem do meu exame e eu chorando porque reprovei.
Terapeuta: uma imagem muito difícil né? Algum pensamento?
Gabriela: Sim, que eu não posso falhar. Que eu tenho que estudar mais.
Terapeuta: Ok. Temos esse pensamento também. E agora, enquanto falamos,
percebe alguma sensação física?
Gabriela: Sim, uma forte pressão no peito.
Terapeuta: Ok, e se essa sensação tivesse um nome de emoção, qual seria?
Gabriela: Angústia, e tristeza (começa chorar).
Para uma adequada aplicação das técnicas voltadas para trabalhar valores, é
importante conhecer algumas características deste processo:
Uma vez que o conceito ACT de valores é uma novidade para grande parte das
pessoas, muitas vezes é útil fornecer exemplos concretos ao paciente (Harris, 2013),
conforme ilustrado a seguir:
Contribuição e generosidade: contribuir, ajudar, dar assistência, doar, dividir ou fazer uma 1 2
diferença positiva 3
1 2
Cooperação: ser cooperativo e colaborativo com outras pessoas
3
Coragem: ser corajoso ou bravo; persistir mesmo em face do medo, ameaça ou 1 2
dificuldade 3
1 2
Criatividade: ser criativo ou inovador
3
1 2
Curiosidade: ser curioso, mente-aberta e interessado; explorar e descobrir
3
Encorajamento: encorajar e recompensar os comportamentos que valorizo em mim 1 2
mesmo e nos outros 3
1 2
Excitação: buscar, criar e me envolver em atividades que sejam excitantes ou estimulantes
3
1 2
Justiça: ser justo comigo mesmo e com os outros
3
Forma física: Manter ou melhorar minha forma física, cuidar da minha saúde física e 1 2
psicológica 3
1 2
Flexibilidade: ajustar-me e adaptar-me às circunstâncias mutantes
3
Liberdade e independência: escolher como vivo e me comporto, e ajudar os outros a fazer 1 2
o mesmo 3
1 2
Amizade: ser amigável, companheiro ou agradável com os outros
3
Perdão e auto-perdão: ser remissório (aquele que perdoa) em relação a mim mesmo e aos 1 2
outros 3
Exame da dor:
Terapeuta: O que você precisaria deixar de se importar para que isso não mais
pudesse lhe causar dor?
Aniversário de 80 anos:
Aquilo que importa para a pessoa é aquilo pelo qual vai se sentir realizada
por ter feito ao final de uma vida, deixando o seu legado. Essa técnica envolve
solicitar ao paciente que reflita sobre o que ele deseja ouvir de outras pessoas com
relação ao seu legado.
Terapeuta: Imagine que é seu aniversário de 80 anos e ali estão todas as
pessoas que lhe são significativas. Em determinado momento elas são convidadas a
fazer um breve discurso sobre quem foi você e o que você representou em sua vida. O
que você gostaria de ouvir de cada uma delas?
Epitáfio
Terapeuta: O que você gostaria que fosse escrito em seu epitáfio? E se você
continuasse vivendo a vida como tem vivido até agora, o que você acha que seria
escrito?
Varinha mágica
Terapeuta: Imagine que com um simples toque de uma varinha mágica você
tivesse a aprovação total, absoluta e incondicional de todas as pessoas do planeta.
Não importa o que você fizesse - você poderia descobrir a cura do câncer ou ser um
serial killer, você seria aceito por todo mundo, e todos teriam uma visão positiva a seu
respeito. Neste cenário, o que você faria de sua vida?
Pílula mágica
Como os valores são escolhas livres do individuo, estes não podem ser
definidos a partir daquilo que o sujeito não quer. Neste, a técnica da Pilula Mágica
auxiliará na identificação de valores que sejam independentes das experiências
internas que o mesmo busca evitar.
Terapeuta: Suponha que eu lhe desse uma pílula mágica e a partir de agora
nenhuma experiência interna indesejada (emoções, lembranças, impulsos,
pensamentos ou sensações físicas) causa qualquer impacto sobre você - de que
maneira sua vida seria diferente?
Gabriela: Acho que você veria no vídeo que eu estaria fazendo atividade
física, dormindo oito horas por noite e aceitando os convites para sair nos finais de
semana.
Loteria
Gabriela: Eu não estudaria tanto quando costumo estudar e sairia mais com
os meus amigos e largaria aquele estágio no grupo de pesquisa que não é o que eu
quero fazer mas que me paga uma bolsa.
Terapeuta: Quem você gostaria de ter ao seu lado para desfrutar dessa
fortuna?
Exemplos a seguir
Muitas vezes, a pessoa que o paciente gostaria de ser pode ser vislumbrada,
pelo menos em parte, nas atitudes e comportamentos daqueles que ele admira.
Desta forma, a técnica de Exemplos a Seguir, busca identificar tais valores através
de modelos.
Terapeuta: Quem são as pessoas (ou personagens) que você admira / que lhe
inspiram?
Gabriela: Ao mesmo tempo em que ele sabe muito, ele demonstra ser muito
atencioso com as pessoas incluindo a família dele.
Terapeuta: Estas qualidades que você admira dizem respeito ao que se passa
no mundo interno dele ou ao modo como ele age?
Gabriela: Ao modo como ele age. Ele não apenas diz que se importa, ele
demonstra isso em atitudes.
Ação comprometida
Objetivos SMART
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