Rinite Alérgica em Crianças: Diagnóstico e Tratamento
Rinite Alérgica em Crianças: Diagnóstico e Tratamento
RINITE ALÉRGICA
Fausto Y. Matsumoto
Dirceu Solé
INTRODUÇÃO EPIDEMIOLOGIA
Rinite é definida como a inflamação e/ou disfunção da mu- A RA é a doença
cosa de revestimento nasal e é caracterizada pela presença de
alérgica faixas etárias,
quência e acomete todas asrespiratória
crônica de maior fre
desde a criança atë
sintomas nasais isolados ou associados: obstrução nasal, ri- idoso. Estudo
norreia anterior e posterior, espirros,
o
epidemiológico realizado em escolas de di
prurido nasal e hipos- ferentes municípios no Brasil documentou prevalência méda
mia. Esses sintomas, em
geral, ocorrem durante 2 ou mais de 12,8% em
crianças de 6 a 7 anos e 18% entre adolescentes
dias consecutivos por mais de 1 hora na maioria dos dias.
(13 a 14 anos)134, Estudo de análise temporal em parte aos
As rinites podem ser classificadas, de acordo com o
te etiológico, em:
agen- municipios incluídos em estudo anterior documentou aumen
to na
prevalência de RA após 9 anos de seguimento'. Entre
Infecciosas: agudas, autolimitadas, causadas por vírus e lactentes, esses dados são escassos e de maior dificuldade e
menos
frequentemente por bactérias, predominantes no obtenção, sobretudo pela prevalència elevada de rinite ni
início da vida.
Ciosa, principalmente em
Alérgicas: forma mais comum, induzida por crianças que convivem com mula
alérgeno em indivíduos sensibilizados.
inalação de crianças (creches e/ou irmãos mais velhos). Estudo no raa
documentou ser de 48,3% a prevalência de sintomas
Não alérgicas e não infeciosas:
grupo heterogêneo de pa- primeiro ano de vida entre os lactentes avaliados'.
nasais
cientes sem sinais de infecção e sem sinais
sistèmicos de
inflamação alérgica (por exemplos, Trinite induzida por
fármacos, por irritantes, ocupacional não
alérgica, rinite
MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS
hormonal, entre outras).
O
Mista: expressão significativa em pacientes com rinite diagnóstico de RA inclui história clinica, antecedentes
crônica, com mais de um agente pessoais e familiares de atopia, exame fisico eexanc com-
em salva,
urido nasal intenso, coriza clara e abun- tacam-se: anormalidades anatômicas/estruturais (desvio de
pirros
obstrução nasal,
além da identificação do possível Septo nasal, insuficiência da válvula nasal, atresia coanal, es-
dante e
desencadean
por meio de teste cutâneo de hiper do orificio piriforme, hipertrofia de concha nasal in-
alérgen
sibilidade imediata ou dosagem sérica de IgE especifical. tenose
ferior ou média, perfuração do septo nasal, anomalias cra-
prurido nasal pode induzir ao hábito de fricção fre niofaciais e traumáticas -fraturas e sinequias-, síndrome do
d a nariz com a palma da mão, gesto conhecido como nariz vazio), hipertrofia de adenoide, rinossinusite, pólipos
quente
saudação alérgi A maior friabilidade da mucosa nasal, nasais, discinesia ciliar, defeito primário do muco (fibrose
isádios de espirros e o ato de assoar o nariz vigorosamente cística), doenças sistêmicas autoimunes (lúpus eritematoso
episó
Dredispõem a criança a apresentar epistaxe recorrente. Al- sistêmico, artrite reumatoide, síndrome de Sjögren, poli-
mns pacientes têm sintomas oculares (prurido ocular, hi- condrite recidivante), doenças granulomatosas (sarcoidose,
neremia conjuntival, lacrimejamento, fotofobia e dor local) Wegener), fistula liquórica e outras (tumores nasais ou do
omo predominantes, caracterizando possível rinoconjun- sistema nervoso central, corpo estranho.
tivite alérgica. Prurido no conduto auditivo externo, no pa- Atualmente, o mundo vive a pandemia da Covid-19 e, por
lato e na faringe também podem ocorrer3 se tratar de doença com início de sintomas na via respiratória
e coriza), impõe-se seu diagnóstico dife-
A obstrução nasal, queixa frequente, pode ser intermitente superior (espirros
bilateral ou unilateral, alternando com o ci- rencial com a RA. A Covid-19, infecção causada pelo SARS-
Ou persistente,
do nasal e, em geral, é nmais acentuada à noite. A congestão -CoV-2 (severe acute respiratory syndrome coronavirus 2)
apresenta-se com falta de ar, tosse, febre e mal-estar geral.
nasal grave pode interferir com a aeração e a drenagem dos
Alguns pacientes podem relatar perda do olfato e do paladar.
seios paranasais e da tuba auditiva, resultando em cefaleia ou
As manifestações do trato respiratório superior são descritas
otalgia,além de queixas de diminuição da acuidade auditiva.
como variáveis nas diferentes faixas etárias, o que dificulta
a
Respiração oral, roncos, voz anasalada e alterações no olfato distinção entre as infecções comuns de vias aéreas superio-
também podem estar presentes. Astenia, irritabilidade, di-
desconforto res. Perda do olfato e do tosse e dispneia são sinto-
paladar,
minuição da concentração, anorexia, náuseas e
capazes de diferenciar pacientes
com
abdominal podem ocorrer, assim como tossel", mas apontados como
Covid-19 daqueles com resfriado comum ou RA°.
Dependendo da duração e da intensidade da RA, algu-
mas típicas podem estar presentes em
características faciais
Fatores desencadeantes
numero significativo de pacientes, como olheiras, dupla li-
nha de Dennie-Morgan e prega nasal horizontal (causada No Brasil, predominam como os principais agentes etiológi
pelo frequente hábito de coçar o nariz com movimento para
cos da RA os ácaros da poeira domiciliar (Dermatophagoides
Cima). O exame das cavidades nasais é essencial, mostrando pteronyssinus, D. farinae e Blomia tropicalis). Na região Sul,
tem sido documentado como significativa a sensibilização
e com abundan-
una mucosa geralmente pálida, edemaciada observa-se aos pólens de gramíneas,
sobretudo Lolium multiflorum. A
e secreção clara ou mucoide. Em casos crônicos, de barata
hipertrofia importante das conchas inferiores sensibilização a animais domésticos e a alérgenos
também é comum", O Quadro 1 reúne os principais agen-
desencadeamento e/ou agravamento da
tes envolvidos no
CLASSIFICAÇÃO DE GRAVIDADE RA0 Merece destaque a exposiço
ao fumo, principal po-
al (RAL). Esta
modalidade de
rinite é clinicamente muito
Jocate a RA tradicional, mas sem apresentar evidências NOS
pacientes que não melhora
apresentam que ou tem
Seibilização alérgica pelos métodos tradicionalmente Suspeita de outros diagnósticos associados à falta de
dos, sendo sua identificação feita pelo monitoramento ta ao
tratamento darinite, como quadros tumorais benig-
respos
Aas respostas locais apos a realização do TPNe (Figura 1):13 nos ou
malignos e processos infecciosos ou inflamatórios,
Sugere-se prosseguir com a
aos investigação ou referenciá-los
Outros exames
especialistas para que o façam.
Concentrações séricas de lgE total mais elevadas e presen- Assim, exames de
imagem como radiografia simples de
de eosinófilos em maior número são indicadores rinofaringe, tomografia computadorizada e ressonância
inespe- nética, e mag-
ificos de atopia e tëm pouca sensibilidade e especificidade outros testes
que auxiliam na avaliação da patência
para o diagnóstico de RA nasal e da porção
posterior da cavidade nasal, como endos-
Exames para avaliação de citologia nasal, biópsia nasal, copia nasal, rinomanometria, rinometria acústica e
fluxo inspiratório nasal, pico de
ames bacteriológico/bacterioscópico e testes de avalia- de outros
podem ser realizados para a exclusão
cão do olfato tambem não tëm relevância no
diagnóstico
diagnósticos, mas não para a confirmação da RA".
da rinite37,
TRATAMENTO
Avaliação da anatomia nasal
O tratamento da RA tem
A avaliação da anatomia nasal deve feita durante o exa-
ser
evitar
por objetivos controlar os sintomas
me fisico, por rinoscopia anterior com
espéculo nasal e luz
e
complicações decorrentes deles. Assim, medidas
as
não farmacológicas e
frontal. E parte importante da avaliação do paciente, uma farmacológicas são importantes para
vezque ajuda no diagnóstico diferencial de alcançá-los. O fluxograma apresentado na Figura 2 resume
alguns distúrbios
obstrutivos nasais já citados anteriormente.
os
principais esquemas de tratamento de pacientes com RA
segundo sua intensidade.
Sintomas de rinite
Positivo
Negativo
TPNe ou pesquisa de
lgE especifica nasal
Positivo
Negativo
Persistente
Intermitente
Leve Moderada/grave
Leve Moderada/grave
e irritantes)
Higiene ambiental (evitar alérgenos
Melhora: reduzir
Rever paciente após Rever paciente após medicação e
2 a 4 semanas manter por 1 mês
2a 4 semanas
Imunoterapia específica
Medidas não farmacológicas res Hl, importantes na RA, interferem com a ação da hista
Entre as medidas não farmacológicas, destaca-se o contro- mina (agonistas inversos) sobre eles e controlam de forne
le do ambiente. A redução da exposição aos alérgenos aos eficaz os espirros, o prurido nasal, a rinorreia, os sinto
quais os pacientes estäo sensibilizados é o princípio para a oculares associados e, parcialmente, a congestão nasa
adoção dessa conduta. Embora a literatura médica seja con- Em uso desde 1940, os anti-H1 têm tido sua
eficacld
troversa com relação à sua eficácia, a redução de exposiç o
Oprovada por muitos estudos, em crianças adultos,São
e
a agravantes e/ou irritantes certamente é eficaz. Deve-se sa- controle dos sintomas da RA de qualquer intensidade
lientar que a adoção conjunta dessas medidas é acompanha- classificados em: clássicos ou de primeira geração dan- sedantes).
da por maiores beneficios. O Quadro 2 reúne as principais tes) e não clássicos ou de segunda geração (não m a
medias de controle ambiental nas alergias respiratórias" anti-Hl clássicos têm alta lipofilicidade, atravess
Os baixa seletividad
quarto ibra ou látex, sempre que poSSivel envoltos material plástico (vinil) travesseiro
Evitar colchão de paina e ou
o em
serimpermeáveis
o
capas
ser limpo duas a tres vezes por mes. AS roupas de cama e os cobertores devem
deve ser
aos ácaros.
ou em
trocados e lavados estru
reguidrmen
da cama altas
dltas temperaturas ( 55°) e secos ao sol ou ar quente. Se possível, a superfície dos colchões deve ser aspirdad o
temperatu
detergente, a doméstico.
com potente de aspirador
odelo
um
Evitar tapetes
carpetes, cotinas e almofadas. Dar preferência a pisos laváveis (cerâmica, vinil e madeiras) e cortinas do tipo persiana
que possaserlimpocom pano úmido. No caso de haver carpetes ou tapetes muito pesados, de dificil remoção, os
ou den devem ser aspirados, se possível, duas vezes por semana, após terem sido deixados ventilar.
mesmos
não
não devem ser justapostos à parede. Caso não seja possivel fazer isso, colocá-los junto à parede sem marcas de
dev
berços
Camase mais
ensolarada.
Ou
umidade
chos de pelúcia, estantes de livros, revistas, caixas de papelão ou qualquer outro local onde possam ser formadas colônias de
vito ugrto de dormir. Substituir por brinquedos de tecido para que possam ser lavados com frequência.
acah
a r e eliminar o mofo e a umidade, principalmente no quarto de dormir, reduzindo a umidade a menos de50%.Verificar
ldent ente as áreas úmidas da casa, como banheiro (cortinas plásticas de chuveiro, embaixo da pia etc.). A solução diluiddde
4 semanas), podendo
tempo variável (1 a
lica, desencadeiam pou o sistema para utilização por prolongado em casos persis-
oucos efeitos adversos sobre também ser usados por tempo
ervoso central e têmafinidade com os receptores H1, com Além das formu-
ou graves (Tabela 1).
pouco tentes e moderados anti-Hl para uso
atualmente estão disponíveis
nenhum efeito anticolinérgico, antidopaminergl
decorrència do lações orais, (cetotifeno, emadastina,
0eantisserotoninérgico.
Rcelente nnergico. Desa
Desde então, em
e perfil de Segurançaedas vantagens terapêuticas tópico nasal
(azelastina) e ocular
Os anti-Hl tópicos têm eficácia
no t devem olopatadina, epinastina).orais e apresentam como vantagens
mento da RA, os anti-H1 de gunda geração similar à dos compostos e a maior efetivida-
priorizados em lação aos anti-H1 meia e uma
clássicos,
terapêuticas o
início de açào mais rápido
dos sintomas oculares.
da obstrução nasal
ou
-H1 têm rápi
àpido início de ação (entre de no controle de alguns anti-Hl tópicos nasais
duração de até [Link] para os anti-Hl de segun-
dageração, e os de primeira
Entretanto,0 gosto anmargo
tratamento14,
a adesão ao
geraçac variável
entre e 12 horas para
medicamentos
pode dificultar
l d e segunda geração são
940 TRATADO DE PEDIATRIA SEÇAO 12 ALERGIA
Fexofenadina Solução: 6 mg/mL 6 mesesa2 anos: 15 mg (2,5 mL) a cada 12 h 60 mg a cada 12 h ou 120 mg
Comprimidos: 30, 60, 120 e 2a 11 anos: 30 mg (5 mL) a cada 12 h 1 vez/dia
180 mg 6 a 12 anos: 60 mg/dia
Os descongestionantes são estimulantes adrenérgicos ou uso de derivados imidazólicos no primeiro ano de vida por
adrenomiméticos, têm como aço principal a vasoconstrição ação em SNC no sistema nervoso central.
e produzem alívio rápido do bloqueio nasal na RA. Podem Os CE sao agentes anti-inflamatórios potentes e atuam
ser de uso sistêmico ou tópico nasal. Entre os sistêmicos, a de modo significativo no controle dos sintomas de RA.A
pseudoefedrina é o mais utilizado, seguido pela fenilefrina. administração de CE sistêmico (oral) é medida excepcional
No Brasil, esses agentes estão disponíveis apenas em for- no tratamento da RA, sobretudo de sintomas nasais
graves
mulações fixas em associação com anti-H1. A pseudoefe- ou na presença de doença nasossinusal. Já o uso parenteral
drina deve ser utilizada com cautela por conta de sua ação de CE, especialmente os de depósito (ação prolongada), são
psicotrópica e de seus potenciais efeitos colaterais cardio- prescritos no manejo da rinite, em particular para criançase
vasculares. Não é recomendada para pacientes menores de idosos, devido aos efeitos adversos sistêmicos5
4 anos de idade, pelo maior risco de toxicidade, eas formu-
lações de liberação prolongada não são recomendadas para
Os corticosteroides tópicos nasais (CEN) são efetivos
no controle da RA e de outras formas de rinite não
alerg
menores de 12 anos de idade. A associação anti-Hle des- cas. Melhoram todos os sintomas de RA,
principalmente
congestionante tem sido usada quando falha o controle da a congestão nasal, a
alteração do olfato, a coriza, os espu
obstrução nasal. Em geral, essas combinações são mais efe-
tivas do que quando os descongestionantes são administra-
ros, o prurido nasal e os sintomas oculares associados.
melhora dos sintomas oculares traduz sua ação no rele
dos de modo isolado. A adição do descongestionante a um naso-ocular (rinoconjuntivite alérgica). Os CEN melno
anti-Hl, principalmente de primeira geração, pode causar
ou amplificar efeitos colaterais como insônia, cefaleia, boca
ram a qualidade de vida, a
qualidade do sono e a con
tração diurna, além reduziremo risco de complicaço
seca e nervosismo*"
Os descongestionantes tópicos nasais devem ser utilizados
como a rinossinusite, a otite secretora e a asma. admi-
da ação dos CEN ocorre em 7 a 12 horas após sud que o
por, no máximo, 7 dias, pelo risco de rinite medicamentosa ae
2
Corticosteroide de uso tópico nasal3 eficácia, mas pode elevar o risco de efeitos indesejáveis (in-
dice terapêutico). A Tabela 2 contém as doses recomendadas.
Tabela
administração mcg/dia (anos) Não se deve excedera dose diária final de 400 mcg
final deve
50 e 100 mcg/jato 100 a 400 >6 meg). Para pacientes com a s m a associada, a dose
tratamento das duas
Beclometasona
1a2jatos/narina
1a2 vezes/dia ser a somatória daquelas usadas para ocolaterais dos CEN:
doenças. São apontados c o m o efeitos
O efeito terapêutico dos CEN depende da efetividade da e sem controle com anti-histamínicos e/ou CEN, mostrou-
-se eficaze segura em crianças com RA persistente ou sazo-
substância ativa e da sua deposição na cavidade nasal, que
pode ser variável a depender da forma de administração nal e superior à administração dos produtos isolados como
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