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oN TM. pe “a " tate Digitalizado com CamScanner Enaronadver Daye regatin anda peda eorToR Marcio Conrrtpo crass Aman adie remands cher ‘capa Claudia Roquette-Pinto DEPARTAMENTO FINANCEIRO Arthur Chagas financeiro@[Link] DEPARTAMENTO DE MARKETING Reinaldo Calazans marketing@ [Link] ATENDIMENTO AOLETTOR Joana D'arc Morais assine@[Link] ESTAGIARIA DEREDACAO Iris Chadi sUGESTOES DE PAUTA redacao@[Link] ‘CARTAS cartas@[Link] PARA ASSINAR assine@revistacult. [Link] PARA ANUNCIAR femnanda@[Link] (CULT REVISTA BRASILEIRADE ‘CULTURA: Praca Santo Agostinho, 70, 10° andar / Paraiso SioPaulo-SP / CEP 01533-070 Tel: 1233853385-119 99989728 [Link] CULTLO}[Link] Q vevistacult @ revistacule cultrevista Cult é uma publicagio ‘mensal da Editora Bregantin [Link] se responsabiliza por ideias e conceitos expressos nosartigos assinados. £ proibida areprodugio total ou parcial desta pPublicagdo sem prévia autorizagao, As edigdes antigas da Revista Cult sito vendidas pelo prego de capa da digo atual Distribuigio exclusiva no Brasil (bancas) Dinap Ltda, Distribuidora Nacional de Publicagses IMPRESSAO Grafilar 05 entrevista Claudia Roquette- -Pinto, poeta c autora das ilustragdes desta edigao dossié Do que estamos falando quando falamos de feminismo decolonial brasileiro? 08 Apresentagao or Susana de Castro 11 Decolonialidade dosaberversuscol do poder? por Mary Garcia Castro lonialidade 7 20 25 38 Em buseadeuma identidade brasiliana Por Priscila Carvalho Decolonizandooolhar Por Caroline Marim Aliangaecompromisso Por Suely Messeder Origemeideias centrais Por Susana de Castro estante Livros para aprofundar tema do dossié dos leitores Digitalizado com CamScanner colaboraram nesta edicao CAROLINE MARIMé doutora em Filosofapela UFR) © pfesoa colorado do Programa de poegraduaga emFilosofiada PUCRS. Ecoordenadora do grupo de pesquisa Epistemologas, Netratase Poltcas etivas Feministas (CNP PUC-RS).. i MARY GARCIA CASTRO édoutora em Sociologia pela Universidade da Florida e professora visitante no Instituto de Filosofia e Ciéncias Sociais da UFR] Epesquisadora da Facultad Latinoamericana de Ciencias, Sociales (Flacso-Brasil) iSCILA CARVALHO édoutora em Cincia Politica pela UFMG e pesquisadora ‘em estagio pés-doutoral no Instituto da Democracia eda Democratizacioda ‘Comunicagao (INCT). SUELY MESSEDER ¢ doutora ‘em Antropologia pel Universidade de Santiago de Compostela e professora titular da Uneb.E coordenadora do grupo dde pesquisa Enlace (Uneb). SUSANADECASTHO outora em Filosofia pela Universidade de Munigue {professors associada do Departamento de Filosofia db programa em pos- [Link] Filosofia ia UFRJ. Imagens poeticas DAREDAGAO Claudia Roquette-Pinto, que fez as colagens que ilustram esta edigao da Cult, é poeta, tradutora e artista plastica. Autorade cinco livros de poesia e com poemas traduzidos em varios idiomas, ganhou 0 Prémio Jabuti com Corola, de 2001. Em 2006, Margem de manobra foi finalista do Prémio Portugal Telecom. Naentrevista a seguir, ela fala de seu trabalho comas palavras e com asimagens. Qual é a relagio entre suasatividades como poeta artista visual? Apoeta apareceu primeiro, a0 menos publicamente. Mas a colagem sempre foi uma paixdoe uma atividade que me acompanhou desde a adolescéncia. Além disso, para usar uma das classificagSes poundianas, considero que boa parte da minha poesia é muito fanopeica, ou seja, marcadamente imagética. Sempre tive um olhar meio plastico sobre as coisas. © trabalho de colagem foi retomado na vida adulta, inicialmente num periodo de bloqueio da escrita e, depois, num breve episédio depressivo, quando trabalhar ressignificando asimagens tornou-se a nica maneira possivel de acessar minha criatividade. ‘Como sera seu proximo livro? Meu novo livro se chama Alma corsdria & poemas do Rio e deve sair no primeiro semestre de 2021, pela Editora 34. Todo com poemas inéditos, o que me enche de alegria. Depois de mais de 12 anos sem publicar poesia (meu livro mais recente é Entre lobo e cao, com colagens e trechos de prosa, e saiu em 2014, pela Editora Circuito), finalmente vou poder voltar a sentir ‘o gostinho de me considerar poeta. ‘Como foio processo de criagio das colagens publicadas nesta edigao da Cult? Foi pensado e feito com mui consideracao e cuidado, principalmente pelo fato de eu ser ‘uma mulher branea, oriunda da burguesia, tendo sido convidada a interpretar/traduzir/fabular sobre ‘um universo que nao conhego “de dentro”, mas sim pelo “outro lado”. Contudo, tanto o feminismo como as questdes do silenciamento da narrativa e da objetificagao do corpo feminino sempre foram temas do meu trabalho -€ isso, acredito, esperangosamente, talvez possa me permitir trazer alguma contribuigao para oassunto. Brasil vai dar certo? Qual Brasil? Digitalizado com CamScanner Digitalizado com CamScanner dossié DO QUE ESTAMOS FALANDO QUANDO FALAMOS DE FEMINISMO DECOLONIAL BRASILEIRO? 8 Apresenta¢ao a8 Decolonialidade do saber versus colonialidade do poder? 17 Em busca de uma identidade brasiliana 20 Decolonizando o olhar 25 Alianga e compromisso 29 Origem e ideias centrais Digitalizado com CamScanner dossié SUSANADECASTRO feminismo decolonial académico surge a partir do texto “Coloniali- dad y género” (2008), da filésofa argentina Maria Lugones. Nele a autora amplia a teoria da “colonialidade do poder” do socidlogo peruano Anibal Quijano, introduzindo a nogio de “sistema moderno- colonial de género”. Quijano e 0 grupo de intelectuais latino-americanos do Grupo Mo- dernidade/Colonialidade foram precursores na analise do colonialismo pensado a partir do eurocentrismo, do racismo e da modernidade. Mostraram como 0 projeto europeu de coloni- zaco das Américas estava calcado na teoria pseudocientifica da raga como desculpa para a expropriacao capitalista da mao de obra es- crava e para o actimulo de capital globalizado. © racismo que justificou a escravidao de negros e indios, na mesma época em que a Europa saia da servidao e entrava no sistema liberal de pagamento do trabalho mediante sa- lirio, deixou marcas indeléveis no continente latino-americano. Entre essas marcas, desta- ca-se a colonialidade do saber, do poder e do ser. Ou seja, apesar de supostamente indepen- dentes, os paises latino-americanos continuam subordinados 2 um modelo de poder que repro- duz.a hierarquia racial e econmica da época da colénia, que marginaliza os saberes locais ¢, finalmente, que cinde a identidade nacional, ‘uma vez que ela ¢ marcada por um imaginario colonizado pelo racismo europeu. Para Lugones, além de raga, 0 conceito “moderno-colonial” de género - no sentido de aquilo que qualifica e identifica a diferenga se~ xual - também teria sido introduzido nos pai- ses latino-americanos como forma de dominar controlar 0 trabalho ¢ os corpos. Homens ¢ mulheres nao europeus, indigenas ¢ africa- nos, eram considerados “diferentes” ~leia-se inferiores -, porque nao seguiam as mesmas regras de socializago e convivéncia das socie- dades coloniais. Além disso, nao eram cristios. ‘Assim, foi-se construindo a narrativa: segundo ‘a qual os povos nao europeus, isto é; no caso latino-americano, os povos origindrios ¢ os africanos da diaspora, viviam como selvagens, préximos a animalidade, e que por isso a cul- tra e a religido europeias deveriam salvi-los, humanizando-os. 0 feminismo surge como um movimento europeu-americano de libertagao das mulhe- res da opressao patriarcal. Mas de quais mu- heres se esté falando? Existe uma identidade ‘universal “mulher”? Todas as mulheres so- frem da mesma forma diante do patriarcado ou algumas também usufruem das benesses dele? 0 feminismo negro e o feminismo Iés- ico norte-americanos mostraram que a sub- jugagao da mulher branca ao marido ou ao atrio nao aimpedia de participar do racismo institucional e estrutural que a favorecia por sua cor ¢/ou por sua sexualidade, ¢ por isso a algava a representante e porta-voz de todas as mulheres nos meios de comunicagao de mas- saenos meios académicos. Nesse sentido, no podemos condenar o patriarcado como uma eee een ae subordina todas as mu- ma sem olharmos para as diversas outras formas de opressa racial, asexual ea de classe. 0, tais como Be ‘mesma forma que o conceito universal poten de ser humano - ou de natureza hu- ‘ana, definida com base no modelo europeu 8F0, conseguiu dar expr opressiio de raga, clas, a » classe, sexualidade e ga Vividas pelas mulheres negras ¢ pelae ene res nio brancas*. Para ie Digitalizado com CamScanner mulher no branca possam ser elas mesmas Tepresentantes de suas pautas e reivindica- Ges, é necessario que thes seja reconhecido 0 lugar de sujeito, e que suas experiéncias fagam Parte também dos estudos feministas, A contribuigao das feministas negras e fe- ministas nao brancas foi fundamental para a critica & identidade “mulher” monolitica do movimento feminista identitario. Nao ha uma identidade iinica de mulher que represente todas as mulheres. A situagio fica mais clara quando comparamos as pautas do feminismo liberal “universal” pelo direito ao aborto, pela criminalizagio do assédio e do estupro, pela pa- ridade de género na politica e nos empregos-te- mas de interesse claramente da mulher branca ‘universitaria, e nao necessariamente da mulher trabalhadorae de classe popular. De que adianta lutar pela paridade na re- presentacao politica se as representantes mu- Theres forem todas da classe média ou média alta e defenderem seus interesses de classe a0 lado de seus pares homens? Se para muitas mulheres brancas a mater- nidade e o casamento nao podem ser mais 0 destino das mulheres, para muitas mulheres negras ¢ indigenas a maternidade é expresso central de suas identidades como mulheres e como lideres na comunidade ~ e nao esta associada diretamente A relagao de géneroe de casamento. O trabalho da nigeriana Oye- rénké Oyéwami sobre a sociedade ioruba do sudoeste da Nigéria, The Invention of Women: ‘Making an African Sense of Western Gender Dis- courses (1997), exp6s as falhas da universaliza~ G0 do conceito de género com base no ideal de familia europeia nuclear, por associar ma- ternidade ao casamento. Mostrou que a nogao ocidental de “mae solteira” ¢ uma formulagao estranha & cultura iorubé justamente por con- jugar as duas coisas, como se uma fosse de- pendente da outra Se a seguranga publica racista ¢ pautada pelo encarceramento em massa da popula- ‘ao negra, as mulheres negras vio se solida- rizar com seus companheiros nao brancos, endo com as feministas de classe média ¢ heterocentradas e suas pautas de liberagio sexual e autonomia financeira. feminismo decolonial latino-americano se junta ao movimento das mulheres negras e nao brancas na reivindicagao de que a ques tao do racismo ¢ central no eixo da opressio patriarcal-capitalista. Nao podemos pensar em feminismo brasileiro ou latino-americano sem considerar nossa heranga colonial escravista. Pensar um feminismo decolonial latino-ame~ ricano e brasileiro significa elaborar formas de combater um imaginério racista que considera inferior ao curopeu tudo 0 que € oriundo das comunidades origindrias e da cultura afro-bra- sileira. Importa deixar de glorificar a histéria colonial escravista e violenta, e criar mecanis- mos de conscientizagao coletiva sobre a res- ponsabilidade pelo genocidio negro e indigena e sobre aimportancia de politicas de reparagiio € de justiga. Além disso, o feminismo decolo- nial brasileiro compartitha da preocupagao de historiadores com a forma deturpada como nossos antepassados negros e indigenas sao descritos na historia do Brasil, sempre a partir do olhar do colonizador. Os levantes popula- res so ignorados pela histéria oficial, e as po- pulagGes nativas e os negros escravizados sao descritos como desprovidos de capacidade de resisténcia e luta, No entanto, como mostra a historiadora brasileira Beatriz Nascimento, a identidade negra no nosso pais é transpas- sada pela experiéncia da luta dos quilombos contra a colonizagio e a escravidio. Ao todo, na América Latina ha cerca de 602 etnias indigenas diferentes. Essa diversidade cultural é fonte de enorme riqueza humana. Se nio valorizarmos nossas origens e diferen- ‘gas, ndio deixaremos para as futuras geragdes uma heranga cultural que nos caracterize como povos livres. Este dossié traz para o leitor uma gama de reflexes dispares com o objetivo comum de iluminar uma experiéncia feminista prop latino-americana e brasileira. No primeiro texto a seguir, Mary Garcia Castro dialoga com a feminista Heloisa Buarque de Hollan- da sobre 08 rumos do feminismo decolonial, > Digitalizado com CamScanner dossié ‘seus impasses e avangos, com vistas a ajudar Heloisa na escolha dos textos que comporiam ollivro que ela estava organizando: Pensamen- 10 feminista hoje: perspectivas decoloniais (Bazat do Tempo, 2020). Mary mostra que, do ponto de vista da metodologia de escrita, nao ha um 86 modelo, 0 cientifico. Quando se trata de narrar experiéncias, precisamos nos libertar das amarras academicistas de escrita e adotar sem prejuizo um discurso poético-epistolar. No artigo seguinte, Priscila Carvalho traga as. principais linhas teéricas do feminismo deco- lonial de Abya Yala e mostra suas implicagdes para 0 cenario nacional. Depois, Caroline Marim discorre sobre as bases visuais oci- docéntricas da estética e seu contraponto na cestética sensorial de artistas contemporineos latino-americanos. No pentiltimo texto, Suely Messeder, utilizando-se de nog central para © feminismo decolonial, a do pesquisador en- ‘camado, traga um didlogo com Mie Stella de ‘Oxéssi baseado em seu discurso de posse na Academia de Letras da Bahia - quando levan- tou questdes como ancestralidade, aliangas © compromisso, entre outras. Suely mostra que é possivel um outro modo de fazer politi- ‘ca, que respeite os diversos atores em jogo. Por fim, apresento um apanhado das contribuiges te6ricas do feminismo decolonial. 0 feminismo decotonial nao é uma teoria fechada, mas sim um movimento em cons- trugdo, que vai crescendo e se modificando a partirdo momento que novas experiéncias Ihe sio actescentadas. Nota: Hesitei ao escolher qual termo usar, “descolonial” ou “decolonial”. Contra 0 se- gundo pesava o sentimento de que se tratava de um estrangeirismo (galicismo ou anglicis- ‘mo), 0 que entrava em contflito com a propos- ta, Contra o primeiro pesava o fato de o termo oder sugerir um livrar-se de uma situagao-o colonialismo - ¢ talvez retornar a uma situa- glo sem 0 contigio da opressio colonial. No verbete “Pensamiento descolonial/decolonial” do Diccionario del pensamiento alternativo, ot~ ganizado por Hugo Biagini e Arturo Roig, 6 as esto corretas, mas fere o termo “descolo- paises se prefere de “decolonial” dito que as duas grafi {que na Argentina se pre nial”, enquanto nos demais “colonia”. Opte peo uso de "iene porentender que nao é possi re desfazermo-nos das marcas do colonialismo, ‘mas sim, seguindo Catherine Walsh, “assi- nalar e provocar um posicionamento ~ uma postura e atitude continua -de transgredir, in- tervir, in-surgir ¢ incidir. O decolonial denota, entio, um caminho de luta continua no qual podemos identificar, visibilizar e incentivar ‘ugares’ de exterioridade e construgdes alter- nativas”. Trata-se ndo mais de reagir, mas de agir e construir alternativas mais inclusivas e positivas sobre os saberes e as praticas do con- tinente latino-americano. “a rane cmeponde a expresso “women of col adotada por tericosnrte-americanos om fe rica ao colriso, us come a igmenocraca designe ‘dicing eta cord pe No tea “Colorion Bee iin Aine Di st qu temo ‘er ie, dean sinpifeada que quanta nap iments forua pesos mato serdwescuado edie mina qu ela sofren Digitalizado com CamScanner Decolonialidade do saber versus colonialidade do poder? UM VETOR CARO A PERSPECTIVA DECOLONIAL E QUESTIONAR MODELOS DE DESENVOLVIMENTO BASEADOS NA REDUCAO DO SER HUMANO A MEIO DE PRODUGAO MARY GARCIA CASTRO ‘egue artigo em forma de ensaio con- siderando Theodor Adorno, para quem o ensaio nao é um género me- nor, mas se formata em um livre pen- sar que flerta com varias disciplinas~e que em especial se fascina com a literatura, Estou so- lidaria com as anguistias de Heloisa Buarque de Hollanda na organizagio de um livro sobre tendéncias do pensamento feminista hoje ¢ potencialidades da perspectiva decolonial. Perspectiva por aqui ainda sem cumprir seus principios, como decolar do local, de expe- rigncias coletivas de mulheres na contramao de modelagens normativas ~ 0 que pode ser paradoxal, considerando a fertilidade das no- vas tendéncias do feminismo por estas terras. Alias, primeira provocagio: precisamos de um tipo de feminismo que anule um rico percurso que vem enfrentando golpes e violéncias, ou ser que precisamos de ampliagao critica do feminismo, considerando sujeitos em distin tas relagdes na classe-raga-género, em prol de uma frente de varios feminismos, como © negro, o de orientago popular (por exem- plo, o das mulheres trabalhadoras rurais), 0 emanecipacionista com projeto socialista, e as elaboragdes sobre sexualidades nao hetero- normativas, informadas nos movimentos de grupos LGBTL+? De fato, um dos construtos importantes da perspectiva decolonial seria, segundo Mi- chel Cahen em texto incluido em Para além do pés(-)colonial (Alameda), “evitar o frequente hiperclassismo de certo marxismo, segundo qual as iinicas identidades relevantes sio as identidades de classe ~ essas tiltimas além disso reduzidas somente as duas classes ‘fun- damentais’ constitutivas do modo de produ- ao capitalista’. Mas Cahen também adverte que as identidades esto em um constante > Digitalizado com CamScanner dossié reinventar-se, condicionadas por historicida- dese multiplas relagdes, como as no saber eno poder, nao se alimentando apenas de memé- rias, por mais softidas que sejam, como a da escravidao: “A colonialidade nao é uma mera Aantropologa Lélia heranga, é uma produgao especifica de subal- ry temnidades enraizadas na histria” Gonzalez destaca tres Além disso, a complexidade da composigao ininas socio-étnico-racial do Brasil, a diversidade de figuras femi vivéncias e desejos entre as mulheres, mesmo, emblematicas paraa na raga-e-classe, adverte que de fato é preciso = a estar atento para escutas de saberes de comu- formagao da na¢ao: nidades, resisténcias em corpos subalterniza- amulata, a mae preta dos nao necessariamente proletarizados, as- sim como nio desconsiderar a importincia de tais corpos, sujeitos lissicos na reprodugio do sistema capitalista patriarcal. Ha que conhecer mais as praticas de resisténcias diversificadas, ou para potenciais redes de subversio, o que pede combinagao de perspectivas feministas micro/macro orientadas, como a que vem se _ faz us As anilises sociologicas sobre vulnera- modelando nos debates sobre género, repro-_ bilizages impostas por herangas escravistas, dugioe os/as comuns Por outro lado se organiza em sindicatos, fede. Sto muitas as ilustragBes de decoloniali-- raga e até em uma confederacao latine-ame. dadesnativas. Nao séo novasasresisténciasa_ricana com mais de 1$ anos que reine hoje colonialidades por mulheres, entio tenhamos _ 25 sindicatos no continente, a Confederaciea culdado com rétulos novos. Por exemple, os Latinoamericana y de Caribe del Trabjace: Protestos das mies de jovens negros asassi- ras del Hogar (Cnlactaho),desafande ony nados pea policiamobilizam afetspelosseus, sobre impossblidade de organizagiosiaingy assim como deninciascontraoEstadoracista/ deatividadesditaspré-capitalitare satya oy Patriarel/classista, desfandocolonaldades, nfo reconhecimentocomo membre ieee lia Gonzales desaca rts igurasfemini- trabalhadora por outrascategoriag Inge, nasemblemitiasparaaformasiodanagio:a te inventariar tis atvemosreateee mmulata,amepretaeaempregadadoméstica. Ihorsedseutrdecoloiaidaderge Fon Mustrs asin adindmicadaheranga colonial Na literatura sobre decolonntin eo ¢ as subversdes, decolonialdades impressas mum apelarparao respate te con. Por elas Diz Raquel Barreto: “De cordo com em uso, de poves origina, sei ets ‘lia a mie preta de forma conscienteouin- nocatidiano,semagreseioyar eres oe mneaeoS consciente, acabou por passaros valores afti- dos ancestrais, Design eee anos eafro-brasileiros para as ctiangas bran- ldgicos, além do ces Iy casde quecuidou. Em especial elaafticanizou em que se misturamns © portugués,e oensinou, transformando-oem — timo, ‘pretugués” (expressio da autora). eaempregada doméstica vindos m-se principios eco- imento de resisténcia magico e 0 “racional”, Suficiente para enfren. us” exp ; fara barbitie neoliberal e para nee A Smulata’ se entedada em violéncias fatode que mais de se agra G28 conta do simbélicas, desestabiliza moralidades colo- rage ninisimpde erotismo fora dos wilhos familis-séo brancos, pobres o PP"%€ ue muitos tas, Aempregada doméstica, se porum|ado eado? De fae aerem estar no mer- mas sera que é Digitalizado com CamScanner desigualdades, inclusive enegrecendo os/as Pobres, independentemente da melanina. Mas a conjugacao raca/classe/género indica ue as mulheres negras e as mulheres bran- cas pobres seriam as mais vulnerabilizadas, Feconhecendo-se tal intersecsao como uma colonialidade que se metamorfoseia, embo- ta permanega historicamente. Ora, tal inter- secedo também sugere que uma perspectiva feminista decolonial pede aliangas entre su- bordinados/as e seria avessa aidentitarismos, ‘ou que aposta em hierarquizagao entre esses/ as. As redes de apoio miituo em vizinhangas territorializadas nas periferias fortalece a tese de que o debate em perspectiva decolo- nial ndo comporta identitarismos. Outra questao: sera hora de marginalizar aimportincia de um Estado de bem-estar so- cial e debate sobre democracia e ater-se a resisténcias comunitarias? No caso brasileiro, ccabe insistir sobre um vetor caro A perspectiva, decolonial: a colonialidade do poder, ques- tionando modelos de desenvolvimento base- ados na competigao, no sistema-mundo, no consumismo, no extrativismo, na redugéo do serhumano a meio de produgao. A teoria do sistema-mundo é anunciada por Immanuel Wallerstein, um dos autores basicos no debate sobre decolonialidade, enfatizando desigual- dades sécio-politico-econémico-regionais na divisio internacional do trabalho, propria do sistema capitalista - desigualdades entre paises do centro, da periferia e da semiperife- ria. Além disso, paises em regides periféricas tém uma dependéncia estrutural de organis- mos internacionais, que sao orientados por interesses de paises do centro, inclusive de cordem financeira e humanitiria, Wallerstein aposta em movimentos sociais contra tal es- tado do mundo. ‘Tal vetor choca-se com projetos de nagao universalizantes e calcados em progresso ¢ competigio, defendidos inclusive por setores das esquerdas. Isso explica que orientagdes como o Bem Viver, que questionam modelos de desenvolvimento com tais projetos, sejam acei- tas 6 se limitadas a experiéncias comunitarias. Para uma perspectiva feminista decolonial sensivel & experincia de mulheres dos povos originais no Brasil, o texto de Rita Segato suge- re pistas tedricas. Refiro-me a um texto que se- gundo Segato foi publicado originalmente em Lacuestién descolonial (org. de Anibal Quijano ¢ Julio Mejia Navarrete, Universidad Ricardo Palma, 2010). Segato realca um desafio ao de- bate decolonial: 0 lugar do Estado. O que no ‘caso brasileiro pede mais investimentos, uma vvez que, mesmo com a terrivel historia de abu- sode poder e heranga colonial escravista, um Estado democritico, contra governos autori- tarios, sempre esteve nos projetos de politicas puiblicas por parte das feministas. Em perspec- tiva decolonial, como discutir o Estado? Sega- to no o descarta, enfatizando que mulheres indigenas no Brasil insistiriam na importén- cia de contarem com politicas piiblicas, com a agdo do Estado, mas defendendo autonomia sobre a operacionalizagao. © que estou sublinhando ¢ que ¢ preciso haver teorias com corpos nativos, decolando de relagdes socioétnicas, de ambiéncias e vi- véncias de mulheres. debate sobre decolonialidade toma fole- go em tempos de desencantos. De fato hd que combater o medo com esperanga, como sugere Terry Eagleton: enfrentar a crise do capitalismo no como mais uma crise, mas como fracasso de uma visio e ordenagio do mundo -~conside- randoo aumento dos descartiveis a que se refe- re Giorgio Agamben e a vigéncia da necropoli- tica, ou odireito de matar do Estado. Alias, no poracaso, mortes preferencialmente de pobres ‘e negros, em especial nos paises ao sul, como dos continentes africano e latino-americano. Achille Mbembe relaciona a necropolitica com tempos de pés-colonialismo. Insisto: precisamos no de uma perspecti- va feminista absolutista, do “antes de mim 0 dikivio”, mas de uma frente ampla de varias perspectivas, crticas a0 status quo. Se a ideia 6 ter alternativas que mobilizem, ha que con- siderar tanto 0 estado do mundo, do continen- te, do pais, de casas e corpos, como também 0 desencantoe a falta de horizontes proximos, » ¥ Digitalizado com CamScanner Insisto, portanto, que é necessario compor re- des de saberes feministas, aliangas transnacio- nais, e também explorar mais precursoras na- cionais do debate sobre colonizagao de mentes € corpos e estratégias de contra-ataque, como Lélia Gonzalez e Beatriz Nascimento, autoras que muito investiram contra a colonialidade do poder e do saber, destacando 0 lugar estrutu- ante da raga na formagao da nagio. E urgente nesse sentido discutirmos mais essas pioneiras, inclusive em sala de aula, buscando decoloni zagdes do saber. Adecolonialidade do saber no Brasil é uma promessa, com o aumento de jovens negros/as nas universidades, mas ainda ai impera a co- lonialidade, com curriculos rigidos, de orien- tago eurocéntrica e disciplinar. E promissora, mas € preciso cuidado para que nao se dilua ‘em modismo essa busca por literatura de auto- ras afrodiaspéricas, em especial as de origem africana, que misturam oralidade e literarie- dade, historias e estérias sobre o colonial e 0 pés-colonial, em que ancestralidade e mun- dos imaginados se fundem a seus dramas exis- tenciais, como a ambiguidade do fardo-éxtase da maternidade e do amor romAntico hetero- normativo. Como adverte Lélia Gonzalez, os mitos da democracia racial e da paternal colo- nizag3o portuguesa se constroem sobre 0 uso/ estupro do corpo da mulher negra e do horror auma Africa tida como selvagem ou também desumanizada como paradisiaca. ‘Nao por acaso, a entrada de jovens negros/ as nas universidades coincide com maior oferta de estudos sobre autores/as africanos/ as, Mas no nos iludamos, ha que ficar aten- tos a tentativas de epistemicidios culturais e espirituais, como os boicotes a estudos sobre 05 povos africanos e expressdes religiosas de matriz afro-brasileira por parte de fundamen- talismos religiosos e de Estado, como 0s que vém ocorrendo no Ensino Médio. Mas por que nomear como decolonial 0 que nio é novo, e sim silenciado, marginal zado academicamente? Tudo bem se com tal nomeagao questionamos siléncios, se chama- ‘mos atengao para a multiplicidade de sujeitos “4 ctiticos, saberes de vivéncias comunitarias, ancestrais, se modelamos ideias de aa contra subalternidades na equasso rasa/clas- se/género e se contamos outra nies sobr descobrimento/encobrimento herangas coloniais. Mas que em tal modelagao nos en- gajemos em projetos por amefricalatinidades, indo agendas redes transnacionais, considera de conhecimento/agéo como as propostas por Lélia Gonzalez e Beatriz Nascimento. Esta nos sugere 0 conceito de potencialida- de decolonial estrutural, 0 “quilombismo”, como resisténcia cultural, a ser mais explo- rado em cursos inovadores, reunindo sabe- res comunitarios e académicos. Assim como © conceito cunhado por Lélia Gonzalez, de “améfrica Ladina”, o de “quilombismo” pede que, para evitar anacronismos ou simplifica- 6es historicas, invista-se em epistemologias que explorem histérica e etnologicamente a complexidade do debate sobre coloniza- ¢40, pés-colonialismo e decolonialidade em Paises africanos, que explorem legados afri canos e de povos originais no Brasil e resis- téncias aqui, hoje, ou seja, territorializadas. Gonzalez e Nascimento sugerem que, mais que um “giro linguistico”, esses conceitos pe- dem investimentos cognitivos e movimentos sociais diversos, calcados em resisténcias a insubordinagées, _Também é urgente nos centrarmos em ati- vismo contra o massacre de povos indigenas e de jovens negros e a repressio as casas de ter- relto, E que contribuamos mais, a partir de nos. 508 privilégios institucionais, expressdes artistico-culturais ¢ normas do estado patriarcal, capitalista, Insisto neste texto no formato ensaio El Sugere uma agenda de estudos, De fato, i Politicas contra experiéncias decoloniais m varios campos eI : e La ie Foe ‘cago, ha que estudar. bar as tn *0-sociais de pode; ce na diversi de de produgdes das mulheres - nae e =a rignci que passam por reproducses engend, =a diversas ambiéncia, e radasem Digitalizado com CamScanner dossié Digitalizado com CamScanner Em busca de uma identidade brasiliana MEU CONVITE E QUE RESGATEMOS SABERES E PRATICAS DOS QUAIS FOMOS ESPOLIADAS E ALIENADAS, E QUE CAMINHEMOS PARA CONSTRUIR ARCABOUGOS REFLEXIVOS ECRITICOS, PLURAIS, SOBRE NOS priSCILA CARVALHO steorias e 0s movimentos feminis- tas so concepgées de duplo inves- timento: analitico e empitico. Isso jacontece porque retinem em suas, perspectivas teoria e pratica, compondo-as como praxis, como poderosas ferramentas de andlise que lem as relagdes de forcas patriar- cais ~e, por decorréncia, também antidemo- craticas - que compdem 0 sistema estrutural de dominagio sexista. Jé ¢ sabido que a desi- gualdade e a violenta dominancia do sexismo se perpetuam pela permissividade de tal cul- tura androcéntrica, que implica subalterni- zagao de mulheres ¢ de outros sujeitos lidos numa otica sexista e/ou heteronormativa. Embora estrutural, a subalternizagao va~ ria de acordo com as conexdes com outros sistemas de dominagao que se articulam e reforgam o patriarcado, como o racismo, 0 et nocentrismo, a exploraco e a espoliagio eco- némicas. Por essa razio, 0 objetivo dos femi nismos ¢ transformar a sociedade em espagos paritarios, justos e democraticos. Desqualifi- cé-los ou sectariza-los é um meio funcional para manter a distancia o maior nuimero de pessoas e grupos de suas anilises e praxis, de forma que fiquem, consequentemente, em seus “devidos lugares”, seja de subordinagio ou de pleno status de cidadania. A tentativa de transformar essa cultura sera tanto mais eficaz. quanto mais as teorias e movimentos feministas puderem se debrugar sobre essa realidade concreta, seus contextos e arranjos de subalternizagdo. Mesmo que em menor escala e em condigio de privilégio, muitos homens sio impactados negativamente por esses sistemas de opressio. Talvez essa seja uma das razdes que tornam o feminismo des- colonial latino-americano eos feminismos das mulheres nativas originarias de Abya Yala tio promissores e especiais, tanto para brasileiras como para brasileiros. O feminismo decolonialista se inspira na nogao de interseccionalidade entre raga, clas~ se, géneroe sexo-que emerge dos movimentos feministas das nativas latino-americanas, cari- benhas, afro-americanas e chicanas. Porém, realoca tais categorias a partir das anilises > Digitalizado com CamScanner € experiéncias implicadas na relagao com co- lonialidade, modernidade e capitalismo. E 0 que faz, por exemplo, a fildsofa Maria Lugones quando anuncia um movimento de reinsersa0 daquelas categorias no contexto das Américas. Em seu texto “Rumo a um feminismo desco- lonial”, declara que realiza um deslocamen- to metodolégico da interseccionalidade do “feminismo nao branco” para a metodologia analitica do feminismo decolonial por este ir as origens das classificages sexistas e raciais com base na criagao da “diferenga colonial”. Podemos nos perguntar: mas de onde ela retira as bases para essa virada metodolégica? E no que consiste? A fonte principal do mapeamento incorpo- rado tem como referéncia pesquisas do Grupo Modernidade/Colonialidade, coletivo latino -americano que se fundou por dissidéncia ou ruptura com 0s grupos de estudos subalternos ¢ pés-colonialistas. Uma das mais importan- tes contribuigdes desse grupo é tornar eviden- tea existéncia de um padrao de poder mundial sustentado a partir da colonizacao das Améri- case da Africa, nomeado de colonialidade do poder. O investimento analitico, desenvolvido por Anibal Quijano no texto “Colonialidade do poder, eurocentrismo e América Latina”, mostrou como a relagdo entre capitalismo, classe, raga e conhecimento se teceu concei: tual, simbélica e materialmente em moldes coloniais emodernos. Para os propésitos deste artigo, podemos dizer de forma resumida que colonialidade e modernidade sio elementos constitutivos do capitalismo mundial - e de seu controle sobre todas as formas de traba- Iho ~ que se articulam e consolidam no bojo do projeto epistemolégico colonial mediante a racializagio dos povos colonizados. Para funcionar, a raga serviu como classificagao dos povos colonizados com fins de dominagao iio somente politica e econémica stricto sensu, ‘mas também epistemolégica e cultural. Penso a contribuigao de Lugones com base nesses dois referenciais e em suas mudangas substanciais indispensiveis, que permitem for- mularo que ela nomeia de “sistema colonial de género”. Lugones oferta-nos uma conti singular ao mostrar que, se a dominasio Pela raga é condigao sine qua non para cucee a capitalista de produgao possa se ergucr = zer dos sereshumanos mercadoria que geramm ‘mercadorias, compondo um mercado mundial =, 0 género racializado ¢ igualmente operante na estrutura de dominagio dos povos colonizados das América e da Africa, sobretudo da domina- G0 das mulheres. A filésofa aprofunda as an: lises acerca da modernidade colonial e advoga que as mulheres brancas burguesas europeias também sio subalternizadas e submetidas a0 sexismo, como partes do “lar a servigo do ho- mem branco europeu”. Nessa condigao, elas se destinariam a fornecer condigdes para per- petuar a “raga” branca e as riquezas da familia (raga e capital) por meio de sua “pureza sexual”, Ressalta, porém, que a subordinagao dessas mulheres nao implicou a negagao de sua huma- nidade, ao passo que ds mulheres colonizadas a ideia de género naquele momento niio foi apli- cada, na medida em que tal categoria consistia em classificagao hierarquica entre humanos ~ condigdo que Ihes era negada. Assim, mulheres nativas colonizadas~ desde entao_ nomeadas de “indigenas” - e mulheres da Africa - desde en- to nomeadas de “negras” -foram classificadas segundo o quadro conceitual moderno colonial ¢,em resumo, assaltadas em sua humanidade: “bestas” cuja sexualidade seria insacivel. Eis nossa condi¢o como mulheres colonizadas, ; Lugones € analiticamente Perspicaz ao identificar a dicotomia humano-nio humano tase de acne te Pm lonizados. poressa rarioques tien ee 20 que a filésofa pode mostrar que mulheres colo gendradas como suy tas mainstream w nizadas nao eram POEM as teorias feminis- » em lugar de género, is ‘cabia o par conceitual : isso Lugones tem razao, auando atribui a origem do género A moder, nidade colonial, podemos dizer que o meena nfo se aplica 20 patriarcado, que, aldm da Digitalizado com CamScanner viajar muitissimo para além da modernidade, estd ancorado bem antes da modernidade co- lonial, e também entre os povos colonizados. Pesquisemos os intimeros relatos de dife- rentes hierarquias que podem ser identificadas em diversas culturas no Brasil e em outros pai- ‘ses da nossa Abya Yala. Encontramos essa ava- liagdo, por exemplo, na feminista comunitiria Lorena Cabnal, que nos mostra a existéncia de ‘um sistema patriarcal ancestral milendrio en- tre originarios/indigenas, em seu artigo “Acer- camiento a la construccién de la propuesta de pensamiento epistémico de las mujeres indige- nas feministas comunitarias de Abya Yala”, pu- blicado em Feminismos diversos: el feminismo co- munitdrio (2010). Ainda assim, Lorena Cabnal ¢ outras feministas comunitarias argumentam. que, embora a refundagao do patriarcado ori- gindrio existisse antes da colonizagio, depois surgi sua versio mais perversa, devido aos ‘componentes trazidos pelo capitalismo e mais tarde pelo neoliberalismo globalizante. ‘No contexto da experiéncia colonial brasi- leira, a heterogeneidade racial - que muitas ad- ‘vogam ter se iniciado com os estupros coloniais, = niio se compés como “democracia racial”. Ao contririo, revelou-se cinicamente racista, 0 que exige que nos debrucemos com serieda- de sobre o entrecruzamento construido entre genero, colonialidade, raga e capital, jé que ele esta no cerne da hegemonia de valores cultu- rais que mantém os arranjos institucionais an- tidemocraticos no Estado. Ao analisar os pactos sociais que forjam as subalternizagdes das mu- Iheres, as violéncias do patriarcado brasileiro € ‘aconexio de género, raga e classe, a professora ¢ tedrica feminista brasileira Heleieth Saffio- ti observa em Género, patriarcado, violéncia (2004/2015) vantagens que se somam aos brancos, ricos e heterossexuais em sociedades racistas, classistas e sexistas. Tais conexdes sio, portanto, indispensaveis para elaborar- ‘mos, numa visdo geopolitica do conhecimento, um Pensamentos dos Trépicos, sobretudo no nosso Brasil. Saboreando essa ideia, deixo 0 convite para que leiamos também a professora e tedrica feminista Lélia Gonzalez, que penso ser uma das imperdiveis teéricas militantes com quem as mulheres brasileiras precisam se reencontrar. Lélia Gonzalez nos chama a atengao, em Por um feminismo afro-latino- -americano (1988), para os atravessamentos materiais e simbélicos violentos que marcam a condigao das mulheres afro-latino-america- nas no Brasil, apesar de sua infiuéncia sobre a cultura brasileira. Eu diria que, imprescindivel, Lélia confirma e analisa 0 que uma rapida visa- dana historia nos convence irrefutavelmente: valores nocivos e antidemocraticos sempre for- raram 0 chao da identidade nacional brasileira. Essa base racista, sexista e classista é convoca- da com recorréncia por grupos que advogam a desigualdade em diversos niveis os quais, nao por acaso, ha pouco vieram a tona com grande fora no Bras 0 tecido axiolégico, que faz, em dimen- sdes e configuracées diferentes, do sangue das nativas, negras e brancas o mais encon- trado no solo brasileiro, convoca-nos diutur- namente as praxis feministas para a contra~ produgdo cultural em nosso dia a dia, nossas organizagées sociais, nosso aparato legal e nossas produces cientificas e/ou filosdficas. ‘Meu convite & que resgatemos saberes e pri- ticas dos quais fomos espoliadas e alienadas, e que caminhemos para construir arcabougos reflexivos e criticos, plurais, sobre nés. Nossa urgéncia por novos parimetros de eticidade, cuidados e paridade é enorme. Assumamos a desconstrugdo do racismo estrutural e da colonialidade patriarcal dos quais o Esta- do brasileiro é signatario - seja por heranga, costume, negligéncias ou conveniéncias de alguns poucos que até o momento deram as cartas do jogo. @ Digitalizado com CamScanner

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