Pedro Magalhães
Sondagens, Eleições
e Opinião Pública
Ensaios da Fundação
Para Mário Lages e José Luís Santos Lima,
com admiração e amizade
Índice
1. Que livro é este? 11
2. Tomar o todo pela parte 22
3. Amostragem: da teoria para a prática 38
4. Perguntas e respostas 65
5. Afinal, para que servem as sondagens? 89
6. Conclusão 106
Leituras 108
1. Que livro é este?
Experimentem pesquisar a expressão “dos portugueses”, as‑
sim mesmo, entre aspas, no Google News. Foi o que fiz num dia
do ano de 2010 em que comecei a escrever estas linhas.
Apareceu muita coisa, mas os títulos que me chamaram mais a
atenção, todos referentes a notícias de uma única semana, foram
estes: “55 % dos portugueses não usam a Internet”; “70 % dos
portugueses não confiam nas instituições do governo”; “78 %
dos portugueses esperam mais aumentos de impostos”; “50 %
dos portugueses não farão férias este ano”; “Maioria dos portu‑
gueses vive com menos de 900 € por mês”; “91 % dos portu‑
gueses dizem que a pobreza aumentou no último ano”; e
“Portugueses são dos menos interessados em ciência e tecnolo‑
gia”. Além da mensagem genericamente pessimista que trans‑
mitem, é fácil perceber a outra coisa que têm em comum: todas
estas notícias se referem a resultados de inquéritos amostrais,
mais conhecidos por “sondagens”.
Por estes dias, qualquer pessoa que esteja minimamente ex‑
posta aos meios de comunicação social acaba por ser bombar‑
deada constantemente com resultados de sondagens. Parece
exagero, mas não é. É certo que a maior parte das sondagens de
cuja existência nos damos conta são as que têm que ver com
assuntos políticos e eleitorais. Vários estudos sobre a cobertura
noticiosa das campanhas eleitorais em Portugal mostram que os
resultados de sondagens são dos temas mais abordados, acima
dos debates entre os líderes partidários ou até — imagine‑se
— de quaisquer temas substantivos ligados a políticas económi‑
cas e sociais. Mas a verdade é que as sondagens estão também
na base de muitas outras notícias sobre muitos outros temas,
mesmo quando disso não nos apercebemos.
Quando um diário de assuntos económicos, citando dados do
Instituto Nacional de Estatística (INE), anuncia que o “índice
de produção industrial acelerou”, a maior parte das pessoas não
perde muito tempo a pensar de onde terá vindo esta informação
ou como se terá chegado a esta conclusão. Vejamos. Para reali‑
zar o Inquérito Mensal à Produção Industrial, o INE parte de
uma lista completa das empresas industriais portuguesas para
seleccionar uma amostra, ou seja, uma pequena parte da totali‑
dade das empresas industriais, utilizando procedimentos que
tentam assegurar que essa amostra seja representativa da totali‑
dade. Elabora um questionário, que visa obter informação sobre
coisas como as quantidades produzidas e vendidas de determi‑
nadas classes de produtos e o valor das vendas. Aplica esse
questionário, fazendo‑o chegar às empresas seleccionadas e
solicitando resposta por parte de um representante dessa empre‑
sa, por via postal ou electrónica. Chegadas as respostas, alguém
as colige e agrega numa base de dados, que depois é sujeita a
vários tratamentos de forma a poder responder a algumas ques‑
tões fundamentais. A actividade industrial cresceu ou diminuiu
em relação ao mês anterior? O que significa isso para a evolu‑
ção da média anual? Em que tipo de bens se deram maiores
alterações? Reflectem elas mudanças reais na actividade indus‑
trial, ou meros efeitos de sazonalidade (época natalícia, por
exemplo) ou de calendário (início ou fim do ano civil)?
O que acabo de descrever é o conjunto de procedimentos que
define o que é uma sondagem. E quem fala do Inquérito Mensal
à Produção Industrial poderia falar da maior parte da informa‑
ção estatística gerada pelos organismos oficiais. São raros os
estudos deste género que se baseiam em recenseamentos, ou
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seja, na recolha de informação junto de todos e cada um dos
indivíduos, empresas ou organizações existentes em Portugal.
Pelo contrário, a maior parte da informação estatística nacional
resulta de inquéritos amostrais. As sondagens estão na base da
maior parte das informações quantitativas de que dispomos
sobre o nosso país e sobre a nossa sociedade.
Suponho que alguns leitores irão franzir o sobrolho a esta
utilização indiferenciada dos termos “sondagem” e “inquérito
amostral”, mas é deliberada. A convenção dita que o termo
“sondagem” — ou o seu equivalente em inglês, poll — seja
reservado para trabalhos conduzidos para meios de comunica‑
ção social sobre temas de actualidade, na maior parte dos casos,
temas com implicações políticas. Quem tenciona votar neste ou
naquele partido? Qual a popularidade do primeiro‑ministro ou
dos líderes dos partidos da oposição? O que acham os eleitores
desta ou daquela decisão política? Já a expressão “inquérito
amostral” ou “inquérito por amostragem” — survey, em inglês
— costuma ser reservada para estudos académicos ou governa‑
mentais, sejam os que recolhem opiniões e atitudes dos cidadãos
sejam os que se dedicam a recolher informação factual.
Contudo, não creio que se ganhe muito em insistir nesta dis‑
tinção. É certo que aquilo a que normalmente se chama “sonda‑
gens”, pela natureza dos temas que tratam e pela rapidez com
que têm de ser conduzidas para servirem a agenda dos meios de
comunicação social, costuma exibir determinadas característi‑
cas técnicas e metodológicas distintas das dos inquéritos amos‑
trais governamentais ou académicos. Mas estamos a falar de
diferenças de grau, e não de espécie. Não existe uma diferença
intrínseca entre esses tipos de trabalhos ou entre os métodos e
técnicas que utilizam. De resto, há inquéritos de natureza aca‑
démica ou governamental que, infelizmente, são feitos com
amostras de dimensão relativamente reduzida e recursos limita‑
dos. Muitos medem atitudes e opiniões de indivíduos sobre te‑
mas que facilmente entrariam num alinhamento noticioso. E há
sondagens conduzidas para os meios de comunicação social
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que utilizam grandes amostras e recursos humanos, logísticos e
financeiros consideráveis, tratando temas que facilmente en‑
contramos abordados em revistas científicas e académicas e
recolhendo informação de natureza factual junto de indivíduos
ou organizações.
A distinção entre sondagens e inquéritos amostrais pode obs‑
curecer as coisas mais do que as clarifica. Afinal, em ambos os
casos, faz‑se uma inferência, ou seja, utiliza‑se uma parte da
realidade que se consegue observar (uma amostra) para genera‑
lizar sobre algo que não se observa (as características da totali‑
dade de uma população). Em ambos os casos, são utilizados
questionários, que solicitam de alguém informação objectiva ou
percepções e atitudes subjectivas. Em ambos os casos, essa in‑
formação obtida de forma individual tem de ser tratada e pro‑
cessada. E em ambos os casos, as inferências que se façam da
amostra para a população estão sujeitas a erros. Um desses er‑
ros — o erro amostral — decorre inevitavelmente do facto de
se usar uma parte — a amostra — para dizer coisas sobre um
todo, e é sobre ele que falaremos no próximo capítulo. Outros
erros têm outras causas. Basta pensarmos no já mencionado
Inquérito Mensal à Produção Industrial do INE para percebe‑
mos que fontes adicionais de erro poderão ser essas. O que su‑
cederia, por exemplo, se a lista das empresas portuguesas da
qual é extraída a amostra estivesse incompleta? E se, apesar da
obrigatoriedade de resposta aos inquéritos do INE, houvesse
uma parte das empresas seleccionadas que optasse por não res‑
ponder à totalidade ou a parte do inquérito? E se algumas em‑
presas inquiridas fornecessem, voluntária ou involuntariamen‑
te, informações erradas sobre o seu volume de vendas? E se
diferentes empresas, ao solicitarem informação adicional sobre
como responder às questões, recebessem, por acidente, esclare‑
cimentos ambíguos ou contraditórios? E se o inquérito postal e
o inquérito online utilizados fossem ligeiramente diferentes, ou
suscitassem, pela natureza do suporte utilizado, diferentes reac‑
ções por parte dos inquiridos? E se houver erros no tratamento
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dos dados? E como garantir que a leitura e a interpretação dos
resultados finais são aquelas que são verdadeiramente autoriza‑
das pelos dados, e não leituras erróneas e equívocas? Não é
preciso muita imaginação para perceber que, mesmo quando
são dedicados enormes esforços e recursos para a realização de
um inquérito, todas as situações hipotéticas descritas acima
podem realmente ocorrer. E, se assim for, as inferências que
façamos dos resultados desse inquérito para a população vão
estar sujeitas a erros. A possibilidade de que estes erros — evi‑
táveis uns, incontornáveis outros — ocorram são, afinal, co‑
muns a inquéritos e sondagens, independentemente do nome
que lhes queiramos dar.
Não se trata apenas de uma questão de cometer ou evitar
“erros”. A decisão de realizar uma sondagem sobre um determi‑
nado tema é apenas a primeira de muitas decisões que se têm de
tomar até que os seus resultados finais se tornem conhecidos.
E nem todas as decisões são da mesma natureza. Num certo
sentido, fazer uma sondagem é como tirar uma fotografia.
Quando queremos tirar uma fotografia, há decisões que, inde‑
pendentemente de quaisquer condicionalismos, serão pura e
simplesmente certas ou erradas. Tirar fotografias com a lente
tapada ou apontar para uma coisa quando queremos fotografar
outra são duas decisões obviamente erradas em quaisquer cir‑
cunstâncias. Já outras decisões serão certas ou erradas depen‑
dendo daquilo que queiramos fotografar e das condições em
que o façamos. A abertura do diafragma e a velocidade do ob‑
turador correctos dependem do objecto a fotografar — da sua
velocidade e distância — e das condições de luminosidade.
Outras decisões ainda tornam‑se “certas” ou “erradas” depen‑
dendo de diferentes ponderações na utilização de recursos, que
são sempre, obviamente, finitos. Uma máquina fotográfica que
nos custe 1000 € poderá naturalmente obter fotografias de mui‑
to maior qualidade que uma máquina que nos custe 100 €. Mas
usar uma ou outra é “certo” ou “errado” dependendo do objec‑
tivo: queremos uma fotografia para um passaporte ou para um
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