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POEMAS DE BERTOLT BRECHT
Elogio da Dialética Precisamos De Você.
A injustiça avança hoje a passo firme Aprende - lê nos olhos,
Os tiranos fazem planos para dez mil anos lê nos olhos - aprende
O poder apregoa: a ler jornais, aprende:
as coisas continuarão a ser como são a verdade pensa
Nenhuma voz além da dos que mandam com tua cabeça.
E em todos os mercados Faça perguntas sem medo
proclama a exploração; não te convenças sozinho
isto é apenas o meu começo mas vejas com teus olhos.
Se não descobriu por si
Mas entre os oprimidos muitos na verdade não descobriu.
há que agora dizem Confere tudo ponto
Aquilo que nós queremos por ponto - afinal
nunca mais o alcançaremos você faz parte de tudo,
também vai no barco,
Quem ainda está vivo não diga: nunca "aí pagar o pato, vai
O que é seguro não é seguro pegar no leme um dia.
As coisas não continuarão a ser como são Aponte o dedo, pergunta
Depois de falarem os dominantes que é isso? Como foi
Falarão os dominados parar aí? Por que?
Quem pois ousa dizer: nunca Você faz parte de tudo.
De quem depende que a opressão prossiga? Aprende, não perde nada
De nós das discussões, do silêncio.
De quem depende que ela acabe? Esteja sempre aprendendo
Também de nós por nós e por você.
O que é esmagado que se levante! Você não será ouvinte
O que está perdido, lute! diante da discussão,
O que sabe ao que se chegou, não será cogumelo
que há aí que o retenha de sombras e bastidores,
E nunca será: ainda hoje não será cenário
Porque os vencidos de hoje para nossa ação
são os vencedores de amanhã
A Exceção e a Regra Nada é impossível de mudar
No familiar, descubram o insólito Desconfiai do mais trivial, na aparência
No cotidiano, desvelem o inexplicável singelo.
Que o que é habitual provoque espanto E examinai, sobretudo, o que parece
Na regra, descubram o abuso habitual.
E sempre que o abuso for encontrado Suplicamos expressamente:
Procurem o remédio não aceiteis o que é de hábito como
Mas não se esqueçam coisa natural,
de que o abuso é sempre a regra. pois em tempo de desordem sangrenta,
de confusão organizada,
de arbitrariedade consciente,
de humanidade desumanizada,
nada deve parecer natural
nada deve parecer impossível de mudar.
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Dificuldade de governar
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Todos os dias os ministros dizem ao povo
Como é difícil governar. Sem os ministros
O trigo cresceria para baixo em vez de crescer para cima.
Nem um pedaço de carvão sairia das minas
Se o chanceler não fosse tão inteligente. Sem o ministro da Propaganda
Mais nenhuma mulher poderia ficar grávida. Sem o ministro da Guerra
Nunca mais haveria guerra. E atrever-se ia a nascer o sol
Sem a autorização do Führer?
Não é nada provável e se o fosse
Ele nasceria por certo fora do lugar.
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E também difícil, ao que nos é dito,
Dirigir uma fábrica. Sem o patrão
As paredes cairiam e as máquinas encher-se-iam de ferrugem.
Se algures fizessem um arado
Ele nunca chegaria ao campo sem
As palavras avisadas do industrial aos camponeses: quem,
De outro modo, poderia falar-lhes na existência de arados? E que
Seria da propriedade rural sem o proprietário rural?
Não há dúvida nenhuma que se semearia centeio onde já havia batatas.
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Se governar fosse fácil
Não havia necessidade de espíritos tão esclarecidos como o do Führer.
Se o operário soubesse usar a sua máquina
E se o camponês soubesse distinguir um campo de uma forma para tortas
Não haveria necessidade de patrões nem de proprietários.
E só porque toda a gente é tão estúpida
Que há necessidade de alguns tão inteligentes.
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Ou será que
Governar só é assim tão difícil porque a exploração e a mentira
São coisas que custam a aprender?
3
A Infanticida Maria Farrar
Maria Farrar, nascida em abril,
sem sinais particulares, Chamaram-na enquanto ainda dormia.
menor de idade, órfã, raquítica, Tinha caído neve e havia que varrê-la,
ao que parece matou um menino às onze terminou. Um dia bem comprido.
da maneira que se segue, Somente à noite pode parir em paz.
sentindo-se sem culpa. E deu à luz, pelo que disse, a um filho
Afirma que grávida de dois meses mas ela não era como as outras mães.
no porão da casa de uma dona Mas vós, por favor, não vos indigneis.
tentou abortar com duas injeções Toda criatura precisa da ajuda dos outros.
dolorosas, diz ela, Com as últimas forças, ela disse,
mas sem resultado. prosseguindo,
E bebeu pimenta em pó dado que no seu quarto o frio era mortal,
com álcool, mas o efeito se arrastou até a privada, e ali,
foi apenas de purgante. quando não mais se lembra,
Mas vós, por favor, não deveis vos indignar. pariu como pôde quase ao amanhecer.
Toda criatura precisa da ajuda dos outros. Narra que a esta altura estava
Seu ventre inchara, agora a olhos vistos transtornadíssima,
e ela própria, criança, ainda crescia. e meio endurecida e que o garoto, o
E lhe veio a tal tonteira no meio do ofício das segurava a custo
matinas pois que nevava dentro da latrina.
e suou também de angústia aos pés do altar. Entre o quarto e a privada
Mas conservou em segredo o estado em que o menino prorrompeu em pratos
se achava e isso a perturbou de tal maneira, ela disse,
até que as dores do parto lhe chegaram. que se pôs a socá-lo
Então, tinha acontecido também a ela, às cegas, tanto, sem cessar,
assim feiosa, cair em tentação. até o fim da noite.
Mas vós, por favor, não vos indigneis. E de manhã o escondeu então no lavatório.
Toda criatura precisa da ajuda dos outros. Mas vós, por favor, não deveis vos indignar,
Naquele dia, disse, logo pela manhã, toda criatura precisa da ajuda dos outros.
ao lavar as escadas sentiu uma pontada Maria Farrar, nascida em abril,
como se fossem alfinetadas na barriga. morta no cárcere de Moissen,
Mas ainda consegue ocultar sua moléstia menina-mãe condenada,
e o dia inteirinho, estendendo paninhos, quer mostrar a todos o quanto somos frágeis.
buscava solução. Vós que paris em leito confortável
Depois lhe vem à mente e chamais bendito vosso ventre inchado,
que tem que dar à luz não deveis execrar os fracos e
e logo sente um aperto no coração. desamparados.
Chegou em casa tarde. Por obséquio, pois, não vos indigneis.
Mas vós, por favor, não vos indigneis. Toda criatura precisa da ajuda dos outros.
Toda criatura precisa da ajuda dos outros.
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Tempos Sombrios
Realmente, vivemos tempos sombrios!
A inocência é loucura.
Uma fronte sem rugas
denota insensibilidade.
Aquele que ri
ainda não recebeu a terrível notícia
que está para chegar.
Que tempos são estes,
em que é quase um delito
falar de coisas inocentes,
pois implica em silenciar sobre tantos horrores.
Aos que virão depois de nós
I II
Eu vivo em tempos sombrios. Eu vim para a cidade no tempo da desordem,
Uma linguagem sem malícia é sinal de quando a fome reinava.
estupidez, Eu vim para o convívio dos homens no tempo
uma testa sem rugas é sinal de indiferença. da revolta
Aquele que ainda ri é porque ainda não e me revoltei ao lado deles.
recebeu a terrível notícia. Assim se passou o tempo
Que tempos são esses, quando que me foi dado viver sobre a terra.
falar sobre flores é quase um crime. Eu comi o meu pão no meio das batalhas,
Pois significa silenciar sobre tanta injustiça? deitei-me entre os assassinos para dormir,
Aquele que cruza tranqüilamente a rua Fiz amor sem muita atenção
já está então inacessível aos amigos e não tive paciência com a natureza.
que se encontram necessitados? Assim se passou o tempo
É verdade: eu ainda ganho o bastante para viver. que me foi dado viver sobre a terra.
Mas acreditem: é por acaso. Nado do que eu faço
Dá-me o direito de comer quando eu tenho fome. III
Por acaso estou sendo poupado. Vocês, que vão emergir das ondas
(Se a minha sorte me deixa estou perdido!) em que nós perecemos, pensem,
Dizem-me: come e bebe! quando falarem das nossas fraquezas,
Fica feliz por teres o que tens! nos tempos sombrios
Mas como é que posso comer e beber, de que vocês tiveram a sorte de escapar.
se a comida que eu como, eu tiro de quem tem Nós existíamos através da luta de classes,
fome? mudando mais seguidamente de países que de
se o copo de água que eu bebo, faz falta a sapatos, desesperados!
quem tem sede? quando só havia injustiça e não havia revolta.
Mas apesar disso, eu continuo comendo e Nós sabemos:
bebendo. o ódio contra a baixeza
também endurece os rostos!
Eu queria ser um sábio. A cólera contra a injustiça
Nos livros antigos está escrito o que é a sabedoria: faz a voz ficar rouca!
Manter-se afastado dos problemas do mundo Infelizmente, nós,
e sem medo passar o tempo que se tem para que queríamos preparar o caminho para a
viver na terra; amizade,
Seguir seu caminho sem violência, não pudemos ser, nós mesmos, bons amigos.
pagar o mal com o bem, Mas vocês, quando chegar o tempo
não satisfazer os desejos, mas esquecê-los. em que o homem seja amigo do homem,
Sabedoria é isso! pensem em nós
Mas eu não consigo agir assim. com um pouco de compreensão.
É verdade, eu vivo em tempos sombrios!
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O Analfabeto Político
O pior analfabeto é o analfabeto político.
Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos.
Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão,
do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio
dependem das decisões políticas.
O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia
a política. Não sabe o imbecil que da sua ignorância política nasce a prostituta,
o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos que é o político vigarista,
pilantra, o corrupto e lacaio dos exploradores do povo.
Privatizado
Privatizaram sua vida, seu trabalho, sua hora de amar e seu direito de pensar.
É da empresa privada o seu passo em frente,
seu pão e seu salário. E agora não contente querem
privatizar o conhecimento, a sabedoria,
o pensamento, que só à humanidade pertence.
Do rio que tudo arrasta
Do rio que tudo arrasta
Se diz que é violento
Mas ninguém diz violentas
As margens que o comprimem
Elogio do Revolucionário
Quando aumenta a repressão, muitos desanimam.
Mas a coragem dele aumenta.
Organiza sua luta pelo salário, pelo pão
e pela conquista do poder.
Interroga a propriedade:
De onde vens?
Pergunta a cada ideia:
Serves a quem?
Ali onde todos calam, ele fala
E onde reina a opressão e se acusa o destino,
ele cita os nomes.
À mesa onde ele se senta
se senta a insatisfação.
A comida sabe mal e a sala se torna estreita.
Aonde ele vai há revolta
e de onde o expulsam
persiste a agitação.
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Um Homem Pessimista Os Esperançosos
Um homem pessimista Pelo que esperam?
É tolerante. Que os surdos se deixem convencer
Ele sabe deixar a fina cortesia E que os insaciáveis
desmanchar-se na língua Lhes devolvam algo?
Quando um homem não espanca uma mulher Os lobos os alimentarão, em vez de devorá-los!
E o sacrifício de uma mulher Por amizade
que prepara café para seu amado Os tigres convidarão
Com pernas brancas sob a camisa – A lhes arrancarem os dentes!
Isto o comove. É por isso que esperam!
Os remorsos de um homem que
Vendeu o amigo Nós vos pedimos com insistência:
Abalam-no, a ele que conhece a frieza do mundo Nunca digam - Isso é natural!
E como é sábio Diante dos acontecimentos de cada dia,
Falar alto e convencido Numa época em que corre o sangue
No meio da noite. Em que o arbitrário tem força de lei,
Em que a humanidade se desumaniza
Não digam nunca: Isso é natural
A fim de que nada passe por imutável.
Os que Lutam
Há homens que lutam um dia, e são bons;
Há outros que lutam um ano, e são melhores;
Há aqueles que lutam muitos anos, e são muito bons;
Porém há os que lutam toda a vida
Estes são os imprescindíveis
De que Serve a Bondade
1
De que serve a bondade
Quando os bondosos são logo abatidos, ou são abatidos
Aqueles para quem foram bondosos?
De que serve a liberdade
Quando os livres têm que viver entre os não-livres?
De que serve a razão
Quando só a sem-razão arranja a comida de que cada um precisa?
2
Em vez de serdes só bondosos, esforçai-vos
Por criar uma situação que torne possível a bondade, e melhor;
A faça supérflua!
Em vez de serdes só livres, esforçai-vos
Por criar uma situação que a todos liberte
E também o amor da liberdade
Faça supérfluo!
Em vez de serdes só razoáveis, esforçai-vos
Por criar uma situação que faça da sem-razão dos indivíduos
Um mau negócio!