RIBSP- Vol 3 nº 7 – Jul/Dez 2020 João Batista da Silva
ISSN 2595-2153
PROTOCOLO POLICIAL: teoria, sistematização e importância para
sobrevivência na atividade profissional
João Batista da Silva
RESUMO: O presente artigo versa acerca da urgência/necessidade da institucionalização de
protocolos técnicos operacionais nas corporações policiais brasileiras. Essa demanda decorre
inicialmente pela carência de normalização de procedimentos técnicos específicos de segurança
pública, bem como pela constatação do alto índice de vitimização em intervenções policiais, no
Brasil, seja de suspeitos ou dos próprios policiais, em especial, nas polícias militares. Produzido a
partir de pesquisa bibliográfica, teve como referente empírico a pesquisa realizada na Polícia Militar
do Rio Grande do Norte, onde a ausência desses protocolos denuncia que apesar dos avanços na
formação técnica, essas corporações, em geral, ainda têm um longo percurso no processo de
profissionalização, sobretudo a partir da formalização de procedimentos técnicos operacionais
originados de saberes profissionais alicerçados em conhecimentos técnicos e em pesquisa científica.
Palavras-chave: Protocolos institucionais. Segurança Pública. Normalização. Profissionalização.
Sobrevivência policial.
DOI: [Link]
Recebido em 12 de junho de 2020. Aprovado em 20 de agosto de 2020
Polícia Militar do Rio Grande do Norte. ORCID: [Link] - CV Lattes:
[Link]
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referência, a partir de procedimentos, os
1. INTRODUÇÃO 1 quais já são adotados nas atividades
profissionais policiais, tendo em vista estarem
N
embasados em conhecimentos e saberes e,
ão obstante a denominação
também, em leis, tratados, normativas, entre
procedimento operacional padrão
outros, estabelecidos ao longo da construção
(POP) possa parecer reducionista e
social, histórico-cultural da formação
simplificadora, seu objetivo neste artigo é
(SILVA, 2017a) e profissionalização da
paradoxalmente inverso, pois busca constatar
atividade policial (SILVA, 2017b).
o nível de desenvolvimento desses
A construção da proposta inicial
protocolos na atividade policial, que são
deste referencial procedimental ocorreu por
criados com intuito de estabelecer parâmetros
meio de pesquisa bibliográfica,
técnicos e cientificamente legítimos, para
especialmente, a partir dos protocolos
nortear as atividades práticas de determinadas
institucionais das polícias militares que, por
profissões, especialmente, aquelas que ainda
meio de sua tradicionalidade e expertise já
não dispõem de uma literatura oficial,
sistematizaram suas respectivas normas, que
sistematizada, que define quais parâmetros
orientam a atuação prática de seus
técnicos, legais, teóricos e éticos devem guiar
profissionais, quais sejam: Polícia Militar do
seus integrantes em suas atividades laborais.
Estado de São Paulo (PMESP), Polícia Militar
Neste trabalho, uma das primeiras
de Mato Grosso (PMMS), Polícia Militar de
preocupações foi a de, justamente, não
Minas Gerais (PMMG) e investigando e
denominar este tipo de protocolo de manual,
analisando o que já havia sido produzido,
mas sim de referencial, especialmente,
mesmo que de forma, ainda incipiente, na
buscando diferenciar esses dois
Polícia Militar do Rio Grande do Norte
procedimentos. Mesmo entendendo que
(PMRN), sobretudo, nos manuais de Silva
ambos são extremamente importantes, o
(2007), Barreto (2013; 2016) e PMRN (2014),
primeiro, é de caráter eminentemente técnico
como também, tomando como parâmetro os
e, em certa medida, limitado, para uma
atividade profissional, complexa, como a dados da pesquisa empírica3 realizada com
policial, sobretudo quando da necessidade Cabos e Sargentos em formação continuada
cotidiana da tomada de decisão, para uso ou na PMRN (SILVA, 2017b).
não de força e/ou de armas de fogo, em
ocorrências de natureza crítica2. Assim,
2. CONSTRUINDO O POP:
defende-se que um manual não conseguiria
sistematizando saberes e conhecimentos
dar conta de uma série de questões subjetivas
e complexas que circunscrevem a atuação da
Na construção deste referencial foi
atividade policial contemporânea.
investigado o percurso que algumas
Um referencial procedimental, por seu
corporações policiais já haviam explorado no
turno, mesmo diante das complexas questões,
sentido de organizar as etapas que,
apresentadas, ao longo desta breve produção,
necessariamente, devem conter um
é o que mais se aproxima do objetivo
procedimento na área de segurança pública,
almejado, visto que, como a própria
sobretudo buscando sempre avançar no
nomenclatura descreve, trata-se de uma
1 A primeira versão da proposta deste referencial é receberão esta denominação apenas as que ensejarem
parte instrumental da pesquisa empírica, constante em o uso da força e/ou arma de fogo.
tese de doutoramento/UFRN, realizada em 2016, na 3 Participaram da pesquisa 23 soldados e cabos que
Polícia Militar do Rio Grande do Norte (PMRN), nos participavam do Curso de Nivelamento de Praças
cursos de formação profissional (continuada) de (CNP) e 34 segundos-sargentos que realizavam o
soldados, cabos e sargentos Curso de Aperfeiçoamento de Sargentos (CAS), em
2 Conforme Silva (2017b) toda ocorrência policial deve março de 2016.
ser considerada crítica, contudo, para este trabalho,
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processo de profissionalização, Com efeito, não é de mais relembrar
imprescindíveis para que um protocolo episódios não profissionais que ficaram na
técnico-operacional receba a legitimação, não história da polícia brasileira, sendo os
apenas de instituições policiais, mas também principais, o Massacre de El Dourado do Carajás4
da comunidade científica e da sociedade. e o Ônibus 1745, a partir dos quais ocorreu um
Aliado ao aspecto sistemático deste divisor de águas no processo de sua
trabalho, que demandou certa concatenação profissionalização, em especial, em virtude,
das ações a serem estabelecidas, dado à fase da lacuna existente ou da incipiência de tais
embrionária da pesquisa nesse campo de protocolos que, a partir de então, começam,
conhecimento, também, fundamentou-se a mesmo que muito paulatinamente, a ser
urgência/necessidade de protocolos policiais insititucionalizados nessas corporações,
para a prática cotidiana da atividade policial, a conforme constatado nas referências citadas.
partir de dados estatísticos e estudos sobre a No Quadro 1 busca-se sistematizar
letalidade e vitimização policial (IPEA; FBSP, uma série de ações que, a partir das pesquisas
2019), (FBSP, 2019), os quais, e estudos legais e técnicos (BRASIL, 2014)
paulatinamente, têm sido desenvolvidos por visam orientar o operador de segurança
acadêmicos, mas também por pesquisadores, pública para a resolução de ocorrências críticas,
profissionais de segurança pública (PINC, tornando possível a compreensão de sua
2009; 2011), (SILVA, 2019), (FERREIRA; complexidade, considerando o contexto
CABELHO; RONDON FILHO, 2020) e situacional para a adequada tomada de
(OLIVEIRA, 2020), entre outros que têm decisão (SILVA, 2017b).
investigado esse fenômeno social. Nesse sentido, o POP foi dividido
Nesse contexto, estabeleceu-se a em cinco etapas: 1. as ações preliminares; 2. as
partir das referências citadas no Quadro 1 ações imediatas no local da ocorrência; 3. os resultados
cada etapa que deve conter um POP, para o esperados; 4. as circunstâncias que podem levar ao
seu devido enquadramento e adoção de erro procedimental; e 5. as ações corretivas.
medidas necessárias em uma ocorrência As ações preliminares visam,
policial, desde o momento em que o mormente, o policial que primeiro tiver
profissional de segurança toma contato com a ocorrência, tornando
conhecimento do fato criminoso, até sua exequível a este profissional dispor do
finalização. Ressalta-se, contudo, que este, máximo de informações que possibilitem a
como qualquer outro referencial protocolar, é sistematização de um plano de ação. Isso
apenas um norteamento para a tomada de pode parecer redundância ou preciosismo aos
decisão (SILVA, 2017b) do profissional que profissionais de áreas diversas da segurança
está lidando diretamente com um fato real. pública, visto que, modo genérico, espera-se
Ou seja, a intervenção policial deve ser que o operador de segurança já disponha de
solucionada a partir das circunstâncias reais e competências e habilidades (PERRENOUD,
as condições legais, técnicas, logísticas e 1999); (BRASIL, 2014), que o tornem capaz
emocionais da ocorrência, especialmente, de resolver ocorrências dessa natureza.
tomando como referentes os aspectos sócio- Contudo, em face contexto social brasileiro,
histórico-culturais do local e das pessoas em particular, dos dados estatísticos
envolvidas. disponíveis sobre a violência e a
criminalidade, constados por diversos
4 Este fato fora divulgado amplamente na mídia 5 Também, acerca deste evento, massivamente
nacional e internacional, tendo sido documentado e divulgado na mídia mundial, fora interpretado a partir
estudado por diversas tendências teóricas. Uma versão de várias correntes teóricas e de especialistas. Uma
esta disponível em: versão está disponível em:
[Link] [Link]
&pid=S0102-88391999000400015. Acesso em 29 jun 71822010000100010&script=sci_arttext&tlng=pt.
2020. Acesso em: 26 jun 2020.
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Quadro 1 – POP para atendimento de ocorrências críticas6
Fonte: Silva (2017b, p. 285)
6 Referência: ONU (1979); Rover (2005); Brasil
(2010); PMESP (2002); PMMS (2013); Barreto (2013;
2018); PMRN (2014); PMMG (2017).
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pela falta de cultura técnico-profissional, por
relatórios de pesquisas, entre as quais, o Atlas parte do operador de segurança que, nas
da Violência (IPEA; FBSP, 2019) e o Anuário corporações nas quais ele dispõe de
da Violência (FBSP, 2019) é que emerge a determinado treinamento e/ou protocolo,
urgência de protocolos institucionais, não o utiliza (PINC, 2009), adotando,
sobretudo visando à minimização da recorrentemente ações aprendidas na prática
letalidade em intervenções policiais (SILVA; cotidiana. Ou seja, o currículo oculto
FONSECA, 2020), bem como sua (BOURDIEU, 1989) sobressai-se do oficial
vitimização. (SILVA, 2019); (FERREIRA; por meio de uma subcultura institucional
CABELHO; RONDON FILHO, 2020 e (SILVA, 2017a, p.107-8; 2017b, p. 2017).
OLIVEIRA, 2020). Sopesa-se que o policial não
Ocorrências policiais que especializado é o primeiro a entrar em
demandam uma tomada de decisão, em contato (primeiro interventor) com as
especial, para utilização ou não da força e/ou ocorrências críticas, nesse sentido, as orientações
de armas de fogo, têm sido registradas de contidas nesta proposta de referencial de POP
modo significativo, recorrentemente, pelos também têm como escopo difundir, mesmo
aparelhos midiáticos. Tais registros, tornados que de forma embrionária, uma
públicos, reforçam estatísticas oficiais e fundamentação teórica e doutrinária, mínima,
comprovam perdas para ambos os lados. Ou que deve ser aprofunda por meio de processo
seja, infratores, policiais e até inocentes têm de formação continuada regular
sido vitimados em desfechos não (SACRISTÃN, 2011); (SILVA, 2017a).
satisfatórios, em muitas intenções policiais As ações imediatas têm caráter
(SILVA; 2017b, p. 90). De tal constatação impositivo, pois devem atender,
emerge um questionamento imperioso: em obrigatoriamente, a determinadas
que medida os protocolos policiais estão condicionalidades, com o intuito, exclusivo,
atendendo às demandas de atuação na de preservar vidas e aplicar a lei (THOMÉ;
atividade profissional no ato de uma SALIGNAC, 2001), acolhendo os princípios
intervenção? éticos, morais, legais e técnicos da legalidade,
Considerando, ainda, estudos e necessidade, proporcionalidade, moderação e
pesquisas científicas de vários autores conveniência, estabelecidos em diversos
especializados, que avaliaram, também, esses tratados (ONU, 1979) e reproduzido na
aspectos, igualmente, em outras corporações Portaria Interministerial Nº 4.226 de 2010, do
policiais, como as constatações na PMMG Ministério de Justiça e da Secretaria de
(2017, p. 10), inferindo-se “[...] que não era Direitos Humanos da Presidência da
suficiente investir apenas na formação de República (BRASIL, 2010).
Unidades de Intervenção Tática, formadas Esses princípios, apesar de estarem
por negociadores, snipers e operadores táticos, consignados nesta portaria, não se
mas todos os policiais deveriam saber como configuram enquanto conjunto de ações e
ocorre o processo de gestão de incidentes operações sistematizadas visando à resolução
críticos, em especial o primeiro interventor”. de determinadas ocorrências policiais que se
As ações presentes neste POP sobressaiam da rotina policial operacional.
buscam, além de instrumentalizar Daí, portanto, a necessidade/urgência desses
corporações, possibilitando alternativas protocolos institucionais, sobretudo para
acerca de sua teoria e importância para a definição de parâmetros e ações que
profissionalização da atividade policial, é envolvem esses eventos. A PM de Minas
também a busca pela tentativa de Gerais, por exemplo, denomina de incidentes
minimização de equívocos cometidos críticos os “[...] fenômenos sociais complexos
diariamente, nas diversas instituições de quebra da normalidade que, por colocarem
policiais, sobretudo por falta desses a vida dos cidadãos em risco, exigem a
protocolos institucionalizados, mas também
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intervenção especial da polícia” (PMMG, utilizar a técnica apreendida em formação
2017, p.13). e/ou capacitação e muitas vezes o mito do
Também foram utilizadas nesta policial herói (LIMA, 2007, p.59-61); (SILVA,
sistematização das ações imediatas os 2017a, p. 257) que perpassa, não apenas o
parâmetros dos procedimentos operacionais imaginário policial, mas também social,
do Curso de Gerenciamento de Crises da precisam ser desmistificados e superados a
SENASP/MJ7, quais sejam: 1. conter a crise; 2. partir de ferramentas pedagógicas e
isolar o local; 3. manter contato sem concessões; e 4. institucionais, como a proposta deste
solicitar apoio especializado (CSIM), pesquisados referencial e de protocolos institucionalizados.
Outra percepção que fora
por Silva (2017b)8, que enfatiza a necessidade
ponderada ao longo da pesquisa é o hiato
de se considerar o contexto situacional para
existente entre os mecanismos de
resolução da ocorrência policial. Isto é, muito
fiscalização/responsabilização e os órgãos de
embora haja uma hierarquia nas ações a
formação inicial e continuada da corporação.
serem desenvolvidas, o policial deve optar
Destarte, o Formulário avaliativo (Quadro 2),
por aquela que mais se adeque no momento
além do objetivo principal de reavaliar,
em que chega ao local do evento.
periodicamente, o procedimento
O CSIM contempla aspectos
institucionalizado, também, visa
conceituais, procedimentais e atitudinais
proporcionar a sistematização de dados
discutidos ao longo da pesquisa,
estatísticos para que o déficit detectado no
especialmente por Thomé; Salignac (2001),
accountability sistem seja minimizado por
Lima (2007), Dória Júnior e Fahning (2008) e
políticas institucionais, não apenas da
igualmente, adotados pela SENASP
fiscalização/responsabilização, mas,
(BRASIL, 2014), possibilitando que essas
inclusive, da formação inicial e da continuada,
ações não sejam meros hábitos rotinizados,
realizada na instituição policial.
mas habilidades apreendidas, desenvolvidas
Portanto, um dos pressupostos da
e, constantemente, reavaliadas, como
teorização e sistematização deste referencial
previsto no Formulário avaliativo do POP
(POP), são os parâmetros que subjazem das
(Quadro 2).
lacunas formativas inicial e/ou continuada
A terceira etapa do procedimento
que fundamentam a construção histórico-
buscou desenvolver aspectos em que se
sócio-cultural da profissionalização da
almejam os resultados esperados no desfecho da
atividade policial.
ocorrência crítica. Nesse sentido, a eficiência e a
De acordo com Ramalho; Nuñez e
eficácia deste e de quaisquer outros
Gauthier (2004), a profissionalização deve ser
protocolos institucionais no campo da
concebida com um processo, dinâmico, que
segurança pública têm os mesmos objetivos,
ocorre interna e externamente na área de
obrigatoriamente, de preservar vidas e aplicar a
atuação de categoria ocupacional que busca e,
lei (obrigatoriamente sempre nesta ordem). A
concomitantemente, mantém um status
observância hierárquica dessas ações, muito
profissional. Por seu turno, defende Silva
embora, na prática cotidiana, possa parecer
(2017a, p.139-40), pesquisando e teorizando
possível sua inversão doutrinária, ética e legal,
especificamente acerca da profissionalização
não é admissível.
policial, que esse processo, quando
A falta e/ou incipiência de cultura
ininterrupto, garante ao grupo/classe
profissional que instiga o policial a não
7 Secretaria Nacional de Segurança Pública (SEANSP) infere-se que mesmo não seguindo rigidamente a
DO Ministério da Justiça (MJ). priorização elencada pela doutrina utilizada pela
8 De acordo Silva, (2017a, p.230), “Em termos Secretaria Nacional de Segurança Pública e, em que
pese a PMRN, também, não ter um protocolo ou
absolutos, em 52 citações dos Cabos e em 71 dos
norma institucionalizada, os PMs indagados se
Sargentos o protocolo CSIM [...] foi usado como
utilizaram de parâmetros técnicos para responder aos
parâmetro para tomada de decisão na ocorrência crítica,
questionamentos da pesquisa”.
utilizada como caso hipotético da pesquisa. Portanto,
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ocupacional legitimidade de exercer, fiscalizar ocasionadas em decorrência de uma
e controlar suas atividades, pois ao mesmo intervenção policial, da qual se infere, deve ter
tempo em que é um processo político e havido algum erro procedimental e/ou
ideológico, é também, técnico, científico, desvio de conduta. Em números absolutos,
filosófico e ético. 6.220 mil pessoas foram mortas em
O quarto item deste referencial são as intervenções policiais, em 2018, sendo que
circunstâncias que podem levar ao erro procedimental, 99,3% eram homens, jovens na faixa etária
as quais são subdivididas em três dos 15 a 29 anos de idade e, sobretudo, 75,4%
possibilidades, que estão circunscritas na dessas pessoas mortas eram negras (FBSP,
esfera de competência do policial militar, 2019).
primeiro interventor, mas também, de Essa constatação, seja pela
terceiros e, ao mesmo tempo, na da própria letalidade nas intervenções, seja pela sua
Corporação. vitimização, tem sido contemporaneamente
Nessa perspectiva, a formação e, pesquisada por autodeclarados especialista em
também, a capacitação continuada do segurança pública, mas também em muitas
operador de segurança pública são decisivas corporações brasileiras, sobretudo, por
para que esse profissional tenha capacidade pesquisadores (profissionais de segurança)
de mobilizar conhecimentos e saberes com o intuído de desvelar a opacidade que
(PERRENOUD, 1999), para discernir até reveste essa especificidade da pesquisa em
onde vai sua esfera de responsabilidade, de segurança pública no Brasil (DA SILVA
modo que, no espaço temporal, exíguo, que JÚNIOR, 2018; FERREIRA; CABELHO;
na maioria das vezes dispõe, possa escolher a RONDON FILHO, 2020), que dado à sua
tomada de decisão mais adequada e exequível, complexidade e a questões espaciais, apenas
considerando, inclusive, que poderá contar o recorte inerente aos protocolos policiais
com informações insuficientes, até mesmo foram apreciados neste trabalho.
incorretas. Nos itens componentes equipamentos
O agravamento da ocorrência crítica e/ou armamentos, também, podem ser
como a possibilidade de feridos e/ou mortos, considerados potenciais geradores de
inclusive, policiais, não podem ser agravamento de ocorrências policiais, pois
descartados. Tais aspectos, sejam de cunho uma falha na utilização ou mau
logístico, físico ou emocional, como os funcionamento e, até mesmo, sua
analisados por Silva (2017a, p. 187-92), inadequação, entre outros fatores, poderão
complexificam a tomada de decisão e podem provocar danos irreparáveis, mas também,
contribuir para a não utilização do protocolo pela deficiência na formação de competências
estabelecido e um desfecho não satisfatório técnicas para atuação operacional na atividade
da intervenção policial. (IPEA, FBSP, 2019); profissional do policial9.
(FBS, 2019). Por fim, no último item da proposta
De acordo com o Anuário da do referencial, as ações corretivas se dividem em
Violência (FBSP, 2019) morreram 343 três etapas e visam à adoção de medidas na
policiais no país em 2018, sendo que 75% hora da ação, durante e posterior aos fatos.
desses profissionais (256) estavam em Como defendido por Shön (2000),
período de folga ao serem mortos. Em determinadas profissões, necessariamente,
serviço, isto é, em ocorrências policiais, carecem de um currículo que as habilite,
situações para as quais, em tese, esses efetivamente, a uma prática reflexiva. No
profissionais foram formados e caso dos participantes da pesquisa, em alguns
(re)capacitados para solucionar, 11 em cada momentos, quando da análise dos dados que
100 mortes violentas ocorridas no Brasil, são emergiram da fase empírica, as respectivas
9 Por questões espaciais deste trabalho, as competências exemplos de ações que podem/devem orientar os
para o uso da força e/ou armas abordadas pelo autor serão aspectos formativos desses profissionais e estão
analisadas em outro momento. Estas delimitam alguns disponíveis em (SILVA, 2017a, p. 51; 2017b, p. 186).
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formações rumavam com aspectos muito A proposta de referencial, ora
mais protocolares que, efetivamente, apresentada neste estudo contou com as
formadores de competências e habilidades avaliações, críticas e sugestões de oficiais
para o exercício qualificado da atividade especialistas que foram convidados e
policial-militar (PONCIONI, 2012). emitiram seus respectivos pareceres. Esses
As primeiras correções constantes profissionais detêm expertises nesse campo de
no referencial dizem respeito à adoção de ações estudo da segurança pública e, também, pela
que, quando necessárias, não devam ir de atuação que desenvolvem como
encontro aos princípios basilares já comandantes ou membros das organizações
estabelecidos. Por conseguinte, a preservação policiais militares especializadas,
da vida continua como primeiro item a ser contribuíram significativamente com suas
seguido, devendo-se acionar equipes avalições.
especializadas para socorrimento de vítimas Os pareceres técnicos foram
ou prosseguimento no atendimento da emitidos por três oficiais especializados em
ocorrência crítica, de forma qualificada. ocorrências críticas, os quais além de exercerem
Os dois útimos itens das ações funções específicas em organizações policiais
corretivas se constitui de medidas que visam à especializadas, quais sejam, Batalhão de
produção de dados estatísticos, com o intuito Operações Policiais Especiais (BOPE),
de subsidiar a reavaliação periódica do POP Batalhão de Polícia de Choque (BPChoque) e
para resolução de ocorrências críticas, que Rondas Ostensivas com Apoio de
envolvem, tanto os policiais que atenderam a Motocicletas (ROCAM), dois desses oficiais,
ocorrência, quanto especialistas em também, são pesquisadores na temática em
ocorrências dessa natureza, pormenorizados estudo. (BARRETO, 2013; 2016); (COTTA,
na análise dos pareceres a seguir. 2009).
O parecer técnico do oficial da
ROCAM da PMRN concordou que o POP
3 REAVALIANDO UM PROTOCOLO
apresentado atende aos pressupostos legais,
INSTITUCIONALIZADO
técnicos e éticos necessários para o emprego
da atividade policial militar em ocorrências
O correto e devido preenchimento críticas e sugeriu que no sentido de aprimorar
do POP, elaborado a partir do referencial o procedimento, especialmente, no que se
(Quadro 1), deve ser executado pelos policiais refere às ações preliminares, o operador de
que atenderam e deram os encaminhamentos segurança pública deve “[...] certificar-se, por
necessários à resolução da ocorrência. Em meio da Central de Operações, acerca de
seguida os dados deverão ser concatenados e, possível apoio na área ou imediações do
posteriormente, analisados por especialistas evento crítico”.
e, também, por profissionais da área O parecerista defendeu, também,
educacional, no sentido de que as boas que nas ações imediatas é importante ‘[...] inserir
intervenções sejam replicadas para toda a o item 2.3 Não se tratando de ocorrências de
corporação e os equívocos, analisados e Gerenciamento de Crises, indicar que ações
propostos como estudos de casos. devem ser adotadas” . E, por fim, mas não
Nesse sentido, foi elaborado menos significativo, acerca do item ações
Quadro 2 - Formulário avaliativo, para que corretivas “[...] acrescentar o termo inexistente
possa subsidiar profissionais, pesquisadores, que se aplica para equipamentos e
bem como suas respectivas instituições nesse armamento”.
processo de adequação e/ou correção de Da análise do parecer técnico do
métodos e técnicas que não atendam mais as oficial do BPChoque da PMRN o parecerista
demandas operacionais da atividade também se posicionou acerca da pertinência
profissional, no caso em estudo, as ocorrências da proposta do POP para resolução de
críticas. ocorrências críticas, na esfera institucional
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Quadro 2 - Formulário avaliativo10 do POP – ocorrências críticas
Este item não está relacionado a valor monetário, mas a princípios da dignidade humana. O policial dever refletir
quantas vidas custam em uma tomada de decisão imprudente.
Breves instruções acerca das ações a desenvolver na ocorrência.
10 A avaliação do POP por equipe de especialistas e
emissão de parecer institucional visa sua atualização
periódica anualmente.
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Fonte: Silva (2017b, p. 286-8).
daquela corporação, sugerindo, contudo, que específicos, após instaurada a ocorrência crítica.
se faz coerente “[...] acrescentar um item Sendo elas: “[...] Autoridades Técnicas
“possibilidade de erros”, elencando as (Gestor do Incidente Crítico) e Autoridade de
possibilidades mais comuns de erro de Linha (Comandante da Cena de Ação). Isso
procedimento durante uma ação policial, diminui a possibilidade de intervenção política no
como “não realizar o isolamento adequado”, momento em que a resolução deve ser
“permitir a entrada de pessoas e imprensa no técnica. As ações de todos esses profissionais
perímetro de segurança”, “realizar devem estar bem definidas e serem alvo de
procedimento de resgate sem pertencer à treinamento e divulgação”.
tropa especializada”, dentre outras [...]”. Ainda conforme o parecerista, em
O parecer técnico do oficial da Minas Gerais, por questões de adequações
PMMG, como os demais pareceristas é de conceituais, este tipo de ato delituoso, neste
que o Procedimento Operacional Padrão está estudo definidas como ocorrências críticas, na
em consonância com princípios e PMMG são denominadas incidentes críticos. O
pressupostos universais legais, técnicos e oficial mineiro sugere, finalmente, que para
éticos para atuação policial-militar. uma leitura e entendimento adequado da
Na perspectiva de adequações, proposta ora apresentada, é razoável criar um
visando aperfeiçoar o POP, o oficial da glossário para terminologias técnicas
PMMG sugere que é imprescindível instituir adotadas no POP, do que se corrobora
a figura do: “[...] Controlador do incidente devendo esta normalização ficar a cargo da
respectiva instituição que adotar esta
(CPU11, CPCia12 ou Supervisão). Ele proposta de referencial para institucionalização
potencializa as ações implementadas de protocolos policiais.
inicialmente pelo Primeiro Interventor. Considerou-se que todos os itens
Estabelece, assim, a coordenação e controle ponderados e sugeridos por todos os
inicial na cena de ação”. pareceres eram pertinentes e foram
O oficial sugere, também, que para incorporados à proposta final, constante no
melhor resolução de ocorrências críticas, é Quadro 1.
pertinente definir quais as autoridades
técnicas que podem atuar no cenário onde o
fato delituoso ocorreu. Assim, sugere, a partir
dos referenciais da PMMG e de estudos do
próprio autor (COTTA, 2009), os
profissionais que devem ter acesso aos locais
11 Este Oficial é o Comandante do Policiamento da 12 Este Oficial é o Comandante de Policiamento da
Unidade (Batalhão), da circunscrição onde a ocorrência Companhia, da circunscrição onde a ocorrência crítica
crítica aconteceu. aconteceu.
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4. CONSIDERAÇÕES FINAIS Ademais, este trabalho já terá
cumprido seu objetivo se servir para que
Em síntese, compreende-se que o profissionais e instituições de segurança
objetivo deste breve trabalho fora cumprido, reavaliem a urgência/necessidade da
mesmo que parcialmente, em face de sua institucionalização de protocolos policiais
complexidade e incipiência de pesquisas e para avançar no processo de
estudos que conciliem saberes práticos da profissionalização da segurança pública no
atividade policial com conhecimentos país, pois apesar de seculares e dos avanços
técnico-científicos acerca de protocolos para alcançados, especialmente, pós Constituição
ao campo de conhecimento segurança Federal de 1988 e os desdobramentos dela
pública. advindos, dados a multifatores, ainda há um
Nesse sentido, buscou-se sintetizar percurso complexo a ser percorrido rumo ao
a pesquisa científica que averiguou as lacunas processo de profissionalização das
e deficiências na formação/capacitação dos corporações policiais para atendimento das
profissionais de segurança pública na Polícia atuais demandas da sociedade brasileira.
Militar do Rio Grande do Norte, que
resguardando suas especificidades, culturais,
estruturais e logísticas, conserva muitas
similitudes das demais polícias no Brasil.
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POLICE PROTOCOL:
theory, systematization and importance for survival in professional activity
ABSTRACT: This article deals with the urgency / need for the institutionalization of operational
technical protocols in Brazilian police corporations. This demand arises initially due to the lack of
standardization of specific technical procedures for public security, as well as the realization of the
high rate of victimization in police interventions in Brazil, whether of suspects or of the police
themselves, especially in the military police. Produced from bibliographic research, the research
carried out by the Military Police of Rio Grande do Norte was the empirical reference, where the
absence of these protocols reveals that despite advances in technical training, these corporations,
in general, still have a long way in the process of professionalization, especially from the
formalization of operational technical procedures originated from professional knowledge based
on technical knowledge and scientific research.
Keywords: Institutional protocols. Public security. Normalization. Professionalization. Police
survival.
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