Línguas Maternas e Políticas Educativas em Angola
Línguas Maternas e Políticas Educativas em Angola
3, 2021
RESUMO
Este artigo debruça-se essencialmente sobre as línguas maternas angolanas no contexto das
políticas educativas, com exemplos do funcionamento da Língua Kimbundu como demonstração da
sua relevância na esfera docente-educativa. Fez-se também a distinção das Línguas Portuguesa e
Kimbundu por meio da colocação dos seus pronomes átonos, e propôs igualmente a necessidade da
implementação do ensino bilingue dessas línguas nos diferentes subsistemas de ensino. Nesse
sentido, a inserção da garantia das línguas angolanas nos diplomas legais permitirá aos diversos
actores da educação traçarem estratégias imediatas para a sua execução e não no formato actual em
que não há obrigatoriedade dessa questão. Todavia, a presente pesquisa formulou os seguintes
objectivos: geral – compreender as línguas maternas angolanas no contexto das políticas educativas,
e como específicos – reflectir sobre as línguas maternas angolanas no contexto das políticas
educativas; descrever o funcionamento da língua kimbundu como indicador para a compreensão da
sua importância, no sentido de despertar aos administradores das políticas educacionais do País, o
interesse em reformular a legislação atinente às línguas de ensino. Quanto à metodologia foi de
revisão bibliográfica, com um paradigma interpretativo-construtivista, tendo em conta a sua índole
qualitativa e, ainda utilizou-se os métodos analítico, sintético e comparativo. Todavia, a pesquisa
deduziu que os Legisladores do Sistema da Educação e Ensino desconsideraram, a natureza técnica
e a realidade plurilingue de Angola, daí a não garantia do ensino das línguas de Angola nos
diferentes subsistemas de ensino, pelo facto de não apresentar fundamentos claros na aludida lei da
intenção real da sua implementação.
ABSTRACT
This article focuses essentially on Angolan mother tongues in the context of educational policies, with
examples of the functioning of the Kimbundu Language as a demonstration of its relevance in the
teaching-educational sphere. A distinction was also made between Portuguese and Kimbundu
Languages through the placement of their unstressed pronouns, and also proposed the need to
implement bilingual teaching of these languages in the different teaching subsystems. In this sense,
the inclusion of the guarantee of the Angolan languages in the legal diplomas will allow the different
education actors to outline immediate strategies for its implementation and not in the current format in
which this issue is not mandatory. However, this research formulated the following objectives: general
– to understand Angolan mother tongues in the context of educational policies, and as specific – to
reflect on Angolan mother tongues in the context of educational policies; to describe the functioning of
the Kimbundu language as an indicator for understanding its importance, in the sense of awakening to
the administrators of the country's educational policies the interest in reformulating the legislation
1 Doutor em Administração Empresarial pela Florida Christian University - EUA; Mestre em Educação
Internacional; Pós-graduado Lato Sensu em Gestão de Pessoas e Licenciado em Ciências da Educação na
especialidade de Língua Portuguesa. Foi Director Geral e Presidente do Conselho Científico do Instituto Superior
de Angola. É actualmente, Professor de Seminário de Orientação de Trabalhos de Fim de Curso no Instituto
Superior Politécnico Intercontinental de Luanda. É autor da obra literária intitulada "O Português de Angola",
publicada pela Editora Laços.
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concerning the languages of instruction. As for the methodology, it was a literature review, with an
interpretive-constructivist paradigm, taking into account its qualitative nature, and also using the
analytical, synthetic and comparative methods. However, the research deduced that the Legislators of
the Education and Teaching System disregarded the technical nature and the plurilingual reality of
Angola, hence the non-guarantee of the teaching of Angolan languages in the different teaching
subsystems, due to the fact that it does not present clear foundations in the mentioned law of the real
intention of its implementation.
INTRODUÇÃO
O presente artigo aborda sobre as línguas maternas angolanas no contexto das políticas
educativas, com destaque à língua kimbundu, onde procurou-se demonstrar com exemplos concretos
a importância da inserção dessas línguas no currículo escolar, num quadro legal que as garanta e as
promova.
Porém, traçou como objectivo geral: compreender as línguas maternas angolanas no contexto
das políticas educativas, e como específicos: reflectir sobre as línguas maternas angolanas no
contexto das políticas educativas; descrever o funcionamento da língua kimbundu como indicador
para a compreensão da sua importância, no sentido de despertar aos administradores das políticas
educacionais do País, o interesse em reformular a legislação atinente às línguas de ensino.
No entanto, procurou-se descrever os fenómenos que decorrem no ensino da Língua
Portuguesa em Angola, enquanto língua materna e não materna de muitos angolanos num quadro
plurilingue para aqueles que têm as línguas angolanas como primeira ou segunda língua.
Importa referir que, o ensaio aponta directrizes aos professores e gestores das organizações
educativas que, o sucesso do ensino da Língua Portuguesa depende do entendimento e da atenção
que se deverá dar aos fenómenos sociais e culturais que derivam de outras línguas angolanas, o que
efectivamente influencia o processo de ensino e aprendizagem, pensando sempre que a língua é o
garante da compreensão das demais disciplinas curriculares, daí a sua atenção primordial, apesar da
não obrigatoriedade da sua aplicação nos diferentes subsistemas de ensino.
Por conseguinte, este trabalho assenta sobre a seguinte estrutura: Introdução; Concepção
Teórica sobre as Línguas Maternas Angolanas no Contexto das Políticas Educativas; O caso da
Língua Kimbundu; Metodologia; Considerações Finais e Referências Bibliográficas.
Portanto, o texto faz uma análise sociolinguística sobre o ensino do português considerando o
bilingue ou plurilingue como realidade sociolinguística angolana através de exemplos práticos em
kimbundu que evidenciam esta realidade.
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• Ao nível da realidade que se pode conhecer pela análise das decisões e a observação.
As políticas educativas são estratégias adoptadas pelo governo por meio de diplomas legais
que permitem a implementação das teorias de educação e ensino.
O kimbundu como língua é um sistema organizado de sons vocais de que nos servimos para
expressar ideias e comunicar com os falantes conhecedores do mesmo código. É a expressão da
consciência de um povo.
Por conseguinte, o Kimbundu é a língua do Grupo Etnolinguístico Ambundu e, conforme
Mingas (2007, p. 35):
É uma das diversas línguas bantu que são faladas pelas populações angolanas,
mais precisamente na capital, Lwanda, nas províncias de Malanje, Kwanza Norte,
Bengu, nas zonas fronteiriças ao Sul das províncias de Wije e do Zaire, assim como
nas ao Norte da província do Kwanza Sul.
"Héli Chatelain foi o primeiro linguista a interessar-se pelo Kimbundu. Ele
publicou, em 1888, a Gramática Elementar do Kimbundu ou Língua de
Angola (Mingas, 2007, p. 35), e em 1894, em Nova Iorque, a obra Folk-tales
of Angola” (Ervedosa, 1985, p. 8).
“A primeira obra referente ao kimbundu é a Arte da Língua, escrita por Pedro Dias, em 1697.
O angolano António de Assis Júnior também se interessou pelo kimbundu, embora não sendo
linguista, publicou um dicionário desta língua” (Mingas, 2007, p. 36).
É imperioso referir que, o kimbundu é uma das línguas maternas de muitos angolanos e
representa sem dúvidas a identidade cultural dos ambundu, em particular e dos angolanos em geral.
Segundo Lusakalalu (2005, p. 10), “uma língua é sempre o conjunto das suas variantes”. E,
por isso, Fernandes e Ntondo (2002), descrevem as seguintes variantes que compõe a Língua
Kimbundu: Holo; Ndongo; Kambondo; Kisama; Mbangala; Mbolo; Minungu; Ndembu; Ngola; ou jinga;
Ngoya; Nkari; Ntemo; Puna; Songo; Xinji.
Com base às variadíssimas localidades que falam e praticam o kimbundu como língua
materna, percebe-se a complexidade na sua aplicação no currículo escolar se forem considerados os
vários dialectos ou variantes resultantes dessa língua, tal como descreveu Mateus & Villalva (2006, p.
90):
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3. (…) podem ser utilizadas as demais línguas de Angola nos diferentes subsistemas de
ensino, nos termos a regulamentar em diploma próprio.
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insuficiências da referida Lei inibe toda a iniciativa que visa fortalecer o desenvolvimento e a
progressão das línguas angolanas, sabendo que a legislação é o primeiro passo para que haja
envolvimento de outros actores da esfera nacional ou internacional no processo de autonomia dessas
línguas, bem como, a sua influência no processo de ensino e aprendizagem.
Apesar da abordagem que a referida Lei faz menção relativamente à regularização da
temática das línguas de Angola em diploma próprio, é imperioso que a Constituição Angolana, assim
como, a Lei de Bases do Sistema de Educação e Ensino clarificassem a relevância das aludidas
línguas no sistema de educação e ensino para que os aspectos específicos a serem tratados no
diploma próprio tivessem em consideração, o estabelecido na lei de bases.
E, nesse sentido, Reis (2007, p. 85) apontou que, “Angola conhece uma situação de
plurilinguismo onde coexistem línguas nacionais e a língua portuguesa. Esta promiscuidade
linguística gerou uma situação diglóssica em que o português, privilegiado pela política de ausência
de política linguística, domina as outras línguas”.
Na cosmovisão de Reis (2007), o sistema educativo, ignora, a sua existência das línguas
nacionais, utilizando apenas o português. Este afastamento permanente não só deprecia o valor
intrínseco das mesmas como também atrasa o seu desenvolvimento. Por outro lado, ao invés de o
português melhorar e aperfeiçoar o nível de ensino, cria ainda mais dificuldades, na medida em que
os insucessos escolares não diminuem.
Essa visão mostra nitidamente que o comportamento dos fazedores das políticas educativas
não está alinhado com as teorias sociolinguísticas, se tivermos em conta a complexidade da
variedade linguística predominante em Angola.
Reis (2007) esclareceu que, todo o angolano vive num mundo africano-europeu e não
europeu-africano. A presença inconsciente dos substratos das línguas nacionais dificulta o
desenvolvimento do português, mesmo naqueles que o têm como língua materna. Portanto, o método
mais adequado para o ensino das línguas em Angola seria aquele que tomasse em consideração o
factor de coexistência linguística, o que significa a presença de dois grupos de línguas, tais como, as
línguas nacionais (bantu e não bantu) e o português, aplicando o bilinguismo funcional.
Tendo em conta, a existência do plurilingue, impõe-se o cuidado de selecionar uma língua
representativa no interior de cada região linguística com base aos seguintes princípios estabelecidos:
número de falantes, existência de uma tradição de escrita, presença de material de apoio. E, portanto,
aplica-se o bilinguismo funcional que pode funcionar em função do grau da competência em
português que se pretende alcançar. Vários países africanos com situação sociolinguística similar ao
de Angola têm optado pelo método do ensino bilingue, pois, o ensino monolingue tem demonstrado
insuficiências, que obrigam a uma reorientação de programas escolares e dos seus conteúdos (Reis,
2006).
No entanto, apesar das adversidades que pode gerar essa medida, é fulcral que se comece a
ensaiar o bilinguismo funcional pensando sempre na melhoria dos processos linguísticos, depois de
aplicado um determinado método linguístico.
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Os pronomes pessoais átonos são aqueles que, não tendo acentuação própria,
estão subordinadas ao acento tónico de outras palavras (os verbos). A sua
colocação na frase pode variar devido a aspectos como o ritmo, a ênfase, o estilo de
escrita ou o efeito acústico provocado pelo encontro de determinados sons. No
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entanto, existem regras sintácticas básicas que determinam a sua posição antes,
após e no meio das formas verbais.
Os pronomes átonos desempenham na frase a função de objecto directo ou indirecto. Pois,
são formas dos pronomes pessoais, tal como mostra a tabela abaixo.
Formas Átonas
Formas de objecto directo o, a, os, as
Formas de objecto indirecto lhe e lhes
Formas que podem empregar-se como objecto directo e indirecto me, te, nos e vos
Exemplo: “Lembrei-me agora duma coisa” (Pepetela apud Armando, 2014, p. 58).
• Mesoclítico, ou seja, no meio do verbo, colocação que só é possível com formas do futuro do
presente ou do futuro do pretérito.
Exemplo: Dir-lhe-ei que queres falar com ele/ dir-lhe-ia que querias falar com ele.
No entender de Moura apud Armando (2014, p. 58), “o pronome torna-se uma forma
mesoclítica, ocupando uma posição medial, com formas de futuro e de condicional”.
Exemplos:
Diferentemente do português, a língua kimbundu possui um alfabeto de vinte e três letras que
são: a, b, d, e, f, g, h, i, k, j, l, m, n, o, p, s, t, u, v, w, x, y, z. É composto de cinco vogais: a, e, i, o, u
(vokaji); duas semi-vogais (semi-vokaji): w, y e dezasseis consoantes (jikosowande): b, d, f, g, h, k, j,
l, m, n, p, s, t, v, x, z.
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Exemplos:
Nga-mu-bane/ kya
Eu-o-der/ já
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Nga-mu-bane/ ma-kudia
Eu-lhe-dar/ comidas
Com base aos exemplos apresentados acima, constata-se que, no Português Falado em
Angola – PFA, por interferência do mesmo tipo de construção em kimbundu, que o pronome nunca é
enclítico como na Variante Portuguesa – VP, mas proclítico, como se pode notar nos exemplos
seguintes:
Todavia, perante uma frase em que as funções de complemento directo e indirecto aparecem
na mesma frase e são representadas por nominais, à semelhança do que acontece em kimbundu,
onde só um dos elementos pode ser representado por um pronome, nota-se a construção seguinte:
• VP – Sim, dei-lho.
METODOLOGIA
Metodologia é o estudo dos métodos, das técnicas e dos instrumentos que possibilitam o
alcance dos objectivos da pesquisa. E nesse sentido, Braga (2015, p. 20), ressalta que, “a
metodologia científica, em seu sentido geral, é o estudo dos diversos métodos empregados e
desenvolvidos para o processo de conhecimentos, denominado ciência”.
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Entretanto, utilizou-se a pesquisa de revisão bibliográfica. Quanto aos métodos foi aplicado o
de análise e síntese, e conforme Ramos e Naranjo (2014, p. 1003), análise “é um procedimento
teórico mediante o qual um todo complexo se decompõe nas suas diversas partes e qualidade.
Permite a divisão mental do todo nas suas múltiplas relações e componentes”. Os autores
referenciados neste nível sublinham que, a síntese “estabelece mentalmente a união entre as partes
previamente analisadas e possibilita a descoberta das relações essenciais e as características gerais
entre elas”. Este método possibilitou a decomposição e a síntese do referencial teórico do presente
artigo.
Ainda assim, aplicou-se o método comparativo que possibilitou distinguir as línguas
portuguesa e kimbundu, no que tange a colocação dos pronomes átonos, visando a clarificação da
necessidade de se estabelecer o ensino paralelo ou bilingue dessas línguas.
Tratando-se de uma pesquisa qualitativa, selecionou-se o paradigma interpretativo-
construtivista, cujo critério baseia-se em fidelidade, credibilidade, assim como aponta Aires (2015), “a
escolha de um paradigma de investigação é essencial, pois, coadjuva o pesquisador na escolha de
métodos específicos, melhores estratégias, bem como, melhores instrumentos, procurando relacioná-
los para que os resultados sejam mais fiáveis e se ajustem ao paradigma preferido”.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A pesquisa, cujo objecto centrou-se nas línguas maternas no contexto das políticas
educativas, com um enfoque à língua kimbudu permitiu reflectir sobre a necessidade de
implementação das línguas angolanas no currículo escolar, sugerindo a reformulação do artigo 16º,
com realce ao número 3, cuja redacção não garante a inserção das línguas angolanas nos diferentes
susbsistemas de ensino, o que inibe a celeridade da sua regulamentação em diploma próprio.
Porém, os Legisladores do Sistema da Educação e Ensino desconsideraram a natureza
técnica e a realidade plurilingue de Angola. E num contexto como Angola em que a presença do
plurilingue é uma realidade incontornável deve-se aplicar o bilinguismo funcional.
Assim sendo, o kimbundu como língua materna de muitos angolanos ou de seus progenitores
deve ser conhecida para melhor se compreender as dificuldades dos falantes do português,
sobretudo no ensino primário.
Contudo, a situação plurilingue de Angola onde coexistem crianças com o português como
língua materna e crianças com as línguas angolanas como maternas, a não aplicação do bilinguismo
funcional implica a continuidade no actual problema do insucesso no ensino das línguas. Desta
maneira, é imprescindível que se contemple nas políticas educativas angolanas, a obrigatoriedade
das referidas línguas, tendo em atenção a realidade de cada região linguística.
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REFERÊNCIAS
ERVEDOSA, C. Roteiro da literatura angolana. Luanda: União dos Escritores Angolanos, 1985.
FERNANDES, J.; NTONDO, Z. Angola: povos e línguas. Luanda: Editorial Nzila, 2002.
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