Gestão Esportiva: Desafios e Avanços
Gestão Esportiva: Desafios e Avanços
ESPORTIVA
PROFESSORA
Me. Luciana Letícia Sperini Rufino dos Santos
DIREÇÃO UNICESUMAR
Reitor Wilson de Matos Silva, Vice-Reitor Wilson de Matos Silva Filho, Pró-Reitor Executivo de EAD William Victor
Kendrick de Matos Silva, Pró-Reitor de Ensino de EAD Janes Fidélis Tomelin, Presidente da Mantenedora Cláudio
Ferdinandi.
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Wilson Matos da Silva
Reitor da Unicesumar
Em um mundo global e dinâmico, nós trabalhamos excelência, com IGC 4 em 7 anos consecutivos. Estamos
com princípios éticos e profissionalismo, não somente entre os 10 maiores grupos educacionais do Brasil.
para oferecer uma educação de qualidade, mas, acima A rapidez do mundo moderno exige dos educadores
de tudo, para gerar uma conversão integral das soluções inteligentes para as necessidades de todos.
pessoas ao conhecimento. Baseamo-nos em 4 pilares: Para continuar relevante, a instituição de educação
intelectual, profissional, emocional e espiritual. precisa ter pelo menos três virtudes: inovação,
Iniciamos a Unicesumar em 1990, com dois cursos de coragem e compromisso com a qualidade. Por
graduação e 180 alunos. Hoje, temos mais de 100 mil isso, desenvolvemos, para os cursos de Engenharia,
estudantes espalhados em todo o Brasil: nos quatro metodologias ativas, as quais visam reunir o melhor
campi presenciais (Maringá, Curitiba, Ponta Grossa e do ensino presencial e a distância.
Londrina) e em mais de 500 polos de educação a distância Tudo isso para honrarmos a nossa missão que é
espalhados por todos os estados do Brasil e, também, promover a educação de qualidade nas diferentes áreas
no exterior, com dezenas de cursos de graduação e do conhecimento, formando profissionais cidadãos
pós-graduação. Produzimos e revisamos 500 livros que contribuam para o desenvolvimento de uma
e distribuímos mais de 500 mil exemplares por ano. sociedade justa e solidária.
Somos reconhecidos pelo MEC como uma instituição de Vamos juntos!
boas-vindas
Seja bem-vindo(a), caro(a) acadêmico(a)! Você está de maneira a inseri-lo no mercado de trabalho. Ou seja,
iniciando um processo de transformação, pois quando estes materiais têm como principal objetivo “provocar
investimos em nossa formação, seja ela pessoal ou uma aproximação entre você e o conteúdo”, desta
profissional, nos transformamos e, consequentemente, forma possibilita o desenvolvimento da autonomia
transformamos também a sociedade na qual estamos em busca dos conhecimentos necessários para a sua
inseridos. De que forma o fazemos? Criando formação pessoal e profissional.
oportunidades e/ou estabelecendo mudanças capazes Portanto, nossa distância nesse processo de crescimento
de alcançar um nível de desenvolvimento compatível e construção do conhecimento deve ser apenas
com os desafios que surgem no mundo contemporâneo. geográfica. Utilize os diversos recursos pedagógicos
O Centro Universitário Cesumar mediante o Núcleo de que o Centro Universitário Cesumar lhe possibilita.
Educação a Distância, o(a) acompanhará durante todo Ou seja, acesse regularmente o Studeo, que é o seu
este processo, pois conforme Freire (1996): “Os homens Ambiente Virtual de Aprendizagem, interaja nos
se educam juntos, na transformação do mundo”. fóruns e enquetes, assista às aulas ao vivo e participe
Os materiais produzidos oferecem linguagem das discussões. Além disso, lembre-se que existe
dialógica e encontram-se integrados à proposta uma equipe de professores e tutores que se encontra
pedagógica, contribuindo no processo educacional, disponível para sanar suas dúvidas e auxiliá-lo(a) em
complementando sua formação profissional, seu processo de aprendizagem, possibilitando-lhe
desenvolvendo competências e habilidades, e trilhar com tranquilidade e segurança sua trajetória
aplicando conceitos teóricos em situação de realidade, acadêmica.
autora
Meu nome é Luciana, sou professora de Educação Física e sempre tive uma proximidade
muito grande com a área esportiva, mas não posso dizer que sempre fui uma atleta!
processo, assistir e vivenciar aquilo tudo. Muito provavelmente isso tenha me influenciado
estudo da Gestão Esportiva. Atualmente, eu trabalho com Educação Física Escolar, com
para instituições esportivas. Acredito que todo o conhecimento acadêmico precisa ser
compartilhado com aqueles que estão no dia a dia da gestão, atuando diretamente com
a essência do esporte, que é a sua vivência prática. Essa é uma das bases que me man-
tém curiosa e atenta aos estudos na área, assim participo de dois grupos de estudos:
Grupo de Estudos: Gestão de Eventos Esportivos, junto com a equipe técnica, adminis-
trativa e dirigentes esportivos que atuam nos eventos esportivos no Estado do Paraná.
apresentação do material
GESTÃO ESPORTIVA
Me. Luciana Letícia Sperini Rufino dos Santos
Era uma vez uma pequena cidade do interior que não possuía muitas atrações e possibilidades de
lazer. Era muito comum a realização de torneios e campeonatos de futebol, sempre tinha muita torcida
e a participação de equipes de toda a cidade. Certa vez, João, que era um dos grandes incentivadores
e participantes desses eventos, foi convidado para assumir o cargo de gestor da Secretaria de Es-
portes do município. Sem muita informação, João seguiu realizando os campeonatos já tradicionais.
Conforme os meses foram passando, outros grupos de pessoas solicitaram a João que ele
promovesse outros tipos de ações, para incentivar a prática esportivas para a criança, adolescen-
tes e também atividades para os idosos. João afirmou que aquilo não poderia ser feito, pois já se
gastava muito na realização dos eventos de futebol.
Após alguns meses, o Ministério Público acionou João solicitando esclarecimentos sobre as
políticas esportivas do município, uma vez que, prioritariamente, os recursos devem ser investidos
em esporte educacional, o que claramente não acontecia na gestão de João.
Qual foi o grande erro de João? Ignorar as demandas de outros grupos da população ou não
buscar saber sobre as legalidades da gestão esportiva? Se João conhecesse alguns artigos da Lei
Pelé, será que ele teria seguido o mesmo modelo de gestão? Será que João tinha formação da
área esportiva ou apenas gostava de trabalhar com o esporte?
Essa história sobre a gestão de João em seu pequeno município retrata a realidade de muitos mu-
nicípios brasileiros, onde a gestão esportiva não caminha no mesmo sentido em que orienta a legisla-
ção e segue tendo seus investimentos voltados a promoção de eventos pontuais destinados a grupos
específicos. Conhecer as demandas sociais e procurar informação técnica são ações cruciais na vida de
um gestor esportivo seja a sua atuação na gestão pública ou privada. O conhecimento teórico sobre o
fenômeno com que estamos trabalhando, no caso o esporte, auxilia a compreender sua função social e
o conhecimento técnico nos orienta a quais caminhos percorrer para alcançar os melhores resultados.
Ao longo deste material, iremos abordar conteúdos relevantes para o trabalho da gestão esportiva,
conhecendo o esporte como produto principal de trabalho e toda a sua relevância social e como produto.
Ainda iremos trabalhar com ferramentas específicas no processo de elaboração de projetos esportivos,
eventos esportivos, bem como estratégias de marketing e empreendedorismo no campo esportivo.
Para auxiliar no processo de compreensão do trabalho do gestor esportivo, iremos trabalhar
com pesquisa de campo, fórum e construção de fluxogramas de projetos para contextualizar a
realidade da gestão em diferentes campos de atuação.
A partir do conteúdo trabalhado, esperamos que você, estudante, consiga adquirir conceitos
básicos de conhecimento do esporte enquanto produto e todo o seu potencial de consumo que
pode ser explorado pela gestão esportiva, contribuindo para a sua formação inicial e atuação na
gestão esportiva. Preparado para ingressar no campo da gestão esportiva? Bora lá!
sum ário
UNIDADE I
GESTÃO E POLÍTICAS PÚBLICAS
DE ESPORTE E LAZER 10
UNIDADE II
PLANEJAMENTO E GESTÃO
APLICADOS AO CAMPO ESPORTIVO 32
UNIDADE III
ELABORAÇÃO E GESTÃO DE
PROJETOS ESPORTIVOS 56
UNIDADE IV
ORGANIZAÇÃO DE GESTÃO
DE EVENTOS ESPORTIVOS 80
UNIDADE V
MARKETING ESPORTIVO 108
GESTÃO E POLÍTICAS PÚBLICAS
DE ESPORTE E LAZER
Oportunidades de aprendizagem
I
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EDUCAÇÃO FÍSICA
Convido você a realizar uma pesquisa rápida sobre situações históricas que envolvem os temas que iremos abor-
dar nesta unidade: esporte e política. A própria história da seleção sul-africana em 1995 é uma situação muito inte-
ressante, assim como os Jogos Olímpicos que ocorreram no período da Guerra Fria, a relação nacionalista promovida
pelo governo brasileiro durante a Copa do Mundo de Futebol em 1970 ou então a clássica campanha da Democracia
Corintiana, também durante o Regime Militar no Brasil.
A partir de suas pesquisas, você consegue identificar o uso do esporte pela política em situações mais recentes?
A utilização do esporte para fins que fogem a mera finalidade da prática esportiva também o caracteriza como im-
portante fenômeno social. E no contexto municipal, você já observou ações em que a prática esportiva ou eventos
esportivos foram utilizados de forma política e não apenas visando a promoção esportiva e sua continuidade ou
benefícios sociais e profiláticos? Conhecer as ações que estão próximas a nossa realidade nos auxilia a compreen-
der o objeto de estudo com maior clareza.
Diante de toda reflexão realizada até o momento, convido você, aluno (a), a realizar suas anotações no
Diário de Bordo, como forma de fixação de suas primeiras impressões relacionadas a contextualização do
esporte enquanto fenômeno social.
DIÁRIO DE BORDO
Caro (a) aluno (a), para começarmos a conceituar sobre a Gestão Esportiva, é importante entendermos alguns
fatores que agregaram ao esporte essa relevância social que o compete atualmente, o tornando objeto de estudo
e produto de consumo. Para realizar essa importante tarefa iremos seguir uma linha do tempo muito simples,
mas que agrega informações importantes para todo esse contexto que dividiremos em três momentos: esporte
antigo, esporte moderno e esporte contemporâneo:
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14
EDUCAÇÃO FÍSICA
• Práticas corporais;
• Sobrevivência;
• Olimpismo - Grécia Antiga
• Institucionalização das
Práticas Corporais – Regras
• INGLATERRA - Associativismo
– Globalização
• RETOMADA DO MOVIMENTO
OLÍMPICO
• Uso político do Esporte;
• Guerra fria
• Força das Nações • Manifesto Educação Física e Esporte
• Nacionalismo • Esporte Participação
• BRASIL: Decreto 3.199/1941 • Caráter Social do Esporte
• Esporte na constituição
Federal de 1988
• Lei Zico – 1993
• Lei Pelé - 1998: Esporte Educacional,
Figura 1 – A Evolução do Esporte Participação, Rendimento e Formação
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Descrição da Imagem: Na figura, temos uma ilustração colorida de um infográfico apresentando a evolução do esporte. O esporte
é dividido entre Antigo, Moderno e Contemporâneo. O Esporte Antigo é o período onde as práticas corporais estavam atreladas a
atividades de sobrevivência, muito distante da lógica de competição do que conhecemos hoje. Primeiros registros da realização dos
Jogos Olímpicos. No Esporte Moderno, as práticas corporais ganham regras e se propagam para diferentes países. Destaque para
a prática esportiva em Clubes Sociais. Tem início as competições e a nova era dos Jogos Olímpicos. No Esporte Contemporâneo, o
período pós as grandes guerras trouxeram novas orientações para as políticas sociais e incluíam o esporte como ferramenta social
que deve abordar os contextos educacionais e de participação, não somente o rendimento. Destaque para a inclusão do Esporte
como direito social na Constituição Federal de 1988.
O esporte entendido como “Antigo” baseia-se nas práticas mais distantes, que originaram a primeira fase das
olimpíadas gregas entre outras competições remotas do período. De acordo com Tubino (2010, p. 21), “na An-
tiguidade, as práticas esportivas eram muito diferentes das atuais [...] muitas de caráter utilitário para a própria
sobrevivência das pessoas”. Basicamente as práticas estavam associadas a corrida e ao nado, situações rotineiras
para fugir de alguma situação ou na hora da caça.
Com o passar do tempo, algumas práticas corporais tornaram-se institucionalizadas e passaram a seguir modelos
estabelecidos e regras predeterminadas. De acordo com a literatura específica da área, o inglês Thomas Arnold, diretor
do Rugby College, começou a codificar os jogos existentes com regras, ideia essa que se estendeu rapidamente por
toda a Europa em meados dos anos de 1820 (TUBINO, 2010). É esse período que caracteriza o início da fase de Es-
porte Moderno, quando se inicia o
processo de institucionalização das
práticas esportivas que passam a ser
entendidas como modalidades es-
portivas, o que contribuiu para sua
disseminação em diferentes países.
Portanto, essa nova fase tem sua
origem atribuída aos ingleses, gran-
des difusores da prática esportiva
institucionalizada a partir de clubes
e associações. Neste período, pouco
se abordava sobre o rendimento ou a
profissionalização do esporte: a prática
era amadora e predominantemente re-
alizada por clubes e grupos específicos
(TUBINO, 2010; LINHALES, 1996).
16
EDUCAÇÃO FÍSICA
No século XVIII, esportes como Golf, Canoagem e o Remo eram comuns em clubes ingleses, clubes frequentados pela
‘elite’ da sociedade. Assim como no restante do mundo, no Brasil, essas modalidades também tiveram sua inserção, bem
como outros costumes ingleses, no entanto, essas modalidades foram perdendo espaço para modalidades que aparece-
riam na sequência e se tornaram mais populares e acessíveis, como o futebol. Um dos exemplos que podemos citar é o
Clube de Regatas do Flamengo, mais conhecido atualmente por sua equipe de futebol do que pela prática do remo.
Nossa relação entre esporte e política ocorre a partir da terceira fase de nossa linha do tempo: o esporte contem-
porâneo. Podemos dizer que esse período tem início após as grandes guerras ocorridas no início do século passado.
Diversas foram as transformações ocorridas na sociedade de forma geral, tanto em questões políticas como em pro-
dução de conhecimento e novas tecnologias. O campo esportivo acompanhou essa evolução e tornou-se aliado a
diversos setores, principalmente econômico, político e social.
Como mencionado anteriormente, o esporte, inicialmente, era tido como uma prática amadora e de socialização. Um
dos maiores exemplos de sua evolução é a retomada do movimento olímpico. Em 1896, a partir da criação do Comitê Olím-
pico Internacional, a promoção dos Jogos Olímpicos retomava as antigas práticas realizadas na Grécia antiga e teve como
sede a própria Atenas. Para Tubino (2011, p.11) “com a restauração do movimento olímpico e sua imediata incorporação ao
movimento esportivo, a ética esportiva passou a se apoiar no associacionismo e no chamado far play”. A partir deste novo
cenário, o campo esportivo passou a vivenciar a questão de conflito entre a prática amadora e o profissionalismo.
Descrição da
Imagem: Tocha
olímpica acesa
para as Olimpí-
adas de 2016 no
Rio de Janeiro. A
chama olímpica é
até hoje um dos
principais ele-
mentos do “es-
pírito olímpico”
que se refere aos
valores, como o
fair play, de um
atleta para a sua
participação na
competição.
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O esporte, em sua fase contemporânea, torna-se elemen- Reconhecida como fundamental ao desenvolvi-
mento humano, a prática esportiva aproximou-se
to importante no discurso político, utilizado com inú-
dos campos da saúde e da educação. Conforme foi
meras finalidades por líderes de todo o planeta.
18
EDUCAÇÃO FÍSICA
NOVAS DESCOBERTAS
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20
EDUCAÇÃO FÍSICA
mônicos de sistemas desportivos diferenciados e autônomos para os níveis federal, estadual, distrital e municipal” (BRA-
SIL, 1998, [s.p.]); e o princípio da eficiência refere-se ao estímulo a competência esportiva e também administrativa.
Outro importante recorte deste capítulo refere-se à gestão esportiva profissional que deve estar sujeita aos princípios
da transparência financeira e administrativa, da responsabilidade social de seus dirigentes, do tratamento diferenciado
em relação ao esporte não profissional e também da participação na organização esportiva do país (BRASIL, 1998).
No que corresponde a finalidade esportiva, a Lei Pelé reconhece quatro perspectivas para a prática esportiva no
país, a saber: o esporte educacional, o esporte de participação, o esporte de rendimento, e a perspectiva do esporte de
formação que foi inserida como finalidade esportiva posteriormente pela Lei n° 13.155/2015. A manifestação educa-
cional está associada ao desenvolvimento integral do indivíduo e pode ser relacionada ao esporte desenvolvido em
ambiente escolar, pela disciplina de Educação Física e também por ações sociais que trabalham com o esporte em
contra turno escolar (BRASIL, 1998).
Descrição da Imagem: Na figura, há uma fotografia colorida representando adolescentes jogando voleibol em um ginásio.
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Por vários anos, essa manifestação foi muito questionada por ser frequentemente associada à iniciação esportiva e
treinamentos voltados a categorias de base, onde havia a competitividade, mas não dentro de uma perspectiva de
rendimento. Assim, em 2015, a categoria de esporte de formação foi inserida como uma nova manifestação, pois con-
templava a iniciação esportiva com o objetivo de aperfeiçoamento esportivo para fins competitivos.
A manifestação de esporte de participação está basicamente relacionada à prática esportiva no tempo livre,
como meio de promoção da saúde (BRASIL, 1998). Por fim, a manifestação de rendimento que de acordo com o
documento deve ser “praticado segundo normas gerais desta Lei e regras de prática desportiva, nacionais e interna-
cionais, com a finalidade de obter resultados [...]” e promover a integração entre nações, podendo ser organizado
como profissional e não profissional (BRASIL, 1998, [s.p.]).
Essas quatro manifestações esportivas orientam diversos outros documentos que, de alguma forma, contem-
plam a prática esportiva, como projetos, programas e ações promovidas ou financiadas pelo poder público. É im-
portante estar atento, também, ao fato de que todas as legislações esportivas que vieram posteriormente a Lei Pelé,
sejam elas em âmbito federal, estadual ou municipal devem estar em conformidade com o que está regulamentado
pela Lei nº 9.615/1998, ou seja, pela Lei Pelé.
Duas legislações importantes no âmbito esportivo e da constante busca pela profissionalização da gestão espor-
tiva no Brasil foram publicadas nos anos 2000. Em 2001, é publicada a Lei nº 10.264 popularmente conhecida como
Lei Agnelo Piva, que prevê o repasse de recursos adquiridos com a loteria federal para a promoção do esporte univer-
sitário e escolar através do Comitê Olímpico Brasileiro. Já em 2006, é publicada a Lei Federal de Incentivo ao Esporte
(Lei nº 11.438), que indica a destinação de recursos através de renúncia fiscal de empresas privadas para projetos
esportivos previamente selecionados pelo governo federal.
Ambas as legislações estão diretamente relacionadas ao incentivo de prática esportiva a partir do financiamento das
ações. Junto com as novas alternativas de investimento, também crescem os instrumentos de fiscalização e controle dos
gastos realizados a partir dessas novas fontes de investimento. Não que não exista desvios ou corrupção na gestão desses
recursos, mas o trabalho de prestação de contas e transparência de gastos exige das instituições beneficiadas uma gestão
qualificada e profissional. Uma má gestão ou prestação de contas realizada inadequadamente poderia (e pode) compro-
meter o desenvolvimento de um projeto e a reputação da instituição beneficiada acarretando não apenas a inviabilidade
de novos recursos públicos como também a dificuldade em futuras captações de recursos privados, uma vez que nenhu-
ma empresa iria querer ser associada a uma instituição que aparenta ter uma gestão não profissional.
Em um estudo realizado com municípios mineiros que receberam recursos estaduais através de legislações espe-
cíficas de incentivo/financiamento, Silva et al. (2013, p. 35) enaltecem que analisando a gestão esportiva dos municí-
pios após o recebimento dos recursos:
[...] os resultados do estudo sugerem que a política do ICMS Esportivo mostrou-se efetiva por contribuir principalmente
para: (a) melhoria na organização de informações esportivas; (b) melhoria na interação entre os atores esportivos locais
em decorrência, entre outras, da própria necessidade de se conseguir informações e documentos com - probatórios para
fins do ICMS Esportivo; e (c) ampliação do número de atividades esportivas oferecidas à população (grifo nosso).
22
EDUCAÇÃO FÍSICA
Em alguns momentos, o esporte entrou na escola sem pedir licença, impingindo a ela
seus códigos e significados; em outros, foi recebido de braços abertos, à medida que se
propunha a levar o nome da instituição aos mais altos (e, em boa parte das vezes, inima-
gináveis) lugares – a assimilação bastante rápida pela escola do baixo custo do marketing
conseguido por meio do esporte tem parcela considerável de responsabilidade por essa
postura amigável [...] (CASTELLANI FILHO, 2013, p. 27-26).
Neste sentido, podemos afirmar que Educação Física e Esporte, historicamente, são
áreas associadas, não totalmente dependentes uma da outra, mas que em diversas
situações uma se apoia na outra. Inicialmente, esteve associado às escolas de ginásti-
cas, que são conhecidas como as precursoras das primeiras escolas de Educação Físi-
ca, em seguida com a predominância da perspectiva técnica esportiva muito presente
na dinâmica da Educação Física Escolar durante as décadas de 1970 e 1980.
Como já mencionado, a partir da década de 1960, iniciam-se novas discussões relaciona-
das a outras manifestações esportivas para além da perspectiva de rendimento, estas discussões
estão respaldadas também no campo da Educação Física enquanto área de conhecimento, que
amplia seus seu campo de atuação para além do cenário escolar e do treinamento esportivo.
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EXPLORANDO IDEIAS
A Carta internacional de Educação Física e Desportos é um dos principais documentos para essa mudança de paradigmas,
ela apresenta 10 artigos de orientação em relação à Educação Física e ao Esporte. Os artigos referem-se respectivamen-
te: a temas como educação física e esporte como direito fundamental; como elemento educacional; à necessidade de
que seus programas satisfaçam necessidades individuais e fundamentais; ao ensino, treinamento e gestão, que precisa
realizado por profissionais da área, que os equipamentos e instalações esportivas sejam adequadas para a prática; à
importância de pesquisa, avaliação, informação e documentação para o avanço das ações; à relação direta de positiva
com a mídia; aoincentivo por parte das instituições nacionais e a cooperação internacional como parte essencial para a
promoção equilibrada de ações na área (UNESCO, 1978).
A partir da leitura do documento, é possível observar muita similaridade com diversas iniciativas que já ocorrem
no cenário esportivo e da Educação Física, bem como políticas públicas que foram formuladas e implementadas
seguindo o mesmo viés do documento.
Obviamente a Educação Física enquanto área de conhecimento e também enquanto disciplina curricular é à base
de formação e estruturação para esse novo cenário esportivo. Tanto em relação à formação dos profissionais, como
através da Educação Física Escolar como iniciação da criança na vida esportiva, seja sua opção no futuro para o ren-
dimento ou para a prática amadora.
Neste mesmo sentido, podemos indicar que, a partir de 1990, novas conceituações foram ganhando espaço no
cenário nacional, para o esporte em ambiente escolar, o esporte no tempo livre e o esporte como medida profilática.
No Brasil, o esporte de rendimento era reproduzido nas escolas e fora do âmbito institucionalizado. As pessoas re-
conheciam as práticas físicas ligadas a qualquer tipo de jogo/esporte como recreação. Foi a Comissão de Reformu-
lação do Esporte Brasileiro de 1985, presidida por Manoel Tubino e instalada pelo Decreto nº 91.452, que sugeriu,
sob a forma de indicações, que o conceito de Esporte no Brasil fosse ampliado, deixando a perspectiva única do
desempenho e, também, compreendendo as perspectivas da educação e da participação (lazer). Foi assim que foram
introduzidas, na realidade esportiva nacional, as manifestações Esporte-educação, Esporte-participação (lazer) e
Esporte-performance (desempenho) (TUBINO, 2010, p. 29).
Esse avanço em publicar novos conceitos contribui na formulação de novas perspectivas para se pensar a prática espor-
tiva – como a Lei Pelé -, o qual também colabora com a ampliação de áreas de atuação profissional. A publicidade do
esporte e todo o seu potencial educativo e político, uma vez que eventos esportivos atingem um grande número de pes-
soas, nesse sentido, pode ser entendido por muitos como um setor com grande potencial político e comercial - seja para
alcançar um número maior de pessoas, para a promoção de uma ideia comum ou até mesmo para a promoção pessoal.
Junto com o conceito de esporte-educação, ampliou-se a presença da prática esportiva como ferramenta educa-
cional, tanto em políticas educacionais como em políticas socioeducativas, desenvolvidas em contra turno escolar. Já
no que tange o conceito esporte-participação, o discurso da prática esportiva caminhou no sentido do esporte como
medida profilática, ou seja, como ferramenta de promoção de qualidade de vida e saúde.
24
EDUCAÇÃO FÍSICA
Em todas essas políticas, o profissional de educação física aparece como agente principal ou mediador das ações,
garantindo, assim, o auxílio de um profissional da área no desenvolvimento das ações e prevendo que essa presença
garanta condições de um trabalho bem realizado. A ampliação de conceitos relacionados à prática esportiva ganha
espaço para a implementação de novas políticas públicas voltadas principalmente para a área educacional e de par-
ticipação, as ações voltadas ao rendimento esportivo, em sua maioria, vêm ocorrendo por parcerias entre governos e
instituições privadas como associações, federações e confederações.
A relação entre confederações e federações esportivas com o poder público pode ser mencionada desde os re-
gistros do decreto de 1941. Essa relação advém desde questões administrativas até as financeiras, uma vez que, desde
muito antes da Lei Agnelo Piva (2001), já ocorriam repasses financeiros do governo para estas instituições esportivas.
No entanto, atualmente, cabe destaque para as associações esportivas, grandes responsáveis pela execução e promo-
ção efetiva da prática esportiva tanto na iniciação como no esporte de alto rendimento. Muitas vezes, é a partir destas
associações que os atletas são formados e ganham destaque para posteriormente serem contratados por algum clube
ou selecionados para competições através das federações e confederações.
Por denominação jurídica e finalidade de instituição privada sem fins lucrativos, essas associações são intituladas
de “terceiro setor”, pois suas ações não se enquadram como instituição pública e nem tão pouco privada com visão de
lucro. Muitas políticas são voltadas especificamente para o financiamento de ações e projetos desenvolvidos por essas
instituições do terceiro setor, como exemplo, podemos mencionar a Lei Federal de Incentivo ao Esporte.
Descrição da Imagem: Crianças dispostas em raias para uma corrida de atletismo. O terceiro setor é composto por instituições sem fins lucrativos
e é comum que promovam projetos de iniciação esportiva.
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Todas estas questões políticas que envolvem o campo es- para os negócios esportivos. Devido ao crescimento da
portivo a partir da publicação da Constituição Federal de mídia televisiva e do investimento em campanhas publi-
1988 acarretam também novas perspectivas para a gestão citárias, torna-se crescente o vínculo de grandes marcas
esportiva no país, bem como a necessidade de formação a equipes esportivas e também em equipes de represen-
e capacitação dos profissionais que atuam nesta área. Em tação nacional, como as seleções de futebol e voleibol.
uma análise realizada por um grupo de pesquisadores em Neste sentido, assim como no cenário americano,
2018, foi possível observar o perfil de gestores esportivos no Brasil também cresce a preocupação com a gestão e
a partir de outros estudos realizados anteriormente em profissionalização no campo esportivo, seja por parte do
diferentes pesquisas sobre gestão esportiva. atleta como por parte do gestor.
[...] verificou-se que os profissionais à frente das en- [...] um dos fatores que explicam o sucesso do
tidades esportivas no país são homens, com idade marketing esportivo é o fato do empresariado ter
média de 42 anos, formação predominante em Edu- descoberto que o investimento em atividades não
cação Física e Administração e tempo de experiên- relacionadas diretamente a atividade fim da empresa
cia de 14 anos. Além disso, esses gestores atuam em passou a ocupar um papel estratégico e decisivo no
diferentes organizações públicas e privadas, como: mercado, de tal modo que a influência que o marke-
associações, clubes, federações, academias de ginásti- ting esportivo exerce no comportamento do público
ca, órgãos de gestão pública federal, estadual e muni- e consumidores, em relação à empresa, ajudando a
cipal e foram identificados em alguns estudos como construir uma imagem vitoriosa e de sucesso, passou
ex-praticantes das modalidades esportivas que coor- a ser rigorosamente considerado no planejamento
denam atualmente (ZANATTA, et al. 2018, p. 301). estratégico das empresas em geral (POIT, 2006, p. 57).
O curso de graduação em Educação Física aparece como A profissionalização da gestão esportiva passou a ser ques-
pilar da formação de parte desses gestores, bem como a tão fundamental para projetos de sucesso, não somente
experiência esportiva na modalidade em que gerenciam. porque a legislação tornou-se mais rigorosa e os instru-
Isso demonstra a grande importância da Educação Física mentos de fiscalização também cresceram, mas também
enquanto área de conhecimento e como agente formado- por exigência de mercado. E não podemos esquecer que
ra daqueles que atuam na gestão de ações esportivas no tais cuidados também abrangem o setor público que em
país, seja em nível de graduação, pós graduação e cursos diversas situações atua como agente parceiro de ações pri-
de formação continuada. De acordo com Rocha e Bastos vadas em uma política de parceria público-privada.
(2011), os primeiros estudos sobre gestão esportiva ocor- Neste enredo, devemos destacar o conceito de go-
reram nos Estados Unidos a partir da década de 1960, vernança, palavra que vem ganhando cada dia mais
mediante a crescente visibilidade televisiva e consumo de espaço dentro da gestão pública e privada. No que
produtos esportivos ocorre a necessidade de análise sobre tange o ambiente público, Frey (2004, p. 121) impli-
a gestão do esporte profissional e universitário americano. ca que o termo se refere à “necessidade de mobilizar
Já no Brasil, esse movimento ocorre principalmen- todo conhecimento disponível na sociedade em bene-
te a partir da década de 1990, com o crescimento do fício da melhoria da performance administrativa e da
marketing esportivo como ferramenta fundamental democratização dos processos decisórios locais”. Em
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EDUCAÇÃO FÍSICA
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NOVAS DESCOBERTAS
As políticas esportivas estão imersas em diversas ações, programas e projetos. Desde os tex-
tos legislativos até a execução de um projeto de iniciação esportiva. Uma maneira interes-
sante de realizar essa aproximação é pesquisar sobre projetos e programas desenvolvidos
em estados e municípios. Ou até mesmo nas plataformas digitais do Governo Federal, onde
facilmente encontramos as legislações esportivas e alguns projetos que surgiram tendo elas
como elemento base de formulação.
Enquanto profissionais da área esportiva, compreender a relação e associação que existe entre o
esporte e o cenário político nos auxilia a observar contextos em que estamos inseridos ou que
pretendemos nos inserir. A atuação na gestão esportiva tanto em âmbito público ou privado exige
do profissional competências que ultrapassam o conhecimento de técnicas e ferramentas práticas,
ela nos exige subjetividade. Observar, buscar informação e analisar diferentes cenários não apenas
contribui com a nossa formação profissional, como também nos auxilia a refletir sobre ela, nos
capacitando ainda mais enquanto profissionais.
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atividades de estudo
2. Podemos considerar que os clubes foram espaços importantes para o desenvolvimento do Esporte
Moderno. Em relação a prática esportiva realizada por clubes ingleses, assinale a alternativa correta:
a. A prática esportiva era realizada de forma amadora.
b. Ocorriam grandes investimentos para a contratação de atletas.
c. O futebol era a principal modalidade esportiva entre os clubes.
d. Os clubes investiam prioritariamente no esporte de rendimento.
e. O objetivo dos clubes era obter lucro com a realização de grandes competições.
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atividades de estudo
5. A Carta Internacional de Educação Física e Desportos foi publicada em 1978 e apresenta artigos de
orientação em relação à Educação Física e ao Esporte. Sobre isso, leia com atenção as afirmações abaixo:
I. O documento indica que o treinamento e a gestão esportiva sejam realizados por profissionais da área
da Educação Física.
II. A carta defende que equipamentos e instalações esportivas sejam adequadas para a prática.
III. O documento entende educação física e esporte como direito fundamental.
IV. Indica que educação física e esporte colaborem com necessidades governamentais.
Assinale a alternativa correta:
a. Apenas I e II estão corretas.
b. Apenas I, II e III estão corretas.
c. Apenas I está correta.
d. Apenas III e IV estão corretas.
30
atividades de estudo
6. As legislações esportivas devem ser consideradas como base para a formulação de políticas esporti-
vas em todo o território nacional. Assinale a alternativa que apresente a primeira legislação que regu-
lamentou a prática esportiva no Brasil:
a. Constituição Federal, em 1988.
b. Lei Agnelo Piva, 2001.
c. Lei nº 9.615/1998, a Lei Pelé.
d. Decreto Lei º 3.199/1941.
e. Política Nacional do Esporte, 2006.
31
PLANEJAMENTO E GESTÃO
APLICADOS AO CAMPO ESPORTIVO
Oportunidades de aprendizagem
II
A profissionalização da gestão esportiva no Brasil vem verno (federal, estadual e municipal). Essa dependência
ocorrendo gradativamente. Alguns relatos históricos acarretou em muitos casos diversos conflitos de inte-
apontam que esse movimento começou com o voleibol já resses em que a finalidade esportiva perdia espaço para
na década de 1980. Até mesmo o futebol, que é o esporte interesses pessoais e/ou econômicos. Com o avanço de
mais popular do nosso país, ainda está iniciando a pro- legislações regulamentadoras e que prezam pela quali-
fissionalização de sua gestão, mas já apresenta indícios de dade do serviço realizado com o financiamento público,
grandes avanços. Um exemplo muito interessante sobre muitas instituições esportivas tiveram que capacitar os
essa mudança no cenário esportivo nacional foi à criação agentes que trabalhavam com sua gestão. Todo esse ce-
da Liga Nacional de Basquete em 2008, que apostou na nário de readequação pode ser conciliado ao avanço da
profissionalização de sua gestão esportiva e atualmente é disponibilidade de ferramentas administrativas e tam-
uma das referências esportivas quando o assunto é ges- bém ao cenário contemporâneo do esporte mundial que
tão e marketing esportivo no Brasil. Todos esses exemplos não comporta antigos modelos de gestão praticados até
nos apresentam um cenário promissor para o profissional então por muitas instituições.
de Educação Física perante a gestão esportiva, uma vez Para iniciar nossa imersão no conteúdo de planeja-
que, com todo o potencial esportivo que temos em nosso mento aplicado à gestão esportiva, podemos assistir ao
país, muitas instituições esportivas ainda estão iniciando exemplo de gestão esportiva que é baseada em planeja-
a profissionalização de sua gestão. mento estratégico e que pensa no esporte para além da
Como podemos observar na Unidade I, o esporte, prática esportiva em busca de resultados pontuais, bus-
no Brasil, há muitos anos, é desenvolvido com a tutela cando ações que promovam o avanço do esporte e da
financeira do Estado em seus diferentes níveis de go- viabilidade profissional junto ao cenário esportivo:
Pensar o esporte para além da prática esportiva e da obtenção de títulos é uma crescente dentro do cenário esportivo. A
gestão esportiva pensa em todo o processo que culmina da prática esportiva de excelência e que atenda os objetivos da
instituição que podem não estar pautados apenas na obtenção de títulos. No decorrer dos estudos nesta unidade, iremos
abordar questões diretamente relacionadas à gestão esportiva, quando certamente novas inquietações irão surgir.
34
EDUCAÇÃO FÍSICA
Esta unidade é voltada a apresentação de conceitos e estratégias de planejamento aplicado ao campo esportivo. Após
conhecermos um pouco mais sobre o esporte enquanto fenômeno social, agora chegou a hora de compreender as
bases de planejamento para que as ações e projetos esportivos sejam postos em prática com excelência.
Para iniciar esse processo, é importante realizar a conceitualização de alguns termos utilizados. É muito comum
que os termos “gestão” e “administração” sejam utilizados como sinônimos, do que não está absolutamente certo, mas,
também, não está totalmente errado. É preciso identificar o contexto onde ele está inserido, assim, alguns autores
discutem sobre essa utilização e apontam duas diferenças para utilizarmos os termos:
A primeira diferença é que administração seria uma função determinativa, que aconteceria nos altos escalões das em-
presas, enquanto que gestão seria uma função executiva, que aconteceria nos escalões inferiores. A segunda diferença
é que administração seria praticada em órgãos públicos ou em organizações sem fins lucrativos, enquanto que gestão
seria praticada em empresas privadas e na indústria (ROCHA; BASTOS, 2011, p. 93 - 94).
Como podemos observar, ambas as diferenças apresentadas fazem referência à promoção de algo; em outras palavras,
executar ações. Vamos delimitar, então, que nosso entendimento de gestão será o desenvolvimento, execução das
ações e que a administração será a forma que iremos conduzir este trabalho, ou seja, a administração enquanto ciência
nos apresenta ferramentas para realizar a melhor gestão do trabalho.
Outra dúvida frequente é em relação aos dois termos associados ao setor público e ao setor privado, e o
que vale enfatizar é que a única diferença a ser destacada é a finalidade das ações. O setor público realiza o tra-
balho voltado ao interesse público, por isso utiliza de ferramentas que orientam este viés de trabalho. Já o setor
35
privado realiza o trabalho com vistas a obter lucro e resultados específicos, utilizando ferramentas
administrativas que os orientem atingir esse objetivo.
Trazendo para o campo esportivo, podemos exemplificar como modelo de gestão pública o trabalho
realizado por secretarias e departamentos de esportes em estados e municípios brasileiros. No setor privado,
temos dois exemplos de gestão: a gestão de uma empresa esportiva como uma academia, escola de natação,
escolinha de iniciação esportiva, entre outras; e as associações, confederações e federações esportivas, que,
mesmo juridicamente sendo empresas privadas, não visam obter lucro, sendo consideradas como empresas
de um terceiro setor da economia (quando não é pública, mas também não visa lucro).
Descrição da Imagem: Na imagem, temos a ilustração de uma pirâmide dividida em três partes, simbolizando os três setores eco-
nômicos do Brasil, sendo eles o 1º Setor: União, estados, distrito federal e municípios - Poder Público; 2º Setor: Empresas Privadas;
e 3º Setor: Entidades privadas sem fins lucrativos - Organizações não governamentais como associações.
Uma importante ferramenta de administração são as legislações que auxiliam o trabalho e também a fisca-
lização do trabalho realizado. Por exemplo, um Departamento de Esportes municipal deve prestar contas
de suas despesas da mesma maneira que uma Confederação esportiva que recebe recursos públicos deve
prestar contas de suas despesas. Uma está atrelada a gestão pública e a outra está atrelada a gestão privada, no
entanto, as duas recebem recursos públicos e, de acordo com a Lei de Responsabilidade Fiscal, devem prestar
contas sobre suas finanças (BRASIL, 2000).
36
EDUCAÇÃO FÍSICA
No caso de empresas privadas, esses mecanismos de fiscalização normalmente estão relacionados aos impostos
cobrados, certidões de regularidade, filiação aos conselhos da classe, entre outras. O importante é compreendermos
que a gestão de qualquer negócio terá ferramentas de controle e que, se a administração for realizada de forma profis-
sional, tais ferramentas não serão problemas para o gestor.
No que tange o processo de profissionalização da gestão esportiva no Brasil, em 2015, foi publicada a Lei nº 13.155,
que estabelece princípios e práticas de responsabilidade fiscal e financeira para uma gestão transparente e democrática
em entidades desportivas profissionais de futebol (BRASIL, 2015). Apesar de ser voltada a apenas uma modalidade es-
portiva, a Lei nº 13. 155 apresenta-se como uma importante ferramenta de gestão, uma vez que o futebol é a modalidade
mais praticada no país, com imenso potencial comercial e grande histórico de gestões não profissionais que acarretaram
dividas e insegurança financeira em diversas equipes profissionais e amadoras.
Neste sentido, é importante enfatizar que as ferramentas de administração selecionadas pelos gestores do tra-
balho são fundamentais no desenvolvimento das ações. Você se lembra do termo “governança”, mencionado na
Unidade I? Pois então, ele se encaixa perfeitamente no trabalho do gestor. O gestor que apresenta governabilidade,
ou seja, um cenário estável e confiável para conduzir as ações, certamente será um gestor com bom reconhecimento
de seu trabalho, tanto no setor público como no privado.
A figura de gestor é altamente relevante dentro da instituição, já que é a partir dele que as ações técnicas são
direcionadas; é importante mencionar que, em muitas situações, esse gestor não possui uma grande equipe de traba-
lho. Uma pesquisa realizada para identificar o perfil dos gestores esportivos no Brasil identificou que:
[...] os profissionais à frente das entidades esportivas no país são homens, com idade média de 42 anos, formação pre-
dominante em Educação Física e Administração e tempo de experiência de 14 anos. Além disso, esses gestores atuam
em diferentes organizações públicas e privadas, como: associações, clubes, federações, academias de ginástica, órgãos
de gestão pública federal, estadual e municipal e foram identificados em alguns estudos como ex-praticantes das mo-
dalidades esportivas que coordenam atualmente (ZANATTA, et al., 2018, p. 301).
Relacionar a teoria com a realidade da gestão esportiva é um exercício que exige proximidade e convívio com
instituições esportivas, além de recorrentes análises sobre o trabalho desenvolvido. A execução das ações está di-
retamente atrelada ao financiamento das atividades, como já mencionado, no cenário brasileiro esse financiamen-
to ainda é muito dependente do poder público. Mesmo que muitas instituições tenham personalidade jurídica
privada, grande parte de seus recursos financeiros ainda são oriundos de recursos públicos através de convênios,
leis de incentivo fiscal e legislações específicas.
Então, se pautarem apenas a questão de recursos financeiros, já é um trabalho que exige muito do gestor esportivo,
não apenas de buscar tais recursos, mas também de conhecer as fontes que podem gerar esses recursos e a aplicabilidade
deles nos projetos de sua instituição. Pensando na responsabilidade que carrega essa figura tão importante e necessária
dentro da gestão esportiva, podemos apontar algumas características importantes a serem consideradas:
37
Jamieson (1987)
Competências decisórias,
Joaquim, Batista e Carvalho (2011) de planejamento,
de controle orçamentário e
Planejamento de atividades, projetos de comunicação.
e eventos; gestão de recursos
seja eles humanos, financeiros,
relacionados a instalações ou
equipamentos; de liderança;
de marketing; e de
coordenação de equipes.
Tavares (2011)
Planejamento, de relações públicas,
de marketing, de processos de
liderança e de tomada de
decisão.
Figura 2 - Principais competências para a gestão esportiva apresentadas na literatura específica / Fonte: BERNABE, 2016, p. 90-91.
Descrição da Imagem: na figura a seguir, temos uma ilustração colorida com três caixas de texto, cada uma delas apresentando as principais
competências para a gestão esportiva, com base na literatura específica. Começando por Jamieson (1987), ele afirma ser as competências deci-
sórias, de planejamento, de controle orçamentário e de comunicação. Em seguida, Tavares (2011) diz ser o planejamento, seja ele de relações
públicas, de marketing, de processos de liderança e de tomada de decisão. Para finalizar, Joaquim, Batista e Carvalho declaram ser o planeja-
mento de atividades, projetos e eventos; gestão de recursos sejam eles humanos, financeiros, relacionados a instalações ou equipamentos; de
liderança; de marketing; e de coordenação de equipes.
O planejamento é mencionado nas três referências sobre competências do gestor esportivo, justamente por ser uma das
ações fundamentais para a gestão de qualquer negócio ou projeto esportivo, desde ações pontuais até ações pensadas em
longo prazo. Entre a idealização de uma ação até a sua execução são necessárias várias etapas, que, quanto mais pensadas
e analisadas, conduzem aos melhores caminhos para a execução e, assim, atingem os objetivos idealizados inicialmente.
Empresas de todos os tipos estão chegando à conclusão de que essa atenção sistemática à estratégia é uma ativi-
dade muito proveitosa. Empresas pequenas, médias e grandes, distribuidores e fabricantes, bancos e instituições
sem finalidade de lucro, todos os tipos de organizações devem decidir os rumos que sejam mais adequados aos
seus interesses (ALDAY, 2000, p. 10).
Uma administração baseada em ações planejadas tende a alcançar objetivos mais concretos do que a de uma ad-
ministração que atua conforme as demandas. Para Coltro e Pazzini (2016) instituições que não pautam sua ad-
ministração em ações planejadas tendem a caminhar conforme a concorrência e correm o risco de estar sempre
38
EDUCAÇÃO FÍSICA
um passo atrás. De acordo com os autores, essas situações podem ocorrer quando os
gestores se concentram muito no cotidiano operacional e não exercem a função de
planejamento, ou seja, não pensam em ações em médio e longo prazo, agindo de acor-
do com prioridades pontuais e, com isso, podem muitas vezes não enfrentar as causas
reais dos problemas (COLTRO; PAZZINI, 2016).
NOVAS DESCOBERTAS
A gestão amadora ainda é recorrente, mesmo que em instituições que promovam o es-
porte de alto rendimento profissional. Nesse sentido, Galindo (2005, p. 61) reforça que
na gestão esportiva “não existe mais espaço para a desinformação e amadorismo barato
ou para uma abordagem de gestão baseada no ‘achismo’ desconsiderando a legalidade e
os paradigmas existentes sobre o desenvolvimento adequado da prática esportiva”. Ain-
da que a profissionalização da gestão esteja vinculada a investimentos financeiros para
a contratação de profissionais, capacitação profissional e estratégias de ação, o cenário
esportivo não comporta mais uma gestão precária e amadora.
Com o avanço das ferramentas de fiscalização e também do acesso dos profis-
sionais da área a ferramentas de administração, diante da evidente necessidade de
qualificar o desempenho da gestão de suas instituições, assistimos o crescente avanço
da profissionalização da gestão esportiva. Essa profissionalização acarreta mais go-
vernabilidade para as instituições, segurança para os patrocinadores e oportunidades
para os atletas e demais beneficiários.
Esse processo de profissionalização solicita a capacitação de profissionais para aten-
der as demandas da instituição, desde aqueles que realizam a gestão ou do suporte finan-
ceiro que a instituição possui para realizar a contratação de profissionais que realizam
o trabalho de assessoria e consultoria esportiva, tanto aqueles que promovem a capaci-
tação das pessoas diretamente envolvidas na gestão da instituição esportiva. Em ambos
os casos, o caminho de profissionalização é conduzido em grande proximidade ao setor
empresarial e administrativo, no entanto, buscando associar as ferramentas do campo
empresarial para o campo esportivo.
39
Neste sentido, é importante partirmos do princípio de que todo processo de trabalho tem início a partir de um
planejamento. No campo profissional, todas as nossas ações necessitam de um planejamento ou um simples desenho
da ação. Por exemplo, quando pensei na disciplina de Gestão Esportiva, eu desenhei um roteiro de temas que devería-
mos abordar e, a partir desse desenho, surgiram unidades e tópicos de assuntos. Para realizar a gestão de um negócio/
projeto, é necessário seguir essa mesma lógica de pensamento:
[...] cabe à gestão da empresa definir seus objetivos e políticas, coordenar e direcionar esforços visando um melhor
e mais claro controle do desempenho atingido. Pois planejamento é um processo contínuo e dinâmico que consiste
em um conjunto de ações coordenadas, integradas e orientadas para tornar realidade um objetivo futuro (COLTRO;
PAZZINI, 2016, p. 138).
No campo esportivo, é muito comum utilizarmos o termo “projeto”, contudo, o projeto é tudo aquilo que apresenta
início, desenvolvimento e conclusão. Logo, se o seu trabalho possui esse ciclo, podemos chamar de projeto, mas, caso
ele seja uma ação permanente, não devemos chamar de projeto e sim de ação ou trabalho. Campestrini (2016) nos
apresenta uma nomenclatura que acaba abrangendo tanto um projeto como uma ação mais duradoura, que o autor
chama de ‘plataforma de negócios esportivos’.
Uma plataforma de negócios esportivos abrange tudo aquilo que o esporte acaba transformando em negócios,
bem como uma equipe esportiva, um material esportivo ou até mesmo a carreira de um atleta (CAMPESTRINI,
2016). Partindo da ideia de plataforma de negócios, devemos nos atentar a três pontos fundamentais atrelados a ne-
gócios no campo esportivo, são eles: o esporte, o conteúdo e o projeto.
• Entrega esportiva;
• Busca pela melhora de aspectos ligados a ciências do
esporte; gestão técnica; recursos materiais e físicos; âmbito e
abrangência da disputa; relato histórico; credibilidade do
esporte; e aperfeiçoamento de equipes, atletas, árbitros e
oficiais.
• Conteúdo Esportivo;
• Busca pelo fortalecimento da percepção de valor do
conteúdo por parte do mercado, aprimoramento de suas
entregas e maximização de seus resultados para as pessoas
e as organizações que se relacionam com o esporte.
• Estruturação integral de negócio esportivo;
• Planejamento mais amplo do Conteúdo Esportivo,
buscando fortalecimento do ciclo de vida da plataforma
Descrição da Imagem: esportiva. Contempla atividades como a diversificação das
Quadro descritivo da formas de entrega de conteúdo esportivo e extensão das
suas ativações ao longo do calendário, estruturação de
Plataforma de Negócios canais de relacionamento e comunicação, potencializando
Esportivos proposta seus resultados no mercado.
por Campestrini (2016).
40
EDUCAÇÃO FÍSICA
EXPLORANDO IDEIAS
41
Trazendo para o cenário da gestão esportiva, nós podemos pensar em ações voltadas à criação de um negócio como
uma escolinha de iniciação esportiva, projetos sociais e até ações promovidas por instituições públicas. Para isso,
vamos categorizar em três modelos de planejamento: tático, operacional e estratégico. A inserção do trabalho com es-
tratégias em instituições corporativas é comum no meio administrativo, já no cenário da gestão esportiva é necessário
adaptarmos esses termos a realidade do setor. Reis e Melo (2020, p.115) entendem que, no campo esportivo, “o nível
corporativo pode ser mais amplo tendo como atribuições ações como prover, promover, desenvolver, controlar e/ou
intermediar relações institucionais”. Os autores ainda complementam que:
[...] o nível corporativo permanece concentrado em ações que permeiam os objetivos da entidade (desenvolver o volei-
bol ou futebol, por exemplo); no nível de unidade de negócios estão as competições organizadas pela entidade (Cam-
peonato Brasileiro de Futebol, Superliga Masculina ou Feminina de Vôlei); e as estratégias funcionais estão inseridas
nos departamentos internos da entidade, por exemplo, no marketing, desenvolver pesquisas de mercado, identificar
mercados-alvo, levantar o perfil dos principais clientes e patrocinadores (REIS; MELO, 2020, p. 115).
Figura 4 - Estratégia.
Descrição da Imagem: Na imagem, há uma fotografia colorida representando um técnico apresentando estratégia de jogo para sua equipe.
Em um gramado, há um homem segurando uma prancheta com estratégias e jogadas organizadas em desenho. A sua frente, há dois meninos
sentados, eles estão vestindo uniformes azul e branco de jogadores de futebol.
42
EDUCAÇÃO FÍSICA
43
Nesse sentido, o planejamento estratégico orienta nossas ações para pensarmos no ne-
gócio que pretendemos desenvolver e, a partir desse planejamento, podem surgir dife-
rentes projetos específicos. Por exemplo, uma associação esportiva é nossa ‘plataforma
de negócio’; a partir desse negócio, surgem os projetos, como os serviços que a associa-
ção vai oferecer (aulas de iniciação esportiva, treinamentos de alto rendimento, ações so-
ciais) e como será a condução da equipe de trabalho, entre outras ações possíveis. Assim,
a partir de um projeto inicial, que é a estruturação dessa associação esportiva, surgem
outros projetos específicos para desenvolver as ações.
44
EDUCAÇÃO FÍSICA
45
preciso garantir, como mencionado, que os recursos físicos e os recursos planejados estejam dis-
poníveis quando solicitados e quais alternativas para possíveis ações corretivas (PMI, 2017). Assim,
por mais bem elaborado e estruturado esteja o seu planejamento, você ainda vai precisar de recursos
humanos capacitados para executá-lo.
Trabalhar em equipe exige diversas habilidades individuais, ou seja, para termos um bom
grupo, é importante que sejamos individualmente capazes de realizar as tarefas que nos serão
atribuídas. Investir em práticas que promovam a motivação e o esforço da equipe, alinhado à
capacitação e um ambiente de trabalho que estimule a criatividade e produtividade da equipe, são
técnicas favoráveis ao melhor desempenho e, consequentemente, qualidade no trabalho desenvol-
vido pela equipe (BRITO; OLIVEIRA, 2016).
Bernabe (2016, p. 89) se apropriou de um perfil de competências que são exigidas para a atua-
ção na gestão esportiva: assim como “saber agir, saber mobilizar, saber comunicar, saber aprender,
saber comprometer-se, saber assumir responsabilidades e ter visão estratégica” podem ser con-
sideradas competências importantes para atuar com a gestão, a autora constatou que as princi-
pais competências necessárias para o cargo estão relacionadas ao saber “planejar, tomar decisões,
saber se comunicar e saber mobilizar, controlar ou coordenar recursos humanos e financeiros/
orçamentários” (BERNABE, 2016, p. 91), reforçando a importância das características pessoais e
profissionais do líder/gestor de uma equipe de trabalho.
De acordo com Brito e Oliveira (2016), a gestão de recursos humanos também deve ser
pensada de forma estratégica e, nesse sentido, os autores apontam que essa gestão estratégica
de recursos humanos se baseia em dois princípios fundamentais:
[...] à importância estratégica dos recursos humanos, às suas competências, aos comportamentos
e às inter-relações para a organização, enquanto o segundo refere-se ao papel das práticas de ges-
tão de pessoas no desenvolvimento desses mesmos recursos (BRITO; OLIVEIRA, 2016, p. 97).
Enquanto líderes de uma equipe de trabalho, devemos conhecer as qualidades dos indiví-
duos que pertencem a nossa equipe e potencializar essas qualidades. No mesmo sentido,
devemos capacitar o grupo em situações que ainda apresentam déficits, ou até mesmo visar
à capacitação para uma maior qualificação na realização do trabalho. Saber coordenar sua
equipe atribuindo tarefas para as pessoas capacitadas para cumpri-las é um dos processos
que mais exigem atenção durante o planejamento.
Poit (2006) apontou alguns princípios básicos para uma equipe de trabalho, são eles:
46
EDUCAÇÃO FÍSICA
• Metas claras e
Princípios básicos para uma consistentes; • Ser justo e disposto
a escutar;
• Ser receptivo às
necessidades da
• Incentivar a
equipe;
disposição coletiva
para mudanças;
• Respeitar a opinião
• Buscar vencer • Confiar em do outro;
juntos; sua equipe;
Figura 7 - Princípios básicos para uma equipe de trabalho / Fonte: Poit (2006).
Descrição da Imagem: Equipe trabalhando em conjunto, onde todos devem trabalhar juntos para que a ação aconteça.
Ainda pensando em quem compõe o quadro de recursos humanos, é importante mencionar aqueles agentes que não
estão diretamente ligados na execução das tarefas, mas possuem papel fundamental para que a equipe de trabalho con-
siga desenvolver as ações planejadas. Voltando a usar a Academia de Musculação como exemplo, podemos apontar a
equipe de trabalho composta pelos profissionais de educação física, estagiários e demais colaboradores diretos como
recepcionista e assistente de limpeza. No entanto, essa equipe também depende de outros profissionais, como aqueles que
prestam serviços pontuais, como o fornecedor dos aparelhos, fornecedor de materiais de consumo (itens de papelaria,
artigos esportivos, alimentos, bebidas, entre outros) e até os profissionais de serviços gerais da parte elétrica ou hidráulica.
Todas as pessoas necessárias para que o planejamento seja executado devem ser consideradas como recursos humanos.
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Os materiais também devem ser considerados recursos, principalmente aqueles que influenciam diretamente na
execução do planejamento. Você consegue visualizar uma Academia de Musculação hoje em dia sem nenhum aparelho
eletrônico como um computador, celular ou tablet? Ou então, na execução de um projeto social de iniciação esportiva,
conseguimos trabalhar o voleibol sem termos bolas, postes e rede adequada? Em ambos os casos, os materiais possuem
enorme relevância para a execução das atividades planejadas, sejam eles materiais técnicos ou administrativos.
Os recursos de infraestrutura também devem ser amplamente analisados, principalmente se estamos trabalhando no
campo esportivo. Pensar em infraestrutura esportiva logo nos faz lembrar de ginásios, quadras e campos de futebol, mas
será que apenas essas estruturas são o suficiente para executar meu planejamento? No caso de um evento esportivo, além
do local onde a disputa vai ocorrer, nós precisamos pensar em todos aqueles que estarão presentes no evento, então: qual é
o melhor acesso até o local? É seguro para o público? Temos condições adequadas para os atletas? Qual o melhor horário?
Temos iluminação suficiente? Temos água no local? E se chover, como devemos proceder? Todas essas questões que muitas
vezes passam despercebidas àqueles que participam do evento devem compor o quadro de preocupações de quem planeja
o evento. Até mesmo em uma Academia de Musculação, o espaço é adequado para a quantidade de equipamentos? Em dias
quentes, temos circulação de ar para manter um ambiente agradável para os clientes? Os banheiros estão adequados?
Ao analisar a necessidade de compreender a infraestrutura esportiva brasileira, os autores Oliveira, Taffarel e
Belem (2014) defendem que, para entendermos a importância de pensar nessa infraestrutura, podemos utilizar a
classificação de oferta e procura. Considerando como ‘procura’ a necessidade da população por espaços onde se possa
realizar a prática esportiva, e ‘oferta’ como os serviços e políticas (públicas e privadas) existentes para concretizar a
necessidade da procura da população, os autores demonstram que:
Com relação à OFERTA, determinou-se como todo serviço e política existente para a concretização da prática
esportiva do sujeito, entre eles destacaram-se como elementos imprescindíveis a um diagnóstico: a) Infraestrutura
dividida em: Hardware (instalações) sua estrutura física, e SOFTWARE, relacionado às políticas de gestão e organi-
zação das práticas esportivas; b) os recursos econômicos (financiamento, investimentos); c) mídia comunicativa; d)
a legislação (OLIVEIRA; TAFFAREL; BELEM, 2014, p. 622).
Dentro desse contexto, o entendimento de infraestrutura também extrapola pensarmos apenas em instalações espor-
tivas e nos faz refletir sobre a importância de outros recursos que tem influência direta na infraestrutura esportiva dis-
ponível para a realização de nossas ações. Não conhecer ou atribuir a devida importância a infraestrutura necessária
para executar o planejamento pode colocar em risco todo um trabalho em equipe, aquisição de materiais e também
comprometer o próximo recurso que iremos discutir: o financeiro.
Uma planilha de gastos iniciais é o mínimo que nosso planejamento deve prever, discriminando todos os custos de
cada ação planejada, desde o pagamento de recursos humanos, aquisição de materiais e até o aluguel de espaços ou refor-
mas. O recurso financeiro é o combustível para executar aquilo que foi planejado. Não em relação a quantidade, pois nem
sempre a quantidade de recursos financeiros está atrelada a qualidade na execução. Mas, um planejamento adequado
para o recurso financeiro disponível já auxilia para que o trabalho seja conduzido para atingir seus objetivos.
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EDUCAÇÃO FÍSICA
Uma das grandes questões na gestão esportiva sempre foi pautada no financiamento das ações,
seja no setor público ou no privado. O cenário esportivo brasileiro é composto por diferentes insti-
tuições do setor público, privado e terceiro setor (instituições privadas sem fins lucrativos como as
associações) e todas essas instituições possuem diferentes fontes de recursos financeiros, no entanto,
é importante reforçar que grande parte das ações são financiadas com o auxílio de recursos públicos,
principalmente quando nos referimos a modalidades esportivas.
A Lei Pelé reconhece como componentes do sistema esportivo nacional o Comitê Olímpico Brasileiro,
o Comitê Paraolímpico Brasileiro; as entidades nacionais de administração do desporto (confederações),
as entidades regionais de administração do desporto (federações), as ligas regionais e nacionais, entidades
de prática desportiva (associações, fundações e órgãos públicos), e a Confederação Brasileira de Clubes
(BRASIL, 1998). Todas essas instituições podem receber financiamento público para desenvolver suas ati-
vidades, nesse sentido, precisam seguir uma série de exigências na gestão dos recursos e na prestação de
contas. Assim, conforme as ferramentas de fiscalização vêm aumentando o nível de exigência de uma gestão
profissional, elas se tornam necessárias para atender a todas as solicitações.
A mesma legislação ainda orienta sobre os recursos públicos garantidos a promoção de políticas
esportivas no Brasil:
Art. 56. Os recursos necessários ao fomento das práticas desportivas formais e não-formais a que se refe-
re o art. 217 da Constituição Federal serão assegurados em programas de trabalho específicos constantes
dos orçamentos da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, além dos provenientes de:
fundos desportivos; II - receitas oriundas de exploração de loteria; III - doações, patrocínios e lega-
dos; V - incentivos fiscais previstos em lei; VII - outras fontes (BRASIL, 1998, s/p, grifo nosso).
Para quem atua ou pretende atuar com a gestão esportiva, é fundamental conhecer quais são essas fontes
de recursos. Os fundos esportivos fazem referência a uma alternativa legal que o governo federal, estados e
municípios podem criar para destinar recursos para o desenvolvimento de ações esportivas. É possível que
o município sancione uma lei que regulamente a criação de um Fundo Municipal de Esportes, onde seriam
destinados recursos que posteriormente seriam utilizados apenas para demandas esportivas municipais, como
por exemplo, o Fundo Municipal do Desenvolvimento do Esporte e do Lazer do Município de Caxias do Sul,
criado em 2003 pela Lei nº 6160/2003 e reformulado pela Lei nº 7207/2010, “como uma unidade orçamentária
da Secretaria Municipal de Esporte e Lazer, destinado a dar apoio financeiro a programas e projetos de caráter
de esporte e lazer” (MERTINS; MYSKIW; SANFELICE, 2016, p. 83).
As receitas oriundas de loteria são referentes aos concursos realizados pela Loteria Federal, “as lo-
terias como serviço controlado pelo Estado se fazem presentes nos diferentes continentes como alter-
nativa para complementar o financiamento” de diferentes áreas, assim como a esportiva (CARNEIRO;
ATHAYDE; MASCARENHAS, 2020, p. 2).
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Quadro 2 - Fontes de financiamento a partir de loterias federais / Fonte: CARNEIRO; ATHAYDE; MASCARENHAS, 2020.
Descrição da Imagem: Descrição de imagem: Quadro de legislações referente ao financiamento esportivo no Brasil.
Todas essas fontes constituem o orçamento para as ações tado a atividades esportivas em contraturno escolar. O
do Governo Federal em âmbito esportivo e são baseadas governo abre edital e convoca a inscrição de instituições
em repasse de recursos para outras instituições que exe- públicas e privadas que pretendem desenvolver o pro-
cutam diretamente as ações. Podemos considerar essa grama. As instituições elaboram um projeto e fazem a
ação como um modelo de política redistributivas em inscrição, aquelas que são contempladas formalizam um
que o Governo Federal recolhe os recursos e distribui termo de convênio com o governo federal para receber
para outras instituições. Esse recurso chega até a execu- os recursos. Ações e programas no mesmo modelo do
ção das ações por diferentes caminhos: programas de Programa Segundo Tempo também podem ocorrer em
governo e repasses previstos em lei (quadro 2). nível estadual, onde o convênio é realizado junto ao Go-
Os programas desenvolvidos pelo Governo Federal verno do Estado e em nível municipal, com a Prefeitura
podem acontecer em parcerias com instituições públi- da cidade.
cas e privadas, através de convênios. Podemos utilizar Os recursos provenientes de doações, patrocínios e
como exemplo o Programa Segundo Tempo, que é vol- legados são referentes a financiamentos próprios das ins-
50
EDUCAÇÃO FÍSICA
tituições. Podemos utilizar como exemplo uma competição promovida pela Confederação Brasileira de Voleibol, que
tem como patrocinadoras várias empresas privadas que utilizam o evento como ferramenta de divulgação da marca.
O mesmo segue o critério de doações e legados, onde tais instituições podem receber doações de bens ou recursos
financeiros. No caso de órgãos públicos, como Departamentos e Secretarias de Esporte, essas questões precisam ser
confirmadas em legislação local, logo, é necessário verificar se não existe impedimento legal para esse procedimento.
Por fim, os recursos de incentivos fiscais possibilitam que projetos esportivos sejam incentivados com percentuais
destinados ao pagamento de impostos. O maior exemplo que podemos mencionar é a Lei Federal de Incentivo ao
Esporte – Lei nº 11.438/2006. A legislação orienta que empresas podem destinar até 1% de seu imposto para projetos
aprovados pelo Governo Federal. O contribuinte/pessoa física também pode realizar a destinação de até 6% do valor
que pagaria de imposto de renda para os projetos disponíveis a captação de recursos. A lógica da destinação refere-se
ao incentivador saber onde parte dos seus impostos serão investidos, então o governo federal não deixa de receber
esse imposto, apenas possibilita que o incentivador oriente qual projeto ele quer patrocinar.
O estado do Paraná também trabalha com um projeto de fomento ao esporte através de incentivos fiscais (PRO-
ESPORTE), mas, no caso paranaense, o processo de cadastramento das instituições é um pouco diferente. O governo
paranaense abre editais e as instituições interessadas enviam projetos de acordo com as regras do edital. No caso da
Lei Federal de Incentivo ao Esporte, as instituições podem encaminhar projetos para o governo federal entre os meses
de fevereiro a outubro, e conforme a demanda os projetos vão sendo avaliados, aprovados e executados.
Em ambas as situações, as instituições esportivas conseguem viabilizar recursos para o custeio de seus projetos e
abre a possibilidade de que seus patrocinadores recebam o incentivo de realizar o incentivo a partir de um imposto
que de qualquer maneira seria pago ao governo, mas, que a empresa utiliza como estratégia de divulgação de sua mar-
ca e agrega valores de incentivo a projetos de cunho educacional e social.
Leis de renúncia fiscal já aparecem em âmbito estadual e também utilizam a mesma lógica da lei federal: destinar
parte do recurso que seria pago diretamente ao governo, para projetos esportivos já aprovados e aptos a captação de
recursos. Essa é uma maneira do contribuinte saber para onde o seu imposto será destinado e no caso das empresas,
ainda é possível utilizar esse patrocínio como forma de promover sua marca.
NOVAS DESCOBERTAS
51
A elaboração de projetos
esportivos é um dos cam-
pos em ascensão dentro da
gestão esportiva e um ótimo
exemplo para pensarmos
em formas de planejamento
e organização. Acesse o por-
tal eletrônico do Governo
Federal e busque por “Lei
de Incentivo ao Esporte”. O
site oferece inúmeros do-
cumentos e informações do
processo de elaboração de
projetos esportivos, confira
os modelos e manuais e re-
alize o exercício de verificar
o modelo de projetos apro-
vados e também o modelo
de Plano de Trabalho (dese-
nho do projeto).
52
atividades de estudo
2. O planejamento no campo esportivo extrapola a atividade técnica e tática das equipes: ele é ferramen-
ta fundamental dentro da gestão de organizações esportivas. O modelo de planejamento pode variar
de acordo com a ação que pretendemos realizar; portanto, podemos classificá-lo em: estratégico,
tático e operacional. Sobre isso, leia as afirmativas a seguir.
I. O planejamento estratégico deve ser realizado pensando em ações e objetivos a serem alcançados em
longo prazo.
II. O planejamento tático deve estar atento aos critérios técnicos da modalidade em questão.
III. O planejamento tático deve ser pensado em médio prazo e voltado a uma equipe de trabalho específica.
IV. O planejamento tático e operacional é pensado para realizar tarefas específicas que visam atender aos
objetivos do planejamento estratégico.
Assinale a alternativa que apresenta as afirmativas corretas.
a. I, II e III;
b. I, III e IV;
c. I e IV;
d. II e III;
e. I, II, III e IV.
53
atividades de estudo
4. O Ciclo de Deming ou PDCA tem sido usado atualmente por empresas na execução e em seu planeja-
mento estratégico de forma eficiente e dinâmica, contribuindo, assim, para a qualidade dos serviços
oferecidos o que caracteriza um diferencial necessário para sua sobrevivência no mercado (GOMES
FILHO; GASPAROTTO, 2019, p. 384). Sobre o Ciclo de Deming, assinale a alternativa correta:
a. Verificar; planejar; executar e agir.
b. Planejar, executar, verificar e agir.
c. Planejar, verificar, executar e agir.
d. Agir, verificar, planejar e executar.
e. Verificar, planejar, agir e verificar.
5. Pensar nos recursos necessários para realizar a ação prevista e contemplar esses recursos dentro do
planejamento é etapa essencial para atingir os objetivos. Quais recursos você considera mais impor-
tante e quais fontes de financiamento podemos utilizar em projetos desenvolvidos por órgãos públi-
cos de gestão esportiva?
54
UNIDADE
III
ELABORAÇÃO E GESTÃO DE
PROJETOS ESPORTIVOS
Oportunidades de aprendizagem
III
A menção à palavra “projeto” pode acarretar diferentes pontos de interpretação. Tudo depende do contexto em que ela está
inserida. No campo esportivo, é muito comum referenciar ações esportivas como projetos, no entanto, muitas vezes, tais ações
não possuem a estrutura formal e ciclo de um projeto com planejamento, período de execução e encerramento. Você já parou
para pensar no significado que essa palavra tem pra você ou o que você entende ou reconhece como um projeto esportivo?
O esporte é um fenômeno social muito amplo. Para desenvolver o esporte em toda essa sua amplitude podemos e deve-
mos nos apoiar em legislações e ferramentas administrativas. Nos últimos anos, a oferta de possibilidades de financiamento
por parte do setor público e também do setor privado para Projetos Esportivos cresceu em grande escala. Muitos órgãos públi-
cos optam por terceirizar o desenvolvimento das ações esportivas realizando parcerias com instituições esportivas do Terceiro
Setor (associações, federações, confederações e ligas). Grandes empresas também passaram a destinar recursos para projetos
esportivos de cunho social, com vistas a atrelar sua marca a questões socialmente relevantes aumentando assim seu engaja-
mento. Dessa forma, os projetos passaram a exigir uma série de especificidades, para evitar fraudes e viabilizar a aplicação
correta dos recursos. Surge então uma maior demanda por profissionais capacitados para elaborar e gerenciar esses projetos.
A organização de ideias é um ponto de extrema importância na hora de escrever um pro-
jeto. Algumas ferramentas podem nos auxiliar, desde o papel e caneta com anotações aleatórias
até ferramentas como o Canvas. Uma alternativa muito interessante e acessível é o Sebrae Can-
vas , acesse e explore a ferramenta, você pode iniciar esse primeiro contato com a ferramenta
organizando uma ideia simples, como a criação de uma escolinha de iniciação esportiva.
Após o desenho e organização da ideia e início da estruturação de seu projeto no Can-
vas, destaque: Qual é o seu projeto? Para quem ele é destinado? Como você fará isso? Quanto
custa? Quanto você receberá por isso? Você consegue perceber que apenas respondendo a
poucas perguntas já é possível desenhar uma ideia do que será o projeto que você está idea-
lizando? Utilize o espaço do diário de bordo a seguir para registrar e organizar o seu projeto.
58
EDUCAÇÃO FÍSICA
59
60
EDUCAÇÃO FÍSICA
nta a O gerente/coordenador
nos orie to: do
ssa p ergunta o p ro je projeto tem autonomia
E para
objeto d
definir o ão esportiva, tomar que tipo de decisõ
es?
iniciaç , A diretoria da instituição
dimento
alto ren m eventos, deve ser solicitada a
ação e
particip o de eventos, todo momento?
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reali ç outros.
za
entre
61
Após responder as questões do pré-projeto, certamente (POIT, 2013). Um projeto que apresenta inconsistência
o desenho do projeto já estará muito bem encaminhado, com as normativas legais já demonstra que sua equipe de
tornando o processo de escrita e estruturação mais fácil. elaboração não teve a preocupação em buscar informa-
Questões como “Quem somos?”, “O que queremos?”, ções consistentes ou tempo hábil para essa pesquisa, aler-
“Quais os envolvidos?”, “Qual o tempo de duração?” tando para uma fragilidade de gestão e organização por
e “Para quem o projeto é pensado?” orientam a escrita parte da instituição que está propondo o projeto.
bem fundamentada de um projeto, uma vez que essas Já no que tange a viabilidade financeira, o projeto
questões nos auxiliam a escrever uma introdução, as deve considerar a “análise detalhada dos custos, eventuais
justificativas, objetivos e metas que o projeto idealiza. financiamentos, fontes de receita, relação das principais
Estar atento a todo o escopo (tudo aquilo que o gerente despesas, possibilidades de retorno e sustentabilidade do
de projetos deve fazer ou que sabe que deve ser feito), projeto” (POIT, 2013, p. 24). Por essa razão, o desenho de
tempo disponível para as ações, riscos que o projeto está um cronograma orçamentário é fundamental para orga-
sujeito e a qualidade que se busca alcançar também são nizar os gastos e também a fonte de renda; todo esse cui-
aspectos que podem ser pensados desde o processo de dado auxilia também na prestação de contas.
pré-elaboração do projeto. No caso da viabilidade ambiental, a atenção é voltada
Outro ponto de extrema importância durante o pro- a preocupação do projeto em relação ao meio ambiente,
cesso de pré-projeto é pensar a viabilidade do projeto e no caso de projetos que estejam diretamente relaciona-
de quais caminhos podemos seguir para de fato atingir dos a espaços ligados ao meio ambiente essa preocupa-
os objetivos propostos pelo projeto que iremos elaborar. ção deve ser considerada, principalmente em relação às
Em estudo realizado sobre os projetos aprovados pela Lei questões legais (burocráticas e legislações específicas). É
Federal de Incentivo ao Esporte - Lei nº 11.438/06, Matias um fator muito importante em projetos esportivos de-
et. al. (2015) identificou que a grande maioria dos projetos senvolvidos em espaços abertos como em modalidades
aprovados são propostos por instituições esportivas que consideradas de Aventura e Natureza.
possuem grande reconhecimento social devido a tradição Por fim, a viabilidade social: o perfil do projeto aten-
de suas equipes esportivas, ou seja, são instituições que de realmente a questões sociais? Se pensarmos em um
aparentam já possuir uma estruturação em sua gestão e projeto esportivo que tenha como objetivo o alto rendi-
condições de viabilizar as ações dos projetos. mento esportivo, não é viável associá-lo diretamente ao
A viabilidade de execução de um projeto, de acordo campo social. No entanto, se a mesma instituição pro-
com Poit (2013), perpassa a importância da viabilidade move ações de promoção a prática esportiva de forma
política, viabilidade financeira, viabilidade técnica, viabi- mais abrangente e participativa ou atuando em áreas
lidade social e viabilidade ambiental. Iniciando pela viabi- de vulnerabilidade social, então sim, a instituição pode
lidade política, que vai além da questão de relação e pro- enaltecer em seu projeto que também tem essa verten-
ximidade entre instituições e gestores, orienta para que te de trabalho. Contudo, essa menção deve ser afim de
o projeto fique atento ao cumprimento de normas legais complementar a relevância da instituição, e não deve ser
estabelecidas como legislações e documentos normativos utilizada como finalidade ou objetivo do projeto.
62
EDUCAÇÃO FÍSICA
Se as ações são de alto rendimento esportivo, então o objetivo deve estar voltado ao alto rendimento esportivo.
Se as ações visam atendimento social, então os objetivos devem apresentar características de abrangência social. A
finalidade esportiva do projeto deve estar diretamente relacionada aos objetivos do projeto.
Poit (2013, p. 24) destaca que “existe uma carência muito grande de ideias (boas e factíveis) que caminhem ao
encontro das necessidades atuais de atender metas de responsabilidade social que as instituições e empresas estão
adotando”. De acordo com Cruz e Martineli (2007), as empresas passam a individualizar e humanizar suas marcas
para estabelecer uma proximidade com o consumidor. Esse processo inclui associar o nome da empresa a questões
sociais. Nesse sentido, o entendimento de fundamentar o propósito do projeto esportivo para questões sociais que
extrapolam a prática esportiva estão cada vez mais presentes nesse quesito de viabilidade social.
Em um estudo realizado com beneficiários (crianças, adolescentes, familiares e profissionais) de um projeto social
esportivo, Castro e Souza (2015, p. 158) destacam que o projeto é entendido por eles “como um espaço que protege
crianças e adolescentes de ‘coisas que não prestam’, ‘más influências’ e da violência das ruas” além de auxiliar para
“diferentes tipos de aprendizagem, como por exemplo, apoio escolar, iniciação e/ou aperfeiçoamento esportivo, de-
senvolvimento de valores, melhoria de comportamento e preparação para o futuro”. O que reforça novamente o en-
tendimento do esporte não apenas como prática de atividade física, mas também como relevante instrumento social
associado à ocupação de tempo livre, educação, disciplina e socialização.
Descrição da Imagem: Adolescentes em uma quadra poliesportiva e ênfase em um adolescente segurando uma bola de basquete.
63
Posto isso, a viabilidade social de projetos esportivos nos abre uma janela para discutir um critério muito importante
na hora de escrever um projeto: descrição da realidade, do que é viável. Como no exemplo mencionado anterior-
mente, de um projeto que busca o desenvolvimento de uma equipe de rendimento esportivo, a viabilidade social não
pode estar como objetivo específico. Neste caso, certamente, o objetivo será a obtenção de títulos ou participação em
eventos específicos. Neste tipo de situação, ações sociais que são promovidas pela instituição podem ser mencionadas
em partes como a introdução, local do projeto onde é apresentada a instituição e, então, essas ações sociais podem
ser mencionadas. Viabilidade e características sociais devem ter ênfase em objetivos e metas apenas quando o projeto
visa exatamente isso: ações que promovam ampla participação de beneficiários (manifestações esportivas com caráter
educacional e de participação).
64
EDUCAÇÃO FÍSICA
EXPLORANDO IDEIAS
Metas qualitativas estão relacionadas às questões mais subjetivas do projeto e podem visar ações
de cunho educacional, social e práticas humanizadoras. Já as metas qualitativas visam resultados
pontuais, que podem ser mensurados e apresentados de forma concreta, por exemplo: melhorar a
condição física dos atletas. Essa situação pode ser mensurada e avaliada de forma contínua a fim de
apresentar os resultados ao final do ciclo do projeto.
Já sabemos algumas questões norteadoras para começar a pensar o desenho de um projeto e tam-
bém temos um roteiro para a redação desse projeto. Vamos então propor um exercício para exem-
plificar todos esses conceitos até aqui apresentados. Como orientações, temos: elaborar um projeto
esportivo com características sociais e que atende crianças e adolescentes em vulnerabilidade so-
cial; faixa orçamentária com teto de $100.000,00 reais; prazo para execução de até 12 meses.
Muito bem, temos, então, algumas especificidades para elaborar nosso projeto. Como ele já es-
tabelece um público-alvo (crianças e adolescentes), podemos pensar em trabalhar com a iniciação
esportiva. Uma modalidade? Duas? Quantos locais eu tenho disponível para trabalhar? Vamos de-
finir que nossa modalidade será o Voleibol e teremos um local para desenvolver esse projeto. Caso
esse local não seja próprio da instituição que está elaborando o projeto, será necessário firmar
uma parceria com a instituição ou proprietário do local (normalmente são disponibilizados ou
solicitados termos de parcerias entre as instituições). A seguir, é possível analisarmos um roteiro
de questões que busca auxiliar no desenho de um possível projeto esportivo:
65
1. Atividades de iniciação esportiva
da modalidade de Voleibol.
uma rede de voleibol), contratação de
3. Até 100 crianças e adolescentes em professores e estagiários (1 professor de
vulnerabilidade social. Faixa etária de Educação Física e 2 estagiários que cursam
6 a 17 anos. Educação Física) e confecção de uniformes
(100 camisetas de uniforme com a
4. Durante 12 meses, a contar a identificação do projeto e de seus
partir do início dos trabalhos previstos no patrocinadores e 3 jogos de uniformes
cronograma de execução. completos para professor e estagiários).
5. Ginásio de Esportes do Bairro A.
6. Atendimentos em turmas
direcionando a idade (podemos elaborar um
quadro com os horários de cada turma).
Sendo, um horário com início às 14:00 e o
outro com início às 16:00. Duas vezes na
semana, totalizando 4 horas semanais de
atendimento por aluno.
Responder a esse roteiro de perguntas já nos faz organizar a estrutura do projeto, pensando que ao respondê-las é pos-
sível organizá-las em: introdução, objetivos, justificativa e metodologia. Não esquecendo os materiais complementares
como os quadros de horário das atividades, planilha de materiais que serão adquiridos, profissionais responsáveis ou
que serão contratados e cronograma de execução.
A elaboração de projetos que visem à realização de eventos esportivos também pode seguir a mesma sequência
apresentada até aqui, inclusive responder às mesmas questões. No caso de projeto de eventos, as ações são muito mais
específicas e pontuais, podendo possuir um detalhamento maior sobre sua função e execução de cronograma. A ava-
liação também é uma etapa que fica mais evidente em projetos de eventos, principalmente quando são eventos que
visam se tornar eventos tradicionais ou presentes em determinados calendários esportivos.
Entendendo que as políticas esportivas acontecem a partir do desenvolvimento de programas, projetos e ações, os even-
tos, muitas vezes, são as principais ações dentro da gestão esportiva de instituições como clubes recreativos e também ins-
tituições públicas com orçamentos e equipes técnicas com número reduzido de profissionais. Menezes, Oliveira e Souza
(2012) ao analisarem as ações esportivas desenvolvidas em municípios da região metropolitana de Recife, destacaram a
66
EDUCAÇÃO FÍSICA
grande ocorrência de eventos pontuais como torneios e campeonatos. Ocorrência essa, também identificada por pesquisa-
dores em municípios do estado do Paraná onde “a elaboração das ações ocorre pela demanda e vontade dos próprios diri-
gentes, sem planejamento pré-determinado e sem a participação mais direta da sociedade” (MEZZADRI, et. al., 2007, p. s/p).
As duas pesquisas mencionadas ressaltam importantes considerações acerca da função social das instituições
públicas e também da importância da capacitação dos agentes diretamente envolvidos na formulação dos programas,
projetos e ações das instituições esportivas. No setor público, como mencionado nas pesquisas, as ações esportivas
devem atender às orientações normativas que contemplam o campo esportivo, como o artigo 217 da Constituição
Federal (BRASIL, 1988), que prevê que é dever do estado promover a prática esportiva, com ênfase no esporte educa-
cional e de participação. Desenvolver apenas projetos de eventos esportivos não deixa de contemplar o que é solicita-
do na constituição, mas, como esses projetos são elaborados? Quais são os objetivos buscados com a realização desses
eventos? Essas sim são questões importantes a serem respondidas quando pensamos em cumprir com a função social
que é atribuída a projetos, programas e ações financiadas com recursos públicos.
Essa discussão do subjetivo, daquilo que permeia o discurso e a funcionalidade dos programas, projetos e ações
do campo esportivo, nos apresenta uma figura fundamental no desenvolvimento/implementação de projetos: o ge-
rente do projeto. O gerenciamento de projetos está diretamente ligado a todo o ciclo de vida do projeto, até aqui obser-
vamos o caminho para pensarmos e escrevermos os projetos. Passamos agora a conceituar a fase de implementação
do projeto, onde as ações previstas na metodologia do projeto começam a sair do papel, por isso, a figura do gerente
de projetos aparece com ênfase para essa que é uma fase extremamente crítica durante o ciclo de vida de um projeto.
Descrição da
Imagem: Mu-
lher em uma
quadra espor-
tiva segurando
uma prancheta.
67
Ter uma pessoa que cuida exclusivamente da implementação do projeto é uma das ferramentas administrativas mais
fundamentais para um projeto bem desenvolvido. Podem surgir diferentes nomenclaturas como gerente de projeto,
coordenador de projeto, diretor, entre outros. Mas a função é a mesma: administrar as ações para que o projeto atinja
seus objetivos, siga seu cronograma e realize a prestação de contas de acordo com o esperado. O gerente de projetos
tem como função especial pensar no projeto como um todo, ele faz com que a engrenagem gire e a máquina funcione.
É muito comum que, em instituições esportivas pequenas e com recursos limitados, o técnico da equipe
ou professor idealizador do projeto assuma a função de gerenciar o projeto a ser desenvolvido. No entanto,
além da gerência do projeto, esse profissional ainda tem outras demandas, como administrar as aulas ou trei-
namentos, acarretando uma sobrecarga de trabalho, e em consequência disso, déficits em alguma das partes
que não recebeu atenção/tempo adequado.
Um tópico pouco abordado pelos estudos internacionais e que chama a atenção dos pesquisadores brasileiros é a dedi-
cação do gestor ao cargo. No Brasil, é comum encontrar gestores que não se dedicam exclusivamente ao cargo, ou seja,
exercem outras funções em outras empresas/locais como empresários, funcionários públicos, professores, personal
trainer, dentre outras [...] (AMARAL; BASTOS, 2015, p. 52).
O estudo apresentado pelas autoras reforça essa questão de acúmulo de funções. Os gestores esportivos são normal-
mente as pessoas que realizam a elaboração ou submissão dos projetos esportivos de suas instituições ou em alguns
casos contratam terceiros para essa elaboração, mas durante o desenvolvimento do projeto são eles que assumem o
cargo de gerenciamento. Atualmente, algumas fontes de financiamento apresentam a opção de contratar uma equipe
administrativa para gerenciar o projeto que será executado. Essa é uma das estratégias para buscar o melhor desem-
penho da instituição na execução do projeto. A Lei Federal de Incentivo ao Esporte (Lei nº 11.438/2006) é uma dessas
fontes que abrem espaço para a contratação de coordenador, gerente de projeto, secretário e até contador.
Segundo Camarini e Sousa (2006, p. 188), “o gerenciamento de projetos está envolvido com métodos de coordenar
e controlar alguns tipos de atividades complexas e dinâmicas, diferenciando-se muito da administração tradicional
de atividades de rotina”. É pelo gerente de projetos que passam todas as situações pertinentes e relativas ao projeto
executado, e é essa figura responsável por pensar além do que o cronograma exige e, ainda, pensar subjetivamente nas
ações sem esquecer a realidade da execução das ações.
A última etapa do ciclo de vida do projeto consiste na avaliação das ações. É comum que os ciclos de vida dos
projetos se encerrem formalmente com a prestação de contas, principalmente projetos financiados. No entanto, a
avaliação é o momento de retomar os objetivos e metas e identificar quais foram os reais resultados alcançados pelo
projeto desenvolvido. Os objetivos foram alcançados? As metas pré-estabelecidas foram cumpridas?
Estabelecer indicadores de avaliação como os objetivos e metas é um dos caminhos para contextualizar todo o
processo de concepção e implementação do projeto, enaltecendo acertos, equívocos e possibilidades de melhorias em
projetos futuros. Segundo Januzzi (2016, p. 629), é possível compreender a etapa de avaliação como um:
68
EDUCAÇÃO FÍSICA
[...] processo de produção de informações e conhecimentos para aperfeiçoamento das diferentes etapas no processo
de formulação, implementação e avaliação da política ou programa social, considerando seus componentes sistêmicos
estruturantes, tais como a disponibilidade de recursos financeiros, equipes técnicas e equipamentos físicos, os produtos
e serviços entregues, os arranjos de governança e implementação e os mecanismos de participação social [...].
A instituição que visa a continuidade de seus projetos deve estar atenta à etapa de avaliação, pois ela se torna
um material de referência extremamente importante não só para a elaboração do projeto de continuidade,
mas também como base de justificativas que fundamentam a coerência e continuidade do projeto. Principal-
mente se ele teve resultados positivos.
Após o processo do ciclo de vida do projeto, um elemento fundamental na elaboração de projetos é conhecer as
possibilidades de financiamento de um projeto esportivo no Brasil. Como já mencionado, é possível financiar as
ações a partir de editais, legislações específicas e patrocínios diretos. Outro ponto importante é que já sabemos que
o principal financiador das políticas esportivas (públicas e privadas) no Brasil é o poder público (governo federal,
estadual e municipal). Mesmo que muitas ações sejam desenvolvidas por instituições privadas, ainda sim, parte do
recurso dessas instituições são oriundos dos cofres públicos.
A Lei Pelé (Lei nº 9.615/98) garante que os recursos destinados para o esporte podem prover de várias fontes
como fundos esportivos, receitas oriundas de loterias, doações, patrocínios e legados, incentivos fiscais previstos em
lei, entre outras fontes (BRASIL, 1998). Anterior a essas orientações, o financiamento das ações ocorria de forma
muito pontual em ações específicas, as principais interferências do poder público no cenário esportivo ainda eram de
controle e regulamentação das práticas esportivas no país.
Com a redemocratização do país no final da década de 1980 e a promulgação da nova Constituição Federal em
1988, o Brasil passa por um processo de mudanças administrativas e, assim, muitas questões passaram por alterações
para atender às novas demandas de mercado provenientes da globalização e também aos diversos documentos de
orientação que foram surgindo pelo mundo afora enquanto o Brasil vivia o período militar. Para Castro e Mezzadri
(2019, p. 36), junto com essas mudanças que vinham ocorrendo, “o caráter autoritário, burocrático e seletivo do espor-
te brasileiro passa a ser questionado é apontado como algo que precisava ser superado”.
Muitas legislações e normativas surgiram após a publicação da nova Constituição e passaram a ser pensadas para
atender as novas orientações mundiais. Um exemplo claro para o cenário esportivo é que a primeira legislação espor-
tiva pós 1988 foi a Lei Zico (Lei nº 8.672/93), em 1993 que já tinha alguns documentos como a Carta Internacional de
Educação Física e Esportes (1978) e o Manifesto Mundial da Educação Física (1970) como referências para se pensar
nos novos caminhos que o esporte brasileiro deveria seguir (FIEP, 1978; UNESCO, 1970).
A reforma administrativa altera a gestão pública brasileira de uma Administração Burocrática, que é mais centra-
lizadora onde o Estado é o regulador e gerenciador de quase tudo e passa a promover uma gestão pautada na Admi-
nistração Gerencial, onde as ações são mais descentralizadas, não tendo o Estado como principal agente de execução.
69
EXPLORANDO IDEIAS
O modelo de administração vigente atualmente em nosso país pode ser considerado um modelo
recente, uma vez que, em 1995, tem origem o Plano Diretor de Reforma do Estado onde a adminis-
tração pública brasileira deixa de exercer o modelo de Administração Pública Burocrática e passa a
executar o modelo de Administração Pública Gerencial. O modelo gerencial é conhecido como um
novo modelo de administração pública, que volta seus olhares para a autonomia administrativa,
gerenciamento de necessidades coletivas e elaboração de políticas públicas, “a reforma do aparelho
do Estado passa a ser orientada predominantemente pelos valores da eficiência e qualidade na pres-
tação de serviços públicos” (BRASIL, 1995, p.16).
Essa nova perspectiva de administração apresenta para o esporte nacional, novas possibilidades
de gestão. Legislações como a Lei Pelé (Lei n° 9.615/98), já orienta para a possibilidade de ações
financiadas pelo Estado, mas também desenvolvidas por instituições privadas (BRASIL, 1998).
Inicialmente, esse repasse financeiro era realizado diretamente entre as entidades; com o passar
do tempo, ações foram sendo estruturadas e passaram a surgir novas ferramentas de fiscalização
do uso do dinheiro público e também novos critérios para que as instituições pudessem receber
os recursos públicos. Todo esse processo (que não é imediato e sim resultado de um longo perí-
odo), também surge em busca de romper alguns vínculos de privilégios e uso político do recurso
destinado ao esporte, pautando estratégias para que todas as instituições tivessem o mínimo de
igualdade (princípio da isonomia), no aporte de recursos.
Segundo De Castro e Mezzadri (2019), as fontes de financiamento público voltadas à promoção do es-
porte podem ser agrupadas em três conjuntos: as orçamentárias, e extraorçamentárias e as fontes indiretas:
Portanto, mesmo que o Estado não esteja diretamente envolvido com a implementação das ações,
programas e projetos esportivos que acontecem no país, ele muitas vezes está diretamente ligado
ao financiamento dessa implementação, tendo papel fundamental para a promoção da prática
esportiva, conforme prevê o artigo 217 da Constituição Federal de 1988.
70
EDUCAÇÃO FÍSICA
O que é uma importante questão a ser considerada tivos está atrelado a Lei de Incentivo ao Esporte – nº
é o fato de que instituições esportivas com uma gestão 11.438/06, já mencionada nesta disciplina. A lei permite
mais avançada, como que se pode encontrar em grandes que recursos procedentes de renúncia fiscal sejam desti-
clubes e equipes já famosas por suas equipes esportivas, nados a projetos esportivos elaborados por instituições
tenham maior consistência e acesso a esses financia- esportivas, de caráter público ou privado, sem fins lu-
mentos. Esse fator pode estar atrelado tanto a seu histó- crativos. Pessoa jurídica e pessoa física podem destinar
rico de reconhecimento social, como na autonomia em parte de seu imposto devido para projetos esportivos es-
desenvolver seus projetos sem o financiamento público, pecíficos, sendo que pessoa jurídica se limita a destinar
no entanto, tendo essa possibilidade, ela também é re- até 1% e pessoa física até 6% (BRASIL, 2006).
querida. Em estudo realizado sobre a abrangência de As instituições esportivas interessadas em submeter
instituições beneficiadas com recursos via Lei Federal projetos a serem financiados devem cadastrar as infor-
de Incentivo ao Esporte (Lei nº 11.438/06), Matias et. al. mações da instituição no Sistema da Lei de Incentivo
(2015, p. 106) ressaltam a “concentração de recursos no ao Esporte junto com uma série de documentos que
esporte de rendimento (ER), centralizando-o em algu- comprovem a legalidade da instituição e que ela está
mas entidades, regiões e modalidades esportivas”. cumprindo com o que rege seu estatuto. O período de
Grandes instituições esportivas, como o Comi- submissão de projetos tem início em fevereiro e término
tê Olímpico Brasileiro e Confederação Brasileira de em setembro do mesmo ano, é muito difícil que esses
Clubes, têm recursos públicos assegurados por lei (Lei prazos sejam alterados. A partir do cadastro da institui-
Agnelo Piva - Lei nº 10.264/2001) e, com essa garantia, ção no sistema, podem ser submetidos até 6 (seis) pro-
também surgem obrigações das instituições tanto em jetos, classificados em suas respectivas manifestações:
relação a gestão de recursos como na gestão das ações, educacional, participação e formação ou rendimento.
programas e projetos. Para as demais instituições espor- Outra característica interessante apresentada pelo
tivas, tanto públicas como privadas, também existem re- sistema da Lei Federal de Incentivo ao Esporte (Lei nº
cursos públicos disponíveis, mas é necessário passar por 11.438/06) é o fornecimento de uma planilha de valores
alguns processos antes de receber o auxílio. de referências que podem ser utilizados no cronogra-
Programas como o Programa Segundo Tempo, são ma de execução orçamentária. Quando o item desejado
desenvolvidos pelo Governo Federal em parceria com não consta nessa planilha, a instituição deve apresentar 3
estados e municípios era realizado em formato de con- (três) orçamentos do item e realizar a média dos valores
vênios. O então Ministério do Esporte publicou Editais para ser utilizada como valor de referência. A legislação
de Chamamento Público para que as instituições se ins- federal autoriza a compra de materiais, confecção de uni-
crevessem e enviassem projetos para firmar o convênio formes, contratação de profissionais, locação de veículos e
e desenvolver o projeto com recurso do Ministério do pagamento de auxílio financeiro para beneficiários (des-
Esporte. O recurso para o programa também pode ser de que não seja atleta profissional). Ela também oferece a
solicitado por meio de emenda parlamentar. possibilidade de pagamento para o autor do projeto, ou
Para instituições privadas, o caminho mais acessí- seja, dentro do orçamento já é previsto que um valor de
vel para obtenção de financiamento de projetos espor- até 10% seja destinado ao pagamento do autor do projeto.
71
Após submetido, o projeto passa por etapas de avaliação de documentação e viabilidade das ações propostas.
Quando aprovado, ele se torna apto para iniciar a captação de recursos junto às empresas. Todo esse processo pode
demorar um período considerável e, por isso, diante dessa situação, as instituições podem realizar solicitação de pe-
quenas alterações no projeto antes de começar a sua execução/implementação.
Esse formato de financiamento via renúncia fiscal proporciona que o contribuinte escolha um projeto esportivo
para receber seu imposto que já seria pago ao governo, portanto, o contribuinte sabe para onde está parte do imposto
será utilizada. No caso das empresas, é também uma ferramenta de marketing para a promoção da empresa junto a
um projeto esportivo, logo, torna-se uma alternativa muito atraente principalmente para aquelas empresas que já rea-
lizam patrocínios em projetos esportivos com pagamento de patrocínio direto. A Lei de Incentivo ao Esporte permite
que essas empresas realizem o patrocínio com recursos que pagariam em impostos.
Devido a autonomia administrativa do governo federal, estados e municípios, cada ente federativo pode propor e
executar um formato de legislação de incentivo ao esporte. Assim como na esfera federal nós temos a Lei n° 11.438/06,
em âmbito estadual já aparece um modelo similar, mas com especificidades em normas e procedimentos. Os estados
de Minas Gerais (Lei nº 20.824/03) e Paraná (Lei nº 11.742/03) possuem legislações parecidas de fomento ao espor-
te, que são realizadas a partir da publicação de Editais de Chamamento Públicos. Quando publicado, esses editais
indicam quais as instituições aptas apresentarem as propostas de projetos esportivos, uma série de documentações
necessárias para comprovar a legalidade da instituição e sua capacidade de gerenciamento de um projeto financiado.
Nos dois exemplos estaduais, a renúncia fiscal é realizada através do recolhimento do imposto sobre circulação
de mercadorias e serviços – ICMS. A lógica de destinação é similar à que acontece na legislação federal: a empresa
destina parte do que pagaria de imposto, diretamente para os projetos aprovados.
NOVAS DESCOBERTAS
Confira como ocorre o processo da Lei de Incentivo ao Esporte do Estado de Minas Gerais no link a seguir
72
EDUCAÇÃO FÍSICA
Os editais possuem prazo estabelecido para o cadastramento das instituições, envio de do-
cumentos solicitados e projeto. Após o recebimento, os projetos são avaliados por equipes
técnicas que avaliam a capacidade técnica, avaliam se a instituição seguiu todas as exi-
gências estabelecidas pelo edital e o mérito do projeto (se apresenta uma metodologia
fundamentada, cronograma de atividades e de gastos). Os projetos aprovados nessa etapa
seguem para a etapa de captação de recursos, onde as empresas parceiras dos projetos rea-
lizam seu cadastro junto ao governo do estado e passam a destinar parte de seu ICMS para
aquele projeto específico que a empresa gostaria de financiar.
Todo esse processo desde a publicação de edital, cadastramento dos projetos, avalia-
ção e captação não é um processo rápido, levando meses para aprovação final do projeto
e normalmente tem a previsão de 1 (um) ano para a captação de recursos e só então
o projeto passa a ser implementado. Cada edital também estabelece um protocolo de
acompanhamento e prestação de contas, podendo ser solicitado a cada trimestre, semes-
tre ou ao término do projeto. Por essas e outras inúmeras questões, a leitura atenta aos
editais é fundamental para a estruturação e elaboração de um projeto com capacidade
de aprovação e implementação.
73
Descrição da Imagem: Criança com uma bola próxima a um cone durante treinamento de futebol, sob o olhar atento de colegas e do professor.
Outra modalidade de legislação de incentivo ao esporte é através da abertura de editais ou formulação de convênios
para a transferência direta de recursos do orçamento público para que instituições sem fins lucrativos desenvolvam
projetos esportivos. Essa característica de legislação é muito comum em âmbito municipal. Um exemplo de legislação
municipal de incentivo ao esporte é a do município de Maringá, no estado do Paraná, onde a lei nº 9.737/2014 insti-
tui o Programa de Incentivo ao Esporte Amador de Maringá. A referida lei tem o “objetivo de que atletas/paratletas
de modalidades individuais, coletivas e Associações Esportivas/Paradesportivas conveniadas a difundir o esporte e
representem o Município” (MARINGÁ, 2017).
A partir da apresentação das legislações de financiamento de projetos esportivos que acontecem em âmbito fede-
ral, estadual e municipal já é possível imaginar alguns caminhos para propor projetos esportivos, correto? Mas ainda
existem duas outras possibilidades de financiamento de projetos esportivos, que são a partir de Editais propostos por
Instituições Privadas e o mais antigo de todos: o patrocínio direto.
74
EDUCAÇÃO FÍSICA
Como mencionado anteriormente, algumas empre- o que é consideravelmente curto pensando em todo o
sas passam a associar sua marca a atividades sociais com processo de concepção e planejamento de um projeto,
vistas a estabelecer uma proximidade da comunidade assim, reforça o ideal de gestão esportiva responsável e
ou melhorar a imagem da marca através de engajamento organizada onde uma instituição que segue os critérios
social. Atrelar sua marca a um projeto esportivo, seja ele legais, está em dia com sua documentação e já possui
com proposta de iniciação esportiva ou aperfeiçoamen- esboços de projetos a serem desenvolvidos têm maiores
to esportivo e alto rendimento, possibilita ampliar a di- chances de conseguir apresentar planos com qualidade,
vulgação da marca e também reforçar esse engajamento, dentro dos prazos estabelecidos.
uma vez que não podemos esquecer o apelo social que O último recurso para obtenção de financiamento
o esporte tem de ser vinculado a questões de formação de projetos esportivos é baseado no patrocínio direto.
educacional, disciplinante e de socialização. Essa forma de patrocínio provavelmente é a mais antiga
e comum no cenário de promoção de políticas espor-
No contexto das ações de responsabilidade social tivas no país. As instituições apresentam a proposta do
empresarial pode-se considerar que essa lógica
projeto para que ela tenha sua marca divulgada; essa di-
opera de uma outra maneira. Se a marca utiliza o
apoio a uma causa ou instituição social para en- vulgação é muito comum na venda de espaços publicitá-
dossar a si mesma e se posicionar estrategicamente rios em arenas esportivas, marca em uniforme dos atle-
como cidadã responsável, preocupada e engajada, tas ou até mesmo nas redes sociais do projeto apoiado.
também a causa ou instituição apoiada recebe o É denominado patrocínio direto pois ocorre sem a in-
endosso da marca, com os bônus e os ônus que isso
terferência de ações mais burocráticas como as legislações
possa trazer (CRUZ; MARTINELI, 2007, p. 5).
já mencionadas até aqui ou editais. O patrocinador paga o
Portanto, a vinculação da empresa financiadora junto a valor solicitado e tem sua marca divulgada, nesse sentido:
instituição esportiva pode se tornar uma via de mão du-
pla para benefícios para ambas as instituições. Tamanha [...] pode se entender patrocínio como repasse de
recursos, não somente financeiros, mas também
responsabilidade é atribuída também a quantidade de
recursos humanos, tecnológicos ou físicos que
documentos e instrumentos de prestação de contas para supra as necessidades pontuais de determinado
garantir a qualidade na gestão do projeto e o reconheci- evento, organização ou comunidade em troca de
mento do projeto como um sucesso para ambas as partes. divulgação ou associação direta da marca ao mes-
Grandes empresas, tais como bancos, empresas de mo (SCOMBATI, 2016, p.23).
75
PENSANDO JUNTOS
Você consegue lembrar de alguma empresa quando pensamos em projetos esportivos? Ou então, tente lem-
brar o uniforme de alguma equipe esportiva de sua cidade e analise se esse uniforme apresenta vínculo com
os patrocinadores e financiadores.
Mas você pode se perguntar: por qual motivo precisamos pensar no patrocinador/financiador se estamos abordando o
tema de gestão e elaboração de projetos esportivos? A resposta é muito simples: conhecer o seu avaliador, estudar como
ocorre o processo de avaliação do seu projeto, auxilia na hora da elaboração e planejamento. O gestor esportivo que en-
tende a responsabilidade que sua instituição esportiva possui e consegue pensar na concepção e elaboração de projetos e
programas de qualidade e com boa fundamentação, certamente terá êxito no desenvolvimento de seus projetos, o que re-
força novamente a importância da qualificação e formação do gestor esportivo em diferentes ambientes administrativos.
Não podemos enfatizar que o professor do projeto ou o técnico da equipe não venha a ser um bom gestor ou
gerente de projetos, no entanto, é importante refletir das inúmeras atribuições que essas funções demandam e sobre
tudo o que estudamos até aqui em relação a elaboração e implementação de projetos esportivos.
Ter um profissional capacitado para o desempenho dessa função e sobretudo, com tempo disponível para aten-
der as demandas necessárias, reflete diretamente em uma gestão eficiente na obtenção de bons resultados, alcance de
objetivos e metas. O campo de atuação de profissionais de Educação Física que se especializam na elaboração e no
gerenciamento de projetos esportivos ainda pode ser consideravelmente pequeno, o que torna a área um ambiente
ainda em expansão e que necessita de profissionais habilitados.
Realize uma busca rápida sobre os projetos esportivos que são desenvolvidos em seu município. Verifique se esses
projetos recebem algum tipo de financiamento concedido a partir de Leis de Incentivo ao Esporte, editais de finan-
ciamento ou convênios.
76
atividades de estudo
Muitos foram os termos, processos e fases citados nesta Unidade. Todos eles permeiam a elabora-
ção e o gerenciamento de projetos esportivos. Para sintetizar os conceitos e termos apresentados
neste conteúdo, elabore um Mapa Mental com os principais termos a serem considerados na elabo-
ração de um projeto esportivo.
Pré-projeto/Concepção
Planejamento Implementação Encerramento
Escopo
Introdução
Viabilidade Riscos
Objetivos
Financeira
Justificativa
Social
Metodologia
Recursos Cronograma
Fontes de
Financiamento
77
anotações
78
UNIDADE
IV
ORGANIZAÇÃO DE GESTÃO
DE EVENTOS ESPORTIVOS
Oportunidades de aprendizagem
IV
Dificilmente você conhece alguém que nunca tenha participado de um evento esportivo, seja como or-
ganizador, patrocinador, espectador ou competidor. Os eventos esportivos podem ser considerados como
uma ferramenta de entretenimento das mais antigas e eficientes no intuito de reunir pessoas. Quem nunca
se reuniu com amigos para acompanhar uma partida de futebol? Ou então, quem nunca torceu por um
atleta em tempos de Jogos Olímpicos? Mesmo aqueles que não acompanham as notícias esportivas acabam
informados do que está acontecendo no mundo esportivo e essas informações e notícias normalmente es-
tão vinculadas a um evento. Mas como ocorre o processo de estruturação dos eventos até o ponto em que
acompanhamos como telespectador ou como participante? Nesta unidade, iremos abordar o processo de
organização e gestão de eventos esportivos de pequeno, médio e grande porte.
Nos últimos anos, o Brasil recebeu grandes eventos esportivos, e teve grande destaque no cenário espor-
tivo internacional. Todos esses eventos, como a Copa do Mundo de Futebol Masculino e os Jogos Olímpicos
e Paralímpicos do Rio de Janeiro, exigiram enormes esforços de suas equipes de trabalho, financiamento e
apoio político, reforçando os aspectos sociais, comerciais e políticos que recorrentemente estão atrelados à
prática esportiva. Assim como o Esporte se tornou um produto altamente consumido, os eventos esportivos
também podem ser abordados dentro desse viés de consumo: para quem eu estou promovendo o evento?
Qual o retorno eu desejo com a realização deste evento? Importantes questionamentos que muitas vezes
ficam no campo da subjetividade dos organizadores, mas que refletem diretamente na execução das ações.
Quais as demandas que você imagina ter ocorrido para que o evento iniciasse conforme previsto pelo
cronograma? Quais equipes de trabalho foram necessárias para entregar o espaço e as condições prontas e
adequadas para a competição? Tais questões nos levam a refletir a amplitude da realização de um evento es-
portivo, quanto maior o número de atletas e equipes, maior a demanda de profissionais. Assim, uma equipe
que trabalha na organização de um evento esportivo tem a realização do evento em si, como apenas uma
importante etapa do trabalho, mas priorizando também o período que antecede o evento e não esquecendo
do momento posterior ao evento, quando ainda existem demandas para serem cumpridas. Insira, em seu
Diário de Bordo, as etapas anteriores, durante e posteriores ao evento que você acredita ter ocorrido no
momento retratado pelo vídeo.
82
EDUCAÇÃO FÍSICA
Assim como o esporte é entendido como fenômeno social, os eventos esportivos reforçam essa perspectiva ao nos
apresentar diversos exemplos de eventos esportivos que são realizados ao longo de vários anos e atendendo as ex-
pectativas de sua época e de seus consumidores, ampliando as perspectivas do evento como mero local de prática
esportiva e o caracterizando como ambiente relevantemente social, comercial e também político.
O evento esportivo mais popular e antigo de que temos registros é, sem dúvida, os Jogos Olímpicos. Com registros
desde o período da Grécia Antiga, o evento foi restaurado pelo francês Pierre de Coubertin no final dos anos de 1800,
feito que ficou conhecido como: Jogos Olímpicos da Era Moderna. O evento, desde então, teve diversas edições que
ocorrem tradicionalmente com o intervalo de quatro anos, passando por diferentes períodos históricos como grandes
guerras, crises sanitárias e econômicas.
NOVAS DESCOBERTAS
A primeira participação brasileira nos Jogos Olímpicos ocorreu em 1920, com a equipe de Tiro Esportivo. Na-
quele período, o evento acontecia dentro de uma realidade muito diferente da que acompanhamos hoje em
dia, desde aspectos técnicos dos atletas até as condições da competição. No entanto, um ponto específico
pode ser considerado como comum entre os diferentes períodos: os múltiplos sentimentos que são acarre-
tados por esse evento esportivo que ocorre a tantos anos.
Assista o documentário “Ouro, prata, bronze... e chumbo” que retrata a experiência vivida pela equipe de Tiro
Esportivo em 1920 na edição dos Jogos Olímpicos que ocorreu na cidade de Antuérpia, na Bélgica.
83
Um evento esportivo constitui-se basicamente da realização de uma competição entre equipes de uma determinada
modalidade ou um conjunto de competições de diferentes modalidades esportivas, cada uma atendendo a sua especi-
ficidade. Assim como os Jogos Olímpicos é uma referência de eventos esportivo devido a sua amplitude, tanto em rela-
ção a representação de diferentes países, como em relação a diversidade de modalidades esportivas que são realizadas,
outros eventos esportivos também possuem grande representatividade no cenário mundial, no entanto, apresentam
características diferentes dos Jogos Olímpicos. Podemos citar a Copa do Mundo de Futebol Masculino como um
modelo de evento de alcance mundial, até mesmo por possuir uma considerável quantidade de países participantes.
Mas também é preciso mencionar alguns eventos específicos que, com o passar dos anos e a abrangência da mídia
televisiva, alcançaram diferentes públicos e também são considerados eventos esportivos de relevância global, mas
não por sua diversidade esportiva ou de representação nacional e sim por seu enorme potencial comercial como a
Liga Americana de Basquete – NBA e os jogos finais da Liga de Futebol Americano – NFL, com o “Superbow”.
A menção desses eventos se torna necessária para iniciarmos a nossa discussão em relação aos diferentes tipos
de eventos esportivos, sua abrangência e público alvo. Um evento esportivo pode possuir características distintas de
outros eventos que são realizados da mesma modalidade, desde o período de realização da competição, o sistema de
disputa, faixa etária dos atletas, entre outras características particulares de cada evento.
Para Poit (2006, p. 19), o “evento é um acontecimento previamente planejado, com objetivos claramente definidos” e
pode ter diferentes finalidades como esportiva, cultural, social, religioso, entre outros, sempre atendendo a “um cronogra-
84
EDUCAÇÃO FÍSICA
ma e uma de suas metas é a interação entre seus partici- ciais, turísticos, entre outros. Por último o tipo de evento,
pantes, público, personalidades e entidades”. Já para Mal- como, congressos, convenções, conferências e leilões. Os
len e Adams (2013), o conceito de evento deve ser amplo, diferentes tipos de eventos são classificados por Melo
uma vez que os autores enaltecem que várias situações Neto (2007) de acordo com o período de sua realiza-
podem ser consideradas como um evento, desde a reali- ção, como os eventos permanentes, eventos esporádicos,
zação de um curso ou um encontro de confraternização. eventos únicos e eventos de oportunidade.
Os eventos permanentes são aqueles que normal-
[...] Ao percorrermos a história dos povos, registra- mente integram um calendário, ou seja, possui uma ocor-
mos inúmeras festas civis, religiosas, jogos de com-
rência em sua realização, podendo ser semanal, mensal,
petições, festejos populares, festivais de música e arte,
e outros, tendo como destaque o maior dos eventos semestral ou anual. Já os eventos esporádicos seriam
esportivos: as Olimpíadas. Na época das monarquias aqueles que acontecem de forma aleatória, sem uma de-
tem-se o conhecimento de grandes reuniões e fes- terminada regularidade (uma comemoração de Bodas de
tivais, como o dia da coroação do rei, os famosos Ouro de um casamento, por exemplo). Os eventos úni-
bailes da corte, muitas vezes baile de máscaras, nos
cos seriam aqueles que celebram algo inédito, como uma
quais praticavam-se danças de salão. Temos outros
eventos como disputas militares, torneios, caçadas inauguração. Por fim, os eventos de oportunidade, ocor-
organizadas pelos nobres e também os desportivos rem em momentos oportunos como as datas comemora-
(MALLEN; ADAMS, 2013, [Link]). tivas de um aniversário ou no campo esportivo, podemos
citar a apresentação de um atleta (MELO NETO, 2007).
Historicamente, as primeiras atividades próximas a Outra classificação para os eventos está relacionada à
competições esportivas eram realizadas como ativida- quantidade de pessoas que participaram do evento. Naka-
des culturais. As próprias Olimpíadas realizadas pelos ne (2017) apresenta cinco portes para classificarmos um
gregos teriam tido início em rituais religiosos muito evento, microevento (até 50 pessoas), pequenos eventos
distantes do formato de evento que conhecemos hoje (de 50 a 150 pessoas), eventos de médio porte (de 150 a
em dia. Assim como o processo de modernização do es- 700 pessoas), grandes eventos (de 700 a 5.000 pessoas) e
porte teve início na Europa, com a institucionalização os megaeventos (acima de 5.000 pessoas). Em relação ao
de modalidades esportivas e propagação de suas regras, local em que o evento será realizado, Melo Neto (2007)
os eventos também começaram a surgir como forma de menciona os eventos locais, que ocorrem de forma perma-
transformar as atividades de lazer em atividades compe- nente em um único local; os eventos regionalizados, que
titivas (MALLEN; ADAMS, 2013). acabam ocorrendo em diferentes locais de uma mesma re-
É comum que os eventos sejam classificados de gião; e os eventos globais, que envolvem diferentes países.
acordo com alguns critérios, como finalidade, área de Para Martins (2018, p. 35), “ao nos referirmos a um
interesse e tipo. Para Poit (2006), a classificação é devi- evento que seja somente esportivo, estamos segmentan-
do a sua categoria, por exemplo, eventos promocionais do esse evento conforme seu conteúdo, tendo no esporte
ou institucionais que visam uma finalidade específica o tema principal”. Na área esportiva, podemos destacar
como promover uma marca, um produto ou um feito re- como principais tipos de eventos: os campeonatos, tor-
levante. Quando classificados por sua área de interesse, neios, olimpíadas, taça ou copa, festivais, gincanas e de-
os eventos são rotulados como esportivos, culturais, so- safios, como podemos observar a seguir:
85
86
EDUCAÇÃO FÍSICA
87
Ao tentar responder questões como essas, já é possível atendidas e que a fase pós-evento seja considerada satis-
iniciar o processo de elaboração do projeto do evento, fatória para todos os participantes.
com objetivos, metas, orçamentos e cronogramas. Como Martins (2018) apresenta uma visão de eventos
um projeto de evento é realizado em uma quantidade associadas ao evento como produto a ser consumido
de dias específicos, o planejamento das ações torna-se a por grupos específicos e, portanto, deve ter uma visão
fase mais delicada e que exige esforços de toda a equipe mercadológica de venda desse produto/evento. Diferen-
em sua formulação. Durante o planejamento, as ações te dos dois primeiros modelos apresentados, o modelo
mais pontuais devem ser definidas. apresentado pelo autor utiliza como base o Project Mo-
Vamos utilizar como exemplo um evento esportivo del Canvas, uma ferramenta utilizada no processo de ge-
em âmbito municipal, um Torneio Municipal de Fute- renciamento de projetos, o que faz todo o sentido, uma
bol do Dia do Trabalho. Como já sabemos, um torneio vez que a realização de um evento está associada à exe-
é um evento realizado em curto espaço de tempo, en- cução de um projeto de evento.
tão o planejamento deve prever que toda a competição O modelo visa contemplar quatro etapas: conce-
seja realizada dentro desse curto espaço de tempo. O ber, integrar, resolver e compartilhar. No entanto, o au-
planejamento desse evento deve prever qual o período tor apropria-se prioritariamente da primeira etapa, de
de inscrição das equipes (que deve ser realizado com concepção do projeto de evento esportivo. Nesta etapa
antecedência para que a equipe organizadora consiga o trabalho é orientado pelas respostas dos já conhecidos
elaborar a programação), quais serão as regras do tor- “porquês”: por quê? O quê? Quem? Como? Quando e
neio (elaboração de um regulamento oficial do even- quanto? Que devem ser respondidos já no processo de
to), em quais locais o evento será realizado (será que elaboração do projeto visando justificativas da realiza-
tenho campos de futebol suficiente para os jogos que ção do evento, seus objetivos, benefícios, qual o produto
serão necessários? Se anoitecer, teremos iluminação?), desse projeto, quais requisitos para sua realização, quem
a premiação será realizada após o término do evento? são os agentes externos e a equipe de trabalho, quais pre-
Se sim, quem irá realizar essa formalidade? missas devem ser consideradas, qual a entrega será rea-
Como podemos observar, mesmo um evento de lizada, quais riscos, linha do tempo e custos do projeto
curta duração já solicita um grande trabalho de plane- (MARTINS, 2018). Segundo o autor:
jamento das ações, uma vez que algumas situações são
passíveis de correção durante a execução do evento, Trata-se de um modelo dinâmico (pela agili-
dade e flexibilidade em sua concepção), sem
outras não. Um ponto bastante importante no proces-
formalismos (por não requerer procedimentos
so de planejamento é a proximidade dos participantes, burocráticos, tais como a construção de exten-
com sugestões e considerações sobre o evento que serão sos manuais lineares e fragmentados), relacional
analisadas pela equipe organizadora. A troca de experi- (por permitir a visualização de todas as partes de
ências e diálogo entre as duas partes mais interessadas forma integrada) e coletivo (por ser concebido
com a participação de outras partes interessadas
no evento é fundamental para que as demandas sejam
no projeto) (MARTINS, 2018, p. 83).
88
EDUCAÇÃO FÍSICA
A proposta de utilização do modelo canvas foge ao procedimento tradicional de elaboração de eventos, mas, não das
questões pertinentes a serem consideradas para a realização de um evento esportivo. Apenas nos apresenta uma pro-
posta de trabalho diferente, mais dinâmica, visual e colaborativa.
Figura 2: Canvas
Descrição da Imagem: Na imagem, temos um grupo de trabalho formado por 4 pessoas utilizando post-its coloridos, cartolina e canetas, ma-
terial comum na elaboração do canvas.
Todos os modelos teóricos apresentados aqui são modelos que podem orientar o trabalho da equipe organizadora do
evento, principalmente nas ações que antecedem a realização do evento. Poit (2006, p. 78) enfatiza que “organizar um
evento é executar todas as providências preparatórias necessárias para assegurar as melhores condições à sua realiza-
ção, sem problemas administrativos, disciplinares e estruturais”.
Um evento esportivo, ocasionalmente, necessita de várias equipes de trabalho, que também podem ser chamadas
de comissões. A junção de todas essas equipes forma uma Comissão Central Organizadora (CCO), responsável pela
realização geral do evento. Neste sentido, é importante reforçar a qualidade dos membros da equipe organizadora,
uma vez que “todo esforço deve ser empreendido no sentido de ter pessoas preparadas tecnicamente e competentes
na função em que as mesmas desenvolvem seus trabalhos” (POIT, 2006, p. 79).
89
Pessoa ou grupo responsável por toda a
documentação do evento, desde inscrições,
Cada evento possui sua particularidade, em relação ao listas de atletas, súmulas. Toda a parte
período de realização, local, modalidade, quantidade burocrática do evento esportivo.
de atletas, entre outras. As equipes de trabalho/
comissões apresentadas no infográfico aparecem com
ecorrente frequência na organização de eventos
esportivos, podem ser compostas por grupos de trabalho
ou por um responsável para determinada atribuição,
de acordo com o tamanho do evento. Grupo de pessoas que coordenam o evento.
Responsáveis por gerenciar todas as
demandas do evento.
Pessoa ou grupo responsável pela organização do
transporte de todas as pessoas vinculadas ao evento.
OLHAR CONCEITUAL
Depende muito do tamanho do evento, mas sempre deve ser
considerada. Seja ela realizada por empresa particular ou
através de apoio institucional com equipes de policia local.
90
EDUCAÇÃO FÍSICA
Pessoa ou grupo responsável pelos aspectos
financeiros como despesas com equipe de
arbitragem, equipe de trabalho, aluguel de
espaços, compra de materiais, e demais ações
que dependem diretamente do trato financeiro Pessoa ou grupo de pessoas responsável
e influenciam no orçamento do evento. por organizar a logística de hospedagem
de participantes, equipe de trabalho e
arbitragem durante todo o evento.
Desde número de pessoas, período que
esse serviço será necessário, quantidade,
qualidade, horários e demais ações.
Alguns eventos precisam ter a presença de equipe
médica no local de realização. Mesmo quando não
for obrigatório essa presença, é importante ter na
equipe uma pessoa ou grupo responsável por
pensar e organizar uma estratégia de atendimento
médico emergencial (hospitais mais próximos,
telefones de contato, entre outras ações).
Equipe de pessoas responsáveis pela arbitragem da competição.
Desde um Coordenador geral de Arbitragem até os árbitros do evento.
É normalmente facultativo ao evento, mas, extremamente
importante a presença de uma comissão para julgar a
conduta dos participantes do evento, sejam eles atletas,
dirigentes, equipe técnica e administrativa e demais
pessoas envolvidos diretamente no evento e nos resultados.
91
Para exemplificar a gerência dessas equipes de trabalho, Martins (2018) nos apresenta, conforme o quadro a seguir, as
funções e atribuições de um evento esportivo, que exige diversas equipes de trabalho para a sua realização:
Função Atribuição
Quadro 1. Quadro de equipes que compõem a organização de um evento esportivo / Fonte: Adaptado de Martins (2018, p. 180-181).
92
EDUCAÇÃO FÍSICA
Dentro desse grupo de pessoas envolvidas diretamente na organização de um evento esportivo, podemos destacar
a presença de duas figuras de extrema relevância no cenário da gestão e organização de eventos esportivos, são eles:
os gerentes de evento (direção geral) e os stakeholders. A figura do gerente de evento segue a mesma linha lógica do
gerenciamento de projetos, essa mesma figura é rotineiramente representada com diferentes nomenclaturas como co-
ordenador, diretor ou presidente de evento. De acordo com Mallen e Adams (2013, p. 9), “gerentes de eventos contem-
porâneos precisam estar aptos a pensar o todo e autodeterminar as necessidades para estruturar eventos tradicionais
ou segmentados” tendo como base a experiência na gestão de eventos.
O termo stakeholder deriva da área administrativa, bem como várias ferramentas que utilizamos na gestão esportiva.
Os stakeholders são entendidos como grupo de pessoas estrategicamente importantes dentro das ações de relações pes-
soais da equipe organizadora com instituições externas ao evento, como patrocinadores e apoiadores. Amaral, Bastos e
Carvalho (2017, p. 25) ponderam que são “considerados stakeholders do projeto todo indivíduo ou organização que possa
afetar ou ser afetado pela organização do evento esportivo”. Poderíamos utilizar a frase ‘ninguém faz nada sozinho’ como
um bom exemplo para entender o porquê a teoria dos stakeholders vem sendo utilizada na gestão esportiva e de eventos.
Um evento esportivo, mesmo que pequeno, depende de diferentes pessoas para a sua realização, como a equipe de
arbitragem, equipe técnica e administrativa que cuida dos processos de programação, súmulas, classificações e resultados.
A teoria dos stakeholders assume como influente a ação de pessoas que não estão compondo essas equipes, mas, fazem
uma ponte de acesso entre a equipe organizadora e as pessoas que essa equipe necessita para realizar o evento. Por exem-
plo, uma proposta simples de um Festival de Voleibol que será realizado na quadra esportiva de uma escola, o diretor da
escola não está diretamente envolvido na organização do evento, mas influencia diretamente na realização do evento.
EXPLORANDO IDEIAS
Os voluntários são considerados também um grupo importante de pessoas que podem compor a equipe organiza-
dora de um evento esportivo. A participação de pessoas voluntárias é muito comum e de extrema importância em
grandes eventos esportivos, pois são colaboradores que auxiliam em diferentes demandas que emergem do evento
de grande porte. São pessoas que se cadastram para trabalhar gratuitamente no evento e passam por criteriosa
seleção antes de integrar oficialmente a equipe.
Novamente é importante mencionar que as equipes de trabalho mencionadas até aqui variam de acordo com o ta-
manho do evento e de suas necessidades. Neste sentido, outro caminho para organizar as ações pode ser pautado nas
demandas mais necessárias para que o projeto de um evento esportivo seja satisfatoriamente executado. Segundo Poit
(2006) os aspectos básicos para o sucesso de um evento esportivo estão associados a: recursos financeiros; fixação dos
objetivos a serem atingidos; natureza da atividade (essência do evento); recursos humanos necessários; materiais e
instalações; período e datas para a realização do evento (isso inclui todo o processo pré-evento, evento e pós-evento);
número de inscritos e segmentação; divulgação e motivação; locais disponíveis; programação paralela; e avaliação.
93
94
EDUCAÇÃO FÍSICA
É importante lembrar que, durante todo o evento, o regulamento será constantemente consultado para esclarecer
dúvidas em relação aos participantes inscritos, ao procedimento utilizado pela equipe de arbitragem, ao processo de
trabalho da equipe técnica e administrativa, aos critérios de disputa e classificação, premiação e demais questões. Um
exercício muito interessante antes de elaborar o regulamento de um evento esportivo é consultar outros regulamentos
de eventos que já são realizados, sendo da mesma natureza ou não. Isso nos orienta a pensar com mais atenção a deta-
lhes que podem acabar passando despercebidos durante o processo de elaboração de um novo regulamento.
Para uma melhor visualização, a seguir, o quadro nos apresenta um esquema de regulamento idealizado por Poit
(2006) e recortes do Regulamento Oficial dos Jogos Escolares do Paraná:
ART. 1 Os Jogos Escolares do Paraná (67º JEPS), como parte dos Jogos Ofi-
ciais do Paraná, são organizados pelo Governo do Paraná, através da Se-
cretaria de Estado da Educação e Esporte (SEED), Instituto Paranaense de
Ciência do Esporte (IPCE), Núcleos Regionais de Educação (NRE) e Escritó-
Histórico ou Justificativa rios Regionais do Esporte (EREs), com apoio das Prefeituras Municipais e
Entidades de Administração do Desporto do Estado regulamentar-se-ão
genericamente, pela legislação vigente aplicável e, especificamente, pelas
disposições contidas neste Regulamento e atos administrativos expedidos
pela autoridade pública, no exercício de suas atribuições.
Parágrafo Terceiro - A competição será para alunos matriculados na Educa-
Do Campeonato: objetivo; parti-
ção Básica do Ensino Regular, Educação de Jovens e Adultos e alunos com
cipantes; categorias, cronogra-
deficiência das Escolas Conveniadas, conforme previsto no Art. 29 e 30.
ma, comissão organizadora, cro-
ART. 39 Os 67º JEPS, será desenvolvido em 04 fases, da seguinte maneira:
nograma, sistemas de disputa.
Fase Municipal; Fase Regional; Fase Macrorregional; e Fase Final.
ART.23 As inscrições dos estabelecimentos de ensino, nas diversas modali-
dades esportivas, far-se-ão através de solicitação do (a) Diretor (a) do esta-
belecimento de ensino, mediante Mapa Ofício, constando a(s) modalidade(s)
em que irá (ão) participar no 67º JEPS em suas categorias e sexo encaminha-
Das inscrições: data e local, das conforme email abaixo. Todos os documentos necessários às inscrições
número de inscritos por modali- encontram-se disponíveis no site [Link].
dade, condições para inscrições, ART. 30 O 67º JEPS será disputado por alunos da Educação Básica do
valor da inscrição. Ensino Regular, Educação de Jovens e Adultos e alunos com deficiência
das Escolas Conveniadas devidamente matriculados na Instituição de
Ensino pela qual estará competindo até a data de 31 de Março de 2020
e com frequência mínima de 75%, a partir da data da matrícula até o
início da competição/fase.
Das classificações: número de
pontos por classificação, conta-
Cada modalidade segue um Regulamento Específico, onde são es-
gem de pontos por modalidade,
tabelecidos critérios de classificação, sistema de disputa e demais
contagem de pontos por cate-
especificidades da modalidade.
goria, contagem de pontos por
equipe, critérios de desempate.
95
Quadro 2. Esquema básico de um regulamento / Fonte: Adaptado de Poit (2006, p. 167-169); Adaptado de PARANÁ (2020).
No caso de eventos esportivos da abrangência dos Jogos Escolares do Paraná, que já é um evento presente no calendário es-
portivo do Estado do Paraná há mais de 60 anos, obviamente o regulamento já passou por diversas adequações para atender
as demandas que surgiram com o passar dos anos. Outro ponto importante é que esse tipo de evento acontece em fases, por-
tanto contempla vários “pequenos” eventos que dão origem ao grande evento, por exemplo: na fase regional, ocorrem 30 com-
petições em cidades/sedes diferentes, cada local com uma equipe organizadora diferente (técnica, administrativa, arbitragem,
hospedagem/alimentação e transporte), mas que são conduzidas por uma direção técnica geral e pelo mesmo regulamento.
Obviamente que em casos onde os eventos possuem uma complexidade (em relação à abrangência) menor, prin-
cipalmente quando são locais e com apenas uma modalidade em disputa, o regulamento será mais simples, mas não
menos complexo, pois deve contemplar os mesmos aspectos abordados na primeira coluna do Quadro 2.
96
EDUCAÇÃO FÍSICA
97
98
EDUCAÇÃO FÍSICA
Ainda que durante o processo de organização de um evento esportivo muito se discuta sobre como ele ocorrerá, um
dos pontos a serem discutidos não somente com a equipe organizadora mas também, se possível, com representantes
das equipes participantes, refere-se ao sistema de disputa que a competição utilizará, que também pode receber o tí-
tulo de “Regulamento Técnico”. É válido ressaltar que um mesmo evento pode utilizar diferentes sistemas, atendendo
a demanda de cada modalidade esportiva presente no evento.
Rezende (2007, p.21) sugere que a definição de um sistema de disputa para determinado evento esportivo deve ser
baseada nas seguintes informações:
Característica
da modalidade
esportiva.
Quantidade de participantes.
Figura 3: Definição de um sistema de disputa para um evento esportivo / Fonte: Rezende (2007).
Descrição da Imagem: A imagem apresenta quatro itens, sendo eles: 1. Característica da modalidade esportiva; 2. Qualidade técnica dos com-
petidores; 3. Quantidade de participantes; e 4. Disponibilidade de: tempo; locais para realizar as competições; recursos materiais (esportivo e
administrativo); recursos humanos (pessoal técnico, administrativo e operacional); recursos financeiros.
99
A seguir iremos conhecer os principais sistemas de disputas utilizados em eventos esportivos, são eles: eliminatória,
rodízio, escalas, acumulação e combinações. Cada equipe organizadora deve estudar qual sistema é mais adequado
para o seu evento, atendendo a suas especificidades.
O sistema de disputa em Eliminatória pode ser simples, dupla eliminatória, consolação, repescagem e bagnall-
-wild. O sistema de eliminatória simples é bastante utilizado em competições com um grande número de equipes
participantes. Entre as vantagens em utilizar esse tipo de sistema está a sua praticidade, pois é um sistema de fácil
montagem, bastante popular e de fácil compreensão. Já como desvantagem, é um sistema que pode não refletir o real
nível técnico das equipes, pois, na primeira derrota a equipe já é desclassificada da competição.
Quando o número de equipes corresponde a um número que é potência de 2, ou seja, 2² = 4, 2³ = 8 e assim por diante,
todos os participantes participam da primeira rodada e o ganhador da partida, avança para a próxima fase, quem perde
automaticamente está eliminado da competição. No caso de número de competidores que não corresponde à potência
de 2, não é possível a participação de todas as equipes na primeira rodada e são considerados os isentos que avançam para
a rodada seguinte, “o número de isentos é definido pela potência de 2 imediatamente superior ao número de participan-
tes (2⁵ = 32), menos o número real de concorrentes (27), ou seja, 32-27=5 isentos” (POIT, 2003, p. 136).
Oitavas de Final
Quartas de Final
Equipe 01
JOGO 01 [Link] 01
Equipe 02 Semi Finais
JOGO 09 Venc.jogo09
Equipe 03
JOGO 02 [Link] 02 Final
Equipe 04
Venc.jogo13
JOGO 13
Equipe 05
JOGO 03 [Link] 03
Equipe 06
JOGO 10 Venc.jogo10
Equipe 07
JOGO 04 [Link] 04
Equipe 08
JOGO 01
Equipe 09 Vencedor jogo 16
JOGO 05 [Link] 05
Equipe 10
JOGO 11 Venc.jogo11
Equipe 11
JOGO 06 [Link] 06
Equipe 12
Descrição da Venc.jogo14
JOGO 14
Imagem: Chave- Equipe 13
JOGO 07 [Link] 07
amento de uma Equipe 14
Eliminatória Sim- JOGO 12 Venc.jogo12
ples com 16 equi- Equipe 15
pes participantes. JOGO 08 [Link] 08
Equipe 16 Disputa 3º Lugar
Perd. jogo 13
JOGO 15
Vencedor jogo 15
Figura 4: Eliminatória simples com 16 participantes (2⁴). Perd. jogo 14 3º Lugar
Fonte: o autor.
100
EDUCAÇÃO FÍSICA
No caso do exemplo da Figura 5, o critério utilizado foi de já na 1° Rodada realizar apenas uma desclassificação, e
assim igualar o número de equipes para a rodada seguinte. Esse tipo de situação deve ser prevista no Regulamento
Técnico, pois, como podemos observar, uma equipe (02 ou 03) terá que realizar um jogo a mais que as demais equipes.
Nesse sentido, o mais interessante seria utilizar o critério de Sorteio para classificar a posição das equipes nas chaves.
Ainda que o sistema de eliminatória simples seja o mais utilizado, outros modelos de sistemas eliminatórios como a
Eliminatória Dupla, o Consolação e o Bagnall-wild também podem ser utilizados. São sistemas que primam pela maior
participação das equipes na competição, como é o caso da Eliminatória Dupla, em que a equipe apenas é desclassificada
da competição após a sua segunda rodada (não necessariamente para o mesmo adversário). De acordo com Martins
(2018, p. 269), podemos utilizar a eliminatória dupla “de modo a garantir a possibilidade de recuperação de um competi-
dor que tenha sido derrotado uma única vez, aumentando assim, o número de confrontos e oportunidades”.
O processo de Consolação basicamente constrói um novo chaveamento com as equipes derrotadas na primeira
rodada, e então é realizado uma disputa paralela à principal, podendo ter um nome como “Torneio da Consolação”,
por exemplo. É uma opção que pode ser utilizada quando há a disponibilidade de espaços esportivos, material e
equipe técnica/arbitragem para promover a participação dos competidores, uma vez que pode ser desmotivador a
participação em uma competição onde a equipe acabe jogando apenas uma vez.
Já o sistema Bagnall-willd pode ser utilizado após uma competição que utilizou o processo de eliminatória simples
ou dupla, mais precisamente quando se faz necessário a definição da classificação de segundo e terceiro lugar:
101
Ao determinar o campeão, realiza-se um torneio eliminatório com a participação das equipes que perderam do cam-
peão, desde a primeira rodada. O vencedor desse torneio se consagrará vice-campeão. O terceiro lugar resultará de um
torneio entre os que perderam do segundo lugar (MARTINS, 2018, p. 272).
O sistema apresenta um caminho mais interessante de confrontos e oportunidades para as equipes que participaram
da competição, oportunizando uma nova possibilidade de conquista. No entanto, não é um sistema muito utilizado,
porque culturalmente os eventos esportivos no Brasil evidenciam a disputa clássica com finais para decidir suas equi-
pes campeãs, com desfechos e resultados mais imediatos.
No sistema de disputa em Rodízio, a competição pode acontecer em rodízio simples, em grupo/séries, turno
e returno ou lombardo. Esse sistema é recomendado quando se tem disponibilidade de tempo para a sua realiza-
ção, pois demanda o confronto de todas as equipes entre si. O modelo de competição atualmente utilizado pela
Confederação Brasileira de Futebol é baseado no sistema de rodízio para o Campeonato Brasileiro de Futebol
Masculino, o Brasileirão. Todas as equipes jogam entre si em dois momentos (turno e returno), tendo a sua clas-
sificação definida pela acumulação de pontos que cada equipe conquista em cada rodada: 3 pontos por vitória, 1
ponto por empate e 0 pontos na derrota.
Poit (2006) enfatiza que o sistema de rodízio é um sistema justo, uma vez que ao proporcionar o confronto entre
todas as equipes e realizar a classificação de acordo com o desempenho de cada equipe, torna o resultado final mais
realista ao nível dos competidores. Para elaborar a tabela de uma competição que irá utilizar o Rodízio e possui uma
quantidade par de equipes “constrói-se uma coluna, iniciando-se com o confronto 1x2. Em seguida no sentido ho-
rário, abaixo do número 2, segue-se com o 3, o 4 e o 5, gira-se em direção ao 1 novamente, mantendo-se a sequência
numérica 6, 7 e 8” (MARTINS, 2018, p. 274). Para as rodadas seguintes, o número 1 segue fixo, e apenas os demais nú-
meros rodam. Quando o número de equipes for ímpar, segue a mesma lógica do rodízio, no entanto, em cada rodada,
uma equipe será a isenta da rodada, ou seja, não joga.
No quadro 4, podemos observar uma competição com 8 equipes organizada pelo sistema de Rodízio Simples:
Se essa mesma competição tivesse nove equipes, a equipe isenta de cada rodada pode aparecer abaixo das demais
disputas e diferente do processo anterior, nessa condição, todas as equipes rodam como no Quadro 5:
102
EDUCAÇÃO FÍSICA
Quadro 5: Rodízio Simples com número ímpar de equipes / Fonte: Adaptado de Martins (2018).
Descrição da Imagem: Exemplo de rodízio simples com 9 equipes, onde a cada rodada uma equipe ficará isenta de jogar.
Após elaboradas as tabelas dos confrontos, é necessária uma conferência para identificar a quantidade total de jogos
e se todas as equipes se enfrentaram. Outro fator importante é o monitoramento das pontuações a cada rodada, que
também pode incluir diferentes parâmetros além da pontuação (vitória, empate e derrota), como número de jogos
e critérios de desempate. O Sistema de Rodízio pode ser utilizado em competições em grupo único ou mais grupos;
todos esses são definidos pelo regulamento técnico da competição. No caso de diferentes grupos, cada grupo deve
possuir a sua própria tabela de rodízio e de classificação.
O terceiro exemplo de Rodízio é o Lombardo. Ele pode ser utilizado quando se tem um grande número de equi-
pes e pouco tempo disponível para os confrontos. De acordo com Poit (2006, p.156), no Rodízio Lombardo “divide-se
o tempo normal de jogo da modalidade a ser disputada pelo número de jogos de cada equipe e organiza-se um rodízio
simples entre os participantes”. Por exemplo, uma competição de Futebol, com tempo de 90 minutos por partida e 8
jogos por equipe: 90 ÷ 8 = 11 minutos cada partida.
Esse tipo de adaptação é comum em eventos esportivos realizados em curto período, como em um dia específico ou
feriado, um bom exemplo seria um Torneio do Dia do Trabalho, várias equipes jogando várias vezes durante o mesmo dia.
Quando o sistema é baseado em Escala, ele pode ser realizado em escada, pirâmide ou funil:
2 3 3
2
3 4 5 6
4 5 6
4 7 8 9 10
5 7 8 9 10
11 12 13 14 15
6 11 12 13 14 15
7 16 17 18 19 20 21 16 17 18 19 20 21
8 22 23 24 25 26 27 22 23 24 25 26 27
Figura 6: Competições em Escalas / Fonte: Martins (2018, p. 287).
103
104
EDUCAÇÃO FÍSICA
Figura 7. Chaveamento 2º Fase Copa do Mundo de Futebol Masculino 2018 / Fonte: 1135605899
No que tange o ambiente de eventos esportivos, a perspectiva mercadológica também deve ser enaltecida dentro da ide-
alização e realização dos eventos. Nenhum evento é realizado sem que ocorra um investimento financeiro, seja por parte
do poder público ou privado. Nesse contexto, é necessário frisar que grandes eventos só alcançam esse ‘status’ devido ao
seu potencial de mercado através dos mais diferentes produtos como ingressos, camisas, bonés e até canais por assinatura.
O potencial mercadológico e as características desse importante cenário da gestão de eventos esportivos nós
iremos abordar com maior riqueza de detalhes na Unidade 5, onde iremos tratar sobre o tema de marketing e
empreendedorismo esportivo.
Os modelos apresentados até aqui nos orientam sobre caminhos que todas as equipes de organização de even-
to esportivo percorrem, independente da ordem das ações e especificidade do evento. Assim como os modelos nos
auxiliam, a experiência ainda é o mais precioso dos saberes dentro do campo de realização de eventos esportivos.
Todos os maiores profissionais dessa área já participaram de um primeiro evento, já cometeram equívocos e, muito
provavelmente, já quiseram esquecer determinado evento. Busque conhecer os eventos esportivos que acontecem em
sua cidade ou região, procure informações sobre as equipes de trabalho e, caso seja de seu interesse, seja voluntário.
105
atividades de estudo
1. Tenha como pressuposto uma situação hipotética onde temos uma competição com 7 equipes e optou-se
por utilizar o sistema de Eliminatória Simples. Assinale a alternativa que apresenta a quantidade correta
de número de jogos e rodadas que devem acontecer, sem considerar uma possível disputa de 3º lugar:
a. Número de jogos: 6; número de rodadas: 3.
b. Número de jogos: 7; número de rodadas: 3.
c. Número de jogos: 3; número de rodadas: 4.
d. Número de jogos: 6; número de rodadas: 3.
e. Número de jogos: 5; número de rodadas: 3.
2. De acordo com Poit (2006, p. 167), “o regulamento de qualquer evento esportivo competitivo, seja ele
torneio, campeonato ou desafio, se constitui em uma peça fundamental para um desenrolar justo,
organizado e dinâmico”.
Em relação às características que devem ser consideradas na elaboração de um regulamento, assinale V
para as alternativas Verdadeiras e F para as alternativas Falsas:
( ) Um regulamento de um evento esportivo deve apresentar objetividade.
( ) O regulamento de um evento esportivo deve ser preciso nos detalhes e informações.
( ) O regulamento de um evento esportivo deve ter clareza em sua descrição.
( ) O regulamento de um evento esportivo deve abranger todos os itens relativos ao bom andamento do evento.
( ) O regulamento de um evento esportivo deve ser de uso restrito da equipe de organização do evento.
a. V. V. F. F. F.
b. V. F. F. V. V.
c. V. V. V. V. F.
d. F. V. F. F. F.
e. F. F. V. F. V.
106
atividades de estudo
4. Sobre competências para atuação na gestão esportiva, leia com atenção o trecho a seguir:
“[...] na gestão do esporte, as técnicas de gestão, a programação esportiva, a administração de empre-
sas, o planejamento, a organização, a execução, o controle, a comunicação e a tomada de decisão já
foram elencadas como competências para a atuação na área em diferentes organizações esportivas”
(MIRANDA, et. al, 2017, p. 594).
Sobre os modelos de planejamento de organização de eventos esportivos apresentados na disciplina, assi-
nale a alternativa que corresponde ao modelo baseado no Project Model Canvas:
a. Fase de desenvolvimento do evento; fase de planejamento operacional do evento; fase de execução,
monitoramento e gestão do evento; e fase de avaliação e reedição do evento.
b. Etapas de conceber, integrar, resolver e compartilhar.
c. Desenho, planejamento, execução e avaliação.
d. Ideia, projeto, pré-evento, transevento e pós-evento.
e. Concepção, venda, planejamento, durante e depois.
107
MARKETING ESPORTIVO
Oportunidades de aprendizagem
V
Michael Jordan certamente é um dos maiores nomes esportivos de todos os tempos. Só por sua trajetória esportiva
esse reconhecimento já é possível, no entanto, Jordan é um dos maiores exemplos de marketing esportivo que temos
registro. Além dos títulos na quadra de basquete, você sabia que ele foi protagonista de um filme junto com Pernalon-
ga e Patolino, na década de 1990? Ou então que ele possui a sua própria linha de tênis da Nike? Muito antes das redes
sociais e da demanda por produção de conteúdo, um atleta se tornou personalidade por sua performance esportiva
e associou a sua imagem a diversos atividades fora das quadras, quebrando recordes de vendas em seus produtos e
potencializando a popularidade do esporte que praticava.
No início da carreira, Michael Jordan firmou parceria com a Nike para a criação de um tênis com seu nome. Na-
quele momento, o atleta ainda era considerado como um calouro, uma promessa do esporte que estava dando seus
primeiros passos. Quando a parceria aconteceu, a marca de tênis não era a mais utilizada pelos atletas da liga de bas-
quete americana. O primeiro Air Jodarn foi lançado em 1985, tornou-se sucesso absoluto de vendas e hoje o modelo já
conta com mais de 30 versões e é um dos tênis mais famosos da marca. Neste exemplo, não só o esporte foi utilizado
como produto comercial, mas também o atleta.
Para melhor compreender o fenômeno Michael Jordan, seu desempenho no basquete e o sucesso de suas campa-
nhas publicitárias, realize uma busca rápida sobre sua linha de tênis, o filme Space Jam ou a promoção da NBA através
dos resultados obtidos por Michael Jordan dentro e fora de quadra.
Um dos principais vínculos entre marketing e esporte é a forma como o consumidor associa o desempenho do time
ou atleta a produtos de consumo. Michael Jordan foi apenas um dos diversos exemplos de sucesso entre a paixão pelo
esporte/atleta e seu potencial de consumo comercial. Quais outras modalidades esportivas podemos mencionar ao vin-
cular esporte a produto de consumo? Como poderíamos justificar o potencial comercial que possui o cenário esportivo?
110
EDUCAÇÃO FÍSICA
NOVAS DESCOBERTAS
A série “The last dance”, conta a história da trajetória de Michael Jordan no bas-
quete e da temporada do sexto título da NBA conquistado pelo Chicago Bulls
em 1998, tendo Jordan, já veterano, como principal jogador da equipe. Apesar
de enfatizar os 6 títulos do Chicago Bulls em 8 anos, os episódios da série re-
latam o início da carreira de Jordan até sua consolidação enquanto fenômeno
esportivo dentro de quadra e enquanto fenômeno comercial, fora dela. A figura
de Jordan potencializou não somente a modalidade, mas diferentes produtos
relacionados a ela, desde tênis e roupas, até a procura pela compra de canais
que realizam a transmissão de jogos da NBA.
111
112
EDUCAÇÃO FÍSICA
Para Poit (2006, p. 57), os “valores atribuídos ao esporte tais como arrojo, saúde, além das conquistas pessoais de mui-
tos atletas faz do marketing esportivo uma ponte para relacionar esses valores à empresa, marca ou produto”. Segundo
o autor, além desse fator, o empresariado observou que o investimento em atividades que não eram diretamente
relacionadas ao seu produto poderia ter um papel importante para a divulgação do mesmo e até mesmo da empresa
“ajudando a construir uma imagem vitoriosa e de sucesso”, passando a integrar o investimento em marketing esporti-
vo dentro do planejamento estratégico das empresas (POIT, 2006, p.57).
u s to /
Preço i s c
n t o / ma ito
* D esco o de créd
tos praz
Produ e / funcional
/
idad iço
* Qual lagem / serv o ção ão /
em b a Pr o m aç
unic m s
* Co panha
r cam
Luga de venda /
Ponto
*
canais
Descrição da Imagem: Considerados os 4 pilares do marketing, o produto, preço, promoção e ponto de venda são facilmente incorporados ao
cenário esportivo e muito utilizados por grandes marcas dos mais diferentes produtos.
113
Com o passar dos anos e a profissionalização das instituições esportivas, esse processo começa a ser utilizado também
pela própria instituição esportiva e não somente apenas por grandes empresas que se associam a ela. A visibilidade
e grande consumo de eventos amplia o repertório de produtos a partir do momento que as instituições buscaram
diferentes fontes de recursos financeiros e passam a compreender que a marca esportiva (equipe, clube, atleta ou com-
petição) pode ofertar diferentes produtos ao consumidor, gerando novas possibilidades lucrativas para a instituição.
Como já abordado nesta disciplina, inicialmente o esporte era promovido por Clubes Sociais, em que os próprios
praticantes financiavam a sua prática e, com o avançar do tempo e a profissionalização esportiva, a perspectiva de
financiamento sofre alterações e passa a contar com patrocínios e recursos públicos. Podemos dizer que a primeira
ferramenta de marketing de grande repercussão no Brasil foram os eventos, por meio de competições e jogos.
Poit (2006, p. 55) nos apresenta alguns objetivos do marketing esportivo a partir da instituição esportiva e tam-
bém do esporte como meio de divulgação:
1. Fortalecimento da imagem
5. Servir como ferramenta de comunicação;
(atleta, produto ou empresa);
Descrição da Imagem: na figura, há a ilustração colorida de um troféu grande, ele simboliza a conquista do objetivo sendo alcançada. Junto ao
troféu, temos uma equipe interagindo, com todos trabalhando, juntos, para alcançar o sucesso. Ao redor da ilustração, temos os oito objetivos
do Marketing Esportivo, sendo eles: (1) fortalecimento da imagem (atleta, produto ou empresa); (2) fortalecimento da marca (produto ou empre-
sa); (3) retorno de mídia espontânea; (4) conquista e manutenção de mercado; (5) servir como ferramenta de comunicação; (6) agregar valores
à marca e/ou à imagem; (7) aumentar o reconhecimento do público; (8) conferir credibilidade à marca e/ou à imagem.
Se utilizarmos o futebol, que é a modalidade com maior representatividade no país, por muitos anos, a principal es-
tratégia de marketing das equipes eram os jogos, transmitidos pelo rádio e televisão. A partir desses eventos, o clube
divulgava seus patrocinadores e incentivada para que os torcedores e simpatizantes adquirissem a camisa da equipe
– que por muitos anos foi o principal produto comercializado por diversas equipes. Contudo, sabemos que o evento
esportivo não é o único produto que pode ser explorado. Dentro dessa perspectiva, é importante destacar outro termo
muito associado ao Marketing e que também deve ser explorado no cenário esportivo, o empreendedorismo.
114
EDUCAÇÃO FÍSICA
NOVAS DESCOBERTAS
A necessidade de obter recursos financeiros faz com que novos caminhos sejam traçados dentro da
gestão esportiva. A paixão pelo esporte pode ser um dos principais trunfos para tornar o esporte um
produto com grande potencial comercial, a necessidade de acompanhar a equipe, o atleta e tornar-
-se agente integrante daquele contexto de time e grupo, potencializa o consumo dos mais diversos
produtos esportivos. Este vínculo e devoção, principalmente dos torcedores e praticantes amadores,
chama atenção de grandes marcas esportivas e não esportivas que passam a patrocinar o esporte não
apenas como incentivadoras, mas também por observar a repercussão desse cenário social. Além da
popularidade da modalidade, a popularidade da marca da instituição passa a ser incorporada nas es-
tratégias de marketing e, de acordo com Gidaro (2016, p. 4), o “aumento da participação corporativa
no esporte é simultâneo a tomada de consciência das entidades esportivas sobre o fato de que é pre-
ciso zelar pelo valor de sua marca ou nome [...] para assim receber investimentos e gerar negócios”.
Na tentativa de esclarecer a relação de troca entre produto e cliente, Rocco Júnior et. al (2021)
elaboraram um fluxograma para compreender o relacionamento de troca no mercado esportivo
como um mercado de demandas específicas, amplas, más específicas:
Mercado esportivo
Figura 3 - Mercado esportivo / Fonte: ROCCO JÚNIOR et. al., 2021, p. 67.
115
O Brasil é atualmente um dos países onde poderia haver uma grande explosão em-
preendedora. Só os brasileiros têm poder para que isso aconteça. Para tanto, deve-se
superar um certo número de obstáculos. Pode-se identificar pelo menos seis deles: O
primeiro deles é o da autoconfiança; o segundo obstáculo é uma consequência do
primeiro e consiste na falta de confiança que existe entre os brasileiros; o terceiro é
a necessidade de desenvolver abordagens próprias ao Brasil, que correspondem às
características profundas da cultura brasileira; o quarto diz respeito à disciplina, ela se
torna a condição da superação dos três primeiros obstáculos; o quinto se refere à ne-
cessidade de compartilhamento e o último obstáculo é o da burocracia (BAGGIO;
BAGGIO, 2014, p. 26, grifo nosso).
Empreender é arriscar, investir e apostar em uma ideia que precisa ser bem estrutu-
rada e pensada para minimizar os riscos desse investimento, nesse sentido, “empre-
endedor é aquele que detecta uma oportunidade e cria um negócio para capitalizar
sobre ela, assumindo riscos calculados” (BAGGIO; BAGGIO, 2014, p. 27). Contar
com profissionais para esse processo é um fator básico para a realização do trabalho
e, como já mencionado nesta disciplina, o esporte brasileiro ainda está em fase ini-
cial de profissionalização de sua gestão.
Nas definições de empreendedorismo encontram-se, pelo menos, os seguintes as-
pectos referentes ao empreendedor:
116
EDUCAÇÃO FÍSICA
Nas definições de
empreendedorismo
2. Utiliza os recursos disponíveis de forma criativa,
encontram-se, pelo menos,
transformando o ambiente social e econômico
os seguintes aspectos
onde vive;
referentes ao
empreededor:
3. Aceita assumir os riscos calculados e
a possibilidade de fracassar.
Descrição da Imagem: na figura, temos uma ilustração colorida destacando os aspectos sobre o empreendedor. No centro, há uma figura
humana representando o empreendedor, à esquerda, temos um círculo com um texto: “Nas definições de empreendedorismo, encontram-se,
pelo menos, os seguintes aspectos referentes ao empreendedor:”, à direita, onde há os aspectos do empreendedor, lê-se: “1. Tem iniciativa
para criar um novo negócio e paixão pelo que faz. 2. Utiliza os recursos disponíveis de forma criativa, transformando o ambiente social e eco-
nômico onde vive, 3. Aceita assumir os riscos calculados e a possibilidade de fracassar”.
Portanto, investir em novos produtos, buscar novas formas de relacionamento com o torcedor/consumidor/cliente
ainda gera muita desconfiança por parte das instituições esportivas. Mas, é importante frisar que o mercado exige que
novos caminhos sejam percorridos pelas instituições esportivas e, mesmo aquelas que sempre seguiram o tradicional
marketing através de venda de cotas de patrocínio, hoje em dia já passam a entender a necessidade de buscar cami-
nhos diferentes, em que muitas vezes lhes faltam a coragem e o profissional para auxiliar no processo.
Um viés importante a ser destacado é também o crescimento de empresas especializadas em marketing esportivo,
o que contribui para o aumento da oferta de propostas e possibilidades de ações junto às instituições esportivas. A ‘in-
dústria’ do esporte, que sempre foi enorme devido a sua popularidade, cresce a cada ano aumentando a oferta de pro-
dutos, serviços e experiências ao consumidor, movimentando a economia anualmente com altos valores. De acordo
com Segatelli e Lima (2016, s/p), no que tange os produtos oferecidos por esse segmento da indústria, “cerca de 68%,
resulta das vendas de materiais esportivos, outros 26% são gerados diretamente com os serviços esportivos, como por
exemplo, academias e clubes, além de investimentos e patrocínios no esporte profissional, entre outros”.
Os mesmos autores ainda reforçam que o potencial comercial atrelado ao esporte e o crescimento das ações de
marketing nessa área possibilitaram a criação de três novos segmentos de mercado a serem explorados nos últimos
anos: o segmento da indústria da prática esportiva, o segmento da indústria da produção esportiva e o segmento da
indústria da promoção esportiva (SEGATELLI; LIMA, 2016).
117
Figura 5 - Segmentos de mercado a partir do esporte / Fonte: Segatelli e Lima (2016); Pitts e Stotlar (2002).
Descrição da Imagem: na figura, há uma ilustração colorida que mostra os segmentos de mercado a partir do esporte, as suas definições e
imagens de exemplo. O primeiro é a prática esportiva, com o texto: “Participante direto da prática esportiva, como os atletas profissionais e
amadores, e aqueles que consomem a prática esportiva, como os espectadores que compram os ingressos para acompanhar os eventos”. Na
imagem de exemplo, temos uma fotografia colorida registrando o cumprimento entre dois tenistas profissionais, durante um jogo, em uma
quadra de tênis. Em seguida, temos a produção esportiva, onde está o texto: “Produção a partir do esporte tanto para a sua prática (opções
de raquete de tênis), como para o seu consumo, a partir de serviços (professor de tênis)”. Na imagem ilustrativa, temos duas raquetes e duas
bolinhas de tênis. Por fim, há a promoção esportiva, com o texto: “Esporte como ferramenta de promoção de produtos, ideias ou valores”. Na
imagem ilustrativa, temos o tenista brasileiro Gustavo Kuerten, conhecido como Guga, usando um boné do Banco do Brasil.
É possível observarmos como o cenário esportivo possibilita diferentes segmentos de exploração do mercado, e que, a
partir da prática esportiva mais simples, é possível identificar influências da indústria esportiva com exemplos simples
como: comprar uma camisa de um time de futebol por causa de determinado atleta; comprar pacotes de TV por assi-
natura para acompanhar competições esportivas; incentivar a criança a participar de escolinhas esportivas por enten-
der que o esporte é importante para o desenvolvimento da criança; entre outras ações presentes em nosso cotidiano.
O esporte apresenta-se como um produto de fácil consumo – como podemos observar na categorização dos
segmentos – o que também facilita na definição do público alvo e ponto de venda de cada segmento. O consumidor
é aquele que orienta as ações e estratégias de marketing que serão realizadas para convencê-lo de que determinado
produto deve ser consumido, dentre essas estratégias, a figura do atleta sempre foi uma das ações mais comuns a serem
utilizadas, pois, desde a época em que Pelé era um dos principais garoto propaganda de diferentes marcas nacionais,
118
EDUCAÇÃO FÍSICA
as pessoas, além de o reconhecerem por seus feitos em campo, jogando futebol, também acompanhavam sua vida fora
dos campos, ou seja, o público tem interesse não somente na prática esportiva do ídolo, mas também na vida pessoal.
Atualmente, essa é uma das principais ações de marketing que são realizadas a partir do esporte, junto de situa-
ções que ocorrem fora de campo, quadra, tatame ou qualquer outro cenário esportivo. As ações sociais e a utilização
das redes sociais por instituições esportivas e atletas podem ser mais interessantes nas ações de marketing do que
a prática esportiva propriamente dita. Tendências como o incentivo à criação de equipes femininas, campanhas de
conscientização ou apoio a causas sociais permeiam o cenário esportivo como segmento de promoção através do
esporte para ideias e valores que determinadas marcas ou instituições optam por promover.
Descrição da Imagem: Marta, atleta que utiliza sua visibilidade enquanto jogadora de futebol para reivindicar causas como a diferença salarial
entre o futebol masculino e o feminino.
119
Posto a associação do marketing no cenário esporti- nais pagos de programação exclusivamente esportiva e
vo nacional, é preciso pensar em como utilizar/fazer o do sistema pay-per-view, em que o cliente paga para ver
marketing esportivo acontecer na gestão esportiva. O um conteúdo específico (SEGATELLI; LIMA, 2016).
gestor já trabalha com ações de marketing, mesmo que Atualmente a televisão ainda ocupa papel fundamental
ele não reconheça que seja uma ação estratégica. Pode- para o marketing esportivo e demonstra ser um segmento
mos citar, entre as ações mais comuns, os patrocínios já consolidado, no entanto, nos últimos anos, a internet vem
com exposição da marca dos patrocinadores nos locais abrindo novas oportunidades de mídia, tornando-se mais
de competição e uniforme dos atletas, e muito provavel- barata para muitas marcas e também mais acessível para
mente essa seja a estratégia mais comum em que o pa- que a própria instituição esportiva consiga trabalhar com
trocinador paga para ter sua marca exposta. Os eventos suas estratégias de divulgação da marca da instituição.
seguem essa lista de ações e, possivelmente, estão entre
as principais estratégias de divulgação da equipe e seus
patrocinadores, e quando menciono eventos, me refiro a PENSANDO JUNTOS
instituições menores e de função pública ou social. Como na internet um canal promissor para divulgação de sua
marca e dos patrocinadores, além de ser uma forma de
a realidade do cenário brasileiro ainda é da maioria de
tornar ainda mais forte o vínculo com o torcedor.
instituições com uma gestão frágil ou em processo inicial
de profissionalização, é importante abordarmos temas
que orientem o trabalho para essa profissionalização. So- O processo de compreender que a instituição (equipe/
bre o tema de marketing esportivo, quais são as ações que clube/time) deve ser considerada uma marca abre di-
podem ser aplicadas como estratégia de marketing para a versas possibilidades para ‘explorar a marca’ da própria
instituição? Como fazer o marketing esportivo acontecer instituição. No exemplo do futebol – mas que pode ser
no esporte amador, de formação e social? utilizado para as demais modalidades –, Santos (2014,
Os meios de comunicação como jornais, revistas, te- p. 2) afirma que “os clubes do país estão cada vez mais
levisão e internet ainda não os maiores meios de divul- criando estratégias e ações de marketing, pois estão en-
gação da indústria esportiva no Brasil, inclusive o rádio xergando uma grande oportunidade de valorizar suas
ainda tem seu papel fundamental na divulgação esporti- marcas e conseguir recursos, junto às empresas que pa-
va, inclusive em escalas menores, como no esporte ama- trocinam o esporte e também com aproximação de seus
dor. A televisão teve um destaque notável a partir dos torcedores”. O licenciamento de produtos exclusivos da
anos de 1980, além dos programas esportivos diários e equipe e os programas de sócio torcedor são exemplos
semanais nos canais de TV abertos, também foi notável simples de exploração da marca da equipe como uma
o avanço da mídia esportiva com o surgimento de ca- fonte de renda para a instituição.
120
EDUCAÇÃO FÍSICA
O marketing esportivo, ao associar a imagem do atleta, do clube e do esporte em geral à marca, produto e nome da
empresa patrocinadora, torna-se um elemento decisivo na estratégia de valorização, divulgação e, se necessário, reju-
venescimento da marca/produto. Ao assim proceder, o esporte contribui para preservar o que há de mais importante
para qualquer empresa nos dias atuais: a sua imagem (MELO NETO, 1995, p. 26).
A citação de Melo Neto, publicada em 1995, atualmente pode ser estendida para a atuação da própria instituição
esportiva. O que antes era pensado apenas pela empresa patrocinadora, agora é pensado pelo próprio clube/equipe/
time, pois os meios de divulgação tornaram-se mais acessíveis e o torcedor passa a ser compreendido como um con-
sumidor dos eventos, dos produtos licenciados, dos benefícios dos programas de sócio torcedor e do vínculo com a
instituição que a torna interessante aos patrocinadores.
Surgem novos caminhos para o marketing esportivo, mas não se esquecem as antigas ações que apenas atualizam-se
conforme os anos apresentam novas alternativas de mercado como os próprios patrocinadores, os eventos e anúncios.
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121
Novos caminhos começam a ser explorados visando a divulgação da marca a partir do segmento de promoção esportiva,
como o surgimento de influenciadores digitais no cenário esportivo e também de ações sociais realizadas por atletas
e suas instituições esportivas. A promoção de ideias e valores atrelados a marca da instituição vem recebendo grande
atenção como estratégia de marketing, pois coloca a instituição em evidência e, consequentemente, seus patrocinadores
e produtos próprios também. Neste ponto, podemos voltar a frisar a ideia proposta por Melo Neto (1995) em relação à
preservação da imagem da instituição (esportiva ou do patrocinador).
EXPLORANDO IDEIAS
A tradução literal para BRANDED CONTEND é “conteúdo da marca”, ação de marketing quem vem aparecendo com fre-
quência no cenário esportivo brasileiro, com vistas a promover determinado produto ou marca. Como exemplo dessa
ação, recentemente, uma empresa de Gás patrocinadora de uma equipe de Basquete do NBB utilizou o jogo para promo-
ver um novo produto de entrega rápida de botijão de gás. Em resumo, uma empresa sem finalidade esportiva apostou na
visibilidade de um jogo de basquete para promover seu produto, alicerçando a parceria da instituição esportiva com seu
patrocinador através de uma ação de marketing.
O marketing esportivo dentro das instituições acompanha o avanço da profissionalização da gestão esportiva. Lima et.
al (2016), em pesquisa sobre o futebol paulista, relatam algumas ações que estão auxiliando no avanço do marketing
esportivo e da profissionalização da gestão dos clubes nacionais, como a revitalização de antigos estádios para even-
tos esportivos internacionais (como Copa das Confederações em 2013 e a Copa do Mundo de 2014) promovida por
alguns clubes, que investiram em grandes reformas mesmo sem terem seus estádios utilizados pelos eventos, como
o Grêmio e o Palmeiras. Outra ação importante abrange diretamente a profissionalização da gestão esportiva com a:
[...] contratação de profissionais especializados para dirigir o departamento de marketing dos clubes brasileiros, a
exemplo do que já acontece nos clubes europeus, ampliando sua fonte de receita, o que permite, inclusive, a manuten-
ção ou o retorno de alguns dos melhores atletas para os times nacionais (LIMA, et. al. 2016, p. 182).
122
EDUCAÇÃO FÍSICA
A Confederação Brasileira de Voleibol é considerada uma das pioneiras no trabalho com o marketing esportivo,
a partir do vínculo de suas equipes e competições com empresas privadas e da profissionalização de sua gestão. Ao
analisar a gestão da confederação, Almeida et. al. (2012, p. 159) reforçam a importância da profissionalização da gestão
nos resultados comerciais e de desempenho da modalidade:
[...] observou-se inicialmente a reformulação interna, com a contratação de profissionais especialistas tanto de áre-
as mais técnicas da modalidade quanto gerenciais, para que os resultados obtidos chamassem a atenção e fossem
potencializados nos meios midiáticos e de patrocínio [...] Após esses primeiros impulsos, as melhores condições de
treinamento e salários possibilitaram a conquista de resultados esportivos cada vez maiores, que tinham visibilidade e
atraíam gradativamente novos investidores.
Outro estudo relevante que relaciona a gestão da instituição com o desempenho da equipe e suas ações de marketing
está relacionado ao Basquetebol. A Liga Nacional de Basquete vem tentando remodelar a gestão esportiva do basquete
brasileiro e o cenário da modalidade no país, buscando resgatar a sua prática e prestígio. Minotti et. al. (2015) realizaram
um estudo comparativo entre as estratégias de marketing utilizadas pela Liga de Basquete Norte Americana (NBA) e a
brasileira (LNB) a partir dos grupos de interesses (stakeholders) e dentro desse estudo é possível identificar as diferenças
comparativas entre as instituições, que influenciam diretamente nos objetivos e resultados de cada instituição.
Comparativo entre NBA e LNB em relação aos seus principais Stakeholders.
Quadro 1. Quadro comparativo entre NBA e LNB em relação aos seus principais Stakeholders / Fonte: Minotti, et. al. 2015, p. 110.
123
Diferente do futebol, que já possui historicamente muita visibilidade e mídia, outras modalidades esportivas necessi-
tam de alto rendimento e bons resultados para obter notória visibilidade e assim alcançar maior espaço midiático. Os
exemplos da Confederação Brasileira de Voleibol e da Liga Nacional de Basquete nos mostram essa realidade do cená-
rio nacional, em que muitas vezes é preciso alcançar primeiro uma notoriedade para conseguir maiores patrocínios e
investimentos. É nesse processo que a profissionalização da gestão esportiva e um planejamento estratégico torna-se
fundamental para que os objetivos sejam alcançados.
Se a minha equipe não consegue patrocínio por ter pouca visibilidade, como eu posso buscar essa visibilidade
por outro caminho que não seja a televisão? Investir em publicidade impressa? Investir em mídia digital? Investir
em transmissões online? Investir no relacionamento com o torcedor? Muitas são as questões para orientar um
planejamento voltado ao marketing de uma instituição esportiva.
Assim como em todos os segmentos de mercado, muitas vezes é preciso ir até o ‘cliente’ que seriam os torcedores/
consumidores e patrocinadores. É preciso conhecer o seu público para saber o que ofertar ou até mesmo saber como
tornar o seu produto desejado por ele. No cenário esportivo, Gonçalves (2021, p. 186) reforça que:
Em termos de esporte, primeiramente é preciso considerar que a concorrência é muito grande, razão pela qual se
torna mais visual a comparação por parte do cliente e a rotatividade de clientela. Contudo, o esporte também traba-
lha com sentimentos e emoções, fatores que possibilitam facilmente a fidelização do cliente. Por exemplo, não vemos
adultos trocarem o time de futebol pelo qual torcem, pois essa decisão está ligada ao sentimento e às emoções.
Além da alta visibilidade, o esporte também enaltece sentimentos de pertencimento, paixão e rivalidade e esses senti-
mentos muitas vezes acabam sendo incorporados em ações de marketing. Dentro desta perspectiva, Lima et al. (2016,
p. 186) reforçam tal ideia ao afirmar que uma gestão eficaz pode levar as instituições a obterem “um processo de su-
cesso e de geração de receita, já que o que se vende são todos os aspectos intangíveis associados a ele como a emoção,
o entretenimento, o prazer de ‘pertencer’”, alinhado a um momento de distração que o tira da rotina do dia-a-dia.
Uma ferramenta importante que podemos utilizar nesse processo de estruturar as ações de marketing da ins-
tituição é um Plano de Marketing, que a literatura administrativa divide em etapas de planejamento, implementa-
ção e controle. De acordo com Kotler (2005) o plano de marketing é um importante instrumento para direcionar
e coordenar as ações que serão realizadas, e esse plano deve ser monitorado durante todo o seu processo para agir
com ações corretivas se necessário.
EXPLORANDO IDEIAS
Um Plano de Marketing é uma ferramenta muito parecida com o Planejamento Estratégico e com a Elaboração de Projetos
Esportivos que já conhecemos nesta disciplina. Seu ciclo segue a ordem: planejamento, implementação e controle. Dentro
desse processo, alguns pontos precisam ser destacados como: análise inicial da situação, definição de público-alvo, obje-
tivos específicos da ação, estratégias e táticas que serão utilizadas, orçamento necessário e formas de controle da ação.
124
EDUCAÇÃO FÍSICA
A utilização dessa ferramenta baseia-se na elaboração ma forma que um atleta ao cometer uma ação negativa
de um projeto para utilizá-la, projeto esse que deve es- perante a sociedade carrega essa crítica também para a
tar presente no planejamento estratégico da instituição. instituição esportiva a qual ele está vinculado.
Assim como o plano de marketing, durante nossa dis- O esporte não necessita da mídia para o seu desen-
ciplina conhecemos algumas ferramentas administrati- volvimento ou existência, as instituições sim. No que
vas que podem nos auxiliar no trabalho com a gestão tange o aspecto financeiro, claro. Gosto de pensar que
esportiva. Em síntese, são ferramentas para organizar o é a mídia que tem mais dependência do esporte, devido
trabalho. Quando temos a definição dos objetivos que ao volume de conteúdo que ele proporciona e o vínculo
buscamos, fica mais fácil procurar os caminhos corretos que ele mantém com os seus consumidores. Quando a
e aproveitar as oportunidades que surgem. instituição esportiva compreende essa lógica de depen-
É preciso conhecer o propósito de uma institui- dência, é que conseguimos avançar em termos de estra-
ção esportiva, estabelecer objetivos, planejar ciclos e tégias de marketing e gestão esportiva.
como o trabalho será conduzido durante esse perío-
do, elaborar pequenos e grandes projetos, conquistar
credibilidade através do trabalho bem desenvolvido e
conquistar incentivadores e investidores (torcedores,
consumidores e patrocinadores).
A responsabilidade junto às ações e estratégias de marke- A partir do conteúdo abordado até aqui sobre a relação da
ting utilizadas pelas instituições esportivas influenciam grande visibilidade obtida pelo esporte e sua associação
diretamente na imagem da própria instituição (mui- com a publicidade, pesquise uma instituição esportiva de
to mais na instituição do que no próprio patrocinador sua cidade (associação, clube, equipe municipal) e identi-
que está motivando a ação). Quem possui a grande vi- fique quais as ações de marketing que ela utiliza (publici-
sibilidade é a instituição esportiva: no caso negativo da dade em uniformes, placas publicitárias, redes sociais, en-
ação, certamente as críticas serão mais direcionadas ao tre outras). Após uma identificação prévia, elenque uma
esporte por estar envolvido com diferentes sentimentos lista de possibilidades de ações que poderiam impulsio-
que extrapolam a relação marca/consumidor. Da mes- nar ainda mais a visibilidade da instituição.
125
atividades de estudo
1. A partir do conteúdo estudado, sobre a conceitualização de marketing esportivo, é correto o que se afirma em:
a. O marketing esportivo acontece por meio da propaganda realizada em eventos esportivos.
b. O marketing esportivo acontece quando são utilizadas estratégias que envolvam o esporte como ferra-
menta de marketing de determinada empresa.
c. O marketing esportivo acontece através do vínculo entre torcedor e empresa.
d. O marketing esportivo é desenvolvido a partir da relação de proximidade entre atleta e torcedor para
consumir determinado produto que é ofertado.
e. O marketing esportivo ainda é uma ação que não ocorre no cenário brasileiro devido à pouca profissio-
nalização da gestão das instituições esportivas.
3. Se entendermos que “o marketing esportivo é uma importante fonte de fortalecimento de uma mar-
ca” e “a marca é uma variedade de elementos que identificam produtos e serviços, e os diferencia da
concorrência” (SEGATELLI; LIMA, 2016, s/p), quais objetivos as instituições esportivas podem alcançar
visando a promoção de sua marca?
I. fortalecimento da imagem (atleta, produto ou empresa).
II. conferir credibilidade à marca e ou imagem.
III. retorno de mídia espontânea.
IV. troca de mercado e público-alvo.
126
atividades de estudo
4. Sobre o esporte como segmento de mercado, leia com atenção o trecho a seguir:
“[...] o produto central – espetáculo esportivo – vem sendo ampliado e uma gama de novos produtos e
serviços colaterais vêm sendo oferecidos aos consumidores do esporte (torcedores, fãs, atletas, partici-
pantes e praticantes de esporte, entre outros), gerando novas fontes de receitas. Direitos de Transmissão,
patrocínios e publicidade, rede de lojas, licenciamento e franquias, entre outros. Os clubes cada vez mais
precisam diversificar sua geração de receita para depender cada vez menos de fontes já consolidadas,
como arrecadação com os jogos, por exemplo” (LIMA, et. al. 2016, p. 186).
Assinale a alternativa que corresponde ao entendimento do segmento de produção esportiva:
a. Comercialização de produtos para a prática esportiva.
b. Propagação de ideias e valores a partir do esporte.
c. Publicidade e propaganda direcionada a eventos esportivos.
d. Material audiovisual contendo o esporte como tema central.
e. Produção acadêmica de estudos voltados ao esporte.
5. O trabalho com a imagem do patrocinador e também da instituição esportiva é uma das principais
preocupações no momento de pensar em estratégias de visibilidade, uma vez que no momento que
ocorre a associação entre marca da instituição e patrocinador, essa associação “torna-se um elemento
decisivo na estratégia de valorização, divulgação e, se necessário, rejuvenescimento da marca/produ-
to” (SANTOS, 2014, p. s/p). Leia com atenção e assinale a alternativa que melhor corresponde à relação
de imagem da marca para o marketing esportivo:
a. A imagem priorizada nessa associação é a promoção da modalidade esportiva.
b. Os atletas não são considerados peças importantes no trabalho de divulgação das marcas.
c. A marca do patrocinador possui prioridade na divulgação das ações.
d. Ambas as marcas devem ser valorizadas para agregar valores e credibilidade.
e. A associação deve visar o fortalecimento da marca da instituição esportiva que de fato é a promotora da ação.
127
gabarito
128
gabarito
4. B. A sequência correta para a execução do Ci- 3. C - A afirmação III está incorreta, pois são con-
clo de Deming inicia-se no planejar, executar, siderados materiais tudo aquilo que é utiliza-
verificar e agir. do para que o evento aconteça, desde material
5. Todos os recursos são importantes para o de escritório até bolas, placar, rede e demais
desenvolvimento do planejamento. Os recur- materiais esportivos. Ginásios, quadras, pis-
sos humanos estão entre os fundamentais. cinas, refeitórios e alojamentos são espaços
Uma equipe capacitada consegue estruturar utilizados, que demandam diferentes aten-
ações com os demais recursos disponíveis e ções e devem ser de responsabilidade de uma
adequar o planejamento à realidade da insti- comissão própria para atender as demandas
tuição. Além dos recursos orçamentários pre- dos espaços utilizados nos eventos. As demais
vistos em lei, as organizações públicas podem afirmações estão corretas.
buscar investimentos financeiros através de 4. B - O Project Model Canvas apresenta como
patrocínios diretamente com empresas incen- possibilidade de trabalho as etapas de conce-
tivadoras e parcerias com outras instituições ber, integrar, resolver e compartilhar.
como convênios entre governos federal, esta- 5. Espera-se que o aluno seja capaz de formular
dual e municipal. resposta semelhante a:
Torneio Bom de Bola:
UNIDADE 4 Evento destinado a equipes de Futsal mascu-
lino e feminino com faixa etária até 17 anos
1. A - Deve-se considerar o número de equi- que estejam matriculadas em instituições de
pes indicadas, assim, o número de rodadas ensino da rede pública. Regulamento Técnico:
será sempre igual à do expoente da potên- o torneio será realizado em duas fases, sendo
cia de 2 que seja igual ou imediatamente a primeira disputada em Sistema de Rodízio
superior ao do número de participantes, em 2 grupos, classificando as duas primeiras
nesse caso 2³; e, considerando que uma equipes de cada grupo para os jogos semifi-
equipe não participa da primeira rodada, nais. Na fase de grupos cada vitória soma 3
até a final teremos 6 jogos. pontos, empate 2 pontos e derrota 1 ponto.
2. C - Apenas a última afirmação é considerada Exemplo: Competição com 5 equipes masculi-
falsa, uma vez que todos os participantes da nas e 5 equipes femininas, disputada em for-
competição devem ter acesso direto ao regu- mato de rodízio, com uma equipe isenta a cada
lamento para que consigam atender aos deve- dia. Classificam para a segunda fase os dois pri-
res dos participantes e estarem cientes tam- meiros classificados de cada grupo, realizando
bém de seus direitos. a semifinal entre si e final entre grupos:
129
gabarito
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gabarito
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