Miss Lucy R.
30 anos
Inglesa
Governanta
Sofria de uma rinite supurativa
Rinite supurativa = dificuldade de sentir odores – bactéria que impede de sentir
cheiro.
Como se verificou mais tarde, a causa da tenacidade de seus transtornos era uma cárie
do etmoide = O osso etmoide - é um osso único e mediano que, juntamente com o
frontal, os parietais, os temporais, o occipital e o esfenoide, contribui para formar a
cavidade craniana e a cavidade nasal. Fica no centro do crânio articulado com
quinze ossos.
Foi encaminhada por um colega a Freud, quando surgiu novos sintomas, e sem alteração
patológica no corpo/ atribuiu a uma anormalidade psíquica.
Havia perdido por completo a percepção do olfato e era perseguida quase continuamente por
uma ou duas sensações olfativas subjetivas que muito a afligiam. Além disso, sentia-se
deprimida, cansada, queixava-se de cabeça pesada e de apetite e vigor diminuídos.
O abatimento do ânimo era talvez o afeto que tinha relação com o trauma, e devia ser possível
encontrar uma vivência em que esses odores, agora tornados subjetivos, tivessem sido
objetivos.
E após fazer essa relação, Freud pergunta a ela sobre que tipo de odor a perseguia com mais
frequência, e ela responde: “Como o de torta queimada”.
Assim, Freud supõem que o odor de torta queimada realmente ocorrera no episódio de efeito
traumático.
Ele resolve então fazer do odor de “torta queimada” o ponto de partida da análise.
Miss Lucy R. não entrou em estado sonambúlico quando tentei hipnotizá-la. Então renunciei
ao sonambulismo e fiz toda a análise tendo-a num estado talvez pouco diferente do normal.
Que foi inspirado em Berheim, um hipnotizador francês que ao hipnotizar uma paciente e
induzir certos comportamentos por sugestão, despertava-a e a interrogava acerca de seu
comportamento durante o estado hipnótico. Como era esperado, a paciente afirmava não se
lembrar de nada. E Berheim insistia e assegurava-lhe que se recordaria de tudo, e colocando a
mão sobre a testa da paciente eis que tudo era despertado! Assim, contrariando todas as
expectativas, a paciente mostrava-se capaz de recordar, em vigília, as vivências ocorridas no
estado de sonambulismo hipnótico.
Freud pedia que o paciente se deitasse e fechasse os olhos (simulando uma hipnose), alegando
que isto o ajudaria a concentrar-se melhor. Aos poucos percebeu que a resistência
apresentada pelos pacientes tinha a mesma origem da própria neurose. Tornou-se claro um
processo de defesa, que ocorria devido ao sofrimento psíquico que estas lembranças
esquecidas traziam para a consciência.
Conforme o Dicionário de Psicanálisede Roudinesco (1998), o método catártico é o
procedimento terapêutico pelo qual um sujeito consegue eliminar seus afetos
patogênicos e, então, ab-reagi-los, revivendo os acontecimentos traumáticos a eles
ligados. A fala é o meio pelo qual estes afetos são eliminados.
No modelo da divisão da consciência, a lembrança patogênica é um "corpo
estranho", expressão utilizada várias vezes por Freud e Breuer, tal como um vírus que
adentra o corpo do doente. Dele o paciente nada sabe ou recorda, sofrendo seus
efeitos passivamente, não estando implicado no processo.
Posso afirmar que esse esquecimento é com frequência intencional, desejado. E é sempre bem-
sucedido apenas de forma aparente.
A conclusão que tirei de todas essas experiências foi que os acontecimentos importantes do
ponto de vista patogênico, com todas as suas circunstâncias acessórias, são fielmente
conservados pela memória, mesmo quando parecem esquecidos, quando falta ao doente a
capacidade de recordá-los
Freud pergunta se ela lembrava em que ocasião havia surgido a sensação do cheiro de torta
queimada. “Oh, sim, isso sei com precisão.
Foi há cerca de dois meses, dois dias antes do meu aniversário. Estava com as crianças no
quarto de estudos e brincava com elas (duas meninas) de cozinhar, quando trouxeram uma
carta que o carteiro havia acabado de entregar. Ela reconheceu pelo selo e pela caligrafia que
a carta era da mãe dela.
Mas as crianças não a deixaram abrir alegando que ela só abriria no seu aniversario e
enquanto isso se espalhou um odor intenso, era a torta que estava cozinhando e queimou,
desde então o odor a persegue, na verdade está sempre com ela principalmente quando ela
estava inquieta.
Freud pergunta se ela ve essa cena com nitidez, ela responde:
— “Palpável, como a vivi.”
— “O que pôde perturbá-la tanto nesse episódio?”
— “Comoveu-me o fato de que as crianças fossem tão carinhosas comigo.”
— “Não o eram sempre?” — “Sim, mas justamente quando eu recebia a carta de minha mãe.”
— “Não compreendo em que medida a ternura das pequenas e a carta de sua mãe
produziriam um contraste, ao qual você parece aludir.” —
E ela responde falando que tinha a de viajar para a casa da mãe e afligia o coração abandonar
essas crianças queridas.” —
“O que há com sua mãe? Porventura vive só e mandou chamá-la para junto de si? Ou na época
estava doente e você esperava notícias dela?” — “Não, está adoentada, mas não exatamente
doente e tem consigo uma acompanhante.” —
“Então por que precisava deixar as crianças?”
“E além da ternura que lhe tinham, algo particular ligava-a às crianças?” — “Sim, em seu leito
de morte, havia prometido à sua mãe — uma parente distante da minha — que me dedicaria a
cuidar das pequenas com todas as minhas forças, que não as abandonaria e que substituiria a
mãe junto a elas. Havia quebrado essa promessa ao apresentar minha demissão.”
Mas Freud não se deu por satisfeito com a explicação assim alcançada. Tudo parecia bastante
plausível, mas algo me faltava, um motivo aceitável para que essa série de excitações e esse
conflito dos afetos tivessem que conduzir precisamente à histeria. Por que tudo isso não
permaneceu no terreno da vida psíquica normal? Em outras palavras, o que justificava a
conversão neste caso? Tais questões poderiam ser impertinentes e supérfluas se se tratasse de
uma velha histérica, em quem aquele mecanismo de conversão fosse habitual. Essa garota,
porém, só havia adquirido histeria por ocasião desse trauma ou, ao menos, dessa pequena
história de padecimento.
Ora, pela análise de casos semelhantes, eu já sabia que, para a aquisição de uma histeria, uma
condição psíquica é indispensável, a saber, que uma ideia seja intencionalmente afastada da
consciência e excluída da elaboração associativa. Nessa repressão intencional vejo também o
motivo para a conversão da soma de excitação, seja ela total ou parcial. A soma de excitação,
não devendo entrar em associação psíquica, encontra mais facilmente o caminho errado para
uma inervação corporal. O motivo da própria repressão só podia ser uma sensação de
desprazer, a incompatibilidade da ideia a ser reprimida com a massa de ideias dominante no
Eu. Mas a ideia reprimida vinga-se, tornando-se patogênica.
Assim, do fato de Miss Lucy R. ter sucumbido naquele momento à conversão histérica tirei a
conclusão de que, entre os pressupostos daquele trauma, devia haver um que ela
deliberadamente deixava obscuro, que se empenhava em esquecer.
“Não acredito que essas sejam todas as razões para seu sentimento em relação às duas
crianças; antes presumo que esteja apaixonada por seu patrão, o diretor, talvez sem se dar
conta disso você mesma, e que alimente em si a esperança de ocupar efetivamente o lugar da
mãe. A isso acrescenta-se ainda o fato de ter-se tornado tão suscetível em relação aos
empregados, com os quais convivera pacificamente durante anos. Você teme que eles
percebam algo de sua esperança e zombem de você por isso”
Respondeu: Sim, creio que é isso.” —
“Mas se você sabia que ama o diretor, por que não me disse?”
— “Não o sabia de fato, ou melhor, não queria sabê-lo, queria tirar isso da minha cabeça,
nunca mais pensar a respeito; creio, aliás, tê-lo conseguido nesses últimos tempos.”
Ela conta ainda que uma vez, porém, o senhor sério, super ocupado, em geral sempre
reservado em relação a ela, começou uma conversa sobre as exigências da educação infantil.
Tornou-se mais suave e afável que de ordinário, falou de como contava tanto com ela no
cuidado a suas filhas órfãs e, ao dizê-lo, olhou-a de um modo particular… Nesse instante ela
começou a amá-lo e a cultivar a alentadora esperança que nasceu naquela conversa.
O odor de torta queimada não havia desaparecido por completo, mas tornara-se mais raro e
mais brando; como ela dizia, ele vinha apenas quando estava muito inquieta.
A persistência desse símbolo mnêmico me fez supor que, além da cena principal, ele passara a
representar os traumas secundários muitos pequenos. Assim, investigamos tudo o mais que
pudesse estar relacionado à cena da torta queimada, repassamos o tema dos atritos
domésticos entre outros. Com isso, a sensação do cheiro de queimado foi desaparecendo cada
vez mais.
Ficou um período afastada do tratamento pois descobriu uma afecção no nariz e quando voltei
a lhe perguntar sobre o cheiro de torta queimada, informou que havia desaparecido por
completo, porém incomodava-a outro cheiro semelhante, que parecia fumaça de charuto.
Esse também estivera presente antes, mas como que encoberto pelo odor da torta.
Dessa vez, porém, ela não sabia de onde provinha a sensação subjetiva do olfato, em que
ocasião importante ela fora objetiva. “Fuma-se todos os dias em nossa casa”, ela disse,
“realmente não sei se o odor que sinto representa uma ocasião especial.”
Insisti então em que, sob a pressão de minha mão, tentasse se lembrar.
De fato, sob minha instância, emergiu uma imagem.
“Agora estamos todos sentados em volta da mesa: os senhores, a francesa, a governanta, as
crianças e eu. Mas é como em todos os dias.” — “Apenas continue a olhar para a imagem, ela
vai se desenvolver e ficar mais específica.” — “Sim, há um convidado, o contador chefe, um
velho senhor que ama as crianças como se fossem seus próprios netos, mas ele vem com
muita frequência para o almoço, isso também não é nada especial.” — “Apenas tenha
paciência e olhe para a imagem, algo seguramente acontecerá.” — “Nada acontece. Nós nos
levantamos da mesa, as crianças devem se despedir e em seguida, como todos os dias, sobem
conosco ao segundo andar.” — “Então?” —
“De fato, é mesmo uma ocasião especial, agora reconheço a cena. Quando as crianças se
despedem, o contador-chefe quer beijá-las. O patrão se exaspera e gritando ‘Não beije as
crianças!’. Isso me dá uma pontada no coração e, como os senhores já fumavam, ficou na
memória a fumaça dos charutos.”
“Por que então sentiu uma pontada no coração no momento da rejeição se não foi dirigida a
ela
“Não foi certo tratar um velho senhor, que é um amigo querido e, além do mais, um
convidado.
Pode-se dizer aquilo com tranquilidade.” —
“Então foi apenas a expressão violenta de seu patrão que a feriu? Talvez tenha se
envergonhado por ele ou pensado: se por uma tal insignificância pode ser tão violento com um
velho amigo e convidado, como não seria comigo, se eu fosse sua mulher?” —
“Não, não é isso.” — “Mas, de qualquer forma, foi por causa da violência?” — “Sim, por causa
do beijo nas crianças, ele jamais gostou disso.” —
E nesse momento, sob a pressão de minha mão, volta a emergir a lembrança de uma cena
ainda mais antiga, que era o trauma na verdade atuante e que também havia emprestado
eficácia traumática à cena com o contador-chefe. Uma senhora amiga foi visitá-los e, ao
despedir-se, beijara as duas crianças na boca.
O pai, que estava presente, conteve-se muito bem para não dizer nada à dama, porém,
quando ela partiu, sua fúria irrompeu sobre a infeliz. Declarou-lhe que a responsabilizaria se
alguém beijasse as crianças na boca, que era sua obrigação não tolerar isso e que isso
voltasse a ocorrer, ele confiaria a educação das crianças a outras mãos. Era a época em que
ela ainda se acreditava amada e esperava por uma repetição daquela primeira conversa
amigável. Essa cena minou suas esperanças. Disse a si mesma: “Se por um assunto tão
pequeno em que, além do mais, sou completamente inocente, ele pode exasperar-se comigo
desse modo e fazer-me tais ameaças, então me enganei, ele nunca teve por mim um
sentimento mais cálido; este lhe teria ensinado a mostrar consideração”. Foi evidentemente
a lembrança dessa cena penosa que lhe veio, quando o contador-chefe quis beijar as crianças e
o pai o repreendeu.
Quando, dois dias depois dessa última análise, Miss Lucy voltou a me visitar, tive de perguntar
o que aconteceu, ela parecia transfigurada, sorria e trazia a cabeça erguida. Ontem pela
manhã, ao despertar, a pressão havia desaparecido, e desde então me sinto bem.” — “E o que
pensa de suas perspectivas na casa?” — “Estou claramente ciente de que não tenho nenhuma
e não ficarei infeliz por isso.” — “E agora você se entenderá com as pessoas da casa?” —
“Creio que a maior parte do que houve se deveu à minha suscetibilidade.” — “E você ainda
ama o diretor?” — “Amo-o, seguramente, mas isso já não me perturba. Posso pensar e sentir
comigo mesma o que quiser.”
Examinei então seu nariz e encontrei sua sensibilidade à dor e reflexa quase inteiramente
restabelecida. Também distinguiu odores, mas insegura e apenas quando eram mais intensos.
Todo o tratamento se estendera-se por nove semanas. Quatro meses mais tarde, encontrei
casualmente a paciente numa de nossas estâncias de verão. Ela estava alegre e confirmou a
persistência de seu bem-estar.
Corresponda a uma histeria leve e pequena e tenha poucos sintomas.
Sua histeria, portanto, pode ser designada como adquirida e não pressupõe nada além da
aptidão, provavelmente muito disseminada, para… adquirir histeria, aptidão essa que ainda
não sabemos caracterizar. Em tais casos, a ênfase principal recai sobre a natureza do trauma,
em combinação, naturalmente, com a reação da pessoa a ele. Revela-se condição
imprescindível à aquisição da histeria que se produza uma relação de incompatibilidade entre
o Eu e uma ideia que dele se aproxima.
A terapia consistiu, aqui, na coação que impôs a união do grupo psíquico separado com a
consciência do Eu. Estranhamente, o êxito não seguiu paralelamente à extensão do trabalho
realizado; apenas quando o último fragmento foi resolvido sobreveio de repente a cura.