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Gramática da Língua Brasileira de Sinais

O documento discute a história e a gramática da Língua Brasileira de Sinais (Libras). Apresenta como a Libras possui uma estrutura gramatical própria, diferente da língua portuguesa, com elementos como fonologia, morfologia e sintaxe. Brevemente descreve a evolução histórica do tratamento de surdos ao longo dos séculos e o desenvolvimento de métodos de educação.
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Gramática da Língua Brasileira de Sinais

O documento discute a história e a gramática da Língua Brasileira de Sinais (Libras). Apresenta como a Libras possui uma estrutura gramatical própria, diferente da língua portuguesa, com elementos como fonologia, morfologia e sintaxe. Brevemente descreve a evolução histórica do tratamento de surdos ao longo dos séculos e o desenvolvimento de métodos de educação.
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Alexandre Morand Góes Kathryn Marie Pacheco Harrison

Ana Cláudia Balieiro Lodi Lara Ferreira dos Santos


Cristiane Satiko Kotaki Maria Cecília de Moura
Cristina Broglia Feitosa de Lacerda Mariana de Lima Isaac Leandro Campos
Juliana Fonseca Caetano

Língua brasileira de
sinais – Libras
uma introdução

2011
Alexandre Morand Goes
Mariana de Lima Isaac Leandro Campos

CAPÍTULO 4

Aspectos da gramática da língua brasileira de sinais


Este capítulo tem como objetivo apresentar a gramática da língua brasilei-
ra de sinais (Libras); embora essa língua exista há anos em nosso país, somen-
te foi reconhecida em 2002, por meio da Lei Federal nº 10.436, de 24 de abril de
2002 (BRASIL, 2002). A comunidade surda ficou muito feliz pela conquista do
reconhecimento linguístico de sua língua, já que a sociedade ouvinte banalizou
a língua de sinais e ridicularizou os surdos por serem diferentes durante muito
tempo. Os surdos, por muitos anos, foram obrigados a ser oralizados e “norma-
lizados” para que pudessem ser incluídos na sociedade. Libras foi a sigla criada
por um grupo de estudos linguísticos do Brasil, que participou da regulamen-
tação da língua para pessoas surdas em nosso país. Outros países têm suas
próprias siglas de nacionalização das línguas de sinais, como por exemplo: ASL
(American Sign Language), LSF (La Langue de Signes Français), LSA (Língua
de Senhas Argentina), entre outras.

A língua de sinais não é universal e cada país tem a sua própria, como
acontece com as línguas orais: a língua portuguesa, a língua inglesa, a língua
espanhola, a língua alemã. Vale lembrar que a Libras não é a tradução da
língua portuguesa, ou seja, não se trata de realizar o português sinalizado;
a Libras é uma outra língua com gramática e características próprias. O portu-
guês sinalizado foi difundido na década de 1970 pela filosofia do bimodalismo/
comunicação total, cujo objetivo era utilizar os sinais como ferramentas para o
aprendizado da língua majoritária e recurso para o desenvolvimento da leitura e
escrita, não assumindo a língua de sinais como língua com estrutura gramatical
própria e parte de uma cultura surda.

A língua brasileira de sinais possui uma estrutura gramatical própria com


todos os elementos constitutivos da estrutura gramatical presente nas demais
línguas orais. A gramática da Libras não é uma adaptação da gramática da língua
portuguesa. Têm-se níveis linguísticos que também fazem parte da língua de
sinais que são: a fonologia, a morfologia, a sintaxe, a semântica, a pragmática.

Nas línguas orais-auditivas existem as palavras (estruturas mínimas de


significação), e nas línguas de sinais também existem os itens lexicais, que
recebem o nome de sinais. A diferença encontra-se na sua modalidade de arti-
culação, que é visual-espacial. Para a comunicação em Libras não basta ape-
nas conhecer os sinais, sendo fundamental conhecer a sua gramática própria,
usada de acordo com o contexto das expressões pretendidas.

Os sinais diferenciam-se por parâmetros como as configurações de mão,


os movimentos, os pontos de articulação (locais no espaço ou no corpo onde
são feitos), as orientações de mão e as expressões não manuais, os quais,
juntos, compõem as unidades básicas dessa língua. Assim, a Libras apresenta-
se como um sistema linguístico que permite a transmissão de ideias e fatos,
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oriunda de comunidades de pessoas surdas do Brasil. Como em qualquer língua,
também se verificam diferenças regionais, portanto deve-se ter atenção às
variações linguísticas. Então, a Libras possibilita a expressão de qualquer
pensamento, bem como apresentar diversidade de expressões em quais-
quer áreas de estudos, tais como: literatura e poesia, piadas, filosofia, elemen-
tos técnicos, etc.

Destaca-se também que a gramática da língua de sinais pode sofrer varia-


ções a depender do contexto comunicativo: formal, informal, regional e padro-
nizado. A Libras é, portanto, uma língua utilizada pelos surdos como forma de
comunicação visual-espacial.

Sendo a língua natural das pessoas surdas, a Libras é parte da cultura


das comunidades surdas. São consideradas línguas artificiais aquelas inven-
tadas por um determinado grupo para um propósito específico, para comuni-
cação internacional, por exemplo. No caso das línguas de sinais, foi criado o
Gestuno, conhecido como um sistema de sinais internacionais – mencionado
em um Congresso Mundial da Federação Mundial de Surdos em 1951 – e que
vem sendo utilizado em eventos internacionais para facilitar a comunicação en-
tre surdos de vários países.

Histórico da língua de sinais

Pretende-se aqui mostrar a evolução histórica da língua de sinais, a partir


das diferentes visões em relação a essa língua e também aos surdos, em di-
versos lugares do mundo; para tal será usada como referência básica a obra de
Strobel (2008).

A língua de sinais já existia antes de Cristo e está presente em muitas


histórias no mundo todo, desde tempos remotos até os dias de hoje. Na Idade
Antiga, 476 d.C. em Roma, as pessoas surdas eram castigadas ou enfeitiçadas,
e a questão da surdez era resolvida por abandono ou com a eliminação física
– os surdos eram jogados no rio Tevere. Apenas sobreviviam aqueles que con-
seguiam sair do rio ou eram escondidos por seus próprios pais. A partir daí os
surdos tornavam-se escravos de senhores ouvintes, sendo obrigados a passar
toda a vida dentro de moinhos de trigo realizando trabalhos braçais.

Nessa mesma época, no Egito e na Pérsia, os surdos eram considerados


criaturas privilegiadas, enviados dos deuses, pois o povo acreditava que os sur-
dos se comunicavam em segredo com os deuses. Muitos surdos tinham uma
vida inativa e não eram educados devido a sua forma de comunicação diferente,
a qual a sociedade desconhecia e não tinha domínio.
66
Na Idade Média, na Grécia, os surdos eram proibidos de receber a co-
munhão, pois eram incapazes de confessar os seus pecados; havia também
decretos bíblicos que proibiam o casamento de duas pessoas surdas, a menos
aqueles que recebiam favor do Papa.

Ainda em 530 d.C., na Itália, encontram-se relatos de que os monges be-


neditinos empregavam uma forma de sinais para comunicação entre si, a fim de
não violar o rígido voto de silêncio.

Na Idade Moderna, século XVI, o médico e filósofo italiano Girolamo


Cardano, interessado em estudar o caso do seu filho surdo, reconheceu
as habilidades do surdo e afirmou que a surdez e a mudez não impediam o
desenvolvimento da aprendizagem. Cardano ainda defendia que o melhor
método para os surdos aprenderem era por meio da escrita, pois para ele era
um crime não instruir um surdo-mudo. Ele utilizava a língua de sinais e a escrita
com os surdos.

Na Espanha, Pedro Ponce Leon estabeleceu um método formal para a


educação de surdos em um monastério de Valladolid. Inicialmente ensinava la-
tim, grego e italiano, conceitos de física e astronomia a dois irmãos surdos,
Francisco e Pedro Velasco, membros de uma importante família de aristocratas
espanhóis. Francisco conquistou o direito de receber a herança como marquês
de Berlanger e Pedro se tornou padre com a permissão do Papa. Ainda, Pedro
Leon criou métodos para educar surdos por meio de datilologia, escrita e ora-
lização e criou também uma escola para professores surdos. Após sua morte
não houve publicação e seu método caiu no esquecimento, pois a tradição na
época era guardar segredo sobre os métodos de educação de surdos.

Em 1613, Fray de Melchor Yebra, de Madrid, escreveu um livro chamado


Refugium Infirmorum, que descreve e ilustra o alfabeto manual. Na Espanha,
Juan Pablo Bonet (1579-1623) iniciou a educação de outro membro surdo da
família Velasco, Dom Luís, por meio de sinais, treinamento da fala e uso de
alfabeto datilológico. Seu método teve tanto sucesso que ele foi nomeado pelo rei
Henrique IV como “Marquês de Frenzo”. Em 1620, em Madrid, na Espanha, Juan
Pablo Bonet publicou o primeiro livro sobre a educação de surdos, Reduccion de
las letras y arte para enseñar a hablar a los mudos, em que expunha o seu método
oral. Bonet defendia também o ensino precoce de alfabeto manual aos surdos.

Em 1648, John Bulwer publicou Philocopus, no qual afirmava que a língua


de sinais era capaz de expressar os mesmos conceitos que a língua oral. Em
1755, na Alemanha, Samuel Heinicke (1729-1790) foi o pioneiro do método do
oralismo puro e teve sucesso no ensino a um jovem que aprendeu a falar, a ler os
lábios e a escrever. Heinicke publicou a obra Observações sobre os Mudos e sobre
a Palavra e fundou, em 1778, a primeira escola de oralismo puro para surdos em 67
Leipzig da Alemanha, que se opunha fortemente à utilização da língua de sinais.
Ficou conhecido como “padre do método alemão”.

Na França, o Abade Charles Michel de L’Epée foi um educador filantrópico


francês do século XVIII que ficou conhecido como “pai dos surdos”. Ele aproxi-
mou-se da comunidade surda que vagava ao redor de Paris e aprendeu a língua
de sinais usada pelos surdos franceses. A partir dessa língua ele criou os ”si-
nais metódicos”, que eram a junção da língua de sinais usada pelos surdos com
alguns sinais criados por ele para facilitar, em sua opinião, o ensino do francês
escrito aos surdos. Assim, foi o primeiro a respeitar em alguma medida a língua
usada por uma comunidade surda e a tentar usá-la nas práticas educacionais.
Ele fundou, em 1760, a primeira escola pública para surdos, o Instituto para
Jovens Surdos e Mudos de Paris, e treinou inúmeros professores para surdos.
Ele publicou um livro sobre o ensino dos surdos e mudos por meio de sinais me-
tódicos: A verdadeira maneira de instruir os surdos-mudos. Colocou as regras
sintáticas e também o alfabeto manual inventado por Pablo Bonnet e essa obra
foi mais tarde completada com a teoria pelo abade Roch-Ambroise Sicard.

Em 1760, na Inglaterra, Thomas Braidwood fundou a primeira escola ingle-


sa para surdos em Edimburgo, na Grã-Bretanha, como academia privada, onde
ensinava aos surdos os significados das palavras e sua pronúncia, valorizando
a leitura orofacial.

Na Idade Contemporânea, em 1789, faleceu o Abade Charles Michel de


L’Epée, tendo fundado um total de 21 escolas para surdos na França e em ou-
tros países da Europa.

No século XIX, o americano Thomas Hopkins Gallaudet parte à Europa


para buscar métodos de ensino aos surdos. Na Inglaterra, Gallaudet foi conhecer
o trabalho realizado por Braidwood, na escola “Watson’s Asylum” (uma escola
onde os métodos eram secretos, caros e ciumentamente guardados), que usava a
língua oral na educação dos surdos; porém, foi impedido, recusaram-se a expor
para ele a metodologia. Não tendo outra opção, Gallaudet partiu para a França,
onde foi bem acolhido e impressionou-se com o método de língua de sinais usado
pelo abade Sicard. Ele levou um professor surdo francês para os Estados Unidos
e começou assim um trabalho educacional considerando a língua de sinais. Em
1864, Edward Gallaudet fundou a primeira universidade nacional norte-ameri-
cana para surdos, a “Gallaudet University” em Washington, que era um sonho
de seu pai, Thomas Hopkins Gallaudet.

Em 1855, o professor surdo francês Hernest Huet, com experiência de


mestrado e diversos cursos em Paris, chega ao Brasil sob o beneplácito do
imperador Dom Pedro II com a intenção de fundar uma escola para pessoas

68 surdas e instruí-las por meio da língua de sinais francesa. Ele contou com o
apoio do imperador para fundar a escola de surdos no Rio de Janeiro, em 1857,
o Instituto Nacional de Educação de Surdos, criada pela Lei no 939, de 26 de
setembro de 1857.

Cabe lembrar aqui que a Libras e a ASL (língua de sinais americana) fo-
ram influenciadas pela LSF (língua de sinais francesa), mas com o tempo cada
língua foi se transformando de acordo com a cultura de seu país. Assim, a orga-
nização da educação de surdos no Brasil está intimamente ligada ao reconheci-
mento da língua de sinais como possibilidade de instrução para pessoas surdas.

Ressalta-se que a língua de sinais não é mímica, nem código e nem lin-
guagem de animais. Nessa época, a Libras estava se constituindo, porém com
pouca influência portuguesa, já que não foram os portugueses que trouxeram a
língua de sinais ao Brasil. A Libras tem sua origem na França, conforme exposto
anteriormente, por meio do professor surdo francês, Hernest Huet, que inicial-
mente instruía as pessoas surdas utilizando a língua de sinais francesa. Ele
dava aulas para surdos com seus próprios métodos de educação aprendidos
no Instituto de Surdos-Mudos de Paris. Foi nessa escola que surgiu a mistura
da língua de sinais francesa com os sistemas já usados pelos surdos de várias
regiões do Brasil, e a Libras foi então se configurando.

Em 1870, Alexander Graham Bell, foniatra e inventor do telefone, publicou


vários artigos criticando casamentos entre pessoas surdas, a cultura surda e
as escolas residenciais para surdos, alegando serem fatores que favoreciam o
isolamento dos surdos da sociedade. Ele era contrário à língua de sinais, que
para ele não propiciava o desenvolvimento intelectual dos surdos.

Em 1880, em Milão, na Itália, aconteceu o II Congresso Internacional de


Surdo-Mudez, que causou impacto em todo o mundo com relação à educação
de surdos. Esse congresso foi organizado, patrocinado e conduzido por muitos
especialistas ouvintes na área de surdez, todos defensores do oralismo puro.
Foi então organizada uma votação para escolher o método mais adequado para
educar surdos, se por meio do oralismo, da língua de sinais ou de ambos. Os
professores surdos não tiveram o direito de votar e foram excluídos do congres-
so. Dos 164 representantes presentes ouvintes, apenas cinco dos Estados Uni-
dos votaram contra o oralismo puro. Então, concluiu-se que o método oral era o
mais adequado para a educação de surdos e houve a proibição oficial da língua
de sinais, pois para os especialistas essa língua destruía a capacidade de fala
dos surdos. Destaca-se que Alexander Graham Bell teve grande influência no
referido congresso.

O Instituto Nacional de Educação de Surdos (Ines) sofreu a influência das


decisões do Congresso de Milão, e também no Brasil o oralismo foi adotado
como forma oficial de trabalho com os alunos surdos. Em 1957, Ana Rímola de 69
Faria Daoria assumiu a direção do Ines com a assessoria da professora Alpia
Couto, proibindo oficialmente o uso da língua de sinais nas salas de aula. Mesmo
com a proibição, os alunos surdos continuaram usando a língua de sinais nos
corredores, nos pátios da escola e alguns se comunicavam escondidos dos
professores e funcionários.

Apenas em 1982, o padre americano Eugênio Oates publicou no Brasil a


obra Linguagem das Mãos, que continha 1258 sinais fotografados, configurando-se
como um primeiro dicionário ilustrado da língua de sinais usada no país.

Em 1987 fundou-se a Federação Nacional de Educação e Integração dos


Surdos (Feneis), no Rio de Janeiro, federação responsável, dentre outras atri-
buições, pela luta pelo direito linguístico dos surdos ao uso da língua de sinais.
A Feneis conquistou a sua sede própria no dia 8 de janeiro de 1993. Em 2002 a
Feneis formou agentes multiplicadores de todo o Brasil para o ensino de Libras,
com o curso denominado “Libras em Contexto”, em parceria com o Ministério
da Educação (MEC).

A Língua de Sinais no Brasil foi reconhecida como língua dos surdos em


2002, pela lei no 10.436, de 24 de abril (BRASIL, 2002). Essa lei foi posterior-
mente regulamentada pelo Decreto no 5.626, de 22 de dezembro de 2005 (BRA-
SIL, 2005), que trata com maior profundidade da educação de surdos em todos
os níveis de ensino e da formação de professores bilíngues, instrutores surdos
e intérpretes de Libras.

Em decorrência do referido decreto, em 2006 teve início a primeira turma


do curso de graduação na modalidade de ensino a distância – Letras/Libras
– em nove polos espalhados por todo o Brasil, ministrados por instituições de
ensino superior públicas federais e estaduais, sob a coordenação da Univer-
sidade Federal de Santa Catarina. Trata-se de um curso de graduação que
oferta dois tipos de formação: Licenciatura e Bacharelado. O primeiro é para
formação de professores de Libras e o segundo é para formação de intérpretes
de língua de sinais. Em 2008, foi oferecida a segunda turma desse curso em 15
polos em todo o país.

Em 2009, foi criada a primeira turma do curso de graduação Letras/Li-


bras de modalidade de ensino presencial na Universidade Federal de Santa
Catarina.

Em 2010 tem-se o reconhecimento da profissão de tradutor e intérprete


da língua brasileira de sinais pela Lei no 12.319, de 01 de setembro de 2010
(BRASIL, 2010).

Percebe-se que a história da língua de sinais sofreu mudanças e foi muitas


vezes influenciada por diferentes grupos em diversos momentos e contextos.
70
Partiu-se da descoberta da comunicação natural de pessoas surdas, para tenta-
tivas de oralização com intuito de “normalizar” os surdos, até o reconhecimento
da Libras como língua de comunicação de pessoas surdas em nosso país. Hou-
ve a proibição da língua de sinais, o que prejudicou a evolução da educação de
surdos e também o progresso de pesquisas e produções científicas em relação
aos estudos linguísticos da língua de sinais. Mas com o reconhecimento da Li-
bras pela lei 10.436 (BRASIL, 2002), emergiram possibilidades para o livre uso
da língua de sinais, criação de novos cursos e de novos e diferentes espaços de
estudos linguísticos envolvendo a língua de sinais.

Aspectos gramaticais da Libras

A língua brasileira de sinais tem gramática própria. Deve-se o reconheci-


mento linguístico das línguas de sinais, como línguas verdadeiras, ao linguista
William Stokoe que, em 1960, comprovou que a língua de sinais atendia a todos
os critérios linguísticos de uma língua genuína.

Dentre os componentes da Libras iniciaremos pelo alfabeto manual. O al-


fabeto manual é conhecido também como alfabeto datilológico ou datilologia,
com o qual é possível soletrar 27 diferentes letras (contando também com o
grafema ”ç”, que é a configuração de mão da letra C com movimento trêmulo)
por meio da mão.

Não se deve pensar que o alfabeto manual é a língua de sinais, pois ele
possui uma função específica. Na interação entre pessoas usuárias da língua
de sinais, ele é utilizado para soletrar nomes próprios de pessoas ou lugares,
siglas, elementos técnicos, palavras que ainda não possuem sinais correspon-
dentes, ou em algumas situações de empréstimo de palavras da língua portu-
guesa, lembrando que cada formato de mão corresponde a uma letra do alfabe-
to do português brasileiro ou não.

Cada país tem seu próprio alfabeto manual; somente os Estados Unidos e
o Canadá têm alfabetos manuais iguais. No caso dos Países Britânicos, o alfa-
beto manual é realizado com as duas mãos. Há também o alfabeto manual para
as pessoas surdas-cegas, também realizado com as duas mãos para soletrar as
palavras, mas nesse caso há a necessidade de pegar na mão do interlocutor para
tatear o sinal. A seguir apresentam-se os diferentes alfabetos manuais de diversos
países:

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Figura 1 Língua brasileira de sinais.

72
Figura 2 Língua gestual portuguesa (LGP).

Figura 3 British sign language (BSL).

73
Figura 4 American sign language (ASL).

Figura 5 Langue des signes française (LSF).

Os parâmetros fonológicos que compõem a Libras

Segundo Gesser (2009), a estrutura da língua de sinais é constituída a


partir de parâmetros que se combinam. Ao descrever os níveis fonológicos e
morfológicos da língua americana de sinais, o linguista William Stokoe em 1960
apontou três principais parâmetros que constituem os sinais e classificou-os
em: configuração de mão (CM); ponto de articulação (PA) ou localização (L); e
movimento (M).
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Quadros & Karnopp (2004) descrevem que ao longo das pesquisas lin-
guísticas prevaleceu que CM, L e M são “unidades mínimas (fonemas) que
constituem morfemas nas línguas de sinais, de forma análoga aos fonemas
que constituem os morfemas nas línguas orais” (QUADROS & KARNOPP,
2004, p. 49). Ou seja, o morfema na língua de sinais é formado por fonemas
encaixados com o conjunto de parâmetros, configuração de mão, movimento e
locação de mão, e não carregam significados isoladamente. É como se fossem
fonemas de Libras, sendo os fonemas cada um dos parâmetros, que interligados
formam um morfema com um sentido, que combinados configuram signos em
Libras. Desse modo se organizam os modelos fonológicos e morfológicos dos
sinais.

Ainda segundo Gesser, sobre um quarto parâmetro da língua de sinais:

a partir da década de 1970, os lingüistas Robbin Battison (1974), Edward


S. Klima & Ursulla Bellugi (1979) conduziram estudos mais aprofundados
sobre a gramática da ASL, especificamente sobre os aspectos fonológi-
cos, descrevendo um quarto parâmetro: a orientação da palma da mão (O)
(GESSER, 2009, p. 14).

Um significado em Libras pode ser então criado a partir dos parâmetros


formacionais: configuração da mão, movimento, locação de mão/ponto de arti-
culação, orientação da mão ou expressão não manual.

As configurações de mão não se restringem às configurações do alfabeto


manual, e hoje são descritas 63 diferentes configurações que permitem a comu-
nicação em Libras. São formas de configurar as mãos para representar diferen-
tes sinais. A seguir mostra-se a figura das 63 configurações de mão:

75
Figura 6 Configurações de mão.

Uma mesma configuração de mão pode ser usada para representar dife-
rentes sinais, isso porque à configuração de mão se somam os demais parâ-
metros (locação de mão/ponto de articulação, orientação da mão ou expressão
não manual). No exemplo a seguir, temos uma mesma configuração de mão para
diferentes sinais:

a) b) c)
Figura 7 a) Exemplo; b) Desculpar; c) Azar.

A locação de mão ou ponto de articulação, segundo William Stokoe, é um


dos principais aspectos formacionais da língua de sinais. A locação é a área do
próprio corpo ou espaço neutro em frente ao corpo onde os sinais são articu-
lados. Para articular um sinal usa-se alguma região do próprio corpo, que pode
76
ser a cabeça, o tronco, braços, ombros ou mãos, ou ainda um espaço neutro
relativamente distante do corpo. A seguir são apresentados exemplos em que
a configuração de mão é mantida e variam a locação de mão/ponto de articula-
ção, configurando diferentes sinais.

a) b) c)
Figura 8 a) Laranja ou sábado; b) Aprender; c) Ouvir.

Percebe-se que essas imagens destacam as oposições criadas pela loca-


ção de mão. Por exemplo, o sinal referente a “laranja” ou “sábado” localiza-se na
boca, enquanto o sinal referente a “aprender” é localizado na testa. O sinal para
“ouvir” localiza-se na orelha direita.

O movimento é outro parâmetro fonológico que envolve diferentes formas


e direções desde os movimentos da mão. As autoras Quadros & Karnopp citam
Klima & Bellugi para descrever o conceito de movimento como um:

[...] parâmetro complexo que pode envolver uma vasta rede de formas e
direções, desde os movimentos internos da mão, os movimentos do pulso,
os movimentos direcionais no espaço (KLIMA & BELLUGI, apud QUADROS
& KARNOPP, 2004, p. 54).

A seguir são mostrados exemplos do parâmetro movimento que cria dife-


rentes significações na língua de sinais:

a) b) c)

Figura 9 a) Ter; b) Pecar; c) Feio.

Essas imagens permitem perceber as oposições de movimento e outras


características. Por exemplo, a configuração de mão do sinal referente a “ter” é 77
formada pela letra “L”, localizada na parte central do peito e possui movimento
direcionado para trás até o contato único com o corpo. O sinal referente a “pecar”
tem a configuração de mão fechada, localizada no peito e com movimento e con-
tato duplo no peito. E no último sinal, “feio”, tem-se a configuração de mão forma-
da pela letra “L”, localizada no peito e com o movimento e contato duplo no peito.

A orientação da palma de mão é um parâmetro secundário, pois não foi


considerado como um parâmetro distintivo no trabalho inicial de Stokoe, quan-
do ele propôs o esquema linguístico estrutural para a formação dos sinais em
três principais parâmetros: CM, L e M. Contudo, segundo Quadros & Karnopp
(2004), o movimento ligado à direção da palma da mão também colabora para
a determinação do sinal, ou seja, a direção para qual a palma da mão aponta
na produção do sinal pode ser um traço distintivo. A palma da mão pode estar
orientada para cima, para baixo, para o corpo, para frente, para a esquerda ou
para a direita. Destaca-se que pode acontecer mudança na orientação de mão
durante a execução do movimento de um determinado sinal.

A seguir são apresentados exemplos de sinais com orientação de mãos


diferentes:

a) b)

c) d)

Figura 10 a) Um; b) Você; c) Eu; d) Essa/esse ou ela/ele.

Como se percebe quando sinalizados os sinais: em “um”, a orientação


de mão está direcionada para cima; já em “você”, a orientação de mão está
direcionada para frente apontando para o receptor; ou seja, para uma mesma
configuração de mão, mesmo ponto de articulação e mesmo movimento houve
alteração apenas na orientação da palma da mão.
78
Para o sinal “eu”, a orientação de mão está direcionada para o emissor; já
para o sinal “essa/esse ou ela/ele”, a mão está direcionada para o lado esquer-
do, considerando nesse caso que o objeto ou a pessoa a que se refere o sinal
está posicionado nesse lado. Por exemplo, se o objeto ou pessoa está ao lado
direito, então a configuração de mão muda para esse lado, apontando para tal
objeto/pessoa.

As expressões não manuais são os movimentos da face, dos olhos, da


cabeça ou do tronco. Segundo Quadros & Karnopp (2004), as expressões não
manuais prestam-se a dois papéis nas línguas de sinais: a diferenciação de
itens lexicais e a marcação de construções sintáticas. O primeiro papel marca
referências específicas, referências pronominais, partículas negativas, advér-
bios, grau ou aspecto. Já o segundo papel marca as sentenças interrogativas,
exclamativas, orações relativas, topicalizações, concordância e foco. Nós preci-
samos estar atentos às expressões faciais e corporais que são feitas simultane-
amente com certos sinais ou com toda a frase. Por exemplo, quando transmite
a mensagem afirmativa por meio da língua de sinais, as sobrancelhas e expres-
são ficam neutras e a cabeça movimenta-se para cima e para baixo; quando é
interrogativa, as sobrancelhas são franzidas e um ligeiro movimento da cabeça
inclinando-se para cima; quando é exclamativa, as sobrancelhas estão levan-
tadas e ocorre um ligeiro movimento da cabeça inclinando-se para cima e para
baixo. Quando se trata de frase negativa, a negação pode ser feita por meio de
três processos na língua de sinais: primeiramente com o acréscimo do sinal
“não” à frase afirmativa; ou, segundo, com a incorporação de um movimento
contrário ao do sinal negado; ou, terceiro, com um aceno de cabeça que pode
ser feito simultaneamente com a ação que está sendo negada ou juntamente com
os processos acima. Os ouvintes, acostumados com a oralidade, usam pouco
a expressão facial para comunicação e terão um novo desafio para aprender a
utilizá-la na comunicação em Libras, já que as diferentes expressões faciais são
fundamentais na língua e também para a interação com pessoas surdas.

Portanto, para compreender a gramática de uma língua, é preciso apre-


ender e estudar as regras de formação e de combinação de seus elementos, e
também perceber os diferentes contextos de uso de determinados sinais para a
formação de frases em Libras. A atenção ao contexto favorece o uso de expres-
sões faciais e corporais adequadas para melhor inteligibilidade daquilo que se
pretende dizer.

Nesta introdução, a Libras pôde ser percebida a partir de algumas classes


gramaticais. Vocês, ouvintes, devem reconhecer que a língua de sinais foi bani-
da por muitos anos, o que impediu a evolução de mais pesquisas referentes às
línguas de sinais. A língua dos surdos foi prejudicada pela sociedade majoritária
de ouvintes que tinha como objetivo “normalizar” o surdo por meio de treinamento 79
oral-auditivo, pelo uso de próteses e até de cirurgias como o implante coclear.
Não se deve pensar que a língua de sinais é um código inventado pelos surdos,
mas sim uma língua verdadeira e natural que nasce a partir da cultura surda e
da experiência visual, tendo um rico valor linguístico e cultural.

Além disso, a Libras possui suas próprias regras gramaticais, diferentes de


outras línguas, sejam elas orais ou não, sendo possível transmitir ideias sutis,
complexas, abstratas e técnicas por meio das mãos e expressões faciais e corpo-
rais. Deve-se quebrar o “tabu” de que a Libras é universal, já que cada país possui
sua própria língua de sinais e alfabeto manual. Esperamos que vocês possam
realmente conhecer a verdadeira língua dos surdos e descobrir novos contextos e
jeitos de comunicação para que, no futuro, quando receberem alunos surdos em
sala de aula, possam estar conscientes desta língua que é visual e gestual.

REFERÊNCIAS

BRASIL. Decreto no 5.626, de 22 de dezembro de 2005. Regulamenta a Lei nº 10.436,


de 24 de abril de 2002, que dispõe sobre a Língua Brasileira de Sinais – Libras, e o art.
18 da Lei no 10.098, de 19 de dezembro de 2000. Diário Oficial da União, Brasília, 23
dez. 2005.
______. Lei no 10.436, de 24 de abril de 2002. Dispõe sobre a Língua Brasileira de
Sinais e dá outras providências. Diário Oficial da União, Brasília, 25 abr. 2002.
______. Lei no 12.319, de 01 de setembro de 2010. Regulamenta a profissão de tradutor
e intérprete da língua brasileira de sinais – Libras. Diário Oficial da União, Brasília, 02
set. 2010.
GESSER, A. LIBRAS? Que língua é essa? São Paulo: Parábola, 2009.
QUADROS, R. M.; KARNOPP, L. B. Língua de sinais brasileira: estudos lingüísticos.
Porto Alegre: Artmed, 2004.
STROBEL, K. História da Educação de Surdos. Caderno de Estudos do Curso de edu-
cação à distância Licenciatura Letras/LIBRAS. Universidade Federal de Santa Catarina,
Florianópolis, SC, 2008.

Referências Consultadas

BRITO, L. F. Por uma gramática da Língua de Sinais. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro,
UFRJ – Departamento de Lingüística e filosofia, 1995.

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