Módulo 5
Dignidade e Inclusão
1. Justificativa e objetivos
Ao concluir este módulo você poderá discutir e combater atos de
preconceito, discriminação e cultura do ódio e se posicionar a
favor das iniciativas com foco na promoção da dignidade e
inclusão da população em situação de rua.
Ao conclui-lo, você estará apto a:
Conhecer as origens dos preconceitos e estigmas
comumente associados às populações em situação de
rua.
Identificar e combater o discurso de ódio e os Fonte: [Link]
preconceitos direcionados às populações em situação
de rua.
Compreender como a grande imprensa contribui para a manutenção dos
estereótipos e preconceitos em relação às populações em situação de rua no
Brasil.
2. Estigma, medo e violências cometidas contra a população em
situação de rua
Muitos são os mitos de origem que
as nações constroem sobre si, no
caso do Brasil a existência de uma
propensa igualdade formal, a ideia
da “brasilidade” que a todo
momento é celebrada nos meios de
comunicação e através de símbolos
alegres baseados em princípios
culturais (carnaval, futebol, belezas
naturais) e em representações
comuns da nação servem, na
verdade, para ocultar a manutenção
de formas sistêmicas de
marginalização, pobreza e
desrespeito exercidas todos os dias
contra aqueles sujeitos cujas
características, de classe social e Fonte: Rede Rua - [Link]
processos históricos são colocados
em condições de subalternidade em relação aos grupos dominantes da sociedade.
Como que escamoteadas, colocadas “para baixo do tapete”, as distinções entre pobres e
ricos (diga-se de passagem, nem tão ricos assim) não são afetadas até que a
proximidade geográfica e a interação cotidiana lhes trazem à cena, como quando alguma
pessoa em situação de rua escolhe a marquise de um prédio de moradia para abrigar-se
ou, pela ausência de banheiros públicos faz seu asseio em algum chafariz.
Não é de hoje no Brasil que os mais pobres e os que estão em situação de rua são vistos
como uma classe de sujeitos perigosos. Os “sem lugar” da cidade já despertavam as
preocupações das elites e dos legisladores que colocaram em pauta na Câmara Federal
em 1888 (no mesmo ano da abolição da escravidão) um projeto de lei para reprimir a
ociosidade do que eles consideravam:
“(...) classes pobres e viciosas [que] sempre foram e hão de ser sempre a
mais abundante casa de toda sorte de malfeitorias: são elas que se
designam mais propriamente sob o título de “classes perigosas”; pois quando
mesmo o vício não é acompanhado pelo crime, só o fato de aliar-se à
pobreza no mesmo indivíduo constitui um justo motivo de terror para a
sociedade. O perigo social cresce e torna-se de mais a mais ameaçador, à
medida que o pobre deteriora a sua condição pelo vício e, o pior, pela
ociosidade.
O que se vê é que o objetivo
desta legislação permanecia o
mesmo do período anterior à
abolição, o controle dos corpos
dos pobres e negros para a
produção econômica por meio do
trabalho como um valor de
regeneração social. O que é
percebido na incorporação por
parte dos deputados da
expressão “classes pobres e
viciosas”, oriunda da expressão
“classes perigosas” em voga na
literatura europeia sobre pobreza
e criminalidade já daquela época.
Como não era mais possível às
elites manter as relações de
trabalho segundo a posse da vida Fonte: Rede Rua - [Link]
do trabalhador, a suspeição
generalizada foi o mecanismo encontrado para a continuação da repressão. Para os
deputados brasileiros da época a formulação “classes pobres e viciosas” definia que os
sujeitos pobres carregavam em si a definição das atitudes viciosas que tanto prejudicam a
sociedade, dessa maneira a pobreza do sujeito e sua cor já eram condições suficientes
para serem tratados como perigosos malfeitores. E a única maneira de escaparem a este
estigma seria através do trabalho constante.
No Brasil das relações de trabalho desreguladas onde o trabalho era uma mercadoria que
precisava ser vendida a baixo custo a associação da pobreza com degradação moral
construiu uma distinção entre os que seriam pobres trabalhadores (poupadores,
cuidadores das famílias e cumpridores de deveres sociais e religiosos) considerados
dignos em contraposição aos ociosos, não pertencentes ao mundo do trabalho e, à vista
disso, delinquentes.
A associação entre pobreza e delinquência contribui para o rompimento dos vínculos
sociais. Quando uma pessoa possui uma trajetória onde há rupturas progressivas em
relação ao que a sociedade entende como uma vida equilibrada, estável ela vive uma
espécie de desfiliação em relação a sociedade geral.
Esta desfiliação é algo que recorrentemente acontece com as pessoas que estão em
situação de rua. O fato de não desempenharem os compromissos sociais tidos como
indispensáveis na sociedade capitalista como o trabalho formal faz com que estas
pessoas sofram uma forte marginalização e consequente perda de direitos. É comum a
imprensa tratar as pessoas que estão nas ruas como sujeitos incapazes, associando-os à
sujeira, mendicância, diminuindo sua importância ou mesmo os caracterizando como
preguiçosos, vagabundos, bêbados, drogados, em suma fortalecendo todos os estigmas
que travam seu acesso às políticas sociais e impedem sua emancipação
Estigma, tal como foi desenvolvido na sociologia por Erving Goffman (1922 – 1982)
pode ser entendido como um termo que designa um atributo, estereótipo ou sinais
corporais profundamente depreciativos impostos a determinadas pessoas pelo senso
comum.
Uma sucessão de leis manteve os estigmas contra os pobres vivos até os dias atuais, um
exemplo disto é o a lei de Contravenções Penais de 1942 que está em vigor até agora. O
artigo 59 desta lei tipifica penalmente a conduta de vadiagem, que é entendida como
"entregar-se habitualmente à ociosidade, sendo válido para o trabalho, sem ter renda que
lhe assegure meios bastantes de subsistência, ou prover à própria subsistência mediante
ocupação ilícita”. A penalidade prevista para quem for acusado de vadiagem consiste em
pena de prisão simples, de quinze dias a três meses. A lei de Contravenções Penais
também tipificava a conduta de mendicância que só foi revogada no ano de 2009 pela Lei
nº 11.983.
Ao estudar como a exclusão social atua nas trajetórias de vidas de pessoas em situação
de rua na zona sul da cidade do Rio de Janeiro a professora Sarah Escorel no livro “Vidas
ao Léu: Uma Etnografia da Exclusão Social” aponta que a exclusão social é algo que faz
parte da realidade social do Brasil, país onde as desigualdades convivem lado a lado com
o regime político democrático o qual supõe igualdade de condições a todas as pessoas,
desde que estejam inseridas no modo de produção e no mercado formal de trabalho.
Para saber mais sobre o discurso de ódio, preconceito e os males decorrentes deles
leia o artigo “Ninguém nasce odiando, para ser racista é preciso ter o aprendizado do
ódio”. Disponível em:
[Link]
aprendizado-do-odio/
Neste estudo a professora identificou como a exclusão social, enquanto fenômeno, se
constitui através dos processos de vulnerabilidade, fragilização, precariedade e ruptura
dos vínculos sociais e atua, na vida das pessoas, através de cinco dimensões
constituintes da vida social: econômica-ocupacional, sócio-familiar, da cidadania, das
representações sociais e da vida humana.
O que se percebe nas trajetórias de vida estudadas é um alto grau de isolamento e
solidão ocasionados pela ruptura dos vínculos familiares e sociais primários, que são
reorganizados de forma precária diante da condição de estar nas ruas. Além do mais, a
necessidade constante de estar alerta diante das possíveis violências, hostilidades,
indiferença e a maneira supérflua como este grupo de pessoas é caracterizada lhes lega
um estatuto de não-cidadania.
Vídeo com depoimentos de pessoas em situação de rua do bairro da Lapa, no Rio de
Janeiro, onde relatam como são vistas e tratadas.
Os depoimentos apresentados no vídeo demostram como a situação na qual os sujeitos
estão faz com que percam suas referências de cidadania. Os rótulos pejorativos
recebidos, as violências (simbólicas ou físicas) sofridas marcam suas existências. Um dos
entrevistados, Alessandro diz “eu tenho uma etiqueta, essa etiqueta é ex-ladrão, ex-
bandido” constata como os qualificativos preconceituosos são usados contra ele.
Ao serem identificados como desajustados por meio da estigmatização que significa estar
nas ruas os sujeitos são rotulados como não pertencentes ao conjunto da sociedade e
perdem referências sociais. Através de um sistema perverso de exclusão os marcadores
de: drogados, bêbados, loucos, vagabundos, improdutivos e inúteis na verdade são
mecanismos que indicam, por não conseguirem utilizar sua força produtiva e obter algum
salário com isso, sua falta de lugar no mundo capitalista. Ao não proverem seu sustento e
alimentação, segundo este entendimento estigmatizante, não possuem dignidade.
De outro lado, mesmo já tendo sido provado pelas pesquisas realizadas que a maioria
das pessoas que está em situação de rua busca manter sua higiene, a estigmatização
também se demonstra quando são tidas como sujas ou maltrapilhas.
O medo da violência que pode ser cometida por alguém que está em situação de rua é
algo que também faz com que sejam quase que automaticamente identificados como
criminosos, potenciais mal feitores, numa clara associação entre pobreza e delinquência.
Quem não já viu as pessoas mudando de calçada ou se encolhendo ao passar por
alguém que está em situação de rua? Por fim, podem ser tidos como coitadinhos, dignos
de piedade, utilizando geralmente de cunho religioso para explicar sua inferioridade e o
merecimento de sofrimento.
Este sistema de estigmatização, como está sendo dito aqui desumaniza as pessoas em
situação de rua e os torna diferentes em relação ao conjunto da sociedade, uma parte que
precisa ser ocultada, invizibilizada para o melhor funcionamento da cidade, vide as
violências pelas quais passam constantemente e que são quase que naturalizadas pela
sociedade.
Acesse também o site do movimento de jovens portugueses em defesa dos direitos
humanos e contra o discurso de ódio:
[Link]
No ano de 2017, na cidade do Rio de Janeiro, uma página na rede social Facebook
denominada “Alerta Ipanema” - um dos bairros com maior renda per capta da cidade -
publicou informes sobre a presença de pessoas em situação de rua na localidade. Em
tom de protesto e ameaça, alertou-se a população sobre os perigos da prática de doação
de comida, roupas ou quantias em dinheiro a estes sujeitos. Uma atitude que seguindo a
lógica da exclusão daqueles que não são consumidores privatiza o espaço urbano
construído somente para uma classe de indivíduos com poder aquisitivo, tratando as
pessoas em situação de rua como se lá não estivessem ou lá não devessem estar.
A perversidade dessa lógica excludente é a perpetuação de ações violentas contra as
pessoas em situação de rua, seja pelo poder público ou pela própria sociedade civil, é o
reforço de estereótipos daqueles que são vistos como uma “classe perigosa”, diferentes
do que seria considerado o “comportamento normal”, exemplo de como é errática a
construção de políticas públicas para essas pessoas.
3. A contribuição da grande imprensa para esses estereótipos
É comum os meios de comunicação de massa – jornais, revisas, televisão – usarem termos
depreciativos como mendigos ou catadores de lixo para se referirem às pessoas em situação
de rua. Há de fato, nas notícias veiculadas, certa parcialidade no discurso jornalístico que
não trazem uma pluralidade de fontes, mas somente a versão dos que se queixam das
pessoas nas ruas e em frente a seus comércios e residências. Este modo de abordar a
situação contribui e o alto grau de influência no pensamento do senso comum que estes
organismos possuem contribui para o estabelecimento da distinção entre o que seriam
pessoas normais e o que seriam os “anormais” representados pelos que estão em situação
de rua que passam a ser objeto de estranhamento e repulsa.
Ao fazer um mapeamento entre os anos de 2011 a 2013 sobre as representações da
situação de rua nas matérias veiculadas no portal do jornal Correio Braziliense. A
pesquisadora Viviane Resende identificou como esta mídia tematiza a violência e como a
população em situação de rua é representada imageticamente em suas matérias.
Segundo Viviane, nas matérias estudadas ocorrem poucas avaliações positivas a respeito
das pessoas em situação de rua os fatos narrados se concentram em casos de violência e
quando há avaliações das pessoas em situação de rua como sendo pacíficas, tranquilas ou
trabalhadoras estas avaliações aparecem em notícias que narram assassinatos terríveis
cometidos contra estas pessoas.
O mapeamento da pesquisadora aponta que a violência é, efetivamente, o tema mais
presente e as principais avaliações apresentadas sobre as pessoas em situação de rua são
apresentadas por discursos de incômodo e medo do risco que a presença dessas pessoas
pode causar. Situação que parece paradoxal, no entender dela, já que são as pessoas em
situação de rua as que mais sofrem vitimização pela violência.
Para ela este enredo gera uma naturalização da violência contra a população em situação de
rua, aumenta o distanciamento e estimula a falta de empatia entre quem lê (a sociedade em
geral) e as pessoas em situação de rua vitimadas.
Para combater estes estereótipos, a sociedade civil organizada, em especial por meio do
Movimento Nacional da População de Rua (MNPR), vem reivindicando a utilização das
expressões “população em situação de rua” ou “pessoa em situação de rua” com o propósito
de tornar central a pessoa e destacar que a vida nas ruas pode e deve ser transitória essa
expressão foi adotada no Decreto nº 7.053/2009.
Para ler o estudo da pesquisadora Viviane Resende sobre a narrativa de violência em
jornais acesse:
[Link]
A maneira como as pessoas em situação de rua são identificadas é uma mudança importante
sobre como elas podem e devem ser tratadas, mas há a necessidade de a sociedade em
geral começar a colocar em xeque os próprios preconceitos a fim de que a realidade seja
modificada realmente. A você que está participando deste curso, a partir das leituras aqui
dispostas, é feito um convite à uma autoanálise constante que corrobore com a formação
cidadã e inclusiva. Lembrando o educador Paulo Freire quando se contrapunha ao senso
comum é preciso entender que enquanto houver pessoas oprimidas por violências físicas ou
simbólicas, estigmatizadas e colocadas a margem, toda a sociedade sofre e permanece
estagnada.
4. Guarde na memória!
Neste módulo você aprendeu sobre estigma, medo e violências cometidas contra a
população em situação de rua.
Além disso, você também aprendeu sobre como a grande imprensa e o senso
comum contribuem para propagar estes males.
Ao longo do módulo, você descobriu também como combater atos de preconceito,
discriminação e cultura do ódio e se posicionar a favor das iniciativas com foco na
promoção da dignidade e inclusão da população em situação de rua.
Encerramos este quinto módulo. A seguir, você deverá realizar uma
avaliação de aprendizagem!
5. Referências Bibliográficas
QUADROS, P. Dissimulacro-Ressimulação: ensejos da cultura do ódio na era do Brasil pós-
verdade. Media & Jornalismo, Lisboa, Abril 2018.
SANTANA, G. C. A.; RIBAS, L. M. “Não dê esmola! ” Controle e estigmas em relação à
população de rua do bairro de Ipanema/RJ. Anais do TICYUrb’18, Lisboa, 2018.
SILVA, R. L. D.; NICHEL, ; ET AL. Discursos de ódio em redes sociais: jurisprudência
brasileira. Rev. direito GV, São Paulo, jul/dez 2011.