Módulo 1
Perfil da população em situação de rua no Brasil e Política Nacional
para a população em situação de rua (PNPSR)
1. Apresentação
Bem vindo ao curso “Promoção dos Direitos da
População em Situação de Rua”. Este curso tem
como objetivo promover formação sobre a
Política Nacional para População em Situação
de Rua (PNPR) no âmbito do Programa Nacional
de Educação Continuada em Direitos Humanos
(PNEC_DH) e será conduzido em acordo com as
diretrizes do Plano Nacional de Educação em
Direitos Humanos (PNEDH). Portanto, este é um
curso de capacitação cujas temáticas estão
organizadas de modo a fortalecer os princípios da democracia, cidadania e justiça social,
através da construção de uma cultura de direitos humanos onde o exercício da
solidariedade e do respeito às diversidades da população em situação de rua estejam em
primeiro plano.
2. Justificativa e objetivos
Neste módulo, após conhecer o contexto histórico de
organização política e o perfil da população em situação de rua
no Brasil, você aprenderá a respeito do Decreto no. 7.053 de 23
de dezembro de 2009 que institui a Política Nacional para a
População em Situação de Rua (PNPSR) e o Comitê
Intersetorial de Acompanhamento e Monitoramento (CIAMP
Rua).
Ao conclui-lo, você estará apto a:
Conhecer a história e as origens das populações de rua
no Brasil e dos movimentos sociais destinados a
promoção de seus direitos.
Fonte: [Link]
Identificar o perfil social das pessoas que compõem a
população em situação de rua no Brasil.
Compreender a importância da Política Nacional de população em situação de rua
para a promoção e defesa dos direitos dessas pessoas.
3. História da luta da/na rua
Fonte: Site da prefeitura de Embu das artes, autor desconhecido.
Em um país desigual como o Brasil é de se imaginar que a presença da população em
situação de rua seja tão antiga quanto a existência das cidades. Vistos como uma classe
de pessoas desocupadas e perigosas a população em situação de rua brasileira
permanece até hoje recebendo um tratamento violento e preconceituoso.
Até o ano de 1888 a circulação nas cidades e o controle sobre a população pobre e negra
no Brasil era exercido pela escravidão – forma de organização social e econômica da
sociedade na qual os senhores de escravos tinham poder sobre o corpo e sobre o que era
produzido pelos escravizados. Após o fim da escravidão milhares de ex-escravos, agora
trabalhadores livres e sem local certo de moradia e trabalho foram lançados nas ruas das
cidades.
Percebidos como um grupo de sujeitos perigosos estes “sem lugar”, começaram a
despertar as preocupações das elites e dos legisladores, o que significou a consolidação
de um tratamento desumano. Conforme podemos ver em uma lei da época em vigor no
Rio de Janeiro, que proibia o trânsito e recolhia compulsoriamente à cadeia pessoas que
estivessem dormindo nas ruas, descalças ou que não estivessem vestidas
adequadamente.
Estes preconceitos, discursos e atos se mantém vivos até hoje e são parte de uma
batalha importante a ser travada para a mudança de pensamento da sociedade brasileira
e da maneira como se lida com o combate aos males da pobreza. É a partir dessa
compreensão que o movimento social da população em situação de rua vem sendo
organizado ao longo dos anos.
Não há uma história oficial sobre a organização da população em situação de rua e do
movimento pela garantia dos seus direitos. É sabido, pela fala dos militantes mais antigos,
que desde a década de 1960 já aconteciam ações em algumas cidades brasileiras e que
por volta do final dos anos de 1970 a Pastoral do Povo da Rua, da Igreja Católica,
começou a implantar casas de assistência para as pessoas em situação de rua, estimular
a organização de movimentos populares de catadores de materiais recicláveis e realizar
eventos sociais nas cidades de São Paulo e Belo Horizonte.
Este era o momento em que o Brasil saia de uma ditadura civil-militar e com a
redemocratização surgiram o que os sociólogos passaram a chamar de novos
movimentos sociais dos quais as atividades de organização da população em situação
de rua se tornaram parte, mobilizando por transformações individuais e coletivas, políticas
e sociais desta população em contraste com as práticas mais assistencialistas que
haviam até então.
Os Novos movimentos sociais, como ficaram conhecidas as lutas surgidas do final dos
anos 1970 do século XX em diante, se articulam através de redes para apresentar
pautas reivindicatórias coletivas. Estes movimentos têm na transformação cultural
grande parte dos meios e fins de sua ação reunindo interesses, organizando ações
conjuntas e buscando visibilidade social para seus membros.
A partir destas iniciativas começam a surgir ações que vêm buscando associar os órgãos
do Estado (secretarias de governo) com instituições da sociedade civil (igrejas, ONGs,
movimentos sociais, etc.) em uma rede que, levando em consideração toda a diversidade
da população em situação de rua brasileira, garanta o acesso destas pessoas a uma vida
digna e com seus direitos respeitados.
Passeata de movimentos sociais por direitos nos anos de 1980. Fonte: autor desconhecido.
Nos anos de 1990 o protagonismo da população em situação de rua na luta por seus
direitos se intensificou e conquistou avanços importantes em algumas cidades, como São
Paulo, Fortaleza, Porto Alegre, Rio de Janeiro, Salvador. Este foi o fator que
possivelmente influenciou órgãos púbicos como a Secretaria Municipal de
Desenvolvimento Social de Belo Horizonte, por exemplo, a criar em 1993 seu Programa
de População em Situação de Rua e promover um Fórum da População em Situação de
Rua.
Outra realização também muito importante para a luta das pessoas em situação de rua foi
o Grito dos Excluídos, promovido pela Pastoral Social da Igreja Católica com outras
Igrejas participantes do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs em 7 de setembro de 1995,
que chamou a atenção de toda a sociedade civil para as privações vividas por aqueles
que têm a rua como ambiente de sobrevivência e reivindicou seus direitos.
O Grito dos Excluídos surgiu da intenção de denunciar a exclusão e valorizar os
sujeitos sociais das Pastorais Sociais Cristãs. O primeiro aconteceu em setembro de
1995 com o tema: “A fraternidade e os excluídos”. Desde então o Grito dos Excluídos
acontece sempre durante as comemorações do dia 7 de setembro, na semana da
Pátria.
Ao longo destes anos muitos fóruns
de discussões, encontros de
militantes, debates, atos políticos e
atividades governamentais vêm
acontecendo. Temas como a
violência e o preconceito que a
população em situação de rua sofre
diariamente, os entraves para a
melhor eficiência das políticas
públicas oferecidas e a construção
de autonomia para esta população
são as discussões que mais se
repetem e em torno das quais ainda
se debate muito.
A crueldade das agressões Reunião do MNPR em Goiânia. Fonte: Altair Alves, 2017.
ocorridas em São Paulo entre os
dias 19 e 22 agosto de 2004, no episódio conhecido como Massacre da Sé, quando
pessoas que estavam no entorno da igreja foram violentamente assassinadas com golpes
na cabeça enquanto dormiam gerou repercussão nacional e internacional e marcou a
história da luta da população em situação de rua com dor, mas também impulsiona os
diversos militantes de Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia e Cuiabá, entre
outros estados, que já discutiam as questões da população em situação de rua nos fóruns
locais a organizar um Movimento Nacional da População de Rua (MNPR) lançado durante
o 4o. Festival do Lixo e Cidadania realizado pela Associação dos Catadores de Materiais
Recicláveis (Asmare) em Belo Horizonte, em 2005.
Sobre as motivações para o surgimento do MNPR veja o depoimento de Maria Lucia
Santos Pereira da Silva uma das fundadoras e coordenadora do movimento, falecida em
abril de 2018.
Como foi visto na fala de Maria Lucia os militantes do MNPR lutam pela inclusão das pessoas
em situação de rua, para acabar com a invisibilidade a qual estas pessoas são submetidas e
para que a sociedade e o Estado brasileiro reconheçam a dívida histórica que possuem com
a população em situação de rua.
Uma das maneiras de alcançar estes objetivos do MNPR e de todo o conjunto de pessoas
que em outras organizações ou mesmo individualmente lutam pelos direitos das pessoas e
situação de rua é conhecer melhor quem é essa população, quais suas características
econômicas e sociais, sua identidade e desejos.
Para saber mais sobre a história da organização do Movimento Nacional da População de
Rua e das lutas para a implementação adequada da Política Nacional em situação de rua
veja o documentário “Nós da Rua - MNPR – 2011”
4. Perfil atual da população em situação de rua no Brasil
A pouca produção de dados oficiais
em âmbito nacional sobre as pessoas
em situação de rua é um problema
que aumenta sua invisibilidade e
dificulta o desenvolvimento de
políticas públicas. Ainda hoje, mesmo
com toda a organização dos
movimentos sociais que lutam para a
melhoria das condições de vida e pela
maior atuação dos órgãos públicos
nesse sentido, é grande a dificuldade
de acesso ou quase inexistência de
dados sobre as características desta
população, sobre quem são e os
motivos que as levaram a estar nas Fonte: Pastoral Nacional do Povo da Rua
ruas. Isto contribui para que
permaneçam como invisíveis diante
da sociedade e atrapalha o acesso aos serviços e direitos sociais.
Para tentar solucionar este problema da ausência de informação em âmbito nacional sobre a
população que está nas ruas alguns trabalhos foram feitos, os primeiros deles aconteceram
entre os anos de 2007/2008 pelo então existente Ministério do Desenvolvimento Social e
Combate à Fome (MDS). Estes trabalhos originaram a publicação “Rua: aprendendo a
contar: pesquisa nacional sobre a população de rua”, que está disponível no sítio eletrônico
do MDS e pode ser consultada mais detalhadamente.
Nesta pesquisa foi apresentada pela primeira vez, em âmbito nacional, um panorama oficial
da população em situação de rua no país. A pesquisa identificou a existência de 31.922
adultos em situação de rua nos 71 municípios que foram pesquisados (sendo 48 municípios
com mais de 300 mil habitantes e 23 capitais, independentemente do tamanho da população
habitante). A este número obtido foram somados os dados que já existiam das cidades de
São Paulo, Belo Horizonte, Recife, Porto Alegre e São Leopoldo, que já haviam realizado
pesquisas próprias. A partir deste somatório chegou-se a um total de aproximadamente
50.000 pessoas em situação de rua na época da pesquisa nacional.
Das pessoas em situação de rua identificadas na pesquisa do MDS percebeu-se uma
predominância da presença de homens em situação de rua (82%) em relação às mulheres na
mesma situação. Esta população, segundo a pesquisa, é em sua maioria jovem e está em
idade economicamente ativa.
Em relação à questão racial a pesquisa identificou que entre os entrevistados 39,1% se
autoidentificaram como pardos, 29,5 como brancos e 27,9% como pretos.
Sobre o tempo de permanência nas ruas quase metade dos sujeitos entrevistados (48,4%)
declarou que dormia nas ruas ou em algum albergue há mais de 2 anos e cerca de 30% há
mais de 5 anos. Há também as pessoas em situação de rua desde seu nascimento, os filhos
das famílias que estão há muito tempo nesta condição somavam em 2007 cerca de 1,3% dos
entrevistados.
Alguns anos depois, em 2016, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA)
apresentou um relatório (TD 2246 - Estimativa da População em Situação de Rua no Brasil)
onde estimou a existência de 101.854 pessoas em situação de rua. Este número deve ser
atualizado quando for divulgada uma nova versão da estimativa.
Para conhecer as informações levantadas na pesquisa “Rua: aprendendo a contar:
pesquisa nacional sobre a população de rua”, realizada pelo MDS acesse:
[Link]
ndendo_a_contar.pdf
Estas duas pesquisas foram importantes porque contribuíram para conhecer um pouco
melhor e desconstruir alguns preconceitos em relação à população em situação de rua. A
publicação do MDS, por exemplo, apontou que a população em situação de rua brasileira é
muito pobre e composta em sua grande parte por homens negros que mesmo estando em
idade economicamente ativa não conseguem ocupar postos formais de trabalho. Estes
trabalhadores, apesar da precariedade de sua formação ainda conseguem no dia-a-dia
exercer algumas atividades que lhe garantem uma renda mínima diária. As pesquisas do
MDS também demonstraram que nas capitais do país há a presença de uma quantidade
considerável de pessoas com formação universitária.
Para ler o relatório do IPEA “TD 2246 - Estimativa da População em Situação de
Rua no Brasil” acesse:
[Link]
O levantamento do IPEA de 2016, por sua vez, foi organizado com como uma compilação
dos dados gerados pelo Cadastro Único Para Programas Sociais (CadÚnico), junto com
outros dados presentes no sistema de assistência social, além de censos realizados por
algumas cidades que aderiram à política nacional para a população em situação de rua
instituída pelo Decreto Federal nº 7.053/2009. A principal lacuna deste levantamento do IPEA
é o fato de não trazer um detalhamento das características predominantes dessas pessoas
como foi feito nos levantamentos do MDS
O CadÚnico é um instrumento de coleta de dados do Governo Federal que identifica e
caracteriza as famílias de baixa renda para que o governo possa conhecer a realidade
socioeconômica dessa população e incluí-la em programas de assistência social e
redistribuição de renda. Segundo dados no site Relatórios de Informações Sociais do
Ministério do Desenvolvimento Social em setembro de 2018 haviam cerca de 107.576
famílias em situação de rua cadastradas no CadÚnico. Para a população em situação
de rua há uma guia de cadastramento que está disponível na aba material
complementar deste módulo.
É importante saber que além destas iniciativas do Governo Federal pesquisas locais já foram
realizadas e ajudam a conhecer mais sobre o perfil das pessoas e situação de rua. A cidade
de São Paulo foi a primeira a realizar estes levantamentos ainda no ano de 1991 quando fez
seu primeiro censo em parceria com uma entidade da sociedade civil organizada. Neste
censo estimou-se a existência de aproximadamente 5.000 pessoas em situação de rua na
capital paulistana. Após, em 1997, com a aprovação de uma lei municipal (Lei Municipal nº
12.316/1997, regulamentada pelo Decreto Municipal nº 40.232/2001) estabeleceram-se
alguns direitos da população de rua em São Paulo e o governo da cidade ficou obrigado a
realizar o censo da população em situação de rua.
No ano de 2016 a Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania (SMDHC) de São
Paulo publicou o relatório final onde sistematiza os dados da Pesquisa Social Participativa
que realizou naquela cidade entre os anos de 2015 e 2016. Esta pesquisa contou de maneira
pioneira com a participação de pesquisadores que haviam sido ou ainda estavam em
situação de rua.
Para mais informações sobre o CadÚnico acesse:
[Link]
_de_Pessoas_em_Situacao_de_Rua.pdf
As informações trazidas, tanto por esta pesquisa participativa da SMDHC/SP, quanto pelas
anteriores Governo Federal possibilitam elaborar um perfil mais real sobre quem é a
população em situação de rua brasileira. Vê-se que esta é uma população diversa e que
permanece se transformando com o passar do tempo e com as influências dos momentos
econômicos e políticos vividos pelo Brasil.
Em todos os levantamentos verifica-se a existência de um número grande de homens em
situação de rua, mas também percebe-se uma quantidade grande de pessoas que fazem
parte da população LGBT, que é vítima constante de violações e violências físicas por sua
dupla condição de estar nas ruas e ser homossexual. O aumento da presença de mulheres
em situação de rua é outra questão apontada por todos os levantamentos. Crianças e
adolescentes, imigrantes e refugiados também compõem a população em situação de rua
encontrada.
Como parte do Programa Nacional de Educação Continuada em Direitos Humanos
(PNEC_DH) há disponível um curso, como este que você está participando, que fala a
respeito da vivência de pessoas LGBT para construir a compreensão dos principais desafios
colocados à garantia de seus direitos. O curso pode ser acessado em:
[Link]
Outra informação que chama atenção é o
envelhecimento da população que está nas ruas. A
quantidade crescente de pessoas idosas em
situação de rua causa preocupação, os principais
serviços oferecidos a essas pessoas são mais
precários que os para o público geral já que existem
pouquíssimo centros de acolhida especializados
para idosos.
As pesquisas ajudam mais uma vez a combater os
preconceitos existentes sobre esta população
quando verificam que grande parte das pessoas
possui formação escolar, mesmo que deficitária.
Segundo a pesquisa nacional do MDS cerca de
58,7% cursou parte ou terminou primeiro grau, cerca
de 7% cursou parte ou terminou o segundo grau e
aproximadamente 1,4 das pessoas entrevistadas
possuíam ensino superior incompleto ou completo.
As pesquisas também demostram que a população
em situação de rua, ao contrário do estereótipo
preconceituoso que a trata como mendigos e
pedintes, consegue garantir seu sustento nas ruas
Fonte: Pastoral Nacional do Povo da Rua
graças a trabalhos informais que executam. No dia-
a-dia das ruas as pessoas exercem atividades como
catadores de materiais recicláveis 27,5%, 14,1% como guardadores de carro, 6,3% atuando
em atividades de limpeza e 3,1% como carregadores.
A organização constante de informações oficiais, quando feita de maneira comprometida e
em parceria com os movimentos sociais de defesa dos direitos da população em situação de
rua é algo muito importante, pois ajuda a apontar melhores procedimentos para as políticas
públicas, a modificar os estereótipos e a maneira como a sociedade entende esta população,
por isto uma das grandes discussões do momento atual é sobre a inclusão da população em
situação de rua no censo promovido pelo IBGE, solicitação feita pelo Comitê Intersetorial de
Acompanhamento e Monitoramento da Política Nacional para a População em Situação de
Rua (CIAMP-Rua), mas que tem encontrado entraves para a sua execução.
5. Política Nacional de população em situação de rua no Brasil
A compilação de dados sobre a população em situação de rua por parte dos órgãos do
governo e a atuação em conjunto com os movimentos sociais trouxe efeitos positivos para as
ações de garantia de direitos desta população. O somatório de ações intensificou o esforço
para que se pudessem ser elaboradas políticas de inclusão para este segmento da
população. Os debates sobre o fenômeno social das pessoas em situação de rua, a partir
deste diálogo, vêm sendo tratados de forma inédita pelo Governo Federal que passou a
promover diversas iniciativas que possibilitaram a participação da sociedade civil na
discussão e formulação de políticas públicas destinadas a essa população.
Dentro destas iniciativas de interlocução no ano de 2006 o Presidente da República instituiu
um grupo de trabalho interministerial (decreto s/n) que tinha como tarefa fazer estudos e
propor políticas públicas sobre a população em situação de rua. Este grupo de trabalho,
contando com a participação de vários ministérios, incorporou os debates sobre saúde,
educação, moradia, esportes, trabalho, cultura e direitos humanos e contribuiu para a
compreensão de que as políticas para esta população devem se basear na ideia da
intersetorialidade, indo além da simples assistência e promovendo a integralidade dos
sujeitos humanos.
Os trabalhos deste GT foram concluídos no ano de 2009 e apresentados no 2o. Encontro
Nacional da População em Situação de Rua. Neste mesmo ano as propostas apresentadas
pelo GT e pelos movimentos sociais foram consolidadas no texto da Política Nacional de
população em situação de rua constituída pelo decreto no. 7.053 de 23 de dezembro de 2009
que institui a Política Nacional para a População em Situação de Rua (PNPSR) e também o
Comitê Intersetorial de Acompanhamento e Monitoramento (CIAMP-Rua).
Conheça o texto integral do Decreto no. 7.053 de 23 de dezembro de 2009
acessando:
[Link]
O decreto consolida a compreensão oficial utilizada pelo Estado para a população em
situação de rua já no seu primeiro artigo:
Parágrafo único.
Para fins deste Decreto, considera-se população em situação de rua o grupo
populacional heterogêneo que possui em comum a pobreza extrema, os
vínculos familiares interrompidos ou fragilizados e a inexistência de moradia
convencional regular, e que utiliza os logradouros públicos e as áreas
degradadas como espaço de moradia e de sustento, de forma temporária ou
permanente, bem como as unidades de acolhimento para pernoite
temporário ou como moradia provisória. (BRASIL, 2009).
Da maneira como é apresentada o objetivo da PNPSR é ser um instrumento governamental
que garanta acesso amplo, simples e seguro da população em situação de rua aos serviços,
políticas públicas e programas oferecidos pelos ministérios que fazem parte dela.
Pontos importantes defendidos pela PNPSR são a garantia da participação e controle
social da população em situação de rua, vistos como sujeitos políticos. Além da defesa
da igualdade e equidade, o respeito à dignidade da pessoa humana; o direito à
convivência familiar e comunitária; a valorização e respeito à vida e à cidadania; o
atendimento humanizado e universalizado; e o respeito às condições sociais e diferenças
de origem, raça, idade, nacionalidade, gênero, orientação sexual e religiosa e atenção às
pessoas com deficiência.
Reunião do CIAMP Rua na sede do Ministério dos Direitos Humanos em agosto de 2018. Fonte:
[Link] realizada-no-mdh.
O Comitê Intersetorial de Acompanhamento e Monitoramento da Política Nacional para a
População em Situação (CIAMP-Rua) faz parte da PNPSR como a instância de discussão e
deliberação sobre as políticas públicas para a População em Situação de Rua no país. É
coordenado pelo Ministério dos Direitos Humanos e fazem parte dele: os ministérios com
compõem a política nacional, comitês gestores locais; representações da sociedade civil
como o Movimento Nacional da População de Rua (MNPR), representantes dos fóruns
estaduais da população em situação de rua e da Pastoral Nacional do Povo da Rua da
Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB); e as redes de atendimento das várias
políticas ofertadas pelos ministérios que compõem o CIAMP-Rua. O CIAMP-Rua também
tem como tarefa de atuação o monitoramento e acompanhamento da implementação da
PNPSR.
Em seu segundo artigo o decreto 7.053/2009 indica a necessidade de a PNPSR ser
implementada de modo descentralizado e articulado entre o Poder Executivo e os
demais entes da federação que assinarem seu Termo de Adesão. Este termo define
as atribuições e as responsabilidades que serão compartilhadas e indica a criação
de comitês gestores intersetoriais do qual devem fazer parte representantes de
todas as áreas relacionadas ao atendimento da população em situação de rua, com
a participação de fóruns, movimentos e entidades representativas dessa população.
Outra iniciativa que busca estabelecer o diálogo entre poder público e movimentos sociais
para a promoção e defesa de direitos das pessoas em situação de rua e catadores de
materiais recicláveis segundo o que indica a PNPSR e o decreto 7.053 é o Centro Nacional
de Defesa dos Direitos Humanos da População em Situação de Rua e dos Catadores de
Materiais Recicláveis (CNDDH) previstos no Decreto Nº 7.053 de 23 de dezembro de 2009,
em seus artigos 7º e 15; O Ministério dos Direitos Humanos é o responsável por sua
implantação e pelo apoio na criação de Centros Estaduais.
Pensado em conjunto com as propostas aprovadas na 12ª Conferência Nacional dos Direitos
Humanos de 2016 o CNDDH constrói um diálogo constante com a população em situação de
rua e com os catadores de materiais recicláveis onde atua. O CNDDH funciona na cidade de
Belo Horizonte (MG) com núcleos em funcionamento nas cidades de Salvador (BA),
Fortaleza (CE), Vitória (ES), Rio de Janeiro (RJ), São Paulo (SP) e Brasília (DF).
6. Guarde na memória!
Neste módulo você aprendeu a respeito da história da organização da população em
situação de rua e do movimento pela garantia dos seus direitos. Viu que ao longo dos
anos o protagonismo da população em situação de rua na luta por seus direitos se
intensificou e conquistou avanços importantes e que os militantes do MNPR lutam
pela inclusão das pessoas em situação de rua, para acabar com a invisibilidade a
qual são submetidos e para que a sociedade e o Estado brasileiro reconheçam a
dívida histórica que possuem com a população em situação de rua.
Aprendeu também sobre o perfil atual da população em situação de rua no Brasil e
que o conhecimento das características desta população é importante porque
contribui para desconstruir alguns preconceitos e para a melhor formulação de
políticas públicas que levem em consideração toda a diversidade das pessoas que
estão em situação de rua.
Por fim, ficou conhecendo pontos importantes e os objetivos da Política Nacional para
a população em situação de rua constituída pelo decreto no. 7.053 de 23 de
dezembro de 2009 que institui a Política Nacional para a População em Situação de
Rua (PNPSR) e também o Comitê Intersetorial de Acompanhamento e
Monitoramento (CIAMP-Rua).
Encerramos este primeiro módulo. A seguir, você deverá realizar uma
avaliação de aprendizagem!
7. Referências Bibliográficas
BRASIL. Decreto nº 7.053 de 23 de dezembro de 2009. Institui a Política Nacional para a
População em Situação de Rua e seu Comitê Intersetorial de Acompanhamento e
Monitoramento, e dá outras providências. Diário Oficial, Brasília, DF, 23 dez. 2009.
BRASIL. Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome Secretaria de Avaliação e
Gestão da Informação. Rua Aprendendo a Contar: Pesquisa Nacional sobre a População em
Situação de Rua. Brasília: MDS: 2009.
BOVE, Figueiredo. População em Situação de Rua. Brasília: Secretaria de Direitos Humanos
da Presidência da República - SDH/PR, 2015.
PINTO, R. M. P.; GONDIM, A. B. C. Trabalho e População em Situação de Rua: uma análise
à luz da questão social. VII Jornada Internacional de Políticas Públicas, São Luis, Ago. 2017.
Disponível em:
<[Link]
[Link]>.