Existe poder político nas ruas da cidade.
Existe poder político no sorriso de uma criança.
Existe poder político no amor de mãe.
Existe poder político na sintonia do Universo.
Existe poder político num bombardeamento aéreo.
Existe poder político na morte de uma criança.
Existe poder político na prostituição.
Existe poder politico na relatividade que não morre.
Existe poder político numa conversa de café.
E eu lembro-me, lembro-me bem.
Lembro-me de acordar cedo para a brisa matinal
e olhar o céu raiado ao inspirar a beleza que escorrega
do cosmos e invade o lar que permite a janela aberta:
era o poder político que me agraciava todas as manhãs.
Existe poder político numa janela aberta.
Existe poder político num sapato desapertado.
Existe poder político em roupa interior negra.
Existe poder político na inexistência de poder político.
(Foi no preciso momento da inexistência que a cobra mordeu a sua própria cauda
e os três profetas da desgraça se ergueram das penumbras do tempo
para anunciar o poder político que iria perdurar pela poesia)
Não será um poema o auge de uma carreira política?
Não será a justiça uma ilusão de poetas?
Não será o conceito de pátria um constructo completamente arbitrário
delimitado por fronteiras impostas por elites poéticas
com gigantescos exércitos à sua disposição?
Não será um regime totalitário um poema que fugiu do controlo
para criar o seu próprio controlo nos infinitos espaços
que separam as luzes do inferno?
Existe poder político na poesia.
Existe poder político na luz.
Existe poder político no sorriso de uma criança.
Existe poder político no terceiro dia de cada mês.
Existe poder político em cada virgula,
em cada ponto final.