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A Mulher Selvagem e o Arquétipo de La Loba

O documento discute o arquétipo da Mulher Selvagem e a história de La Loba, que representa a ressurreição desse espírito selvagem dentro de cada mulher. A autora explica que cantar sobre os ossos, ou seja, acessar a sabedoria instintiva, pode trazer a Mulher Selvagem de volta à vida. Além disso, discute como entrar em contato com esse lado selvagem por meio da meditação, da arte ou da imaginação.

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A Mulher Selvagem e o Arquétipo de La Loba

O documento discute o arquétipo da Mulher Selvagem e a história de La Loba, que representa a ressurreição desse espírito selvagem dentro de cada mulher. A autora explica que cantar sobre os ossos, ou seja, acessar a sabedoria instintiva, pode trazer a Mulher Selvagem de volta à vida. Além disso, discute como entrar em contato com esse lado selvagem por meio da meditação, da arte ou da imaginação.

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A ressurreição da mulher selvagem

O conto La Loba é um conto de mistério, “é um conto de ressurreição acerca do vínculo do


mundo subterrâneo com a Mulher Selvagem. Ele promete que, se cantarmos a canção,
poderemos conclamar os restos psíquicos do espírito da Mulher Selvagem e trazê-la de volta à
forma vital com nosso canto” (ESTÉS, 1994, p. 45). La loba indica o que devemos procurar - os
ossos, que representam a indestrutível força da vida. Depois de reunir os ossos, é preciso cantar
sobre eles.
Mas o que significa cantar? Cantar, nas palavras da autora, “significa usar a voz da alma.
Significa sussurrar a verdade do poder e da necessidade de cada um, soprar alma sobre aquilo
que está doente ou precisando de restauração. Isso se realiza por meio de um mergulho no
ponto mais profundo do amor e do sentimento, até que nosso desejo de vínculo com o Self
selvagem transborde, e em seguida com a expressão da nossa alma a partir desse estado de
espírito. Isso é cantar sobre os ossos” (ESTÉS, 1994, p. 45). Que partes de você estão doentes e
precisando de cura?
A velha é um arquétipo disseminado em muitas partes do mundo. Arquétipos são padrões ou
personagens universalmente conhecidos, como o da grande mãe, grande pai, feiticeira, virgem,
jovem. A maioria das pessoas tem uma ideia do que é uma feiticeira quando mencionamos esse
nome. La loba também é conhecida como la que sabe. La loba está dentro de nós, na alma-
psique das mulheres, ela é a antiga e vital mulher selvagem.
De acordo com Estés (1994, p. 45-46) “essa Mulher Selvagem La Loba, que vive no deserto, foi
chamada por muitos nomes e atravessa todas as nações pelos séculos afora. Seguem-se alguns
dos seus antigos nomes: A Mãe dos Dias é a deusa-mãe-criadora de todos os seres e de todas as
coisas, incluindo-se o céu e a terra. Mãe Nyx exerce seu domínio sobre tudo o que for da lama e
das trevas. Durga controla os céus, os ventos e os pensamentos dos seres humanos dos quais se
espalha toda a realidade. Coatlique dá a vida ao universo incipiente, que é maroto e difícil de
controlar, mas, como uma mãe loba, ela morde a orelha do filhote para contê-lo. Hécata, a velha
vidente que "conhece seu povo" e traz em si o cheiro de húmus e o sopro divino. E muitas,
muitas outras. Essas são as imagens do que e de quem vive aos pés dos morros, longe no
deserto, lá nas profundezas”.

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A casa da la loba é aquele lugar no tempo no qual o espírito das mulheres e dos lobos se
encontram, onde mente e instintos se misturam. “Uma coisa a respeito desse espaço é certa:
ele é antigo... mais velho do que os oceanos. Como La Loba, ele não tem idade; é atemporal.
O arquétipo da Mulher Selvagem dá sustentação a essa camada e emana da psique instintiva.
Embora ela possa assumir muitos disfarces nos nossos sonhos e experiências criativas, ela não
pertence à camada da mãe, da virgem, da mulher medial, nem da criança interior. Ela não é a
rainha, a amazona, a amada, a vidente. Ela é só o que é. Chamem-na de La Que Sabé, Aquela
Que Sabe; chamem-na de Mulher Selvagem, de La Loba, chamem-na pelos seus nomes nobres
ou pelos seus nomes humildes; chamem-na pelos seus nomes mais novos ou mais antigos; ela
continua sendo apenas o que é” (ESTÉS, 1994, p. 47).
E no que consiste o arquétipo da Mulher Selvagem? Ela é “uma força inimitável e inefável que
traz para a humanidade um abundante repertório de idéias, imagens e particularidades. O
arquétipo existe por toda a parte e, no entanto, não é visível no sentido comum da palavra. O
que pode ser visto dele no escuro não é visível à luz do dia” (ESTÉS, 1994, p. 47). Como
podemos ver a alma nas coisas? Não há como, é preciso sentir.
Existem vários nomes para esse espaço entre os mundos. Jung chamou-o tanto de
inconsciente coletivo e psique objetiva quanto de inconsciente psicóide — referindo-se a uma
camada mais indescritível do primeiro. Ele considerava este último um lugar em que os universos
biológico e psicológico compartilhavam as mesmas nascentes, em que a biologia e a psicologia
talvez se pudessem fundir, influenciando-se mutuamente. Desde a memória humana mais remota,
esse lugar […] é o lugar onde ocorrem aparições, milagres, imaginação, inspiração e curas de
todas as naturezas. Embora esse local transmita imensa riqueza psíquica, ele não deve ser
abordado sem antes alguma preparação, pois é grande a tentação de nos afundarmos
alegremente no prazer de nossa estada ali” (ESTÉS, 1994, p. 48). E só você pode dizer se está
pronta para esse mergulho.
O arquétipo da Mulher Selvagem está dentro de todas nós, já que “cada mulher tem acesso
potencial ao Río abajo Río, esse rio por baixo do rio. Ela chega até ele através da meditação
profunda, da dança, da arte de escrever, de pintar, de rezar, de cantar, de tamborilar, da
imaginação ativa ou de qualquer atividade que exija uma imensa alteração de
consciência” (ESTÉS, 1994, p. 48). Em outras palavras, são inúmeras as formas de se acessar esse
rio.

Os quatro rabinos
O conto dos quatro rabinos fala sobre o cuidado que devemos ter ao penetrar nesse estado
psíquico, pois “o contato com o mundo subterrâneo onde residem as Essências faz com que
percebamos algo fora do conhecimento normal dos seres humanos e nos preenche com uma
sensação de amplitude e de grandeza. Quando tocamos Aquela Que Sabe, isso provoca uma
reação nossa e nos faz agir a partir da nossa natureza integral mais profunda” (ESTÉS, 1994, p.
49). E o que fazer após entrar em contato com essa luz, essa essência selvagem?
A história recomenda que a atitude mais adequada é o fascínio sem exagero, sem excessos
de admiração ou cinismo, com coragem, mas sem imprudência. Algumas mulheres “descobrirão
um jeito de cumprir com o que Jung chamou de ‘obrigação moral’ de sobreviver e de exprimir o
que foi aprendido na descida ou na subida até o Self selvagem” (ESTÉS, 1994, p. 50). Eu, Nicole,
estou aqui agora com você, te guiando nessa jornada de autoconhecimento. Essa foi a forma que
encontrei para honrar o tanto que aprendi nessa descida e nessa subida.
O mito da La loba faz paralelos com vários mitos universais em que mortos são
ressuscitados. Na mitologia egípcia, Ísis restaura o corpo do irmão esquartejado todas as noites.
Cristo levantou Lázaro. Deméter, na mitologia grega, chama sua filha Perséfone da Terra dos

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mortos. E La loba canta sobre os ossos. No terceiro capítulo do livro, que traz o conto de Vasalisa,
teremos a chance de ler sobre o mito de Perséfone e aprofundar essa ideia. A recriação a partir
da morte tem sem duas faces: é o arquétipo da Mãe criadora e da Mãe morte ou Ceifadora.
No México, se diz que as mulheres carregam a luz da vida, que está localizada em seus
ovários, onde todas as sementes estão armazenadas antes do nascimento daquela mulher. Nas
palavras de Estés (1994, p. 51) “quando La loba canta, ela está cantando a partir do saber
contido nos ovários, um conhecimento que vem das profundezas do corpo, do fundo da mente,
do fundo da alma. Os símbolos das sementes e dos ossos são muito semelhantes”. Aqui cabe
salientar que não considero necessário ter ovários de fato para ter acesso a esse saber, estamos
falando de um centro energético de sabedoria. Portanto, mulheres trans e mulheres que retiraram
seus ovários, vocês estão incluídas!
A grande questão aqui é que “dispor da semente significa ter o acesso à vida. Conhecer os
ciclos da semente significa dançar com a vida, dançar com a morte, dançar de volta à vida. A
natureza da mulher selvagem nas mulheres é a da mãe da vida e da morte em sua forma mais
antiga. Como gira nesses ciclos constantes, eu a chamo de mãe vida-morte-vida” (ESTÉS, 1994,
p. 51). Você sabe identificar quando é hora de desistir de um relacionamento, projeto ou
emprego quando ele precisa morrer? Você nutre ideias e relações que precisam crescer?
Falaremos bastante sobre isso ao longo da jornada.
Voltando à história de La Loba, “a velha no deserto é uma recolhedora de ossos. Na
simbologia arquetípica, os ossos representam a força indestrutível. Eles não se prestam a uma
fácil redução. Por sua estrutura, é difícil queimá-los e praticamente impossível pulverizá-los. Nos
mitos e nas histórias, eles representam a alma/espírito indestrutível. Sabemos que a alma/
espírito pode ser ferida, até mesmo mutilada, mas é quase impossível eliminá-la” (ESTÉS, 1994,
p. 52).
O objetivo central desta história é “devolver a mulher aos seus plenos sentidos selvagens
instintivos. Dentro de nós, vive a velha que recolhe os ossos. Dentro de nós estão os ossos
espirituais da Mulher Selvagem. Dentro de nós está o potencial de readquirir nossa carne, como
a criatura que um dia fomos. Dentro de nós estão os ossos para que nos modifiquemos bem
como ao nosso mundo. Dentro de nós estão nosso fôlego, nossas verdades e nossos anseios —
juntos eles são a canção, o hino da criação que sempre desejamos entoar” (ESTÉS, 1994, p. 53).
Outra forma de ver esse trecho é pensar que a busca pela Mulher Selvagem é uma busca pela
própria verdade, é criar uma vida que faça sentido pra nós a partir de nossos próprios desejos.
Como isso soa pra você?
Para nos reconciliarmos com a Mulher Selvagem que mora em nós, não precisamos renunciar à
modernidade, à ciência ou a vida na cidade. A questão que se coloca é como vamos fazer com
que nossa parte selvagem conviva em harmonia com nossa parte civilizada. Em outras palavras,
“continuamos humanas, mas dentro da mulher humana está o Self animal instintivo” (ESTÉS,
1994, p. 53).
E se você e sua parte selvagem já se conhecem e se dão bem, que bom que você está aqui,
porque “mesmo no melhor dos mundos, a alma precisa de uma renovação ocasional” (ESTÉS,
1994, p. 54). Por conta disso, um dos materiais inspiradores que escolhi foi a música De luz, de
Chico Brant, que trata justamente de transformação espiritual, de metanóia. Confira!
Ao (re)encontrar sua Mulher Selvagem, prepare-se para desagradar. É muito provável que as
pessoas ao seu redor estranhem sua mudança. Não tenha medo e siga em frente. Segundo Estés
(1994, p. 54) “algumas pessoas não apreciarão sua atitude de dar uma cheirada em tudo para ver
o que é. E, pelo amor de Deus, nada de se deitar no chão com as patas para cima. Menina feia.
Lobo feio. Cachorro feio. Certo? Errado. Não ligue. Divirta-se”.

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São muitas as formas de acessar esse Self Selvagem: “as pessoas fazem meditação para
conseguir um equilíbrio psíquico. É por isso que se faz psicoterapia e análise. É para isso que os
seres humanos analisam seus sonhos e criam arte. É por isso que muitos consultam o tarô, o I
Ching, dançam, batucam, fazem teatro, arrancam poemas das entranhas e criam a oração
iluminada. É por isso que fazemos tudo o que fazemos. Trata-se da tarefa de reunir todos os
ossos. Em seguida, devemos nos sentar diante do fogo para decidir qual canção usaremos para
cantar sobre os ossos, que hino da criação, que hino da recriação. E as verdades que dissermos
formarão a canção” (ESTÉS, 1994, p. 54-55). Todas essas são formas de recolher ossos. Alguma
delas ressoou em você?
Além disso, “existem algumas boas perguntas a fazer enquanto decidimos qual será a canção,
nosso verdadeiro canto. O que aconteceu com a voz da minha alma? Quais são os ossos
enterrados na minha vida? Em que condições está meu relacionamento com o Self instintivo?
Quando foi a última vez que corri livremente? Como posso fazer com que a vida volte a ter
vida? Para onde foi La Loba?” (ESTÉS, 1994, p. 55).
A velha canta sobre os ossos e a carne volta a cobri-los. “Nós também 'nos tornamos’ à
medida que derramamos a alma sobre os ossos que encontramos. E, como La loba, nós quase
sempre começamos no deserto. Temos uma sensação de perda de direitos, de alienação, de não
estarmos vinculadas nem mesmo a uma moita de cactos. Os antigos chamavam o deserto de
lugar da revelação divina” (ESTÉS, 1994, p. 55).
Entretanto, o deserto não é inteiramente ruim, já que “ é um lugar em que a vida se
apresenta muito condensada. As raízes das plantas se agarram à última gota d’água e as flores
armazenam umidade abrindo apenas de manhã cedo e ao final da tarde. A vida no deserto é
pequena porém brilhante, e quase tudo que acontece tem lugar no subsolo. Essa descrição é
semelhante à vida de muitas mulheres” (ESTÉS, 1994, p. 55). Você se identificou?
Ei, mulher, você está pronta para sair do deserto? Vem que você não está sozinha nessa
jornada! Encerro esse texto com a seguinte mensagem: “La loba é a guardiã da alma” (ESTÉS,
1994, p. 54). Confie!

Glossário
Circunspecta = cautelosa, ponderada, séria, reservada.

Referência
ESTÉS, CLARISSA PINKOLA. Mulheres que correm com os lobos: mitos e histórias do
arquétipo da mulher selvagem. Rio de Janeiro: Rocco, 1994.

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