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Psicólogo na Prevenção de Drogas

O documento discute a inserção do psicólogo no trabalho preventivo sobre o abuso de álcool e outras drogas. Apresenta dados sobre o consumo de drogas no Brasil e descreve uma oficina para reduzir os riscos do abuso de álcool por universitários. Argumenta que os psicólogos devem ser capacitados para desenvolver ações preventivas nessa área.
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Psicólogo na Prevenção de Drogas

O documento discute a inserção do psicólogo no trabalho preventivo sobre o abuso de álcool e outras drogas. Apresenta dados sobre o consumo de drogas no Brasil e descreve uma oficina para reduzir os riscos do abuso de álcool por universitários. Argumenta que os psicólogos devem ser capacitados para desenvolver ações preventivas nessa área.
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PSICOLOGIA CIÊNCIA E PROFISSÃO, 2004, 24 (1), 108-115

A Inserção do Psicólogo no
Trabalho de Prevenção ao Abuso
de Álcool e Outras Drogas
The insertion of the psychologist in preventive
works on the abuse of alcohol and other drugs
Resumo: O presente trabalho discute a inserção do profissional de Psicologia no trabalho preventivo ao
uso de álcool e outras drogas. Analisa os dados epidemiológicos disponíveis sobre o consumo de drogas
no Brasil, que caracterizam o uso abusivo de álcool como um grave problema de saúde pública em
nosso país. Mostra que, como em outras parcelas da população, o consumo de álcool e drogas por
universitários demanda o desenvolvimento de trabalhos preventivos específicos, descreve uma oficina de
redução dos riscos associados ao abuso de álcool por universitários e discute ainda os pressupostos das
estratégias preventivas de redução de danos. Finalmente, salienta a importância da inserção do
psicólogo nesse trabalho e de sua capacitação, não somente no que diz respeito à prática clínica, mas
também à sua atuação no desenvolvimento de trabalhos preventivos.
Palavras-Chave: Psicólogo, prevenção, alcoolismo

Abstract:The present work discusses the insertion of the psychologist in preventive works on the abuse of
alcohol and other drugs. Brazilian epidemiological data on drug consumption are analyzed and alcohol
abuse is characterized as a serious problem of public health in our country. It is shows that, as in other
population segments, university students’ alcohol and other drugs abuse requires the development of
Hilda Regina specific preventive actions. A workshop to reduce the harms associated to alcohol abuse in university
students is described and the fundamental basis of harm reduction strategies are stressed. Finally, the
Ferreira Dalla Déa
work emphasizes the importance of the psychologist’s insertion in this area and the imperative need of
technically capacitating psychologists, not only with respect to clinical practice, but also to develop
Professora titular do
Depto. de Psicologia do
preventive actions. Key Words: Psychologist, prevention, alcoholism.
Desenvolvimento e
coordenadora do
Aprimoramento Clínico
Institucional O
Psicólogo e a
Prevenção ao Abuso de
Álcool e Outras Drogas
(PUC-SP).

Elcio Nogueira dos


Santos, Erick
Itakura
& Tatiana Bacic Olic

Psicólogo(a), (as)
aprimorando(a), (as).
108
Jupiterimages
A Inserção do Psicólogo no Trabalho de Prevenção ao Abuso de Álcool e Outras Drogas
Medicamentos, retrata
álcool e tabaco m o
são drogas comport
Drogas, Por quê? legalmente A amento
dos
comercializadas. Dimensão
O tema fascina os jovens, angustia brasileir
os pais e preocupa os educadores.
Cada cultura do os que
determina quais Problema
Os meios de comunicação veiculam, moram
drogas devem
diariamente, informações sobre o no Brasil nas
ser consideradas grandes
assunto, muitas vezes num tom
legais e ilegais. cidades
dramático, de catástrofe iminente. A Embora no
Isso está mais : para o
literatura científica enfatiza a Brasil o padrão
relacionado a álcool,
importância de se enfrentar a de consumo de
aspectos o uso
questão do abuso de substâncias drogas não
antropológicos e na vida2
através de medidas de prevenção seja
econômicos do foi
adequadas. Por que o uso de drogas comparável ao
que a morais ou relatado
vem, cada vez mais, apresentando-
que se verifica
por
éticos, ou mesmo nos países
se como uma questão do nosso 69%
aos efeitos ou desenvolvidos,
tempo? dos
características sua evolução
sujeitos
recente torna
O consumo de substânciasfarmacológicas pesquis
esse tema uma
psicoativas existe desde osdas substâncias preocupação
ados e
primórdios da história do homem, em questão a
obrigatória dos
em praticamente todas as culturas (Bucher, 1992). prevalê
profissionais
ncia de
conhecidas. Curiosidade, desejo da área de
O aumento depend
de transcendência, busca da saúde.
verificado nos entes
imortalidade, do prazer, da
últimos anos no O estudo mais foi
sabedoria, são alguns dos motivos estimad
consumo de amplo sobre o
que aparecem, desde sempre, a em
consumo de
associados ao desejo por algumadrogas dos países 11%,
desenvolvidos é, drogas no País
droga. maior
sem dúvida, (Carlini,
Galduróz, Noto & nos
Drogas ou substâncias psicoativas 1 “...alarmante. Por um homens
Nappo, 2002)
são aquelas que modificam o estado lado, o (17%)
envolveu as 107
de consciência do usuário. Os efeitos narcotráfico
maiores cidades do que
podem ir desde uma estimulaçãoorganizou-se de do Brasil (com nas
suave causada por uma xícara de caféforma mais mais de 200 mil mulhere
ou chá até os efeitos eficiente, habitantes). s (6%).
...produzidos por alucinógenos tais
expandindo a Foram
como o LSD...” entrevistadas
Em
oferta de produtos;
relação
(Seibel e Toscano Jr., 2001, p.1).pelo outro, 8.589 pessoas,
com idades de
ao
Masur & Carlini (1989) definemcresceu a
12 a 65 anos, de
tabaco,
drogas como substâncias quedemanda de
todas as classes o uso
interferem com o funcionamentopsicotrópicos por na vida
sociais. Os
dos neurotransmissores,uma parcela cada é de
objetivos desse
provocando alterações e distúrbiosvez maior da 41%, e
estudo foram
no comportamento. população estimar a o
prevalência do númer
(Bucher, 1996).
Ao longo da história da uso e da o de
humanidade, o uso de drogas dependência de depen
insere-se em vários contextos. drogas lícitas e dentes
Desde o místico, associado aos ilícitas, além de chega
rituais e à busca de avaliar a a 9%
percepção da da
transcendência, até o econômico,
população sobre popula
do qual a Guerra do Ópio e a
as drogas, a ção. A
economia paralela de países como
facilidade de macon
a Colômbia são alguns exemplos ha já
obtê-las, seus
(Totugui, 1988). Em nosso meio, foi
efeitos e seus
praticamente todas as pessoas riscos. Seus utilizad
fazem uso de algum tipo de droga. resultados a por
7% dos entrevistados, os 109
solventes por 6% e a cocaína
por 2% dos sujeitos estudados.

Chamam a atenção as diferenças de


comportamento entre homens e
mulheres. Embora todos sejam
expostos da mesma maneira ao
consumo de drogas, com o tempo,
os homens passam a usar muito
mais essas substâncias do que as
mulheres. No caso do álcool, um em
seis homens torna-se dependente.
Já para as mulheres, essa razão é
de uma para dezessete.

As Drogas mais
Usadas pelos
Estudantes
Brasileiros
O estudo de Galduróz, Noto e Carlini
(1997) reúne os resultados obtidos
nos quatro levantamentos sobre o
consumo de drogas psicoativas por
alunos do ensino médio e
fundamental em dez capitais
brasileiras, realizados pelo CEBRID
(Centro Brasileiro de Informações
sobre Drogas Psicotrópicas) em
1987, 1989, 1993 e 1997.

Segundo esse estudo, o álcool é a


droga mais amplamente utilizada 1 Embora o termo
pelos estudantes, muito à frente“droga” tenha um sentido
do segundo colocado, o tabaco. Omais geral, referindo-se
a qualquer substância
uso de álcool tem início bastanteexógena que altere a
precoce na vida desses jovens –fisiologia normal do
cerca de 50% dos alunos entre 10organismo e os termos
e 12 anos já fizeram uso dessa“droga psicotrópica” e
“substância psicoativa”
droga. O uso freqüente e o usorefiram-se
3
pesado vêm aumentando naespecificamente àquelas
maioria das capitais [Link]âncias que
interferem com o
Quase 30% dos estudantes já funcionamento do
sistema nervoso central,
os três termos são
utilizados normalmente
como sinônimos.

2 Uso na vida:
quando a pessoa fez
uso de uma droga
pelo menos uma vez
em toda a vida
(World Health
Organization, 1980).

3 Uso freqüente :
quando a pessoa utilizou
droga seis ou mais
vezes nos trinta dias que
antecederam a pesquisa;
uso pesado: quando a
pessoa utilizou droga
vinte ou mais vezes nos
trinta dias que
antecederam a pesquisa
(World Health
Organization, 1980).
Hilda Regina Ferreira Dalla Déa, Elcio Nogueira dos Santos, Erick Itakura & Tatiana Bacic Olic
cia de problemas, experimentaram
mas também a essa substância.
sua gravidade Há tendência de
utilizara (Masur & Carlini, aumento no uso
m 1989). Os freqüente e no uso
bebidas principais danos pesado em quatro
alcoólic orgânicos das dez cidades
as até associados ao estudadas.
embriag uso crônico de
ar-se. álcool são Os inalantes são
No gastrite (em substâncias
último geral, é o presentes em
levanta problema que produtos
mento aparece mais industrializados
(1997), cedo), aumento como esmalte, cola
11% da da pressão de sapateiro,
populaç arterial, corretivos de tinta,
ão pancreatite, fluidos de isqueiro,
pesquis miocardite, lança-perfume, entre
ada hepatite e cirrose outros. Em todos os
relatou alcoólica, levantamentos
ter distúrbios realizados, os
brigado neurológicos inalantes só foram
e graves, superados pelo
19,5% alterações da álcool e pelo tabaco.
faltado memória e lesões Freqüentemente
à no sistema associado a
escola nervoso central. populações
depois marginalizadas,
de Entretanto, ao como meninos em
beber. contrário dos situação de rua, o
Quando efeitos orgânicos uso de inalantes tem
compar decorrentes do sido muitas vezes
ado a uso crônico de compreendido como
drogas cocaína ou uma resposta a
como mesmo do condições de vida
maconh tabaco, os danos extremamente
a, associados ao precárias.
cocaína álcool levam um Entretanto, como
, tempo mais longo salientam Dalla-Déa,
heroína para aparecer, da Almeida, Silveira e
.
4 Estado psíquico e algumas vezes físico ou ordem de cinco a Toledo (1999), o uso
resultante da interação entre um organismo vivo e tabaco,
dez anos. Por dessas substâncias
uma substância, caracterizado por modificações
o álcool isso, raramente por jovens de classe
de comportamento e outras reações, que sempre
incluem um impulso a utilizar a substância deé a encontramos média indica que
modo contínuo ou periódico, com a finalidade desubstân esse fenômeno não
jovens alcoolistas,
experimentar seus efeitos psíquicos e, algumascia cujo
vezes, de evitar o desconforto da privação embora o se restringe à
(Organisation Mondiale de la Santé, 1969). uso aumento de influência de fatores
crônico consumo de como a fome, a
5 Dalla-Déa, H.R .F, Souza, R.M. Entre a leva a
Cervejinha e o Alcoolismo – o Espaço para a álcool que vem miséria e a
Prevenção ao Abuso de Álcool nos Campimaior ocorrendo nas marginalização, mas
Universitários. Manuscrito não publicado. risco também é
faixas etárias
orgânic influenciado por
mais baixas
o, pressões de grupo e
possa modificar
entende por aspectos da
essa situação.
110 ndo-se subjetividade do
como O uso inicial de usuário e de seus
risco tabaco também é conflitos, tanto
não só bastante precoce, individuais quanto
a sendo que, aos familiares.
probabil 10-12 anos de
idade
idade, cerca de
de No último dos
12% já
ocorrên quatro
levantamentos (Galduróz, Noto e Carlini maior no sexo significam que,
1997), a maconha mostrou uma feminino. Em como a
tendência de aumento do uso na vida. O algumas dependência do
uso freqüente e o uso pesado também sobre capitais, há “crack” é sempre
cresceram significativamente. Os a sua tendência para muito severa,
autores sugerem que esses resultados descri o aumento do aqueles que
podem ser interpretados de duas minaliz uso freqüente e começam a usar
maneiras: ou o uso dessa substância ação e do uso pesado essa droga
realmente aumentou, ou a mudança de seu de ambos os perdem
atitude da sociedade frente à maconha, uso tipos de rapidamente o
possibilitando os atuais debates terapê drogas. Por se vínculo com a
utico tratar de escola.
fez substâncias
com que Mesquita,
que os reconhecidame Bucaretchi, Castel
jovens nte induzem a e Andrade(1995),
passas dependência4 , em seu estudo
sem a seu uso sem sobre o uso de
relatar controle médico substâncias
mais é psicoativas por
freqüe potencialmente estudantes da
nteme perigoso. Além Faculdade de
nte disso, muitos Medicina da USP,
seu casos de verificaram que o
uso, anorexia álcool é a droga
que nervosa mais usada, com
sempr iniciam-se após taxas de
a utilização de prevalência de uso
e foi
anfetamínicos na vida de 82%,
elevad
em regimes uso no ano, 76% e
o.
conduzidos uso no mês, 69%.
incorretamente.
Nos De maneira geral, o
quatro álcool é a droga
O uso de
levanta que mais conta
cocaína vem-se
mento com a aprovação
popularizando
s dos alunos, tanto
entre os
realiza em relação à
estudantes - das
dos, os experimentação
dez capitais
ansiolít quanto ao uso
icos e estudadas,
regular.
os apenas no Rio
anfeta de Janeiro e em Andrade, Bassit,
mínico Recife não se Kerr-Corrêa,
s observou Tonhon, Boscovitz,
(moder tendência de Cabral, Rassi,
adores aumento do uso Potério,
do na vida. O uso Marcondes,
apetite freqüente Oliveira, Dualibi e
) cresceu em oito Fukushima (1997)
sempr capitais avaliaram o
e (inclusive em consumo de drogas
aparec São Paulo). Da em 5225 alunos de
eram mesma forma, o nove escolas de
entre uso pesado Medicina do Estado
as apresentou de São Paulo. Os
drogas aumento em resultados
mais quase todas as
confirmam os
consu capitais. Por
achados do
midas outro lado, o uso
trabalho anterior - a
pelos de “crack”
droga mais usada
estuda aparece muito
foi o álcool,
ntes, raramente - as
seguida pelo
com baixas
tabaco, solventes,
uma porcentagens
maconha,
utilizaç para uso de
tranqüilizantes e
ão “crack” entre os
cocaína. Não foram
nitidam estudantes
encontradas
ente possivelmente
diferenças entre os
estudantes da capital e do interior.

Um estudo preliminar sobre o uso de


bebidas alcoólicas por estudantes de
Psicologia da PUC-SP e suas atitudes
em relação ao álcool5 obteve resultados
semelhantes, porém mais elevados do
A Inserção do Psicólogo no Trabalho de Prevenção ao Abuso de Álcool e Outras Drogas
jovem. Por isso, o
trabalho preventivo
envolve não só a
que os trabalhos anteriormente citados – o no relacionamento ação educativa, mas
uso na vida foi relatado por 97%, o uso no com os pais e/ou implica também uma
ano por 95% e o uso no mês por 79,9% relacionamentos psicoprofilaxia, uma
dos sujeitos. A maioria (75,1%) relata já terafetivos, atitude clínica, no
bebido até a embriaguez, e 23,3% ter-sedificuldades sentido mais amplo
embriagado no último mês. financeiras etc. do termo.

O conjunto desses resultados mostraAssim, o uso


que a prevalência do uso de álcool eabusivo de álcool
outras drogas por adolescentes epor adolescentes e
adultos jovens é mais elevada do que a adultos jovens
observada na população geral. Assim, aconstitui um sério
adolescência e o início da vida adulta problema de saúde
caracterizam-se como um dos períodospública cuja
de vulnerabilidade aumentada – umaprevenção, para ser
“janela de risco”. Devido a fatoresefetiva, deve levar
subjetivos e/ou culturais, nessesem consideração
períodos (a terceira idade é um deles) tanto fatores
ocorre um aumento da probabilidade desocioculturais
consumo de álcool ou outras drogas e,quanto aspectos da
portanto, dos problemas associados asubjetividade do
esse consumo.
16 a 20 danos aodo mundo cada vez
anos. O patrimônio, adulto. maiores
álcool é, comportam Dessa de álcool
Entre a segurame ento maneira, o pelos
Cervejinha e o nte, a violento e“calouro” jovens
Alcoolismo droga que confrontos universitári universitá
mais entre o é rios,
O álcool é uma droga danos traz gangues. estimulado, como, por
legalizada e seuà pelo grupo, exemplo,
Quando a beber. A dificuldad
consumo não só ésociedade
como um ingressa nabebida es
aceito pela sociedade
universidad assume um
como incentivado portodo. Além
e, o jovemcaráter não
intensa [Link], no
caso transpõe só de
Entretanto, é
particular uma fase integração, Qua
importante salientar
de suamas ndo
que o uso pesado dede
bebidas alcoólicas é oadolescent vida, ”deixa também de dest
caminho mais curto es e de ser socializaçã inad
para o [Link], o adolescent o desse o a
Calcula-se que 10 aconsumo e” e iniciaestudante estu
12% da populaçãode álcool uma novano universo dant
mundial é dependente também vida, “maisacadêmico, es
de álcool, o queestá adulta”. tido como das
caracteriza o usodiretament Nesse formador área
abusivo de bebidas e momento, o do jovem s de
alcoólicas como umrelacionad contexto para a vida saú
grave problema deo a sociocultura adulta. de e
saúde pública em todo doenças l podeAlém disso, edu
o mundo. sexualmen funcionar fatores caç
No Brasil, o álcool éte como relacionado ão,
responsável por maistransmissí reforçador s à ess
de 90% das veis, uso para o dinâmica e
internações porde outras consumo psíquica trab
dependência química, edrogas, de bebidaspodem alho
está associado a mais abuso alcoólicas, contribuir reve
da metade dossexual, que decisivame ste-
acidentes de trânsito,baixo representa nte para o se
principal causa dedesempen um dosconsumo aind
morte na faixa etária de ho escolar, aspectos de doses a de
uma importância
adicional. Nesse caso,
os aspectos formativos
são prioritários, uma vez
que os profissionais
dessas áreas irão se
deparar, no seu trabalho
cotidiano, direta ou
indiretamente, com
questões relacionadas
ao uso/abuso6 de
drogas.
Em São Paulo, a USP e
a UNESP vêm
desenvolvendo
programas preventivos
ao uso de álcool e outras
drogas em seus campi.
Por iniciativa da
Secretaria Nacional
Antidrogas (SENAD),
vem sendo
desencadeada a
Campanha Nacional
Antidrogas nas escolas
superiores. Essa
campanha tem o apoio
técnico do Grupo
Interdisciplinar de
Estudos de Álcool e
Drogas (GREA) e é
coordenada pelo Centro
de Integração Empresa-
6 Fala-se em
Escola (CIEE). Essasabuso ou uso
iniciativas indicam que aabusivo de
questão do uso deuma
substância
drogas por estudantesquando seu
universitários começa auso passa a
ser percebida, em nívelocasionar
problemas
nacional, como(orgânicos,
relevante. psicológicos
ou sociais)
ao usuário.
Alguns indicadores,
como o grande número
de bares instalados ao
redor dos campi 111
universitários, as
cervejadas
patrocinadas por
fabricantes de bebidas,
o atendimento médico
a jovens embriagados e
a presença de
traficantes nas
proximidades dos
campi mostram que o
uso abusivo de álcool e
drogas por
universitários demanda
um trabalho preventivo
específico.
Hilda Regina Ferreira Dalla Déa, Elcio Nogueira dos Santos, Erick Itakura & Tatiana Bacic Olic
e não onde ele m, na
deveria estar Universid
(Marlatt, 1999). ade de
A Prevenção ao Por isso, Washingt
embora on,
Uso Abusivo de
reconheça a Seattle, um
Álcool abstinência
programa de triagem
como resultado
O uso abusivo de álcool não e intervenção breve
ideal, a redução
começa na universidade, mas de danos aceita para bebedores de
representa a continuidade e, por alternativas que alto risco (BASICS -
vezes, o agravamento de um possam reduzir Brief
padrão de uso estabelecido
os danos
anteriormente. A grande maioria
associados ao
dos jovens abandona o hábito de
uso de drogas.
beber pesadamente e supera os
problemas relacionados ao álcool
Embora
sem assistência ou tratamento,
possam
porém, enquanto isso não
reconhecer
acontece, eles são vulneráveis a
que seu
uma miríade de conseqüências
padrão de uso
perigosas. Por isso, um objetivo
de álcool leva
importante dos programas de
a certos
prevenção deve ser ajudar os
perigos ou
jovens a atravessar mais
riscos, os
seguramente essa janela de
risco. jovens que
bebem
O enfoque de redução de danos, excessivament
difundido em nosso país a partir e podem ser
da epidemia de AIDS, vem sendo incapazes de
ampliado para outros reduzir seu
comportamentos de risco, como consumo e
abuso de álcool e outras drogas. controlar
A redução de danos lida, de esses riscos.
modo efetivo, com indivíduos que Para isso,
têm algum tipo de precisam
comportamento de risco, e opta desenvolver
pela saúde e pela estratégias e
responsabilidade pessoal, ao habilidades
invés da doença e da punição. para
Pode ser aplicada a toda a neutralizar as
população que se distribui ao pressões que
longo de uma escala contínua de os motivam a
risco – de baixo a moderado e beber.
alto. Programas
que os
auxiliem a
A redução de danos configurou-se,
desenvolver
nos Países Baixos, como uma
essas
política definida “de baixo para
estratégias e
acima”, baseada na defesa do
habilidades
dependente. Não surgiu através de
podem
políticas autoritárias, formuladas
modificar
pelos órgãos oficiais. Para o uso e
significativame
a dependência de drogas, o modelo
nte seu
de redução de danos representa
comportament
uma alternativa de saúde pública
o de beber de
para os modelos moral/ criminal e
alto risco.
de doença. Assume o fato de que
muitas pessoas usam drogas e Dimeff, Baer,
promove acesso a serviços de Kivlahan &
baixa exigência. Sua idéia central é Marlatt (1998)
encontrar o indivíduo onde ele está, desenvolvera
das atividades do
Aprimoramento Clínico
Institucional “O Psicólogo
Alcohol Screening and Intervention for College e a Prevenção ao Abuso
Students), que obteve como resultado uma de Álcool e Outras
redução significativa dos problemas associados Drogas”, da Clínica
Psicológica Ana Maria
ao uso de álcool e dos sintomas de
Poppovic, da Faculdade
dependência ao álcool. Estudos longitudinais
de Psicologia da PUC-SP.
mostraram que essa redução se manteve
mesmo após cinco anos da participação no Seu objetivo é reduzir os
programa. riscos associados ao uso
excessivo de bebidas
Esse programa leva em consideração aspectos alcoólicas pelos
do desenvolvimento, aspectos motivacionais e estudantes que acabaram
de ingressar na
elementos de informação. É um programa de
universidade, de
redução de danos, portanto, seu objetivo
primário não é a abstinência ou a diminuição do
uso de bebidas alcoólicas, mas a redução dos
comportamentos de risco e dos danos
produzidos pelo álcool.

Os principais pressupostos que nortearam o


desenvolvimento do BASICS são sintetizados a
seguir:

1● alguns momentos do
desenvolvimento contribuem para o
beber em excesso, como, por exemplo,
o início de uma nova fase na vida
escolar e o afastamento da família.

2● fatores que mantêm o


comportamento de beber excessivamente
nos jovens são diferentes dos que mantêm
esse comportamento nos adultos.

3● Fatores pessoais (como mitos sobre


o álcool) e fatores sociais (pressão do grupo,
convivência com amigos que bebem muito)
contribuem para o uso excessivo de bebidas
alcoólicas e devem ser levados em conta no
delineamento de ações preventivas.

4● metas definidas pelos próprios


jovens em relação ao seu
comportamento de beber são mais
efetivas do que os objetivos
estabelecidos ou cobrados pelos outros.

5● A redução dos riscos


associados ao uso abusivo de álcool é,
em si mesma, um objetivo válido para
uma intervenção preventiva.

“Bebidas alcoólicas –
vamos destilar essa
idéia?”
A partir dos pressupostos acima,
desenvolvemos a oficina “Bebidas alcoólicas
– vamos destilar essa idéia?” como parte
A Inserção do Psicólogo no Trabalho de Prevenção ao Abuso de Álcool e Outras Drogas
dramatização e se
comentários. O pretend
trabalho começa e é
modo a auxiliá-los a atravessarpelo aquecimento, No terceiro favorec
mais seguramente essa janelaque possibilita módulo, os er a
de risco, conforme o sentidouma acomodação participantes integra
atribuído acima. prévia das são os ção
pessoas para a convidados de dos
A população-alvo foi constituídaação. A uma “festa aspect
pelos alunos do primeiro ano dadramatização é a virtual” 7 , que os
Faculdade de Psicologia daação propriamente simula as afetivos
PUC-SP em 2001. A partir de umdita, que pode situações vivenci
trabalho de divulgação feito emconsistir em um geralmente ados
encontradas em no
sala de aula, 28 alunosjogo, uma
colagem, uma festas, como sociodr
inscreveram-se para participar
montagem etc., de
beber, dançar e ama
da oficina.
namorar. O aos
acordo com a
objetivo dessa aspect
A oficina compõe-se de quatrotécnica utilizada.
atividade é os
módulos de duas horas de “O comentário é a
familiarizar os cognitiv
duração. O primeiro módulo etapa do
participantes os,
consiste em um sociodrama compartilhar, do
com a trabalh
tematizado no qual osprocessamento possibilidade de
afetivo e técnico ados a
participantes são solicitados a criar administrar o
do que foi sentido, partir
e dramatizar uma história uso de bebidas da
percebido e vivido”
relacionada ao álcool. A técnica alcoólicas, festa
(Santos, 1997,
utilizada foi a retramatização, que tentando virtual,
p.93). O minimizar os
consiste essencialmente em um de
sociodrama e o riscos
trabalho coletivo cuja efetivação modo
psicodrama decorrentes da
depende de contribuições que os
utilizam ingestão de
individuais. Na retramatização, aessencialmente as particip
álcool. Isso antes
partir de pensamentos emesmas técnicas,
pode ser obtido aument
sentimentos individuais (tramas),mas, no através do
os participantes trabalham emsociodrama, em sua
o conhecimento
grupos na criação de um textoprotagonista percep
é das relações
sociodramático (retramas),sempre o grupo. ção
entre os efeitos
utilizando os recursos teatrais e tanto
do álcool, sua
dramáticos (Liberman, 1995). No segundo dos
dinâmica no
módulo, é feito um
riscos
organismo e
Essa atividade tem por objetivotrabalho associa
com sua
trabalhar a vivência subjetiva degrupos de seis a dos ao
concentração
situações que envolvam o uso e/ou ooito pessoas, sob abuso
no sangue.
abuso de bebidas alcoólicas pelosa coordenação de de
jovens, preservando a intimidadeum dos psicólogos bebida
No último
individual, mas com acesso a ela. s
aprimorandos. módulo, são
Nem sempre a comunicação verbal alcoólic
Nesses grupos, explicitados e
expressa a realidade dos fatos as
são mapeados e discutidos
relatados. Por outro lado, durante quanto
conceitos
trabalhados os das
uma vivência dramática, ocorre uma relativos ao uso
forte mobilização afetiva que cria um aspectos trazidos possibil
do álcool, sua
clima de compromisso, dificilmenteà tona no módulo fisiologia e seus
idades
conseguido quando se utiliza apenasanterior. de
efeitos.
a comunicação verbal (Santos,1997). reduzi-
Finalmente, os
“O tema possibilita que cada um los.
participantes
enxergue, em cada papel são estimulados
sociodramático, alguma faceta a fazer uma Avali
individual e, como em um avaliação ação
caleidoscópio, forme uma visão, uma pessoal de sua
imagem crítica, emocionada e dos
relação com o
iluminada pela cena dramática álcool e, se Resu
(Liberman, 1995, p. 39). considerarem ltado
A prática do sociodrama compreende
necessário, a s
modificar essa
três etapas: aquecimento,
relação. O que
Durante o sociodrama, evidenciou-
se a importância, para os
participantes, do efeito desinibidor
produzido pelas bebidas 113
alcoólicas, especialmente em
situações de convívio social, como
festas e “baladas8 ”. Nessa
atividade, o uso de bebidas
alcoólicas apareceu associado ao
uso de outras drogas (maconha,
ácido, êxtase), brigas, acidentes
de carro e sexo não planejado.

Todos esses aspectos foram


discutidos no segundo encontro,
quando foi realizado o trabalho com
os grupos. Nessa atividade, também
foi trabalhada a preocupação dos
participantes com o papel do
profissional da saúde em relação a
essa questão.

Por suas características lúdicas, a


“festa virtual” foi a atividade mais “O tema
apreciada pelos alunos. Quandopossibilita que
inquiridos sobre o que haviamcada um
aprendido com ela, vários alunosenxergue, em
referiram-se a aspectos como:cada papel
diferenças entre homem e mulhersociodramático,
em relação aos efeitos do álcool ealguma faceta
teor alcoólico das diferentes [Link] e,
Vários perceberam que muito do quecomo em um
supunham ser conhecimento sobre ocaleidoscópio,
álcool não passava de “mito”, comoforme uma
o de que café sem açúcar ou banhovisão, uma
frio curam bebedeira, entre outros. imagem crítica,
emocionada e
Ficaram interessados em
iluminada pela
compreender os fatores que
cena dramática“
influenciam a taxa de álcool no
sangue e surpreenderam-se ao
perceber como duas pessoas que
Liberman
bebem a mesma quantidade de
álcool podem atingir concentrações
sangüíneas diferentes, em função do
seu sexo e/ou de seu peso.

7 Nessa versão das


oficinas, foi utilizada a
“festa virtual”
encontrada no link
“Álcool e drogas” do
site do Hospital
Israelita Albert Einstein
(http:/
/[Link]),
baseado no CD
ROOM Alcohol 101,
produzido em 1997
pelo The Century
Council , entidade
não-governamental
norte-americana, em
parceria com a
Universidade de
Illinois-Champaign.

8 Gíria utilizada
atualmente por
jovens para referir-se
a festas onde o
consumo de álcool e
outras drogas pode
ser facilitado.
Hilda Regina Ferreira Dalla Déa, Elcio Nogueira dos Santos, Erick Itakura & Tatiana Bacic Olic
clima de que,
descontração quando
, o que estimulad
No último encontro, essas o
favorecia a
questões conceituais foram a
percepção problematizar sua
discutidas e esclarecidas, e mais clara relação com o álcool
alguns participantes já de forma reflexiva e
dos riscos e não punitiva, o jovem
relataram modificações em das interessa-se em
seu comportamento de beber possibilidade
em função da participação na s de reduzi-
oficina. O trabalho como um los.
todo foi avaliado de forma
muito positiva pelos Outro aspecto
participantes. digno de nota
relaciona-se à
aderência
relativamente
alta dos
participantes
ao trabalho,
que, ao
contrário do
inicialmente
previsto, não
pôde ser
Discussão e desenvolvido
Conclusões em quatro
semanas
Um primeiro aspecto a consecutivas,
chamar a atenção foi o pois, em dois
interesse dos alunos em dos horários
participar da oficina, que pode planejados
estar relacionado, ao menos para a oficina,
em parte, à estratégia os alunos
utilizada na divulgação do foram
solicitados pela
trabalho, que salientou o
faculdade a
papel do psicólogo frente à
resolver
questão do uso abusivo de
questões de
álcool.
matrícula.
As atividades interativas Dessa forma, o
revelaram-se instrumentos de trabalho
importância crucial para o acabou
trabalho preventivo. Por outro estendendo-se
lado, a ênfase na redução dos até meados de
junho, período
danos associados ao uso de
pouco
álcool, e não nos possíveis
favorável ao
distúrbios ocasionados por seu
desenvolviment
uso, fez com que as atividades se
o desse tipo de
livrassem do “peso” que, muitas
atividade em
vezes, se associa ao trabalho de
função da
prevenção.
proximidade do
término do
Através do sociodrama, os
semestre letivo.
participantes se
Apesar disso,
sensibilizaram para a relação
boa parte dos
entre aspectos subjetivos e
alunos
sua forma de usar o álcool.
continuou
Este manteve sua função
participando da
socializadora, pois houve
oficina até o
uma festa, mesmo que virtual,
seu final.
na qual o trabalho se
desenvolveu com
O presente
características lúdicas e em trabalho mostra
para esse tipo de trabalho
preventivo e para o diálogo
com profissionais de
conhecer melhor os efeitos do álcool outras áreas em equipes
sobre seu organismo e os riscos que seu multidisciplinares voltadas
uso abusivo pode acarretar. Envolve-separa a promoção de
também na reflexão sobre sua própria saúde.
forma de lidar com as bebidas alcoólicas e
a possibilidade de modificá-la, de modo a
reduzir os riscos sociais e pessoais do uso
abusivo de álcool. O trabalho mostrou
ainda que, para estudantes da área de
Psicologia, essa atividade remete a uma
reflexão relativa ao seu futuro papel como
profissionais da área de saúde no trato
com essa questão.

A “oficina de álcool” revela claramente as


potencialidades do desenvolvimento de
estratégias preventivas adaptadas à nossa
realidade a partir dos princípios básicos da
redução de danos. Salienta ainda a
contribuição essencial das técnicas e
recursos da Psicologia e a urgência da
capacitação de profissionais dessa área para
o desenvolvimento de estratégias de
prevenção ao uso abusivo de álcool e outras
drogas.

Consideramos a oficina de álcool o passo


inicial para o desenvolvimento de outros
projetos na área de prevenção, pois, ao
nosso ver, hoje a práxis do psicólogo não se
restringe ao atendimento clínico, mas é de
suma importância para o desenvolvimento
de ações psicoprofiláticas no campo social e
no da saúde pública.

Considerações finais
O uso abusivo de álcool por adolescentes e
adultos jovens vem-se constituindo, cada vez
mais, em sério problema de saúde pública
em nosso país. O uso de bebidas alcoólicas
é estimulado por intensa propaganda e seu
abuso é socialmente tolerado e, às vezes,
até estimulado. Embora socialmente aceito,
o beber excessivo traz uma série de riscos
que raramente são reconhecidos como tal,
especialmente na adolescência. Por isso,
atividades preventivas que favoreçam o
reconhecimento desses riscos e o
desenvolvimento de estratégias para
minimizá-los assumem um caráter de
relevância e urgência em nosso país.

Ao levar em conta não só os fatores


socioculturais como aspectos da
subjetividade do jovem, esse de tipo trabalho
preventivo envolve não só uma ação
educativa, mas implica também uma
psicoprofilaxia, uma atitude clinica, no
sentido mais amplo do termo. A importância
crucial da atuação do psicólogo nessa área
aponta claramente para a necessidade de
capacitação dos profissionais de Psicologia
A Inserção do Psicólogo no Trabalho de Prevenção ao Abuso de Álcool e Outras Drogas

Hilda Regina Ferreira Dalla Déa, Elcio Nogueira dos


Santos, Erick Itakura & Tatiana Bacic Olic
Rua Inácio de Araújo, 20 apto 81/3 – Mooca E-
mail: hildareg@[Link]
03053-010 SÃO PAULO – SP
Recebido 26/11/01 Aprovado 05/02/04
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