0 notas 0% acharam este documento útil (0 voto) 43 visualizações 6 páginas Probabilidade Indutiva na Ciência
1) O documento discute os conceitos de probabilidade indutiva e probabilidade estatística na ciência, e como eles têm significados diferentes.
2) A probabilidade indutiva refere-se à força da evidência para uma hipótese, enquanto a probabilidade estatística refere-se à frequência relativa de eventos.
3) O autor argumenta que a probabilidade indutiva poderia ser refinada em um sistema lógico-matemático para tornar as inferências científicas mais exatas.
Título e descrição aprimorados por IA
Direitos autorais
© Attribution Non-Commercial (BY-NC)
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu,
reivindique-o aqui .
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd
Ir para itens anteriores Ir para os próximos itens
Salvar Que é Probabilidade - Rudolf Carnap para ler mais tarde
2
QUE E
PROBABILIDADE?
RUDOLF CARNAP
Os capitulos deste livro, sobre questées fun-
damentais da ciéncia, dao-nos uma imagem
esclarecedora da maneira como trabalham
(05 cientistas. Ninguém que leia tais capitulos
poder deixar de ficar impressionado com a
grande importincia que tém para a ciéncia
as hipéteses — as ousadas conjeturas, escas-
samente respaldadas em provas, que entram
nna elaboragio de novas teorias. A questic
aque gostaria de levantar aqui é a seguinte: Sera
possivel tornar mais preciso o método de per-
quirigo cientifica? Poderemos aprender a jut-
{gar as hipéteses, a pesar o grau em que encon-
tram apoio em provas cxistentes, como um
pesquisador julga e avatia seus dados?
‘A questo descamba de imediato para o do-
minio da ciéncia das probabilidades. Se inda-
garmos dos cientistas o significado desse ter
mo, descobriremos uma situagao curiosa. Qua-
se todos dirio que a probabilidade, aplicada
ciéncia, tem apenas um significado, mas quan-
do perguntanios qual é cle, obtemos varias
respostas. A niaioria dos ciemtistas defini
como probabilidade estatistica, que quer d
et a fiequéncia relativa de determinada es-
pécie de eventos ou fendmenos dentro de uma
classe de fendmenos. denominada geralmente
“populagio". Por exemplo, quando um esta-
tico afirma que @ probabilidade de que uma
pessoa nascida nos Estados Unidos tenha san-
ftue do tipo A é de 4/10, quer dizer que 4 em
19 pessoas possuem este’ tipo. Este significado
4, probabilidade tornou-se de uso quase pa-
dronizado na ciéncia, Encontraremos, todavia,
alguns cientistas que definem a probabilidade
de’ outra mancira, Eles preferem empregar 0
termo no sentido mais chegado 20 uso diario,
‘no qual significa uma medigio, bascada nas
Provas disponiveis, das chances’ ou probabili-
dades de que alguma coisa seja verdade, como
‘no caso de um juri que decide que o réu é “pro-
vayelmente” eulpado, ou de um metcorolo-
Per. Hype”
"9 PEafauens MEME
92 Com Perpdcéw' TO”
+, 1493
Naf CES
&. Revs, RI
gista que preveja chuva para o dia seguinte.
Esta espécie de probabilidade equivale a uma
avaliagao da intensidade da evidéncia. Sua
expresso numérica tem uma significagéo muito
diferente da que s€ refere & probabilidade es-
tatistica: se 0 meteorologistz se aventurasse
a afirmar que @ probabilidade de chuva para
© dia seguinie era de 4/10, nao estaria descre-
vendo um fato estatistico, mas simplesmente
afirmando que, se apostéssemos que iria cho-
ver no dia scguinte, convitia fazé-lo com base
na proporcao de 4 para 6,
Este conceito denomina-se_probabilidade
indutiva. Um cientista faz 0 julgamento das
probabilidades, consciente ox inconsciente-
mente, sempre que pianeja um experimento,
Geralmente a probabilidade atribuida & sta
hipdtese € express ndo em niimeros, mas em
termos comparativos, isto é, diz-se que a pro-
babilidade & grande 'ou pequena, ou determi-
nada probabilidede é considerada maior que
outra. Para alguns de nés, parece que a proba
bilidade indutiva poderia ser refinada © con-
ida em um instrumento mais preciso para
a ciéncia. Dadas uma hipdtese ¢ certa prova,
€ possivel determinar. pela analise l6gica ¢ 0
céleulo matemético, a probabilidade de que
‘a hipétese soja verdadcira, ou 0 “grau de con-
firmagio”
‘Se dispuséssemos de um sistema
lutiva em forma matemética, nos-
nos negécios ¢ na vida didria, que geralmente
fazemos por “intuigdo” ou “instinto”, ‘pode
riam ser tornadas mais exatas e racionais. Dei
‘5 primeiros passos na elaboragdo de um sis-
tema assim, com base nas descobertas de ou-
twos pesquisadores neste setor e nas ferramen-
tas exatas da moderna logica simbdlica. Antes
de entrar na andlise deste sistema, quero pas
sar breve revista & histéria do conceito induti-
v0 de probabilidade.20 PARTE 1 ® AANALISE DA INCERTEZA: PROBABILIDADE
05 METODOS DE PRORABILIDADE INDUTIVOS 250
Tustrades per um exemplo tabulade acina, Quatro bolas
‘Je uma urns, consecutiamente. Elat
joe go¢ tuda, ss algumas sig siuls ©
s Nada te sabe, contuds, quanto & proper.
lo-dé bolas atuls para bolas brancas na uins, Prine
Gucremor decir sobe ay probablidades leis no ex
Berimento. =~ as probebildades antes de ser tas. 9
‘rimeice Sola. Arcolsmos (na eoluna “DitribuigGes Ind.
idvale") todas as maneirag possvels dos tesllados des.
2 relirada. Aplicamon, enlS0, © principio da Initerenca,
Segundo 0 qual, se 8 hformacio disponivel nada encerrs
3 favor de ma possBalsade' om relapse. 2 outa, Todas
fe possiblidader, domem ser considsradas igusimente
provivels. Ha duas manelrar de aplicar principio. 20
Bresente exemple. A primeira acha-to iustrada na colune
"Aélodo 1". Como exslem 16 casos porsiels, avidinds
2 probabilidade igualmente por eles, obtemos para coda
‘probabiisade de 16. Mos hd oulra manevs de
‘qvadro, fm rez de lavar em conta 2 ordem ©
(que salar as botes aula’ gs bolas brancat, podemoe
Soncentrarnos apenas nos numeros folate de ayuis © de
gegmuetss | oemeugege wero: ver0on
“TB [anteoe (Sree esreane | amauats
1 4 ° t . £@G08 we us H vs
| 2 Bee&O me a0 = 9700
- : 1 2 @@O ne vs vane = 460
| ~@0eH| ™ vine = 20
{| «O@@®e we vie = 100
fl s @@O00 ne va0 = 2160
> @OC ine ae = 200
; »@00@ ne vio = 310
» O8GO we
» O08 ms vva0 = 2740
ll. 0o0@@ 6 a0 = 2000
ff» @00G 6
»O@OC] »™ v=
» OO 1 v0 = 3/00
| « COO®@ wns va = a0
sale sf} ew OCOO ine vs}
branes numa sbrie oe reliadas — todas ani, és aris
c'uma branca,¢ asim por diante, Taso classed 0 quadro
sn MoiciuigSaEsaltcn gue 26 tam dead
fon colchetee a exquerdo. Exrtem cinco aistbuigdas
Stalticen, Se vamon'aplicar a elae 9 principio da ind
ferenga, Cuda qual fem ema probapllidade de 15, como
se rl sa primeira coluna do "Método 2". Ora, 3¢ dist
Beigbes itdiisunts dentro de cade dicvibuigio estat
lice aio probebildades atiburdas, determinadss, do mes
fo modo, pol. Bincipia da inaerenga, A prielra dis-
Mbuigse “esttitica, (quatro azuis) postu apenat “um
Imombro, ¢ recebe, assim, 0 tolal de. probablidedes
itribut, ou M1, eomo se ve na segunda coluna do “ia
(odo 2A segunda disibuiggo evtalsticn (Wes szuls ©
ton bronce) tom quatra membros, © assim. probably
‘polos quatro, 120,
sae senomnadr nine ma
{seilar sua. comparagie.¢ com
Superior 99 "Matodo 1", poraut
Sidbui probetildades # eventos futures, com bast. n>
fteaéncia de sus ocorréncla ante.A teoria dss _probabilidades cient
meson, por assim dizer, com © conceite indu-
tivo, e' no com a conceituagao estatistica, Seu
estudo (eve inicio no séeulo XVI, promovido
por ceftos matematicos, solicitados por ami-
gos Jogsdores determina as probabiliades
je Varios jogos de azar. O primeiro tratado
sobre probabilidades, realmente de peso, es-
Grito pelo professor suigo Jacob Bernouilli, e
dado 2 lume postumamente, em 1713, foi de-
ntominado Ars Conjectandi ("A arte ‘de con-
jeturar") — em outras palavras, a arte de jul-
iar hipdteses com base nas proves. Q petiodo
lissico do estudo da probabilidade culminou
nna grande obra de 1812, Théorie analytique
des probabitités, do astiénomo ¢ mateinético
francés Pierre Laplace. Declarou ele que 0 ob-
jetivo da teoria das probabilidades era orien-
tar nossos julgamentos © proteger-nas contra
as ilusbes, ¢ sua preocupagéo essencial nao
dizia respeito a estatistica, mas a0s métodos
de avaliagio da accitabilidade dos pressupostos..
Mas, apés os meados do século XIX, a pa-
lavra_probabilidade comegou a adquirit novo
significado, e os cientistas passaram a inclinar-
se cada vez mais para o conccito estatistico
Na década dos 20, neste século, Robert Aylmer
Fischer, na Inglaterra, Richard von Mises ¢
Hans Reichenbach, na'Alemanha (ambos mor-
Teram com tma diferenga de meses), além de
‘outros, deram os primeiros passos no sentido
do desenvolvimento de novas teorias de pro-
dabilidades, baseadas na interprotagio esta~
tistica. Foi-Ihes possivel aproveitar muitos dos
teoremas miatematicos da. probabilidade clés
sica, que se aplicam igualmente bem & probs-
bilidade estatistiea. Mas tiveram de_rejeitar
alguris. Um dos prinefpios por eles rejcitados,
denominado priceipio da indiferenga, assinala
flagrantemente a distingdo entre probabilidade
indutiva © probabilidade estatstica.
Suponhamos que nos mostrem um dado ¢
nos informem simplesmente que é um cubo
segular. Sem mais informagies aléma dessa,
36 podemos presumir que, ao ser 0 dado lan-
gado, qualquer de suas seis faces terd a mes-
na probabilidade, de cair para cima; em ot
tras palavras, cada face tem a mesma proba-
bilidade de 1/6. 1350 ilustra o principio da in-
Giferenga, segundo 0 qual, se 0s indicios no
cencetram’ nada que possa’ favorecer determi-
nado evento possivel em relagio 2 outro, 0s
eventos tém a mesma probabilidade, relativa~
‘mente a tais indicios. Um segundo observador,
porém, poderé dispor de indicios suplemen-
tares: 0 dado esta com uma das faces chum-
bada, embora ignore qual seja_procisamente
essa face. As probabilidades ainda so as mes-
CARNAP * QUE E PROBABILIDADE? 21
mas para éle, porque, dentro dos limites do
que sabe, cada uma das seis faces tem igual
possibilidade de estar chumbada. Por outro
lado, para um terceiro observador, que saiba
que a face chumbada & a de mimero L, as pro-
babilidades se modificam; com base na infor-
magio de que dispde, a probabilidade de sair
‘[Link]é maior do que 116.
Esta probabilidade indutiva depende do
observador ¢ da informagio a seu dispor, ndo
€ simplesmente uma propriedade do objeto
em si. Na probabilidade estatistica, que diz
sespeito A freqiiéncia efetiva de um evento, 0
principio da indiferenca é, claro esté, absurdo.
Nao seria aconselhavel, para um observador
que apenas soubesse que um dado tinh as
dimensbes exatas de um cubo, afirmar que as
seis faces sairiam com igual freqiiénei:
soubesse que o dado estava vi
de um lado, entraria em contradigao com o
seu préprio conhecimento. A probabilidade
indutiva, por outro lado, ndo prediz freq
cis; € mais uma ferramenta para avalia
dicias em relagio a uma hipdtese, Tanto o
eonceito estatistico como 0 conceito indutivo
de probabilidade io indispensiveis & ciéncia;
cada qual (em fungdes valiosas a desempenha
Mas & importante reconhecer as distingdes
centre os dois conceitos, € desenvolver as pos
sibifidades das dnas ferramentas.
Nos tiltinos trinta anos, 0 conceito indutivo
de probabilidade, que fora suplantado pelo
conceito estatistico, tem sido reanimado por
uns quantos pesquisadares. O primeiro foi ©
grande economista inglés John Maynard Key-
nes. Em seu Treatise on Probability, em 1921,
demonstrou como 0 conceito inidutivo € empre-
gado implicitamente em todo @ nosso pensa-
Mento acerca de eventos desconhecidos, na
ciéncia como na vida didria, Contudo, a tenta~
aiva de Keynes no sentido de desenvalver este
conceito foi excessivamente restrita: ele julga
impossivel calcular as probabilidades numé-
ricas, salvo em situagoes bem definidas, como
© langamento de dados, as distrituigdes de
cartas possiveis, e outras semelhantes. E ainda
mais, fejeitou o conceito estatistico de proba-
bilidade, sob a alegagio de que as afirmagoes
sobre probabilidade poderiam ser formuladas
‘em termos de probabilidade indutiva,
Creio que estava enganado neste seu ponto
de vista. Hoje em dia, um mimero cada ver
maior de estudiosos de ambos os partidos da
controvérsia, que se vem desenrolando hi 30
anos, esti: egando & concluséo de que, no
50, Como muilas vezes tem sucedido na histd-
ria do pensamento cientifico, ambos os lados22 PARTE 1 * AANALISE DA INCERTEZA: PROBABILIDADE
esto certos nas suas teses positivas, e errados
fem suas observagdes polémicas. © conceito
estatistico, para o qual existe uma teoria ma-
tematica consideravelmente elaborada, ¢ que
tem sido aplicado proficuamente em’ muitos
‘campos da cigncia ¢ da indiistria, ado tem que
ser abandonado para dar lugar ao conceito in-
dutivo. A probabilidade estatistica caracteriza
uma situagio objetiva, isto é, estado de um
sistema fisico, biolégico ou social, Por outro
lado, a probabilidade indutiva, como 2 enten-
do, nfo ocorre em assertivas ‘cientificas, mas
apenas nos julgamentos sdbre tais assertivas.
Assim, & aplicada na metodologia da ciéncia
— aanilise de conceitos, proposicées ¢ teorias.
Em 1939, 0 geofisico inglés Harold Jeffreys
apresentou uma teoria de probabilidade indu-
tiva muito mais completa do que a de Keynes.
Ele concordava com 0 ponto de vista clissico,
de que a probabilidade pode ser expressa nu-
Imericamente em todos 05 casos. Além disso,
desejava aplicar a probabilidade @ hipdteses
quantitativas da ciéncia, tendo erigido um sis-
tema axiomético para a probabilidade mais s6-
lido que o de Keynes. Reviveu principio da
indiferenca, numa forma que me parece de-
masiado forte: “Se ndo ha razdo alguma para
crer numa hipétese, de preferéncia a outras,
as probabilidades sto iguais.” Pode ser facil
mente demonstrado que tal proposigio leva a
contradicdes. Suponhamos, por exemplo, que
temos uma urna que sabemos estar cheia ‘de
bolas azuis, vermelhas e amarelas, mas igno-
ramos a proporeio de cada cor. Consideremos,
como hipstese inicial, que a primeira bola a
ser retirada da uma seja azul. De acordo com
‘© enunciado de Jeffreys (e de Laplace) do prin-
cipio da indiferenca, se a questao reside em
qual seja a primeira bola, se azul ou no-azul,
temos que atribuir iguais probabilidades
dues hipéteses; isto &, cada probabilidade & de
1/2. Se-a primeira bola nao & azul, pode ser
vermetha ou amarela, e neste caso, também,
nna falta de informagio sobre as proporgées
realmente existentes na urna, essas duas tm
iguais probabilidades, de modo que a proba-
bilidade de cada uma & de 1/4, Mas se tivés
semos de comecar pela hipdtese de que a pri
meira bola tirada seria, digamos, vermelha,
teriamos uma probabilidade de 1/2 para o ver~
melho. Assim, o sistema de Jeffreys, como se
apresenta, € inconsistente.
Ademais, Jeffreys uniu-se a Keynes na re-
jeigdo do conceito estatistico de probabilidade
Sem embargo, seu livro Theory of Probability
Permanece valioso, pela nova luz que tanga
em numerosos problemas estatistieos, a0 ana-
lisi-los pela primeira vez, em termos de pro-
babilidade indutiva,
Apoiei-me no trabalho de Keynes Jeffreys,
na estruturagio de minha teoria matemética
da probabilidade indutiva, apresentada no li-
vo. Logical Foundations ‘of Probability, pu-
blicado em 1950. Nao é possivel delinear agui
6 sistema matemético propriamente dito. Mas
explicarei certos problemas gerais, dos que ti-
veram de ser solucionados, e algumas das con-
cepgdes bisicas que fundamentaram a elabo-
ragdo.
Uma das questdes fundamentais a serem de-
cididas € se aceitamos 0 principio da indife-
renga, € nesse caso, em que forma, Ele teria de
ser stficientemente s6lido para permitir a de-
dugio dos teoremas desejados, mas, ao mesmo
tempo, 1G restrito que evitasse as contradi-
es resultantes da forma classica
‘© problema pode ser esclarecido por um
exemplo, que ilustra alguns coneeitos elemen-
tares da légica indutiva. Temos uma urna cheia
de bolas amis e brancas, em proporgdes des-
conhecidas. Vemos tirar quatro bolas suces-
sivamente. Levando em conta a ordem, ha 16
retiradas possiveis (todas quatro azuis, as trés
primeiras azuis e a quarta branca, a primeira
branca € as trés seguintes azuis, © assim por
diante). Arrolamos essas possibilidades qum
quadro (ver fig. 9)
Pois bem, qual é a probabilidade inicial, an-
tes de termos tirado qualquer bola, de que
nossa retirada correspondera @ qualquer uma
dessas 16 distribuigoes? Poderiamos atribuir
qualquer probabilidade as distribuigBes indivi-
duais, contanto que juntas somassem 1. Supo
‘nhamos que aplicanios o prinefpio da indife-
renga e dizemos que todas as distribuigées tém
iguais probabilidades; isto & cada uma tem a
probabilidade de 1/16,
Formulemos uma hipétese especifica © cal
culemos sua probabilidade. A hipétese & por
exemplo, que, deptre as trés primeiras bolas
que tiramos, $6 uma sera branea. Consultando
© quadro, podemos ver que seis nos darao esse
resultado, dentre as 16 retiradas posstveis, A
probabilidade de nossa hipétese, portanto, é a
soma dessas probabilidades iniciais, ou 6/16.
Suponhamos agora que temos alguns indi-
cigs, isto é, retiramos. algumas bolas, © nos
pedem que calculemos a probabilidade de de~
termninada hipétese, com base nestes indicios.
Por exemplo, tiramios primeiro uma bola azul,
depois uma bola branca e, a seguir, uma bola
fail, A hipétese & que a quarta bola sera azul;
qual a sua probabilidade? Esbarramos aqui
‘na questo de como aplicar o principio da indi-ferenga. Experimentemos dois métodas dife-
rentes,
‘No Método 1, comegamos por atribuis ipuais
probabilidades "as distribuigdes —individuais.
Consultando 0 quadro, vemos que duas dessas
distribuigdes (Nos. 4 € 7) nos dario a seqiién-
cia azo}, branca, azul, para as tres primeiras
bolas. Siza probabilidade é, portanto, de 2/16.
$6 em uma dessas distribuigbes a quarta bola
€ vermelha; sua probabilidade é de 1/16. A
probabilidade de nossa hipétese, com base nos
indicios, € obtida mediante a divisio de uma
ia outra: isto é, 1/16 divididos por 2/16, que
€ igual a 1/2. Em outras palavras, as probat
Jidades de que nossa hipotese esteja certa &
de 50/50; a quarta bola tem @ mesma probabi-
Jidade de’ser branca ou azul,
Como orientagio no julgamento de uma
potese, todavia, este resultado contradiz 0 prin-
cipio da aprendizagem pela experiencia. Em
igualdade de outros fatores, deveriamos consi-
derar um evento mais provével do que outro,
se tivesse ocorrido anteriormente com mais
Freqiéncia, Considerariamos desarrazoads a
pessoa cuja expectativa de um acontecimento
futuro aumentasse quanto menos tivesse visto
esse acontecimento suceder_precedentemente.
‘Temas que nos atientar pelo nossa conheci-
mento de eventos observados. e neste exemplo,
© fato de que duas em trés boias tiradas de uma
turna desconhecida eram azuis deveria induzir-
tnos a expectativa de que as probabilidades
iriam favorecer a retirada de uma quarta bola
também azul, Contudo, alguns filésofos, inclu-
sive Keynes, tém proposto 0 Método I, a des-
peito de seu pecaditho légico.
Existe um segundo método, que nos dé um
resultado. mais razoavel. Primeiro, aplicamos
© princfpio da indiferenga, no as distribuigdes
individuais, mas 8s distribuigdes: estatisticas..
Isto é, consideramos apenas o nimero de bolas
amis ¢ de bolas brancas obtido em uma reti-
rada, independentemente da ordem. O quadro
indica que ha cinco distribuigées estatisticas
possiveis (quatro azuis, quatro brancas, trés
aauis € uma branca, trés brancas ¢ uma’ azul,
duas azuis ¢ duas brancas). Pelo principio da
indiferenca, atribuimos iguais probabilidades
a estas, € assim a probabilidade de cada uma é
de 1/5. Distribuiinos este valor (expresso, por
cconveniéncia aritmética, como 12/60) em partes
iguais pelas distribuigdes individuais corres-
pondentes (ver « dltima coluna da Fig. 9).
Agora, as probabilidades das di
CN. 7 sao de 3/60 ¢ 2/60, respectivamente, ¢
a probabilidade da hipotese baseada nos indi
ios € de 3160 dividido por 5/60, ou 3/5. Em
suma, a probabilidade de que a quarta bola seja
CARNAP * QUEEPROBABILIDADE 23
azul nio é de 1/2, mias de 3/2, 0 que € mais
consistente com o que a experiéncia, no caso a
informagio que adquirinos, deveria levar-nos
esperar.
(© Método 2, assim como o Método 1, con-
duz a contradigées, s€ aplicado de mancira ir-
festrita. Quando empregado nos casos caracte-
rizados por mais de uma diferenga de proprie
dades (como a diferenga entre bolas azuis €
bolas brancas em nosso exemplo), todas 25 di
ferencas pertinentes terdo de ser especificadas.
Assim restrito, este sistema, qve props em
1945, constitu’ 0 primeiro’ método indutivo
consistente, a0 que sei, que logrou satistazer 0
principio da aprendizagem pela experiéncia.
Desde entio, tenho descoherto que existem
muitos outros. Nenkum deles parece tao sim-
ples como 0 Método 2, mas alguns oferecem
‘outras vantagens.
Tendo encontrado um método indutivo con-
sistente e adequado, podemos empreender 0
desenvolvimento de um procedimento geral
para calcular, com base na informagao dada,
luma estimativa de um valor desconhecido de
qualquer quantidade. Suponhamtos que a infor
magio aponta certo mimero de valores poss
veis para uma quartidade em dado momento,
por exemplo, a quantidade de chuva amanhi,
‘© némero dé pessoas que comparecemn a uma
reunitio, © prego do trigo apés a préxima co-
Iheita. Sejam os valores possiveis x1, ¥2, %, eC
© suas probabilidades indutivas, Pr. Pa» Po» et.
Entio, px € 0 “valor esperado”, ou esperanca
matematica, do primeiro caso no momento
atual, pexs odo segundo caso, e assim por dian-
te. 0 “valor total esperado da quantidade, 3
uz da informagio dada, é a soma dos valores
esperados para todos os casos possiveis. Como
exemplo especifico, suponhamos que hi qu
to prémios numa loteria, um primeiro pr
tnio de 200 ddlares e trés préiios de 50 dé-
lares cada um, Sabe-se que a probabilidade de
tum bilhete tirar o primeiro prémio € de 1/100,
e de tirar 0 segundo prémio é de 3/100; a pro-
babilidade de sair branco o bilhete é, portanto,
de 96/100. Aplicando 0 método atima desetito,
© portador de um bilhete podera calcular que
© bilhete vale para de 1/100 multiplicado por
200 dotares, mais 3/100 multiplicado por 50
délares, mais 96/100 moltiplicado por 0, 0 que
da 3,50 délares. Seria irracional pagar por ele
mais do que isso.
(© mesmo método pode ser empregado para
se chegar a_uma decisio racional em determi.
hada situagio, na qual seja preciso optar por
uma dentre varias agdes. Por exemplo, um ho-
‘mem estuda diversos meios possiveis de inves-
fir certa soma, Ele pode, em principio pelo24 PARTE 1 #A ANALISE DA INCERTEZA: PROBABILIDADE
‘menos, calcular a estimativa de seu lucro para
cada um desses meios. Para agir racionalmente,
deveria, entio, escolher a modalidade de in-
vestimento para a qual 0 ganho estimado fosse
maximo.
Bernoulli, Laplace e seus seguidores cones
beram uma’ teoria de probabilidade indutiva
que, quando plenamente desenvolvida, forne-
ceria 0 meios para a avaliagao da aceitabili-
dade de pressupostos hipotéticos, em qualquer
campo da pesquisa te6rica, e para a tomada
racional de devises nas questées da vida dit
ria, Eles estavam muito mais Yonge deste obje-
tivo audacioso do que supunham. Na atmostera
cultural mais sdbria do fim do século XIX e
do inicio deste século, sua idéia foi rejeitada
como utépica. Hale, porém, poucos ousam
acreditar que tais pioneiros nao eram sienples-
mente sonhadores.