Finisterra, XL, 79, 2005, pp.
209-222
CIDADE DE NAMPULA:
A RAINHA DO NORTE DE MOÇAMBIQUE
MANUEL MENDES DE ARAÚJO 1
Ao Professor Doutor Carlos Alberto Medeiros,
pela sua incontornável contribuição
na formação de geógrafos dos países africanos
de língua oficial portuguesa (PALOPs).
Resumo – A cidade de Nampula, localizada no interior norte de Moçambique,
sempre foi considerada como a «capital do norte». Fundada com fins de controlo
militar da penetração colonial para o interior, ela é um importante cruzamento
de eixos de ligação entre o litoral e o interior e entre o centro e o extremo norte do
país. Como as restantes áreas urbanas de Moçambique, a cidade de Nampula obser-
vou, no período pós-independência, um forte crescimento demográfico marcado,
posteriormente pela guerra civil e, finalmente, pela paz que a partir de 1992 o país
finalmente vive. Este crescimento foi resultado dum forte fluxo migratório vindo das
áreas rurais. Como a cidade não viu crescer as suas infra-estruturas e a actividade
económica, a ideia de vir para a cidade para melhorar as condições de vida da
população migrante não passou duma miragem, o que resultou na proliferação
da economia informal como forma de sobrevivência. A «cidade de cimento» con-
tinua a ter características urbanas e demográficas diferentes das dos postos admi-
nistrativos urbanos circundantes.
Palavras-chave: População urbana, Moçambique, Nampula.
Abstract – THE CITY OF NAMPULA: QUEEN OF NORTHERN MOZAMBIQUE. The city of
Nampula, located in the Northern hinterland of Mozambique, has always been
considered the «capital of the North». Founded with the aim of ensuring military
control over the colonial penetration of the hinterland, it is an important crossroads
where the litoral-hinterland and centre-North axes intersect. Just like Mozambique’s
other urban areas, the city of Nampula underwent considerable demographic
growth in the period that followed the independence of the country, including the
period of civil war and the peace that ensued from 1992 onwards. This demographic
growth was the result of a significant migration inflow originating in the rural areas.
1 Professor de Geografia Humana do Departamento de Geografia da Faculdade de Letras e
Ciências Sociais da Universidade Eduardo Mondlane, e Director do Centro de Estudos de População
da mesma Universidade, Maputo, Moçambique. [Link]: garmende@[Link]
210 Manuel Mendes de Araújo
As the city’s infrastructure and economic activity was unable to keep apace with this
growth, the idea of migrating to the city with the aim of improving the livelihood of
the migrant population was nothing but a mirage, which eventually resulted in the
proliferation of the informal economy as a means of livelihood. The «city of
concrete» still exhibits a series of urban and demographic characteristics that differ
substantially from those of the surrounding urban administrative units.
Key-words: Urban population, Mozambique, Nampula.
Résumé – LA VILLE DE NAMPULA, CAPITALE DU NORD DE MOZAMBIQUE. La ville de
Nampula, située dans l’intérieur nord du Mozambique, a toujours été considérée
comme la ‘capitale’ du Nord. Fondée comme un poste de contrôle militaire de la
pénétration coloniale, c’est un important carrefour de routes entre le littoral et
l’intérieur, et entre le centre et le nord du pays. Comme les autres centres urbains
du Mozambique, Nampula a connu, après l’Indépendance, un fort accroissement
démographique, aussi bien pendant la guerre civile que depuis le rétablissement de
la paix, en 1992. Cet accroissement résulte d’un important flux migratoire venu des
campagnes. Mais Nampula n’ayant développé ni ses infrastructures ni son activité
économique, le départ vers la ville n’a été qu’un mirage, qui explique la prolifération
de l’économie informelle comme forme de survie des citadins. La ‘ville de ciment’
conserve des caractéristiques urbaines et démographiques qui l’individualisent par
rapport aux postes administratifs urbains qui l’entourent.
Mots-clés: population urbaine, Mozambique, Nampula.
I. CRUZAMENTO DE CAMINHOS
Localizada no entroncamento da via férrea de Nacala com os eixos rodoviá-
rios que da província da Zambézia e do litoral demandam o norte e o interior, a
cidade de Nampula foi implantada num planalto, para servir de centro militar
colonial para todo o norte de Moçambique. Ela é atravessada pelo «corredor de
desenvolvimento de Nacala», constituído pelos eixos ferroviário e rodoviário
que ligam o litoral (porto de Nacala) com o interior do país e com a República
do Malawi. Também é cruzada pelo eixo rodoviário Centro-Nordeste, vital para
o desenvolvimento a norte do rio Zambeze e que, a partir daqui, se ramifica
em direcção à província de Cabo Delgado, a norte, a província do Niassa, a
ocidente, e o litoral, a oriente. É esta localização que lhe confere o papel de
centro económico e de ligação de todo o território a norte do rio Zambeze, pelo
que se lhe ajusta o título de «capital nortenha» ou «rainha do norte».
A cidade de Nampula situa-se, aproximadamente, no centro do espaço
geográfico do distrito que leva o mesmo nome (distrito de Nampula), um pouco
deslocada para NE, e ocupa uma área de 404 km2. De Este para Oeste tem
uma extensão de 24,5km, entre os meridianos de 39.º 23’ 28’ e 39.º 10’ 00’
Este. No sentido N-S estende-se por 20,25km, desde a barragem do rio Mo-
napo, a uma latitude de 15.º 01» 35’S, até ao riacho Muepelume, no paralelo
15.º 13’ 15’ S.
Administrativamente, a cidade constitui um município, mas que não per-
Cidade de Nampula: a Rainha do Norte de Moçambique 211
tence ao distrito rural de Nampula que, territorialmente a cerca. Como «ilha»
dentro do distrito, toda a expansão da cidade se faz à custa do território daquela
entidade administrativamente diferente. Isto tem colocado alguns problemas,
pois a cidade vai retirando do distrito rural territórios que serviam para o desen-
volvimento social e económico deste, assim como lhe subtrai impostos de
actores económicos que, por alteração de limites administrativos, passam a ser
pagos à cidade. Assim, a cidade, por natureza um espaço dominante, torna-se
mais hegemónico e centralizador. Foi isto que ocorreu em 1986 quando, de
forma administrativa e burocrática, foram aumentados os limites territoriais
das áreas urbanas em Moçambique.
II. BREVES NOTAS SOBRE A HISTÓRIA DA CIDADE
A primeira penetração portuguesa no interior do território da actual pro-
víncia de Nampula remonta a 1896, com o objectivo de ocupar e colonizar os
reinos de Macuana, Maurusa e Mongole. Nesta primeira investida colonial para
terras do interior foram fundados, em 1897, os postos de Ibraímo, Nameluco e
Itaculo, a pouco mais de meia centena de quilómetros do litoral. Este último
passou a funcionar como sede de capitania.
A 7 de Fevereiro de 1907, uma expedição da armada portuguesa acampou na
senzala do régulo Uampula (Nampula) (CONSELHO EXECUTIVO DA CIDADE DE
NAMPULA, 1992), tendo aqui construído um posto militar. Nesta altura a sede da
capitania foi transferida de Itoculo para Nampula, passando a funcionar como
centro da expansão portuguesa em todo o norte de Moçambique.
Entre 1907 e 1913, a partir do posto militar de Nampula, foram subjugados
cerca de 44 régulos. Também foi neste período que, em 1912, se iniciou a
construção da linha-férrea a partir da vila do Lumbo, no litoral em frente à Ilha
de Moçambique. Contudo, só após a 1.ª Guerra Mundial esta avançou para o
interior.
A 21 de Julho de 1917 foram extintas as 4 capitanias então existentes e, em
seu lugar, criaram-se 15 comandos militares, um dos quais foi o de Macuana,
com sede no povoado de Nampula. Esta estratégia foi imposta pela forte resis-
tência que os regulados opunham à penetração colonial.
A 6 de Dezembro de 1919 foi criada, na localidade de Nampula, pertencente
ao comando militar de Macuana, a primeira delegação da Fazenda com o objec-
tivo de recolher os impostos (‘mucossa’) que já haviam sido lançados no período
de 1907-1913.
Em 1921 o governo português considerou ter chegado ao fim a missão dos
comandos militares nas suas colónias. Por isso, a 30 de Junho de 1921 estes
foram extintos em Moçambique, tendo sido substituídos por circunscrições
civis. A 8.ª circunscrição manteve o nome de Macuana, com sede na localidade
de Nampula e incluía, igualmente, o posto administrativo de Murrupula.
Em 1930 a linha-férrea, iniciada 28 anos antes (1912) no Lumbo, chega
212 Manuel Mendes de Araújo
finalmente à localidade de Nampula, o que leva a que a administração colonial,
para esta região da colónia, se fixe aqui de forma definitiva. Cerca de 4 anos
depois, a 19 de Dezembro de 1934, esta localidade é elevada à categoria de vila,
o que vem reforçar a importância estratégica, política e económica que sempre
lhe foi atribuída. Um ano depois (1935), a vila de Nampula passa a ser a capital
do «território do Niassa», que abrangia os espaços geográficos das actuais
províncias de Nampula, Cabo Delgado e Niassa; isto é, era a partir da vila de
Nampula que o regime colonial governava todo o extenso território a norte do
rio Ligonha, correspondente a uma superfície de 275.042 km2. Nesta altura,
devido à sua importância e ao extenso território que administrava, instala-se na
vila de Nampula o primeiro governador, que é acompanhado pela criação dos
serviços de administração civil, de obras públicas, de agricultura, de agrimen-
sura, de indústria e geologia, de saúde, de instrução, de veterinária, dos correios
e telégrafos.
No dia 4 de Setembro de 1940 é criada a diocese de Nampula, dando-se
início a uma intensa ocupação missionária. É nesta altura que o ensino secun-
dário observa o seu primeiro grande impulso com a abertura dos 2 primeiros
colégios/liceus e uma escola técnica elementar. Também é na década de 40 que
se cria a comarca de Nampula, facto que corta toda a dependência administra-
tiva desta com a Ilha de Moçambique.
Em 26 de Agosto de 1956, a vila de Nampula é elevada à categoria de
cidade, com a denominação de «Cidade de Nampula».
Durante a guerra colonial, a cidade de Nampula funcionou como o centro
nevrálgico de todas as operações militares do exército português, tendo, durante
esse período, que decorreu de 1964 a 1974, criado grandes infraestruturas mili-
tares. Por isso, actualmente ali funciona a Academia Militar de Moçambique.
III. DIVISÃO ADMINISTRATIVA
A urbe de Nampula constitui um município e, administrativamente, tem
equivalência a um distrito. É formada por 6 postos administrativos urbanos que
englobam 18 bairros, conforme o quadro I.
O município é dirigido pela Assembleia Municipal e pelo Presidente do
Conselho Municipal, eleitos por voto directo dos munícipes. No entanto, os
chefes dos postos administrativos urbanos são nomeados pelo governador da
província, o que cria um enviezamento do poder local autárquico e, por vezes,
dificuldades de gestão e administração urbanas.
Cidade de Nampula: a Rainha do Norte de Moçambique 213
Quadro I – Divisão administrativa da cidade de Nampula
Table I – Administrative organisation of the city of Nampula
Postos administrativos urbanos Bairros
Central Bombeiros; 25 de Setembro; 1… de Maio; Limoeiros;
Liberdade; Militar
Muatala Muatala; Mutauhanha
Muhala Muhala; Namutaqueliua; Muahivire
Namicopo Namicopo; Mutava-Rex
Napipine Napipine; Carrupeia
Natikiri Natikiri; Marrupaniua; Marrere
O posto administrativo urbano Central, como o próprio nome indica, cons-
titui o centro geográfico, económico, administrativo e urbano da cidade, e
corresponde à «cidade de cimento», planeada, de desenvolvimento vertical,
onde se situam as principais infra-estruturas económicas, sociais e administra-
tivas; a antiga cidade colonial, habitada, exclusivamente, por população branca
e alguma mulata e assimilada. Corresponde a um modelo urbano tipicamente
«ocidental», de planta ortogonal, estruturado em amplas avenidas, com áreas
residenciais e de serviços bem demarcadas.
Os outros 5 postos administrativos cercam, por completo, o anterior, e
constituem a «cidade de caniço», actualmente em plena transformação e expan-
são. Os bairros destes postos administrativos, eram os bairros segregados de
população negra que se aproximava da «cidade de cimento» à procura de
trabalho, assim como áreas rurais, habitadas por camponeses que, pela reforma
administrativa de 1986 ficaram integradas dentro dos novos limites da cidade.
É nestes que ainda hoje se instala a população migrante e com menos recursos
económicos; o planeamento é incipiente ou inexistente, predomina a ocupação
espontânea e anárquica, o desenvolvimento é horizontal e são escassas ou
inexistentes as infra-estruturas urbanas. Continuam a ser espaços segregados,
apesar das transformações que têm ocorrido nos últimos anos.
O posto administrativo urbano de Namicopo ocupa todo o NE da cidade; é
por este que entra na cidade o eixo rodoviário e ferroviário que vem do porto de
Nacala. O posto administrativo urbano de Napipine localiza-se a N, e é nele que
fica a barragm que abastece de água a cidade. O ocidente é ocupado pelo posto
administrativo urbano de Natikiri; ele é atravessado pelo eixo ferro-rodoviário
que se dirige para a província do Niassa e a República do Malawi. O sul da
cidade é ocupado pelos postos administrativos urbanos de Muatala, a ocidente,
e de Muhala, onde se localizam os dois bairros mais populares e conhecidos da
cidade – Muahivire e Namutaqueliua, desde o tempo colonial ligados aos nomes
do Benfica e do Sporting, respectivamente.
214 Manuel Mendes de Araújo
IV. UMA POPULAÇÃO EM CRESCIMENTO MUITO RÁPIDO
Os espaços urbanos em Moçambique conheceram, logo após a indepen-
dência nacional, um aumento demográfico muito acentuado, como resultado da
«tomada» das cidades pela população moçambicana. Este elevado ritmo de
crescimento manteve-se nos anos seguintes devido ao grande número de
pessoas que abandonavam as áreas rurais devido à instabilidade política provo-
cada pela guerra civil terminada em 1992 (ARAÚJO, 2000).
Em 1970, cinco anos antes da independência nacional, a cidade de Nam-
pula tinha uma população de apenas 23.072 residentes, o que não chegava a
representar 1% da população provincial. No ano de 1980, cinco anos após o
país se ter libertado do regime colonial, nesta urbe viviam 145.722 habitantes,
o que correspondia a 6,5% da população de toda a província de Nampula, e a
uma taxa de crescimento médio anual de 20,2% (CONSELHO COORDENADOR DO
RECENSEAMENTO, 1982). Em 1991, de acordo com a enumeração realizada pela
Direcção Nacional de Estatística, os residentes nesta cidade eram 232.167;
neste período (1980-1991) a taxa média anual de crescimento demográfico foi
de 4,3% (DIRECÇÃO NACIONAL DE ESTATÍSTICA, 1992). O II Recenseamento Geral
da População e Habitação, realizado em 1997, indica uma população residente
de 303.346 habitantes (INSTITUTO NACIONAL DE ESTATÍSTICA, 1999), que representa
10,2% da população provincial; neste último período (1991-1997) a taxa média
anual de crescimento foi ligeiramente superior ao anterior, situando-se nos
4,5%. Isto significa que no período entre os dois recenseamentos (1980-1997) o
peso da população da cidade de Nampula no total da população da província
onde se insere, aumentou substancialmente (mais 3,7%), como resultado da
forte migração rural urbana que se observou em todo o país. Em 27 anos (1970-
1997) a urbe nampulense sextuplicou a sua população (Figura 1).
Ao contrário do que seria de esperar e das expectativas dos políticos e ges-
tores, a cidade de Nampula viu aumentar mais a sua população no pós-guerra
civil (a partir de 1991) do que no período anterior. Isto sucede pelo facto de as
áreas rurais da província terem sido muito devastadas e se tornarem muito
repulsivas; nessas condições, os que haviam migrado para a cidade para fugir à
guerra, não regressaram às suas áreas de origem, e o campo continuou a
expulsar pessoas, pois não lhes oferecia condições mínimas de sobrevivência.
Entre 1980 a 1991, a taxa de crescimento médio anual foi de 4,3 %,
passando para 4,5% no período seguinte (1991-97) (ARAÚJO, 2003). Estes dados
são reveladores de que a população que durante a guerra civil procurou a
cidade como refúgio, não retornou aos seus locais de origem e, pelo contrário,
a procura dos espaços urbanos cresceu um pouco mais devido, fundamental-
mente, às más condições de vida e situação económica das áreas rurais.
O aumento do crescimento populacional urbano no período pós-guerra civil não
se observou na maior parte das cidades moçambicanas; a cidade de Nampula
faz parte dum pequeno conjunto de centros urbanos que observou um maior
crescimento neste período, e que coincidem com as que menos aumentaram
durante o período anterior (ARAÚJO, 2003).
Cidade de Nampula: a Rainha do Norte de Moçambique 215
População x 103
350
300
250
200
150
100
50
0
1970 1970 1997 1991
Anos
Fig. 1. Crescimento da população da cidade de Nampula (1970-1997)
Fig. 1 – Population growth in Namula (1970-1997)
De acordo com as projecções mais recentes do INE, entre 1997 e 2005 o
ritmo do crescimento da população da cidade de Nampula não passará dos
3,0% (quadro II). Mas de acordo com o Conselho Municipal da cidade, entre 97
e 2002, o crescimento demográfico manteve-se na ordem dos 4% ao ano,
prevendo que a população em 2005 se aproxime dos 400 mil habitantes.
O aumento demográfico observado entre 1980 e 1997 levou a uma dupli-
cação da densidade demográfica urbana (quadro II), em particular nos bairros
mais pobres.
Quadro II – Evolução da população da cidade de Nampula (1980-2005)
Table II – Population change in Nampula (1980-2005)
1980 1991 1997 2005*
População 145.722 232.167 303.346 385.089
Taxa de crescimento médio anual 4,3% 4,5% 3,0%
Densidade 361 575 751 955
*Projecção elaborada pelo Instituto Nacional de Estatística (INE).
216 Manuel Mendes de Araújo
V. DISTRIBUIÇÃO TERRITORIAL DA POPULAÇÃO
DA CIDADE DE NAMPULA
Considerando as unidades territoriais administrativas intra-urbanas, os
postos administrativos, o aumento da população foi bastante diferente, con-
forme ilustram o quadro III e a figura 2. A «cidade de cimento» (posto adminis-
trativo Central) e o posto administrativo de Natikiri, no extremo ocidental da
área urbanizada, foram os que menos cresceram ao longo do período aqui
considerado (1980-1997).
Em Natikiri, em 1980 residia 20,4% da população da cidade, mas 17 anos
depois (1997) a população aqui residente representava, apenas, 10,8% dos
moradores de toda a cidade. Num período de 17 anos este posto administrativo
teve apenas um aumento absoluto de 3 mil habitantes, ao contrário de Napi-
pine, por exemplo, que viu os seus moradores acrescidos de mais 42.000.
A situação naquele posto administrativo urbano foi resultado das condições de
insegurança, provocadas pela guerra civil, pois esta área estava muito próxima
de territórios rurais onde as acções dos rebeldes se faziam sentir com muita
frequência contra a população. Além disso, é uma área urbana muito peri-
férica com poucas ou nenhumas infra-estruturas urbanas e sócio-económicas.
Por isso, não sendo atractiva, muita da sua população migrava para as áreas
urbanas vizinhas, com melhores condições de vida, como Napipine, a NE e
Muatala a SE.
Quadro III – Distribuição da população da cidade de Nampula
por postos administrativos urbanos (1980-1997)
Table III – Distribution of the population of the city of Nampula
by urban administrative units
1980 1991 1997 Aumento (%)
Pop. % Pop. % Pop. % 1980 = 100
Central 10.992 7,5 14.458 6,2 16.229 5,3 147,6 (1,5 vezes)
Muatala 29.707 20,4 57.168 24,6 72.425 23,9 243,2 (2,4 vezes)
Muhala 32.394 22,2 54.485 23,5 80.006 26,4 247,0 (2,5 vezes)
Namicopo 16.468 11,3 14.463 6,2 33.557 11,1 203,8 (2,0 vezes)
Napipine 26.436 18,2 57.386 24,7 68.410 22,5 258,8 (2,6 vezes)
Natikiri 29.725 20,4 34.207 14,8 32.719 10,8 110,1 (1,1 vezes)
Total 145.722 100 232.167 100 303.346 100 208,2 (2,1 vezes)
Fonte: Conselho Coordenador do Recenseamento, 1.º Recenseamento Geral da População, 1980. Serviços Provin-
ciais de Estatística, Direcção Provincial do Plano, Nampula, 1992. Instituto Nacional de Estatística,
II Recenseamento Geral da População e Habitação, 1997.
O posto administrativo Central (‘cidade de cimento’), durante este período
de 17 anos apenas aumentou a sua população em 5 mil pessoas, constituindo,
Cidade de Nampula: a Rainha do Norte de Moçambique 217
com o de Natikiri, os únicos bairros que perderam peso demográfico no
conjunto da cidade. Mas aqui, as razões são completamente diferentes das que
actuaram em Natikiri; a «cidade de cimento» continua, como no passado, a ser
muito selectiva, apenas aceitando população com poder económico e de esta-
tuto social considerado como mais elevado. Além disso, o tipo de residências
permitidas neste espaço urbano, assim como o material de construção, limita o
seu acesso a uma grande maioria da população moçambicana. Mas mesmo
assim o centro da cidade de Nampula está congestionado. Isto sucede porque
durante o período em análise não houve novas construções para habitação.
A isto acresce o facto de que, durante o dia, um grande número de moradores
dos outros postos administrativos urbanos vem trabalhar e/ou fazer a sua acti-
vidade de comércio de rua (informal) no centro, onde existe poder de compra.
Esta situação cria, para os residentes, a percepção de um grande congestiona-
mento populacional.
O posto administrativo de Namicopo, apesar de ter duplicado a sua popu-
lação no período em análise, manteve o mesmo peso no conjunto da cidade.
%
30
25
20 1980
1997
15
10
0
Central Muatala Muhala Namicopo Napipine Natikiri
Fig. 2 – Evolução do peso da população dos postos administrativos em Nampula
Fig. 2 – Change in the weight of the population in the administrative
organisation of Nampula
Os principais responsáveis pelo grande crescimento demográfico da cidade
de Nampula foram os postos administrativos designados por suburbanos, com
excepção do de Natikiri, particularmente os de Muatala, Muhala e Napipine
218 Manuel Mendes de Araújo
(quadro III e fig. 2). São espaços suburbanos constituídos por bairros populares
tradicionais, de crescimento horizontal, onde o material de construção predo-
minante é precário (material local). Nestas condições, o crescimento demográ-
fico observado levou a uma ocupação muito densa do solo, sem qualquer
ordenamento e sem criação de infra-estruturas urbanas. Parte considerável da
expansão destes postos administrativos fez-se em áreas de declive pronunciado,
pois o centro ocupa a parte mais elevada do planalto. Tudo isto levou ao agra-
vamento, não apenas das condições sociais, mas também ambientais; a cidade
de Nampula é a capital provincial com os mais graves problemas de erosão.
A observação das fotografias aéreas de 1965 e de 1992 mostra que no posto
administrativo da Muhala, por exemplo, ao longo da estrada que do centro vai
até ao aeroporto e no enfiamento da pista de aterragem, em 1965 não havia
população a residir e em 1992 a ocupação do solo era de 13 casas por hectare.
Como de 1991 a 1997 este posto administrativo passou a ter mais cerca de
25 mil moradores, a densificação de ocupação do solo aumentou muito. Porque
ela foi feita sem qualquer plano de ordenamento, a circulação e a instalação de
infraestruturas são muito problemáticas e os problemas ambientais relacio-
nados com a erosão e os lixos sólidos multiplicam-se, tornando as condições de
vida dos seus moradores ainda mais precárias.
VI. O PESO DA POPULAÇÃO IMIGRANTE
De acordo com os dados do INE, perto de metade (47%) da população que
actualmente reside na cidade de Nampula é imigrante. A atracção desta cidade
exerce-se, fundamentalmente, sobre a população rural da província de Nam-
pula, mas também dos distritos do norte da Zambézia, do sul de Cabo Delgado
e do oriente do Niassa. Este aspecto reforça o papel central que a cidade desem-
penha em toda a região norte do país.
Tradicionalmente a migração rural-urbana para a cidade, como sucede nas
restantes cidades do país e de Africa, é essencialmente masculina, o que se
reflecte na razão de sexo de 114 homens por 100 mulheres em 1980 (CONSELHO
COORDENADOR DO RECENSEAMENTO, 1982). Contudo, a instabilidade que a guerra
civil trouxe para as áreas rurais alterou muito a composição sexual e etária
desta forma de mobilidade populacional, tornando as cidades um pouco mais
femininas.
Durante o período aqui considerado (1980-97) a razão de sexo variou subs-
tancialmente: numa primeira fase (1980-91) o número de mulheres aumentou
muito, passando a razão de sexo de 114 para 103 homens por 100 mulheres; na
fase seguinte (1991-97) a predominância do sexo masculino voltou a acentuar-
se, mas sem alcançar os valores de 1980, passando para 109 homens por 100
mulheres. Parece ser evidente que durante a primeira fase, que correspondeu ao
auge da guerra civil, terminada em 1992, veio para a cidade um maior número
de mulheres que de homens, fenómeno observado em todas as áreas urbanas do
Cidade de Nampula: a Rainha do Norte de Moçambique 219
país (ARAÚJO, 2003). Estas, para fugir à instabilidade rural, vieram juntar-se aos
familiares do sexo masculino que já viviam na cidade. Com o final da guerra
civil, a situação tende a voltar ao padrão migratório mais comum, em que as
mulheres permanecem no campo enquanto os homens demandam a cidade em
busca de trabalho que, a maior parte das vezes, não encontram no semi-parali-
sado sector formal da economia urbana.
Como sucede noutras cidades moçambicanas, é a «cidade de cimento», que,
como já atrás se referiu, corresponde ao posto administrativo urbano Central,
que apresenta um maior peso do sexo masculino. Em 1997, de acordo com os
dados do recenseamento geral da população, a razão de sexo era, neste posto
administrativo, de 120,4. Ao contrário, o posto administrativo urbano de
Natikiri, que é o mais periférico, tem apenas 103,5 homens por 100 mulheres.
Na realidade, a migração feminina fez-se mais em direcção aos bairros mais
periféricos da cidade, onde as condições de vida são mais precárias.
VII. MIRAGEM DESFEITA
A cidade sempre foi vista como o lugar a atingir para melhorar as condições
de vida familiar. Esta ideia aprofunda-se mais em países que, como Moçam-
bique, têm um desenvolvimento rural muito incipiente, e onde a agricultura
praticada pela grande maioria das famílias depende, totalmente, das condições
naturais. Por isso, as famílias rurais procuram que, pelo menos, um dos seus
membros migre para a cidade para ter um emprego com remuneração certa, o
que melhorará substancialmente o rendimento do agregado.
A cidade de Nampula sempre desempenhou esta função de atracção de
população rural de todo o espaço provincial, assim como do norte da província
da Zambézia, sul da de Cabo Delgado e oriente do Niassa. Também nesta função
ela é considerada o centro de todo o norte moçambicano.
Contudo, durante as últimas décadas, apesar de as urbes moçambicanas
continuarem a atrair muita população rural, arranjar nelas um emprego seguro
e remunerado e melhorar as condições de vida da família, tornou-se uma mira-
gem. Na cidade de Nampula esta situação é evidente pelo facto de ter recebido
um volume muito grande de população rural fugida da guerra civil, como atrás
foi referido, mas também porque durante esse período a cidade não criou novas
infraestruturas e actividades económicas formais que levassem à criação de
mais postos de trabalho. Esta situação foi agravada, ainda, pelo facto de muitas
das actividades económicas comerciais e industriais existentes terem abando-
nado a cidade ou fechado por razões diversas.
Em 1995, da população em idade activa residente na cidade de Nampula,
apenas 3,2% tinham um emprego declarado ao Ministério do Trabalho e 1,8%
trabalhavam na função pública (DEPARTAMENTO DE ESTATÍSTICA DO MINISTÉRIO
DO TRABALHO, 1995; DIRECÇÃO PROVINCIAL DE FINANÇAS DE NAMPULA, 1995). Uma
taxa de emprego oficialmente declarado de apenas 5% é extremamente baixa e
220 Manuel Mendes de Araújo
geradora de graves problemas sociais e de gestão urbana de difícil controlo e de
solução complexa. A cidade de Nampula em 1980 tinha um pouco mais de 30%
da sua população em idade activa oficialmente empregada (MINISTÉRIO DO
TRABALHO, 1982), pelo que, tendo em conta os dados oficiais, num período de 15
anos a situação de emprego urbano tornou-se desastrosa. Esta quebra foi resul-
tante da conjugação dos dois factores acima referidos (forte crescimento do
fluxo migratório em direcção à cidade e paralisação e/ou degradação das infra-
estruturas económicas).
De entre os trabalhadores por conta de outrem, não incluindo os funcioná-
rios públicos, 50% estão empregados no comércio, fundamentalmente retal-
hista. De entre os que têm um emprego oficialmente declarado, cerca de 15%
(14,9%) exercem a sua actividade na agricultura; metade destes pratica, na
cidade, uma agricultura de tipo familiar.
Estes dados mostram que, apesar do papel central que a cidade de Nampula
tem para toda a região norte do país, não foram criadas as condições para o
desenvolvimento de infra-estruturas e actividades que, de forma efectiva,
criassem emprego para absorver a população lá residente e mais aquela que,
continuamente, para ela se desloca na tentativa de melhorar as condições de
vida. Nestas condições, a grande maioria da população em idade activa tem que
buscar formas de sobrevivência, trabalhando sem qualquer tipo de vínculo
contratual (exemplo claro dos empregados domésticos), ou procurando desen-
volver actividades informais das mais diversas.
O informal urbano torna-se, nestas condições, a principal forma de activi-
dade e de sobrevivência da população da cidade. No questionário de indica-
dores básicos de bem-estar, realizado pelo Instituto Nacional de Estatística em
2000, mais de 80% (85.7%) da força de trabalho, a nível do país, era constituída
por trabalhadores por conta própria e familiares não remunerados. Para a
província de Nampula esse valor é superior a 90% (92,9%) (INE, 2001). Nas
cidades, a maioria destes trabalhadores por conta própria são aqueles que se
dedicam a actividades designadas por informais: vendedores de rua e de
mercados, artesãos, transportadores, trabalhadores ocasionais, prestadores de
serviços, etc. Apesar de não existirem dados exactos, estima-se que na cidade de
Nampula, entre 65 e 70% da população em idade activa exerce a sua actividade
no sector informal. Nestas condições, a cidade de Nampula, da mesma forma
que outras urbes moçambicanas, tem na actividade não estruturada (informal)
a sua principal fonte da economia familiar e urbana.
Uma parte dessa actividade não estruturada da cidade de Nampula faz-se
na agricultura familiar e na venda dos seus excedentes nos mercados informais;
são os «camponeses urbanos». Eles são constituídos por população que, vinda
das áreas rurais, para sobreviver na cidade têm que continuar a usar a mesma
actividade e as mesmas práticas que utilizavam nas suas áreas de origem. Por
isso, o «camponês urbano» procura ter à volta da sua casa, na área urbana, uma
pequena parcela com culturas diversificadas, como hortícolas, mandioca, milho
e árvores de fruta. Quando isso não lhes é possível devido à intensificação da
Cidade de Nampula: a Rainha do Norte de Moçambique 221
ocupação residencial, recorrem a outras parcelas mais afastadas da sua resi-
dência, dentro da área urbana ou no distrito rural, mas próximo da cidade. São
exemplos desta situação as áreas de agricultura familiar e/ou cooperativa dos
bairros Mutauanha, Marrere e Murrapaniua.
VIII. UMA POPULAÇÃO ESSENCIALMENTE JOVEM
Moçambique, como os restantes países de África, tem uma população muito
jovem. O peso da população jovem acentua-se mais nas áreas urbanas, pois é
nelas que a população jovem em idade de trabalhar procura melhores condições
de vida, como se referiu acima.
A cidade de Nampula não escapa a esta regra, pois 43,5% da sua população
tem menos de 15 anos, e apenas 1,2% têm 65 ou mais anos (quadro IV). A popu-
lação em idade escolar obrigatória (5-14 anos) representa 27,7% dos residentes
nesta urbe, o que dá uma ideia da pressão que existe sobre as infra-estruturas
escolares, que apenas conseguem dar resposta a 70% das necessidades
(DIRECÇÃO PROVINCIAL DE EDUCAÇÃO DE NAMPULA, 2004).
Quadro IV – Estrutura etária da população da cidade de Nampula
(Censo de 1997)
Table IV – Age structure of the population of the city of Nampula
(1997 Census)
Grupos et rios (%)
Postos administrativos urbanos
<5 5-14 65+
Central 11,2 25,2 1,2
Muatala 16,5 27,0 0,9
Muhala 15,5 27,8 1,4
Namicopo 16,4 26,3 1,5
Napipine 16,1 28,7 0,9
Natikiri 16,3 27,4 2,1
Cidade de Nampula 15,8 27,7 1,2
A estrutura etária reflecte, igualmente, as diferenças existentes entre a
«cidade de cimento» e o resto da cidade de Nampula, conforme se pode observar
pelo quadro IV. Apenas aquela (posto administrativo urbano Central) tem uma
população com menos de 15 anos que representa menos de 40% dos seus resi-
dentes (36,4%), e a população em idade escolar é de apenas 25%.
O posto administrativo urbano de Natikiri é o único onde a população idosa
(65+ anos) tem um peso superior a 2%. Este é, como já atrás foi referido, o mais
periférico, onde o peso da população feminina é maior e que, ultimamente, tem
perdido população a favor de outras áreas da cidade.
222 Manuel Mendes de Araújo
Com esta estrutura etária, o nível de dependência, em particular nos bairros
fora da «cidade de cimento», é muito elevado e as necessidades em infra-estru-
turas escolares e de saúde materno-infantil são grandes.
É esta população jovem que, durante o dia, conflui para a «cidade de
cimento» (posto administrativo urbano Central) e percorre as suas ruas e
avenidas oferecendo os seus préstimos para trabalhos ocasionais, vendendo
aquilo que podem a quem passa ou juntando-se em grupos a jogarem qualquer
coisa que os ajude a passar o tempo, etc. Isto dá ao centro da cidade uma
aparência de grande congestionamento, assim como de alguma insegurança.
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