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Análise de "Frei Luís de Sousa"

1) O documento analisa a obra "Frei Luís de Sousa" à luz do Romantismo, discutindo características como o nacionalismo, o individualismo e o herói romântico. 2) Apresenta a biografia do autor Almeida Garrett, um dos principais nomes do Romantismo português. 3) Discutem-se elementos românticos presentes na obra como o sebastianismo, o patriotismo e temas como a morte.

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Análise de "Frei Luís de Sousa"

1) O documento analisa a obra "Frei Luís de Sousa" à luz do Romantismo, discutindo características como o nacionalismo, o individualismo e o herói romântico. 2) Apresenta a biografia do autor Almeida Garrett, um dos principais nomes do Romantismo português. 3) Discutem-se elementos românticos presentes na obra como o sebastianismo, o patriotismo e temas como a morte.

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Análise da obra “Frei Luís de Sousa” – Resumo de elementos chave

Prof. Sandra Valentim

ROMANTISMO - Verifica-se o contraste entre a realidade idealizada e a História e


De origem alemã e inglesa o Romantismo espalhou-se por toda a privilegia-se a liberdade e o nacionalismo, não sendo a este alheio o
Europa desde os finais do século XVII, perpassado pela ideologia da Revolução interesse pela Idade Média como época representativa do surgimento
Francesa. Surge por oposição ao Classicismo. das nações, pela afirmação das nacionalidades e independências
O Romantismo em Portugal está ligado à transformação políticas, tão caro aos românticos que na sua época aderem a causas
revolucionária da sociedade portuguesa no início do século XIX. Deve notar-se, autonomistas e liberais, sendo também de pôr em relevo os tempos
no entanto, que, anteriormente à revolução liberal, se vinham desenvolvendo modernos;
temas e estilos que anteviam a criação de um novo conceito de Literatura; já - Privilegia-se a fuga no tempo e no espaço, a evasão no sonho, na
os Árcades procuravam um estilo mais directo, descritivo e individualizante, meditação, no mistério, na morte, no fantástico e o gosto pela
oposto, ao estilo clássico. Também eles atribuíram à Literatura uma função tradição, pelo agradável e popular, sintomático do que é próprio e
social e nacional que será ponto de partida para os primeiros românticos. nacional e não alheio, como se manifestavam as normas do Classicismo;
Na origem do Romantismo está o acesso da burguesia à Literatura, - Enaltece-se a imaginação, a espontaneidade, o natural, o ser genial
com o avanço do jornalismo que nasce em meados do século XVII e se de cada indivíduo, a religião, o misticismo;
desenvolve durante o séc. XVIII, apesar do controlo exercido pelo poder - Centra-se nos jogos de contrastes e antíteses, registando-se com
central sobre as publicações periódicas. Com as revoluções ocorridas entre frequência a ironia e o sarcasmo, afluência vocabular
1820-1831 verificam-se grandes vagas de emigração, tendo-se os emigrados predominantemente emocional e o gosto pelo coloquialismo do discurso
repartido entre França e Inglaterra, onde o Romantismo estava em com marcas nítidas da oralidade; liberaliza-se a forma, nomeadamente
florescimento. É em plena emigração que Almeida Garrett publica as suas no uso do verso livre, estrofes irregulares e da prosa no género
primeiras obras: Camões e D. Branca (1825 e 1826), em Paris. Com o regresso dramático;
dos emigrados, devido à vitória dos liberais na guerra civil de 1832-34, o - O herói romântico é incompreendido e perseguido pela sua
Romantismo ganhou firmeza, com a participação activa de Alexandre singularidade: busca o infinito, o absoluto do amor, da justiça, da
Herculano e Almeida Garrett, vindo a ter o seu apogeu com Camilo Castelo verdade e da beleza; é excessivo, fatal, solitário, dominado pelo
Branco e sendo substituído pelo Realismo em 1871. coração, rebelde, procurando a sua pureza imaginária através de uma
O Romantismo caracteriza-se pela rejeição, por um lado, das contestação às regras da sociedade; o homem transfere-se para a obra,
tradições do Classicismo como modelos e, por outro, do racionalismo do século fazendo desta a realização imaginária da sua vida, dos seus desejos ou
XVIII. da raiva contra os seus próprios limites enquanto ser humano; este é
assumido como um misto de sublime e de grotesco;
Principais características: - A paisagem romântica é revolta, tumultuosa, agreste, sombria,
- Valoriza-se o Indivíduo em si mesmo, a sensibilidade, o sentimento e a povoada por seres selvagens, noctívagos («Iocus horrendus»), associada
exaltação do eu interior, estando inerentes a inquietação e o desequilíbrio, aos estados de alma e capaz de provocar sensações violentas.
assim como o sofrimento, a melancolia, a fatalidade; da nostalgia causada pela
impossibilidade de alcançar o absoluto e da frustração da condição humana, Tendo em conta algumas características da época anterior
nasce o «mal du siêcle» que pode ter como manifestação o protesto político; (Classicismo), que contrastam com as acima mencionadas, note-se que
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a natureza clássica («locus amoenus») é aprazível, primaveril, diurna, ALMEIDA GARRETT


simétrica; os artistas do Renascimento (em Portugal sobretudo no século XVI, João Baptista da Silva Leitão de ALMEIDA
apresentando um cunho próprio resultante da expansão ultramarina) basearam GARRETT (Porto 4/2/1799 - Lisboa 9/12/1854) foi uma
a sua doutrina na imitação da Antiguidade Clássica (grega e romana, seus das principais figuras da literatura portuguesa.
modelos e regras), na imitação da Natureza, valorizando o primado da razão e Da sua infância é de salientar a influência que
daí o equilíbrio corpo / espírito, forma / conteúdo, harmonia, sobriedade e duas criadas terão exercido nele, despertando o gosto
serenidade. pelo folclore e pela mentalidade e sabedoria populares.
Perante as invasões francesas, a família de Garrett refugiou-se nos
O ROMANTISMO NA OBRA Açores em 1809, onde este foi educado por dois tios, Dr. João Carlos
O Frei Luís de Sousa apresenta alguns dos tópicos românticos como: Leitão e D. Frei Alexandre da Sagrada Família. A sua vocação não era
- Sebastianismo - Telmo e Maria não deixam de fazer referência à crença porém a eclesiástica, mas antes a de orador e homem de teatro, a qual
no mito de D. Sebastião; foi estimulada pela leitura de tragédias gregas e latinas, pelo abandono
- patriotismo e nacionalismo - o comportamento de Manuel de Sousa da carreira eclesiástica e pela frequência do curso de Direito em
Coutinho ao incendiar o seu próprio palácio para impedir que fosse Coimbra.
ocupado pelos Governadores ao serviço de Castela; Em 1821, já formado, veio para Lisboa onde desempenhou
- crenças e superstições - de Madalena, Telmo e Maria, em contextos papel importante na política. Em 1823, aquando da Vila-Francada, que
diversos mas sempre relacionados com o regresso de D. João e o final aboliu a Constituição de 1822, viu-se forçado, como muitos outros
trágico que viria a ter lugar; liberais perseguidos, a procurar asilo, com a mulher, em Inglaterra. O
- religiosidade - de todas as personagens; contacto com o meio inglês marcou para sempre o espírito de Garrett,
- tema da morte – para os românticos a morte foi sempre tida como tendo a paisagem inglesa com seus castelos em ruínas atraído Garrett,
solução de conflitos; em Frei Luís de Sousa verifica-se: fazendo-o encaminhar para o Romantismo. As primeiras manifestações
• a morte física de Maria (morre tuberculosa); literárias de Romantismo neste autor foram os poemas Camões (1825) e
• a morte simbólica de Madalena e de Manuel, que tomam o hábito, D. Branca (1826), escritos aquando duma curta permanência em Paris,
morrendo para a vida mundana; como correspondente comercial.
• morte simbólica de D. João de Portugal que morre uma segunda vez, Na obra de Garrett, consegue-se distinguir o homem social do
quando Telmo, depois de lhe ter desejado a morte física como única homem interior, através dos temas do remorso, do desabafo e do
maneira de salvar a sua menina, o seu anjo (Maria), aceita colaborar reconhecimento. Os grandes temas da sua obra dramática são liberdade
com o Romeiro no sentido de afirmar que se trata de um impostor, ou morte, confronto entre o passado e o presente (revelando saudade
numa última tentativa de evitar a catástrofe; do primeiro), paixão pecaminosa, renúncia, religiosidade e exagerado
• morte psicológica de Telmo, devido aos acontecimentos trágicos. patriotismo. As suas personagens ou são literatos, como Bernardim
Ribeiro, Gil Vicente, Frei Luís de Sousa ou figuras próximas do
anonimato, como D. Filipa de Vilhena, Fernão Vaz ou a Sobrinha do
Marquês. Garrett sublimou os homens de outrora com as qualidades e
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virtudes que faltavam aos do presente, numa tentativa de dignificar os tempos cronologia nem a rejeitar por impróprio da cena tudo quanto a severa
passados. crítica moderna indigitou como arriscado de se apurar para a história.
Com a revolução de Setembro (1836), Passos Manuel subiu ao poder e Eu sacrifico às musas de Homero, não às de Heródoto: e quem sabe, por
encarregou Garrett de proceder a reformas culturais, entre elas «a fim, em qual dos dois altares arde o fogo da melhor verdade».
organização de um teatro nacional». Garrett fundou, então, o Teatro Nacional FREI LUÍS DE SOUSA (Manuel de Sousa Coutinho, cerca de 1555
(actual D. Maria II, em Lisboa), uma escola para formar actores (o - 1632) sofreu vida acidentada na Ásia e em África e prestou serviços a
Conservatório) e iniciou a produção de obras de teatro que seduzissem o Filipe II de Espanha. Regressando a Portugal, casou, por 1584-86, com
público. D. Madalena de Vilhena, viúva de D. João de Portugal, desaparecido na
De 1837 a 1841 decorreu o idílio amoroso de Adelaide Deville e batalha de Alcácer Quibir a 4 de Agosto de 1578.
Garrett, que aos dezoito anos se apaixonou pelo poeta, morrendo aos vinte e Em 1599 muda-se para Almada, nomeado capitão-mor dessa
dois deixando uma filha de meses. As dolorosas recordações em que Garrett localidade. No ano seguinte, devido à peste que assola Lisboa, os
vivia aquando da sua permanência em Benfica, onde morou com Adelaide, governadores do reino pretendem abrigar-se em Almada, numa casa de
após a morte desta, forneceram-lhe os momentos de concentração para criar o D. Manuel que, por questões pessoais, lhe lança fogo para não Ihes
Frei Luís de Sousa. A obra sofreu ferozes críticas ao serviço do Cabralismo, ceder abrigo. Em 1613, após o falecimento da filha única do casal, D.
tendo sido até acusada de imitação de uma obra de um autor francês sobre a Manuel e D. Madalena seguem o exemplo recente dos Condes de
mesma personagem, intitulada Luís de Sousa e, por tal, impedida de ser Vimioso, dando ele entrada no convento de S. Domingos de Benfica e
representada (esta proibição só foi interrompida em 1850 quando o Teatro D. ela no convento do Sacramento.
Maria II foi oficialmente inaugurado). D. Manuel, então Frei Luís de Sousa, desenvolveu alguns
Garrett escreveu Um Auto de Gil Vicente (1838), D. Filipa de Vilhena projectos literários até à sua morte como A Vida de D. Frei Bartolomeu
(1840), O Alfageme de Santarém (1842), Frei Luís de Sousa (1843), A Sobrinha dos Mártires, A História de S. Domingos Particular do Reino e Conquistas
do Marquês (1848). Na prosa, destacou-se com Viagens na minha Terra (1843) e do Reino, a partir de materiais deixados por Frei Luís de Cácegas, num
na poesia com Flores sem Fruto (1845) e Folhas Caídas (1853). estilo claro, fluente, cheio de naturalidade e poder expressivo que
A par de homem de letras, Garrett foi também um político activo, marcou a prosa clássica portuguesa. Correram diversas versões acerca
ora apoiado, ora perseguido. Liberal que era, opôs-se aos regimes de D. Miguel da causa da morte para o mundo de D. Manuel e D. Madalena, partindo
(Absolutismo) e de Costa Cabral (Cabralismo). uma delas de um biógrafo daquele, segundo o qual um peregrino
trouxera a notícia de que D. João de Portugal estaria ainda vivo na
FREI LUÍS DE SOUSA – PERSONAGEM HISTÓRICA Terra Santa, 35 anos após o seu desaparecimento, sendo o casamento
de D. Manuel e D. Madalena impossível. Foi este facto que deu origem a
O título desta obra e a sua acção têm um fundo histórico. As Frei Luís de Sousa de Garrett.
personagens existiram na realidade, as relações entre elas igualmente, embora
o autor diga na «Memória ao Conservatório Real» não ter seguido
rigorosamente a cronologia dos acontecimentos nem a verdade histórica:
«Escuso dizer-vos, senhores, que me não julguei obrigado a ser escravo da
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FREI LUÍS DE SOUSA – DRAMA OU TRAGÉDIA? eram as tragédias dantes -sem uma dança macabra de assassínios, de
Da «Memória ao Conservatório Real» aos conceitos adultérios e de incestos, tripudiada ao som de blasfémias e das
de Drama e Tragédia maldições, como hoje se quer fazer o drama - eu quis ver se era
possível excitar fortemente o terror e a piedade ao cadáver das nossas
Segue-se um excerto da «Memória ao Conservatório Real», cuja ideia plateias, gastas e caquéticas pelo uso contínuo de estimulantes
fulcral é a distinção entre drama e tragédia que o autor pretende fazer e a violentos, galvanizá-lo com estes sós dois metais de lei.
indicação das razões que o levaram à designação que atribuiu a esta sua obra- Repito sinceramente não sei se o consegui;(...).
prima: Nem pareça que estou dando grandes palavras a pequenas
Esta é uma verdadeira tragédia (...). Não lhe dei todavia este nome coisas: o drama é a expressão literária mais verdadeira do estado da
porque não quis romper de viseira com os estafermos respeitados dos séculos sociedade; a sociedade de hoje ainda se não sabe o que é: o drama
que, formados de peças que não ofendem nem defendem no actual guerrear; ainda se não sabe o que é: a literatura actual é palavra, é o verbo,
inanimados, ocos e postos ao canto da sala para onde ninguém vai de ainda balbuciante de uma sociedade indefinida, e contudo já influi
propósito – ainda têm contudo a nossa veneração, ainda nos inclinamos diante sobre ela; é, como disse, a sua expressão, mas reflecte a modificar os
deles quando ali passamos por acaso. pensamentos que a produziram. (...)
Demais, posto que eu não creia no verso como língua dramática Almeida Garrett, «Memória ao Conservatória Real» (lido em Maio 1843).
possível para assuntos tão modernos, também não sou tão desabusado contudo
que me atreva a dar a uma composição em prosa o título solene que as musas Vejamos agora definições puras e simples que a Enciclopédia
gregas deixaram consagrado à mais sublime e difícil de todas as composições nos fornece sobre estes dois géneros literários para que possam ser uma
poéticas. ajuda na classificação da natureza desta peça:
O que eu escrevi em prosa, pudera escrevê-lo em verso; - e o nosso
verso solto está provado que é dócil e ingénuo bastante para dar todos os DRAMA - Drama é também um género dramático, o mais importante do
efeitos de arte sem quebrar na natureza. Mas sempre havia de aparecer mais teatro sério depois da tragédia como o é a farsa no teatro cómico
artifício do que a índole especial do assunto podia sofrer: E di-lo-ei porque é depois da comédia. (...) Drama é um género teatral que se caracteriza
verdade - repugnava-me também pôr na boca do Frei Luís de Sousa outro pelo sério das situações e pelo seu desenlace funesto, mas não é
ritmo que não fosse o da elegante prosa portuguesa que ele, mais do que trágico. Distingue-se fundamentalmente da tragédia por serem as
ninguém, deduziu com tanta harmonia e suavidade. Bem sei que assim ficará personagens que, por decisão própria, conduzem a intriga a um
mais clara a impossibilidade de imitar o grande modelo; mas antes isso, do desfecho infeliz, ao passo que na tragédia o destino se exerce
que fazer falar por versos meus o mais perfeito prosador da língua. (...) inexoravelmente até final, limitando-se as personagens a lutar contra
Nem amores, nem aventuras, nem paixões, nem caracteres violentos ele, sem esperança, até à consumação do que tem de acontecer.
de nenhum género. Com uma acção que se passa entre pai mãe e filha, um Enciclopédia Luso-Brasileira de Cultura, Verbo
frade, um escudeiro velho, e um peregrino que apenas entra em duas ou três
cenas - tudo gente honesta e temente a Deus -sem um mau para contraste, TRAGÉDIA – A tragédia, em sentido restrito, geralmente chamada
sem um tirano que se mate ou mate alguém, pelo menos no último acto, como regular, deixou de existir com o Romantismo. Em sentido lato, podemos
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incluir neste género toda a peça de teatro que, independentemente da sua que acabam por inverter o rumo dos acontecimentos em sentido
estrutura, possua um certo «pathos» trágico, como os mistérios medievais e o inesperado, dando lugar ao desenlace fatal (Catástrofe). Um
chamado drama romântico ou realista e, de um modo geral todo o teatro sério reconhecimento (Anagnórise) é que muitas vezes desencadeia esta
que põe em causa o destino e a liberdade do homem em situações irredutíveis. mudança brusca. A catástrofe deve ser sugerida desde o início pois é o
(...) resultado da luta entre a Hybris e o Destino cruel e inevitável. Estes
O Romantismo português teve expressão mais alta na obra dramática de acontecimentos e este conflito criam no espectador uma tensão, uma
Almeida Garrett, que foi o seu introdutor em Portugal com o drama Um Auto curiosidade e expectativa tais, levando-o a participar dos sentimentos e
de Gil Vicente (1838). A sua obra-prima, a tragédia romântica Frei Luís de apreensões das personagens (Catarse) como forma de purificar as
Sousa (1843), é também a obra-prima do teatro romântico português e uma paixões dos espectadores, semelhantes às do protagonista, através de
das mais belas obras da literatura dramática universal. uma acção geradora de compaixão e temor.
Enciclopédia Luso-Brasileira de Cultura, Verbo.
A Tragédia Clássica em Frei Luís de Sousa
A Tragédia Clássica: estrutura e elementos
Almeida Garrett criou a acção de Frei Luís de Sousa à luz da
A tragédia clássica é o mais nobre dos géneros para os gregos e consta de cinco tragédia grega, concretizando os vários elementos trágicos numa acção
partes: o prólogo (1º acto), os episódios (2º, 3º, 4º actos) e o êxodo (5º acto); o repleta de ansiedade, de presságios na qual cada membro da família
protagonista é geralmente uma pessoa de estirpe elevada, justa e sem culpa protagonista vive o drama colectivo. Assim, D. Madalena cometeu um
que, apesar disso, percorre o caminho árduo da desdita, embora tenha crime de amor, ao amar Manuel de Sousa Coutinho enquanto casada
anteriormente conhecido a felicidade; existe uma personagem colectiva (Coro) com D. João de Portugal, desafiou a ordem existente que seria guardar
com a função de prever e comentar o desenrolar dos acontecimentos, fidelidade ao marido (Hybris); o conflito (Ágon) parte desta situação,
manifestando a voz do bom-senso perante a exaltação das personagens; o desenvolvendo-se com a mudança de cenário - incêndio do palácio de
assunto é geralmente de cariz político e social, ou relativo a uma situação Manuel e mudança da família para o de D. João de Portugal (Peripécia)
insólita; a linguagem da tragédia é em verso e respeita a lei das três unidades - e adensa-se com o regresso e reconhecimento do primeiro marido
(espaço, tempo e acção), não havendo mudança de cenário, ocupando a acção julgado morto, na figura de um Romeiro (Anagnórise), imprevisto que
o máximo de 24 horas e centrando-se num único problema. A tragédia clássica provoca o desfecho com a morte de várias personagens (Catástrofe). O
tem o fulcro da acção num conflito (Ágon) que leva as personagens a desenrolar dos acontecimentos dá-nos conta do sofrimento (Pathos),
interrogarem-se sobre a sua existência e o destino (Ananké), fazendo com que principalmente de Madalena com os seus profundos estados de
o indivíduo lance um desafio (Hybris) às autoridades, aos deuses, às leis da melancolia e terror, alimentados pelos presságios de Telmo (Coro) que
Natureza ou à ordem. Como reacção, surge a punição, o castigo - a Némesis se intensificam através da fatalidade das datas, destruição do retrato
divina, que tem como consequência o sofrimento das personagens (Pathos). Os de Manuel de Sousa Coutinho e mudança de habitação (Clímax),
acontecimentos desenrolam-se segundo os actos das personagens; o conflito do conduzindo ao desenlace. O sofrimento age sobre os espectadores,
protagonista adensa-se e avoluma-se (Clímax) e, por vezes, os acontecimentos despertando neles os sentimentos de terror e piedade para os purificar
precipitam a acção no seu curso através de alterações (Peripécia) (Catarse).
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Tal como na tragédia clássica, o fatalismo é uma presença constante. PERSONAGENS


O Destino apresenta-se como a força que move os acontecimentos e o futuro D. Madalena de Vilhena
das personagens, tomando a obra na sua concepção essencialmente trágica - a
família de Manuel de Sousa Coutinho não se pode escapar à inflexibilidade do Desde o início da peça D. Madalena de Vilhena é uma
destino apesar da sua nobreza e integridade. personagem dominada por pressentimentos, temores e
terrores («Mas eu!... (...) o estado em que eu vivo... este
O Drama em Frei Luís de Sousa medo, estes contínuos terrores, que ainda me não
deixaram gozar uni só momento (...)) que a fazem viver
Almeida Garrett recorreu a muitos elementos da tragédia clássica, em permanente desassossego, pânico e infelicidade -
mas elaborou um drama romântico onde sobressaem os estados psicológicos Pathos - devido à dúvida quanto à existência do primeiro
das personagens; substituiu o verso pela prosa, utilizou uma linguagem marido, alimentada pela convicção de Telmo Pais nesse sentido. Tal
coloquial, fluente e próxima das realidades vividas pelas personagens e dos desassossego tem como base o facto de se sentir culpada por ter amado
seus estados de espírito, bem diferente de uma linguagem clássica; não se Manuel de Sousa Coutinho ainda durante o seu primeiro casamento -
preocupou com algumas regras, como a lei das três unidades (apenas cumpriu Hybris -(«Conto. Este amor - que hoje está santificado» até «mais deve
a unidade de acção); retirou a presença do Coro (embora Telmo possa ter a si do que ao esposo») e é agudizado pela dúvida que lhe atormenta o
afinidades com essa personagem, na medida em que comenta, faz juízos de espírito ( «Dúvida de fiel servidor» até «mas que tem atormentado o
valor perante as situações que vive/ assiste); foi buscar a matéria à realidade meu...»). É uma personagem completamente dominada pelo Destino e
do seu país, com um fundo histórico (batalha de Alcácer Quibir). pelo fatalismo e impotente contra ambos. Registem-se, como exemplos,
Segundo Victor Hugo, o drama é uma peça que retrata a vida real das a tentativa de salvar o retrato do marido, parecendo prever o que daí
personagens onde as regras podem ser alteradas. As personagens podem ser adviria («Ai, e o retrato de meu marido! ...Salvem-me aquele
dotadas de sentimentos vivos e profundos e o desfecho pode ser ou não retrato.»); e a constatação do dia de sexta-feira, dia em que o marido e
trágico, não sendo no entanto revestido da tensão que caracteriza a tragédia a filha a deixam sozinha, que é um dia repleto de lembranças de outros
clássica. acontecimentos «Logo hoje!... Este dia de hoje é o pior... se fosse
amanhã, se fosse passado hoje!...»; «Oh, Maria, Maria... também tu me
Como se pode verificar, a obra em estudo possibilita uma queres deixar! -também tu me desamparas... e hoje!»). A sua
classificação dupla, tal como está patente nas palavras de Almeida Garrett personalidade fraca, sensível e influenciável leva-a a não conseguir
com as quais concluímos: «Contento-me para a minha obra com o título resistir à realidade dos factos, quando D. João de Portugal regressa,
modesto de drama; só peço que a não julguem pelas leis que regem, ou devem fazendo-a tomar consciência da relação ilegítima que vive. Porém, D.
reger, essa composição de forma e índole nova; porque a minha, se na forma Madalena, por não querer admitir o testemunho físico, real do seu
desmerece da categoria, pela índole há-de ficar pertencendo sempre ao antigo pecado, ou por total ingenuidade, não reconhece imediatamente D.
género trágico.» João de Portugal disfarçado de Romeiro («Santa vida levastes, bom
in «Memória ao Conservatório Real» romeiro. / Sempre há parentes, amigos... / Haverá tão má gente... e
tão vil, que tal faça?»). O regresso de D. João de Portugal vem sendo
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anunciado ao longo de toda a peça pelos presságios de Telmo Pais e pelo pavor pelo pânico da esposa), parecendo livre nas suas resoluções, está,
de D. Madalena, daí não surpreender o espectador (Cf. exemplos do bloco contudo, a contribuir drasticamente para a fatalidade, o Fado que
referente a Telmo). D. Madalena renuncia posteriormente à vida mundana, sobre ele - o português, o marido, o pai -caiu juntamente com a sua
dando entrada num convento (morte psicológica) – Catástrofe. Esta heroína família). A par de tal dinamismo, Manuel revela-se ingénuo e pouco
vive muito para si, muito dentro dos seus problemas pessoais, não revela perspicaz no menosprezo para com as inquietações de sua esposa
outros interesses que não os relacionados com a sua felicidade e, por («Madalena! / Oh! querida mulher minha, parece que vou eu agora
extensão, a da sua família, transmitindo Garrett, deste modo, o ambiente embarcar num galeão para a Índia...Ora vamos;»), ao mesmo tempo
social do início do século XVII. que esta sua atitude toma um cariz irónico para o espectador ( «E o
presente, esse é meu, meu só, todo meu (..)), uma vez que Manuel de
Manuel de Sousa Coutinho Sousa Coutinho não se apercebe que, de facto, o seu presente, a sua
vida inclui necessariamente D. Madalena e, à vida desta, está inerente
O mesmo destino que sua esposa - morte psicológica - tomou a presença de D. João de Portugal: Manuel de Sousa Coutinho mostrou-
Manuel de Sousa Coutinho - Catástrofe -, não devido à fraqueza se determinado em separar o passado do presente, mas foi
de carácter, mas por constatar a ilegitimidade da sua presença irremediavelmente condenado por este («( ...) arrastei na "' minha
naquele casamento, naquela família («Fui eu o autor de tudo queda, que lancei nesse abismo de vergonha, (...)»). Manuel de Sousa
isto, o autor da minha desgraça e da sua desonra deles...»); ele Coutinho ao refugiar-se num convento, que lhe proporciona o
que sempre zelou pela integridade, mesmo sofrendo, não deixou isolamento necessário à escrita, encarna o mito romântico do escritor.
de tomar as decisões que lhe pareceram certas e adequadas a
determinada situação (incêndio do seu palácio e decisão de Telmo Pais
professar). Com a chegada do Romeiro / D. João de Portugal, que é o dono
daquela casa, o marido da sua mulher, Manuel de Sousa Coutinho -retirou-se Telmo Pais, o fiel servidor de seus amos, primeiramente
da vida («Para nós já não há senão estas mortalhas (tomando os hábitos de de D. João de Portugal, agora de Manuel de Sousa
cima da banca) e a sepultura de um claustro.»). Note-se a este propósito, e já Coutinho e família, é a personificação dos presságios,
anteriormente, o simbolismo do retrato queimado de Manuel de Sousa agouros que assolam aquela família, ao manter-se
Coutinho que vai implicar, por substituição / oposição, nos Actos II e III, a convicto, ao fim de vinte e um anos, da existência do seu
exclusividade da presença de D. João de Portugal, quer pela reprodução primeiro amo («Madalena (assustada) - Está bom: não
pictórica, quer pelo seu renascimento como Romeiro. Manuel de Sousa entremos com os teus agouros e profecias do costume: são
Coutinho menospreza os receios de sua esposa quanto a mudarem-se para o sempre de aterrar... Deixemo-nos de futuros...»; «E és tu o que andas
palácio de D. João, apelidando-os de «vãs quimeras de crianças» e «caprichos» continuamente e quase por acinte, a sustentar essa quimera, a levantar
e não evidencia, ao longo da peça, qualquer temor ou constrangimento, no esse fantasma{ ...) esses contínuos agouros, em que andas sempre de
entanto, submete-se ao Destino; ele que mostrou ao longo da peça ser capaz uma desgraça que está iminente sobre a nossa família...»; carta
de desafiar (Hybris - incendeia o seu palácio para não dar alojamento aos deixada por D. João em cujas palavras assenta um dos pilares da
governadores) e de se impor (dá ordens, é activo), não se deixa influenciar credulidade de Teimo). Teimo culpa Madalena pelo seu segundo
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casamento («Oh minha senhora, minha senhora! mas essa coisa em que vos nunca to disse, mas sabia-o;»; «É a voz de meu pai! Meu pai que
apartastes dos meus conselhos...»), embora esta tivesse dedicado sete anos a chegou. / Pois oiço eu muito claro.») e que a sua fraca saúde agudiza
buscas infrutíferas. Ama Maria apesar de ser o resultado de uma ligação que esse sofrimento – Pathos - «Que febre que ela tem hoje, meu Deus!
ele considerou adúltera («(...) ao princípio era uma criança que eu não podia» queimam-lhe as mãos... e aquelas rosetas nas faces...»; «Naquele corpo
até «que lhe quero mais do que seu pai.») e é leal a Manuel de Sousa Coutinho tão franzino» até «todo manchado de sangue.»). Maria reforça o
a quem respeita e venera («Manuel de Sousa... o senhor Manuel de Sousa sebastianismo de Teimo pelo seu entendimento profético, fazendo com
Coutinho é guapo cavalheiro, honrado fidalgo, bom português...» / «A minha que o passado esteja sempre presente; é adulta nas suas preocupações
vida que ele queira é sua. E a minha pena, toda a minha pena é que o não relativas às injustiças sociais («Coitado do povo!» até «amparo aos
conheci, que o não estimei sempre no que ele valia.»). Telmo Pais é a necessitados.») e pela cultura «Menina e moça me levaram da casa de
personagem que condensa em si próprio o passado {ligação a D. João de meus pais"» até «entendo-o eu.»). Maria é a prova clara e concreta da
Portugal), o presente {fidelidade à família de D. Madalena) e o futuro situação ilegítima de seus pais; a prova do crime por eles cometido e,
{antevisão dos acontecimentos que se vieram a concretizar). Note-se ainda que como tal, não sobrevive -por um lado por ver a decisão de renúncia ao
Teimo é já idoso, tal como velho está o ciclo de felicidade de D. Madalena e mundo tomada por ambos, que adora, não conseguindo resistir ao seu
Manuel de Sousa Coutinho, uma vez que irá terminar em breve. Teimo é sofrimento («Esperai: aqui não morre ninguém sem mim.( ...) Que Deus
também, por deformação, servil, amigo e inimigo, comprovando a sua é esse que está nesse altar, e quer roubar o pai e a mãe a sua filha?
verdadeira personalidade com o regresso do antigo amo. Telmo equipara-se, (...) Mate-me, mate-me, se quer, mas deixem-me este pai, esta mãe,
ainda, ao coro das tragédias na medida em que comenta, ajuíza («( ...) tenho que são meus.»); por outro lado, por perceber precocemente o pecado
cá uma coisa que me diz que antes de muito se há-de ver quem é que quer da sua existência (morte física) -Catástrofe - («Essa filha é filha do
mais à nossa menina nesta casa.»; «Terá...» - põe em dúvida a morte de D. crime e do pecado!..." Não sou; dize, meu pai, não sou... dize a essa
João) e vaticina («Às palavras, às formais palavras daquela carta escrita na gente toda, dize que não sou.»; «Minha mãe, meu pai, cobri-me bem
própria madrugada do dia da batalha, e entregue a Frei Jorge, que vo-la estas faces, que morro de vergonha... (esconde o rosto no seio da mãe)
trouxe. - «vivo ou morto» - rezava ela - «vivo ou morto...» Não me esqueceu morro, morro... de vergonha... (Cai e fica morta no chão. Manuel de
uma letra daquelas palavras: e eu sei que homem era meu amo para as Sousa e Madalena prostram-se ao pé do cadáver da filha.»). Maria é a
escrever em vão: «vivo ou morto, Madalena, hei-de ver-vos pelo menos ainda mulher-anjo bom, é o modelo de mulher romântica.
uma vez neste mundo.», «Mas não se ia sem aparecer também ao seu aio
velho.». D. João de Portugal

Maria de Noronha D. João de Portugal é a personagem sempre presente ao


longo da peça, apesar de primar pela ausência. Toma
Outra vítima é Maria - débil fisicamente, desde cedo se prevê que diversas formas, como as de personagem apenas referida,
o seu desenvolvimento precoce, a nível psicológico, a faz sofrer pertencendo a um espaço e tempo representados (amo de
(«E eu agora é que faço de forte e assisada» até «sobre a minha Telmo Pais, primeiro marido de D. Madalena, suposta morte
mãe também, que é o mesmo.»; «Mãe, mãe, eu bem o sabia... em Alcácer Quibir; personagem simbólica, onírica, sempre
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presente nos agouros de D. Madalena («Parece-me que é voltar ao poder dele» decisão de sair de casa), aparecendo quando a acção dramática sofre
até «que nos vai separar para sempre...»), ligada ao sebastianismo, às alterações, por exemplo, quando o Romeiro chega. Revela-se prudente
suspeitas de Maria e esperanças de Telmo «(...) aquele do meio bem sabes se o e reflectido, tranquilizando D. Madalena, ansiosa pelo regresso de
conhecerei» até «rei D. Sebastião.»; / «Mas o outro, o outro...» até «nem Lisboa de Manuel de Sousa Coutinho; fazendo-lhe companhia na fatídica
outro amor nesta vida...») e personagem «equívoco» / «disfarce», responsável sexta-feira para que Maria possa acompanhar o pai a Lisboa e visitar o
pela - Peripécia e Anagnórise / Reconhecimento, num espaço e tempo da Convento do Sacramento. Como sacerdote pode ser confidente de D.
representação e como motor e desfecho do conflito dramático: a morte de Madalena e depois de Manuel de Sousa Coutinho, seu irmão. Pressente o
Maria, Manuel de Sousa e D. Madalena (os dois últimos como morte desenlace trágico, tal como se nota no seu monólogo do Acto II, que
psicológica). Apesar de D. João de Portugal ter determinado esta Catástrofe, funciona como prenúncio da tragédia: «A todos parece que o coração
fê-lo inconscientemente em consequência de pretender reaver a sua posição lhe adivinha desgraça... E eu quase que também já se me pega o mal.
na sua casa e na sua família; nota-se o seu elevado carácter moral pela Deus seja connosco!».
renúncia ao seu lugar, uma vez constatados os inúmeros esforços
empreendidos por sua esposa, a quem agora não quer punir, transferindo tal ACÇÃO, ESPAÇO E TEMPO
sofrimento para si próprio («Agora é preciso remediar o mal feito. Fui
imprudente, fui injusto, fui duro e cruel. (...) dize-Ihe que falaste com o Todas as personagens se movimentam num determinado
romeiro, que o examinaste, que o convenceste de falso e de impostor... dize o espaço e tempo.
que quiseres, mas salva-a a ela da vergonha ( ...»); «Vai, vai; vê se ainda é A acção gira em torno dos estados emocionais das
tempo: salva-os, salva-os, que ainda podes...»). personagens, dos conflitos e receios - polarizando-os D. Madalena - e é
A figura de D. João de Portugal funciona como um invisível centro de condicionada pela presença marcante do Destino. Sendo assim, verifica-
circunferência, provocando a violência psicológica das restantes personagens. se a existência de unidade de acção, na medida em que esta se cinge a
Apenas revela a sua identidade no Acto III (que fora minimizada até à um único problema/assunto, não havendo dispersão para outras acções
revelação «Ninguém»), não sendo anteriormente atribuída à personagem periféricas/secundárias. Deste modo, enquanto a acção decorre no
qualquer importância -apenas um intruso -como se prova no facto de nenhuma palácio de Manuel de Sousa Coutinho (Acto I), D. Madalena vive em
outra se lhe referir, empregando o seu nome «Jorge - aquele / esse homem / o desassossego; com o incêndio dá-se fim a uma felicidade duvidosa: a
romeiro.»; «Manuel - Onde está ele... / esse homem.»). D. João pode ser mudança para o palácio de D. João de Portugal (Actos II e III) leva-a ao
considerado o fantasma do passado e concentra em si o fulcro da obra, pânico, ao desespero, suplicando e implorando ao marido que mude de
podendo tal ser visto como a condenação de um povo que tem de enfrentar ideias e é, na verdade, no palácio de D. João de Portugal que este
permanentemente esse fantasma, o qual acaba por destruí-lo. regressa, dando-se o Clímax da acção - D. João voltou à sua casa, à sua
mulher e encontra outro no seu lugar.
Frei Jorge Verificamos existir, quer no espaço (Palácio de Manuel de
Sousa Coutinho - moderno, luxuoso, airoso; Palácio de D. João – antigo,
Frei Jorge é a figura mediadora, apaziguadora (recomenda abandonado, escuro; e capela), quer no tempo (Acto I - fim de tarde e
prudência a Manuel de Sousa Coutinho quando este comunica a noite; Acto II - tarde de um outro dia; Acto III - noite do mesmo dia) um
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estreitamento, um afunilamento, pois o tempo vai-se condensando e o espaço Neste excerto de "Memória ao Conservatório Real" Garrett
vai diminuindo, determinando o desenlace, sem permitir qualquer apresenta a sua obra: "O que eu escrevi em prosa, pudera escrevê-lo
possibilidade de alteração. Para tal inevitabilidade contribui também a em verso; - e o nosso verso solto está provado que é dócil e ingénuo
superstição grave do dia de sexta-feira que corresponde, por um lado, ao dia bastante para dar todos os efeitos de arte sem quebrar na natureza.
em que se dá o desenlace após a chegada do Romeiro no vigésimo primeiro Mas sempre havia de parecer mais artifício do que a índole especial do
aniversário da Batalha de Alcácer Quibir e da morte/desaparecimento de D. assunto podia sofrer. E di-lo-ei porque é verdade – repugnava-me
Sebastião (04/08/1478), por outro, ao aniversário do dia do primeiro também pôr na boca do Frei Luís de Sousa outro ritmo que não fosse o
casamento de D. Madalena e, ainda, ao dia em que esta viu e amou Manuel de da elegante prosa portuguesa que ele, mais do que ninguém, deduziu
Sousa Coutinho pela primeira vez. Note-se igualmente que a referida chegada com tanta harmonia e suavidade."
do Romeiro se verifica uma semana após a transferência da família do palácio Garrett procurou a elegância, a simplicidade, a naturalidade e usou as
de Manuel de Sousa Coutinho para o de D. João de Portugal, pelo que não foi potencialidades da língua ao serviço dos efeitos que pretendia com a
respeitada a lei das três unidades, nomeadamente quanto ao tempo (que não sua obra:
devia ultrapassar as vinte e quatro horas) e ao espaço (a desenrolar num único
lugar). 1 – vocabulário de uso corrente, acessível a qualquer público;
O contexto da acção situa-se na época pós-batalha de Alcácer Quibir,
a partir da qual nasceu o mito do Sebastianismo (presente e vivo em Telmo e 2 – algumas palavras e construções antigas, contribuindo para a
Maria), o qual vai durar durante muitos anos e que representa a crença, a verosimilhança da fala das personagens: ingano, inrijar, ilha incuberta,
convicção de todos aqueles que esperavam restituir a prosperidade a Portugal infado, intendia, incostem-nos; quitaram-te; tão bom linhagem
e libertar o país do domínio castelhano. Com a morte/desaparecimento de D. (masculino); tamanhinha; O teu coração e as tuas mãos estão puras.
Sebastião, com a perda de bons militares na batalha e o dispêndio de elevadas (concordância no feminino); faredes; ua; apanhar das flores; e foi
quantias para resgatar os sobreviventes, cativos, o país ficou vulnerável. quem acabou com os outros (quem persuadiu os outros, acabando com a
Muitos portugueses acreditavam então no regresso do rei, o que se transformou sua relutância); bem estreado; donzela dolorida; vivirá;
numa esperança de restituir ao país a sua ordem antiga, visto entretanto
Portugal ter sido submetido à influência e ao domínio de Espanha (Filipes). 3 – substantivos abstractos, adequados à revelação de sentimentos, de
emoções, de valores: paz, alegria d'alma, engano, fortuna, medo,
terrores, desgraça, gravidade, viveza, espírito, conselhos, ascendente,
LINGUAGEM E ESTILO DA OBRA confiança, respeito, amor, carinho, formosura, bondade, devoção,
lealdade, etc.;
Um aspecto também importante a ser considerado é o da linguagem em
que a peça veio à luz: solene, bem ao gosto clássico, até para não desmerecer 4 – diálogos vivos, em interacção verbal constante:
aquele que dá título à obra e que foi um prosador exemplar; o verso soaria • falas curtas;
falso, pelo menos aqui.

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• palavras soltas: Isso agora...; Também.; Às vezes. ; Melhor quê?; Era.; 7 – repetições: Calai-vos, calai-vos, pelas dores de Jesus Cristo,
O último.; Emendá-lo.; Tontinha!; Menina!; Sabia.; Tenho.; Porquê?; homem.; Não posso, não posso ver...; Vêem, vêem?; Que fazes? que
Madalena!; Levaram.; Cativo?...; fizeste?; Meu Deus, meu Deus!...; Parti! parti!;
• períodos constituídos por sequências de monossílabos: Pois sim...; Se 8 – pontuação expressiva, reveladora dos sentimentos e do pensamento
sou!; O quê? Sim.; O meu?; O que é?; Qual?... a que foi?...; Já, sim.; Ai, das personagens: constantes pontos de exclamação, de interrogação e
meu pai!; Sim!; Eu não.; A mim!; Sim, mas...; O quê?; Pois vós?; Eu reticências;
sei!; Por vós?; Ele foi?; E eu vou.;
• períodos construídos com frases curtas; 9 – monólogos de pequena extensão, mantendo o leitor (espectador)
• frases exclamativas e interrogativas; preso ao pensar da personagem (acto I, cenas 1 e 9; acto III, cena 4);
• interrupções no diálogo, traduzindo a naturalidade das intervenções:
(...) isto de a palavra de Deus estar assim numa língua que a gente... 10 – cenas de curta duração.
que toda a gente não intende... confesso-vos que aquele mercador
(...); Não lhe dizer...;
• frases de interrupção da fala da outra personagem, revelando o SÍMBOLOS MAIS EVIDENTES NA OBRA
pensamento, com naturalidade, espontaneamente: És muito amigo
dela, Telmo?; Filha da minha alma!; Isso agora...; E a ninguém mais Vários elementos estão carregados de simbologia, muitas vezes a
ficou resto de dúvida... / Senão a mim.; Jesus, homem!; Não, não, pressagiar o desenrolar da acção e a desgraça das personagens. Apenas
tenho!; como referência, podemos encontrar algumas situações e dados
simbólicos:
5 – diálogos entrecortados de jogos de ideias, de subentendidos: Que já lá vai,
que era outro tempo.; Terá?...; (...) digna de melhor... de melhor...; Bem mo 1 - A leitura dos versos de Camões referem-se ao trágico fim dos
dizia o coração!; Oxalá!; Já não tenho família.; hão-de jurar que me não amores de D. Inês de Castro que, como D. Madalena, também vivia
conhecem.; Não há ofensa verdadeira senão as que se fazem a Deus. Pedi-lhe uma felicidade aparente quando a desgraça se abateu.
vós perdão a ele, que vos não faltará de quê. Não, irmão, não, decerto. E Ele
terá compaixão de mim. Terá...; (...) um honrado homem... a quem 2 - Por outro lado, o facto de Garrett ter colocado Madalena a ler Os
unicamente devi a liberdade... a ninguém mais.; Como se me visse a mim Lusíadas propicia a segunda fala de Telmo (cena II), que considera este
mesmo num espelho.; Ninguém!; livro «como não há outro, tirante o respeito devido ao da palavra de
Deus», que não conhece por não saber latim como o seu «senhor». Tal
6 – despojamento da linguagem figurativa, conferindo naturalidade às falas das dito, aparentemente um lapso do domínio do subconsciente, foi o
personagens: quase só uma ou outra metáfora (um anjo como aquele...; o meu suficiente para que Telmo, como que censurado pelo seu consciente,
anjo do céu; a flor da nossa gente; feiticeira), uma ou outra gradação (viúva, corrigisse: «...quero dizer, como o Sr. Manuel de Sousa Coutinho». Esta
órfã e sem ninguém; na formosura, no engenho, nos dotes admiráveis daquele correcção evidencia o conflito existente entre ambas as personagens,
anjo); já que o que Telmo pretende é justamente lembrar a Madalena que o
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seu senhor continua a ser D. João de Portugal, em cuja morte não acredita, fim de um ciclo periódico. Para além disso, é uma porta aberta do
como podemos verificar no decurso da mesma cena. conhecido para o desconhecido: um ciclo encerrou-se, como será o
seguinte? Sete, ao lado do três, é o mais importante dos números
3 - O tempo dos principais momentos da acção sugere o dia aziago: sexta- sagrados na tradição das culturas orientais; sete são os dias da
feira, fim da tarde e noite (Acto I), sexta-feira, tarde (Acto II), sexta-feira, semana, os pecados capitais, o tempo da criação do mundo.
alta noite (Acto lll); o tempo da acção concentra-se em uma semana, de uma O número 3 tem uma grande importância simbólica de união e
sexta-feira, do final de tarde às nove horas da noite, no acto I, até à outra equilíbrio, aparecendo na Santíssima Trindade, nos três poderes
sexta-feira, durante o dia até ao final da tarde, no acto III e na madrugada de (jurídico, executivo, legislativo), etc., sendo recorrente sua
sábado e está impregnado de um valor simbólico que suplanta seu aspecto presença na literatura e nas artes. O três também é usado como
puramente cronológico. Sexta-feira, o dia da paixão de Cristo; sexta-feira é pedido de socorro. Para pedir socorro no deserto ou em alguma
um dia muito representativo na vida de Madalena, marcado por uma série de outra região, basta fazer três fogueiras, porque três é um código
coincidências: no mesmo dia do mês e da semana, casa-se com D. João, mundial. Este é o número da criação e representa o círculo
conhece Manuel de Sousa e acontece a funesta batalha. Também é numa perfeito. Exprime o percurso da vida: nascimento, crescimento e
sexta-feira que Manuel deita fogo em seu palácio e, por fim, o primeiro marido morte. O número 21 corresponde a 3x7, ou seja, ao nascimento de
regressa, na pele de um Romeiro e destrói uma família. A apreensão de uma nova realidade (7 anos foi o ciclo da busca de notícias sobre D.
Madalena com a data fatídica se traduz no diálogo com Frei Jorge, quando diz: João de Portugal e o descanso após tanta procura); 14 anos foi o
“Hoje... hoje! Pois hoje é o dia da minha vida que mais tenho receado... que tempo de vida com Manuel de Sousa (2x7, o crescimento de uma
ainda temo que não acabe sem muito grande desgraça... É um dia fatal para dupla felicidade: como esposa de Manuel e como mãe de Maria); 21
mim: faz hoje anos que... que casei a primeira vez, faz anos que se perdeu el- anos completa a tríade de 7 apresentando-se como a morte, como o
rei D. Sebastião, e faz anos também que... vi pela primeira vez a Manuel de encerrar do círculo dos 3 ciclos periódicos O número 7 aparece, por
Sousa.” vezes, a significar destino, fatalidade (imagem do completar
obrigatório do ciclo da vida), enquanto o 3 indica perfeição; o 21
4 - A numerologia parece também ter sido escolhida intencionalmente: significa, então, a fatalidade perfeita.

a) números 3 e 7 - Madalena casou 7 anos depois de D. João haver b) número 13 - Maria vive apenas 13 anos. Na crença popular o 13
desaparecido na batalha de Alcácer-Quibir; há 14 anos que vive com indica azar. Embora como número ímpar deva apresentar uma
Manuel de Sousa Coutinho; a desgraça, com o aparecimento do Romeiro, conotação positiva, em numerologia é gerado pelo 1+3=4, um
sucede 21 anos depois da batalha (21=3x7). 0 número 7 é um número número par, de influências negativas, que representa limites
primo que se liga ao ciclo lunar (cada fase da Lua dura cerca de sete dias) naturais. Maria vê limitados os seus momentos de vida.
e ao ciclo vital (as células humanas renovam-se de sete em sete anos),
representa o descanso no fim da criação e pode-se encontrar em muitas
representações da vida, do universo, do homem ou da religião; O número
Informações recolhidas do manual de análise da obra “Frei Luís de Sousa” da autoria de
7 é o símbolo da totalidade perfeita, do anúncio de uma mudança, indica o
Dulce Pereira Teixeira e Lurdes Aguiar Trilho, Texto Editores, 1996
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