Estudos sobre o Livro de Êxodo
Estudos sobre o Livro de Êxodo
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C. H. MACKINTOSH
ESTUDOS
SOBRE
O LIVRO DE
ÊXODO
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2A EDIÇÃO
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PREFÁCIO DO AUTOR
À TERCEIRA EDIÇÃO EM INGLÊS
NÃO posso deixar sair do prelo outra edição desta obra sem dizer uma
ou duas palavras de gratidão ao Senhor pela Sua graça em usar um instrumento
tão fraco na divulgação da verdade e edificação do Seu povo. Bendito seja o Seu
nome, pois pode servir-Se de um livro ou de um simples tratado para realização
dos Seus propósitos: reveste de poder espiritual páginas e parágrafos que nos
poderiam parecer confusos esem interesse. Que Ele continue a abençoar esta obra
para glória do Seu nome, é o nosso desejo.
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Os editores.
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— CAPÍTULO 1 —
A REDENÇÃO
Os Caminhos de Deus para com Israel
Pela graça de Deus, vamos agora encetar o estudo do Livro do Ê xodo,
cujo assunto principal é a REDENÇÃ O. Os primeiros cinco versículos
relembram as cenas finais do livro precedente. Os obje-tivos favorecidos do
amor de Deus sã o postos perante nó s, e depressa nos vemos conduzidos pelo
autor inspirado à açã o do livro.
No nosso estudo sobre o Livro do Génesis, vimos que o que levou os
irmã os de José a descerem ao Egito foi o seu procedimento para com ele. Este
fato deve ser considerado sob dois aspectos distintos. Em primeiro lugar
podemos ver nele uma liçã o solene com o procedimento de Israel para com
Deus; e em segundo lugar, temos nele uma liçã o cheia de estímulo no
desenrolar dos planos de Deus a favor de Israel.
E, no tocante ao procedimento de Israel para com Deus, poderá haver
coisa mais solene do que seguir até ao fim os resultados da maldade que
cometeram contra aquele em quem a mente espiritual discerne um símbolo
admirá vel do Senhor Jesus Cristo? Totalmente indiferentes à angú stia da sua
alma, os filhos de Jacó entregaram José nas mã os dos incircuncisos, e qual foi o
resultado1? Desceram ao Egito para aí passarem por aquelas profundas e
dolorosas experiências de coraçã o tã o grá fica e comovedoramente descritas
nos capítulos finais do Génesis. E isto nã o foi tudo: uma época longa de
provaçã o estava reservada aos seus descendentes, no pró prio país onde José
encontrara um cá rcere.
Porém, Deus intervinha em tudo isto, assim como o homem, e
dispunha-Se a usar das Suas prerrogativas, que consiste em fazer com que do
mal saia bem. Os irmã os de José puderam vendê-lo aos ismaelitas; os
ismaelitas, por sua vez, venderam-no a Potif ar; e este lançou-o na prisã o, mas
o Senhor estava, acima de tudo, cumprindo os Seus poderosos desígnios. A
có lera do homem redundará em Seu louvor (Sl 76:10). Ainda nã o tinha
chegado a altura em que os herdeiros estariam preparados para a herança,
nem a herança estava preparada para os herdeiros. Os fornos de tijolo iriam
constituir uma escola severa para os descendentes de Abraã o; enquanto que
nos montes e vales da terra prometida (Dt 11:11) se acumulava a iniquidade
dos amorreus.
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Como Deus Cumpre seus Desígnios
Tudo isto é profundamente interessante e instrutivo. Há rodas que
giram dentro de outras rodas no mecanismo do governo de Deus (Ez 1:16). O
Senhor serve-Se duma variedade infinda de agentes para realizar os Seus
propó sitos inexcrutá veis. A mulher de Potifar, o copeiro do rei, os sonhos do
Faraó , o cá rcere, o trono, as cadeias, o sinete real, a fome—tudo está ao Seu
soberano dispor, e tudo serve de instrumento no desenrolar dos Seus
prodigiosos desígnios. A mente espiritual deleita-se em meditar nestas coisas
ao percorrer o vasto domínio da criaçã o e da providência e ao reconhecer, em
tudo, o mecanismo que o Deus Onisciente e Onipotente utiliza para executar
os Seus propó sitos de amorredentor.
É verdade que podemos ver muitos sinais da serpente, pegadas bem
definidas do inimigo de Deus e do homem; coisas que nã o podemos explicar
nem compreender; a inocência que sofre e a maldade que prospera podem dar
certa aparência de verdade ao raciocínio dos incrédulos e cépticos; porém o
verdadeiro crente descansa na certeza de que "O Juiz de toda a terra" fará
justiça (Gn 18:25).
Bendito seja Deus pela consolaçã o e encorajamento que nos dã o estas
reflexõ es! Precisamos delas a cada instante, ao atravessarmos este mundo de
pecado, onde o inimigo tem feito mal aterrador, no qual os vícios e paixõ es dos
homens produzem frutos tã o amargos e onde o caminho do verdadeiro
discípulo apresenta escabrosidades tais que a simples natureza jamais
poderia suportar. A fé sabe, de certeza, que existe Alguém atrá s dos bastidores
a Quem o mundo nã o vê nem respeita, e, sabendo-o, pode dizer com
serenidade: "tudo vai bem".
Estes pensamentos sã o-nos sugeridos pelas palavras no começo deste
livro. "O meu conselho será firme, e farei toda a minha vontade" (Is 46:10), diz
o Senhor.
O inimigo pode opor-se; mas Deus há -de estar sempre acima dele; e
tudo que precisamos é de um espírito simples e pueril de confiança e descanso
nos propó sitos divinos. A incredulidade prefere olhar para os esforços que o
inimigo faz para neutralizar os planos de Deus, sem ter em conta o poder de
Deus para lhes dar cumprimento. E para este poder que a fé volve os olhos, e
assim obtém vitó ria e goza de paz constante. E com Deus que a fé tem que ver
e a Sua infalível fidelidade. Nã o se apoia sobre as areias movediças das coisas
humanas e das influências terrenas, mas sim na rocha inabalá vel da eterna
Palavra de Deus. E esta a base só lida e santa da fé. Venha o que vier,
permanece nesse santuá rio de força.
"Sendo, pois, José falecido, e todos os seus irmã os, e toda aquela
geraçã o." E depois? A morte poderia porventura prej udicar os desígnios do
Deus vivoi Certamente que nã o. Deus aguardava apenas o momento
destinado, o momento oportuno, e entã o as influências mais hostis serviram
de instrumento no desenrolar dos Seus planos.
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Um Rei que não conhecia a Deus
"Depois, levantou-se um novo rei sobre o Egito, que nã o conhecera a
José, o qual disse ao seu povo: Eis que o povo dos filhos de Israel é muito e
mais poderoso do que nó s. Eia, usemos sabiamente para com ele, para que nã o
se multiplique, e aconteça que, vindo guerra, ele também se ajunte com os
nossos inimigos, e peleje contra nó s, e suba da terra" (versículos 8-10). Vemos
aqui o raciocínio de um coraçã o que nunca aprendera a contar com Deus nos
seus cá lculos. O coraçã o nã o-regenerado nunca o pode fazer, e por isso,
quando Deus se revela, todos os seus argumentos caem por terra. Fora de
Deus, ou independentemente d'Ele, podem parecer muito prudentes, mas logo
que Deus aparece em cena, vê-se que sã o perfeita loucura.
Mas porque havemos nó s de permitir que as nossas mentes sejam, de
qualquer modo, influenciadas por argumentos e cá lculos que dependem, para
a sua verdade aparente, da exclusã o total de Deus? Fazê-lo é, em princípio, e
de acordo com a sua extensã o, praticamente, ateísmo. No caso de Faraó
verificamos que ele podia julgar corretamente as vá rias eventualidades dos
negó cios do seu reino: a multiplicaçã o do povo, as possibilidades de guerra e
de os israelitas fazerem causa comum com o inimigo e abandonarem o país.
Ele podia pesar todas estas circunstâ ncias na balança com invulgar
sagacidade; mas nunca lhe ocorreu que Deus pudesse ter alguma coisa a ver
com o assunto. Este simples pensamento, se alguma vez tivesse ocorrido a
Faraó , bastaria para lançar a confusã o em todos os seus planos classificando-
os como loucura.
Ora é conveniente refletirmos que sucede sempre assim com o
raciocínio da mente céptica do homem. Deus é inteiramente excluído; sim, a
sua pretendida verdade e solidez dependem dessa exclusã o. O aparecimento
de Deus em cena dá o golpe mortal em todo o cepticismo e infidelidade. Até ao
momento em que o Senhor aparece, podem pavonear-se no palco com
maravilhosa demonstraçã o de sabedoria e destreza; porém, assim que o olhar
distingue o mais fraco vislumbre do bendito Senhor, sã o despojados do manto
da sua ostentaçã o e revelados em toda a sua nudez e deformidade.
Com referência ao rei do Egito, pode dizer-se, com segurança, que
errou grandemente, nã o conhecendo a Deus nem os Seus desígnios imutá veis.
Faraó ignorava que, muitos séculos antes, ainda ele estava longe de respirar o
fô lego desta vida mortal, a palavra e o juramento de Deus—"duas coisas
imutá veis"—haviam assegurado infalivelmente a libertaçã o completa e
gloriosa daquele mesmo povo que ele, na sua sabedoria, propunha esmagar.
Tudo isto ele desconhecia; e, portanto, todos os seus pensamentos e todos os
seus planos baseavam-se sobre a ignorâ ncia dessa grande verdade,
fundamento de todas as verdades, que DEUS, É . Imaginava, loucamente, que,
com a sua sabedoria e poder, poderia impedir o crescimento daqueles acerca
dos quais Deus havia dito: "serã o como as estrelas dos céus e como a areia que
está na praia do mar" (Gn 22:17).
Portanto, o seu procedimento nã o passava de loucura e insensatez.
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O pior erro que alguém pode cometer é agir sem contar com Deus.
Mais cedo ou mais tarde o pensamento de Deus impor-se-á ao seu espírito e
entã o dá -se a destruiçã o terrível de todos os seus planos e cá lculos. Quando
muito, tudo quanto é empreendido sem contar com Deus só pode durar o
tempo presente. Mas nã o pode de modo algum alongar-se para a eternidade.
Tudo quanto é apenas humano, por muito só lido, brilhante e atraente que
possa ser, está destinado a cair nas garras da morte e a abolorecer no silêncio
do tú mulo. A leiva do vale há -de cobrir as maiores honras e as gló rias mais
brilhantes do homem (Jó 21:33); a mortalidade está esculpida na sua fronte, e
todos os seus projetos sã o evanescentes.
Pelo contrá rio, tudo aquilo que está ligado e fundado em Deus
permanecerá para sempre. "O seu nome permanecerá eternamente; o seu
nome se irá propagando de pais a filhos" (SI 72:17).
As Parteiras Hebréias
Os versículos finais deste capítulo oferecem-nos uma liçã o edificante
com a conduta dessas mulheres tementes a Deus, Sifrá e Puá. Arrostando com
a ira do rei nã o executaram o seu plano cruel e porissoDeus lhes
fezcasas."...aos que me honram, honrarei" (1 Sm 2:30). Recordemos sempre
esta liçã o e atuemos de acordo com ela.
— CAPÍTULO 2 —
O NASCIMENTO DE MOISÉS
O Fracasso de Satanás
Esta parte do Livro do Ê xodo abunda em princípios profundos de
verdade divina—princípios que podemos subdividir da seguinte forma: o
poder de Sataná s, o poder de Deus e o poder da fé.
No ú ltimo versículo do primeiro capítulo lemos: "Entã o, ordenou
Faraó a todo o seu povo, dizendo: A todos os filhos que nascerem lançareis no
rio". Este era o poder de Sataná s. O rio era o lugar da morte; e, por meio da
morte, o inimigo procurou frustrar os propó sitos de Deus. Tem sido sempre
assim. A serpente sempre tem vigiado com olhar maligno os instrumentos que
Deus está prestes a usar para realizar os Seus desígnios. Vejamos o caso de
Abel, em Génesis, capítulo 4. A serpente nã o estava espreitando aquele vaso de
Deus para o pô r de parte por meio da morte? Vejamos o caso de José, em
Génesis, capítulo 37. Aí o inimigo procura pô r o homem escolhido por Deus
num lugar de morte. Vejamos o caso da "semente real", em 2 Crô nicas,
capítulo 22; a matança promovida por Herodes, em Mateus 2; e a morte de
Cristo, em Mateus 27. Em todos estes casos vemos o inimigo procurando, com
a morte, interromper a corrente de atuaçã o divina.
Mas, bendito seja Deus, há qualquer coisa depois da morte. Toda a
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esfera de açã o divina, pelo que respeita à redençã o, está para além dos limites
do domínio da morte. Quando o poder de Sataná s se esgota é que o de Deus
começa a mostrar-se. A sepultura é o limite da atividade de Sataná s; mas é aí
que começa também a atividade divina. Isto é uma verdade gloriosa. Sataná s
tem o poder da morte; porém, Deus é o Deus dos vivos e dá a vida que está
fora do alcance e poder da morte—uma vida na qual Sataná s nã o pode tocar. O
coraçã o encontra doce refrigério nesta verdade, num mundo onde reina a
morte. A fé pode contemplar calmamente Sataná s empregando a plenitude do
seu poder; ela pode apoiar-se sobre a potente intervençã o de Deus na
ressurreiçã o. Pode postar-se junto da sepultura que acabou de fechar-se sobre
um ente amado e beber dos lá bios d'Aquele que é "a ressurreiçã o e a vida" a
elevada garantia de uma imortalidade gloriosa. Ela sabe que Deus é mais forte
que Sataná s e pode portanto esperar, serenamente, a manifestaçã o desse
poder superior, e enquanto assim espera encontra a sua vitó ria e a sua paz.
Temos um nobre exemplo deste poder da fé nos primeiros versículos do
capítulo que estamos considerando.
Os Pais de Moisés
"E f oi-se um varã o da casa de Levi e casou com uma filha de Levi. E a
mulher concebeu, e teve um filho, e, vendo que ele era formoso, escondeu-o
três meses. Nã o podendo, porém, mais escondê-lo, tomou uma arca de juncos
e a betumou com betume e pez; e, pondo nela o menino, a pô s nos juncos à
borda do rio. E a irmã do menino postou-se de longe, para saber o que lhe
havia de acontecer" (versículos la4).
Aqui temos uma cena de tocante interesse, qualquer que seja o ponto
de vista por que a encaramos. Na realidade, era simplesmente o triunfo da fé
sobre as influências da natureza e da morte, deixando lugar para que o Deus
da ressurreiçã o agisse na Sua esfera e no cará ter que Lhe é pró prio. É certo
que o poder do inimigo está patente, visto a criança ter de ser colocada em tal
posiçã o — em princípio, uma posiçã o de morte. E, além disso, era como se
uma espada atravessasse o coraçã o da mã e ao ver o seu filho precioso exposto
à morte. Sataná s podia agir e a natureza podia chorar; contudo, o Vivificador
dos mortos estava detrá s daquela nuvem sombria e a fé via-O ali iluminando o
cume dessa nuvem com os Seus raios brilhantes e vivificadores. "Pela fé,
Moisés, já nascido, foi escondido três meses por seus pais, porque viram que
era um menino formoso; e nã o temeram o mandamento do rei" (Hb 11:23).
A Arca de Junco
Assim, esta digna filha de Leviensina-nos uma santa liçã o. A sua arca
de juncos betumada com betume epez proclama a confiança que ela tinha na
verdade que havia qualquer coisa que, como no caso de Noé, "pregoeiro da
justiça", podia defender aquele "menino formoso" das á guas da morte.
Devemos nó s supor que esta "arca" fosse apenas uma invençã o humanai Foi
inventada por previsã o e habilidade do homem'?- Foi a criança colocada na
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arca por inspiraçã o do coraçã o da mã e, que alimentava a doce mas ilusó ria
esperança de salvar, por esse meio, o seu ente querido da morte 1? Se a nossa
resposta a estas interrogaçõ es fosse afirmativa perderíamos, quanto a mim, o
ensino precioso de todo o assunto. Como admitir a suposiçã o que a "arca"
fosse inventada por quem nã o via outro destino para o seu filho senã o
afogando-o? Nã o há outra maneira de encarar essa significante estrutura
senã o como um saque da fé apresentado na tesouraria do Deus da
ressurreiçã o. Aquela arca foi inventada pela fé, como vaso de misericó rdia,
para conduzir o "menino formoso" através das á guas da morte ao lugar que
lhe era designado pelos propó sitos imutá veis do Deus vivo. Quando con-
templamos esta filha de Levi curvada sobre aquela "arca" de juncos, que a sua
fé havia construído, despedindo-se do seu filho, concluímos que ela segue as
mesmas pisadas que seu pai Abraã o deu quando se levantou de diante do seu
morto para comprar a cova de Macpela aos filhos de Hete (Gênesis, capítulo
23). Nã o vemos nela apenas a energia da natureza que se debruça sobre o
objeto das suas afeiçõ es prestes a cair nas garras do rei dos terrores. Nã o, mas
reconhecemos nela a energia da fé que a habilitou a postar-se, como
vencedora, junto da margem do caudal frio da morte, observando o vaso
escolhido de Jeová até que passe em segurança para a outra margem.
Sim, prezado leitor, a fé pode voar ousadamente a essas regiõ es que
estã o muito afastadas deste mundo de morte e vasta desolaçã o; e com o seu
olhar de á guia atravessar essas nuvens que se acumulam sobre a sepultura e
ver como o Deus da ressurreiçã o cumpre os Seus desígnios eternos numa
esfera onde os dardos da morte nã o podem jamais chegar. Ela pode postar-se
sobre a Rocha dos Séculos e esperar em atitude de triunfo enquanto as vagas
da morte bramam e se desfazem a seus pés.
Deixai-me perguntar: que valor tinha o mandamento do rei para
alguém que possuía este princípio celestiais
Que importâ ncia tinha esse mandamento para uma mulher que podia
permanecer calmamente ao lado da sua "arca de juncos" e encarar
impavidamente a morteS O Espírito Santo responde: "nã o temeram o
mandamento do rei" (Hb 11:26). O espírito que sabe um pouco o que é ter
comunhã o com Aquele que ressuscita os mortos nada receia e pode fazer coro
triunfante com 1 Coríntios 15: "Onde está , ó morte, o teu aguilhã oS Onde está ,
ó inferno, a tua vitoriai Ora, o aguilhã o da morte é o pecado, e a força do
pecado é a lei. Mas graças a Deus, que nos dá a vitó ria por nosso Senhor Jesus
Cristo". Pode pronunciar estas palavras de triunfo sobre Abel martirizado,
sobre José no fundo da cova, sobre Moisés na arca de j uncos, sobre "a
semente real" exterminada por mã o de Atá lia e sobre os inocentes de Belém,
assassinados por ordem do cruel Herodes; e, acima de tudo, no tú mulo do
Capitã o da nossa salvaçã o.
Contudo, é possível que alguns nã o possam distinguir a obra da fé na
arca de juncos. Alguns talvez nã o possam ultrapassar a compreensã o da irmã
de Moisés, a qual se "postou de longe, para saber o que lhe havia de
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acontecer". É que a "sua irmã " nã o estava à altura da mã e pelo que respeitava
à fé. Sem dú vida, havia nela esse profundo interesse, essa verdadeira afeiçã o,
que vemos em "Maria Madalena e a outra Maria, assentadas defronte do
sepulcro" (Mt 27:61). Porém, naquela que fez a arca de juncos havia alguma
coisa muito superior ao interesse ou afeto. E certo que a mã e do menino nã o
se postou de longe para ver o que havia de acontecer ao seu filho; e, por isso, à
semelhança do que acontece frequentemente, a dignidade da fé poderia
parecer, no seu caso, indiferença. Porém, nã o era indiferença, mas, sim,
verdadeiro engrandecimento da fé. Se o afeto natural nã o a obrigava a ficar
junto daquele ambiente de morte era apenas porque o poder da fé lhe havia
confiado uma obra mais nobre na presença do Deus da ressurreiçã o. A fé dela
havia aberto lugar para Deus naquele ambiente, e Ele manifesta-Se logo duma
maneira gloriosa.
A Filha de Faraó
"E a filha de Faraó desceu a lavar-se no rio, e as suas donzelas
passeavam pela borda do rio; e ela viu a arca no meio dos juncos e enviou a
sua criada, e a tomou. E, abrindo-a, viu o menino, e eis que o menino chorava;
e moveu-se de compaixã o dele e disse: Dos meninos dos hebreus é este"
(versículo 5-6). Aqui, pois, começa a soar a resposta divina em doce murmú rio
aos ouvidos da fé. Deus intervinha em tudo isto. O racionalismo, o cepticismo,
a infidelidade, e o ateísmo, podem rir-se desta ideia. E a fé também; mas sã o
risos diferentes. Os primeiros riem com desprezo da ideia da intervençã o
divina num banal passeio duma princesa real pela margem do rio. A segunda
ri de cordial contentamento ao pensar que Deus está em tudo. E, de fato, se
alguma vez Deus interveio em qualquer coisa foi neste passeio da filha do
Faraó , embora ela o nã o soubesse.
Uma das mais ditosas ocupaçõ es da alma regenerada é seguir as
pegadas divinas em circunstâ ncias e acontecimentos que a mente irrefletida
atribui ao acaso ou à fatalidade. Por vezes a coisa mais banal pode ser um
importantíssimo elo numa cadeia de acontecimentos de que Deus Se está
servindo para levar avante os Seus grandiosos desígnios. Vejamos, por
exemplo, Ester 6:1; que encon-tramos? Um monarca pagã o que passa uma
noite inquieta. Nada há de extraordiná rio nisso, podemos supor; e no entanto,
esta circunstâ ncia constitui um elo numa grande cadeia de acontecimentos
providenciais, ao fim da qual surge a maravilhosa libertaçã o dos descendentes
oprimidos de Israel.
Assim sucedeu com a filha do Faraó e o seu passeio pela margem do
rio. Mas ela nã o pensava que estava ajudando os intentos do "Senhor Deus dos
hebreus"! Mal ela sabia que o bebé que chorava na arca de juncos viria ainda a
ser o instrumento do Senhor para abalar a terra do Egito até aos seus
alicerces! E contudo era assim. O Senhor pode fazer com que a có lera do
homem redunde em Seu louvor (SI 76:10) e restringir o restante dessa có lera.
Como a verdade deste fato transparece claramente nas palavras que se
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seguem!
"Entã o, disse sua irmã à filha de Faraó : Irei eu a chamar uma ama das
hebréias, que crie este menino para tií- E a filha de Faraó disse-lhe: Vai. E foi-
se a moça e chamou a mã e do menino. Entã o, lhe disse a filha de Faraó : Leva
este menino e cria-mo; eu te darei teu salá rio. E a mulher tomou o menino e
criou-o. E, sendo o menino já grande, ela o trouxe à filha de Faraó , a qual o
adoptou; e chamou o seu nome Moisés e disse: Porque das á guas o tenho
tirado" versículos (7a 10).
A fé da mã e de Moisés encontra aqui a sua inteira recompensa;
Sataná s fica embaraçado e a sabedoria maravilhosa de Deus é revelada. Quem
poderia supor que aquele que havia dito à s parteiras das hebréias "se for filho,
matai-o", acrescentando, "a todos os filhos que nascerem lançareis no rio",
havia de ter na sua pró pria corte um desses pró prios filhos? O diabo foi
vencido com as suas pró prias armas, porque Faraó , de quem queria servir-se
para frustrar os propó sitos de Deus, foi usado por Deus para alimentar e
educar esse Moisés, que havia de ser o Seu instrumento para confundir o
poder de Sataná s. Providência notá vel! Maravilhosa sabedoria! Certamente,
"até isto procede do Senhor" (Is 28:29). Possamos nó s confiar n'Ele com mais
simplicidade, e entã o a nossa carreira será mais brilhante e o nosso
testemunho mais eficaz.
A Sua Educação
Meditando sobre a histó ria de Moisés é necessá rio considerar este
grande servo de Deus debaixo do ponto de vista duplo do seu cará ter pessoal e
o seu cará ter figurativo.
No cará ter pessoal de Moisés há muito, muitíssimo, que aprender.
Deus teve nã o só de o elevar como de o treinar, dum e doutro modo, durante o
longo espaço de oitenta anos: primeiro na casa da filha do Faraó e depois
"atrá s do deserto". À nossa fraca mentalidade oitenta anos parecem muito
tempo para a preparaçã o dum ministro de Deus. Mas os pensamentos de Deus
nã o sã o os nossos pensamentos. O Senhor sabia que eram necessá rios esses
dois períodos de quarenta anos para preparar o Seu vaso eleito. Quando Deus
educa alguém, fá -lo duma maneira digna de Si e do Seu Santo serviço. O seu
trabalho nã o o confia a noviços. O servo de Cristo tem muitas liçõ es que
aprender, deve passar por vá rios exercícios e padecer muitos conflitos em
segredo antes de estar realmente apto a agirem pú blico. A natureza humana
nã o gosta deste método — prefere evidenciar-se em pú blico a aprender em
particular. Gosta mais de ser contemplada e admirada pelos homens do que de
ser disciplinada pela mã o de Deus. Porém isto nã o serve. Nó s temos que seguir
o caminho traçado pelo Senhor.
A natureza pode precipitar-se no campo das operaçõ es, mas Deus nã o
a quer ali. É necessá rio que aquilo que é humano seja quebrantado, consumido
e posto de lado: o lugar que lhe compete é o da morte. Se a natureza teima em
entrar em atividade, Deus, na Sua fidelidade infalível e na Sua perfeita
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sabedoria, ordena as coisas de tal maneira que o resultado dessa atividade se
transforma em fracasso e confusã o. Ele sabe o que há -de fazer com a nossa
natureza, onde deve ser colocada e como guardá -la. Oh! que todos possamos
estarem mais íntima comunhã o com Deus no que diz respeito aos Seus
pensamentos quanto ao "eu" e tudo que com ele se relaciona. Assim cairemos
menos em erro, a nossa vida será mais fiel e moralmente elevada, o nosso
espírito estará tranquilo e o nosso serviço será , entã o, mais eficiente.
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Em contrapartida, se considerarmos Moisés pessoalmente, vemos que ele, à semelhança de outros,
cometeu erros e mostrou fraquezas: em algumas ocasiões andou depressa, noutras devagar. Tudo
isto é fácil de compreender e só contribui para engradecer a graça infinda e a paciência inexaurível
de Deus.
— CAPÍTULO 3 —
No Deserto
"E APASCENTAVA Moisés o rebanho de Jetro, seu sogro, sacerdote em
Midiã ; e levou o rebanho atrá s do deserto e veio ao monte de Deus, a Horebe"
(versículo 1). Aqui temos, pois, uma mudança admirá vel na vida de Moisés.
Lemos em Génesis, capítulo 46:34, que "todo o pastor de ovelhas é
abominaçã o para os egípcios" e no entanto, Moisés, que era "instruído em toda
a ciência dos egípcios", é transferido da corte do Egito para trá s do deserto
para apascentar um rebanho de ovelhas e preparar-se para o serviço de Deus.
Seguramente isto nã o "é o costume dos homens" (2 Sm 7:19) nem o curso
natural das coisas: é um caminho incompreensível para a carne e o sangue.
Nó s havíamos de pensar que a educaçã o de Moisés estava terminada logo que
se tornou mestre de toda a sabedoria do Egito, gozando ao mesmo tempo das
vantagens que oferece a este respeito a vida de uma corte. Poderíamos supor
que um homem tão privilegiado havia de ter nã o apenas uma instruçã o só lida
e extensa mas também uma distinçã o tal em suas açõ es que o tornariam apto
para cumprir toda a espécie de serviço. Porém, ver um tal homem, tã o bem d
otadoe instruído, ser chamado a abandonar a sua elevada posiçã o para ir
apascentar ovelhas atrá s do deserto, e qualquer coisa incompreensível para o
homem, qualquer coisa que humilha até ao pó o seu orgulho e a sua gló ria,
mostrando que as vantagens humanas sã o de pouco valor diante de Deus;
mais ainda, que sã o "como esterco", nã o somente aos olhos do Senhor, mas
aos olhos de todos aqueles que têm sido ensinados na Sua escola (Fp. 3:8).
Existe uma diferença enorme entre o ensino humano e o divino.
Aquele tem por fim cultivar e exaltar a natureza; este começa por a "secar" e a
pô r de lado. "Ora, o homem natural nã o compreende as coisas do Espírito de
Deus, porque lhe parecem loucura; e nã o pode entendê-las, porque elas se
discernem espiritualmente" (1 Co 2:14). Podeis esforçar-vos por educar o
homem natural tanto quanto puderdes, sem que jamais consigais fazer dele
um homem espiritual. "O que é nascido da carne é carne, e o que é nascido do
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Espírito é espírito" (Jo 3:6). Se alguma vez um "homem natural" educado pô de
esperar ter êxito no serviço de Deus, esse tal foi Moisés: ele era "instruído... e
poderoso em suas palavras e obras" (At 7:22); e todavia teve que aprender
alguma coisa "atrá s do deserto" que as escolas do Egito nunca lhe haviam
ensinado. Paulo aprendeu muito mais na Ará bia do que jamais havia
aprendido aos pés de Gamaliel (¹). Ninguém pode ensinar como Deus; e é
necessá rio que todos aqueles que querem aprender d'Ele estejam a só s com
Ele. Foi no deserto que Moisés aprendeu as liçõ es mais preciosas, mais profun-
das, mais poderosas e mais durá veis; e é ali que devem encontrar-se todos os
que queiram ser formados para o ministério.
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(1) O leitor não deve supor, nem por um momento, que pretendemos com estes
comentários depreciar o valor de uma instrução realmente proveitosa ou a cultura das faculdades
intelectuais. De modo nenhum. Se, por exemplo, o leitor é pai deve adornar a mente de seu filho com
conhecimentos úteis: deve ensinar-lhe tudo que poderá ser utilizado mais tarde no serviço do
Mestre: não deve embaraçá-lo com aquilo que ele terá de pôr de parte seguindo a carreira cristã,
nem deve conduzi-lo, com o fim de lhe dar uma educação brilhante, por uma região da qual é quase
impossível sair com uma inteligência imaculada. Seria tão lógico encerrá-lo numa mina de carvão
durante dez anos, com o fim de o pôr em condições de discutir as propriedades da luz e da sombra,
como fazê-lo caminhar sobre o lodaçal da mitologia pagã com o fim de o preparar para a
interpretação dos oráculos de Deus ou de o fazer capaz de pastorear o rebanho de Cristo.
A Sarça
"E apareceu-lhe o Anjo do SENHOR em uma, chama de fogo no meio de
uma sarça; e olhou, e eis que a sarça ardia no fogo, e a sarça nã o se consumia.
E Moisés disse: agora me virarei para lá e verei esta grande visã o, porque a
sarça se nã o queima" (versículos 2-3). Era ef etivamen-te uma grande visã o,
porque uma sarça ardia e nã o se consumia. A corte do Faraó nunca poderia
oferecer nada de semelhante. Porém, era uma visã o graciosa porque nela era
simbolizada de um modo notá vel a situaçã o dos eleitos de Deus. Eles encontra
vam-se no meio do forno do Egito; eoSenhorrevelava-senomeiode uma sarça
ardente. Porém, assim como a sarça se nã o consumia, tã o-pouco eram eles
consumidos, porque Deus estava com eles. "O SENHOR dos Exércitos está
conosco: o Deus de Jacó é o nosso refú gio" (SI 46:7). Aqui temos força e
segurança, vitó ria e paz. Deus conosco, Deus em nó s, e Deus por nó s. Isto é
provisã o abundante para todas as necessidades.
Nã o há nada mais interessante e mais instrutivo do que a maneira
como aprouve ao Senhor revelar-Se a Moisés na passagem que estamos
considerando. Ele ia confiar-lhe o encargo de tirar o Seu povo do Egito, para
25
que eles fossem a Sua Assembleia, para habitar no meio deles tanto no deserto
como na terra de Canaã ; e é do meio de uma sarça que lhe fala. Símbolo belo,
solene e pró prio do Senhor habitando no meio do Seu povo eleito e resgatado;
"O nosso Deus é um fogo consumidor" (Hb 12:29)-nã o para MOS consumir, mas
para consumir em nó s e à nossa volta tudo que é contra a Sua santidade, e que
é, portanto, um perigo para a nossa verdadeira e eterna felicidade. "Mui fiéis
sã o os teus testemunhos; a santidade convém à tua casa, SENHOR, para sempre"
(Salmo 93:5).
O Velho e o Novo Testamento encerram vá rios casos em que Deus Se
manifesta como "um fogo consumidor": como por exemplo o caso de Nadabe e
Abiú , em Levítico 10. Tratava-se de uma ocasiã o solene. Deus habitava no
meio do Seu povo, e queria manter este numa posiçã o digna de Si Pró prio. Nã o
podia ter feito outra coisa. Nã o seria para Sua gló ria nem para proveito dos
Seus se Ele tolerasse qualque: coisa, neles incompatível com a pureza da Sua
presença. O lugar de habitaçã o de Deus tem que ser santo.
Do mesmo modo, em Josué, capítulo 7, temos outra prova notá vel, no
caso de Acã , de que o Senhor nã o pode sancionar o mal com a Sua presença,
qualquer que seja a forma que o mal possa revestir ou por muito oculto que
possa estar. O Senhor é "um fogo consumidor", e, como tal, tinha de agir a
respeito de tudo que pudesse manchar a Assembleia no meio da qual habitava.
Procurar unir a presença de Deus com o pecado nã o julgado é o indício da
impiedade.
Ananias e Safira (Atos, 5) dã o-nos a mesma liçã o. Deus o Espírito
Santo habitava na Igreja, nã o somente como uma influência, mas, sim, como
uma pessoa divina, de tal maneira que ninguém podia mentir na Sua presença.
A Igreja era, e é ainda agora, morada de Deus; e é Ele Quem deve governar e
julgar no meio dela. Os homens podem reviver em uniã o a concupiscência, a
impostura e a hipocrisia; mas Deus nã o pode fazê-lo. Se quisermos que Deus
ande conosco, devemos julgar os nossos caminhos, ou entã o Ele os julgará por
nó s (veja 1 Co 11:29-32).
Em todos estes casos e em muitos mais que podíamos aduzir, vemos a
força destas palavras solenes, "a santidade convém à tua casa, SENHOR, para
sempre" (SI 93:5). Para aquele que a tiver compreendido, esta verdade
produzirá sempre sobre ele um efeito moral idêntico à quele que exerceu
sobre Moisés: "Nã o te chegues para cá ; tira os teus sapatos de teus pés;
porque o lugar em que tu estás é terra santa" (versículo 5). O lugar da presença
de Deus é santo, e só se pode caminhar por ele com os pés descalços. Deus,
habitando no meio do Seu povo, comunica à Assembleia desse povo um
cará ter de santidade que é a base de todo o santo afeto e de toda a santa
atividade. O cará ter da habitaçã o deriva do cará ter d'Aquele que a habita.
A aplicaçã o deste princípio à Igreja, que é agora a habitaçã o de Deus,
em Espírito, é da maior importâ ncia prá tica. Assim como é bem-
aventuradamente verdade que Deus habita, pelo Seu Espírito, em cada
membro da Igreja, dando deste modo um cará ter de santidade ao indivíduo, é
26
igualmente certo que Ele habita na Assembleia; e, por isso, a Assembleia deve
ser santa. O centro em volta do qual os membros se reú nem é nada menos do
que a Pessoa de um Cristo vivo, vitorioso e glorificado. O poder que os une é
nada menos do que o Espírito Santo; e o Senhor Deus Todo-Poderoso habita
neles e entre eles (vedeMt 18:20; 1 Co6:19; 3:16-17; Ef 2:21-22). Se tais sã o a
santidade e dignidade que pertencem à morada de Deus, é evidente que nada
impuro, quer seja em princípio, quer na prá tica, deve ser tolerado. Todos os
que estã o relacionados com esta habitaçã o deviam sentir a importâ ncia e
solenidade destas palavras, "o lugar em que tu está s é terra santa." "Se alguém
destruir o templo de Deus, Deus o destruirá " (1 Co 3:17). Estas palavras sã o
dignas de toda a aceitaçã o da parte de todos os membros da Assembleia—de
cada pedra viva no Seu santo templo! Possamos nó s todos aprender a pisar os
átrios do Senhor com os pés descalços!
— CAPÍTULO 4 —
A PREPARAÇÃO DO SERVO
As Objeções de Moisés e os Meios de Deus
De novo devemos deter-nos por uns momentos ao pé do monte
Horebe, "detrá s do deserto" (um lugar sadio para a mente espiritual) para
vermos manif estar-se de uma maneira extraordiná ria a incredulidade do
homem e a graça ilimitada de Deus.
"Entã o, respondeu Moisés e disse: Mas eis que me nã o crerã o, nem
ouvirã o a minha voz, porque dirã o: SENHOR nã o te apareceu" (versículo 1).
Como é difícil vencer a incredulidade do coração do homem, e quã o penoso é
para ele confiar em Deus! Como o ser humano é vagaroso em confiar em Deus!
Como é tardo em se aventurar em qualquer empresa confiando somente nas
promessas de Deus! Tudo é bom para a natureza, menos isto. A cana mais
fraca para os olhos humanos é considerada pela natureza como infinitamente
mais só lida, como base da sua confiança, do que a rocha invisível dos séculos
(Is 26:4). A natureza precipitar-se-á sem hesitaçã o para qualquer auxílio
humano ou cisterna rota, em vez de se alimentar da fonte das á guas vivas (Jr
2:13,17:13).
Nó s havíamos de pensar que Moisés tinha ouvido e visto o bastante
para pô r fim aos seus receios. O fogo consumidor na sarça que se nã o
consumia; a graça de Deus, com toda a sua condescendência; os títulos
preciosos de Deus; a missã o divina; a certeza da presença de Deus; todas estas
coisas deveriam terafugentado todo o pensamento de temor e comunicado ao
coraçã o uma segurança firme. Contudo, Moisés continua a fazer perguntas, a
que Deus continua a responder; e, como já frisá mos, cada nova pergunta põ e
em evidência nova graça. "E o SENHOR disse-lhe: Que é isso na tua mã o?E ele
disse: Umavara" (versículo2).
O Senhor estava disposto a aceitar Moisés tal qual ele era e a servir-se
do que ele tinha na mã o. A vara, com a qual ele havia conduzido as ovelhas de
seu sogro, ia ser usada para libertar o Israel de Deus, para castigar o Egito,
para abrir através do mar um caminho do povo remido do Senhor, e para fazer
brotar á gua da rocha a fim de refrescar as hostes sedentas de Israel no
deserto. Deus serve-se dos instrumentos mais fracos para realizar os Seus
planos mais gloriosos. "Uma vara"; um corno de carneiro (Js 6:5); "um pã o de
cevada" (Jz 7:13); "uma botija de á gua" (lRs 19:6); "uma funda de pastor" (1
Sm 17:50); tudo, em suma, pode servir nas mã os de Deus para cumprir a obra
que Ele tem projetado. Os homens imaginam que nã o se pode chegar a
34
grandes resultados senã o por grandes meios; porém nã o é assim o método de
Deus. Ele tanto pode servir-se de "um bicho" como do sol abrasador; de "uma
aboboreira" como de um vento calmoso (veja-se Jonas 4).
A Vara
Porém Moisés tinha de aprender uma liçã o muito importante, tanto a
respeito da vara como da mã o que devia usá -la. Ele tinha que aprender, e o
povo tinha de ser convencido. "E Ele disse: Lança-a na terra. Ele a lançou na
terra, e tornou-se em cobra; e Moisés fugia dela. Entã o disse o Senhor a
Moisés: Estende a tua mã o e pega-lhe pela cauda.(E estendeu a sua mã o e
pegou-lhe pela cauda, e tornou-se em vara na sua mã o). Para que creiam que
te apareceu o SENHOR; Deus de seus pais, o Deus de Abraã o, o Deus de Isaque e
o Deus de Jacó " (versículo 5). Trata-se de um sinal profundamente
significante. A vara tornou-se serpente e Moisés fugia dela assustado; mas,
segundo ordem do Senhor, pegou-lhe pela cauda e tornou-se numa vara. Nã o
há nada mais pró prio do que esta figura para expressar a ideia do poder de
Sataná s voltado contra si mesmo, e deste fato encontramos numerosos
exemplos nos meios que Deus usa; o pró prio Moisés foi um exemplo notá vel. A
serpente está inteiramente debaixo do poder de Cristo, e logo que chegar ao
fim da sua insensata carreira, será lançada no lago de fogo, para ali receber os
frutos da sua obra por toda a eternidade:"... a antiga serpente, "oacusador" e
adversá rio (Ap 12:9-10) será eternamente aterrado com a vara do ungido de
Deus.
A Mão Leprosa
"E disse-lhe mais o SENHOR: Mete agora a mã o no teu peito; E, tirando-
a, eis que a sua mã o estava leprosa, branca como a neve. E disse: Torna a
meter a tua mã o no teu peito. E tornou a meter a sua mã o no peito; depois
tirou-a do peito; e eis que se tornara como a sua outra carne" (versículos 6 a
7). A mã o leprosa e a sua purificaçã o representam o efeito moral do pecado e a
maneira como o pecado foi tirado pela obra perfeita de Cristo. Posta no peito,
a mã o limpa tornou-se leprosa; e a mã o leprosa, posta no peito, ficou limpa.
Alepra é uma figura bem conhecida do pecado; e assim como o pecado entrou
no mundo pelo primeiro homem do mesmo modo foi tirado pelo segundo.
"Porque, assim como a morte veio por um homem, também a ressurreiçã o dos
mortos veio por um homem" (ICo 15:21).
A degradaçã o veio por um homem, e pelo homem a redençã o; pelo
homem veio a ofensa e pelo homem o perdã o; pelo homem veio o pecado e
pelo homem a justiça; a morte veio ao mundo por um homem; por um homem,
a morte foi abolida, e a vida, a justiça e a gló ria foram introduzidas na terra.
Assim, a serpente será nã o só eternamente vencida e confundida, como todos
os vestígios da sua obra abominá vel serã o apagados e destruídos e destruídos
por meio do sacrifício expiató rio d Aquele que Se "manifestou para desfazer as
obras do diabo" (1 Jo 3:8).
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As Águas Tranformadas em Sangue
"E acontecerá que, se eles te nã o crerem, nem ouvirem a voz do
primeiro sinal, crerã o a voz do derradeiro sinal; e, se acontecer que ainda nã o
creiam a estes dois sinais, nem ouçam a tua voz, tomará s das á guas do rio e as
derramará s na terra seca; e as á guas, que tomará s do rio, tornar-se-ã o em
sangue sobre a terra seca" (versículos 8 a 9).
Esta é uma figura solene e mui expressiva da consequência de uma
recusa em submeter-se ao testemunho divino. Este sinal só devia ser
executado caso eles recusassem os outros dois. Em primeiro plano, se tratava
de um sinal para Israel, e depois de uma praga para o Egito.
A Falta de Eloquência
Com tudo isto o coraçã o de Moisés nã o se deu por satisfeito.
"Entã o, disse Moisés ao SENHOR.- Ah! Senhor! Eu nã o sou homem
eloquente, nem de ontem, nem de ante-ontem, nem ainda desde que tens
falado ao teu servo; porque sou pesado de boca e pesado de língua" (versículo
10). Que terrível lentidã o! Nada senã o a paciência infinita do Senhor poderia
suportá -la. Evidentemente, quando Deus lhe disse, "certamente eu serei
contigo" dava-lhe a garantia infalível de que nada lhe faltaria de tudo que
fosse necessá rio. Se fosse necessá rio uma língua eloquente, que devia Moisés
fazer senã o entregar o caso Aquele que lhe havia dito "EU SOU" 4 Eloquência,
sabedoria, poder, energia, estavam encerrados nesse tesouro inesgotá vel.
"E disse-lhe o SENHOR: Quem fezboca do homem"?- Ou quem fez o
mudo, ou o surdo, ou o que vê, ou o cego?- Nã o sou eu, o SENHOR ?-Vai, pois,
agora, e eu serei com a tua boca e te ensinarei o que há s de falar" (versículos
11 a 12). Graça profunda, adorá vel e incompará vel! Como é pró pria de Deus!
Nã o há ninguém que seja como o Senhor, nosso Deus, cuja graça paciente
supera todas as nossas dificuldades e é suficientemente abundante para todas
as nossas necessidades e fraquezas. "EU O SENHOR" deveria fazer cessar para
sempre todos os argumentos dos nossos coraçõ es carnais. Mas, ah! o
raciocínio é difícil de derribar, e levanta-se de novo perturbando a nossa paz e
desonrando Aquele bendito Senhor que Se apresenta à s nossas almas em toda
a plenitude da Sua graça, a fim de que sejamos cheios dela, segundo as nossas
necessidades.
É bom recordarmo-nos que, quando temos o Senhor conosco, as
nossas deficiências e fraquezas sã o uma ocasiã o para que Ele manifeste a Sua
graça e infinita paciência. Se Moisés tivesse recordado isto, a sua falta de
eloquência nã o o teria perturbado. O apó stolo Paulo aprendeu a dizer: "De boa
vontade, pois, me gloriarei nas minhas fraquezas, para que em mim habite o
poder de Cristo. Pelo que sinto prazer nas fraquezas, nas injú rias, nas
necessidades, nas perseguiçõ es, nas angú stias, por amor de Cristo. Porque,
quando estou fraco, entã o, sou forte" (2 Co 12:9-10). Esta é, sem dú vida, a
linguagem de um que chegou a um alto grau na escola de Cristo. É a
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experiência de um homem que nã o se havia afligido por nã o possuir
eloquência, por quantohavia encontrado, na graça preciosa do Senhor Jesus
Cristo, uma resposta a todas as suas necessidades, quaisquer que fossem.
O conhecimento desta verdade deveria ter livrado Moisés da sua
excessiva desconfiança e da timidez que o dominava. Depois de o Senhor, em
Sua misericó rdia, lhe haver assegurado que estaria com a sua boca, ele deveria
ficar tranquilo quanto à questã o da eloquência. Aquele que fez a boca do
homem podia, se houvesse necessidade disso, enchê-la da mais poderosa
eloquência. Para a fé, isto é bem simples; porém o pobre coraçã o incrédulo
confia infinitamente mais numa língua eloquente do que n'Aquele que a criou.
Este fato seria inexplicá vel se nã o conhecêssemos de que elementos se
compõ e o coraçã o natural. O coraçã o natural nã o pode confiar em Deus; e esta
é a causa do defeito humilhante de desconfiança no Deus vivo, que se
manifesta até mesmo entre os filhos de Deus, quando eles se deixarem
dominar, de algum modo, pela natureza humana. Por isso, no caso presente,
Moisés hesita ainda: "Ah, Senhor! Envia por mã o daquele a quem tu há s de
enviar" (versículo 13). Esta exclamaçã o equivalia, com efeito, recusar o
privilégio glorioso de ser o ú nico mensageiro do Senhor ao Egito e a Israel.
A Falsa Humildade
Todos nó s sabemos como a humildade que Deus promove é uma
graça inestimá vel. "Revesti-vos de humildade" éumpreceitodivinoje a
humildade é, inconstestavelmente, o adorno mais pró prio para um pecador.
Porém se recusarmos tomar o lugar que Deus nos designa ou seguir o
caminho que a Sua mã o nos traça, nã o somos humildes.
No caso de Moisés é evidente que nã o tinha verdadeira humildade,
visto que a irado Senhor se acendeu contra ele (versículo 14). Longe de ser
humildade, o seu sentimento havia ultrapassado os limites de simples
fraqueza. Enquanto se revestiu da aparência excessiva de timidez, embora
repreensível, a graça de Deus suportou-o e respon-deu-lhe com reiteradas
promessas; porém, logo que esse sentimento tomou cará ter de incredulidade
e lentidã o de coraçã o, a justa ira do Senhor acendeu-se contra Moisés; e em
lugar de ser ele o ú nico instrumento na obra de testemunho e libertaçã o de
Israel, teve de repartir com outro este honroso privilégio.
Nada há que sej a mais desonroso para Deus ou mais perigoso para
nó s do que uma humildade fingida. Quando, com o pretexto de nã o reunirmos
certas virtudes e condiçõ es, recusamos tomar o lugar que Deus nos dá , nã o
mostramos humildade, visto que se pudéssemos convencermo-nos de que
possuíamos essas virtudes e essas condiçõ es imaginaríamos que tínhamos
direito a esse lugar. Por exemplo, se Moisés possuísse uma medida de
eloquência como ele julgava necessá ria, temos motivos para crer que estaria
pronto a partir. Ora a questã o é de saber qual o grau de eloquência que ele
necessitava para poder cumprir a sua missã o, enquanto que a resposta é que
sem Deus nenhum grau de eloquência humana é suficiente; ao passo que com
37
Deus o mais simples gago pode ser um ministro eficiente.
Eis aqui uma grande verdade prá tica. A incredulidade nã o é
humildade, mas orgulho. Recusa crer em Deus porque nã o encontra no ego
uma razã o para crer. Este é o cú mulo da presunçã o. Se quando Deus fala me
recuso a acreditar, com base nalguma coisa quehá emmim, façode Deus
mentiroso (ljo5:10). Se quandoDeus declara o Seu amor, eu nã o me julgo
digno dele, faço de Deus mentiroso e manifesto o orgulho inerente de meu
coraçã o. O simples pensamento de que posso merecer outra coisa que nã o seja
o inferno, só pode ser considerado como a mais completa ignorâ ncia da minha
condiçã o perante Deus e do que Deus requer de mim. Enquanto que recusar o
lugar que o amor redentor de Deus me indica, com base na expiaçã o efetuada
por Cristo, é fazer de Deus mentiroso e aviltar o sacrifício de Cristo na cruz.
O amor de Deus é derramado espontaneamente; nã o é atraído pelos
meus méritos, mas, sim, pela minha necessidade. Tã o-Pouco se trata do lugar
que mereço, mas do lugar que Cristo merece. Cristo tomou o lugar do pecador
na cruz, para que o pecador pudesse tomar lugar com Ele na gló ria. Cristo
tomou o lugar que o pecador merecia, para que o pecador pudesse participar
daquilo que Cristo merece. Deste modo, o ego é completamente posto de
parte: esta é a verdadeira humildade. Ninguém pode ser verdadeiramente
humilde antes de ter chegado ao lado celestial da cruz; porém ali encontra
vida divina, justiça divinaeamisericó rdiadeDeus. Entã oacaba para sempre o
ego, quanto à s pretensõ es de justiça pró pria, e é-se nutrido com a abundâ ncia
de outrem. Entã o está -se preparado, moralmente, para tomar parte no brado
que há de ressoar através da abó bada incomensurá vel dos céus por todos os
séculos eternos, "Nã o a nó s, SENHOR, nã o a nó s, mas ao teu nome dá gló ria" (SI
115:1).
Certamente nos ficaria mal se nos detivéssemos sobre os erros e
fraquezas de um servo tã o honrado como foi Moisés, de quem está escrito que
foi "fiel em toda a sua casa, como servo, para testemunho das coisas que se
haviam de anunciar" (Hb 3:5). Porém, se nã o nos devemos deter sobre elas,
num espírito de pró pria satisfaçã o, como se em circunstâ ncias semelhantes
nó s pudéssemos proceder de uma maneira diferente, devemos, sem dú vida,
aprender as santas liçõ es que elas têm por fim ensinar-nos. Devemos
aprender a julgarmo-nos a nó s pró prios, e a pormos confiança implícita em
Deus—a pormos de lado o ego de modo que Deus possa atuar em nó s, por
nosso intermédio e por nó s. Este é o verdadeiro segredo do poder.
— CAPÍTULOS 5 e 6 —
ISRAEL OPRIMIDO
E OS RECURSOS DIVINOS
A Escravidão
O resultado da primeira visita a Faraó parece ter sido bem pouco
animador. O pensamento de perder os israelitas levou-o a tratá -los com maior
crueldade e a sujeitá -los a redobrada vigilâ ncia. Sempre que o poder de
Sataná s é restringido a um ponto o seu furor aumenta. Assim aconteceu neste
caso. A fornalha ia ser apagada pela mã o do amor libertador; porém, antes de
o ser, ela arde com mais intensidade e ferocidade. O diabo nã o gosta de soltar
nenhum daqueles que tem tido debaixo da sua garra terrível. Ele é "o valente",
e quando "guarda, armado, a sua casa, em segurança está tudo quanto tem"
(Lc 11:21). Porém, bendito seja Deus, há "outro mais valente do que ele", que
lhe tirou "a sua armadura em que confiava", e repartiu os seus despoj os pelos
objetos favorecidos do Seu amor eterno.
"E depois, foram Moisés e Aarã o e disseram a Faraó : Assim diz o
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SENHOR, Deus de Israel: Deixa ir o meu povo, para que me celebre uma festa no
deserto" (capítulo 5:1). Tal era a mensagem do Senhor a Faraó . Deus
reivindicava inteira libertaçã o para o povo, sob o fundamento de ser o Seu
povo e a fim de que pudessem celebrar-Lhe uma festa no deserto. Nada pode
jamais satisfazer Deus acerca dos Seus eleitos senã o a sua inteira libertaçã o do
jugo da servidã o. "Desligai-o e deixa-o ir", é, realmente, o grande lema dos
desígnios de Deus acerca daqueles que, embora retidos em servidã o por
Sataná s, sã o, todavia, os herdeiros da Sua vida eterna.
Quando contemplamos os filhos de Israel no meio dos fornos de tijolo
do Egito, temos perante nó s uma figura exata da condiçã o de todo o filho de
Adã o segundo a carne. Ei-los ali, esmagados sob o jugo mortífero do inimigo,
sem poder para se libertarem. A simples mençã o da palavra liberdade nã o fez
mais que aumentar o rigor do opressor para reforçar as cadeias dos seus
cativos e carregá -los com um fardo ainda mais opressivo. Era, pois,
absolutamente necessá rio que a salvaçã o viesse de fora. Mas de onde havia de
vir?- Onde estavam os recursos para pagar o seu resgate 1?- Ou onde estava a
força para quebrar as cadeias1? E, admitindo que ambas as coisas existiam,
onde estava a vontade para o conseguira Quem estaria disposto a libertá -los?-
Ah! Nã o havia esperança nem de dentro nem de fora. Apenas podiam olhar
para cima. O seu refú gio era Deus: Ele tinha tanto o poder como o querer; e
podia efetuar a redençã o por poder e por preço. No Senhor, e somente n'Ele
estava a salvaçã o do povo de Israel oprimido e arruinado.
É sempre assim em todos os casos. "E em nenhum outro há salvaçã o,
porque certo sim! debaixo do céu nenhum outro nome há , dado entre os
homens, pelo qual devamos ser salvos" (At 4:12). O pecador está debaixo do
poder daquele que o domina com um poder despó tico. Está "vendido sob o
pecado" (Rm 7:14); está preso à vontade do diabo (2 Tm 2:26) — preso com
as cadeias da concupiscência, da ira e da có lera, fraco (Rm 5:6), "sem
esperança e semDeus" (Ef 2:12). Tale a condiçã o do pecador.
Comopoderia,pois,libertar-se<? Que poderia fazer?- Sendo escravo de outrem
tudo que faz, f á -lo na qualidade de escravo. Os seus pensamentos, as suas
palavras, os seus atos sã o os pensamentos, as palavras e os atos de um
escravo. Sim, ainda mesmo quando chora e suspira por liberdade, as suas
pró prias lá grimas e suspiros sã o provas melancó licas da sua escravatura.
Pode lutar por liberdade; mas a sua pró pria luta, embora evidencie um desejo
de liberdade, é a declaraçã o positiva da sua escravatura.
A Velha Natureza
Tã o-pouco se trata de uma questã o áacondição do pecador: a sua
pró pria natureza está radicalmente corrompida—inteiramente debaixo do
poder de Sataná s. Por isso, nã o só necessita de ser introduzido numa nova
posiçã o, mas também de ser dotado de uma nova natureza. A natureza e a
condiçã o andam sempre unidas. Se fosse possível o pecador melhorar a sua
condiçã o, de que lhe serviria isso enquanto a sua natureza continuasse a ser
45
irremediavelmente má ? Um nobre poderia recolher e adoptar um mendigo e
outorgar-Ihe a fortuna e a posiçã o de nobre, mas nunca poderia transmitir-lhe
nobreza; e assima natureza do mendigo nunca poderia achar satisfaçã o
ocupando a posiçã o de um nobre. É necessá rio possuir-se uma natureza que
corresponda à posiçã o, e uma posiçã o que corresponda aos desejos, aos
afetos, e à s tendências dessa natureza.
Por isso, o evangelho da graça de Deus ensina-nos que o crente é
introduzido numa posiçã o inteiramente nova e que já nã o é considerado como
estando no seu anterior estado de culpa e condenaçã o, mais sim num estado
de eterna e perfeita justificaçã o. A condiçã o em que Deus o vê agora nã o é
apenas de pleno perdã o, mas um estado de perfeiçã o tal que a santidade
infinita nã o pode achar nele tanto como uma simples nó doa de pecado. Foi
tirado da sua condiçã o de culpa e colocado para sempre numa nova condiçã o
de justiça imaculada. Nã o é que, de modo nenhum, a sua antiga condiçã o haja
sido melhorada. Isto seria inteiramente impossível, "Aquilo que é torto nã o se
pode endireitar" (Ec 1:15). "Pode o etíope mudar a sua pele, ou o leopardo as
suas manchas1?-" (Jr 13:23). Nada há mais oposto à verdade fundamental do
evangelho que a teoria do melhoramento gradual da condiçã o do pecador. O
pecador é nascido numa má condiçã o, e enquanto nã o "nascer de novo" nã o
pode estar em qualquer outra. Poderá procurar melhorar-se. Pode tomar a
resoluçã o de ser melhor no futuro — de "voltar uma nova pá gina" da sua
existência —, de alterar o seu modo de vida; porém, com tudo isto nã o
consegue sair de sua condiçã o de pecador. Poderá fazer-se religioso, como se
ousa dizer, poderá tentar orar, poderá observar diligentemente as ordenaçõ es,
e revestir as aparências de uma reforma moral; contudo nenhuma destas
coisas poderá , no mínimo, alterar a sua posiçã o perante Deus.
A Nova Natureza
A questã o é semelhante à questã o da natureza. Como poderá o
homem alterar a sua natureza? Poderá submetê-la a uma série de operaçõ es,
poderá dominá -la e discipliná -la; porém continuará a ser natureza. "Aquele
que é nascido da carne é carne" (Jo 3:6). E necessá rio que haja uma nova
natureza, assim como uma nova disposiçã o. Mas como poderá o pecador
adquiri-las? - Crendo o testemunho que Deus de Seu Filho deu. "A todos
quantos o receberam deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus: aos que
crêem no seu nome" (Jo 1:12). Aqui aprendemos, que todos os que crêem no
nome do unigénito Filho de Deus, têm o direito ou o privilégio de serem feitos
filhos de Deus. Sã o feitos participantes de uma nova natureza e têm a vida
eterna. "Aquele que crê no Filho tem a vida eterna" (Jo 3:36). "Na verdade, na
verdade vos digo que, quem ouve a minha palavra e crê naquele que me
enviou tem a vida eterna, e nã o entrará em condenaçã o, mas passou da morte
para a vida" (Jo 5:24). "E a vida eterna é esta: que te conheçam a ti só por
ú nico Deus verdadeiro e a Jesus Cristo, a quem enviaste" (Jo 17:3). "E o
testemunho é este: que Deus nos deu a vida eterna; e esta vida está em seu
46
Filho. Quem tem o Filho tem a vida"(1 Jo5:11,12).
O Fundamento da Justificação
Tal é a doutrina das Sagradas Escrituras quanto à questã o importante
da condiçã o da natureza. Porém, como é que o crente é feito participante da
natureza divina?- Essa mudança admirá vel depende inteiramente da grande
verdade que "JESUS MORREU E RESSUSCITOU" (1 Ts 4:14). Este bendito
Senhor deixou o seio do amor eterno, o trono da gló ria, as mansõ es de luz
imarcescível, veio a este mundo de dores e pecado, tomou sobre Si a forma da
carne do pecado, e, depois de haver manifestado e glorificado perfeitamente
Deus em todos os atos da Sua vida bendita no mundo, morreu na cruz sob
peso de todas as transgressõ es do Seu povo. E deste modo satisfez tudo que
era ou podia ser contra nó s. Ele engradeceu e honrou a lei (Is 42:21); e,
fazendo-o, tornou-Se maldiçã o sendo pendurado no madeiro. Todos os
direitos divinos foram satisfeitos, todos os inimigos reduzidos ao silêncio e os
obstá culos foram todos derribados. "A misericó rdia e a verdade se
encontraram, a justiça e a paz se beijaram" (SL 85:10). A justiça divina foi
satisfeita, e o amor infinito pode derramar-se, com todas as virtudes
mitigantes e refrigerantes, no coraçã o quebrantado do pecador; enquanto que,
ao mesmo tempo, o caudal purificador e expiador, que brotou do lado ferido
do Cristo crucificado, satisfaz perfeitamente todos os desejos ardentes da
consciência culpada e convencida de pecado. O Senhor Jesus tomou o nosso
lugar na cruz: foi o nosso substituto. Ele morreu, "o justo pelos injustos" (IPe
3:18); foi feito "pecado por nó s" (2Co5:21); morreu em lugar do pecador; foi
sepultado e ressuscitou, havendo cumprido tudo. Por isso nada há
absolutamente contra o crente: ele está unido a Cristo e encontra-se na
mesma condiçã o de justiça "porque, qual eleé, somos nó s também neste
mundo" (1 Jo4:17).
Eis aqui o que dá paz inabalá vel à consciência. Seja nã o estamos numa
condiçã o de culpa, mas de justificaçã o; se Deus nos vê em Cristo e como a
Cristo, entã o a nossa parte é uma paz perfeita. "Sendo, pois, justificados pela
fé, temos paz com Deus por nosso Senhor Jesus Cristo" (Rm5:l).
O sangue do Cordeiro cancelou toda a culpa do crente, riscou o seu
grande débito e deu-lhe uma folha perfeitamente em branco, na presença
daquela santidade que nã o pode ver o mal (He 1:13).
Porém, o crente nã o só achou paz com Deus, como foi feito filho de
Deus; e como tal pode gozar a doçura da comunhã o com o Pai e o Filho, no
poder do Espírito Santo.
Moisés Desanimado
Contudo, a prova mais dolorosa para Moisés nã o foi motivada pelo
juízo que Faraó fez da sua missã o. O servo fiel e consagrado de Cristo deve
esperar sempre ser considerado pelos homens deste mundo como um simples
entusiasta visioná rio. O ponto de vista donde o contemplam é tal que nã o nos
permite esperar deles outra coisa. Quanto mais fiel for o servo ao seu Mestre
divino, quanto mais seguir as Suas pisadas, quanto mais conforme for à Sua
imagem, tanto mais, possivelmente, será considerado, pelos filhos deste
mundo, como um que "está fora de si". Portanto, este juízo nem deve
surpreendê-lo nem desanimá -lo. Porém é uma coisa infinitamente mais
penosa para ele quando o seu serviço e o seu testemunho sã o mal
interpretados, desprezados ou rejeitados por aqueles que sã o os pró prios
objetos deste serviço e testemunho. Quando isto acontece ele tem muita
necessidade de estar comDeus, no segredo dos Seus pensamentos, no poder
da comunhã o, para ter o seu espírito fortalecido na realidade imutá vel da sua
carreira e serviço. Em circunstâ ncias tã o difíceis, se nã o se está plenamente
persuadido da missã o divina, e consciente da presença divina, a queda será
quase certa.
Se Moisés nã o tivesse sido amparado assim, o seu coraçã o teria
fraquejado inteiramente quando o agravamento da opressã o do poder de
Faraó arrancou aos oficiais dos filhos de Israel palavras de desalento e
desâ nimo como estas: "O SENHOR atente sobre vó s e julgue isso, porquanto
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fizestes o nosso cheiro repelente diante de Faraó e diante de seus servos,
dando-lhes a espada nas mã os para nos matar" (versículo 21). Isto era muito
triste; e Moisés assim o sentiu, pois que "tornou ao SENHOR e disse: Senhor!
Por que fizeste mal a este povo£ Por que me enviaste? Por que desde que
entrei a Faraó para falar em teu nome, ele maltratou a este povo; e, de
nenhuma maneira livraste o teu povo" (versículos 22 a 23). No pró prio
momento em que a libertaçã o parecia estar perto, as coisas tomaram um
aspecto muito desanimador; assim como acontece com a natureza, em que a
hora mais escura da noite é com frequência aquela que precede
imediatamente o amanhecer. Assim será certamente nos ú ltimos dias da
histó ria de Israel: a hora da mais profunda obscuridade e da mais espantosa
angú stia, precederá a apariçã o repentina do "Sol da Justiça" (Mt 4:1:2),
emergindo detrá s das nuvens, e trazendo salvaçã o debaixo das suas asas para
curar eternamente a filha do Seu povo (Jr6:14; 8:11).
A Resposta do SENHOR
Pode muito bem perguntar-se até que ponto o "porquê " de Moisés foi
ditado por uma verdadeira fé ou uma vontade mortificada. Contudo, o Senhor
nã o repreende Moisés por esta objeçã o motivada pela grandeza da afliçã o do
momento. "Agora verá s o que hei de fazer a Faraó ; porque, por mã o poderosa,
os deixará ir, sim, por mã o poderosa os lançará de sua terra" (capítulo 6:1), foi
a Sua bondosa resposta.
Esta resposta está cheia de graça peculiar. Em vez de censurar a
insolência daquele que se atreve a duvidar dos caminhos inexcrutá veis do
grande EU SOU, o misericordioso Senhor procura aliviar o espírito cansado do
Seu servo mostrando-lhe o que em breve ia fazer. Esta maneira de agir é digna
de Deus, de quem desce toda a boa dá diva e todo o dom perfeito (Tg 1:5, 17),
"Pois ele conhece a nossa estrutura;lembra-se de que somos pó " (SI 103:14).
Nem tampouco é só em Seus atos, mas, sim, em Si Mesmo, em Seu
pró prio nome e cará ter, que Ele quer fazer conhecer ao coraçã o o seu alívio: é
nisso que está a bem-aventurança plena, divina, e eterna. Quando o coraçã o
pode encontrar em Deus o seu alívio, quando pode refugiar-se no lugar seguro
que lhe oferece o Seu nome, quando pode achar no Seu cará ter a resposta a
todas as suas necessidades, entã o está verdadeiramente muito acima da
regiã o da criatura —pode abandonar as promessas tentadoras do mundo é
considerar as pretensõ es altivas do homem pelo seu j usto valor. O coraçã o
dotado com o conhecimento prá tico de Deus nã o só pode olhar para o mundo
e dizer "tudo é vaidade", mas pode também poros seus olhos emDeus e dizer;
"todas as minhas fontes estã o em ti" (Sl 87:7).
O Nome do SENHOR
"Falou mais Deus a Moisés e disse: Eu sou o SENHOR. E eu apareci a
Abraã o, a Isaque, e a Jacó , como o Deus Todo-poderoso; mas pelo meu nome, o
SENHOR, nã o lhes fui perfeitamente conhecido. E também estabeleci o meu
51
concerto com eles, para dar-lhes a terra de Canaã, a terra de suas
peregrinaçõ es, na qual foram peregrinos. E também tenho ouvido o gemido
dos filhos de Israel, aos quais os egípcios escravizam, e me lembrei do meu
concerto" (versículos 2 a 5). "O SENHOR" é o título que Deus toma como
Libertador do Seu povo, em virtude da Sua aliança de pura e soberana graça.
Ele revela-se a Si como a grande Origem natural do amor redentor,
estabelecendo os Seus conselhos, cumprindo as Suas promessas, e libertando
o Seu povo eleito de todo o inimigo e de todo o mal. Era privilégio de Israel
permanecer para sempre sob a salvaguarda desse título significativo, o qual
nos revela Deus atuando para Sua pró pria gló ria, e levantando o Seu povo
oprimido a fim de mostrar nele essa gló ria.
"Portanto, dize aos filhos de Israel: Eu sou o SENHOR, e vos tirarei de
debaixo das cargas dos egípcios, vos livrarei da sua servidã o e vos resgatarei
com braço estendido e com juízos grandes. E eu vos tomarei por meu povo, e
serei vosso Deus; e sabereis que eu sou o SENHOR, VOSSO Deus, que vos tiro de
debaixo das cargas dos egípcios; e eu vos levarei à terra, acerca da qual
levantei minha mã o, que a daria a Abraã o, e a Isaque, e a Jacó , e vo-la darei por
herança, eu o SENHOR" (versículos 6 a 8). Tudo isto proclama a graça mais
pura, mais livre, mais rica. O Senhor apresenta-Se ao coraçã o do Seu povo
como Aquele que ia operar por eles, neles, e com eles para manifestaçã o da Sua
gló ria. Por muito desamparados e arruinados que estivessem, Ele havia
descido para fazer ver a Sua gló ria e manifestar a Sua graça e mostrar um
exemplo do Seu poder na sua plena salvaçã o. A sua gló ria e a salvaçã o do Seu
povo estavam inseparavelmente unidas. Mais tarde todas estas coisas haviam
de lhes ser recordadas, como lemos no Livro de Deuteronô mio, capítulo 7:7-8,
"O SENHOR nã o tomou prazer em vó s, nem vos escolheu, porque a vossa
multidã o era mais do que a de todos os outros povos, pois vó s éreis menos em
nú mero do que todos os povos: mas porque o SENHOR VOS amava; e, para
guardar o j uramen-to que jurara a vossos pais, o SENHOR vos tirou com mã o
forte e vos resgatou da casa da servidã o, da mã o de Faraó , rei do Egito".
Nada há mais pró prio para estabelecer e firmar o coraçã o tremente e
duvidoso do que o conhecimento de que Deus nos tomou tais quais somos, que
conhece perfeitamente o que somos; e que, além disso, nunca poderá
descobrir em nó s alguma coisa que possa alterar o cará ter e a medida do Seu
amor: "...como havia amado os Seus que estavam no mundo, amou-os até ao
fim" (Jo 13:1). Aquele que Ele ama, ama-o até ao fim. Esta verdade é motivo de
gozo inexplicá vel. Deus sabia tudo a nosso respeito—conhecia o pior que
havia em nó s, quando manifestou o Seu amor para conosco no dom de Seu
Filho. Sabia o que necessitá vamos, e fez ampla provisã o para tudo isso. Sabia
qual era o débito, e pagou-o. Sabia o que havia por fazer, e fez tudo. As Suas
pró prias exigências tinham de ser cumpridas, e cumpriu-as. É tudo obra Sua.
Por isso, vêmo-Lo dizer a Israel, Eu "...vos tirarei...", "vos livrarei", "vos tomarei
por meu povo", "vos levarei à terra..", "Eu sou o Senhor". Isto era o que Ele
queria fazer com base naquilo que Ele era. Enquanto esta grande verdade nã o
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for inteiramente compreendida e nã o for recebida pela alma no poder do
Espírito Santo, nã o pode haver uma paz só lida. Nã o se pode ter o coraçã o feliz
nem a consciência tranquila antes de se saber e crer que todos os direitos
divinos já foram divinamente satisfeitos.
— CAPÍTULOS 7 a 11 —
Os Dez Juízos
Toda a terra do Egito tremeu debaixo dos golpes sucessivos da vara
de Deus. Todos, desde o monarca sentado no seu trono à criada moendo no
moinho, tiveram de sentir o peso terrível dessa vara. "Enviou Moisés, seu
servo, e Arã o, a quem escolhera. Fizeram entre eles os seus sinais e prodígios,
na terra de Cam. Mandou às trevas que a escurecessem; e elas nã o foram
rebeldes à sua palavra. Converteu as suas á guas em sangue, e assim fez morrer
os peixes. A sua terra produziu rã s em abundâ ncia, até nas câ maras dos seus
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reis. Falou ele, e vieram enxames de moscas e piolhos em todo o seu territó rio.
Converteu as suas chuvas em saraiva e fogo abrasador, na sua terra. Feriu as
suas vinhas e os seus f igueirais e quebrou as á rvores dos seus termos. Falou
ele, e vieram gafanhotos e pulgã o em quantidade inumerá vel, e comeram toda
a erva da sua terra e devoraram o fruto dos seus campos. Feriu também a
todos os primogénitos da sua terra, as primícias de todas as suas forças" (SI
105:26 -36).
Aqui, o Salmista dá -nos uma ideia resumida desses terríveis castigos
que por dureza do seu coraçã o Faraó trouxe sobre a sua terra e o seu povo.
Este soberbo monarca havia empreendido a tarefa de resistir à vontade
soberana e ao caminho do Deus Altíssimo; e, como consequência justa desta
atitude, foi entregue à cegueira judicial e dureza de coraçã o. "Porém o SENHOR
endureceu o coraçã o de Faraó , e nã o os ouviu, como o SENHOR, tinha dito a
Moisés. Entã o, disse o SENHOR a Moisés: Levanta-te, pela manhã cedo, e põ e-te
diante de Faraó , e dize-lhe: Assim diz o SENHOR, oDeus dos hebreus: Deixa ir o
meu povo, para que me sirva. Porque esta vez enviarei todas as minhas pragas
sobre o teu coraçã o, e sobre os teus servos, e sobre o teu povo, para que saibas
que nã o há outro como eu, em toda a terra. Porque agora tenho estendido a
mã o para te ferir a ti e ao teu povo com pestilência e para que sejas destruído
da terra; mas deveras para isto te mantive, para mostrar o meu poder em ti e
para que o meu nome seja anunciado em toda a terra" (capítulo 9:12-16).
Janes e Jambres
Vamos considerar agora, em segundo lugar, a oposiçã o de "Janes e
Jambres", magos do Egito. Nunca teríamos conhecido os nomes desses dois
inimigos da verdade se o Espírito Santo os nã o houvesse mencionado em
ligaçã o com os "tempos perigosos" dos quais o apó stolo Paulo avisa seu filho
Timó teo. É da má xima importâ ncia que o leitor crente compreenda
claramente o verdadeiro cará ter da resistência que esses dois encantadores
opuseram a Moisés, e para que ele faça uma ideia completa do assunto,
citaremos toda a passagemda epístola de Paulo aTimó teo, passagemaliá s
profundamente importante e solene.
57
A Aparência de Piedade
Contudo, os magos do Egito só puderam imitar os servos do Deus vivo
em três coisas, a saber: tornaram as suas varas em serpentes (capítulo
7:12);transformaramaá gua em sangue (capítulo 7:22), e fizeram subir as rã s
sobre a terra (capítulo 8:7); porém, quanto ao quarto sinal, que implicava a
exibiçã o da vida, em ligaçã o com a manifestaçã o da humilhaçã o da natureza,
viram-se inteiramente confundidos e tiveram de reconhecer "isto é o dedo de
Deus" (capítulos 8:16 a 19). Assim sucede também com os que resistem nos
ú ltimos dias. Tudo quanto fazem é segundo o poder direto de Sataná s e dentro
dos limites do seu poder. Além disso, o seu fim específico é resistirem à
verdade.
As três coisas que Janes e Jambres puderam executar foram
caracterizadas por poder satâ nico, morte e impureza; quer dizer, as serpentes,
o sangue e as rã s. Foi assim que "resistiram a Moisés" e, "assim também estes
resistem à verdade", e impedem a sua açã o moral sobre a consciência. Nada há
que tanto contribua para enfraquecer o poder da verdade como ver pessoas
que nã o se encontram sob a sua influência fazerem as mesmas coisas que
aqueles que estã o debaixo dela fazem. Assim opera Sataná s no momento atual.
Ele procura fazer com que todos os homens sejam considerados como
cristã os; quer fazer-nos crer que estamos rodeados de "um mundo cristã o",
porém esse pretenso mundo cristã o nã o passa de uma cristandade professa, a
qual, longe de dar testemunho da verdade é aqui destinada, segundo os
propô s itos do inimigo da verdade, para se opor à influência purificadora da
verdade.
Em resumo, o servo de Cristo, testemunha da verdade, está rodeado,
de todos os lados, pelo espírito de "Janes e Jambres"; e é conveniente que
recorde este fato, que conheça inteiramente o mal com que tem que lutar e
não esqueça que se trata da imitaçã o que o diabo faz da realidade de Deus,
produzida, nã o pela vara de um mago declaradamente mau, mas, sim
mediante os atos de falsos religiosos, que têm "aparência de piedade", mas
negam a eficá cia dela"; pessoas que fazem coisas aparentemente boas e justas,
mas que nã o têm a vida de Cristo em suas almas, nem o amor de Deus em seus
coraçõ es, nem tampouco o poder da Palavra de Deus em suas consciências.
"Nã o irã o porém avante", acrescenta o apó stolo, "porque a todos será
manifesto o seu desvario, como também o foi o daqueles". Com efeito a
insensatez de Janes e Jambres foi manifesta a todos, quando nã o somente se
viram impotentes para continuar a imitar os atos de Moisés e Arã o, como
foram envolvidos nos juízos de Deus. Isto é um ponto muito importante. A
insensatez de todos aqueles que nã o possuem mais do que a aparência será
manifestada. Nã o somente serã o incapazes de imitar os efeitos plenos e
pró prios da vida e poder divinos, como eles mesmos virã o a ser os objetos dos
juízos que resultaram da rejeiçã o da verdade que eles pró prios rejeitaram.
Alguém dirá que tudo is to nã o encerra instruçã o para uma época,
como a nossa, de aparência sem eficá cia'?- Certamente que tem; sã o exemplos
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que deveriam exercer influência sobre toda a consciência em poder vivo e
falar a todos os coraçõ es com assentos solenes e penetrantes: deveriam levar-
nos a examinarmo-nos seriamente para sabermos se estamos dando
testemunho da verdade e se andamos segundo a eficá cia da piedade ou se
somos um obstá culo dela neutralizando os seus efeitos por só termos a sua
aparência. Os efeitos da eficá cia da piedade serã o manifestados se nó s
permanecermos nas coisas que temos aprendido (2 Tm 3.14). Só aqueles que
sã o ensinados porDeus poderã o permanecer nessas coisas—aqueles que, pelo
poder do Espírito de Deus, têm bebido da á gua da vida na fonte pura da
inspiraçã o divina.
Graças a Deus, em todas as fraçõ es da Igreja professa há muitas
destas pessoas. Aqui e ali, há muitos cujas consciências foram lavadas no
sangue expiador do "Cordeiro de Deus", e cujos coraçõ es batem com
verdadeiro afeto pela Pessoa do Senhor Jesus, e cujos espíritos sã o animados
com "a bendita esperança" de O verem assim como Ele é e de serem feitos
eternamente semelhantes à Sua imagem. E animador podermos pensar em
tais pessoas. É uma misericó rdia inefá vel podermos ter comunhã o com
aqueles que podem dar a razã o da sua esperança e da posiçã o que ocupam
como filhos de Deus. Que o Senhor aumente o seu nú mero dia a dia: e que a
eficá cia da piedade se espalhe mais e mais nestes ú ltimos dias, para que se
levante um testemunho brilhante e bem mantido ao nome d'Aquele que é
digno de ser exaltado!
A Primeira Objeção
A primeira destas objeçõ es encontra-se no capítulo 8:25. "Entã o,
chamou Faraó a Moisés e a Arã o e disse: Ide e sacrificai ao vosso Deus nesta
terra". E desnecessá rio acentuar aqui que, quer sejam os magos com a
resistência que opõ em ou Faraó com as suas objeçõ es, é realmente Sataná s
que está atrá s de toda esta cena: e o seu objetivo, nesta proposta de Faraó ,
consistia em impedir o testemunho do nome do Senhor—um testemunho
ligado com a separaçã o completa entre o Seu povo e o Egito. É evidente que
um tal testemunho nã o podia ser dado se eles tivessem continuado no Egito,
ainda mesmo que tivessem oferecido sacrifícios ao Senhor. Os israelitas ter-
se-iam entã o colocado no mesmo terreno que os egípcios, e teriam posto o
Senhor ao mesmo nível dos deuses do Egito. Entã o os egípcios poderiam ter
dito aos israelitas: "Nã o vemos nenhuma diferença entre nó s; vó s tendes o
vosso culto, e nó s temos o nosso; é tudo a mesma coisa".
Os homens consideram perfeitamente natural que cada qual tenha
uma religiã o, seja qual for. Contanto que sejamos sinceros e nã o haja
59
interferência na crença do pró ximo, pouco importa a forma da nossa religiã o.
Tais são os pensamentos dos homens a respeito daquilo que eles chamam
religiã o; porém é bem claro que a gló ria do nome de Jesus nã o é tida em conta
em tudo isto. O inimigo opor-se-á sempre à ideia de separaçã o, e o coraçã o do
homem nunca poderá compreendê-la. O coraçã o humano pode aspirar à
piedade, porque a consciência testifica que nã o está tudo em regra; mas ao
mesmo tempo anela seguir o mundo: gosta de sacrificar a Deus na terra; assim
quando se aceita uma religiã o mundana e se recusa sair ou fazer separaçã o
dela (2 Co 6), o fim de Sataná s é conseguido. O seu plano invariá vel, desde o
princípio, consiste em impedir o testemunho dado ao nome de Deus na
[Link] era o fim escuro da proposta, "Ide e sacrificai ao vosso Deus nesta
terra". Que fim o do testemunho, se esta proposta tivesse sido aceite! O povo
de Deus no Egito e o Pró prio Deus associado com os ídolos do Egito! Que
terrível blasfêmia!
A Religião
Prezado leitor, nó s deveríamos ponderar estas coisas seriamente.
Este esforço para induzir o povo de Israel a sacrificar a Deus no Egito revela
um princípio muito mais importante do que poderíamos, à primeira vista,
supor. O inimigo regozijar-se-ia se conseguisse obter, de qualquer modo, e de
uma vez para sempre, em quaisquer circunstâ ncias, até mesmo a aparência de
sançã o divina para a religiã o do mundo. Ele nã o põ e dificuldades a uma
religiã o desta espécie. O seu intento é alcançado tã o eficientemente por meio
daquilo que é chamado "o mundo religioso" como de qualquer outro modo; e,
por isso, quando consegue que um verdadeiro cristã o acredite na religiã o do
mundo, obtém um grande triunfo.
É um fato bem conhecido que nada há que provoque tanta indignaçã o
como este princípio divino de separaçã o deste presente século mau. Podemos
ter as mesmas opiniõ es, pregar as mesmas doutrinas e fazer o mesmo
trabalho: porém, se procurarmos, ainda que seja na mais pequena medida,
agir segundo a ordem divina, que é: "Destes afasta-te" (2Tm 3:5), "saído meio
deles" (2 Co 6:17), podemos es tar certos de encontrar a mais violenta
oposiçã o. Como se explica isto? Principalmente devido ao fato que os cristã os,
estando separados da vã religiã o, rendem um testemunho a Cristo que nunca
poderiam dar enquanto estivessem ligados com ela.
Existe um grande diferença entre Cristo e a religiã o do mundo. Um
pobre hindu, envolvido em trevas, pode falar da sua religiã o, mas nada sabe de
Cristo. O apó stolo, nã o diz, "se há algum conforto na religiã o" (Fp 2:1); embora
os devotos de uma religiã o qualquer achem incontestavelmente nela aquilo
que lhes parece ser consolaçã o. Paulo, pelo contrá rio, achou a sua consolaçã o
em Cristo, depois de haver experimentado plenamente a inutilidade da reli-
giã o, ainda que na sua forma mais bela e imponente (comparem-se Gll:13-
14;Fp3:3-ll).
É verdade que o Espírito Santo fala-nos da "religiã o pura e imaculada"
60
(Tg 1:27); porém o homem descrente nã o pode, de modo nenhum, participar
dela; porque como poderá ter parte naquilo que é " puro e imaculado" ? Esta
religiã o é do céu, a fonte de tudo que é puro e excelente; está exclusivamente
diante de nosso "Deus e Pai"; serve para exercício das funçõ es da nova
natureza, com a qual sã o dotados todos aqueles que crêem no nome do Filho
de Deus (Jol: 12 e 13; Tg 1:18; 1 Pe 1:23; ljo 5:1). Finalmente, define-se pelos
dois principais aspectos da benevolência e santidade pessoal "visitar os ó rfã os
e as viú vas nas suas tribulaçõ es" (Tg 1:27).
Se examinarmos a lista dos verdadeiros frutos do Cristianismo,
veremos que estã o todos classificados sob estes dois pontos principais; e é
profundamente interessante notar que, quer nos voltemos para o capítulo 8
do Ê xodo ou o primeiro de Tiago, a separaçã o do mundo é apresentada como
uma qualidade indispensá vel no verdadeiro serviço a Deus. Nada que seja
manchado com o contato "deste século mau" pode ser aceitá vel diante de
Deus, nem receber da Sua mã o o selo" puro e imaculado". "Pelo que saí do
meio deles, e apartai-vos, diz o Senhor; e nã o toqueis nada imundo, e eu vos
receberei; e eu serei para vó s Pai, e vó s serreis para mim filhos e filhas, diz o
SenhorTodo-Poderoso" (2Co6:17-18).
Nã o havia no Egito nenhum lugar de reuniã o para o Senhor e o Seu
povo redimido; sim, para eles, a redençã o e a separaçã o eram uma e a mesma
coisa. Deus havia dito: "desci para livrá -los", (Ê x 3:8) e nada senã o isto podia
satisfazê-Lo ou glorificá -Lo. Uma salvaçã o que deixasse o povo no Egito nã o
podia ser salvaçã o de Deus. Além disso, devemos recordar que o desígnio do
Senhor, com a salvaçã o de Israel, assim como na destruiçã o de Faraó , era para
que o Seu nome fosse anunciado em toda a terra (capítulo 9:16); e que
declaraçã o poderia haver desse nome ou cará ter, se o Seu povo tivesse de Lhe
prestar culto no Egito? Ou nã o teria havido nenhum testemunho ou seria um
testemunho falso. Portanto, era necessá rio, para que o cará terde Deus fosse
plena e fielmente declarado, que o Seu povo fosse inteiramente libertado e
completamente separado do Egito; e é, essencialmente, necessá rio, agora, para
que um testemunho claro e sem equívoco seja dado ao Filho de Deus, que
todos que sã o realmente Seus sejam separados deste presente século mau. Tal
é a vontade de Deus; e para este fim Cristo entregou-Se a Si mesmo. "Graça e
paz, da parte de Deus Pai e da de nosso Senhor Jesus Cristo, o qual se deu a si
mesmo por nossos pecados, para nos livrar do presente século mau, segundo a
vontade de Deus nosso Pai, aoqualseja dada gló ria para todo o sempre Amen!"
(Gl 1:3-5).
Os Gá latas começavam a dar crédito a uma religiã o carnal e mundana
— uma religiã o de ordenaçõ es —, uma religiã o de "dias e meses, de tempos e
de anos"; e o apó stolo começa a sua epístola dizendo-lhes que o Senhor Jesus
Cristo Se deu a Si mesmo com o propó sito de libertar o Seu povo todo desse
sistema. O povo de Deus deve ser separado, nã o com base na sua santidade
mas porque é o Seu povo, e para que possa responder inteligentemente ao fim
que Deus propusera pondo-o em relaçã o Consigo e associando-o com o Seu
61
nome. Um povo que continuasse a viver no meio das abominaçõ es e
contaminaçõ es do Egito nã o podia ser um testemunho do Deus santo; nem
tampouco, agora, todo aquele que se associa com as contaminaçõ es de uma
religiã o mundana e corrompida nã o pode ser uma testemunha fiel e poderosa
de um Cristo crucificado e ressuscitado.
O que é o Mundo
Tudo isto é bastante claro; porém, prezado leitor, aonde nos conduz
quanto a este mundo"?- Seguramente, fora dele, e isto de um modo completo.
Estamos mortos para o mundo e vivos para Cristo. Somos participantes ao
mesmo tempo da Sua rejeiçã o pelo mundo e da Sua aceitaçã o no céu; e o gozo
desta faz-nos considerar como nada a provaçã o daquela. Ser lançado fora do
mundo, sem saber que tenho um lugar e uma parte no céu, seria insuportá vel
para mim; porém, quando as gló rias do céu enchem a visã o da alma, é neces-
sá rio muito pouco da terra.
Mas, pode perguntar-se, "Que é o mundo?" Seria difícil encontrar um
termo tã o mal definido como "o mundo" ou "a mundanidade"; pois em geral
nó s somos propensos a fazer a mundanidade um ou dois pontos acima do
lugar onde nos achamos situados espiritualmente. A Palavra de Deus, porém,
define com perfeita precisã o o que significa o termo "o mundo", quando o
designa como aquilo que "nã o é do Pai" (ljo 2:15 e 16). Por isso, quanto mais
profunda for a minha comunhã o com o Pai, mais penetrante será a minha
compreensã o daquilo que é mundano. É esta a forma divina de ensino. Quando
mais vos deleitardes no amor do Pai, tanto mais desprezareis o mundo. Mas
quem é aquele que revela o Pai<? É o filho. Como1?- Pelo poder do Espírito
Santo. Pelo que, quanto mais habilitado eu estiver, no poder do Espírito, nã o
contristado, a deleitar-me na revelaçã o que o Filho nos tem dado do Pai, tanto
mais exato será o meu discernimento quanto à quilo que é do mundo. É à
medida que o reino de Deus ganha terreno no coraçã o, que o nosso juízo
quanto à mundanidade se torna mais reto. Nã o é fá cil definir o que é
mundanismo. É , como alguém disse, "sombreado gradualmente desde obranco
ao preto carregado". Isto é verdadeiro. Nã o se pode estabelecer um limite e
dizer: "é aqui que começa o mundanismo"; porém a sensibilidade viva e
delicada da natureza divina recua perante ele; e tudo que nó s necessitamos é
andar no poder dessa natureza, a fim de nos mantermos alheados a toda a
espécie de mundanismo. "Andai em Espírito e nã o cumprireis a
concupiscência da carne" (Gl 5:16). Andai com Deus, e nã o andareis com o
mundo. As distinçõ es frias e as regras rígidas para nada servem. É o poder da
vida divina que nó s precisamos. Precisamos de compreender a significaçã o
espiritual do "caminhode três dias no deserto", o qual nos separa para sempre
nã o apenas dos fornos de tijolo e dos exatores do É gito, mas também dos seus
templos e altares.
65
A Segunda Objeção
A segunda objeçã o do Faraó participava muitíssimo do cará ter e
tendência da primeira. "Entã o, disse Faraó : Deixar-vos-ei ir, para que
sacrifiqueis ao SENHOR vosso Deus no deserto; somente que, indo, não vades
longe" (capítulo 8:28). Nã o podendo retê-los no Egito, procurava ao menos
retê-los perto das fronteiras, para poder agir contra eles por meio das diversas
influências do país. Desta forma o povo podia ser reconduzido e o testemunho
mais facilmente aniquilado que se eles nunca tivessem saído do Egito. Aqueles
que tornam para o mundo, depois de aparentemente o terem deixado, causam
muito mais dano à causa de Cristo do que se nunca se houvessem afastado
dele; porque virtualmente confessam que, tendo provado as coisas divinas,
descobriram que as coisas terrenas sã o melhores e satisfazem mais.
E isto ainda nã o é tudo. O efeito moral da verdade sobre as
consciências dos incrédulos e tristemente embaraçado pelo exemplo dos
professos que regressam à s coisas que aparentemente haviam deixado. Nã o é
que tais casos concedam autorizaçã o a ninguém para rejeitar a verdade de
Deus, tanto mais que cada um é responsá vel por si mesmo e terá de prestar
contas dos seus atos a Deus. Contudo, o efeito produzido é, como em tudo
mais, mau. "Porquanto se, depois de terem escapado das corrupçõ es do
mundo, pelo conhecimento do Senhor e Salvador Jesus Cristo, forem outra vez
envolvidos nelas e vencidos, tornou-se-lhes o ú ltimo estado pior do que o
primeiro. Porque melhor lhes fora nã o conhecerem o caminho da justiça do
que, conhecendo-o, desviarem-se do santo mandamento que lhes fora dado"
(2 Pe 2:20-21).
Por esse motivo, se as pessoas nã o estã o dispostas a ir longe, é melhor
nã o partirem. O inimigo sabia isto bem; daí a sua segunda objeçã o. Uma
posiçã o de proximidade satisfaz admiravelmente os seus propó sitos. Aqueles
que ocupam esta posiçã o nã o sã o nem uma coisa nem outra; com efeito,
qualquer que seja a sua influência, conduz, infalivelmente, para o lado mau.
É muito importante ver claramente que o fim de Sataná s em todas
estas objeçõ es era pô r obstá culos ao testemunho que só podia ser rendido ao
nome do Deus de Israel por meio de uma peregrinaçã o de três dias através do
deserto. Isto era, em boa verdade, ir muito longe —ir muito mais longe do que
Faraó podia imaginar, ou até onde lhe era possível seguir Israel. Que grande
bênçã oseriasetodososque fazem profissã o de sair do Egito se separassem dele
pelo espírito do seu entendimento e pela elevaçã o do seu cará ter; se
conhecessem a cruz e a sepultura de Cristo como os limites estabelecidos
entre eles e o mundo! Ninguém pode colocar-se nesse terreno na energia da
sua natureza. O Salmista pô de dizer:
"E nã o entres em juízo com o teu servo, porque à tua vista nã o se
achará justo nenhum vivente" (Sl 143:2). O mesmo acontece a respeito da
separaçã o verdadeira e efetiva do mundo. "Nenhum vivente" pode realizá -la. E
somente como "morto com Cristo", e ressuscitado também nele, pela fé, no
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poder de Deus(Cl 2:12),que o homem pode ser justificado diante de Deus e
separado do mundo. Eis o que podemos chamar "ir muito longe". Permita
Deus que todos os que fazem profissã o de cristã os e se chamam por este nome
possam assim afastar-se! Entã o a sua lâ mpada dará uma luzconstan-te, a sua
trombeta dará um sonido inteligível e a sua conduta será elevada; a sua
experiência será rica e profunda; a sua paz correrá como um rio; os seus
afetos serã o celestiais e as suas vestes imaculadas. E, acima de tudo, o nome
do SENHOR Jesus será glorificado neles pelo poder do Espírito Santo, segundo a
vontade de Deus Pai.
A Terceira Objeção
A terceira objeçã o de Faraó requer atençã o especial de nossa parte.
"Entã o, Moisés e Arã o foram levados outra vez a Faraó , e ele disse-lhes: Ide,
servi ao SENHOR, vosso Deus. Quais sã o os que hã o-de ir? E Moisés disse:
Havemos de ir com os nossos meninos e com os nossos velhos; com os nossos
filhos, e com as nossas filhas, e com as nossas ovelhas, e com os nossos bois
havemos de ir; porque festa ao SENHOR temos. Entã o ele lhes disse: Seja o
SENHOR assim convosco, como eu vos deixarei ir a vó s e a vossos filhos; olhai
que há mal diante da vossa face. Nã o será assim; andai agora vó s, varõ es, e
servi ao SENHOR; pois isso é o que pedistes. E os lançaram da face de Faraó "
(capítulo 10:8 a 11).
De novo vemos como o inimigo procura dar um golpe de morte no
testemunho dado ao Deus de Israel. Os pais no deserto e os filhos no Egitol
Que terrível anomalia! Isto teria sido apenas libertaçã o parcial, ao mesmo
tempo inú til para Israel e desonrosa para o Deus de Israel. Isto nã o era
possível. Se os filhos fossem deixados no Egito, nã o se podia dizer que os pais
os tivessem deixado. Tudo quanto podia dizer-se, em tal caso, era que em
parte eles serviam ao Senhor e em parte a Faraó . Porém, o Senhor nã o podia
ter parte com Faraó . Era necessá rio que possuísse tudo ou nada. Eis aqui um
princípio importante para os pais cristã os. Possamos nó s tê-lo no íntimo dos
nossos coraçõ es! É nosso privilégio contar com Deus quanto aos nossos filhos,
e criá -los "na doutrina e admoestaçã o do Senhor" (Ef 6:4). Nenhuma outra
parte deve satisfazer-nos quanto aos nossos "pequeninos" senã o aquela
mesma que nó s pró prios desfrutamos.
A Quarta Objeção
A quarta e ú ltima objeçã o de Faraó relacionava-se com os rebanhos e
as manadas. "Entã o, Faraó chamou a Moisés e disse: Ide, servi ao SENHOR:
somente fiquem vossas ovelhas e vossas vacas; vã o também convosco as
vossas crianças (capítulo 10:24). Com que perseverança disputou Sataná s
cada palmo do caminho de Israel para fora do Egito! Em primeiro lugar
procurou mantê-los no país; entã o diligenciou tê-los perto do país; depois esf
orçou-se por reter parte do povo; e por fim, depois de haver falhado nestas
três tentativas, esforçou-se por fazê-los partir sem meios alguns para servir ao
67
Senhor. Já que nã o podia reter os servidores procurava ficar com os meios que
eles tinham para servir, pensando obter o mesmo resultado por um meio
diferente. Já que nã o podia induzi-los a oferecerem sacrifícios no país, queria
enviá -los fora do país sem vítimas para os sacrifícios.
A Resposta de Moisés
A resposta de Moisés a esta ú ltima objeçã o de Faraó dá -nos um relato
dos direitos soberanos do Senhor sobre o Seu povo e tudo que lhes pertence.
"Moisés, porém, disse: Tu também dará s em nossos mã os sacrifícios e
holocaustos, que ofereçamos ao SENHOR nosso Deus. E também o nosso gado
há de ir conosco, nem uma unha ficará; porque daquele havemos de tomar
para servirã o SENHORnosso Deus; porque nã o sabemos com que havemos de
servir ao Senhor, até que cheguemos lá " (versículos 25-26). É somente quando
o povo de Deus toma o seu lugar, com fé simples e infantil, sobre o terreno
elevado em que a morte e ressurreiçã o os colocou, que podem ter um
conhecimento adequado dos seus direitos sobre eles: "...nã o sabemos com que
havemos de servir ao SENHOR, até que cheguemos lá ". Quer dizer, nã o sabiam
qual era a sua responsabilidade, nem quais as exigências de Deus até que
tivessem andado "três dias de caminho" . Estas coisas nã opodiam ser
conhecidas no meio da atmosfera corrompida do Egito. É indispensá vel que a
redençã o seja conhecida como um fato consumado antes que se possa ter uma
percepçã o justa ou completa da responsabilidade. Tudo isto é perfeito e belo.
"Se alguém quiser fazer a vontade dele, pela mesma doutrina,
conhecerá se ela é de Deus" (Jo 7:17). É necessá rio que, por meio do poder da
morte e ressurreiçã o, estejamos fora do Egito. É quando ocupamos o nosso
lugar, pela fé, nesses á trios gloriosos em que o sangue precioso de Cristo nos
introduz; quando podemos olhar em redor de nó s e contemplar os resultados
maravilhosos do amor que nos resgatou; quando contemplamos atentamente
Aquele que nos trouxe para este lugar e nos deu todas estas riquezas, que
somos constrangidos a exclamar, como um dos nossos poetas exclamou:
"Nem uma unha ficará ". Que nobres palavras! O Egito nã o é o lugar
pró prio para guardar coisa alguma que pertença aos remidos do SENHOR. Deus
é digno de tudo: "alma, corpo e espírito" — tudo que somos e tudo quanto
temos pertencem-Lhe:"...nã o somos de nó s mesmos", porque "fomos
comprados por bom preço" (I Co 6:19, 29) e é nosso grande privilégio
consagrarmo-nos com tudo quanto temos À quele a Quem pertencemos e a cuj
o serviço fomos chamados. Nada se vê aqui do espírito legalista. As palavras
"até que cheguemos lá " sã o a salvaguarda divina contra este mal horrível. Nó s
fizemos a caminhada de "três dias" antes que pudesse ser ouvida ou
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compreendida uma só palavra quanto ao sacrifício. Estamos de posse plena e
indiscutível da vida de ressurreiçã o e da justiça eterna. Deixá mos a terra da
morte e das trevas; fomos trazidos a Deus Mesmo, de forma que podemos
possuí-Lo no poder dessa vida com que fomos dotados e nessa esfera de
justiça na qual fomos colocados: servir é, pois, todo o nosso gozo. Nã o existe
em nosso coraçã o um só af eto do qual Ele nã o seja digno; nã ohá emtodo o Seu
rebanho uma vítima que seja preciosa demais para ser imolada no Seu altar.
Quanto mais perto andarmos d'Ele, tanto melhor compreenderemos que a
nossa comida e a nossa bebida é fazer a Sua santa vontade. O crente considera
como seu maior privilégio o de servir ao Senhor, e deleita-se em todo o
exercício e em toda a manifestaçã o da natureza divina. Nã o caminha
carregando com um peso insuportá vel à s costas ou um jugo incó modo ao
pescoço. O jugo foi "despedaçado por causa da unçã o" (Is 10:27); o fardo foi
tirado para sempre pelo sangue da cruz, e ele avança "resgatado"
"regenerador" e "desembaraçado" em conformidade com estas palavras
consoladoras: "DEIXA IR O MEU POVO".
A Ultima Praga
"E o SENHOR disse a Moisés: Ainda uma praga trarei sobre Faraó e
sobre o Egito; depois, vos deixará ir daqui; e quando vos deixar ir totalmente,
a toda a pressa vos lançará daqui"(capítulo 11:1). Ainda mais um golpe duro
deve cair sobre este monarca de coraçã o endurecido e sobre o seu povo, antes
de ser obrigado a deixar ir o povo favorecido pela graça soberana de Deus.
— CAPÍTULO 12 —
A PÁSCOA
O Princípio dos Meses
"E falou o SENHORa Moisés e a Arã o na terra do Egito, dizendo: Este
mesmo mês vos será o princípio dos meses; este vos será o primeiro dos
meses do ano" (capítulo 12:1-2). Eis aqui uma alteraçã o muito importante na
ordem de contar o tempo. O ano comum ou civil seguia o seu curso ordiná rio,
quando o Senhor o interrompeu por causa do Seu povo, e assim, em princípio,
ensinou-lhes que deviam começar uma nova era em Sua companhia. A histó ria
anterior de Israel nã o devia ser doravante tomada em conta. A redençã o tinha
de constituir o primeiro passo na vida real.
Isto ensina-nos uma verdade bem simples. A vida do homem nã o é
realmente de interesse até que ele comece a andar com Deus no conhecimento
de uma salvaçã o perfeita e de uma paz está vel, pelo sangue precioso do
Cordeiro de Deus. Antes disto, segundo o j uízo de Deus e a expressã o das
Escrituras, ele está "morto em ofensas e pecados" e "alienado da vida de Deus"
(Ef 2:1; 4:18). Toda a sua histó ria nã o é mais que um espaço vazio, ainda que,
na opiniã o do homem, haja sido uma cena de ruidosa atividade. Tudo aquilo
que desperta a atençã o do homem deste mundo, as honras, as riquezas, os
prazeres, os atrativos da vida, assim chamados, todas estas coisas, quando
examinadas à luz do juízo de Deus e pesadas na balança do santuá rio, nã o sã o
mais que um vazio horrível, um espaço inú til, indigno de ocupar um lugar nos
registos do Espírito Santo. "Aquelequenã ocrê no Filho nã overá a vida" Qo
3:36). Os homens falam de gozar a vida quando se lançam ao mundo, quando
viajam de um lado para o outro, para ver tudo que é digno de se ver; porém
esquecem que o ú nico meio verdadeiro, real e divino de "ver a vida" é "crer no
filho de Deus".
Como os homens pensam tã o pouco nisto! Julgam que a verdadeira
vida acaba quando um homem se torna cristã o, real e verdadeiro e nã o apenas
de nome e profissã o exterior; ao passo que a palavra de Deus nos ensina que é
entã o que podemos ver a vida e experimentar verdadeira felicidade. "Quem
72
tem o Filho tem a vida" (1JO5:12).E "Bem-aventurado aquele cuja transgressã o
é perdoada e cu jo pecado é coberto" (Sl 32:1). Somente em Cristo podemos ter
vida e felicidade. Fora d'Ele tudo é morte e miséria, segundo o juízo do céu,
sejam quais forem as aparências. É quando o véu espesso da incredulidade é
tirado do coraçã o, e nos é dado ver, com os olhos da fé, o Cordeiro de Deus
carregando o nosso fardo pesado de culpa sobre a cruz, que entramos na
senda da vida e participamos do cá lice da felicidade divina—vida que
principia na cruz e corre para uma eternidade de gló ria —, uma felicidade que,
cada dia se torna mais profunda e mais pura, mais relacionada com Deus e
repousando melhor em Cristo, até chegarmos à sua pró pria esfera, na
presença de Deus e do Cordeiro. Buscar a vida e a felicidade por outros meios
é um trabalho muito mais penoso do que fazer tijolos sem palha.
Por certo, o inimigo das almas dá brilho a esta cena passageira, para
fazer crer aos homens que ela é toda de ouro.
Ele sabe como levantar mais de uma representaçã o de fantoches com
o fim de provocar o riso falso de uma multidã o descuidada, que nã o sabe que é
Sataná s quem move os cordelinhos e que é seu objetivo conservar as almas
afastadas de Cristo para as arrastar para a perdiçã o. Nã o existe nada
verdadeiro, nada só lido, nada que satisfaça a alma, senã o em Cristo. Sem Ele
"tudo é vaidade e afliçã o de espírito" (Ec 2:17). Só n'Ele se encontram os gozos
verdadeiros e ternos; e por isso é só quando começamos a viver n'Ele, d'Ele,
com Ele e para Ele que começamos verdadeiramente a viver: "Este mesmo mês
vos será o princípio dos meses; este vos será o primeiro dos meses do ano". O
tempo passado nos fornos de tijolo e junto das panelas de carne é como se nã o
tivesse existido. Deve, doravante, ser uma coisa sem importâ ncia, salvo que a
sua recordaçã o deve, de vez em quando, servir para despertar o seu sentido
daquilo que a graça divina havia realizado em seu favor.
O Cordeiro Guardado
"Falai a toda a congregaçã o de Israel, dizendo: Aos dez deste mês,
tome cada um para si um cordeiro, segundo as casas dos pais, um cordeiro
para cada casa... O cordeiro, ou cabrito, será , sem má cula, um macho de um
ano, o qual tomareis das ovelhas ou das cabras, e o guardareis até ao décimo
quarto dia deste mês, e todo o ajuntamento da congregaçã o de Israel o
sacrificará à tarde" (versículos 3 a 6). Eis aqui a redençã o do povo de Israel
baseada sobre o sangue do cordeiro segundo o desígnio eterno de Deus. Isto
dá à redençã o toda a sua estabilidade divina.
A redençã o nã o foi o resultado de um segundo pensamento de Deus.
Antes que o mundo existisse, ou Sataná s, ou o pecado; antes que a voz de Deus
houvesse interrompido o silêncio de eternidade e chamado os mundos à
existência, Ele tinha os seus grandes desígnios de amor, e estes desígnios nã o
podiam achar jamais um fundamento suficientemente só lido na criaçã o. Todos
os privilégios, todas as bênçã os e as gló rias da criaçã o repousavam sobre a
obediência de uma criatura, e, no pró prio momento em que esta caiu, tudo foi
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perdido. Porém, a tentativa de Sataná s de corromper a criaçã o apenas serviu
para abrir o caminho à manifestaçã o dos propó sitos profundos de Deus
quanto à redençã o.
Esta maravilhosa verdade é-nos apresentada em figura debaixo do
fato que o cordeiro devia ser guardado desde o dia dez "até ao décimo quarto
dia". Este cordeiro era indiscutivelmente uma figura de Cristo, como nos
ensina, sem dú vida, a passagem da ICoríntios 5:7: "Porque Cristo, nossa
pá scoa, foi sacrificado por nó s". Na primeira epístola de Pedro faz-se alusã o à
guarda do cordeiro durante estes quatro dias:
"Sabendo que nã o foi com cosias corruptíveis, como prata ou ouro,
que fostes resgatados da vossa vã maneira de viver, que por tradiçã o
recebestes do vossos pais, mas com o precioso sangue de Cristo, como de um
cordeiro imaculado e incontaminado, o qual na verdade, em outro tempo, foi
conhecido, ainda antes da fundação do mundo, mas manifestado nestes últimos
tempos; por amor de vós" (versículos 18-20).
Todos os desígnios de Deus, desde toda a eternidade, tinham relaçã o
com Cristo; e nenhum esforço de inimigo podia interferir com esses desígnios:
antes pelo contrá rio, esses esforços apenas contribuíram para a manifestaçã o
e a estabilidade inabalá vel da sabedoria insondá vel de Deus. Se "o Cordeiro
imaculado e incontaminado" foi "conhecido antes da fundaçã o do mundo",
certamente que a redençã o devia estar no pensamento de Deus antes da
fundaçã o do mundo. O bendito Senhor nã o teve que improvisar um plano para
remediar o terrível mal que o inimigo havia introduzido na criaçã o. Nã o, Ele
apenas teve que tirar do tesouro inexplorado dos Seus maravilhosos desígnios
a verdade quanto ao Cordeiro imaculado, conhecido desde a eternidade, e que
devia ser "manifestado nestes ú ltimos tempos por amor de nó s".
Quando a criaçã o saiu das mã os do Criador, mostrando em cada fase e
em cada parte a obra admirá vel da Sua mã o—provas infalíveis do seu eterno
poder, e da sua divindade veja (Rm 1:20) —, nã o houve necessidade do
sangue do Cordeiro. Porém, quando "por um homem entrou o pecado no
mundo", foi revelado o pensamento mais alto, mais rico, mais profundo, mais
pleno da redençã o pelo sangue do Cordeiro. Esta verdade gloriosa apareceu
primeiramente através da nuvem espessa que rodeava os nossos primeiros
pais, quando saíram do j ardim doÉ den;asualuz começou a brilhar nas figuras
e sombras da dispensaçã o moisaica; e, por fim, resplandeceu sobre o mundo
com todo o seu esplendor, quando "o Oriente do alto nos visitou" na Pessoa do
Deus manifestado em carne (1 Tm 3:16); e os seus ricos e gloriosos resultados
serã o realizados quando aquela grande multidã o vestida de branco, e tendo
palmas em suas mã os, se reunir em torno do trono de Deus e do Cordeiro, e
toda a criaçã o descansar sob o cetro de paz do Filho de Davi.
Assim, o cordeiro tomado no dia dez e guardado até ao dia catorze
mostra-nos Cristo conhecido de Deus, desde a eternidade, porém manifestado
na plenitude dos tempos por amor de nó s. O desígnio eterno de Deus em
Cristo vem a ser o fundamento da paz do crente. Nada menos do que isto seria
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suficiente. Somos reconduzidos muito para lá da criaçã o, para lá dos limites do
tempo, além da entrada do pecado e de tudo que pudesse possivelmente af
etar o fundamento da nossa paz. Aexpressã o "conhecido antes da fundaçã o do
mundo" faz-nos retroceder à s profundidades insondá veis da eternidade, e
mostra-nos Deus fazendo os Seus pró prios planos de amor redentor e
baseando-os sobre o sangue expiador do Seu precioso Cordeiro imaculado.
Cristo foi sempre o pensamento primá rio de Deus, e por isso, logo que
começa a falar ou atuar, Ele aproveita a ocasiã o para manifestar Aquele que
ocupava o lugar mais elevado em Seus conselhos e afetos; e, seguindo a
corrente de inspiraçã o divina, descobrimos que cada cerimó nia, cada rito,
cada ordenaçã o, e cada sacrifício indicava "o Cordeiro de Deus que tira o
pecado do mundo" (Jo 1:29); porém em nenhum de uma forma tã o evidente
como a Pá scoa. O cordeiro da pá scoa, com tudo que com ele se ligava,
apresenta-nos uma das figuras mais interessantes e instrutivas das Escrituras.
O Cordeiro Imolado
Na interpretaçã o deste capítulo 12 de Ê xodo temos que tratar com
unta assembleia e um sacrifício é: "todo o ajuntamento da congregaçã o de
Israel o sacrificará à tarde" (versículo 6). Nã o se trata tanto de um nú mero de
famílias e alguns cordeiros (o que por certo é muito verdade) como de uma
assembleia e um cordeiro. Cada família era a expressã o local de toda a
assembleia reunida em torno do cordeiro. O antítipo deste ato têmo-lo em
toda a Igreja de Deus reunida pelo Espírito Santo em nome do Senhor Jesus, da
qual cada assembleia em particular, onde quer que se reú na, deve ser a
expressã o local.
"Vendo Eu Sangue..."
Note-se que o israelita nã o descansa sobre os seus pró prios pensa-
mentos, nos seus sentimentos ou na sua experiência, a respeito do sangue. Isto
teria sido descansar sobre um fundamento fraco e movediço. Os seus
pensamentos e os seus sentimentos podiam serprofundos ou superficiais:
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mas, quer fossem profundos, quer superficiais, nada tinham que ver com o
fundamento da sua paz. Deus nã o havia dito: "vendo vós o sangue, e avaliando-
o como ele deve ser avaliado, eu passarei por cima de vó s" .Isto teria bastado
para lançar um israelita em profundo desespero quanto a si pró prio, visto que
é impossível para o espírito humano apreciar o valor do precioso sangue do
Cordeiro de Deus. O que dava paz era a certeza de que os olhos do Senhor
estavam postos sobre o sangue, e que Ele apreciava o seu valor. Isto
tranquilizava o coraçã o. O sangue estava de fora da porta, e o israelita
encontrava-se dentro de casa, de modo que nã o podia ver aquele sangue; mas
Deus o via, e isso era perfeitamente suficiente.
A aplicaçã o deste fato à questã o da paz do pecador é bem clara. O
Senhor Jesus Cristo, havendo derramado o Seu precioso sangue, em expiaçã o
perfeita pelo pecado, levou esse sangue à presença de Deus, e fez ali aspersã o
dele; e o testemunho de Deus assegura o crente de que as coisas estã o
liquidadas a seu favor—liquidadas, nã o pelo apreço que ele dá ao sangue, mas,
sim, pelo pró prio sangue, que tem um tã o grande valor para Deus, que, por
causa desse sangue, sem mais um jota ou um til, Ele pode perdoar com justiça
todo o pecado e aceitar o pecador como um ser perfeitamente justo em Cristo.
Como poderia alguém desfrutar paz segura se a sua paz dependesse da sua
apreciaçã o do sangue?- Seria impossível! A melhor apreciaçã o que o espírito
humano possa tomar do sangue estará sempre infinitamente abaixo do seu
valor divino; e, portanto, se a nossa paz dependesse da apreciaçã o que lhe
devíamos dar, nó s jamais poderíamos gozar de uma paz segura, e seria o
mesmo que se a buscá ssemos pelas obras da lei (Rm 9:32; Gl 2:16; 3:10). O
fundamento de paz ou há de ser somente o sangue, ou entã o nunca teremos
paz. Juntar-lhe o valor que nó s lhe damos, é derrubar todo o edifício do
cristianismo, precisamente como se conduzíssemos o pecador ao pé do monte
Sinai e o puséssemos debaixo do concerto da lei. Ou o sacrifício de Cristo é
suficiente ou nã o é. Se é suficiente, por que essas dú vidas e temores1?- As
palavras dos nossos lábios confessam que a obra está cumprida, mas as
dú vidas e temores do coração declaram que nã o. Todo aquele que duvida do
seu perdã o perfeito e eterno, nega, tanto quanto lhe diz respeito, o
cumprimento do sacrifício de Cristo.
Há muitas pessoas que fogem da ideia de pô r em dú vida deliberada e
abertamente a eficá cia do sangue de Cristo, mas que, todavia, nã o têm uma
paz segura. Estas pessoas dizem estar completamente convencidas da
suficiência do sangue de Cristo, desde que possam estar certas de ter parte
nele — desde que possam ter a verdadeira fé. Há muitas almas preciosas nesta
infeliz condiçã o. Ocupam-se mais da sua fé e dos seus interesses do que com o
sangue de Cristo e a palavra de Deus. Por outras palavras, olham para o seu
íntimo, em vez de olharem para Cristo. Isto nã o é o procedimento da fé, e, por
conseguinte, carecem de paz. O israelita protegido pela umbreira da porta
manchada de sangue podia dar a estas almas uma liçã o muito apropriada —
nã o fora salvo pelo interesse que tinha no sangue nem pelos seus
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pensamentos acerca dele, mas simplesmente pelo pró prio sangue. Sem
dú vida, ele tinha uma parte bem-aventu-rada no sangue; assim como os seus
pensamentos também estavam postos nele; porém, Deus nã o havia dito:
"Vendo eu o vosso apreço pelo sangue passarei por cima de vó s". Ah! nã o; o
SANGUE, com o seu mérito exclusivo e eficá cia divina estava posto perante
Israel; e se eles tivessem tentado pô r só que fosse um bocado de pã o asmo ao
lado do sangue, como base de segurança, teriam feito do Senhor mentiroso e
negado a suficiência do Seu remédio.
Os Pães Asmos
Mas como devia ser comido este cordeiro 1?- "...com pã es asmos; com
ervas amargosas a comerã o". O fermento é empregado, invariavelmente,
através das Escrituras, como símbolo do mal. Nunca é usado nem no Velho
nem no NovoTestamento como simbolizando alguma coisa pura, santa ou boa.
Assim, neste capítulo, a celebraçã o da festa com "pã es asmos" é figura da
separaçã o prá tica do mal como resultado pró prio de havermos sido lavados
dos nossos pecados no sangue do Cordeiro e a pró pia consequência da
comunhã o com os Seus sofrimentos. Nada senã o pã o perfeitamente livre de
fermento podia ser compatível com o cordeiro assado. Uma simples partícula
daquilo que era figura destacada do mal teria destruído o cará ter moral de
toda a ordenaçã o. Como poderíamos nó s associar qualquer espécie de mal
como a nossa comunhã o com Cristo nos Seus sofrimentos?- Seria impossível.
Todos aqueles que, pelo poder do Espírito Santo, têm compreendido a
significaçã o da cruz, nã o terã o dificuldade, pelo mesmo poder, de afastar entre
eles o fermento. "Porque Cristo, nossa pá scoa, foi sacrificado por nó s. Peio que
façamos festa, nã o com o fermento velho, nem com o fermento da maldade e
da malícia, mas com os asmos da sinceridade e da verdade" (1 Co 5:7-8). A
festa de que se fala nesta passagem é a mesma que, na vida e conduta da
Igreja, corresponde à festa dos pã es asmos. Esta durava "sete dias"; e a Igreja,
coletivamente, e o crente individualmente, sã o chamados para andar em
santidade prá tica, durante os sete dias, ou seja todo o tempo da sua carreira
aqui na terra; e isto, note-se, como resultado imediato de haverem sido
lavados no sangue, e tendo comunhã o com os sofrimentos de Cristo.
O israelita nã o deitava fora o fermento a fim de ser salvo, mas, sim,
porque estava salvo; e se deixasse de o deitar fora, nã o comprometia com isso
a sua segurança por meio do sangue, mas simplesmente a comunhã o com a
assembleia. "Por sete dias nã o se ache nenhum fermento nas vossas casas;
porque qualquer que comer pã o levedado, aquela alma será cortada da
congregaçã o de Israel, assim o estrangeiro como o natural da terra" (versículo
19). O corte de uma alma da congregaçã o corresponde precisamente à suspen-
sã o de um cristã o da comunhã o, quando acede àquilo que é contrá rio à
santidade da presença de Deus. Deus nã o pode tolerar o mal. Um simples
pensamento impuro interrompe a comunhã o da alma; e enquanto a mancha
produzida por este pensamento nã o for tirada pela confissã o, baseada na
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intercessã o de Cristo, nã o é possível restabelecer a comunhã o (vide 1 Jo 1:5
-10). O cristã o sincero regozija-se nisto; e dá louvores em memó ria da
santidade de Deus (SI 97:12). Ainda que pudesse, nã o diminuiria, nem por um
momento, o estalã o: é seu gozo inexcedível andar na companhia d Aquele que
nã o andará nem por um momento com uma simples partícula de "fermento".
Graças a Deus, nó s sabemos que nada poderá j amais partir em dois o
laço que une o verdadeiro crente com Ele. Somos salvos pelo Senhor, nã o com
uma salvaçã o temporá ria ou condicional, mas "com uma eterna salvaçã o" (Is
45:17). Porém, salvaçã o e comunhã o nã o sã o a mesma coisa. Muitas pessoas
estã o salvas, e nã o o sabem; e muitas, também, estã osalvas sem teremogozo
da salvaçã o. É impossível que eu sinta o gozo de estar sob a verga da porta
manchada de sangue, se houver fermento em minha casa. É um axioma na vida
divina. Oxalá fosse escrito em nossos coraçõ es! A santidade prá tica, embora
nã o seja a base da nossa salvaçã o, está intimamente ligada com o gozo da
salvaçã o. O israelita nã o era salvo pelos pã es asmos, mas, sim, pelo sangue; e
todavia o fermento tê-lo-ia cortado da comunhã o. E assim quanto ao cristã o,
ele nã o é salvo por sua santidade prá tica, mas pelo sangue; porém se se
entrega ao mal, em pensamento, por palavras, ou açõ es, nã o terã o verdadeiro
gozo da salvaçã o, nem verdadeira comunhã o com a pessoa do Cordeiro.
É nisto, sem dú vida, que está o segredo de uma boa parte da
esterilidade espiritual e falta de paz constante que se observa entre os filhos
de Deus. Nã o praticam a santidade: nã o guardam a festa dos "pã es asmos" (Ê x
23:15). O sangue acha-se sobre as ombreiras da porta, porém o fermento
dentro de suas casas impede-os de gozarem a segurança que o sangue
concede. A permissã o do mal destró i a nossa comunhã o, embora nã o quebre o
laço que nos une eternamente a Deus. Aqueles que pertencem à Assembleia de
Deus devem ser santos. Nã o somente foram libertados da culpa e das
consequências do pecado, como também da sua prá tica, do seu poder e do
amor do pecado. O pró prio fato de haverem sido libertados pelo sangue do
cordeiro da páscoa impunha aos israelitas a obrigaçã o de deitarem fora de
suas casas o fermento. Nã o podiam dizer, segundo a linguagem terrível do
antinomianismo1, "agora que estamos livres, podemos conduzir-nos como nos
aprouver". De modo nenhum! Se haviam sido salvos feia graça, era para
andarem em santidade. A alma que se aproveita da liberdade da graça divina e
da redençã o que há em Cristo Jesus para "continuar no pecado" prova
claramente que nã o compreende nem a graça nem a redençã o.
A graça nã o somente salva a alma com uma eterna salvaçã o, como lhe
dá uma natureza que se deleita em tudo que pertence a Deus, porque é divina.
Nó s somos feitos participantes da natureza divina, a qual nã o pode pecar,
porque é nascida de Deus. Andar na energia desta graça é, na realidade,
"guardar" a festa dos pães asmos. Nã o existe "fermento velho" nem "fermento
da malícia" (1 Co 5:8) na nova natureza, porque é nascida de Deus e Deus é
santo e "Deus é amor". Por isso é evidente que nã o é com o fim de melhorar a
nossa velha natureza, que é irrepará vel, nem tampouco de obtermos a nova
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natureza, que tiramos de nó s o mal, mas, sim, porque temos o mal em nó s. Nó s
temos a vida e, no poder desta vida, tiramos o mal. É somente quando estamos
libertados da culpa do pecado que compreendemos ou exibimos o verdadeiro
poder da santidade. Tentar consegui-lo por qualquer outro meio é esforço
inú til. A festa dos pã es asmos só pode ser guardada sob o abrigo perfeito do
sangue.
____________________
1) antinomia: contradição entre duas leis ou princípios; oposição recíproca Nota do
editor.
As Ervas Amargas
Vemos nas "ervas amargosas", que deviam acompanhar os pã es
asmos, a significaçã o e mesma utilidade moral. Nã o podemos desfrutar da
participaçã o dos sofrimentos de Cristo sem recordarmos o que tornou
necessá rios esses sofrimentos, e esta recordaçã o deve, necessariamente,
produzir um espírito de mortificaçã o e submissã o, ilustrado, de um modo
apropriado, nas ervas amargosas da festa da pá scoa. Se o cordeiro assado
representa Cristo sofrendo a ira de Deus em Sua Pró pria Pessoa na cruz, as
ervas amargosas mostram que o crente reconhece a verdade que Ele sofreu
por nós. "O castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras
fomos sarados" (Is 53:5).
Por causa da leviandade dos nossos coraçõ es é bom compreendermos
a profunda significaçã o das ervas amargosas. Quem poderá ler os Salmos
6,22,38,69,88, e 109, sem compreender, em alguma medida, o significado dos
pã es asmos com ervas amargosas1?- Uma vida praticamente santa, unida a
uma profunda submissã o de alma, deve ser o fruto da comunhã o verdadeira
com os sofrimentos de Cristo, porque é de todo impossível que o mal moral e a
leviandade de espírito possam subsistir na presença desses sofrimentos.
Mas, pode perguntar-se nã o sente a alma um gozo profundo no
conhecimento que Cristo levou os nossos pecados, e que esgotou,
inteiramente, por nó s, o cá lice da ira justa de Deus? Por certo que é assim. E
este o fundamento inabalá vel de todo o nosso gozo. Mas, poderemos
nó sesquecerquefoi" por nossos pecados" que Ele sofreu £ Poderemos perder
de vista a verdade, poderosa para subjugar a alma, que o bendito Cordeiro de
Deus inclinou a Sua cabeça sob o peso das nossas transgressõ es? Certamente
que nã o. Devemos comer o nosso cordeiro com ervas amargosas; as quais, nã o
se esqueça, nã o representam as lá grimas de um sentimentalismo desprezível e
superficial, mas sim as experiências profundas e verdadeiras de uma alma que
compreende com inteligência espiritual o significado e efeito prá tico da cruz.
Contemplando a cruz, descobrimos nela aquilo que elimina a nossa
culpa e dá doce paz e gozo. Porém, vemos que ela põ e de lado, inteiramente,
também, a natureza humana—representa a crucificaçã o da "carne" e a morte
do "homem velho" (veja-se Romanos, 6:6; Gl. 2-.20; 6:14; Cl. 2:11). Estas
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verdades, nos seus resultados prá ticos, implicam muitas coisas "amargosas"
para a nossa natureza: exigem a renú ncia pró pria, a mortificaçã o dos nossos
membros que estã o sobre a terra (Cl 3:5), e a consideraçã o do "homem velho"
como morto para o pecado (Rm 6). Todas estas coisas podem parecer terríveis
de encarar; porém, uma vez que se há entrado na casa cujas portas estã o
manchadas com o sangue vêem-se de uma maneira muito diferente. As
mesmas ervas que, para o gosto de um egípcio, eram, sem dú vida, tã o
amargosas, formavam uma parte integral da festa de redençã o de Israel.
Aqueles que sã o remidos pelo sangue do Cordeiro, e conhecem o gozo da
comunhã o com Ele, consideram como uma "festa" tirar o mal e ter a velha
natureza no lugar da morte.
A Comunhão e a Paz
"E nada dele deixareis até pela manhã ; mas o que dele ficar até pela
manhã, queimareis no fogo" (versículo 10). Este mandamento ensina-nos que
a comunhã o da congregaçã o de Israel nã o devia ser, de modo nenhum,
separada do sacrifício sobre o qual se baseava essa comunhã o. O coraçã o deve
guardar sempre a lembrança viva de que toda a verdadeira comunhã o está
inseparavelmente ligada com a redençã o efe tuada. Crer que se pode ter
comunhã o com Deus sobre qualquer outro fundamento é imaginar que Deus
pode ter comunhã o com o pecado que há em nó s; e pensar em comunhã o com
o homem, com base em qualquer outro fundamento, é apenas formar uma
uniã o impura, da qual nada pode resultar senã o confusã o e iniquidade. Em
suma: é necessá rio que tudo esteja fundamentado sobre o sangue e
inseparavelmente ligado com ele. Este é o significado simples da ordenaçã o
que mandava comer o cordeiro da pá scoa na mesma noite em que o sangue
havia sido derramado. A comunhã o nã o pode ser separada do seu
fundamento.
Portanto, que belo quadro nos oferece a congregaçã o de Israel
protegida pelo sangue e comendo em paz o cordeiro assado com pães asmos e
ervas amargosas! Nenhum temor de juízo, nenhum temor da ira do SENHOR,
nenhum temor da tempestade terrível da justa vingança, que, à meia-noite, ia
varrer, veementemente, toda a terra do Egito! Tudo estava em paz profunda
atrá s das portas manchadas de sangue. Nada tinham a temer de fora; e nada
dentro podia perturbá -los, salvo o fermento, que teria dado umgolpe mortal
em toda a sua paz e bem-aventurança. Que exemplo para a Igreja! Que
exemplo para o cristã o! Que Deus nos ajude a contemplarmo-lo com um olhar
iluminado e um espírito dó cil!
O Vestido de Israel
Contudo, nã o esgotá mos ainda o ensino desta tã o instrutiva
ordenaçã o. Considerá mos a posição de Israel e a comida de Israel, vamos agora
falar do estado de Israel.
"Assim, pois, o comereis: Os vossos lombos cingidos, os vossos
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sapatos nos pés, e o vosso cajado na mã o; e o comereis apressadamente; esta é
a Pá scoa do Senhor" (versículo 11). Deviam comer a páscoa como um povo
que estava preparado para deixar atrá s de si o país da morte e das trevas, da
ira e do juízo, e marchar em demanda da terra da promissã o—a herança que
lhes estava reservada. O sangue que os havia preservado da sorte dos
primogénitos do Egito era também o fundamento da sua libertaçã o da
escravidã o do Egito; e agora só lhes restava porem-se em marcha e andar com
Deus para a terra que manava leite e mel. É verdade que nã o haviam ainda
atravessado o Mar vermelho; tampouco haviam andado o "caminho de três
dias". Contudo, eram já , em princípio, um povo redimido, um povo separado,
um povo de peregrinos, um povo esperançoso, um povo que dependia de
Deus; e era preciso que os seus trajos estivessem de harmonia com a sua
presente condiçã o e o destino futuro. Os lombos cingidos indicavam uma
separaçã o rigorosa de tudo aquilo que os rodeava e mostravam que eles eram
um povo preparado para servir. Os pés calçados mostravam que estavam
prontos a abandonar o seu estado presente; enquanto que o cajado era o
emblema significativo de um povo de peregrinos numa atitude de apoio em
qualquer coisa que estava fora de si mesmos. Que característicos preciosos!
Prouvera a Deus que fossem vistos em cada membro da família dos Seus
remidos.
Prezado leitor, meditemos "estas coisas (lTm 4:15). Pela graça de
Deus, experimentá mos a eficá cia purificadora do sangue de Jesus; neste
estado é nosso privilégio alimentarmo-nos da sua adorá vel Pessoa e
deleitarmo-nos nas Suas "riquezas incompreensíveis" (Ef 3:8), tendo parte nos
Seus sofrimentos e sendo feitos "conforme à sua morte" (Fp 3:10). Mostremo-
nos, pois, com pã es asmos e ervas amargosas, os lombos cingidos, os sapatos
nos pés, e o cajado na mã o. Numa palavra: que sejamos notados como um
povo santo, um povo crucificado, vigilante e diligente—um povo que mancha,
claramente, ao encontro deDeus no caminho para agló ria—, "destinado para
oreino". Que Deus nos conceda penetrar na profundidade e no poder de todas
estas coisas; de forma que nã o sejam apenas teorias, ou princípios de
conhecimento bíblico e simples interpretaçã o; mas, sim, realidades vivas,
divinas, conhecidas por experiência e manifestadas na vida, para gló ria de
Deus.
O Verdadeiro Cristianismo
O verdadeiro Cristianismo nã o é senã o a manifestaçã o da vida de
Cristo implantada em nó s pela operaçã o do Espírito Santo, segundo os
desígnios eternos de Deus de graça soberana; e todas as nossas obras antes
desta implantaçã o de nova vida nã o sã o mais que "obras mortas" (Hb 6:1), das
quais a nossa consciência deve ser purificada do mesmo modo que das "má s
obras" (Hb 9:14).
A expressã o "obras mortas" inclui todas as obras que os homens
fazem com o fim de obter a vida. Se alguém busca a vida, é evidente que ainda
nã o a tem. É possível que seja muito sincero em a buscar, mas a sua pró pria
sinceridade forma evidente o fato que, por enquanto, ainda nã o a alcançou.
Assim, pois, todo o esforço feito com o fim de obter a vida é obra morta, tanto
mais que é feito sem a vida de Cristo, a ú nica vida verdadeira, e a ú nica fonte
de onde podem emanar as boas obras. Enote-se que nã o é uma questã o de
"obras má s"; ninguém pensaria em obter a vida por tais meios. Nã o! Pelo
contrá rio, ver-se-á como as pessoas recorrem constantemente às "obras
mortas" a fim de aliviarem a Sua consciência sob a sensaçã o das "obras má s",
ao passo que a revelaçã o divina nos ensina que a consciência necessita de ser
purificada tanto de umas como das outras.
Além disso, quanto à justiça, lemos que "todas as nossas justiças sã o
como o trapo da imundícia" (Is 64:6). Nã o é dito aqui apenas que "todas as
nossas iniquidades sã o como trapo da imundícia". Quem ousaria dizer o
contrá rio? Porém o fato é que os melhores frutos que podemos produzir, sob a
forma de piedade e da justiça, sã o representados nas pá ginas da verdade
eterna como "obras mortas" e "trapo da imundícia". Os mesmos esforços que
fazemos para conseguir a vida provam que estamos mortos; e os nossos
esforços para alcançarmos a justiça provam apenas que estamos vestidos com
trapos de imundícia. É só como possuidores da vida eterna e da justiça divina
de podemos andar no caminho das boas obras que Deus nos preparou. As
obras mortas e os trapos imundos nã o podem ser permitidos nesse caminho.
Ninguém senã o "os resgatados do Senhor" (Is 51:11) pode passar por ele. Era
na qualidade do povo remido que Israel guardava a festa dos pã es asmos e
santificava os primogénitos ao Senhor., Já consideramos a primeira destas
ordenaçõ es; quanto a esta ú ltima é rica em instruçõ es.
— CAPÍTULO 14 —
O MAR VERMELHO
Uma Situação sem Saída
"Os que descem ao mar em navios, mercando nas grandes á guas,
esses vêem as obras do SENHOR e as suas maravilhas no profundo" (SI 107:23-
24).
Quã o verdadeiras sã o estas palavras! E contudo como os nossos
coraçõ es covardes têm horror a essas "grandes á guas"! Preferimos os fundos
baixos, e, por consequência, deixamos de ver "as obras" e "as maravilhas" do
nosso Deus; pois estas só podem ser vistas e conhecidas "no profundo".
É nos dias de provaçã o e dificuldades que a alma experimenta alguma
coisa da bem-aventurança profunda e incontá vel de poder confiar em Deus. Se
tudo fosse sempre fá cil nunca se poderia fazer esta experiência. Nã o é quando
o barco desliza suavemente à superfície do lago tranquilo que a realidade da
presença do Mestre é sentida; mas sim, quando ruge o temporal e as ondas
varrem a embarcaçã o. O Senhor nã o nos oferece a perspectiva de isençã o de
provaçõ es e tribulaçõ es; pelo contrá rio, diz-nos que teremos tanto umas como
as outras; porém, promete estar conosco sempre; e isto é muito melhor que
vermo-nos livres de todo o perigo. A compaixã o do Seu coraçã o conosco é
muito mais agradá vel do que o poder da Sua mã o por nós. A presença do
Senhor com os Seus servos fiéis, enquanto passavam pelo forno de fogo
ardente, foi muito melhor do que a manifestaçã o do Seu poder para os
preservar dele (Dn 3). Desejamos com frequência ser autorizados a avançar na
nossa carreira sem provaçõ es, mas isto acarretaria grave prejuízo. A presença
do Senhor nunca é tã o agradá vel como nos momentos de maior dificuldade.
Assim aconteceu no caso de Israel, como vemos neste capítulo.
Encontram-se numa dificuldade esmagadora—foram chamados a mercadejar
"mas grandes á guas"; vêem esvair-se-lhes "toda a sua sabedoria" (Sl 107:27).
Faraó , arrependido de os haver deixado sair do seu país, decide fazer um
esforço desesperado para os trazer de novo. "E aprontou o seu carro e tomou
consigo o seu povo; e tomou seiscentos carros escolhidos, e todos os carros do
Egito, e os capitã es sobre eles todos... E, chegando Faraó , os filhos de Israel
levantaram seus olhos, e eis que os egípcios vinham atrá s deles, e temeram
muito; entã o, os filhos de Israel chamaram ao SENHOR" (versículos 6-10). Aqui
estava uma cena no meio da qual o esforço humano era inú til. Tentar
livrarem-se por qualquer coisa que pudessem fazer, era a mesma coisa que se
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tentassem fazer retroceder as ondas alterosas do oceano com uma palha. O
mar estava diante deles, o exército de Faraó por detrá s, e de ambos os lados
estavam as montanhas; e tudo isto, note-se, havia sido permitido e ordenado
por Deus. O Senhor havia escolhido o terreno para acamparem "diante de Pi-
Hairote, entre Migdol e o mar, diante de Baal -Zefom". Depois, permitiu que
faraó os alcançasse. E por quê 1?- Precisamente para Se manifestar na salvaçã o
do Seu povo e na completa destruiçã o dos seus inimigos. "Aquele que dividiu o
Mar Vermelho em duas partes; porque a sua benignidade é para sempre. E fez
passar Israel pelo meio dele; porque a sua benignidade é para sempre. Mas
derribou a Faraó com o seu exército no Mar Vermelho, porque a sua
benignidade é para sempre" (SI 136:13-15).
O Propósito de Deus
Nã o existe sequer uma posiçã o em toda a peregrinaçã o dos remidos
de Deus cujos limites nã o hajam sido cuidadosamente traçados pela mã o da
sabedoria infalível e o amor infinito. O alcance e a influência peculiar de cada
posiçã o sã o calculados com cuidado. Os Pi-Hairotes e os Migdoles estã o
dispostos de maneira a estarem em relaçã o com a condiçã o moral daqueles
que Deus está conduzindo através dos caminhos sinuosos e dos labirintos do
deserto, e também para que manifestem o Seu pró prio cará ter. A
incredulidade sugere com frequência esta pergunta: "Porque é isto assim £
Deus sabe; e, sem dú vida, revelará a razã o, sempre que essa revelaçã o
promova a Sua gló ria e o bem do Seu povo. Quantas vezes somos tentados a
perguntar porque e com que fim nos achamos nesta ou naquela circunstâ ncia!
Quantas vezes ficamos perplexos quanto à razã o de nos vermos expostos a
esta ou àquela prova! Quã o melhor seria curvarmos as nossas cabeças em
humilde submissã o, dizendo, "está bem", e"tudoacabará bem"! Quanto à Deus
Quem determina a nossa posiçã o, podemos estar certos que é uma posiçã o
sensata e salutar; e até mesmo quando nó s, louca e obstinadamente, escolhe-
mos uma posiçã o, o Senhor, em Sua misericó rdia, domina a nossa loucura e faz
com que as influências das circunstâ ncias da nossa pró pria escolha operem
para nosso bem espiritual.
É quando os filhos de Deus se encontram nos maiores apertos e
dificuldades que têm o privilégio de ver as mais preciosas manifestaçõ es do
cará ter e da atividade de Deus; e é por esta razã o que Ele os coloca
fraquetemente numa situaçã o de prova, a fim de poder mostrar-Se de um
modo mais notá vel. O Senhor podia ter conduzido Israel através do Mar
Vermelho para muito além do alcance das hostes de Faraó , muito antes que
este houvesse saído do Egito, porém isto nã o teria glorificado inteiramente o
Seu nome, nem teria confundido de uma maneira tã o completa o inimigo,
sobre o qual queria ser "glorificado" (versículo 17). Também nó s perdemos
muitas vezes de vista esta preciosa verdade, e o resultado é que os nossos
coraçõ es fraquejam na horta da provaçã o. Se tã o somente pudéssemos
encarar as crises graves como uma oportunidade de Deus pode mostrar, em
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nosso favor, a suficiência da graça divina, as nossas almas conservariam o seu
equilíbrio, e Deus seria glorificado, até mesmo no profundo das á guas.
A Salvação do SENHOR
"Moisés, porém, disse ao povo: Nã o temais; estai quietos, e vede o
livramento do SENHOR, que hoje vos fará : porque aos egípcios, que hoje vistes,
nunca mais vereis para sempre. O SENHOR pelejará por vó s e vó s calareis"
(versículos 13 -14). Eis aqui a atitude que a fé toma em face da provaçã o:
"estai quietos". Para a carne e o sangue isto é impossível. Todos os que
conhecem, em alguma medida, a impaciência do coraçã o humano, ante a
perspectiva de provaçõ es e afliçõ es, poderã o fazer uma ideia do que significa
estar quieto. A nossa natureza quer fazer alguma coisa. E por isso correrá de
um lado para o outro: quer ter parte na obra; e embora possa pretender
justificar osseusatos desprezíveis, f azendo-os acompanhar do título pomposo
e vulgar de emprego legítimo de meios, na realidade eles sã o apenas os frutos
claros e positivos da incredulidade que sempre põ e Deus de parte, e nada vê
senã o as nuvens escuras da sua pró pria criaçã o. A incredulidade cria e
aumenta as dificuldades, e, entã o, leva-nos a procurarmos vencê-las por meio
das nossas atividades inú teis e precipitadas, as quais, na realidade, apenas
lançam poeira em redor de nó s, e assim nos impede de vermos a salvaçã o de
Deus. Pelo contrá rio, a fé eleva a alma acima das dificuldades até Deus, e
habilita-nos a estarmos "quietos". Nada ganhamos com os nossos esforços
impacientes e inquietos. "Nã o podemos fazer um cabelo branco ou preto, tã o-
pouco podemos juntar um cô vado à nossa estatura" (Mt 5:36,6:27). Que
poderia Israel fazer junto do Mar Vermelhou Podia secá -lo? Podia aplanar as
montanhas?- Podia aniquilar as hostes do Egito1?- Impossível. Encontravam-
se encerrados dentro de um muro impenetrá vel de dificuldades, à vista do
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qual a natureza nã o podia fazer mais que tremer e sentir a sua completa
impotência. Porém, para Deus era precisamente o momento de atuar. Quando
a incredulidade é afastada da cena, Deus pode intervir; e, para podermos ver
os Seus atos, nó s temos de estar "quietos". Cada movimento da natureza é,
com efeito, um impedimento para a nossa percepçã o e gozo da intervençã o
divina a nosso favor.
— CAPÍTULO 15 —
UM CÂNTICO DE VITÓRIA
O Louvor que Segue a Libertação
Este capítulo abre com o câ ntico magnífico de vitó ria de Israel nos
bancos do Mar Vermelho, quando viu "a grande mã o que o SENHOR mostrara
aos egípcios" (capítulo 14:31). Haviam visto a salvaçã o de Deus e, portanto,
entoaram os Seus louvores e narraram as Suas obras maravilhosas. "Entã o,
cantou Moisés e os filhos de Israel este câ ntico ao SENHOR" . Até este momento
nã o temos ouvido nem sequer uma só nota de louvor. Ouvimos o seu clamor
angustioso, enquanto labutavam nos fornos de tijolo do Egito, escutá mos o seu
brado de incredulidade, quando se viram rodeados por aquilo que lhes parecia
serem dificuldades insuperá veis; mas, até agora, nã o ouvimos nenhum cântico
de louvor. Foi só quando, como um povo salvo, se acharam rodeados pelos
frutos da salvaçã o de Deus que o hino triunfal irrompeu de toda a congregaçã o
redimida. Foi quando saíram do seu batismo "na nuvem e no mar", e puderam
contemplar os ricos despojos da vitó ria, que se achavam espalhados à sua
volta, que milhares de vozes se ouviram entoando o câ ntico da vitó ria. As
á guas do Mar Vermelho corriam entre eles e o Egito, e eles achavam-se na
costa como povo inteiramente libertado; e, portanto, puderam louvar o
Senhor.
A Redenção e o Culto
Nisto, como em tudo o mais, eles foram figuras de todos nó s. Nó s
precisamos de saber que estamos salvos, no poder da morte e ressurreiçã o,
antes de podermos prestar a Deus culto claro e inteligente. Haverá sempre na
alma reserva e hesitaçã o, provenientes, sem dú vida, da sua incapacidade em
compreender a redençã o que há em Cristo Jesus. Pode haver o
reconhecimento do fato que há salvaçã o em Cristo Jesus, e em nenhum outro;
porém compreender, pela fé, o verdadeiro cará ter e fundamento dessa
salvaçã o, realizando-a como nossa, é coisa muito diferente. O Espírito de Deus
revela, com clareza inconfundível, na Palavra de Deus, que a Igreja está unida
a Cristo na morte e ressurreiçã o; e, demais, que Cristo ressuscitado e
assentado à destra de Deus é a medida e o penhor da aceitaçã o da Igreja.
Quando se crê isto, a alma é transportada para lá das regiõ es da dú vida e
incerteza. Como pode o crente duvidar quando sabe que é representado
104
continuamente diante do trono de Deus por um advogado, Jesus Cristo, o
Justo1?- É privilégio até do mais fraco dos membros da Igreja de Deus saber
que foi representado por Cristo na cruz, e que todos os seus pecados foram
confessados, levados, julgados e expiados ali. É uma realidade divina, que,
quando aceite pela fé, dá a paz. Mas nada menos que isto pode jamais dar paz.
Pode existir o desejo mais sincero, ardente, ansioso e verdadeiro de Deus;
poderã o observar-se pia e devotadamente todas as ordenaçõ es, deveres e
práticas da religiã o, mas o ú nico meio de libertar a consciência do sentido do
pecado é vê-lo julgado na pessoa de Cristo, oferecendo-Se uma vez como
sacrifício pelo pecado na cruz de maldiçã o. Se o pecado foi ali julgado uma vez
para sempre, o crente deve, portanto, considerá -lo, agora, como uma questã o
divinamente e eternamente arrumada. E que a questã o do pecado foi assim
julgada está provado pela ressurreiçã o do nosso Substituto. "Eu sei que tudo
quanto Deus faz durará eternamente; nada se lhe deve acrescentar, e nada se
lhe deve tirar. E isso faz Deus para que haja temor diante dele" (Ec 3:14).
Contudo, enquanto é admitido em geral que tudo isto é verdadeiro
quanto à Igreja coletivamente, muitos têm grande dificuldade em fazer a sua
aplicaçã o pessoal. Estã o prontos a dizer com o Salmista: "Verdadeiramente
bom é Deus para com Israel, para com os limpos de coraçã o. Quanto a mim..."
(SI 73:1- 2). Olham para si, em vez de olharem para Cristo na morte e Cristo na
ressurreiçã o. Estã o mais ocupados com a apropriaçã o de Cristo do que com
Cristo Mesmo. Pensam na sua capacidade em vez de pensarem nos seus
privilégios. Sã o retidos num estado de incerteza inquietante; e, por
conseguinte, nunca podem tomar o lugar de adoradores ditosos e inteligentes.
Oram por salvaçã o em vez de se regozijarem na possessã o consciente dela.
Olham para os seus frutos imperfeitos em vez de contemplarem a perfeita
expiaçã o de Cristo.
Bom, examinando as vá rias notas deste câ ntico, no capítulo 15 de
Ê xodo, nã o encontramos uma nota sequer acerca do ego nem dos seus feitos:
tudo se refere ao Senhor desde o princípio ao fim. Começa assim: "Cantarei ao
SENHOR, porque sumamente se exaltou; lançou no mar o cavalo e o seu
cavaleiro". Isto é uma amostra de todo o câ ntico. É um simples relato dos
atributos e obras do Senhor. No capítulo 14 os coraçõ es dos israelitas haviam
sido, com efeito, encurralados sob a pressã o excessiva das circunstâ ncias;
porém no capítulo 15 essa pressã o é tirada, e os seus coraçõ es encontram
plena saída num suave câ ntico de louvor. O ego é esquecido; as circunstâ ncias
sã o perdidas de vista, e um só objeto enche a sua visã o, e esse é o Pró prio
Senhor no Seu cará ter e em Suas obras. Assim eles puderam dizer: "Pois tu,
SENHOR, me alegraste com os teus feitos; exultarei nas obras das tuas mã os" (SI
92:4). Isto é culto verdadeiro. É quando o pobre ego, com tudo quanto lhe
pertence, é perdido de vista e somente Cristo enche os nossos coraçõ es, que
podemos oferecer a Deus culto verdadeiro. Os esforços de uma piedade carnal
nã o sã o precisos para despertar na alma sentimentos de devoçã o. Nã o temos
necessidade nenhuma de recorrer à pretendida ajuda da religiã o, assim
105
chamada, para inflamar na alma a chama do culto aceitá vel a Deus. Ah! Nã o;
deixai que o coraçã o esteja ocupado somente com a Pessoa de Cristo, e os
"câ nticos de louvor" serã o a consequência natural. É impossível que o olhar
esteja fixado n'Ele sem que o espírito se curve em santa adoraçã o. Se
contemplarmos o culto dos exércitos celestiais, que rodeiam o trono de Deus e
do Cordeiro, veremos que é sempre acompanhado da apresentaçã o de algum
traço especial das perfeiçõ es ou obras divinas. Assim deveria ser com a Igreja
na terra; e quando é de outra maneira, é porque nos deixamos vencer por
coisas que nã o têm lugar nas regiõ es da clara luz e da pura bem-aventurança.
— CAPITULO 16 —
O Maná
Contudo, como Israel estava debaixo da graça, as suas necessidades
sã o supridas de uma maneira maravilhosa, como lemos no versículo 4, deste
capítulo: "Entã o, disse o SENHOR, a Moisés: Eis que vos farei chover pã o dos
céus". Quando se achavam envolvidos pela nuvem fria da incredulidade, eles
haviam dito: "Quem dera que nó s morrêssemos por mã o do SENHOR, na terra
do Egito, quando está vamos sentados junto à s panelas de carne, quando
comíamos pã o até fartar!" Porém, agora Deus diz que lhes dará "pã o dos céus".
Abençoado contraste! Que diferença espantosa entre as panelas de carne, os
alhos porros e as cebolas do Egito e este maná celestial— "o pã o dos
poderosos"! (SI 78:25). Aquelas coisas pertenciam aterra, este pã o era do céu.
Mas este alimento celestial era necessariamente, uma experiência da
condiçã o de Israel, como está escrito, "...para que eu seja se anda em minha lei
ou nã o". Era preciso ter-se um coraçã o separado das influências do Egito para
113
se dar por satisfeito, ou apreciar "o pã o dos céus". Com efeito, sabemos que o
povo nã o se contentou com este pã o, antes o desprezou, declarou-o "pã o vil" e
desejou carne.
Desta forma os israelitas mostraram quã o pouco separados estavam
os seus coraçõ es do Egito e como nã o estavam dispostos a andar na lei de
Deus: "..em Seu coraçã o se tornaram ao Egito" (At 7:39).
Porém, longe de serem reconduzidos para ali, foram transportados,
por fim, para além de Babiló nia (At 7:43). Eis uma liçã o solene e salutar para
os cristã os. Se aqueles que foram libertados deste presente século mau nã o
andam com Deus com coraçõ es agradecidos, satisfeitos com a provisã o que
Ele fez para os remidos no deserto, estã o em perigo de cair nos laços da
influência de Babiló nia. É uma reflexã o muito séria, que requer gosto celestial
para se poder alimentar do Pã o do céu. A natureza nã o pode saborear um tal
alimento; suspira sempre pelo Egito, e, portanto, deve ser sempre dominada. É
nosso privilégio, como aqueles que foram batizados na morte de Cristo e
ressuscitados "pela fé no poder de Deus" (Cl 2:12), alimentarmo-nos de Cristo
como "o pã o da vida que desceu do céu" (Jo6:51).
— CAPITULO 17 —
REFIDIM
A Contenda do Povo com Moisés
"Depois, toda a congregaçã o dos filhos de Israel partiu do deserto de
Sim pelas suas jornadas, segundo o mandamento do SENHOR, e acamparam em
Refidim; e nã o havia ali á gua para o povo beber. Entã o, contendeu o povo com
Moisés, e disseram: Dá -nos á gua para beber. E Moisés lhes disse: Por que
contendeis comigo? Por que tentais ao SENHORA"
Nã o conhecêssemos nó s alguma coisa do mal humilhante de nossos
coraçõ es e ficaríamos embaraçados quanto à razã o da insensibilidade
espantosa de Israel para com a bondade, a fidelidade e os atos poderosos do
Senhor. Acabavam de ver cair pã o do céu para alimentar seiscentas mil
pessoas no deserto, e ei-los agora, prontos a "apedre j ar" Moisés por os ter
trazido para esse mesmo deserto, para os matar de sede. Nada pode exceder a
incredulidade terrível e maldade do coraçã o humano senã o a graça
superabundante de Deus. É só nessa graça que alguém pode encontrar alívio
sob a sensaçã o, sempre crescente, da sua natureza perversa, que as
circunstâ ncias tendem a manifestar. Houvesse Israel sido transportado
diretamente do Egito a Canaã, e nã o teria sido feita uma tã o triste exibiçã o do
que é o coraçã o humano; e, como consequência, eles nã o teriam sido exemplos
ou figuras tã o admirá veis para nó s. De fato, os quarenta anos de peregrinaçã o
no deserto of erecem-nos um volume de avisos, admoestaçõ es e instruçõ es
ú teis além de toda a concepçã o. Aprendemos, entre outras coisas, a propensã o
121
constante do coraçã o para suspeitar de Deus. Confia em tudo, menos em Deus.
Prefere apoiar-se numa teia de aranha em vez do braço do Deus onipotente,
sábio e generoso; e a mais pequena nuvem é mais que suficiente para ocultar
da sua vista a luz do Seu bendito rosto. É pois com razã o que as Escrituras
falam dele como sendo "mau e infiel", sempre pronto para" se apartar do Deus
vivo" (Hb3:12).
É interessante notar as duas interrogaçõ es feitas pela incredulidade,
neste capítulo e no precedente. Sã o precisamente idênticas à quelas que se
levantam em nó s e à nossa volta, diariamente: "Que comeremos'?- E que
beberemos?" (Mt 6:31). Nã o vemos que o povo fizesse a terceira pergunta
desta categoria, "com que nos vestire-mos'?-" Porém, estas sã o as
interrogaçõ es do deserto: "O quêí" "Ondeí" "Cornou". A fé tem apenas uma
resposta compreensível para todas as três, a saber: DEUS! Que resposta
perfeita e preciosa! Ah, se o autor e o leitor destas linhas conhecessem
perfeitamente o seu poder e a sua plenitude! Necessariamente precisamos
recordar, quando passamos pela provaçã o, que nã o vem sobre nó s tentaçã o
senã o humana, "mas, fiel é Deus, que vos nã o deixará tentar acima do que
podeis; antes, com a tentaçã o dará também o escape, para que a possais
suportar" (1 Co 10:13). Sempre que somos postos à prova, podemos estar
certos que, com a prova, há também uma saída, e tudo que precisamos é uma
vontade submissa ao Senhor e um olhar simples para vermos a saída.
A Rocha Ferida
"E clamou Moisés ao SENHOR, dizendo: Que farei a este povoi Daqui a
pouco me apedrejarã o. Entã o, disse o SENHORa Moisés: Passa diante do povo
e toma contigo alguns dos anciã os de Israel; e toma na tua mã o a tua vara, com
que feriste o rio, e vai. Eis que eu estarei ali diante de ti sobre a rocha, em
Horebe, e tu ferirá s a rocha, e dela sairã o á guas, e o povo beberá. E Moisés
assim o fez, diante dos olhos dos anciã os de Israel" (versículos 4 a 6). Assim
tudo é suprido pela graça mais perfeita. Cada murmuraçã o ocasiona uma nova
manifestaçã o da graça. Aqui vemos como as á guas refrescantes jorraram da
rocha ferida—uma ilustraçã o formosa do Espírito dado como fruto do
sacrifício efetuado por Cristo. No capítulo 16 temos uma figura de Cristo
descendo do céu para dar vida ao mundo. O capítulo 17 mostra-nos uma
figura do Espírito Santo "derramado" em virtude da obra consumada de
Cristo. "Porque bebiam da pedra espiritual que os seguia; e a pedra era Cristo"
(1 Co 10:4). Mas quem poderia beber antes da pedra ser ferida? Israel poderia
ter contemplado essa rocha e morrer de sede ao mesmo tempo que a contem-
plava, porque antes que fosse ferida pela vara de Deus nã o podia dar
refrigério. Isto é bem claro. O Senhor Jesus Cristo era o centro e base de todos
os desígnios de amor e misericó rdia de Deus. Por Seu intermédio deveria
correr toda a bênçã o para o homem. As correntes da graça deviam emanar do
"Cordeiro de Deus"; porém era necessá rio que o Cordeiro fosse morto—que a
obra da cruz fosse um fato consumado, antes que muitas destas coisas fossem
122
realizadas. Foi quando a Rocha dos séculos foi ferida pela mã o de Jeová , que as
comportas do amor eterno foram abertas de par em par e os pecadores
perdidos convidados pelo Espírito Santo a beber abundantemente
elivremente: "...O dom do Espírito Santo" é oresulta-do da obra consumada
pelo Filho de Deus sobre a cruz. "A promessa do Pai..." (Lc 24:49) nã o podia
ser cumprida antes que Cristo se assentasse à destra da Majestade nos céus,
depois de ha ver cumprido toda a justiça, respondido a todas as exigências da
santidade, engrandecido a lei tornando-a justa, suportado a ira de Deus contra
o pecado, destruído o poder da morte, e tirado à sepultura a sua vitó ria.
Havendo feito todas estas coisas, subiu ao alto, "levou cativo o cativeiro e deu
dons aos homens. Ora isto—ele subiu—que é, senã o que também, antes, tinha
descido à s partes mais baixas da terral Aquele que desceu é também o mesmo
que subiu acima de todos os céus, para cumprir todas as coisas" (Ef 4:8-10).
Este é o verdadeiro fundamento da paz e da bem-aventurança e gló ria
da Igreja, para todo o sempre.
A Água da Rocha
Antes de a rocha ser ferida a corrente de bênçã o estava retida e o
homem nada podia fazer. Que poder humano poderia fazer brotar á gua da
pederneira? E do mesmo modo, podemos perguntar, que justiça humana
poderia conseguir autorizaçã o para abrir as comportas do amor divino1?- Este
é o verdadeiro modo de pô r à prova a competência do homem. Nã o podia, por
seus feitos, suas palavras ou sentimentos, prover um fundamento para a
missã o do Espírito Santo.
Seja o que for ou faça o que puder, ele nã o pode fazer isto. Mas, graças
a Deus, tudo está consumado; Cristo terminou a obra; a verdadeira Rocha foi
ferida, e as á guas refrescantes brotaram, de forma que as almas sedentas
podem beber. "A á gua que eu lhe der", diz Cristo, "se fará nele uma fonte de
á gua que salte para á vida eterna" (Jo 4:14). E mais adiante, lemos: "E, no
ú ltimo dia, o grande dia dà festa, Jesus pô s-se em pé, e clamou, dizendo: Se
alguém tem sede, venha a mim e beba. Quem crê em mim, como diz a
Escritura, rios de á gua viva correrã o do seu ventre. E isto disse ele do Espírito,
que haviam de receber os que nele cressem; porque o Espírito Santo ainda nã o
fora dado, por ainda Jesus nã o ter sido glorificado" Qo 7:37 - 39).
Assim como temos no maná uma figura de Cristo, de igual modo
temos uma figura do Espírito Santo na á gua brotando da rocha." Se tu
conheceras o dom de Deus (Cristo)... tu lhe pedirias, e ele te daria á gua viva"
— quer dizer, o Espírito.
Tal é, portanto, o ensino ministrado à mente espiritual com a rocha
ferida; todavia, o nome do lugar no qual esta figura foi apresentada é um
memorial perpétuo da incredulidade do homem. "E chamou o nome daquele
lugar Massa" (que quer dizer tentação) "e Meribá " (que quer dizer murmurar)
"por causa da contenda dos filhos de Israel, e porque tentaram ao SENHOR,
dizendo: Está o SENHOR no meio de nó s, ou nã o?" (versículo 7). Levantar uma
123
tal interrogaçã o, depois de tantas e repetidas garantias evidentes da presença
de Jeová, prova a incredulidade profundamente arraigada no coraçã o humano.
Era, de fato, tentar o Senhor.
Foi assim também que os judeus, tendo a presença de Cristo com eles,
pediram um sinal do céu, tentando-o.
A fé nunca atua assim; crê na presença divina e goza dela, nã o por
meio de um sinal, mas pelo conhecimento que tem do pró prio Deus. Conhece
que Deus está presente para gozar d'Ele. Que o Senhor nos conceda um
espírito de verdadeira confiança n'Ele!
Amaleque
O ponto sugerido a seguir por este capítulo é de particular interesse
para nó s. "Entã o, veio Amaleque e pelejou contra Israel em Refidim. Pelo que
disse Moisés a Josué: Escolhe-nos homens, e sai, peleja contra Amaleque:
amanhã , eu estarei sobre o cume do outeiro, e a vara de Deus estará na minha
mã o" (versículos 8 e 9). O dom do Espírito Santo conduz à luta. A luz reprime e
luta com as trevas. Onde tudo é obscuridade nã o há luta; porém a mais
pequena luta indica a presença da luz: "...a carne cobiça contra o Espírito, e o
Espírito, contra a carne; e estes opõ em-se um ao outro; para que nã o façais o
que quereis" (Gl 5:17). Assim acontece com este capítulo: a rocha é ferida e as
á guas brotam dela, e lemos imediatamente, "entã o veio Amaleque e pelejou
contra Israel".
Esta é a primeira vez que Israel se vê em luta com um inimigo
exterior. Até este momento o SENHOR havia pelejado por eles, conforme lemos
em capítulo 14: "O SENHOR pelejará por vó s e vos calareis". Porém, agoraédito:
"Escolhe-nos homens". Em boa verdade, Deus tem agora que lutar em Israel,
assim como havia lutado,?or eles. E nisto que está a diferença, quanto ao
símbolo; e quanto ao antítipo, sabemos que existe uma grande diferença entre
os combates de Cristopor nó s e a luta do Espírito Santoem nó s. Aqueles
acabaram, bendito seja Deus, a vitó ria foi ganha, e uma pazgloriosa e eterna foi
alcançada. Esta, pelo contrá rio, continua ainda.
Faraó e Amaleque representam dois poderes ou influências dife-
rentes: Faraó representa o impedimento à libertaçã o de Israel do Egito;
Amaleque representa o estorvo á sua caminhada com Deus pelo deserto.
Faraó serviu-se das coisas do Egito para impedir Israel de servir ao Senhor;
por isso prefigura Sataná s, que se serve "deste presente século mau" (Gl 1:4)
contra o povo de Deus. Amaleque, pelo contrá rio, é-nos apresentado como o
protó tipo da carne. Era neto de Esaú , o qual preferiu um prato de lentilhas ao
direito de primogenitura (veja-se Gn 36:12), e foi o primeiro que se opô s ao
avanço de Israel depois do seu batismo "na nuvem e no mar" (1 Co 10:2).
Estes fatos servem para definir o seu cará ter com grande distinçã o; e, além
disso, sabemos que Saul foi deposto do trono do reino de Israel em
consequência de ter falhado em destruir Amaleque (1 Sm 15). E, mais
descobrimos que Hamã é o ú ltimo dos amalequitas de quem se fala nas
124
Escrituras. Foi enforcado, em consequência do seu pecaminoso atentado
contra a semente de Israel (veja-se Es 3:1). Nenhum amalequita podia entrar
na congregaçã o do Senhor. E, finalmente, no capítulo que temos perante nó s, o
Senhor declara guerra perpétuaa Amaleque.
Todas estas circunstâ ncias podem ser consideradas como dando
evidência concludente do fato que Amaleque é uma figura da carne. A ligaçã o
entre o seu conflito com Israel e a á gua correndo da rocha é a mais notá vel e
instrutiva e está de perfeita harmonia com o conflito do crente com a sua
natureza pecaminosa; conflito este, que, como sabemos, é a consequência de
ele ter a nova natureza e o Espírito Santo habitar em si. A luta de Israel
começou logo que se acharam de posse da redençã o e depois de haverem
provado o "manjar espiritual" e bebido "da pedra espiritual" (ICo 10:3-4).
Antes de encontrarem Amaleque nada tinham que fazer. Nã o contenderam
com Faraó ; nã o destruíram o poder do Egito nem despedaçaram as cadeias da
servidã o; nã o dividiram o mar nem submergiram as hostes de Faraó nas suas
á guas; nã o fizeram descer pã o do céu, nem tiraram á gua da pederneira. Nã o
fizeram nem poderiam fazer nenhuma destas coisas; porém agora sã o
chamados para lutar com Amaleque. O conflito anterior tinha sido todo entre
Jeová e o inimigo. Eles apenas tiveram que estar "quietos" e contemplar os
triunfos poderosos do braço estendido do Senhor e gozar os frutos da vitó ria.
O Senhor havia lutado por eles; porém agora luta neles e por meio deles.
— CAPÍTULO 18 —
— CAPITULO 19 —
ISRAEL
AO PÉ DO MONTE SINAI
O Pacto da Graça
Eis-nos agora chegados a um ponto muito importante na histó ria de
Israel. O povo fora conduzido ao pé do "monte palpá vel, acesso em fogo" (Hb
12:18). A cena de gló ria milenial, que nos apresenta o capítulo anterior,
desaparecera. Fora apenas um momento breve de sol durante o qual fora
proporcionada uma viva imagem do reino; porém o sol desvaneceu-se
rapidamente e grossas nuvens amontoaram-se sobre esse "monte palpá vel",
onde Israel, num espírito funesto e insensível de legalismo, abandonou o pacto
de graça de Jeová pela aliança das obras do homem. Impulso fatal! Que foi
seguido dos resultados mais funestos. Até aqui, como temos visto, nenhum
inimigo pô de subsistir diante de Israel — nenhum obstá culo pô de deter a sua
marcha vitoriosa. Os exércitos de Faraó haviam sido destruídos; Amaleque e o
seu povo haviam sido passados a fio de espada: tudo fora vitó ria, porque Deus
interviera a favor do Seu povo, em conformidade com as promessas que fizera
a Abraã o, Isaqueejacó .
Nos primeiros versículos do capítulo que temos perante nó s, o Senhor
resume de uma maneira tocante aquilo que tem feito por Israel: "Assim falará s
à casa de Jacó e anunciará s aos filhos de Israel: Vó s tendes visto o que fiz aos
egípcios, como vos levei sobre asas de á guias, evos trouxe a mim; agora, pois,
se diligentemente ouvirdes a minha voz, e guardardes o meu concerto, entã o
sereis a minha propriedade peculiar de entre todos os povos; porque toda a
terra é minha. E vó s me sereis um reino sacerdotal e o povo santo" (versículos
3 a 6). Note-se que o Senhor disse: "a minha voz" e "o meu concerto". Que dizia
essa "voz" e que implicava esse "concerto"? A voz de Jeová tinha-se feito ou
vir para impor as leis e as ordenaçõ es de um legislador severo e inflexível? De
modo nenhum. Falou para dar liberdade aos cativos—para prover um refú gio
da espada do destruidor—,para preparar um caminho para que os remidos
133
pudessem passar, para fazer descer pã o do céu, para fazer brotar á gua da
rocha. Tais foram as expressõ es graciosas e inteligíveis da "voz" do Senhor até
ao momento em que Israel acampou defronte do monte.
Quanto ao Seu "concerto" era um concerto de pura graça. Nã o
impunha condiçõ es, nã o podia nada, nã o punha nenhum fardo sobre os
ombros nem jugo no pescoço. Quando "o Deus da gló ria apareceu" a Abrã o em
Ur dos caldeus (At 7:2), de certo que nã o lhe disse "fará s isto" e "nã o fará s
aquilo". Oh! nã o; uma tal linguagem nã o seria segundo o coraçã o de Deus. Ele
prefere muito mais pô r uma mitra limpa sobre a cabeça do pecador do que
pô r um jugo de ferro sobre o seu pescoço (Zc 3:5; Dt 28:48). A Sua palavra a
Abraã o foi: "DAR-TE-EI". A terra de Canaã nã o podia ser adquirida pelas obras
do homem, mas devia ser dada pela graça de Deus. Assim era; e, no princípio
do livro do Ê xodo vemos Deus descendo em graça para cumprir a Sua
promessa aos descendentes de Abrã o. O estado em que encontrou essa
posteridade nã o importava, tanto mais que o sangue do cordeiro Lhe dava um
fundamento perfeitamente justo para realizar a Sua promessa. Evidentemente
nã o havia prometido a terra de Canaã à posteridade de Abrã o com base em
qualquer coisa que houvesse antevisto neles, porque isto teria destruído a
verdadeira natureza de uma promessa. Em tal caso teria sido um pacto e nã o
uma promessa: "ora as promessas foram feitas a Abraã o", nã o por um pacto
(veja-se Gá latas 3).
Por isso, no princípio desse capítulo 19, faz-se lembrar ao povo a
graça com que o Senhor havia tratado com eles até ali, e recebem também a
garantia daquilo que ainda hã o-de ser, contanto que continuem a atender a
"voz" celestial de misericó rdia e a permanecer no "pacto" de graça. "Sereis a
minha propriedade peculiar de entre todos os povos". Como podiam eles
conseguir isto? Podiam consegui-lo aos tropeçõ es pela escada da pró pria
justiça e do legalismoi Seriam uma "propriedade peculiar" quando
amaldiçoados pelas maldiçõ es de uma lei transgredida—violada antes mesmo
de a haverem recebido? Seguramente que nã o. Logo, como ia ser esta
"propriedade peculiar"? Permanecendo naquela posiçã o em que o Senhor os
viu quando obrigou o profeta ambicioso a exclamar: "Que boas sã o as tuas
tendas, ó Jacó lQue boas as tuas moradas, ó Israel! Como ribeiros se estendem,
como jardins ao pé dos rios; como á rvores de sândalo o SENHOR a plantou,
como cedros junto às á guas. De seus baldes manarã o á guas, e a sua semente
estará em muitas á guas; e o seu rei se exalçará mais do que Agague, e o seu
reino será levantado. Deus o tirou do Egito; as suas forças sã o como as do
unicó rnio; consumirá as gentes, seus inimigos, e quebrará seus ossos, e com as
suas setas os atravessará " (Nm 24:5 - 8).
Um Compromisso Presunçoso
Contudo, Israel nã o estava disposto a ocupar esta posiçã o. Em vez de
se regozijarem com "a santa promessa" de Deus, aventura-ram-se a tomar
ovotomais presunçoso que lábios humanos podiam pronunciar. "Entã o, todo o
134
povo respondeu a uma voz e disse: Tudo o que o SENHOR tem falado faremos"
(versículo 8). Esta linguagem era ousada. Nã o disseram, "esperamos fazer" ou
"procuraremos fazer" o que o Senhor disser; o que teria mostrado certo grau
de desconfiança em si mesmos. Mas nã o: pronunciaram-se da maneira mais
absoluta: "Faremos". Nem tampouco isto era a linguagem de alguns espíritos
presunçosos, cheios de confiança em si mesmos que presumiam representar
toda a congregaçã o. Nã o; "Todo o povo respondeu a uma voz". Abandonaram
unâ nimes a "santa promessa" —o "concerto santo."
E agora, veja-se o resultado. Logo que Israel pronunciou o seu "voto"
singular, assim que decidiu "fazer" tudo o que o Senhor mandasse, deu-se uma
mudança no aspecto das coisas. "E disse o SENHOR a Moisés: Eis que eu virei a
únuma nuvem espessa... e marcará s limites ao povo em redor, dizendo:
Guardai-vos, que nã o subais o monte, nem toqueis o seu termo; todo aquele
que tocar o monte certamente morrerá ". Vemos nesta passagem uma
mudança notá vel: Aquele que acabava de dizer,"... vos levei sobre asas de
á guias e vos trouxe a mim", agora oculta-Se "numa nuvem espessa" e diz:
"Marcará s limites ao povo em redor". Os acentos agradá veis de graça sã o
trocados pelos "trovõ es e relâ mpagos" do monte fumegante. O homem havia
ousado falar das suas miserá veis obras na presença da magnificente graça de
Deus. Israel dissera: "Faremos", e portanto é preciso que sejam postos à
distâ ncia de forma a poder verse claramente o que é que podem fazer. Deus
toma o lugar de distâ ncia moral; e o povo nã o pensa de modo nenhum em
encurtá --la, porque todos estã o cheios de temor e tremendo; e nã o era de
admirar, porque a visã o era; "terrível" — tã o terrível que "Moisés disse: Estou
todo assombrado e tremendo (Hb 12:25). Quem poderia suportar a vista
desse "fogo consumidor", que era a justa expressã o da santidade divinal "...O
SENHOR veio de Sinai, e lhes subiu de Seir; resplandeceu desde o monte Para, e
veio com dez milhares de santos; à sua direita havia para eles o fogo da lei" (Dt
33:2). Otermo"fogo", aplicadoà lei, mostraa sua santidade. "O nosso Deus é um
fogo consumidor" (Hb 12:29) — que nã o transige com o mal em pensamento,
palavras ou açõ es.
Desta forma, pois, Israel cometeu um erro fatal em dizer, "faremos".
Isto era fazer um voto que nã o podiam, ainda mesmo que quisessem, cumprir;
e nó s conhecemos aquele que disse "melhor é que nã o votes do que votes e
nã o pagues" (Ec 5:5). O pró prio cará ter do voto implica a competência de o
cumprir; e onde está a competência do homem?- Para um pecador
desamparado fazer um voto, seria o mesmo que um homem falido passar um
cheque sobre um banco. Aquele que faz um voto nega a verdade quanto à sua
pró pria condiçã o e natureza. Está arruinado, que poderá fazer?-Encontra-se
inteiramente sem forças, e nã o pode querer nem fazer nada bom. Israel
cumpriu o seu voto?- Fizeram tudo que o Senhor lhes havia mandado? O
bezerro de outro, as tá buas feitas em pedaços, o sábado profanado, as
ordenaçõ es menosprezadas e abandonadas, os mensageiros de Deus
apedrejados, o Cristo rejeitado e crucificado, e a resistência ao Espírito, sã o
135
provas esmagadoras de como o homem violou os seus votos. Acontecerá
assim sempre que a humanidade caída fizer votos.
Nã o se regozija o leitor cristã o no fato de que a sua salvaçã o eterna
nã o descansa sobre os seus miserá veis votos e resoluçõ es, mas sim sobre a
"oblaçã o do corpo de Jesus Cristo, feita uma vez"? (Hb 10:10). Oh, sim, é sobre
este fato que está fundado o nosso gozo, que nunca pode falhar. Cristo tomou
todos os nossos votos sobre Si Mesmo e cumpriu-os gloriosamente para todo
o sempre. ASua vida de ressurreiçã o corre nos Seus membros e produz neles
resultados que os votos e as exigências da lei nã o podiam produzir. Ele é a
nossa vida e a nossa justiça. Que o Seu nome seja precioso para os nossos
coraçõ es e que a Sua causa domine sempre anossa vida. Que a nossa comida e
a nossa bebida seja gastar e gastarmo-nos no Seu glorioso serviço.
Nã o posso terminar este capítulo sem mencionar uma passagem do
Livro de Deuteronô mio, que pode oferecer alguma dificuldade para certos
espíritos e que se relaciona com o assunto que acabamos de tratar. "Ouvindo,
pois, o SENHOR a voz das vossas palavras, quando me falá veis a mim, o SENHOR
me disse-. Eu ouvi a voz das palavras deste povo, que te disseram; em tudo
falaram eles bem" (Dt 5:28). Poderia parecer, segundo estas palavras, que o
Senhor aprovava que eles tivessem feito um voto; porém, se o leitor se der ao
trabalho de ler todo o contexto, desde o versículo 24 ao versículo 27, verá
imediatamente que nã o se trata de um voto, mas da expressã o do seu terror
por causa das consequências do seu voto. Nã o podiam suportar aquilo que
lhes era ordenado. "Se ainda mais ouvíssemos a voz do SENHOR, nosso Deus,
morreríamos. Porque, quem há, de toda a carne, que ouviu a voz do Deus
vivente falando do meio do fogo, como nó s, e ficou vivo? Chega-te tu, e ouve
tudo o que disser o SENHOR nosso Deus; e tu nos dirá s tudo o que te disser o
SENHOR nosso Deus, e o ouviremos, e o faremos". Era esta a confissã o da sua
incapacidade para se encontrarem com o Senhor sob o aspecto terrível a que o
seu legalismo orgulhoso os havia levado. É impossível que o Senhor possa
aprovar o abandono de graça imutá vel por um fundamento movediço de
"obras da lei".
— CAPÍTULO 20 —
A LEI
A Lei e a Graça
É da maior importâ ncia compreender o verdadeiro cará ter e o objeto
da lei moral, como nos é apresentada neste capítulo. Existe uma tendência no
homem para confundir os princípios da lei com graça, de sorte que nem a lei
136
nem a graça podem ser perfeitamente compreendidas. Alei é despojada da sua
austera e inflexível majestade, e a graça é privada de todos os seus atrativos
divinos. As santas exigências de Deus ficam sem resposta, e as profundas e
mú ltiplas necessidades do pecador permanecem insolú veis pelo sistema
anó malo criado por aqueles que tentam confundir a lei com a graça. Com
efeito, nunca podem confundir-se, visto que sã o tã o distintas quanto o podem
ser duas coisas. Alei mostra-nos o que o homem deveria ser; enquanto que a
graça demonstra o que Deus é. Como poderã o, pois, ser unidas num mesmo
sistema1?- Como poderia o pecador ser salvo por meio de um sistema formado
em parte pela lei e em parte pela graça 1? Impossível: ele tem de ser sal vo por
uma ou por outra.
A lei tem sido à s vezes chamada "a expressã o do pensamento de
Deus". Mas esta definiçã o é inteiramente inexata.. Se a considerá ssemos como
a expressã o daquilo que o homem deveria ser, estaríamos mais perto da
verdade. Se eu considerar os dez mandamentos como a expressã o do
pensamento de Deus, entã o, pergunto, nã o há nada mais no pensamento de
Deus senã o "fará s" isto e "nã o fará s" aquilo? Nã o há graça, nem misericó rdia
nem bondade? Deus nã o manifestará aquilo que é, nem revelará os segredos
profundos desse amor que enche o Seu coraçã o? Nã o existe nada mais no
coraçã o de Deus senã o exigências e proibiçõ es severas"? Se fosse assim,
teríamos de dizer que "Deus é lei"emvezde dizermos que" Deus é amor".
Porém, bendito seja o Seu nome, existe muito mais em Seu coraçã o do que
jamais poderã o expressar os "dez mandamentos" pronunciados no monte
fumegante. Se quero saber o que Deus é, devo olhar para Cristo; "porque nele
habita corporalmente toda a plenitude da divindade" (Cl 2:9).
"PorquealeifoidadaporMoisés;agraçaeaverdadevieram por Jesus Cristo" (Jo
1:17). Certamente, na lei achava-se uma certa medida de verdade; continha a
verdade quanto à quilo que o homem deveria ser. Como tudo que emana de
Deus, a lei era perfeita — perfeita para alcançar o fim a que era destinada;
porém esse fim nã o era, de modo nenhum, revelar, perante pecadores
culpados, a natureza e o cará ter de Deus. Nã o havia graça nem misericó rdia.
"Quebrantando alguém a lei de Moisés, morre sem misericó rdia" (Hb 10.28).
"Ohomem que fizer estascoisas viverá por elas" (Lv 18:5; Rm 10:5). "Maldito
todo aquele que nã o permanecer em todas as coisas que estã o escritas no livro
da lei, para fazê-las" (Dt 27:26; Gl 3:10). Nada disto era graça. Com efeito, o
monte Sinai nã o era o lugar para se procurar tal coisa. Jeová revelou-Se ali em
majestade terrível, no meio da obscuridade, trevas, tempestade, trovõ es e
relâ mpagos. Estas circunstâ ncias nã o sã o aquelas que acompanham uma
dispensaçã o de graça e misericó rdia; mas eram pró prias de uma dispensaçã o
de verdade e justiça: e a lei nã o era mais que isso.
Na lei Deus declara o que o homem deveria ser, e pronuncia a
maldiçã o sobre ele se o nã o for. Ora quando o homem se examine à luz da lei
descobre que é precisamente aquilo que a lei condena. Como poderá ele,
portanto, obter a vida por meio da lerv A lei propõ e a vida e a justiça como os
137
fins a alcançar, guardando-a; mas mostra-nos, desde o primeiro momento, que
nos encontramos num estado de morte e iniquidade. Precisamos desde o
primeiro momento das mesmíssimas coisas que a lei propõ e alcançar-nos no
fim. Como vamos nó s, portanto, obtê-las? Para cumprir aquilo que a lei requer
é preciso que eu tenha vida; e para ser o que a lei exige devo possuir a justiça;
e se eu nã o tiver vida e justiça sou "maldito". Porém, o fato é que eu nã o tenho
uma nem a outra. Que devo entã o f azer4- Eis a questã o. Que respondam
aqueles que querem ser "doutores da lei" (1 Tm 1.7): que dêem uma resposta
pró pria para uma consciência reta, curvada sob o sentido duplo da
espiritualidade e inflexibilidade da lei e a sua carnalidade desesperada.
O Propósito da Lei
A verdade é que, como nos ensina o apó stolo, a lei veio para que a
ofensa abundasse (Rm5:20). Isto mostra-nos claramente o verdadeiro
objetivo da lei: veio a propó sito para que o pecado se fizesse excessivamente
maligno (Rm 7:13). Era, em certo sentido, como um espelho perfeito enviado
para revelar ao homem o seu desarranjo moral. Se eu me puser diante de um
espelho com o meu vestuá rio desarranjado, o espelho mostra-me o
desarranjo, mas nã o o põ e em ordem. Se eu fizer descer sobre um muro
tortuoso um prumo, o prumo mostra a tortuosidade, mas nã o a altera. Se eu
sair numa noite escura com uma luz, esta revela-me todos os obstá culos e
dificuldades que se acham no caminho, mas nã o os remove. Além disso, o
espelho, o prumo, e a luz nã o criam os males que revelam distintamente: nem
os criam nem os afastam, apenas os revelam. O mesmo acontece com a lei: nã o
cria o mal no coraçã o dohomem nem tampouco o tira; mas revela-o com
infalível exatidã o.
"Que diremos pois4 É a lei pecado 1?- De modo nenhum; mas eu nã o
conheci o pecado senã o pela lei; porque eu nã o conheceria a concupiscência se
a lei nã o dissesse: Nã o cobiçará s" (Rm 7:7). O apó stolo nã o diz que nã o teria
tido "concupiscência". Nã o, mas apenas que nã o a teria conhecido. A
"concupiscência" existia; mas ele estava à s escuras quanto ao fato, até que a
lei, como a luz do Deus Onipotente, brilhou nos recessos tenebrosos do seu
coraçã o e revelou o mal que nele havia Assim como um homem numa câ mara
escura pode estar rodeado de poeira e confusã o sem contudo poder ver nada
por causa da escuridã o. Mas deixai que os raios de sol penetrem ali e ele
distinguirá imediatamente tudo. São os raios de sol que formam o pó ?
Certamente que nã o. O pó encontra-se ali, e os raios de sol apenas o detectam
e revelam. Isto é apenas uma simples ilustraçã o dos efeitos da lei: julga o
cará ter e a condiçã o do homem. Julga o pecador e encerra-o debaixo da
maldiçã o: vem para julgar o que ele é e amaldiçoa-o se ele nã o é o que ela lhe
diz que deve ser.
A Mensagem da Graça
Além disso, quando Deus deu, no monte Sinai, as exigências severas
do concerto das obras, dirigiu-Se exclusivamente a um povo. A sua voz foi
ouvida unicamente dentro dos estreitos limites da naçã o judaica; porém,
quando, nas planícies de Belém, "o anjo do Senhor" proclamou "novas de
grande alegria", acrescentou estas palavras características, "que serápara todo
o povo" (Lc 2:10). Quando o Cristo ressuscitado enviou os Seus arautos de
salvaçã o, a Sua mensagem era redigida assim: "Ide por todo o mundo, pregai o
141
evangelho a toda a criatura" (Mc 16:15). A onda poderosa da graça, que tinha
a sua origem no seio de Deus e o seu leito no sangue do Cordeiro, estava
destinada a elevar-se, na energia irresistível do Espírito Santo, muito acima
dos estreitos limites de Israel e rolar através do comprimento e largura de um
mundo manchado de pecado. "Toda a criatura" devia ouvir "na sua pró pria
língua" a mensagem da paz, a palavra do evangelho, o relato da salvaçã o pelo
sangue da cruz.
Finalmente, para que nada pudesse faltar para dar a prova aos nossos
coraçõ es legalistas que o monte Sinai nã o era, de modo nenhum, o lugar onde
os segredos profundos do coraçã o de Deus foram revelados, o Espírito Santo
disse, tanto por boca de um profeta como de um apó stolo: "Quã o formosos os
pés dos que anunciam a paz, dos que anunciam coisas boas!" (Is 52:7; Rm
10:15). Porém, daqueles que queriam ser doutores da mesma lei o Espírito
Santo disse: "Eu quereria que fossem cortados aqueles que vos andam
inquietando" (GI5:12).
A Lei e o Evangelho
Desta forma, é evidente que a lei nã o é nem o fundamento de vida
para o pecador nem a regra de vida para o cristã o. Cristo é tanto uma coisa
como a outra. Ele é a nossa vida e a nossa regra de vida. Alei só pode
amaldiçoar e matar. Cristo é a nossa vida e justiça. Ele fez-Se maldiçã o por nó s
sendo pregado no madeiro. O Senhor desceu ao lugar onde estava o pecador—
ao lugar da morte e do juízo —, e, havendo, pela Sua morte, cumprido
inteiramente tudo que era ou poderia ser contra nó s, tornou-Se, na
ressurreiçã o, a origem de vida e o fundamento de justiça para todos os que
crêem no Seu nome. Possuindo assima vida e a justiça n'Ele, somos chamados
para andar, nã o apenas como a lei ordena, mas "como ele andou" (1 Jo 2:6).
Será desnecessá rio afirmar que matar, cometer adultério ou roubar, sã o atos
diretamente opostos à moral cristã . Mas se um cristã o regulasse a sua vida
segundo esses mandamentos ou de acordo com o decá logo produziria esses
frutos raros e delicados de que fala a espístola aos Efésios 1?- Poderiam os dez
mandamentos fazer com que um ladrã o nã o roubasse mais e trabalhasse a fim
de poder ter que dar4 Transformariam jamais um ladrã o num homem
laborioso e liberais Nã o, por certo. A lei diz: "Nã o furtará s"; mas acaso diz, "dá
àquele que está em necessidade" — vai, dá de comer ao teu inimigo, veste-o e
abençoa-o —, vai e alegra por teus sentimentos benevolentes e teus atos
beneficentes o coraçã o daquele que procura sempre prejudicar-te? De modo
nenhum; e, contudo, se eu estivesse sob a lei, como regra, ela só podia
amaldiçoar-me e matar-me. Como pode ser isto, sendo o padrã o do Novo
Testamento muito mais elevado"? É porque sou fraco e a lei nã o me dá forças
nem me mostra misericó rdia. A lei exige força daquele que nã o tem nenhuma
eantaldiçoa-o se ele nã o pode mostrá -la. Mas o evangelho dá forças à quele que
nã o tem nenhuma, e abençoa-o na manifestaçã o dessa força. A lei propõ e a
vida como o fim da obediência; o evangelho dá vida como o pró prio e ú nico
142
fundamento de obediência.
Mas, para nã o fatigar o leitor à força de argumentos, pergunto, se a lei
é, realmente, a regra de vida do crente, em que parte do Novo Testamento se
apresenta ela assima Evidentemente o apó stolo nã o tinha tal pensamento
quando disse. "Porque, em Cristo Jesus, nem a circuncisã o nem a incircuncisã o
têm virtude alguma, mas sim o ser um nova criatura. E, a todos quantos
andarem conforme esta regra, paz e misericó rdia sobre eles e sobre o Israel de
Deus" (Gl 6:15-16). Qual regra? A lei?- Nã o, mas sim a "nova criatura".
Em capítulo 20 de Ê xodo nã o encontramos uma só palavra quanto à
"nova criaçã o". Pelo contrá rio, este capítulo é dirigido ao homem tal qual ele é,
no seu estado natural da velha criaçã o, e põ e-no à prova para saber o que ele
pode realmente fazer. Ora se a lei era a regra pela qual os crentes deviam
andar, por que pronuncia o apó stolo a sua bênçã o sobre os que andam
segundo uma regra totalmente diferen-tei Por que nã o diz ele, "a todos
quantos andarem conforme a regra dos dez mandamentos" 1? Nã o é evidente,
segundo esta passagem, que a Igreja de Deus tem uma regra mais elevada
segundo a qual deve andara É , indiscutivelmente. Os dez mandamentos,
embora façam parte, como todos os verdadeiros crentes admitem, do cânon
de inspiraçã o, nunca poderiam ser a regra de fé para todo aquele que tenha,
pela graça infinita, sido introduzido na nova criaçã o—todo aquele que tem
recebido nova vida em Cristo.
A Lei é Perfeita
Mas, pode perguntar-se, "a lei nã o é perfeita? E se é perfeita que mais
pode desejar-se?- A lei é divinamente perfeita. Na verdade, a pró pria perfeiçã o
da lei é a razã o de amaldiçoar e matar aqueles que nã o sã o perfeitos e
pretendem subsistir perante ela. "A lei é espiritual, mas eu sou carnal" (Rm
7:14). É inteiramente impossível fazer-se uma ideia justada
perfeiçã oeespiritualidadedalei. Porém, esta lei perfeita estando em contato
com a humanidade caída—esta lei espiritual entrando em contato com a
mente carnal—só podia produzir a "ira" e a "inimizade" (Rm 4:15; 8:7). Por
quê 1?- É porque a lei nã o é perfeita?- Ao contrá rio, é porque ela o é e o homem
é pecador. Se o homem fosse perfeito cumpriria a lei em toda a sua perfeiçã o
espiritual; e até mesmo no caso de crentes verdadeiros, embora tragam ainda
consigo uma natureza corrompida, o apó stolo ensina-nos: "Para que a justiça
da lei se cumprisse em nó s, que nã o andamos segundo a carne, mas segundo o
espírito" (Rm 8:4): ".. .porque quem ama aos outros cumpriu a lei... O amor
nã o faz mal ao pró ximo. De sorte que o cumprimento da lei é o amor" (Rm
13:8 e 10). Se eu amar o pró ximo nã o furtarei aquilo que lhe pertence; pelo
contrá rio, procurarei fazer-lhe todo o bem que puder. Tudo isto é claro e fá cil
de compreender por uma alma espiritual; mas nã o toca na questã o da lei, quer
seja como fundamento de vida do pecador ou de regra de vida para o crente.
A Adoração
Depois de tudo que temos visto, há um interesse particular para o
homem espiritual observar a posiçã o relativa de Deus e o pecador no Hm
deste memorá vel capítulo. "Entã o, disse o SENHOR a Moisés: Assim dirá s aos
filhos de Israel:... Um altar de terra me fará s e sobre ele sacrificará s os teus
holocaustos, e as tuas ofertas pacíficas e as tuas ovelhas, e as tuas vacas; em
todo lugar onde eu fizer celebrar a memó ria do meu nome, VIREI ATI E TE
ABENÇOAREI. E, se me fizeres um altar de pedras, nã o o fará s de pedras
lavradas; se sobre ele levantares o teu buril, profaná -lo-á s. Nã o subirá s
também por degraus ao meu altar, para que a tua nudez nã o seja descoberta
diante deles" (versículos 22 á 26).
Nã o vemos nesta passagem o homem na posiçã o de fazer obras, mas
na de um adorador: e isto no fim do capítulo 20 do Ê xodo. Este fato ensina-nos
claramente que o ambiente de Sinai nã o é aquele que Deus quer que o pecador
respire—o monte de Sinai nã o é o lugar pró prio para o encontro de Deus com
o homem:".. .em todo o lugar onde eu fizer celebrar a memó ria do meu nome
virei a ti e te abençoarei". Como esse lugar onde Jeová faz celebrar a memó ria
do Seu nome, e onde vem para abençoar o Seu povo em adoraçã o, é diferente
dos terrores do monte fumegante!
Mas, além disso, pode encontrar-Se com o pecador num altar sem
pedras lavradas ou degraus—um lugar de culto cuja construçã o nã o necessita
da arte do homem ou esforço humano para dele se aproximar. As pedras
lavradas por mã o do homem só podiam manchar o altar e os degraus só
podiam descobrir a "nudez" humana. Que símbolo admirá vel do lugar onde
Deus encontra agora o pecador, a pró pria Pessoa e obra de Seu Filho, Jesus
Cristo, em Quem todas as exigências da lei e da justiça e da consciência sã o
perfeitamente cumpridas! Em todos os tempos e em todos os lugares, o
homem tem estado sempre pronto, de um modo ou de outro, a levantar os
seus instrumentos na construçã o do seu altar ou para se aproximar dele pelos
degraus de sua pró pria invençã o. Porém, o resultado dessas tentativas tem
sido a contaminação e a nudez... "todos nó s somos como o imundo, e todas as
nossas justiças, como trapo da imundícia; e todos nó s caímos como a folha, e
as nossas culpas, como um vento, nos arrebatam" (Is 64:6). Quem se atreveria
a aproximar-se de Deus com um vestuá rio de "trapo da imundície?" Ou quem
poderá adorá -Lo na sua "nudeza" Que maior absurdo poderia haver do que
pensar em chegar à presença de Deus de um modo que necessariamente inclui
145
contaminaçã o ou nudeza E contudo sucede assim sempre que o esforço
humano é empregado para abrir o caminho para Deus. Nã o somente esse
esforço é desnecessá rio como está marcado com a contaminaçã o e a nudez.
Deus veio tã o perto do pecador, até mesmo à profundidade da sua ruína, que
nã o há necessidade de ele levantar o instrumento da legalidade ou de subir os
degraus da justiça pró pria — fazê-lo é apenas expor a sua imundícia e a sua
nudez.
Sã o estes os princípios com que o Espírito Santo termina esta parte
notá vel deste livro inspirado. Que Deus os inscreva em nossos coraçõ es de
forma a podermos compreender claramente a diferença essencial entre a LEI e
a GRAÇA.
— CAPITULO 21 a 23 —
AS ORDENANÇAS
E AS PENALIDADES
A Infinita Condescendência de Deus para cora o Homen
O estudo desta parte do Livro do Ê xodo está calculado para
compenetrar o coraçã o do significado da sabedoria inescrutá vel e infinita
bondade de Deus. Com este estudo podemos formar uma ideia de um reino
governado por leis estabelecidas por Deus. Podemos ver nele também a
maravilhosa condescendência d'Aquele que, nã o obstante ser o grande Deus
do céu e da terra pode, todavia, curvar-Se para julgar entre os homens a morte
de um boi, o empréstimo de um vestido ou a perda do dente de um servo.
"Quem é como o SENHOR nosso Deus, que habita nas alturas; que se curva para
ver o que está nos céus ena terral" (Sl 113:5-6). Governa o universo e, todavia,
pode ocupar-Se com o suprimento de vestuá rio para uma das Suas criaturas.
Dirige o vô o dos anjos e toma nota do rastejar de um verme. Humilha-Se a Si
Pró prio para regular o movimento dos inumerá veis astros que se movem no
espaço infinito e para registrar a queda de um pardal.
Quando ao cará ter das leis apresentadas no primeiro destes capítulos,
podemos aprender nele uma liçã o dupla. Essas leis e ordenaçõ es dã o um
testemunho duplo: trazem-nos uma mensagem e põ em perante os nossos
olhos dois lados de um quadro. Falam de Deus e do homem.
Em primeiro lugar, quando a Deus, vêmo-Lo decretar leis que
mostram justiça perfeita, estrita e imparcial. "Olho por olho, dente por dente,
mã o por mã o, pé por pé, queimadura por queimadura, ferida por ferida, golpe
por golpe". Tal era o cará ter das leis, dos estatutos e dos juízos por meio dos
quais Deus governava o Seu reino terrestre de Israel. Previu-se tudo,
146
defenderam-se todos os interesses, e atenderam-se todas as reclamaçõ es. Nã o
houve parcialidade, nã o se fez diferença entre ricos e pobres. A balança em
que se pesaram as reivindicaçõ es de cada homem foi afinada com precisã o
divina, de forma que ninguém pudesse justamente apelar de uma decisã o. A
toga pura da justiça nã o podia ser manchada com as nó doas imundas dos
suborno, da corrupçã o ou da parcialidade. Os olhos e as mã os de um
Legislador divino precaveram tudo; e o Executivo divino tratou
inflexivelmente com todo o delinquente. O golpe da justiça caiu somente sobre
a cabeça do culpado, enquanto que toda a alma obediente foi protegida no
gozo de todo os seus direitos e privilégios.
Em segundo lugar, quanto ao homem, é impossível ler todas estas leis
sem se ficar impressionado com a declaraçã o que, indireta, mas realmente,
fazem da sua depravaçã o. O fato de o Senhor ter de promulgar leis contra
certos crimes prova que o homem era capaz de os cometer. Se essa capacidade
ou tendência nã o existisse no homem, nã o haveria necessidade da
promulgaçã o das leis. Ora, há muitas pessoas que, se as abominaçõ es
grosseiras proibidas por este capítulo lhes fossem relatadas podiam sentir-se
tentadas a adoptar a linguagem de Hazael e dizerem: "Pois que é teu servo,
que nã o é mais que um cã o, para fazer tal coisa?" (2 Rs 8:13). Estas pessoas
nã o desceram ainda ao profundo abismo do seu pró prio coraçã o. Porque
embora alguns dos crimes aqui proibidos pareçam colocar o homem, quanto a
seus há bitos e inclinaçõ es, abaixo do nível de um cã o, estes mesmíssimos
estatutos provam, além de toda a controvérsia, que o membro mais polido e
cultivado da família humana traz em seu coraçã o as sementes das
abominaçõ es mais tenebrosas, horríveis e abominá veis. Para quem foram
esses estatutos promulgados?- Para o homem. Eram necessá rios? Sem
nenhuma dú vida. Mas teriam sido inteiramente desnecessá rios se o homem
fosse incapaz de cometer os pecados referidos. Porém o homem era capaz de
os cometer; e por isso vemos que caiu o mais baixo possível—que a sua
natureza está completamente corrompida —, que, desde a cabeça à planta do
seu pé, nã o existe nem sequer um átomo de perfeiçã o moral.
Como poderá um tal ente estar jamais, sem uma sensaçã o de temor,
perante o brilho do trono de Deus? Como poderá permanecer dentro do lugar
santíssimo? Como poderá estar de pé sobre o mar de cristal?- Como poderá
entrar pelas portas de pérolas e trilhar as ruas de ouro da cidade santa? A
resposta a estas interrogaçõ es mostra-nos as profundidades assombrosas do
amor redentor e da eficá cia eterna do sangue do Cordeiro de Deus. Por muito
profunda que seja a ruína do homem, o amor de Deus é ainda mais profundo.
Por muito negra que seja a sua culpa, o sangue de Jesus pode lavá -la. Por mais
largo que seja o abismo que separa o homem de Deus, a cruz tem-no
atravessado. Deus desceu ao ponto mais baixo da condiçã o do pecador, de
modo a poder elevá -lo a uma posiçã o de infinito favor, em ligaçã o eterna com
Seu Filho. Bem podemos exclamar: "Vede quã o grande amor nos tem
concedido o Pai: que fô ssemos chamados filhos de Deus" (1 Jo 3:1). Nada
147
podia sondar a ruína do homem senã o o amor de Deus, e nada podia
sobrepujara culpa do homem senã o o sangue de Cristo. Mas agora a pró pria
profundidade da ruína só engrandece o amor que a sondou, e a intensidade da
culpa apenas exalta a eficá cia do sangue que a purifica. O mais vil pecador que
crê em Jesus pode regozijar-se na certeza de que Deus o vê e declara que ele
"está todo limpo" (Jo 13:10).
O Servo Hebreu
Tal é, pois, o cará ter duplo da instruçã o que pode coligir-se das leis e
ordenaçõ es consideradas em conjunto; e quanto mais as examinamos em
pormenor, mais impressionados ficamos com o sentidoda sua plenitude e
beleza. Tomemos, por exemplo, a primeira ordenaçã o que nos é apresentada,
a saber, a que se refere ao servo hebraico. "Se comprares um servo hebreu,
seis anos servirá ; mas, ao sétimo, sairá forro, de graça. Se entrou só com o seu
corpo, só com o seu corpo sairá ; se ele era homem casado, sairá sua mulher
com ele. Se seu senhor lhe houver dado uma mulher, e ela lhe houver dado
filhos ou filhas, a mulher e seus filhos serã o de seu senhor, e ele saíra só com
seu corpo. Mas, se aquele servo expressamente disser.- Eu amo a meu senhor,
e a minha mulher e a meus filhos, nã o quero sair forro, entã o, seu senhor o
levará aos juízes, e o fará chegar à porta, ou ao postigo, e seu senhor lhe furará
a orelha com uma sovela; e o servirá para sempre" (capítulo 21:2 a 6). O servo
era inteiramente livre quanto a tudo que lhe dizia respeito. Havia cumprido
todas as exigências da lei e poderia portanto partir com absoluta liberdade;
mas, por causa do amor à sua mulher, ao seu amo e aos seus filhos submetia-
se à servidã o perpétua; e nã o somente isto, queria levar também no seu corpo
as marcas dessa servidã o.
O Verdadeiro Servo
O leitor inteligente reconhecerá facilmente como tudo isto tem
aplicaçã o ao Senhor Jesus Cristo. N'Ele vemos Aquele que estava no seio do Pai
antes que existissem todos os mundos—o objeto das Suas delícias eternas — e
que podia ter ocupado este lugar por toda a eternidade, sendo o Seu lugar
pessoal e inteiramente peculiar, tanto mais que nada o obrigava a abandoná -
lo, salvo esta obrigaçã o que o amor inefá vel criara e inspirara. Mas era tal o
Seu amor para com o Pai, Cujos desígnios estavam incluídos e para com a
Igreja coletivamente e cada membro dela individualmente, cuja salvaçã o
estava em causa, que veio ao mundo, voluntariamente, humilhan-do-Se a Si
Mesmo, tomando a forma de servo e as marcas de serviço perpétuo sobre Si.
No Salmo 40 faz-se provavelmente uma alusã o a estas marcas: "...as minhas
orelhas furaste". Este Salmo é a expressã o do af eto de Cristo por Deus. "Entã o
disse: Eis aqui venho; no rolo do livro está escrito de mim: Deleito-me em
fazer a tua vontade, ó meus Deus; sim a tua lei está dentro do meu coraçã o"
(versículos 7 e 8). Veio para fazer a vontade de Deus, qualquer que pudesse
ser essa vontade. Jamais fez a Sua vontade, nem mesmo na aceitaçã o e
148
salvaçã o de pecadores, ainda que certamente o Seu coraçã o amantíssimo, com
todas as suas afeiçõ es, estivesse posto inteiramente nessa obra gloriosa. Sem
dú vida, nã o recebe nem salva senã o como servo dos desígnios do Pai. "Tudo
que o Pai me dá virá a mim; e o que vem a mim de maneira nenhuma o
lançarei fora. Porque eu desci do céu nã o para fazer a minha vontade, mas a
vontade daquele que me enviou. E a vontade do Pai, que me enviou, é esta: que
nenhum de todos aqueles que me deu se perca, mas que o ressuscite no ú ltimo
dia" (Jo 6:37 -39).
Nesta passagem, temos um dos mais interessantes aspectos do
cará ter de servo do Senhor Jesus Cristo. Em graça perfeita, Ele considera-Se
responsá vel por receber todos os que estã o incluídos nos desígnios divinos; e
nã o só de recebê-los, mas de os guardar em todas as dificuldades e provaçõ es
da sua carreira de desvios na terra, sim, até mesmo no caso da pró pria morte,
no caso de ela vir, e de os ressuscitar no ú ltimo dia. Oh, quã o seguro está até o
membro mais fraco da Igreja de Deus! É objeto dos desígnios eternos de Deus,
de cujo cumprimento o Senhor Jesus Cristo é o fiador. Jesus ama o Pai, e a
segurança de cada membro da família redimida está em proporçã o com a
intensidade desse amor. A salvaçã o do pecador que crê no Filho de Deus nã o é,
em certo aspecto, senã o a expressã o do amor de Cristo pelo Pai. Se um dos que
crêem n'Ele pudesse perder-se por qualquer causa, o fato indicaria que o
Senhor Jesus Cristo era incapaz de dar cumprimento à vontade de Deus, o que
seria uma blasfémia contra o Seu santo nome, ao qual seja dada a honra e
majestade pelos séculos eternos!
Desta forma temos no servo hebraico uma figura de Cristo em Seu
afeto ao Pai. Porém há alguma coisa mais do que isto: "Eu amo a minha mulher
e a meus filhos. ""Cristo amou a igreja e a si mesmo se entregou por ela, para a
santificar, purificando-a com lavagem da á gua, para a apresentar a si mesmo
igrej a gloriosa, sem má cula, nem ruga, nem coisa semelhante, mas santa e
irrepreensível" (Ef 5:25 -27). Existem outras passagens das Escrituras que nos
apresentam Cristo como antítipo do servo hebraico, tanto no Seu amor pela
Igreja, como corpo, como para com todos os crentes, individualmente. O leitor
encontrará ensino sobre este ponto nos capítulos 13 de Mateus, 10 e 13 de
Joã o e 2 de Hebreus.
— CAPÍTULO 24 —
O PODER DO SANGUE
"De Longe"
Este capítulo abre com uma expressã o notavelmente característica de
toda a dispensaçã o moisaica. "Depois, disse a Moisés: Sobe ao SENHOR, tu e
Arã o, Nadabe e Abiú , e setenta dos anciã os de Israel; e inclinai-vos de longe...
eles não se cheguem nem o povo suba com ele." Podemos buscar de um ao
outro extremo da lei sem encontramos estas palavras: "Aproximai-vos". Ah,
nã o; essas palavras nunca poderiam ser ouvidas do cume do Sinai, nem do
meio das sombras da lei. Só podiam ser pronunciadas do lado celestial da
sepultura vazia de Jesus, onde o sangue da cruz abriu uma perspectiva
perfeitamente clara para a visã o da fé. As palavras "de longe" sã o tã o
características da lei como as palavras "vinde" o sã o do evangelho. Sob a lei, a
obra que podia dar direito ao pecador a aproximar-se nã o se realizava jamais.
O homem nã o cumpriu a sua promessa de obediência, e o "sangue de bodes e
bezerros" (Hb 9:12) nã o podia expiar o pecado nem dar paz à sua consciência
perturbada. Por isso, ele tinha de permanecer "longe". Os votos do homem
haviam sido violados e o seu pecado estava por purificar; como, pois, podia
150
aproximar-se £ O sangue de dez mil bezerros nã o podia limpar nem uma só
das manchas da consciência ou dar-lhe o sentimento pacífico da intimidade
com um Deus reconciliado.
Contudo, "o primeiro" concerto está aqui consagrado com sangue. Um
altar é edificado ao pé do monte com doze pedras, segundo as doze tribos de
Israel."E enviou certos jovens dos filhos de Israel, os quais ofereceram
holocaustos, e sacrificaram ao SENHOR sacrifícios pacíficos de bezerros. E
Moisés tomou a metade do sangue e a pô s em bacias; e a outra metade do
sangue espargiu sobre o altar... entã o, tomou Moisés aquele sangue, e o
espargiu sobre o povo, e disse: Eis aqui o sangue do concerto que o SENHOR
tem feito convosco sobre todas estas palavras" (versículos 5,6 e 8). Embora
fosse impossível, como nos diz o apó stolo, que o sangue dos touros e dos
bodes tirasse os pecados, contudo santificava quanto à purificaçã o da carne
(Hb 10:4; 9.13), ecomo"sombra dos bens futuros" servia para manter o povo
em relaçã o com Deus (Hb 10:1).
A Manifestação de Deus
"E subiram Moisés e Arã o, Nadabe e Abiú esetentados anciã os de
Israel, e viram o Deus de Israel e debaixo de seus pés havia como uma obra de
pedra de safira e como o parecer do céu na sua claridade. Porém ele nã o
estendeu a sua mã o sobre os escolhidos dos filhos de Israel; mas viram a Deus,
e comeram e beberam" (versículos 9 a 11). Assim se manifestava "o Deus de
Israel" em luz e pureza, majestade e santidade. Nada disto era o desenrolar
dosafetosdo coraçã o do Pai ou os doces acentos da voz do Pai derramando paz
e inspirando confiança no coraçã o. Nã o; a "obra de pedra de safira" falava
daquela pureza e luz inacessíveis que obrigavam o pecador a manter-se
"longe". Contudo, eles "viram a Deus e comeram e beberam". Prova tocante da
tolerâ ncia e da misericó rdia divina bem como do poder do sangue!
Encarando o conjunto desta cena como uma simples ilustraçã o, existe
nela muito para interessar o coraçã o. O campo demarcado está em baixo, tem
cima o pavimentode safira; mas o altar, ao pé do monte, fala-nos desse
caminho pelo qual o pecador pode subtrair-se à corrupçã o da sua pró pria
condiçã o e elevar-se à presença de Deus, para aí fazer festa e adorar em
perfeita paz. O sangue que corria em redor do altar era o ú nico direito que o
homem tinha para subsistir na presença dessa gló ria cujo parecer "era como
um fogo consumidor no cume do monte aos olhos dos filhos de Israel".
"E Moisés entrou no meio da nuvem, depois que subiu ao monte; e
Moisés esteve no monte quarenta dias e quarenta noites." Para Moisés isto
significava uma posiçã o verdadeiramente elevada e santa. Foi chamado aparte
da terra e das coisas terrenas. Alheado das influências naturais, é encerrado
com Deus para ouvir da Sua boca os profundos mistérios da Pessoa e obra de
Cristo; porque é isso, com efeito, que nos é representado no taberná culo, cheio
de significaçã o em todos os seus acessó rios—"figuras das coisas que estã o
noscéus"(Hb 9:23).
151
O bendito Senhor sabia bem qual ia ser o fim do concerto das obras
do homem; todavia, mostra a Moisés, em figuras e sombras, os Seus preciosos
pensamentos de amor e desígnios eternos de graça, manifestados e garantidos
por Cristo.
Bendita seja para sempre a graça que nã o nos deixou sob um concerto
de obras. Bendito seja Aquele que aquietou os trovõ es da lei e apagou as
chamas do monte Sinai pelo sangue do concerto eterno (Hb 13:20) e que nos
deu uma paz que nenhum poder da terra ou do inferno pode abalar. "Aquele
que nos ama, e em seu sangue nos lavou dos nossos pecados, e nos fezreis e
sacerdotes para Deus e seu Pai, a ele gló ria e poder para todo o sempre. Amém
(Ap 1:5-6).
— CAPÍTULO 25 —
O TABERNÁCULO
A Ordem Divina
Este capítulo é o começo de um dos mais ricos filõ es da mina
inesgotá vel de inspiraçã o—um veio no qual cada pancada do alviã o descobre
riquezas incontá veis. Sabemos qual é o ú nico alviã o com o qual podemos
trabalhar numa tal mina, a saber, o ministério distinto do Espírito Santo. A
natureza humana nada pode fazer aqui. A razã o é cega e a imaginaçã o
completamente inú til; a inteligência mais elevada, em vez de estar em estado
de interpretar os símbolos sagrados, parece-se mais a um morcego ante o
resplendor do sol, chocando-se contra os objetos que é inteiramente incapaz
de discernir. Devemos obrigar a razã o e a imaginaçã o a ficarem a parte,
enquanto, com um coraçã o puro, um olhar sensato e pensamentos reverentes
entramos nos recintos santos e contemplamos fixamente o mobiliá rio cheio de
significado. Deus o Espírito Santo é o ú nico que nos pode guiar através dos
recintos da casa do Senhor e de interpretar para as nossas almas o verdadeiro
significado de tudo que se apresenta à nossa vista. Querer dar a sua explicaçã o
com o auxílio de faculdades nã o santificadas seria mais absurdo do que tentar
reparar um reló gio com as tenazes e o martelo de um ferreiro. "As figuras das
coisas que estã o no céu" (Hb 9:23) nã o podem ser interpretadas pela mente
natural, ainda mesmo a mais cultivada. Devem ser lidas à luz do céu. O mundo
nã o tem nenhuma luzque possa revelaras suas belezas. Aquele que produziu
as figuras é o ú nico que pode explicar o que elas significam. E Aquele que deu
os símbolos é quem pode interpretá -los.
Para a vista do homem parecerá que há irregularidade na maneira
como o Espírito apresenta o mobiliá rio do taberná culo; mas, na realidade,
152
como poderia esperar-se, existe a mais perfeita ordem, a precisã o mais
notá vel e a exatidã o mais minuciosa. Desde o capítulo 25 ao capítulo 30,
inclusive, temos uma parte distinta do Livro do Ê xodo. Esta parte subdivide-se
em duas partes, das quais a primeira termina no versículo 19 do capítulo 27, e
a segunda no fim do capítulo 30. A primeira começa com a descriçã o da arca
do concerto, dentro do véu, e termina com o altar de bronze e o átrio no qual o
altar devia ser posto. Quer dizer, dá -nos, em primeiro lugar, o trono do juízo
do Senhor, sobre o qual Ele se assentava como Senhor de toda a terra; e este
trono conduz-nos à quele lugar onde o Senhor encontra o pecador em virtude
e com base na obra de uma expiaçã o consumada. Depois, na segunda parte
temos a maneira de o homem se aproximar de Deus—os privilégios, as
honras, e as responsabilidades daqueles que, como sacerdotes, podem
aproximar-se da presença Divina para prestarem culto e gozarem da Sua
comunhã o. Deste modo a ordem é perfeita e bela. Como poderia ser de outro
modo, visto que é divinal A arca e o altar de bronze apresentam, em certo
sentido, dois extremos. A primeira era o trono de Deus estabelecido em
"justiça e juízo" (SI 89:14). A ú ltima era o lugar onde o pecador podia
aproximar-se, porque "a misericó rdia e a verdade" iam adiante do rosto de
Jeová . O homem, por si mesmo, nã o ousava aproximar-se da arca para se
encontrar com Deus, porque o caminho do santuá rio nã o estava ainda desco-
berto (Hb 9:8). Porém, Deus podia vir ao altar de bronze para encontrar o
pecador. "A justiça e o juízo" nã o podiam admitir o pecador no santuá rio; mas
a misericó rdia e a verdade podiam fazer sair Deus—nã o envolto naquele
resplendor irresistível e majestade com que costumava brilhar do meio das
colunas místicas do Seu trono—"os querubins de gló ria"—, mas rodeado
daquele ministério gracioso que nos é apresentado, simbolicamente, no
mobiliá rio e nas ordenaçõ es do taberná culo.
Tudo isto nos pode muito bem recordar o caminho que percorreu
Aquele bendito Senhor que é o antítipo de todos estes símbolos —a substância
destas sombras. Ele desceu do trono eterno de Deus no céu até à profundidade
da cruz no Calvá rio. Deixou toda a gló ria do céu pela vergonha da cruz, a fim
de poder conduzir o Seu povo remido, perdoado e aceite por Si Mesmo, e
apresentá -lo inculpá vel diante daquele pró prio trono que Ele havia abandona-
do por amor deles. O Senhor Jesus preenche, em Sua pró pria Pessoa e obra,
todo o espaço entre o trono de Deus e o pó da morte, assim como a distâ ncia
entre o pó da morte e o trono de Deus. N'Ele Deus desceu, em perfeita graça,
até ao pecador, e n'Ele o pecador é conduzido, em perfeita justiça, até Deus.
Todo o caminho, desde a arca ao altar, está marcado com as pegadas do amor;
e todo o caminho desde o altar de bronze até a arca de Deus estava salpicado
com sangue da expiaçã o; e todo adorador ao passar por esse caminho
maravilhoso vê o nome de Jesus impresso em tudo que se oferece à sua vista.
Que este nome venha a ser o mais precioso de nossos coraçõ es!
Vamos proceder agora ao exame dos capítulos que se seguem.
E interessante notar que a primeira coisa que o Senhor revela a
153
Moisés é o Seu propó sito gracioso de ter um santuá rio ou santa habitaçã o no
meio do Seu povo — um santuá rio formado de materiais que indicavam
Cristo, a Sua Pessoa, a Sua obra, e o fruto precioso dessa obra, como os vemos
à luz, no poder e diversas mercês do Espírito Santo. Além disso, estes
materiais eram o fruto fragrante da graça de Deus — as ofertas voluntá rias de
coraçõ es consagrados. Jeová , cuja Majestade o céu dos céus nã o poderia
conter (lRs 8:27), achava o Seu agrado em habitar numa tenda erigida para Si
por aqueles que nutriam o desejo ardente de saudar a Sua presença no meio
deles. Este taberná culo pode ser considerado de duas maneiras; primeira,
como uma "figura das coisas celestiais"; e, segunda, como uma figura
profundamente significativa do corpo de Cristo. Os vá rios materiais de que se
compunha este taberná culo serã o apresentados à nossa consideraçã o à
medida que formos desenrolando o assunto. Portanto, vamos considerar os
três assuntos mais importantes que este capítulo põ e diante de nó s, a saber: a
arca, a mesa e o castiçal.
A Arca no Templo
Contudo, a arca nã o deveria viajar sempre. As "afliçõ es" de Davi(Sl
132:1) bem como as guerras de Israel deviam ter um fim. A oraçã o, "Levanta-
te, Senhor, no teu repouso, tu e a arca da tua força" (SI 132:8) devia ainda de
ser feita e atendida. Esta petiçã o sublime teve o seu cumprimento parcial nos
dias auspiciosos de Salomã o, quando "os sacerdotes trouxeram a arca do
concerto do SENHOR ao seu lugar, ao orá culo da casa, ao lugar santíssimo, até
debaixo das asas dos querubins. Porque os querubins estendiam ambas as
asas sobre o lugar da arca e cobriam a arca e os seus varais por cima. E os
varais sobressaíram tanto que as pontas dos varais se viam desde o santuá rio
diante do orá culo, porém de fora nã o se viam; e ficaram ali até ao dia de hoje'
(1 Rs 8:6 - 8). A areia do deserto devia ser trocada pelo piso de ouro do templo
(1 Rs 6:30). As peregrinaçõ es da arca haviam chegado ao seu termo:
"adversá rio nã o havia, nem algum mau encontro", e, portanto, fizeram
sobressair os varais.
Esta nã o era a ú nica diferença entre a arca no taberná culo e no
templo. O apó stolo, falando da arca na sua habitaçã o do deserto, descreve-a
como "a arca do concerto, coberta de ouro toda em redor, em que estava um
vaso de ouro, que continha o maná , e a vara de Arã o, que tinha florescido, e as
tá buas do concerto" (Hb 9:4). Estes eram os objetos que a arca continha
durante as suas jornadas no deserto—o vaso de maná era o memorial da
fidelidade do Senhor em prover a todas as necessidades dos Seus remidos
através do deserto, e a vara de Aarã o era "um sinal para os filhos rebeldes"
para acabar com "as suas murmuraçõ es" (Compare-se Ex 16:32 - 34 e Nm
17:10). Porém, quando chegou o momento em que "os varais" deviam ser
retirados, logo que as peregrinaçõ es e as guerras de Israel terminaram,
quando "a casa magnífica em excelência" (1 Cr 22:5) foi terminada, quando o
sol da gló ria de Israel havia chegado, em figura, ao zénite com o esplendor e a
magnificência do reino de Salomã o, entã o os memoriais das necessidades e
faltas do deserto desapareceram, e nada ficou senã o aquilo que constituía o
fundamento eterno do trono do Deus de Israel e de toda a terra. "Aia arca,
nada havia, senão só as duas tábuas de pedra que Moisés ali pusera junto a
Horebe" (I Rs 8:9).
Mas toda esta gló ria devia ser obscurecida pelas nuvens carregadas
do fracasso humano e o descontentamento de Deus. Os pés devastadores dos
incircuncisos haviam ainda de atravessar as ruínas dessa magnífica casa, e o
desaparecimento do seu brilho e da sua gló ria devia provocar o assobio dos
155
estranhos (1 Reis 9:8). Este nã oéomomento de continuar em pormenor este
assunto; limitar-me-ei a referir ao leitor a ú ltima mençã o que a Palavra de
Deus faz da " arca do concerto" —uma passagem que nos transporta a uma
época em que a loucura humana e o pecado nã o perturbarã o mais o lugar de
repouso da arca, e em que a arca nã o será guardada num taberná culo de
cortinas nem tampouco num templo feito por mã os. "E tocou o sétimo anjo a
sua trombeta, e houve no céu grandes vozes, que diziam-. Os reinos do mundo
vieram a ser de nosso Senhor e do Seu Cristo, e ele reinará para todo o
sempre. Eos vinte e quatro anciã os, que estã o assentados em seus tronos
diante de Deus, prostraram-se sobre seu rostoe adoraram aDeus, dizendo:
Graças tedamos, Senhor, DeusTodo-poderoso, que és, e que eras, e que há s de
vir, que tomaste o teu grande poder e reinaste. E iraram-se as naçõ es, e veio a
tua ira, e o tempo dos mortos, para que sejam julgados, e o tempo de dares o
galardã o aos profetas, teus servos, e aos santos, e aos que temem o teu nome,
a pequenos e a grandes, e o tempo de destruíres os que destroem a terra. E
abriu-se no céu o templo de Deus, e a arca do seu concerto foi vista no seu
templo; e houve relâ mpagos, e vozes, e trovõ es, e terremotos, e grande
saraiva" (Ap 11.15 -19).
O Propiciatório
Segue-se por sua ordem o propiciató rio. "Também fará s um
propiciató rio de ouro puro; o seu cumprimento será de dois cô vados e meio, e
a sua largura, de um cô vado e meio. Fará s também dois querubins de ouro; de
ouro batido os fará s, nas duas extremidades do propiciató rio. Fará s um
querubim na extremidade de uma parte e o outro querubim na extremidade
da outra parte; de uma só peça com o propiciató rio fará s os querubins nas
duas extremidades dele. Os querubins estenderã o as suas asas por cima,
cobrindo com as suas asas o propiciató rio; as faces deles, uma defronte da
outra; as faces dos querunbins estarã o voltadas para o propiciató rio. E porá s o
propiciató rio em cima da arca, depois que houveres posto na arca o
Testemunho, que eu te darei. E ali virei a ti e falarei contigo de cima do
propiciató rio, do meio dos dois querubins (que estã o sobre a arca do
Testemunho), tudo que eu te ordenar para os filhos de Israel" (versículos 17 a
22).
Jeová declara aqui o Seu desígnio misericordioso de descer do monte
ardente para tomar o Seu lugar sobre o propiciató rio. Podia fazer isto, visto
que a tá buas da lei estavam guardadas intactas na arca, e os símbolos do Seu
poder, tanto na criaçã o como na providência, se elevavam à direita e à
esquerda como acessó rios insepará veis deste trono em que o Senhor Se havia
assentado — um trono de graça fundado na justiça e sustido pela justiça e o
juízo. Ali brilha a gló ria do Deus de Israel. Dali emanavam os Seus
mandamentos suavizados e tornados agradá veis pela origem graciosa de onde
saíam— à semelhança do sol do meio-dia, cujos raios ao passarem através de
uma nuvem vivificam e fecundam sem que o seu resplendor nos cegue.
156
"Os seus mandamentos nã o sã o pesados" quando recebidos do
propiciató rio, porque estã o ligados com a graça que dá ouvidos para ouvir e o
poder para obedecer.
O Candelabro
O castiçal de ouro puro vem a seguir, porque os sacerdotes de Deus
têm necessidade de Luz bem como de alimento: e têm tanto uma coisa como a
outra em Cristo. Neste castiçal nã o se faz mençã o de outra coisa que nã o seja
ouro. "Tudo será de uma só peça, obra batida de ouro puro" (versículo 36).
"As sete lâ mpadas", as quais se "acenderã o para alumiar defronte dele",
exprimem a perfeiçã o da luz e energia do Espírito, baseadas e ligadas com a
eficá cia perfeita da obra de Cristo. Aobra do Espírito Santo nunca poderá ser
separada da obra de Cristo. Isto é indicado, de um modo duplo, nesta
magnífica imagem do castiçal de ouro. As sete lâ mpadas estando ligadas à
cana de ouro batido indicam-nos a obra cumprida por
Cristo como a ú nica base da manifestaçã o do Espírito na Igreja. O
Espírito Santo nã o foi dado antes de Jesus ter sido glorificado (comparem-se
Joã o 7:39 com Atos 19:2 a 6). Em Apocalipse, capítulo 3, Cristo é apresentado
à igreja de Sardes como Aquele que tem "os sete espíritos". Quando o Senhor
Jesus foi exaltado à destra de Deus, entã o derramou o Espírito Santo sobre a
Sua Igrej a, a fim de que ela pudesse brilhar segundo o poder e a perfeiçã o da
sua posiçã o no lugar santo, a sua pró pria esfera de ser, de açã o e de culto.
Vemos, também, que uma das funçõ es particulares de Arã o consistia
em acender e espevitar essas sete lâ mpadas. "E falou o SENHORa Moisés,
dizendo: Ordena aos filhos de Israel que te tragam azeite de oliveira puro,
batido, para a luminá ria, para acender as lâ mpadas continuamente. Arã o as
porá em ordem perante o SENHOR continuamente, desde a tarde até à manhã ,
fora do véu doTestemunho, na tenda da congregaçã o; estatuto perpétuo é
pelas vossas geraçõ es. Sobre o castiçal puro porá em ordem as lâ mpadas,
perante o SENHOR, continuamente" (Lv 24:1-4). Desta maneira, podemos ver
como a obra do Espírito Santo na Igreja está ligada com a obra de Cristo na
terra e a Sua obra no céu. "As sete lâ mpadas" estavam no taberná culo,
158
evidentemente, mas a atividade e diligência do sacerdote eram necessá rias
para as manter acesas e espevitadas. O sacerdote necessitava continuamente
dos "espevitadores" e dos "apagadores" para remover tudo que pudesse
impedir o livre curso do "azeite batido". Esses espevitadores e apagadores
eram igualmente feitos de "ouro batido" porque todas essas coisas eram o
resultado imediato da operaçã o divina. Se a Igreja brilha, é unicamente pela
energia do Espírito, e esta energia está fundada em Cristo, que, em virtude do
desígnio eterno de Deus, veio a ser, em Seu sacrifício e sacerdó cio, o
manancial e poder de todas as coisas para a Sua Igreja. Tudo é de Deus. Quer
olhemos para dentro desse véu misterioso e contemplemos a arca com a sua
coberta e as duas figuras significativas, ou admiremos o que está da parte de
fora desse véu, a mesa pura e o castiçal puro, com os seus vasos e respectivos
utensílios — tudo nos fala de Deus, quer seja revelando-Se em ligaçã o com o
Filho ou o Espírito Santo.
A chamada celestial coloca o leitor cristã o no pró prio centro de todas
estas preciosas realidades. O seu lugar nã o está apenas no meio das" figuras
das coisas que estã o no céu", mas no meio das "pró prias coisas celestiais".
Tem "ousadia para entrar no santuá rio pelo sangue de Jesus". É sacerdote
para Deus. O pã o da proposiçã o lhe pertence. O seu lugar é à mesa pura, para
comer o pã o sacerdotal, na luz. do Espírito Santo. Nada o poderá privar desses
privilégios divinos. Sã o seus para sempre. Esteja em guarda contra tudo que
possa privá -lo dogozo deles. Guarde-se contra toda a irritabilidade, a cobiça,
de todo o sentimento e imaginaçõ es. Domine a sua natureza, lance o mundo
fora de seu coraçã o, afugente Sataná s. Que o Espírito Santo encha
inteiramente a sua alma de Cristo. Entã o será praticamente santo e sempre
ditoso. Dará fruto, e o Pai celestial será glorificado, e o seu gozo será completo.
— CAPÍTULO 26 —
A ESTRUTURA DO
TABERNÁCULO
Os Materiais
Esta parte do livro do Ê xodo inclui a descriçã o das cortinas e da
cobertura do taberná culo, nas quais a mente espiritual discerne as sombras
das vá rias fases e traços do cará ter de Cristo. "E o taberná culo fará s de dez
cortinas de linho fino torcido, e pano azul,e pú rpura, e carmesim; com
querubins as fará s, de obra esmerada". Aqui temos os diferentes aspectos do
"homem Jesus Cristo" (1 Tm 2:5). O "linho fino torcido" representa a pureza
159
imaculada da Sua vida e do Seu cará ter; enquanto que o "azul, pú rpura e
carmesim" no-Lo apresentam como "o Senhor do céu", que deve reinar
segundo os desígnios divinos, mas Cuja realeza deve ser o resultado dos Seus
sofrimentos. Desta forma, temos n'Ele um homem puro, homem celestial,
régio e sofredor. Os diferentes materiais mencionados aqui nã o eram apenas
limitados à s "cortinas" do taberná culo, como deviam ser também usados para
o "véu" (versículo 31), a "coberta" da porta da tenda" (versículo 36), a coberta
da "porta do pá tio" (capítulo 27:16), e "os vestidos do ministério" e "os
vestidos santos para Arã o" (capítulo 39:1). Em suma, era Cristo em todo as
partes, Cristo em tudo, somente Cristo (¹).
__________________
(¹) A expressão "puro e resplandecente" (Ap 19:8) dá força e formosura peculiar ao
símbolo que o Espírito Santo nos apresenta no "linho fino torcido". Com efeito, não é possível
encontrar-se um emblema mais exato de natureza imaculada.
O LinhoTorcido
O "linho fino torcido", como figura da humanidade imaculada de
Cristo, abre um manancial precioso e abundante de pensamento para a
inteligência espiritual: dá -nos um tema sobre o qual nunca é demais meditar.
A verdade quanto à humanidade de Cristo deve ser recebida com toda a
exatidã o escriturai, mantida com energia espiritual, guardada com santo zelo e
confessada com poder celestial. Se estivermos enganados quanto a este ponto
de capital importâ ncia nã o podemos estar dentro da verdade sobre coisa
alguma. É uma verdade essencial e fundamental, e se nã o for recebida,
defendida e confessada tal qual Deus a revelou na Sua santa Palavra, todo o
edifício nã o terá solidez. Nada pode ser mais deplorá vel que o relaxamento
que parece prevalecer e predominar nos pensamentos e expressõ es de alguns
sobre esta doutrina tã o importante. Se houvesse mais reverência pela palavra
de Deus, haveria um conhecimento dela mais perfeito; e, deste modo, evitar-
se-iam essas declaraçõ es erró neas e irrefletidas que certamente devem
entristecer o Espírito de Deus, Cuja incumbência é testemunhar de Jesus.
Quando o anjo anunciou a Maria as boas novas do nascimento do Salvador, ela
disse-lhe: "Como se fará isto, visto que nã o conheço varã o"?- "A sua fraca
inteligência era incapaz de compreender, muito menos profundar, o
estupendo mistério de "Deus manifestado em carne" (l Tm 3:16). Mas note-se
com atençã o a resposta do anjo— resposta dada nã o a umespírito céptico, mas
a um coraçã o piedoso, embora ignorante. "Descerá sobre ti o Espírito Santo, e
a virtude do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra; pelo que também o Santo
que de ti há de nascer, será chamado Filho de Deus" (Lc 1:34-35). Maria
imaginava, sem dú vida que este nascimento deveria ter lugar segundo os
princípios ordiná rios da geraçã o. Mas o anjo corrige o seu equívoco, e,
corrigindo-o, anuncia uma das maiores verdades da revelaçã o. Declara que o
poder divino estava prestes a formar UM HOMEM VERDADEIRO—" o segundo
homem, o Senhor do céu" (1 Co 15:47): um homem cuja natureza seria
160
divinamente pura, inteiramente incapaz de receber ou de comunicar a mais
pequena mancha. Este Ser santo foi formado, à "semelhança da carne do
pecado", sem pecado na carne. Participou inteiramente da carne e do sangue
sem uma partícula ou sombra de mal ligado com eles.
Esta verdade é de primacial importância, nunca será retida com
fidelidade e firmeza excessiva. A incarnaçã o do Filho, a segunda Pessoa da
Trindade eterna, a Sua entrada misteriosa em carne pura e sem má cula,
formada pelo poder do Altíssimo, no ventre da virgem, é o fundamento do
"mistério da piedade" (ITm 3:16), do qual a cimalha é o Deus-homem
glorificado no céu, a Cabeça, Representante e Modelo da Igreja remida de
Deus. A pureza essencial da Sua humanidade satisfez perfeitamente as
exigências de Deus; enquanto que a sua realidade correspondia à s
necessidades do homem. Era homem, porque só um homem podia responder
pela ruína do homem. Porém, era homem tal que podia dar satisfaçã o a todas
as exigências do trono de Deus. Era um homem imaculado, verdadeiro
homem, em quem Deus podia achar o Seu agrado, e em quem o homem podia
apoiar-se sem reservas.
Nã o é preciso recordar ao leitor esclarecido que tudo isto, separado
da morte e ressurreiçã o, é perfeitamente inú til para nó s. Nó s tínhamos
necessidade nã o somente de um Cristo incarnado, mas de um Cristo
crucificado e ressuscitado. Na verdade, Ele fez-se carne para ser crucificado;
mas é por Sua morte e ressurreiçã o que a Sua incarnaçã o veio a ser eficaz para
nó s. É um erro moral crer que Cristo tomou o homem em uniã o consigo na
incarnaçã o. Isto era impossível. Ele Pró prio ensina expressamente o contrá rio.
"Na verdade, na verdade vos digo que se o grã o de trigo, caindo na terra, nã o
morrer, fica cie só; mas se morrer dá muito fruto" (Jo 12:24). Nã o podia haver
nenhuma uniã o entre carne santa e pecaminosa, pura e impura, corruptível e
incorruptível, mortal e imortal. A morte é a ú nica base de uniã o entre Cristo e
os Seus membros eleitos. É em ligaçã o com as palavras "levantai-vos, vamos"
(Mc 14:42) que o Senhor diz: "Eu sou a videira, vó s as varas" (Jo 15:5). Porque
"se fomos plantados juntamente com ele na semelhança da sua morte... o
nosso homem velho foi com ele crucificado, para que o corpo do pecado seja
desfeito" (Rm 6:5-6). "No qual também estais circuncidados, com a circuncisã o
nã o feita por mã o no despojo do corpo da carne: a circuncisã o de Cristo.
Sepultados com ele no batismo, nele também ressuscitastes pela fé no poder
deDeus, que o ressuscitou dos mortos" (Cl 2:11-12).
Os capítulos 6 de Romanos e 2 de Colossenses nos dã o um relato
pormenorizado da verdade sobre este importante assunto. Foi unicamente
como morto e ressuscitado que Cristo e o Seu povo puderam tornar-se em um.
O verdadeiro grã o de trigo tinha de cair na terra e morrer antes que a espiga
pudesse ser formada e recolhida no celeiro celestial.
Porém, embora isto seja uma verdade claramente revelada nas
Escrituras, é igualmente claro que a incarnaçã o formava, por assim dizer, os
alicerces do glorioso edifício; e as cortinas de "linho fino" apresentam-nos, em
161
figura, a beleza moral do "Homem Jesus Cristo". Já vimos a maneira como Ele
foi concebido; e, ao longo do curso da Sua vida aqui na terra, encontramos
exemplos e mais exemplos da mesma imaculada pureza. Passou quarenta dias
no deserto, sendo tentado pelo diabo, mas nada em Sua natureza respondeu
à s vis sugestõ es do tentador. Podia tocar os leprosos sem ser contaminado.
Podia tocar o esquife de um defunto sem contrair o fedor da morte. Podia
passar incó lume pela atmosfera mais contaminada. Era, quanto à Sua
humanidade, como um raio de sol que vinha da fonte de luz, o qual pode
passar, sem ser atingido, pelo ambiente de maior contaminaçã o. Foi
perfeitamente ú nico em natureza, cará ter e constituiçã o.
Só Ele podia dizer: "Nã o permitirá s que o teu santo veja corrupçã o"
(Sl 16:10). Isto estava em relaçã o com a Sua humanidade, que, sendo
perfeitamente santa e pura, podia levar o pecado. "Levando ele mesmo em seu
corpo os nossos pecados sobre o madeiro" (1 Pe 2:24). Nã o no madeiro, como
alguns querem ensi-nar-nos, mas "sobre o madeiro". Foi na cruz que Cristo
levou os nossos pecados, e somente ali. "Aquele que nã o conheceu pecado, o
fez pecado por nó s, para que nele fô ssemos feitos justiça de Deus" (2 Co 5:21).
O Azul
"Azul" é a cor etérea e indica o cará ter celestial de Cristo, o Qual, a
despeito de ter entrado em todas as circunstâ ncias de verdadeira e autêntica
humanidade—exceto o pecado—era "o Senhor do céu"
(1 Co 15:47). Sendo homem verdadeiro, andou sempre com o senti-
mento da Sua pró pria dignidade, como estrangeiro celestial: jamais olvidou
donde tinha vindo, onde estava ou para onde ia. A fonte de todo o Seu gozo
estava nas alturas. A terra nã o podia fazê-lo mais rico nem mais pobre. Achou
que este mundo era "uma terra seca e cansada, onde nã o havia á gua" (Sl 63:1);
e, por isso, o Seu espírito só podia dessedentar-se nas alturas. Era
inteiramente celestial: "...ninguém subiu ao céu, senã o o que desceu do céu, o
Filho do Homem, que está no céu" (Jo3:16).
A Púrpura
"Pú rpura" indica realeza, e mostra-nos Aquele que havia "nascido rei
dos judeus", que Se apresentou como tal à naçã o judaica e foi rejeitado; que
fezumaboa confissã o perante Pô ncio Pilatos, decla-rando-Se rei, quando, para
a visã o humana, nã o havia um simples traço de realeza. "Tu dizes que eu sou
rei" (Jo 18:37). E ".. .vereis em breve o Filho do homem assentado à direita do
poder e vindo sobre as nuvens do céu" (Mt 26:64). E, por fim, a inscriçã o sobre
a Sua cruz, em hebraico, grego e latim—a linguagem da religiã o, da ciência e
do governo—declara, perante todo o mundo, que Ele era "Jesus Nazareno, Rei
dos Judeus". A terra negou-Lhe os Seus direitos — desgraçadamente para ela
—mas nã o aconteceu o mesmo com o céu: ali os Seus direitos foram
plenamente reconhecidas. Foi recebido como um vencedor nas moradas
eternas da luz, coroado de gló ria e honra, e assentou-Se, por entre aclamaçõ es
162
dos exércitos celestiais, no trono da majestade nas alturas, até que Seus
inimigos sejam postos por escabelo de Seus pés. "Por que se amotinam as
naçõ es e os povos imaginam coisas vã s£ Os reis da terra se levantam, e os
príncipes juntos se mancomunam contra o SENHOR e contra o seu ungido,
dizendo: Rompamos as suas ataduras e sacudamos de nó s as suas cordas.
Aquele que habita nos céus se rirá ; o Senhor zombará deles. Entã o, lhes falará
na sua ira, e no seu furor o confundirá . Eu, porém, ungi o meuRei sobre o meu
santo monte Siã o. Recitarei o decreto: O SENHORme disse: Tu és meu Filho; eu
hoje te gerei. Pede-me, e eu te darei as naçõ es por herança e os confins da
terra por tua possessã o.
Tu os esmigalhará s com uma vara de ferro; tu os despedaçará s como
a um vaso de oleiro. Agora, pois, ó reis, sede prudentes; deixai-vos instruir,
juízes da terra. ServiaoSENHOR com temore alegrai-vos com tremor. Beijai o
Filho, para que se nã o ire, e pereçais no caminho, quando em breve se
inflamar a sua ira. BEM-AVENTURADOS TODOS AQUELES QUE NELE
CONFIAM" (Salmo 2).
O Carmesim
O "carmesim", quando genuíno, é produzido pela morte e f ala-nos
dos sofrimentos de Cristo:".. .Cristo padeceu por nó s na carne" (1 Pe 4:1). Sem
morte, tudo teria sido inú til. Podemos admirar "o azul" e a "pú rpura", mas sem
o "carmesim" o taberná culo teria perdido um aspecto importante. Foi por
meio da morte que Cristo destruiu aquele que tinha o império da morte. O
Espírito Santo, pondo diante de nó s uma figura admirá vel de Cristo — o
verdadeiro taberná culo —, nã o podia omitir aquela fase do Seu cará ter que
constitui o fundamento da Sua uniã o com o Seu corpo, a Igreja, o Seu direito ao
trono de Davi e o senhorio de toda a criaçã o. Em suma, o Espírito nã o somente
nos mostra o Senhor Jesus, nestas cortinas simbó licas, como homem
imaculado, homem real, mas também como homem sofredor; aquele que, por
meio da morte, adquiriu o direito à quilo que, como homem, tinha direito nos
desígnios divinos.
A Primeira Cortina
Contudo, as cortinas do taberná culo nã o sã o apenas a expressã o dos
diferentes aspectos do cará ter de Cristo, como põ em também em evidência a
unidade e firmeza desse cará ter. Cada um desses aspectos está exposto na sua
pró pria perfeiçã o; e nunca interfere com ou prejudica a beleza de outro. Tudo
era harmonia perfeita aos olhos de Deus e foi assim apresentado no "modelo
que no monte se mostrou" a Moisés e na sua reproduçã o no meio do povo.
"Cinco cortinas se enlaçarã o à outra; e as outras cinco cortinas se enlaçarã o
uma com a outra" (versículo 3). Tal era a proporçã o e firmeza em todos os
caminhos de Cristo, como homem perfeito, andando pelo mundo, em qualquer
situaçã o ou relaçã o que O considerarmos. Quando atua segundo um desses
caracteres, nã o encontramos absolutamente nada que seja incompatível com a
163
integridade divina de outro. Ele foi, em todo o tempo, em todo o lugar e em
todas as circunstâ ncias, o homem perfeito. Nada n'Ele faltava a essa
encantadora e bela proporçã o que Lhe era pró pria, em todos os Seus atos.
"Todas estas cortinas serã o de uma medida"(versículo 2).
Um par de cinco cortinas pode muito bem simbolizar os dois aspectos
principais do cará ter de Cristo atuando a favor de Deus e do homem. Vemos os
mesmos dois aspectos na lei, a saber, o que era devido a Deus e o que era
devido ao homem; de forma que, quanto a Cristo, se olharmos de passagem,
vemos que Ele podia dizer, "a tua lei está dentro do meu coraçã o" (SI 40); e se
pensarmos na Sua conduta, vemos esses dois elementos ordenados com
perfeita precisã o, e nã o só ordenados, mas inseparavelmente unidos pela
graça celestial e a energia divina que habitaram na Sua gloriosa Pessoa.
"E fará s laçadas de pano azul na ponta de uma cortina, na
extremidade, na juntura; assim também fará s na ponta da extremidade da
outra cortina, na segunda juntura... Fará s tàmbémcinqúen-ta colchetes de ouro,
e ajuntará s com estes colchetes as cortinas, uma com a outra e será um
tabernáculo" (versículos 4 e 6). Nas "laçadas" de azul e nos "colchetes de ouro"
temos a manifestaçã o daquela graça celestial e energia divina em Cristo que
Lhe proporcionou ligar e harmonizar perfeitamente as reivindicaçõ es de Deus
e as pretensõ es do homem; de forma que, satisfazendo tanto umas como
outras, Ele nunca, nem por um momento, perturbou o Seu cará ter. Quando os
homens astutos e hipó critas o tentaram com a pergunta: "É lícito pagar o
tributo a César, ou nã o?" a Sua resposta foi, "Dai... a César o que é de César e a
Deus o que é de Deus" (Mt 22:17-21).
Nem foi apenas César, mas o homem em todas as suas relaçõ es que
recebeu a resposta a todas as suas pretensõ es em Cristo. Da mesma maneira
que reuniu na Sua Pessoa a natureza de Deus e humana, satisfez em Seus
passos de perfeiçã o as exigências de Deus e as pretensõ es do homem. Seria
muito interessante seguir, através da narrativa do evangelho, a exemplificaçã o
do princípio sugerido pelas "laçadas de azul" e os "colchetes de ouro"; devo,
porém, deixar que o leitor prossiga este estudo sob a direçã o do Espírito
Santo, o Qual deseja alargar-Se sobre cada aspecto d 'Aquele bendito Senhor
que é Seu propó sito exaltar.
— CAPÍTULO 27 —
O ALTAR DE COBRE
E O ÁTRIO
O Altar de Incenso não Mencionado
167
Deparamos agora com o altar de cobre que estava à porta do
taberná culo, e quero chamar a atençã o do leitor para a ordem seguida pelo
Espírito Santo nesta parte do livro. Já fizemos notar que a passagem
compreendida entre o capítulo 25 e o versículo 19 do capítulo 27 forma uma
parte distinta, que nos dá uma descriçã o da arca e do propiciató rio, da mesa e
do castiçal, das cortinas e do véu, e, por fim, do altar de cobre edopá tioemque
estava esse altar colocado. Lendo os versículos 15 do capítulo 35, 25 do
capítulo 37 e 26 do capítulo 40, vemos que o altar do incenso está mencionado
entre o castiçal e o altar de cobre. Ao passo que, quandoo Senhor dá instruçõ es
a Moisés, o altar de cobre é introduzido imediatamente depois do castiçal e
das cortinas do taberná culo. Ora, visto que deve haver uma razã o divina para
esta diferença, é privilégio de todo o estudioso inteligente e aplicado da
Palavra de Deus indagar qual era essa razã o.
Qual é a razã o, portanto, por que o Senhor, quando dá instruçã o
quanto aos adornos do "santuá rio", omite oaltarde incensoepassa ao altar de
cobre que estava à porta do taberná culo*?- A razã o, presumo, é simplesmente
esta: descreve primeiro a maneira em que há de manif estar-Se ao homem, e
depois indica a forma de o homem se aproximar de Si. Tomou o Seu lugar no
trono; como o "Senhor de toda a terra" (Js 3:11 e 13): os raios da Sua gló ria
estavam ocultos atrá s do véu—figura da carne de Cristo (Hb 10:20); porém,
fora do véu, estava a manifestaçã o de Si Mesmo, em ligaçã o com o homem, na
"mesa pura", e, pela luz e poder do Espírito Santo, representados no castiçal.
Depois vem o cará ter de Cristo como homem aqui na terra, representado nas
cortinas e nas cobertas do taberná culo. E finalmente temos o altar de cobre
como a grande exibiçã o do lugar de encontro entre o Deus santo e o pecador.
Isto leva-nos, com efeito, à extremidade, de onde voltamos, na companhia de
Arã o e seus filhos, ao santuá rio, o lugar normal dos sacerdotes, onde estava o
altar do incenso. Desta forma a ordem é notavelmente formosa. Do altar de
ouro, nã o se faz mençã o antes que haja sacerdote para queimar incenso sobre
ele, porque o Senhor mostrou a Moisés o modelo das coisas nos céus segundo
a ordem em que estas coisas devem ser atendidas pela fé. Por outra parte,
quando Moisés dá instruçõ es à s consagraçõ es (capítulo 35), quando dá conta
dos trabalhos de Bezaleel e Aoliabe (capítulos 37 e 38), e quando levanta o
taberná culo (capítulo 40), segue simplesmente a ordem em que os utensílios
estavam colocados.
O Altar de Cobre
O prosseguimento deste estudo tã o interessante, e o confronto das
passagens acima mencionadas, recompensarã o amplamente o leitor.
Passemos agora ao altar de cobre.
Este altar era o lugar onde o pecador se aproximava de Deus, pelo
poder e em virtude do sangue da expiaçã o. Estava colocado à porta do
taberná culo da "tenda da congregaçã o", e sobre ele era derramado todo o
sangue dos sacrifícios. Era construído de "madeira de cetim e cobre". A
168
madeira era a mesma do altar de ouro do incenso, mas o metal era diferente, e
a razã o desta diferença é obvia. O altar de bronze era o lugar onde o pecado
era tratado segundo o juízo divino. O altar de ouro era o lugar onde o perfume
precioso da aceitabilidade de Cristo subia para o trono de Deus. A "madeira de
cetim", como figura da humanidade de Cristo, era a mesma num caso e no
outro; porém no altar de cobre vemos Cristo sob o fogo da justiça divina; no
altar de ouro vemos como Ele satisfaz os afetos divinos. No primeiro, o fogo da
ira divina foi apagado, no ú ltimo, o fogo do culto sacerdotal é aceso. A alma
deleita-se de encontrar Cristo tanto num como no outro; porém o altar de
cobre é o ú nico que responde à s necessidades de uma consciência culpada,
como a primeira coisa para um pobre pecador desamparado, necessitado e
convicto. Nã o é possível haver paz só lida, quanto à questã o do pecado,
enquanto o olhar da fé nã o descansar em Cristo como o antítipo do altar de
cobre. É necessá rio que eu veja o meu pecado reduzido a cinzas na fornalha
desse altar, antes de poder gozar de paz de consciência na presença de Deus. É
quando sei, pela fé no testemunho de Deus, que Ele Pró prio tratou do meu
pecado na Pessoa de Cristo, no altar de cobre—que deu satisfaçã o a todas as
Suas justas exigências —, que tirou o meu pecado da Sua santa presença, de
modo que nunca mais pode voltar, que posso gozar paz divina e eterna — e
nã o antes.
O Ouro e o Cobre
Quero fazer aqui uma observaçã o sobre o significado do "ouro" e do
"cobre" nos utensílios do taberná culo. O "ouro" é símbolo da justiça divina, ou
da natureza divina no "Homem Jesus Cristo". "Cobre" é o símbolo da justiça,
pedindo o julgamento do pecado, como no altar de cobre; ou o julgamento da
impureza, como na pia de cobre. Isto explica a razã o por que dentro da tenda
do taberná culo tudo era ouro — a arca, o propiciató rio, a mesa, o castiçal e o
altar do incenso. Todas estas coisas eram os símbolos da natureza divina e da
excelência pessoal inerente do Senhor Jesus Cristo. Por outro lado, fora da
tenda do taberná culo tudo era cobre—o altar de cobre e os seus utensílios, a
pia e a sua base.
É preciso que as exigências da justiça, quanto ao pecado e à impureza,
sejam divinamente satisfeitas antes que possa haver alguma alegria pelos
preciosos mistérios da Pessoa de Cristo, tais como nos sã o revelados no
interior do santuá rio de Deus. É quando posso ver todo o pecado e impureza
perfeitamente julgados e lavados que posso, como sacerdote, aproximar-me e
adorar no santuá rio, e gozar a plena manifestaçã o da formosura e perfeiçã o do
Deus Homem, Cristo Jesus.
O leitor poderá , com muito proveito, prosseguir com a aplicaçã o deste
pensamento em pormenor, nã o apenas no estudo do taberná culo e o templo,
mas também em vá rias passagens da Palavra de Deus; por exemplo, no
capítulo 1 de Apocalipse Cristo aparece "cingido pelos peitos com um cinto de
ouro" e tendo os Seus "pés semelhantes a latão reluzente, como se tivessem
sido refinados numa fornalha". O "cinto de ouro" é o símbolo da Sua justiça
169
intrínseca. Os pés semelhantes a latã o reluzente" sã o a expressã o do juízo
inflexível sobre o mal- o Senhor nã o pode tolerar o mal, antes pelo contrá rio,
tem de esmagá -lo debaixo dos Seus pés.
Tal é o Cristo com Quem temos de tratar. Julga o pecado, mas salva o
pecador. A fé vê o pecado reduzido a cinzas no altar de cobre; vê toda a
impureza lavada na pia de cobre; e, finalmente, goza de Cristo, tal como é
revelado, no secreto da presença divina, pela luz e poder do Espírito Santo. A
fé acha-O no altar de ouro, em todo o valor da Sua intercessã o. Alimenta-se
d'Ele à mesa pura. Reconhece-O na arca e no propiciató rio como Aquele que
responde a todas as exigências da justiça divina, e, ao mesmo tempo, satisfaz
todas as necessidades humanas. Contempla-O no véu, como todas as figuras
místicas. Vê escrito o Seu nome precioso em todas as coisas. Oh, que os nossos
coraçõ es estejam sempre prontos a apreciar e louvar este Cristo incompará vel
e glorioso!
Nada pode ser de tanta importâ ncia como o conhecimento claro da
doutrina do altar de cobre; quero dizer, como é ensinada por meio dele. E
devido à falta de clareza sobre este ponto que muitas almas se lamentam toda
a vida. A questã o da sua culpa nunca foi clara e completamente liquidada no
altar de cobre. Nunca chegaram a realizar pela fé que o Pró prio Deus liquidou
para sempre, na cruz, a questã o dos seus pecados. Buscam paz para as suas
consciências atribuladas na regeneraçã o e a sua evidência—os frutos do
Espírito, a sua disposiçã o, sentimentos e experiência —, coisas muito boas e
valiosas em si, mas que nã o formam o fundamento da paz. E o conhecimento
daquilo que Deus tem feito no altar de cobre que enche a alma de paz. As
cinzas no altar contam-me a histó ria que TUDO ESTÁ CUMPRIDO. Os pecados
do crente foram todos tirados pela pró pria mã o do amor redentor. "Aquele
que nã o conheceu pecado, o fez pecado por nó s, para que, nele, fô ssemos
feitos justiça de Deus" (2 Co5:21).Todoopecadodeve ser julgado, porém os
pecados do crente já foram julgados na cruz; por isso ele está perfeitamente
justificado. Supor que pode existir qualquer coisa contra o crente, mesmo o
mais fraco, é negar toda a obra da cruz. Os pecados e as iniquidades do crente
foram todos tirados pelo Pró prio Deus, e portanto foram perfeitamente
quitados. Desapareceram com a vida que o Cordeiro de Deus derramou na
morte.
Certifique-se o leitor de que o seu coraçã o está inteiramente fundado
na paz que Jesus fez pelo sangue da sua cruz.
— CAPÍTULO 28 —
AS VESTES
170
DOS SACERDOTES
Estes capítulos mostram-nos o Sacerdó cio em todo o seu valor e
eficá cia, e estã o cheios de interesse. A pró pria palavra "sacerdó cio" desperta
no coraçã o um sentimento da mais profunda gratidã o pela graça que nã o só
nos abriu um caminho para entrarmos na presença de Deus, como nos deu o
necessá rio para ali nos mantermos, segundo o cará ter e as exigências dessa
posiçã o elevada e santa.
O Sacerdócio de Arão
O sacerdó cio de Arã o era um dom de Deus por um povo que, por
natureza pró pria, estava distante e necessitava de alguém que aparecesse em
seu nome continuamente na Sua presença. O capítulo 7 da epístola aos
Hebreus ensina-nos que a ordem do sacerdó cio estava ligada com a lei, que
fora estabelecida segundo "a lei do mandamento carnal" (versículo 16) e que
fora impedida de permanecer pela morte (versículo 23) e que os sacerdotes
dessa ordem estavam sujeitos à s fraquezas humanas. Portanto, esta ordem
nã o podia dar perfeiçã o, e por isso devemos bendizer a Deus por nã o ter sido
instituída com "juramento". O juramento de Deus só podia fazer-se em ligaçã o
com aquilo que devia durar eternamente, e isto era o sacerdó cio perfeito,
imortal, e intransmissível do nosso grande e glorioso Melquizedeque, que dá
ao Seu sacrifício e ao Seu sacerdó cio todo o valor, e a dignidade e gló ria da Sua
incompará vel Pessoa. O simples pensamento de que temos um tal sacrifício e
um tal Sacerdote faz com que o coraçã o palpite com as mais vivas emoçõ es de
gratidã o.
O Cinto
O "cinto" é o símbolo bem conhecido do serviço; e Cristo é o Servo
perfeito—o Servo dos desígnios divinos e das necessidades profundas e
variadas do Seu povo. Com espírito de sincera dedicaçã o, que nada podia
impedir, Ele cingiu-se para a Sua obra; e quando a fé vê assim o Filho de Deus
cingido julga, certamente, que nenhuma dificuldade é grande demais para Si.
No símbolo que temos perante nó s vemos que todas as virtudes, méritos, e
gló rias de Cristo, na Sua natureza divina e humana, entram plenamente no Seu
cará ter de servo. "E o cinto de obra esmerada, do seu éfode, que estará sobre
ele, será da mesma obra, da mesma obra de ouro, e de pano azul e de pú rpura,
e de camesim e de linho fino torcido" (versículo 8). A fé disto deve satisfazer
todas as necessidades da alma e os mais ardentes desejos do coraçã o. Nã o
vemos Cristo apenas como a vítima imolada no altar, mas também como o
cingido Sumo Sacerdote sobre a casa de Deus. Bem pode, pois, o apó stolo
inspirado dizer, "cheguemo-nos,... retenhamos... consideremo-nos uns aos
outros" (Hb 10:19-24).
O Manto do Éfode
"Também fará s o manto do éfode todo de pano azul... e nas suas
bordas fará s romã s de pano azul, de pú rpura e de carmesim, ao redor das suas
bordas; e campainhas de ouro no meio delas, ao redor. Uma campainha de
ouro e uma romã , outra campainha de ouro e outra romã haverá nas bordas
do manto ao redor, e estará sobre Arã o, quando ministrar, para que se ouça o
seu sonido, quando entrar no satuá rio diante do SENHORA quando sair, para
que nã o morra" (versículos 31 a35).
O manto azul do "éfode" exprime o cará ter celestial do nosso Sumo
Sacerdote, que penetrou nos céus, para além do alcance da visã o humana;
porém, pelo poder do Espírito Santo, há um testemunho da verdade de estar
vivo na presença de Deus; e nã o apenas um testemunho, mas fruto também.
"Uma compainha de ouro e uma romã , outra campainha de ouroe outra romã ".
Tal é a ordem cheia de beleza. O verdadeiro testemunho da grande verdade
que Jesus vive sempre para interceder por nó s estará sempre ligado com
fertilidade no Seu serviço. Oh, se ao menos pudéssemos compreender mais
profundamente estes mistérios preciosos e santos! (¹).
__________________
(¹) É desnecessário advertir que existe uma propriedade divina e significativa em todas as
figuras que nos são apresentadas na Palavra de Deus. Assim, por exemplo, a "romã", quando aberta
verifica-se que consiste de um número de sementes contidas num líquido vermelho. Certamente, isto
fala por si. Que a espiritualidade, e não a imaginação, faça o seu juízo.
A Lâmina de Ouro
"Também fará s uma lâ mina de ouro puro e nela gravará s, à maneira
degravuras de selos.- SANTIDADEAO SENHOR. E atá -la-á s comum cordã o de
fio azul, de maneira que esteja na mitra; sobre a frente da mitra estará . E
estará sobre a testa de Arã o, para que Arã o leve a iniquidade das coisas santas,
que os filhos de Israel santificarem em todas as ofertas de suas coisas santas; e
estará continuamente na sua testa, para que tenham aceitaçã o perante o
SENHOR" (versículos 36 a 38). Eis aqui uma verdade importante para a alma. A
lâ mina de ouro sobre a testa de Arã o era figura da santidade do Senhor Jesus
Cristo: "e estará CONTINUAMENTE NA SUA testa, para que TENHAM aceitaçã o
perante o SENHOR". Que descanso para o coraçã o por entre as flutuaçõ es da
nossa experiência! O nosso Sumo Sacerdote está sempre na presença de Deus
por nó s. Somos representados pore aceites n'Ele. A Sua santidade pertence-
nos. Quanto mais profundamente conhecermos a nossa pró pria vileza e
fraquezas, tanto mais experimentaremos a verdade humilhante que em nó s
nã o habita bem algum, e mais fervorosamente bendiremos o Deus de toda a
174
graça por esta verdade consoladora: "estará continuamente na sua testa, para
que tenham aceitaçã o perante o SENHOR".
Se o leitor for um daqueles que sã o frequentemente tentados e
sobrecarregados com dú vidas e temores, com altos e baixos no seu estado
espiritual, com tendências a contemplar o seu pobre coraçã o, frio, inconstante
e rebelde—se for tentado com incerteza excessiva e falta de santidade —,
deve apoiar-se de todo o coraçã o sobre esta verdade preciosa: que o seu Sumo
Sacerdote representa-o diante do trono de Deus. Deve fixar os seus olhos na
lâ mina de ouro e ler, na inscriçã o gravada nela, a medida da sua aceitaçã o
eterna perante Deus. Que o Espírito Santo o ajude a provar a doçura peculiar e
o poder mantenedor desta doutrina divina e celestial!
— CAPÍTULO 29 —
A CONSAGRAÇÃO DO
SARCEDOTE
A Lavagem com Água
Já frisá mos que Arã o e seus filhos representam Cristo e a Igrej a,
porém nos primeiros versículos deste capítulo é dado o primeiro lugar a Arã o.
"Entã o, fará s chegar Arã o e seus filhos à porta da tenda da congregaçã o e os
lavará s com á gua" (versículo 4). A lavagem da á gua tornava Arã o
simbolicamente aquilo que Cristo é intrinsecamente, isto é: santo. A Igreja é
santa em virtude de estar ligada a Cristo na vida de ressurreiçã o. Ele é a
definiçã o perfeita daquilo que ela é perante Deus. O ato cerimonial da lavagem
da á gua representa a açã o da palavra de Deus (veja-se Ef 5:26).
"E por eles me santifico a mim mesmo, para que também eles sejam
santificados na verdade" (Jo 17:19), disse o Senhor Jesus. Separou-Se para
Deus no poder de uma perfeita obediência, orien-tando-Se em todas as coisas,
como homem, pela Palavra, mediante o Espírito eterno, a fim de que todos
aqueles que sã o d'Ele pudessem ser inteiramente separados pelo poder moral
da verdade.
A Unção
"E tomará s o azeite da unçã o e o derramará s sobre a sua cabeça "
(versículo 7). Nestas palavras temos o Espírito, mas é preciso notar que Arã o
foi ungido antes de o sangue ser derramado, porque nos é apresentado como
figura de Cristo, que, em virtude daquilo que era em Sua Pró pria Pessoa, foi
ungido com o Espírito Santo muito antes que fosse cumprida a obra da cruz.
Em contrapartida, os filhos de Arã o nã o foram ungidos senã o depois de ser
espargido o sangue, "degolará s o carneiro, e tomará s do seu sangue, e o porá s
sobre a ponta da orelha direita deArã o,e sobre a ponta da orelha direita de
seus filhos, como também sobre o dedo polegar da sua mã o direita, e sobre o
dedo polegar do seu pé direito: e o resto do sangue espalhará s sobre o altar ao
redor" (¹). "Entã o, tomará s do sangue que estará sobre os altar e do azeite da
unçã o e o espargirá s sobre Arã o e sobre as suas vestes e sobre seus filhos, e
sobre os as vestes de seus filhos com ele" (versículos 20 e 21). No que diz
respeito à Igreja, o sangue da cruz é o fundamento de tudo. Ela nã o podia ser
177
ungida com o Espírito Santo até que a sua Cabeça ressuscitada tivesse subido
ao céu e depositado sobre o trono da Maj estade divina o relato do sacrifício
que havia oferecido. "Deus ressuscitou a este Jesus, do que todos nó s somos
testemunhas. De sorte que, exaltado pela destra de Deus, e tendo recebido do
Pai e promessa do Espírito Santo, derramou isto que vó s agora vedes e ouvis"
(At 2:32-33); compa-rem-se também Jo 7:39; At 19:1 - 6). Desde os dias de
Abel que haviam sido regeneradas almas pelo Espírito Santo e experimentado
a Sua influência, sobre as quais operou e a quem qualificou para o serviço;
porém a Igreja nã o podia ser ungida com o Espírito Santo até que o Seu
Senhor tivesse entrado vitorioso no céu e recebesse para ela a promessa do
Pai. A verdade desta doutrina é ensinada, da forma mais direta e completa, em
todo o Novo Testamento; e a sua integridade estreita é mantida, em figura, no
símbolo que temos perante nó s, pelo fato claro que, embora Arã o fosse ungido
antes de o sangue haver sido derramado (versículo 7), contudo os seus filhos
nã o o foram, e nã o podiam ser ungidos senã o depois (versículo 21).
____________________
(¹) O ouvido, as mãos e os pés são consagrados a Deus no poder da expiação efetuada e
mediante a energia do Espírito Santo.
A Preeminência de Cristo
Porém, aprendemos alguma coisa mais com a ordem da unçã o neste
capítulo, além da verdade importante acerca da obra do Espírito, e a posiçã o
que a Igreja ocupa. A preeminência do Filho é-nos também apresentada.
"Amaste a justiça e aborreceste a inquidade; por isso Deus, o teu Deus, te
ungiu com ó leo de alegria, mais do que a teus companheiros" (SI 45:7; Hb 1:9).
É preciso que o povo de Deus mantenha sempre esta verdade nas suas
convicçõ es e experiências. Por certo, a graça infinita de Deus é manifestada no
fato maravilhoso que pecadores culpados e dignos do inferno sejam chamados
companheiros do Filho de Deus; mas nunca devemos esquecer, nem por um
momento, o vocá bulo "mais". Por mais íntima que seja a uniã o—e é tã o íntima
quanto os desígnios eternos do amor divino a podiam fazer—, é, contudo,
necessá rio que Cristo tenha em tudo a preeminência" (Cl 1:18). Nã o podia ser
de outra maneira. Ele é Cabeça sobre todas as coisas — Cabeça da Igreja,
Cabeça sobre a criaçã o, Cabeça sobre os anjos, o Senhor do universo. Nã o
existe um só astro de todos os que se movem no espaço que nã o Lhe pertença
e nã o se mova sob a Sua orientaçã o. Nã o existe um verme sequer que se
arrasta sobre a terra, que nã o esteja sob os Seus olhos incansá veis. Ele está
acima de todas as coisas; é toda a criatura "o primogénito de entre os mortos"
"o princípio da criaçã o de Deus" (Cl l:15-18;Ap 1:5). "Toda a família nos céus
ena terra" (Ef 3:15) deve alinhar, na classe divina, sob Cristo. Tudo isto será
reconhecido com gratidã o por todo o crente espiritual; sim, a sua pró pria
articulaçã o produz um estremecimento no coraçã o do crente. Todos os que
sã o guiados pelo Espírito regozijar-se-ã o com cada nova manifestaçã o das
gló rias pessoais do Filho; da mesma maneira que nã o poderã o tolerar
qualquer coisa que se levante contra elas. Que a Igreja se eleve à s mais altas
178
regiõ es e gló ria, será seu gozo ajoelhar aos pés d'Aquele que se baixou para a
elevar, em virtude do Seu sacrifício, à uniã o Consigo; o qual havendo
plenamente correspondido a todas as exigências da justiça divina, pode
satisfazer todos os afetos divinos, unindo-a em um Consigo Mesmo, em toda a
aceitaçã o infinita com o Pai, na Sua gló ria eterna: "Nã o se envergonha de lhes
chamar irmã os" (Hb 2:11).
___________________
Nota: Evitei propositadamente tocar no assunto das ofertas em capítulo 29 visto que
teremos ocasião de considerar as diferentes classes de sacrifícios, por sua ordem, nos nossos estudos
sobre o Livro de Levítico, se o Senhor permitir.
— CAPÍTULO 30 —
O CULTO, A COMUNHÃO
E A ADORAÇÃO
O Altar de Cobre e o Altar de Ouro
Instituído o sacerdó cio, como vimos nos dois capítulos precedentes,
somos introduzidos aqui na posiçã o do verdadeiro culto e comunhã o
sacerdotal. A ordem é notá vel e instrutiva; e, além disso, corresponde
exatamente com a ordem da experiência do crente. No altar de bronze, o
crente vê as cinzas dos seus pecados; e vê-se imediatamente unido com
Aquele que, embora pessoalmente puro e incontaminado, de forma que podia
ser ungido sem sangue, tem-nos, contudo, associado Consigo na vida, em
justiça e favor; e, por fim, o crente vê no altar de ouro a preciosidade de Cristo,
como sendo a substâ ncia com a qual é alimentado o amor divino.
É sempre assim: é necessá rio que haja um altar de cobre e um
sacerdote antes que possa haver um altar de ouro e incenso. Muitíssimos
filhos de Deus nunca passaram do altar de cobre; nunca entraram, em espírito,
no poder e realidade do verdadeiro culto sacerdotal. Nã o se regozijam no
pleno e perfeito sentimento divino de perdã o e justiça; nunca conseguiram
chegar ao altar de ouro. Esperam alcançá -lo quando morrerem; ao passo que
já têm o privilégio de estar ali agora. A obra da cruz tirou do caminho tudo que
podia representar um obstá culo a um culto livre e inteligente. A posiçã o atual
de todos os crentes verdadeiros é junto do altar de ouro do incenso.
Este altar é figura de uma posiçã o de maravilhosa bem-aventurança. Ê
ali que desfrutamos a realidade e eficá cia da intercessã o de Cristo. Havendo
acabado com o ego e tudo quanto lhe diz respeito, ainda que esperá ssemos
algumbem dele, temos de estar ocupados com aquilo que Cristo é perante
Deus. Nada encontraremos no ego senã o corrupçã o; todas as suas
manifestaçõ es sã o corrompidas; já foi condenado e posto de parte pelo juízo
179
de Deus, e nem só um fio ou partícula dele se pode encontrar no incenso ou no
fogo do altar de ouro puro. Isso seria impossível. Fomos introduzidos no
santuá rio "pelo sangue de Jesus", santuá rio de serviço e culto sacerdotal, no
qual nã o existe nem sequer um vestígio de pecado. Vemos a mesa pura, o
castiçal puro e o altar puro; mas nã o existe nada que nos recorde o ego e a sua
miséria. Se fosse possível que alguma coisa do ego se apresentasse à nossa
vista, isso só serviria para destruir o nos so culto, contaminar o nosso
alimento sacerdotal e ofuscara nossa luz. A natureza nã o pode ter lugar no
santuá rio de Deus: foi consumida e reduzida a cinzas com tudo quanto lhe
pertence; e agora as nossas almas sã o chamadas para gozar o bom cheiro de
Cristo, subindo como perfume agradá vel a Deus: é nisto que Deus Se deleita.
Tudo o que apresenta Cristo na Sua pró pria excelência é agradá vel a Deus. Até
a mais débil expressã o ou manifestaçã o de Cristo, na vida ou adoraçã o de um
dos Seus santos, é cheiro agradá vel, no qual Deus acha o Seu prazer.
Enfim, temos muitíssimas vezes de estar ocupados com as nossas
faltas e fraquezas. Se os efeitos do pecado, que habita em nó s, se manifestam,
temos de tratar com Deus acerca deles, pois o Senhor nã o pode concordar com
o pecado. Pode perdoar o pecado e purif icar-nos; pode restaurar as nossas
almas pelo ministério precioso do nosso grande Sumo Sacerdote; porém nã o
pode associar-se a um simples pensamento pecaminoso. Um pensamento
ligeiro ou louco bem como uma ideia impura ou cobiçosa, sã o o bastante para
perturbar a comunhã o do crente e interromper o seu culto. Se um tal pensa-
mento se levanta, deve ser confessado e julgado antes de podermos desfrutar
outra vez os gozos sublimes do santuá rio. Um coraçã o em que opera a
concupiscência nã o tem parte nas ocupaçõ es do santuá rio. Quando nos
encontramos na nossa pró pria condiçã o sacerdotal, a natureza é como se nã o
tivesse existência; é entã o que nos podemos alimentar de Cristo. Podemos
provar o prazer divino de estarmos inteiramente livres de nó s pró prios e
completamente absorvidos por Cristo.
Mas tudo isto só pode ser produzido pelo poder do Espírito. É inú til
procurar excitar os sentimentos naturais de devoçã o pelos diferentes
instrumentos da religiã o sistemá tica. É necessá rio que haja fogo puro e
incenso puro (comparem-se Lv 10:1 com 16:12). Todos os esforços para
adorar a Deus por meio das faculdades profanas da natureza estã o incluídos
na caregoria de "fogo estranho". Deus é o verdadeiro objeto de adoraçã o;
Cristo é o f undamen-to e a substâ ncia de adoraçã o; e o Espírito Santo é o seu
poder.
Propriamente falando, portanto, assim o altar de cobre nos apresenta
Cristo no valor do Seu sacrifício, o altar de ouro mostra-nos Cristo no valor da
Sua intercessã o. Este fato dará ao leitor uma melhor compreensã o do motivo
por que a ocuapaçã o sacerdotal é introduzida entre os dois altares. Existe,
como podia esperar-se, uma relaçã o íntima entre os dois altares, pois que a
intercessã o de Cristo está fundada sobre o Seu sacrifício.
"E uma vez no ano Arã o fará expiaçã o sobre as pontas do altar, com o
180
sangue do sacrifício das expiaçõ es; uma vez no ano fará expiaçã o sobre ele,
pelas vossas geraçõ es; santíssimo é ao SENHOR" (versículo 10). Tudo repousa
sobre o fundamento inabalá vel do SANGUE ESPARGIDO. "Quase todas as
coisas, segundo a lei, se purificam com sangue; e sem derramamento de
sangue nã o há remissã o. De sorte que era bem necessá rio que as figuras das
coisas que estã o no céu assim se purificassem; mas, as pró prias coisas
celestiais, com sacrifícios melhores do que estes. Porque Cristo nã o entrou
num santuá rio feito por mã os, figura do verdadeiro, porém, no mesmo céu,
para agora comparecer, por nó s, perante a face de Deus" (Hb 9:22-24).
A Pia de Cobre
Nos versículos 17 a 21 temos a "pia de cobre com a sua base" — o
181
vaso da purificaçã o e a sua base. Estas duas coisas sã o sempre mencionadas
conjuntamente (veja-se capítulos 30:28; 38:8; 40:11). Era nesta pia que os
sacerdotes lavavam as mã os e os pés, e desta forma mantinham aquela pureza
que era essencial ao cumprimento das suas funçõ es sacerdotais. Nã o
significava, de modo nenhum, uma nova questã o do sangue; mas
simplesmente um ato mediante o qual se mantinham em aptidã o para o
serviço sacerdotal e o culto.
"E Arã o e seus filhos nela lavarã o as suas mã os e os seus pés. Quando
entrarem na tenda da congregaçã o, lavar-se-ã o com á gua, para que nã o
morram, ou quando se chegarem ao altar para ministrar, para acender a oferta
queimada ao SENHOR" (versículo 20). Nã o pode haver verdadeira comunhã o
com Deus se a santidade pessoal nã o for diligentemente mantida. "Se
dissermos que temos comunhã o com ele e andarmos em trevas, mentimos e
nã o praticamos a verdade" (1 Jo 1:6). Esta santidade pessoal só pode proceder
da açã o da Palavra de Deus nas nossas obras e nos nossos caminhos:"... pela
palavra dos teus lá bios me guardei das veredas do destruidor" (Sl 17:4). O
nosso enfraquecimento constante no ministério sacerdotal pode ser causa de
negligenciarmos o uso conveniente da pia de cobre. Se os nossos caminhos
nã o sã o submetidos à noçã o purificadora da Palavra de Deus — se
continuarmos em busca ou na prá tica de alguma coisa que, segundo o
testemunho da nossa pró pria consciência, é claramente condenada pela
Palavra de Deus, o nosso cará ter sacerdotal carecerá certamente de poder. A
perseverança deliberada no mal e o verdadeiro culto sacerdotal sã o de todo
incompatíveis. "Santifica-os na verdade; a tua palavra é a verdade" (Jo 17:17).
Se houver em nó s impureza, nã o podemos gozar a presença de Deus. O efeito
da Sua presença será entã o convencer-nos do mal pela luz santa da Sua
Palavra. Porém, quando, mediante a graça, sabemos purificar os nossos
caminhos, acautelando-nos segundo a Palavra de Deus, entã o estamos
moralmente em estado de gozar a Sua presença.
O leitor perceberá imediatamente que se abre aqui um vasto campo
de verdade prá tica e como a doutrina da pia de cobre é largamente
apresentada no Novo Testamento. Oh! que todos aqueles que têm o privilégio
de pô r os pés nos á trios do santuá rio com vestidos sacerdotais e de se
aproximarem do altar de Deus, par exercer o sacerdó cio, mantenham as mã os
e os pés limpos pelo uso da verdadeira pia de cobre!
Talvez seja interessante notar que a pia de cobre com a Sua base era
feita "dos espelhos das mulheres que se ajuntaram, ajuntando-se à porta da
tenda da congregaçã o" (capítulo 38:8). Este fato é cheio de significado.
Estamos sempre prontos a ser como o homem que "contempla ao espelho o
seu rosto natural; porque se contempla a si mesmo, e foi-se, e logo se
esqueceu de como era" (Tg 1:28). O espelho da natureza nunca poderá dar-
nos uma vista clara e permanente da nossa verdadeira condiçã o. "Aquele,
porém, que atenta bem para a lei perfeita da liberdade e nisso persevera, nã o
sendo ouvinte esquecido, mas fazedor da obra, este tal será bem-aventurado
182
no seu feito" (Tg 1:25). Aquele que recorre continuamente à Palavra de Deus e
a deixa falar ao seu coraçã o e à sua consciência será mantido na atividade
santa da vida divina.
A Santa Unção
Os versículos 22 e 23 tratam "do azeite da santa unçã o", com a qual
eram ungidos os sacerdotes com todos os utensílios do santuá rio.
Nesta unçã o discernimos uma figura das vá rias graças do Espírito
Santo, as quais se acharam em Cristo em toda a sua plenitude divina. "Todos
os teus vestidos cheiram a mira, a aloés e a cá ssia, desde os palá cios de marfim
de onde te alegram" (SI 45:8). "Como Deus ungiu a Jesus de Nazaré com o
Espírito Santo e com virtude" (At 10:38). Todas as graças do Espírito Santo,
em sua perfeita fragrâ ncia, se concentraram em Cristo; e é somente d'Ele que
podem emanar. Quanto à Sua humanidade, foi concebido do Espírito Santo; e,
antes de entrar no Seu ministério pú blico, foi ungido com o Espírito Santo; e,
finalmente, havendo tomado o Seu lugar nas alturas, derramou sobre o Seu
183
corpo, a Igreja, os dons preciosos do Espírito, em testemunho da redençã o
efetuada (veja-se Mt 1.20; 3:16-17; Lc 4:18-19; At 2:33; 10:45-46; Ef 4:8-13).
É como aqueles que estã o associados com este bendito e eternamente
glorificado Senhor que os crentes sã o feitos participantes dos dons e graças do
Espírito Santo; e, além disso, é na medida em que andam em intimidade com
Ele que gozam ou emitem a Sua fragrâ ncia.
O homem nã o regenerado nã o conhece estas coisas. "Nã o se ungirá
com ele a carne do homem" (versículo 32). As graças do Espírito nunca
poderã o ser ligadas com a carne, porque o Espírito Santo nã o pode reconhecer
a natureza. Nem um só dos frutos do Espírito foi jamais produzido no solo
estéril da natureza. E necessá rio nascer de novo (Jo 3:7). E só como unidos
com o novo homem, como sendo parte da nova criaçã o, que podemos
conhecer alguma coisa dos frutos do Espírito Santo.
É inú til procurar imitar esses frutos e virtudes. Os mais belos frutos
que jamais cresceram no campo da natureza, no seu mais alto grau de cultivo
— os traços mais amá veis que a natureza pode apresentar— devem ser
inteiramente rejeitados no santuá rio de Deus. "Nã o se ungirá com ele a carne
do homem, nem fareis outro semelhante conforme a sua composiçã o: santo é,e
será santo para vó s. O homem que compuser tal perfume como este, ou que
dele puser sobre um estranho, será extirpado dos seus povos". Nã o deve haver
imitaçã o da obra do Espírito: tudo tem que ser do Espírito: inteiramente e
realmente do Espírito. Demais, aquilo que é do Espírito nã o deve ser atribuído
ao homem:"... o homem natural nã o compreende as coisas do Espírito de Deus,
porque lhe parecem loucura; e nã o pode entendê-las, porque elas se
discernem espiritualmente" (1 Co 2:14).
Num dos câ nticos dos degraus há uma alusã o magnífica a este azeite
da unçã o. "Oh! quã o bom e quã o suave é", diz o salmista, "que os irmã os vivam
em uniã o! É como o ó leo precioso sobre a cabeça, que desce sobre a barba, a
barba de Arã o, e que desce à orla das suas vestes" (Sl 133:1- 2). Os pró prios
vestidos do chefe da casa sacerdotal, depois de ele haver sido ungido com o
azeite da santa unçã o, devem mostrar os seus preciosos efeitos. Que oleitor
possa experimentar o poder desta unçã o, e conhecer o que é ter "a unçã o do
Santo" e ser selado com o Espírito Santo da promessa! (lJo2:20;Ef 1:13). Nada
tem valor, segundo a apreciaçã o de Deus, salvo aquilo que está ligado com
Cristo, e tudo aquilo que estiver assim ligado com Ele pode receber a santa
unçã o.
Resumo
Assim, pois, chegá mos, no nosso rá pido estudo, ao fim de uma parte
distinta do livro do Ê xodo. Começamos pela "arca do concerto" até que
chegá mos ao "altar do cobre"; retrocedemos do altar de cobre e chegá mos à
"santa unçã o"; e oh! que divagaçã o esta, se tã b somente for feita à luz infalível
do Espírito Santo, em vez da companhia vacilante da luz da imaginaçã o
humana!
185
Que divagaçã o, contanto que seja feita nã o por entre as sombras de
uma dispensaçã o que acabou, mas no meio das gló rias e das poderosas
atraçõ es do Filho de Deus, representadas por estas coisas! Se o leitor ainda
nã o fez esta divagaçã o, verá mais do que nunca o seu afeto atraído para Cristo
se a fizer; terá uma maior concepçã o da Sua gló ria, da Sua beleza, da Sua
excelência e do Seu poder para sanar a consciência e satisfazer o coraçã o
sedento; os seus olhos estarã o fechados para as atraçõ es do mundo e os
ouvidos nã o prestarã o atençã o à s pretensõ es e promessas da terra. Em suma,
estará pronto a pronunciar o amém fervoroso à s palavras do apó stolo (1 Co
16:22), quando disse: "SE ALGUÉ M NÃ O AMA AO SENHOR JESUS CRISTO SEJA
ANÁ TEMA; MARANATA" (¹).
__________________
(¹) É interessante notar o lugar que ocupa este anátema aterrador. Acha-se no final de
uma longa epístola, no decorrer da qual o apóstolo teve de reprimir alguns pecados dos mais
grosseiros e vários erros de doutrina. Quão solene e significativo é, portanto, o fato de que quando
anuncia o seu anátema não o lança contra aqueles que haviam introduzido esses erros e pecados,
mas sim contra todo aquele que não ama ao Senhor Jesus Cristo. Por que é isto assim' É acaso
porque o Espírito de Deus faz pouco caso dos erros ou pecados' Seguramente que não; toda a
epístola nos revela os Seus pensamentos quanto a estes males. A verdade é que quando o coração
está cheio de amor para com o Senhor Jesus Cristo, existe uma salvaguarda positiva contra toda a
espécie de falsa doutrina e má conduta. Se alguém não ama a Cristo não se pode calcular quais as
ideias que possa adoptar ou o caminho que possa seguir. Logo, a forma do anátema e o lugar que
ocupa na epístola.
— CAPÍTULO 31 —
O SERVIÇO
Bezalel e Aoliabe
Os primeiros versículos deste breve capítulo recordam a chamada
divina e os qualificativos de "Bezalel" e"Aoliabe" para fazerem o trabalho da
congregaçã o. "Depois, falou o SENHOR a Moisés, dizendo: Eis que eu tenho
chamado por nome a Bezalel, o filho de Uri, filho de Hur, da tribo de Judá. E o
enchi do Espírito de Deus, de sabedoria, e de entendimento, e de ciência em
todo o artifício... e eis que eu tenho posto com ele a Aoliabe, o filho de
Aisamaque, da tribo de Dã , e tenho dado sabedoria ao coraçã o de todo aquele
que é sá bio de coraçã o, para que façam tudo que eu tenho ordenado". Quer seja
para a obra do taberná culo, na antiguidade, ou para "a obra do ministério",
agora, é necessá rio que aqueles que sã o empregados nela sejam divinamente
escolhidos, divinamente chamados, divinamente qualificados e divinamente
nomeados; e tudo deve ser feito segundo o mandamento de Deus. Nã o estava
dentro das atribuiçõ es do homem selecionar, chamar, qualificar ou nomear os
186
obreiros para a obra do taberná culo; nem tampouco o pode fazer para a obra
do ministério. Demais, ninguém podia presumir de se nomear a si pró prio
para a obra do taberná culo; nem tampouco ninguém pode agora nomear-se a
si pró prio para a obra do ministério. Era tudo, é e deve ser absolutamente da
competência divina. Pode haver quem corra por seu pró prio impulso ou quem
seja enviado por colegas; mas nã o se esqueça que todos aqueles que correm
sem serem enviados por Deus serã o mais cedo ou mais tarde cobertos de
vergonha e confusã o. Tal é a sã doutrina que nos é sugerida pelas palavras "eu
tenho chamado", "eu tenho posto", "eu tenho dado", "eu tenho ordenado". As
palavras de Joã o Batista, "o homem nã o pode receber coisa alguma senã o lhe
for dada do céu", serã o sempre verdadeiras. O homem tem, pois, muito pouco
em que se vangloriar, menos ainda de que invejar ao seu pró ximo.
Existe uma liçã o ú til a tirar da comparaçã o deste capítulo com o
capítulo 4 de Génesis: "Tubalcaim, mestre de toda a obra de cobre e de ferro"
(versículo 22). Os descendentes de Caim eram dotados de talento profano
para fazer de uma terra maldita e cheia de gemidos um lugar agradá vel sem a
presença de Deus. "Bezalel" e "Aoliabe" pelo contrá rio foram dotados com
perícia divina para embelezar um santuá rio que devia ser santificado e
abençoado pela presença divina e a gló ria do Deus de Israel.
Gostaria de pedir ao leitor que f izesse à sua pró pria consciência a
seguinte pergunta: Consagro eu o que quer que possuo de perícia ou energia
aos interesses da Igreja, que é o lugar de habitaçã o de Deus, ou ao
embelezamento de um mundo ímpio e sem Cristo1? Nã o diga em seu coraçã o
"nã o sou divinamente chamado ou dotado para a obra do ministério". Note-se
que embora todos os israelitas nã o fossem Bezaleles ou Aoliabes todos
podiam servir os interesses do santuá rio. Existia uma porta aberta para todos
poderem comunicar. E assim é agora. Cada um tem um lugar para ocupar, um
ministério a cumprir, uma responsabilidade a desempenhar; e tanto o leitor
como eu estamos, neste pró prio momento, promovendo os interesses da Casa
de Deus — O Corpo de Cristo, a Igreja — ou cooperando nos planos ímpios de
um mundo que ainda está manchado com o sangue de Cristo e o sangue de
todos os santos má rtires. Oh! ponderemos profundamente estas coisas, na
presença d'Aquele que esquadrinha os coraçõ es, a Quem ninguém pode
enganar e de Quem todos sã o conhecidos.
— CAPÍTULO 32 —
APOSTASIA
Vamos agora contemplar alguma coisa diferente daquilo que tem até
aqui ocupado a nossa atençã o. "As figuras das coisas que estã o no céu" (Heb.
9:23) passaram perante os nossos olhos — Cristo em Sua gloriosa Pessoa, em
Seus deveres de misericó rdia e em Sua obra perfeita, tal como sã o
189
representados no taberná culo e nos seus utensílios místicos. Havemos estado
em espírito no monte e ouvido as pró prias palavras de Deus, as doces
declaraçõ es dos pensamentos celestiais, afeiçã o e propó sitos, dos quais Jesus é
"o Alfa e o Omega, o princípio e o fim, o primeiro e o ú ltimo".
"Faze-nos Deuses"
Mas agora somos convidados a descer outra vez à terra para
contemplar a ruína que o homem faz de tudo em que põ e a sua mã o.
"Mas, vendo o povo que Moisés tardava em descer do monte, ajuntou-
se o povo a Arã o, e disseram-lhe: Levanta-te, faze-nos deuses que vã o adiante
de nó s; porque enquanto a este Moisés, a este homem que nos tirou da terra
do Egito, nã o sabemos o que lhe sucedeu" (versículo 1). Que degradaçã o se
manifesta aqui! Faze-nos deuses! Abandonavam Jeová para se porem debaixo
da tutela de deuses feitos por mã os de homens. Nuvens escuras e névoas
espessas cobriam o monte; eles estavam fartos de esperar por aquele que se
havia ausentado e de se apoiarem num braço invisível, embora real.
Imaginaram que um deus feito com "um buril" valia mais que o Senhor;
preferiam um bezerro que podiam ver em vez do Deus invisível mas presente
em toda a parte — uma falsificaçã o visível à realidade invisível!
Desgraçadamente, sempre, assim tem sucedido na histó ria do
homem. O coraçã o humano deseja alguma coisa que se possa ver— aquilo que
responda e satisfaça os sentidos. Só a fé pode ficar firme "como vendo o
invisível" (Hb 11:27). Assim, em todos os tempos, os homens têm tido a
tendência para levantar imitaçõ es das realidades divinas e de se apoiarem
nelas. Vemos assim como as falsificaçõ es da religiã o se têm multiplicado ante
os nossos olhos. Aquelas coisas que sabemos, por meio da autoridade da
Palavra de Deus, serem realidades divinas e celestiais têm sido transformadas
em imitaçõ es humanas e terrenas pela Igreja professa. Cansada de se apoiar
sobre um braço invisível, de confiar num sacrifício invisível, de recorrer a um
sacerdote invisível, de esperar a direçã o de um chefe invisível, tem-se ocupado
em "fazer" estas coisas; e, desta forma, através dos séculos, tem estado
ocupada, de "buril" na mã o, talhando e gravando uma coisa apó s outra, de
sorte que agora já nã o achamos mais analogia entre muita coisa que vemos em
torno de nó s e o que lemos na Palavra de Deus do que aquela que existe entre
um bezerro "fundido" e o Deus de Israel.
"Faze-nos deuses! Que pensamento! O homem convidado a fazer
deuses e o povo disposto a pô r a sua confiança neles! Prezado leitor, olhemos
no íntimo e em torno de nó s e vejamos senã o descobrimos algo de
semelhante. Lemos a respeito da histó ria de Israel que todas estas coisas lhes
sobrevieram como figuras, "e estã o escritas para aviso nosso, para quem já sã o
chegados os fins dos séculos" (ICo 10:11). Procuremos, pois, aproveitar o
"aviso". Acordemos que ainda que nã o façamos precisamente "um bezerro de
fundiçã o" nos prostramos diante dele. O pecado de Israel é, sem dú vida, um
"tipo" de alguma coisa em que corremos o risco de cair. Sempre que, em nosso
190
coraçã o, deixamos de nos apoiar exclusivamente em Deus, quer seja no que se
refere ao assunto da salvaçã o, quer no tocante à s necessidades da nossa vida,
estamos dizendo, em princípio, "faze-nos deuses". É desnecessá rio dizer que,
em nó s mesmos, nã o somos de nenhuma maneira melhores que Arã o ou os
filhos de Israel; e se eles honraram um bezerro em lugar do Senhor, nó s
corremos o risco de atuar segundo o mesmo princípio e de manifestar o
mesmo espírito. A nossa ú nica salvaguarda é estarmos muito tempo na
presença de Deus. Moisés sabia que "o bezerro de fundiçã o" nã o era Jeová , e
portanto nã o o reconheceu. Porém, quando nos afastamos da presença divina
é impossível prever os erros crassos em que podemos cair e todo o mal em
que podemos ser arrastados.
As Realidades da Fé
Nó s somos chamados a viver pela fé; nada podemos ver pela vista dos
sentidos. Jesus subiu à s alturas e é-nos dito para esperarmos pacientemente
pelo Seu aparecimento. A Palavra de Deus, aplicada ao coraçã o na energia do
Espírito Santo, é o fundamento de confiança em todas as coisas, temporais e
espirituais, presentes e futuras. Deus fala-nos do sacrifício cumprido por
Cristo; nó s cremos pela graça e pomos as nossas almas sob a eficá cia deste
sacrifício, e sabemos que nunca seremos confundidos.
Fala-nos de um sumo sacerdote, que penetrou nos céus, Jesus, o Filho
de Deus, cuja intercessã o é toda poderosa; nó s, pela graça, cremos e apoiamo-
nos confiadamente sobre o Seu poder e sabemos que seremos salvos para
todo o sempre. Fala-nos do Chefe vivo com Quem estamos unidos no poder da
vida de ressurreiçã o, e de Quem nenhuma influência angélica, humana ou
diabó lica nos poderá separar e, pela graça, cremos e apoiamo-nos a esse Chefe
bendito com fé simples e sabemos que nunca havemos de perecer. Fala-nos do
aparecimento glorioso do Filho, vindo dos céus; nó s, pela graça, cremos e
procuramos experimentar o poder purificador desta "esperança bendita" (Tt
2:13); e sabemos que nã o sofreremos nenhum desengano. Fala-nos de uma
herança incorruptível, incontaminá vel, e que nã o se pode murchar, guardada
nos céus para nó s, e que estamos guardados na virtude de Deus (1 Pe 1:4-5);
de posse da qual herança entraremos a seu devido tempo; e, pela graça,
cremos e sabemos que nã o seremos confundidos. Diz-nos que os cabelos da
nossa cabeça estã o todos contados e que nada nos faltará ; e mediante a graça
cremos e gozamos uma doce tranquilidade de coraçã o.
E assim é, ou, pelo menos, assim quisera Deus que fosse. Porém o
inimigo está sempre ativo, buscando fazer com que estas realidades divinas
sejam desprezadas por nó s — Procura induzir-nos a pegar no "buril" da
incredulidade e fazermos os nossos pró prios deuses. Vigiemoscontraele;
oremos para sermos guardados dele; testifiquemos contra ele; atuemos contra
ele; e desta forma ele será confundido, Deus será glorificado e nó s pró prios
seremos abundantemente abençoados.
191
O Bezerro de Fundição
Quanto a Israel, neste capítulo, a sua rejeiçã o deDeus foi a mais
completa. "EArã o lhes disse: Arrancai os pendentes de ouro, que estã o nas
orelhas de vossas mulheres, e de vossos filhos, e de vossas filhas e trazei-mos...
e ele os tomou das suas mã os, e formou o ouro comum buril, e fez dele um
bezerro de fundiçã o. Entã o, disseram: Estes são teus deuses, ó lsrael, que te
tiraram da terra do Egito. EArã o, vendo isto, edificou um altar diante dele; e
Arã o apregoou, e disse: Amanhã será festa ao SENHOR" (versículos 2 a 5). Isto
era pô r Deus de parte e substituí-Lo por um bezerro. Quando puderam procla-
mar que um bezerro os tinha tirado do Egito, abandonaram, evidentemente,
toda a ideia da presença e do cará ter do verdadeiro Deus. "Depressa" se
desviaram do caminho que Deus lhes tinha ordenado, para cometerem um
erro tã o grosseiro e espantoso! E Arã o, o irmã o e companheiro de Moisés no
seu cargo, conduziu-os neste extravio; e pô de dizer diante de um bezerro:
"Amanhã será festa ao SENHOR"! Como isto é triste! Quã o humilhante! Deus
destituído por um ídolo! Um objeto "esculpido por artifício e imaginaçã o dos
homens" foi posto em lugar do "Senhor de toda a terra"!
- CAPÍTULO 33 –
MEDIAÇÃO
E RESTAURAÇÃO
A Tenda da Congregação
O Senhor recusa acompanhar o seu povo à terra prometida: ".. .eu nã o
subirei no meio de ti, porquanto és povo obstinado, para que nã o te consuma
eu no caminho" (versículo 3). No princípio deste livro, o Senhor pô de dizer:
"Tenho visto atentamente a afliçã o do meu povo, que está no Egito, e tenho
ouvido o seu clamor por causa dos seus exatores, porque conheci as suas
dores". Porém, agora tem que dizer: "Tenho visto a este povo, e eis que é povo
obstinado". Um povo afligido é objetivo da graça, mas um povo obstinado é
necessá rio que sej a humilhado. O clamor de Israel oprimido havia obtido
resposta por meio da manifestaçã o da graça; mas o câ ntico idó latra de Israel
deve ser atendido pela voz de severa admoestaçã o.
"Povo obstinado és; se um momento subir no meio de ti, de
consumirei; porém agora tira de ti os teus atavios, para que eu saiba o que te
hei-de fazer"(versículo 5). É só quando somos despojados dos atavios da
nossa natureza que Deus pode tratar conosco. Um pecador despido pode ser
revestido; porém um pecador coberto de ornamentos deve ser despido. É
necessá rio que sejamos despojados de tudo que pertence ao ego, antes de
podermos ser revestidos daquilo que pertence a Deus.
"Entã o, os filhos de Israel se despojaram dos seus atavios, ao pé do
monte Horebe". Ali estavam, ao pé deste memorá vel monte, a sua festa e os
seus câ nticos haviam sido trocados por amargas lamentaçõ es, os seus atavios
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postos de parte, as tá buas da lei em pedaços. Tal era a sua condiçã o quando
Moisés se dispô s a agir imediatamente de acordo com o seu estado. Agora já
nã o podia reconhecer o povo no seu cará ter corpó reo. A assembleia havia-se
contaminado inteiramente levantando um ídolo de sua pró pria fabricaçã o em
lugar de Deus — um bezerro em lugar do Senhor.
"E tomou Moisés a tenda, e a estendeu para si fora do arraial,
desviada longe do arraial, e chamou-lhe a tenda da congregaçã o." Assim o
campo foi rejeitado como o lugar da presença divina. Deus já nã o estava ali,
nem podia estar por mais tempo, porque havia sido deposto por uma invençã o
humana. Um novo centro de reuniã o foi, pois, estabelecido. "E aconteceu que
todo aquele que buscava o SENHOR, saiu à tenda da congregaçã o que estava
fora do arraial ".
Eis aqui um princípio precioso da verdade que a mente espiritual
facilmente compreenderá . O lugar que Cristo ocupa agora é "fora do arraial"
(Hb 13:13), e nó s somos convidados a ir ao Seu encontro, "fora do arraial". É
necessá ria muita sujeiçã o à Palavra de Deus para se poder saber exatamente o
que significa realmente o arraial, e muito poder espiritual para se poder sair
dele; e muito mais ainda para se poder, quando se está "longe", atuar a favor
dos que estã o dentro do arraial no poder combinado da santidade e da graça
— a santidade que nos separa da contaminaçã o do arraial e a graça que nos
habita a atuar a favor daqueles que estã o dentro dele.
"E falava o SENHOR a Moisés face a face, como qualquer fala com o seu
amigo; depois, tornava ao arraial, mas o moço Josué, filho de Num, seu
servidor, nunca se apartava do meio da tenda". Moisés manifesta maior
energia espiritual que o seu servo Josué. E muito mais fá cil tomar uma posiçã o
de separaçã o do campo do que proceder acertadamente par com aqueles que
estã o dentro dele.
— CAPÍTULO 34 —
O MONTE HOREBE
E O EVANGELHO
Em capítulo 34 Deus dá as segundas tá buas da lei, nã o para serem
quebradas, mas para serem guardadas na arca, em cima da qual, como já
fizemos notar, Jeová ia tomar o Seu lugar como Senhor de toda a terra no
governo moral. "Entã o, ele lavrou duas tá buas de pedra, como as primeiras; e
levantou-se Moisés pela manhã de madrugada, e subiu ao monte Sinai, como o
SENHOR lhe tinha ordenado; e tomou as duas tá buas de pedra na sua mã o. E o
SENHOR desceu numa nuvem e se pô s junto a ele; e ele apregoou o nome do
SENHOR. Passando, pois, o SENHOR perante a sua face, clamou: JEOVÁ , o SENHOR,
Deus misericordioso e piedoso, tardio em iras e grande em beneficência e
verdade; que guarda a beneficiência em milhares; que perdoa a iniquidade, e a
transgressã o, e o pecado; que ao culpado nã o tem por inocente; que visita a
iniquidade dos pais sobre os filhos e sobre os filhos até à terceira e quarta
geraçã o" (versículos 4 a 7). Lembremo-nos que Deus é visto aqui no Seu
governo moral do mundo e nã o como é visto na cruz — nã o como brilha na
face de Jesus Cristo —, nã o como é proclamado no evangelho da Sua graça. Eis
uma exibiçã o de Deus no evangelho: "E tudo isso provém de Deus, que nos
reconciliou consigo mesmo, por Jesus Cristo e nos deu o ministério da
reconciliaçã o, isto é, Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo,
NÃ O LHES IMPUTANDO os seus pecados e pô s em nósapalavra da
reconciliação" (2 Co 5:18-19). Nã o ter "ao culpado por inocente" e nã o
"imputar o pecado" sã o termos que nos apresentam duas ideias de Deus
totalmente diferentes. Visitar "a iniquidade" e tirá -la nã o é certamente a
mesma coisa. A primeira é Deus agindo em Seu governo; a segunda é Deus no
evangelho. Em capítulo 3 da 2a epístola aos Coríntios, o apó stolo põ e em
contraste o "ministério" mencionado em Ê xodo, capítulo 34, como "o
ministério" do evangelho. O leitor fará bem em estudar esse capítulo com
atençã o. Aprenderá com essa liçã o que todo aquele que considera o ponto de
vista do cará ter de Deus dado a Moisés, no Monte Horebe, como explicando o
evangelho, deve ter realmente uma compreensã o muito imperfeita do que é o
evangelho. Eu nã o posso descobrir os segredos profundos do coraçã o do Pai
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nem na criaçã o, nem mesmo no governo moral. O filho pró digo poderia ter
achado o seu lugar nos braços d'Aquele que Se revelou no Monte Sinais Joã o
poderia ter inclinado a sua cabaça no coraçã o desse Senhora Seguramente que
nã o. Porém, Deus revelou-Se na face de Jesus Cristo; Ele nos revelou, com
harmonia divina, todos os Seus atributos na obra da cruz. Foi ali que "a
misericó rdia e a verdade se encontraram, a justiça e a paz se beijaram" (SI
85:10). O pecado é completamente tirado e o pecador que crê perfeitamente
justificado "PELO SANGUEDA CRUZ".
Quando vemos Deus assim revelado, temos apenas, à semelhança de
Moisés, de inclinar a cabeça à terra e adorar — atitude que convém a um
pecador perdoado e recebido na presença de Deus!
— CAPÍTULOS 35 a 40 —
A CONSTRUÇÃO DO
TABERNÁCULO
O Desprendimento Voluntário
Estes capítulos contêm uma recapitulaçã o de diversas partes do
taberná culo e seu mobiliá rio; e visto que já expliquei o que creio ser o
significado das partes mais proeminentes, é desnecessá rio acrescentar mais.
Existem, contudo, duas coisas nesta parte do livro das quais podemos
tirar instruçõ es muitos ú teis, a saber, em primeiro lugar os sacrifícios
voluntários do povo; e, em segundo, a obediência implícita do povo a respeito
da obra do taberná culo do testemunho.
"Entã o, toda a congregaçã o dos filhos de Israel saiu de diante de
Moisés, e veio todo homem, a quem o seu coraçã o moveu, e todo aquele cujo
espírito voluntariamente o impeliu, e trouxeram a of ertaalçada ao SENHOR,
para a obra da tenda da congregaçã o, e para todo o seu serviço, e para as
vestes santas. E, assim, vieram homens e mulheres, todos dispostos de
coraçã o; trouxeram fivelas, e pendentes, e anéis, e braceletes, e todo vaso de
ouro; e todo homem oferecia oferta de ouro ao SENHOR, e todo homem que se
achou com pano azul, e pú rpura, e carmesim, e linho fino, e pêlos de cabras, e
peles de carneiro tintas de vermelho, e peles de texugos, os trazia; todo aquele
que oferecia oferta alçada de prata ou de metal, a trazia; por oferta alçada ao
SENHOR; e todo aquele que se achava com madeira de cetim, a trazia para toda
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a obra do serviço. E todas a mulheres sá bias de coraçã o fiavam com as mã os, e
traziam o fiado, o pano azul, a pú rpura, o carmesim e o linho fino. E todas as
mulheres, cujo coraçã o se moveu em sabedoria, fiavam os pêlos das cabras. E
os príncipes traziam pedras sardó nicas, e pedras de engaste para oéfode epara
o peitoral, e especiarias, e azeite para a luminá ria, e para o ó leo da unçã o, e
para o incenso aromá tico. Todo homem e mulher, cujo coraçã o
voluntariamente se moveu a trazer alguma coisa para toda a obra que o
SENHOR ordenara se fizesse pela mã o de Moisés" (capítulo 35:20 a 29). E mais
adiante lemos: "E vieram todos os sá bios que faziam toda a obra do santuá rio,
cada um da obra que fazia, e falaram a Moisés, dizendo: O povo traz muito
mais do que basta para o serviço da obra que o SENHOR ordenou se fizesse...
porque tinham material bastante para toda a obra que havia de fazer-se"
(capítulo 36:4 a 7).
Que quadro encantador da dedicaçã o à obra do santuá rio! Nã o foram
precisos esforços, apelos ou argumentos solenes par constranger os coraçõ es
do povo a darem. Oh! nã o: os coraçõ es foram voluntariamente movidos. Este
era o pró prio princípio. A corrente de sacrifícios voluntá rios vinha dos
coraçõ es: "Príncipes", "homens", "mulheres", todos sentiam que era para eles
um doce privilégio darem ao Senhor, nã o com um coraçã o estreito ou mã o
mesquinha, mas de um modo principesco trouxeram "muito mais do que
bastava."
A Obediência Implícita
Em segundo lugar, quanto à obediência do povo está escrito:
"Conforme tudo o que o SENHOR ordenara a Moisés, assim fizeram os filhos de
Israel toda a obra. Viu, pois, Moisés toda a obra, e eis que a tinham feito; como
o SENHOR ordenara, assim a fizeram; entã o, Moisés os abençoou" (capítulo
39:42 a 43). O Senhor havia dado instruçõ es minuciosas relativas a toda a
obra do taberná culo. Cada estaca, cada base, cada colchete, cada cordã o
estavam exatamente nos seus lugares. Nã o houve lugar disponível para os
recursos, a razã o ou o sentido comum do homem. O Senhor nã o delineou um
plano deixando ao homem a tarefa de o completar; nem deixou nenhuma
margem para o homem fazer introduzir as usas combinaçõ es. De modo
nenhum. "Atenta, pois, que o faças conforme ao modelo que te foi mostrado no
monte (Ê x 25:40, 26:30; Hb8:5).
Este mandato nã o deixava lugar para invençõ es humanas. Se fosse
permitido ao homem fazer uma simples estaca, essa estaca estaria,
seguramente, fora de lugar, no parecer de Deus. Podemos ver em capítulo 32 o
que "o buril" do homem produz. Graças a Deus, o buril nã o teve lugar no
taberná culo. Neste caso eles fizeram precisamente o que lhes fora dito—nada
mais, nada menos. Eis aqui uma liçã o proveitosa para a igreja professa!
Existem muitas coisas na histó ria de Israel que devemos procurar seriamente
evitar: as suas murmuraçõ es de impaciência, os seus votos de legalismo, e a
sua idolatria; porém na sua devoçã o e na sua obediência podemos imitá -los.
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Que a nossa devoçã o seja mais sincera e a nossa obediência mais implícita.
Podemos afirmar com toda a segurança que se tudo nã o tivesse sido feito
conforme ao modelo mostrado "no monte" nã o poderíamos ler, no final do
livro, que "entã o, a nuvem cobriu a tenda da congregaçã o, e a gló ria do SENHOR
encheu o taberná culo, de maneira que Moisés nã o podia entrar na tenda da
congregaçã o, porquanto a nuvem ficava sobre ela, e a gló ria do SENHOR enchia
o taberná culo" (capítulo 40:34-35). O taberná culo era, para todos os efeitos,
conforme ao modelo divino, e, portanto, podia ser cheio da glória divina.
Existem tomos de instruçõ es nesta verdade. Estamos sempre prontos
a considerar a Palavra de Deus insuficiente até para os mínimos pormenores
ao culto e serviço de Deus. Mas isto é um grande erro, erro que tem sido a
origem de abundantes males e erros na igreja professa. A Palavra de Deus é
suficiente para todas as coisas, quer seja no que se refere à salvaçã o e conduta
pessoal, quer no tocante à ordem e governo da Assembléia. "Toda
Escritura,divinamente inspirada é proveitosa para ensinar, para redarguir,
para corrigir, para instruir em justiça, para que o homem de Deus seja perfeito
e perfeitamente instruído para toda boa obra" (2 Tm 3:16-17). Estas palavras
resolvem toda a questã o. Se a Palavra de Deus prepara “um homem
perfeitamente preparado para toda boa obra", segue-se, necessariamente, que
tudo o que nã o se acha nas suas pá ginas nã o pode ser uma boa obra. Demais,
recordemos que a gló ria divina nã o pode ligar-se com aquilo que nã o for
conforme ao modelo divino.
CONCLUSÃO
Prezado leitor, acabamos de percorrer juntos as pá ginas deste livro
precioso. Tenho a confiança que temos recolhido algum fruto do nosso estudo.
Confio que temos recolhido alguns pensamentos edificantes acerca de Jesus e
do Seu sacrifício, à medida que avançamos. É verdade que os nossos
pensamentos mais elevados nã o podem ser mais que mesquinhos, e que o que
percebemos de mais profundo é muito superficial comparado com a intençã o
de Deus em todo este livro. É agradá vel recordarmos que, pela graça, estamos
no caminho que conduz à quela gló ria em que conheceremos como somos
conhecidos; e onde os nossos coraçõ es se deleitarã o com o resplendor do
semblante d'Aquele que é o princípio e o fim de todos os caminhos de Deus,
quer seja na criaçã o, na providência ou na redençã o. Encomendo-o, pois, ao
Senhor em corpo, alma e espírito, orando para que possa compreendera
profunda bem-aventurança de ter a sua parte em Cristo, e para que seja
guardado na esperança da Sua vinda gloriosa. Amén.
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*** FIM ***
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