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Protágoras
O texto do Prótagoras aqui apresentado é uma adaptação realizada por Olga Pombo a
partir da versão portuguesa de Ana da Piedade Elias Pinheiro, publicada em Lisboa,
pela editora Relógio d'Agua em 1999, na colecção Humanitas. Autores Gregos e
Latinos.
309 Comp. - De onde vens tu, Sócrates? Está-se Numa rua de Atenas
mesmo a ver que da caça ao jovem
Alcibíades, não? A propósito, quando o vi, Numa rua de Atenas , em finais
de manhã, pareceu-me já um belo homem. da década de trinta do século V-
E - isto aqui entre nós, Sócrates - um provavelmente em 434/433 a.C.,
homem feito, até com a barba já a Sócrates encontra-se com uma
despontar. personagem anónima.
309b Sóc. - Ora, e então? Não és tu admirador de A referência a Homero mostra
Homero, que diz que a idade mais bela é a bem o elevado nível cultural do
da primeira barba, justamente aquela que ateninese médio
tem agora Alcibíades?
Comp. - É verdade. E o que há de novo?
Vens de junto dele, não vens? Que tal te
tratou o nosso jovem?
Sóc. - Bem - pelo menos, pareceu-me. O carácter competitivo do
Sobretudo hoje, pois pôs-se do meu lado e diálogo.
fez várias intervenções em meu favor. Sim,
venho agora mesmo de junto dele. Quero
até contar-te algo notável: apesar de ele
estar presente, não lhe prestei grande
atenção e, muitas vezes, até me esqueci
dele.
309c Comp. - Mas que coisa tão extraordinária Referência à homosexualidade
vos terá acontecido, a ti e a ele? Não me masculina
digas que encontraste algum outro mais
belo do que ele aqui na nossa cidade?
Sóc. - E muito mais!
Comp. - O que dizes? Aqui da cidade ou
estrangeiro?
Sóc. - Estrangeiro.
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Comp. - De onde?
Sóc. - De Abdera.
Comp. - E pareceu-te ser assim tão belo
esse estrangeiro ao ponto de o achares mais
belo que o filho de Clínias? Ideal grego da beleza.
Sóc. - Como é que quem é mais sábio, meu
caro, não há-de parecer mais belo?
Para Sócrates, o mais sábio é o
Comp. - Vens então de te encontrares com mais belo. Assim se explica a
um sábio, Sócrates? relação de amor entre mestre e
discípulos.
309d Sóc. - E, certamente, o mais sábio de todos Apesar de ser conhecida a
quantos por aí há, se concordares que oposição que Sócrates sente pelos
Protágoras é o mais sábio de todos. sofistas, é notável a admiração
que neste diálogo Sócrates
Comp. - O que dizes? Protágoras está na manifesta para com Protágoras.
cidade?
Sóc. - Está, e há três dias.
Comp. - E vens agora mesmo de conversar
com ele?
310 Sóc. - Precisamente, de ter dito e ouvido
muita coisa.
Comp. - E, então, não nos vai descrever
esse encontro? Se não tens nada que te
prenda, manda levantar aí o escravo e
senta-te aqui.
Solicitado pelo companheiro,
Sóc. - Pois, muito bem. E vou ficar-vos Sócrates vai começar a
grato se me escutarem. descrever em o encontro com
Protágoras.
Comp. - E nós a ti, se contares.
Sóc. - Bem, assim será um agradecimento
mútuo.
310b Sóc. - Escutem, então: Início da narrativa
Esta noite, ainda antes do amanhecer, Em casa de Sócrates.
Hipócrates, filho de Apolodoro e irmão de
Fáson, bateu com o bastão na minha porta, Hipócrates é a imagem dos jovens
com toda a força e, quando lha abriram, oriundos das melhores famílias
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precipitou-se imediatamente para o interior, atenienses, para quem o conteúdo
a gritar, com voz forte: da Paideia se havia tornado
insuficiente e que, aspirando a
-Sócrates, já acordaste ou ainda dormes? uma carreira política, ansiavam
pelo ensino dos sofistas. Assim se
E eu, reconhecendo-lhe a voz, exclamei: explica a sua ansiedade para ir ao
encontro de Protágoras
-É Hipócrates! Não me vens trazer
nenhuma má notícia, pois não?
-Não - respondeu ele. - Nada senão boas
notícias.
-Diz lá, então - repliquei eu. - O que há? A
que propósito vieste cá a esta hora?
- Chegou Protágoras! - respondeu ele, de pé
junto de mim.
- Antes de ontem. Só agora soubeste?
310c - Sim, pelos deuses, só à noitinha. E, ao É bem visível a familiaridade
mesmo tempo, tacteando o leito, sentou-se entre Sócrates e o jovem
aos meus pés e disse: - À noitinha, já Hipócrates
bastante tarde, quando voltei de Énoe, pois,
vê lá bem, o meu escravo, o Sátiro, tinha- • que não hesita em bater
me fugido e eu estava mesmo para te avisar tão cedo à porta de
que ia procurá-lo, mas esqueci-me, por Sócrates
causa de qualquer outra coisa. Quando • que é recebido por
voltei, tínhamos acabado de jantar e Sócrates no seu quarto
estávamos para nos irmos deitar, quando o • que se senta mesmo na
meu irmão me disse que Protágoras tinha cama do filósofo.
chegado. Estive para vir logo ter contigo,
mas depois, pareceu-me que já era
demasiado tarde. Porém, assim que o sono
em que caíra, por causa da fadiga, me
deixou, levantei-me e corri para cá, sem
demora.
310d Eu, que lhe conheço a energia e a paixão, Sócrates compreende a ambição
perguntei: do jovem
- O que tens tu com isso? Por acaso te Ao contrário de todos os outros
ofendeu, Protágoras? sábios, o sofista não partilha a
sua sabedoria com toda a gente.
- Sim, pelos deuses - respondeu ele, com
um sorriso - porque só ele é sábio e não me Insinuação crítica de Sócrates a
faz sê-lo a mim. propósito dos sofistas
- Mas, por Zeus - disse-lhe eu - se lhe deres
dinheiro e o persuadires, ele há-de fazer-te
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sábio também.
310e - Ó Zeus e deuses! Se, na verdade, fosse Hipócrates está disposto a pagar o
assim! Não pouparia nem o que é meu nem que for necessário.
o dos meus amigos. Mas, é mesmo por essa
razão que venho agora ter contigo, para lhe Razão principal da visita de
falares de mim. Porque eu não só sou muito Hipócrates
novo como ainda nunca vi nem ouvi
Protágoras, pois, da última vez que ele cá Protágoras já tinha estado em
esteve, eu ainda era uma criança. Mas todos Atenas onde era conhecido pela
o aplaudem, Sócrates, e dizem que a falar é sua eloquência
o mais hábil dos homens. Porque não
vamos já para lá, para o apanharmos em
casa?
311 Pelo que ouvi dizer, está hospedado em Itinerante, o sofista instala-se na
casa de Cálias, filho de Hipónico. Vamos casa de um amigo, Cálias.
lá!
-Não vamos ainda, meu amigo, que é muito Sócrates quer esperar para ver até
cedo. Vamos antes para o pátio e façamos que ponto Hipócrates está
tempo a dar umas voltas, enquanto não consciente do que pretende fazer.
nasce o dia. Logo a seguir, saímos.
Protágoras passa a maior parte do tempo em Sócrates demonstra conhecer os
casa, de modo que não te preocupes. Quer- hábitos dos sofistas que ensinam
me bem parecer que o encontraremos lá. em espaços fechados.
311b Levantámo-nos, então, e fomos dar uma No pátio da casa de Sócrates
volta pelo pátio. Eu resolvi experimentar
Hipócrates e pô-lo à prova, fazendo-lhe
algumas perguntas: Sócrates inicia um exame
- Diz-me uma coisa, Hipócrates, estás informal a Hipócrates sobre as
disposto a procurar Protágoras e a oferecer- razões que o levam a procurar
lhe o teu dinheiro como salário para ele se Protágoras
ocupar de ti. Mas, porque é que o procuras
e para te tornares o quê? Se, por hipótese,
tivesses intenção de procurar o teu Hipótese: qual a razão que o
homónimo, Hipócrates de Cós, o de levaria a procurar a companhia de
Asclepíades, para lhe ofereceres o teu um médico e a oferecer-lhe um
dinheiro como salário por se ocupar de ti, e salário por isso?
se alguém te perguntasse «Diz-me,
Hipócrates, estás disposto a pagar um Jogo entre dois personagens com
salário a Hipócrates por ele ser o quê?», o mesmo nome.
que responderias?
311c - Responderia que por ele ser médico.
- E para te tornares o quê? Hipótese: E se pretendesses os
serviços de um escultor?
- Para me tornar médico.
- E se tencionasses procurar Policleto, de
Argos, e Fídias, de Atenas, para lhe pagares
um salário para eles se ocuparem de ti, se
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alguém te perguntasse «Pagas esse dinheiro
a Policleto e a Fídias porque achas que eles
são o quê?», o que responderias?
- Responderia que são escultores.
- E para te tornares o quê?
- É óbvio que escultor!
311d - Muito bem! - disse-lhe eu. Agora, vamos, Qual o motivo que, agora, leva
tu e eu, procurar Protágoras, dispostos a Hipócrates a procurar Protágoras.
pagar-lhe um salário por se ocupar de ti... se
os nossos bens forem suficientes para, com De assinalar a passagem do
eles, o persuadirmos, mas, se não, a singular ao plural. Sócrates é um
gastarmos até os dos nossos amigos. Se, por corrosivo interrogador mas
acaso, por estarmos assim tão empenhados também um amigo afável.
neste propósito, alguém perguntasse:
«Digam lá, Sócrates e Hipócrates, vocês
têm intenção de oferecer os vossos bens a
Protágoras por ele ser o quê?» , o que lhe
responderíamos?
311e Que outro nome ouvimos referir a propósito
de Protágoras? Tal como de Fídias que é
escultor e de Homero que é poeta, que
designação ouvimos dar a Protágoras?
- Bom, costumam dizer do nosso homem
que é sofista.
- De modo que vamos entregar os nossos
bens a um sofista?
- Precisamente!
312 - Então, e se alguém te fizesse ainda mais
esta pergunta: «E procuras Protágoras para
te tornares o quê?» Porque razão terá Hipócrates
corado?
Ele corou - percebeu-se porque começava já
a surgir alguma claridade - e disse:
- Se o caso é semelhante aos anteriores,
evidentemente que é para me tornar um
sofista.
- Mas, pelos deuses! - exclamei eu. - E não Ambos consideram que é uma
terás tu vergonha de te apresentares aos vergonha que Hipócrates queira
Helenos na qualidade de sofista? ser sofista
- Claro, Sócrates, por Zeus, isto, se for
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mesmo preciso que diga o que penso.
312b - Ora bem, Hipócrates, talvez não te pareça
semelhante o ensino que vais encontrar
junto de Protágoras e aquele que recebeste Referência à Paideia.
junto dos professores das primeiras letras,
de cítara e de ginástica. Com efeito, Afinal, é Sócrates quem acaba por
estudaste cada uma dessas disciplinas, não dar uma solução aceitável para a
com uma técnica, para te tornares um pergunta que ele mesmo havia
profissional, mas para teres cultura, como colocado
convém ao leigo e ao homem livre.
- Parece-me, precisamente, que o ensino de
Protágoras é semelhante a esse.
- Sabes, então, o que estás agora a ponto de
fazer ou desconhece-lo?
- Queres dizer o quê?
312c - Que estás a ponto de confiar a tua alma Mas, o que é um sofista?
aos cuidados de um homem que é, segundo
dizes, um sofista. Contudo admirar-me-ia
muito se soubesses o que é um sofista. E, se
o ignoras, não sabes nem a quem entregas a
tua alma, nem se isso é uma coisa boa ou
má.
- Mas, eu acho que sei - respondeu ele.
-Diz-me lá, então, o que pensas que é um
sofista?
Definição nominal de sofista:
- Bem, penso que, como o próprio nome alguém que "possui uma
indica, é aquele que possui uma sabedoria. sabedoria"
- Ora bem - repliquei eu - essa é também a
definição que se dá a propósito dos pintores
e dos arquitectos, como aqueles que
possuem uma sabedoria. Mas se alguém nos
perguntasse: «Que sabedoria possuem os
pintores?» , dir-lhe-ía-amos que é a da
reprodução das imagens e o mesmo dos
outros.
312d Porém, se alguém nos perguntar: «Em que é Procura de uma definição não
que o sofista é sábio?», o que lhe nominal de sofista
responderemos? É mestre em que ofício?
- O que diremos, Sócrates, se não que é uma nova definição de sofista,
mestre em habilitar os outros a falar? também insuficiente, mostrando
desconhecer o conteúdo do seu
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-Talvez disséssemos a verdade. Mas, claro ensino.
está que não é suficiente, porque a nossa
resposta levantaria ainda outra pergunta,
sobre o assunto em que o sofista habilita os
outros a falarem.
312e Do mesmo modo como o citarista, presumo
eu, habilita a que se fale sobre a matéria de
que sabe, sobre a arte de tocar a cítara, não
é verdade?
- É.
-Pois bem, e o sofista habilita os outros a
falarem sobre o quê? Resposta circular de Hipócrates
-É óbvio que também sobre a arte que
conhece.
-É bem provável! Mas que matéria é essa
em que ele, sofista, é sabedor e torna
sabedor o seu discípulo?
- Por Zeus- respondeu ele - já não sei mais
que te possa dizer.
313 Em seguida, continuei eu:
- E agora? Vês o tipo de risco a que vais O grande risco a que Hipócrates
expor a tua alma? Se te fosse preciso expõe a sua alma.
confiar o corpo a alguma actividade que
implicasse riscos, quer fosse boa, quer fosse
má, ponderarias durante muito tempo se o
confiavas ou não e chamarias os teus
amigos e familiares para te aconselhares,
reflectindo durante dias a fio. Tratando-se,
contudo, de algo muito mais importante que
o corpo, a tua alma, na qual se sediam todas
as tuas acções, boas ou más, consoante ela
for boa ou má, a este propósito, não
consultas nem o teu pai, nem o teu irmão,
nem nenhum de nós que somos teus
companheiros, para saberes se hás-de
confiar ou não a tua alma a este estrangeiro
recém-chegado.
313b Antes, pelo que dizes, ouviste à noitinha
que ele tinha chegado e vens, mal o dia
amanhece, sem ouvires uma palavra ou um
conselho sobre essa questão - se deves ou
não confiar-te a ele - disposto a gastar os
teus bens e os dos teus amigos. Já
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decidiste, custe o que custar, frequentar a
companhia de Protágoras, que não conheces
- pelo que tu próprio dizes - e com quem
nunca falaste. Chamas-lhe sofista, mesmo
parecendo não saberes o que é esse sofista,
a quem estás disposto a confiar-te.
313c Ele, depois de me ouvir, assentiu:
- Pelo que tu dizes, é o que parece.
- Pois é, Hipócrates, não achas que o sofista Sócrates compara os sofistas a
é uma espécie de comerciante ou retalhista retalhistas ou comerciantes.
de produtos, com os quais a alma se
alimenta? A mim é o que me parece.
- E a alma alimenta-se de quê, Sócrates? Qual o alimento da alma?
- De ciência, creio eu - respondi-lhe. - Ora,
não é bom, meu amigo, que o sofista,
elogiando os artigos que vende, nos seduza
como o fazem o comerciante e o retalhista
com os alimentos para o corpo.
313d Porque esses não sabem se os produtos que Sócrates pretende evidenciar que
trazem são bons ou maus para o corpo os sofistas, ao venderem a ciência
(antes, elogiam tudo o que vendem). E nem de cidade em cidade, à
o sabem também os clientes, a menos que semelhança do mercador, são
se trate, por acaso, de um professor de levados elogiar tudo quanto
ginástica ou de um médico. Do mesmo vendem.
modo, também aqueles que levam a ciência
de cidade em cidade, vendendo-a a retalho,
elogiam sempre ao interessado tudo quanto
vendem, mas talvez alguns deles, meu caro,
desconheçam o que é que desses artigos que
vendem é bom ou mau para a alma.
313e O mesmo se passa também com os seus
clientes, a não ser que, por acaso, algum
seja médico da alma. Se, pelo menos,
fizeres uma ideia do que é bom ou do que é
mau, então não te fará mal comprar a
ciência de Protágoras ou a de qualquer
outro. Mas, se não, vê bem, meu amigo, não
jogues os dados à sorte, nem corras riscos
em matérias tão delicadas.
314 Porque o perigo é muito maior na compra
da ciência do que na compra de alimentos.
Com efeito, ao comprares alimentos ou
bebidas ao retalhista ou ao comerciante, Um problema de vasilhas...
podes transportá-los noutros recipientes, e,
antes de beberes ou comeres, podes levá-los O perigo é muito maior na
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para te aconselhares, informando-te junto compra da ciência do que na
de quem souber, sobre se os deves comer e compra de alimentos pois a
beber, ou não, e quando, e em que ciência só pode ser avaliada
quantidade. Assim, o perigo na compra não depois de assimilada.
é grande.
314b Pelo contrário, a ciência não se pode meter Ao contrário dos alimentos, a
noutro recipiente. É preciso pagá-la e metê- ciência não podia ser colocada
la na alma, e, uma vez assimilada, ir para num recipiente para ser analisada.
casa, ou para sofrer dissabores ou para Depois de assimilada, é a própria
usufruir vantagens. Examinemos, então, pessoa que sofre uma
todas estas questões junto com outros mais transformação. O conhecimento
velhos que nós, porque somos ainda muito adquirido fica "preso a si".
novos para estarmos a discutir assuntos Portanto, Sócrates está
desta natureza. E agora, tal como decepcionado por o seu aluno
começámos por planear, vamos lá ouvir o querer entregar a sua alma sem
nosso homem. Ouvi-lo e conversar com saber se isso o favorece ou o
outros, porque Protágoras não está lá prejudica.
sozinho. Está lá também Hípias de Élide e
julgo mesmo que Pródico de Ceos, e ainda Partida para casa de Cálias, ao
muitos outros sábios. encontro de Protágoras
314c Assim nos pareceu e pusemo-nos a A caminho da casa de Cálias
caminho. Quando chegámos junto à
entrada, parámos para discutir sobre um
assunto que nos tinha surgido durante o
caminho. Então para que não ficasse meio
e só entrássemos depois de estar concluído,
ficámos à entrada a discutir, até nos termos
posto, os dois, de acordo.
314d Pareceu-me que, com certeza, o porteiro, Cena pitoresca: o porteiro,
um eunuco, nos tinha ouvido e devia estar representante das classes
irritado com a multidão de sofistas que iam inferiores da civilização grega,
e vinham da casa. De modo que, quando não os quer deixar entrar, porque
batemos à porta, ele entreabriu-a e, vendo- acha que eles são sofistas.
nos, exclamou:
- Ah! Mais sofistas! O meu patrão não tem
tempo para vocês!
E, ao mesmo tempo, fechou a porta com
as duas mãos, com toda a força. Nós
tornámos a bater e ele, por trás da porta,
respondeu:
Sócrates declara
- Não ouviram que o patrão não tem tempo peremptoriamente que não é um
para vocês? sofista.
-Mas, meu caro - respondi eu -, nem
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procuramos Cálias nem somos sofistas.
Viemos sim para ver Protágoras.
314e Anuncia-nos lá!
Então, a muito custo, o homem lá nos abriu
a porta.
Quando entrámos, surpreendemos
Prótagoras a passear pelo átrio, e,
315 passeando em volta dele, de um lado Cálias, Descrição das diversas figuras
filho de Hiponico, e o irmão materno presentes em casa de Cálias que,
Páralo, filho de Péricles, e Cármides, filho como se sabe, era uma das
de Gláucon, e, do outro lado, o outro filho melhores da cidade. Nela estão
de Péricles, Xantipo; Filipides, filho de presentes, além de Protágoras,
Filomelo, e Antimero de Mende, que é tido muitos outros sofistas
pelo melhor dos discípulos de Protágoras e acompanhados dos seus alunos.
que aprende a sua arte para vir a ser sofista.
E, atrás destes, aqueles que o seguiam, Sócrates observa os ouvintes de
ouvindo o seu discurso. A maioria pareceu- Protágoras. Entre eles estão
me serem estrangeiros - que Protágoras traz muitos estrangeiros que o
consigo de cada uma das cidades por onde acompanham de cidade em
passa, encantando-os, qual Orfeu, com a cidade.
sua voz, e que o seguem seduzidos por essa
mesma voz -, mas no grupo estavam Sócrates faz alusão à sedução que
também alguns dos nossos concidadãos. o discurso de Protágoras exerce
sobre os jovens comparando-o a
Orfeu.
315b No que me diz respeito, fiquei Protágoras ensina deslocando-se
completamente deliciado ao ver este grupo, no interior da casa, sempre
pois tinham o cuidado admirável de nunca rodeados pelos respectivos
se colocarem na frente de Protágoras; antes, alunos.
de cada vez que ele e os que o rodeavam se
voltavam, os outros - era uma coisa
formidável! - abriam alas para um lado e
para outro e, caminhando em círculo,
ficavam sempre por trás dele. Uma
maravilha!
315c «Depois dele reconheci ainda», diz Sócrates identifica três grandes
Homero, Hípias de Élide, instalado num correntes sofisticas e aponta as
cadeirão, no lado oposto do átrio; à sua diferenças que as opõem. Cada
volta, sentavam-se em banquetas sofista está no seu canto, em
Erixímaco, filho de Acúmeno, Fedro de distintas posições e atitudes:
Mirrinonte e Ândron, filho de Andrócion, e Hípias está sentado no cadeirão
alguns dos estrangeiros, conterrâneos de do seu saber enciclopédico de
Hípias e outros. Pareciam interrogar Hípias onde "dava sentenças e
sobre assuntos como a natureza e os examinava as questões" que os
fenómenos celestes. E ele, do alto do seu seus discípulos lhe colocavam
cadeirão, dava sentenças e examinava as sobre "a natureza e os fenómenos
questões. celestes".
315d «E avistei também Tântalo» - pois lá em Sócrates está tão impressionado
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casa estava ainda Pródico de Ceos. - com a cena que se sentiu
Ocupava um quarto que Hiponico usava inspirado para citar Homero
como despensa e que Cálias agora, por estabelecendo um paralelo entre a
causa do grande número de visitantes, casa de Cálias e o Hades.
desocupara e transformara num quarto de
hóspedes. Pelo que percebi, Pródico estava
ainda deitado, embrulhado numa Pródico está deitado num quarto
quantidade de peles de carneiro e improvisado a partir de uma
cobertores. Numa das camas, ao seu lado, dispensa, e encontrava-se rodeado
sentava-se Pausânias de Ceramico e junto pelos seus seguidores.
dele um rapazinho ainda novo que me deu
ideia de muitíssimo bem-educado e muito
bem-parecido.
315e Julgo ter ouvido que o seu nome era Sócrates mostra-se interessado em
Ágaton e não me espantaria se fosse o ouvir Pródico que lhe "pareceu ser
favorito de Pausânias. Estava o tal um homem extraordinário e
rapazinho, os dois Adimantos - o filho de superiormente sabedor"
Cépido e o de Leucolófido - e pareceu-me
que mais alguns. De fora, não consegui O tom rouco da voz de Pródico
perceber de que falavam, embora estivesse transformava o discurso num
cheio de vontade de ouvir Pródico - que, conjunto de palavras inditintas.
aliás, me pareceu ser um homem
extraordinário e superiormente sabedor -,
mas o tom rouco da sua voz produzia no
aposento um murmúrio que tornava
indistintas as palavras que proferia.
316 Mal tínhamos entrado, chegaram logo atrás
de nós o belo Alcibíades - como tu dizes e
com a minha anuência - e Crítias, filho de
Calescro.
Depois de entrarmos, perdemos ainda um Sócrates e Hipócrates aproximam-
bocadito nesta apreciação e, depois de se finalmente de Protágoras
observarmos tudo, aproximámo-nos de
Protágoras.
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316b Disse-lhe eu, então: Sócrates expõe os motivos da sua
- Protágoras, aqui o Hipócrates e eu viemos visita e apresenta Hipócrates,
cá para falar contigo. indicando a sua ascendência, a
- Antes de mais - respondeu ele - querem sua riqueza, e a sua ambição
falar-me a sós ou aqui, na frente dos outros? política, isto é, um conjunto de
- Para nós, é indiferente. Tu próprio qualidades que correspondem às
decidirás, depois de teres ouvido a razão da expectativas de Protágoras.
nossa visita.
- E qual é, então, a razão da vossa visita? A partir do momento em que a
- Aqui o Hipócrates é um dos nossos acção se encaminha para a
conterrâneos, filho de Apolodoro, de uma discussão entre Sócrates e
grande e próspera família e que, pela sua Protágoras, Hipócrates passa a ser
natureza, compete com qualquer outro da apenas mais um figurante.
sua idade.
316c Acho que quer tornar-se conceituado na No contexto do diálogo,
cidade e pensa que a melhor forma de o Hipócrates representa os jovens
conseguir seria frequentar a tua companhia. oriundos das melhores famílias
Pondera tu agora se achas conveniente falar atenienses do séc. V, entre os
connosco em particular ou na frente dos quais o ensino dos sofistas foi um
outros. êxito.
- É muito correcto da tua parte que te
preocupes comigo, Sócrates. Realmente, é Protágoras começa a sua
preciso que um estrangeiro que vai às epideixis, auto elogiando-se pela
grandes cidades e nelas persuade os forma como consegue persuadir
melhores dos seus jovens a abandonarem os jovens das cidades a seguirem-
outras companhias, de conterrâneos ou no. Protágoras dá conta das
estrangeiros, de mais velhos ou de mais dificuldades da profissão de
novos, e a associarem-se a ele para assim se sofista.
tornarem melhores, tome precauções nas
acções que pratica.
316d Com efeito, não são pequenas as invejas,
hostilidades, chicanas e processos de
impiedade que daí advêm. Eu digo que a
sofística é uma arte antiga mas que, aqueles
que de entre os nossos antepassados a
praticaram, a temiam, porque ofensiva, e a
disfarçavam e dissimulavam, uns sob a
forma de poesia, como Homero, Hesíodo e Protágoras afirma-se herdeiro dos
Simónides, outros sob a forma de ritos grandes poetas do passado que,
iniciatórios e profecias, como os seguidores afirma, também praticaram a
de Orfeu e Museu. E ouvi dizer que outros sofística.
ainda lhe chamam ginástica, como Ico de
Tarento e aquele que é já hoje o melhor dos
sofistas, Heródico de Selímbria, que antes
era de Mégara.
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316e E o vosso Agátocles, que é um sofista de
categoria, tomou por máscara a música. O
mesmo fizeram Pitoclides de Ceos e muitos
outros. Estes, como digo, com receio de
más vontades, serviram-se destas artes
como disfarce.
317 Mas, neste ponto, estou em desacordo com Protágoras admite ser sofista e
todos eles, porque me parece que não ostenta-o com convicção,
conseguiram o objectivo que pretendiam, convertendo tal atitude numa
uma vez que estas tentativas não passam vantagem face aos outros sofistas,
desapercebidas aos governantes das cidades os quais utilizam artifícios para
os quais constituem a razão dessas dissimular a sua arte. A táctica
máscaras. Porque as massas, por assim que Protágoras utilizou garantiu-
dizer, não entendem nada; limitam-se a lhe o êxito, pois nunca se viu
repetir em coro aquilo que lhes disseram. confrontado com nenhum dos
Ora, se aqueles que pretendem fugir não intervenientes com que se
conseguem fazê-lo e, pelo contrário, dão depararam os outros sofistas.
mais nas vistas, então, é uma grande Todos estes auto-elogios não
loucura tentá-lo, pois necessariamente vão deixam de constituir uma prova
atrair grande número de inimigos que os de vaidade de quem deseja exibir-
classificarão como os maiores dos patifes. se e vangoliar-se do seu prestígio
diante de outrem.
317b Pelo meu lado, escolhi um caminho Protágoras chama a si a função de
totalmente oposto a este: admito que sou educar os homens.
sofista e que educo homens. Parece-me que
essa é a melhor das soluções, admitir em
vez de negar. Para além desta, tenho
tomado outras precauções, embora, e
afirmo-o diante dos deuses, nunca tenha
sofrido nenhum mal por admitir que sou um
sofista.
317c E, contudo, já levo anos e anos desta Ao recordar a todos que é o mais
profissão, pois, feitas as contas, já são velho, Protágoras pretende
muitos os anos que tenho - pela idade, nada reforçar a sua autoridade face aos
me impediria de ser pai de qualquer um de presentes. De facto, estamos em
vós. - De modo que, se quiserem, tenho pleno processo de transição da
muito gosto em expor os meus argumentos civilização oral à civilização da
diante de todos os que aqui estão. escrita.
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317d E eu, desconfiado de que ele quisesse Cálias tem a ideia de convidar os
exibir-se diante de Pródico e de Hípias e presentes a sentarem-se. Trata-se
gabar-se pelo facto de termos vindo de um momento interessante da
procurá-lo, perguntei: história da constituição da ideia
- Porque não chamamos Pródico e Hípias e de Escola: o reconhecimento de
os que estão com eles, para nos ouvirem? que a melhor forma de promover
- Boa ideia - respondeu Protágoras. E o diálogo e garantir a atenção de
Cálias perguntou: todos os presentes é adoptar o
- E se dispusessemos a assembleia de modo modelo da assembleia.
a podermos conversar sentados? Pareceu-
nos bem. Deliciados todos nós por irmos
ouvir homens tão conhecedores, sentámo-
nos, acomodando-nos nos bancos e leitos
em redor de Hípias - uma vez que os
assentos já lá estavam.
317e - Nesta altura, chegaram Cálias e
Alcibíades trazendo Pródico, que tinham
feito levantar da cama, e aqueles que
estavam com ele. Assim que nos sentámos
todos, Protágoras tomou a palavra:
- Sócrates, agora que já estamos reunidos,
repete lá o que começas-te por dizer a
propósito deste jovem.
Eu respondi-lhe o seguinte:
318 - Vou começar, Protágoras, pela primeira Sócrates pede a Protágoras para
coisa que ainda há pouco te disse - a razão explicar qual a matéria que
da nossa visita: aqui o Hipócrates deseja ensina.
frequentar a tua companhia e gostaria que
lhe dissesses que benefício obterá se assim Protágoras continua a sua
o fizer. A nossa conversa resumiu-se a esta epideixis, auto elogiando-se pela
apresentação. Retomando a palavra, forma como consegue persuadir
Protágoras respondeu: os melhores jovens da cidade a
- Meu jovem, eis o que acontecerá se seguirem-no.
conviveres comigo: no mesmo dia em que
começares a fazer, ao regressar a casa, 1ªdefiniçáo do seu ensino por
estarás melhor, e o mesmo no dia seguinte; Protágoras
em cada dia progredirás sempre para
melhor.
[Link]
318b E eu, depois de o ouvir, repliquei: Sócrates não está satisfeito com a
- Ó Protágoras, não dizes nada de resposta de Protágoras e procura
extraordinário; antes, é lógico que, até tu, uma nova resposta: "E dizes que
tendo a idade que tens e sendo sábio como serei melhor e me aperfeçoarei no
és, se alguém te ensinasse algo que, quê?". Deste modo, Sócrates
porventura, não conhecesses, te tornarias procura que Protágoras lhe
melhor. Não vejamos as coisas desse modo explique qual a matéria em que
mas, antes, assim: se, de um momento para Hipócrates se tornará melhor e se
o outro, o nosso Hipócrates mudasse de aperfeiçoará.
intenções e quisesse frequentar a
companhia desse rapaz recém-chegado,
Zeuxipo de Heracleia, e fosse procurá-lo do
mesmo modo que agora te procura a ti, e o
ouvisse dizer as mesmas coisas que ouviu
de ti, que cada dia passasse junto dele se
aperfeiçoaria e se tornaria melhor, se lhe
perguntasse:
318c « E dizes que serei melhor e me
aperfeiçoarei no quê?», Zeuxipo responder-
lhe-ia que na pintura. E se procurasse
Ontágoras de Tebas e, depois de lhe ouvir o
mesmo que a ti, lhe perguntasse em que se
tornaria melhor por cada dia que passasse
na sua companhia, ele dir-lhe-ia que na arte
da flauta. Responde-nos tu da mesma
maneira, a mim e a este jovem, à pergunta
que te fizemos:
318d frequentando o nosso Hipócrates a
companhia de Protágoras por cada dia
passado junto dele, em que é que se tornará
melhor e em que é que se aperfeiçoará,
Protágoras, e como?
E Protágoras, depois de me ouvir estas
palavras, respondeu:
- Perguntas muito bem, Sócrates, e a mim
satisfaz-me responder àqueles que me Hesitações de Protágoras na
sabem interrogar. Na verdade, ao procurar- definição do seu ensino
me, Hipócrates não experimentará os
problemas que o perturbariam frequentando A proclamada superioridade de
a companhia de outro sofista. Com efeito, Protágoras não é apenas sobre
os outros assoberbam os jovens. rivais antigos (317a,b) mas
também sobre contemporâneos.
[Link]
318e Quando os vêem fugir às especializações, Protágoras está aqui
empurram-nos novamente para elas, contra implicitamente a acusar Hípias de
vontade, e ensinam-lhes cálculo, praticar um ensino enciclopédico.
astronomia, geometria e música - e, ao Daí o olhar de soslaio que
mesmo tempo, lançou um olhar a Hípias. - Protágoras lança a Hípias.
Ao contrário, quem vem ter comigo não
aprende senão as matérias que pretender.
319 O meu ensino destina-se à boa gestão dos 2ª definição do seu ensino por
assuntos particulares - de modo a Protágoras que se propõe ensinar
administrar com competência a própria casa uma cultura superior que prepare
- e dos assuntos da cidade - de modo a fazê- os discípulos, não para uma
lo o melhor possível quer por acções quer profissão determinada, mas que
por palavras. lhes dê a capacidade de gerir tanto
- Será que percebi bem as tuas palavras? os assuntos particulares como os
Parece-me que falas da arte de gerir a da cidade.
cidade e prometes transformar homens em
bons cidadãos? Sócrates, no entanto, limita as
- É esse precisamente, Sócrates, o pretensões de Protágoras
objectivo que me proponho cumprir. afirmando que o seu objectivo é
apenas político. Ele apenas
promete transformar homens em
bons cidadãos.
Estava assim resolvida a questão
inicial.
319 - Possuis, então, um belo ofício... se o Sócrates depois de ouvir a tese de
possuíres realmente. Bom, não vou dizer-te Protágoras, declara pretender
senão o que penso. Na verdade, Protágoras, demonstrar o contrário, isto é, que
eu não considerava que essa arte pudesse a virtude não pode ser ensinada
ser ensinada, mas não vejo de que modo ou transmitida.
duvidar das tuas afirmações.
319b Contudo, é justo que explique por que
razão não creio que essa arte possa ser
ensinada, nem transmitida aos homens por
outros homens. Com efeito, eu (tal como os
outros Helenos) tenho os atenienses na
conta de sábios. Ora, bem vejo que quando
nos reunimos na Assembleia, sempre que Apresentação do 1º argumento de
for preciso que a cidade realize algo na área Sócrates com uma comparação
da construção civil são convocados os entre os saberes pedidos nos
arquitectos, para se pronunciarem sobre o assuntos técnicos e assuntos da
assunto. E, quando é na área da construção cidade, em três movimentos:
naval, os armadores, e assim com todas as
matérias que se crêem susceptíveis de
serem ensinadas e aprendidas.
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319c Mais, se alguma outra pessoa, que eles não 1) os atenienses pensam que só as
consideram como sendo especialista, pessoas com competências
pretender pronunciar-se nestas matérias, por técnicas susceptíveis de ser
mais belo, rico ou nobre que seja, não lhe ensinadas se podem pronunciar
aceitam qualquer opinião e ainda fazem sobre determinados assuntos.
troça e barulho, até que aquele que
tencionava falar tome a iniciativa de se
calar, face ao barulho, ou até que os
archeiros o arrastem e o prendam, por
ordem dos prítanes. É assim que eles
procedem, tratando-se de matérias que
consideram técnicas.
319d Pelo contrário, sempre que for preciso 2) para os Atenienses, qualquer
resolver algo na área da administração da pessoa, independentemente da sua
cidade, sobre essa matéria levanta-se e dá a profissão ou classe social, possui
sua opinião, indiferentemente, carpinteiro, a virtude política.
ferreiro ou curtidor, mercador ou
marinheiro, rico ou pobre, nobre ou plebeu, 3) denotava-se que os Atenienses
e ninguém lhes põe as objecções dos casos não acreditavam que a areté
anteriores: nunca aprendeu ou nunca pudesse ser ensinada pois caso
ninguém lhe ensinou nada sobre a matéria contrário não permitiriam que
em que tenciona dar opinião. É óbvio que qualquer um desse a sua opinião,
não crêem que essa arte possa ser ensinada. limitando-a a quem tivesse
Bem, e não é assim apenas com os aprendido essa virtude.
interesses públicos da cidade;
319e também na vida particular, os mais sábios e Apresentação do 2º argumento:
mais nobres dos nossos cidadãos não têm neste argumento pretende mostrar
possibilidades de transmitir a outros essa a incapacidade dos sábios e
virtude que possuem. Até Péricles, o pai nobres cidadãos em transmitir aos
destes dois jovens aqui presentes, os educou outros a sua virtude. Este
perfeitamente nas matérias que dizem argumento é sustentado por dois
respeito aos professores, mas naquelas em exemplos:
que ele próprio é sábio, nem os ensinou
nem os confiou a outro. 1) Péricles não ensinou os seus
filhos nem aos filhos dos outros
as matérias em que ele próprio é
sábio.
320 De modo que lá andam eles por aí, 2) Árifron, irmão de Péricles, que
vagueando, à rédea solta, à espera de, por com ele partilhava a tutela de
obra do acaso, encontrarem sozinhos a Clínias e Alcibíades, e que não
virtude. E, se quiserem mais, este mesmo conseguiu educar o jovem Clínias
Péricles, que era tutor de Clínias, o irmão como Péricles lhe havia
mais novo aqui do nosso Alcibíades, com solicitado.
receio de que aquele fosse corrompido pelo
irmão afastou-o dele e enviou-o para ser
educado junto de Árifron, que, antes que se
tivessem completado seis meses, lho
devolveu sem saber o que fazer com ele.
320b E posso, ainda, referir-te muitos outros Conclusão do argumento: a
[Link]
que, sendo bons, não conseguiram tornar virtude não pode ser ensinada.
ninguém melhor, nem dos seus, nem dos
outros. Assim eu, Protágoras, ao observar Sócrates declara a sua admiração
estes exemplos, não creio que a virtude se pelo saber de Protágoras e mostra-
possa ensinar. Contudo, depois de te ouvir se disponível para escutar a
dizer que pode, rendo-me a considerar que demonstração deste na defesa da
há algo no que dizes, porque creio que és sua tese de que a virtude pode ser
conhecedor de muitos assuntos, muitos que ensinada.
aprendeste e outros que tu próprio
descobriste. Portanto, se entenderes Protágoras apresentou a síntese
possível, demonstra-nos de que modo se completa do seu argumento
ensina a virtude. Não nos recuses essa
demonstração. Longos e belos discursos
provocam encantamento,
enfeitiçamento.
Sócrates recorre à ironia,
característica do seu método
320c - Claro que não recusarei, Sócrates. Mas, Protágoras acede ao pedido de
em primeiro lugar, querem que o faça Sócrates para explicitar a sua
contando-vos uma história, como mais posição. Numa postura simpática,
velho que fala aos mais novos, ou que o cheia de auto-confiança e
demonstre com argumentos? versalitilidade, dá a escolher à
Muitos dos que estavam sentados à sua audiência a forma de o fazer:
volta deram-lhe, então, a escolher contar uma história (mythos) ou
demonstrá-lo como quisesse. apresentar argumentos (logos).
- Pois bem, parece-me - respondeu ele - que
será mais agradável contar-vos uma
história:
320d Era uma vez... existiam somente os deuses Com toda a sua astúcia e como
e não havia ainda as raças mortais. Quando professor de eloquência que é,
chegou, então, o momento destinado a o seu Protágoras escolhe o método mais
nascimento, os deuses modelaram-nas, no agradável aos seus ouvintes - a
interior da terra, misturando terra e fogo e história - método que,
os elementos que com estes se combinam. simultaneamente lhe atribui a
Quando estavam prontas para ser autoridade que caracteriza a
conduzidas para a luz do dia, os deuses posição de mais velho.
encarregaram Prometeu e Epimeteu de as
organizar e de atribuir a cada uma Protágoras narra o mito de
capacidades que as distinguissem. Epimeteu Prometeu. Trata-se de um mito
pediu, então, a Prometeu que o deixasse antropogónico que explica como
fazer essa distribuição. «Depois de eu a tersurgiram os seres vivos e como
feito», disse, «tu passas-lhes uma revista».Prometeu e Epimeteu distribuiram
as qualidades.
320e E assim, depois de o ter convencido, Epimeteu distribui as qualidades,
começou: atribuiu força aos que não tornara poderes e defesas tendo em conta
rápidos e dotou com rapidez os mais fracos; o equilíbrio das espécies.
[Link]
armou uns e para aqueles a quem dera uma
natureza sem armas inventou qualquer
outro meio que assegurasse a sua
sobrevivência; àqueles que contemplou com
a pequenez, deu-lhes a possibilidade de
fugirem voando ou uma habitação
subterrânea, e aos que fez grandes em
tamanho salvou-os com essa mesma
atribuição.
321 De modo igualmente equilibrado, distribuiu A alguns deu velocidade, a outros
também as restantes qualidades. E fez tudo força, ou asas, ou pelos para os
com cautela, para que nenhuma espécie se cobrir, ou carapaças para os
extinguisse. Depois de lhes dar os meios proteger.
necessários para que não se destruíssem uns
aos outros, arranjou maneira de os proteger
contra as estações enviadas por Zeus,
cobrindo-os com pêlos abundantes e
carapaças grossas, suficientes para se
defenderem do Inverno e eficazes para o
fazerem do sol escaldante, e que
constituem, para cada um, o seu aconchego
natural, quando decidem deitar-se.
321b Calçou uns com cascos e outros com couro
grosso e sem sangue. Em seguida,
providenciou diferentes alimentos para as
diferentes espécies: para uns, os pastos da
terra; para outros, ainda, os frutos das
árvores; para os restantes, raízes. A alguns
destinou que fossem alimento de outras
espécies; a estas últimas deu pequenas
ninhadas, enquanto que às que lhe servem
de alimento deu a fecundidade,
providenciando assim a salvação da sua
espécie.
321c Deste modo, Epimeteu que não era lá Epimeteu esgota o seu stock de
muito esperto esqueceu-se que gastara poderes, e quando chega a vez do
todas as qualidades com os animais homem, não tem nada para lhe
irracionais; fora desta organização, restava- oferecer. Deixando-o nu, descalço
lhe ainda a raça dos homens e sentia-se e sem abrigo nem defesa
embaraçado quanto ao que fazer. Estava ele
nesta aflição, chega Prometeu para
inspeccionar a distribuição e vê que,
enquanto as outras espécies estão
convenientemente providas de tudo quanto
necessitam, o homem está nu, descalço,
sem abrigo e sem defesa. E já estava
próximo o dia marcado, em que era preciso
que também o homem saísse do interior da
terra para a luz do dia.
[Link]
321d Sem encontrar qualquer outra solução para Prometeu decide então compensar
assegurar a sobrevivência do homem, o homem e, para isso, rouba o
Prometeu, roubou a sabedoria artística de fogo e a sabedoria artística aos
Hefesto e Atena, juntamente com o fogo deuses e dá-as ao homem para
porque sem o fogo era-lhe impossível que este possa sobreviver.
possuí-la ou torná-la útil e, assim,
ofereceu-a ao homem. Com ela, este tomou
posse da arte da vida, mas não da arte de
gerir a cidade, pois esta estava junto do
próprio Zeus. Já não fora possível a
Prometeu entrar na morada de Zeus, na
acrópole para mais que os guardas de
Zeus eram terríveis , mas entrara, sem ser
visto, na sala partilhada por Hefesto e
Atena,
321e na qual ambos se dedicavam às suas artes, e
roubara a arte do fogo a Hefesto e as outras
artes a Atena, para as dar ao homem, que
delas retirou os meios necessários à vida.
322 Mas, no fim, por culpade Epimeteu é o É nesta altura que Protágoras se
que dizem , a justiça perseguiu Prometeu afasta do mito de Prometeu e lhe
por causa deste roubo. Deste modo, o insere uma significativa alteração.
homem participava da herança divina e, Estamos perante o deslizar de um
devido ao parentesco com os deuses, foi o mundo para o outro: o texto
único dos animais a acreditar neles. Assim, narrativo (que permanecia imóvel
começou a construir altares e imagens suas. ao longo dos tempos e passava de
Depois, rapidamente dominou a arte dos geração em geração contado pelos
sons e das palavras e descobriu casas, mais velhos) é agora utilizado
vestuário, calçado, abrigos e os alimentos pelo sofista para mostrar algo
vindos da terra. mais, algo que só ele sabe, fruto
do seu conhecimento próprio.
322b Assim providos, inicialmente, os homens O homem recebe assim uma
viviam dispersos e não havia cidades. Mas centelha divina. Não se trata de o
viam-se destruídos pelos animais selvagens, homem ser a imagem dos deuses
pois eram mais fracos que eles em todos os mas de ficar detentor de alguns
sentidos. A arte que dominavam era-lhes dos seus poderes, o fogo como
suficiente na procura dos alimentos, mas símbolo do espírito e as artes,
ineficaz na luta com as feras com efeito, como símbolos da capacidade de
faltava-lhes a arte de gerir a cidade, da qual transformação do mundo.
faz parte a arte da guerra. Procuraram, Em virtude da sua afinidade com
então, associar-se e proteger-se, fundando os deuses, o homem é por isso o
cidades. Só que, ao associar-se, tratavam-se único animal a reconhecê-los, a
injustamente uns aos outros, já que não esculpir as suas imagens e a
possuíam a arte de gerir a cidade. De modo erguer-lhes altares.
que, novamente dispersos, se iam
destruindo... Os homens tinham recebido
capacidades para se defrontarem
com a natureza através das
dádivas prometeicas (havia
[Link]
equilíbrio, porque a falta de certas
aptidões era compensada pela
posse do fogo e da inteligência),
no entanto morriam sob os
ataques de animais selvagens.
Surge então a necessidade de se
agruparem e viverem em cidades.
Não o conseguem fazer por não
possuírem a arte de gerir a cidade,
que inclui o sentido de justiça
(dike) e o respeito mútuo, por si
próprio e pelos outros, razão pela
qual se iam destruindo. Como
resultado acabaram por se separar,
ficando novamente à mercê dos
animais e colocando-se em perigo
de extinção.
322c Zeus, então, inquieto, não fosse a nossa Zeus, receoso com o
espécie desaparecer de todo, ordenou a desaparecimento da humanidade,
Hermes que levasse aos homens respeito e ordenou a Hermes que
justiça, para que houvesse na cidade ordem distribuisse respeito e justiça por
e laços que suscitassem a amizade. Hermes todos os homens. Só sendo estas
perguntou a Zeus de que modo haveria de qualidades partilhadas por todos é
dar aos homens justiça e respeito: que podem existir cidades.
«Distribuo-os do mesmo modo que, no
início, foram distribuídas as outras
capacidades? As outras ficaram assim
repartidas: um médico é suficiente para
muitos leigos e o mesmo acontece com os
outros especialistas. Atribuo, também,
justiça e respeito aos homens deste modo,
ou distribuo-os por todos?»
322d «Por todos respondeu Zeus e que Nesse sentido, Zeus decretou que
todos partilhem desses predicados, porque fosse instituída uma lei que
não haverá cidades, se somente uns poucos exterminasse quem não os
partilharem deles, como o fazem dos possuísse.
outros. Estabelece, pois, em meu nome, Deste modo, a arte de gerir a
uma lei que extermine, como se se tratasse cidade não é inata, a aretê não
de uma peste para a cidade, todo aquele que nasce com o homem. Face às
não for capaz de partilhar de respeito e de agressões dos animais selvagens e
justiça.» dos da sua própria espécie, o
Deste modo e por este motivo, Sócrates, homem revelou a sua
quer os outros povos quer os Atenienses, incompletude congénita. É por
quando o discurso é na área da arte da isso que se dá uma nova
carpintaria ou de outra qualquer intervenção divina.
especialidade, consideram que só a alguns
compete uma opinião.
322e E se alguém, fora desses poucos, se Zeus vem em auxílio do homem
pronuncia, não aceitam, tal como tu dizes criando as regras e os valores
[Link]
e com muita razão, repito eu ; porém, necessários à constituição da vida
quando procuram uma opinião a propósito social.
da arte de gerir a cidade,
323 em que é preciso proceder com toda a Protágoras responde ao primeiro
justiça e sensatez, com razão a aceitam de argumento da tese de Sócrates:
qualquer homem, pois a qualquer um todos os homens podem participar
pertence partilhar efectivamente desta arte dos assuntos da cidade porque
ou não haverá cidades. Neste facto reside, todos eles possuem, ou participam
Sócrates, a razão do que perguntas. Mas, desta virtude: o sentido de justiça
para que não consideres que te estás a e de respeito (que a todos foi dado
iludir, pensando que é por ser assim que por Zeus).
todas as pessoas crêem que qualquer
homem partilha quer da justiça quer das
restantes qualidades políticas, repara em
mais uma prova: com efeito, no que diz Referência ao argumento do
respeito às outras qualidades, como tu tocador de flauta, que mais tarde
dizes, se alguém diz ser um bom tocador de irá retomar.
flauta ou ter dotes em qualquer outra arte,
sem os ter, ou se riem dele ou se enfurecem
e os familiares vêm e dão-no como louco.
323b Mas tratando-se da justiça ou das restantes
qualidades políticas, se sabem de alguém
que é injusto e se esse mesmo alguém
confessar a verdade a seu respeito diante de
todos, essa atitude (confessar a verdade)
que, noutra ocasião, pareceria inteligência,
neste caso, parece loucura. E afirmam que é
preciso que todos digam que são justos,
quer sejam quer não, e que aquele que não
aparenta sê-lo enlouqueceu.
323c Pois pretendem que é forçoso que qualquer Apresentação do argumento do
um partilhe desta qualidade, de uma castigo e da punição.
maneira ou de outra, ou não poderá viver
entre os homens. O que digo, pois, é que é
com razão que aceitam de qualquer homem
uma opinião sobre esta virtude, pelo facto
de acreditarem que todos partilham dela. De
seguida, pretendo demonstrar-te que não
acreditam que seja obra da natureza ou algo
inato mas, antes, ensinada e que aquele que
o desenvolver conseguí-lo-á graças ao
treino.
323d Com efeito, na medida em que os homens Protágoras infere que Sócrates
crêem que os defeitos que os outros está errado ao supor que os
possuem são obra da natureza ou do acaso, homens comuns negam o facto da
ninguém se irrita, nem repreende, nem virtude poder ser ensinada e
ensina, nem castiga aqueles que têm esses errado está ao pensar que a sua
defeitos, para que não sejam como são; recusa a chamar "peritos morais"
antes, os lamentam. É possível que haja para os aconselhar é prova disso.
[Link]
alguém tão louco que tencione fazer uma O sofista refere que a instituição
coisa dessas com os feios, os baixos ou os do castigo e da punição pressupõe
fracos? Com efeito, considero que sabem que a virtude pode ser ensinada.
que é por obra da natureza ou do acaso que
os homens desenvolvem essas
características, as boas e as más. Mas, na
medida em que consideram que os homens
desenvolvem boas qualidades pelo treino,
pela prática e pela aprendizagem, se alguém
as não possuir e, pelo contrário,
323e possuir os defeitos correspondentes, sobre
esses recaem, então, as irritações, os
castigos e as repreensões. Um desses
defeitos é a injustiça, a impiedade e, em
suma, tudo o que é contrário às qualidades
políticas.
324 Como, neste caso, qualquer um se irrita e
repreende qualquer um, é óbvio que têm
essa virtude por adquirida graças ao treino e
à aprendizagem. Com efeito, Sócrates, se
quiseres ponderar que punir é uma medida
eficaz em relação àqueles que praticam
injustiças, esse facto provar-te-á que os
homens acreditam, realmente, que a virtude
pode ser adquirida. Porque ninguém
castiga, por praticar injustiças, aqueles que
as praticam sem noção do que fazem, a
menos que se castigue irracionalmente,
como qualquer animal selvagem.
324b Mas, aquele que tenciona punir
racionalmente não castiga por causa das
acções passadas porque não vale a pena
chorar pelo leite derramado , mas, como
salvaguarda do que poderá acontecer, para
que nem esse mesmo, nem outro que tenha
presenciado a punição, pratique novas
injustiças. Ora, com semelhante modo de
pensar, pressupõem, então, que a virtude se
pode ensinar se se entender que, quando
se pune, é com vista à correcção.
324c Todos aqueles que aplicam castigos, quer
na vida privada, quer na vida comunitária,
têm esta mesma opinião. Todos os homens
e os Atenienses, teus concidadãos, não
menos que os outros castigam e punem
aqueles que consideram que praticaram
acções injustas. Deste argumento se
depreende, então, que os Atenienses estão
entre aqueles que acreditam que a virtude
[Link]
pode ser adquirida e ensinada.
Pela minha parte, Sócrates, parece-me que
foi suficientemente demonstrado que é,
pois, com razão que os teus concidadãos
aceitam que ferreiro e curtidor dêem a sua
opinião sobre os assuntos da cidade e que
acreditam que a virtude pode ser ensinada e
adquirida.
324d Resta, contudo, ainda, uma questão: aquela
que levantas a propósito dos homens bons.
Qual é, pois, a razão pela qual os homens
bons ensinam aos filhos essas outras
matérias que competem aos professores,
fazendo-os sábios, mas quanto à virtude,
em que eles próprios são bons, não os
tornam melhores que qualquer outro? Mas,
a esta questão, Sócrates, vou responder-te Protágoras abandona o mythos e
não com outra história mas através de recorre ao logos para responder ao
argumentos. Pensa, então, da seguinte segundo argumento de Sócrates:
maneira: antes de mais, há ou não uma que os homens bons não
qualidade da qual é forçoso que todos os conseguem ensinar a virtude aos
cidadãos partilhem, se realmente se quiser seus filhos.
324e que haja uma cidade? Com efeito, é neste
imperativo, e não em qualquer outra razão,
que se encontra a solução da questão que tu
levantas. Pois, se essa qualidade realmente
existe e não se encontra nem na carpintaria,
nem na metalurgia, nem na cerâmica, mas
antes na justiça, na sensatez e na piedade
325 em suma, numa qualidade à qual dou o Protágoras diz que toda a
nome de virtude humana ; se é essa socialização é um processo de
qualidade de que todos devem partilhar e ensinar a virtude, pela simples
qualquer homem deve possuir, seja o que razão de que sem a virtude não
for que queira aprender ou fazer, pois sem pode haver vida social.
ela nada lhe será possível; se é preciso que
aquele que dela não partilhe, seja criança,
homem ou mulher, seja ensinado e punido
até que pela punição se torne melhor e que
aquele que não responda nem à acção das
punições nem dos ensinamentos, esse, seja
tido como incurável e banido da cidade ou
condenado à morte;
325b se a situação é esta e se, sendo assim, os
homens bons ensinam aos filhos as outras
matérias mas não esta, vê lá tu que
estranhos são esses homens bons! Contudo,
demonstrámos já que acreditam que esta
qualidade pode ser ensinada, tanto na vida
particular como na comunitária. Mas,
[Link]
podendo esta qualidade ser ensinada e
aperfeiçoada, não é verdade que ensinam
aos filhos todas as outras matérias que, caso
não conheçam, não os conduzirão à pena de
morte, e, pelo contrário, não lhes ensinam
nem os aperfeiçoam em matéria de virtude,
325c cujo desconhecimento pode levar os seus Quem castiga não pune por causa
filhos à pena de morte e ao exílio e com a da injustiça, mas fá-lo com vista a
morte à confiscação dos seus bens e, ensinar e atendendo ao futuro.
resumindo numa palavra, à ruína de tudo Quem pune tem de ter sentido de
quanto possuem? Estas matérias nem lhas justiça.
ensinam nem lhes dedicam qualquer
cuidado, pois não? Pelo menos, Sócrates, Protágoras conclui que os
assim parece. Contudo, começam a ensiná- Atenienses acreditam que a
los desde que são crianças pequenas e virtude pode ser ensinada. Utiliza
continuarão a fazê-lo enquanto eles aqui um argumento por dedução,
viverem. Logo que alguém compreende o uma vez que se os deuses
que se lhe diz, a ama, a mãe, o pedagogo e distribuiram as capacidades pelos
até o pai fazem esforços nessa área, para homens, então estes devem
que a criança se torne o melhor possível. possuí-las. Quem não as tiver,
tendo sido estas distribuídas, será
punido.
325d Por cada palavra ou cada acto, ensinam-lhe O objectivo de Protágoras é
e explicam-lhe o que é justo e o que é mostrar que havendo um tão
injusto, o que é bom e o que é censurável, o grande cuidado e preocupação
que é pio e o que é ímpio, «faz isto», «não com a educação das crianças é
faças isso». Se obedece voluntariamente, porque a virtude é ensinável.
ainda bem; se não, endireitam-no, com Desde a mais tenra idade que as
ameaças e pancadas, como se fosse um pau crianças são ensinadas a distinguir
torto e recurvo. Em seguida, quando o o que é justo do injusto, o bonito
enviam para a escola, prescrevem que os do feio ou o que é nobre do que é
mestres tomem muito mais cuidado com o vergonhoso. Se falham na
bom comportamento das crianças e que aprendizagem são castigadas.
com a aprendizagem das letras e da cítara. Toda a sua educação, tanto em
ginástica ou em música e
literatura, é dirigido para esse
propósito, e o processo continua,
sobre as regras da sua cidade,
durante toda a sua vida.
325e Os mestres, por sua vez, seguem a Protágoras começa por corrigir a
prescrição e, então, assim que as crianças afirmação que Sócrates fez no
aprenderem as letras e estiverem prontas início, no que diz respeito à
para compreenderem os textos escritos do virtude, que os pais não cuidam
mesmo modo que, até aí, compreenderam do seu ensino. Pelo contrário,
os sons, colocam-lhes sobre os bancos sendo uma qualidade de que todos
poemas de bons poetas, para que os leiam, e precisam de possuir, de forma a
obrigam-nas a aprendê-los de cor, pois poderem co-habitar na cidades,
neles há muitas advertências, muitas são desde pequenos iniciados
histórias e elogios dos heróis de outrora, nessa aprendizagem que se irá
[Link]
prolongar pela vida fora. Assim
que se considera que a criança já
sabe compreender, todos tentam
incutir-lhe sentido de justiça,
sensatez e piedade.
326 para que a criança, entusiasmada, os imite e Já na escola, os mestres zelam
se esforce por ser igual a eles. A seguir, os para que as crianças tenham
citaristas tomam idêntico cuidado no que cuidado com o comportamento,
diz respeito à moderação, para que os recolhendo exemplos de obras
pequenos não venham a agir erradamente. poéticas.
Depois, assim que souberem tocar cítara,
ensinam-lhes, então, poemas de outros bons
poetas os líricos, desta vez , com o fim
de aprenderem a música para serem tocados
à cítara,
326b e obrigam a que os ritmos e as melodias se
tornem familiares às almas das crianças,
para que sejam mais delicadas; ao
tornarem-se mais graciosas e mais
moderadas, serão melhores quer no falar
quer no agir. Tudo na vida do homem
precisa de ritmo e de harmonia! E mais
ainda, a seguir mandam-nas ao pedotriba,
para servirem o espírito bem formado com
corpos melhores e não serem obrigados a
abster-se, por causa de deficiência física,
nem nas guerras nem em outras actividades.
326c Os que têm mais possibilidades e os
mais ricos são os que mais podem é
assim que actuam e os seus filhos começam
a frequentar a escola muito cedo e deixam-
na muito tarde. Logo que saem da escola, é
a vez de a cidade os obrigar a aprender as
leis e a viver de acordo com elas e com os
seus paradigmas,
326d para não agirem apenas como bem lhes Após a escola, é a própria cidade
parecer. E, simplesmente, do mesmo modo que, com o poder das leis, orienta
que os mestres das primeiras letras, depois o comportamento dos cidadãos.
de traçarem linhas com o estilete, dão as
tabuinhas às crianças que ainda não sabem
escrever e as obrigam a seguir a direcção
das linhas, assim também a cidade, depois
de traçar leis, obra de bons e antigos
legisladores, obriga a que se governe e a
que se seja governado de acordo com elas, e
pune aquele que, porventura, vier a
transgredi-las.
326e E o nome para essa punição, tanto aqui
entre nós como em muitos outros lugares, é
[Link]
corrigir, uma vez que a justiça corrige.
Sendo tal o cuidado em torno da virtude,
quer na vida privada quer na comunitária,
admiras-te, Sócrates, e questionas que a
virtude possa ser ensinada? Pois não deves
espantar-te; deverias, antes, espantar-te
muito mais se o não pudesse ser. Mas, por
que razão, afinal, a maioria dos filhos de
pais notáveis resultam fracos? Ora, repara
no seguinte: na realidade, não é nada
espantoso, se é mesmo verdade o que eu
disse antes, que, se se quiser que haja uma
cidade, é necessário que ninguém ignore
uma qualidade a virtude.
327 Se, com efeito, as coisas são como eu digo O sofista volta a referir-se ao
e o mais provável é que assim seja argumento do tocador de flauta.
considera uma qualquer outra actividade ou
assunto à tua escolha. Se não fosse possível
que uma cidade existisse, a menos que
todos nós, na medida das nossas
possibilidades, fôssemos tocadores de
flauta, cada um deveria poder ensinar o
outro a tocar flauta, quer em particular quer
na comunidade, e censurar aquele que não o
fizesse bem, sem recusar esse ensino;
327b do mesmo modo que, o nosso caso,
ninguém recusa o ensino da justiça e das
leis, nem o oculta, como no ensino das
outras artes. Assim, considero que nos será
benéfico conjugar a justiça e a virtude, pois
é por essa união que qualquer um,
zelosamente, explica e ensina ao outro os
direitos estabelecidos pela lei. Então, se no
que toca à arte da flauta temos, assim, todo
o zelo e disponibilidade para ensinarmos os
outros, consideras, porventura, Sócrates
perguntou ele , que os filhos dos
tocadores de flauta talentosos se tornam
melhores que os dos fracos? Não me
parece! Antes, o filho que tem a sorte de
nascer com melhores dotes para a arte da
flauta, esse, crescerá com grande fama;
327c ao contrário, o nascido sem dotes
permanecerá inglório. E, muitas vezes, o
filho do flautista talentoso poderá resultar
fraco, enquanto que, é frequente também, o
do fraco resultar talentoso. Contudo,
mesmo assim, todos serão uns tocadores de
flauta sofríveis quando comparados com os
[Link]
leigos e com aqueles que não são
conhecedores da arte de tocar flauta. Assim,
considera agora também que o homem que
te parecer de uma injustiça absoluta, numa
comunidade que foi educada segundo as
leis;
327d esse, passa a ser também justo e especialista A conclusão a que Protágoras
nesta matéria, se for preciso compará-lo a chega com o flautista é
homens que não têm nem educação, nem irrebatível. Ao fazer a analogia
tribunais, nem leis, nem qualquer tipo de com a virtude, se o público
restrição que obrigue qualquer um a tomar aceitar, está demonstrado.
cuidado em relação à virtude homens que
sejam uns selvagens semelhantes àqueles
que, no ano passado, o poeta Ferécrates
encenou nas Leneias. Pois, se te visses no
meio de homens dessa espécie, como os
misantropos do tal coro, alegrar-te-ias por
encontrar Euríbato e Frinondas e, com
saudade, lamentarias, a viva voz, a fraqueza
dos nossos homens.
327e Mas agora, Sócrates, amuas porque todos se A natureza concede a arte da
metem a mestres de virtude, cada um na virtude mas não a capacidade de a
medida em que pode, e tu não reconheces desenvolver, daí a necessidade de
nenhum como tal. esta ser ensinada.
328 Ora bem, do mesmo modo, se procurasses Todos estão habituados s ensinar
um professor de língua grega, não a aretê a quem a natureza
encontrarias nenhum, nem, quer-me desfavoreceu. No entanto, apesar
parecer, se procurasses alguém que de todos estarem habilitados para
ensinasse aos filhos dos nossos artesãos tal, existem uns mais habilitados
essa mesma arte que eles aprenderam junto (entre os quais está ele próprio)
do pai, na medida em que foi possível ao do que outros, justificando desta
pai e aos seus companheiros de ofício forma a importância do seu ensino
ensinarem-lha. Ainda que alguém quisesse e razão pela qual recebe dinheiro
ensiná-los, não considero, Sócrates, que pela sua tarefa.
fosse fácil encontrar-lhes um professor,
como com facilidade, certamente, se
encontra para os ignorantes, quer em
matéria de virtude quer em qualquer outra
matéria. Mas se houver alguém que nos
conduza, ainda que um pouco, na direcção
da virtude, já é bom.
328b Quanto a mim, acho que sou um desses que
excede os outros na possibilidade de tornar
perfeito qualquer homem e que merece o
salário o que é estipulado por mim e
ainda mais, se o aluno assim entender. Por
esta razão estabeleci o salário das minhas
lições da seguinte maneira: sempre que
alguém aprender comigo, se quiser, paga-
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me a quantia que eu estipulei; se não,
depois de ter ido a um templo e ter
ponderado qual diz ser o valor dos meus
ensinamentos, entrega-me essa mesma
quantia.
328c Deste modo, Sócrates, fica provado, por Assim, através de uma história e
uma história e por argumentos, que a da apresentação de quatro
virtude se pode ensinar, que assim o crêem argumentos, Protágoras dá por
os Atenienses e que não é espantoso que os concluída a sua demonstração.
filhos de pais talentosos resultem fracos,
nem os dos fracos talentosos. E até os filhos Repare-se como o discurso
de Policleto, que têm a mesma idade aqui sofístico se encontra organizado:
de Páralo e Xantipo, não têm nada a ver está dividido em várias partes
com o pai, o mesmo acontecendo também orgânicas, que o tornam belo e
com os filhos de outros artistas. Mas, persuasivo. O preâmbulo no início
quanto a estes aqui não vale a pena do discurso, seguido por uma
denunciar já esta diferença, porque ainda é certa exposição, depois dos seus
possível ter esperança neles. São novos! testemunhos; as provas seguindo-
se as conclusões verosímeis. À
prova, segue-se o suplemento da
prova.
328d Protágoras, depois de ter exibido Oposição entre o discurso longo e
demoradamente a sua arte, deu por o discurso curto que Sócrates
concluído o discurso. E eu, enfeitiçado reivindica como característico do
ainda durante muito tempo, olhava-o, na seu método. Os longos e belos
esperança de que dissesse alguma coisa discursos cujos antecessores eram
mais e ansioso por ouvi-lo. Depois, no as narrativas míticas provocavam
momento em que percebi que ele realmente encantamento e procuravam a
teria chegado ao fim, bem a custo, recuperei persuasão. Mas, para Sócrates, a
o meu alento e disse, olhando para verdade conseguida através do
Hipócrates: exercício da inteligência era mais
- Ó filho de Apolodoro, como te agradeço importante. Daí a sua advertência
teres-me feito vir até aqui! Com efeito, para que a beleza das palavras dos
muito prezo ter ouvido as coisas que ouvi a poetas não perturbasse a
Protágoras. importância da inteligência.
328e Porque eu antes não acreditava que
houvesse cuidado humano pelo qual os
bons se tornassem bons. Mas agora estou
convencido! Resta-me só um pequeno
obstáculo, que, é óbvio, Protágoras
facilmente me ajudará a transpor, depois da
quantidade de coisas que ele explicou. É
que, se alguém consultasse sobre estes
mesmos assuntos qualquer um dos nossos
oradores,
329 provavelmente ouviria discursos A exigência da prova e contra-
semelhantes, quer a Péricles, quer a prova. O que está aqui em causa é
[Link]
qualquer outro dos que falam com a constituição de um espírito
habilidade. Mas se lhes perguntarem mais analítico que pretende dividir o
alguma coisa, é como se fossem livros, nem todo em partes. Até este momento
podem responder nem perguntar eles de clivagem entre dois mundos
próprios. Antes, se alguém questionar opostos, o aedos era a poesia e a
alguma coisita do que disseram, tal como as partir daí o filósofo teria de
peças de bronze, quando batem, ressoam representar a Razão. A verdade
longa e demoradamente, caso ninguém as tem que ser estabelecida por
trave, assim também os oradores esticam argumentos, completamente
sem fim o discurso mesmo se interrogados diferente do saber oral cuja
sobre pequenas coisas. verdade se fundava na autoridade
dos antepassados.
329b Mas, aqui o nosso Protágoras é capaz de Prevendo a possibilidade de
proferir grandes e belos discursos, como Protágoras enveredar por uma
acaba de mostrar, mas também é capaz de nova exibição dos seus dotes
responder, falando com brevidade, e de, oratórios, Socrates elogia, além
quando interrogado, esperar e aceitar as das suas capacidades retóricas,
respostas, qualidades que poucos possuem. também as dialécticas, sugerindo
Pois agora, Protágoras, falta-me um que é desse modo que deseja
pequeno pormenor para entender tudo, se continuar a conversa.
me deres esta resposta. Dizes que a virtude
pode ser ensinada e eu deixo-me persuadir
por ti mais do que me deixaria persuadir
por qualquer outra pessoa. Satisfaz-me só,
no fundo da alma, um aspecto do que
disseste que me espantou.
329c É que tu afirmaste que Zeus enviou aos
homens a justiça e o respeito, e, a seguir,
disseste também, em diversas partes do teu
discurso, que a justiça, a sensatez, a piedade
e outras qualidades seriam, em suma, uma
qualidade única - virtude. Começa então
por me explicares, com um discurso mais
preciso, se a virtude é um todo e, em
seguida, se a justiça, a sensatez e a piedade Este pormenor que Sócrates
são partes dessa virtude ou se estes nomes, deseja ver esclarecido introduz o
que enumerei agora, são os vários nomes de segundo tema da discussão: a
uma mesma e única qualidade. É este unicidade da aretê
pormenor que eu desejaria ainda conhecer.
329d - Mas, a essa questão é bem fácil responder, O seguimento mostrará o
Sócrates; essas qualidades sobre as quais contrário: esta questão não só não
me interrogas são partes de uma única, da é fácil, como vai ser em torno
virtude. dela que Protágoras vai ver
- E são partes como as partes do rosto, a derrotados os seus argumentos.
boca, o nariz, os olhos e as orelhas, ou
como as partes do ouro, que não diferem
nada umas das outras, nem cada uma delas
do todo, excepto no tamanho?
329e - Parece-me, Sócrates, que do primeiro Quer Sócrates quer Protágoras
[Link]
modo, tal como as partes do rosto estão acreditam na aretê como um todo
para o rosto inteiro. de que várias qualidades fazem
- Mas, então, os homens participam destas parte. A divergência é que
partes da virtude, uns de umas, outros de Protágoras julga-as distintas
outras, ou é forçoso que, se alguém possuir (empiricamente sabe que todas
uma, as tenha todas? elas são diferentes). Para Sócrates
- De maneira nenhuma - respondeu ele -, todas se reduzem a uma mesma
porque muitos são corajosos mas injustos e, realidade: o conhecimento
outras vezes, justos mas não sábios.
330 - Ah! Então, sabedoria e coragem também Para esclarecer se a virtude é una
são partes da virtude? ou múltipla, Sócrates interroga
- Certamente, as mais importantes de todas. Protágoras em relação às
E a sabedoria é a maior dessas partes. qualidades que compõem a aretê,
- E cada uma delas ou é uma qualidade ou é estabelecendo relações entre elas
outra? e seu o grau de importância.
- Sim.
- E cada uma tem uma função particular, do Sócrates recorre ao conjunto
mesmo modo que, no rosto, os olhos não escolhido por Protágoras - o rosto
são iguais aos ouvidos, nem a sua função é - e estabelece um paralelo entre
a mesma, nem nenhuma das partes é igual à este, os elementos que o
outra, nem na sua função nem noutros constituem, suas funções,
aspectos? É também assim com as partes da semelhanças bem como a sua
virtude, não é? Nenhuma se assemelha à complementaridade, e a virtude
outra, nem em si própria nem na sua assim como as suas qualidades.
função?
330b É óbvio que tem de ser assim, para que se
identifique com o exemplo proposto.
-É assim mesmo, Sócrates.
- Ora então - perguntei eu -, nenhuma das
outras partes da virtude é igual ao
conhecimento, nem igual à justiça, nem
igual à coragem, nem igual à sensatez, nem
igual à piedade?
- Pois não.
- Vejamos bem: consideremos, os dois em
conjunto, o que é cada uma delas. Em
primeiro lugar o seguinte: a justiça é uma
realidade ou não? A mim parece-me que é.
E a ti?
330c - A mim também. Sócrates começa a comparar aos
- E qual, então? Se alguém nos perguntasse, pares, as qualidades que
a ti e a mim: «Protágoras, Sócrates, digam- compõem a aretê: primeiro,
me lá os dois, essa realidade de que falavam justiça e piedade (330c-332a)
há pouco, a justiça, é algo justo ou
injusto?» Eu responder-lhe-ia que justo. E
tu que voto darias? Igual ao meu ou outro?
- Igual.
- Eu, por mim, ao responder a quem me
perguntava, diria que a justiça é semelhante
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ao ser-se justo. Tu dirias o mesmo?
330d - Sim.
- Então, se, em seguida, nos perguntassem:
«Pois, e não dizem que existe também uma
coisa chamada piedade?», creio eu que
responderíamos que sim.
- Sim - concordou ele.
- « E não dizem também que é uma
realidade?» Diríamos que sim, ou não?
- Também estou de acordo neste ponto.
- «E dizem que essa mesma realidade se
manifesta do mesmo modo que ser-se ímpio
ou que ser-se pio?» A mim, tal pergunta, ia
irritar-me e obrigar-me a responder:
«Cuidado com o que dizes, amigo! Só com
dificuldade algo seria pio, se não fosse pia a
própria piedade.» E tu que dirias? Não
responderias deste modo?
330e - Exactamente assim - corroborou ele. Após acordarem que a justiça e a
- E se se dirigisse a nós com novas piedade existem, são uma
perguntas: «Então que estavam vocês a realidade, prosseguem a discussão
dizer? Por acaso, não vos terei ouvido bem? em relação à sua essência, ao que
Parecia-me que diziam que as partes da elas são. Protágoras reconhece
virtude estavam umas para as outras de que há semelhanças entre elas,
modo a nenhuma delas ser igual à outra.» sendo porém essa semelhança
Quanto a mim, dir-lhe-ia: «Ouviste insuficiente para as tornar
correctamente o resto, mas percebeste mal idênticas: afinal, qualquer coisa é
quando pensas que quem disse essas coisas sempre semelhante a qualquer
fui eu. Com efeito, foi aqui o nosso amigo coisa, e nem por isso representam
Protágoras quem deu essas respostas, eu só a mesma realidade.
o interroguei.»
331 Se ele, então, dissesse: «É verdade o que ele Também os opostos são, de algum
diz, Protágoras? Dizes tu que cada uma das modo semelhantes entre si, na
partes da virtude não é igual à outra? São medida em que um dá-nos uma
estas as tuas palavras?», que lhe ideia do outro, por exemplo o
responderias? branco imita o preto, dando-nos
- Ser-me-ia forçoso concordar, Sócrates. uma ideia do que é o preto. No
- E que lhe responderíamos, então, entanto não são a mesma coisa.
Protágoras, ao fim de termos concordado
nestes pontos, se insistisse em perguntar:
«Ora, pelos vistos, piedade não é uma
realidade semelhante a ser-se justo, nem
justiça a ser-se pio mas antes a não se ser
pio; e a piedade não é ser-se justo, mas
antes, por acaso, ser-se injusto e a justiça
diz-se ímpio?»,
331b que lhe responderíamos? Eu, falando por Sócrates não pretende provar que
mim, diria que a justiça é pia e a piedade é a piedade e a justiça são muito ou
justa; e falando por ti também - se mo pouco semelhantes, mas antes que
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permitisses -, responder-lhe-ia precisamente são inseparáveis. Para ele a
o mesmo: que a justiça é idêntica à piedade, piedade e a justiça são
ou muito parecida, e, mais do que todas as equivalentes pois uma implica a
outras, a justiça se assemelha à piedade e a outra, sendo por isso mesmo
piedade à justiça. Mas vê se não queres que inseparáveis ou unas.
eu responda ou se tu também pensas assim.
- Não acho, Sócrates, Que seja assim tão
simples, a ponto de concordar que a justiça
é pia e que a piedade é justa, até me parece
que existe nelas alguma diferença.
331c Mas o que é que estas coisas importam? -
acrescentou ele. - Se quiseres, tenhamos lá
a justiça por pia e a piedade por justa.
- Por mim, não - respondi eu -, não quero
estar a examinar nenhum «se quiseres» ou
nenhum «se te parecer», apenas a mim e a
ti. E sublinho este «a mim e a ti» porque
considero que é possível examinar melhor
um argumento se se lhe retirar o «se».
331d - Pois muito bem, justiça e piedade Ambiguidade dos conceitos do
assemelham-se...e, na verdade, uma coisa sofista.
assemelha-se sempre a outra, num ponto ou
noutro. O branco, em certa medida,
assemelha-se ao negro, o duro ao mole, e
também as outras coisas que parecem ser
completamente opostas umas às outras. Até
aquelas partes do rosto, que dissemos que
tinham funções diferentes e que não eram o
mesmo que a outra, se assemelham, num
ponto ou noutro, e uma é o mesmo que a
outra.
331e De modo que, com este método, poderás Exigência de rigor por parte de
provar, se quiseres, que todas elas são Sócrates de modo a chegar a
iguais umas às outras. Mas não é justo conclusões válidas - à verdade.
chamar nem semelhante ao que tem
semelhanças, nem diferente ao que tem Protágoras, para fugir à questão
diferenças, mesmo que a semelhança seja refugia-se em coisas vagas como
muito pequena. é o caso das semelhanças e
E eu, espantado, retorqui-lhe: diferenças das coisas. Na
- E então, para ti, é essa a relação que a realidade para tudo é possível
justiça e a piedade têm uma com a outra, encontrar semelhanças e
apenas uma pequena semelhança? diferenças. A sua resposta é
ilusória, uma vez que não tem
qualquer significado embora
aparente tê-lo.
332 - Não propriamente, mas também não é Protágoras, apesar de estar
como tu há pouco me pareceste considerar. renitente, permite que a sua
- Bom, como estou a ver que o assunto te argumentação caia.
enfada, deixemo-lo e debrucemo-nos sobre
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um outro ponto do que disseste. Chamas Sócrates não quer que Protágoras
insensatez a alguma coisa? desista da discussão e, uma vez
- Chamo. que este se mostra pouco
- E a sabedoria não é totalmente contrária a satisfeito com o rumo do diálogo,
essa realidade? ajuda-o a continuar.
- É o que parece.
- Antes de mais, quando os homens agem Para o efeito, Sócrates abandona a
de modo correcto e útil, não te parece que, discussão da unidade da justiça e
ao agir assim, agem com sensatez ou o piedade, para iniciar a da unidade
contrário? da sensatez e sabedoria (332a-
- Que agem com sensatez. 333c)
- E, então, agem sensatamente por sensatez.
332b - Forçosamente.
- Ora, e aqueles que não agem
correctamente agem insensatamente e,
agindo assim, não são sensatos, pois não?
- Sim, também me parece.
- Sendo assim, agir insensatamente é o
contrário de agir sensatamente?
- É.
- Então, as acções realizadas
insensatamente são realizadas por
insensatez e as realizadas sensatamente por
sensatez?
- Concordo.
- E se algo é realizado com força, é
realizado de maneira forte e se é realizado
com fraqueza de maneira fraca?
- É o que parece.
- E se é com rapidez, rapidamente, e se com
lentidão, lentamente?
- É.
332c - E assim, se algo é realizado de uma Sócrates pega no argumento de
maneira, é realizado dessa maneira, e se Protágoras de que qualquer coisa
algo é realizado de maneira contrária pela é sempre semelhante a qualquer
maneira contrária? coisa e desenvolve o argumento
- Pois também. dos opostos, no sentido que a cada
- Vejamos, então - continuei eu -, o belo coisa corresponde a um único
existe? contrário ou oposto. Protágoras
- acho que sim. concordou com Sócrates.
- E tem algum contrário à excepção do feio?
- Não.
- E que mais? O bem, existe?
- Existe.
- E tem algum contrário à excepção do mal?
- Não.
- E que mais? A voz tem timbres agudos?
- Tem.
- E não têm outro contrário à excepção dos
[Link]
graves?
- Não.
- Então - insisti -, para cada coisa há um
único contrário, não muitos?
- Estou de acordo contigo.
332d - Vá lá, recapitulemos os pontos em que O facto de Protágoras concordar
concordámos. Estamos de acordo em que que qualquer coisa só tem um
para cada coisa só existe um contrário e não contrário, e após um exercício de
mais? indução, conduzido por Sócrates,
- Estamos. leva-o a ser obrigado a tomar uma
- E que o que é realizado de modo contrário posição contrária à que defendia
se realiza por razões contrárias? anteriormente, e considerar a
- Sim. sensatez e a sabedoria como
- E estamos de acordo em que o que é únicas, ou de algum modo
realizado insensatamente é realizado ao inseparáveis.
contrário do que é realizado sensatamente?
- Estamos. Sócrates contudo, não prova a
- E que o que é realizado sensatamente se unidade da sensatez e virtude,
realiza com sensatez e o que é realizado oferecendo no entanto,
insensatamente com insensatez? considerações que a isso
- Concordo. conduzem.
332e - Então, se se agir de modo contrário, será Sócrates parte da afirmação de
por razões contrárias? que os homens que se comportam
- Decerto. de um modo correcto são sensatos
- E age-se, num caso, por sensatez, e, e é pela sua sensatez que agem
noutro por insensatez? desse modo, e que os homens que
- É. agem de um modo não correcto,
- De modo contrário? agem insensatamente sendo por
- Exactamente. isso insensatos e, inicia uma
- E por serem contrários? indução, efectuada por
- Sim. comparação com outras realidades
- De modo que insensatez é o contrário de (forte, fraco, feio, belo, rápido,
sensatez? lento, etc.), com o objectivo de,
- É o que parece. no fim, usar a argumentação dos
- Lembras-te, então, que no início, opostos, para levar Protágoras a
concordámos que a insensatez era o refutar a sua posição inicial..
contrário da sabedoria?
- Pois concordei.
- E que, para uma única coisa, havia um
único contrário?
- Sim.
333 - Então, antes de continuarmos, Protágoras, Argumentação pelos opostos que
qual dos dois argumentos pomos de parte? leva Protágoras a reconsiderar a
O de que, para uma coisa, existe apenas um sua posição inicial. Este tipo de
contrário ou aquele em que se disse que argumentação foi recuperado mais
uma coisa é sensatez e outra é sabedoria, tarde por Platão como forma de
cada uma delas uma parte de virtude, e não refutar definições e, actualmente
só diferentes entre si mas também na sua ainda se usa para, por exemplo,
função, tal como as partes do rosto? Qual refutar hipóteses em matemática.
[Link]
pomos de parte? Sim, que estes dois
argumentos, em conjunto não se ligam com
grande harmonia, porque nem estão em
uníssono nem combinam um com o outro.
Aliás, de que modo poderiam estar em
uníssono se, por um lado, é forçoso que
para uma coisa exista um único contrário,
não muitos,
333b e, por outro lado, a sensatez e a sabedoria Protágoras vê-se obrigado a
parecem ambas contrárias à insensatez, abandonar a afirmação de que
sendo esta uma só. É assim, Protágoras, ou uma coisa tem apenas um oposto
de outro modo? ou que a sensatez é o posto da
Ele concordou, mas bastante contrafeito. sabedoria, indo assim contra a
- Serão, então, a sensatez e a sabedoria uma tese que defendida inicialmente.
só? Já antes nos pareceu também que a
justiça e a piedade eram próximas... Vá lá,
Protágoras, não nos dêmos por cansados e
analisemos o resto. Parece-te, por acaso,
que um homem que age injustamente é
sensato, agindo deste modo?
333c - Eu cá envergonhava-me, por concordar Sem conclusões definitivas,
com uma coisa dessas, embora muitos Sócrates parte para uma terceira
homens o façam. dicotomia, retomando a justiça
- E antes hei-de dirigir o meu discurso a tratada inicialmente, na primeira
eles ou a ti? dicotomia, e a sensatez da
- Se quiseres - respondeu -, discute, em dicotomia anterior.
primeiro lugar, a opinião da maioria.
- Mas, para mim, não tem nenhuma Sócrates inicia a questão da
importância, desde que tu realmente unidade da sensatez e justiça
respondas, se é o que tu pensas ou não. É
principalmente o argumento que estou a
examinar, embora corresponda, certamente,
a examinar-me tanto a mim que interrogo,
como àquele que responde.
333d Então, a princípio, Protágoras mostrou-se- Sócrates questiona-o se pode o
nos reservado - alegando que o argumento homem que comete a injustiça ser
era difícil -, mas depois lá consentiu em sensato, sendo o que ele faz
responder: injusto? Protágoras admite que a
- Vá lá - pedi-lhe eu -, responde-me desde o maioria das pessoas pensam desse
princípio: alguns dos que são injustos modo, mas que ele próprio se
parecem-te sensatos? deveria envergonhar de admitir
- Se quiseres... isso.
- Mas diz-me que ser sensato é pensar bem?
- Digo. Neste momento, já Protágoras
- E que pensar bem é planificar bem as está aborrecido e insatisfeito com
injustiças que se cometem? o rumo do diálogo.
- Se quiseres...
- E são injustos se as realizam bem ou se as
realizam mal?
[Link]
- Se as realizam bem.
- E dizes que existem algumas coisas que
são boas?
- Digo.
- E por acaso, essas coisas que são boas são
as úteis aos homens?
333e - Ora, por Zeus! Eu, por mim, chamo boas Perante esta situação, Protágoras
mesmo a coisas que não sejam úteis aos receando ser levado a admitir que
homens! a sensatez é má e que a injustiça é
E pareceu-me que Protágoras já estava boa, retoma o seu discurso
exasperado e se preparava para a luta e para oferecendo um ensaio da
cerrar fileiras contra o interrogatório. De relatividade do que é bom e útil,
modo que, quando o vi nesta disposição, defendendo-se assim, das
tomei cuidado e perguntei com brandura: questões peculiares e refinadas de
- Antes de mais, Protágoras, referes-te a Sócrates, pretendendo terminar a
coisas que não são úteis aos homens ou que discussão o mais rápido possível.
não são úteis de todo? Tu também chamas
boas a essas?
334 - De modo nenhum! Mas eu conheço Protágoras, contrafeito, fora
muitas coisas que são inúteis para os mostrando desde o princípio que o
homens, quer alimentos, quer bebidas, quer rumo da conversa não lhe
medicamentos, quer inúmeras outras coisas, agradava (331c,332a,333b,333e)
mas também conheço outras que são úteis; e, quando se vê confrontado com
e as que não são nem uma coisa nem outra a comparação das coisas úteis às
para os homens mas o são para os cavalos; coisas boas aproveita para escapar
as que só são úteis aos bois e as que o são ao interrogatório e espraiar-se
aos cães; e, ainda as que o não são a num novo discurso (334a-c),
nenhum destes mas, antes, às árvores; as ameaçando a continuidade do
que são boas para as raízes das árvores mas diálogo
daninhas aos rebentos:
334b o estrume, por exemplo, é aplicado às raízes
de todas as plantas, mas, se quiseres colocá-
lo sobre os ramos e os galhos novos,
perdem-se todos. E também o azeite é
extremamente nocivo à totalidade das
plantas e bastante prejudicial ao pêlo dos
outros seres vivos excepto ao do homem -
ao cabelo e ao resto do corpo do homem é
benéfico. Assim, o que é bom é mutável e
multifacetado, de modo que mesmo aqui o
que é bom para o exterior do corpo do
homem é péssimo para o seu interior.
334c É por essa razão que todos os médicos Protágoras lança-se novamente no
proíbem os seus doentes de utilizar azeite discurso, recorre às suas
nos alimentos que tencionam comer, a não capacidades oratórias e oferece
ser em pequenas quantidades, somente para aos presentes um ensaio acerca da
disfarçar o desagrado da sensação, recebida relatividade do bem. Os ouvintes
pelo olfacto, que resulta de certos pratos e ficam, novamente, inebriados e
iguarias. enfeitiçados com o discurso de
[Link]
Então, concluídas estas observações, os Protágoras e aplaudem-no
presentes aplaudiram-no por ter falado tão entusiasticamente.
bem, e eu repliquei:
- Ó Protágoras, acontece que eu sou um
homem esquecido e quando alguém fala
comigo demoradamente, esqueço qual era o
conteúdo do discurso.
334d É como se me acontecesse ser surdo; nesse
caso ias achar necessário, se realmente
estivesses disposto a dialogar comigo, falar
bem mais alto do que com os outros. Do
mesmo modo, agora que estás a lidar com
alguém esquecido, encurta as tuas respostas
e torna-as mais breves, se queres que eu
possa acompanhar-te.
-Ora, e em que medida me pedes que
responda brevemente? Que te responda de
modo mais breve do que é preciso?
- De maneira nenhuma!
- Só o que é preciso, então?
334e - Exactamente. Sócrates resiste à sedução das
- E, outra coisa, hei-de responder-te o que a palavras de Protágoras e pede ao
mim me parecer que é preciso responder ou sofista que, já que tem a
o que te parecer a ti? possibilidade de manter uma
- O que eu, de facto, ouvi dizer foi que és conversa quer com discursos
capaz, tu próprio ou outros que tenhas longos, quer com discursos
ensinado, de falar demoradamente, se breves, então que o faça desta
quiseres, de modo que, assim, o discurso segunda maneira, pois considera
não termine, mas também com brevidade, que este é o único modo em que
de forma que, assim, nenhum outro seja Sócrates é capaz de o fazer.
mais breve a falar do que tu.
335 Pois, se estás interessado em dialogar Sócrates pretende, com isto,
comigo, serve-te, por favor, deste segundo regressar à análise rigorosa da
método - o da brevidade. questão em debate.
- Ó Sócrates, eu já travei combates verbais
com muitos outros homens, e se tivesse A má vontade de Protágoras
feito o que tu mandas, discutir assim, da permanece
maneira que o meu antagonista me
mandasse discutir, nem seria melhor que
ninguém, nem o nome de Protágoras se
teria tornado conhecido entre os Helenos.
335b E eu, ao perceber que lhe não tinha Sócrates diz-se então incapaz de o
agradado as respostas anteriores e que não acompanhar nos seus longos
quereria, voluntariamente, continuar o discursos e, visto que Protágoras
diálogo, sendo ele a responder, achei que já parece não ter vontade de
não tinha qualquer proveito em levar por continuar com discursos breves,
diante aquela conversa e disse: declara que quer renunciar à
- Ora bem, Protágoras, não me parece fácil questão.
continuarmos a conversa num rumo
[Link]
contrário ao que tu desejas; contudo,
quando quiseres dialogar de um modo que Apesar de uma marcada oposição
eu seja capaz de te seguir, então dialogarei à sofística nunca, em momento
contigo. É que tu (é o que se diz de ti e tu algum, maltrata Protágoras. Pelo
próprio concordas) tens possibilidades de contrário, trata-o sempre com
manter uma conversa, quer com um longo respeito e simpatia, conduzindo o
discurso, quer com um discurso breve - pois diálogo de forma a não o
és um homem hábil -; aborrecer.
335c agora eu não sou capaz de longos discursos, Sócrates manifesta claramente o
embora gostasse de o ser. Mas era bom que seu desagrado. A sua frontalidade
tu, uma vez que és capaz de o fazer das é total. Sócrates ameaça sair. Mais
duas maneiras, chegasses a acordo do que um argumento, estamos
connosco, para podermos conversar. face a um procedimento extremo
Contudo, já que não queres e eu também que visa pôr fim às
tenho um compromisso, não me vai ser argumentações. Sócrates coloca
possível esperar que tu faças longos Protágoras na posição de, face a
discursos - pois tenho mesmo de ir a um todos os presentes, ter que
outro lugar -; vou-me embora. Se não fosse escolher entre terminar o diálogo
esse motivo, ficava a ouvir-te certamente e ou aceitar as suas exigências
sem qualquer desagrado. metodológicas.
Ao mesmo tempo que dei esta justificação,
levantei-me para sair. E, já eu estava de pé,
Cálias pegou na minha mão com a sua mão Sócrates prepara-se para sair
direita, tomou-me aqui o manto, com a sendo detido pela audiência
esquerda e disse:
335d - Não, te deixaremos ir, Sócrates; é que se Cálias intervém para impedir que
te fores embora, a nossa conversa não será a o diálogo termine, defendendo o
mesma. Peço-te, pois, que fiques connosco. direito de Protágoras se expressar
Por mim, nada ouviria de mais agradável como melhor lhe convém.
que a vossa discussão, tua e de Protágoras. Elogiando os intervenientes,
Vá, faz-nos a vontade a todos. procura persuadir Sócrates a ficar.
E eu, levantado já para sair, respondi-lhe:
Sócrates retribui a cordialidade a
- Filho de Hiponico, no que me diz respeito, Cálias louvando a sua ânsia de
sempre admirei a tua ânsia de sabedoria, e saber (philosophia).
não deixo de a louvar e apreciar, neste
momento;
335e de modo que quereria fazer-te a vontade, se Sócrates tenta explicar a sua
me pedisses coisas possíveis. Agora, o que limitação para os discursos longos
me estás a pedir equivale a que estabelecendo uma analogia entre
acompanhasse o corredor Críson de o ritmo do diálogo e a velocidade
Hímera, no seu auge, ou que competisse, na da corrida. É neste contexto que
corrida, com um dos corredores de longa ou refere Críson de Hímera.
média distância.
336 Podia responder-te que me agradaria, muito
mais do que a ti, acompanhar esses
corredores, só que não sou capaz; se
[Link]
quiseres ver-nos, a mim e a Críson, a correr
juntos, pede-lhe que o faça ao meu ritmo.
Porque eu não sou capaz de correr depressa
mas ele é capaz de o fazer devagar. Se
desejas, então, ouvir-nos, a mim e a
Protágoras, pede-lhe que responda agora
como me respondeu no início, de maneira
breve e ao que lhe é perguntado.
336b Se não, qual será o rumo da nossa Nesta cena também está presente
conversa? Eu acreditava que havia a ironia, uma vez que Sócrates, ao
diferença entre conversar e fazer um fazer esta afirmação, está a pôr
discurso público. em causa um dos atributos que os
- Mas - vês, Sócrates? - Protágoras parece sofistas se orgulhavam de possuir:
estar certo ao dizer que é justo continuar o a arte de distinguir as palavras
diálogo do modo que quiser, e tu, por tua muito próximas.
vez, da maneira que quiseres.
Então, Alcibíades tomou a palavra e disse:
- Não tens razão no que dizes, Cálias. É que
aqui o nosso Sócrates admite que não
consegue seguir longos discursos e concede
a vitória a Protágoras, mas quando se trata
de dialogar e ser entendido em dar e
devolver argumentos,
336c aí espantar-me-ía se concedesse a vitória a Alcibíades vem em defesa de
outro homem. Sócrates. Diz que se Protágoras se
nega a responder a Sócrates com
Ora, se Protágoras admitir que é inferior a um discurso curto então deveria
Sócrates na arte de dialogar, para Sócrates considerar-se inferior a ele, em
será suficiente; mas se levanta algum argumentos.
obstáculo, ele que conduza o diálogo
interrogando e respondendo, sem fazer um
longo discurso para cada questão,
contornando os argumentos e não querendo
dar respostas,
336d prolongando, antes, o discurso até que Para existir interesse na
muitos dos ouvintes tenham esquecido qual aprendizagem não é apenas
era o teor da pergunta. Quanto a Sócrates, necessário que alguém discurse,
garanto que não se esquecerá e que não está mas também alguém que
senão a brincar ao dizer que é um questione o conteúdo do discurso.
esquecido. Parece-me, então, que o que diz Desta forma, Alcibíades defende
Sócrates é mais razoável. É preciso que Socrátes pois considera que este
cada um apresente a sua opinião. está a pensar em quem está a
Depois de Alcibíades - creio eu - foi Crítias acompanhar o discurso.
a falar:
336e - Pródico e Hípias, parece-me que Cálias Fala de Crítias que caracteriza
está mais do lado de Protágoras, enquanto Alcibíades de uma forma irónica.
Alcibíades está sempre desejoso de levar a Crítias tem um papel moderador,
melhor na posição em que, porventura, apelando à boa vontade de ambos
apostar. para que o diálogo possa
[Link]
Não devemos tomar nenhum partido, nem continuar.
por Sócrates, nem por Protágoras, mas
antes pedir para ambos que não quebrem a
conversa a meio.
337 Depois de ele ter dito estas palavras, Tal como Crítias, também Pródico
Pródico acrescentou: defende a continuidade do diálogo
e considera que deve existir
- Parece-me bem o que o dizes, Crítias. É, imparcialidade por parte dos
de facto, necessário que, aqueles que ouvintes.
assistem a discussões destas ouçam ambos
os interlocutores, de modo imparcial, mas
não passivo - é que são coisas diferentes. É
preciso ouvir os dois do mesmo modo, mas
não atribuir a cada um o mesmo valor, antes
mais ao mais sábio e menos ao mais
ignorante. Pela minha parte, Protágoras e
Sócrates, suponho que concordarão em
discutir sobre os argumentos mas sem
contender
337b - é que os amigos discutem com os amigos, Pródico, que era célebre pelo
com cordialidade, enquanto que aqueles que profundo conhecimento em
contendem são os que estão em desacordo e gramática, começa por distinguir
se odeiam uns aos outros - assim, a nossa "discussão" de "contensão",
conversa será muito melhor. Porque, então, "apreço" de "louvor" e "júbilo" de
vocês, os que falam, receberão, desse modo, "prazer".
da nossa parte, dos que ouvimos, sobretudo
um grande apreço, mais do que louvor. Na
verdade, o apreço vem, sem mentiras, da
alma daqueles que ouvem, enquanto o
louvor, muitas vezes, trai com palavras a
verdadeira opinião. Então, nós, ouvintes, a
experimentaremos sobretudo júbilo e não
prazer.
337c Rejubilar é aprender algo e partilhar da
inteligência do próprio espírito;
experimentar prazer é antes comer algo ou
receber outro prazer só para o corpo.
Então, depois de Pródico ter falado assim,
muitos - muitos mesmo - dos presentes o
apoiaram. A seguir a Pródico, falou o sábio
Hípias:
Hípias intervém, tentando que
- Meus senhores, aqui presentes, creio eu Protágoras e Sócrates cheguem a
que todos são aparentados, familiares e um acordo acerca da melhor
concidadãos - por natureza, não por lei. forma de continuar o diálogo.
337d Porque qualquer coisa que é semelhante a Nesta intervenção é curioso
outra é, por natureza, aparentada com realçar a vaidade de Hípias que,
aquela a que se assemelha; mas a lei, que é ao ter oportunidade de falar,
um tirano entre os homens, força a muitas adjectiva todos os presentes, e ele
[Link]
coisas contrárias à natureza. Seria então próprio, como os mais sábios dos
censurável se nós, que conhecemos a Helenos.
natureza das coisas, somos os mais sábios
dos Helenos e aqui estamos, por essa
mesma razão, reunidos todos, a capital da
sabedoria da Hélade e aqui nesta casa, a
maior e mais próspera desta cidade,
337e não expuséssemos nada que honrasse a
nossa reputação e divergíssemos uns dos
outros como se fôssemos os mais incapazes
dos homens. Peço-vos, pois, e dou-vos por
conselho, Protágoras e Sócrates, que
cheguem a um acordo, tendo-nos a nós por
árbitros para vos conciliarmos:
338 a ti, que não pretendas esse tipo de precisão Tal como todos os presentes,
do diálogo, de excessiva brevidade, se ela Hípias também se mostra bastante
não agrada a Protágoras, mas, antes, a seres empenhado em impedir que o
condescendente e folgares as rédeas aos diálogo termine. Para isso,
teus discursos, para que nos pareçam mais utilizando uma brilhante metáfora
magnificientes e elegantes; por sua vez, a marítima, tenta persuadir
Protágoras, que não navegue de vela Protágoras e Sócrates a chegar a
desfraldada, ao sabor do vento, e fuja para um consenso quanto à extensão
um mar de discursos, onde não se aviste do discurso. Finalmente sugere a
terra. Que fiquem antes pelo meio-termo! escolha de um árbitro ou juiz.
Façam assim, então, e se estão persuadidos
pelas minhas palavras escolham um árbitro,
um juiz, um presidente que vos
supervisione na extensão do discurso de
cada um.
338b Estas palavras agradaram aos presentes e Sócrates discorda com a ideia de
todos o louvaram; Cálias disse que não me se escolher um juíz, uma vez que
deixaria ir e pediu que se escolhesse um considera que dessa forma será
juiz. Respondi-lhe eu então que seria uma impossível existir justiça:
vergonha escolher um árbitro para os - se o juiz for inferior a eles, não
discursos: estará certo que este julgue os que
- É que se o escolhido for inferior a nós, lhe são superiores;
não estará correcto que aquele que é - se for igual, julgará da mesma
inferior julgue os que são melhores; se for forma que eles e, portanto, seria
igual, também não estará correcto: porque desnecessário e uma perca de
aquele que é igual a nós procederá da tempo.
mesma maneira, de modo que seria uma
escolha inútil.
338c Ora, então, terão de escolher alguém melhor Deste modo, conclui que o juiz
do que nós. Só que, em boa verdade, pelo teria que ser superior a eles.
que me parece, ser-vos-á impossível Contudo, alega, ironicamente, que
escolher alguém mais sábio que aqui o também seria impossível
nosso Protágoras; por outro lado, senão encontrar entre os presentes
escolherem alguém melhor, ainda que assim alguém mais sábio que
o afirmem, para ele será vergonhoso na Protágoras.
[Link]
mesma escolherem-lhe um juíz, como se se Através dos argumentos
tratasse de um medíocre; quanto a mim, não apresentados, Sócrates refuta a
me faz diferença nenhuma. ideia de escolher um juiz.
Mas para que tenhamos a conversa que
desejam, quero propor o seguinte: se
Protágoras não quiser responder, então que
faça ele as perguntas,
338d que eu respondo-lhe, e, ao mesmo tempo, Afinal, é Sócrates quem acaba por
vou tentar mostrar-lhe de que modo digo eu propor uma solução colocando-se,
que aquele que responde deve responder. E, de certa forma, numa posição
depois de eu ter respondido a quanto ele me superior - ao ensinar Protágoras
quiser perguntar, passar-me-á ele, como se deve responder num
novamente, a palavra, do mesmo modo. E diálogo.
se, pelo contrário, ele não parecer desejoso O acordo fica estabelecido: trata-
de responder ao que lhe é perguntado, todos se de uma inversão de papéis, ou
nós, em conjunto, lhe pediremos o mesmo seja, Protágoras passa a perguntar
que me pediram vocês, que não estrague a e Sócrates a responder. Quando
conversa. Protágoras achar pertinente
regressar à posição de inquirido,
inverter-se-ão de novo os papéis.
338e Posto isto, não há necessidade alguma de Desta forma, não será necessária a
termos um árbitro; antes, todos arbitrarão existência de um árbitro pois
em conjunto. todos arbitrarão em conjunto.
A todos pareceu que assim se deveria fazer. Protágoras perante esta proposta,
Protágoras não estava muito convencido, e principalmente por se aperceber
mas mesmo assim foi forçado a concordar que toda a audiência parecia
que ele faria as perguntas e, depois de ter concordar, forçosamente aceita.
perguntado o suficiente, responderia ele, de
novo, utilizando um discurso breve.
338e Começou, então, por perguntar qualquer Protágoras, ao ter oportunidade de
coisa do género: questionar Sócrates, regressa ao
- Creio eu, Sócrates, que para um homem a tema da virtude utilizando de
parte mais importante da educação consiste novo a poesia, campo onde se
em ser perito em matéria de poesia, e essa sente visivelmente mais à vontade
perícia significa poder entender e saber e que é uma das formas essenciais
distinguir, na obra dos poetas, o que está da paideia sofística.
feito de modo correcto e o que não está e
justificar-se perante qualquer dúvida.
339 Pois a minha pergunta de agora é De facto, Protágoras revela estar
precisamente sobre esse assunto acerca do muito preso à tradição oral e
qual tu e eu temos estado a discutir, acerca poética e aos longos discursos, ao
da virtude, só que transferido para a poesia. passo que Sócrates se apoia
Difere apenas nesse pormenor. Simónides apenas no poder da argumentação.
diz algures a Escopas, filho de Creonte da
Tessália:
[Link]
339b Ora, é difícil tornar-se, de verdade, um Ao regressar à poesia, Protágoras
homem de bem, perfeito de mãos e pés e está a seguir um método sofístico
espírito, obra lapidada sem falha. e a reclamar para si a autoridade
dos poetas.
- Conheces este poema ou queres que to
recite todo? Protágoras mostra mais uma vez a
- Não é preciso; eu também o conheço e, sua forte ligação à tradição oral,
por acaso, até me tenho ocupado bastante revelando um certo orgulho em
dele. conhecer um poema de cor, como
- Ainda bem que o dizes! E achas que está era característico dos aedos.
composto com beleza e correcção, ou não?
- Com muita beleza e correcção, até. Sócrates também conhece o
poema.
- E parecer-te-á na mesma composto com
beleza, se o poeta se contradisser assim
mesmo?
- Não, assim não terá beleza - respondi eu.
- Vê, então, melhor.
339c - Mas, meu caro, eu já o examinei que Protágoras assinala uma possível
chegue! contradição no poema de
- Sabes, então, que alguns versos mais à Simónides. Coisa que um aedos
frente, nesse poema diz: jamais faria uma vez que a sua
função era apenas saber o poema
Não julgo razoável a máxima de Pítaco, de cor (junto ao coração).
embora tenha sido um homem sábio a
proferi-la: disse que é difícil ser nobre.
Sabes que a mesma pessoa disse estas Sócrates receia a questão
palavras e aquelas que estavam antes? colocada por Protágoras, apesar
- Tenho a certeza! de não o mostrar aos presentes.
- Parece-te então que estas palavras
concordam com as outras?
- A mim, de facto, parece-me que sim (mas,
ao mesmo tempo, fiquei com medo do que
ele fosse argumentar); a ti não te parece?
339d - Como é que alguém poderá parecer estar Protágoras apresenta a
de acordo consigo mesmo, se disser estas contradição. Mais do que uma
duas coisas: em primeiro lugar, ele próprio mera análise gramatical (prática
declara que é difícil tornar-se, comum entre os grammatistés), o
verdadeiramente, um homem bem; mas sofista procede a uma análise do
esquece-o, um pouco mais à frente, ao discurso e da lógica que lhe está
continuar o poema, e quando Pítaco diz a subjacente. Sai de um universo de
mesma coisa que ele próprio dissera, que é pura repetição (aedos) e análise
difícil ser nobre censura-lhe essas palavras gramatical (grammatistés) para
e diz não aceitar do outro a afirmação que um universo em que se fazem
ele próprio tinha feito? É que, ao censurá- análises críticas.
lo, por falar assim, é óbvio que se censura a
si próprio. De modo que algo do que disse,
[Link]
ou antes ou depois, não está correcto.
339e Estas palavras provocaram entusiasmo e os A audiência aplaude o discurso de
aplausos de muitos dos ouvintes e eu, a Protágoras e o entusiasmo vivido
princípio, como que derrubado por um bom leva Sócrates a sentir-se, por
pugilista, senti que perdia a vista e os momentos, "derrubado por um
sentidos, por causa do que ele dissera e do bom pugislista".
entusiasmo dos outros. Em seguida - para te
dizer da verdade, com o intuito de ganhar
tempo para ponderar o que o poeta teria
querido dizer -, virei-me para Pródico e
chamei-o:
340 - Ó Pródico, Simónides é teu concidadão. É Resposta de Sócrates:
justo que ajudes o nosso homem. Parece-me Sócrates recorre a Pródico que,
bem recorrer, tal como diz Homero que o como já foi referido
Escamandro, ante a investida de Aquiles, anteriormente, era um conhecido
recorresse ao Simuente, dizendo: mestre em sinonímia, para que
este o ajude a esclarecer a
Querido irmão, enfrentemos juntos a força intenção do poeta.
deste homem.
Sócrates justifica o recurso a
Pela mesma razão, eu recorro a ti, para que Pródico e pede-lhe que ouça e
Protágoras não nos destrua Simónides de analise a sua opinião.
vez. É que, decerto, a defesa de Simónides
precisa da correcção da tua arte, pela qual
distingues que querer e desejar não são a
mesma coisa,
340b e que fazes todas aquelas distinções Sócrates pergunta a Pródico se
formidáveis de há pouco. Observa lá bem, "tornar" é o mesmo que "ser".
então, se a tua opinião coincide com a
minha. A mim não parece que Simónides se
contradiga a si mesmo.
Mas, adianta-nos tu, Pródico, a tua opinião:
parece-te que tornar-se é o mesmo que ser
ou algo diferente?
- Diferente, por Zeus! - respondeu não.
- Ora bem, não é verdade que Simónides,
nos primeiros versos, mostrava a sua
própria opinião, que é difícil tornar-se,
verdadeiramente, um homem de bem.
340c - Tens razão no que dizes - confirmou
Pródico.
- E censura Pítaco, precisamente, não como
pensa Protágoras, por dizer o mesmo que
ele mas outra coisa, porque Pítaco não diz
que isso é difícil, tornar-se nobre, como
Simónides, mas sim sê-lo. Não é a mesma
coisa, Protágoras, tal como diz o nosso
Pródico, ser e tornar-se. E se ser não é o
[Link]
mesmo que tornar-se, Simónides não se
contradiz a si mesmo.
340d De igual modo, o nosso Pródico e muitos
outros, a partir de Hesíodo, hão-de dizer
que é difícil tornar-se um homem de bem
- porque, anteposto ao mérito, colocaram os
deuses o suor -
e que, quando alguém atinge o cume desse
mérito,
torna-se fácil depois, por difícil que seja,
conservá-lo.
Pródico ouviu as minhas palavras e
aplaudiu-as. Mas Protágoras replicou:
- A tua defesa, Sócrates, acrescenta um erro
maior à tese que te empenhas em defender. Pródico ouve Sócrates e
Respondi-lhe, então: concordou, aplaudindo a sua
- Bem, pelo que me parece sai-me mal - não resposta.
é verdade, Protágoras? - e sou uma espécie Protágoras replica para mostrar
de médico caricato, que torna maior a que os argumentos de Sócrates
doença que trata. não são válidos.
340e - É isso mesmo.
- Como assim? - quis eu saber.
- Seria muita ignorância do poeta se
dissesse que conservar a virtude é algo
assim tão simples, quando a todos os
homens parece que é mais difícil de todas
as coisas.
341 - Por Zeus, vem mesmo a propósito termos Sócrates faz novamente apelo à
aqui o Pródico a participar no diálogo. sabedoria de Pródico para
Porque, decerto, Protágoras, a arte de resolver este novo problema
Pródico é algo de divino e antigo, iniciada conseguindo, desta forma, uma
com a de Simónides ou até mais antiga. Tu arma contra Protágoras visto que
que és conhecedor de tantas coisas pareces Sócrates conhece muito bem
desconhecer esta, mas eu conheço-a porque Pródico uma vez que foi seu
fui discípulo do próprio Pródico. É que me discípulo.
está a parecer que não sabes que talvez Sócrates critica Protágoras por
Simónides não entendesse esse "difícil" do desconhecer a intenção de
mesmo modo que tu o entendes. É como, Simónides ao utilizar a palavra
por exemplo, a propósito de "terrível", para "difícil", mostrando-se,
o qual Pródico me chama a atenção ironicamente, espantado, uma vez
frequentemente. que Protágoras é conhecido como
o mais sábio dos sábios.
341b Quando te aplaudo a ti ou qualquer outro Sócrates discute o significado das
digo que Protágoras é um homem palavras "difícil" e "terrível",
"terrivelmente sábio" e ele pergunta-me se afirmando que esta última poderá
[Link]
não me envergonho de chamar "terríveis" as ter vários significados.
coisas boas. Porque o que é «terrível», diz
ele, é mau; pelo menos, não é comum falar-
se de "uma terrível riqueza", nem de "uma
terrível paz", nem de uma «terrível
robustez», mas sim de "uma terrível
doença", de "uma terrível guerra" e de "uma
terrível pobreza" - como se o que é
"terrível" fosse mau. Provavelmente, os
habitantes de Ceos e Simónides entendem
este «difícil» ou como algo mau ou noutro
sentido que tu desconheces. Perguntemos
então a Pródico - é justo interrogá-lo a ele
sobre o dialecto de Simónides -: a que
chama Simónides "difícil", Pródico?
341c - Ao que é mau - respondeu ele. Sócrates vai questionando Pródico
- Ora, por isso mesmo - não é, Pródico? -, de forma inteligente com o
censura Pítaco porque diz que é difícil ser objectivo de mostrar que tem
nobre, como se lhe tivesse ouvido dizer que razão e apela mesmo ao
é mau ser nobre. conhecimento dos dialectos por
- Mas, Sócrates - interrompeu ele -, parece- parte de Pródico.
te então que Simónides diz outras palavras
de não sejam as que ouvimos e que ataca
Pítaco por ele não saber distinguir
correctamente os significados, uma vez que,
sendo de Lesbos, foi criado numa língua
bárbara?
341d - Estás a ouvir aqui o Pródico, Protágoras... Aqui se constata que o facto de
Queres dizer mais alguma coisa? Sócrates ter apelado à
Protágoras replicou: participação de Pródico no
- As coisas não podem ser assim de modo diálogo foi uma atitude bastante
nenhum, Pródico! Sem sombra de dúvida, inteligente, uma vez que, com a
Simónides chama "difícil" ao mesmo que ajuda deste, conseguiu mostrar
todos nós, não ao que é mau, mas ao que que Protágoras estava errado.
não é fácil e que só se consegue através de
muitas provações.
- Pois a mim também me parece,
Protágoras, que é isso que Simónides diz, e
Pródico bem o sabe, mas está a brincar e a
pôr-te à prova para ver se podes sustentar a
tua argumentação.
341e Mais, de que Simónides não diz dificil com Os habitantes de Ceos eram
sentido de mau, há uma boa prova logo conhecidos pela sua rectidão.
seguir a estas palavras. Ao dizer que
somente um deus poderá obter tal dádiva
é óbvio que não faz a tal afirmação - que é
[Link]
mau ser nobre-, se esclarece, em seguida,
que só um deus pode obtê-lo e que só a um
deus é concedida essa dádiva. Se assim
fosse, Pródico estaria a fazer de Simónides
um falsário e nunca um homem de Ceos.
342 Mas quero dizer-te qual me parece ser o Sócrates diz a Protágoras que vai
pensamento de Simónides neste poema, se fazer uma interpretação do poema
quiseres que eu dê uma prova de como de Simónides, mas dá-lhe a
estou em matéria de poesia, como tu lhe hipótese de ser ele a começar.
chamaste. Ou, se preferires, ouvir-te-ei a ti.
Protágoras remete a Sócrates a
Depois de ouvir o que eu tinha dito, escolha de dar início ao discurso,
Protágoras respondeu: o que é apoiado por Hípias e
- Como quiseres, Sócrates! Pródico.
Pródico e Hípias também fizeram ambos Sócrates faz uma interpretação do
muita questão, tal como os outros. poema de Simónides, um poeta
- Bom comecei eu -, tentarei, então, que ele admira e estudou
explicar-vos o que eu penso realmente deste cuidadosamente, proferindo um
poema. A mais antiga e maior ânsia de longo discurso. É de salientar que
saber entre os Helenos encontram-se em este tinha criticado Protágoras
Creta e na Lacedemónia, onde há o maior pelos seus longos discursos, pelo
numero de sábios da Terra. que alguns autores consideram
que esta extensa dissertação é
uma "paródia" de Sócrates a
Protágoras.
342b Só que eles negam-no e simulam ser Sócrates começa, então, com um
ignorantes para que não se torne visivel que breve comentário acerca da
superam em sabedoria os outros Helenos - sabedoria, afirmando que é em
tal como aqueles a quem Protágoras Esparta ou Lacedemónia que se
chamou Sofistas; antes, parecem mostrar-se encontram o maior número de
superiores na guerra e na coragem, por sábios da terra, embora estes
acreditarem que se os outros conhecerem a neguem que o são. Desta forma,
arte em que são superiores, a sabedoria, simulam ser ignorantes para que
todos a exercitarão. Assim. ao esconderem- os outros não conheçam nem
no, têm enganado aqueles que admiravam exercitem a sua arte a sabedoria
os Laconios nas outras cidades, aqueles -, ao contrário de outros Helenos,
que, para os imitarem, trazem as orelhas como os sofistas, que pretendem
quebradas, enrolam os punhos com mostrar-se sábios e partilhar essa
correias, arte.
342c se tornam apreciadores de exercício físico e Os Lacedemónios procuram
trazem mantos curtos, como se fossem mostrar-se superiores na guerra e
esses hábitos que fizessem dos na coragem, para que aqueles que
Lacedemónios os mais poderosos dos os admiram e tentam imitar, o
Helenos. Mas os Lacedemónios, quando se façam em relação a estes aspectos
querem encontrar com os seus homens de (actos de coragem: partir orelhas e
saber, aí já ficam importunados; reúnem-se enrolar os punhos com correias;
às escondidas e expulsam os estrangeiros, actos guerreiros: fazer exercício
aqueles que admiram os Lacónios e físico e usar mantos curtos) e não
[Link]
qualquer outro estranho que possa lá estar; em relação à sabedoria.
juntam-se então com os sábios a ocultas dos
estrangeiros e não permitem que nenhum
dos seus jovens visite outras cidades,
342d e os Cretenses também não, para que não Quando pretendem alargar a sua
desaprendam o que lhes foi ensinado. E sabedoria, os espartanos reúnem-
nestas cidades, não há apenas homens se às escondidas com os seus
orgulhosos da sua educação mas também sábios, expulsando todos os
mulheres. Para que vocês tenham a certeza estranhos e estrangeiros,
de que estou a dizer a verdade e que os incluindo aqueles que os
Lacedemónios têm a melhor das educações, admiram. Além disso, proíbem a
quer em termos de conhecimento quer em saída dos seus jovens da cidade.
termos de discurso, vejam o seguinte: se, de
facto, alguém quiser consultar o mais Sócrates salienta ainda que, em
insignificante dos Lacedemónios, na maior Creta e em Esparta era dada
parte da conversa, parecer-lhe-á um importância à educação das
medíocre, mas, de seguida. em qualquer mulheres.
ponto casual do discurso, lança, qual
archeiro experiente,
342e uma palavra preciosa, breve e concisa, de
modo que o seu interlocutor não parecerá
melhor que uma criança. Ora, tanto hoje
como ontem, há quem tenha percebido esse
pormenor que admirar os Lacónios é
muito mais apreciar a sabedoria que o
exercício físico- e quem saiba que só o
homem que recebeu uma esmerada
educação pode proferir semelhante palavra.
343 Nessa situação encontravam-se Tales de Prosseguindo o seu discurso,
Mileto, Pítaco de Mitilene, Bias de Priene, afirma que só consegue perceber
o nosso Sólon, Cleobulo de Lindos, Míson o que foi referido acima quem
de Queneia e, em sétimo lugar, Quilon da recebe uma esmerada educação,
Lacedemónia. Todos estes foram como Tales de Mileto, Pítaco de
entusiastas, apaixonados e discípulos da Mitilene, Bias de Priene, Sólon,
educaçäo dos Lacedemónios e qualquer Cleobulo de Lindos, Míson de
pessoa poderá constatar que a sua sabedoria Queneia e Quílon da
era idêntica à deles, uma palavra breve e Lacedemónia os Sete Sábios.
memorável que cada um deles proferiu.
343b Estes mesmos, reunidos todos, fizeram Estes, adoptando a educação dos
oferenda da sua sabedoria a Apolo no seu Lacedemónios, possuíam uma
templo em Delfos, grafando as máximas sabedoria idêntica à destes
que toda a gente celebra, Conhece-te a ti últimos. Essa sabedoria ficou
mesmo e Nada em excesso. Ora bem, associada a algumas máximas
porque estou eu a dizer estas coisas? Porque proverbiais.
era este o modo de expressão da filosofia Neste ponto, Sócrates faz uma
dos antigos, uma brevidade lacónica. É esse pausa e explica o porquê do seu
também o caso desta máxima de Pítaco, que raciocínio anterior. A forma dos
circulava nos meios privados, e colhia o antigos filósofos expressarem a
louvor dos sábios: É difícil ser nobre. sua sabedoria assentava em
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máximas curtas, como a dos
Lacónicos.
343c Ora, Simónides, desejoso de mostrar E isso, segundo Sócrates, é o que
sabedoria, sabia quo se destruísse esta acontece com Pítaco, ao proferir a
máxima, como se tratasse de um atleta máxima "É difícil ser nobre",
consagrado a quem tivesse vencido, utilizada por Simónides no seu
receberia a consagração entre os homens do poema. Este, desejando ser
seu tempo. Contra essa máxima e por essa reconhecido como sábio,
razão, desejando minimizá-la, compôs todo percebeu que se conseguisse
o poema - é o que me parece a mim! destruir esse dito, ganharia fama
Examinemo-lo, pois, todos em conjunto na sociedade do seu tempo. Por
para ver se é verdade o que eu digo ou não. isso, compôs todo o poema para
Com efeito, o início do poema poderá refutar a máxima de Pítaco.
parecer, à primeira vista, extravagante, se se
quiser dizer que é difícil tornar-se um
homem de bem e, a seguir, acrescentar um
ora.
343d Porque esta palavra não parece ter sido Sócrates sugere, então, à plateia
acrescentada com um objectivo preciso; a que analise o poema com ele, de
menos que alguém pretenda dizer que modo a comprovar a veracidade
Simónides falava contestando a máxima de da sua tese. Para isso, apela a
Pítaco. Quando Pítaco afirma que é difícil Pródico e à sua perícia em
ser nobre, ele discorda e diz: «Ser não, distinguir o significado das
Pítaco, mas, tornar-se um homem de bem, palavras, para defender Simónides
isso sim é de verdade difícil» Não se trata face à objecção de Protágoras.
de um homem «verdadeiramente», de bem; Sócrates questiona se ser e tornar-
não é nesse sentido que fala em «verdade», se significam a mesma coisa e
como se, por acaso, alguns homens fossem Pródico responde com uma
«verdadeiramente» bons e outros apenas simples palavra: "diferente".
bons, mas não «de verdade»
343e - é que tal comentário pareceria coisa de um
simplório, não de Simónides -;antes, é
preciso tomar esse «de verdadeiro» como
um hipérbato no poema, como que para
explicar a máxima de Pítaco. É como se
imaginássemos o próprio Pítaco a falar e
Simónides a responder; um a dizer: «Meus
senhores, é difícil ser nobre» e o outro a
responder-lhe: «Ó Pítaco, o que dizes não é
verdade!
344 Ora, não é ser mas tornar-se um homem de
bem, perfeito de mãos e pés e espírito, obra
lapidada sem falha, que é dificil de
verdade» Assim, ora parece ter sido
acrescentado com esse objectivo e de
verdade colocado correctamente em final
do verso. Tudo o que vem a seguir
testemunha essa opinião, de que foi escrito
assim. Há muitos aspectos a propósito do
[Link]
que diz cada um dos versos do poema que
mostrarão como se trata de uma boa
composição
344b - com muita graça e harmonia, até - mas Com este argumento, Sócrates
levaria muito tempo a esmiuçá-lo desse organiza a sua defesa, afirmando
modo. Vamos, antes, analisar os seus traços que Simónides pensa que é difícil
gerais e a sua intenção, que é sobretudo a tornar-se bom, enquanto Pítaco
refutação da máxima de Pítaco, ao longo de pensa que é difícil ser bom. Como
todo o poema. Com efeito, um pouco ser e tornar-se não querem dizer a
depois do que já foi analisado, diz, como se mesma coisa, Sócrates diz que
estivesse a desenvolver um argumento: não há contradição no poema de
«Ora, tornar-se um homem de bem é de Simónides.
verdade difícil mas possivel, pelo menos
por algum tempo.»
344c Agora uma vez que se consegue,
permanecer depois nessa condição e ser um
homem do bem, como tu dizes, Pítaco, é
impossivel e sobre-humano, pois somente
um deus poderá obter tal dádiva.
Pelo contrário, não é possivel que não seja
mau o homem que um infortúnio
irreversível destrua.
Ora, no comando de um navio, qual o
homem que um infortúnio irreversivel
destrói? É óbvio que não o leigo, porque o
leigo nunca teve recursos. Do mesmo modo
também ninguém poderá deitar por terra
aquele que já está caído mas poderá deitar
por terra aquele que antes estava de pé e
fazê-lo cair - desde que não tivesse caido já.
-
344d Assim, também um infortúnio irreversivel
poderá destruir aquele que antes possuía
recursos, mas não aquele que nunca os teve:
uma forte tempestade que se abate sobre um
timoneiro poderá deixá-lo sem recursos; a
chegada de uma cstação difícil poderá
deixar sem recursos um agricultor, e outro
tanto sucederá com um médico. De facto,
também ao nobre poderá acontecer tornar-
se mau, come testemunha um outro poeta
que diz:
Um homem de bem tanto é mau algumas
vezes como nobre noutras
344e mas ao mau não acontece tornar-se mau
pois é forçoso que o seja sempre. Do
[Link]
mesmo modo, quando um infortúnio
irreversível destrói aquele que tinha
recursos, que era sábio e era bom, não lhe é
possivel não ser mau. Portanto, tu dizes,
Pítaco, que é difícil ser nobre; ora, tornar-se
nobre é dificil embora possivel, ao passo
que sê-lo é impossivel.
É que todo o homem é um homem de bem,
se age bem, e, pelo contrário, mau se age
mal.
345 Ora, o que é um bom trabalho em matéria
de letras e o que é que tornará um homem
bom nesse domínio? É óbvio que a sua
aprendizagem. Qual é o bom desempenho
que toma bom um médico? É óbvio que a
aprendizagem do tratamento dos doentes. E
mau, pelo contrário se age mal. E agora,
quem poderá tornar-se um mau médico? É
óbvio que, em primeiro lugar, aquele que
começa por ser médico, e que, em seguida,
é um bom médico- esse, com efeito, poderá
tornar-se mau mas nós, os leigos em
matéria de medicina, não nos poderíamos
tornar nunca, por agir mal, nem médicos,
nem carpinteiros, nem nada do género.
345b Aquele que não puder, agindo mal, tornar-
se médico, é óbvio que também não poderá
tornar-se um mau médico. Do mesmo
modo, um homem de bem poderá, um dia,
por causa da doença ou por causa de
qualquer outro azar - porque este agir mal
não é mais que ser desprovido de
conhecimento - tornar-se mau, mas o
homem mau nunca se tornará mau - é-o
sempre!-; mais, para poder vir a tomar-se
mau, é preciso que antes se torne bom.
Assim, esta parte do poema aponta para
essa mesma conclusão:
345c que não é possivel um homem ser bom e
permanecer bom, mas que é possivel tornar-
se bom, como também o mesmo homem
tornar-se mau. E melhores por mais tempo
só aqueles que os deuses estimarem. Todas
estas palavras foram proferidas, pois, contra
Pítaco o resto do poema ainda é mais
explícito, porque diz:
Por esse ,motivo, nunca eu atirarei fora o
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lote de vida que me foi destinado
procurando,nuna vaga. vã esperança, o que
não é possivel encontrar, entre aqueles que
colhemos o fruto da terra imensa, um
homem efectivamente isento de culpa, mas,
quando o encontrar, avisar-vos-ei.
345d e continua ele - assim, com força e ao longo
de todo o poema, ataca a máxima de Pítaco:
Mas louvo e estimo todo aquele que,
voluntariamente, não pratica um único acto
censuravel. Embora contra a necessidade
nem os deuses lutem.
E estas palavras foram ditas também com o
mesmo objectivo, porque Simónides não
era tão desprovido de formação que fosse
dizer que louvava aquele que não comete
nenhum mal voluntariamente, como se
houvesse alguém que, por vontade, agisse
mal.
345e A mim, com efeito, esta interpretação Sócrates insere, ainda, na
parece-me clara, que nenhum homem sábio interpretação do poema de
acredita que algum ser humano incorra Simónides, o princípio de que
voluntáriamente em falta, nem cometa nenhum homem erra de boa
voluntariamente acções más e vergonhosas; vontade e que todo o mau
antes, sabe bem que todos aqueles que procedimento é involuntário. Mas,
cometem acções más e vergonhosas as imediatamente, continua
cometem involuntariamente. E Simónides sugerindo que os homens maus
também não iria dizer que era louvável agem voluntariamente e que os
aquele que cometesse voluntariamente más homens bons, como Simónides,
acções, esse voluntariamente é dito, antes, a por exemplo, frequentemente, se
seu respeito. submetem a louvar os homens
maus.
346 Com efeito, ele acreditava que um homem
bem formado, muitas vezes, força-se a si
próprio a tornar-se amigo e admirador de
alguém. E acontece, com frequência
também, um homem ser mal tratado pela
mãe ou pelo pai ou pela pátria ou por
alguma outra entidade do género. Então, os
maus, quando lhes acontece algo assim,
encaram-no quase com felicidade e, com
censuras, exibem e proclamam a maldade
dos progenitores ou da pátria, para que as
pessoas não os acusem nem censurem pela
sua própria negligência; de modo que
censuram-nos ainda mais e somam inimigos
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voluntários aos que não podem evitar.
346b Pelo contrário, os bons tentam ser discretos
e obrigam-se a louvá-los e se são
provocados pelos progenitores ou
injustiçados pela pátria, consolam-se a si
próprios e reconciliam-se, obrigando-se a
estimá-los e louvá-los. Creio eu que, muitas
vezes, Simónides acreditava que de próprio
louvara e elogiara ou um tirano ou alguma
outra dessas pessoas não voluntariamente
mas por ter sido forçado. E é o que diz a
Pítaco:«Eu, Pítaco, não te critico só por
gostar de críticas, até porque
346c A mim, é-me suficiente aquele que não for
mau nem excessivamente fraco, um homem
sensato que conheça a justiça benéfica à
cidade. Esse não o censurarei eu.
e eu não sou daqueles que gostam do
criticar
porque a geraçâo dos loucos é infinita.
(de modo que se alguém se compraz em
censuras poderá satisfazer-se a censurá-los
a eles)
É Iouvável tudo aquilo com que a vergonha
não se misturar.
346d Ele não faz esta observação come se,
porventura, dissesse que são brancas todas
as coisas as quais não foram misturadas
outras pretas - o que seria, a todos os
títulos, risível - agora o que ele aceita é
estádios intermédios que não são passíveis
de crítica. «Também não ando à procura -
diz ele -, entre aqueles que colhemos o fruto
da terra imensa, de um homem
efectivamente isento de culpa, mas, quando
o encontrar, avisar-vos-ei. De modo que
não louvarei ninguém por essa razão, mas
ser-me-á suficiente que esteja num meio-
termo e não proceda excessivamente mal;
nesse caso, estou pronto a estimar e louvar
seja que for.»
346e E, neste passo, ele utilizou o dialecto dos
Mitilenos, porque é contra Pítaco que ele
diz esse «louvo e estimo voluntariarnente
é preciso dividir a frase aqui, no
[Link]
voluntariamente - todo aquele que não
pratica nada de censurável; há, contudo,
alguns que eu louvo e estimo contra
vontade.
347 Ora se tu, Pítaco, tivesses, nem que fosse
em parte, falado com razão e verdade,
nunca te teria censurado. Agora, se a
propósito de coisas tão importantes finges
dizer a verdade, quando afinal estás a
mentir, essa atitude não posso deixar de a
censurar». Eis, Pródico e Protágoras -
concluí eu -, o que me parece que
Simónides tinha em mente ao compor este
poema.
347 Hípias, disse, então: Hípias elogia a interpretação do
- Olha que me pareceu que dissertaste poema feita por Sócrates e
muito bem acerca do poema. E dá-se o caso propõe-se dar a sua própria
de que eu também tenho uma boa interpretação.
interpretação do mesmo, que passarei a
expor-vos, se quiserem.
347b Mas Alcibíades interveio: Alcibíades procura impor alguma
- Claro, Hípias, só que uma outra vez. disciplina ao diálogo, de modo a
Agora é justo que Protágoras e Sócrates que as suas regras sejam
cumpram o que acordaram entre os dois; se cumpridas e que o objecto da
Protágoras, então, ainda quiser fazer as discussão se mantenha em análise.
perguntas, Sócrates responderá, mas se
quiser responder a Sócrates, fará este as
perguntas.
- Por mim respondi eu -, concedo a
Protágoras a opção que lhe for mais
agradável. E se ele quiser, deixemos esta
questão de poemas e poesia.
347c Até porque me seria muito mais agradável Sócrates propõe, então, que se
concluir o nosso estudo em conjunto, abandone a poesia e que
Protágoras, a propósito daquele assunto regressem à questão inicial,
sobre o qual te interroguei. É que me parece desligando-se, assim, dos métodos
também que esta questão sobre poesia é da civilização oral.
semelhante a esses banquetes de gente
medíocre e vulgar. Com efeito, esses, Sócrates critica a poesia fazendo
porque, por falta de educação, não são uma analogia com a prática dos
capazes de se entreterem, durante a bebida, banquetes.
nem com a sua própria voz nem com os
seus próprios discursos, estabelecem um
preço às tocadoras de flauta, pagam bem
cara a voz alheia das flautas e é com a voz
delas que se entretêm uns aos outros.
347d Pelo contrário, em sítio onde, em conjunto,
[Link]
bebam homens que atingiram a perfeição e
receberam educação, não verás nem
tocadoras de flauta, nem bailarinas, nem
tocadoras de harpa; antes, bastam-se a si
próprios para se entreterem sem essas lérias
ou criancices porque têm as suas vozes e
falam e ouvem ordenadamente e à vez,
mesmo que bebam vinho em abundância.
347e Do mesmo modo, também essas reuniões, Sócrates sugere a Protágoras que
se são constituídas por homens como a deixem de lado os poetas em prol
maior parte de nós diz ser, não precisam dos seus próprios discursos,
nem de vozes alheias, nem de poetas, a valorizando o diálogo, a
quem não é possível perguntar acerca do inteligência, o raciocínio, a
que falam. As pessoas que os citam nos argumentação e a contra-
seus discursos dizem, a maior parte delas, argumentação para chegarem à
uns que o poeta pensa outra e discutem verdade.
sobre um assunto que lhes é impossivel
refutar.
348 Antes, é preferível que deixem de lado este Sócrates dá a opção a Protágoras
tipo de conversas e se entretenham a si de liderar a discussão.
próprios, pelos seus próprios meios e se
ponham à prova uns aos outros, ao tomar a
palavra ou ao dar a réplica, com os seus
discursos. Parece-me que é preciso que tu e
eu os imitemos, que ponhamos de lado os
poetas e façamos os nossos próprios
discursos, pelos nossos próprios meios para
pôr à prova a verdade desses discursos e a
nossa. Então, se ainda quiseres interrogar-
me, eu estou disposto a responder-te. Se
preferires o contrário, obriga-me tu a mim a
pôr fim a esta conversa, concluindo as
questões que deixámos a meio.
348b Depois de eu ter feito estas e outras Perante a indefinição de
considerações semelhantes, Protágoras não Protágoras, Alcibíades pressiona-
deixou claro qual das duas opções seguiria. o a decidir-se.
Então, Alcibíades, olhando para Cálias
observou:
- Ó Cálias, achas bonito o modo como
Protágoras está a agir agora, não querendo
tornar claro se responderá ou não? Pois eu
não acho! É bom que continue o diálogo ou
que diga se não o quer continuar, para que
todos nós saibamos qual a sua decisão e
Sócrates, ou qualquer outro que,
porventura, queira fazê-lo, possa dialogar
com outra pessoa.
348c E Protágoras, envergonhado pelo que a Embaraçado com as palavras de
mim me pareceu por causa destas Alcibíades, Protágoras dá a
[Link]
palavras proferidas por Alcibíades e por palavra a Sócrates, permitindo
causa da insistência de Cálias e de quase que o interrogasse.
todos os presentes, a custo lá se deixou
convencer a reatar o diálogo e mandou-me Sócrates procura diminuir um
que o interrogasse, que ele responderia. pouco a dureza das palavras de
Disse-lhe eu, então: Alcibíades, utilizando uma
- Protágoras, não penses que esta minha citação de Homero e dizendo a
discussão contigo pretende outra coisa que Protágoras que apenas pretende
não seja examinar as questões que neste alcançar a verdade. Como
momento representam para mim uma Prótagoras É curioso que Sócrates
dificuldade. É que acredito bem no que recorreu novamente à poesia
dizia Homero: depois de ter proposto que a
abandonassem. A poesia ocupa,
inevitavelmente, um lugar de
destaque na sociedade grega e,
por isso, é impossível afastá-la
completamente.
348d Quando dois homens caminham juntos, um
pode ver antes do outro
porque, desse modo, todos nós temos mais
facilidade em realizar qualquer trabalho,
qualquer discurso, qualquer reflexão. "Mas
se fizer sozinho uma descoberta", vai logo à
procura, até encontrar, de alguém a quem a
conte, para ter a sua confirmação. É por
essa razão também que me é mais agradável
dialogar contigo do que com qualquer
outro, porque acredito que és tu quem
melhor poderá examinar essas e outras
questões que é natural interessarem às
pessoas de boa formação, em especial as
relativas à virtude.
348e E, na verdade, quem melhor do que tu? E Sócrates tece elogios a Protágoras
não é só por pensares que és bem formado; e retorna às questões relativas à
também há outros que são, eles bem virtude, com as quais tinham
razoáveis mas incapazes de formar outros. começado a discussão.
Agora tu és um homem de bem e podes
tornar os outros homens de bem e estás de
tal modo confiante em ti próprio que,
enquanto outros dissimulam essa ciência,
349 tu, bem às claras, anunciaste-te a todos os
Helenos, intitulando-te a ti próprio sofista,
proclamando-te mestre de cultura e de
virtude, o primeiro a ter reclamado um
salário por essa tarefa. De que modo, então,
poderemos dispensar-nos de te solicitar
para o estudo destas questões, de te
interrogar, de te consultar? Não pode ser de
[Link]
outro modo!
349b A pergunta salvo erro era esta: sabedoria, Regresso à questão inicial
sensatez, coragem, justiça e piedade são
cinco nomes para uma única qualidade ou sabedoria, sensatez, coragem,
cada um desses nomes corresponde a uma justiça e piedade são cinco nomes
entidade com propriedades particulares e para uma única qualidade ou cada
uma função individual, não sendo nenhuma um desses nomes corresponde a
delas idêntica à outra? uma entidade com propriedades
particulares e uma função
individual, não sendo nenhuma
delas idêntica à outra?
349c Dizias tu, então, que não são nomes de uma Neste momento, Sócrates
única coisa mas que cada um desses nomes recapitula o argumento de
designa uma entidade particular e que todas Protágoras.
elas são parte da virtude; não do mesmo
modo que as partes do ouro são iguais umas Sócrates dá a Protágoras a
às outras e iguais ao todo, mas antes como hipótese de reformular a sua
as partes do rosto não são iguais umas às posição.
outras nem ao todo, pois tem cada uma
delas uma função particular. Se ainda
mantiveres a tua opinião de há pouco, diz-
mo; mas se pensas de outro modo não o
escondas, para que eu não te esteja a pedir
contas, se agora deres outra resposta.
349d Até porque não me admiraria se tivesses Em jeito irónico, Sócrates
feito antes essas afirmações para me pores à questiona as afirmações feitas
prova. anteriormente por Protágoras.
- Bem, Sócrates, digo-te eu que todas elas Protágoras reformula a sua tese
são partes da virtude e, mais, que quatro
delas são razoavelmente próximas umas das Compreenderás que é verdade o
outras, só a coragem é que é completamente que eu te digo com este exemplo:
diferente das restantes. Compreenderás que encontrarás, por certo, muitos
é verdade o que eu te digo com este homens, que são, por um lado,
exemplo: encontrarás, por certo, muitos tremendamente injustos,
homens, que são, por um lado, tremendamente ímpios,
tremendamente injustos, tremendamente tremendamente desenfreados, e
ímpios, tremendamente desenfreados, e tremendamente ignorantes, mas,
tremendamente ignorantes, mas, por por oposição, superiormente
oposição, superiormente corajosos. corajosos.
349e - Espera lá - interrompi eu -, vale a pena Sócrates considera que vale a
examinar o que estás a dizer. Antes de mais, pena examinar a questão à luz da
dizes que os corajosos são destemidos ou reformulação que Protágoras
outra coisa? acaba de apresentar.
- Sim, claro, bem destemidos e avançam em Contra argumentação de Sócrates
[Link]
situações que outros receiam. A virtude é vista como uma
qualidade bonita, nobre no seu
- Vamos ver, dizes que a virtude é uma todo. Como a coragem é uma
qualidade louvável e que, como qualidade parte da virtude não pode ser um
louvável que é, tu pretendes ensiná-la? defeito.
- É, de facto, a mais louvável de todas as
qualidades - concordou ele -, a menos que
eu esteja louco de todo.
E, então, uma das suas partes pode ser
louvável e outra censurável, ou é louvável
na sua totalidade?
É louvável na totalidade mais do que
qualquer outra coisa pode ser.
Sabes, então, quem são aqueles que,
mergulham destemidamente nem poço?
350 - Os mergulhadores, julgo eu. Ao possuir a arte de mergulhar,
têm que possuir o conhecimento.
- E porque sabem desta arte ou por qualquer
outra razão?
- Porque sabem.
- E quem são os destemidos no combate a O mesmo acontece com os
cavalo? Os cavaleiros ou os que não sabem cavaleiros: os que possuem a arte
andar a cavalo? é porque possuem também o
conhecimento.
- Os cavaleiros.
- E quem o é daqueles que combatem com
escudos? Os que sabem manejar o escudo
ou os que não o sabem fazer?
- Os que sabem manejar o escudo. E é
assim também em todas as outras
actividades, se essa é a pergunta que desejas
fazer; aqueles que sabem são mais
destemidos que os que não sabem e são-no
mais depois de aprenderem do que antes de
terem aprendido.
350b - E já viste alguns que, sem conhecerem
essas actividades, sejam destemidos em
cada uma delas?
- Eu já, e bem destemidos até.
[Link]
- E, então, esses homens destemidos não
são também corajosos?
- No caso, seria uma vergonhosa forma de
coragem. Esses o que são é loucos!
- Ora - repliquei eu -, e o que dizes tu dos
corajosos? Não é que são destemidos?
350c - E continuo a dizer! Mais uma vez, Protágoras reforça
a sua opinião.
- Mas esses, os que são destemidos desta
última maneira, não são corajosos e, antes, Sócrates insiste na ideia de que
parecem loucos, não? E, por sua vez, quem possui o conhecimento, ou
aqueles que são mais sábios são também seja, depois dessa aquisição, é
mais destemidos, e sendo mais destemidos quem é mais confiante e mais
são mais corajosos? E, com este raciocínio, ousado.
a sabedoria também poderia ser coragem?
- Não lembras com precisão, Sócrates, o
que eu disse e o que te respondi. Tu a mim Contradição de Protágoras
perguntaste-me se os corajosos são
destemidos, eu concordei. Mas não me Protágoras afirma que os
perguntaste se os destemidos também são corajosos são destemidos, o que
corajosos - e, se mo tivesses perguntado, não implica a recíproca.
ter-te-ia respondido que nem todos - nem,
quanto aos corajosos, se podem não ser
destemidos, e agora tentas demonstrar que,
quando concordei contigo, não o fiz
correctamente.
350d Em seguida, mostraste que aqueles que são
conhecedores são mais destemidos do que
esses mesmos, ou do que outros, quando
não têm conhecimento, e, com estas
demonstrações, parece-te que a coragem e a
sabedoria são a mesma coisa. E, se fosses
pelo mesmo caminho, pensarias que a
sabedoria é igual à força. E então se, em
primeiro lugar, me fores perguntando só os
fortes têm capacidades, responder-te-ei que
sim;
350e e, em seguida, se os que sabem lutar são
mais capazes que os que não sabem lutar, e,
depois de aprenderem, mais do que antes de
terem aprendido, responder-te-ei que sim. E
depois de eu ter concordado contigo nestas
questões, fazendo uso dos meus
argumentos, tu poderias avançar dizendo
que eu concordara que a sabedoria é o
mesmo que a força. Mas eu não concordei,
[Link]
nem aqui nem em sítio algum, que os que
têm capacidades são fortes, e sim que os
fortes têm capacidades.
351 É claro que a capacidade e força não são a Protágoras realça a sua posição
mesma coisa; antes, enquanto a capacidade diferenciando capacidade e força.
vem do conhecimento, e também da
inspiração e da impetuosidade, a força, por
sua vez, vem da natureza e da robustez dos
corpos. Do mesmo modo, também o Da mesma forma, distingue
destemor e a coragem não são a mesma destemor e coragem.
coisa; assim, os corajosos podem ser
destemidos, mas não é por esse motivo que
todos os destemidos vão ser corajosos.
351b - Destemor advém aos homens da
habilidade, mas também do desejo e até da
loucura, tal como a capacidade; agora a
coragem advém da natureza e da robustez
das almas.
- E dizes tu, Protágoras, que alguns homens
vivem bem e que outros vivem mal?
- Digo.
- Bom, e parece-te, por caso, que um
homem pode viver bem se viver na miséria
e no sofrimento?
- Não.
- E se viver a vida de modo agradável até
ela terminar? Parece-te que assim poderá ter Protágoras concorda com
vivido bem? Sócrates, na medida em que
nenhum homem vive bem se viver
- A mim parece-me. na miséria e no sofrimento.
351c - Então viver a vida de modo agradável é
bom e viver a vida de modo desagradável é
mau, não? A conclusão a que Sócrates chega
é que viver a vida de maneira
- Se, na verdade, se viver a vida tirando agradável é bom e vice-versa. Isto
prazer das coisas que realmente valem a implica que viver agradavelmente
pena. é equivalente a viver bem.
- Como assim, Protágoras? Não chamas tu
também, como a maioria, agradáveis a
algumas coisas boas e penosas a coisas
más? Pois eu pergunto-te se, na medida em
que são agradáveis, não são então, por esse
motivo, coisas boas, ainda que não e
[Link]
tenham em conta as suas outras
características?
E, por sua vez, não é assim também com as
coisas penosas: na medida em que são
penosas não são também coisas más?
- Não sei, Sócrates, se a minha resposta ao
que tu perguntas pode ser assim tão
simples, que as coisas agradáveis são todas
coisas boas e as penosas más.
351d Antes, me parece mais seguro responder - Protágoras, ainda que de forma
tendo em conta não apenas a minha suave, apela à calma. Afirma não
resposta de agora, mas todas as outras ser assim tão simples a resposta
experiências ao longo da minha vida - que que Sócrates pretende.
há, de facto, coisas agradáveis que não são
boas e que há também, por sua vez, coisas É necessária uma análise cuidada
penosas que não são más, embora haja para que não se cometam erros e
aquelas que o são; e, ainda, que há as de não se façam afirmações
uma terceira categoria, que não são nem precipitadas. Nem a tudo se pode
uma coisa nem outra, nem boas nem más. responder apenas sim ou não.
- Mas não chamas agradáveis - insisti eu -,
àquelas que têm participação no prazer ou
que produzem prazer?
351e - Certamente. Tal como nos raciocínios
matemáticos, se se encontrar uma
- Pois é isso mesmo que eu estou a dizer, e tese que satisfaça o que se pedia,
se não são coisas boas na medida em que então a demonstração dá-se por
são agradáveis, pergunto-me se o próprio concluída. Caso contrário, é
prazer pode ser algo bom. necessário prosseguir a
investigação para encontrar a
- Como tu dizes, a cada passo, Sócrates, demonstração.
examinemos a questão! E, se a tese parecer
razoável e mostrar que prazer é o mesmo Protágoras concorda que as coisas
que bom, estaremos de acordo; mas, se não, agradáveis estão relacionadas com
discuti-lo-emos de seguida. o prazer. No entanto, há coisas
que não são boas e que são
- E queres tu conduzir a investigação ou agradáveis. Surge então a questão:
faço-a eu? pergunto-me se o próprio prazer
pode ser algo bom? . Sugere
- É justo - respondeu ele - que sejas tu a então que se analise a questão,
conduzi-la, pois foste tu que iniciaste a sendo a discussão conduzida por
discussão. Sócrates.
352 - Haverá maneira de clarificarmos esta Sócrates recorre a um exemplo, o
questão? É como se alguém, ao examinar do homem que, para saber da sua
um homem para saber da sua saúde ou de saúde, tem de se desnudar e
qualquer outra das funções do seu corpo, mostrar o seu corpo. Ora, para
lhe olhasse para as mãos e dissesse: « Anda que se clarifique algo é necessário
[Link]
cá, descobre-te e mostra-me o peito e as investigar, procurar e ir ao fundo
costas para que eu te possa observar com das questões, ou seja, desnudá-las
mais clareza.» eu anseio por um tipo de e pô-las a nu. Só depois de
investigação semelhante. Depois de ter descobertas se podem trabalhar e
constatado, pelas tuas palavras o que analisar.
entendes por bom e por prazer, quero fazer-
te um pedido semelhante:
352b «Anda cá, Protágoras, e descobre-me o teu
espírito: o que entendes por
conhecimento?» Antes de mais, é o teu
parecer idêntico ao da maior parte dos
homens ou pensas de outro modo? É que a
maioria das pessoas pensa sobre o
conhecimento que não é o género e coisa
que tenha força ou seja capaz de liderar ou
governar. Não pensam que se trate de uma Sócrates questiona Protágoras
qualidade deste género, antes que ao sobre o que este entende por
homem que possui conhecimento, muitas conhecimento, se está de acordo
vezes, não é o conhecimento que o governa com a posição de Sócrates ou com
mas qualquer outra razão: por um lado, o a posição dos Homens, onde o
ímpeto; por outro, o prazer; ou, ainda, o conhecimento é uma qualidade
sofrimento; algumas vezes, o amor; e, louvável, capaz de governar o
muitas vezes o medo. mundo.
352c Pensam no conhecimento, simplesmente,
como num escravo arrastado por todos os
outros conhecimentos. Pensas tu, por acaso,
algo semelhante a este propósito? Ou achas
que o conhecimento é uma qualidade
louvável, capaz de governar um homem e
que se alguém conhecer o que é bom e o
que é mau nunca será subjugado por coisa
alguma e agirá segundo as regras que o
conhecimento ditar? Achas que a
inteligência é suficiente para proteger o
homem?
352d - Concordo com o que tu dizes, Sócrates, e, Protágoras concorda com a
mais, seria para mim uma vergonha se não posição de Sócrates, afirmando
dissesse que a sabedoria e o conhecimento que as capacidades humanas mais
são mais importantes do que qualquer outra importantes são a sabedoria e o
de todas as capacidades humanas. conhecimento.
- O que tu dizes está certo e é verdade. Mas Sócrates convida Protágoras a
sabes que a maioria dos homens não se juntar-se a ele, para ambos
deixa convencer nem por mim nem por ti; ensinarem aos homens o que é a
dizem antes que muitos, sabendo o que é sensação de ser dominado pelo
melhor, não querem agir desse modo, prazer. Estamos perante dois
quando podiam fazê-lo, mas agem de outra homens unidos em busca de um
maneira. e aqueles a quem eu tenho objectivo comum: o
perguntado qual a razão desse conhecimento e a sua transmissão
[Link]
comportamento respondem que são aos homens, e não na presença de
obrigados a fazer o que fazem, dominados dois rivais, em que cada um
pelo prazer, pela dor ou por qualquer desses procura sair vencedor. O
outros sentimentos de que eu falava ainda objectivo de Sócrates é claro:
agora. criar condições dialógicas para a
procura da verdade.
352e - Creio, Sócrates, que as pessoas também Protágoras questiona a atitude de
fazem muitas outras afirmações que não Sócrates, uma vez que este
estão correctas. pretende analisar o pensamento
dos homens. Será que daí advém
- Anda comigo, então, tentar convencer algum proveito? Questiona
esses homens e ensinar-lhes o que é essa Protágoras, pondo em causa o
sensação a que eles chama ser dominado método de Sócrates.
pelo prazer e a razão pela qual não fazem o
que é melhor, embora o conheçam bem.
353 É que talvez se lhes dissermos: «Meus Sócrates reage dando-lhe de novo
amigos, o que vocês dizem não está certo; a oportunidade de ser ele a
estão até enganados», eles nos perguntem: conduzir a discussão, dado que
«Protágoras e Sócrates, se essa tal sensação somente aborda aquilo que
não é ser dominado pelo prazer, é então o considera relevante.
quê? O que dizem você, então, que é?
Respondam-nos os dois.»
- Mas, Sócrates, é preciso estarmos nós a
examinar a opinião da maior parte dos
homens, quando eles dizem o que,
porventura, lhes ocorre?
353b - Parece-me - respondi eu - que esta Protágoras apercebe-se que, de
investigação nos é útil para a descoberta do facto, não deveria ter posto em
que seja a coragem, do modo como se causa o método de Sócrates e
relaciona ela com as outras partes da ainda que não lhe peça desculpa
virtude. Se quiseres, então, manter o que explicitamente, dá-lhe razão e diz-
acordámos há pouco, que eu conduziria a lhe para prosseguir a investigação.
investigação nos aspectos que me
parecessem mais relevantes para clarificar a
questão, acompanha-me. Mas, se não
quiseres, se preferires, estou disposto a
deixar ficar.
- Não, o que dizes está certo. Continua lá do
modo como começaste.
353c - Bom, vejamos mais uma vez... se alguém Sócrates recomeça a discussão
nos perguntar. «Ora, e que dizem vocês que anteriormente proposta.
é essa sensação a que nós chamamos ser
dominados pelos prazeres?» Eu, pela minha Sócrates tenta mostrar o que é a
parte, responder-lhes-ia o seguinte: sensação dominada pelos
«Escutem, então, porque Protágoras e eu prazeres.
vamos tentar explicar-vos. Dizem vocês,
meus amigos, que acontece, nalgumas Identifica o tipo de prazeres:
[Link]
circunstâncias - pode até ser que muitas comida, bebida e sexo. No
vezes -, ser-se dominado pelos prazeres, da entanto, identifica-os como sendo
comida, da bebida, do sexo, e que se age de coisas prejudiciais.
acordo com eles, mesmo sabendo que são
coisas prejudiciais?» Diriam que sim.
Então, de novo, seríamos tu e eu a
perguntar-lhes: «Em que medida dizem que
essas coisas são prejudiciais?»
353d Porque proporcionam esse prazer, nesse
mesmo momento, e cada uma delas é
agradável ou porque, tempo depois,
provocam doenças e pobreza e causam
muitas outras desgraças semelhantes? Ou,
mesmo que, porventura, tempos depois não
causassem nenhuma destas consequências
negativas, antes contribuíssem apenas para
trazer prazer?» Será possível acharmos,
Protágoras, que nos darão alguma outra
resposta salvo que não são más pela
produção desse prazer momentâneo mas
pelo que advém posteriormente, doenças e
outras desgraças?
353e - Eu, por mim, penso - assentiu Protágoras Ambos concordam que, as
que a maior parte responderá dessa pessoas no geral, acham que estes
maneira. prazeres são prejudiciais, não
porque produzem prazer
- «Ora e, então, trazendo doenças não momentâneo mas, porque podem
trazem desgraça e, trazendo pobreza, não causar sofrimento e retirar o lugar
trazem desgraça?» Penso eu que também a outros prazeres.
concordariam.
Protágoras tornou a dizer que sim.
- «E não vos parece também, meus amigos,
que, tal como afirmamos Protágoras e eu,
estas coisas não são más por nenhum outro
motivo que não seja por culminarem em
desgraça e privarem o homem dos outros
prazeres?» Iriam concordar?
354 A ambos nos pareceu que sim. Sócrates tenta demonstrar que
algumas coisas boas culminam
- Bem, e se lhes fizéssemos uma nova em desgraça, como por exemplo o
pergunta, ao contrário: «Meus amigos, exercício físico, campanhas
aqueles de vocês que dizem que há coisas militares, tratamento médico,
boas penosas, não o dirão, por acaso, medicamentos e fome.
daquelas que podem, por exemplo, resultar
do exercício físico, das campanhas
militares, do tratamento feito pelos
médicos, através de cautérios, amputações,
[Link]
medicamentos e privação de alimentos -
porque essas, embora penosas, são boas?»
Diriam que sim?
- Também me parece.
354b - «Então, antes de mais, chamam boas a Razões pelas quais, os exemplos
essas coisas porque, tempos depois, delas em cima apresentados, são coisas
advêm robustez e boa condição física para boas.
os corpos, salvação para as cidades, poder
sobre os outros e riquezas?» Por mim,
penso que seria por esta última razão.
- Também me parece.
«Então, essas coisas são boas por qualquer
outro motivo ou porque culminam em
prazer, libertando e prevenindo de dores?
Ou, observando estas coisas a que chamam
boas, dirão vocês que têm qualquer outro
fim que não prazeres e dores?»
354c Quero admitir que diriam que sim. Estas coisas são boas porque
transformam-se em prazer e
- A mim também me parece - continuou evitam a dor.
Protágoras.
- «Então procuram o prazer porque é bom e
fogem da dor porque é má, não?»
- Acho que sim. O prazer é mau apenas quando
priva as pessoas de prazeres
- «E, por certo, pensam que a dor é algo maiores do que ele próprio.
mau e que o prazer é bom; embora afirmem
que mesmo o que agrada também é mau,
quando priva de prazeres maiores que os
que ele próprio proporciona, ou quando
culmina em dores maiores que esse mesmo
prazer.
354d Contudo, se chamam mau a ter prazer por
qualquer outra razão ou pela observação de
qualquer outro resultado, então, avisem-
nos. Decerto, não vos será possível!»
- Também me parece que não - concordou
Protágoras.
«Agora, mais uma vez, pode o mesmo Por outro lado, a dor é boa
raciocínio aplicar-se ao sofrimento das quando liberta uma dor maior ou
dores? Chamam bom a ter uma dor quando produz maior prazer do que a
ela liberta de dores maiores que essa ou própria dor.
[Link]
quando culmina em prazeres maiores que as
dores? Claro que se vocês tiverem
observado algum outro resultado, para
poderem chamar bom a ter dores, que não
apenas o que eu digo, avisem-nos, por
favor. Decerto não vos será possível!»
354e - É verdade o que dizes - concordou Mais uma vez, Protágoras
Protágoras. concordou com Sócrates.
«Uma vez mais, ainda meus amigos - insisti
eu -, se me perguntassem: " Mas por que
razão te demoras a levantar tantas e tão
variadas questões sobre este assunto?".
Desculpem-me - diria eu -, em primeiro
lugar, não é fácil demonstrar o que é essa
sensação a que se chama ser dominado pelo
prazer; depois, só a partir dessa
demonstração posso esclarecer todas as
outras dificuldades.
355 Mas agora ainda é possível recuar, se Sócrates dá a hipótese de uma
quiserem dizer que o que é bom é qualquer mudança de opinião, a Protágoras
outra coisa que não prazer e o mal qualquer e a todos.
outra coisa que não a desgraça. Ou chega-
vos que o prazer seja viver a vida sem
dores? Se chega e não são capazes de
distinguir uma coisa boa de uma coisa má, a
não ser que resulte nesse estado, escutem o
seguinte: digo-vos, com efeito, que essa
opinião invalida a nossa discussão, uma vez
que dizem que, muitas vezes, o homem
sabe que as más acções são más acções e
pratica-as na mesma, sem ser obrigado a
fazê-lo, empurrado e oprimido pelos
prazeres.
355b E, logo a seguir, dizem que o homem que Sócrates conclui que a posição de
conhece quais as boas acções não está Protágoras e dos outros é: o
disposto a praticá-las, por causa de prazeres homem sabe que as más acções
momentâneos, por ser dominado por eles. são más e pratica-as na mesma,
Que se trata de um raciocínio ridículo ficará oprimido pelos prazeres; quanto
bem claro, se não utilizarmos tantos nomes às boas acções não as pratica,
ao mesmo tempo, prazer e dor, bom e mau; embora sabendo que são boas,
mas, já que parecem ser apenas duas as dominado pelos prazeres
situações, demos-lhes apenas dois nomes, momentâneos.
em primeiro lugar bom e mau, depois
prazer e dor.
355c Fiquemos assim e digamos que o homem
que sabe que as más acções são más, as
pratica na mesma». E se alguém, então, nos
perguntar: «Por que razão?»,
[Link]
responderemos: « Porque está dominado.»
«Por quem?», perguntar-nos-á ele. Nós, aí,
já não vamos poder dizer que pelo prazer -
é que o outro nome que substitui esse
prazer é o bom. Assim, se respondermos
dizendo «Dominado», ele perguntará: «Por
quem?», e nós, por Zeus, responder-lhe-
emos que pelo que é bom. Ora, se se der o
caso de o nosso interlocutor ser um
insolente, vai ficar a a rir-se e a dizer: «Mas
que resposta disparatada!
355d Que alguém pratica más acções, sabendo
que são más e que não as deve praticar, por
estar dominado por coisas boas. Pensam
vocês, por acaso - continuará ele -, que as
coisas boas não são merecedoras de vencer
as más... ou que o são?» É óbvio que ao
responder diremos que não são; caso
contrário, este homem que dizemos ser
dominado pelos prazeres não cometeria
qualquer falta. «Mas por que razão -
perguntará ele talvez - têm as coisas boas
menos valor que as más ou as más que as
boas? Por alguma outra razão que não seja
serem umas maiores e outras menores?
355e Por haver maior quantidade de umas e As coisas boas e más têm mais ou
menor quantidade de outras?» Não teremos menos valor devido ao facto de
possibilidade de dar outra resposta. «É umas serem em maior ou menor
óbvio, então - dirá -, que essa sensação a quantidade.
que chamam ser dominado é trocar grandes
males por pequenos bens». E assim é! Sócrates realça que o ser
Reponhamos, então, os nomes de prazer e dominado é trocar grandes males
dor para estas mesmas coisas e digamos que por pequenos bens.
um homem pratica acções, a que antes
chamámos más e agora chamaremos
penosas, sabendo que são penosas,
dominado pelos prazeres que, é óbvio, não
merecem vencer.
356 E em que outra medida falta valor ao prazer
face à dor, senão por excesso ou falta de um
em relação ao outro? E este desequilíbrio
advém de terem maior ou menor tamanho,
maior ou menor quantidade, mais ou menos
força. Com efeito, se alguém disser. «Mas,
Sócrates, há uma grande diferença entre
prazer momentâneo e o prazer e a dor que
vêm com o tempo», eu, pela minha parte,
responder-lhe-ei que não, decerto, por outra
razão senão por serem prazer ou dor. Não
[Link]
há mesmo outro motivo!
356b Mais, é como se um homem bom em Realça, mais uma vez, a ideia de
pesagens, somando prazeres com prazeres e que o desequilíbrio entre prazer e
somando dores com dores, depois de ajustar dor é devido ao maior ou menor
na balança a proximidade e a distância, tamanho ou mais e menos força
disser quais são as maiores; porque se de cada um.
pesares prazeres com prazeres terás que
aceitá-los sempre com dores em menor
número e em menor tamanho. Agora, se
forem prazeres com dores, se os prazeres as
excederem, seja a proximidade menor que a
distância ou a distância menor que a
proximidade, terás que agir segundo o que
estes ditarem. Se forem as dores a exceder
os prazeres, não terás que o fazer.
356c «Não é assim, meus amigos?», perguntei Arte do Comedimento
eu. Sei bem que não poderiam responder
oura coisa.
Ele era da mesma opinião.
- «Bom, já que é assim, pedirei que me
respondam ao seguinte: parece-vos que, aos
nossos olhos, o tamanho das mesmas coisas
é maior se estão perto e menor se estão
longe, ou não?» Vão responder que sim. «E
não é o mesmo com as espessuras e as
quantidades? E os mesmos sons não são
mais fortes se estão perto e mais fracos se
estão longe?» Diriam que sim.
356d «Ora se o nosso bem-estar reside nesse
pormenor, no de lidar e escolher segundo as
grandes quantidades e evitar agir segundo
as pequenas, em que julgaremos nós que se
encontra a salvação da nossa via? Na arte
do comedimento ou no poder das
aparências? enquanto este nos ilude e leva,
muitas vezes, a altos e baixos na adopção
das mesmas coisas e a recuar diante dessas
acções ou das escolhas das coisas grandes e
das pequenas; o comedimento, pelo
contrário, poderá afastar essa ilusão e,
mostrando a verdade, dar à alma a posse de
uma serenidade que lhe permita conservar
essa verdade e salvar a nossa vida».
356e Depois desta exposição será que os nossos Sócrates tenta realçar que é na
interlocutores concordariam que é na arte arte do comedimento, onde é
do comedimento que poderá estar a nossa mostrada a verdade e permitida a
salvação, ou na outra? conservação dessa mesma
[Link]
verdade. e não no poder das
- Na do comedimento. aparências, que reside a salvação
da vida.
Ora, e se a salvação da nossa vida estivesse
em escolher entre par ou ímpar, ou na Protágoras concorda.
necessidade de fazer uma escolha correcta,
numa determinada altura, de uma grande A forma como Sócrates formula
quantidade e, noutra, de uma pequena, ou esta questão, referindo-se a "nós"
entre uma coisa e essa mesma coisa, ou como um todo, faz parecer que o
entre uma coisa e outra diferente, ou entre raciocínio foi construído por
algo que está perto e algo que está longe? O todos em conjunto, quando na
que poderia salvar a nossa vida? O verdade os presentes apenas
conhecimento, não? concordaram com o que disse.
357 E, decerto, também algum comedimento já Ainda assim é curioso que o faça,
que é a arte que está ligada ao excesso e à na medida em que nos dá
falta, não? E tratando-se de pares e ímpares, realmente a sensação de que se
seria precisa outra qualquer arte para além procura o conhecimento e a
da aritmética? Os nossos interlocutores sabedoria para todos se tornarem
concordariam ou não? melhores homens e mais
sabedores.
A Protágoras parecia-lhe que sim.
- «Óptimo, meus amigos. Já que chegámos
à conclusão de que a salvação da nossa vida
está na escolha correcta entre prazer e dor,
em maior e menor número, em maior e
menor tamanho, maior ou menor distância,
não parecerá, em primeiro lugar, que está
no comedimento, uma vez que é a
observação do que é excesso, falta ou
igualdade face às outras coisas?»
357b - Ora, é forçoso que sejam assim. Mais uma vez Sócrates se refere à
investigação como sendo dele e
- «E já que se trata de comedimento, de Protágoras, algo conjunto e
suponho que forçosamente será também com um objectivo comum, não
uma arte de conhecimento». uma competição de que se
procura um vencedor. Note-se que
- Hão-de dizer que sim. a forma como Sócrates conduz a
sua investigação, não é de todo
- «Já veremos, daqui a pouco, que tipo de inocente, no sentido em que leva
arte e de conhecimento são estes. Que se os presentes a concordar com as
trata de conhecimento, eis o que é suficiente várias afirmações que faz, todas
para a demonstração de que Protágoras e eu elas relacionadas com aquilo que
necessitamos para respondermos ao que nos pretende concluir. Já na posse do
foi perguntado. apoio dos presentes, ou seja,
depois de todos os presentes
terem concordado com o que
dizia, não mais poderiam
contradizer-se.
[Link]
357c Essa pergunta foi feita, se estão lembrados, Posto isto, reúne todas as
quando nós acordámos, um com o outro, conjecturas com que haviam
que nada é superior ao conhecimento e que concordado e deduz a sua
ele supera sempre as restantes qualidades, conclusão com o apoio de todos e
onde quer que esteja, quer se trate de prazer sem que ninguém o questione.
quer se trate de todas as demais. Ora,
diziam vocês que o prazer, muitas vezes, Ora, quando se dirige aos
supera até o homem que possui presentes, para que sejam eles a
conhecimento, e, quando nós discordámos, responder-lhe, Sócrates confere
nessa altura, perguntaram-nos: " Protágoras ao seu discurso um tom irónico.
e Sócrates, se essa situação, o ser dominado Não se dirige directamente a
pelo prazer, não existe, então é o quê, que Protágoras (é com ele que
lhe chamam vocês? Digam lá." discute), mas sim aos presentes,
para tirar algumas das suas
conclusões, com as quais
Protágoras também se vê
obrigado a concordar.
357d Se vos tivéssemos respondido, logo de Sócrates reforça a importância da
imediato: "Ignorância", ter-se-iam rido de forma como organizou o seu
nós. Mas agora se se rirem de nós, estarão a raciocínio, referindo que, se pura
rir-se também de vocês próprios, uma vez e simplesmente tivesse colocado a
que concordaram que, quando se erra na questão, ninguém teria concluído
escolha em matéria de prazeres e dores - ou, o que pretendia. Com isto,
o mesmo será dizer, de coisas boas e más - pretende não só esclarecer a sua
se erra por falta de conhecimento; e não só forma de proceder mas realçar a
de conhecimento mas também - ainda há importância da análise cuidada e
pouco concordaram - de comedimento. e detalhada como única forma de
sabem, certamente, também que errar por encontrar a verdade e o
falta de conhecimento é agir com conhecimento.
ignorância.
357e De modo que o ser dominado pelo prazer é
isto, a maior das ignorâncias, para qual aqui
o nosso Protágoras diz ser médico, e
também Pródico e Hípias. Mas vocês, que
pensam que é outra coisa qualquer que não
ignorância, em vão nem enviam os vossos
filhos para junto dos que são mestres nestas
matérias, os Sofistas aqui presentes. Como
não o vêem como algo ensinável, guardam
o vosso dinheiro, em vez de lho dar a eles, e
agem de modo errado tanto nos assuntos
particulares como nos comunitários». Esta
é, pois, a resposta que teríamos dado à
maioria.
358 Agora, pergunto-vos -e da parte de Acordo de Hípias e Pródico
Protágoras também,- ó Hípias e Pródico
(podem bem responder os dois em
conjunto), parece-vos que estive a dizer a
verdade ou a mentir? Pródico, discípulo de Protágoras,
[Link]
dedicava-se ao estudo, à génese e
A todos, unanimemente, parecia que o que à distinção dos nomes. Por isso,
eu dissera era verdade. Sócrates apela a que se deixe de
lado tal assunto, com o intuito de
- Concordam, então - continuei eu -, que o não ocorrerem desvios do tema
prazer é uma coisa boa e a pena uma coisa principal.
má. Mas vou pôr de parte a distinção dos
nomes do nosso Pródico! Seja lá o que for
que tu lhe chames, prazer, deleite, gosto, ou
qualquer outro nome que te agrade, meu
caro Pródico, quero que me respondas ao
que pergunto.
358b Pródico, então, riu e concordou comigo, tal Pródico ri-se em tom irónico visto
como os outros. ter-se apercebido que Sócrates
conhecia a sua opinião. Mas
- Como é, então, meus senhores? - acaba por concordar
perguntei eu. - Todas as acções que explicitamente, dando-a a
conduzem a este fim, que conduzem a uma conhecer.
vida de prazer e isenta de dor, não são
louváveis? E uma actividade louvável não é
boa e útil?
Ele concordou.
- Se, então, o prazer é bom, nenhum
homem, nem aquele que sabe que sabe,
nem aquele que pensa que há coisas
melhores do que as que faz, e pode fazer,
fará essas, podendo fazer as melhores; nem
ser-se dominado por algo é mais que
ignorância, nem ser senhor de si próprio
mais que sabedoria.
358c Todos concordaram.
- E então? É a esse estado que chamam
ignorância? A ter uma falsa opinião e estar
enganado a propósito de muitos assuntos
importantes?
Também neste ponto concordaram todos.
- Ora, decerto, ninguém escolhe
voluntariamente o caminho para as coisas
más, nem para as que pensa serem más.
Uma atitude dessas, querer ir atrás das
coisas que se pensa serem más, preterindo
as que são boas, não é, pelo que me parece, Ninguém voluntariamente escolhe
própria da natureza humana. o mal
358d E quando é forçoso que se escolha uma de No seguimento da sua
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duas coisas más, escolhe alguém a maior, argumentação, Sócrates refere que
podendo escolher menor? todos os actos têm em vista a
obtenção de prazer e de
Todos nós estávamos de acordo com tudo o preferência não envolvendo
que fora dito. qualquer dor ou sacrifício. Esses
actos são nobres e bonitos e até
- E agora, a que chamam vocês temor e excelentes e, como vimos, o que é
medo? Ao mesmo que eu, não? (Pergunto- nobre é bom e por sua vez
te a ti, Pródico.) Eu dou esse nome a uma benéfico. Então, se o prazer é
certa expectativa face a algo mau, quer lhe bom, não há ninguém que acredite
chamem temor, quer lhe chamem medo. existir melhor acção do que
aquela que conduz à escolha do
Protágoras e Hípias achavam que era tanto bom, isto é, ninguém
temor como medo; para Pródico, temor sim voluntariamente procura o que
mas não medo. acredita ser mau. Até porque, tal
seria contrário à natureza do
homem, dado que nenhum
procuraria o mau em vez do bom
ou a dor em vez do prazer e, ainda
que forçado a escolher entre
males, ninguém escolheria o mal
maior se pudesse fazer o
contrário.
358e - Mas esse pormenor não faz diferença, Com isto todos concordaram, sem
Pródico. A questão é esta: se o que foi dito qualquer hesitação ou contra
antes é verdade, algum homem, por acaso, argumentação!
quererá seguir esse caminho, o das coisas
que causam temor, podendo seguir esse
caminho, o das coisas que causam temor,
podendo seguir o das que não o fazem? Ou
é impossível, depois do que concluímos? é
que, quanto às coisas que causam temor,
ficou acordado que são tidas como más. E
ninguém segue nem escolhe,
voluntariamente, para si as coisas que
acreditam serem más. Assim pareceu
também a todos.
359 - Bom, agora que formulámos estas A união da coragem e da
hipóteses, Pródico e Hípias, o nosso sabedoria
Protágoras que defenda, diante de nós, até
que ponto está correcto o que respondeu em Sócrates recorda, nas suas exactas
primeiro lugar - não o que disse logo, logo palavras, a tese que Protágoras
no início, porque nessa altura, disse que havia formulado em 349d.
tendo a virtude cinco partes, nenhuma delas
é igual à outra, antes cada uma delas tem
uma função particular -, mas não falo dessa
resposta e sim do que disse depois. É que
depois disse que quatro eram razoavelmente
próximas umas das outras em matéria de
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semelhanças, mas uma, a coragem, diferia
substancialmente das outras e explicou-mo
com o seguinte exemplo:
359b «Descobrirás, com efeito, Sócrates, homens
que são tremendamente ímpios,
tremendamente injustos, tremendamente
desenfreados, tremendamente ignorantes
mas superiormente corajosos. Com este
exemplo, compreenderás que a coragem
difere das outras partes da virtude.» De De forma algo irónica, Sócrates
imediato, fiquei surpreendidíssimo com a revela ter-se sentido surpreso
resposta e ainda o estou mais, depois de ter aquando da afirmação de
percorrido convosco a questão. Na altura, Protágoras, no que respeita à sua
perguntei-lhe, ainda, se chamaria corajosos formulação acerca dos homens
aos - destemidos. Ele respondeu: «Sim, e serem corajosos e ignorantes, em
sempre determinados.» simultâneo.
359c Lembras-te, Protágoras, de me teres dado Com isto pretende, não
essa resposta? ridicularizá-lo, mas realçar que o
seu raciocínio não é o mais
- Lembro. correcto.
- Vá lá, conta-nos, para que dizes tu que são
os corajosos determinados? Será para as
mesmas situações que os cobardes?
- Não.
- Então, para outras situações?
- Sim.
- Mas enquanto os cobardes vão atrás de
situações que não atemorizam, os corajosos
procuram situações que causam temor.
- Assim dizem as pessoas, Sócrates.
359d - É verdade - confirmei -, mas não é isso
que eu te estou a perguntar, e sim para que
situações dizes tu que os corajosos estão
prontos? Será para situações que causam
temor, porque acreditam que elas causam
temor, ou para as que não causam?
- Mas foi mesmo essa hipótese que, com os
teus argumentos de há pouco, demonstraste
que era impossível!
- Pois é verdade o que dizes. De modo que
se passa se essa demonstração estava certa,
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ninguém vai atrás de situações que acredita
causarem temor, porque o ser dominado por
si próprio revelou-se ser ignorância.
Ele concordou.
- Mas, na medida em que todos, quer
cobardes quer corajosos, vão atrás de
situações em que se sentem confiantes
então, quer os cobardes quer os corajosos,
certamente vão atrás das mesmas coisas.
359e - Por favor, Sócrates! As coisas de que os
cobardes vão atrás são precisamente o
contrário daquelas que seguem os
corajosos. Enquanto uns, por exemplo,
querem ir à guerra, os outros, pelo
contrário, não querem.
- E esse ir é louvável ou censurável?
- Louvável.
- Então, se é realmente louvável,
concordámos, lá atrás na nossa conversa,
que também é bom, porque concordámos
que todas as acções louváveis são boas.
- É verdade o que dizes, e a mim continua a
parecer-me que é assim.
- E muito bem! - confirmei eu. - Mas, qual
dos dois dizes tu que não quer ir à guerra, Sócrates confronta Protágoras
sendo esta louvável e boa? com a sua própria contradição.
360 - Os cobardes - respondeu ele.
- Ora bem, mesmo sendo louvável, bom e
agradável?
- Pelo menos foi o que concordámos.
- Acaso, então, os cobardes, mesmo se têm
conhecimento de que é assim, não querem
ir para o que é mais louvável, melhor e mais
agradável?
- Bom, se formos dizer que sim, caem por
terra as nossas conclusões anteriores.
- Ora, e o homem corajoso? Não vai ele
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atrás do que é mais louvável, melhor e mais
agradável?
- Sou obrigado a concordar.
360b - Então, no geral, os corajosos, quando têm Protágoras entra em perdição, a
medo, é de coisas que causam medo mas partir desta fase do diálogo. Não
não são censuráveis e destemem coisas que, mais faz qualquer afirmação com
não provocando temor, também não são o intuito de contrariar ou
censuráveis. É assim? contrapor os raciocínios de
Sócrates. Restringe-se à
- Tens razão. confirmação dos argumentos
utilizados por ele.
- E se não são coisas censuráveis, então são
coisas louváveis, pois são?
Ele concordou.
- E, se são louváveis, também são boas,
não?
À medida que avançamos no
- Sim. diálogo, Protágoras vai-se
deparando com maiores
- Ora, os cobardes, os destemidos e os dificuldades, vendo-se obrigado,
loucos, pelo contrário, temem coisas que ainda que a custo, a concordar
causam medo mas que são censuráveis e com Sócrates.
destemem também coisas que, não
provocando temor, são censuráveis?
Ele concordou.
- E essa confiança em coisas censuráveis e
más resulta de qualquer outra razão que não
de desconhecimento e ignorância?
- Não, tens razão!
360c - E então? Ao motivo pelo qual os cobardes
são cobardes chamas cobardia ou coragem?
- Chamo-lhe cobardia!
- E não parece que os cobardes são
cobardes por ignorância do que são as
coisas temíveis?
- Exactamente - respondeu.
- E é por causa dessa mesma ignorância que
são cobardes, não?
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Ele concordou.
- E tu também estás de acordo que é por
essa mesma razão que são cobardes, por
causa da cobardia?
Ele disse que sim.
- E, então, será a cobardia a ignorância das
coisas temíveis e das coisas não temíveis?
Ele acenou afirmativamente.
- Ora bem - continuei eu -, coragem é o
contrário de cobardia?
360d - É. A certo ponto, não mais o faz
falando, mas sim acenando com a
- E a sabedoria das coisas temíveis e das cabeça, o que é bastante revelador
coisas não temíveis é o contrário da da dificuldade que dele se
ignorância dessas mesmas coisas? apoderou.
Também a esta pergunta repetiu o sinal de Protágoras reconhece a derrota:
assentimento. já não responde às questões de
Sócrates, permanece calado, ao
- E a ignorância dessas coisas não é que este reage, insistindo com ele.
cobardia? Protágoras acaba por ceder,
fazendo-lhe a vontade. Chega
A custo, lá acenou que sim mais uma vez. mesmo a afirmar que tal o irá
deliciar, conferindo desta forma
- E a sabedoria das coisas que causam um tom irónico ao discurso, muito
temor e das que não o causam é coragem, provavelmente devido ao facto de
uma vez que é o contrário da ignorância este ter insistido com ele, para que
dessas mesmas coisas, não? dissesse claramente o que achava,
quando já se tinha apercebido de
A esta pergunta, embora quisesse acenar que era obrigado a concordar com
que não, ficou calado. ele. Admite portanto que, de
facto, os seus argumentos
E eu perguntei: - Então, Protágoras, não apresentam lacunas, dando razão
respondes às minhas palavras nem que sim a Sócrates e ao seu raciocínio.
nem que não?
- Tira tu as conclusões.
360e - Só te quero fazer mais uma pergunta, Não importa vencer, mas procurar
ainda: se te continua a parecer, como de a verdade: ainda que Sócrates já
início, que alguns homens sendo se tenha apercebido que
tremendamente ignorantes são Protágoras reconhecera a sua
superiormente corajosos? derrota (360e-361), transmite-lhe
a ideia de que não pretende
- Parece-me, Sócrates, que te delicia a ideia humilhá-lo ou examiná-lo, mas
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de ser eu a responder. Vou fazer-te a sim procurar o significado da
vontade, então, e digo-te que, pelo que virtude.
acordámos, acho que é impossível.
Bom, o que é certo é que não te estou a
fazer estas perguntas todas com outra
intenção que não seja querer examinar qual
a ideia que se tem da virtude e o que é ela
própria, essa virtude.
361 Porque sei que se esta análise se tornasse Através desta passagem, podemos
mais clara, poderia tornar bem mais nítida identificar o espírito filosófico de
também a questão à volta da qual que era detentor. Da investigação
estivemos, tu e eu, cada um por sua vez, a e da discussão de ideias retirava,
tecer longos discursos - eu dizendo que a não só conhecimento e
virtude não se pode ensinar e tu que pode. E experiência, como também prazer
parece-te que a conclusão a que chegámos e realização pessoal,
com toda esta nossa conversa de há pouco reconhecendo inclusive que ele
está a acusar-nos e a troçar de nós como se próprio nada sabe. Assim, confere
fosse um homem de carne e osso. E, se bastante relevo à investigação e
falasse, diria: «Mas que bizarro que me clarificação dos assuntos, visto aí
saíram vocês os dois, Sócrates e Protágoras! residir, no acto de questionar a
própria arte de filosofar.
361b Tu, antes, dizias que a virtude não podia ser Inversão dos Argumentos -
ensinada, agora insistes no contrário, Paradoxo
querendo sem demonstrar que todas essas
qualidades, a justiça, a sensatez, a coragem, Estamos perante o momento
são conhecimento; deste modo, bem sublime do diálogo.
pareceria que a virtude fosse qualquer outra
coisa que não conhecimento, como Necessidade de continuar a
Protágoras tentou defender, é claro que não investigação: uma das
poderia ser ensinada. Agora, se, pelo características marcantes deste
contrário, parece ser, na sua totalidade, diálogo é a ideia, incessantemente
conhecimento - tal como tu insistes, retomada, de que a investigação
Sócrates - será surpreendente que não se é algo essencial e que não se pode
possa ensinar. Por sua vez, Protágoras, descuidar. Tanto Sócrates, como
depois de ter partido do princípio de que a Protágoras o defendem.
virtude podia ser ensinada, agora parece
insistir no contrário, em mostrar que bem
poderia ser um pouco de tudo, menos
conhecimento, e assim de modo algum
poderia ser ensinada».
361c No que me diz respeito, Protágoras, vendo No final do diálogo, fica a
toda a confusão de opiniões, ora numa promessa de, no futuro,
direcção, ora noutra, tenho um enorme continuarem a procurar a verdade
desejo de as clarificar e gostaria que por forma a clarificar, não só a
continuássemos a nossa análise sobre o que análise do que é a virtude e se esta
é a virtude e investigássemos, de novo, se pode ou não ser ensinada, mas
ela pode ser ensinada ou se não pode ser também discutir todos demais
ensinada. assuntos.
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361d Não vá às vezes, esse teu Epimeteu ter-nos Carácter aporético do diálogo: é
encaminhado para conclusões erradas, do de notar que, neste, tal como em
mesmo modo que nos lesou na atribuição muitos outros diálogos, não se
das capacidades, como tu contaste. É que, chega a qualquer conclusão
no mito, agradou-me mais Prometeu do que propriamente dita. Estamos na
Epimeteu; seguindo o seu exemplo, tenho presença de um dos mais claros
sido previdente toda a minha vida, exemplos de diálogo aporético. A
dedicando-me a todos estes assuntos, e, se procura do conhecimento e do
tu quiseres, tal como todo o prazer. esclarecimento de questões é uma
constante; a ausência de
Protágoras respondeu, então: conclusão, a incapacidade de
alcançar uma solução, um
- Eu louvo esse teu interesse e o modo veredicto ou mesmo um vencedor,
como conduzes a argumentação. uma determinação decisiva.
361e Não penso ser um homem mau em nenhum O diálogo termina pois com o
ouro aspecto, mas, sobretudo, não invejo reconhecimento por parte de
ninguém. Até já disse de ti a muita gente Protágoras do valor de Sócrates.
que, daqueles que conheço, és o que mais O velho sofista, um dos mais
admiro, especialmente entre os da tua idade. célebres sábios da época,
E digo mesmo que não me espantaria se te manifesta de forma clara a
tornasses famoso entre os homens pela tua admiração que nutre pelo jovem
sabedoria. Quanto a esses assuntos, discuti- Sócrates e o prazer que sentiria se
lo-emos uma outra vez, se quiseres. Agora no, futuro tivesse oportunidade
está na minha hora de retomar um outro de, com ele, proceder a mais
tema. investigações e discussões.
362 - Bom, assim faremos, se te parecer. De Protágoras louva, não só o ardor
facto, eu também já tinha dito que me ia com que Sócrates se dedica à
embora, há algum tempo atrás; só fiquei, procura da verdade como o modo
em atenção à amabilidade de Cálias. como conduz as suas
investigações. Protágoras tem
E, depois de assim termos falado e mesmo a grandeza de ser capaz de
escutado, viemos embora. perceber que está perante um
gigante do pensamento, uma
figura ímpar da história do
Homem, alguém que, como diz,
irá tornar-se famoso entre os
homens pela sua sabedoria".
Protágoras não se enganou!