LEITURA
O texto a seguir é o canto IV de "1-Juca-Pirama". Conforme as tradições indígenas, o prisioneiro é
preparado para um cerimonial antropofágico em que serão vingados os mortos timbiras. Ao lhe pedi-
rem, como é próprio do ritual, que cante seus feitos de guerra e que se defenda da morte, o prisioneiro
responde aos inimigos:
Meu canto de morte, Que vinham traidores,
Guerreiros, ouvi: Com mostras de paz.
Sou filho das selvas, Ao velho coitado
Nas selvas cresci; De penas ralado,
Guerreiros, descendo Já cego e quebrado,
Da tribo tupi. Que resta? - Morrer.
Da tribo pujante, Enquanto descreve
Que agora anda errante O giro tão breve
Por fado inconstante, Da vida que teve,
Guerreiros, nasci: Deixai-me viver!
Sou bravo, sou forte, Aos golpes do imigo
sou filho do Norte; Meu último amigo,
Meu canto de morte, Sem lar, sem abrigo
Guerreiros, ouvi. Caiu junto a mi!
Com plácido rosto,
Já vi cruas brigas
Sereno e composto, Menino índio (1880), de Marc Ferrez.
De tribos imigas, O acerbo desgosto Com que me encontrei:
E as duras fadigas Comigo sofri. O cru dessossego
Da guerra provei;
Meu pai a meu lado Do pai fraco e cego,
Nas ondas mendaces
Já cego e quebrado, Enquanto não chego,
Senti pelas faces
De penas ralado, Qual seja, - dizei!
Os silvos fugaces
Dos ventos que amei. Firmava-se em mi: Eu era o seu guia
Nós ambos, mesquinhos, Na noite sombria,
Andei longes terras, Por ínvios caminhos, A só alegria
Lidei cruas guerras, Cobertos d'espinhos Que Deus lhe deixou:
Vaguei pelas serras Chegamos aqui! Em mim se apoiava,
dos vis Aimorés; Em mim se firmava,
O velho no entanto
Vi lutas de bravos, Sofrendo já tanto Em mim descansava,
Vi fortes - escravos! De fome e quebranto, Que filho lhe sou.
De estranhos ignavos Só qu'ria morrer!
Calcados aos pés. Não vil, não ignavo,
Não mais me contenho, Mas forte , mas bravo,
E os campos talados, Nas matas me embrenho, Serei vosso escravo:
E os arcos quebrados, Das frechas que tenho Aqui virei ter.
E os piagas coitados Me quero valer.
Guerreiro, não coro
Já sem maracás; Então, forasteiro, Do pranto que choro;
E os meigos cantores, Caí prisioneiro Se a vida deploro,
Servindo a senhores, De um troço guerreiro Também sei morrer.
(Poemas de Gonçalves Dias. Seleção de Péricles Eugênio da Silva Ramos. Rio de janeiro: Ediouro, s.d. p.119-122 .)
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acerbo: doloroso, árduo. ínvio: intransitável. mi: mim. silvo: assobio.
deploro: lamento, choro. maracá: chocalho usado piaga: pajé. talado: devastado, arra-
frecha: flecha. pelos índios em sole- sado.
quebrado: cansado,
nidades guerreiras ou
fugace: que foge veloz. frágil. troço: corpo de tropas.
religiosas.
ignavo: covarde. quebranto: abatimento, vil: moralmente baixo,
mendace: mentirosa, fraqueza. desprezível.
imiga: inimiga. traiçoeira.
lb. A naçêío tupi, dizimada por tribos inimigas, não existe mais; seus últimos membros
andam agora errantes.
1. Nesse canto do poema, o índio tupi narra a tra-
jetória de sua vida e de sua tribo. Aldeia global
a) Como o índio via a si mesmo, até o momento
em que foi aprisionado? No meio das tabas há menos verdores,
O índio se via forte e corajoso, membro de uma grande nação tupi.
não há gentes brabas nem campos de flores.
b) Qual é a atual condição de sua tribo?
No meio das tabas cercadas de insetos,
c) Com quem e por que o índio tupi foge? o índio foge
acompanhado do pai, velho e cego, com a finalidade de salvá-lo e dar-lhe proteção. pensando nas babas dos analfabetos,
2. Na 6\' estrofe do texto, o prisioneiro faz um pe- vou chamando as tribos dos sertões gerais,
dido aos inimigos: "Deixai-me viver!". passando recibos nos vãos de Goiás.
a) Que motivos alega, na 10\' e na ll\' estrofes, Venham os xerentes, craôs e crixás,
para que o deixem vivo?
Alega ser a única razão de viver e o único meio de sobrevivência do pai. bororos doentes e xicriabás.
b) Identifique na última estrofe os versos em E os apinajés, os carajás roídos,
que o prisioneiro propõe um acordo. Qual é e os tapirapés e os inás perdidos.
esse acordo? "Serei vosso escravo:/ Aqui virei ter'/ Promete voltar
e se entregar ao timbiras. [...]
( Os melhores poemas de Gilberto Mendonça Teles. 3 . ed.
3. Seguindo os modelos do Romantismo europeu e Seleção de Luís Busatto. São Paulo: Global. 2001. p. 91.)
a atração pelo medievalismo, nossos escritores
encontraram no índio brasileiro o representante
mais direto de nosso passado medieval - único
habitante nestas terras antes do Descobrimen-
to. Além disso, vivendo distante da civilização,
nosso índio correspondia plenamente à concep-
ção idealizada do "bom selvagem", defendida
por Rousseau. Observe o comportamento do
índio tupi e indique: Certos valores do índio - honra, bondade,
fidelidade ou amor filial, cgrag!!m - ~ [Link]-se aos do cavaleiro l)lediev~I.
a) uma caractenst1ca dele que se assemelhe as
do cavaleiro medieval;
Tribo indíg ena Kalapalo.
b) uma atitude dele que reforce o mito do "bom
selvagem".
A bondade filial e o apego às tradições culturais primitivas de sua raça.
Compare os versos de Gilberto Mendonça Teles
4. Os primeiros versos do poema "1-Juca-Pirama" aos versos iniciais e a todo o canto IV de "1-
são estes:
Juca-Pirama".
a) Qual é a diferença ent re os índios ret rat ados
No meio das tabas de amenos verdores, por Gonçalves Dias e os retratados por Gil-
Os índios do poema de Gonçalves
berto Mendonça Teles? Dias são heroicos, guerreiros, v1go-
Cercadas de troncos - cobertos de flores, Josos. Já os do. p,oerpa de Gilberto M. Teles são [Link] e doentes. d 'f
b) Levante n1poteses: A que se deve essa I e-
Alteiam-se os tetos d'altiva nação.
r e nç a 7 Aos malefícios promovidos na vida dos índios pela civilizaçêío: mu-
dança de costumes, disputa por terras, epidemias, etc
c) Levante hipóteses: Por que Gilbert o Mendonça
Gilberto Mendonça Teles, poeta at ual, numa clara Teles teria escolhido um poema épico românti-
relação de intertextualidade, escreveu: co para, a partir dele, criar seu poema?
4c. Resposta pessoal. Sugestão: O Romantismo idealizou o índio; além disso, a épica é um gênero utilizado para narrar fe~os heroicos. Não havendo nada de heroico paranarrar sobre os
índios da atualidade, a referência ao poema épico de G. Dias soa como ironia e oítica ao processo de aculturamento a que foram submetidos os índios brasileiros.
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