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Dimensões da Sexualidade e Pureza

O documento discute os efeitos da queda no Éden sobre a sexualidade humana, como a nudez passou de uma linguagem de intimidade para motivo de vergonha, e as polaridades masculina e feminina tornaram-se conflitantes. Também aborda como a redenção em Cristo oferece potencial terapêutico para que homens e mulheres descubram criativamente os benefícios de sua sexualidade.
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Dimensões da Sexualidade e Pureza

O documento discute os efeitos da queda no Éden sobre a sexualidade humana, como a nudez passou de uma linguagem de intimidade para motivo de vergonha, e as polaridades masculina e feminina tornaram-se conflitantes. Também aborda como a redenção em Cristo oferece potencial terapêutico para que homens e mulheres descubram criativamente os benefícios de sua sexualidade.
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Roberto de Albuquerque Cezar

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Acerca da sexualidade
Respostas oferecidas por Amauri Munguba Cardoso, pastor há mais de 20 anos e
psicólogo com especialização em psicologia analítica. Amauri e sua esposa, Layla
Cardoso, são autores do livro Parceria Conjugal (Editora Ultimato).

A queda provocou transtornos à sexualidade?

Sim, e como! Seria impossível


entender a existência humana, em
suas múltiplas dimensões, tendo a
sexualidade entre elas, sem examiná-
la nos três tempos apresentados na
Escritura: criação, queda e redenção.

A narrativa simbólica da criação,


presente nos capítulos 1 e 2 de
Gênesis, apresenta o macho e a fêmea
da espécie humana refletindo em plena
naturalidade a imagem e a semelhança
do Criador. Desde o princípio, possuíam a identidade própria a cada um,
inconfundível no plano biológico, determinante no emocional, mas presente,
inclusive, nas camadas mais íntimas da alma. Percebiam-se revestidos de
equivalente dignidade e, embora semelhantes, eram também distintos o suficiente
para se reconhecerem parceiros num relacionamento de co-participação e
complementaridade. Desfrutavam da intimidade do corpo e da alma em plena
confiança, estavam nus e não se envergonhavam. As primeiras sombras da queda
projetam-se grotescas sobre os modelos de desigualdade e dominação que se
instalaram e permanecem separando o homem e a mulher: “teu desejo será para o
teu marido e ele te governará”. A nudez, em lugar de ser uma linguagem
mediadora de intimidade, passa a ser causa de vergonha, expressão de
estranhamento e razão de ocultamento.

As polaridades masculina e feminina transformam-se em polarizações conflitantes e


a cooperação degenera-se em competição. A sexualidade oscila entre as históricas
repressões do erotismo, de um lado, e as deturpações e exageros vistos na
pornografia, na lascívia e nas perversões, de outro. O sexo perde cada vez mais a
sua conexão com o amor. Destituído da sacralidade natural, o corpo termina
reduzido a objeto de desejo e consumo. As relações físicas são facilitadas e
multiplicadas, mas não promovem o desejado encontro humano. Regras e
proibições são impostas para impor a castidade, mas revelam-se inoperantes contra
a cobiça.

É o tempo da redenção que anima a fé e fortalece as ainda tímidas conquistas dos


cristãos. A graça que se tornou disponível em Cristo representa o maior potencial
terapêutico jamais posto à disposição da humanidade. Sob o efeito da graça,
feminino e masculino podem tornar-se realidades interagentes no interior da alma e
elementos de desafio e transformação nas relações entre os sujeitos humanos.
Superadas as desfigurações tatuadas na alma e os preconceitos fincados na cultura,
homem e mulher são convocados a descobrir e desfrutar criativamente em seus
relacionamentos concretos os benefícios de sua sexualidade.
Santificação e sexualidade são excludentes?

Na perspectiva cristã, o corpo e a alma são sagrados. A sexualidade está inscrita


tanto no corpo como na alma. Portanto, jamais deveria ser vista e vivida de outra
forma que não fosse sagrada. Não há incompatibilidade entre a experiência da
sexualidade e a espiritualidade. Aliás, como bem demonstra o Cântico dos Cânticos,
um dos livros mais poéticos do Antigo Testamento, sexualidade e espiritualidade
podem ser descritas em linguagem semelhante. Místicos cristãos, nos séculos
seguintes, não se envergonharam de usar essa linguagem ao descrever sua
profunda intimidade com o amante de suas almas.

Ademais, todas as formas de interação humana envolvem a afetividade e estão


igualmente permeadas de sexualidade. Não há produção pessoal que não seja
também influenciada pela sexualidade. Quando apreciamos, julgamos, agimos,
reagimos, expressamos interesse ou repulsa, acolhemos, encorajamos ou
limitamos, fazemos perguntas ou construímos respostas – em tudo isso a
sexualidade está presente. O modo como configuramos os nossos relacionamentos
ou a nossa devoção está influenciado pela nossa sexualidade. Não temos como
escapar. Somos constitutivamente sexuados e não saberíamos existir fora dessa
condição.

Creio que santificação é um conceito que não pode ser dissociado da promessa de
plenitude de vida feita por Cristo. Para mim, santificação é o processo em que, com
o auxílio do Espírito Santo, uma pessoa se apropria e desenvolve progressivamente
o potencial de vida e criatividade que lhe foi generosamente oferecido pelo Criador.
Por sermos naturalmente sexuados, não devemos imaginar um modelo de
santidade que sacrifique uma dimensão inerente ao nosso ser. Ao contrário, a
busca da santidade deve proporcionar auxílio para que se viva a sexualidade do
modo mais pleno, criativo e saudável possível.

Santificar é por em harmonia e submeter todas as expressões da vida,


naturalmente impressas na alma humana, aos ideais sabiamente expressos na
revelação divina.

A Bíblia não põe essas realidades em conflito nem as torna excludentes.


Infelizmente, desde o primeiro século (Cl 2.20-23) e ao longo da história do
cristianismo, idéias pagãs infiltraram-se sorrateiramente, contribuindo para
promover distorções que produziram e ainda produzem muito engano e sofrimento.

A castidade vale mais que a prática do sexo dentro da ordem original?

De modo algum. O Deus que criou a família e ordenou o exercício sadio da


sexualidade estaria em flagrante contradição, caso estabelecesse uma categoria
ideal distinta e em contradição com a ordem original.

Deus ama a pureza, que pode estar presente na prática saudável do sexo, como
pode não estar no celibato vivido por imposição, e não por vocação. Quando há em
alguém uma aptidão para a castidade, que resulte de um dom divino, é algo sério e
deve ser respeitado, mas não tem valor superior ao casamento (Mt 19.11-12).
Cada um deve andar em harmonia com o chamado divino, o qual não contraria a
vocação pessoal com que cada um foi contemplado (1 Co 7.17, 20, 24). No
primeiro século da era cristã, havia uma clara compreensão de que o matrimônio e
o leito sem mácula deveriam ser dignos de honra (Hb 13.4).

O único objetivo da relação sexual é a procriação?

Não. A relação sexual pode gerar filhos, mas promove muitas outras experiências
enriquecedoras e unitivas para o casal. É a mais estreita e profunda manifestação
de intimidade e unidade que duas pessoas podem partilhar.

A geratividade faz com que a relação sexual seja vivida num contexto de
responsabilidade, mesmo com a existência de métodos contraceptivos (convém
lembrar, nunca 100% seguros), por trazer consigo um imenso poder criativo.
Atrelar a prática do sexo à procriação impõe uma camisa de força e priva o casal de
significativas oportunidades de intimidade prazerosa. Por outro lado, esquecer o
potencial criativo do encontro sexual pode levar a prática do sexo aos terrenos
nocivos da irresponsabilidade.

Por que a fidelidade conjugal não é fácil nem para o homem nem para a
mulher?

O sexo é uma força instintiva, associada à sobrevivência da espécie. Como todo


instinto, é poderoso e difícil de ser controlado. Antes de ser uma prática, o sexo é
um desejo que passeia livremente na mente de homens e mulheres, mas que
histórica e culturalmente recebeu tratamento diferenciado. A cultura patriarcal e
machista sempre ofereceu ao homem mais liberdade e oportunidade para viver
experiências extraconjugais. Com a exacerbação do hedonismo no mundo pós-
moderno e a ampliação das conquistas femininas, as mulheres estão incluindo cada
vez mais entre os seus “direitos”, também, práticas sexuais mais permissivas.

Nossa sociedade especializou-se em alimentar e estimular desejos sexuais, em todo


tempo e de todas as formas possíveis, ou não. Com isso, a moral coletiva, que, ao
lado da moral individual, deveria concorrer para disciplinar certas práticas,
concorre, ao contrário, para instalar e promover a permissividade.

Controlar o desejo é um atestado de maturidade. Pessoas imaturas, à semelhança


das crianças, têm imensa dificuldade de impor ou aceitar limites ao desejo. A
fidelidade e o domínio são frutos espirituais, mas também conquistas humanas,
cada vez menos encorajadas por uma sociedade cada vez mais regida pelas regras
do prazer e do consumo.

Qual a importância da sexualidade?

A sexualidade é fundamental para a vida, mas, em contrapartida, pode estar a


serviço da morte. Quando bem vivida, estimula e promove o desenvolvimento
humano. Quando não, desvia as pessoas do seu caminho de crescimento, fazendo-
as esbanjar comportamentos que nem os animais são capazes de assumir.

O sexo remete ao prazer e, ao lado do ter e do poder, compõe o trio de tentações e


ameaças mais nocivas à integridade pessoal. Ignorar a sexualidade é um perigo tão
grande quanto torná-la objeto de fixação. O caminho parece ser reconhecê-la em
nós mesmos e procurar conhecê-la, com o auxílio da ciência e da fé, para vir a
colher seus melhores frutos.

Fonte: Revista Ultimato.

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